Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 19, 2016 8:40 pm

43 - O camarada Kóstia enamora-se

Kóstia, encantado com a moça, acompanhou-a com o olhar e ninguém duvidou de seu entusiasmo.
As duas saíram e o assunto na sala versou sobre os últimos acontecimentos, a reunião na cidade, o grande êxito alcançado Junto aos trabalhadores.
Kóstia, porém, estava totalmente alheio, o olhar vago e sem brilho.
Animou-se somente quando as duas mulheres trouxeram o samovar fumegante e o colocaram sobre a mesa.
Enquanto as duas serviam o chá, todos notaram os olhares incandescentes que Kóstia endereçava à bela Jovem.
Ela, também, sentia-se atraída por ele, lançava-lhe olhares ora tímidos, ora um pouco mais audaciosos.
Aquele homem maduro, despertava nela um sentimento estranho e comovente.
Seu coraçãozinho parecia saltar no peito.
Afinal ele era amigo de seu pai, mas parecia ser bem mais jovem do que ele; era um belo homem.
A noite terminou alegremente.
Kóstia ia dormir em casa de Alex.
Ele, o antigo empregado, perseguido até a morte, agora entrava na mansão à convite do dono.
Ironia do destino, pensava Kóstia, ainda com o coração cheio de amargura pelas antigas e dolorosas recordações.
Aquela jovem, cujo olhar inocente o alegrara, parecia um sol clareando seu caminho.
Até então, vivera só com as lembranças de sua meiga e doce Sácha.
O destino caprichoso lhe colocava à frente alguém tão parecido com sua amada!
Parecia viver um sonho!
Talvez ela tivesse a mesma idade de sua filha, se hoje estivesse viva.
Grande solidão o invadiu, quando adentrou o solar dos Norobodivlsky.
Estava em casa de sua amada, respirando o mesmo ar que ela respirara.
Tantas recordações tiraram-lhe o sono.
Tinha a impressão de que Sácha estava com ele a noite inteira e ele mal conseguia esperar o dia amanhecer para rever aquela bela criaturinha que tanto o emocionara.
Mayra, igualmente, naquela noite, não conseguiu conciliar o sono.
Nunca experimentara sensação igual em toda a sua vida.
Era como se já o conhecesse.
A figura do belo homem de olhos negros não lhe saía do pensamento.
Seu olhar penetrem te parecia persegui-la por toda parte.
Os olhos azuis da jovem brilhavam na escuridão.
Os longos cílios piscavam lentamente como se estivesse vendo várias figuras, e assim ficou até tarde, conseguindo dormir apenas pela madrugada.
No dia seguinte, levantou-se abatida.
Sua perna ainda doía e a violenta queda provocara-lhe dores nas costas.
Quando Kréstian dirigiu-se cedo para a cozinha, Catienka há muito estava acordada, pois Sumarokov tinha que se reunir com Alex e alguns mujiques para decidirem importantes mudanças no trabalho.
O jovem encontrou Catienka colocando sobre a mesa delicioso pão de centeio e chá quente.
- Bom dia, Catienka! - cumprimentou, alegre.
- Bom dia, Kréstian!
- Onde está papai?
- Teu pai foi à mansão, tem muitas coisas a acertar.
Sr. Alex nomeou-o gerente de algumas lavouras e devem estar, agora, reunidos.
- Felizmente, o pesadelo terminou... - disse Kréstian, assentando-se num banco.
Ah! Catienka, precisavas assistir à fuga de Sergei...
Aquele danado quase me encontrou, mas estava tão apavorado que acabou levando o meu cavalo.
Por um momento, pensei que me pegasse...
Nunca passei noite igual... Foi horrível.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 19, 2016 8:40 pm

Felizmente, papai me encontrou.
O rapazinho estava terminando de contar sua façanha, quando Mayra entrou mancando, cumprimentou-os sorridente e ouviu a última frase.
- Kréstlan, conta-me como foi tudo isto... - pediu-lhe que repetisse a aventura.
Desculpa-me, ontem o ambiente estava multo tumultuado, não te pude ouvir, como foi que te encontraram?
Kréstlan passou a narrar, em detalhes, a aventura que vivera desde que fugira atrás do pai, e as duas mulheres o ouviam atentamente.
- Onde fica tal cabana? — queria saber Mayra, interessando-se.
- É um lugar abandonado, fica perto dos trigais, vais gostar, Mayra, lá existe grande quantidade de azul dos bosques19...
Lembras-te de quando as colhíamos para enfeitar teus cabelos?
- Como não? É minha flor preferida.
Leva-me ao campo, Kréstian, quando minha perna estiver boa. — pediu a jovem.
Quero apanhar algumas flores... - virando-se graciosamente para Catienka:
—Temos algumas jarras sobre o armário que precisam ser enfeitadas...
Os três continuaram a conversar animadamente, saboreando o delicioso pão de centeio, que molhavam em uma espécie de mingau, enquanto tomavam chá quente.
Logo entraram os outros Irmãos, já atrasados para a escola.
A mesa ficou cheia de juventude risonha.
Os irmãos riam e comiam à vontade.
De repente, a cozinha esvaziou.
Pável, que ficou por último, perguntou:
- Não irás?
- Não irei, Pável, não me sinto bem... - justificava-se Mayra que, indisposta, ainda mancava.
- Que pena! Logo hoje que o professor Semión retornará? - retrucou Pável, esforçando-se para que a irmã fosse com ele.
- Sim. Estou muito indisposta - disse-lhe, acenando com a mão.
Pável seguiu atrás dos irmãos.
Catienka, preocupada, voltou-se para Mayra:
- Deixa-me ver teu ferimento?
Ela ergueu a saia, o machucado não sangrava, mas estava inchado e vermelho.
- Vou colocar uma compressa, Mayra, aguarda-me!
Com a perna estendida sobre a almofada, a mocinha olhava o ferimento, mas seu pensamento estava no simpático amigo de seu pai que ela conhecera na noite anterior.
Quando a moça voltou com alguns panos, perguntou, tentando disfarçar seu interesse:
- Catienka, já conhecias Wladimir?
- Sim. Teu pai e eu o visitamos uma vez, só que ele se apresentou com o nome de guerra, Kóstia.
Não conhecíamos seu verdadeiro nome, mas Kóstia e Wladimir são a mesma pessoa - respondeu Catienka.
Observando o seu interesse e, para incentivá-la, perguntou-lhe:
- É um belo homem, não achas?
Mayra corou.
Era muito sincera em suas observações e, indiferente ao que Catienka pudesse pensar, confirmou:
- É verdade, é um belo homem!...
- Estás te tornando uma mulher... - sorriu a noiva de Sumarokov, enquanto colocava água fervente nos panos, olhando-a de soslaio.
E mudando totalmente o rumo da conversa, Mayra, ainda com olhar contemplativo para a janela, de onde se avistava a escola, fez uma carinha triste.
- O que é agora? - perguntou Catienka, vendo-a com o semblante assim.
- Apenas gostaria de saber, Catienka, porque Nicolau não liga para mim.
Ele nem sequer se interessa pela minha saúde, trata-me como se eu não existisse.
- É tua impressão, Mayra, Nicolau é um tanto calado, talvez seja por isto.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 19, 2016 8:41 pm

- Se o observares bem, Cattenka, verás que tenho razão.
Ele mal me cumprimenta e sinto que até se esquiva de mim.
Catienka, que nada havia observado de estranho no comportamento de Nicolau, ainda retrucou para a enteada:
- Estás sendo injusta.
Ele te adora e fala sempre muito bem de ti, referindo-se a ti com muito respeito e consideração.
Eu mesma sou prova disto.
- Nunca reparaste, Catienka, que quando nos encontramos a sós, minha presença o incomoda.
- Ainda continuo pensando que estás mimada e exagerando, querendo que todos te dêem atenção.
És a única irmã, portanto, a única e mais querida - assim falando, passou os dedos pelos longos cabelos louros da menina, dando-lhe algumas palmadinhas na cabeça e depois, retirando as compressas, convidou-a:
- Vamos descascar lentilhas?
Tudo mudava agora na fazenda Norobodwisky, sem a presença do antigo feitor, causador de tantos infortúnios e tragédias.
Alex estava exultante e sua alegria contagiava os demais.
Wladimir Boroski deveria regressar a S. Petersburgo para dar continuidade ao trabalho.
Qualquer desleixo seria fatal e seus planos poderiam fracassar.
Viajaria logo que Sémion regressasse.
Muito impressionado com a filha de Sumarokov, Kóstia olhava-o com novo interesse, já o admirava pela dedicação que demonstrava à causa e, agora, com o objectivo de se aproximar de sua bela filha.
Infelizmente o dever o chamava.
Queria ficar e conhecer melhor a bela Mayra, mas acalentava a firme decisão de voltar outras vezes à fazenda.
Demonstrando preocupação com o estado de saúde da filha de Sumarokov, perguntou-lhe:
- Como está tua filha, camarada?
Contrariado, observando tanto interesse, respondeu- lhe lacónico:
- Está passando bem.
Quando vim para cá, ela ainda estava deitada...
- És um homem feliz, Sumarokov, com tal anjo em casa...
Quantos anos tem tua filha? — insistiu o amigo.
Mais lacónico ainda, Iulián Sumarokov respondeu:
- Quinze.
- Sabia, Sumarokov - disse Wladimir, sem se incomodar com a breve resposta -, que se minha filha estivesse viva deveria ter mais ou menos a idade da tua?
A esta observação, Sumarokov estremeceu, tentando fugir ao seu olhar.
Sentiu-se aliviado quando Karosky se aproximou deles, para argumentar:
- Camaradas, temos longos dias de trabalho pela frente, para reparamos os estragos que Sergei, voluntariamente, causou em vários pedaços de terra... - referia-se à gleba que Alex dividira e lhe cabia tratar.
Este é o quinhão que me sobrou.
Tens mais sorte, Sumarokov, ficaste com as terras cuidadas e férteis.
- Camarada, minha responsabilidade se torna igual à tua, pois devo tratar de melhorá-las mais, para que continuem sustentando a parte afectada.
É de lá que virá o lucro a que nosso patrão se referiu - dizendo isto, Sumarokov aproveitou para sair.
- Espera, camarada Sumarokov, permites que visite tua filha para me despedir? - voltou Kóstia insistente.
- Fica à vontade, camarada Kóstia - retrucou – talvez ela esteja agora na escola, seria bom verificar primeiro, para que não te atrases — respondeu referindo-se à viagem.
Karosky e Kóstia ficaram ainda conversando, mas o segundo nem prestava atenção ao que falava, deixou-o no meio do assunto e foi para a escola, na esperança de rever a jovem.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 19, 2016 8:41 pm

Semión, vendo o amigo chegar, julgou que ele a estivesse visitando e começou a falar de seu novo projecto com os alunos, apresentando-lhe com orgulho os filhos de Sumarokov que, graças à rica inteligência, o substituíram durante sua ausência.
- Graças a Nicolau e Pável, poderei ausentar-me quantas vezes for necessário e participar mais de nossas reuniões.
Aqui, Kóstia, formaremos a nova mentalidade russa - Semion olhou a classe entusiasmado com seus alunos.
Mas, Mayra não se encontrava ali, e Kóstia ficou decepcionado e ansioso por revê-la, antes de partir.
Aproximou-se de Nicolau e perguntou, tentando demonstrar naturalidade:
- Tua irmã ainda sente dores e, por isso, não veio?
- Sim... Este foi o motivo pelo qual faltou às aulas - respondeu Nicolau, examinando-o, desconfiado de suas intenções.
Não conseguia esconder e nem entender a antipatia momentânea que sentia por esse homem.
Kréstian, assentado perto deles, também não concordava com o súbito interesse do homem e, enciumado, arrematou com o intuito de afastá-lo da irmã:
- Mayra está bem, apenas pediu para descansar, portanto não há motivo para te preocupares.
Wladimir Antón percebeu o tom de voz do rapaz e sorriu um tanto sem graça, Semión, que ouvia o diálogo interferiu:
- Ela pode dar-se o luxo de faltar quantas vezes quiser...
Seus conhecimentos ultrapassam a maioria da sala.
- Não digas, camarada Semión, é tão inteligente assim? - voltou-se admirado Wladimir.
É a aluna mais brilhante da sala! - respondeu Semion.
- Bem, estou regressando, Semion, vim despedir-me, aguardo-te brevemente em Petersburgo.
- Até... camarada!
- Até lá, camarada! - ambos despediram-se beijando- se, e Kóstia, após saudar os alunos com um aceno, deixou a sala, dirigindo-se para a isbá do cercado com o coração batendo mais forte do que o costume.
Ao atravessar o caminho de girassóis, Wladimir parecia reviver seus últimos e encantadores encontros com Sácha; quantas vezes atravessou aquele caminho em busca de sua amada, de seus beijos e abraços.
Seus encontros escondidos transformavam a abandonada isbá num castelo de sonhos.
Era como se estivesse revivendo aqueles momentos fortes e ricos que jamais se apagariam de sua memória, enquanto vida tivesse.
Seu coração batia mais acelerado ao se aproximar da pequena casa.
Catlenka estava do lado de fora, estendendo algumas roupas, quando o viu.
Envergonhada, começou a enxugar as mãos no avental e aguardou que ele se aproximasse.
- Bom dia, como vais? - cumprimentou-a Wladimir, sorridente.
- Estou bem, e tu, senhor? - respondeu, estendendo- lhe a mão.
- Estou bem - disse apertando a pequena mão.
Como está Mayra?
Soube que não foi à escola...
- Sim... ainda sente fortes dores, está mancando e contínua repousando no quarto... - explicou Catlenka, sem saber se o convidava para entrar, ou se o despachava dali mesmo.
- Gostaria de me despedir dela, Catienka.
Não sei quando regressarei, e esta tal menina me impressionou muito.
Ela é o retrato vivo de alguém que me foi extremamente importante... e se me permites, gostaria de vê-la - confessou-lhe Wladimir, abrindo-se com a singela rapariga, que lhe parecia confiável.
- Um momento, senhor, irei avisá-la - compreendia o interesse do rapaz, que lhe conquistara a simpatia e, também, a de Mayra.
Catienka desapareceu na porta e Waldimir ficou observando as mudanças que Sumarokov havia feito, mas o caminho por onde sua amada transitava para encontrá-lo ainda era o mesmo, salpicado de flores.
Quantas recordações felizes, e quantas outras tão dolorosas!
Tudo passara. Novo ânimo tomava conta dele.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 19, 2016 8:41 pm

Pensou que jamais se interessaria por outra mulher e, de repente, aquela meiga criatura despertou-lhe sentimentos tão vivos, que ele mesmo se encontrava surpreso.
Catienka entrou no quarto, ansiosa para avisá-la:
- Mayra, Mayra, senhor Wladimir está aí fora, querendo vê-la.
Faço-o entrar?
Assustada, Mayra ergueu-se no leito, não sabia o que fazer, mas o inocente interesse e a curiosidade natural da idade venceram.
- Sim, Catienka, faz-lho entrar, deixa que me penteie primeiro, ajuda-me, por favor, olha como estou trémula!
A grande amiga, que ela conhecia como se fosse sua mãe, ria-se de sua insegurança.
- Acalma-te, Mayra, ele vem apenas se despedir.
- Então que nos apressemos!
As duas apresentaram-se na porta e Wladimir aproximou-se, mais admirado ainda da semelhança da jovem com sua Sácha.
Agora, observando-a melhor em pé constatava que a jovem tinha as mesmas características de Sacha, a mesma estatura, o tom rosado da pele, a cor dos cabelos, o modo inteligente de olhar, o sorriso sincero nos lábios vermelhos, como se fosse uma fada.
~ - Olá, Mayra!
Acordei-te? - desculpou-se, emocionado.
- Não, senhor... - respondeu, timidamente, apoiando- se no braço de Catienka, sentindo dificuldades em ficar de pé.
- Entra, senhor Wladimir... assentemo-nos - convidou Catienka.
- Gostaria de entrar sim, porém, tenho que ir, vim apenas despedir-me.
Por que te vais tão rápido? - aventurou Mayra.
- Voltarei muito mais breve do que supões - insinuou Wladimir quase que confidencialmente, estabelecendo entre eles um subtil acordo -, então espero que possamos conversar com mais calma, gostaria imensamente de conhecer-te melhor.
Mayra não sabia o que responder, suas pernas estavam trémulas, as mãos geladas e estava mais pálida do que o habitual.
Emocionada, respondeu:
- Volta quantas vezes quiseres... meu pai e eu teremos muito prazer em receber-te em nossa humilde isbá.
Antes que alguém mais os visse, Wladimir despediu-se das duas e, quando tocou a delicada mão da jovem, apertou-a suavemente.
Mayra ruborizou-se, visivelmente, e sua cor não voltou ao normal enquanto ele não desapareceu na curva do caminho, com um último aceno de mão.
Catienka, sorrindo, colocou sua mão sobre o coração da mocinha, depois que o rapaz desapareceu.
- Mayra! Parece que irás desmaiar - e conduziu-a para o interior da casa.
Senta-te, pobre criança!
- Sim, Catienka, nunca senti emoção igual em toda a minha vida, sinto-me desfalecer...
Não sei avaliar o que se passa comigo...
- Eu sei... Mayra....conheço tais sintomas.
- Quais sintomas, Catlenka?
- Deves estar apaixonada!
- Eu? Não, isto não... é algo diferente, eu não sei o que é estar apaixonada, pois, se paixão for isto, estarei perdida! - disse Mayra, colocando a mãozinha sobre o coração, enquanto duas lágrimas rolaram por suas faces.
Preciso chorar, parece-me que se não o fizer, eu morro, Catlenka - e a jovem soluçou assim durante alguns minutos, sob forte Impacto emocional.
Catlenka, acostumada com a enteada, deixou-a desabafar enquanto cuidava de sua lida, calmamente, como se nada estivesse acontecendo.
- Isto passa, minha Mayra, isto passa! - repetia lavando a louça.

19 Delicadas flores que nascem nos campos de centeio. (N. do autor espiritual)
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 19, 2016 8:41 pm

44 - Azul dos Bosques

Um mês havia se passado, desde os episódios que envolveram o povo.
Na fazenda Norobod, a vida voltava ao normal.
Os trabalhadores, mais felizes, trabalhavam na faina, entusiasmados, a alegria reinava entre todos.
Mayra e Kréstian, numa bela tarde de domingo, foram dar um passeio pelo bosque.
O dia estava ensolarado e convidativo.
- Hoje, Mayra, levar-te-ei à cabana abandonada, onde apanhei tuas flores predilectas - dizia Kréstian, puxando-a pela mão.
- Não corras, Kréstian, assim não consigo acompanhar-te!
Os dois jovens corriam rápidos, ele la à frente, puxando-a e voltando-se para ela de vez em quando, preocupado com sua dificuldade para correr.
- Estamos nos aproximando.
Mais alguns passos e avistaram a velha choupana, o telhado quase desabando e algumas paredes destruídas pela acção do tempo.
O mato havia crescido ao redor, da cabana, dificultando-lhes a entrada.
- Foi aqui que me escondi.
Vem ver o local - e puxou- a para o interior.
- Espera, Kréstian, não posso mais avançar - falou Mayra, parando próximo ao grabato.
Há alguma coisa muito estranha neste exacto lugar - ela passou a mão pelo grabato e logo a retirou, sentindo que estava coberto de pó.
Seu corpo tremia, estava muito emocionada.
- O que está acontecendo, mana?!
É apenas uma velha choupana...
Voltemos - convidou, preocupado, conhecendo a sensibilidade da irmã.
Se algo lhe acontecesse, estavam multo longe de casa.
- Não, Kréstian, espera.
Preciso ficar um pouco aqui.
- A cabana está Imunda, nem ao menos podemos nos assentar! - reclamou Kréstian desconcertado.
Não queres apanhar as flores? - convidou, tentando tirá-la dali, antes que ela começasse a se impressionar.
Mayra, contudo, parecia não querer mesmo se afastar dali, e ele viu-se obrigado a esperar que, ela se decidisse.
A irmã parecia uma mula quando queria alguma coisa.
- Kréstian, este lugar não me é estranho! - exclamou após meditar alguns Instantes de olhos fechados, parecendo rever alguma lembrança.
Depois, abriu os olhos e começou a examinar os detalhes da velha casa.
- Agora me lembro, por isso peço-te que tenhas paciência comigo.
Sonhei várias vezes com este lugar.
Ele me é familiar.
- Talvez estejas certa, ou quem sabe terás passado por aqui em outra ocasião - sugeriu Kréstian tentando não impressioná-la, demonstrando calma.
- Ora, Kréstian, tu conheces muito bem minha vida e sabes que nunca estive aqui antes.
E tu? Não se trata da segunda vez que aqui vens?
- Está bem, Mayra, acredito em teus sonhos.
Sonhaste, e daí?
- Sim, sonhei... o sonho nos leva a lugares desconhecidos, ou quem sabe já vividos, nesta ou em outras vidas, como num livro que estou lendo, que me foi emprestado pelo mago Nábor.
Para que saibas que eu não estou mentindo, para afirmar que aqui estive ou visitei-o em sonho... digo-te, logo atrás desta casa, existe um poço e ele está vazio.
Mayra falou com tanta convicção que Kréstian deu a volta, imediatamente, pela casa para confirmar sua descrição.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 19, 2016 8:42 pm

No terreno arenoso e sujo, as plantas haviam crescido e escondiam o poço que era raso e seco, mas lá estava ele.
Voltando-se de sua surpresa, aproximou-se da irmã, examinando-a detidamente.
- Como sabes? - perguntou impressionado.
Mayra, realmente, tinha alguns poderes extra-sensoriais.
Ninguém poderia saber da existência daquele poço que estava totalmente coberto pela folhagem.
Kréstian, habitualmente tão valente e destemido, agora sentia-se amedrontado, desejando voltar logo para a casa.
- Vamos, Mayra?
- Vamos - disse segurando a mão que ele lhe estendia.
Lá fora a lavoura de trigo se perdia de vista, as espigas amarelavam alegrando a paisagem, contrastando com o azul do céu.
No chão estendiam-se as delicadas flores, que balançavam à brisa fresca.
Mayra foi enchendo a cesta de flores.
Kréstian também apanhava braçadas de azul dos bosques e logo a cesta estava abarrotada até a alça.
- Ainda queres mais flores? - perguntou Kréstian com as mãos cheias delas.
- Ora, Kréstian, basta!
Não vês que não cabem mais?!
O rapaz, sem se importar, despejou-lhe as flores nos cabelos, propositadamente, e gracejou:
- Agora, quem chegar primeiro em casa ganha um beijo!
Kréstian ia à frente, enquanto Mayra correu para alcançá-lo, gritando:
- Espera, Kréstian!
Mas Kréstian ia longe, quase desaparecendo de sua vista.
O irmão aproveitou sua dificuldade para andar e se escondeu para surpreendê-la, dando azo à sua farra.
A Jovem olhava para os lados e não o via.
Kréstian sempre fora assim, brincalhão e bem humorado.
Dos Irmãos, era o que mais tinha afinidade com ela.
A diferença de Idade entre os dois era menos de um ano.
Cresceram como se fossem gémeos, usando as mesmas botas e casacos, dividindo os mesmos brinquedos.
Ambos cresceram sem mãe, e a mãe que conheciam era Catienka, que só faltava adivinhar os seus mínimos desejos, amando-os como se fossem seus próprios filhos.
Quando Mayra, cansada de correr atrás do irmão, parou um pouco para descansar, Kréstian a surpreendeu pelas costas, silenciosamente, segurando-a pelos ombros.
- Oh! Kréstian!
Matas-me de susto!
Quase todas as flores ficaram no caminho...
És culpado!
- Estás muito mole, princesa, queres que te leve nos braços?
- Sim, terás que me carregar, como castigo - e estendeu-lhe os braços.
- Perfeitamente, princesa, serei sempre o teu criado, um pedido teu para mim, pobre mortal, é uma ordem.
Mayra, empinando o nariz, deixou-se levar em seus braços, castigando-o.
Kréstian estava tão alto e forte, que poderia carregar a pequena Mayra até sua casa, sem se cansar.
Andaram alguns metros e ela, julgando que estava sendo um fardo demasiado pesado para ele, pediu-lhe:
- Já basta, teu castigo foi cumprido, agora solta-me!
- Não, não te soltarei, agora levar-te-ei até o fim.
- Solta-me, Kréstian, - Insistiu - estás a me apertar.
Kréstian afrouxou os braços e Mayra desceu, deixando cair a cesta de azuis dos bosques.
- Oh!
- Eu as apanharei - disse Kréstian, abaixando-se e recolhendo as flores.
Voltaram para casa conversando animadamente, mas cansados da longa caminhada.
O entardecer coloria a paisagem de vermelho tornando-a deslumbrante.
Olharam, emudecidos, o espectáculo.
Quantas vezes já haviam admirado o crepúsculo juntos, mas nunca ele estivera tão belo como naquele dia.
Assim que avistaram a casa, Mayra deixou-o e correu, entrando em casa atrás de Catienka e de algumas jarras para colocar as flores, antes que murchassem.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

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45 - Nicolau Nikolai Sumarokov

Nicolau estava assentado, as pernas estendidas, lendo um livro, quando a irmã entrou e quase tropeçou nele.
- Preciso de algumas jarras!
Nicolau olhou-a sem nada dizer.
- Onde está Catienka?
O rapaz respondeu-lhe sem tirar os olhos do livro:
- Quase me atropelas, Mayra, que modos de entrar são estes? - reclamou mal humorado.
Na verdade, o irmão sempre a tratava com certa reserva e, ultimamente, andava mais esquivo ainda, tão diferente de Kréstian, que só faltava adivinhar-lhe os pensamentos, sempre gentil e carinhoso.
A frieza de Nicolau deixava-a triste.
Ela pensava que ele não gostava dela, por seus modos secos com que a tratava.
Ela, por sua vez, respondia-lhe com total indiferença, mas muito magoada.
A mocinha arrastou um banco para perto do armário, tentando alcançar duas jarras que, esquecidas, estavam demasiado altas para ela.
Nicolau percebeu sua dificuldade em alcançar os objectos, ficou observando-a, sem interferir; Catienka as havia colocado em lugar muito alto.
A irmã tentou se equilibrar sobre o banco que balançou, ameaçando cair.
Pressentindo um desastre iminente, decidiu abandonar a leitura e auxiliá-la, antes que ela quebrasse as jarras de porcelana que pertenceram à sua mãe, como presente de casamento, motivo pelo qual Catienka as conservava tão bem guardadas.
Mayra, em cima do banco, estendera o braço para apanhar as jarras, quando se desequilibrou.
Felizmente, Nicolau a acudiu a tempo de evitar um desastre.
- Cuidado, Mayra! - disse, segurando-a firmemente.
- Graças a Deus, estavas aqui! - exclamou, firmando- se em seu ombro com uma das mãos, enquanto lhe entregava a jarra com a outra.
- Esta ainda durará alguns anos mais! - resmungou, segurando o delicado vaso na mão e depositando-o sobre a mesa.
Depois, Nicolau pediu-lhe:
- Desce, eu apanho a outra, antes que a deixes cair.
Mayra já ia descendo, quando o tamborete virou e ela caiu nos braços do irmão, que a enlaçou decidido, evitando a queda.
Era a primeira vez em que os dois ficavam tão próximos.
Nunca seus corpos estiveram tão unidos.
O Irmão sempre a evitava, nunca se lembrava de um carinho dele.
Quando seu rosto roçou o dele, olharam-se espantados.
Nicolau parecia ver a irmã com outros olhos.
Nunca a sentira tão bela, seus cabelos macios, sedosos como cetim e louros como os trigais maduros, seus olhos azuis pareciam mais cimos, sua pele como um veludo, sua boca delicada e rosada lembrava um coração.
Aquela linda moça era sua única irmã.
Certamente, um dia, encontraria alguém para namorar e ser feliz.
Àquele pensamento, seu semblante se entristeceu.
Ainda abraçados, ele foi o primeiro a quebrar o silêncio:
- Vou pegar a outra já disse! - enquanto ela, também emocionada, se refazia do abraço, seus olhos brilhavam de felicidade, enchendo-se de lágrimas.
As duas jarras agora estavam sobre a mesa.
Mayra pegou uma vasilha cheia de água e colocou a água dentro das duas jarras, até derramar.
Distraída, observava o irmão que voltava à leitura.
Mas quem disse que o jovem prestava atenção no livro?
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 19, 2016 8:42 pm

As letras dançavam sob seus olhos e, se lhe perguntassem o que estava lendo, com certeza, não saberia responder.
Seu pensamento estava muito confuso e agitado.
Tinha a sensação de que uma fogueira havia se acendido dentro dele.
Sentiu-se aliviado quando entraram Catienka e Kréstian sorrindo e falando alto.
- Menina dos cabelos louros, estás me devendo algo? - perguntou Kréstian à irmã.
- Eu?!
- Tu mesmo. Esqueceste que fizemos uma promessa, quero o meu beijo!
- Eu cheguei primeiro, tu é que me deves um beijo! — disse-lhe apresentando a face rosada e sorridente.
Kréstlan então deu-lhe descontraidamente um beijo estalado.
- Estou a pagar o meu castigo.
Quero mais outros castigos assim...
- Chega, Kréstian, deixa de ser beijoqueiro, fizeste de propósito, isto não vale, ficaste para trás porque quiseste...
Nicolau levantou-se inesperadamente, e saiu dando com os ombros, como se a alegria dos irmãos o incomodasse.
- O que deu nele? - perguntou Kréstian.
- Deixa-o, Nicolau tem mais no que pensar...
Desde criança, nunca participou das brincadeiras... - respondeu Catienka que os observava enquanto colocava água para ferver.
- Ele é um chato, isto sim, nunca participa de nada - retrucou Kréstian para Mayra.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 19, 2016 8:42 pm

46 - As Bodas

O rigoroso inverno transformava a paisagem numa grande placa branca de gelo, a neve cobria o horizonte.
Tudo se recolhia, pessoas, animais e aves, o rio transmudara-se numa ponte suspensa de gelo.
A vida corria lenta, mas para os pobres mujiques as coisas continuavam tão rigorosas quanto o inverno.
Sumarokov havia saído cedo de trenó à procura de lenha, acompanhado de Iulián, deslizando pela neve.
De repente, os cães começaram a ladrar nervosos.
- Pai, vê, logo ah, parece um gemido - chamou percebendo um barulho.
Ambos desceram do trenó e, patinando na neve, conseguiram chegar até os gemidos.
- É uma marta!
- Está presa, cuidado, pai!
Iulián procurou no trenó, uma corda e, com ela, amarrou a boca do animal.
- Isto nos garantirá mais uma semana de carne - animou-se Iulián Sumarokov, vendo na caça o sustento da família e, dispostos, amarraram o animal junto com a lenha.
A alegria foi geral quando os dois chegaram.
Trataram logo de comemorar a caça.
- Toque algo, Mayra, estou saudoso de ouvir-te - pediu o pai, acendendo o enorme charuto.
Mayra foi ao quarto, trouxe a balalaica e tocou para o pai e os irmãos uma bela canção popular.
Os sons alegravam a pobre cabana e a melodia alcançava outras casas ali por perto, para alegria de seus moradores.
Alguns vizinhos mais chegados começaram a se aproximar e logo a isbá do cercado ficou cheia de crianças e adultos.
Todos se reuniram ao redor da grande estufa acesa, enquanto o velho samovar de cobre esquentava a água para o chá.
Catienka preparava delicioso kvass.
A música enchia a casa de ingénua e suave alegria.
Os pobres mujiques nada podiam fazer durante o rigoroso Inverno, senão aguardar a neve derreter.
Quando surgiam alguns raios de sol, todos saiam das casas, reuniam-se e cantavam músicas populares, epopeias de soldados em que a alma eslava derramava seu romantismo e aspirações.
Os que sabiam tocar Instrumentos se reuniam e logo começava a dança; os moços vestiam roupas coloridas, as moças soltavam os cabelos e ensaiavam a polca, comemorando a chegada da primavera.
A neve começava a derreter, anunciando o final do Inverno; no chão a vegetação despontava; tenros brotos surgiam, timidamente, após longa hibernação e coloriam de verde a paisagem.
Foi neste encantador clima de festa e alegria, que Kóstia adentrou a Fazenda Norobod e encontrou a família Sumarokov preparando-se para a caça e as bodas.
Era o dia destinado à caça de javalis, martas, cervos e outros animais que, inocentemente saiam de suas tocas em busca de alimento.
Pela manhã, as mulheres tiravam as roupas de festa dos baús, saiam de suas casas com enormes vasilhas e limpavam as moradias, para logo mais festejarem a entrada da primavera.
Em meio dessa azáfama, na casa de Iullán Sumarokov havia outro motivo mais atraente, era o dia de suas bodas.
Catienka levantara-se cedo, sua família não tardaria a chegar e algumas vizinhas amigas vieram oferecendo-se para ajudá-la no ritual que precedia as bodas.
O primeiro deles recomendava que a noiva devia tomar um banho perfumado com ervas, da cabeça aos pés, vestindo em seguida uma túnica de lã branca e assentar-se do lado de fora da casa, de frente para o sol e deixar-se pentear por uma virgem que rezava, sob os raios solares.
Diziam os antigos que esses preparativos traziam sorte à noiva, garantindo-lhe fortuna e beleza.
A moça escolhida foi Mayra.
Depois de penteada e perfumada, a noiva deveria tomar um caldo quente de ervilhas para garantir-lhe saúde e grande prole.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 20, 2016 8:28 pm

Os homens não podiam participar desses rituais.
O noivo ficava distante da noiva porque, se a visse, corria o risco de ver o casamento adiado para a próxima primavera.
O noivo saiu bem cedo, acompanhado dos filhos e dos vizinhos.
Retomariam mais tarde.
Depois do preparativo da noiva, o noivo deveria ser banhado e perfumado por seus amigos.
Os homens preparariam a lenha para a fogueira, escolheriam a melhor carne da caça, que assariam nas brasas.
O noivo comeria o primeiro pedaço, enquanto era saudado pelos demais.
A festa das bodas de Iulián prometia começar antes do sol se pôr e só terminaria ao alvorecer.
Todo início de primavera era como se a vida também começasse, mas para os noivos, na vida de casados havia pouca diferença.
A única mudança era a ampliação da casa, com a construção de um novo quarto destinado ao casal.
Iulián construíra o quarto muito rapidamente para que, no dia das bodas, estivesse pronto.
Ninguém podia entrar na alcova nupcial a não ser os noivos, assim mesmo, só depois do casamento.
Alex ofertara aos noivos rico tonel de vinho, e a Sra. Norobod oferecera-lhes alguns casacos de pele, gorros, tapetes e outros utensílios domésticos.
Catienka sentia-se gratificada, após longa e dedicada espera.
Finalmente, seus anseios seriam concretizados aos olhos de todos, anseios que ela e Sumarokov já viviam às ocultas.
A moça trabalhadora olhava os preparativos como se estivesse preparando o casamento de outra pessoa, mas sentia-se muito feliz, aguardando a chegada de sua família.
Kóstia, ansioso por ver Mayra, passara o dia todo esperando uma brecha para visitá-la.
Sabendo que na casa dos noivos o movimento era grande e a moça corria de um lado a outro na alegre azáfama, decidiu encontrá-la somente durante a festa.
Sua ansiedade o levara várias vezes a se aproximar da isbá e, quando Alex regressou da caça, encontrou o amigo mergulhado na leitura de um jornal.
A casa estava silenciosa, a maioria dos empregados auxiliava na preparação da festa do casamento.
Os homens trabalhavam na construção de um palanque destinado aos músicos.
Em frente erguia-se um grande arco com ramos e flores reservado aos noivos.
Ao lado, outro lugar especial destinado ao pope.
À tarde, seria realizada a cerimónia do casamento, com o pedido formal de Sumarokov à família da moça, a entrega das alianças e a bênção do pope.
Depois os noivos dançariam com os convidados, dando início ao baile e à oferta de bebidas e comidas.
O noivo beberia com os amigos antes de desaparecer com a noiva para o quarto e, quando a noiva estivesse adormecida, ele retomaria à festa e beberia com os amigos até o final.
Mayra ia de um lado a outro, dançando com os irmãos.
Somente Nicolau se esquivou e, por mais que ela tentasse, não conseguiu tirá-lo de seu canto.
- Nicolau, não queres dançar com tua irmã? - perguntou o pai, vendo seu esforço.
Danças com Catienka, que Mayra e eu faremos novo par - Catienka puxou-o pelo braço, sem dar-lhe tempo de se esquivar e o arrastou para o meio da festa.
Todos dançavam animados, e os noivos saíram do salão de dança, deixando os dois irmãos frente a frente, marcando a polca.
Nicolau, sisudo, não podia se esquivar e atrapalhar a dança.
A irmã, linda, animada e faceira, dançando com entusiasmo.
Era, sem dúvida, a moça mais bonita do lugar.
Por um instante esqueceu-se de que ela era sua única irmã, enlaçou-a fortemente e dançaram nova música.
Por capricho do destino, o violinista mudou o ritmo, tocando suave melodia que permitia maior proximidade aos casais.
- Não sabia que dançavas tão bem, Nicolau.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 20, 2016 8:29 pm

Ouvindo a voz da irmã, o rapaz assustou-se com sua aproximação e largou-a, sem dar-lhe explicação.
- O que deu em ti, Nicolau, volta!
A dança não terminou.
Nicolau deu-lhe as costas e, vermelho, desapareceu.
- Queres que eu a termine? - perguntou Kóstia que observava a cena, aguardando um momento oportuno para se aproximar.
O providencial afastamento de Nicolau ofereceu-lhe o ensejo de dançar com Mayra.
Sem dar tempo de responder, Mayra já estava em seus braços bailando.
- Como estás, senhor Wladimir? - perguntou, feliz e emocionada com o reencontro.
- Teu irmão te abandonou na melhor parte.
- Nicolau, às vezes, é muito estranho, não é muito dado a festas, danças...
- Se eu tivesse uma irmã tão graciosa, dançaria com ela a noite toda - Kóstia tinha a impressão que bailava com a própria Sácha.
Aquela menina despertava-lhe uma infinidade de sentimentos, que nem ele mesmo conseguia definir.
Sentia uma grande vontade de protegê-la, estar com ela para sempre, beijá-la, abraçá-la fortemente.
Controlava-se, porque a ética não lho permitia.
Devia se aproximar devagar, apalpando o terreno, para depois pedi-la em namoro ao pai e ao dono da propriedade.
Kóstia, durante toda a noite, ficou perto de Mayra, enquanto Nicolau os observava de longe, com cara de poucos amigos.
Sácha, a filha de Alex, em vão tentou animá-lo.
Como a mocinha estava, há muito, interessada nele, não arredou pé durante toda a noite.
Nicolau já havia bebido muito e nem se importava com os arroubos da mocinha que, coquete como a mãe, não perdia oportunidade.
Aliás todos já haviam comido e bebido em excesso.
- Nicolau, não dançaste comigo? - insistia Sácha faceira, quando um bando de dançarinos os levou para o meio do terreiro.
- Venham!
Todos marcavam a polca, muito animados.
Os que já estavam bêbados caíam e eram retirados.
Começou a dança dos cossacos, uma verdadeira maratona em que o mais forte, o que aguentasse dobrar as pernas, beberia o resto da vodca20.
Era o instante do russo mostrar sua valentia, talento e força nas pernas.
Um a um foram caindo, enquanto os demais batiam palmas, ficando Kóstia e Nicolau.
Ambos estavam completamente bêbados, mas nenhum deles cedia, bebendo e dançando, com a figura de Mayra rodando à frente.
Ela mesma estava ficando tonta com a algazarra.
As palmas e a música não paravam.
A festa chegava ao fim e os noivos se retiraram, definitivamente.
A mocinha também havia bebido um pouco de vinho, sua cabeça girava e, sem o apoio de Krêstian, ela teria caído.
- Acho que me excedi, Krêstian.
- Estou aqui.
Quem vencerá? - perguntou Krêstian, abraçando-a.
- Nicolau.
- Vejamos, queres fazer uma aposta?
Aposto em Kóstia.
- Eu, em Nicolau.
O que perdes desta vez?
- Irás com o vencedor ao campo de azul dos bosques.
- Está bem.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 20, 2016 8:29 pm

Mas é preciso avisá-los de que estão sob aposta - e empurrou o irmão:
- Vai, Krêstian!
Krêstian aproximou-se de ambos:
- Esperem, Mayra e eu apostamos - ambos o olharam sem entender, tão bêbados e cansados estavam.
O vencedor terá que ir com ela até o campo de azul dos bosques!
- Está bem!
Eu irei! - gritou Kóstia, animado em vencer.
- Se tu perderes? - perguntou Nicolau.
- Irei eu - respondeu o irmão.
Kóstia, interessado no passeio com a bela jovem, dava tudo para permanecer em pé e, mais acostumado à bebida, levava vantagem sobre o jovem.
Porém, o vigor de Nicolau sobrepujava.
Entre eles havia uma diferença de dezassete anos!
O irmão, enciumado pela atenção que aquele homem mais velho dispensava à sua irmã, lutava pela vitória.
A luta entre ambos tornou-se ferrenha, entre um cair e levantar, suas pernas já não sustinham o corpo, até que venceu o mais velho e experiente.
Nicolau não pôde com o veterano, caiu desmaiado e foi carregado, quase em coma, para o interior da isbá.
Mayra, não desejando acordar Catienka, pegou um pano e começou a colocar compressas de água quente na testa de Nicolau para animá-lo.
O dia já estava clareando e os outros irmãos não voltavam, deviam estar namorando em algum canto.
Ela e Kréstian suspiraram aliviados, quando Nicolau começou a se esquentar.
Deram-lhe um pouco de chá quente sem mel e ficaram em vigília até o dia amanhecer.
Kóstia também havia se excedido e fora carregado por alguns homens sóbrios que ajudavam os outros.
Kóstia, decidido a cortejar a filha de Iulián Sumarokov, começou a se interessar vivamente por tudo quanto se relacionava a ela e à sua família.
A promessa feita à moça, na festa do casamento de seu pai, iria se cumprir dois dias após.
Ele esperava, ansiosamente, o dia de irem ao bosque.
Finalmente, chegou o tão esperado momento.
Sairiam cedo e regressariam para o almoço.
Nicolau, contrariado, demonstrou sua preocupação ao pai:
- Pai, não seria exagero, deixares Mayra ir só ao campo com um desconhecido?
- Onde estás com o juízo, Nicolau? - virou-se Sumarokov, surpreso com sua Infundada preocupação.
Kóstia é um homem educado e respeitador.
Além do mais, tem idade suficiente para ser seu pai.
Com que te preocupas? - perguntou, observando a ruga que se formara na testa do moço.
- Pelo menos, pai, chama alguém mais para acompanhá-los! - exclamou, decidido a proteger a irmã.
Sumarokov enxergava em Mayra apenas uma criança, ignorando que sua filha se tornara uma bela e sedutora mulher capaz de despertar sentimentos de amor nos homens.
Em sua ingénua confiança, o pai não percebia o perigo que a malícia do filho previa.
Kóstia, o grande e solitário amigo, ainda se conservava jovem e belo, apesar da idade.
Sumarokov não imaginava que ele pudesse despertar em sua filha outro tipo de interesse.
Nicolau, no entanto, advertira-o do perigo com seus cuidados excessivos de irmão.
Ele, que sempre se manteve arredio da irmã, agora arvorava-se em censor de suas amizades e conduta.
Iulián Sumarokov olhou-o, admirado, Nicolau também era um homem feito, talvez tivesse razão.
Pensativo, considerou a opinião do filho e, finalmente, concordou:
- Deves ter tuas razões, filho.
Não é bom que Mayra vá ao campo colher flores só, com um homem.
Afinal, ela já é uma moça.
Essa decisão deixou Nicolau mais aliviado, como se aquele inocente passeio pudesse colocar a vida de sua irmã em perigo.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 20, 2016 8:29 pm

- Se estás tão preocupado, meu filho, acompanha-os, então...
- Eu?!
- Sim, quem mais se encontra assim tão preocupado e cheio de cuidados com as companhias de tua irmã? - disse Sumarokov, brincalhão.
- Pede a Kréstian, meu pai - alegou, esquivando-se - que ele vá, pois conhece bem o caminho que leva às flores de que nossa irmã gosta.
- Chama então Kréstian, diz-lhe que estou lhe pedindo para acompanhá-los - ordenou solícito.
Logo em seguida, Nicolau saiu e Kréstian entrou, atendendo ao pedido.
- Acompanha tua irmã, não a deixes só.
És responsável pelo passeio que ela e Kóstia programaram.
- Está bem, pai, irei com todo prazer, pretendia mesmo acompanhá-los.
Gostaria de retornar àquele estranho lugar...
Lembras-te, onde me encontraste após a emboscada?
Pois bem, tal lugar me causou estranha impressão e, em Mayra, muito mais - Kréstian recordava-se da cabana abandonada, em ruínas, perto do trigal.
- Aquela cabana? Voltaste lá?
- Sim, é lá que se encontra o campo de flores.
Olha, papai, parece um lugar mal assombrado, adoro tais emoções!...
Foi lá que Mayra começou a ficar estranha, e tivemos que regressar logo.
Interessado em saber o que ocorrera na choupana, sabendo que a menina costumava ter visões de Espíritos e descrevê-los, Sumarokov, intrigado, perguntou:
- Ela disse algo em especial?
- Sim, disse alguma coisa, como se já a tivesse visitado em outra época.
Sabia da existência de um poço oculto atrás da cabana.
Mayra tem esta percepção e parece que, lá, essa faculdade se desenvolveu ainda mais.
Pretendo saber se ela sabe mais alguma coisa sobre aquele sítio.
É esta curiosidade que me anima a voltar.
- Não vás perturbar tua irmã!
Sumarokov achava impossível que alguém pudesse, um dia, descobrir seu segredo, e tentou esquecer o facto.
Nicolau, que acompanhava interessado o diálogo, interferiu:
- Fica muito longe daqui, este lugar?
- Não tanto, cerca de duas verstas - respondeu Kréstian.
- Conta-me, Kréstian, o que realmente aconteceu? - pediu Nicolau, agora muito interessado.
- Mayra e eu estávamos atraídos para o tal lugar, como se alguma coisa nos convidasse a entrar.
O mais interessante é que ela sabia de determinadas coisas, conhecia o poço encoberto pela folhagem.
Ninguém poderia saber de sua existência se não tivesse morado lá, ou já o conhecesse, anteriormente.
Sumarokov, assentado, acendeu o charuto e ouvia-os atentamente, tentando mostrar-se desinteressado.
- Como foi que ela soube? - interrogou Nicolau.
- Tu sabes como é nossa irmã, tem atitudes que, às vezes, nos surpreendem.
Assim que adentramos a cabana, ela ficou bastante estranha.
Temi que lhe acontecesse algo mais grave, mas felizmente, logo, ela voltou ao normal.
Tive a impressão de que junto de nós havia mais alguém.
A casa parecia guardar alguns segredos.
Assustado, retirei-a, imediatamente.
Confesso-te, minha covardia superou minha curiosidade.
Não ousei avançar o sinal dos Espíritos.
- É mais um motivo, meu pai, para que não a deixes andar por aí, só, ou acompanhada de pessoas estranhas.
Nunca se sabe o que poderá lhe acontecer.
Mayra não pode ficar sozinha.
Nicolau demostrou claramente sua preocupação que, antes, parecia apenas uma crise de ciúmes, e o seu bom senso acabou por dissolver a última impressão.

20 Aguardente russa, de cereais. (N. da E.)
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 20, 2016 8:30 pm

47 - O passeio

A advertência valeu, ficando decidido que Kréstian os acompanharia porque, além de conhecer a região, sabia o exacto lugar onde se encontravam as flores preferidas da irmã.
Numa bela manhã ensolarada de domingo, quando a brisa fresca acariciava as folhas e flores, balançando-as como se brincassem numa alegre e esfuziante dança, os três saíram em direcção ao mato.
Mayra amarrara os cabelos com um lenço branco de listras azuis, que combinavam com sua roupa.
Parte de seus cabelos descobertos caía em mechas douradas e a brisa brincava carinhosamente com elas, dando-lhe um aspecto primaveril.
A cor dourada de seus cabelos, sua alegria juvenil, davam-lhe um aspecto angelical que encantava Kóstia.
0 moço contemplou-a, embevecido, durante a longa caminhada.
Ela mais parecia um anjo brincando com as plantas tenras da primavera; a própria natureza parecia reverenciar-lhe a passagem, quando seus pezinhos tocavam a relva.
Quando os três se aproximaram da cabana abandonada, um pássaro saiu, alçou voo e soltou um grito estridente, alertando-os.
- Que barulho feio!
Chega a amedrontar-me...
Neste silêncio, a natureza parece conversar connosco através do barulho do vento, do farfalhar das folhas e do bailado do trigal a balançar.
A natureza conversa connosco através de seus sons... - impressionada e medrosa, correu para o Irmão que a acolheu carinhosamente.
Reclamou como uma criança:
- Estou amedrontada, Kréstian.
Sinto-me diferente, quando me aproximo deste local.
Sejamos rápidos.
Kóstia olhava os irmãos, encantado com a beleza da moça, cuja presença despertava-lhe tumultuados pensamentos; era o retrato de sua amada Sácha.
Não podia compreender a grande semelhança entre elas.
Sentia-se o mais privilegiado dos homens, na convivência com aquela criaturinha adorável, cuja doçura e meiguice lembrava-lhe sua infeliz namorada.
Felicidade e ventura invadiram sua alma sonhadora.
Finalmente, o destino lhe encaminhava alguém.
Estava decidido a pedi-la em casamento a Sumarokov, disposto a tudo fazer para torná-la feliz!
Queria proporcionar-lhe tranquilidade, filhos, um lar onde sua única preocupação seria a realização de todos seus desejos.
A bela Mayra haveria de ser sua esposa, nem que fosse preciso lutar contra o mundo.
A diferença de idade não seria empecilho.
Considerava-se jovem, cheio de vida e suficientemente capaz de tomar qualquer mulher feliz.
Tais pensamentos o perturbavam enquanto os dois irmãos caminhavam lépidos à sua frente.
De repente, eles se detiveram, as cabeças unidas como se cochichassem.
- Mayra, só entraremos se me prometeres não ficar novamente perturbada.
Peço-te, não me apavores mais.
Segurando o braço do irmão, carinhosamente falou:
- Não sabes, querido Kréstian, que foi aqui o começo de tudo?
- Não te entendo, menina maluca, não sei o que dizes!
Sabes, por acaso, do que falas?
Enquanto isso, Kóstia alcançou-os e, em tom de brincadeira, indagou:
- O que os irmãos estão a discutir?
- Nada -. respondeu Kréstian, olhando a irmã.
O segredo pertencia somente aos dois e aquele Kóstia estava se intrometendo demais, embora o respeitasse como velho amigo de seu pai.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 20, 2016 8:30 pm

- Nada que te diga respeito. Nada!
Kóstia, compreensivo, sem se incomodar com a resposta do garoto, argumentou, recordando-se daquele lugar.
- Conheço esse lugar.
Já vivi nesta fazenda, há muito tempo e nada aqui me é estranho, excepto algumas pequenas mudanças.
Os dois irmãos olharam-no, admirados.
O semblante de Kóstia entristeceu-se com a recordação da trágica noite do nascimento de sua filha, cujo paradeiro ignorava.
Assentou-se no grabato, soltando um profundo suspiro.
Era o mesmo grabato em que ele, desesperado, colocara a filhinha recém-nascida, sem saber o destino que a aguardava.
Parecia ainda ouvir-lhe o tímido choro.
Duas lágrimas tremeram-lhe nos belos olhos e comoveram Mayra, que lhe perguntou:
- Porque choras, senhor Wladimir?
Kóstia, embora envergonhado por suas lágrimas inesperadas, olhou-a, agradecido pela carinhosa atenção e, com um sorriso triste, respondeu-lhe:
- Por recordações que me fazem sofrer, e que este lugar foi o palco... - como os dois esperavam que ele continuasse, Kóstia explicou:
- Já se passaram tantos anos, desde que tudo aqui aconteceu!
Nunca mais voltei a este lugar e, por acaso do destino, aqui me encontro, recordando os factos como se eles estivessem ainda a acontecer.
É uma longa história.
- Conta-nos -, insistiu Mayra, ansiosa, desejando conhecer os segredos que se ocultavam naqueles negros olhos.
Aquele homem interessante despertava-lhe sentimentos carinhosos e compreensivos, estimulava sua sensibilidade.
Além da curiosidade incontrolável em saber o motivo de suas lágrimas, desejava consolar o belo homem que a tratava e a olhava de modo tão diferente de todos os outros.
Seu coração pulsava forte.
Mediante o pedido da menina, Kóstia resolveu desabafar e contou-lhe a história do nascimento de sua filhinha, mergulhando o olhar naquele meigo rosto.
- É uma longa história!
Não sei se lhe pode interessar, mas mediante o teu sincero pedido, bela Mayra, eu te narrarei uma parte da minha vida, talvez a mais importante, a que mais me marcou.
Quando Jovem, ainda não havia atingido os vinte anos, apaixonei-me perdidamente por uma moça que, por sua vez, para a minha ventura, apaixonou-se também por mim.
A felicidade de ser amado tornou- me o mais ditoso dos mortais, mas como a alegria e a tristeza caminham juntas, nosso relacionamento foi conturbado e nosso amor muito difícil de ser concretizado!
Filho de pobres mujiques, não poderia jamais almejar um dia a me unir à filha do senhor, do poderoso e temido Norobod, para quem eu e meus pais servíamos a duras penas.
Sim, era impossível.
Sácha era sua única filha, e nosso romance jamais poderia ser descoberto.
Às ocultas, passamos a nos encontrar, justamente naquela isbá, onde hoje tu e tua família moram.
Era lá, na isbá do cercado, que nos encontrávamos.
Meses depois, ela se engravidou e decidimos fugir, cientes de que se relatássemos o facto nos afastariam para sempre um do outro.
Mas, o destino cruel arquitectava uma terrível peça:
fomos descobertos pelo feitor da fazenda, Sergei, cuja maldade causava a todos sofrimentos inenarráveis.
A notícia do romance foi revelada a seus pais.
Fui perseguido covardemente.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 20, 2016 8:30 pm

Meus pais, que de nada sabiam, foram maltratados violentamente para revelarem meu paradeiro.
Outras famílias amigas de mujiques esconderam-me, pois procuravam-me vivo ou morto.
Os capangas, não me encontrando, simularam a minha morte, botando fogo em outro rapaz, filho de mujique.
Desfiguraram-lhe o rosto, tomando-o irreconhecível para que Norobod não percebesse o engano.
O medo tomou conta de todos.
Ninguém ousava comentar a trapaça.
Norobod, pensando que eu estava morto, acalmou-se.
A amante de Sergei soube do facto, felizmente calou-se, porque a crueldade de Norobod e Sergei poderiam recair sobre outros inocentes.
Julgando-me morto, arquitectei novo plano.
Encontrava-me com a ama de Sácha que a adorava e favorecia nossos encontros ocultos.
Roguei-lhe não lhe contasse que estava vivo.
Nastássia informou-me que Norobod havia decidido matar nosso rebento, quando nascesse.
Tal notícia deixou-me aturdido e me enlouquecia de ódio.
Disfarcei-me e, à noite, surpreendi Nastássia com novo plano:
no dia do nascimento, eu me apossaria da criança e fugiria.
Somente eu e Nastássia tínhamos conhecimento disto.
Toda cautela era pouca.
Nossa querida gestante estava a ponto de se entregar ao desânimo, mortificada por minha morte.
Nastássia, na tentativa de trazer-lhe um pouco de alento, receosa de prejudicar o parto, decidiu contar-lhe que eu ainda me encontrava vivo e falou-lhe de nosso plano.
Quando seu pai descobriu que a criança havia nascido e fora roubada, espancou-a violentamente, obrigando-a a denunciar o autor do furto.
Ela resistiu aos maus tratos o quanto pôde, mas nada revelou.
Muito abalada, sofreu forte hemorragia e faleceu.
Nastássia teve tempo de me entregar a filhinha, depois de ser beijada pela mãe.
Fugi desesperadamente, levando o precioso fardo, e foi neste lugar que depositei o meu tesouro, a minha filhinha.
Apavorado, ouvi um ruído e fugi para desviar meus perseguidores.
Na realidade, era o barulho da carroça da valente Nastássia que vinha avisar-me de que fora descoberto e queria cuidar da criança.
Sácha ficara sob os cuidados da mãe.
Sem saber quem me seguia ao certo, receoso de nova emboscada, corri pelo mato.
Era noite de luar.
Soube mais tarde que Nastássia foi encontrada morta, levando consigo uma trouxa, que se assemelhava a um recém-nascido:
era o nosso plano.
Depois nada mais soube de minha filha, que desapareceu do local, na mesma madrugada.
A mocinha ouvia-o atentamente, sem perder nenhuma de suas palavras.
Um leve suspiro saiu de seu peito e morreu na garganta, quando ele terminou a narrativa.
Kóstia estava chorando.
Mayra, instintivamente, passou a delicada mão por sua cabeleira negra, na tentativa de consolá-lo.
A menina não sabia definir seus verdadeiros sentimentos, mas sentia que sua vida estava ligada à dele para sempre, e que naquele momento, ele era a pessoa mais Importante.
- Não chores, senhor Wladimir, quem sabe o céu ainda te fará uma surpresa e te devolverá a ventura de encontrares tua filha, se ela ainda estiver viva.
Não sabes que até as pedras se encontram?
As melgas e consoladoras palavras daquele anjo de candura o animavam e agradeceu, comovido:
- Obrigado, minha querida Mayra, és um anjo - e segurando sua mãozinha gelada, beijou-a comovidamente, acarinhando-a com os lábios.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 20, 2016 8:30 pm

Desejava beijar-lhe a boca rosada, que se entreabria, deixando ver os alvos e pequenos dentes.
- Quem sabe, Jesus a encaminhou a alguma alma caridosa e que a acolheu como filha?... - argumentou, piedosa, ainda a lhe passar a mão com ternura.
Kréstian, enciumado com a cena, Interferiu:
- Voltemos, ou não viemos aqui para apanhar azuis do bosque?!...
Saindo de seu enlevo, os dois se afastaram da isbá, ainda olhando o grabato, examinando o tecto frágil e envelhecido.
A choupana prestes a desmoronar era escura e refúgio de bichos peçonhentos; causava medo.
Emocionados e pensativos, não ousavam dizer nenhuma palavra.
Kréstian seguia à frente.
A história de Kóstia deixou-a angustiada.
Desejava ficar sozinha e pensar um pouco em tudo o que ouvira:
a experiência dolorosa de seu novo amigo, a quem ela começava a admirar.
Encheram a cesta de flores e logo regressaram.
Voltavam pensativos, sem compreenderem a emoção que os dominava.
Mayra falava por monossílabos, perdera toda a sua espontaneidade, sem dissimular o sentimento doce e temo que batia em seu coração, em relação a Wladimir, cuja presença a alegrava.
Algo muito forte a unia àquele homem sofrido, como se a sua história lhe pertencesse.
Seu desejo era consolá-lo e torná-lo feliz.
- Estarei eu amando pela primeira vez? - auscultava seu íntimo.
Que seja bem vindo esse amor em meu coração! - pensou.
Kóstia estava decidido a falar com Sumarokov, pedir sua filha em namoro, oficializando seus sentimentos, sentimentos tão fortes que ele não conseguia mais ocultar.
Voltava do significativo passeio com este firme propósito, olhando o belo campo de trigo, repleto de azuis dos bosques.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 20, 2016 8:31 pm

48 - Kóstia apaixonado

Kóstia permaneceria na fazenda Norobod ainda por dois dias, prazo suficiente para deixar tudo acertado.
E, agora, conversava animadamente sobre os projectos cooperativistas, motivo real de sua visita.
O motivo especial que o levara à fazenda Norobod era resolver os problemas emocionais relacionados com Mayra e sua família.
-Iahgo!
- O que é Kóstia?
Estás com uma cara!
- Preciso falar-te dos meus sentimentos, desabafar-me antes de tomar uma iniciativa que vai decidir o meu destino de homem solitário...
Jamais pensei em unir-me a alguém, acostumado a conviver com a minha solidão, tendo como ideal a nossa causa, a libertação de nossos irmãos que, mercê da sorte, vivem na miséria.
Meus pais já se foram e eu planeei minha vida só, com minhas recordações.
Hoje, não penso assim...
Alex Norobod olhava-o curioso, mas percebendo a gravidade dos desejos do amigo, ouviu-o sem interrompê-lo.
- Bem... sinto-me envolvido por uma criatura que, apesar da juventude e inocência em flor, tocou-me profundamente, como outrora tua desventurada irmã tornou-me o mais ditoso dos homens.
Sabes agora, meu caro, que Sácha foi a única mulher a quem amei e o motivo de minha solidão, durante todo este tempo em que me conheces.
Alex inclinou a cabeça, incentivando-o a continuar.
Kóstia era calado e introvertido.
Somente agora, após a emboscada promovida por Sergei, ambos se aproximaram como se fossem irmãos verdadeiros.
Compadecendo-se do amigo, Alex olhou-o circunspecto e, interessado em sua sorte, perguntou:
- Estás a falar como se estivesses apaixonado e encontrado alguém capaz de modificar-te o destino.
Ou estarei enganado?
Poderás falar-me desta pessoa que te aprisionou o coração?
- Sim, Iahgo, não farei segredo.
Conto com tua ajuda.
Trata-se da tutelada de tua mãe, a menina que tu conservas, carinhosamente, em tua fazenda.
Surpreso, Iahgo fechou o semblante, preocupado, adivinhando de quem se tratava.
Sentiu inexplicável pena do amigo, que deixava transparecer em seu olhar o amor e a tema submissão à lei da atracção e da afinidade das almas.
- Falas da filha de Sumarokov, ou estarei enganado?
- Sim. Refiro-me a Mayra.
Apaixonei-me perdidamente pela flor dos bosques.
Esta terna criatura povoa meus sonhos e minhas noites de solidão.
Desde que a vi, nunca me senti só, porque sua presença me conforta como se eu estivesse junto a tua irmã, à minha querida Sácha.
Se o destino cruel não ma tivesse arrebatado, estaríamos felizes e unidos para sempre.
Iahgo, recordando-se da querida irmã, também se emocionou, ouvindo-o falar dela com tal desvelo.
Comovido ante tão grande fidelidade, percebeu que, apesar do tempo, ela jamais tivera substituta em seu coração.
- Mas, camarada Kóstia, Mayra é tão jovem!
Não estará um tanto imatura para assumir compromissos com um homem maduro como tu?
- Sim, ela é muito jovem, é por isto que te peço ajuda.
Quero que convenças Sumarokov a consentir que ela se case comigo, pois farei dela a mulher mais feliz da terra.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 20, 2016 8:35 pm

Diz-lhe, Iahgo, que ele jamais se arrependerá.
Prometo-lhe dar a Mayra segurança e muito amor...- Kóstia solicitava a Iahgo intercedesse por ele, junto ao mujique, certo de que seu pedido seria acatado.
Peço-te, Iahgo, ajuda-me a falar com Sumarokov ainda hoje, porque ao partir deixarei nosso noivado oficializado e as bodas marcadas para meu próximo regresso...
Alex ouviu, perplexo, a revelação do amigo Kóstia.
Contrariado, em sua mente passavam muitos pensamentos, mas afinal que destino teria a filha de Sumarokov?
Acabaria se casando com algum jovem filho de mujique, e Kóstia, era um destemido trabalhador, que conseguira vencer, a custo do próprio esforço.
Suas ideias revolucionárias casavam-se perfeitamente com as suas; enfim, agradava-lhe tê-lo por perto e confiava plenamente que ele seria capaz de dar a Mayra um futuro melhor do que qualquer outro homem.
Depois bateu em suas costas, dizendo:
— Está bem, meu amigo, vejo que não desistirás da menina.
Não se trata apenas de uma aventura fácil.
Apesar da diferença de idade, conservas-te jovem e saudável e poderás fazer feliz qualquer mulher.
Conta comigo, ajudar-te-ei.
Terás que enfrentar Iulián, que adora a filha.
Penso que ele não concordará.
— É por isso exactamente, camarada, que te peço, me socorras; a ti ele não poderá recusar.
Um pedido teu é uma ordem entre os mujiques.
- Farei o possível, mas escuta, já confirmaste os sentimentos da menina em relação a ti?...
Achas que ela te corresponde igualmente?
Nosso regime ordena a submissão feminina aos homens, condição que nós repudiamos.
Somos homens de pensamento livre e estamos implantando em nosso povo uma nova mentalidade, na qual a decisão da mulher é soberana.
- Compreendo-te, e por isto desejo que me auxilies.
Ainda não declarei meus sentimentos à moça e só o farei com o consentimento paterno.
É mais uma prova da sinceridade de minhas intenções.
Estou preservando-a de uma desilusão.
Não tenho mais idade para os arroubos da juventude como outrora aconteceu entre mim e Sácha.
Se tivéssemos sabido aguardar o tempo, poderíamos ter tido melhor sorte.
À recordação do namoro clandestino, as lágrimas afloraram aos olhos de Kóstia e Iahgo perguntou-lhe subitamente:
- Tens uma filha, Kóstia, cujo destino desconheces, se sobreviveu ou não.
Mas, quem o saberá?
Somente Deus... e quem a encontrou.
Pensaste que, se tua filha estiver viva, um dia poderás encontrá-la?
- Quinze anos! - explodiu Kóstia.
Revirei céus, mares e terras à sua procura e nada encontrei.
Desisti, meu caro.
Depositei minha esperança em Sergei e Karine, mas o pobre diabo e sua concubina julgaram-na também morta, ou não quiseram contribuir para que eu a encontrasse.
Somente, Nastássia poderia saber!
Desejo que seu Espírito me revele a verdade.
Dizem que os mortos se comunicam e que, em casa da condessa Wera, se fazem tais comunicações.
Certa vez, tentei encontrar-me com ela, mas não pude ser atendido, infelizmente.
Pretendo voltar lá outra vez.
Quem mais nos poderia auxiliar?
- O mago Nabor... perito neste assunto.
Já conversaste com ele?
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 20, 2016 8:35 pm

- Não, por quê?
- Penso que ele pode explicar essas comunicações, pois está interessado no estudo do ocultismo e dos Espíritos, e de sua actuação em nosso mundo. Sabias? ,
- Dmitri Nabor?
Sempre achei o professor meio alorpado e agora vens confirmar minhas suspeitas, mas onde ele se encontra?
- Encontra-se em Moscou, fazendo pesquisas.
- Ele não estava dando aulas? - indagou Kóstia que já havia visto o mestre Nabor algumas vezes.
- Esteve por algum tempo em nossa casa, a pedido de minha mãe, para estudar o caso de Mayra, sua protegida, que tinha visões.
Não sei a que conclusões chegou o mestre.
Acredito que pouco conseguiu desvendar...
Penso que desistiu.
- Não te compreendo...
Porquê Mayra?
O que tem ela com o mestre Nabor? — indagou Kóstia, muito interessado.
- É-me doloroso falar deste assunto, mas abrir-me-ei contigo - e fazendo pequena pausa, continuou:
— Desde que minha irmã morreu, dizem as pessoas videntes que seu Espírito está a rondar nossa casa.
Meu pai foi a maior vítima de suas aparições.
Sentia-se constantemente perseguido, como se ela quisesse acertar contas com ele.
Realmente, compreendo muito esses acontecimentos.
Nessa ocasião, estava longe de minha casa.
Não participei dos factos.
Dizem que é comum vê-la assustando as pessoas, na época de colheita, aliás, na mesma ocasião em que morreu.
Convidei Nabor, no intuito de auxiliar no que fosse possível, com suas pesquisas e experiências, pois Mayra também tornou-se uma séria vítima destas aparições, embora não a tenha conhecido.
Ocupado com meus negócios, não interferi nos acontecimentos que fogem à minha compreensão.
Nem o mestre conseguiu orientar o Espírito, cuja sua presença aumentava, ainda mais, a confusão.
Sei que ele aparece inesperadamente, causando muitos problemas, a ponto de mujiques supersticiosos e ignorantes abandonarem o trabalho.
O assunto os desconfortava, mas precisava ser encarado normalmente.
Casos semelhantes aconteciam, principalmente nos meios mais pobres e ignorantes da velha Rússia.
- Bem, percebo que se trata de um assunto muito delicado.
O invisível apavora as pessoas medrosas, que não dominam o assunto e misturam aos factos, fruto de fértil imaginação.
Estive lendo algo sobre um mestre francês, Allan Kardec, que se utiliza de mesas para se comunicar com os mortos.
Ele faz interessantes pesquisas com a participação de cientistas e literatos.
Suas experiências e seu trabalho têm dado excelentes resultados.
Ele se utiliza da sensibilidade de certas pessoas, chamando-as de “médiuns”, para que as mesas girem, e, através delas, se comunica com os mortos.
Em Paris, é o assunto palpitante do momento.
Ouviste falar?
— Sim, Nabor referiu-se a ele com muito respeito, embora ele próprio nada tenha conseguido com suas pesquisas e experiências.
O fantasma de Sácha continua sofrendo e perturbando algumas pessoas e o medo é uma força incontrolável.
Nunca se sabe se os factos são reais ou imaginários.
Só sei que estas aparições, boas ou más, continuam atormentando o povo.
Kóstia estava muito intrigado.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 20, 2016 8:35 pm

Seus olhos brilhavam com a possibilidade de conversar com o Espírito de sua amada, aliás nunca sentira que ela estivesse mesmo morta.
Acreditava que a existência deveria ter continuidade em algum outro plano.
Aquele assunto o interessava vivamente.
Havia lido os periódicos que lhe caíam às mãos.
Naqueles momentos de transição económica e social; cujos valores eram contraditórios, o povo se apegava a qualquer coisa.
Ele, porém, não se deixava levar pela onda de fanatismo e procurava manter a calma, ler e raciocinar.
O assunto, no entanto, era abordado de maneira pouco séria e, geralmente, as pessoas se esquivavam de comentá-los, temendo os padres e sua excomunhão.
Os dois amigos continuaram a conversar sobre experiências realizadas no ocidente e que, agora, chegavam ao solo da Mãe Rússia como verdadeira mágica.
Essas novas ideias clandestinas provocavam polémicas, aliciando alguns adeptos e muitos curiosos.
Não faltavam os charlatães que se valiam da mediunidade para iludirem as pessoais ingénuas.
As falsas interpretações do assunto fomentaram o fanatismo do povo ignorante e sofrido.
A czarina, vulnerável, deixava-se envolver pelas falsas predições de monges oportunistas, que colocavam em jogo a integridade do palácio.
Estas últimas notícias que vinham da capital, deixavam os reaccionários pensativos e inquietos.
Como combater o fanatismo do povo russo, naturalmente místico?21
Horas mais tarde, em casa de Sumarokov, os três homens comentavam os acontecimentos na capital.
Kóstia, calado, estava nervoso, ao contrário de Alex, que permanecia tranquilo, palrando descontraído com Iullán Sumarokov.
Este ainda não havia percebido as verdadeiras Intenções dos dois.
Enquanto Catienka passava o chá, a conversa continuava animada.
Sumarokov os recebia com alegria em seu humilde lar, enquanto o destino lhe reservava uma surpresa.
- Sinto-me honrado em recebê-los, camaradas... mas, ainda não sei o porquê de tanta solenidade, a estas horas da manhã.
Alex se levantou e, representando o amigo naquele acto, fez o pedido formal do namoro, com toda a calma e a maior solenidade possível.
- Sr. Iullán Sumarokov, venho em nome de meu amigo, aqui presente, Sr. Wladimir.... fazer-te um pedido, em nome da nossa velha amizade, que muito me honra e com certeza honrará o teu lar.
Em nome de Wladimir, homem correto e probo, meu grande amigo, peço-te a mão de tua filha Mayra, em namoro, a fim de que, muito breve, seja oficializado o noivado.
Meu amigo viajará, ainda hoje, e necessita de tua resposta imediatamente.
Ninguém, ali, imaginava que as palavras de Alex Norobod perturbassem tanto a alma de Iullán, cuja reacção foi assustadora.
A expressão do rosto de Sumarokov transformou-se, seus olhos azuis pareciam saltar das órbitas.
Seu pescoço tomou-se vermelho entre a gola do casaco como se fosse um peru.
As veias altas pareciam explodir.
A cor de sua face ora era rosada, ora pálida.
A caneca caiu de suas mãos, o chá se espalhou pelo chão.
O pobre mujique olhava um e outro como se tivesse sido fulminado por um raio.
Alex, vendo-o nesse estado, arrependeu-se de lhe haver falado sem um prévio aviso.
Kóstia, por sua vez, estava tão assustado quanto ele.
Ninguém falava e ninguém ousava se mexer, nessa situação que demorou alguns minutos.
Catienka observava-os de longe, porque não ouvira bem o assunto, ocupada com seus afazeres.
Pensou que se tratasse de algum acidente e correu a limpar o chá derramado, mas logo percebeu que alguma coisa grave havia acontecido.
A presença da moça despertou Sumarokov, que desejava reagir, mas, engasgado, não conseguia articular uma palavra.
- Iulián - chamou Catienka.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 20, 2016 8:36 pm

O que foi?
Seu homem não lhe respondia, parecia uma estátua.
Temendo que ele caísse, aconselhou-o:
- Senta-te - e ele se deixou conduzir à cadeira como uma criança.
O suor começou a correr pelo rosto.
- Ele não está bem - disse Catienka, olhando para os dois amigos.
O que, afinal, aconteceu?
Recuperando-se da surpresa que causara o seu pedido, Alex explicou, desapontado:
- Fiz-lhe um pedido de namoro, apenas isto.
- Namoro? - perguntou, surpresa.
- Sim, Kóstia deseja namorar sua filha.
- Então foi isso? Pobre marido.
Desculpem-me, senhores, mas Iulián não está bem, ajudem-me a levá-lo para o quarto e colocá-lo na cama?
Iulián foi carregado para o aposento, o corpo hirto.
Tiveram dificuldade em passá-lo pela porta, mas conseguiram, finalmente, estendê-lo sobre o leito.
A mulher, observando os dois homens em pé, pediu-lhes preocupada:
— Peço aos senhores que me deixem a sós com ele, por um momento.
Sei como fazê-lo reagir.
Com certeza ele deve estar em choque, pois tem muito ciúme da filha.
- Compreendo - disse Alex.
Aguardaremos na sala.
Catienka demonstrou tanta segurança em sua atitude, que os dois os deixaram a sós, imediatamente.
A resoluta moça sabia, certamente, tomar as providências que o caso requeria.
A bondosa mulher, vendo-se só com o marido, não teve dó e acertou-lhe um tapa no rosto, para reanimá-lo.
Sumarokov despertou do choque e olhou-a sério, com uma expressão de pavor.
- Iulián, o que está a acontecer?
- Não posso te responder agora, mulher, os homens ainda se encontram aqui?
- Sim, aguardam-te na sala.
- Catienka, poupa-me de vê-los, tu sabes como despedi-los.
Pediram-me Mayra em namoro, e eu não tenho condições para lhes dar uma resposta agora.
A esposa compreensiva, sentindo que ele não estava mesmo bem, para não lhe causar maior desgosto, atendeu a seu pedido.
Entrou na sala, segurando o avental e explicou, humildemente:
- Senhores, perdoem-nos, mas Iulián não se sente bem, pede-lhes desculpas.
Logo mais, quando estiver em boas condições, irá levar-lhes a resposta de seu pedido.
Peço-lhes que não o levem a mal, a surpresa foi muito grande.
Desapontados com o desfecho da situação, restavam- lhes obedecer, assim os dois fizeram uma vénia e se retiraram calados, também apresentando suas escusas.
Ao sair, Alex voltou-se, dizendo:
- Diga-lhe, Catienka, que o aguardaremos em meu gabinete.
Ela esperou que os dois desaparecessem e voltou Imediatamente ao quarto.
- Iullán! Como estás?
- Mulher, prepara-te, porque teremos que nos mudar.
- Por que Iullán? Estás delirando?
- Não, não estou.
Só sei, mulher, que aqui, nesta fazenda, não ficaremos mais um dia sequer.
- Eles aguardam a tua resposta.
O que irás fazer?
Vais magoar o Sr. Alex?
Pensaste nisso?
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 20, 2016 8:36 pm

- Não me Importa, se o magoo ou não, temos que partir o quanto antes.
- Para onde, meu querido. Iremos nós?
- Ainda temos uma saída.
Lembras-te de tio Nicolau?
Iremos para sua fazenda e aceitaremos a sua oferta.
Chegou o momento.
- E os meninos, Iullán?
Eles já se acostumaram aqui, são excelentes professores!
Onde mais encontrarão outra oportunidade tão boa?
- Eu sei que será difícil, mas eles são trabalhadores e inteligentes, logo se ajeitarão.
Não posso permitir que Kóstia se case com a minha filha.
Catienka compreendia o seu ciúme, mas não podia entender o motivo da fuga que causaria uma mudança radical em suas vidas.
Tentou dissuadi-lo, mesmo sabendo que Iullán era teimoso e ignorante.
Ele fechava os ouvidos a qualquer argumento, mas não cedia.
- Podes recusar, homem.
Não és obrigado a aceitar o namoro!
- Não é tão fácil assim!
Se ele, ao menos, tivesse vindo só, Catienka.
Dependemos de Alex Norobod.
Será que não entendes que eu não posso recusar?
- Ora, Iullán, Sr. Alex haverá de compreender que não aceitas o casamento.
Conversa com ele, pois está aguardando-te em seu gabinete.
Iullán só tinha um pensamento, fugir, fugir.
Não queria enfrentar a dura realidade e carregava o peso de seu segredo sozinho, como se fosse uma punição.
A promessa que ele e Anna fizeram, jamais poderia ser quebrada, mas Catienka, pelo menos, precisava saber da verdade.
Ela jamais o trairia.
Alex tinha Kóstia em alta consideração, eram camaradas.
Ele não iria compreender e sua recusa criaria uma barreira entre eles, justamente no momento em que as coisas começavam a se ajeitar.
Lamentava o destino e a inocente promessa.
Antes de quebrar seu juramento, tentaria contornar a situação e inventar um motivo que justificasse sua recusa.
Levantou-se, parecia carregar nas costas o peso do mundo, tomou uma copada de chá para reagir e foi até a mansão Norobod, para a tranquilidade de Catienka.
Ao sair da isbá, encontrou Mayra e os irmãos voltando alegremente da escola.
- Onde vai, papai? - perguntou inocentemente a mocinha, esbarrando nele.
- Cuidar de teu destino.
- Meu destino?
- Sim. Entrem - resmungou Iullán, não querendo entrar em detalhes.
Catienka os espera e lhes explicará.
Os cinco filhos entraram na isbá, curiosos.
- O que aconteceu, Catienka, papai está com uma cara?!... - quiseram saber.
- Teu pai é uma mula teimosa.
Já o conhecem de sobra.
Estiveram aqui o Sr. Alex e seu amigo, Kóstia, e lhe fizeram um pedido... - olhou para Mayra sorrindo - vieram pedir-te em namoro para o camarada Kóstia.
Todos começaram a rir, com excepção de Mayra e Nicolau; a primeira porque estava surpresa e o segundo porque ficara enciumado.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 20, 2016 8:36 pm

Os três irmãos começaram a fazer festas com a irmã, brincando de lhe pedir a mão e a envolveram com sua saudável alegria.
Nicolau, sem compartilhar da brincadeira, afastou-se, resmungando qualquer coisa.
Mayra tremia, porque ainda não voltara de sua surpresa e a brincadeira dos irmãos a tonteava.
- E papai?
O que ele respondeu? - perguntou, sentindo a seriedade da visita.
- Teu pai quase teve uma síncope e pediu-me que os despedisse.
Agora ele foi se encontrar com eles e lhes dar uma satisfação.
Porém, ouçam-me.
Sumarokov deseja mudar-se para a fazenda de tio Nicolau, para que não te cases.
Como ele é cabeça dura, não duvido que amanhã mesmo estejamos de malas prontas.
- Ah! não, isto não! - reclamou Pável.
Ele não pode fazer isto connosco, logo agora!
- Onde iremos encontrar outra escola? - perguntou Kréstian.
- Para mim, pouco importa, aqui ou lá, contanto que tenhamos comida e casa.
O que papai decidir, para mim está bom - disse Iulián, que gostava muito dos tios e já pensara algumas vezes em auxiliá-los, na fazenda.
- E tu, Nicolau, o que achas da ideia?
- Concordo com Iulián, talvez fosse o melhor.
Os tios não declararam que, quando morressem, suas terras seriam nossas?
Pois bem, chegou o momento.
Os cinco olharam-no, espantados com sua frieza.
- Papai não pode fazer isto connosco, por causa de um simples pedido de casamento! - disse Pável, que gostava do lugar.
Mayra estava calada, ouvindo os irmãos.
Pensava no pedido oficial de namoro, antes de ser consultada.
Ela mesma não sabia o que pensar e nem conseguia compreender a revolta de seu pai.
Afinal, os três não eram amigos?
Ansiosos, esperavam a volta do pai.
Iulián Sumarokov entrou no gabinete pisando firme.
Os dois o aguardavam assentados e ele também assentou-se em frente a eles.
Não tinha coragem de encarar Kóstia que não entendia o porquê de seu pedido causar tanto abalo no mujique.
Ansioso, esperava o desenrolar da entrevista.
Seu destino estava nas mãos dele.
- E então, camarada, recuperou-se do susto? - brincou Alex, para descontraí-lo.
Afinal, um pedido de casamento era, para ele, um facto normal.
Compreendo teus sentimentos, camarada, porque também sou pai, não sei como reagirei quando tiver que entregar minha filha em casamento.
Mas, afinal, qual é a tua decisão?
- Desculpem-me o susto -, disse olhando-os.
Depois, voltou-se para Alex:
- Agradeço o pedido que fizeste em nome do camarada Kóstia, e trago-te a minha resposta, rogando-te que me compreendas, pois não posso permitir o namoro de minha filha Mayra com o camarada Kóstia - respondeu, de uma vez, engasgando-se e atropelando as palavras.
Agora eram eles que ficavam surpresos.
- Porquê, camarada Sumarokov? - quis saber, Alex.
- Porque não posso.
Não posso revelar o motivo, porque fiz uma promessa à minha saudosa Anna... - ante o olhar penetrante de Kóstia que acompanhava suas palavras.
- Quem é Anna? - interrogou o patrão.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

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