Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 12, 2016 8:41 pm

9 - Sónia

Certo dia, Iullán estava serrando madeiras para construir um novo galpão de armazenamento, quando uma mulher muito bonita aproximou-se e perguntou-lhe faceira:
- Como te chamas, mujique?
Iulián - respondeu, secamente.
Iullán aparentava mais Idade do que realmente tinha.
Era um homem simpático e atraente, possuía um físico bonito, alto, omoplata larga, farta cabeleira negra e pequenos olhos azuis.
- Quantos filhos tens, mujique?
Era a primeira vez que uma senhora da fazenda o abordava assim, desde que lá estava e respondeu-lhe educadamente, aliás, modos que o diferenciavam dos outros empregados.
- Tenho cinco, senhora...
Por que me perguntas?
- Soube que tua mulher morreu em consequência de um parto.
- Sim.
- E tua criança salvou-se?
- Sim, salvou-se.
Não se sentindo incentivado a falar em Anna e seu triste desfecho, tratou de desviar o assunto, voltando sua atenção para o serrote.
A mulher insistiu:
- Que idade tem tua criança?
Iullán ia responder, quando uma garotinha aproximou-se correndo:
- Mamienchka!
A mulher abraçou a menina e quando esta o viu, perguntou-lhe com um fio de voz:
- Mamienchka, este é o grandalhão que o vovô falou?
A menininha deveria ter menos que sete anos, do tamanho de seu Nicolau.
Iulián, que sempre se enternecia com crianças, olhou atentamente para a menina, examinando-a, depois entregou-lhe pequenos blocos de madeira preparados para o seu pequeno Nicolau brincar.
Desse dia em diante, a menininha passava por ali, escapulia da vigilância e ia procurar o grandalhão, seu novo amigo.
Depois, Iulián soube que ela era neta de Norobod e aquela mulher bonita, Sónia, sua nora.
Os dois ficaram amigos, ele cortava pequenos tocos de madeira e lhe dava para brincar.
O mujique suspeitava de que Mayra era filha da pobre mocinha que morrera subitamente e todos na fazenda evitavam comentar o facto.
Quem seria o pai de Mayra?
No entanto, Sónia não perdia oportunidade de se aproximar dele e sua presença o incomodava.
Sentia-se envolvido por sua beleza morena.
Às vezes, notava em seu olhar um lampejo diferente e ele começou a evitá-la.
Quando ela o olhava, ele desviava seus olhos, mas quando ela dava-lhe as costas, observava seu requebrado e até parecia que ela sentia seu olhar.
Procurava executar serviços que o distanciassem da casa, fugindo ao provocante assédio da bonita dama.
Sónia, por sua vez, notando a preferência da filhinha pelo empregado de seu sogro, arrumava as mais descabidas desculpas e serviços para tê-lo por perto.
A bela Sónia tinha um modo de andar provocante.
Quando ela passava, os mujiques levantavam os sobrolhos disfarçando, temendo a presença de Alex, o filho do patrão.
Ela agia assim, propositadamente, mas ninguém desconfiava de sua preferência por lulián.
Iulián, por sua vez, começava a se interessar por ela.
Ante tamanha insistência ele acabou cedendo aos seus encantos.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 12, 2016 8:41 pm

Vagarosamente, ela foi conquistando sua simpatia e despertando nele os instintos masculinos.
Apesar de seus princípios e da pureza de seus sentimentos, Iulián, quando se deu conta, estava perdidamente apaixonado por Sónia.
Começou a melhorar sua aparência.
Aparava a enorme barba e os cabelos, antes desalinhados, alisava o bigode e usava, mesmo para o trabalho, suas melhores polainas e calças de couro, e escovava diariamente seu gorro de pele de carneiro.
Os dois começaram um flerte, às escondidas.
Com maestria, ambos enamorados, conseguiam ocultar seu flerte aos olhares Indiscretos.
Sónia era renomada conquistadora, mas todos pareciam ignorar seu comportamento, temerosos da represália do filho do patrão e da maldade de Norobod.
Em surdina, porém, suas atitudes levianas eram silvo dos fofoqueiros da região.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 12, 2016 8:41 pm

10 - O Fantasma da Fazenda

A ceifa nos campos de centeio iria começar e era mister aumentar o número de empregados para o grande trabalho.
Na fazenda, foram admitidos mais nove homens.
O movimento de empregados sobrecarregava o serviço na cozinha e exigia a construção de novas Isbás.
Para espantarem o frio, os mujiques que moravam na fazenda reuniam-se à noite, após a faina, para cantarem e dançarem em volta de fogueiras.
Ao final de cada colheita, o patrão realizava uma festa.
Distribuía kvass e kasha à vontade, inclusive os empregados traziam seus samovares.
Todos se reuniam em grande roda, embriagavam-se e dançavam até o dia amanhecer.
As mulheres cantavam e algumas, mais ousadas, dançavam com as crianças.
Sónia, naquela noite de festa, estava mais bela que nunca.
Iulián, desde que sua Anna partira, nunca mais tivera contacto com mulher alguma, em respeito à sua memória.
Fora se acostumando à solidão, embora admirasse as mulheres.
Porém, sentia-se muito atraído pela bela Sónia.
Não era amor o que sentia, antes uma necessidade física, o calor de alguém, carinhos de uma bela mulher.
A fazenda de Norobod era alvo de muitos comentários pelos mujiques supersticiosos do lugar.
Comentava-se que o fantasma de uma mocinha, vestida com uma camisola branca e suja de sangue, cabelos soltos, rondava sua fazenda.
Muita gente vira o fantasma passeando pelos campos, pela casa e, principalmente, na festa da colheita.
Era fatal sua presença nesta festa.
Ninguém duvidava de que se tratava da desventurada filha do patrão que, segundo os comentários feitos na surdina, fora vítima do espancamento do pai.
Muitos falavam que a fazenda Norobodvisk era mal-assombrada, facto que assustava os empregados.
Com medo do fantasma, muitos abandonavam o trabalho, ferramentas e nunca mais voltavam.
lulián já havia tomado bastante kvass.
A bebida subira-lhe à cabeça e ele, agora, apostava com os companheiros quem conseguiria dançar até o final, firmando-se nas pernas.
A melhor dança era aquela em que, apoiando-se em um dos joelhos, estendendo uma perna para frente e, em seguida, apoiando-se no outro joelho, fazendo o mesmo movimento, de tal forma que, em se agachando, quase se sentava no chão.
O ritmo da música ia aumentando de acordo com a força e a agilidade com que os camponeses russos estiravam as pernas.
Todos dançavam freneticamente.
E em grande roda, apoiavam-se nos braços uns dos outros, cantando e estendendo as pernas na maior algazarra.
Os que conseguissem ficar em pé seriam os vencedores, dançando até à exaustão.
Outros tombavam ao chão.
Todos dançavam embriagados quando, no meio da roda, apareceu o fantasma da fazenda, mais pálido que nunca, os olhos encovados.
O cabelo louro, dourado como as espigas de trigo, brilhando ao sol, estava solto e descia até as ancas.
No rumo do ventre, descendo pelas pernas, o sangue vermelho manchava a camisola branca.
Todos o viram e os mujiques supersticiosos correram dali, sem saberem se estavam tendo a vidência de um Espírito ou se a cena seria apenas o efeito da bebida.
Só que, naquele momento, a música silenciara.
Ouviam-se murmúrios, alguns rezavam em voz alta, mas o efeito da aparição causou tanto pânico no povo, que os mais lúcidos, ou corajosos, ou muito embriagados permaneceram, enquanto os outros saíram esconjurando o fantasma da colheita e, amedrontados, deixavam a fazenda para sempre.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 12, 2016 8:41 pm

Norobod havia ingerido quantidade suficiente de álcool, mas a súbita aparição tornava-o lúcido e ele, mais que ninguém, conhecia aquele fantasma que rondava sua propriedade, assustando seus empregados.
Era sua filha, sua pobre menina que morrera ao dar à luz.
O velho Norobod começou a gritar desesperado, com a consciência cheia de remorso.
Os presentes não ousavam se aproximar.
Ele gritava, desesperado:
- Minha filha, matuchka...
Perdoa-me, perdoa-me!
Perdoa teu papacha 14, eu estava cego, eu não quis....
Iulián continuava observando a cena, desconfiado.
Seu generoso coração cortava de dor ao ver o maldoso Norobod entregar-se assim ao remorso e ao desespero, sem que ninguém ou nada pudesse aliviá-lo.
A esposa de Norobod aproximou-se.
Era a primeira vez que Iulián a via, fora da residência.
A Sra. Norobod quase não saía.
Observou seu rosto cansado e triste, talvez pelas safadezas e maus tratos do marido.
- Venha para dentro, marido, de nada lhe adiantará chorar o leite derramado.
Nada fará voltar nossa filha. Vamos!
O velho a seguiu como um cachorrinho, de cabeça baixa.
Parecia carregar o mundo nas costas.
Tudo estava em silêncio.
Alguém se aproximou, murmurando:
. - É... a maldade recai sobre quem a pratica e o julgamento de nossas acções é aqui mesmo que se recebe.
Estava escuro e Iulián percebeu Sónia, a seu lado.
O marido, embriagado, já estava dormindo.
- O que dizes, bela mulher?
A presença e o perfume da mulher envolveram-no, deixando-o totalmente preso a seus encantos e os dois aproveitaram a escuridão da noite, a ausência de mais pessoas, afastando-se dali sorrateiramente.
Era a primeira vez que se apresentava uma oportunidade de estarem a sós.
E toda a gama de paixão, contida em Iulián, despertou os instintos adormecidos e, ali mesmo, escondidos, entregaram-se a tal volúpia que nada mais viram.
Para a sorte de ambos, felizmente, ninguém os percebera e eles se entregaram à paixão, com total ardor.
Após os arroubos, extenuados, adormeceram e quando abriram os olhos viram, assustados, o vermelho dos primeiros raios de sol, anunciando que o dia começava a clarear.
Levantaram-se apressados e cada um foi para sua casa, como se nada houvesse acontecido.
Tomaram-se amantes, encontrando-se às escondidas, aproveitando todos os momentos possíveis.
A dificuldade para se encontrarem aumentava-lhes o prazer e a intensidade da paixão.
Sónia já se acostumara a este tipo de aventura.
Iulián possuía algo que a atraía, era seu coração puro, sem maldade, o jeito temo e doce.
Iulián, por sua vez, sentia apenas atracção física pela bela mulher e, como estava só, entregara-se à sedutora coquete e procurava satisfazer-lhe todos os caprichos.
Aquela situação, porém, não o fazia feliz, antes o amargurava e, por isso, ele se entregava à bebida.
Tentava subtrair- se aos seus abraços, mas era como se ela tivesse um imã que o aprisionava; quanto mais tentava não encontrá-la, mais ele queria seu corpo.
Aquele fogo avassalador dominava-lhe o corpo e a mente.
Dias depois do estranho episódio, estavam a sós, Iulián e Sónia.
Agora podiam conversar à vontade;
- Sónia, como é mesmo a história do fantasma que apareceu na noite da festa da colheita?
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 12, 2016 8:42 pm

- Triste história...
Causa-me arrepios só em me lembrar da pobre Sácha... tão jovem e tão infeliz!
Sónia passou a narrar para Iulián a história que sabia a respeito de sua cunhadinha, irmã de Alex, que se apaixonara perdidamente por um jovem mujique.
- Ambos passaram a se encontrar às escondidas e Sácha engravidou.
Não tinha coragem de revelar sua gravidez a ninguém.
Somente seu namorado conhecia sua situação e ele queria falar com Norobod, mas ela o impedia, tentando encontrar uma solução.
Conhecendo bem seu pai, não se animava a lhe contar o ocorrido.
Sua mãe desconfiava de algo, mas ela esquivava-se.
Quando sua gravidez tomou-se evidente, o pai ficou furioso.
Sácha preferiu a morte a revelar o nome do pai da criança, a quem ela amava e queria proteger.
Sabia que seu pai era capaz de matá-lo.
Norobod mandou espancar os mujiques suspeitos, mas ninguém abriu aboca.
Não conseguindo encontrar o culpado, voltou toda a sua fúria contra a filha.
Seu gesto insano apressou o parto.
Ignorando as súplicas da Sra. Norobod, espancou cruelmente a pobre moça.
A criança nasceu, desaparecendo na mesma noite sem deixar vestígios.
Dias depois a pobrezinha morreu, vítima dos maus tratos do pai.
Esta tragédia abalou profundamente a todos.
Alex, depois deste facto, tomou-se entediado, afastando-se da família.
Ele sentia por Sácha verdadeiro carinho.
Nem nossa filhinha, a quem ele colocou o nome da irmã, o consolou da imensa perda.
Não me mudei, porque Alex é um fraco, dependente do pai e me obriga a viver neste meio horrível.
Ele mesmo não tolera tal vida; quando não está na taberna se embebedando, está viajando.
- Norobod pareceu-me arrependido de seu gesto.
- É o remorso que fala mais alto.
Quando se embriaga passa a noite chorando como uma criança, mas continua tão maldoso como antes.
Ele é uma víbora, Iulián, já o vi praticar os actos mais horrendos e inimagináveis com sua família e seus empregados.
O único que parece não temê-lo é Sergei, que é tão perverso quanto ele.
Parece que a maldade os uniu.
- Todos vimos o fantasma da menina, naquela noite.
Ninguém faz alguma coisa para ajudar seu Espírito? — indagou Iullán, desejoso de fazer algo em prol daquela gente rica de dinheiro e tão pobre de felicidade.
- Fizeram exorcismo, mas nada adiantou.
É a vingança.
É por isso que ninguém, nenhum trabalhador supersticioso pára na fazenda, o que está arruinando a plantação e as criações.
Todos temem ver o fantasma.
As Isbás estão vazias, ninguém consegue morar aqui.
Nem as aves e nem o gado têm sossego neste lugar mal-assombrado.

14 Papai. (N. do autor espiritual).
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 13, 2016 10:15 pm

11 - Maria Alexandróvna Norobod

Enquanto Sónia conversava, Iulián cortava a lenha e as empilhava caprichosamente.
Notaram, então, a aproximação da mulher de Norobod.
Sónia rodou nas botas e entrou em casa, como se nada estivesse acontecendo.
As duas cruzaram-se, trocaram algumas palavras e Alexandróvna chegou mais perto do grandalhão, admirando-lhe a organização.
Seu serviço era perfeito.
Iulián observou de perto o semblante prematuramente envelhecido da Sra. Norobod.
Era de dar dó, sem um resquício de alegria.
Ela, também, parecia um fantasma, rondando a casa.
Só que era de carne e osso.
Simpatizava com ela, talvez porque soubesse um pouco de seu sofrimento e isto lhe causava pena.
O mujique abordou-a, carinhosamente, preocupado com o volume de serviços e a deserção dos empregados:
- Perdoa-me, Sra. Norobod, mas alguns dos últimos empregados contratados, nesta semana, se foram.
É preciso fazer algo, há muito serviço por terminar e os homens que ficaram são poucos - a voz suave de Iulián tocou o coração da mulher, que, pela primeira vez, conversava com o grandalhão.
Iulián, encorajado pela atenção recebida, continuou:
— Eu sei que os boatos do fantasma irão arruinar o trabalho, e eu me preocupo, porque é muito difícil encontrar-se um camponês que não receie a aparição dos mortos.
A Sra. Norobod pareceu despertar de seu mundo, ao ouvir as palavras do empregado.
Percebeu, emocionada, que o seu interesse era sincero e despertou-lhe o desejo de continuar a conversar com aquele mujique educado, honesto e trabalhador, coisa rara, naquele amontoado de empregados revoltados e Ignorantes.
- Tens razão, trabalhador, a noite da festa da colheita não deixou dúvidas, pois ela se apresentou para todos.
Norobod, após aquele episódio, entrou em profunda tristeza e foi acometido de febre nervosa, facto constante, desde o desaparecimento de nossa filha.
Debilitado, ele relega a fazenda ao abandono.
Infelizmente, Alex, meu filho, não tem a mesma têmpera do pai para gerenciar as terras.
Estou bastante velha para lutar, contamos com Sergei - desabafou a Sra. Norobod, como se tivesse encontrado nele um ombro amigo para se apoiar -, Sergei nos é fiel, porém, cruel no trato com os homens...
Iullán, desejando sinceramente auxiliá-la, estava ansioso por falar novamente no fantasma e aproveitou o facto dela ter tocado no assunto para saber mais detalhes sobre o nascimento de Mayra.
Indagou-lhe, baixando a voz, em tom confidencial:
- O fantasma que ronda a fazenda e anda a amedrontar os mujiques é o responsável pela perda da maioria dos empregados, já o percebeste, Sra. Norobod?
Iullán bem sabia que estava remoendo uma velha ferida, mas ele queria auxiliá-la e se ficasse receoso de tocar naquele assunto melindroso, não conseguiria ajudá-los e nem confirmar suas antigas suspeitas.
Sua sobrevivência também dependia daquele trabalho e daquela fazenda.
O vilarejo estava, a cada dia, se tornando mais pobre e a vida muito difícil para todos; pelo menos, naquela fazenda havia ainda um certo equilíbrio financeiro e condições de serviço por longo tempo.
Os mujiques que haviam deixado a servidão estavam em piores condições do que a dele.
Duas grossas lágrimas começaram brilhando nos olhos da pobre mulher, em seguida outras mais rolaram por sua face e ela, finalmente, deixou o pranto descer copiosamente, quebrando sua resistência.
Aquele mujique bondoso tangia as cordas cansadas de seu coração, sua humildade a acalmava e a comovia.
Entre lágrimas, perguntou:
- Como te chamas, grandalhão?
- Meu nome é Iulián Nikolai Sumarokov.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 13, 2016 10:15 pm

- Iulián, este fantasma que aparece à noite, é minha filhinha que morreu há quase quatro anos...
Ela me visita sempre.
Meu marido também a vê, mas prefere nada comentar e sofre muito.
Temo que ele possa enlouquecer.
Entrega-se à bebida para aplacar o remorso que existe em seu coração!
- Se tal situação continuar, logo a fazenda estará vazia, Sra. Norobod.
As coisas, aqui, na propriedade, só tendem a piorar, é preciso fazer algo para ajudar este Espírito, não achas?
Animada por ter alguém com quem conversar, explicou:
- O pope da aldeia já celebrou diversas missas, sem resultado concreto.
A verdade é que suas rezas parecem aumentar as aparições, ao invés de acalmar o Espírito da minha pobre Sácha...
Era a primeira vez que Iulián a ouvia pronunciar o nome da infeliz mocinha.
Repetiu seu nome quase inconscientemente:
- Sácha... Sácha...
- Sim, chama-se Sácha, minha pobre bátiuchka, tão bela e amorosa; ela era o meu tesouro.
O choro voltou com mais força.
Iulián tentou consolá-la e colocou sua mão grossa e forte sobre o ombro da senhora.
Aquele gesto amigo de alguém que compreendia a sua dor, fez-lhe muito bem.
Ela se aconchegou mais a ele, envolvendo-se no chale preto, sentindo-se mais tranquila.
Sergei, cruel e ciumento, os espreitava sorrateiramente.
O capataz não via com bons olhos o relacionamento de Iulián com a patroa e começou a observá-lo com mais atenção, pressentindo ter encontrado um forte obstáculo a seus interesses escusos.
E deste dia em diante, Iulián passou a viver sob as graças da Sra. Norobod, mas, igualmente, havia conquistado, sem o saber, um ferrenho inimigo.
Sergei procurava afastá-lo da casa, levando-o para as plantações distantes, porém, a Sra. Norobod o requisitava para pequenos serviços em casa, mantendo-o o mais próximo possível do solar.
Naquela tarde o marido se encontrava lúcido, apesar de muito abatido, e a esposa aproveitou o ensejo para conversar com ele:
- Piotr, por que não trazemos Iulián, que é um bom empregado para habitar a isbá próxima que se encontra há tanto tempo desabitada?
Não seria o ideal para economizar seu tempo com caminhadas tão longas?
Assim ele poderia cuidar pela manhã do gado e das outras criações. Que me dizes?
O velho Norobod coçou a barba grisalha e longa, seus olhos pequenos tinham um lampejo interesseiro e intenso quando algo o agradava.
O argumento da mulher era prudente e vinha a calhar com seus planos em colocar mais alguém por perto para auxiliar nos serviços gerais.
Ele simpatizava com Iulián, um empregado modesto e educado, além de forte e disposto.
A ideia o agradou de pronto.
- Estás com a razão, Alexandróvna, hoje mesmo tomarei as providências.
Satisfeita com a resposta, Alexandróvna Norobodviskaia aproximou-se do marido e, pela primeira vez, após a morte de Sácha, ele a viu sorrir e demonstrar um pouco de alegria.
O destino cuidava de aproximar corações e uni-los pela força incoercível dos laços consanguíneos.
Norobod era o dono absoluto de suas terras e Sergei, seu braço direito, com quem discutia todos os problemas da propriedade.
Sergei fazia o papel do filho dilecto, porque Alex era um peso morto, um gravatinha que gostava da boa vida, deliciando-se com viagens e festas.
Não valorizava nem mesmo os bens que um dia herdaria e não hesitava em dilapidá-los.
Alex, seu filho, constituía um enfeite da fazenda, servia apenas para declamar poesias, tocar bandolim e dançar.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 13, 2016 10:16 pm

Sua presença pouco alterava a situação da fazenda, porque Sergei, o fiel capataz, supria a sua ausência.
Quando Sergei foi informado da decisão do patrão em trazer Iulián para a isbá próxima à casa, o ciúme e a raiva tomaram conta de seu coração e turvaram-lhe a mente:
- É desnecessário mais uma família perto da casa.
Segundo as informações, Norobod, Iulián ficou viúvo e vive sem mulher; além desse problema, tem cinco filhos pequenos para cuidar.
Isto vai aumentar as despesas com o mujique, cheio de encargos.
- Que idade têm os filhos do grandalhão?'
- Não os conheço, mas são todos pequenos, nenhum deles serve para auxiliar na lida.
Teremos que tratar de cinco bocas e não desfrutar de seu trabalho.
- Quem cuida de seus filhos, na sua ausência? - interessou-se Norobod, disposto a trazer aquele mujique para dentro de sua propriedade.
Maria Alexandróvna, sempre arredia e triste, mal conversava com ele, e ela se interessava por Iulián.
Desejava agradar sua mulher e não abriria mão do empregado, mesmo contrariando seu capataz.
- Dizem que tem uma empregada desde o tempo da finada.
É ela que cuida da lida da casa e de seus filhos, na sua ausência.
- Menos mal. Trata de trazer Iulián ainda hoje, para combinarmos a sua transferência para a isbá, perto do cercado.
Sergei, em vão tentou ainda dissuadi-lo, mostrando- lhe as desvantagens, mas seus argumentos foram inúteis.
Norobod, quando queria uma coisa, era cabeça dura e ninguém o mudava de ideia.
Ele queria Iulián naquela isbá e pronto!
O capataz engoliu em seco, cerrou os lábios, sua expressão tomou-se ainda mais dura.
Nervosamente, saiu à procura de Iulián que, naquele dia, estava metido nas plantações de centeio, bem longe da casa.
O tropel do cavalo, naquele horário, assustou os mujiques que trabalhavam.
Olharam assustados na direcção do cavalo de Sergei que gritou:
- Iulián, vem!
Norobod deseja falar-te.
- Comigo?
- Não existe outro Iulián por aqui, existe? - respondeu ironicamente.
É a ti mesmo que ele chama, grandalhão!
- Está bem!
- Não te demores, homem, é para hoje!
Sergei deu uma volta, examinando o trabalho dos mujiques, depois de chamar a atenção de alguns deles, porque ele estava muito contrariado.
O pedido de Norobod o cobria de despeito, receava que alguém pudesse tomar o seu lugar, a sua confiança junto ao patrão.
Ele descontava sua contrariedade maltratando os pobres empregados, exigindo deles mais trabalho.
Os camponeses sentiram-se aliviados quando escutaram o tropel do cavalo e os gritos de Sergei, à distância.
Reuniram-se em volta de Iulián para lhe perguntarem o que ele havia feito, para ser chamado à casa, inesperadamente.
- Sosseguem, amigos, minha consciência está tranquila.
- Não será porque estavas conversando ainda outro dia com a... do patrão - disse maliciosamente um camponês que havia prestado atenção nos olhares de Sónia sobre o companheiro.
Iulián fechou o rosto e alertou:
- Cuidado, Broskov, não sabes o que dizes, esta gente não é de brincadeira e todos nós sabemos quem é a mulher do patrão!
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 13, 2016 10:16 pm

- Que ela é uma tentação, é, e o seu marido, um frouxão, todos na aldeia o sabem - brincou Broskov.
Os camponeses começaram a tecer comentários desairosos a respeito da nora de Norobod, e Iulián, que já sentia por ela grande inclinação, sofreu grande decepção.
Ficou enciumado, apesar de não amá-la.
Eles se encontravam às escondidas, desde a festa da colheita.
Afinal de contas, ele era um homem sozinho, precisava de alguém, sua vida estava ficando a cada dia mais complicada.
Uma ponta de remorso começou a martelar-lhe o cérebro, a respeito de Norobod, seu filho e sua moral.
Ele era um homem de princípios.
Sónia, uma mulher bonita e provocante.
Na verdade, ele temia um confronto com eles, porque ele tinha uma certa culpa.
Havia cedido a seus encantos, mas estava disposto a negar tudo e afastar-se dela para sempre.
A sua decisão firme acalmava sua mente.
Saiu da plantação decidido a ter uma conversa séria e definitiva com Sónia, ou ausentar-se daquele povo.
Iulián não era homem para sustentar uma situação clandestina, mais cedo ou mais tarde, passada a euforia, safando-se dos encantos da mulher, abandonaria aquele relacionamento, porque seus princípios falavam mais alto.
Sentia-se culpado, sim por ser homem, um homem solitário, que necessitava de uma mulher, mas não era Sónia, o tipo de mulher que ele precisava.
Explicaria tudo ao patrão, se fosse preciso.
Pensando assim, dirigiu-se à fazenda, ao encontro de Norobod.
Enquanto caminhava pelos campos de centeio, detinha-se a observar as espigas douradas que lhe recordavam a cabeça de sua pequenina Mayra.
A lembrança de seu rostinho veio alegrá-lo e, olhando a rica plantação, fez uma comparação com a simplicidade de sua vida.
Pensou alto:
- Pobre pequenina, de que família horrível o destino te livrou; a tua riqueza é a tua pobreza!
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

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12 - Piotr Alex Norobod

Norobod aguardava Iulián, assentado numa velha poltrona em seu gabinete, onde tratava dos Interesses de sua propriedade.
Fumava charuto e parecia bem-humorado, mas seus olhos vermelhos apresentavam grandes bolsas, tanto nas pálpebras superiores quanto nas inferiores, denunciando os excessos com a bebida e a febre nervosa que o acometia constantemente.
Os olhos tinham uma cor indefinida, ora pareciam azuis cinzentos, ora mais escuros, dependendo da quantidade de vodka ingerida.
Naquela tarde, o tom de seus olhos era cinza azul.
Sua fisionomia expressava, ao mesmo tempo, temor e profundo ódio; às vezes, parecia uma criança assustada, na verdade, Norobod vivia com os nervos à flor da pele.
Era preciso encontrar a hora certa para abordá-lo, senão o desastre de qualquer empreitada seria fatal.
Seu humor alterara-se acentuadamente após a morte de sua filhinha Sácha.
Iulián entrou no gabinete, lentamente, esperando o pior.
Não sabia das intenções de seu patrão, mas estava tranquilo porque quanto ao trabalho não havia o que reclamar dele, quanto à sua nora, ele se justificaria.
- Sumarokov, onde moras?
- Moro, súdar15, a dez verstas daqui.
- Quanto tempo levas para o percurso?
- Normalmente, caminho pela madrugada e chego antes do despontar da aurora, Senhor.
Creio que duas horas, ou menos, talvez....
- Perdes tempo, homem, com a caminhada.
- Já me acostumei... - Sumarokov estava estranhando a conversa, pois aguardava uma repreensão e encontrava um patrão amistoso e interessado.
- Sumarokov, informaram-me que és viúvo e tens cinco filhos.
Gostaria de ajudar-te, és um bom servidor e interesso-me que continues trabalhando para mim.
Ofereço-te a isbá perto do cercado.
Faz os devidos reparos no telhado, na estufa e ela te será excelente moradia...
Iulián estava de certa forma assustado com aquela ordem inesperada e, logo, seu pensamento fixou-se em Mayra.
Não, não, ele não podia aceitar, a cada dia ela mais se parecia com sua prima, embora a cor de cabelos diferenciasse, os avós poderiam descobrir o parentesco. O que fazer?
- Agradeço-te, senhor Norobod, mas não te preocupes em me colocar naquela isbá, porque o trajecto não é tão longo assim e meus filhos já se acostumaram com a minha ausência.
Além do mais, tenho uma boa empregada, que gosta de meus filhos e cuida deles como se fosse sua mãe.
Norobod endereçou-lhe um olhar malicioso.
- Tens uma mulher em casa, ora, Sumarokov, ela poderá acompanhar-te.
- Não é Catienka que me impede, senhor, entende... é lá que eu tenho as melhores recordações de minha Annochka e, por nada no mundo, deixaria minha isbá onde fui tão feliz e ainda o sou com meus meninos.
Norobod, naquele instante, pensou em sua filha falecida e compreendeu o argumento do empregado.
Sua mulher conservava o quarto de Sácha intacto desde a sua trágica morte e ele quase sempre ia até lá, amargar-se com seus remorsos.
Depois, embriagava-se e ficava horas ali, olhando suas roupas, suas bonecas de pano e as fitas que lhes enfeitavam as tranças.
Sua Sácha era tão bondosa e bonita!
Como tivera coragem de espancá-la!
À lembrança deste facto, a febre nervosa voltava e ele tremia e ardia, ficando vermelho e estranho.
Vendo-o trémulo e vermelho, Sumarokov perguntou-lhe:
- O que tens, senhor, queres que eu chame a Sra. Norobodviski?
- Sim, chama-a.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 13, 2016 10:16 pm

Iulián correu até a cozinha.
—Sra. Norobod, teu marido não está bem, vem!
Sónia já o vira e, logo, veio a saber o que havia acontecido.
Ambas as mulheres entraram no gabinete, levando-lhe uma bebida quente para acalmá-lo.
Aquele facto acontecia frequentemente e não havia remédio que o melhorasse.
Sónia chamava aquele estado, com certa ironia, de acessos de maldade.
Olhou Iulián brejeiramente e este desviou o olhar, como se não a conhecesse.
Havia decidido que não mais teria nenhum tipo de relacionamento com ela.
Daquele dia em diante, Sónia seria, para ele, a nora do seu patrão.
Quando Sónia soube que seu sogro queria Iulián morando na isbá perto do cercado, ficou exultante, pensando que nas noites mais frias poderiam passar algumas noites juntos.
Ficou toda assanhada.
Sua alegria durou pouco, pois Iulián não queria mudar-se para a fazenda.
À chegada da mulher, Norobod acalmou-se, parou de tremer e a febre cedeu depois de tomar o líquido quente.
Iulián esperava a conversa terminar para sair.
- Sumarokov, a isbá vai ficar desocupada, aguardando tua decisão.
Peço-te que penses um pouco mais, porque desejo que trabalhes na ordenha e cuides das minhas criações.
Preciso que estejas aqui na fazenda, mais cedo, é por esse motivo gostaria que te mudasses o quanto antes.
Iulián permanecia em pé e calado.
Norobod continuou:
- Entendo a saudade que sentes de tua mulher, eu também tenho saudades da minha Sácha.
- De que mesmo ela morreu? - aventurou, interessado, Iulián.
Norobod olhou a esposa que acompanhava o diálogo e, muito desconcertado, nada respondeu.
- Alexandrovna, explica a Sumarokov.
- A nossa menina teve hemorragia...
- Entendo...
Aquele assunto era demasiadamente doloroso e Iulián Sumarokov quebrou a empatia:
- Agradeço, Sr. Norobod, a tua oferenda, mas por enquanto não me é conveniente mudar de casa, porém, prometo pensar melhor no assunto.
Volto ao trabalho e, amanhã, tomaremos a conversar, falarei com meus pequenos.
- Está bem, Sumarokov, pensa nas vantagens, na distância e em tua família.
Espero-te amanhã, neste mesmo horário.
Alexandrovna preparou alguns pães para Iulián levar para seus filhos, ele agradeceu e saiu apressadamente, antes que Sónia o procurasse.
Os senhores comentavam:
- É muito difícil encontrar um empregado tão gentil como este, ele não quis morar na isbá, Norobod?
- São as lembranças de sua morta que o impedem de vir, ilusões que vamos criando, como as nossas, mulher.
Os mortos vivem em sua mansão e quando voltam servem apenas para nos iludir, porque nunca mais voltam, na realidade.
Ele acabará se definindo.
Amanhã mesmo o tirarei dos campos de centeio e o colocarei para reparar o telhado de sua nova morada.
Ah! Ele acabará não resistindo à comodidade.
Toda aquela deferência a um empregado aumentava o ciúme de Sergei.
Iulián, sem o saber, ganhava um perigoso inimigo.
Havia dois sérios inconvenientes que impediam Iulián de se mudar para a isbá do cercado:
Mayra e Sónia; a segunda não lhe daria mais sossego, e a primeira era o temor de descobrirem que ela era a neta que fora abandonada por Norobodvisk.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 13, 2016 10:16 pm

Muitos mistérios rondavam a fazenda Norobod com a aparição do fantasma de Sácha, e circulavam comentários absurdos.
Falavam que o mujique causador da desdita da filha de Norobod havia também desaparecido após a morte da mocinha e ninguém soubera de seu paradeiro, e outros diziam que fora queimado vivo.
Muitos mujiques haviam visto Sácha conversando com ele, mas jamais mencionavam-lhe o nome e faziam questão de esquecer aquele assunto, temendo a revanche de Norobod, que alimentava pelo rapaz desconhecido ódio mortal por ele ter conspurcado sua honra.
Norobod, em sua cabeça, tentava transferir sua culpa ao pai de sua pobre neta.
Iulián trabalhou o dia inteiro pensativo, ansioso para chegar em casa e conversar com os filhos, esquecer aquelas criaturas e, dentro da simplicidade de seu ambiente, encontrar a alegria e o carinho de seus meninos.

15 Senhor. Termo arcaico. O vocábulo actual que corresponde a senhor é gospodin. (N. da E.)
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 13, 2016 10:17 pm

13 - Uma Proposta a Pensar

Catienka e Sumarokov revezavam-se, assim, quando um chegava, o outro saía.
Às vezes, Sumarokov se atrasava, mas ela morava perto de sua casa e as coisas iam se ajeitando como podiam.
Sumarokov entrou em casa e Catienka sentiu que ele estava preocupado, porque não brincara com seus filhos.
Os dois se respeitavam e, lutando lado a lado, tornaram-se grandes amigos.
Ela se afeiçoara às crianças, como se pertencesse à família.
- O que se passa, Sr. Sumarokov, aconteceu algum problema no trabalho?
- Não, Catienka, apenas fui convidado para morar na fazenda Norobodvisk e estou indeciso...
A pequena Mayra vendo o pai chegar, pulou em seus braços, beijando-o:
- Papacha, papacha...
- Mayra, matuchka!
Era esta linda e meiga criança que o fazia sofrer.
Se não fosse o parentesco e o medo, ele não hesitaria em mudar-se imediatamente para a fazenda, porque ele e seus filhos estariam garantidos.
- O que o impede de ir, Sr. Sumarokov?
Não é esse o sonho de todo mujique, que ainda não tem casa própria?
- Sim, Catienka, mas antes de tomar uma decisão, devo conversar com meus filhos.
Não posso deixar meus filhos sós, mesmo estando mais perto de mim...
- Por que dizes isto?
Acaso não queres que eu vá? – o tom da voz de Catienka era humilde e sincero, e tamanha fidelidade alegrou o coração de Sumarokov.
- Não, minha boa Catienka, trataremos deste assunto, mais tarde.
Já que me pareces decidida a ir, prometo-te pensar de modo diferente, antes de tomar minha decisão.
Agora, vai, está muito tarde.
Apressadamente, a moça saiu, deixando sobre a fornalha o caldo quente e o samovar... as noites geladas começavam e o vento assobiava lá fora.
Os filhos estavam distraídos, brincando com sua diversão preferida, um jogo de bolinhas que os mantinha quietos, até a próxima discussão.
Kréstian e Mayra brincavam com os bloquinhos de madeira que o pai lhes havia preparado; ainda eram pequenos para acompanhar as brincadeiras dos Irmãos.
Sumarokov colocava nas tigelas o caldo quente, uma mistura de ervas, carne de carneiro e uma pasta mole com que embebiam os pães de centeio.
Colocou na mesa as tigelas e os pães que ganhara da Sra. Norobodviskaya e chamou os filhos:
- Venham, meus garotos!
Era bonito vê-los assentados, cada um em seu lugar.
Sumarokov olhou-os amorosamente e disse-lhes:
- Vamos orar a Deus, porque temos que decidir algo muito sério... - Iulián era um homem religioso, mas não gostava de participar das missas na aldeia.
Procurava, em casa, manter a mesma tradição de sua Anna, orar junto com os filhos, antes das refeições.
O homem fez como sempre, uma oração curta, mas tão sincera e grande quanto o seu coração:
- Meu Deus, protegei nossa casa e abençoai nossa alimentação.
Os meninos, acostumados com as poucas palavras do pai, responderam em coro:
- Assim seja!
Começaram a tomar o caldo fumegante.
Iullán estava se tomando um rapazinho; dos filhos de Arma, era o mais responsável e como crescera!
- Papacha, estou curioso.
Por tua cara, sinto que é grave o que irá nos participar, porque já não nos dizes de uma vez o que se passa contigo?
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 13, 2016 10:17 pm

No fim da refeição, Sumarokov começou a conversar com eles sobre o que haviam feito durante o dia.
Finalmente, após guardarem as tigelas, assentaram-se perto da estufa para se aquecerem e o pai começou a lhes explicar detalhes da vida dos mujiques da aldeia, orientando-os para a lida futura.
- Um mujique não tem muitos direitos, nem seus filhos...
Eu não quero que cresçam como eu, sem instrução.
Quero que aprendam o que os filhos dos patrões sabem e que possuam um pedaço de terra.
Este era o desejo de tua mãe - fazia muito tempo que Iulián não falava na morta.
Nicolau perguntou ao pai:
- Quando a mamãe vai acordar?
Eu quero vê-la!
Iulián e Pável responderam quase juntos:
- Ela não vai acordar mais, já te dissemos!
Iulián colocou Nicolau perto de si e explicou-lhe sobre a morte e seus efeitos, do modo que ele os entendia, em palavras simples e claras.
Arrematou sua breve explicação sobre a eterna separação, porque Kréstian e Mayra ainda não tinham idade para compreender, e a mãe que conheciam era Catienka.
Ouviam referências sobre Anna, como alguém desconhecido.
De todos, os que mais sofriam com a ausência da mãe eram Nicolau e Pável, que nunca a esqueciam.
Iulián Sumarokov, intimamente, agradecia àquela gentil empregada que tão bem cuidava de seus filhos e, sem a qual, ele não conseguiria ter paz suficiente para enfrentar o trabalho nas fazendas.
Era grato a tanta dedicação.
- Por que papacha, Catienka não fica morando connosco? - interrogou Nicolau.
Sua pergunta tomou Iulián de surpresa.
- Ora. ela tem que cuidar de sua mãe, Catienka tem sua família, tem namorado!...
- Catienka não tem namorado - respondeu, veemente, Iulián, o primogénito.
- Pai, o senhor ainda não falou sobre o que está acontecendo - Interpelou Pável.
- Sim, Pável, tens razão, ouçam-me.
Fomos convidados para morar na fazenda Norobod.
Tenho que lhe dar a resposta, e necessito tomar a decisão certa...
- É longe, papacha? - perguntou Nicolau, interessado.
- Sim, Nicolau, é um pouco longe daqui.
- Por que não vamos, papacha, já que nossa mamíenchka não quer acordar - disse Nicolau.
Era uma espécie de brincadeira que haviam inventado para justificarem a súbita morte da mãe que os deixou muito impressionados.
Alimentavam um resquício de esperança, quando ainda pensavam que num dado momento ela poderia acordar e voltar.
Mas o tempo passou e, aos poucos, foi apagando o passado.
Iulián compreendeu a conversa do filho; ele queria dizer que a casa sem a mamãe tanto fazia, aqui ou longe, já que ela não acordava mais...
Suas palavras o comoveram.
Nicolau, de todos, era o que mais demonstrava inteligência e desembaraço, tinha uma incrível presença de espírito; apesar de calado, era arguto observador.
- Talvez, lá possam estudar como os meninos de sua idade, e encontrarem futuro melhor, mas a mim cabe tomar a decisão.
- Catienka está de acordo, papacha? - indagou Iulián que auxiliava a empregada na pequena criação de ovelhas e de alguns cachorros, que mantinham no fundo do quintal, na tentativa de aumentar a renda familiar.
- Já conversei com ela, ao sair...
Bem, ela não se opôs, parece-me disposta a continuar na lida.
- Mas, e como fará para voltar, à tarde, para sua casa? - o filho mais velho de Sumarokov já acompanhara o pai e conhecia a longa distância que seu pai percorria todos os dias até chegar ao trabalho, que era impossível para Catienka.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 13, 2016 10:17 pm

- Ela teria que se mudar, Iulián... - respondeu-lhe Sumarokov estudando todas as possibilidades.
Havia pensado muito em todos, tinha que dar uma resposta definitiva para Norobod.
- Temo, porém, que não dê certo.
Catienka cuida de sua mãe.
Como poderia deixá-la?
Nicolau e Pável começaram a se beliscar por baixo da mesa, e Iulián chamou-lhes a atenção; queria tranquilidade para pensar naquela situação.
- Pronto, pronto, todos já para a cama! - ordenou, batendo palmas.
Seus filhos eram obedientes e logo se deitaram.
A casa ficou em silêncio.
Depois que os filhos se acomodaram, Iulián saiu da isbá e olhou o céu, era noite de lua cheia.
Calmamente, enrolou um cigarro, acendeu-o com dificuldade e começou a fumar, porém, o vento queimava-o rapidamente.
Entrou para fumar mais sossegado.
Sua casa tinha certo conforto, graças às adaptações que ele fizera, aos poucos, e seu dinheiro mal dava para pagar o aluguer.
Moravam ali devido a uma concessão generosa com que o antigo patrão o agraciara, por serviços prestados.
Era rico, não precisava daquela casa e deixara-o continuar morando por um aluguer irrisório.
Sua casa ficava próxima à aldeia.
Receava qualquer dia ficar novamente sem casa e sem segurança, embora jamais lhe faltasse trabalho.
Quando o inverno chegava, Sumarokov fazia outros serviços com madeira, habilidades raras que lhe garantiam uma certa independência, porque jamais se submetera a viver num condado e receber víveres e moradia em troca de salário.
A vida difícil que enfrentava induzia-o a aceitar o convite de Norobod.
Tudo ser-lhe-ia mais fácil e, mesmo assim, queria pensar direito.
Agora, sem a sua Annochka, ele tinha que pensar duas vezes e muito bem antes de se decidir, era o futuro de seus filhos!
Como a esposa lhe fazia falta.
Iulián Sumarokov entrou na isbá e foi também se deitar.
Olhou seus meninos que já dormiam.
Os dois mais velhos numa cama, Nicolau e Kréstian em outra e Mayra dormia em sua caminha, ao lado.
Assim, eles ficavam mais aquecidos.
Desde a morte de Anna, ele demorava a pegar no sono, e algumas vezes acordava no meio da noite, suado, como se tivesse tido um pesadelo.
Somente se acalmava com as orações.
Naquela noite, principalmente, ele estava sem sono, apesar de cansado.
Seus olhos procuravam sua querida esposa, queria visualizar seu rosto pelo menos em pensamento, mas conseguia ver apenas pequenas frestas iluminadas pela luz do luar.
- Se Catienka se decidir a ir morar connosco, por causa dos meninos, me submeto a morar na fazenda Norobod.
Ninguém me viu quando encontrei Mayra, naquela noite, somente minha Annochka conhecia o segredo de seu nascimento.
Quem poderá descobri-lo?
Os mortos não falam.
Mudaremos sim, e pedirei a Norobod que conceda aos meus filhos o direito de escola.
Esta é a única condição que imporei.
Caso contrário, não nos mudaremos - meditava.
Parecia que seus pensamentos estavam sendo auxiliados, porque sentiu uma presença suave, como se mão amiga lhe acarinhasse a fronte.
Estremeceu e enorme felicidade o envolveu.
Era sua Annochka que vinha acalmá-lo.
Mas, a presença do Espírito foi tão fugaz que, quando Sumarokov estendeu a mão para tocá-la, ela desapareceu.
Anna viera sim, viera para ajudá-lo a resolver a delicada questão, que mudaria o destino de todos.
Iulián havia sentido o conforto de sua presença, pareceu-lhe que seu rosto roçava o seu.
Lágrimas grossas e quentes molharam-lhe o rosto.
Abraçou seu travesseiro como se fosse a esposa querida e adormeceu, emocionado, como uma criança afagada com carinho.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 13, 2016 10:17 pm

14 - Catienka

Sumarokov acordou disposto e saiu para o trabalho, bem de madrugada, deixando os filhos adormecidos.
Ficava tranquilo, porque logo mais, Catienka viria para cuidar de sua casa e de seus filhos.
Essa rotina acontecia durante quatro longos anos, isto é, desde a partida de sua mulher.
Seus filhos mais velhos conheciam o alfabeto, escreviam e liam, sabiam fazer contas, mas precisavam aprender mais.
Anna ensinara-lhes muitas coisas, porque fora bem-educada por seus pais, mas e os pequenos, e Mayra, ah!
Ele se preocupava muito.
A maioria dos filhos dos mujiques ficava sem aprender.
Os patrões não se preocupavam em abrir uma escola na fazenda, e depois que os meninos caíam na lida do campo, se desinteressavam e se embruteciam na convivência com os mujiques analfabetos, suas crendices e manias.
Preocupava-se com Mayra e seu futuro, queria o melhor para sua batiuchka.
À tarde, antes de Catienka ir para casa, ele conversaria com ela.
Se a moça aceitasse morar com eles, na fazenda, tudo estaria resolvido.
Sua decisão estava tomada, faltando apenas estes dois importantes detalhes.
Leve e feliz por ter encontrado a solução, Iulián andou mais ligeiro.
Queria comunicar a Norobod sua resposta.
O vento e a chuva anunciavam que o inverno ia ser longo e rigoroso, o trabalho no campo terminaria, a neve cobriria de branco a paisagem e a maioria dos mujiques ficaria sem trabalho.
Feliz do camponês que trabalhava na ordenha.
Tinha o emprego garantido.
Norobod o admitiria para cuidar de sua criação, rachar lenha e fazer reparos gerais em sua residência.
Quando os empregados pararam o trabalho para se alimentarem, Norobod mandou chamá-lo.
- Sumarokov, que decisão tomaste?
- A minha decisão, Sr. Norobod já está tomada.
Norobod alisou o bigode, acendeu o charuto, deu uma baforada e sorriu, satisfeito, mostrando os dentes amarelados pelo excesso de fumo.
- Muito bem.
Pedirei a Sergei que providencie carroças para a mudança, quando terminares os reparos da cabana.
Não demores, o Inverno não tarda.
- Sr. Norobod, antes tenho um pedido a fazer-te.
- Fala, mujique!
- Somente me mudarei com uma condição - aventurou o camponês, olhando firmemente o patrão.
Norobod olhou-o assustado.
Raramente os empregados exigiam algo, mas o caso de Sumarokov o interessava, por isso, com uma expressão um tanto irónica, perguntou- lhe:
- Qual?
- Que meus filhos estudem.
Norobod, para espanto de Iulián, soltou uma risada.
- Mas, é claro, Sumarokov, teus filhos terão os professores, os mesmos de minha neta!
Sumarakov ficou tão feliz que estendeu a mão para Norobod em agradecimento.
Afinal ele não era tão mau assim, como falavam os mujiques do campo.
Seu coração estava aberto.
- Obrigado, Sr. Norobod, não te arrependerás.
Prometo retribuir com meu trabalho e minha fidelidade, desde que meus meninos tenham o melhor.
Terminado o acerto, Sumarokov já ia saindo, quando se lembrou de Catienka e voltou-se, rodando no salto das botas.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 13, 2016 10:18 pm

- O último detalhe é a decisão de minha babá.
Hoje receberei sua resposta, se ela poderá vir morar connosco e cuidar da casa.
O patrão tornou a olhá-lo com aquela expressão maliciosa nos olhos, característica dos pensamentos vulgares que cultivava.
Sentindo-se ofendido, Sumarokov revidou:
- Não é o que pensas.
É apenas uma companheira de lida.
- Está bem, está bem... - Sumarokov, compreendo, compreendo dizia sorrindo —, todos dizem a mesma coisa.
Pensou em responder, mas decidiu ficar calado.
Ah! que lhe importavam as ideias do patrão!
O importante era que Catienka, representava para ele uma grande companheira com quem repartia seus problemas e mal se encontravam.
Aquela situação acontecia há mais de quatro anos.
Catienka possuía duas irmãs, um irmão e era a terceira da família.
O pai havia falecido e a mãe era doente.
Quando ela saía para o trabalho, sua irmã mais nova, Luísa, tomava conta da mãe e da casa.
Mesmo se ela ficasse ausente o dia inteiro e à noite, sua mãe não ficaria totalmente desprotegida.
Ela se afeiçoara à casa de Sumarokov, e sua família compreendia sua dedicação aos pobres filhos de Anna, principalmente aos pequenos.
E, com o parco salário que lhe pagava Iulián, ela ajudava nas despesas da casa.
Todos acreditavam que, um dia, Sumarokov se casaria com ela.
Na aldeia, os comentários foram muito fortes nos primeiros meses, depois, se acalmaram.
A rotina da vida, os trabalhos forçados, a dureza da vida que todos levavam para a sobrevivência, provocaram o esquecimento dos factos.
Catienka, apesar das dificuldades, aprendeu a ler e escrever, graças ao próprio esforço e à boa vontade do pai enquanto era vivo.
Ela e seus Irmãos eram muito gratos a esta herança recebida na infância, porque, trabalhando duro daquele jeito, ser-lhes-ia impossível aprender alguma coisa.
Enquanto seu pai estava vivo, aproveitaram, ao máximo, as lições, valendo-lhes o esforço, porque ninguém imaginava que o papacha iria tão cedo e a mãe logo cairia doente.
Tudo ficara acertado.
A isbá do cercado, próxima à mansão Norobod, estava pronta para receber a família de Iulián Sumarokov.
E, por ironia do destino, a pequena Mayra retomava, após cinco anos; era o mesmo rebento que dali saíra, violentamente arrancada do colo materno e abandonada numa velha e suja cabana da estrada.
Norobod julgava que Sergei havia dado fim à sua neta, seguindo sua ordem.
Ninguém mais, naquela fazenda, sabia o que sucedera ao pobre recém-nascido.
Após este segredo, Sergei e Norobod tornaram-se mais unidos em suas crueldades e o maldoso feitor ignorava o fim da menina.
Evitavam comentar o assunto, porque aquele rebento era sangue do senhor da terra.
Norobod nunca mais lhe perguntou sobre o paradeiro da neta, e Sergei agia como se tudo tivesse saído como lhe fora ordenado.
Só que, agora, Norobod estava começando a sentir imensa desolação, causada pelo remorso e pela constante bebida que minava sua autoridade perante os empregados.
Sergei, aos poucos, assumia a liderança da situação.
Norobod, sem o apoio do filho ausente, deixava-se dominar pelo feitor.
Evitava ficar a sós com o capataz, desde a morte trágica da filha.
Sua presença despertava-lhe o remorso e ele sofria.
Na verdade, Norobod queria mesmo mergulhar na bebida, o tempo inteiro para esquecer sua desdita, a morte de sua filha, o destino daquela criança, sangue de seu sangue, que ele rejeitara por ser fruto da união com um mujique desconhecido.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 13, 2016 10:18 pm

O remorso corroía sua alma e nada, absolutamente nada poderia aliviá-lo.
Quando o fantasma de Sácha lhe aparecia manchado de sangue, ele entrava em delírio, e uma febre nervosa o atacava como se estivesse tendo uma crise epiléptica, aliás, Norobod tornara-se epiléptico.
Muitos mujiques o temiam nessas crises, que se acentuavam perto da colheita.
Quando o trigo começava a amarelar, a qualquer contrariedade, ele desabafava, mandando açoitá-los.
Ninguém podia aliviar sua tensão nervosa.
A única pessoa que tinha certo domínio sobre ele era sua pobre mulher, que se compadecia de sua situação e continuava a seu lado.
As coisas, na fazenda, iam só piorando sob a direcção de Sergei, detestado pelos empregados.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 13, 2016 10:18 pm

15 - Os Sumarokoviski

Os Sumarokoviski trouxeram para a fazenda algo que lá não existia, a alegria.
Logo o ar impregnado de tristeza encheu-se de risos contagiantes e brincadeiras sadias que Catlenka havia ensinado aos filhos de Iullán.
A algazarra das crianças animou a Isbá do cercado, antes triste e abandonada.
Mas, antes de se mudarem, Iulián e Catlenka sentaram-se com os meninos e lhes falaram sobre as dificuldades e os problemas de morarem em terras alheias e como teriam que se submeter ao regime Imposto pelos patrões.
Era muito importante, para eles, continuarem naquele trabalho, que lhes garantiria estudo, comida, habitação e roupas.
Os filhos, avisados, conservavam seus limites, jamais entravam na mansão Norobod.
Os pequenos eram constantemente vigiados por Catlenka, porque Iulián e Pável, ambos rapazinhos, já auxiliavam o pai, prestando alguns serviços.
A neta de Norobod, Sácha Alexnóvna Norobodviskl, porém, rompia todos os laços.
Menina travessa, procurava ficar mais em casa do empregado do que em casa do avô; lá encontrava a alegria e sentia-se bem entre eles, apesar do seu génio forte, intrigante e rebelde como o da mãe.
Sónia aproveitava o interesse da filha pelos Sumarokoviski para bisbilhotar a Intimidade da casa de Iulián, e com sua faceirice, conquistá-lo.
Não se conformava que ele, homem correto e bom, lhe escapasse aos encantos.
Simplesmente, não suportava ser desprezada por homem algum, principalmente por aquele mujique sem instrução.
- Sácha, minha filha, onde estás? - entrou na isbá, com esta desculpa.
Catienka estava assentada perto da fornalha, remendando algumas roupas; quando ouviu a voz de Sónia, respondeu:
- Ela está brincando com Nicolau, deve estar tão entretida que nem ouviu.
- Esta menina travessa não pára - disse Sónia, entrando.
- Ela gosta das crianças, porque se sente muito só, deixa que ela brinque.
Demonstrando interesse em ver o que a filha estava fazendo, usou esta estratégia para observar como viviam os Sumarokoviski, Sónia penetrou na isbá.
As camas estavam limpas e estendidas.
Será que dormiam juntos?
Morria de vontade de perguntar.
No interior, de facto, Sácha brincava com um jogo de varetas que o pai lhe trouxera de São Petersburgo.
Os dois garotos estavam esquecidos de tudo, compenetrados na brincadeira, assentados sobre um velho tapete.
A mãe olhou-os, examinando detalhadamente a simplicidade dos móveis e dos apetrechos que compunham o pobre interior doméstico.
A isbá, desde que eles se mudaram, tomara novo aspecto, simples e bem cuidada; tudo ali respirava asseio e tranquilidade.
Um ciúme louco se apossou dela, ao perceber a jovem que conseguia ao mesmo tempo trabalhar tanto e continuar sendo tão bela, de uma beleza inocente e terna.
Começou a interrogá-la, provocando-a:
- És a empregada de Iulián? - o tom da pergunta era de superioridade, mas Catienka respondeu-lhe severa e humilde:
- Sim, senhora, eu sou.
- Há quanto tempo trabalha para Sumarokov?
- Desde que sua mulher Anna estava para dar à luz a Kréstlan.
- E quanto tempo faz Isto?
- Cinco anos.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 13, 2016 10:18 pm

O Interrogatório continuava e Catlenka, sem perceber ou compreender o tom provocante e nem as intenções da mulher, respondia-lhe tranquilamente.
- Como te chamas?
- Catlenka. E a senhora, como te chamas?
- Sónia.
Catienka deixou a agulha sobre a roupa, colocando- a em cima da mesa, dirigiu-se ao fogão e ofereceu-lhe chá.
Sónia, após o longo interrogatório, inteirou-se sobre a vida deles.
Vida comum a de Iulián que, aliás, não tinha segredo, mas para ela, despeitada como estava, tudo lhe parecia novidade.
Instantes depois, a cozinha encheu-se de barulho; Kréstlan e Mayra entravam correndo atrás de um gato.
E começaram a brincar, agarrando-se à saia de Catienka, sem prestarem atenção à visita.
- Cuidado, Mayra, cuidado Kréstian!
As crianças nem perceberam a presença de Sónia tão envolvidas estavam com sua própria algazarra e, só depois de alguns minutos, quando o gato escapou, a viram.
Beijaram Catienka e saíram novamente sem se importarem com a visita.
- Desculpa, senhora, eles ainda são muito pequenos e não se acostumaram às etiquetas.
- Não me Importo - disse Sónia intrigada com as duas crianças que pareciam ter a mesma idade, e perguntou:
- Qual das duas é a mais velha?
- É Mayra.
- Parecem ter a mesma idade, olhando-os juntos.
- A diferença entre eles é realmente pouca, e, segundo o Sr. Sumarokov, sua esposa estava amamentando Mayra quando engravidou.
Entre seus dois filhos mais novos, não tem um ano completo de diferença e como Mayra é magrinha e miúda, quase não se percebe.
As duas mulheres ainda estavam a conversar, quando Nicolau entrou.
Era um menino que já nascera educado, porém, muito acanhado.
Cumprimentou delicadamente a visita com uma vénia e seu gesto encantou Sónia.
Ela convivera, antes de se casar, com homens educados da cidade, mas a convivência com os mujiques mal-educados acabou por fazê-la esquecer-se das agradáveis mesuras que os homens finos da capital lhe faziam.
- Olha, que encanto de rapaz!
Nicolau tinha um jeito muito brejeiro e, sorrindo, agradeceu o elogio.
- Como te chamas?
- Nicolau. És a mãe de Sácha?
- Sim, por falar em Sácha, chama-a, por favor?
Nicolau foi buscar Sácha.
Sónia estava satisfeita.
Ouvira falar algumas coisas daquela família simples, mas educada.
Somente a beleza de Catienka não estava bem ali.
Não compreendia, como um homem como Sumarokov, ainda não tinha se apaixonado por ela.
Porém, a franqueza da moça, deixou-a tranquila quanto às suas intenções sobre Sumarokov.
Catienka considerava-se apenas uma empregada e nada mais.
Seu caminho continuava livre, no entanto, qualquer mulher mais jovem seria sempre uma ameaça à sua faceirice.
Catienka tinha todos os predicados capazes de encantar os homens e representava o tipo ideal para um homem como Iulián Sumarokov.
Mãe e filha saíram da isbá do cercado a caminho da bela mansão Norobod, cujo jardim não se sabia onde começava e, enquanto passavam pela ala florida, Sácha ia apanhando algumas flores e despetalando-as pelo caminho.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 14, 2016 9:11 pm

A diferença dos dois ambientes era gritante.
Sácha acompanhava a mãe, contrariada, rogando-lhe que a deixasse ficar.
- Tua avó está chamando, Sácha.
Catienka olhou-as até desaparecerem.
- Esta menina é muito mimada, Nicolau.
Filha única dá muito trabalho aos pais, principalmente quando criada junto aos avós.
- Tens razão, Catienka.
Sácha, quando joga não aceita perder e é muito nervosa, mas eu me dou bem com ela.
- É bom mesmo que te dês bem, somente assim poderás ensinar-lhe boas maneiras - a moça colocou a mão na cintura, sorrindo.
Só isto que faltava, Nicolau, filho de mujique ensinando boas maneiras aos patrões.
Assim é a vida...
A empregada pegou uma vassoura e começou a varrer.
A importante visita tomara um pouco de seu tempo, logo Iullán chegaria.
Antes, ela ficava o tempo inteiro só com as crianças e agora, volta e meia, Iulián voltava ao lar.
Seu serviço não ficava longe, fazendo reparos em cercas e currais.
Seu trabalho aumentara e Nicolau a auxiliava como podia.
Aliás, ele era um menino dado às prendas domésticas, tinha um jeito todo especial, delicado, diferente dos irmãos mais velhos.
Na primavera, ia ao campo buscar flores para enfeitar a casa, recebendo críticas de Iulián, seu irmão.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 14, 2016 9:11 pm

16 - Professor Semión Andreievisk

Os filhos de Sumarokov estavam gostando muito da fazenda, a presença constante do pai lhes dava segurança.
Tão logo o professor contratado por Norobod chegasse, eles ocupariam o tempo em estudar, e Norobod teria que cumprir o acordo feito com Iulián.
Era justamente esse o motivo que levou Sónia a buscar Sácha, para conhecer seu novo professor.
O jovem professor chegara à fazenda em rica carruagem, muito bem trajado, botas de pelica, óculos, maleta, cabelos, barba e bigodes bem alisados.
Era uma figura interessante, totalmente diferente dos homens rudes da fazenda.
Expressava-se com elegância e clareza, falando muito, demonstrando largo conhecimento.
Aquele moço encantara a todos, principalmente à Sra. Norobod que via nele a salvação para sua neta tão mal educada pelo filho e pela nora.
Ele caía do céu.
Fazia questão que ele se sentisse bem, preparando-lhe um quarto arejado, limpo e confortável, onde tivesse uma mesa com cadeira perto da Janela, para que ele pudesse fazer seus estudos.
Finalmente alguém ali, fino e educado para corrigir os vícios de linguagem que sua neta havia adquirido.
O moço conversava com Norobod, acertando detalhes de sua estada, horários, folgas e salário.
Chamava-se Semión Andreievisk e vinha de São Petersburgo.
Sónia também viera de lá e estava mais animada que nunca com a chegada do novo hóspede.
Tratou logo de se aformosear e, quando foram apresentados, demonstrou tanta galanteria que até o sogro ficou sem entender a atitude da nora.
Semión, multo galante, fingiu não perceber e logo os dois se identificaram na coqueteria.
Enquanto Semión conversava com os patrões, seus olhos pretos desviavam-se lânguidos para a bela Sónia que, pretextando interesse pela educação da filha, permanecera na sala, participando do contrato.
Aquelas novas personagens tiravam um pouco da tristeza que se Instalara na fazenda desde a trágica morte de Sácha.
Mas o fantasma ainda aparecia, assustando pessoas, aqui e acolá.
Norobod continuava atormentado pela visão, e sua esposa, a mesma mulher triste.
Quando informaram a Semión, que deveria também educar os filhos do mujique Iullán, Norobod teve que dobrar seu salário.
Tratava-se da educação de quatro crianças com idades diferentes, e ele era muito criterioso.
Norobod não teve outra opção e aceitou as Imposições do moço.
Aliás, Norobod estava pouco ligando para as coisas à sua volta.
Interessava-lhe apenas beber e, a cada dia, aumentava sua insanidade, sobrecarregando a mulher com decisões pertinentes a ele.
No dia seguinte, as aulas iriam começar.
Sumarokov procurava dar o melhor de si no trabalho para fazer jus às regalias que conquistara para seus meninos, nessas difíceis épocas de servidão, em que a maioria dos mujiques não tinha direito a nada, principalmente os que trabalhavam nos campos de trigo e de centeio.
Iullán percebeu claramente que Sónia, embora continuasse Interessada nele, devido a seus olhares provocantes, agora demonstrava grande inclinação pela figura singular do professor.
Ela não lhe Interessava, não passou de uma necessidade física, onde seu coração sequer participou e folgava-se por estar livre de suas acintosas perseguições, agora estendidas ao professor.
Sumarokov entrou em casa e Catlenka estava à beira do fogão.
Durante todos aqueles anos de luta e sofrimento ele não tivera tempo para perceber a beleza singela e agreste da moça, ou talvez nem se detivera para observá-la melhor.
E, pela primeira vez, depois de tantos anos, prestou atenção em seus dois olhos negros e serenos.
Seria a aproximação de ambos, convivendo naquela nova morada que provocava aquela nova sensação?
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 14, 2016 9:11 pm

O facto era que Sumarokov lhe devotava muito respeito, como se ela fora sua filha ou irmã mais Jovem, e de que lhe adiantaria se interessar por ela?
O que iria querer uma moça tão nova com um homem maduro, cheio de filhos, como ele?
Envergonhou-se do súbito interesse, mas não deixou de admirar seus lindos olhos e, a cada momento que os seus se cruzavam com os dela, ele se tornava embaraçado.
Parecia até que estava vendo Catienka pela primeira vez.
Parou para melhor observá-la.
A moça, distraída com os afazeres, nem percebeu que estava sendo alvo de tanta atenção por parte daquele homem simples e bom, a quem ela devotava especial carinho.
Sumarokov passou a se interessar profundamente pela rapariga, aliás, não notava que estava gostando dela, agora, de um modo diferente, apesar de todo respeito, ardia por perguntar-lhe sobre namorados, mas ficava tímido.
Catienka e Mayra dormiam na mesma cama, aliás todos eles dormiam no mesmo quarto, porém, separados por uma cortina, isto é, uma colcha com bonitos desenhos coloridos.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 14, 2016 9:12 pm

17 - Novamente o Fantasma

Certa noite, acordaram assustados com os gritos de Mayra.
A menina chorava e tinha febre, febre altíssima.
Catlenka levantou-se apressadamente para auxiliá-la e lhe dar algo para beber.
- Catlenka, papacha, eu a vi, ela estava aqui, tenho medo!
- Quem, Mayra, quem? - perguntou-lhe Catlenka, sem compreender que a criança estava vendo um Espírito.
- Não a conheço, ela velo buscar-me, eu sinto.
Tenho medo, eu não vou, ela tem sangue - balbuciava a menina soluçando.
Amedrontada, aninhou-se nos braços da moça.
Iullán Sumarokov adivinhou imediatamente que era o fantasma da fazenda que viera visitar a filhinha e tratou de acalmá-la, pedindo-lhe que não tivesse medo, ele não lhe faria mal.
- Tenho medo, tenho medo... - chorava a menina.
- Papacha não deixará que te vás com ela.
Não tenhas medo, Mayrochka16, confia em teu papacha.
Os outros meninos também acordaram e Iulián pediu-lhes que não se levantassem.
- Calma, calma, nada aconteceu, foi somente um pesadelo de Mayra.
Mas, ninguém conseguiu dormir o resto da noite e, a muito custo, já de madrugada, a menina adormeceu agarrada à sua babá, trémula e suada.
Sim, ele não tinha dúvidas, era a mãe de Mayra que saíra do túmulo para ver a filha.
Seu Espírito não podia continuar amedrontando as pessoas daquele jeito.
Se o fantasma continuasse a aparecer, logo os mujiques supersticiosos sairiam da fazenda.
E, se o professor, o tal gravatinha da cidade, também a visse e se fosse supersticioso, seria o primeiro a se mandar.
Como seus filhos fariam para estudar?
Aquele fantasma deprimente tinha que encontrar a paz.
Iulián, outrora, cultivara alguma superstição, mas desde a morte da esposa, acostumara-se a conviver com sua solidão e a não temer os Espíritos.
Às vezes, a saudade da esposa era tanta que, até mesmo vê-la em Espírito, o satisfazia, chegando a rogar a Deus para que ela lhe aparecesse.
No dia seguinte, professor e alunos comentavam o fantástico acontecimento.
As crianças não conseguiam se conter ouvindo casos sobre Espíritos e a imaginação infantil tomou rédeas soltas.
E quando souberam que Sácha, filha de Sónia, já sabia da existência daquele fantasma, o facto tomou nova dimensão e crivavam, agora, a menina de perguntas.
Não a perdoavam por lhes ter omitido o conhecimento do fantasma.
Sácha explicava-lhes:
- Minha mãe pediu-me para não comentar, dizendo que seu Espírito não me faria mal, como de facto, nunca me fez mal algum.
É o fantasma da minha tia Sácha, que só aparece para amedrontar os mujiques maus e preguiçosos do campo.
Nada tenho a temer.
- Tu a conheceste, Sácha?
- Sim, professor, mas não me recordo, sei que era muito bonita e boazinha, e costuma aparecer para todos na festa da colheita que meu avô promove para os camponeses.
- Verdade, Sácha, viste o fantasma?
Sácha, embaraçada com a pergunta, porque ela mesma nada tinha visto, explicou:
- Não, Sr. Semión, eu nada vi. Credo!
- Está bem.
Ficaram um pouco mais relaxados, cientes de que a morta somente aparecia aos mujiques maldosos.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 14, 2016 9:12 pm

Tomavam fôlego para novas perguntas, quando Pável perguntou, inconformado:
- Como, então, pode Mayra tê-la visto?
Os filhos de Sumarokov estavam espantados.
Não podia ser bom aquele fantasma, uma vez que a Irmã tivera medo e, por causa dele, adoecera.
Semlón, primeiramente, ouviu atento as histórias de Sácha, depois o novo aparecimento do Espírito para a irmãzinha de seus alunos.
Os meninos estavam empolgados com a atenção que o professor dava ao assunto.
O professor estava mesmo interessado e ficou bastante intrigado com o que ouvira.
Aproveitou o Intervalo da aula, e foi procurar Mayra, fazendo-se acompanhar dos alunos.
A cabana de madeira ficava próxima à mansão Norobod; ligava-as um trilho cheio de acácias, que exalavam perfume e alguns canteiros de girassóis que alegravam a paisagem com seu forte colorido.
Catlenka estava lavando roupas, quando notou a aproximação do moço bem trajado e elegante.
Não era acostumada ao contacto com estranhos e ficou corada de vergonha, impressionada com as roupas bem cuidadas do rapaz.
Avistara-o, ao longe, no dia em ele que chegou à fazenda.
- Esta é Catlenka - apresentou-lhe Pável - e esta, nossa isbá.
Semión achou-a muito jovem para ser a mãe de seus alunos e fez um ar de Interrogação, que Iulián logo adivinhou e explicou ao professor:
- Ela é nossa amiga, toma conta da casa.
- Ah! bom... Como estás, Catlenka?
- Estou bem, obrigada.
És o professor?
- Sim, Semlón Andrelevisk, seu criado, senhorinha.
O moço fez profunda reverência, segurando-lhe a mão molhada, aumentando a perturbação de Catienka que, apesar de despachada, agora não sabia o que fazer sob o olhar penetrante do moço.
- Vim saber como está a menina...
Soube que ontem, à noite, tiveram um imprevisto.
- Ela dorme, senhor.
- Chama-me de Semión, rogo-te, bela senhorinha, assim me tiras do pedestal da idade.
- Desculpa-me, s...., desculpa-me.
Pável e Iulián se deliciavam com o embaraço de Catienka pois o professor Semión era uma criatura muito interessante, a mais engraçada que se encontrava naquela fazenda com suas manias estudadas e um tanto delicadas para o lugar.
- Meus alunos comentaram o sucedido aqui, nesta noite.
Gostaria, Cátia, se me permites, chamar-te assim?
- Como quiseres - respondeu-lhe Catienka, a cada minuto mais embaraçada com o jeito do moço afectado da cidade, porém, simpático.
- O que desejas saber, Semión?
- É certo que a menina viu um fantasma?
- Sim, ela viu alguém que a amedrontou a ponto de delirar a noite toda com febre alta.
O professor tinha os olhos brilhantes e parecia ir além dos factos, desejando mergulhar naquele mistério indevassável.
- Quando acordar, gostaria de conversar com ela, pois interessa-me este facto - ante o olhar interrogativo de Catienka, continuou faceiro como quem sabia o que exactamente buscava:
- Não te preocupes, Cátia, sou um estudioso das forças sobrenaturais e talvez eu possa ajudá-la.
- Ela já melhorou, ela está bem - argumentou Catienka querendo poupar Mayra da curiosidade do estranho.
Iulián, que trabalhava não muito longe dali, viu o tumulto à porta de sua isbá e foi ter com eles.
Já tinha conversado com o professor de São Petersburgo, quando ele chegou à fazenda e estranhou sua visita.
Os filhos foram ao encontro do pai.
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