Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

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Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 11, 2016 8:16 pm

ALMA DE MINH’ALMA
MARIA GERTRUDES

CONDE J. W. ROCHESTER (ESPÍRITO)

1 - Um Rebento

Um choro de criança cortou a noite fria.
Tímidos raios apareciam, anunciando a madrugada.
Ninguém para socorrer o pequeno ser que se debatia entre panos, tentando enxugar o sangue que escorria de seu cordão umbilical, como se tivesse sido arrancado, violentamente, do ventre da mãe.
Era uma menina.
Seus dedinhos abertos suplicavam socorro aos céus.
Encontrava-se, ali, mais um filho abandonado, vítima da ignorância e da irresponsabilidade.
Porém, à Paternidade Divina nada permanece sem registo.
Uma entidade espiritual, quase se materializando, aproximou-se e olhou com imenso carinho aquela frágil criatura, quão imenso era o amor que lhe devotava e, com ternura, afagou-lhe a fronte suada.
A criança gritava, dando vazão a seus reflexos, atendendo à exigência da vida.
Percebendo a presença daquele ser espiritual, pareceu se acalmar, para depois reagir, gritando mais alto, agora com todas as forças.
Era o único modo de chamar a atenção.
Seu grito, no silêncio da madrugada, atraiu alguém que por ali passava.
Era um camponês russo que, cedo, buscava o trabalho.
Quis continuar o passo, mas o choro insistente o convidava a voltar.
- Quem chora, nesta escuridão?
Interrompendo seu itinerário, desviou-se para a direita e, seguindo o choro, aproximou-se de humilde choça, entre as árvores.
Inexplicavelmente, uma claridade iluminou o local, assustando-o.
- Meu Deus! Uma criança!
Guiado pela repentina luz, ele a viu perfeitamente.
Em seguida, o clarão desapareceu, dando-lhe tempo apenas para divisar o seu rostinho.
Depois, tudo retomou à escuridão, mas seus olhos pareciam enxergar além ou seria efeito da sua retina?
Seria o pequeno ser que brilhava?
Inclinou-se para retirá-lo de um tosco e pequeno leito.
A aurora não demoraria e, com ela, desapareceria a escuridão.
Iulián Sumarokov condoeu-se daquela frágil criatura e, levado por estranha compaixão, seu corpo másculo arrepiou-se.
Mal conseguia controlar a súbita emoção; tomou aquela criança nos braços, ajuntou os panos, apalpando ao redor, e cobriu-a, aconchegando-a ao calor de seu peito.
A criança cessou o choro e ele, ainda meio aturdido, sem saber que decisão tomar, olhou a aurora que tingia o horizonte de vermelho.
Seguindo o impulso de seu coração, dali saiu, carregando o pequenino fardo.
Ninguém mais existia naquela solidão.
- Pobrezinho, abandonaram-te!
Quem terá coração tão cruel?
Iulián era uma espécie de empregado avulso que trabalhava, aqui e acolá, para sustentar-se e à família.
Nesta madrugada, ele se dirigia para o trabalho mais cedo do que o habitual.
Gostava do silêncio da natureza e, em especial, das manhãs de outono.
Era um homem grandalhão e desajeitado, com um coração meigo e terno.
Seu semblante afável e carinhoso contrastava com seu físico.
Os olhos azuis pareciam sorrir, neles não existia maldade.
Seu gesto solidário mudava seu destino para sempre.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 11, 2016 8:16 pm

Iulián Sumarokov retornou à estrada, e, ao invés de caminhar em direcção ao trabalho, voltou ao lar.
Entre sua casa e a choça tinha cerca de cinco verstas1 e ele era multo rápido.
Acostumado com as curvas e acidentes da estrada, antes do amanhecer, estaria em sua morada com o pequeno embrulho.
Ao chegar à soleira da entrada, chamou a esposa:
- Anna, matuchka2, olha só o que encontrei!
- Que é isto, Iulián?
- Encontrei-o sozinho chorando numa choupana, à beira da estrada.
A mulher tomou a criança de seus braços e a examinou, retirando-lhe os panos.
- Meu Deus, Iulián, está a sangrar, é uma menina!
O casal deu-lhe os primeiros socorros e, tomando uma bacia com água morna, fez-lhe o asseio necessário.
Após o curativo, Anna Sumarokov estancou o sangue e enfaixou o umbigo, como se fosse hábil enfermeira.
A mulher tinha experiência no assunto:
tivera três filhos.
Depois, começou a alimentá-la. Iulián, interessado, acompanhava todos os passos da mulher, tentando ser útil.
- De quem será, Iulián?
Examinaram os panos que nada lhes diziam sobre sua identidade.
Será de alguém das redondezas?
Alguma mocinha que desejou ocultar dos pais, a gravidez?
- Nada sei, Annochka3, ela chorava alto, quando a encontrei.
Segui seu choro e a encontrei dentro de uma cabana desabitada na estrada, perto da plantação de trigo da família Norobod.
- Se a abandonaram, é porque nada querem com ela.
Somente alguém, sem coração ou muito desesperado, poderia largar esta pobre criança! - argumentou a mulher olhando ternamente a menina que agora dormia em seu braço.
Eles possuíam três filhos, mas o seu coração estava aberto para receber aquela filhinha que lhes chegava como um presente do céu.
O sol vermelho de Osiris ainda não havia despontado totalmente no horizonte e seus raios luminosos já anunciavam seu esplendor.
- Anna, - disse Iulián entusiasmado - sempre tive vontade de possuir uma filhinha.
Deus nos concedeu três belos filhos e sou feliz com os nossos meninos, eu te confesso.
Quando chegou Iulián, meu coração encheu-se de júbilo; quando tivemos o segundo, aguardava, ansioso, uma menina, para encantar meus dias, mas Deus nos enviou Pável.
Quando engravidaste pela terceira vez, pensei, agora será uma menina, mas ainda assim, Deus não ouviu meus rogos e nos enviou Nicolau; quando o médico declarou que não poderias mais criar filhos, meu coração se entristeceu, porque senti que perdera a minha chance de ter uma filhinha...
A voz do esposo era doce e terna, seus olhos azuis tinham um brilho diferente, um lampejo jamais visto.
Uma ponta de ciúme a incomodou, machucando-lhe o coração.
- Nunca me disseste isto, meu amor, por que somente agora, ouço tal desabafo?
Sem pensar que poderia magoar a esposa, Iulián, ansioso em abrigar a criança, impetuosamente argumentou:
- Querida, vamos adoptar esta garota e guardar segredo, pois acredito que ninguém me viu nesta madrugada.
Anna olhou o esposo com cumplicidade, observando novamente o brilho em seu olhar.
Apesar do inesperado ciúme que brotava em seu coração, viu o pequeno ser dormindo calmamente em seu braço, tão indefeso e carente que se envergonhou e afastou de si tal sentimento para deixar que o amor materno tomasse conta de sua alma.
Ela era feliz com seus três filhos e o esposo.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 11, 2016 8:16 pm

Sua alegria era completa e, amando Iulián como nunca, conhecendo a doçura de sua alma, jamais lhe negaria aquela felicidade.
- Iulián, meu amor, eu só temo que depois de algum tempo, após termos nos afeiçoado a ela, alguém venha reclamá-la.
Olha lá, amigo, estava escuro e quem sabe houvesse alguma pessoa a espreitar-te?!
- Isto não te posso afirmar, o alvorecer mal havia iniciado, ainda estava muito escuro, mesmo assim creio que meu gesto passou despercebido aos olhos do mundo.
- Aguardemos, Iulián.
Nossas crianças terão que saber a verdade...
Que diremos a elas e como falaremos de uma nova criança em nossa casa, sem darmos explicações aos vizinhos?
A imaginação de Iulián corria a solta.
Não demorou minuto e arquitectou subtil plano:
- É fácil. Pediremos às crianças que se calem; aos vizinhos ocultaremos o facto e poderemos dizer que tu estás grávida e, ao cabo de alguns meses, faremos nascer nossa filha.
Como as crianças são todas iguais ao nascer, diremos que foi prematura e que não poderás receber visitas.
Assim ocultaremos a verdade aos olhos alheios.
- Teu plano parece viável - concordava Anna, um tanto contrariada.
Posso submeter-me a uma falsa gravidez, coisa fácil; enganaremos as crianças.
Crianças costumam mesmo não guardar segredos.
Marido e mulher combinaram a trama em minúcias para ocultarem o facto de todos, inclusive dos filhos:
daquele dia em diante, Anna demonstraria gravidez e, ao cabo de poucos meses, daria à luz.
Parecia um pouco ingénuo o plano do casal, mas ambos estavam tão empenhados que, se preciso fosse, afastariam os filhos por alguns meses da casa para não despertarem suspeitas e conseguirem assim ocultar a criança, até que o tempo lhes desse condições de apresentá-la como filha legítima.
- Ninguém, ninguém precisará conhecer a verdade - pensava Iulián.
Seu filho mais velho tinha oito anos e o mais jovem três e ele queria tanto aquela filha.
Iulián, naquele dia não foi ao trabalho.
Tratou logo de organizar o porão da casa; lugar desabitado, ideal para abrigar sua princezinha.
Queria que ela crescesse como sua filha verdadeira.
Num instante, limpou e organizou o ambiente, onde ninguém ouviria seu choro, era por pouco tempo.
Providenciou uma grande panela de ferro com brasas a crepitarem, para aquecer o porão.
Seu coração exultava.
Jamais em sua vida, sentira tanto carinho e tanto amor.
Aquela garotinha frágil e abandonada tomou para sempre conta de sua alma e, por ela, ele lutaria contra um exército.
Sentia-se premiado por Deus que o conduzira até à choupana da estrada.
Infeliz daquele que a rejeitou, porque ele a queria, e como a queria!...
Tudo ficou planeado, nos mínimos detalhes, na cabeça do casal.
Era por pouco tempo o disfarce e logo eles poderiam apresentá-la aos olhos do mundo, sem temor.
Anna levou o necessário para o esconderijo, sem deixar pista, antes que os meninos acordassem.
- Iulián, não seria melhor levarmos os meninos para a fazenda do tio Nicolau, já que lhes desejas ocultar a menina?
Embora, eu ainda preferisse que lhes contássemos a verdade.
- Não, Anna, é bom que eles cresçam como se fossem irmãos, mesmo que não existam os verdadeiros laços consanguíneos.
Já ouvi muitas opiniões a respeito da força do sangue no relacionamento das pessoas.
- Tens razão por um lado, Iulián, mas nossos filhos aprenderiam a amá-la e respeitá-la como sua irmãzinha...
- Não confio, Arma, e eles mesmos poderiam soltar a língua dizendo que ela não é verdadeiramente sua irmã.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 11, 2016 8:17 pm

Mais cedo ou mais tarde isto poderia acontecer e prefiro que este segredo fique apenas entre nós dois.
Em ti confio plenamente.
Venceu o esposo com seus argumentos e Anna submeteu-se, daquele dia em diante, à falsa gravidez e ao malabarismo de ocultar a recém-nascida.
Colocou sobre sua barriga uma pequena almofada, dando a perceber que já existia uma gravidez de seis meses.
As grossas saias franzidas disfarçavam e engrossavam sua cintura.
Iulián, mais tarde, voltou a passar pelo mesmo local, o caminho que o levava à fazenda de Norobod.
Agora, dia claro, simulando procurar uma velha ferramenta, entrou na choupana.
Foi verificar se não ficara nenhum vestígio daquela madrugada que indicasse ter estado ali uma criança.
No entanto, foi surpreendido com um bilhete em cima do grabato.
Colocaram-no depois, ou ele não o havia percebido?
A dúvida tisnou seu semblante.
O escuro o impedira de ver ao seu redor.
Não havia notado o papel, cuidara apenas de acolher a criança.
Examinou embaixo do grabato, não havia nenhum sinal, mas aquele pedaço de papel dobrado cuidadosamente o assustava.
Estava escrito:
Esta menina é fruto de um amor proibido, tenho de abandoná-la... à sorte que Deus lhe dará... a mãe não sabe o que se passa.
Por amor, acolhe-a, um dia serás devidamente recompensado.
A letra do bilhete, sem assinatura, fora disfarçada, pois, além de trémula, tinha várias nuances.
Iulián guardou-o cuidadosamente.
A choupana, sem portas e sem janelas, era um ninho de cobras, lagartixas, morcegos e outros animais peçonhentos.
Tudo à sua volta era silêncio, apenas o silvo do vento do outono.
Alma campesina, arguto e prudente, Iulián começou a examinar o chão e as redondezas, buscando alguma pista porque, na verdade, o que ele desejava saber, era se alguém o vira.
Sobre a neve rala havia sinais de saltos de bota, alguns ramos quebrados, palha amassada e patas de cavalo.
Estas pistas nada lhe diziam, talvez a um perito sim.
A ele, só lhe comunicavam que alguém, às escondidas, havia largado ali a criança e se mandara apressado, temendo ser descoberto.
- Pelo menos, espero que ninguém mais saiba disto; assim poderei ficar tranquilo com o meu segredo - meditou.
Satisfeito, continuou seu trajecto com destino à fazenda, onde deveria prestar serviços, a fim de justificar sua ausência e o estado da esposa.

1 Medida itinerária russa, equivalente a 1067 metros. (Nota da Editora)
2 Minha querida. (Nota do autor espiritual.)
3 Diminutivo de Anna. (Nota do autor espiritual.)
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Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 11, 2016 8:17 pm

2 - A Mentira

Anna Ivanóvna Sumarokov, em casa, procurava acalmar-se e ocultar dos filhos a menina abandonada.
Pável, o segundo filho, que contava seis anos, dos três era o mais apegado a ela, mostrava-se desde seu nascimento um menino diferente dos outros, extremamente delicado nas maneiras, cercando-a de mimos, como se fosse um principezinho, tudo fazendo para agradá-la, demonstrando-lhe imenso carinho.
Pável era desses meninos, que alegram a existência de qualquer mãe.
Vendo-a cansada ou triste, levava-lhe uma flor ou beijava-lhe as mãos e acarinhava-lhe o rosto, alisando-lhe os cabelos.
Dava para notar a preferência que Anna lhe tinha, aliás, preferência exclusiva, que ele conquistava dia a dia.
São estas pequenas atenções que definem, pouco a pouco, as preferências emocionais entre pais e filhos e estabelecem a simpatia entre os relacionamentos familiares.
Já, Iulián, o primogénito, parecidíssimo ao pai no temperamento e no físico, afável, alegre, de certa forma ingénuo, era um belo menino, musculoso e temo, contava oito anos e se parecia a um homem, copiando o pai em tudo.
Nicolau, o menor, diferenciava-se de todos, calado e sisudo, sendo muito pequeno para demonstrar ainda suas aptidões.
Não se sabia ao certo com quem ele se parecia, antes era uma mistura; o semblante, um pouco mais trigueiro do que os outros, os cabelos cacheados.
De todos, ele parecia ser o mais formoso e galante com seus olhos negros e grandes, sombreados por longos e espessos cuios.
Anna tinha devoção materna pelos três, porém, Pável era aquele filho do coração que enternecia
sua alma e sabia como acalmá-la.
Às vezes, essa preferência despertava ciúmes nos outros e até no esposo, não chegando contudo a constituir grandes problemas entre eles.
Mas sua predilecção não passava despercebida aos olhos dos outros filhos e do marido que, às vezes, os olhavam contrariados, principalmente quando estavam juntos naquele relacionamento em que duas almas se unem e se bastam, nada mais lhes interessando, isolando-se dos demais.
Com a chegada da menina, Pável, devido a grande afinidade com a mãe e a preocupação que lhe votava, atento aos seus mínimos gestos, sentia-a diferente, naquele dia.
Desconhecendo o motivo, percebia claramente que a mãe o evitava, mas seus olhos negros a acompanhavam na lida, querendo adivinhar.
Anna procurava por todos os meios afastá-lo, dar-lhe pequenas incumbências e ganhar tempo para atender à nova hóspede:
- Iulián e Pável, quero que vocês vão à casa de Larissa, para pegarem um punhado de farinha; pretendo, hoje, fazer bolos - disse, entregando-lhes uma vasilha.
Não se atrasem.
Entre sua casa e a da amiga a distância era longa, mais de três verstas.
Calculava, no mínimo, duas horas, contando ida e volta, tempo suficiente para amamentar a criança.
Os dois meninos partiram numa carroça levando a tigela e seguidos de Pregóv, seu cão.
Vendo-os desaparecerem na estrada, observou que o pequeno Nicolau estava a brincar com um filhote do cão.
Aliviada, agora poderia cuidar da pequena, sem receio de ser descoberta.
Seria impossível esconder a menina dos filhos por muito tempo, eles costumavam brincar vasculhando toda a casa e, se ela chorasse alto, eles por certo a descobririam.
O melhor seria mesmo levá-los para a fazenda de tio Lau, para passarem alguns dias e, assim, ganharem tempo.
Anna correu até o porão.
Lá estava o bebé, os panos molhados, era hora de amamentá-lo.
A sós com a menina, examinava-a detidamente.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 11, 2016 8:17 pm

Ainda não dava para identificá-la, era muito pequena, somente o tempo para definir a cor exacta de seus olhos e os traços de seu rosto.
Não sentia por ela uma inclinação verdadeiramente maternal, apenas cumpria um dever.
Seu instinto protector, porém, vencia qualquer sentimento Infeliz.
Era uma criatura só e abandonada e dela necessitava.
Seu coração generoso acolheria até um cão abandonado, quanto mais a uma criança!
A pobre enjeitada parecia compreender sua situação e chorava o mínimo possível, como se evitasse comprometer seus futuros pais, respeitando-lhes as decisões.
Bebia sofregamente as gotas de leite, lutando por sua sobrevivência.
- Coitadinha, como vamos fazer?
Não podemos ocultá-la o dia Inteiro.
Iullán está exigindo muito, poderíamos contar só às crianças, isto não faria mal algum - reflectia.
Depois de amamentá-la, trocou-a e, aquecendo-a, aconchegou-a ao coração, fazendo-a adormecer.
- Parece ser tão boazinha, ela não me dá nenhum trabalho - e começou a pensar em sua verdadeira mãe:
- Quem seria essa pobre mulher com tamanha coragem para abandonar criatura tão frágil...
Quem seria... Ah! eu bem poderia descobrir, bisbilhotando nas redondezas, mas como?
Se estou impedida de sair.
Ah! bem que poderia chamar uma de minhas amigas e especular.
Nada lhe tirava da cabeça que aquela menina não pertencia às redondezas, mas a alguém que morava na cidade, que não era tão distante assim.
As moças da redondeza eram poucas e nenhuma delas mostrava um relacionamento duvidoso ou ares de gravidez.
Os pensamentos que passavam por sua cabeça eram os mais interessantes.
Anna Ivanóvna era uma boa mulher e esposa, casara-se jovem, tivera seus três filhos e ainda não havia atingido os trinta anos; não era uma beldade, mas seus traços delicados lhe davam a aparência de certa nobreza.
Os cabelos ondulados e sedosos brilhavam ao sol, castanho-dourados, sempre presos com uma fita de veludo ou usando um lenço de seda.
Os olhos castanhos, delineados com cuios espessos e longos, ornavam-lhe o semblante.
A boca pequena e rosada, quando fechada, tinha o formato de um coração.
Trabalhadeira, fazia toda a lida da casa, para auxiliar Iullán, que não lhe podia dar o luxo de ter uma serviçal; e graças aos serviços rudes e constantes exercícios de limpeza, ela se mantinha esbelta, encontrando pouco tempo para o descanso.
A noite, no entanto, sentia fortes dores nas pernas e no ventre, mas raramente se queixava, porque seu Iullán entregava-se igualmente ao labor nas redondezas, trabalhando em serviços rudes e enfrentando os açoites de chuva, neve e vento.
Deitavam-se com o crepúsculo vespertino e deixavam o leito antes do alvorecer; o dia, para eles, começava com a madrugada.
Trabalhavam para economizar e comprarem o próprio sítio, onde cultivariam o centeio e criariam aves.
Este era o sonho de ambos e estavam perto de alcançá-lo.
Iullán, o primogénito, recebia as primeiras aulas de um mestre que vinha à aldeia, semanalmente.
Pável seguiria o Irmão naquele ano.
Arma permaneceria boa parte de seu tempo apenas com Nicolau.
A chegada da menina iria mudar todos os seus planos.
Sentia-se multo inquieta.
Aquela mentira, de certa forma, a desconcertava; temperamento sincero, gostava de tudo às claras, mas faria o jogo do marido que ela amava e a quem nada sabia recusar.
Tentava mostrar-se natural, encontrando dificuldades em se disfarçar o tempo todo, principalmente ante Pável.
Distribuía as tarefas domésticas com os dois filhos, afastando-os para lugares distantes do porão e mantendo sua porta sempre trancada, livre de qualquer suspeita.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 11, 2016 8:17 pm

Foi com grande alívio que recebeu o marido, à tarde.
Os meninos, vendo o pai, correram a abraçá-lo, não era comum vê-lo tão cedo.
- Pai, tão cedo e estás em casa? - admirou-se Iulián.
- É que temos novidades....
- Novidades? Conta-nos, pai!
Abraçou-se a Anna e, reunindo os filhos, anunciou:
- Meus filhos, vocês vão ganhar mais um irmãozinho.
Os meninos, surpreendidos pela notícia, não sabiam se a notícia era boa ou ruim.
Notava-se em seus semblantes que a surpresa os deixara sem resposta.
Pável, no entanto, foi o único a deixar transparecer uma ponta de contrariedade; não estava em seus planos dividir o amor de sua mãe com mais outro irmão.
Instintivamente, olhou o ventre da mãe que, de repente, havia crescido e disse:
- Eu nunca te vi tão gorda assim... - abraçou-se a ela, e Ana empurrou-o delicadamente, temerosa de que o filho percebesse a almofada.
Lembrara-se de uma mulher gorda que tivera gémeos.
Apesar da pouca idade, sabia como era o nascimento.
A mulher engordava como uma porca e depois se trancava no quarto para, dias depois, aparecer com um bebé chorão e vermelho.
Esta era a concepção que tinha de gravidez e nascimento.
Pável ficou penalizado em pensar que sua mãe iria engordar tanto e depois se trancar no quarto.
- Ora, Pável, esta coisa de engordar é relativa.
De repente, a barriga aparece - e saiu para o interior da casa, cuidando de seus pães.
Vou ver o forno e se meus pães não estão queimando.
- Meus valentes filhos, vocês vão cuidar da mamãe na minha ausência, não a deixem pegar peso e ajudem-na em tudo.
Se houver algum imprevisto corram a me chamar, se eu estiver longe. Combinado?
Vocês são meus homenzinhos, e tomara que agora venha uma menina.
Que tal? Gostariam de ter uma irmã?
- É o que eu mais queria, pai, é ter uma irmã - disse Iulián.
- E você, Pável, nada diz?
- Para mim, tanto faz.
Meninas... Ah! Não sei, pai, tudo é a mesma coisa!
Iulián ficou brincando com os filhos e tecendo planos para o futuro, enquanto aguardavam os pães que já cheiravam no forno.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 11, 2016 8:18 pm

3 - Mayra

Iulián estava ansioso para perguntar a Anna sobre a pequena.
Aguardava uma deixa e, sorrateiramente, ir ao porão.
Os meninos estavam inquietos e atentos como nunca.
Anna esperava-os com a mesa repleta de coisas que eles adoravam:
tigela com pães, mel, manteiga, queijo fresco, chá quente e kvass4 para o marido.
Esperou, pacientemente, que se lavassem e iniciassem a refeição.
Vendo-os entretidos, discretamente, desapareceu.
Foi ao porão verificar se a pequerrucha continuava dormindo.
Verificou que ela dormia placidamente, tão indefesa, alheia ao ambiente e à sua sorte.
Viu que respirava com tranquilidade e voltou rapidamente para não despertar suspeitas.
Iulián entretia os garotos, comendo e contando-lhes casos do mato, do rio gelado e de animais, quando Anna entrou.
Seu olhar dirigiu-se a ela em muda indagação.
A cumplicidade entre os esposos aumentava, de tal forma, que os mínimos gestos constituíam verdadeiros códigos.
Estabelecera-se entre eles uma inesperada forma de comunicação que os divertia e mais os aproximava.
Os filhos de nada desconfiavam e se compraziam com o novo comportamento dos pais.
À noite, depois que seus filhos adormeciam, levavam a pequena para o quarto, trancando a porta à chave.
Nesta façanha discreta passou-se uma semana.
- Iulián, que nome lhe daremos?
- Estava justamente pensando nisto...
Que nome sugeres, esposa?
- Ela deverá ter um nome que combine com sua pele macia, por que não colocarmos Lara? - e o esposo ficou calado.
Não te agradas, Iulián?
Que nome tens em mente?
Iulián era órfão de mãe, desde os cinco anos, mas ainda guardava na recordação o seu semblante.
Ela se chamava Mayra e ele sempre sonhou que se tivessem uma menina, homenageá-la-ia com o nome de sua mãe.
Esperou que Anna se manifestasse para depois emitir sua opinião, pois talvez ela quisesse, também, colocar o nome de alguma pessoa querida.
- Lara é um bonito nome sem dúvida, mas gostaria de homenagear minha mamacha, de quem guardo vaga lembrança.
- Mayra? Ah! Por que não me disseste antes, Iulián querido, tinhas um nome e não quiseste manifestar teu desejo.
Que seja Mayra, lindo nome!
- Obrigado, Anna, então será Mayra.
A menina se mexeu no berço e ambos correram para ela.
- Iulián, precisamos afastar os meninos por um mês e ganharmos tempo.
Amanhã mesmo, providenciarei suas roupas e avisarei tio Lau.
Estou em apuros, pois tenho que esconder a roupa no varal e secá-la à noite.
Nicolau continua me observando o tempo todo.
Se ele fosse um pouco mais velho, pediria que o levasse contigo ao trabalho.
No dia seguinte, Iulián conseguiu ajeitar tudo e levar os dois filhos mais velhos para a fazenda de seu tio, que ficava a algumas verstas.
A ideia agradou ao mais velho, Iulián.
Pável, que sofria longe da mãe, ficou triste.
- Um mês de férias, não é nada.
Logo estarão de volta, é só para o descanso da mamãe.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

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No dia seguinte, partiriam cedo.
Pável subiu na carroça com os olhos cheios de lágrimas.
Anna ficou na estrada, acenando com um lenço branco, até a carroça desaparecer.
Segurava pela mão o pequeno Nicolau.
Graças a Deus, agora ela dispunha de mais tempo para Mayra e poderia colocá-la em seu quarto durante o dia, trazendo a porta trancada.
Nicolau nada iria perceber, era um menino obediente e qualquer coisa o distraía.
À noite, Iulián estaria de volta.
Passou-se um mês.
A pequena Mayra desenvolvia-se oculta aos olhos do mundo, mas cercada de carinho, principalmente de Iulián.
- Iulián, precisamos de mais um mês, para ganharmos tempo suficiente a fim de que quando nossos filhos retomarem, a criança já tenha nascido.
- Adiarei o regresso deles por mais uns dias, hoje mesmo mandarei avisá-los.
O misterioso nascimento ficara no esquecimento, nenhum comentário pela redondeza.
Iulián fora à cidade diversas vezes e nada, nem sombra de conversa.
O único facto era que a filha do proprietário do sobrado Norobod falecera subitamente, vítima de uma hemorragia.
Corria o boato pela redondeza de que o pai espancara a filha numa noite e, depois deste facto, ninguém mais a viu.
Semanas depois, o caso encerrava-se com reservado funeral.
Todos se calavam porque o dono do sobrado era temido, com fama de ser muito severo, pois seus empregados eram castigados duramente, quando o serviço não lhe saía a contento.
Sua fazenda era guardada por uma matilha de cães, soltos à noite, e ninguém ousava se aproximar dela, nem o mais valente mujique5.
Estes acontecimentos muito contribuíam para o silêncio do casal a respeito da menina.
Iulián fizera ligação dos factos ocorridos próximo ao dia em que encontrara a criança.
Havia um mistério trágico e cruel, cercando aquela noite.
Duas vizinhas souberam da gravidez de Anna e a visitaram naquela tarde fresca de maio, quando o aroma das acácias invadia sua isbá6
A conversa entre as três mulheres prosseguia cansativa e as visitas queriam, a todo o custo, arrancar da anfitriã detalhes da inesperada gravidez.
Anna esquivava-se, esforçando-se por não ser descortês.
As constantes observações das duas sobre o seu aspecto acabaram por extenuar a pobre Anna.
- Como tua barriga cresceu nestes dois meses, da última vez que te vimos não havia sinal nenhum...
Há quanto tempo mesmo estás grávida?
Anna, de costas, mexia no samovar7 tentando se desembaraçar das perguntas, mudava o assunto, mas as duas insistiam e ela foi obrigada a inventar uma história, não sabendo ao certo se as convenceria ou serviria apenas para aumentar-lhes a suspeita.
- Desculpa-me, Sra. Arina Alexandrovna, mas desde o meu último parto, permaneci tão descontrolada, que nunca soube ao certo a data da minha menstruação, é algo que me foge à exactidão, portanto... Não sei...
As duas mulheres olharam-se e, como experientes parteiras, reconheciam uma mulher grávida como reconheceriam um ovo de galinha.
Inúmeras crianças haviam chegado ao mundo por suas mãos.
Na ausência de um médico na redondeza e, em razão da distância e da dificuldade de locomoção, eram elas que cuidavam das parturientes.
Suspeitavam claramente que Arma estava lhes escondendo algo.
Arma, para se livrar delas e antes que se oferecessem para auxiliarem-na como parteiras, adiantou-lhes:
- Iulián foi à cidade, justamente buscar o médico.
Minha gravidez é de risco, dispensando qualquer outro tipo de intervenção. Compreendem?
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 11, 2016 8:19 pm

As duas mulheres receberam suas palavras quase como uma ofensa e levantaram-se imediatamente, examinando Anna, de alto a baixo, como se ela fosse um espécime raro.
- Não queremos nos intrometer na decisão do casal, mas não é necessário ir tão longe, quando os recursos estão batendo à vossa porta.
Ademais, um parto na cidade fica bem mais dispendioso que nossos préstimos.
A mais velha resmungou alguma coisa, pegou o grande casaco de pele de carneiro e virou-se rapidamente para a porta.
- Vamos, Nastássia!
- Passar bem, Anna Ivanovna!
- Passem bem, senhoras!
Suspirando aliviada, Anna nem acreditou que elas, finalmente, haviam se retirado.
Contente, murmurou:
- Porque não tive tal ideia antes?
Louvado seja Deus, destas me livrei!
Por pouco não me encontraram sem a barriga postiça.
E se me quisessem apalpar, meu Deus, nem quero pensar!
Vendo as duas parteiras de Petrovisk dobrando a estrada, sentou-se na cadeira, quase gritando para o pequeno ícone8 que a tudo assistia sobre a pequena mesa, iluminado por um círio:
- Meu Deus!
Me liberte desta mentira o mais breve possível.
Juro que farei esta menina nascer prematura, mais um mês, não aguento!
Valha-me, meu Santo Nicolau!
Nova surpresa ainda estava por chegar, para o martírio de Anna.
Tia Olga, mulher do tio Nicolau, não resistira à agradável notícia de mais um nascimento em família e decidira acompanhar Iullán a sua casa para auxiliar a sobrinha.
Iulián tudo fez para impedi-la, alegando não ser necessário se deslocar para tão longe, pois havia contratado uma mulher para os trabalhos domésticos.
Não conseguiu dissuadi-la, sendo em vão seus rogos e justificativas.
Pável não cabia em si de contente, ao receber a notícia do retorno à casa.
Para ele, fora um mês de sofrimento, aquele que passara longe da mãe, apesar dos mimos dos tios e da variedade de passeios que eles lhes proporcionavam.
No entanto, a mãe adorada era toda a sua alegria, junto dela, sim, estava seu verdadeiro lugar.
Iulián estava resolvido ir à frente e preparar Anna para receber a nova hóspede.
Por mais que justificasse sua atitude, os tios não se conformavam, todos haveriam de seguir juntos.
Iulián pareceu conformar-se, porque nada lhe restava fazer.
Mas havia decidido, à noite, que no dia seguinte partiria sozinho:
o tio que desse um jeito de atrelar a sua tróica9 e mandar a esposa e as crianças.
De madrugada, quando ele atrelava os cavados à carroça, a tia acordou com o barulho e, julgando que o sobrinho se preparava para levá-los, resmungou:
— Meu filho, é multo cedo para irmos.
- Perdoa-me, tia, mas não irás comigo desta vez.
Quero que as crianças fiquem aqui pelo menos mais dois dias.
Pável não iria entender, não posso levá-lo comigo.
Anna precisa de mim e não deles.
Entendeste, tia, além do mais minha carroça é pequena para tua grande bagagem.
Realmente, ele tinha razão.
A tia arranjara malas e sacolas como se fosse passar uma grande temporada em sua casa.
Iulián aproveitou este facto para pedir-lhe que a carroça dela seguisse depois, ele iria à frente, conduzindo algumas de suas malas.
Um empregado a conduziria em companhia das crianças, numa carroça mais confortável.
- Peço-te não acordes ainda os meninos, deixa-me partir só, imploro-te, tia.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 11, 2016 8:19 pm

Vendo sua aflição, ela concordou:
- Está bem, Iulián, tenho que concordar contigo.
- Aguardo-te, querida tia, depois de dois dias, explica aos meninos e ao tio.
- Nunca vi ninguém tão desesperado para ir embora! - dizia, logo depois, ao marido que, sem nada compreender, apenas ouviu o barulho dos cavalos já na estrada.
- O que deu nele, Olga?
- Não sei, quer que eu siga viagem daqui a dois dias.
- Este Iulián é tão maluco quanto o meu finado irmão, de todos é o que mais se lhe saiu nas esquisitices!
Mais tarde, quando os meninos acordaram, foi um alvoroço ao saberem que o pai havia partido de madrugada e sem levá-los.
Pável chorava, mas lulián adorou a decisão do pai, apesar da saudade que sentia da mãe.
Dois dias depois, nova caravana seguiu viagem.
lulián instigava os animais para ganhar tempo.
Ele e Arma precisavam arrumar um jeito; chegavam ao final do plano e deveriam tomar decisões coerentes e rápidas.
A presença da tia em sua casa, alterava totalmente seus planos.

Mãe (ou mãezinha). (N. do autor espiritual)
4 Bebida muito usada na Rússia, feita de lúpulo e centeio. (N. da £.)
5 1 Camponês russo, considerado escravo até 1860. (N. da E.)
6 Pequena casa de madeira muito utilizada pelos camponeses russos. (N. da E.)
7 Espécie de chaleira, que se usa na Rússia, com um tubo central onde se colocam brasas vivas, destinada a ferver e manter quente a água para uso doméstico, principalmente para fazer o chá. (N. da E.)
8 Na Igreja russa e grega, imagem pintada da figura de Cristo, da Virgem ou de um santo. (N. da E.)
9 Na Rússia, grande carruagem ou trenó puxada por três cavalos emparelhados. (N. da E.)
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 11, 2016 8:19 pm

4 - O Nascimento

Anna assustou-se ao ver o marido chegar só.
- Por que não trouxeste os meninos, Iulián?
Iulián contou-lhe em poucas palavras a visita da tia, dentro de dois dias.
- Meu São Nicolau!
- Temos que arrumar uma solução rápida, mulher.
- E se a criança nascer prematura?
Ninguém poderá afirmar ao certo a época em que ocorreu a gravidez!
A única solução, que no momento lhes ocorreu, foi a antecipação do nascimento da criança.
A pequena Mayra, apesar de miúda, não chegava a parecer um bebé prematuro.
A parturiente e a filha ficariam no quarto, na penumbra, atendendo aos conselhos médicos e a tia não desconfiaria.
- Iulián, tia Olga vai teimar em cuidar do bebé, dos banhos...
Em dois dias, o cordão umbilical ainda não caiu e logo ela irá desconfiar!
- Eu posso dar o banho em lugar dela, porque não?
- Ela jamais aceitaria, como se tu não a conhecesses...
Neste instante, o pequeno Nicolau acordou e Iulián correu até ele, abraçando-o e beijando-o:
- Meu bátiuchka10, como está?
Acordou cedo, venha conhecer tua irmãzinha.
O menino, ao ver a pequena, acreditou que fosse algum brinquedo.
Ergueu a mãozinha para tocá-la e, a este gesto, a menina chorou.
Ouvindo-a, ele também começou a chorar assustado.
Iulián levou-o dali, enquanto Anna acalmava Mayra.
Mayra, daquele momento em diante, nascia para seus irmãos e era o fim do segredo.
Quando tia Olga chegou, Iulián estava assentado na soleira da porta, fumando seu charuto.
A casa encontrava-se no mais profundo silêncio.
O barulho dos meninos, misturado ao latido dos cães, quebrou sua concentração.
Eles estendiam -lhe os braços e gritavam:
- Pápotchka, pápotchka11, oh! porque não me trouxeste? - reclamava Pável.
Onde está mamienchka12?
- Não podes vê-la, ela está dormindo, e tu acabaste de ganhar uma irmã!
A admiração foi geral.
- Como? Eu quero vê-la, oh! que bom! - exclamou Iulián, saltando de alegria no colo do pai.
Tia Olga assustou-se com a inesperada notícia porque, segundo ele, o bebé nasceria no próximo mês.
- Como foi, meu filho, onde está a parteira?
- Ela começou a sentir dores no mesmo dia em que cheguei.
Eu estava adivinhando, tiazinha, foi a conta do neném nascer.
Acredito que nossa Anna errou a data.
Não deu tempo de chamar ninguém.
Eu não podia deixá-la só com Nicolau.
- Coitada! Vou vê-la!
- Ela está dormindo agora, tia Olga.
É melhor deixá-la repousar.
Olga entrava na isbá, a estufa mantinha-a aquecida, enquanto ele auxiliava o empregado a descarregar a tróica, cheia com os baús da tia.
A porta do quarto de Anna estava fechada.
Tia Olga forçou, empurrando-a. Anna fingia dormir.
Entrou silenciosamente, abeirou-se da cama e viu a pequena que, por capricho, também parecia dormir.
- Que coisinha linda! - exclamou compadecida.
A pequena janela estava fechada e o quarto iluminado apenas por uma vela acesa para Santo Nicolau, somente lhe deixava ver o necessário.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 11, 2016 8:20 pm

Depois, ela saiu, cerrando a porta com cuidado, para não acordá-las.
Vendo-a sair, Anna mexeu-se no leito.
- Seja o que Deus quiser!
Mentira sempre tem pernas curtas - murmurou consigo mesma.
Em seguida, caiu num sono profundo e verdadeiro.
Havia sempre um pretexto para que a tia não se aproximasse da pequena e nesta façanha o casal se empenhava de tal modo, que se passaram vários dias, sem que ela participasse do banho e visse a menina nua.
Iulián incumbia-a de acender o samovar e fazer o chá preferido de Anna; outras vezes, desviavam-na pedindo-lhe que atendesse ao pequeno Nicolau, que choroso requisitava a mãe.
Desse modo, terminou o prazo mínimo para que o umbigo finalmente caísse.
Tia Olga não mais resistia à curiosidade, chegando a reclamar:
- Será que não posso ficar à vontade com minha sobrinha neta?
Ah! hoje é o meu dia de banhar Mayra!
Anna levantava-se, assustada:
- Tia, por favor, já estás a me auxiliar na labuta da casa, os meninos são exigentes, deixa-me com Mayra, ainda terás muito tempo pela frente.
Vê, estou bem, muito bem.
A tia ficava espantada pela disposição que a sobrinha apresentava.
Nem parecia que havia dado à luz!
O perigo maior havia passado e, graças às artimanhas de seus pais, Mayra saía do quarto pela primeira vez.
- A menina está muito desenvolvida, não se parece com ninguém de nossa família, a quem mesmo ela se saiu? - questionava a tia.
- Ainda é cedo, somente o tempo nos mostrará a sua verdadeira semelhança - resmungou Iulián, soltando uma baforada de seu charuto.
A vida transcorria normal.
Pável, porém, não se conformava, olhava a irmã com hostilidade e sua presença a inquietava, causando-lhe choros estridentes.
Anna o afastava.

10 Paizinho. Na linguagem do povo, é aplicado ao próprio pai ou a pessoas, às quais se quer tratar com consideração e afecto ao mesmo tempo. (N. da E.)
11 Papaizinho. (N. do autor espiritual)
12 Mamãezinha (N. do autor espiritual)
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 11, 2016 8:20 pm

5 - Numa Noite de Felicidade

Um facto inesperado, no entanto, mudava tudo.
Anna começou a se sentir diferente.
Levantava-se com crises de enjoo e, por mais que tentasse, não conseguia impedir os vómitos, nenhum alimento permanecia em seu estômago.
Alimentava-se pouco e, por mais que se esforçasse, súbita fraqueza e vertigens dominaram seu organismo.
Tia Olga decidiu não regressar ao lar, enquanto ela não estivesse bem.
O estado de saúde da sobrinha merecia cuidados.
Como poderia cuidar da casa e da recém-nascida, necessitando ela de cuidados e repouso?
Uma vizinha chegou e, vendo Anna, assustou-se:
- Estás doente, Anna, nunca te vi tão pálida?
- Tenho sentido muito enjoo...
- Não sabia que passavas por uma gravidez.
Confesso-te, estavas tão magra há quatro meses e agora continuas emagrecendo, afinal não estás doente?
- A lida constante nem me deixa engordar.
Filhos exigem muito, a propósito, Sra. Krávsoski, não sabes de uma moçoila pelas redondezas que possa vir me auxiliar por um tempo?
A boa mulher prometeu-lhe enviar alguém.
A experiente velha, antes de ir-se, fez-lhe interessante alerta:
- Anna, escuta-me.
Não seriam estes teus enjoos, uma nova gravidez?
- Que estás a dizer?
Minha pequena Mayra nasceu há uma semana, apenas!
- É uma bela menina, nem parece que nasceu há uma semana, não te enganaste quanto à data?
Tia Olga participava da conversa ao longe, já estava muito intrigada e olhava de soslaio a mulher do sobrinho.
Decidida, entrou na conversa:
- Tens razão, estes enjoos estão muito estranhos.
Quem sabe a Sra. Krávsoskl não esteja certa?
Estas coisas acontecem...
As duas velhotas começaram a se recordar de casos semelhantes; mães que amamentavam e ficavam grávidas sem o perceber.
- Impossível! - exclamou Arma. - O médico....
Por pouco ela não Iria lhes dizer que não poderia mais engravidar e ter filhos.
- O que tem o médico, continua...
- Não, nada... esqueci-me.
Ela estava vermelha é muito embaraçada.
Porém, uma leve preocupação começou a se formar como uma nuvem em seu cérebro:
“Estarei grávida? Se ela tivesse razão?”
Não podia contar-lhes que o médico lhe dissera da impossibilidade de ter mais filhos.
Não foi necessário recordar-se disto, porque tia Olga o fez:
- É estranho o facto de minha sobrinha ter engravidado, só por misericórdia de Jesus Cristo...
Lembras-te Anna, quando o médico afirmou-te que não podias mais ter filhos?
- Os médicos se enganam, não vês nossa filhinha?
Olga estava intrigada com aquela inesperada gravidez e o repentino nascimento, mas como teria surgido a criança, se não fosse realmente filha deles?
Contava nos dedos os meses, a última vez em que vira Anna; sem chegar a uma conclusão concreta, desistia das contas e acabava por esquecer, envolvida com os serviços e as crianças.
Mas, sua intuição lhe dizia que havia algo errado, a menina se desenvolvia muito rapidamente, não parecia recém-nascida.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 11, 2016 8:20 pm

Eles sempre se esquivavam e Olga não quis insistir.
Porém, a verdade logo tornou-se evidente.
Anna estava grávida.
Não tinha como negar o facto.
Faltava apenas o diagnóstico médico.
A nova gravidez deixou Iulián e Anna perplexos.
Não contavam com aquela novidade.
O casal, agora, cochichava em seu quarto:
- Como isto foi acontecer, matuchka?
- Desde que encontraste a pequena, não tive mais o sinal.
Iulián, lembras-te do dia em que Mayra chegou, daquela noite de tanta felicidade?
Iulián fez uma expressão travessa ao se recordar daquela noite mágica, para ele, e abraçou a esposa, beijando-a.
Sua Anna tornava-se cada vez mais bonita.
Se fosse confirmada sua gravidez, ao invés de uma criança, teriam duas e continuariam felizes.
- Precisamos confirmar sua gravidez, matuchka, amanhã mesmo procuraremos o médico, na cidade.
- Não é preciso, Iulián, eu me sinto grávida, só que não o havia percebido, às voltas com os trabalhos e a menina.
É verdade!
O marido não cabia em si de contente, mas aquela gravidez mudava tudo.
Lembrou-se do médico, ao lhe afirmar:
- “Ela não poderá ter mais filhos, será fatal.”
- Anna, estou muito confuso e minhas ideias se encontram embaralhadas.
Temo por ti.
Vamos deixar para pensar nisto amanhã, o sono nos ajudará.
Amanhã saberei como agir.
Antes de se deitarem ele, desconfiado, olhava a barriga da esposa, apalpando-a...
Aquilo era incrível!
A pequena Mayra resmungou no bercinho e ele correu para ela.
Estava tão feliz com a filhinha, mas a chegada de um novo filho não o fazia mais feliz.
Sua cabeça estava cheia de indagações, procurou serenar-se e dormir.
Seu sono foi tumultuado por maus pressentimentos.
Anna emagrecia, ao invés de engordar.
Acordava com crises de enjoo, não se alimentava o suficiente.
Estava fraca e descorada.
Tia Olga ficaria com Mayra e os meninos, enquanto Anna ia ao médico.
Quanto mais cedo decidissem sobre o novo problema, melhor.
Felizmente, Iulián havia guardado algumas economias para comprar uma rena, porque se lembrava de como havia gastado com o tratamento da esposa quando ela engravidara de Nicolau.
Ainda se recordava das recomendações severas do médico.
Decidiram omitir ao médico o nascimento da menina.
Dr. Bóris era um velho médico que morava na aldeia e seu consultório era tão antigo quanto ele.
Assentaram-se na velha e surrada poltrona enquanto aguardavam serem atendidos.
Após examinar Anna, o médico olhou gravemente para o casal; constatou a gravidez de três meses e os alertou quanto ao risco que corriam.
Depois convidou Iulián a uma sala contígua e explicou-lhe em detalhes o risco de vida que sua esposa corria, levando em frente a gravidez, o melhor seria a subtracção do feto.
- Meu Deus, chega a este ponto, Dr. Bóris?
- Sim, Iulián, é muito grave insistir com a gravidez.
Ela te deu três belos filhos; contenta-te com eles.
Gostaria de falar-lhe sobre Mayra, mas seu segredo tinha que ser absoluto.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 12, 2016 8:39 pm

- Conheço minha Arma, ela jamais concordaria.
- Meu dever é alertá-los e comunicar-lhes o perigo desta gestação; quanto à responsabilidade, ficará por conta do casal.
- Não posso decidir isto sozinho, se algo lhe acontecer jamais me perdoarei, Dr. Bóris.
Conversemos com Anna, ela é forte e saberá como agir.
Anna, ao vê-los, logo percebeu que havia algo errado, pela fisionomia de Iulián.
A notícia caiu como uma flecha de fogo sobre a paciente.
- Jamais abortarei, prefiro morrer, mas meu filho nascerá!
Estava vermelha, emocionada...
Iulián tinha razão, sua Anna era a mulher mais valente que ele conhecia.
O médico ainda tentou convencê-la, mas sua irritação impedia-o de argumentar qualquer coisa.
Prescreveu os medicamentos homeopáticos e deu-lhes as recomendações precisas.
A gravidez de três meses coincidia, na verdade, com a idade de Mayra.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 12, 2016 8:39 pm

6 - Dias Tranquilos

Anna engravidara na noite em que o rebento foi encontrado
Aquela noite, para o casal, principalmente para Iulián, foi inolvidável; sua felicidade foi tão grande que se entregara aos braços da esposa como há muito não o fazia.
Mayra, para ele, era um pedaço do céu que entrava em seu lar.
O casal voltava para a casa, não sabia se ria ou lamentava sua situação.
Conversavam durante o trajecto, olhando a paisagem que já começava a se cobrir de neve em alguns pontos, anunciando um grande inverno pela frente.
- Prefiro mil vezes a morte que tirar meu filho! - dizia choramingando sua pobre Anna.
- Não falemos mais disso, meu amor, tudo se resolverá, confiemos na Providência de Deus.
Nada irá nos acontecer.
Deus não nos enviou uma filha?
Se Ele permitiu que engravidasses, é porque teremos mais um bebé!
Cinco filhos ainda não é o número que sonhei.
Quisera que tivéssemos dez filhos, Anna.
- Estás louco, homem!
Isto porque não és tu que os carrega, nem os amamentas e nem lhes trocas as fraldas!
Iulián fez uma careta e encostou o farto bigode em seu rosto.
A cócega fê-la rir e ela abraçou-o:
- Estou a brincar contigo, meu amor, és o melhor dos maridos e o pai mais carinhoso que já vi.
Sou muito orgulhosa de ti.
- Temo perder-te!..; - confessou Iulián, com os olhos azuis brilhando de lágrimas que teimavam em cair.
- Se me perderes, meu amor, permito-te casares novamente.
- Nunca mais digas tal coisa, Anna, peço-te, cala-te!
- Então queres que eu fique a te atormentar com meu Espírito?
A ideia de ela se tomar um Espírito, o atemorizava e deixava-o cheio de superstição.
- Não quero que digas mais nada sobre morte.
Aquieta-te, porque dizendo assim, minha Annochka, estás a machucar meu coração.
Era tão sincero seu Iulián! Anna aconchegou-se mais a ele, buscando refúgio, porque as palavras do médico continuavam a lhe martelar o cérebro.
E se morresse, de verdade?
Se deixasse seu pobre marido com os filhos tão pequenos, como ficariam sem sua presença?
Anna olhou o horizonte e respirou fundo.
Os dias passaram-se e os camponeses se preparavam para a chegada do inverno.
Não demoraria muito e a paisagem estaria toda coberta de neve.
Iulián trabalhava arduamente armazenando as provisões que lhes garantiriam a sobrevivência durante os meses de nevasca.
O trabalho intenso desviara sua atenção do estado da esposa, porém, as palavras de Dr. Bóris continuavam gravadas em sua consciência.
Se algo de grave acontecesse à sua Anna, ele jamais se perdoaria.
Passaram-se dois meses e os enjoos finalmente cessaram.
Ela começava a engordar e sua barriga a apontar.
As maçãs do rosto estavam coradas e ela parecia muito bem, disposta e alegre.
Tia Olga desistiu, de uma vez por todas, de ficar contando nos dedos os meses que mediavam uma gravidez da outra. Seu Espírito sossegou e aproveitava os momentos de folga para tricotar.
Quando chegou a moçoila para auxiliar a sobrinha, Iulián levou-a embora, prometendo que a buscaria antes de a criança nascer.
Catienka, a serviçal, era uma menina com menos de vinte primaveras e morava nas redondezas.
Seus cabelos ruivos, quase de um tom castanho, estavam sempre presos em duas tranças que ela unia no alto da cabeça.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 12, 2016 8:39 pm

Filha de um camponês que morava na fazenda, fora recomendada pela Sra. Krávsoski, que cumpria a promessa feita a Anna.
A mocinha foi bem recebida, sua juventude e disposição quebraram a monotonia que a velha tia Olga deixava no ar.
Imediatamente tomou conta da situação e, ao cabo de uma semana, executava o serviço da casa com perfeição, descansando Anna que, apesar do esforço de querer trabalhar na lida, não suportava as dores que sentia nas pernas e na barriga, tormentos que somente eram aliviados quando assentava-se numa confortável poltrona e colocava as pernas suspensas sobre uma almofada.
Qualquer esforço cansava-a.
A pequena Mayra não dava o mínimo trabalho, parecia colaborar com a mãezinha e a nova gestação.
Anna passava horas ao lado da menina, conversando e mimando-a.
Sentia imensa ternura por ela e sua maior preocupação era incentivar Pável a amá-la como irmã, pois, o menino não perdia tempo em maltratar a enjeitada.
O facto de Anna passar muitas horas deitada em seu quarto com a pequena Mayra, constituía para ele uma verdadeira tortura.
Anna instruía-o:
- Por que, meu querido, maltratas tua irmãzinha?
Ela é tão frágil, nunca te fez mal, é apenas um bebezinho!
Mayra assentava-se, segurando as grades de seu berço com as duas mãozinhas, e Pável ora espremia ou espetava seus dedinhos.
À aproximação do menino ela começava a chorar, mas quando Nicolau chegava tudo mudava, sorria de felicidade.
Outras vezes, Pável entrava no quarto, sem ninguém perceber, puxava seu cabelo e depois se escondia.
A mãe ou Catienka, em seguida, vinha acalentá-la.
Certo dia, Catienka o pegou em flagrante e isto lhe valeu um severo castigo do pai, não com palmadas, mas privando-o de seu jogo preferido, por uma semana.
Estas reprimendas de nada adiantavam.
Seu caso era realmente sério.
Se buscassem suas origens na teoria das vidas passadas, lá estava a chave de sua conduta e de seu ódio infantil.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 12, 2016 8:39 pm

7 - Annochka

Anna acordou sobressaltada, tivera um pesadelo.
Sentou-se na cama, molhada de suor, apesar do frio; a lareira acesa mantinha o quarto aquecido.
Assustada, recordou-se de seu sonho.
Sonhara com um vale florido, como nunca vira, nem mesmo nas manhãs de sol.
Estava só, com seu bebé nos braços, caminhava, caminhava e seus pés não tocavam o chão.
Sentia-se flutuar, depois, seu filhinho também flutuava, indo de seus braços, completamente solto no ar, procurava auxílio e ninguém aparecia para ajudá-la.
Olhou para trás, sua casa, Iulián e os meninos estavam cada vez mais longe.
A pequena Mayra era a única que corria para eles e, apesar de seu esforço, ela, também foi desaparecendo; Anna esforçava-se para alcançar seu bebé que, aos poucos, desaparecia, evaporando-se no ar.
Quando olhou ao seu redor, não conseguiu enxergar mais ninguém, nem sua casa, e grande aflição tomou conta de sua alma.
- Meu Deus, o que significa tal sonho?
Olhou para o berço, Mayra estava assentada, seus olhinhos ingénuos a observavam, como se a quisesse livrar daquele pesadelo.
Anna sorriu e com muito custo ergueu-a, colocando-a a seu lado em sua cama.
O jeitinho da menina alegrou-a, distraindo-a com suas gracinhas, mas ela passou a tarde muito preocupada.
- Iulián, tive um pesadelo, enquanto dormia nesta tarde.
Gostaria de ir à igreja, levas-me, domingo?
- Claro, querida, aliás, o pope13 prometeu-nos uma visita, iremos reclamá-la.
Mas, tens condição física para suportares os solavancos da carroça?
Anna estava bem gorda.
No mês seguinte a criança nasceria e deveria voltar ao médico.
A igreja não ficava tão distante de sua casa.
- Tal pesadelo me preocupa, Iulián, sinto ser um aviso de uma dolorosa separação.
Começo a me preocupar, crendo que Dr. Bóris tenha razão, por isso quero assistir à missa, antes de nosso bebé nascer.
No domingo, como de costume, iriam à igreja.
Catienka ficaria com a garota.
Os mujiques e alguns aristocratas estavam reunidos.
As orações e abluções começavam.
Iulián e sua família chegaram atrasados.
Assentaram-se nos últimos bancos, mas de vez em quando alguém virava-se para vê-los.
Era uma das velhas parteiras de Petrovisk, cujo olhar incomodou Anna que, antes de encerrar a missa, convidou Iulián a voltarem porque não estava se sentindo bem.
O estado de Anna chamava a atenção, porque muitos sabiam da existência de uma criança pequena em sua casa.
- Não deveríamos ter vindo, querido, errei.
Perdoas- me. Estas velhas corocas logo virão nos crivar com perguntas idiotas e eu não me encontro disposta a responder.
- Vamos!
Ao saírem da igreja, chamaram a atenção dos fiéis para si, muito mais do que na chegada.
Sem se incomodarem com os cochichos, o casal e os filhos ganharam a grande porta.
- Porquê, mamacha, não ficamos para o final? - indagou Iulián, sem compreender a reacção dos pais.
- Tua mãe está a sentir dores.
- Não devíamos ter saído de casa! - reclamou Pável.
Iulián, recebendo a neve no rosto vermelho, convidou-os:
- Ah! meus moleques, este povo é muito observador, vamos cantar, quem canta espanta os males e encanta as almas.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 12, 2016 8:39 pm

Começou a cantar uma música que falava do trabalhador e os filhos o seguiram, voltaram brincando, contando anedotas e chegaram ao lar cheios de alegria.
A visita à igreja provocou comentários maldosos que se espalharam pelas redondezas.
Anna Sumarokóvna tinha dois filhos por ano!
Na semana seguinte, recebeu visitas inesperadas e curiosas.
Anna recusava-se a receber qualquer pessoa e Iulián encurtava a conversa, oferecendo vinho tinto ou um delicioso kvass.
O comportamento do casal intrigava o povo, curioso por saber sobre notícias da filhinha e da gravidez avançada de Anna; Iulián levava entre brincadeiras e anedotas e os visitantes saíam sorrindo, mas sem as informações esperadas.
Depois, as visitas foram escasseando e a gravidez de Anna chegou ao final.
Tia Olga e tio Nicolau foram avisados.
As dores do parto eram intensas.
Iulián partira de madrugada para a cidade, procurando um médico.
O estado de Anna era grave.
Havia horas, ela gemia sem parar.
Sua fronte molhada de suor era enxuta com uma toalha pela tia que estava em vigília desde a madrugada.
Tia Olga, Catienka e as crianças oravam.
O quadro era desesperador e os gritos de dor, que Anna emitia, assustavam até os animais.
Círios acesos no quarto, iluminavam-no, dando-lhe um aspecto triste.
Assistindo ao desespero da sobrinha, Tia Olga apelava pelo santo de sua devoção e várias vezes exclamou:
- Será que Iulián não encontrara o médico? Como demora!
De repente, Anna parou de gemer e desmaiou.
Tia Olga pensou que ela estava morrendo e saiu apavorada, chamando Catienka.
Ao voltar ao quarto, notou que ela ainda respirava, mas muito lentamente.
Tomou seu pulso que estava fraco.
- Meu Deus! Ela não irá suportar até a chegada do médico, temos que dar um jeito, esta criança tem que nascer, já passa da hora - dizia Tia Olga, com alguma experiência no assunto.
E voltando-se para Catienka, ordenou:
- Traga uma vasilha com água morna, imediatamente.
Ela iria fazer o parto, o quadro era sério.
- Alerta, minha Annochka, faz um esforço, teu bebé vai nascer!
Anna ouviu-a como se fosse num sonho, procurando fazer um esforço para se mexer, mas a voz da tia vinha de muito longe e suas dores não cessavam.
Estava totalmente sem forças para lutar.
Na luta entre a vida e a morte, ouviu-se um gemido de seus lábios descorados:
- Iulián... Iulián...
Onde estás?
Coração opresso, Iulián chicoteava os cavalos, como se estivesse ouvindo o chamado da esposa.
- Espera, minha Annochka, espera-me!
Dr. Bóris e ele finalmente chegaram.
Os três filhos encontravam-se assentados e a pequena Mayra nos braços de Iulián; suas carinhas estavam tão tristes que pareciam em um velório.
O quadro exigia muita perícia e aparelhamentos médicos, mas o doutor teria que lutar com o que tinha em mãos para tentar salvar pelo menos a vida da mãe.
Anna abriu os olhos e segurou firme a mão do esposo.
Sua mão estava gelada e ela ainda teve forças para lhe dizer:
- Meu Iulián, se eu não sobreviver, promete-me, meu amor, jamais abandonarás nossos filhos, por mais difícil esteja tua situação, mantendo-os sempre unidos...
Se nosso bebé for menino, gostaria que se chamasse Kréstian...
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 12, 2016 8:40 pm

Sinto, minha vida... que não suportarei e que Deus me ajude pelo menos a pô-lo no mundo...
Quero que saibas o quanto eu te amo!...
Iulián chorava como uma criança:
- Não te vás, não me deixes, Arma... sem ti, eu não sobreviverei...
Não me abandones!...
Dr. Bóris pediu-lhe:
- Iulián, deixa o quarto, por enquanto, ela está nas mãos de Deus.
Ora! Farei o possível.
Beijando seus lábios descorados, Iulián saiu em lágrimas, era o adeus... só que ele não o queria aceitar.
Uma grande revolta tomou conta de sua alma.
Vendo os filhos que o aguardavam sérios e tristes, envergonhou-se de suas lágrimas, enxugou-as e assentou-se ao lado deles.
Na sala havia uma pequena imagem de São Nicolau e duas velas acesas em sua homenagem.
Ele, segurando nos braços a pequena Mayra, ajoelhou-se perante o altar e os três meninos o imitaram.
Assim permaneceram, até ouvirem o choro de uma criança.
Seu coração animou-se.
Depois tudo era silêncio.
Anna não resistira à hemorragia e ao esforço sobre-humano, para que seu filho nascesse.
Nada mais restava a fazer, Dr. Bórls o havia alertado e sabia dos graves riscos que Anna correria com a nova gestação.
Quando Nicolau nasceu, ele o havia avisado da impossibilidade de uma nova gravidez.
Mas, o bebé reagia bem.
Após assearem o quarto, retirando o sangue que sujara os lençóis, Catienka e tia Olga procuraram deixar a morta em condições para que os filhos a vissem e se sentissem menos apavorados.
Os três, acompanhados do pai, entraram no quarto.
A mãe, que parecia dormir, apresentava um aspecto sereno e doce.
Cada filho aproximou-se e a beijou no rosto e na mão branca estendida sobre o lençol.
Lágrimas desciam dos olhos de Iulián.
Pável, sem compreender que sua mãe havia morrido, julgou que ela dormia e logo estaria acordada.
Vendo que ela não se mexia, apavorado chamou:
- Mamacha, acorda! Acorda!...
A mãe estava gelada e imóvel, seus olhos semi-abertos pareciam nada enxergar.
Pável, abraçando-se ao pai, perguntou-lhe:
- É isto a morte?
Iulián não tinha forças para lhe responder, abraçou-o.
Neste instante, o bebé chorou, atraindo para si a atenção dos irmãos e do pai.
- Foi por causa dele que ela morreu? - perguntou amargurado, Pável.
- Não, meu filho, ele não teve culpa.
- Teve sim, foi ele, eu não gosto dele!
Dr. Bóris entrou no quarto e Pável passou por ele como uma bala.
A tristeza era grande.
Logo a notícia se espalhou por toda a redondeza, de que Anna Sumarokóvna havia falecido após o nascimento de seu filho.
A morte de Anna comoveu os vizinhos que, solícitos, ofereceram seus préstimos ao pobre Iulián que agora tinha cinco filhos e dois eram bebés.
A dor de Iulián era muito grande, porque ele se senda culpado.
Por que não ouvira o médico e convencera a mulher a interromper aquela gravidez?
Ele deveria ter sido mais enérgico.
Ninguém pensava no pobre recém-nascido que chegava ao mundo, órfão e acusado pelo irmão de ter tirado a vida da própria mãe.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 12, 2016 8:40 pm

Apenas Tia Olga e Catienka o olhavam com carinho maternal.
Tinham que cuidar da pequena Mayra.
As duas se revezavam; enquanto uma cuidava do pequeno, a outra da menina.
A casa estava cheia, a notícia espalhou-se por toda a vizinhança.
Iulián não conseguia pensar em nada, e não faltavam comentários sobre o nascimento da criança e a irresponsabilidade do marido.
Toda a sorte de mexericos maldosos surgiram.
Então, Iulián pediu a Catienka que isolasse a pequena Mayra para diminuir os comentários sobre sua vida.
Catienka desceu par a o porão e lá ficou com Mayra até terminar as exéquias de Anna.
Dr. Bóris, vendo a pequena criança, julgou que fosse filha da moçoila e Iulián fez questão de que ele assim o pensasse.
Ele mesmo julgava estar vivendo um terrível pesadelo e que, mais cedo ou mais tarde, terminaria.
Suas ideias estavam totalmente embaralhadas e, em silêncio, ficou até o final.
Duas semanas se passaram, após os funerais.
Olga Nicolaiovna foi seu apoio durante os primeiros tenebrosos dias.
Se não fosse sua presença, administrando a casa e consolando as crianças ele, talvez, tivesse enlouquecido.
Ela colocava ordem em tudo.
Tia Olga, entretanto, tinha seus afazeres e sua casa, não poderia ficar lá indefinidamente.
Seu lar e o marido requisitavam sua presença.
Enquanto isto instruía a boa Catlenka que, apesar de jovem, era responsável e ordeira, e gostava muito das crianças.
O pequeno Kréstlan solicitava muitos cuidados e uma ama-de-leite.
Felizmente, todos os dias, nos mesmos horários, Mácha chegava para amamentá-lo.
Ela tivera um bebé quase na mesma época e seu leite abundante dava para alimentar os dois recém-nascidos.
Por sorte, Mácha morava a uma versta de sua casa e isto facilitava tudo; ora ela vinha, ora Catlenka levava Kréstlan.
O Importante era que o bebé sobrevivia, graças ao leite de Mácha e sua disposição sadia.
A moça era amiga de Anna e causava-lhe imensa piedade saber que ele cresceria sem o carinho de sua mamienchka.
E, enquanto o amamentava, ela dizia carinhosamente a Kréstian:
- Faz de conta, pequerrucho, que é tua mamacha verdadeira que te amamenta.
Um mês havia se passado e tia Olga regressava a seu lar depois de mil recomendações a Iulián, aos meninos e à Catlenka, que ficava incumbida de toda a lida.
No caminho de volta, conversavam ela e Iulián.
A neve cobria tudo, era a brancura do horizonte da Mãe Rússia.
Um mês após a tragédia que se abatera sobre a casa do sobrinho, Olga, preocupada com a situação dele, aventurou-se em dizer-lhe;
- Iulián, meu filho, sei que é cedo para dizer-te estas coisas, conhecendo a tua sinceridade e o teu coração, mas passado o luto, deves começar a pensar em um novo casamento.
Teus filhos são multo pequenos.
- Minha tia, peço-te, poupa-me por enquanto de pensar em tal acto.
Tenho a lembrança de minha Annochka tão viva e é com ela que sonho todas as noites.
É como se ela estivesse todo o tempo comigo, no quarto, na cozinha, enfim por toda a parte onde vou.
Vejo-a a sorrir pela casa, a conversar com os meninos, minha matuchka ainda está comigo.
A tia, entristecendo-se com o sofrimento do sobrinho, não teve forças para levar avante suas recomendações e limitou-se a falar em Anna, como se ela estivesse viva e, assim, matarem a saudade que ambos sentiam.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 12, 2016 8:40 pm

Conversaram sobre Anna, recordando-se dos momentos felizes que alegraram a alma de Iulián, e nem perceberam que já se encontravam dentro da fazenda do tio Lau.
Primeiro, a recepção dos cachorros e, depois, o tio bonachão vinha dar-lhes as boas vindas.
Iulián demorou-se pouco na fazenda do tio, sua casa agora exigia sua presença mais do que nunca.
Jamais, em toda a sua vida, desde que se casara, pensou em viver sozinho.
Seu mundo agora era a solidão.
Mas Deus confiara-lhe quatro filhos e Mayra.
Ao pensar em Mayra, seu coração alegrou-se:
Que destino o dela!
Encontrara uma bela mamacha e depois a levaram para sempre.
Felizmente, ele continuava ali, para oferecer-lhe amor e protecção.
Com a morte de Anna, ele se tomara o único a conhecer a história de sua báttuchka, segredo que ele o levaria para o túmulo.

13 Sacerdote da Igreja Ortodoxa russa. (N. da E.)
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 12, 2016 8:40 pm

8 - Nos Domínios dos Norobodviski

Um ano passou-se, desde a tragédia em casa de Iulián Nlkolai Sumarokov.
Kréstian Nlkolai começava a mudar os primeiros passinhos, seu cabelo era diferente do de seus Irmãos, castanho dourado, como os de sua mãe, e sua cabecinha brilhava ao sol.
Catlenka continuava trabalhando para Iulián.
Afeiçoara-se ao pequeno como se fosse seu filho e o protegia contra os acessos de fúria de Pável.
Aliás, Catlenka estava sempre atenta, porque Mayra era, também, a maior vítima das brincadeiras maldosas de Pável.
Kréstian e Mayra, à medida que cresciam, pareciam ter a mesma Idade, pois, na verdade, a diferença entre eles não chegava a atingir nove meses.
As coisas pouco haviam mudado, apenas Iulián que, a cada dia, mais se entregava ao desânimo.
Ele vivenciava a fase aguda da saudade de sua adorada Annochka e, à medida que o tempo passava, o seu sonho de um dia revê-la ia se transformando num doloroso pesadelo.
Seus filhos eram o único motivo que o prendia ao mundo.
Não se importava com a aparência, envelhecera prematuramente, apesar de seus trinta e seis anos; agora, parecia ter cinquenta.
Não se interessava por mulher alguma.
Deixara a dança; desde que sua mulher partira, sua única distracção era o canto.
As mulheres da aldeia, viúvas ou solteiras, interessavam-se por ele, mas a lembrança de Anna era mais forte.
O tempo foi passando e ele, a cada dia, estava mais arredio ao convívio social.
Não frequentava a taberna.
Naquela manhã, dirigia-se para o trabalho.
Iria justamente trabalhar na propriedade dos Norobodvisk.
Fazia quase dois anos que encontrara Mayra, e, ao passar pela cabana abandonada, seu coração bateu acelerado.
Teve forte intuição de que sua querida menina era filha daquela infeliz mocinha que morou naquela fazenda e morrera vítima de hemorragia e de espancamento, conforme os comentários na redondeza.
Grande curiosidade invadiu sua alma.
Se quisesse, realmente, saber quem eram os pais de Mayra, ele os descobriria.
Não lhe seria Impossível.
Horas mais tarde, o grandalhão entrava nos domínios de Norobodvlsk.
Precisavam de empregados e ele se habilitava.
Iulián foi recebido pelos latidos dos cães e por um feitor com cara de poucos amigos e semblante carregado de ironia.
Sergei era tão mau quanto o patrão, e após alguns minutos de conversa, o novo empregado começava seu trabalho, limpando os armazéns e amolando as foices para a colheita.
Não havia muito o que perguntar a Iulián, cuja fama de bom empregado era conhecida nas redondezas.
Sua capacidade em enfrentar horas e horas de trabalho, garantia-lhe emprego certo.
Era disputado por vários fazendeiros.
Norobod, há muito, queria tê-lo em sua propriedade como servo.
Iulián, além de trabalhador, era leal.
Não se rebelava como a maioria dos mujiques que, na hora da maior necessidade, tanto no amanho da terra como na hora da safra, deixavam os campos, ou pior, danificavam as colheitas por pura má vontade, causando prejuízos aos proprietários.
Quando Sergei informou a Norobodvlsk que o grandalhão começaria a trabalhar em seus domínios, disse animado:
- Muito bem, Sergei, finalmente conseguimos o melhor empregado da região.
Tenho o maior interesse em manter o grandalhão, cuide bem dele.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 12, 2016 8:41 pm

Sergei e o patrão entendiam-se perfeitamente, porque o primeiro executava a maldade do segundo em tão perfeita sintonia, que muitos empregados julgavam que o proprietário fosse ele.
Ambos eram temidos.
Mas a propriedade de Norobod, ultimamente, estava praticamente abandonada, pois além de mau pagador, não auxiliava em nada os pobres mujiques, relegando-os ao abandono com suas famílias.
Os outros proprietários agiam com humanidade e, segundo o costume, auxiliavam a mulher de seu empregado e seus filhos oferecendo-lhes mantimentos e agasalhos, moradia digna, enquanto atendessem ao serviço nas glebas.
Se o empregado permanecesse no mesmo trabalho, por dez anos, recebia uma pequena gleba para plantar a sua própria lavoura.
Esta lei prejudicava os empregados, que eram dispensados antes de completarem os dez anos de serviço.
Poucos conseguiam receber a tão esperada gleba.
E não havia lei que os amparasse até alcançarem o prémio almejado.
Enquanto não completassem os dez anos, a família vivia empenhada no trabalho, inclusive as crianças, que auxiliavam aos pais como podiam.
Este regime semi-escravo deixava os camponeses descontentes e inseguros quanto ao futuro.
Iulián, apesar de ingénuo, sabia que o mais difícil era suportar os maus tratos e, para aqueles que chegavam ao final do decénio, o último ano era terrível, verdadeira prova de fogo, em que a humildade do camponês era submetida a toda prova.
Como era difícil conquistar um pequeno pedaço de chão!
Esta situação criava entre os mujiques um clima de revolta, mas por mais que lutassem e formassem sua própria organização, ninguém mudava a dura lei.
Iulián havia decidido que, um dia, ele próprio compraria sua pequena gleba, fazendo bastante economia.
Em razão disso, ao invés de relutar em ficar preso a um senhor apenas, procurava tirar o maior proveito de seu trabalho e de sua generosa força.
Chegara o momento exacto de se firmar, porque, sozinho, sem o auxílio de companheira, só podia contar com a força de seus braços.
Queria dar instrução a seus filhos.
Não queria que eles fossem como ele, um mujique, sem terra e sem instrução.
Norobod tinha a fama de maldoso, mas quem sabe o diabo não seria tão feio assim como se pinta.
Estava decidido a ficar naquela rica propriedade, ser um bom empregado, sujeitar-se à servidão e conseguir o sustento de sua família.
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