Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 17, 2016 7:57 pm

36 - Os Cooperativistas

A tróica, atrelada aos melhores cavalos, era veloz.
Nabor e Karosky não demoraram muito para encontrarem os cooperativistas reunidos.
O salão estava cheio e a reunião animada, todos empolgados com os discursos e o resultado da adesão em massa.
Neste clima festivo, Nabor foi o primeiro a entrar e pediu que chamassem o camarada Iahgo, que o atendeu rapidamente.
- Que fazes aqui, Dmitri?
Aconteceu-te algo?
- O pior.
- O pior?
- Sim. Uma revolução dentro de tua propriedade - e ante a expressão atónita de Alex, Dmitri foi explicando:
- Muitos empregados desapareceram e aqui está Karosky, o recém-contratado que descobriu a trama de Sergei.
- Onde estão Sumarokov e Sergei? - indagou Alex, olhando para Karosky.
- Sumarokov e os demais caíram na armadilha bem tecida por Sergei, pois a revolução começou com o desmembramento das terras.
Sergei e seus homens os renderam e os prenderam num acampamento improvisado.
É preciso que tu voltes, Alex, e os ajudes...
- Cala-te... Não me reveles! - sussurrou.
- Perdão, Iahgo - justificou-se Karosky - esqueci-me, apesar de ter sido alertado por Nabor.
Felizmente, ninguém ali havia percebido.
- Como soubeste de tudo isto?
Como te livraste? - quis saber Iahgo.
Enquanto Karosky Informava detalhes da situação, afastados num canto do salão, a atenção de todos estava voltada para Kóstia que pronunciava Inflamado discurso.
Iahgo notou a atenção dos mujiques, mas precisava avisá-lo de sua ausência.
- Esperem aqui, preciso avisá-los - assim dizendo, Iahgo afastou-se e acenou para Kóstia.
Instantes depois, Kóstia descia do palco a seu encontro, passando o comando da reunião para Semión.
- O que se passa, camarada Iahgo? - perguntou, aproximando-se.
- Uma Insurreição em terras não muito distantes.
Preciso ausentar-me, trata-se de amigos envolvidos - disse Alex, ocultando-lhe a verdadeira Identidade.
- Precisarás de homens que te ajudem, camarada Iahgo?
- Sim, precisarei, Kóstia.
A reunião nunca esteve tão brilhante e, com tantas adesões, acredito no total êxito de nosso plano.
- Ele já deu certo, camarada Iahgo.
Onde mesmo é a tomada desta terra?
- Na fazenda Norobodvlsky - respondeu Alex, como se o caso não fosse com ele.
- Como? Na fazenda Norobod!
Eu sabia que mais cedo ou mais tarde isto aconteceria.
Folga-me tal notícia.
Alex nada argumentou e Kóstia perguntou-lhe:
- Quem Irá?.
- Eu irei! - respondeu prontamente Alex.
- Como?! Tu não deves ir, és mais Importante aqui.
Ainda não te pronunciaste!
Aguardam-te ansiosos.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 17, 2016 7:58 pm

Sem saber como se justificar, Alex explicou:
- Tenho vários amigos envolvidos nesta briga, Kóstia.
É a mim que buscam, não quero que te preocupes e, além do mais, nada poderá interromper a nossa reunião.
- Não Irás só, leva contigo alguns de nossos homens já habituados a este trabalho - e sem que o amigo pudesse responder, Kóstia olhou para os lados.
Ah! vejamos quem poderá ir - e de um salto, lépido como uma lebre, embrenhou-se no meio dos cooperativistas, antes que Alex pudesse interferir.
Poucos instantes durou a espera e Kóstia regressou do salão, acompanhado de vinte homens.
- É suficiente, camarada Iahgo, ou precisas de mais outro tanto? - disse Kóstia, animado com um largo sorriso estampado no rosto e os olhos brilhantes, apresentando-lhe os homens.
Alex olhou significativamente para Karosky, que interveio, grato pelo socorro:
- Creio ser o bastante, porque uma vez libertados os presos, tomar-nos-emos a maioria, pois não acredito na simpatia de Sergei.
Ouvindo tal nome, Kóstia virou-se rapidamente, seus olhos negros brilhavam ainda mais, agora com um lampejo diferente.
- O que dizes, camarada?
Tal cobra ainda exala veneno? - perguntou o moço, em voz alta e clara.
Os outros entreolharam-se curiosos.
- Sim. Tal cobra ainda exala veneno - respondeu Iahgo, compreendendo a pergunta do camarada e a quem ele se referia.
- Camaradas, volto em um só instante - tomou Kóstia, saindo.
Assim era ele, imprevisível, rápido, ligeiro como uma flecha.
Pernas longas, deu um salto, alcançou o palanque, interrompeu o discurso de Semión e falou aos camaradas, confiante em sua autoridade:
- Regozijemo-nos, camaradas, filhos da Mãe Rússia, lutemos pela nossa liberdade, mesmo que ela custe o nosso sacrifício.
Ouçam, camaradas, embora torne-se vermelho o nosso solo, é com este sangue que regaremos e adubaremos a terra que dará o alimento aos nossos filhos, a liberdade aos cativos!
O grito de guerra está dado!
A terra é de todos!
Salve a Rússia! - enquanto o aplaudiam, Kóstia, voltou-se triunfante para Semión que, perplexo, não sabia o que estava acontecendo com ele:
- Camarada Semión, ausentar-me-ei com o camarada Iahgo.
Terás que ficar no comando da reunião, para que nossos aliados não percam a fé em nosso plano.
Tenho de ir. É um acerto antigo de contas - e mediante o olhar inquiridor de Semión, o valente Kóstia continuou:
- Não tenho tempo para maiores explicações.
Confio na tua actuação.
Não digas que saí, por enquanto. Adeus!
Iahgo que acompanhara suas palavras, interveio:
- Não te afastes da reunião, Kóstia, peço-te!
Nossos homens não entenderão a tua ausência.
Não podemos deixar Semión sozinho, alguém tem que estar com ele!
- Iahgo tem razão, Kóstia.... - disse Semión.
A reunião não se prolongará por muito tempo.
É preciso que tu estejas aqui para acertarmos os detalhes da próxima assembleia.
E justamente, depois dos discursos que surgem as melhores chances de congregarmos os ideais; é quando nascem os maiores interessados e aparecem os novos líderes.
Um tanto contrariado, mas concordando com os amigos, Kóstia cedeu:
- Está bem! Atenderei a teu pedido, Semión...
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 17, 2016 7:58 pm

Mas logo termine a reunião, seguirei em teu encalço, Iahgo.
Prendam o desgraçado, nada façam enquanto eu não chegar.
Lembra-te, Iahgo, trata-se de um acerto de contas muito antigo.
Não perderei jamais tal oportunidade.
Ficarei por todos nós.
Dois homens serão o suficiente para que eu chegue até lá, deixa-me, porém, uma pista.
Porque, Iahgo, porque tu não me esperas?...
- Eu?
- Sim. Conheces o caminho, aliás, nada tens a ver com estas terras.
Estes Norobodvsky são antiga briga minha!
Alex Norobod, não podendo se justificar, calou-se.
Kóstia tanto Insistiu, que Iahgo decidiu ficar até o final da reunião para depois seguirem juntos a viagem.
Chamando Karosky e Dmltri Nabor, Iahgo orientou-os na frente de Kóstia:
- Vão à frente com a maioria dos homens e desfaçam a emboscada.
Se encontrarem resistência, anunciem aos prisioneiros que estou indo.
Assim fora melhor, porque a reunião estava a todo vapor e Semión retornou ao caloroso discurso Interrompido.
Assim que Kóstia e Semlón saíram, Iahgo chamou Dmitri a um canto.
- Dmltri, fica em meu lugar, dá-me cobertura e eu sairei às escondidas - aconselhou Alex ao mago que, apesar de solidário com os amigos, parecia pouco entusiasmado com a guerra.
O mago, vendo o ânimo dos camponeses e dos líderes, perguntou cheio de brios, não desejando ficar de fora:
- Estás a menosprezar minha actuação?;
- Não, Dmltri Nabor. Não se trata disto.
Talvez fosses mais útil aqui com Semión - explicou Alex, percebendo sua contrariedade.
- Está bem! Então vai, seguirei atrás com Kóstia.
Não temo o perigo, camarada Iahgo.
Neste momento, Karosky entrou na conversa, animado:
- Vamos!
Kóstia, o valente líder, despediu-se deles, acenando, e os homens responderam em coro, levantando o pulso:
- Pela Mãe Rússia!
Dmltri Nabor e Karosky partiram, acompanhados de um grupo de homens fortes e decididos, depois de deixarem o roteiro para que Alex e Kóstia os seguissem.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 17, 2016 7:58 pm

37 - Libertos e Cativos

A fazenda Norobod era tão extensa, que somente um trabalhador acostumado àquela região andaria ali sem se perder e Karosky conhecera bem aquele pedaço, acompanhando Sergei na preparação do acampamento.
Depois de exaustiva cavalgada, Karosky diminuiu a marcha e avisou:
- Estamos nos aproximando. Fiquemos atentos.
No meio da grande floresta havia um clarão, ainda demoraria algumas horas para escurecer.
Aguardariam o anoitecer, o escuro facilitaria o ataque ao acampamento.
Era o momento Ideal, todos começariam a relaxar e a beber para enfrentarem a longa noite.
O grupo divisou as fogueiras, acomodou os cavalos e decidiu surpreendê-los, atacando-os quando já estivessem bêbados.
Era preciso, contudo, avisar Sumarokov, para que ficasse atento e alertasse os companheiros, avisando que o socorro havia chegado.
Havia mulheres no acampamento e alguns homens estavam com elas nas tendas.
Isto os favorecia muito, pois uma vez distraídos com suas mulheres, e bêbados, eles se tomariam presas fáceis.
Karosky foi à frente.
Simulando naturalidade, calmamente assentou-se junto aos homens de Sergei como se fosse um deles.
Na confusão, ninguém notara sua ausência e, discretamente, aproximou-se de Sumarokov, amarrado a um poste.
- Camarada, fica atento, viemos libertá-los.
Disfarça- te, porque vou soltar tuas amarras - sussurrou Karosky.
Ao contacto do afiado punhal, as cordas se partiram.
- Não deixes perceber que estás solto.
Feirei o mesmo aos outros.
Ao soltar o último, corram.
Libertem os cavalos.
Sumarokov sorriu e ficou quieto.
Assim, Karosky libertou todos os prisioneiros.
- Feito. Graças a Deus! - exclamou contente o empregado.
Esta façanha não demorou nada.
O desejo de escaparem aumentava a força dos homens de Sumarokov, embora enfraquecidos pelos maus tratos.
Um guerreiro, porém, luta até a última gota sem esmorecer.
Este era o lema deles.
Sergei e Karine encontravam-se dormindo numa das tendas.
Haviam bebido muito e quando perceberam que haviam sido traídos, Sergei saiu da tenda calçando as botas, mas os cavalos soltos e instigados, fugiram rapidamente acompanhando o tropel dos outros.
Muitos empregados que compreenderam a atitude infiel de Sergei, medrosos, abandonaram os fugitivos e outros os acompanharam.
E, no acampamento restaram apenas os mais fieis aliados de Sergei que, na verdade, não chegavam a uma dezena de homens.
Desapontado com a fuga, Sergei olhou a seu redor.
Seu plano, tecido há vários anos, fracassara, porém, as terras lhe pertenciam por direito.
Ainda restava-lhe esta alternativa, mas ele receava que, realmente, pudesse tê-las, um dia, em seu poder.
Enquanto isto, os libertos cantavam felizes, regressando aos seus lares, e outros tantos amarravam Sergei e os companheiros nos postes.
Dmitri Nabor, intimamente, rejubilava-se com o sucesso daquela emboscada que, para ele, constituía uma grande façanha e aventura.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 17, 2016 7:58 pm

Ele era um homem dado às letras e à meditação e não entendia o motivo de estar vivendo entre rudes camponeses.
Felizmente, não foi necessária sua participação na briga, já que a montaria, naquelas condições, era-lhe muito penosa.
A alegria dos mujiques, entretanto, o contagiava e, com eles, entoou um hino exaltando a bravura do guerreiro russo.
Neste clima de intensa alegria e festa, um grupo acompanhou Sumarokov até à sede da fazenda, desejosos de reverem e tranquilizarem suas esposas.
Ao se aproximarem, as mulheres e os filhos vendo os cavaleiros, saíram às portas, ansiosos.
Felizmente, tudo terminara.
Catienka recebeu Sumarokov com grande alegria, mas sua felicidade demorou pouco ao perceber a ausência de Kréstian, pois acreditava que o jovem retomaria com o pai.
Ninguém sabia do paradeiro dele.
Onde estaria Kréstian, então?
A nova preocupação afastava a alegria da família, que passara a procurar o rapaz.
Era impossível encontrá-lo naquela hora da noite.
Depois da inútil busca, Iulián, agora dentro de casa, conversava com Catienka.
O assunto era sobre Mayra e suas comunicações com o Além.
- Ela disse com tanta convicção, Iulián, que passei a acreditar em sua profecia.
Afirmou que vocês voltariam - e Sumarokov olhou-a espantado.
Não te preocupes, ela disse que Kréstian também voltará.
- Como pode ela saber? — perguntou-lhe mais aliviado.
- Um Espírito fala pela sua boca, que acredito seja o fantasma da fazenda — Catienka falava naturalmente, já estava se acostumando com a ideia daquele Espírito.
O mais interessante, é que Mayra não o teme.
- Verdade? Ela não chora, quando ele aparece?
- Não. Está bem mais calma.
Principalmente depois que passei a conversar com o Espírito.
- O Espírito te responde?
- Sim. Ele me responde.
- Já falaste ao mago Nabor?
- Ainda não, mas pretendo.
- Confias realmente que Kréstlan voltará?
- Poderemos perguntar-lhe novamente, se quiseres - disse Catienka, convicta de que bastava ela querer e o Espírito lá estaria.
- Isto não a prejudica? - quis saber o pai.
- Nada. Queres participar da conversa? — a moça estava entusiasmada, mas Sumarokov encontrava-se muito cansado para tentar alguma evocação.
- Estou preocupado com Kréstian...
Não seria melhor tentar dormir um pouco para amanhã, antes do amanhecer irmos em seu encalço?...
Neste exacto momento, Mayra, que se encontrava dormindo, sentou-se no leito e depois levantou-se.
Olhos abertos, vermelhos e arregalados, seu aspecto não era nada bom.
A mocinha estava em transe mediúnico, através do sonambulismo natural.
Vendo-a assim, já acostumados ao fenómeno, os dois ficaram atentos.
Mayra postou-se em frente ao pai, totalmente inconsciente e falou:
- Kréstian não chegou ao acampamento, desviou-se por um atalho, teme a noite e se encontra bem escondido, numa cabana abandonada.
Não temam. Nenhum perigo o ameaça.
Brevemente ele poderá sair de seu esconderijo e, liberto, voltará para casa.
- Como o afirmas com tanta segurança? - indagou Iulián, percebendo claramente que falava com uma entidade espiritual e não com sua filhinha.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 18, 2016 8:32 pm

- Lá estive e vim acalmar-te.
- Esta cabana a que te referes é longe daqui?
- Não muito. Tu a conheces.
- Está bem, existem muitas cabanas abandonadas, eu procurarei.
Agradeço-te o interesse.
Porém, quem és tu? Diz-me teu nome.
- Chamo-me Sácha!
Antes que o pai pudesse dizer mais alguma coisa, somente teve tempo de amparar a jovem que desfaleceu nos braços de Catienka.
Os dois, apreensivos, colocaram-na imediatamente no leito, branca e fria como o mármore.
O casal entreolhou-se espantado, nada comentando na presença da adormecida.
Ambos voltaram à cozinha e comentaram admirados:
- Fantástico, Catienka, desde quando isto está acontecendo?
- Desde o dia em que tu partiste.
É sempre o mesmo Espírito, refiro-me à Sácha, filha de Norobod, que se comunica?
- Ultimamente, ela tem vindo sempre.
- Aguardemos o amanhecer.
Irei à procura de Kréstian.
Acredito que ele esteja em um lugar que eu conheço e de onde sairá ileso.
Antes dos primeiros clarões da aurora, Iulián e alguns homens montaram os cavalos e embrenharam-se pelo mato, à procura de Kréstian.
Não o encontrando, decidiram dirigir ao acampamento, onde deixaram Sergei amarrado, e, quando estavam próximo do local, ouviram um tropel de animais que vinha em sua direcção.
Eram Iáhgo, Kóstia e dois homens que haviam se extraviado e, não conseguindo encontrar o acampamento, pernoitaram na floresta.
Folgaram quando viram Sumarokov liberto.
Tinham o aspecto cansado da noite mal dormida e fria.
Iáhgo usava o costumeiro lenço vermelho, mas Iulián logo adivinhou ser seu patrão.
- Camarada Sumarokov! — gritou.
- Alto lá!- respondeu o mujique.
- Soltaram-te? - indagou Alex, que não sabia ao certo do ocorrido.
- Sim. Camaradas, fomos soltos por Karosky - disse Sumarokov.
- Óptimo! E o que fazem?
Não voltaram para casa? - Indagou o patrão.
- Sim, mas os outros continuam vigiando os presos.
- No acampamento? Leva-nos até eles.
- Voltávamos para lá, para trazermos os presos, mas antes, nesta manhã, buscamos encontrar meu Kréstlan, que desapareceu.
- Estás a brincar!
Ele desapareceu? - perguntou Alex.
- Sim. Notaram a ausência dele ontem à noite.
Agora estamos indo para o acampamento.
Temo que Sergei consiga fugir, preciso me certificar.
Depois voltaremos a procurá-lo.
Deve estar escondido em alguma cabana próxima daqui.
- O que te faz pensar que o rapaz esteja escondido?
Era difícil explicar-lhe ali, a orientação do fantasma.
Todos iriam considerá-lo louco.
Limitou-se a dizer:
- É pura intuição.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 18, 2016 8:32 pm

Alex deu uma risada e exclamou:
- Vamos, camaradas, ao encontro do inimigo!
No acampamento, os poucos homens que lá se encontravam estavam apavorados, porque alguns haviam fugido para a cidade e outros voltaram à fazenda, para suas casas.
Encontraram Sergei e Karine, que não sabiam explicar-se ao patrão.
- Prenda-os! - ordenou Alex, cheio de raiva.
Seu sangue fervia nas veias.
Tinha vontade de matar aquele asqueroso indivíduo, mas se conteve.
O feitor e os demais foram amarrados violentamente aos mesmos postes que antes serviram de tortura para os pobres camponeses e, agora, eram eles que prestariam suas contas.
- Onde está Kréstlan? - perguntou-lhe Sumarokov, ansioso.
Insolentemente, Sergei respondeu-lhe:
- Procura-o.
Não suportando a insolência, Sumarokov voou em seu pescoço.
- O que fizeste a meu filho, verme?
Sergei deu uma cuspida no chão, sem responder à pergunta, aumentando sua agonia.
O feitor jogava sua última cartada.
- Soltem-nos, senão jamais terás teu filho de volta.
As pernas de Sumarokov bambearam.
Sua raiva porém o mantinha firme.
Entre acreditar no Espírito e na maldade daquele homem, ele preferiu enfrentá-lo.
- O que fizeste a meu filho, pobre diabo!
Não vês que não tens escapatória?
- Experimenta tocar-me num fio de cabelo e jamais saberás onde se encontra ele.
Sumarokov olhou para Iahgo pedindo-lhe auxilio.
Ambos afastaram-se e Kóstia os acompanhou, dizendo:
- Camaradas, perante o impasse, deixem-me tomando conta do infame e dos outros, enquanto procuram pelo garoto.
Tenho contas a acertar com ele.
Há muito espero tal oportunidade - Kóstia estava exaltado com a sua própria necessidade de torturar aquele homem a quem votava tremendo ódio.
- Então, seja feita a tua vontade, camarada, ele é todo teu - disse Iahgo e voltando-se para Sumarokov:
- Procuremos o jovem.
Começaram a busca pelos arredores e todos os cantos num raio de dois quilómetros.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 18, 2016 8:32 pm

38 - Kóstia e Iahgo

Kóstia usava o lenço vermelho, símbolo da revolução e Sergei não o havia reconhecido, mas Kóstia agia como se o conhecesse de longa data.
Aquele estranho que agora surgia interferindo no acerto de contas, intrigava-o, e sua presença causava-lhe grande mal-estar.
- Temos um velho acerto de contas!- exclamou Kóstia, chegando mais perto do prisioneiro.
- Não te conheço e nem sei do que falas!
- Mas eu te conheço, verme imundo! - disse ameaçador Kóstia, diante da insolência do condenado
Sergei buscava na memória a lembrança daquele homem, porém, inúmeras pessoas já haviam passado por suas mãos.
Uma vaga reminiscência daquela voz começou a surgir em sua mente:
- Não, não pode ser, aquele mujique morreu queimado!...
- Fogo! - disse Kóstia ameaçador, aproximando-lhe uma tocha de fogo ao rosto.
O feitor afastou o rosto.
Kóstia cinicamente o torturava passando-a de um canto a outro, quase queimando-lhe o nariz.
- Fogo! Fogo! - repetia intimidando-o.
Isto vai refrescar tua memória.
Teu mundo de crimes finalmente acabou, Sergei.
Nunca mais farás vítimas.
Nunca mais terás poderes para separar aqueles que se amam, porque tu não sabes o que é sofrer.
A morte, para ti, é bálsamo, mesmo que ela te mergulhe para sempre no inferno!
Os outros que acompanhavam a cena, não entendiam o motivo de tão grande ódio.
Estavam a ponto de Interferir, embora muitos tivessem sido vítimas das maldades praticadas por Sergei, e agora era chegado o momento da vingança.
A atitude de Kóstia os surpreendia, nunca viram tamanho ódio estampado no rosto de um homem.
A tortura de Kóstia prosseguiu ainda por alguns Instantes.
Os homens retornaram sem nada haverem encontrado e, após minuciosa busca, nenhum sinal do filho de Sumarokov.
Sergei deu um sorriso triunfante.
Tinha um trunfo ainda na mão.
Karine, que acompanhava a cena, analisava sua situação e a daquele homem brutal e sem escrúpulos a quem ela se entregara de corpo e alma, julgando que seu plano maquiavélico pudesse dar certo.
Via, com amargura e desprezo, desmoronar seu sonho de riqueza e poder.
Encontrava-se semi-liberta, uma vez que as atenções concentravam-se em Sergei, o autor daquela situação, o único que deveria ser condenado.
Os pobres mujiques, analfabetos, iludidos e enganados, estavam indiferentes a eles; tanto fazia, o fim daquele celerado, já que o destino lhes reservava apenas o trabalho.
No momento, desejavam somente um bom patrão.
Sumarokov voltou-se para os prisioneiros:
- A liberdade a quem disser onde está meu filho!
O silêncio foi geral.
Ninguém sabia onde estava o jovem.
- Não o vimos, senhor — um mujique respondeu, timidamente.
Dmltri que permanecia a um canto observando toda a cena e sua dramaticidade, raciocinava friamente e depois interferiu com seu modo circunspecto e olhos penetrantes de hipnotizador.
- Tenho uma ideia.
Todos se viraram para o mago.
- Voltemos à fazenda, submetamos todos a julgamento.
Talvez Kréstian já esteja lá são e salvo.
- Meu filho está aqui - afirmou Iulián, com segurança.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 18, 2016 8:32 pm

- Como o podes afirmar, Sumarokov? - perguntou-lhe Dmitri Nabor.
- O motivo é de foro íntimo, não mo peças para explicar-te, agora.
Meu filho está neste acampamento, talvez escondido numa cabana aqui perto - insistiu o pai.
- Bem, neste caso, continuemos a busca - e voltando- se paira Sumarokov:
- Como afirmas com tanta segurança?
Não estas perdendo a chance de encontrá-lo em outro lugar? - depois, abaixando o tom de voz, Dmitri pegou-o pelo braço e afastou-se alguns metros.
- Diz-me Sumarokov, tua atitude me espanta.
Como tens tanta certeza?
Foi Mayra e suas adivinhações?
- Sim.
- Ela não poderá ter errado? - perguntou Nabor.
- Não foi ela que me disse, mas o fantasma de Sácha.
- Sácha!!!??? - exclamou Nabor.
A este nome uma corrente eléctrica chispou no ar e todos viram, assustados, o fantasma.
A aparição do fantasma aterrava os mujiques supersticiosos.
O que estava fazendo aquele fantasma ali?
Vinha para amedrontá-los?
Os mujiques supersticiosos afastaram-se medrosos, fugindo pelo mato.
Ninguém conseguiu segurá-los.
-É o fantasma!
Os que ficaram, apavorados, benziam-se fazendo o sinal da cruz e rezavam alto.
O pânico tomou conta de libertos e prisioneiros.
O imprevisto tumultuou a acção de alguns e impediu o raciocínio.
Passado o primeiro impacto, os mais lúcidos e acostumados com o fenómeno foram adquirindo novamente o domínio da situação.
Neste ínterim, aproveitando a confusão, Karine subtraiu-se aos olhares e escondeu-se medrosa.
- Não temam. Este fantasma não irá prejudicar ninguém - disse Sumarokov.
Sabemos de quem se trata e ele é inofensivo.
Mas Kóstia estava totalmente fora de si, uma grande aflição tomava conta dele, inexplicável dor o perturbava, momentaneamente, como se tivesse ficado electrizado.
Fechou os olhos, tonto e arrepiado.
Nunca sentira sensação igual em toda a sua vida.
O que se passava ali afinal de contas?
Pareciam todos irmanados no mesmo drama.
Nabor recuperou o domínio da situação e antes que acontecesse o pior, falou calmamente:
- Retomemos à busca, como afirma Sumarokov.
Kréstian deve estar escondido... — e antes que completasse seu pensamento, Kóstia reagiu, vigoroso:
- Se dentro de dez minutos não disserem onde está o garoto, atearemos fogo! — ameaçou Kóstia, recuperando-se daquele inexplicável torpor.
Kóstia insistiu ameaçador contando de um a dez, de trás para frente.
- Dez... nove.. . oito... - olhava a todos um por um.
Ninguém se mexia.
- Vamos! - dizia segurando o archote incandescente - sete... seis... cinco...
Os olhos de todos brilhavam como a tocha.
- Ele não fará isto! - Alex não queria intervir na decisão do guerreiro com o risco de lhe tirar a autoridade, mas saltou na frente.
Espera, camarada, tenho uma ideia.
A atenção de todos voltou-se para Alex Norobod.
- Ouçam-me, filhos da Mãe Rússia, o mujique que desejar se redimir com o dono da terra, terá tempo para tal, bastando que se levante e passe para este local - disse Alex apontando à sua direita.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 18, 2016 8:33 pm

Garanto a todos que, em nome da nossa Aliança, do nosso movimento renovador, ninguém sairá daqui perdendo, mas aquele que não quiser se redimir, receberá o mesmo castigo que Sergei merece!
Reconhecendo a voz de seu senhor, os mujiques, espantados, levantaram-se e foram passando para o lado oposto, silenciosos, mas conscientes.
Sergei olhou à sua volta, ninguém havia permanecido a seu lado, nem mesmo Karine, que ele julgava sua fiel companheira.
- E, então?
Camarada Kóstia... - argumentou Alex, triunfante.
Não há necessidade de danificar mais...
Creio que o problema está resolvido.
Façamos justiça ao rebelde.
Aliviados pelo impasse do momento e a decisão tomada de uma forma menos drástica.
Kóstia olhou o feitor com ar ameaçador e pediu:
- Deixem-no comigo, a sós, um instante.
Tenho antiga conta a acertar.
Afastem-se. Peço-lhes.
Kóstia continuava com o archote na mão, seu corpo todo ardia no desejo de se atirar sobre aquele verme Imundo, incendiá-lo, ninguém ousou interrompê-lo.
Ele deveria ter suas razões.
Afastaram-se todos.
- Não te lembras de mim, verme imundo!
Mas eu, jamais te esqueci e vou refrescar tua memória - aproximou-se mais, ameaçador.
Sergei, por mais que recorresse à memória, não se recordava dele, porque seu rosto estava coberto com um lenço e era-lhe impossível, naquele momento, reconhecer uma de suas vítimas.
Suas torpezas foram tantas que se perderam em sua memória de assassino.
Ele era apenas uma, dentre tantas mortes que fizera ao longo de sua vida.
O feitor calava-se, buscando reconhecê-lo e seu silêncio deixava Kóstia mais Irritado.
- Não te recordas?
Avivarei tua memória... - disse, baixando o tom de voz e descobrindo o rosto.
- Mira.... mira... agora! - seus olhos eram duas grandes tochas a vibrar de ódio e surda revolta.
Sergei, assustado, olhava-o, forçando sua memória.
Ele, realmente, não lhe parecia estranho, mas por que não se lembrava dos detalhes?
Aqueles olhos... Onde mesmo os vira?
- Eu fui um garoto indefeso em tuas mãos, canalha!
Julgas que morri?
No entanto, Sergei ainda encontrava dificuldade em identificá-lo, mas sua lembrança apontava-lhe uma cena distante, que ele se recusava a crer.
Balbuciou espantado:
- Por acaso és o Jovem que...
Não. Não pode ser...
Ele morreu queimado... Virou cinzas...
Eu vi, com estes olhos, seu fim - balbuciava o feitor, agora se recordando daquela voz e dos olhos, porque o rosto barbado estava irreconhecível.
Era um homem feito, amadurecido pelo tempo.
- Estás vendo?
Tu te recordas, agora, do que fizeste?!
Sergei julgava estar diante de um fantasma, outro fantasma...
Terrível medo angustiava sua alma.
Não havia, ali, ninguém que pudesse acudi-lo nessa situação, e nem mesmo podia fugir.
O jeito era enfrentar aquele homem, fantasma vivo ou morto, que vinha acertar contas.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 18, 2016 8:33 pm

Respondeu assustado e trémulo:
- Não morreste, Wladlmlr Antón Boroski?
Ao ouvir seu verdadeiro nome, Kóstia sorriu sarcástico:
-Julgavas-me morto! Miserável!...
Não morri... não sossegarei enquanto não acertar as contas... contigo... causador de minha Infelicidade!
- Quem, então, foi queimado vivo? - indagou o feitor, relembrando a trágica cena, em que ele mesmo ateou fogo àquele homem ensanguentado, irreconhecível que estrebuchava jogado a seus pés.
- Consegui fugir! — gritou triunfante, Kóstia.
Teus homens, medrosos de ti e do verme Norobod, ameaçados e, vendo-me escapar, pegaram um pobre coitado, que nada tinha com a história e o desfiguraram para ser apresentado ao infame em meu lugar.
Norobod queria morte e teve a morte.
Só que eu estou aqui para fazer justiça!
- Todos acreditaram-te morto, até ela! - Sergei fazia alusão à jovem que, desesperada, assistira à incineração de seu amado, e que alguns mujiques ainda guardavam na lembrança.
Algo inacreditável aconteceu.
Como se o céu se rebelasse, um súbito mal-estar tomou conta de toda aquela gente, como um veneno pestilento que se joga no ar.
- É ela!!! - gritou alguém, apavorado, cuja percepção mediúnica detectou o fantasma.
Àquela referência, por entre eles passou uma chispa incandescente tão rápida que, por um momento, ninguém se mexeu.
Algo sobrenatural e incontrolável acontecia.
Iahgo, o primeiro a reagir, aproximou-se para ver o que estava acontecendo.
- Sácha! - gritou o feitor, rouco e alucinado, vendo claramente o fantasma à sua frente.
E junto da imagem, ele via claramente a cena da morte de seu namorado, causando-lhe pânico.
- Estás vivo! - gritou Sergei, pressentindo seu fim.
Não me mates! - gritou medrosamente, implorando clemência a Kóstia.
O verdugo se transformava em presa submissa.
Ouvindo o nome da irmã, Alex juntou-se a eles, correndo o risco de ser reconhecido pelo feitor e por Kóstia, porém, naquele momento, nada mais importava.
- O que se passa, Kóstia? - indagou Alex, sentindo-se muito estranho, arrepiado e apreensivo.
- Um dia contar-te-ei, camarada Iahgo.
Tenho contas, muitas contas a acertar com este verme, e não terminarei enquanto não sorver a última gota desta amargura que me invade e me queima....
Deixa-nos, a sós, Iahgo, peço-te.
Antes que Alex pudesse interferir, um vento gélido passou entre os dois homens, causando-lhes arrepio.
O Espírito de Sácha estava por demais ansioso para abandoná-los.
Tornou-se visível para o feitor, que, num último esforço, desejava desvendar o mistério que a envolvia e o nascimento de sua filha.
Vendo-a, Sergei perdeu o juízo e começou a gritar, olhos esbugalhados, mãos crispadas, querendo se defender.
A cena era patética.
-Tirem-na, tirem-na, por misericórdia!
Eu não suporto! - gritava gesticulando.
- De quem ele está falando? - Indagou Kóstia que nada compreendia, porque não enxergava o Espírito.
Mesmo assim, ele se comprazia com o desespero do feitor, como se ele fosse a própria Sácha.
— Seja lá o que for, terás, bandido, o que mereces! — e com uma bastonada violenta feriu-lhe a face que, logo, ficou toda ensanguentada.
Nabor aproximou-se, desejando ser útil, mas seus poderes hipnóticos não resolviam aquele caso, seus conhecimentos sobre a vida espiritual eram primários.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 18, 2016 8:33 pm

Sua capacidade de magnetizador não era suficiente para liberar o Espírito sofrido e necessitado de Sácha, que voltava para acertar suas últimas esperanças e ela desejava, como Wladimir, sorver a última gota daquele amargo cálice de ódio e revolta.
Seu Espírito necessitava de paz e não sossegaria enquanto sua família não descobrisse sua filhinha.
- Eu sei - disse Iahgo, melancolicamente, referindo- se ao fantasma da irmã.
Ela voltou.
- Ela quem? - indagou Kóstia inquieto, sentindo-se também, cheio de amargura, como se revivesse os últimos momentos, que lhe queimavam a alma como uma chama eterna.
- Minha pobre irmã... — respondeu Alex, esquecendo-se de sua condição, para derramar a dor que lhe invadia o ser.
- Tua irmã?!- agora era Kóstia que não compreendia o que se passava com o camarada Iahgo.
Não conhecia bem o guerreiro a quem tanto admirava e que agora se lhe apresentava naquele triste estado.
Lágrimas escorriam pela sua face e ele nem sequer as escondia.
Que amargura era aquela que acometia a alma do guerreiro?
Todos estavam comovidos e muito ansiosos.
Aquela energia invisível os envolvia e os irmanava na mesma tragédia.
- Alex Norobod é meu nome verdadeiro.
Kóstia olhou-o demoradamente, porque não chegara a conhecer pessoalmente o irmão de Sácha, a quem ela admirava e se referia com grande alegria.
A surpresa o impedia de raciocinar obedecendo ao irresistível impulso fraterno, abraçou-o como se a própria Sácha lhes pedisse carinhosamente:
- Unam-se!
- És Alex, o filho de Norobod, irmão da minha desventurada Sácha? - a surpresa era muito grande, Iahgo, seu nobre camarada, era Alex Norobod.
Sua interrogação ficou suspensa no ar, porque o silêncio foi cortado por um grito alucinante, que causou arrepios e grande mal-estar:
- Socorro, misericórdia, tirem-na daqui, não suporto mais! - gritava o prisioneiro, enlouquecido de remorso, a se debater com o fantasma.
- Não. Não mereces clemência pelo que fizeste.
Não sairás daqui nem morto, nem vivo, enquanto não disseres toda a verdade...
Onde está minha filha? - perguntou Kóstia, transtornado de ódio.
A esta pergunta Sácha se manifestou novamente.
Seu Espírito ansiava por elucidar o equívoco.
- Não sei - respondeu a Kóstia.
Enquanto isso, o Espírito se postava entre os dois, visível apenas a Sergei.
0 feitor dobrou as pernas e, dependurado com os braços amarrados, disse baixando o tom de voz:
- Perdão! - Implorou ao Espírito.
O rosto do malvado estava desfigurado e seus olhos não conseguiam se fixar em nada, dançando nas órbitas.
Os fantasmas de seus crimes rondavam por ali pedindo-lhe contas e ele, desvairado, passava a dizer coisas sem nexo, perturbando todo o grupo.
Depois começou a gritar por clemência, sem saber a quem se dirigia, se aos vivos ou aos mortos.
Não suportava mais a pressão em seu cérebro e seus gritos se perdiam no espaço amedrontadores, como os negros pássaros que voavam por ali.
Se estivesse solto, com certeza, teria se embrenhado no mato ou ateado fogo ao próprio corpo para aliviar seu remorso.
Um tanto atrapalhados com o novo facto, todos permaneciam atentos aos movimentos uns dos outros, como se estivessem lidando com forças Invisíveis e ninguém ousava articular palavra.
Kóstia, saindo daquele torpor, com a alma opressa, travava dentro de si uma enorme batalha.
Desejava matá-lo a sangue frio, derrotar para sempre o responsável por sua desventura, a única testemunha viva da perda de seu rebento.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 18, 2016 8:33 pm

Dominado por uma vontade superior, encontrou coragem para dizer:
- Nada farei, verme imundo... ainda não,... enquanto não me disseres o que foi feito da minha filha... nem que tenhamos os dois de percorrer o mundo, dele não partirás, jamais, sem que antes me digas.
Os negros olhos de Kóstia brilhavam tanto quanto as tochas de fogo.
O Espírito de Sácha, ainda assim não sossegava.
Parecia actuar sobre seu amado, dando-lhe forças para continuar, pois ela viera para o ajuste de contas e todos deveriam saber do paradeiro de sua filhinha.
Seu Espírito inspirava Kóstia que, sem saber, acalmara-se subitamente.
Precisava ganhar tempo.
As emoções perturbavam- lhe o raciocínio; a benéfica intervenção, pediu, agora mais controlado:
- Levemos os prisioneiros de volta à fazenda.
Lá acertaremos as contas.
Se derramarmos o sangue do bandido, a verdade não será esclarecida.
Ele me deve uma resposta.
Apuraremos os factos e saberei como avivar-lhe a memória!
Iahgo, partamos. Concordas, camarada? - perguntou-lhe sem rancor na voz.
Alex Norobod concordou rapidamente, desejando acabar logo com a dolorosa questão:
- Assim será melhor, saiamos deste maldito lugar.
Sumarokov, que participava da cena, aguardando o seu desfecho, decidiu ficar por ali e continuar procurando seu filho.
- Kréstian ainda não foi encontrado - alegou o pai, preocupado.
Sua alma também estava opressa.
A aparição do fantasma de Sácha causava-lhe temor, porque agora não duvidava mais da força daquele Espírito, que do túmulo regressava e unia todos, exigindo o acerto de contas e esclarecendo os factos.
Logo saberiam que Mayra era uma Norobod.
Iulián Sumarokov, acatando a decisão dos companheiros, aproximou-se do prisioneiro e, numa última tentativa para conhecer o paradeiro de Kréstian, propôs-lhe o seguinte:
- Teus sofrimentos serão amenizados se nos disseres onde está meu filho.
Sergei, na verdade, não sabia de seu paradeiro, mas usou da preocupação de Sumarokov e, para ganhar tempo, querendo aumentar a sua expectativa de pai e ao mesmo tempo encontrar um álibi para se amparar e quiçá fugir, falou insolentemente:
- Nem a morte me fará contar-te.
Ele está preso, em lugar onde somente eu conheço.
Matando-me, teu filho morrerá de fome e frio.
Eis minha vingança!
Punhos fechados, Sumarokov avançou para ele, esbofeteando-o.
- Acalma-te, Sumarokov, - pediu Alex - não temas, nós o encontraremos, vasculharemos toda a área, pedaço a pedaço - e voltando-se para os homens que ficaram de guarda, ordenou:
- Vamos! Vasculhemos as redondezas, que nenhuma toca fique sem ser visitada, até encontrarmos o jovem!
Rapidamente, os homens se espalharam, acostumados com a floresta, cada um por um lado, instigados pelo senhor, à procura de Kréstian.
Queriam fazer tudo para agradá-lo, porque muitos deles haviam trabalhado contra ele e agora desejavam se redimir.
Enquanto procuravam o jovem, Kóstia e Alex vigiavam o preso.
Sumarokov, desconfiado de que Sergei estivesse mentindo para ganhar tempo, tinha a vaga intuição de que seu filho não havia alcançado o acampamento e que ele poderia estar se valendo desse ardil para enganá-los.
Arrependia-se de ter-lhe perguntado sobre o filho.
Uma serpente seria menos traiçoeira e decidiu ficar por ali, vigiando-o.
Os dois camaradas, Kóstia e Iahgo, ainda estavam sob o Impacto da recente descoberta, conversavam distraídos, pois a Identidade de Alex Norobod não fora suficiente para destruir a simpatia mútua.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 18, 2016 8:34 pm

O facto de Iahgo ser irmão de Sácha formava um novo laço, sentiam-se como dois Irmãos consanguíneos e que, pela força do destino, tudo o que mais desejavam saber era sobre o paradeiro do rebento de Sácha.
Sergei, enquanto isso, aproveitou a distracção dos dois e, rasteiramente, como uma serpente, conseguiu soltar-se; as cordas mal amarradas facilitavam e, com movimentos rápidos e silenciosos, ele estava pronto para saltar rumo à floresta.
Sumarokov, dando-se pelo feito, inesperadamente, agarrou-o pelas costas; os dois travaram uma luta, corpo a corpo, silenciosa, quando Sergei, valendo-se de afiado punhal oculto por dentro da bota, enfiou-o na coxa de Sumarokov que, ante o impacto da dor, soltou um grito abafado.
Sergei aproveitou o descuido e, como uma lebre, sem deixar rastro, sumiu pela folhagem.
- Peguem-no! - gritou Kóstia, correndo atrás.
Era tarde demais, o mau feitor havia desaparecido.
Os três homens, desapontados com sua negligência, não sabiam o que dizer, enquanto Sumarokov mancava da perna ferida, tentando estancar o sangue com um lenço, quando ouviram um choro.
Voltaram-se os três para a mesma direcção e viram uma mulher saindo de seu esconderijo.
Era Karine, a amante de Sergei que, apavorada com a fuga do amante, rendeu-se medrosamente, antes que fosse descoberta, ou pior, receava ficar sozinha na mata; sabiamente optou por se entregar, pois aqueles homens, pelo menos, eram seus conhecidos.
- Não me faças mal, Sr. Alex.
Rendo-me - pediu entre as lágrimas abundantes.
Todos conheciam sua infidelidade e, com tal atitude desejava alcançar beneplácito de seu senhor.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 18, 2016 8:34 pm

39 - Depoimento de Karine

Nem tudo estava perdido, Karine poderia ser-lhes útil, pensava Kóstia:
a amante de Sergei, que rogava clemência, deveria estar a par de tudo na noite do nascimento de sua filha.
Talvez ali estivesse a resposta que tanto almejava.
Enquanto isso, alguns homens retomavam da mata com as mãos vazias, nada haviam encontrado, nenhuma pista de Kréstian.
Eles mal chegavam e recebiam ordem para procurarem Sergei, que não devia estar longe.
- Esta mulher deve estar a par das falcatruas de seu amante! — gritou um dos homens que chegava.
Karine, perdida, sem ninguém para auxiliá-la, espírito astuto e mesquinho, tentou esquivar-se, desejando salvar sua pele; jamais iria contar ter sido ela a espiã do palácio, levando para o amante as conversas que ouvia atrás das portas.
- Pedes clemência, Karine.
Dar-te-ei, porém, com uma única condição, que me digas a verdade, toda a verdade sobre a noite do nascimento de minha sobrinha, enfim, seu paradeiro.
Nada me escondas! - disse Alex, complacente, desejando resolver logo a dolorosa questão.
A intrigante Karine não teve outra alternativa, senão narrar o que sabia.
- Não mintas e nem omitas, quero a verdade, somente a verdade - exigiu o patrão, lendo em seus olhos verdes a sua infidelidade.
— Está bem, dir-te-ei tudo que sei, adianto, porém, que não vai além do que já sabes, Sr. Alex. - disse Karine, compreendendo a seriedade do momento, que não comportava suas mentiras.
Temia as futuras dificuldades, pois sentia que o amante nunca mais voltaria ali; tratou logo de narrar tudo que sabia e com isto salvar a própria pele.
Começou a narrar com voz rouca e trémula:
— Na madrugada da tragédia, o plano era matar a filha de Sácha, assim que viesse à luz, ordem que o Sr. Norobod havia dado a Sergei, que se tivesse tido a chance a teria cumprido na totalidade.
Alguma coisa, no entanto, fugiu ao seu controle, naquele dia, porque antes de executar o malvado plano, Nastássia, a ama de Sácha, soube da severa ordem e, apavorada com a notícia contou o plano para a jovem, antes que lhe fosse tirado o bebé.
Tinham que agir rápido, e ela decidiu, a pedido de Sácha, salvar a criança a qualquer custo, empenhando a própria vida.
Tudo arrumaram tão rapidamente, que quando deram por falta da criança, a ama já ia longe.
O alvoroço foi grande.
Ninguém soube ao certo como ela conseguiu sozinha tal façanha, burlando a severa vigilância.
A fuga foi descoberta.
Norobod colocou alguns homens ao encalço de Nastássia que, com certeza, não poderia estar longe.
A moça foi pega, mas em seus braços estava apenas o simulacro de um bebé, uma trouxa de panos os enganou.
Cego de raiva por causa disso Sr. Norobod mandou executá-la barbaramente, após cruel interrogatório.
Foi apenas mais uma vítima das maldades de Norobod e Sergei.
A criança havia desaparecido e a valente ama preferiu a morte a contar a quem havia entregue o bebé.
Assim, ninguém, na fazenda, soube o que lhe aconteceu e muitos diziam que ela havia nascido morta.
Desconfio que alguém mais esperto a surripiou naquela noite e tratou de se calar para sempre.
É tudo que sei.
Acredito que ninguém mais poderá dizer-te algo além disto.
A narrativa deixou-os perplexos.
Alex não conseguia acreditar na maldade de seu pai, que o deixava angustiado e envergonhado perante Kóstia.
O valente revolucionário tinha tanto ódio guardado, que se calou, respeitando a dor de Alex, compreendendo as divergências do carácter de pai e filho.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 18, 2016 8:35 pm

Vazio, porém, continuava.
Quanta dor se escondia nos olhos de Kóstia!
Sumarokov, que ouvia atentamente a história, também conhecia um pedaço, tirando suas conclusões, mas nada podia dizer.
Deduziu que aquele bilhete, o qual conservava em seu peito, na algibeira, talvez fosse de Nastássia.
Quem, por ventura, poderia afirmar que sua menina fosse a inocente criança?
O facto único da semelhança não era o suficiente para afirmarem que fossem mãe e filha.
Ele se calava prestando muita atenção, disposto a conservar o seu segredo, guardando a promessa junto ao leito da esposa moribunda.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 18, 2016 8:35 pm

40 - Sácha não descansa

No entanto, não era isto o que desejava o Espírito de Sácha.
Ela não descansaria, enquanto a verdade não fosse apurada, seu Espírito não encontraria a paz.
Precisava acalmar-se e retomar aos planos siderais de sua evolução, junto àqueles que a tutelavam e desejavam ardentemente o seu erguimento.
A centelha indestrutível de que o Espírito é feito deveria cumprir sua missão e cujo fim se aproximava para seu Júbilo.
Sua filhinha, bela e inocente, teria ainda que descobrir sua verdadeira origem, apesar do temor daquele que a adorava, disposto a morrer com o juramento que fizera à adorada esposa agonizante.
Sumarokov desejava ardentemente esquecer que Mayra não lhe pertencia por direito.
Somente ele, dentre os vivos, conhecia a verdade e a poderia testemunhar, desfazendo o mal-entendido.
O espectro iluminou a sua passagem, provocando arrepios no organismo de Sumarokov que, fechando os olhos, calou-se, temeroso.
Uma vez solta, Karine olhava a seu redor, procurando amparo.
Seus olhos maliciosos, agora suplicavam:
- Não me abandones, rogo-te, Sr. Alex.
Admite-me novamente ao serviço, não tenho para onde ir - humilhava-se, genuflexa.
Prometo-te minha fidelidade e pagar-te-ei, com meu trabalho, o tecto e o pão - implorava Karine que, vendo-se abandonada, naquele momento adoptava a atitude mais inteligente.
Actriz exímia, suas lágrimas pareciam sinceras.
Cumprindo o trato, devido à narrativa, Alex ofereceu-lhe montaria.
Ela retomaria à fazenda, talvez lhe fosse útil conservá-la.
Todos os empregados que ficaram estavam igualmente arrependidos e, espontaneamente, desculpavam-se com o senhor das terras, prometendo-lhe total fidelidade.
Aproveitando aquele momento de adesões e decisões, Alex falou alto:
- Camaradas, o que sucedeu nestes dias, não se repetirá, pelo menos em minhas terras, porque aqui haverá igualdade de direitos ao trabalhador e remuneração digna ao esforço de cada um.
A servidão acabou!
Estais libertos para decidirem seu destino.
Aqui, ninguém deve sentir pejo em expressar os verdadeiros anseios.
Há muito esperava por este ajuste de contas, pelo visto, Sumarokov e Karosky deram testemunho de sua fidelidade à causa - voltando-se para os dois mujiques, estendeu o braço em sua direcção e declarou:
- Eu os nomeio novos gerentes, a quem todos devem prestar obediência e respeito.
Todos terão casas próprias e, doravante, comprarão o alimento com o esforço do próprio trabalho e a produção de cada um será dignamente paga conforme o rendimento.
Os filhos frequentarão a escola, nenhum filho de mujique, em minhas terras, deixará o estudo para acompanhar os pais ao trabalho.
Cuidarei para que os analfabetos se instruam.
Nossa Rússia necessita de homens cultos e laboriosos.
Comecemos plantar aqui, um novo tempo de honestidade e trabalho, esquecendo os crimes perpetrados nesta propriedade.
Mudemos nosso destino e o solo da Mãe Rússia, a quem tanto amamos, haverá de ser abençoado, afastando a fome e a miséria que o inverno da Insurreição ameaça.
Vamos, camaradas! Todos, adiante!
Palmas calorosas e gritos envolveram o pequeno grupo e, cantando, retornaram aos lares, como se tivessem vencido o monstro da infâmia.
Pareciam haver se esquecido do jovem Kréstian, porque os mujiques voltaram da busca de mãos vazias.
Sumarokov decidira ir mais além, apesar da perna machucada.
Envolveu o ferimento com um lenço manchado de sangue que encontrara e, depois, embrenhou-se pela floresta, enquanto os outros regressavam, cavalgou até os campos de lavoura que se perdiam de vista.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 18, 2016 8:35 pm

Talvez seu filho estivesse perdido.
Depois de cavalgar alguns minutos, sentiu que uma força sobrenatural o levava em outra direcção.
Após mais de uma hora, encontrou-se perto da choupana onde, numa madrugada gélida encontrara um bebé a tiritar de frio.
A isbá abandonada estava um pouco mais acabada, sendo lentamente destruída pelo tempo, no meio do matagal que antecedia às plantações de girassol que se perdiam na encosta.
Algo que lhe escapava aos sentidos o levara até lá.
Curioso, aproximou-se.
O silêncio era total.
Ouvia-se somente o trotar do animal que sulcava a terra coberta de cinzas e ramos secos.
Aquele lugar parecia mal-assombrado, ninguém gostava de se aproximar dele, por isso era pouco frequentado.
Desceu do cavalo e entrou.
Algumas madeiras haviam caído, o tecto estava prestes a desabar, servia apenas como morada de animais peçonhentos.
O grabato onde encontrara Mayra ainda estava lá, sinal de que ninguém mais havia estado ali.
O lugar causava mal-estar e medo.
Um barulho seco vindo do interior da cabana assustou Sumarokov, que não sabia se recuava ou avançava.
Ficou paralisado, aguardando.
O barulho continuou, embora timidamente, como se algum animal estivesse preso e querendo se soltar.
O homem, decidido a ver o que acontecia, ouviu um gemido vindo do interior.
Que felicidade!
Era Kréstian, tentando se desenvencilhar das teias de aranha.
O rapazelho vendo o pai, gritou emocionado e aliviado:
- Papacha, papacha!
- Kréstian, meu filho, como vieste parar aqui? - Sumarokov auxiliou-o a se desembaraçar das teias de aranha que se grudaram no seu casaco de pele.
Vem, filho, saiamos desse lugar sombrio -, disse arrastando-o.
Olhou para os lados e nada viu.
- Onde está teu cavalo, Kréstian?
- Nem queiras imaginar, pai, roubaram-me.
- Como, roubaram-te?
- O paspalho do Sergei.
Deixei-o ali, felizmente, ele não me viu.
Escondi-me enquanto ele fugia, parecia um louco.
Só em pensar no que poderia ter acontecido a Kréstian, se Sergei o tivesse visto, Sumarokov respirou aliviado.
Que se danasse o cavalo!
O importante era seu filho estar são e salvo.
Aliviado, o pai falou:
- Deixa-o seguir seu destino, porque os próprios demónios que ele conquistou com seus crimes, tomarão conta dele,
Sumarokov olhou ao redor e completou:
- Felizmente ele não te viu, vamo-nos daqui, filho.
Este lugar me traz muitas recordações.
O importante é que te encontrei, Catienka deve estar muito preocupada.
Pai e filho montaram o mesmo animal e Kréstian perguntou:
- Por que, meu pai, este lugar te trás muitas recordações?
Sumarokov, desviando o assunto, sorriu, olhando antes a cabana, ninho de bichos peçonhentos e corvos, para depois responder-lhe:
- São coisas do destino, como eu haver te encontrado aqui, hoje.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 18, 2016 8:35 pm

Forças, Kréstian, que somente o tempo e a vida poderão nos responder. Vamo-nos!
Kréstian, sem compreender a alusão do pai, olhou a velha choupana.
Parecia que ali estava toda a sua felicidade, seu couro cabeludo arrepiou inteiro.
-Ah! que sensação mais estranha!
Vê, papacha, como estou arrepiado inteiro?
Este lugar também me trás muitas recordações, apesar de nunca ter estado aqui antes.
Estranho! Vim parar aqui, guiado por uma luz, agora percebo que era noite e, sem aquela luz, jamais chegaria aqui... neste abrigo.
- São coisas, Kréstian, que não se explicam, mas acontecem.
Voltemos logo.
Ambos saíram, imediatamente, com o único desejo de acalmar os que ficaram na expectativa da busca.
Como deveriam estar ansiosas e apreensivas, Mayra e Catienka.
Felizmente, tudo terminara bem.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 18, 2016 8:36 pm

41 - Na isbá do cercado

Na fazenda, quando Kréstian e Iulián chegaram, a alegria foi geral.
Mayra, emocionada foi recebê-los.
Tão grande era a sua vontade de abraçá-los que ia à frente de todos, seguida por Catienka, igualmente feliz.
A garota não viu uma pedra, nela tropeçou, caiu e machucou-se.
Todos corriam para acudi-la.
A atenção e o interesse que a menina-moça despertava aumentava o ciúme de Sácha, a filha de Sónia, que sempre se sentia preterida.
Temperamento impulsivo como o da mãe, Sácha mordeu os lábios de raiva e seu rosto ficou sombrio.
Sónia, que conhecia a filha, disse-lhe:
- É sempre assim, Sácha, as atenções se voltam para esta pirralha pobretona que, cheia de dengo, vai tomando nosso lugar.
Tua avó bem que poderia compreender que não pode esquecer a própria neta para dar carinho a uma filha de empregados!
As palavras da mãe, de certa forma, consolavam a mocinha enciumada, mas não conseguiam aplacar sua raiva e seu despeito.
Aquela garota estava sempre atravessando o seu caminho.
Olhou para os lados e viu Nicolau, que não compartilhava tanto das atenções dispensadas a Mayra.
Num canto, observava a cena com um sorriso enigmático.
- Tua irmã sempre rouba a melhor cena, não achas? - insinuou Sácha, maliciosamente.
- Não entendo do que estás falando, Sácha, explica-te melhor - disfarçou Nicolau.
- Não te faças de ingénuo, Nicolau.
Tua irmãzinha é muito cheia de dengo!
Um simples tropeção provocou um tumulto à sua volta, ninguém mais percebe ninguém, somente ela tem a atenção da vovó e de todos!
- Ah!... - respondeu Nicolau, sem lhe dar razão.
A mocinha chegou-se mais perto dele e sussurrou:
- Esse negócio de ver Espíritos, acho muita cretinice por parte dela.
Achas mesmo que tudo seja verdade?
Os olhos negros de Nicolau brilharam faceiros.
Olhou a companheira, erguendo uma das sobrancelhas espessas que sombreavam seu olhar, tornando-o mais bonito.
A boca vermelha contraiu-se e, demonstrando certa contrariedade, pois não gostava de entrar em detalhes sobre as comunicações dos Espíritos que vinham rondando Mayra, respondeu firme com uma nova pergunta:
- Qual é tua intenção em levantar questão que só compete a meus pais, ao professor Dmitri, que está pesquisando minha irmã e os fenómenos que lhe acodem... que tens com isto, Sácha?
Sem ocultar sua contrariedade, não conseguindo que a conversa tomasse o rumo desejado, Sácha mudou de técnica, sentindo que Nicolau tomava a defesa da irmã.
- Não, não fiques sentido, Nicolau, estava apenas duvidando de certos factos.
Não se deve acreditar em coisas que não se vê, e apenas ela vê.
Ela pode estar mentindo, inventando, sei lá o quê... considero isto uma grande farsa, um meio de chamar a atenção e ela consegue porque todos se derretem por causa disso, até meu pai... - não conseguindo disfarçar sua inveja.
Nicolau não se sentia disposto a atacar a irmã, que nunca o ofendera.
Entre os dois sempre houvera dificuldades no relacionamento, diferenças que com a idade e a compreensão iam, aos poucos, se desfazendo.
O rapaz tinha opinião formada sobre o assunto e desejava, secretamente, compreender melhor o que se passava com a irmã, e assim, melhorar o seu relacionamento com ela.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 19, 2016 8:39 pm

- Desculpa-me, Sácha, vou ver se precisam de minha ajuda - dizendo isto, deixou a jovem e correu para o grupo que acudia a irmã.
O olhar de Sácha expressava grande decepção e, dentro dela, gritava:
-Essa garota se intromete demais em meu mundo!
Sumarokov levava Mayra nos braços para o interior da isbá.
Não era nada grave, mas era necessário estancar urgentemente o sangue que jorrava abundante de seu joelho.
Kréstian corria pressuroso ao lado do pai, nem chegara a abraçar a irmã.
Depois de acomodá-la no leito, Catienka trouxe uma bacia com água e sal e começou a passar delicadamente um pano embebido na salmoura no ferimento até cessar o sangramento.
- Oh! papai tirei a alegria de tua chegada.
Estávamos tão ansiosos!
- Felizmente, meu amor, tudo terminou bem, aqui estamos todos juntos, graças a Deus e ao valente Karosky — e Sumarokov passou a narrar detalhes da captura, até à libertação.
- Quero que me contes tudo, Kréstian, porque nos deste muitas preocupações.
Nunca rezei tanto em minha vida por alguém... - sorrindo, brincou Mayra, mostrando seus dentes alvos.
Estás a me dever esta! .
Neste momento, uma visita inesperada entrava em casa de Iulián Sumarokov.
Era Kóstia que chegava juntamente com Alex Norobod, atraídos pelo incidente.
Kóstia olhou em redor.
A isbá havia sofrido muitas modificações.
Era naquela casinha que ele e Sácha se encontravam, escondidos dos olhos alheios.
Acomodados em cadeiras confortáveis, os dois homens queriam falar com Sumarokov e desejavam saber se a filha precisava de novos cuidados.
Kóstia ainda não tinha avistado a filha do amigo.
- Sejam bem-vindos, camaradas! - exclamou satisfeito Iullán.
Quanta honra tenho em recebê-los em minha pobre isbá!
Os visitantes nem sequer deram atenção às suas modestas palavras, abraçando-o comovidos.
- Precisamos comemorar a libertação, nossas duas vitórias! - disse Alex.
Como está Mayra?
Não chegamos em tempo para socorrê-la, mas mamãe deve estar vindo com sua farmácia ambulante.
Aguardem! - troçou brincalhão.
A pequena sala estava cheia, quando a Sra. Norobod entrou, trazendo uma cesta de medicamentos na mão.
À entrada da mulher, Alex mal a viu começou a sorrir, completando sua observação Jocosa:
- Eu não disse?
i- Disseste, o quê, meu filho? - perguntou a Sra. Norobod sem compreender.
Pegando a cesta das mãos da mãe, Alex retrucou:
- Que virias com esta cesta cheia de medicamentos!
Aliás, que dão para um batalhão!
Sem se importar com a brincadeira do filho, a Sra. Norobod entrou logo no quarto para ver Mayra.
Kóstia também, levado por um impulso acompanhou-a, desejando ajudar.
A menina estava deitada, seus cabelos louros como o trigo espalhados sobre o travesseiro.
A pouca luz do quarto realçava sua tez clara e seus olhos azuis irradiavam intensa luminosidade.
Kóstia olhou-a por um instante, prendeu a respiração e, quando conseguiu voltar de sua surpresa, deu um sussurro abafado:
- Meu Deus! Sácha!
Maquinalmente, a velha Norobod voltou-se para ele, examinando-o de alto a baixo, parecendo reconhecê-lo, porém, não se recordava de onde.
- O que dizes? - indagou espantada.
Kóstia começou a chorar.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 19, 2016 8:39 pm

- É o retrato vivo de minha Sácha!
A Sra. Norobod também estava emocionada, porque percebia essa grande semelhança, e foi justamente por isso que se afeiçoou tanto à menina.
E agora, aquele estranho vinha, mais uma vez, confirmar a grande semelhança.
A presença daquela menina viera preencher o vazio de sua vida, alegrar-lhe a existência e diminuir a saudade de sua querida Sácha.
- Tua Sácha?! - perguntou assustada, a Kóstia.
- Não te recordas de mim, Sra. Norobod?
Pudera, faz tentos anos que tudo aconteceu...
Espantada, a Sra. Norobod aguardou que continuasse a falar, tentando reconhecê-lo, mas nada lhe vinha à memória.
Naquele momento, Kóstia ou Wladimir estava demasiado emocionado e engasgado para conseguir se expressar.
Catienka assistia à cena sem nada compreender.
Mayra, igualmente surpresa, os acompanhava em silêncio e Catienka, respeitosa, a seu lado, também esperava o desfecho daquele assunto.
- Todos julgaram-me morto.
Sou Wladimir Antón Boroski, o namorado de tua filha!
A Sra. Norobod desfaleceu ante o impacto da notícia, sendo amparada por Wladimir.
O quarto era pequeno e abafado.
Com o auxilio de Catienka, ela foi levada para a sala e sentaram-na em uma cadeira.
Alex correu para eles, querendo socorrer a mãe, mas ela já estava se recuperando do desmaio, enquanto Sumarokov colocara um ramo cheiroso em suas narinas.
Aos poucos, foi despertando e logo estava melhor.
Catienka deu-lhe uma ânfora com álcool misturado a algumas ervas medicinais para que ela cheirasse.
A mulher, aspirando a mistura cheirosa, olhava para os lados à procura de Kóstia.
- Vem aqui, meu filho.
Vem, Wladimir - chamou-o, estendendo-lhe a mão.
Kóstia segurou sua mão, ajoelhou-se sobre o tapete, sob os olhos de Alex, que já sabia da história, aguardando o momento oportuno para falar com a mãe, mas os acontecimentos precipitaram a novidade.
Sumarokov a tudo assistia, muito desconfiado.
-Julgava-te morto, incinerado... - dizia a Sra. Norobod.
Como foi que tudo aconteceu, como te salvaste?
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 19, 2016 8:39 pm

42 - Depoimento de Wladimir

Kóstia, incentivado por todos, começou a narrar o facto.
A Sra. Norobod queria fazer a grande pergunta, mas faltou-lhe coragem.
Seus lábios tremiam cheios de emoção.
Ela queria saber notícias da criança.
Talvez fosse ele o vulto que ajudara Nastássia a fugir naquela noite, e a criança estivesse com ele, escondida, uma vez que se encontrava vivo, pela misericórdia divina.
Catienka voltou do quarto, postou-se junto a Sumarokov e ouviu um pedaço da narrativa que já conhecia em parte, mas aquele novo personagem vinha alterar muita coisa.
A moça achava estranha a semelhança entre Mayra e a morta, a ponto de o rapaz imaginar que ela fosse a própria noiva.
Havia algo ali errado, muito errado, mas naquele momento sua cabeça rodava e não conseguia chegar a nenhuma conclusão.
- Quem ficou com o bebé? - perguntou Catienka, cheia de curiosidade, antecipando as palavras da Sra. Norobod.
A pergunta ficou sem resposta.
Kóstia continuou a narrativa, como se estivesse revivendo as cenas cruéis, com os olhos cheios de amargura e de ódio, porque nenhum dos dois culpados ali se encontrava.
Em respeito à velha Norobod, ele não quis destilar mais seu antigo rancor contra a pessoa de seu marido:
- Não podia, de modo nenhum, aproximar-me da mansão, com o risco de ser capturado e morto.
Nosso plano de fuga não tinha sido descoberto.
Alguém estava a nos espionar, desconfiei de que alguém mais astuto ainda pudesse estar vigiando Sácha.
Dentro do palácio deveria haver um espião.
Tentei arrumar uma saída, arquitectando novo plano, Nastássia era o nosso único meio de comunicação e havíamos combinado que, após o nascimento de nosso filho, fugiríamos os três para bem longe e levaríamos a ama connosco.
Nastássia confortava-a, sem lhe contar que eu estava vivo, deixando a novidade para a etapa final do plano.
A fiel Nastássia dizia-me que até as paredes do castelo tinham ouvidos, todo cuidado era pouco.
Nossa estratégia tinha tudo para dar certo, uma vez que estavam desarmados quanto a mim; todos julgavam-me morto.
Eu sofria muito, ocultando de Sácha a verdade.
Não podíamos contar-lhe o nosso segredo, para não atrapalhar o nosso projecto de fuga.
Ela sofria muito com a minha morte e a alegria de minha vida poderia pôr tudo a perder.
Nastássia, valentemente, conseguia burlar a vigilância e visitar-me no esconderijo.
A pobre mulher pedia-me entre lágrimas:
- Deixa-me contar à nossa Sácha que estás vivo, isto amenizarão seu sofrimento.
Respondia-lhe:
- Ainda não, Nastássia, não podemos correr o risco.
Pura como é, Sácha não saberia fingir.
É melhor que me continue julgando morto.
No dia seguinte, Nastássia, entre lágrimas, visitou-me em meu esconderijo e contou-me, horrorizada, que a última ordem seria assassinar meu filho no nascedouro...
O ódio me enfureceu de tal forma, que se pudesse, naquele momento, entraria a qualquer custo no palácio e de lá retiraria Sácha antes que meu filho viesse à luz.
Tal estado de alma quase me traiu.
A boa Nastássia, no entanto, não podia abandoná-la à sua dor, estava muito deprimida e, para ajudá-la, quando se viram a sós, contou-lhe que eu estava vivo e expôs-lhe o nosso plano para lhe dar forças; subtrairíamos a criança, primeiro, depois a buscaríamos.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 19, 2016 8:40 pm

O nosso medo então, era a captura do bebé ao nascer.
Sácha ficou tão feliz com a notícia de minha falsa morte, que suas forças aumentaram, queria lutar e trazer ao mundo nosso filho.
Mandava-me palavras de amor, através de Nastássia, e a esperança do reencontro nos dava vida e forças para superarmos a saudade e sobrevivermos.
Na noite do nascimento, Inesperadamente aconteceu um problema, embora atento a todos os movimentos, o horário me era apropriado, a escuridão favorecia o nosso plano.
Nastássia e eu havíamos combinado um sinal, na hora em que a criança nascesse.
Aos primeiros sintomas do parto, eu já estaria por ali.
Assim que nasceu, ela entregou- me minha filha pela janela do quarto e simulou uma trouxa como se fosse o bebé, no caso de alguém mais entrar no quarto.
Sácha estava tão fraca que nem notou minha presença na janela.
Quando alguém, do lado de fora, percebeu minha presença, deu alarme e me seguiu.
Com aquele bebé nos braços, minhas pernas pareciam ter adquirido asas, corri celeremente, não enxergava nada à minha frente.
Depois de correr bastante, detive-me na parede de uma choça abandonada.
Suspirei aliviado, pelo menos encontrara um tecto.
Tive receio de que estivessem me seguindo e coloquei minha filhinha sobre um grabato.
Realmente, alguém estava me seguindo, ouvi o barulho de uma carroça.
Tentei desviar meu perseguidor para que não apanhasse minha filhinha, e corri, fazendo barulho, atraindo sua atenção para o meu lado, afastando-o da cabana.
Quando me despistasse dele, voltaria e pegaria meu bebé, julgando que mais ninguém poderia encontrá-lo naquela cabana erma.
Assim, logo que consegui despistar meu perseguidor e quando tudo se acalmou, voltei silenciosamente atrás de minha filha.
Demorei muito a encontrar a cabana e, quando lá cheguei, já era quase dia.
Minha decepção foi grande; minha filha não estava lá.
Havia escrito um bilhete, caso algo acontecesse e eu não pudesse ficar com ela.
Agora, era inútil o pedaço de papel, embolei-o e deixei-o sobre o grabato.
Desesperado, voltei à fazenda arriscando minha própria vida e achei, no caminho, o cadáver de Nastássia e, junto, a trouxa totalmente desfeita.
Grande temor apossou-se de minh’alma.
Onde estaria minha filha?
Procurei-a por todos os lados, ocultamente.
Rondei o palácio para saber notícias de minha Sácha.
Ocultava-me de todos, porque fora dada ordem para me executar.
Soube que Sácha também havia morrido.
Escondido, assisti ao seu funeral.
Um amigo, que sabia de tudo, informou-me que na fazenda não havia nenhuma criança.
Procurei minha filha por todos os cantos possíveis, ninguém dava notícia.
O desespero tomou conta de mim e, cego de dor, abandonei este maldito lugar.
Nunca mais soube do paradeiro de minha filha.
Parecia que a terra a tragara.
Depois soube por um mujique que quem me perseguia na noite fatídica, era Nastássia.
A ama havia fugido numa carroça paira me avisar que fora descoberto e despistar alguém que, por ventura, me pudesse seguir.
A trouxa que encontrei junto a seu corpo era o simulacro do plano da valorosa ama de Sácha, que pagara com a própria vida a da minha filha.
Só Deus e Sácha poderão saber onde está!
O silêncio era geral.
Todos estavam muito emocionados para dizer alguma coisa.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 19, 2016 8:40 pm

Wladimir terminara a narrativa com a voz embargada pela emoção e pelas lágrimas.
A Sra. Norobod também chorava.
Iulián Sumarokov, trémulo e calado, num canto, escutava a narrativa de Wladimir.
Agora ele confirmava os factos.
Instintivamente, Sumarokov levou a destra ao peito, onde trazia guardado o bilhete.
Não se sentia encorajado a se desfazer dele.
Tivera ímpetos de queimá-lo, e nem ele mesmo sabia o motivo que o levava a guardar uma prova que, agora, já não tinha mais sentido, porque tinha certeza de que sua Mayra era a mesma neta de Norobod.
Finda a história, um barulho vindo do interior chamou-lhes a atenção; era Mayra, que se levantara, abrira a porta, rangendo-a levemente e entrara na sala calmamente.
Todos os olhares estavam voltados para ela.
Olhou atentamente Kóstia, aquele homem que estivera em seu quarto, chamara-a de Sácha, e, logo depois, a Sra. Norobod sentira-se mal.
O que afinal estava acontecendo?
Mayra era o retrato vivo de sua mãe e Kóstia não conseguia desviar os seus olhos dela.
Sentia uma súbita ternura por ela, uma paz tão grande que, instintivamente, levantou-se e se aproximou dela, multo emocionado:
- Como é bonita tua filha, Sumarokov! - exclamou, virando-se para o pai, que não sabia o que dizer.
Mayra sorriu envergonhada, também simpatizando com o desconhecido.
Seu coração batia descompassado e ela procurava ficar calma.
- Obrigada, senhor... - respondeu timidamente, ao galanteio, vencendo a emoção.
- Wladimir. - disse, completando sua frase, julgando-se por um instante estar à frente de sua amada.
Tive outrora uma namorada, cujo nome era Sácha, e deveria ter a mesma idade tua.
E como te pareces com ela!
Estás melhor? Teu machucado ainda dói?
- A dor já passou, Sr. Wladimir - respondeu, modestamente.
Kóstia, encorajado, voltando-se para Sumarokov pediu:
- Permites-me visitar-te mais vezes?
- Claro, claro, camarada, volta outras vezes - Iulián respondeu-lhe um tanto contrariado, percebendo o visível interesse do amigo e a grande admiração que ele despertara em sua filha.
Preocupado com o desenrolar dos acontecimentos, tentou desviar o assunto, olhou para a noiva, indagando:
- Catienka, temos chá suficiente para todos?
- Sim, Iulián - respondeu, precisa.
Inclinando a cabeça para Mayra, pediu-lhe que auxiliasse Catienka.
- Vem, Mayra, ajuda-me a servi-lo.
Com licença, senhor - graciosamente, Mayra fez uma vénia para Wladimir e acompanhou Catienka até o fogão onde estava fervendo a água.
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