Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 21, 2016 8:03 pm

- Minha finada mulher.
- Ah! que promessa lhe fizeste, podemos saber?
O interrogatório do patrão causava-lhe estranho mal-estar e sua testa começou a suar novamente, desejando, naquele momento, estar em casa.
Procurava encontrar uma explicação melhor para sua recusa, mas não conseguiu convencê-los:
- A de que Mayra permaneceria solteira.
- Ah, e isto é promessa?!
Como puderam fazer tal juramento... tratando-se do futuro de tua filha?
Tal promessa não tem validade, uma vez que a pequena não foi consultada.
Ainda levas, Iulián, em consideração tais absurdos?! - alegou Alex, nervoso com tanta ignorância.
É esta a mentalidade de nosso povo:
crendices, promessas, como se tudo isto resolvesse o problema da fome que assola nossa pátria.
Logo tu, Sumarokov, camarada das frentes liberais? - chamava-o aos brios da luta, em prol da libertação.
De cabeça baixa, Sumarokov, envergonhado, não sabia o que responder.
- Sumarokov, a pessoa mais interessada em toda nossa conversa, não se encontra presente - referia-se à sua filha.
Se a menina Mayra quiser o camarada Kóstia para marido, não poderás recusar.
Chamemos Mayra e ouçamos sua opinião.
O camarada Kóstia deseja regressar ainda hoje, levando consigo a resposta - disse Alex, enérgico, batendo palmas para um servo.
Vai à casa de Sumarokov e peças a Mayra que venha imediatamente - ordenou decidido, valendo-se de seus direitos.
- Minha filha é muito jovem - alegou contrariado, Iulián, tentando dissuadi-lo, sem contudo ousar encarar o pressuposto noivo.
Kóstia estava intrigado com a atitude de Sumarokov, mas aguardava o desfecho da situação.
Não se sentia seguro quanto aos sentimentos da moça, vira-a poucas vezes e pouco se falaram.
Era um pulo no escuro, mas aguentaria firme o que viesse, porque nada podia fazer contra os costumes.
A mentira de Sumarokov não encontrava ressonância nele.
Algo estava errado.

21 A alma eslava, com certeza, estava pronta para receber a Doutrina dos Espíritos, se o seu destino não fora desviado. (N. do autor espiritual)
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 21, 2016 8:04 pm

50 - Mayra, noiva

Instantes depois, Mayra entrou no gabinete, acompanhada do servo.
A tímida senhorita entrou, adivinhando o que a esperava e, altiva, cumprimentou Alex Norobod e Kóstia.
Os olhos de Kóstia brilharam quando a viu e dedicou-lhe leve sorriso, ajeitando uma poltrona para que ela se acomodasse.
Sumarokov, com cara de poucos amigos, estava muito nervoso e calado, aguardando as decisões que fossem tomadas, mas ninguém o faria mudar de ideia.
Arquitectava um plano para que aquele encontro não tivesse significação nenhuma no futuro, nem que para isto empenhasse sua alma.
Deixassem-nos decidir, à vontade, não perdiam por esperar.
Alex foi o primeiro a quebrar o silêncio; menosprezando a carranca de Sumarkov, dirigiu-se à menina:
- Mayra, é necessário explicar-te o motivo de te chamarmos aqui:
trata-se de teu futuro.
Podes ficar tranquila porque te desejo o melhor.
Valho-me da autoridade de senhor de tua família, para casá-la com meu amigo Wladlmir, mas antes solicito teu consentimento, pois tens idade para te casares.
Terás que me responder.
As palavras de Alex Norobod tontearam-na.
Não caiu porque estava assentada, mas deixou pender a cabeça, as faces estavam brancas como cera.
Kóstia, num impulso instantâneo, correu a ampará-la e Sumarokov, de um pulo, se pôs entre os dois.
- Deixa-a!
Kóstia, perturbado, afastou-se para um canto, imediatamente.
A atitude de Sumarokov o magoava profundamente, não o perdoando pela desfeita à frente de todos.
Aquela atitude o incentivava a lutar ainda mais pela moça.
Qual o mujique que não queria o casamento de sua filha?
Iulián Sumarokov estava muito enganado se pensava que ele iria desistir.
O mudo duelo não passou despercebido a Alex que, tomando as dores do amigo, pela desfeita recebida, estava decidido que ele sairia de sua fazenda com a resposta tão almejada.
Assim que Mayra se recuperou da surpresa, Alex tornou a perguntar-lhe, mais firme e decidido:
- Senhorita Mayra, peço-te que me dês a resposta, desejas casar-te com Wladimir Antón Boroski?
- É necessário que eu dê a resposta agora? - balbuciou, espantada.
Wladimir não a desgostava, mas não estava preparada para responder, porque nunca pensara em tal assunto.
O senhor Alex pareceu-lhe ansioso demais:
- Sim, Mayra, não podemos adiar, Wladimir tem que seguir viagem.
Deseja apenas tua resposta para viajar, dando-te tempo suficiente para te preparares para o matrimónio, que poderá se realizar na próxima primavera.
Após teu consentimento, ficará marcado o noivado para daqui a dois meses.
Um silêncio glacial dominou a sala.
Ninguém ousava falar, esperando a resposta da menina que, por baixo do grosso casaco tremia como vara verde ao vento.
Seus olhos espantados davam-lhe o aspecto de uma gazela prestes a ser capturada pelo caçador.
Sumarokov não ousava encará-la, aliás, encontrava-se em pé, atrás dela.
De repente, Mayra ergueu seus límpidos olhos para o pai e olhou-o numa muda pergunta:
“O que faço papacha?"
Sumarokov fechou os olhos como se tivesse sido baleado, ou sentisse um punhal cravado em seu peito.
O pobre homem orava em silêncio.
Suportava tudo calado, certo de que mesmo com o consentimento de Mayra, jamais permitiria tamanha violência contra a natureza.
Que o Julgassem como quisessem, nada seria maior que os seus motivos, disposto a calar para sempre seu segredo.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 21, 2016 8:04 pm

E, sem encará-los, saiu pisando com muita força o assoalho de madeira.
Suas botas faziam barulho estridente como marteladas.
Alex e Kóstia ficaram ouvindo até desaparecer pelo longo corredor.
Alex Norobod aguardava pacientemente a resposta da Jovem.
Kóstia, nervoso, sentia seu coração sair pela boca.
- Aceito! — respondeu Mayra, pensando:
- Sou eu mesma, meu Deus!
Alex deu um suspiro aliviado.
Apesar do costume da época, não queria pressionar a jovem tão educada e meiga, querida por todos.
Considerava que aquele casamento representava a felicidade de Mayra.
— Multo bem! — exclamou feliz.
Parabéns aos futuros noivos!
Abraçou a futura noiva com respeito e depois beijou o noivo.
Depois, aliviado, disse Alex, dando uma palmadinha no ombro da menina:
- Mayra, cumprimenta teu noivo.
A jovem ofereceu a face corada para o noivo beijar e, em seguida, também depositou um leve beijo em seu rosto.
Depois pediu, vermelha e recatada:
- Posso ir-me, Sr. Alex?
- Pode, Mayra.
Depois que teu noivo for embora, encontrar-me-ei com teu pai e acertaremos a época do noivado.
- Passar bem, Sr. Wladimir.
- Passar bem, Mayra.
Seu vulto gracioso ganhou o corredor.
Ao contrário do pai, seus delicados pés nem pareciam tocar o chão, mesmo usando grossas galochas.
Os dois homens só voltaram a falar quando ela desapareceu na curva do corredor.
- Por um momento, camarada Kóstia, pensei que fosse necessário apartar uma briga! - disse sorrindo o amigo, lembrando-se do Impasse minutos antes.
É uma pena que ele seja tão cabeça dura.
Sumarokov é o meu melhor empregado, trabalhador e leal, mas muito teimoso.
Se não tivesse me valido do meu direito de patrão e dono das terras, tu não terias ganho tal donzela, meu velho!...
- Reconheço, camarada, e agradeço-te a minha ventura, agora estou tranquilo, pois acredito que concretizarei meu sonho.
Sinto, porém, que não conseguirei aguardar a próxima primavera.
Retomarei ainda hoje e colocarei todos os meus negócios em dia - respirou aliviado, jogando-se na poltrona onde Mayra estivera assentada.
É a criatura mais bela que já vi, depois de tua Irmã.
Nunca te arrependerás, camarada Iahgo, de teres me ajudado, devo a ti, toda a minha felicidade!
A sincera alegria do amigo deixou Alex gratificado e, desejando comemorar, mandou trazer capitoso vinho de sua rica adega.
Instantes depois, saía uma tróica da fazenda levando Kóstia, que se julgava o homem mais venturoso da Terra, rumo a São Petersburgo.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 21, 2016 8:04 pm

51 - Os Sumarokoviski fogem

Entretanto, Iullán Sumarokov entrou em casa no mesmo ritmo com que saíra da casa do patrão, olhando o chão como se estivesse de mal com o mundo, ansioso por estar a sós e compartilhar seu plano com a esposa para impedir aquele absurdo.
- Sempre contei com teu apoio, minha querida, em todos os Instantes difíceis da vida, e neste momento, estou empenhado em obter a tua ajuda.
Rogo-te não me faças perguntas e aceita o meu pedido, partamos esta madrugada!
Catienka, serena e compassiva, colocou a mão sobre a boca, soltando um leve gemido.
Não podia entender a atitude do marido e achou que ele estava passando das medidas, tudo por causa de um pedido de casamento.
- Está certo, Iulián.
Não queres que tua filha se case, mas não é motivo para deixares o trabalho, o conforto e o futuro de teus filhos, para que eles possam trabalhar nas terras do tio e se tomarem mujiques do campo...
Ah! Não, Isto não se faz!
Eu não concordo, será ruim para nós todos!
- Eu sei o que é bom para nós todos, se não quiseres ir, não vás, mas eu e meus filhos iremos.
- Que modos são estes, Iulián, nunca falaste assim comigo!
Meu Deus, estás mesmo contra o camarada Kóstia...
Afinal o que ele te fez?
- A mim? Nada! - respondeu surpreso.
Aparentemente, não tinha motivos para impedir o casamento, e o pior, desobedecer às ordens de seu patrão era crime.
- Então, por que te opões?
- Não desejo ver minha filha casada!
Vamos! - disse decidido.
Comecemos já a fazer nossas malas.
Que ninguém, por enquanto, saiba.
Sairemos pela madrugada.
- Teus filhos precisam saber.
- Contaremos à noite, quando se forem deitar.
- De surpresa?!!! - Catienka previa a confusão.
O marido havia decidido mesmo, e Catienka não teve outro remédio senão arrumar as trouxas.
Nunca o vira tão acabrunhado.
Sumarokov saiu para organizar duas carroças e deu de cara com Mayra.
Sem encará-la, desviou-se dela.
- Papacha, aonde vais?
- Estou buscando algumas mulas.
- Por que saíste, papacha, sem falar com o Sr. Alex?
- Por nada, minha filha, deste a resposta?
- Sim, papal, aceitei, pois não sabia que atitude tomar, deixaste-me só!...
- Tanto fazia dizeres sim ou não, tua sorte já estava decidida, mujique não tem o direito de escolher o noivo para sua filha...
É isto, Mayra.
O Sr. Alex nos considera como animais, incapazes de expressarmos nossas ideias, e ainda pensa que, um dia, poderá modificar o povo russo! - resmungou desgostoso.
- Não acredito que ele e o camarada Wladimir sejam assim.
Aceitei o pedido porque pensei que tivesses dado teu consentimento, apenas por isto!
- Não queres te casar? - perguntou, aliviado.
Por que não lhes disseste?
- Ainda temos tempo... quem sabe o Sr. Wladimir ainda não se foi...
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 21, 2016 8:04 pm

- Aprontei a tróica, vi-o ganhar a estrada - respondeu o pai.
Mas, se não queres te casar, ninguém no mundo pode obrigar-te a isso.
Mayra era indiferente à situação, apenas se sentia desmotivada para o casamento.
Sentia-se tão Jovem!
Gostaria de estudar, conhecer lugares, ler livros; sonhava em aprender música, pintura, assistir a peças teatrais.
O casamento poderia ajudá-la ou, o mais certo, talvez atrapalhar seus anseios.
O pai perguntou-lhe, severo:
- Não gostas dele, é por isto que estás indecisa, não é verdade?
Sumarokov temia que o moço pudesse procurá-la e, com sua insistência, conseguir realizar seu intuito.
A decisão de Mayra era muito importante para ele.
Tudo seria mais fácil se ela se recusasse.
Quem sabe, na fazenda do tio, lá por aquelas bandas, encontraria um jovem com quem ela se simpatizasse!
A menina nada respondeu.
Simpatizava com o noivo, mas não queria magoar o pai e balançou a linda cabeleira loura, negativamente.
Sumarokov sorriu, abraçou-a, respirando aliviado.
- Eu sabia que tinhas juízo.
És bem minha filha!
Mayra entrou em casa e encontrou Catienka arrumando as roupas e seus pertences.
- Que fazes, Catienka?
- Nada, apenas guardando algumas roupas - respondeu com duas lágrimas nos olhos.
- Estás chorando?
-Sim, estou, Mayra, teu pai, às vezes, me decepciona.
Tudo por causa de teu casamento.
Nunca vi um pai ter tanto ciúme da filha!
Mayra, sem compreender o porquê das lágrimas, pensou que ela, também, sentisse ciúmes dela e calou-se.
Catienka não parava de arrumar as coisas e chorar.
- Afinal, o que está acontecendo com todos? — perguntou Nicolau, entrando.
- Tua irmã foi pedida em casamento e teu pai não se conforma.
Quer que todos nós partamos nesta madrugada, por isto estou arrumando as malas.
Não me conformo! - explodiu Catienka, que não queria deixar a fazenda, onde todos estavam arranjados, tinham comida, casa, escola, roupas e trabalho.
Nicolau voltava de sua surpresa, olhou para a irmã multo agitado:
- Tu aceitaste o pedido?
- Sim, ignorava a recusa de papai.
- Estás comprometida com o Sr. Wladlmir?
- É o que acertaram, papai, o Sr. Alex e ele; e o que tem a mudança a ver com tudo?
- Sairemos às escondidas.
Teu pai não quer que ninguém saiba de nosso paradeiro.
Ele disse que tudo fará para impedir tal união.
Nicolau, que no fundo concordava com o pai, começou a apoiar a ideia, a escola que ficasse e deu um sorriso de felicidade.
À noite, Sumarokov reuniu os filhos e explicou:
- Vamos sair desta fazenda paira nunca mais voltar.
Tio Lau nos espera, não quero que ninguém saiba do nosso paradeiro.
Quando despertarem pela manhã, estaremos longe.
- O Sr. Alex pode nos encontrar, pai, o lugar não é tão longe assim - reclamou Pável.
- Lá, ele não terá poder sobre nós.
A lei da servidão acabou e foi ele mesmo quem ajudou.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 21, 2016 8:05 pm

Mas, enquanto aqui permanecermos, estaremos sob seu jugo e ele poderá, se quiser, determinar nossos actos.
Norobod ainda é a lei.
- Tudo isto para que impeças Mayra de se casar, papacha? - interrogou Pável, bastante intrigado.
De todos, ele era o mais contrariado.
Não queria de forma alguma abandonar a escola, logo agora que seus alunos estavam indo tão bem e não havia outra pessoa para substituí-lo.
Sumarokov não respondeu. Estava decidido.
Não se importava com o julgamento dos filhos.
Nenhum argumento o faria desistir.
Assim, conforme o combinado, na madrugada, viajaram em carroças.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 21, 2016 8:05 pm

52 - Alex não desiste

Quando Alex Norobod soube da fuga de seus empregados, mandou procurar pistas, mas ninguém sabia o paradeiro deles.
A escola estava à mercê dos alunos.
Alex, irritado com a atitude irresponsável, prometeu a si mesmo que não engoliria aquela desfeita, certo de que fora por causa da sua exigência, quanto ao casamento de Mayra com Kóstia.
A Sra. Maria Norobod, quando soube da notícia adoeceu e todos os diais chamava por Mayra.
A isbá do cercado estava como eles a haviam deixado, suas carroças foram insuficientes para levarem todos seus pertences, sobrando algumas roupas e muitas tralhas de cozinha, baús, etc.
Sónia e a filha tentaram reactivar a escola, incentivadas por Alex, mas os alunos não as queriam.
Preferiam os filhos de Sumarokov, com quem já estavam acostumados.
Os estudantes rebeldes, nada aprendiam.
Aquela situação tinha que melhorar e Alex Norobod decidiu ir à cidade contratar novo professor e, ao mesmo tempo, informar ao camarada Kóstia e avisá-lo da fuga da família de sua noiva, antes que ele chegasse com alianças e presentes.
Na verdade, ele queria procurar pessoalmente uma pista que o levasse até os fugitivos.
Alex indagou aos mujiques, sobre Sumarokov.
Percorreu vários pontos de sua propriedade, mas não obteve nenhuma informação, ninguém sabia notícias.
Como Alex Norobod, os mujiques também desconheciam a proposta de seus tios.
Finalmente encontrou uma vaga pista; antigo morador sugeriu que ele e a família talvez tivessem ido para a casa dos familiares de Catienka, na aldeia N...
Mais esperançoso, Alex partiu, decidido a recuperar o trabalhador e não o molestar com o casamento, aceitando sua recusa e proporcionando sua volta à fazenda.
Desejava que os filhos de seus empregados fossem alfabetizados e a escola voltasse a funcionar normalmente.
Ao retomar da viagem à capital, desviaria seu roteiro e os procuraria na tal aldeia, onde, com certeza, os Sumarokov haviam se escondido.
Kóstia, ao receber a notícia da fuga, ficou mortificado e queria a todo custo explicações que justificassem o comportamento de lulián Sumarokov.
Mais conformado com o facto, passada a raiva, Alex tentou acalmá-lo:
- Acalma-te, camarada Kóstia.
Assim que os encontrar, mandar-te-ei avisar.
Pretendo procurá-los em casa da família de Catienka, onde acredito que estejam.
Para onde mais iriam?
- Espera, camarada Iahgo, irei contigo.
- Não, não convém que vás, porque se Sumarokov fugiu para que sua filha não se casasse contigo, tua presença, meu amigo só irá complicar.
Deixa-me agir.
Reconheço que nos precipitamos um pouco, pressionando-o.
Quero que tenhas um pouco mais de paciência.
Kóstia, impaciente, estava disposto a qualquer loucura para rever a noiva.
Sumarokov que se danasse, ele não desistiria.
Finalmente, Alex convenceu-o a ficar.
- Está bem, camarada, se me permites irei contigo, mas deixar-te-ei só na aldeia N... e te esperarei, depois juntos seguiremos viagem.
-Vejo que és duro na decisão, homem!
Jamais convivi com pessoa tão decidida.
Onde herdaste tal têmpera apaixonada? - brincou o amigo, percebendo que ele estava inflexível.
Irás então, mas com o professor - explicou referindo-se a Semión que iria acudir a escola de Alex.
Aguardem-me na fazenda, pois entrarei na aldeia N... só.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 21, 2016 8:05 pm

Receio que tua presença possa piorar mais as coisas, caso encontre Sumarokov.
Estou decidido a trazê-lo de volta, é questão de tempo.
Alex estava muito feliz.
Encontrando o professor Semión, parte de seus problemas estava resolvido.
Sónia poderia se afastar da escola, porque ela e a filha somente aumentavam a confusão, não conseguiam impor disciplina.
Semión haveria de colocar a escola novamente em ordem.
Kóstia concordou.
Alex entraria na aldeia N...
Ele e Semión ficariam numa hospedaria aguardando seu regresso.
Com muita dificuldade, perguntando aqui e ali, Alex, acompanhado de um servo, conseguiu encontrar a casa da mãe de Catienka que, desconfiada, não quis dizer onde era a fazenda de Olga e Nicolau, embora intimidada com o luxo da tróica de Alex e a vultuosa quantia que este lhe mostrava; as moedas convidativas tilintavam na algibeira.
Apesar da difícil vida, os briosos camponeses não cederam e não se venderam.
Alex, apesar da insistência, voltou para casa, convicto de que fora enganado.
Depois mandaria um de seus empregados na aldeia para vigiá-los, até que encontrasse uma pista que o levasse a Sumarokov.
Nem ele mesmo sabia porque agia assim, dando tal Importância a pobres mujiques, que nem casa tinham...
Parou um pouco para pensar:
- O que tem essa gente afinal?
Queria esquecê-los, Kóstia que arrumasse outra noiva.
Sua filha Sácha veio-lhe à lembrança.
Já era moça feita, mais velha que Mayra, seria uma boa união.
Talvez o camarada se interessasse por ela e a filha faria uma boa escolha:
homem culto e Inteligente, apesar da procedência de mujiques.
Hoje, Kóstia, embora nenhum título da nobreza, era um abastado comerciante, possuía bastante bens e ambos lutavam juntos pela mesma causa.
Ele não tinha preconceitos.
Uma amizade sincera era muito mais importante que títulos e sangue real.
Alimentando esta esperança, encontrou os dois amigos, esperando-o no lugar combinado.
- Tu os encontraste? - Kóstia foi logo perguntando com grande ansiedade na voz.
- Infelizmente, nada encontrei, apesar da grande quantia oferecida.
Penso que a família de Catienka estava mentindo.
- Como assim? - perguntou Semión que nesta altura ficara a par dos últimos factos, lamentando a fuga de seus brilhantes alunos.
| Onde fica esta casa? - quis saber Kóstia, demonstrando claramente que não Iria desistir da moça.
- Camarada, esquece, esquece essa gente!
Ela não é para ti, nem conheces seus verdadeiros sentimentos! - quis Alex desestimulá-lo.
Não adiantará ires atrás.
Com certeza, neste momento, seu pai a terá convencido e nada, nem ninguém, poderá contrariá-lo.
- Ora! apenas quero saber seu paradeiro, depois desistirei, prometo-te!
- Está bem, voltemos... enquanto é dia... - dizendo isto, Alex deu ordem para virar a carruagem, no que foi seguido pelos dois.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 21, 2016 8:05 pm

53 - Sra. Norobod inconsolável

Durante o trajecto, Semion ouvia os lamentos de Kóstia que lhe narrava sua miserável adolescência passada naquela fazenda.
A vida de Semión não era tão diferente, porém, menos trágica.
Graças a seus pais, tivera melhor sorte e a oportunidade de estudar na capital.
Entretidos na conversa, os dois amigos nem perceberam que já se encontravam dentro da propriedade, perto da mansão Norobod.
Os lacaios vieram receber a pequena comitiva e, enquanto o servo entregava a tróica, Alex ordenou que se arrumassem os quartos para os visitantes.
Maria Norobod ainda se encontrava acamada.
A velha senhora não se recuperara, continuava inconformada com a fuga da mocinha, a quem queria como sua segunda filha e agora entrava num estado depressivo, perigoso para sua idade.
Desejava evitar Kóstia.
Era a segunda vez que, por causa dele, seu coração sofria, embora ele não tivesse culpa.
- Não devias tê-lo trazido, meu filho! - justificou-se a mãe, evitando a presença do moço.
- Não precisas te encontrares com ele, mãe.
Temos negócios em comum, e pretendo uni-lo a Sácha.
Estou apenas esperando um momento aprazado.
- Estás delirando, Alex!
Como queres uni-lo a Sácha!?
- Decisão que tomei por minha própria conta.
Eu sei o que é melhor para minha filha e para minha família! - respondeu altivo, sem intenção de magoá-la.
A mãe, sensível, recebeu suas palavras como uma afronta.
- Nunca falaste assim comigo, Alex!
Não basta o sofrimento que ele e teu pai me fizeram sofrer, agora vens tu, meu único filho, a magoar-me desta maneira!
Este homem deve ter algo com o diabo; à sua presença tudo se transforma em tragédia!
- Não sejas radical, minha mãe, estás exagerando.
É apenas um pobre homem que deseja acertar na vida! - defendeu Alex, demonstrando sua grande simpatia por Kóstia, afinidade desenvolvida através dos interesses comuns que os mantinham ligados como se fossem irmãos consanguíneos.
A discussão não chegaria ao fim, a Sra. Norobod nada podia fazer; o filho dava as ordens.
Ela, uma velha doente, mal podia se levantar para receber as visitas, era o seu triste fim.
Seu filho se casara com uma mulher que mal conhecia e tão sem carácter - pensava amargamente.
Estava profundamente infeliz, desejando morrer.
Alex não era mau, mas estivera sempre ausente de casa, valorizando mais os amigos que a própria família.
Seus negócios e viagens eram mais importantes.
Para ela, também, tanto fazia que sua neta Sácha se casasse com aquele homem ou não.
Aquela menina em nada se parecia com ela.
Era o retrato vivo da mãe, tanto no comportamento quanto no físico e inteligência.
Foi um desastre sua tentativa em continuar a escola.
Ela não servia para nada, pensava, muito contrariada.
Ainda bem que o professor Semión havia regressado, pelo menos uma boa notícia.
- Nada sabes sobre o paradeiro de Mayra Sumarokov, Alex? - perguntou mudando de assunto.
- Não, mãe - respondeu lacónico.
- Ela sim, é a única pessoa capaz de me alegrar nesta casa vazia.
Mayra é como um sol de verão que entra pela janela - suspirou a velha.
- Eu também simpatizo muito com a menina, fiz o possível para encontrá-los.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 21, 2016 8:06 pm

Resta-nos deixar que o sofrimento os faça nos procurar.
Aliás, coisa que duvido, tratando-se daquele cabeça dura, o Sumarokov.
-Ah! meu filho, são pobres, mas têm brio!
Nunca vi em toda minha vida, homem mais honesto e trabalhador! - exclamou admirada.
- Não estou aqui para ouvir elogios a pessoas indignas.
Passar bem, minha mãe!
Tenho mais que fazer - e saiu.
A velha contemplou pela janela a planície que se estendia a perder de vista no horizonte.
Mayra era tudo que ela queria, para morrer feliz.
Alex Norobod, disposto a colocar em ordem a escola, entregou-a a Semión.
Depois, procurou a esposa, avisando-a de sua intenção a respeito da filha.
- Sónia - dirigiu-se-lhe mecanicamente -, Sácha está em idade para se casar, estou te comunicando que já escolhi o noivo.
Apesar de seu jeito desligado, Sónia sentiu uma sensação muito estranha, parecia não estar preparada para ser sogra.
Não sabia quem era o noivo escolhido, e muito se admirava da decisão do marido, considerando-o completamente desinteressado pela sorte da filha.
Afinal, o que estava acontecendo?
A mulher não se conteve e soltou uma gargalhada.
- Ora essa! Sácha casar-se?!
Alex olhou-a surpreso, ouvindo sua risada histérica.
- Não sei, por que estás a rir.
Falo sério!
- É por isto mesmo!
Se estivesses brincando eu não estaria rindo.
Logo tu, Alex, nem te lembras da filha! - acusou amargurada.
Nossa filha, para ti, mais parece um erro.
Nunca te preocupaste com ela e muito menos com a sua sorte...
Agora queres casá-la?
- Sim - afirmou sem graça.
Preocupo-me com seu futuro.
- Quem é o noivo?
- O camarada Kóstia.
- Mas, não lhe prometeste, Mayra? - perguntou-lhe surpresa e revelando-se, pois ninguém lhe havia comunicado.
- Estás a ouvir assuntos atrás da porta, mulher?! - deu uma risadinha irónica, enquanto ela foi mudando de cor, e ficando corada como uma rosa vermelha.
- Sim, sabes que ouço, tenho de fazê-lo, pois, ninguém me fala!... - reclamou, queixosa, porque ele jamais conversava com ela.
Alex olhou-a sério, sentindo certa piedade, porque era a mais dura realidade, mas não deu o braço a torcer e explicou-lhe menos brusco:
- Sumarokov fugiu, abandonou o trabalho, porque não quer que sua filha se case... — encarando-a, decidido, e continuou:
- Kóstia logo a esquecerá — e como a esposa continuasse calada, sem aceitar seu argumento, perguntou-lhe:
Onde está Sácha?
- Está na escola.
- Vai chamá-la, preciso falar-lhe — ordenou, secamente.
Alex, apesar de ser um revolucionário e ter rompido com muitos preconceitos, era como o pai, tinha a mesma altivez, embora se esforçasse para não demonstrá-lo.
Guardava, ainda, nas atitudes e decisões, o tolo orgulho que sua posição lhe proporcionava.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 21, 2016 8:06 pm

Tinha consciência de que as mulheres eram seres racionais, mas em se tratando das mulheres de sua família, fazia questão de mandar e ser obedecido sem tergiversação.
Como se tivesse herdado de seu pai um de seus graves defeitos:
comandar as vidas à sua volta.
Comprazia-se de sua autoridade.
Como se, somente ele soubesse o que fosse melhor para os outros e, naquele caso, sua decisão tinha que ser acatada.
Entretanto, estava muito enganado quanto à filha e seu génio rebelde.
Ela saíra pior do que ele, e jamais obedecia ordens, tomando-se muito agressiva.
Essa atitude os distanciara com o tempo, chegando ao ponto de ser esquecida por ele, em sua educação.
Sácha ficou completamente entregue à mãe e a seu mau comportamento.
Além de ter herdado um génio terrível, não simpatizava com Kóstia para namoro.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 21, 2016 8:06 pm

54 - Sácha, uma filha rebelde

Sacha atendeu ao chamado.
O pai, antes de comunicar sua decisão ao amigo, queria que tudo estivesse a contento, para que sua escolha não fosse recusada, evitando novas decepções.
Frente ao pai, quando Sácha ouviu sua proposta, deu um pulo para trás, sem se preocupar com o risco que corria de apanhar e gritou, revoltada:
- Nunca!
- Que modos são estes?! - exclamou, sem reconhecer a filha que, de olhos bem arregalados, parecia uma rude camponesa a gesticular.
- Tu nem me vês e, agora, queres escolher meu noivo?
Se gostas dele, casa-te tu! - os olhos verdes da moça pareciam de fogo.
Antes que ele a pegasse pelo braço, ela saiu correndo para o quarto, ferida no mais fundo de sua alma.
Alex ficou uma fúria, mas se controlou.
Ela era rebelde e não iria aceitar nenhuma de suas palavras.
Sónia, num canto, deliciava-se com a coragem da filha.
Sua filha fazia o que ela própria desejava fazer, dar um basta em tudo, atirar na cara daqueles Norobodvisky palavras que vingassem a sua altivez, desfazer o tolo orgulho e humilhá-los.
De certa forma sentia-se vingada na pessoa da filha e, para que Alex não visse a satisfação em seu rosto, foi ao quarto atrás da filha.
Alex nada fez, acendeu um charuto e assentou-se na confortável poltrona em seu gabinete, contemplando a colecção de armas expostas em toda a parede.
Não poderia oferecer sua filha a Kóstia, daquela maneira, estava claro que o amigo se esquivaria.
Sem querer, comparou sua filha a Mayra, à delicadeza daquela alma virginal, que não media esforços para se Instruir, embora sua condição humilde de camponesa.
Kóstia tinha razão em ir atrás daquele tesouro de mulher.
Esfregou a destra nos olhos e passou-a na testa, desfazendo a ruga de contrariedade.
Não perdia por esperar, daria um jeito de acalmar a fúria de sua filha.
Enquanto isso, mãe e filha conversavam em voz baixa sobre os últimos acontecimentos.
- Como podem pensar que não temos sentimentos!
Meu pai engana-se a meu respeito, pensando que eu vou me entregar ao primeiro homem que ele decidir escolher para meu marido.
Quanto a isso, já fiz minha escolha! - disse Impetuosa, surpreendendo a mãe que já desconfiava de seus sentimentos.
Uma mulher nunca engana a outra.
- Tua escolha?
- Minha escolha... infelizmente se foi...
- Penso que seja o filho de Sumarokov? — aventurou a mãe adivinhando.
- Sim, Nicolau se foi, mas ainda tenho certeza de que irá voltar.
Está escrito aqui, mãe — afirmou batendo no coração - uma coisa, lá no fundo me diz.... - pela primeira vez, Sónia viu Sácha chorar por alguém.
Seu coração materno deixou-se contagiar por sua desventura e tentou consolá-la, auxiliando a decisão do marido:
- Sácha, o amigo de teu pai é muito bonito, educado e inteligente.
Por que não te aventuras a aceitá-lo como deseja teu pai?
É um excelente partido, lucrarás multo mais...
- Não e não, ninguém me fará desistir.
Meu coração não tem preço.
Posso casar-me, mas quando vir Nicolau, cairei em seus braços, pouco me Importam as conveniências!
Foi assim que aprendi contigo!
Sónia não podia reclamar, porque era a pura verdade.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 21, 2016 8:07 pm

Dera educação errada à filha moça, e nada poderia apagar o seu exemplo.
Alex não merecia sua atitude leviana.
Era muito jovem quando se casou.
Queria viver a vida, o marido não a atendia em seus anseios e logo começou a prevaricar, procurando qualquer homem que lhe interessasse.
Quando Alex soube, ela tentou mudar seu comportamento, descobrindo, tardiamente, que o amava.
Agora, lutava para recuperar seu casamento, tendo pouca chance.
Sua filha era o retrato fiel de sua leviandade.
Transformara a filha em sua confidente e, cedo, a menina amadurecera ouvindo seus romances.
Ela era o finto de sua semeadura.
Limitou-se a ouvi-la.
- Nicolau também, te ama?
- Não creio, mas se Deus me ajudar a encontrá-lo confesso-te, mãe, tudo farei para tê-lo - respondeu, disposta a tudo.
Alex organizou pequena reunião, contratando alguns músicos, tornando o ambiente propício às suas intenções.
Fez de conta que nada queria em especial, mas tinha como único propósito promover um encontro da filha com o amigo.
Acreditava que ela mudaria de ideia.
Puro engano! Sua filha estava muito apaixonada por Nicolau.
Kóstia estava assentado, ouvindo a melodia que um grupo de gitanos tocava em seus bandolins, violinos, flautas e outros Instrumentos, enchendo a casa dos doces sons, em que a alma eslava viajava em sonhos. Somente o sonhador povo russo era capaz de compreender seu significado.
Sácha aproximou-se do rapaz com o propósito de saber notícias dos Sumarokovisky.
A moça estava muito bonita, mas sua beleza não atraía Kóstia, que ansiava pela figura angelical de Mayra.
- Em que mundo estás, Sr. Wladimlr?
- Oh! desculpa-me, não te vi...
- Sabes notícias de Mayra?
- Nada. Eles desapareceram... — respondeu Kóstia que, desconhecendo os objectivos da moça, ficou surpreso quando ela reclamou suspirando:
- Sabia que temos interesses comuns? - insinuou, aproximando-se mais dele.
Sácha olhou para os lados e percebeu que o pai os observava, diminuindo o volume da voz, criou coragem para dizer:
- Sr. Wladimlr, tenho algo a te dizer, pois temos interesses comuns...
Meu pai nos observa e bem sei o que ele está arquitectando.
Adivinhaste?
- Não, nada sei... — respondeu o moço estranhando os modos da donzela.
Se sabes, diz-me, então...
- Papacha, deseja que nos unamos — Kóstia, ouvindo isto, deu uma risada alta, atraindo a atenção de todos.
A menina também riu e todos pensavam que ambos haviam começado um namoro, tamanha a intimidade que apresentavam.
Alex Norobod disfarçou e entabulou conversa com Semión, com um sorriso enigmático nos lábios, julgando seu plano ter atingido o objectivo.
- Não me digas que teu pai chegou a pensar nesta possibilidade! — disse quando deixou de rir.
Ele chegou a falar-te?
- Sim, mas sei que tu estás apaixonado por Mayra... - aproximando-se mais, continuou ousada:
- E eu, também, estou apaixonada por Nicolau.
- E ele? - perguntou Kóstia, notando uma certa amargura na voz da moça.
- Não acredito que esteja...
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 21, 2016 8:07 pm

Nunca falamos a este respeito, mas não sou mulher de desistir.
Sabes, por acaso, onde eles foram parar?
— Neste momento é o que mais desejaria saber.
Teu pai enviará alguém para vigiar a casa da família de Catienka e descobrir onde eles se esconderam.
- Ele fará Isto realmente, Sr. Wladlmir?
Penso que desistiu, porque deseja que nos casemos.
- Deposito Inteira confiança nele e sua persistência me levará a ela.
Se ele desistir, perco tudo.
Para mim, será muito difícil.
Somente Deus, em sua misericórdia, poderá me trazê-la de volta.
Sumarokov deve ter seus motivos para fugir, sem deixar rasto.
- Tua felicidade depende da minha, Sr. Wladimir. Amo Nicolau.
- Teu pai sabe disso?
- Não, se o souber é nosso fita.
Para conseguir encontrá-lo, devo fazer sua vontade, esconder meus verdadeiros sentimentos.
- Como queres que eu te ajude, senhorita, a encontrar teu grande amor? - ofereceu-se, solícito.
Se tua ventura depende deste encontro, será também a minha ventura e, com certeza, haverei de rever Mayra.
- Meu pai não pode saber da minha preferência.
És a minha única esperança.
Através de ti, saberei notícia de Nicolau.
Alex Norobod aproximou-se dos dois com uma taça na mão, cheia de vinho.
- Ora... atrapalho o colóquio?...
- Camarada, estávamos justamente comentando sobre a família Sumarokov e seu súbito desaparecimento.
A escola precisa sobreviver, apesar... - disse Kóstia, sondando as intenções de Alex.
- Tens razão, camarada Kóstia.
Semión ficará o tempo necessário, até que preparemos outra pessoa.
Ele tem compromissos inadiáveis em Petersburgo, está apenas servindo à nossa causa, a da alfabetização.
Alex calou-se, pensativo e Kóstia aproveitou para Investir em seus propósitos:
- A respeito dos Sumarokov, irás colocar alguém para espiar sua pista?
- Estou quase desistindo, porém, devido às circunstâncias, penso que amanhã despacharei um servo, mas...
- Mas... - continuou Kóstia, aguardando seu parecer com ansiedade.
Alex olhou a filha numa muda interrogação.
Vendo- a ao lado do camarada, mudou de assunto:
- Deixemos este assunto para depois...
Venham para nossa roda? - estava certo de que entre os dois havia começado um romance.
Saiu acompanhado do casal.
A pequena reunião festeira acabou tarde da noite.
Quando os músicos, pararam de tocar, muitos se recolheram embriagados.
Sónia não disfarçou seu Interesse por Semión.
A sedutora mulher lentamente conseguiu capturá-lo em sua rede amorosa.
Entusiasmado em realizar seu desejo, Alex Norobod não percebeu o comportamento da mulher o que, para ele, na verdade tanto fazia.
Julgando que Kóstia e sua filha estavam começando a se interessar um pelo outro, tratou de se aproximar dela com menos empáfia.
A esperta moça, em pouco, tempo de conversa com Wladimlr, teceu ardiloso plano:
demonstrar Interesse pelo camarada Kóstia, a fim de chegar até os Sumarokov.
Decidira aceitar a proposta até que ela e Kóstia encontrassem os Irmãos.
Depois se separariam.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 21, 2016 8:07 pm

55 - O Bilhete

Kóstia levantou-se cedo, aliás, mal conseguira dormir.
Foi dar uma volta pelos arredores, saudoso, rememorando o passado povoado com o vulto da graciosa Mayra.
Instintivamente, dirigiu-se à Isbá do cercado que, abandonada, permanecia mergulhada em profundo silêncio.
Ali estava o cenário de sua ventura e de sua desgraça.
Aproximou-se e encontrou a porta apenas encostada.
Entrou. Alguns objectos espalhados pelo assoalho demonstravam a pressa de seus moradores em sair.
Algumas roupas dependuradas compunham o cenário.
Utensílios domésticos ficaram esquecidos no chão, talvez porque não couberam nas carroças.
Aquele desleixo denotava a fuga, o medo de ser descoberto.
Andou pelo Interior da isbá, examinando tudo, na esperança de encontrar alguma coisa de sua amada, que ele pudesse guardar como lembrança.
Examinou o chão, pegou uma roupa, um objecto de escola, etc.
Um casaco de pele de urso chamou sua atenção; ainda estava em bom estado, embora muito gasto e cheirava mal.
Examinou-o mais detidamente como se algo brilhasse nele.
Seria impressão de seus olhos?
Um detalhe curioso despertou nele o desejo de prosseguir, como se alguma mão, a mão do destino o fizesse examinar naquele paletó sujo e velho.
Dentro da roupa estava costurado um saquinho, escondendo um papel amarelado, o bilhete que ele deixara sobre o grabato.
Ideia que tivera, caso alguém encontrasse a criança; lendo-o, a pessoa, a acolheria com amor e o guardaria como lembrança.
Kóstia simplesmente não acreditava no que estava vendo.
Por um Instante, sua vista escureceu e tonteou, amparando-se na parede de madeira.
- Meu Deus! Valha-me, Senhor! - apelava para a divindade.
Homem não dado às crenças, olhou o casaco por fora; já o vira com Sumarokov.
- Deus meu! O que significa isto, Sácha! - invocou o Espirito da bem-amada.
Seu corpo se arrepiou inteiro e um clarão assinalou a presença de Sácha que, à sua frente, materializava-se da cintura para cima.
Cabelos louros, olhar límpido, parecia uma nuvem.
Emocionado, estendeu a mão, tocando o vazio.
A figura fugiu-lhe ao toque.
-Sácha!...
Seus lábios não se moviam, mas sua presença o confortava.
Teve a vaga intuição de que a menina Mayra era sua filha, a pequena criança abandonada que a misericórdia divina entregara a Sumarokov.
Não teve dúvida alguma, mas precisava constatar.
Agora entendia a semelhança entre mãe e filha e a felicidade que sentiu quando a viu pela primeira vez.
- Meu Deus!
Estava a ponto de cometer um incesto com tão doce criatura! - ajoelhou-se no chão, pedindo clemência por seus pensamentos e pelo desejo de esposar aquela menina que, no fundo do coração, acreditava ser sua filhinha amada.
- Perdão, Sácha! Perdão, minha amada!
Pobre, infeliz eu sou, que não compreendi a atracção das almas!
Bendito sejas, Sumarokov, que, para guardares teu segredo, tiveste coragem de fugir, mas eu te encontrarei, nem que tenha que rodar o mundo.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 22, 2016 8:21 pm

Não me escaparás, haverei de recuperar minha filha!
Prometo-te, Sácha!
Ergueu os olhos, o Espírito havia desaparecido, dando lugar à parede.
Aquele bilhete era a prova cabal de que sua filha estava viva.
Ainda ficou ali por algum tempo, meditando, decidido a não comentar aquele facto com ninguém, enquanto não encontrasse Sumarokov para falar-lhe a sós, e desfazer o terrível engano que iria cometer.
Algum tempo depois, voltou à mansão, com a alma limpa.
Seu tormento havia desaparecido e uma grata felicidade inundava-lhe o ser.
Cabeça erguida, entrou no solar como se estivesse pisando aquele chão pela primeira vez.
Ninguém sabia explicar a felicidade que ele sentia.
Agora compreendia a simpatia que Alex, a Sra. Maria Norobod, até Sácha, a prima de Mayra lhe inspiravam.
Tinha vontade de contar a todos a verdade que acabara de conhecer.
Encontrou Alex emitindo ordens a um homem de sua confiança, para que fosse à aldeia de N... descobrir o paradeiro de Sumarokov, com mensagem onde alegava que o encaminhava.
Kóstia estava enamorado de sua filha, Sácha, e a hipótese do casamento com Mayra fora descartada.
Finalizava, dizendo que a senhora Maria Norobod estava a chorar pela casa, sentindo falta de Mayra, exigindo-lhe que regressasse imediatamente.
As ordens foram dadas pela manhã.
Kóstia não chegou a tempo de ouvir as intenções do amigo.
Assim que o servo saiu, ele se apressou em partir, porque nada mais havia a fazer naquele local.
Negócios importantes o esperavam, explicou apressado.
Não teve tempo para se despedir dos outros.
Na verdade, Kóstia queria aventurar-se atrás do servo, disposto a jamais perder de vista o tesouro de sua vida que finalmente havia encontrado.
No caminho, entabulou conversa com o criado, que deixou seu cavalo em lugar seguro e seguiu com ele em sua confortável tróica.
Os dois homens chegaram à casa da mãe de Catienka, perguntando aqui e ali.
- Estou em busca de Sumarokov.
Tenho uma proposta de trabalho muito importante para ele e os filhos - explicava convincente Kóstia.
Como os familiares de Catienka não o conheciam e nem a seu servo, acreditaram e deram-lhes o roteiro que os levaria até o mujique.
Horas depois, Kóstia adentrava em sua luxuosa tróica, na fazenda de Nicolau.
Sumarokov reconheceu-o imediatamente e tentou se esconder, temeroso.
Surpreso, nada pôde fazer senão enfrentar o noivo prometido para sua filha.
- Olá, camarada! - cumprimentou Kóstia firme, encarando-o.
- Olá, camarada Kóstia! - respondeu entre dentes, Sumarokov.
O latido dos cachorros atraiu outras pessoas que, vendo a carruagem instalada à porta da humilde casa, foram ver quem havia chegado.
Ansioso, Kóstia procurou o vulto de Mayra.
Não podia acreditar que aquela maravilhosa mulher era sua filha.
Filha para ele desconhecida e que parecia ver com olhos de pai, pela primeira vez.
Envergonhado, não teve coragem de encará-la.
Estava ansioso para conversar a sós com Sumarokov e desfazer aquele terrível engano.
Hospitaleiros, Olga e Nicolau convidaram o importante visitante a entrar e saborear com eles o chá que fumegava no samovar de cobre.
Os irmãos de Mayra estavam todos reunidos.
Somente Nicolau se mantinha afastado, observando-os de longe, mas atento a todos os movimentos.
Ele sempre fora contra o interesse que aquele homem demonstrava por sua irmã, dando graças ao pai por ter se afastado, impedindo que se concretizasse o noivado.
Aquele Kóstia era bem insistente e esperava o desenrolar da cena.
Wladimir, enquanto tomava o chá, aguardava o momento aprazado para se explicar e deixar claro que já não tinha intenção de se casar com Mayra, afastando de vez o medo que se instalara na alma de Sumarokov.


Última edição por Ave sem Ninho em Qui Dez 22, 2016 8:22 pm, editado 1 vez(es)
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 22, 2016 8:21 pm

Seria o primeiro passo para ganhar sua confiança e, depois, explicar-lhe o escopo de sua visita inesperada e a consciente decisão de levar a filha.
- Estás receoso quanto à minha presença, camarada Sumarokov, mas venho em paz, para dizer-te que não mais pretendo esposar tua filha, a quem tenho o maior apreço e alta estima... — todos estavam certo de que Kóstia viera buscar Mayra e exigir o casamento, e agora, desistia assim tão facilmente!
Custava a acreditar em Kóstia!
— Como? Estás mesmo dizendo a verdade, camarada? - perguntou Sumarokov, respirando aliviado e sorrindo.
— Não me acreditas...
Estou te afirmando a mais pura verdade.
Já não tenho intenções de esposar tua filha, que considero um tesouro inestimável...
Jamais em minha vida vi criatura igual, a não ser a minha infeliz Sácha.
Ninguém compreendia as palavras veladas dele, mas Sumarokov estava muito intrigado e inconformado com sua súbita decisão.
Devia haver alguma coisa por trás de tudo aquilo, talvez um golpe.
E decidiu aceitar suas palavras que lhe pareciam convincentes.
- Podes voltar para a fazenda dos Norobodwisky, camarada Sumarokov, de onde não deverias ter saído.
Tu e teus filhos fazem muita falta.
A Sra. Norobod, inconformada, reclama e chora o tempo todo, chamando pela menina.
A velha não quer morrer sem a sua presença, é seu único consolo no final da vida.
- Ah! agora percebo, vieste a mando de Alex Norobod.
Bem vi que algo se escondia por trás de tuas palavras - alegou Sumarokov, desconfiado.
- Enganas-te, meu caro, venho por minha exclusiva conta, este servo, sim, pertence à mansão e traz-lhe um bilhete escrito por teu patrão - o servo entregou o bilhete e Sumarokov pediu a um dos filhos que o lesse, porque era analfabeto.
Kréstian tomou-o das mãos do pai e leu-o.
- É verdade, pai, tem a assinatura de Sr. Alex Norobod.
Kóstia está dizendo a verdade.
Regressemos! - disse Pável que, por trás do irmão, confirmava a assinatura.
- Ora! Não amolem!
Deixem-me pensar! - explodiu Sumarokov que, pressionado, queria raciocinar sobre os últimos factos.
Catienka enlaçou-o, amorosamente.
-Acalma-te, querido, terás tempo, não precisas tomar uma decisão agora...
Suas suaves palavras o acalmaram subitamente e, como um cordeirinho, assentou-se para tomar seu chá, enquanto pensava na hipótese de retornar.
O perigo do casamento havia se afastado, mas ainda assim, não queria magoar os tios mais uma vez.
Mayra não compreendia os acontecimentos.
Seu coraçãozinho estava um tanto decepcionado porque sentia um grande carinho por Wladimir, achava-o um belo homem e um pouco velho para ela.
Ficou tranquila desde o momento em que ouviu suas palavras, porque não queria contrariar seu pai, que fugira para impedir seu casamento.
Envergonhada, não queria ficar a sós com Kóstia e se escorava em Kréstian, pedindo-lhe baixinho que não a deixasse sozinha.
Kóstia era tratado como um grande amigo de todos.
Sua simpatia alcançou os tios que lhe pediram para pernoitar, despachando o servo de Alex, instruído por eles, quanto à possibilidade de Sumarokov regressar, menos Iulián que havia decidido ficar com os tios.
A atitude do ex-pretendente de Mayra havia-se alterado a olhos vistos e ninguém compreendia o porquê de tão grande mudança.
Antes ansiava por estar a sós com ela e, agora, mal lhe dirigia a palavra.
Quem o observasse atentamente, notaria que ele a olhava com carinho e respeito.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 22, 2016 8:22 pm

A moça também correspondia castamente a seus olhares com verdadeira curiosidade.
A intenção de noivado havia desaparecido totalmente e Sumarokov começou a acreditar em Kóstia e na pureza de suas Intenções.
Nicolau foi o que mais demonstrou felicidade, porque sentia oculto ciúme da irmã.
Ele acreditava que o camarada Wladimir tinha se enganado quanto ao endereço de seu coração.
Quando se recolheram, um clima de muita paz envolvia a casa, mas ouviam-se cochichos, ora entre Sumarokov e Catienka, ora entre Mayra e Kréstian.
Enfim, o silêncio dominou o ambiente e todos adormeceram confiantes no amanhecer e na volta para a fazenda Norobodvisky.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 22, 2016 8:23 pm

56 - Sumarokov sempre mujique

Submisso ao regime patriarcal, Sumarokov não se sentia muito disposto a tomar conta da fazenda do tio.
Sua cabeça não conseguia pensar em algo seu, resistindo à conquista de sua independência económica.
Enquanto tomavam delicioso caldo preparado por Catienka, Kóstia fez uma pergunta a Iulián Sumarokov:
- Em que dia nasceu tua filha?
Surpreso, o mujique titubeou, desconcertado:
- Que pergunta mais descabida, camarada!
Os tios riram-se da resposta do sobrinho e Olga fez uma troça, porque eram multo brincalhões e Sumarokov muito engraçado.
- Já viste duas crianças nascerem no mesmo ano?
Meu sobrinho não perdeu tempo e a confusão foi grande, culminando com a morte de nossa sobrinha.
- Lembranças tristes, tia Olga, devem ser esquecidas... - disse, contrariado, não gostando daquela conversa Indiscreta.
Mas, Kóstia insistiu:
- Mayra é bem diferente, com quem mesmo se parece?
- Talvez com sua bisavó.
Herdou os cabelos loiros de antigas gerações.
Por que essas perguntas? - fez uma careta e se levantou.
- Tenho procurado algum traço dela em tua família e nada encontro - continuou Kóstia, provocando Sumarokov que, mais desconcertado, foi espiar lá fora o gado.
Catienka havia participado do nascimento de Kréstian e sempre achou estranho as duas crianças nascerem tão perto uma da outra, mas havia se passado tanto tempo, que agora não tinha mais importância.
E o assunto morreu ali mesmo, para alívio de Sumarokov que, do lado de fora, convidava os filhos para o trabalho.
Havia muito o que fazer na fazenda do tio, que se achava um pouco descuidada porque ele não tinha condições de contratar novos trabalhadores.
As perguntas de Kóstia e o modo como o olhava, despertavam nele alguma desconfiança, mas o seu segredo estava para sempre enterrado com Anna, ninguém o conhecia e os mortos não falam, se alguém falasse, ninguém lhe daria a devida atenção, sem provas suficientes.
Certo de que ninguém poderia descobrir seu segredo, procurou esquecer suas preocupações, decidido a auxiliar o tio mais um pouco.
Depois regressaria à fazenda Norobod, onde já estava acostumado, atendendo ao desejo de Catienka e dos filhos.
Por mais que Kóstia tentasse, não conseguiu uma entrevista a sós com Sumarokov.
Ele estava receoso de falar a Mayra e não ser aceite por ela, como pai.
Agora, de posse do bilhete, tinha uma prova.
Ninguém poderia duvidar de sua paternidade.
Ele, sim, era seu verdadeiro pai.
Voltou para a capital, despedindo-se de todos, apertou a delicada mão da filha com um sorriso nos lábios, sem ter coragem de se referir ao desastroso pedido de casamento que, agora, para ele, não tinha mais nenhum sentido.
0 antigo sentimento de amor como homem fora substituído por um carinho cada vez mais paternal, um grande desejo de acolhê-la em sua companhia e transformar sua vida, oferecendo-lhe tudo de que o destino a havia privado.
Poderia dar-lhe o conforto de moças abastadas.
Sua querida Sácha deixara-a para alegrar sua vida solitária e agiria com calma e subtileza até conseguir tê-la em sua companhia.
Estava orgulhoso e grato a Deus por a tê-la finalmente encontrado.
Era grato a Sumarokov que a salvara, dera-lhe seu nome e o lar.
Um mês depois, conforme o combinado, voltaram Sumarokov e a família paira a fazenda Norobod.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 22, 2016 8:23 pm

Uma surpresa o aguardava quando entrou na isbá e viu seu segredo descoberto.
- Catienka - chamou a mulher, arregalando os olhos - esqueceste meu casaco?
Sumarokov, assombrado, esquecera seu velho paletó na pressa de fugir.
E, com a alma angustiada, percebeu que alguém surripiara o precioso bilhete.
- Ora essa, Iulián, dás muita importância a este casaco! - assustou-se a mulher.
- o caso é que eu guardava algo no bolso interno do casaco e alguém mexeu nele.
Quanto ao casaco, podes transformá-lo em tapete para o cachorro, mas é preciso que se encontre o autor desta façanha.
- Depois de tanto tempo, esta casa não tem segurança, qualquer um pode ter entrado!... - disse a esposa, que desconhecia a algibeira e o bilhete.
- Perguntarei e não sossegarei enquanto não souber quem foi o autor!
- Está bem! O que tinha de tão importante?
Algum tesouro?
Desconcertado pela pergunta da mulher, Sumarokov gaguejou:
- Não, não era tão importante assim, mas o casaco, apesar de velho e cheirando a bicho morto, tinha sua serventia, e por que não o levaram? - indagou, evitando novas explicações.
Os filhos entraram para ajeitar os móveis na casa e a conversa ficou sem continuidade.
Mais tarde, Sumarokov descobriu que Kóstia havia descido à isbá e sua dúvida aumentou.
Aquele bilhete poderia estar com ele.
Ficou inquieto e muito angustiado porque alguém mais conhecia seu segredo.
O pobre mujique não teve mais paz, perdendo noites de sono.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 22, 2016 8:23 pm

57 - Uma cigana

Certo dia, um grupo de ciganos aportou à entrada da fazenda, buscando comida, oferecendo suas mercadorias: samovares belíssimos, tachos e outros utensílios interessantes.
Eram ucranianos que seguiam para o norte do país, passavam pelas aldeias levando sua alegria, sua música, suas tendas coloridas.
Chegavam em paz e depois de algum tempo seguiam seu destino de andarilhos.
A magia deles contagiava a população supersticiosa, que temia a desgraça que eles poderiam provocar.
À entrada da fazenda dos Norobodvisk, os ciganos ergueram suas tendas e ninguém teve coragem de afastá-los dali.
À noite, em torno da sua fogueira, faziam festa.
Os pais, medrosos, não deixavam os filhos pequenos se aproximarem, mas ninguém conseguia conter a curiosidade dos jovens que, buscando as quiromantes, faziam fila para serem atendidos.
Um bando de moços visitava o acampamento para satisfazer a curiosidade natural do desconhecido, à troca de algumas moedas, uma caça, um pouco de cereal ou tecidos.
Todos queriam conhecer o futuro.
No interior de uma tenda, os jovens estendiam a mão para uma bonita gitana que lia o destino.
Os filhos de Sumarokov, assentados no meio da roda, aguardavam a oportunidade de serem atendidos.
Ansiedade, temor, esperança, estampavam-se em seus olhos.
Kréstian e Pável já tinham ido e voltaram alegres e pensativos, meditando no que a cigana lhes dissera.
- O que foi, Pável, que ela te disse? - perguntou Kréstian curioso.
- Não posso revelar aqui, porque segundo ela, pode quebrar a sorte, em casa, talvez.... — prometeu o irmão, olhando a grande fila, onde muitas jovens também o observavam.
- Ela falou tudo de teu destino? — perguntou Nicolau, baixinho.
Será tudo isto verdade?
Ela sabe mesmo? Que tu achas?
- Pareceu-me muito segura...
Tens que dar tua mão, cada mão um destino...
Olha, chamam-te, é tua vez, Nicolau.
Mayra pediu para ser a última.
Os irmãos a esperariam para voltarem com ela.
Todos estavam ali, sem a autorização paterna.
Depois de Nicolau, Mayra entrou na tenda, ansiosa e trémula.
A cigana trazia a magia nas palavras e no olhar.
Seu sotaque tomava suas palavras mais envolventes, seu modo singular convencia a qualquer um de que o que estava falando era a mais pura realidade.
Mayra entregou-lhe a pequena mão com a palma virada para cima.
- Menina, tens uma palma que parece um campo de neve, mas o homem de teu destino acabou de sair da tenda.
Este último que atendi é teu namorado?
- Não tenho namorado, mas tenho pretendentes - respondeu sem compreender a alusão da cigana.
- Porém, tu e este homem - insistiu a cigana - têm destino a cumprir, mas vejo outro homem que se antepõe à tua felicidade e que o consideras como pai.
Vejo outro que te apoiará e te estenderá a mão quando mais precisares.
O Espírito de tua mãe vela por ti...
Terás quatro filhos e permanece, a teu lado, a ventura de rica herança que te será ofertada e, mesmo contra a tua vontade, não poderás recusar o que por direito te pertence.
Gozarás de saúde e terás força para se comunicar com os mortos, falando com eles nos momentos mais difíceis.
Tens no lar uma grande amiga.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 22, 2016 8:23 pm

Confia-lhe tuas tristezas e ela saberá te aconselhar.
Tua paz e tua felicidade dependerão apenas de seguires tua Intuição e deixares teu grande coração entregue, totalmente, ao homem que o destino ligou a ti.
A cigana despejou as informações, mas omitiu-se em responder às suas perguntas e Mayra saiu dali sem saber quem seria o homem de seu destino.
O último que saiu da tenda era seu irmão.
Com certeza, aquela cigana havia se enganado e estava confundindo as coisas.
Disposta a não dar crédito àquela curiosa brincadeira, seguiu para casa com os irmãos e mais outros jovens que moravam na fazenda.
Mayra simplesmente nada havia entendido do que a cigana lhe dissera.
Kréstian perguntou-lhe, vendo-a um tanto insatisfeita:
- Podes dizer-me o que ela te fadou?
- Sabes, Kréstian, não entendi muito bem, porque penso...
Ah!... não foi grande coisa.
E a ti, o que ela disse?
- Conhecerei minha futura esposa numa festa de casamento e que me mudarei para uma cidade grande.
- Não diga isto, Kréstian!
Vamos saber dos outros?
Cada um falava por alto o que havia se passado na tenda e quando chegou a vez de Nicolau, ele se esquivou, melancólico.
- Todos falaram, menos tu, Nicolau? - perguntou Mayra, cravando seu olhos azuis nos dele.
Teu destino é tão feio assim?
Ou será que encontrarás um tesouro e não queres repartir connosco?
- Não se trata disto, minha irmã, é que não entendi o que a cigana me disse, penso que ela estava blefando...
- Como assim? - perguntou Pável, que acompanhava o diálogo.
- Veja bem, ela disse que minha futura esposa mora em minha casa e que eu a conheço de longa data e meu Espírito acompanhou seu nascimento!
Nunca vi tanto disparate!
Estes ciganos são mentirosos e criam confusão onde chegam.
Meus trocados se foram, foi o preço de minha lição.
Logo eu, vou acreditar que minha sorte está escrita nas linhas da minha mão! - resmungou.
- Não nos disseste sobre tua sorte, Mayra? - perguntou Pável.
- Comigo foi ainda pior, Nicolau -, disse virando-se para ele - tens razão, são uns trapaceiros e gostam mesmo é de receber a rica paga.
Imagina que a tal cigana me disse que herdarei uma rica herança que me dará segurança em toda minha vida.
Agora eu te pergunto, onde estão os nossos ricos parentes?
Eu não os conheço!
O pior de tudo -, continuou sorrindo - o homem do meu destino, segundo a cigana, era o último que havia saído de sua tenda!
- Antes de ti, fui eu! - exclamou Nicolau.
- Por aí, vejam o quanto fomos ludibriados por ela.
Gastamos nosso dinheiro à toa! - reclamou Kréstian.
- E eu? Não gastei dinheiro, porque não tinha, mas lhe dei o meu xale - explicou Mayra.
Certos de que a cigana os ludibriara, os irmãos esqueceram logo as suas previsões, embora vez ou outra voltassem à memória da menina aquelas fortes palavras que falavam de sua vida.
Vaga intuição a alertava de que a cigana não lhe havia mentido.
Mayra procurou esquecer as palavras da cigana.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 22, 2016 8:24 pm

58 - Novos Sonhos

Cartomantes e quiromantes enchiam de esperança os jovens sonhadores da aldeia.
Ora uma ou outra mocinha entrava sorrateiramente numa dessas portinholas, envolvidas em lenços, deixando de fora apenas o essencial para enxergar.
Mayra não era diferente e sua curiosidade aumentava, sentindo-se atraída pela magia do desconhecido.
- Catienka, desde que aquela cigana leu minha mão, nunca mais tive sossego.
Embora tente esquecer suas palavras, volta e meia elas me atormentam, sinto dificuldade em adormecer.
Preciso de tua ajuda.
O mago Nabor falou-me de umas reuniões onde existe a possibilidade de uma comunicação com os mortos e tenho muita vontade de conversar com minha mãe.
Quero que me acompanhes numa reunião destas.
- Eu soube destas reuniões também - explicou Catienka.
Aonde queres ir?
- Em casa da ex-cartomante, Madjeka.
Dizem que depois que ela descobriu que as cartas são apenas um pretexto para falar em nome dos Espíritos, deixou o baralho e dedicou-se às sessões em que ela atua como médium e os Espíritos falam através dela, utilizando-se do alfabeto.
Assim me explicou o professor Sémion.
- Teu pai não irá gostar - advertiu a madrasta.
- Não costumo desobedecê-lo, mas Catienka, preciso falar com minha mãe, pedir-lhe uma orientação.
Sinto-me só, porque mesmo que o camarada Kóstia não tenha mais aparecido, eu não deixo de pensar nele.
Não posso falar com meu pai; ele não entenderá, por mais que me ame.
- Estás apaixonada por ele?
- Não, acredito que não estou, mas gostaria de saber sobre o meu futuro, porque ele não me sai do pensamento.
Tento me distrair, mas em vão.
Sonho muito com o fantasma da fazenda que está sempre perto de mim.
Nunca sonhei com minha mãe... e gostaria de saber notícias dela.
Se tu me acompanhares, tenho certeza que papai não se zangará.
Poderemos alegar que fomos apenas fazer uma visita.
Vamos, minha amiga?
- Não se deve invocar os mortos.
Lembras-te do que o pope disse na última missa?
Ele estava justamente se referindo a estas comunicações, que estão atrapalhando o povo - disse Catienka, querendo desestimulá-la.
Tua mãe talvez não possa falar contigo, será que ela está por perto, após tantos anos? — alegou Catienka, receosa do Espírito da ex-mulher de seu marido.
Ela não gostará de saber que eu tomei o seu lugar.
Deixemos disto, Mayra...
- Estás com medo do Espírito da mamãe? - achou graça de seus receios infundados e tentou persuadi-la:
— Penso que ela não está mais preocupada com isto, pode até ter se esquecido... o Sr. Allan Kardec1 diz que os Espíritos também tem suas ocupações...
- Estás falando como seus seguidores.
O pope mandou excomungar quem falasse nele - disse Catienka, referindo-se ao mestre lionês, que adquirira alguns admiradores da nova Doutrina.
Quem poderá auxiliá-la é Nicolau que está lendo alguns livros e artigos sobre o Espiritismo de sua autoria.
Este é o nome da nova Doutrina que o pope nos proibiu citar.
— Nicolau está lendo?
Foi ele quem te contou? — quis saber Mayra, porque pensava que o professor havia conversado sobre os artigos do Sr. Allan Kardec* apenas com ela e que não havia mais ninguém ali que se interessasse por ele.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 22, 2016 8:25 pm

- Não, ele nada disse, mas eu vi os livros escondidos debaixo do colchão.
Penso que lhe foram emprestados pelo professor.
Muito admirada, Mayra mal conseguia esperar o irmão chegar para lhe perguntar.
- Não lhe contes, Mayra, senão, Nicolau irá pensar que sou uma bisbilhoteira...
- Está bem, Catienka, não lhe contarei o que sei, mas vou conseguir que ele me fale sobre o assunto que me interessa, e como me interessa!
Talvez ele possa me acompanhar à sessão de Madjeka.
- Por favor, não o deixes perceber que vi os livros em baixo do colchão - suplicou Catienka.
- Fica tranquila. Guardarei segredo.
Mas, preciso que me acompanhes, Catienka.
Amanhã, ela fará uma reunião e abrirá uma excepção perna mim e meus acompanhantes.
- Como conseguiste?
- Foi o professor Semión que lhe falou sobre minha pessoa.
A nova Doutrina chegava à pátria Rússia através de livros, jornais e circulares que já haviam despertado a curiosidade dos czares, e não havia nenhum mal em divulgá-los.
Entrara, primeiramente, como um estudo experimental de ciências e pesquisas aprofundadas sobre o magnetismo.
No país do ocultismo, a Doutrina dos Espíritos ganhava adeptos e conquistava muitos admiradores entre os intelectuais e os cientistas.
No solo fértil da Mãe Rússia, país cheio de tradições, crendices, superstições e fanatismo religioso, desde o palácio real aos mujiques distantes, as ideias cresciam paulatinamente, para despeito dos sacerdotes e da igreja tradicional ortodoxa.
Os médiuns sérios, paralelos aos médiuns charlatães que exploravam a crendice do povo, começavam a despontar aqui e ali, aguçando a curiosidade da população com reuniões em que se misturavam o ritual de suas crenças às ideias libertadoras da Doutrina dos Espíritos.
Nunca se viu tantas cartomantes, quiromantes e tantos benzedores.
Uma coisa havia ficado patente, os Espíritos se comunicavam através do alfabeto, copos, pancadas e outros meios.
Esta novidade criava na alma de todos verdadeira revolução.
O que sempre existiu em toda a humanidade, agora tomava forma de uma religião, de um modo único de vida.
Muitos consideravam fenomenal a descoberta.
Madjeka fazia reuniões, utilizando-se do alfabeto sobre uma mesa de madeira, ou sobre um espelho.
As pessoas reunidas em torno dela faziam suas perguntas e o Espírito, através do alfabeto, respondia.
Era um sistema lento, a reunião muito demorada.
Os interessados ficavam atentos, mas os outros, em geral, adormeciam e só acordavam após o resultado da consulta.
Às vezes, as respostas incoerentes traziam desconfiança.
O mediunismo era explorado de uma forma errónea pela falta do esclarecimento dos médiuns que encontravam, nestas consultas, uma forma de renda, um meio de ganhar a vida.
Às vezes, as sessões acabavam em sérios conflitos porque as respostas não convenciam e, em alguns casos, chamava-se a guarda policial para acudir as brigas.
Algo tão bonito começava de um modo totalmente errado e explorado por seu mau uso.
A credibilidade das comunicações ficava a desejar.
Mas, alguns grupos idóneos despontavam, atraindo também as pessoas sérias.
A Doutrina dos Espíritos teria encontrado grande resistência se não fossem os circulares que vinham de Paris através dos intelectuais e cientistas, cujos argumentos conseguiam impressionar os leitores, cada vez mais, ávidos de notícias.

* O Espiritismo entrava na Rússia através dos cientistas e intelectuais que, com ele, mantinham correspondência. (N. do autor espiritual)
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 22, 2016 8:25 pm

59 - Madjeka

Interessado no assunto, Nicolau se prontificou a acompanhar a irmã e a madrasta:
estava muito curioso por assistir a uma reunião experimental, aguardando um convite.
Instantes depois, a carroça saía da fazenda rumo à aldeia próxima.
Em casa da viúva Madjeka, vinte pessoas apinhavam- se nas poltronas e almofadas estendidas sobre o tapete.
Na sala ao lado, uma grande mesa de madeira e outra menor, coberta por um espelho cortado especialmente para se transformar no palco das comunicações.
Madjeka era uma mulher de seus quarenta anos, rosto redondo e olhar percuciente.
Estava rodeada por pessoas que dificultavam seu trabalho.
Sua fama não era muito boa, mas muitas senhoras bem conceituadas estavam ali, acompanhadas de filhos ou maridos, levadas pela curiosidade e pela importância do assunto no momento.
A casa da viúva despertava interesse.
Muitos visitantes desprezavam os preconceitos porque desejavam ver a comunicação dos Espíritos.
Mayra, Nicolau e Catienka assentaram-se num canto.
Depois deles, mais pessoas continuavam entrando, até que fecharam a porta, não permitindo que ninguém mais entrasse.
As cortinas azuis de pesado tecido foram cerradas, a sala ficou mergulhada em penumbra convidativa ao recolhimento.
As velas acesas projectavam sombras nas paredes e no tecto, o silêncio era total na sala, ouvindo-se apenas a respiração ofegante de alguém.
Mayra e Nicolau ansiavam por receber uma palavra de sua mãe, alguma frase consoladora.
Os dois foram levados pela curiosidade, porque a mãe que conheceram estava ali ao lado, a carinhosa e meiga Catienka.
Assentados em volta da grande mesa estavam os médiuns e, na ponta da mesa, Madjeka, cujo vestido azul escuro destacava a brancura de seu colo e o grosso pescoço emoldurado por uma gargantilha com um belo rubi.
Não era bonita, mas tinha um sorriso especial e um olhar Inteligente que prendia as pessoas.
O nariz, um pouco grande, acentuava-se quando sorria e contrastava com a pequena testa onde se formavam rugas horizontais quando se expressava.
Do ângulo em que eles se encontravam podiam visualizar o seu perfil.
Os três não tiravam os olhos dela, aliás todos a olhavam.
Madjeka começou a orar em voz alta, implorando a Jesus Cristo o auxílio para todos.
Sua voz tinha um timbre forte e rouco, sua oração era acompanhada com muita atenção; todos pareciam beber cada palavra que ela pronunciava.
Depois que ela terminou a prece, tudo ficou mergulhado em silêncio e sua mão deslizava pelo alfabeto colocado em desordem, de propósito.
Primeiro surgiam as palavras e, depois, as frases, que alguém anotava.
Muitos se levantavam impacientes.
Outros suspiravam como se estivessem recebendo Espíritos.
Outros narravam o que se passava no lugar e falavam de alguns Espíritos que acompanhavam as pessoas presentes.
A primeira frase formada foi lida imediatamente, era um recado a uma pessoa que estava acostumada a frequentar a sessão.
Muitos foram beneficiados com as frases, alguns conselhos especiais.
Os três visitantes, de olhos bem abertos, seguiam tudo com a maior atenção, quando um médium vidente apontou para Mayra, provocando-lhe um calafrio.
- Tua mãe está presente e quer te falar!
Nicolau olhou para o médium, pensando que estava se referindo à sua pessoa, pois, para ele, sua mãe e de Mayra era o mesmo Espírito.
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