Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 22, 2016 8:25 pm

- Não. Não é tua mãe, é a mãe dela! - disse o médium convidando Mayra para se assentar à mesa.
És uma médium de muita bagagem espiritual e tua mãe deseja se comunicar contigo - fez uma pausa, enquanto Mayra era conduzida ao lugar indicado.
O médium, em transe, tomou a falar em voz pausada e grave:
- Tua mãe faleceu ao dar-te à luz e pede, para tua felicidade futura, que vás ao encontro de teu pai.
Ele terá explicações importantes para ti, sobre factos ignorados de tua vida.
Mayra estava emocionada, embora não compreendesse aquela mensagem.
Calou-se, receosa de ofender o médium, se lhe dissesse que havia se enganado; virou o rosto para Catienka, que a olhava, significativamente, e perguntou baixinho para o médium:
- Por que ela não fala comigo, directamente?
Houve silêncio e a entidade comunicante, que somente o médium estava vendo e ouvindo, apossou-se de outro médium; era uma mulher e começou a falar-lhe:
- Aqui estou, minha filha, não chegaste a me conhecer, porque nos separaram.
Não lamento o que sucedeu.
Tive a oportunidade de resgatar uma dívida imensa que contraí em vidas pretéritas.
Quando cigana, arruinei diversos lares, utilizando de modo errado os dons que Deus me havia concedido e coloquei inúmeros jovens inocentes no caminho do erro.
Não tive a ventura de ter um lar e ter-te educado, filha querida, mas Deus te encaminhou às pessoas que te amam e te querem bem - dizia Sácha à filha, com o consentimento de seus guias.
Tenho permissão de meu protector para te revelar estas coisas, porque em teu destino de mulher, terás que saber toda a verdade, um dia.
Afirmo-te que, somente após falar-te e auxiliar-te, poderei finalmente descansar o meu Espírito atribulado.
Adeus, filha, que Jesus Cristo seja contigo.
Mayra distinguira, ao lado da médium, o fantasma da fazenda que agora se lhe apresentava de vestes brancas, sem as manchas de sangue, que tanto medo lhe causavam.
Arrepiou-se toda ao vê-la, permanecia ligada à médium por um ténue fio brilhante e depois sua figura foi-se esvaecendo até sumir e ela nada mais viu.
Queria perguntar o que estava acontecendo e, com voz entrecortada, anunciou:
- Estou te vendo, não te vás, fica mais um pouco, esclarece-me, por favor! — pedia Mayra, emocionada, sentindo um calor envolvendo seu corpo.
Tantas pessoas desconhecidas ali e ela, de tão deslumbrada, não se importava, estava totalmente desconcertada com o que ouvira.
Nicolau, no canto, quis interferir, mas alguém lhe pediu que se calasse.
A sessão logo foi encerrada, porque, na verdade, aquele alfabeto na mesa era dispensável, porquanto os médiuns se encontravam preparados para receberem comunicações.
Grande ciúme transtornou o rosto de Madjeka, quando viu as pessoas irem atrás dos médiuns que receberam e viram os Espíritos.
Todos queriam saber quem era aquela encantadora mocinha que também via Espíritos e com eles conversava, referindo-se a Mayra, porque toda a sessão fora voltada para a sua singela pessoa.
A menina foi convidada para retornar, sua presença parecia movimentar os Espíritos, assim desejavam os assistentes de Madjeka e ela concordou.
Despediram-se entusiasmados e Mayra estava ansiosa por conversar com seus acompanhantes, ela não sabia o que pensar de tudo quanto ali acontecera, mas não queria tecer comentários em frente de desconhecidos.
Felizes por se verem a sós, os três lembravam os factos, em animada conversa:
- Entendeste, Nicolau, o que se passou, ou tudo não passou de minha fantasia? - perguntou-lhe Mayra.
- Sim. Entendi que tens uma mãe, que não é a mesma que a minha! - disse convincente, Nicolau — isto é, se não estivermos sendo vítimas de mais um embuste que assola nossa Mãe Rússia!
- Eh! - exclamou a madrasta.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 22, 2016 8:27 pm

- Que achas de tudo isto, Catienka, tu que nos conheces desde o nosso nascimento, porque, segundo nos contaste, conheceste nossa mãe, não é verdade? - perguntou Mayra, intrigada e disposta a não acreditar na falange daqueles Espíritos, embora não pudesse negar a si mesma o que todos haviam visto e ouvido.
Era tão claro e evidente como a luz do dia.
- É certo, Mayra, porém, pouco sei dela.
Quando fui auxiliá-la, já estava prestes a dar à luz Kréstian e, em seguida, faleceu.
Jamais pensei que tal tragédia iria acontecer ao pobre Iulián.
Fiquei tão pesarosa que nunca tive coragem de abandoná-los, tu e Kréstian pareciam ter a mesma idade.
Os vizinhos ficavam sempre a brincar com teu pai por causa disto, dizendo que ele nunca dava descanso à sua mulher, Anna - recordava-se Catienka dos falatórios jocosos dos moradores da aldeia.
Nicolau, também, parecia se lembrar de alguma coisa sobre nascimentos, da chegada inesperada de um bebé e tão logo de outro que surgia no cenário de sua casa causando muita confusão entre seus pais.
Mas, era muito novo para compreender a situação crítica que os pais enfrentavam com os filhos mais novos.
Vaga lembrança o fazia recordar, mas não conseguia juntar os factos e acabou desistindo.
Mayra estava na carroça, assentada entre os dois, sentia frio e procurou se aconchegar mais ao irmão, que empurrou-a delicadamente para o lado de Catienka.
Era impossível não ficarem juntos com o balançar da carroça.
Nervoso, ele pediu a Catienka que ficasse no meio, resmungando que a irmã o estava atrapalhando.
- Estás com raiva de mim, Nicolau, porque te impedi de conversares com minha mãe? - brincou ela, desejando vingar-se.
- Queres dizer tua mãe!
A minha mãe não esteve naquela sessão! — respondeu instintivamente Nicolau, que não havia sentido o Espírito de sua mãe.
- Já vão começar! - ralhou Catienka com um e outro.
Se não combinam, porque ainda teimam em sair juntos?
- Não era nossa mãe que lá estava, Nicolau, tu não vês o que eu vejo, era o fantasma da colheita - explicou Mayra, contando seu segredo.
Era ela que estava conversando comigo!...
- O que dizes? - assustou-se Nicolau com a explicação.
Estás querendo dizer que o fantasma estava presente na sessão?
- Sim. Eu vi. Era a filha da Sra. Norobod, e estou pensando em contar-lhe o que aconteceu.
- Podes contar, embora ela esteja doente, talvez queira conversar com afilha que tanto ama! - disse Nicolau, pensando em confortar a Sra. Norobod, que era tão boa para eles e na possibilidade de continuar a observar aqueles fenómenos que o atraíam.
Eu posso trazê-las numa das carruagens, são maiores e mais confortáveis.
A carroça era lenta, cansativa e muito desconfortável para uma viagem tão longa.
Assim, o pequeno grupo entrou no território dos Norobod sendo esperado pelo pai que, preocupado, a todo instante olhava o horizonte.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 22, 2016 8:28 pm

60 - Espiritismo na Rússia

Nova preocupação tisnou a fronte de Iulián Sumarokov quando, inocentemente, a filha contou-lhe o que se passara na sessão da viúva Madjeka.
- Ah! não... - disse nervoso.
Mayra, proíbo-te de ires a tais lugares, onde apenas se arma confusão.
Não vás comentar sobre isto com a Sra. Norobod, que não anda bem de saúde -, amedrontou-a enérgico, tentando afastá-la daquelas comprometedoras comunicações.
- Por que não queres, pai, se isto somente lhe fará bem!?
Tenho certeza, a velhota precisa destes estímulos para continuar vivendo.
Deixa que Mayra lhe fale!
Afinal trata-se do Espírito de sua filha! - defendeu-a Nicolau, não percebendo nada de errado na atitude da irmã e interessado em voltar, mas de carruagem.
Se Mayra não contar, conto eu, pois pretendo convidá-la para ir connosco à casa da viúva.
Sumarokov, com cara de poucos amigos, sem argumentos, calou-se, acendeu seu charuto, sentando-se numa velha poltrona coberta por uma colcha.
No dia seguinte, Mayra foi à mansão conversar coma velha amiga.
Era visível sua felicidade em ver a moça que, a cada dia, mais se parecia com sua finada Sácha.
Mayra narrou a singular aparição do fantasma, no momento em que a médium recebia o Espírito de sua mãe.
Em sua inexperiência, imaginou que os dois Espíritos estavam presentes, enquanto que o único Espírito que se manifestou foi o de Sácha, sua mãe consanguínea.
Aqueles factos, como previra Nicolau, motivaram a Sra. Norobod a se interessar também pelas sessões de Madjeka e, como havia previsto o rapaz, ficou muito curiosa e combinaram ir, na próxima semana, à casa de Madjeka.
A Sra. Norobod, decidida, mandou que viesse o pope, queria sua opinião, considerando-o a pessoa mais sábia do lugar.
Estava claro que ele não iria gostar, mas mesmo assim ela insistiu.
Apesar do pope não concordar com os novos factos, ele nada podia fazer para impedi-los, mas, em seus sermões, não cansava de falar contra eles:
- O demónio e a falsidade andam de mãos dadas em casas de viúvas regateiras e más que exploram a credulidade alheia - e fazia o sinal da cruz, benzendo-se e esconjurando.
Porém, o Espiritismo ganhava alguns adeptos na Santa Rússia, e ele não suportava pensar que a Sra. Norobod, sua fonte de renda, pudesse sair de seus domínios.
Ninguém conseguiu dissuadir a Sra. Norobod que, mesmo doente, foi à casa da viúva Madjeka.
A rica carruagem parou em frente à casa, atraindo a atenção geral.
A importante dama desceu com dificuldade, observada por todos que desejavam ver quem estava chegando naquele veículo.
Sua presença aumentou a importância do pequeno movimento na casa da viúva Madjeka, que era alvo de críticas maldosas.
Aquelas sessões ganhavam crédito, principalmente quando um figurão do lugar participava delas.
Madjeka recebia feliz a visita de tão ilustre dama.
Colocaram-na num confortável sofá de cetim, circulada de almofadas macias, como se ela fosse uma figura lendária e ninguém ousou se aproximar, olhando-a com respeito, de longe.
Mayra foi reconhecida logo que entrou, já havia conquistado alguns fãs, desde a primeira reunião e, agora, junto à rica senhora, sua popularidade aumentou, pois acreditavam que ela fizesse parte da família Norobod.
Ela e Nicolau, vestidos simplesmente como filhos de mujiques, estavam em pé junto à mulher.
Formavam um belo par e os cochichos diziam que eram namorados, pois na aparência física não tinham nenhum traço em comum.
Em um clima de observação, os presentes examinavam-se uns aos outros, fechados na sala e calados.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 22, 2016 8:28 pm

Somente os olhos dançavam nas órbitas enquanto esperavam a sessão começar, espera que durou cerca de meia hora.
A gorda viúva Madjeka, mais alegre que o habitual, deslocava-se, graciosa, de um lado para outro cumprimentando a todos.
Sentia-se muito honrada com a importante visita e esmerou-se em fazer uma sessão movimentada, como se aquilo fosse um teatro para atrair a atenção para seus dons.
Algumas pessoas oravam fervorosamente, porém, a maioria, cheia de curiosidade, via naquilo apenas um interessante passatempo, sem se ater à grande importância do assunto.
Esta época registava factos referentes à maior conquista do ser humano, o direito de conversar com seus mortos e aprender suas lições.
A sessão logo começou com a manifestação de uma entidade chorando, depois outro personagem do Além vinha nervoso, reclamando sua fortuna.
Aproveitando o barulho que faziam os médiuns, os cochichos aumentavam e, quando o médium silenciava, cessavam juntos.
Na penumbra, viam-se os rostos dos dois médiuns que se transformavam a cada Espírito ao qual davam passividade.
Os Espíritos não queriam saber do alfabeto de Madjeka que, assentada, tinha o ar de quem presidia a sessão, mas os Espíritos procuravam outros médiuns, cuja humildade e espírito de doação lhes favoreciam a comunicação.
Sua facilidade e seu recolhimento ofereciam-lhes a oportunidade para se melhorarem, deixando-os falar, enquanto um doutrinador, mais esclarecido, conversava com eles, acalmando-os.
O médium doutrinador era um homem de meia-idade, baixo e magro; seus cabelos, empastados de óleo, brilhavam, seus olhos eram vivos e espertos, e seu semblante alegre inspirava confiança; tinha um jeito humilde, generoso e atraente.
A sala estava repleta e muito animada.
Uma voz clara e forte chamou a atenção:
- Uma entidade deseja falar com a Sra. Norobod, mas não o fará hoje, pede-lhe que venha na próxima semana... - a médium fez uma pausa e depois continuou:
- Espera! Tem outra informação...
a Jovem que se encontra a seu lado, não poderá faltar.
Devem se empenhar em comparecer aqui, porque importantes revelações serão feitas.
O pequeno grupo saiu de lá, incentivado a participar mais vezes, e a Sra. Norobod não falava em outra coisa.
Na fazenda, o Espiritismo era o assunto do momento, e o pequeno grupo aguardava ansioso pelo dia da reunião.
Kréstian e Catienka também queriam acompanhá-los.
Sumarokov tudo fez para impedi-los de irem.
Aqueles Espíritos, se dessem com a língua nos dentes, constituiriam uma ameaça para seu sossego.
Logo agora que Kóstia havia se afastado de seu caminho, surgiam estas novas preocupações.
Pela manhã, saiu a pequena caravana levando a Sra. Norobod que, muito disposta, havia recuperado a alegria.
Antes de saírem, o professor Semión abordou-os:
- A que horas começará a reunião?
- Às três horas.
Vamos? - convidou Nicolau, que dirigia a carruagem.
- Não percam tempo comigo, irei mais tarde - disse Semión, que pretendia ir a cavalo e só voltar no dia seguinte.
Nicolau, interessado em assistir às reuniões com o propósito de montar na fazenda o seu próprio grupo, com a autorização da Sra. Norobod, observava tudo, atentamente, para aprender e adquirir o domínio necessário.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 22, 2016 8:28 pm

O professor Semión, que havia assistido a algumas reuniões em centros mais adiantados, como São Petersburgo, onde actuavam médiuns estudiosos e compenetrados, encontrava uma certa resistência a respeito daquele grupo:
a Sra. Madjeka não lhe Inspirava confiança.
Era o único grupo naquele local e não era um bom modelo a ser imitado.
As pessoas, na sala, estavam impacientes para que a reunião começasse.
Infelizmente, um incidente com a viúva Madjeka cancelou a esperada reunião.
- Como?! Não haverá reunião? — perguntou, nervosa, a Sra. Norobod ao tímido homem que saíra para avisá-los.
- Não, ela não está bem e pede desculpas — respondeu o informante, constrangido pela importância da mulher.
- Não acredito que viajamos horas para nada acontecer! - não queria se conformar.
- Calma - disse com tranquilidade Mayra -, talvez fosse melhor adiarmos.
Os Espíritos devem ter um motivo inteligente que, no momento, foge ao nosso alcance. Voltemos!
Nicolau também interferiu:
- Ademais, Sra. Norobod, tais comunicações me preocupam, porque ela recebe poucos Espíritos e seu alfabeto fica intocável, eles não lhe mostram o que fazer.
- Nicolau tem razão, nós não vimos a viúva Madjeka receber sequer um Espírito do Além... — reclamou Catienka.
- Nicolau -, chamou Mayra - os Espíritos podem se comunicar em qualquer lugar e através de qualquer pessoa, não é mesmo?
Estavas explicando muito bem, no caminho...
- Estás pensando o mesmo que eu? - brincou Kréstian com a irmã.
- Sim, Kréstian, aposto que estamos pensando a mesma coisa, podes confirmar - incentivou-o Mayra.
- Por que então, não fazemos a nossa própria sessão?
- É justamente nisto que eu estava pensando, Kréstian - respondeu Mayra, que havia adivinhado seu pensamento.
Nicolau, decidido a criar a sessão em sua própria casa, passou a estudar o melhor modo de agir, contando com a experiência das sessões de Madjeka e a orientação do professor Semión.
Voltaram desanimados da casa da viúva Madjeka, que nem se deu ao trabalho de aparecer para justificar sua ausência.
No caminho, encontraram o professor Semión que, sabendo do facto, voltou com eles, montado em seu cavalo.
Aquele episódio, no entanto, serviu para que fossem tomadas outras providências e, sob a orientação de Semión, nasceu na fazenda Norobod um pequeno grupo de Espiritismo experimental.
Começava a nova era que iria marcar o Intercâmbio entre os dois mundos, permitindo aos ditos mortos se comunicarem com os vivos, em sessões propriamente organizadas para tal finalidade.
De nada adiantou a esconjuração do pope e seu alerta à Sra. Norobod que, com ou sem a sua autorização, exigia que as sessões fossem feitas em sua mansão e não na isbá do cercado.
As reuniões tinham um carácter muito estranho e alguns achavam que a Sra. Norobod não estava muito bem das faculdades mentais e sua teimosia só servia para atrair o Espírito da própria filha que outrora amedrontava os camponeses.
O pope se regozijava com esta situação, declarando que estavam possuídos pelo demónio.
Sra. Norobod atraiu, de facto, o Espírito de seu marido, aliás, Espírito que nunca saíra dali.
A sua aproximação causava-lhe enorme desequilíbrio, pois seu Espírito, atribulado pelos crimes hediondos, procurava na esposa a válvula de escape para sentir-se aliviado e ela, totalmente dominada por ele, acabava rolando pelo chão, como ele fazia em vida.
Nem as orações de todos conseguiam afastá-lo e o estado da mulher só foi piorando.
Por mais que o professor Semión tentasse explicar aos alunos e a seus pais, não conseguia acabar com a antiga superstição e o medo.
Corria, de boca em boca, que a dona do castelo mancomunava-se com aquele demónio.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 23, 2016 7:47 pm

E suas reuniões não tiveram o finito desejado e nem o Espírito de Norobod, aliviado.
Era um verdadeiro desastre e todos ficavam extenuados, lidando com forças espirituais que não conseguiam dominar pela sua Inexperiência e falta de fé.
Semión pediu-lhes que se acalmassem.
As sessões, recentemente iniciadas, foram interrompidas por Alex Norobod, que temia a fuga dos mujiques amedrontados, abandonando as terras.
Sua mãe e os outros deviam acabar com aquela maluquice.
Como o mais velho era Semión, seria o responsável se algo mais sério acontecesse à sua mãe, ou prejudicasse a colheita que se aproximava.
Acabou tudo, quando Semión partiu.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 23, 2016 7:47 pm

61 - Nicolau e Mayra, precursores

Porém, em casa dos Sumarokov, tudo mudava de figura e Nicolau formou, às escondidas, um pequeno grupo para estudar sérios folhetins que chegavam da capital para o professor Semión e que agora lhe pertenciam.
Na pequena isbá, à noite, assentavam-se em torno da mesa ele, Catienka e os Irmãos e tentavam fazer o mesmo, segundo as instruções que vinham escritas, enquanto Sumarokov, num canto os observava, fumando seu charuto.
Faziam muito esforço e pouco conseguiam.
Nenhum espírito se comunicava com eles, pareciam isolados do Mundo dos Espíritos.
- Isto é para compreendermos que estas coisas não acontecem segundo a nossa vontade, mas segundo a deles - disse Pável.
- O que está nos faltando então, para que eles venham? - perguntou Kréstian aborrecido.
- Penso que seja fraca a nossa concentração e que os Espíritos esperam que estejamos melhor concentrados... - argumentou Mayra.
- Tu que vias os Espíritos, agora não os vês? - perguntou Kréstian à irmã, em tom de brincadeira.
- Eu os vejo, quem disse que não os vejo? - respondeu a mocinha surpresa, pensando que todos os viam.
- Então por que não contas o que vês? - perguntou Pável.
- Porque ninguém me perguntou! - disse Mayra inibida.
Para ela, era algo natural ver os Espíritos.
- Conta-nos, Mayra, o que vês - disse Nicolau voltando-se para ela que, assentada a seu lado, não parecia muito disposta a narrar o mundo invisível.
- Vejo seres, para mim, desconhecidos, mas são muito simpáticos e nos olham sorridentes, suas túnicas são alvas e algumas brilham mais do que as outras - Mayra ia descrevendo as entidades que estavam ali participando da reunião, para o espanto de todos, que percebiam em suas palavras a mais sublime verdade.
Eles não estavam sós, com eles estavam os Espíritos.
A seriedade e o desejo do pequeno grupo havia atraído seus protectores e, no berço humilde em que nasceram, começava o tímido intercâmbio com o Além, tendo como protagonista principal, Mayra e suas faculdades.
A Sra. Norobod piorava, sofria de osteoporose, com muito esforço conseguia se levantar para andar; mancava, escorando-se na rica bengala que Alex trouxera de S. Petersburgo.
A doença se agravava e ela não podia mais descer as escadas nem visitar a isbá do cercado.
Solicitava a presença de Mayra constantemente, pedia-lhe para ler uma história que a distraísse, e sempre se queixava:
- Estou chegando ao fim, minha querida Mayra, sinto que não alcançarei a primavera.
Peço-te que venhas todos os dias me ver, tua presença me alegra a vida e me dá coragem para suportar minhas dores.
- Não digas isto, senhora, ainda verás muitas primaveras, verás as flores e ouvirás o canto dos pássaros - dizia a moça, animando-a com sua ternura.
Amanhã, contar-te-ei uma bela história de Espíritos que acabou de chegar de Paris.
Enquanto a Sra. Norobod não adormecia, Mayra não voltava para casa.
Ultimamente, a Sra. Norobod solicitava-a durante o dia e algumas vezes à noite.
Mayra pressentia que seu fim estava próximo e tudo fazia para alegrá-la.
A moça chegava pela manhã e só regressava à tarde.
Depois, a Sra. Norobod começou a pedir-lhe que ficasse também à noite até que, finalmente, foi colocada uma cama ao lado do leito da Sra. Norobod para ela, que passou a viver na mansão.
Por Isso as sessões foram minguando, eram realizadas uma vez ou outra, esperando que ela tivesse uma folga, pois era a única pessoa, pensavam eles, que atraía os Espíritos.
Certo dia, chegou uma rica carruagem na fazenda.
Era Kóstia que, saudoso, vinha ao encontro dos amigos, da filha e daquele lugar, palco de suas recordações.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 23, 2016 7:47 pm

O visitante foi recebido com muita alegria por Alex.
Vinha cheio de ricos presentes e novidades da capital.
Logo todos souberam da sua chegada e a alma de Sumarokov encheu-se novamente de graves preocupações, porque sua filha estava, praticamente, morando na mansão e iria ficar à mercê de Kóstia.
Receava que ele voltasse a cortejá-la.
Não tinha tanta certeza de que fora ele quem encontrara o bilhete.
Jamais teria coragem de lhe perguntar e a dúvida causava-lhe muita inquietação.
Kóstia ficou penalizado quando soube que a menina estava dormindo ao lado da Sra. Norobod e era ela quem lhe servia de enfermeira em suas noites de sofrimento, imaginando o seu esforço, empenhada na limpeza diária.
Encontrou-a mais magra e pálida, mas sua beleza continuava deslumbrante.
Era difícil não ficar olhando aquela jovem que, sem dúvida alguma, era sua filha.
Será que não percebiam a semelhança dela com Sácha?
Por enquanto, como pai, nada podia fazer para diminuir seu trabalho e a observava compadecido de sua sorte, servindo de criada para a própria avó, enquanto Sónia desfrutava de todas as regalias de sua posição, insistindo em humilhá-la com alguns serviços que ela impunha à moça, maldosamente.
Mayra ganhou dele ricos presentes e, muito receosa, não sabia se aceitava ou não, acabando por recebê-los, para que ele não a julgasse ingrata.
Ela tinha atitudes delicadas, fazendo seu serviço com muita graça.
Agia como se tivesse recebido uma fina educação.
Se não fosse a sua modéstia e espírito de serviço, qualquer um a tomaria por uma rica jovem, educada para grandes salões.
Afastada a hipótese de um casamento, eles agiam naturalmente, mas com certa reserva, apesar da grande simpatia que os identificava.
Mal se cumprimentavam.
Kóstia viera para ficar dois dias e acabou ficando mais, tal a alegria que a presença dela, na casa, lhe causou.
Verdadeira felicidade Iluminou seu rosto.
Respirava ali um clima de muita paz.
Em diversos momentos, teve ímpetos de fazer-lhe um carinho, mas o medo de ser mal Interpretado, fê-lo se manter ainda reservado.
Algumas vezes continha o ímpeto de apertá-la em seus braços e chamá-la de filha.
Sumarokov arrumava desculpas para ir e vir, curioso para saber o que estava acontecendo na grande residência, quando não pedia a Catienka para espionar.
- Deixa de ciúme, homem —, dizia Catienka sorrindo.
Este camarada não quer mais nada com tua filha, nunca vi ninguém tratar outra pessoa com tamanha educação, não precisa te preocupares, Iulián.
Nada irá acontecer a Mayra.
- Por que, então, ele se demora tanto?
- Isto não me perguntes. Nada sei.
Iulián Sumarokov resmungava pelos cantos sem entender o que estava acontecendo com o camarada Kóstia e quais seriam suas intenções, muito menos o motivo de sua demora na fazenda.
Sácha, a filha de Alex, não largava do pé de Nicolau, que procurava não decepcioná-la, mas não a incentivava; aliás, ela não era a única que se Interessava por ele.
As outras mocinhas sempre o olhavam de forma diferente.
Nicolau também estava curioso para saber se a Irmã ficava a conversar com Kóstia e, começou a dispensar mais atenção a Sácha, sabendo que esta o levaria com facilidade à mansão sem causar problemas.
Sácha, entusiasmada com esta espontânea aproximação, não percebeu que estava sendo usada.
Tudo fazia para prendê-lo em sua companhia, julgando-o Interessado nela.
Estavam os dois jovens assentados na varanda, examinando um jogo que ela havia recebido e precisavam encontrar mais dois parceiros; a moça caprichosa correu a convidar Kóstia e Mayra para jogarem.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 23, 2016 7:47 pm

62 - O Jogo das Almas

A Sra. Norobod havia dormido e Sácha encontrou Mayra disponível.
Ela podia descansar um pouco enquanto a Sra. Norobod dormia, mas vendo o irmão, aceitou alegremente o convite.
Os quatro parceiros assentaram-se confortavelmente na sala de jogos e começaram a brincadeira que mais parecia um jogo da verdade.
Entre perguntas e respostas, o jogo tinha como objectivo fazer com que as pessoas se conhecessem melhor.
Kóstia e Mayra assentaram-se frente a Nicolau e Sácha e depois de repartidas as cartas com as perguntas, começou a brincadeira.
Chamava-se o jogo, a brincadeira da alma, em que cada um iria descobrir a própria alma e a do parceiro que com ele mais se identificava.
Instantes depois, quando terminaram o jogo, tiveram a grande surpresa de perceberem que os gostos dos irmãos eram semelhantes, e não haviam perdido nenhum ponto.
Sácha, ciumenta daquela situação, em que ela e Nicolau não tiveram nada em comum, disse:
- Ainda bem que é tua irmã!
Não vale, irmãos vivem juntos e se parecem mesmo!
- Nem sempre - respondeu Kóstia significativamente.
- Isto não vale.
Precisamos convidar mais outros para o jogo, o número de participantes pode chegar até dez.
Convidemos mais pessoas e voltemos à brincadeira - insistiu Sácha.
- O jogo não serve para nós, uma segunda vez —, explicou Nicolau que havia lido a orientação no folhetim explicativo.
Mayra pensava como podia ela e Nicolau terem os mesmos ideais e gostos, se ele mal conversava com ela e sempre a evitava.
As reuniões espíritas os aproximavam um pouco, mas era só enquanto duravam.
Depois, ele fazia questão de estar sempre distante, como se ela nem existisse.
A Sra. Norobod despertara e outra criada veio chamá-la.
Kóstia acompanhou Mayra até a porta do quarto da Sra. Norobod, enquanto Sácha tudo fazia para agradar a Nicolau e retê-lo em sua casa.
A jovem, para ficar ao lado dele, começou a se interessar pela escola e a mudar o seu comportamento.
Ela era bonita, mas de uma beleza vulgar que não o atraía.
Suas investidas foram tantas que ele acabou por se deixar levar pelo seu assédio e começou um namoro discreto.
Porém, os arroubos apaixonados da moça o decepcionaram, demonstrando claramente que ela não era o tipo de mulher que lhe servia.
Não queria transformá-la em um passatempo, devido ao respeito que sua família lhe inspirava e à sua dependência económica.
- Quando encontrares alguém, prezada Mayra, que desejares a teu lado, lembra-te, deverá se parecer com o teu irmão - brincou Kóstia, referindo-se à brincadeira.
- Não sei, Sr. Wladimir, se nossos gostos serão idênticos, Nicolau sempre me evita, como se não gostasse de mim.
Tal atitude, confesso-te, já me fez chorar algumas vezes - desabafou a menina, sentindo confiança naquele homem que a tratava agora com paternal carinho.
- Não estaria ele escondendo-te seus verdadeiros sentimentos? - argumentou Kóstia, desejando ajudá-la.
Às vezes, quando o amor é muito grande, não se consegue expressar.
Penso que Nicolau te ama com ardor.
Sempre se preocupou contigo.
- Pensas mesmo nesta hipótese?
Sabes, porque te falo assim, Sr. Wladimir?
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 23, 2016 7:48 pm

Meus irmãos são meus melhores amigos e mantenho com eles um relacionamento afectivo igual.
Nós nos abraçamos e nos beijamos constantemente e, todas as vezes que me aproximo de Nicolau para lhe fazer um carinho, ele se esquiva e parece contrariado com a minha presença.
Sua repulsa me faz pensar que não lhe agrado...
Kóstia, ouvindo-a falar assim, sorriu ante sua casta ingenuidade.
Ele a compreendia e incentivou-a a comentar seu relacionamento com a família.
- Depois que começamos a fazer as sessões espíritas em casa, alguma coisa mudou.
Senti que nos aproximamos mais.
Embora ele se mantenha arredio a qualquer manifestação minha de carinho, nosso diálogo aumentou.
Kóstia, ouvindo-a falar das sessões, interessou-se vivamente pelo assunto.
Conversa que poderia ter se estendido se não fossem interrompidos pela Sra. Norobod que reclamava a presença de Mayra.
- Nossas reuniões são feitas em minha casa, são secretas.
Até mais, Sr. Wladimir.
Em outra ocasião falaremos a respeito das sessões — apressou-se em se despedir.
Assim que ela entrou no quarto, Kóstia procurou Nicolau, interessado em saber detalhes das reuniões, mas o rapaz já estava saindo; então ele chamou Sácha e passaram a conversar, assentados num canto da varanda, cercada de açucenas e pessegueiros em flor.
Mayra estava perplexa com o comportamento daquele homem, que a presenteava e a tratava com desvelada atenção; parecia-lhe completamente esquecido do assunto casamento.
A suave criatura também havia observado as intenções de Sácha, olhando ostensivamente para seu irmão que, discreto, fazia questão de demonstrar nada entender.
Estaria Sácha apaixonada por Nicolau?
Pensou naquela hipótese.
O irmão era um belo rapaz, nada a impediria de se apaixonar por ele.
Sua pobreza e sua humilde posição social não lhe diminuíam o valor, e Sácha, muito parecida com a mãe, espírito liberal, educada por franceses, não se importava com as conveniências da época.
Ambas eram audaciosas e irreverentes.
E Nicolau, o que pensaria a este respeito?
A jovem, depois de atender à doente, deitou-se pensando em Nicolau e acabou dormindo e sonhando, ainda envolta no reflexo de seus próprios pensamentos.
No dia seguinte, acordou muito pensativa.
Sonhara com Nicolau e Sácha, casando-se.
Estava feliz pelo irmão, mas sua felicidade não encontrava aquela alegria verdadeira.
Parecia que as aparências a queriam enganar.
O que sentia não era bem ciúme, sua alma angelical se recusava a cultivar este tipo de sentimento.
Era uma sensação horrível de perda, que ela não sabia como explicar.
Quando pôde, foi à sua casa e comentou o facto com Catienka, sua amiga e confidente.
- Catienka, meu sonho parecia realidade, será possível uma união entre os dois? - perguntou, enquanto a ajudava a descascar abóboras.
- Dizem que os sonhos sempre têm um fundo de verdade.
O professor Semión explicou que, às vezes, eles antecipam os acontecimentos.
Mas, sinceramente, Mayra, não vejo teu irmão interessado por aquela moça, cujos modos ficam a desejar para uma jovem de sua importante posição.
Não achas que ela é muito regateira, como a mãe? - comentou Catienka, que guardava uma certa reserva da mãe e da filha, sabendo que a primeira havia tentado conquistar seu Iulián e sua natureza ardente não a deixava vê-las com olhos diferentes.
Mayra, que não gostava de comentar nada que diminuísse alguém, principalmente em sua ausência, corrigiu- a carinhosamente, sem afectação:
- Querida Catienka, não se deve julgar o comportamento dos outros, quando os mesmos não se encontram por perto para se defenderem.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 23, 2016 7:48 pm

É um princípio anti-cristão, que muito aborrece a Jesus Cristo.
Envergonhada de sua atitude, Catienka procurou disfarçar, mas retrucou, justificando suas palavras:
- Esta Sónia Alexnovina, certa vez, quando nos mudamos para esta região, mesmo casada, deu a entender a Iulián, que queria ter um caso com ele; teu pai, um homem de fibra, recusou e afastou-se... - explicou Catienka, procurando se corrigir.
És muito bondosa, Mayra, mas nem ela e nem a filha merecem tua consideração...
O que falo é comentário de toda a aldeia.
- Bem, isto não vem ao caso, comentários nem sempre correspondem à verdade... - disse meigamente.
Se Nicolau se interessar por ela, temos que a considerar...
Ainda ontem, eles pareciam satisfeitos de estarem juntos, penso...
- Espero que estejas enganada.
Nicolau é um bonito rapaz, inteligente e educado.
Não é homem para uma moça vulgar.
Se ele continuar com os mesmos propósitos terá um bom futuro.
- Quais propósitos?
Ele nunca comenta nada comigo - queixou-se, já acostumada aos modos do irmão.
- Os que ele tem!
Ora, não sabes que ele deseja se mudar para a capital e conseguir um bom emprego, a fim de melhorar sua situação e livrar-se da servidão?
Mayra sentiu uma pontada no coração como se um punhal nele mergulhasse de manso.
- Ele deseja isso?!
Eu não sabia, Catienka.
- Ele e Iulián estavam justamente conversando sobre esta mudança e uma proposta que o camarada Kóstia lhe fez.
Mas, minha querida e tu?
O camarada Kóstia não tornou a te propor casamento?
- Ah! Catienka, ele se mantém muito polido, mas suspeito que tenha alguém na cidade, ou se arrependeu.
Papai conseguiu nos afastar, mas não tem importância...
0 que sinto pelo Sr. Wladimir é muito diferente do que pensas - respondeu constrangida, embora aliviada, por compreender seus sentimentos em relação a ele.
- Ouvi uma conversa sobre um possível casamento dele com Sácha...
Sabes algo a respeito?
- Não te disse há pouco, que Sácha parece estar interessada em Nicolau?
- É por tudo isso que te digo, ela e a mãe parecem querer todos os homens do mundo! - retrucou a madrasta, convencida do mau comportamento das duas.
Com um sorriso a moça brincou:
- Não tem mesmo jeito, Catienka, as duas que se cuidem de ti e de tua língua... - brincou, apontando a faca para sua boca e meigamente alertou:
— É preciso cortar um pedacinho de tua língua, mostra-me para ver o tamanho!
As duas riram, continuaram a descascar as abóboras e começaram a cantar uma canção popular, que dizia:
“É preciso brincar, dançar e rir... e muito mais que brincar, dançar e rir, é preciso amar.”
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 23, 2016 7:48 pm

63 - São Petersburgo

Antes de voltar para São Petersburgo, Wladimlr conversou com Nicolau, confirmando a interessante proposta para que fosse trabalhar com ele, em uma de suas lojas, oferecendo-lhe um bom salário, casa e comida.
O jovem, cujos objectivos se encaixavam no oportuno convite, conversou com o pai e o Sr. Alex, que concordaram imediatamente, proporcionando-lhe a felicidade de continuar seus estudos, trabalhar e melhorar sua condição de vida.
Dias depois, Wladimir despediu-se.
Em momento algum deixou transparecer sua descoberta, tratando Sumarokov com muita afabilidade, ganhando-lhe a confiança.
Era como se ele estivesse apalpando o terreno para, um dia, ter a filha em sua companhia.
Por enquanto, nada podia fazer, sabendo que ela era feliz com eles que, também, a adoravam.
Estudioso dos artigos espíritas sobre a lei da reencarnação, compreendia a sua afinidade com a avó, Maria Norobod, que, instintivamente, agia como se a neta fosse realmente um membro querido da família..
Homem solitário, depois da preciosa revelação, pensava realmente em continuar com seus negócios e viagens, trabalhando em prol da libertação dos servos.
Pensava em conduzir sua vida sentimental, palmilhando-a nas recordações, tendo como única ventura a certeza de ter encontrado sua filha na pessoa daquele anjo.
Grato ao destino, sentia-se recompensado por tudo quanto sofrera.
Nicolau viajara em sua companhia, deixando para trás a pacata vida de professor rural e o coração de Sácha decepcionado com a frieza de sua despedida.
Restavam agora Pável e Kréstian, os filhos de Sumarokov a serem encaminhados.
A despedida de Mayra e Nicolau foi patética.
O moço indeciso, olhava-a muito polido, quando o pai empurrou-o brincalhão:
- Beija tua irmã.
Pareces temê-la?
Um leve beijo na face assinalou a despedida que, no fundo, contrariava seus corações.
Nunca se tinham separado e Mayra falou para o irmão, com os olhos brilhando por duas lágrimas que teimavam em cair:
- Escreve-me, Nicolau...
Kóstia, que assistia à cena, aproveitou para incentivá-la:
- Não queres, também, estudar em São Petersburgo, Mayra?
Em minha casa existem muitos quartos, reservarei um para ti.
Serás sempre bem-vinda.
- Grata, Sr. Wladimir, pelo convite, talvez um dia possa aceitá-lo... - respondeu meigamente, aconchegando- se ao braço do pai.
Um temo carinho assinalou a despedida dos dois.
Muito bem trajado, Kóstia puxou as rédeas da rica tróica e disse, olhando-a:
- Adeus!
- Adeus! - disseram todos juntos.
Aquele entrosamento entre Kóstia e a família de Mayra, visava ganhar a confiança de todos, para que o verdadeiro pai pudesse atingir seus objectivos, acompanhar a vida da filha e cuidar de seu futuro.
Em oportuna ocasião, ele estava decidido a falar com Alex e depois com Sumarokov.
0 primeiro passo fora dado: auxiliar Nicolau, mantendo assim o importante vínculo com a família que ele desejava ajudar.
O estado de saúde da Sra. Norobod foi se agravando consideravelmente, e a mulher parecia agora uma sombra do que fora.
Suas faculdades mentais estavam muito fracas e Alex decidiu levá-la para a capital e submetê-la a um tratamento com um médico especializado.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 23, 2016 7:48 pm

Mayra teve que acompanhá-la, pois, era a única pessoa que ela queria por perto.
Embora contrariado, Sumarokov foi obrigado a aceitar, sem nada dizer.
Nem um mês havia se passado após a partida de Kóstia e um novo e inesperado encontro aconteceu entre ele e a filha.
Alex deixou a mãe e Mayra em sua casa que, além de ser confortável e grande, ficava bem próxima à clínica onde a Sra. Norobod faria o tratamento psiquiátrico.
A felicidade de Kóstia foi visível quando os viu entrando.
Finalmente seu tesouro estaria em sua companhia e bendizia a doença da Sra. Norobod que lhe proporcionava tamanha alegria.
A cidade movimentada, para Mayra era algo inusitado.
Apesar de ter que acompanhar a Sra. Norobod, de dois em dois dias à clínica, ainda lhe sobrava algum tempo para admirar o movimento da rua pela janela.
Kóstia havia contratado uma outra mulher para auxiliá-la nas lides domésticas, pesaroso do nobre esforço da menina para atender à doente em tudo, desde o asseio à comida.
Queria poupar sua filha de qualquer esforço e da pesada limpeza do quarto.
Nicolau, acompanhando tudo aquilo, ficava por compreender a preocupação de Kóstia quanto à irmã e, apesar de suas maneiras polidas, estava desconfiado, e não o perdia de vista.
Certo dia, numa bela tarde de domingo, Kóstia deu mais uma prova de que suas intenções eram as melhores.
Vendo os dois irmãos, cada um em um canto, mergulhado em suas leituras, incentivou-os:
- Por que não vão ao teatro, logo mais?
Nunca tinham visto uma peça teatral e ficaram felizes pela oportunidade que Kóstia lhes proporcionava de se divertirem um pouco.
Estava em cartaz, no teatro principal a peça Romeu e Julleta de Shakespeare, representada por um grupo de bailarinos franceses que conjugava a dança à mímica e a que os jornais faziam severas críticas.
Era um grupo francês Inovador, bem aos moldes da juventude moderna, e que havia cativado os jovens de S. Petersburgo.
- Vai nos acompanhar, Sr. Wladimir? - perguntou Mayra com modéstia.
- Não, minha querida, esta peça destina-se ao público mais Jovem.
Vão os dois. Ficarei, se a
Sra. Norobod precisar de algo, estarei por perto.
Nicolau, interessado na peça que havia acompanhado pelos jornais, levou a irmã, feliz em passear e se distrair.
Quem visse os dois, bem vestidos e agasalhados, jamais os julgaria dois filhos de pobres e analfabetos mujiques.
O belo par provocava admiração por onde passava e todos o julgavam um par de namorados ricos e apaixonados.
Mayra usava um vestido de veludo azul, cujos detalhes aformoseavam seu físico esbelto e delicado, protegida por um casaco de lã, em tom mais escuro.
Os cabelos louros bem penteados em tranças enroladas, em forma de um laço, na nuca, deixavam ver o seu perfil.
Brincos perolados adornavam suas orelhas e contrastavam com sua pele alva e transparente, dando-lhe um ar de princesa.
Ela estava tão bonita que quando Nicolau lhe ofereceu o braço para subirem na cocheira, deu um leve suspiro, mas nada disse, deslumbrado com a beleza da Irmã.
-Cuida bem de tua irmã, Nicolau, em São Petersburgo será difícil encontrar outra jovem que se lhe Iguale na formosura- alertou-o Kóstia sorridente e orgulhoso da sedutora filha.
- Não temas, Sr. Wladimir, cuidarei de minha irmã, que mais parece uma bruxinha fantasiada de princesa - disse em tom de brincadeira, também orgulhoso dela.
Esses meses que Mayra e Nicolau passaram juntos, na capital, favoreceram sua aproximação, longe dos olhares críticos dos familiares e da severa presença de Iulián Sumarokov.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 23, 2016 7:49 pm

Nicolau estava mais acessível e, ao regressar do trabalho, sempre lhe ofertava uma lembrança, um petisco gostoso, uma flor, um pente novo para adornar seus cabelos, um bibelô para enfeitar sua penteadeira, uma revista.
Mayra, grata por estas atenções, modificava sua antiga ideia, de que o irmão não gostava dela.
A Sra. Norobod não obtivera as melhoras desejadas com as sessões do psiquiatra.
Certo dia, o mago Nabor soube que ela e os filhos de Iulián estavam na cidade, visitou-os e decidiu fazer uma sessão espírita, percebendo que o mal da pobre mulher era uma obsessão com características vampíricas.
Apesar de não ter grande evolução moral, o médium amigo detectou que a entidade espiritual que a prejudicava era seu falecido marido.
O mal se agravou com a aproximação de Kóstia e Mayra, aos quais o Espírito Norobod cultivava antigo ódio, pelas experiências infelizes e cruéis de vidas passadas, culminando no delito contra a própria filha e no terrível atentado contra a vida da neta.
Seu Espírito, endividado com a lei, precisava ser esclarecido.
Encontrava um ponto de apoio na esposa que, não obstante sua crueldade, o havia perdoado e orava por sua alma.
Precisava, porém, obter o perdão dos outros e ter o seu Espírito esclarecido.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 23, 2016 7:49 pm

64 - Dmitri Nabor, espírita

Nabor, estudioso do Espiritismo e do Magnetismo, empenhava-se nas práticas mediúnicas em moda, e ficou multo feliz com a oportunidade de auxiliar aquele simpático grupo e demonstrar-lhe seu domínio sobre o interessante assunto.
Os Espíritos e suas manifestações palpitantes estavam muito em voga na pátria dos czares.
A menina Mayra, cuja mediunidade prometia um grande desenvolvimento, interessava-o vivamente, julgando que lhe faltava apenas alguém competente para desenvolvê-la.
Disposto a ser esta pessoa, passou a frequentá-los assiduamente, caindo novamente nas graças da Sra. Norobod, que se simpatizava com ele.
Feliz com o reencontro, mas com sérios problemas financeiros, encontrou na amiga doente a solução que procurava.
Recordou-se do tempo em que viveu na sua mansão e sentiu um sincero desejo de ajudá-la, independentemente de retribuição pecuniária.
O pequeno grupo começou a fazer sessões espíritas para auxiliar o tratamento da Sra. Norobod.
Dmitri Nabor sempre levava algum magnetizador para transmitir passes fluídicos.
Depois de várias reuniões, conseguiram finalmente condições para que a entidade envolta em sombras pudesse desabafar e, por sua vez, melhorar.
A melhora acontecia gradativamente, e muitas entidades que por ali passavam, eram encaminhados para a doutrinação, que somente os Espíritos superiores poderiam efectivar no plano invisível.
O campo magnético, a cada sessão, tomava-se mais favorável à cura da Sra. Norobod.
0 mago Nabor tinha um grande espírito de humildade e serviço, característica positiva em seu proveito, afastando de seu trabalho o mal que assolava o país, o Interesse material em coisas espirituais.
Acabou se sensibilizando com o sofrimento da velha senhora e começou por fazer o tratamento espiritual, desinteressadamente, movido pelo espírito cristão; o que viesse doravante, seria lucro, pensava ele consigo mesmo.
Determinada noite, reuniram-se, em casa de Kóstia, os moradores, Nabor e um médium psicofónico e magnetizador.
A sessão tinha como objectivo levar alívio à Sra. Norobod, cujos ataques obsessivos estavam culminando num estado muito angustiante contra Wladimir, cuja aproximação a deixava pior.
Nesta noite, através do médium, a entidade causadora de todo aquele clima horrível na casa, teve oportunidade de falar e desabafar seu sofrimento, deixando no ar uma sombra de tristeza e desolação; era Norobod que vinha do além-túmulo, confessar seus crimes estarrecedores e obter o perdão.
- Perdoa-me! - gritava o médium que, envolvido no sofrimento de Norobod, ia tecendo sua angústia e se contorcendo para espanto de todos.
Fiz tanto mal, prejudiquei tanto, que não encontro paz!
Quero que me perdoem! - a cena patética e, ao mesmo tempo angustiante, levou o médium até Mayra, postando-se à sua frente e suplicando-lhe perdão.
- Perdão? A mim?!
Se nada me fizeste! - disse a moça, sentindo-se mal com aquela presença, que causava em sua alma imensa tristeza.
Pede perdão a Jesus Cristo, não a mim, uma vez que nada me deves!
O médium, envolto totalmente no fluído do Espírito, pôs-se de joelhos, constrangendo Mayra, que o tocou para impedir daquele gesto e quis levantá-lo.
- Não, não me toques - disse a entidade Norobod.
Um anjo como tu, não deve me tocar, verme que sou!
Perdoa-me, criança, tem piedade de meus crimes e de todo mal que te causei!
Ante a insistência, ela aquiesceu, deixando-o falar.
- Está bem, perdoo-te, mesmo sabendo que nenhum mal me fizeste, pois não te conheço e não sei em que me prejudicaste! - explicou Mayra, consciente de que aquele Espírito estava enganado.
Kóstia assistia ao desenrolar da cena, torcendo para que Norobod revelasse tudo o que ele tinha em mente e não conseguia falar.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 23, 2016 7:49 pm

Era o acerto de contas e todos teriam que ouvir seu depoimento.
Aquele Espírito não poderia se retirar enquanto não confessasse o atentado contra a própria neta e sua responsabilidade pela morte da filha.
O ódio contra o Espírito fervia seu sangue e ele não conseguia impedir a avalanche de sentimentos inferiores que o dominava.
Maria Norobod, também, não compreendia o que se passava, desequilibrada como estava.
Começava a sentir grande alívio na alma e procurava uma explicação para a atitude de Norobod, consciente de que ele estava, realmente, presente naquela sessão.
O médium, sob a forte pressão que o Espírito exercia em sua mente, dominando todos os seus movimentos, explodiu em cólera súbita contra Wladimir Antón que, sentindo o terrível ódio, aproximou-se dele, inesperadamente:
- Sabes da verdade, por que não o dizes? - interrogou Wladimir, com força na voz.
- Porque não mereces! — explodiu o Espírito através do médium, quase avançando em Wladimir que, assustado, recuou esbarrando-se em Mayra, trémula como uma vara verde, devido à emoção da perigosa cena.
Ela mesma não sabia explicar o que sentia, se pavor ou tristeza.
Nicolau quis interferir, mas Nabor, seguro do que estava fazendo, impediu-o com a mão esquerda.
- Não o toques - pediu a Nicolau - ele está em transe - disse, referindo-se ao médium.
Voltando-se para Kóstia que, furioso, disposto a acertar contas com aquele Espírito perverso, também perdia o controle:
- Aguarda, camarada, ele não te causará nenhum mal, é um Espírito!
Mayra, recuperando-se do impasse, vencendo o medo, aproximou-se do médium e, destemidamente, falou com ternura ao Espírito.
Seu bondoso coração encheu-se de piedade e, condoída de seu sofrimento, falou:
- Seja qual for o mal que me causaste nesta vida, pois não me lembro de nada, ou em outras vidas, perdoo-te de toda minha alma.
Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo que nos perdoou, eu, que nada sou, perdoo-te também.
A fala da mocinha exerceu sobre o Espírito o efeito de um anestésico, a fúria foi aplacada e o médium se acalmou, instantaneamente.
Mais sereno, deixou que todos ouvissem o depoimento que o Espírito arrependido tinha a fazer:
- És um anjo, minha pequena!
Arrependo-me de todo o mal que te causei.
Mandei-te matar, ao nascer, impedindo-te de cumprir teu destino.
Tua mãe, que aqui se encontra, já me perdoou, porque deseja que nossos Espíritos se modifiquem e o mal seja erradicado de uma vez e o ódio que a tudo deprime seja afastado de nossas almas.
Eu, Piotr Norobod sou teu avô, precisava de teu perdão para cumprir a minha pena.
Não poderei seguir meu destino se não obtivesse o teu perdão, embora não consiga ainda perdoar a ele, pela desonra de minha família! - explicou o penitente, referindo-se a Kóstia que, de um lado, agradecia ao Espírito por ter explicado o que ele jamais teria coragem.
Seus pensamentos começaram a se modificar com as palavras de Norobod.
O ódio que sentia foi cedendo lugar à paz, sentimento este que há muito não sentia.
Desarmado, agora ele oferecia sintonia para que o Espírito de Sácha se aproximasse e o auxiliasse naquele momento sublime, em que suas almas poderiam alcançar a remissão de um pretérito repleto de desacertos e sofrimentos, no feliz ajuste de contas.
Mayra, perplexa, ainda sem concatenar as ideias, viu a seu lado o fantasma da colheita, cujo semblante irradiava luz, apaziguando o ambiente.
Ela vinha buscar o pai para conduzi-lo finalmente às zonas de purificação, desvinculando-o do envoltório grosseiro que o prendia à gleba terrestre, impedindo-o de evoluir, de alçar os paramos da conquista espiritual.
Quando o Espírito recobra sua Identidade, pode olhar em tomo, não com os olhos materiais, mas como Espírito imortal em nova dimensão, conquistar a grata oportunidade de se preparar para um grande aprendizado e depois, quem sabe, com o auxílio da Providência Divina, uma próxima encarnação.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 23, 2016 7:49 pm

Encarnação, cujo regresso às lides terrenas seria na vestimenta de um pobre mujique em tempos de guerra e de terríveis conflitos sociais, para sofrer na pele tudo o quanto outrora fizera os outros sofrerem.
A Sra. Norobod olhava o médium que havia dado passividade ao Espírito de seu marido, com grande pena.
O pobre homem estava pálido como cera, extenuado pelo esforço inaudito que fizera em se controlar sob o impacto das emoções que sentiu!
A velha senhora trazia as faces banhadas em lágrimas sinceras e, com ternura, olhava a neta, confirmando suas antigas suspeitas, as de que aquela adorável criatura, poderia ser a filha de sua querida Sácha.
Tal suspeita aumentava, dia a dia, e sentia-se feliz agora porque o destino punha em seus braços de avó aquele precioso tesouro, que a bondade de Jesus lhe permitia agasalhar em seu tecto, mesmo na forma de uma humilde criada.
Estes pensamentos de gratidão faziam imenso bem ao Espírito de Norobod, cujos ajustes dolorosos o esperavam na fieira de várias encarnações provacionais, até que resgatasse junto a todos a quem prejudicara como o líder de uma comunidade cujo regime feudal outorgara-lhe o poder transitório de vida e morte sobre seus servos; deveria ter sido menos rígido e amenizado seus sofrimentos.
Suas atitudes insanas, sua tirania, contribuíram para a infelicidade de tantas almas!
Seus crimes seriam, agora, Julgados no tribunal da Justiça Divina.
Todos foram convidados a orarem para que o Espírito se desligasse do médium.
Minutos depois, o médium, até então inconsciente, foi, aos poucos, voltando ao normal.
A reunião foi encerrada com passes magnéticos aplicados na Sra. Norobod.
Sácha, porém, continuava ali auxiliando naquela travessia, onde o perdão constituía o mais importante sentimento para o êxito daquela difícil empreitada.
Devia libertar a mãe da influência do Espírito de seu pai e levar o esclarecimento necessário, desfazendo o equívoco em dois corações jovens, sequiosos de união, liberando-os para decidirem o futuro.
Mayra e Nicolau estavam livres.
Mayra via o Espírito de sua mãe ao lado da mulher, olhando-a ternamente.
Aproximou-se da Sra. Norobod e estendeu-lhe a mãozinha, num gesto carinhoso, como se quisesse compensá-la de todo o sofrimento.
A avó segurou firmemente as mãos delicadas da neta, abraçou-a, sentindo que chegara ao fim de seu sofrimento.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

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65 - Estranha Revelação

Nicolau, que viu naquela comunicação a mais estranha revelação, esperava o final da cena.
Ele sentia-se feliz porque aquela moça cuja formosura sempre o atraíra, não pertencia à sua família consanguínea, não era sua irmã.
Não precisava se afastar dela e nem controlar seus sentimentos.
Ele a amava e a admirava.
A sessão encerrou-se para o alívio de todos que, por um momento, pensaram acabar em tragédia, dado a inconsciência do médium que estava ali, como humilde e desconhecido servidor, auxiliando-os, sem interesse algum, com o precioso dom que Deus lhe dera, o de servir aos Espíritos em nome da caridade.
Mayra e Nicolau, observando-o à luz clara, reconheceram naquele simpático médium, o ex-doutrinador da sessão de Madjeka que, a convite de Nabor, fazia parte de seu grupo de estudos experimentais.
Nicolau, Mayra e a Sra. Norobod agradeceram ao médium sua preciosa intervenção.
- Desde aquele dia, esta sessão deveria ter sido realizada, aguardando o momento aprazado... temos confiança que tudo agora irá se normalizar - explicava humilde, o médium.
Nada acontece sem a permissão do Pai Celestial que sabe, exactamente, a hora certa em que tudo deve acontecer.
Essa criatura dera-lhes enorme lição de desprendimento.
Graças à sua intervenção, foi evitado um longo caminho de sofrimentos para todos.
O médium foi convidado para voltar outras vezes.
Depois que as visitas se retiraram, os demais estavam ansiosos por se assentarem frente a frente e comentarem a grande revelação.
De todos, Mayra e Nicolau eram os mais ansiosos porque ainda não haviam entendido bem o que ali se passara há poucos minutos e que agora tomava uma proporção diferente, como se fosse um túnel aberto para uma nova vida.
A partir daquele momento tudo mudava entre eles.
Enfim sós. Como uma famula, podiam conversar livremente, todos Irmanados na mesma Indagação.
A Sra. Norobod foi a primeira a falar, parecia nunca ter adoecido, todas as suas complicações psicológicas haviam desaparecido.
Estava bem espiritualmente, apesar das dores nos ossos, que a mantinham deitada no confortável sofá de cetim.
Os passes e a comunicação do Espírito do marido fizeram-lhe o efeito de um suave anestésico que, penetrando em suas velas, a deixava calma.
Em sua idade, tinha muito pouco a perder!
Tudo que chegasse, agora, era motivo de felicidade, consciente de que aquele segredo revelado, no seu íntimo, não existia, Norobod apenas havia quitado uma dívida com o Espírito de Sácha e proporcionado à neta a felicidade de sua verdadeira condição social.
Orgulhosa, falou:
- Mayra, és minha neta.
Desde o primeiro momento em que te vi, meu coração bateu de forma diferente, mas nunca pude expressar meus verdadeiros sentimentos de avó, porque teu pai, reservado, nervoso, parecia temer nossa aproximação.
Receosa de que ele a pudesse levar para longe, durante todo o tempo, escondi de todos nossa ligação - disse, convincente, a Sra. Norobod, com o rosto banhado de felicidade.
Lágrimas espontâneas caíam sobre seu vestido de veludo, manchando-o.
- Sempre te vi como o retrato vivo de minha Sácha.
Meu coração nunca me enganou.
- Eu... ainda não sei o que dizer sobre tudo isto, estou abalada - balbuciou Mayra olhando para os três.
Seus olhos cristalinos pareciam mais claros e vivos.
Olhou o irmão com um brilho terno, como se lhe pedisse ajuda.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 23, 2016 7:50 pm

Sentia-se só e desolada entre seu pai verdadeiro pelo laço sanguíneo e sua avó materna.
Naquele momento, ele parecia ser sua única família naquele lugar estranho.
Sentia-se agora, uma pessoa à parte do grupo.
Não tinha parentesco com Nicolau, mas, adi, ele representava toda a família.
Todos estes pensamentos passavam pela sua linda cabecinha.
- Por que papai, não me disse a verdade? - perguntou Mayra, querendo que a ajudassem a entender o comportamento de Iulián Sumarokov.
- Foi por isto que ele não quis o nosso casamento, tal ideia o horrorizava...
Coitado de papacha, como deve ter sofrido, carregando tão grave segredo!
Mayra caiu num choro convulsivo, sentindo o mundo desabar sobre sua cabeça.
Era uma crise natural, provocada pela emoção da revelação.
Sentia-se muito confusa. Wladimir era seu pai pelos laços consanguíneos, e sentira, certa vez, a possibilidade de um matrimónio com ele.
Esta simples lembrança causava-lhe uma repulsa tão grande na alma, que nem sequer o olhava nos olhos.
Sua alma infantil pedia abrigo nos braços de Nicolau que, sem ser seu irmão, parecia, na verdade, ser a única pessoa, ali, capaz de compreendê-la.
Instintivamente, correu para ele, como se fosse uma criança medrosa e desamparada, procurando amparo.
- Nicolau, leva-me para casa, preciso ver papacha... - só pensava em voltar para sua humilde casa, estar com seu pai, com Catienka, desabafar com Kréstian.
Queria seu lar, sua verdadeira família, esquecer tudo aquilo.
Queria ouvir da boca de seu papacha que aquilo era uma grande mentira.
Kóstia, num canto, mal escondia sua emoção, fazendo-se de forte, entre o desejo de apertá-la nos braços e acalmá-la.
Nada podia fazer, receoso de que sua atitude pudesse agravar a situação.
Restava-lhe esperar, pacientemente, que a filha se acalmasse, na esperança de que acabariam se entendendo.
Ela era muito jovem.
Era natural que estivesse confusa.
Quem poderia imaginar que tudo aquilo estivesse a acontecer embaixo de seu tecto e da forma como o foi?
Pensava, grato à abençoada mão de Deus que tardava, mas não faltava, jamais abandonava seus pobres e pecadores filhos.
Nicolau, também emocionado, abriu os braços e acolheu-a carinhoso, penalizado de sua situação.
Era a primeira vez que se abraçavam daquela forma.
Trémula como uma avezinha ferida pelo destino, buscava abrigo em seus braços de irmão, de amigo, de companheiro.
Essa atitude a alegrou.
Nem tudo estava perdido.
O enlace fraternal demorou poucos minutos.
Mais calma... desenvencilhou-se suavemente, mas ele era sua tábua de salvação.
Ficou agarrada a seu braço, como se lhe pedisse: não me abandones.
Seu rosto ficou impregnado pelo suave perfume que exalava de sua cabeleira sedosa e Nicolau sentiu-se o mais venturoso de seus irmãos.
Kóstia interveio, conselheiro:
- Descansemos.
Estamos tensos e amanhã haveremos de raciocinar melhor sobre os acontecimentos desta noite - depois ajudou a Sra. Norobod a se levantar.
Mayra conduziu-a ao quarto e as duas se recolheram, deixando-os no salão.
- Pobre criança! - exclamou Kóstia para Nicolau, depois que se viram a sós.
Leva-as embora, Nicolau.
Teu pai precisa saber o que se passou, conversar com tua irmã e esclarecer o mal-entendido que sua mentira provocou.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 23, 2016 7:50 pm

66 - Final do longo martírio

Nicolau estava tão surpreso quanto Mayra e, naquele momento, pensava na atitude de seu pai.
Somente ele poderia explicar tudo, já que sua mãe estava morta.
- Desde a comunicação em casa de Madjeka, os Espíritos desejavam explicar o mal-entendido, mas nem sempre são ouvidos e aceitos.
Nós não entendemos o Espírito da mãe de Mayra quando se comunicou, afirmando que era sua mãe, e nós não a conhecíamos - Nicolau passou a explicar a confusão provocada pela comunicação e muitos começaram a duvidar das sessões da viúva Madjeka.
Depois, Kóstia passou a narrar seu desespero.
Mesmo correndo o risco de vida, quando voltou à cabana abandonada e não encontrou sua filhinha, ficando lá apenas o bilhete, que por descuido a pessoa não pegara, e ele, por sua vez, o largara ao abandono, por não ter mais nenhuma serventia.
Kóstia contou quando e como o encontrou.
Nicolau, que desconhecia a existência do bilhete, pediu para vê-lo.
O papel amarelado pelo tempo foi-lhe entregue, para sua surpresa.
Somente agora compreendia a fuga do pai, o medo e o ciúme louco que sentia, receando o casamento dos dois, avaliando a sua responsabilidade e a gravidade de sua mentira.
- Fica a grande lição, Sr. Wladlmlr, jamais se deve mentir, em hipótese alguma; como diz o velho ditado, a mentira trás confusão e sempre tem pernas curtas... ou quando a verdade chega, a mentira vai embora.
A Sra. Norobod também passou por maus momentos, vivendo com tal homem, causador de tanto Infortúnio.
Não sei como conseguiu manter-se viva!
Admiro a sua têmpera, própria das mulheres russas.
Felizmente, tudo passou e deixemos esta conversa deprimente - disse referindo-se a Norobod, de quem sentia verdadeira pena, decidido a esquecê-lo.
Os dois homens, felizes, se entendiam e continuaram a conversar noite a dentro e combinaram que Nicolau as levaria de volta à fazenda.
A senhora Norobod estava curada e não tinha mais necessidade de permanecer ali.
Alguém teria que enfrentar Sumarokov.
Nicolau ficou encarregado de explicar ao pai aquele impasse, causado por sua mentira.
Semanas depois, Kóstia Iria até eles, dando-lhes prazo suficiente para que se ajustassem e reflectissem melhor.
Sua filha, por direito, lhe pertencia e não abriria mão dela.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 24, 2016 10:52 pm

67 - A verdade

No caminho de volta, seguiam os três em confortável carruagem.
A Sra. Norobod atrás, deitada e, na frente, os dois jovens admiravam os detalhes da paisagem.
O horizonte plano e esmaecido da mãe Rússia anunciava a chegada do inverno.
Haviam combinado que nada diriam a ninguém.
No momento aprazado, Nicolau conversaria com o pai, missão que cumpriria com o maior prazer, pois estava muito curioso para ouvir suas explicações.
O moço levava consigo o bilhete de Wladimir, como prova cabal se não lhe revelasse o ocorrido.
A pequena comitiva foi recebida com grande Júbilo.
Todos se admiraram do aspecto da Sra. Norobod, que havia recuperado a saúde mental.
Nicolau parecia muito animado e Mayra, pensativa, olhava sua família, embora nada se tivesse alterado.
Sumarokov era o pai que conhecera, do mesmo modo que Catlenka era sua segunda mãe.
Nada mudava entre eles.
Os Norobod, para ela, continuavam sendo os ricos senhores a quem devia obediência e respeito.
A Sra. Norobod contara, entre lágrimas, ao filho, a feliz descoberta, Mayra era sua neta e sobrinha dele, com todos os direitos de sua nobre posição.
Sónia e Sácha sofreram um tremelique de raiva, mas se contiveram.
Nicolau, no entanto, já havia rodeado o pai diversas vezes, não conseguido coragem suficiente para enfrentá-lo, na dura missão de que fora incumbido.
Somente a alegria de saber que Mayra não era sua irmã legítima, o incentivava e lhe dava coragem; uma tarde, em que o pai estava assentado do lado de fora da isbá, fumando seu charuto, sentiu ser o clima propício para lhe contar o que todos já sabiam.
- Papacha, tenho uma coisa muito importante para te devolver - disse-lhe, com a intenção de lhe entregar o bilhete.
Sumarokov voltou-se surpreso para o filho, olhando o conhecido papel amarelado.
Sentiu uma alfinetada no coração.
Virou o rosto, empalidecendo.
- Que papel é este? - perguntou, disfarçando a curiosidade e a surpresa.
- O camarada Kóstia entregou-me, disse ele que te pertence.
- Nunca vi tal papel!... - resmungou, contrariado.
- Papacha, todos já sabemos que Mayra é a filha dele... - a voz de Nicolau era um sussurro, mas muito claro aos ouvidos de Sumarokov, que se levantou e olhou o horizonte.
Ninguém podia avaliar sua reacção.
Iulián Sumarokov tinha atitudes imprevisíveis, quando acuado. Catienka observava-os de longe.
Aflito, o forte mujique começou a andar, andar, andar, numa única direcção, passou uma cerca e outra e foi caminhando em linha recta até desaparecer.
Queria pensar, ficar só, não queria falar com ninguém.
Nicolau correu atrás.
Catienka chamou-o:
- Deixa-o, Nicolau, ele quer pensar. Ele volta.
- Eu vou atrás dele! - disse Mayra, decidida.
- Se tu fores, irei também! - era Catienka, ansiosa por ajudá-lo naquele momento que ela sabia ser o mais doloroso para seu Iulián.
- Teu pai está envergonhado... - disse para Mayra.
É melhor que eu fale com ele a sós; neste momento, Mayra, é de mim que ele precisa.
- Deixa-a ir atrás dele, Mayra. Fica! - rogou Nicolau.
A boa mulher desapareceu no meio do mato, atrás de seu homem.
Só regressaram uma hora depois.
Ele voltava de cabeça baixa, parecia carregar o mundo nas costas.
Não tinha coragem de enfrentar sua única filha e que agora julgava haver perdido.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 24, 2016 10:53 pm

Mayra, no entanto, veio a seu encontro, como se aquilo não tivesse importância.
- Papacha, meu papacha, nada vai mudar entre nós dois.
Tu serás sempre o meu papacha - disse abraçando-o carinhosamente e cobrindo de beijos o seu rosto.
Jamais terás substituto no meu coração.
Sumarokov parecia que havia perdido a voz, ninguém o ouvia.
Assim passou a tarde e a noite.
Os filhos respeitaram seu silêncio, sabendo que seu sofrimento era passageiro e depois ele lhes explicaria tudo.
Sumarokov tinha um grande coração e precisava de um tempo, um longo tempo para se refazer.
Em casa da Sra. Norobod a alegria era muito grande, apenas Sónia e Sácha não compartilhavam dessa felicidade.
A última, sempre preterida, enchia sua alma ignorante de ciúme, seus olhos verdes brilhavam de inveja e raiva de sua bela prima que, mesmo sem pertencer à família, já havia conquistado graças que ela não conhecia, e agora, pertencendo a ela por direito, como uma Norobod, todos cairiam a seus pés.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 24, 2016 10:53 pm

68 - Decidindo o futuro

Em casa dos Sumarokov, nada havia mudado, somente Nicolau, um tanto mais alegre, se preparava para voltar a São Petersburgo com o novo patrão.
Aguardava ansioso sua chegada, como haviam combinado, esperançoso de que Mayra voltaria com eles.
Sumarokov, amuado num canto, ainda não conseguira reunir forças para falar sobre o assunto.
Mayra e os filhos aguardavam, pacientemente, e ninguém ousava fazer qualquer comentário a respeito do assunto.
Chamavam a conhecida atitude do pai, a fase da hibernação.
Iullán Sumarokov parecia ter-se enfurnado numa montanha glacial, aguardando a chegada da primavera.
Semanas depois, Kóstia chegou em rica carruagem cheia de presentes para a filha e os demais, causando enorme alegria a todos.
Alex Norobod ainda não havia desistido de sua intenção de unir o amigo à filha que, em idade de se casar, não tinha muita disposição ao estudo, mas poderia se tomar uma boa esposa.
Mas Wladlmir, em poucas palavras, deu a entender que não estava disposto em ter na sua companhia mulher alguma, descartando a hipótese de um casamento.
Tudo o que queria era ter consigo sua filha e viver somente para ela.
Por outro lado, o mujique Sumarokov tinha que aceitar sua decisão.
Era o pai legítimo e estava disposto a lhe entregar vultosa soma, uma gleba para plantar e proporcionar-lhe, na velhice, a sonhada independência.
Chegara com o firme propósito de levar consigo a filha querida.
Por outro lado, precisava saber se a menina realmente gostaria de mudar sua vida.
- Sumarokov — chamou-o Kóstia - temos que decidir com quem irá ficar Mayra.
Com este fim deixei meus negócios e estou disposto a levá-la comigo, dando-lhe a oportunidade de crescer numa sociedade em que terá o melhor que lhe poderei ofertar: boas escolas, excelentes professores, passeios, teatros, viagens, tudo o que as moças abastadas desfrutam em São Petersburgo.
O pobre homem sofria a cada palavra de Kóstia, observando a pobreza em que viviam, e a pouca melhoria alcançada, graças à bondade da Sra. Norobod.
Teria ele o direito de impedir a felicidade de Mayra?
A bela filha mal tinha tempo para ler um livro, trabalhando nos serviços domésticos, quando não dava duro na limpeza do quarto da Sra. Norobod, lavando lençóis e roupas brancas, diariamente.
No entanto, a menina vivia feliz assim, nunca demonstrava que sua vida era difícil, pois tinha o seu carinho, da Catienka e dos irmãos.
As humilhações que Sácha lhe inflara, obrigando-a, escondido da Sra. Norobod, a limpar o chão de seu quarto, a lavar sua roupa suja, não chegavam a lhe tirar a alegria.
Por que levá-la para um lugar rico?
Será que sua filha iria ser feliz, longe deles, vivendo como as moças da cidade, despreocupadas, sempre em alegres passeios, mas parecendo tão vazias?
- Não sei o que pensar de tudo isto, camarada Kóstia -, finalmente disse humilde.
Mayra sempre teve o essencial para viver.
Acho que o mais importante é o amor e este nunca lhe faltou - lágrimas caíam por suas faces amareladas, escorrendo até o bigode que já tinha alguns fios de cabelos brancos.
Kóstia, também, estava emocionado, e não queria pressionar o bondoso pai, que acolhera sua filha no momento de maior precisão, e lhe dera o aconchego de um lar humilde, mas honrado.
Era-lhe tão grato, que seu coração também doía em separá-los.
A cena patética fez com que ele fizesse um convite audacioso:
- Sumarokov, tentando resolver nossa vida e o destino de Mayra, convido-te para vires para São Petersburgo com toda a família.
Sumarokov arregalou os olhos, espantado!
Ele, um pobre mujique, enfrentar a vida na cidade, estava totalmente fora de seus propósitos, nascera mujique e mujique pretendia morrer.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 24, 2016 10:53 pm

Assim foram seus pais e seus avós.
Aos filhos desejava uma vida melhor.
Se seus meninos quisessem ir, estavam livres, mas ele ficaria.
A conversa difícil era acompanhada pelos filhos de Iulián Sumarokov que esperavam a decisão do pai.
Ele precisava conversar separadamente com a mulher e com esta intenção, levantou-se indo até ela.
Catienka era ponderada, inteligente e bondosa, com certeza o ajudaria na difícil decisão.
Sua contrariedade foi desaparecendo aos poucos com os argumentos de Kóstia, que tinha urgência em planear a própria vida.
Às suas indagações, Catienka respondeu:
- O camarada Kóstia está nos ofertando uma grande chance, em que pesa o consentimento do Sr. Alex Norobod, mas se tu não queres ir, meu querido, não vás.
Deixa que teus filhos decidam.
São maduros e responsáveis, meu querido, não os impeças de melhorarem de vida.
Vê Nicolau, como em poucos dias se transformou?
Até Mayra, parece uma rica burguesa...
Kréstian e Pável estão marcando passo nesta pequena escola.
Na capital poderão desenvolver seus conhecimentos.
Não os impeças de crescerem!
Catienka falava como se estivesse inspirada.
Suas palavras o convenciam de forma suave e a cabeça dura do marido ia aos poucos se amolecendo, até que a sensatez e os argumentos da mulher o venceram.
- Está bem! Catienka, chama nossos meninos, façamos uma reunião e ouçamos cada um.
Depois falaremos com o camarada Kóstia, cujas intenções são sérias, e com o Sr. Alex decidirei depois.
É preciso mudar alguma coisa.
Dizem que a carruagem de ouro passa à nossa porta apenas uma vez.
Quem sabe ela esteja passando por aqui!
Feliz com o que havia conseguido, Catienka chamou os jovens e dirigiu-se ao visitante:
- Sr. Wladimir, Iulián quer conversar com os filhos em particular, ouvir-lhes a opinião e depois voltará a te falar com a resposta.
- Alcançamos uma graça, hoje! - dizia feliz para Kóstia, sabendo que a decisão a tomar seria a melhor para todos, porque junto deles estava Deus.
Estavam reunidos na pequena sala de sua isbá, em torno da mesa onde tomavam sua parca refeição, Iulián Sumarokov e os filhos, excepto Iulián, o primogénito, que estava vivendo com os tios.
O líder da família sentia-se mais calmo, com a oportunidade que os filhos tinham de saírem do atoleiro da dura vida de mujiques e seu grande coração se desprendia do apego que lhes tinha.
Mayra, a adorada filhinha a quem educara com tanto amor, já não lhe pertencia, os filhos logo se casariam e cada um tomaria seu rumo na vida.
Acabariam ele e a mulher sozinhos, então, que tudo começasse a mudar agora, porque a dor da separação era inevitável.
— Bem, meus filhos, eu os reuni para lhes comunicar a proposta feita pelo camarada Kóstia.
O rico amigo, que também foi um pobre mujique, nos convida para irmos morar com ele em São Petersburgo.
Ofereceu-me ainda uma gleba de terra para a minha independência e uma importância que me garantisse nos primeiros tempos, para entregar-lhe a minha filha.
Os irmãos entreolharam-se, assustados.
Iria o pai vender Mayra para o Sr. Wladimir?
Nicolau levantou o pescoço, parecia não ter entendido bem seu pai, mas antes que alguém dissesse alguma coisa, Sumarokov continuou.
- Nada disso farei.
Não pretendo mudar-me para S. Petersburgo, morrerei mujique, é o meu destino, mas a vocês, meus filhos, desejo o melhor.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 24, 2016 10:53 pm

Cada um decidirá o que quiser... - as lágrimas brilhavam nos olhos, mas firme, o pai continuou:
- O Sr. Wladimir é uma boa pessoa...
Admirados com a conduta do pai, sempre Imprevisível, Nicolau, que já estava se acostumando à cidade grande, incentivou os Irmãos a segui-lo.
Assim ficou decidido que iria Kréstian.
Pável continuaria cuidando da escola, pois seu coração estava preso a uma bela donzela das redondezas e não tinha intenção, por enquanto, de deixá-la e a seus alunos.
A amorosa filha nada disse, deixando que seu pai decidisse por ela.
Ele se aproximou, fez-lhe um carinho no rosto e falou ternamente, fazendo enorme esforço para não chorar:
- Mayra, gostaria que ficasses para sempre neste lar, que é teu, porém, minha filha, não quero impedir que vivas uma vida mais digna.
Sei que o camarada Kóstia poderá dar-te todos os bens e as alegrias que uma jovem como tu necessita, comigo terás apenas esta vida de sofrimento... - as palavras morreram-lhe na garganta e, não podendo mais se explicar, chorou abraçado a ela, que jamais havia pensado em deixá-lo.
- Não, papacha, eu nunca te deixarei.
Não penses que acompanharei o Sr. Wladimlr, meu lugar é junto a ti.
A Sra. Norobod precisa muito de alguém, ela já se acostumou comigo! - explicou, graciosamente e decidida.
- Como! Não vais com ele? - agora era o pai que se espantava com a notícia.
- Não, papacha, já decidi!...
- Mas, minha filha, irás perder esta chance, a carruagem de ouro a passar, acenando-te!? - exclamou sorridente, naquele largo sorriso que todos amavam.
- Ela voltará, papacha, um dia, tenho certeza, mas agora deixemo-la passar.
À noite, todos se reuniram para explicarem a Kóstia e a Alex, suas decisões.
A decisão de Mayra perturbou Wladimlr Antón, que nada pôde fazer, senão atendê-la e dar-lhe mais tempo.
- Gostaria, Mayra, que passasses algum tempo em minha casa, porque quero conhecer-te melhor, temos muito que conversar. - convidou inconformado.
- Nicolau e Kréstlan far-te-ão companhia, não ficarás tão só, como imaginas.
- Está bem, Sr. Wladimlr, quando a Sra. Norobod estiver melhor eu irei - não queria contrariá-lo e era natural que a oportunidade que ele lhe oferecia, no fundo a tentasse, mas não se sentia bem em deixar o pai e Catienka!
No dia seguinte partiram Kóstia, Nicolau e Kréstlan que, entre lágrimas, beijos e abraços, se despediram da pobre vida.
A casa ficou vazia e seus corações sentiam o sabor amargo da despedida.
Poderiam voltar, mas nunca mais seria como antes.
A cidade grande substituiria aquela Inocente vida campesina.
Sabiam que, doravante, tudo mudaria com eles.
Meses se passaram.
O estado de saúde da Sra. Norobod se agravou.
Ela sofreu uma queda, onde fracturou a bacia, e não mais se levantou do leito.
Mayra cuidava dela com o mesmo desvelo, surda aos rogos da avó, que mantinha criadas no quarto para o trabalho, dispensando-a do serviço.
Semanas depois da queda, os ossos fracos se quebravam, aumentando as dores, e a sofrida mulher faleceu nos braços da adorada neta, deixando-lhe considerável fortuna, fortuna particular que ela havia reservado caso um dia encontrasse a filhinha de sua desventurada filha.
Mayra, agora rica herdeira, era orientada pelo pai, que viera com os irmãos para as exéquias da viúva Norobod, incentivando-a a comprar uma chácara onde pretendia mudar-se com seu pai e Catienka.
Sácha mordia-se de Inveja da fortuna que a avó deixara a Mayra.
Embora contasse com afortuna de seu pai, muito ambiciosa, queria mais.
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