Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 14, 2016 9:12 pm

- Não deveriam estar estudando?
Semión aproveitou o momento para elogiá-lo:
- Parabéns, Sr. Sumarokov, teus filhos são argutos e inteligentes.
- Obrigado, professor, mas o que te traz à nossa isbá?
- Os meninos comentaram sobre tua filha.
Interessei- me por seu estado e aqui estou querendo interrogá-la.
Sou estudioso e pesquisador do sobrenatural.
Catienka aproveitou a chegada de Sumarokov e foi verificar se Mayra continuava dormindo.
Não queria que a incomodassem, a febre havia abaixado e a menina dormia calmamente.
Quando Catienka regressou do interior, os olhos do professor cravaram-se nela, admirados com a modesta beleza da moça, facto que não passou despercebido a Iulián, que logo tratou de afastar o moço elegante de sua cabana e de sua camarada.
Ele era muito faceiro e Catienka, simples e ingénua.
Que continuasse a cortejar Sónia e não ousasse se aproximar da moça.
Os alunos já haviam saído, deixando o professor.
Semión, antes de acompanhá-los, ainda se voltou para Catienka:
- Cátia, logo mais retomarei.
Como ele se atrevia a chamá-la assim, mal se conheciam, que intimidade ele buscava em sua casa!
Resmungava, consigo mesmo, o camponês.
Não se importando com a diferença social, perguntou a Semión com cara fechada:
- Tens algo a fazer aqui?
A carantonha do empregado não surtiu efeito, Semión estava acostumado aos intrometimentos de camponeses na cidade.
Seu temperamento era diferente dos donos das terras, parecia ser amigo ou indiferente aos grandes problemas sociais que viviam.
E, apesar da diferença social entre ambos, Semión respondeu-lhe, calmamente, demonstrando grande educação na voz:
- Desejo voltar e conversar com tua filha sobre o facto ocorrido ontem, faço pesquisas e estudo o sobrenatural.
O modo simples do rapaz falar, contrastava com sua indumentária luxuosa e Iulián sentiu-se desarmado.
Modificando a carantonha, respondeu-lhe:
- Meus garotos contaram-te sobre o..?
- Sim, sobre o Espírito, aliás, não os culpes por isto.
Eles não o fizeram por mal, eu já sabia da história do fantasma da fazenda e os interroguei.
- Mayra nada te saberá dizer, ela somente viu um Espírito e teve febre nervosa.
- Está bem, está bem!
Até logo! - disse Semión, saindo.
Iulián Sumarokov despediu-se do professor e voltou à lida, pensativo.
Não podia impedir o professor de conversar com Mayra, era um homem fino e educado, parecia sincero e interessado e, mais tarde, seria seu professor.
Quem sabe ele tivesse meios de retirar o fantasma da fazenda?

16 Diminutivo de Mayra. (N. do autor espiritual)
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Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 14, 2016 9:12 pm

18 - Mayra Sumarokov, médium

Nayra estava naquela idade encantadora em que se começa a descobrir o mundo à sua volta e a identificá-lo como seu.
Nascera com faculdades mediúnicas afloradas e sua sensibilidade deixava-a em profundo estado de euforia ou de infinita tristeza.
Contemplava tudo, com muita atenção.
Catienka dispensava-lhe especial carinho, poupando-a dos maus tratos de Pável, que, por causa da mãe, cultivara exagerado ciúme da irmã, sentimento que se abrandava, graças aos conselhos da bondosa moça, após o desaparecimento da mãe.
Não havia mais motivos para ciúmes, porém, no fundo ele achava que a menina e seu irmão, Kréstian eram os causadores da morte de sua mãe.
Apesar do esclarecimento paterno, guardava esta mágoa em seu coração, ligando-os à perda irreparável da progenitora.
O Espiritismo, mais tarde, trouxe aos homens a explicação dos fenómenos após a morte, como as aparições de Espíritos, cuja influência no mundo material não era ainda conhecida.
O homem que viria codificar e explicar estes ensinamentos estava prestes a iniciar seus estudos.
Os fantasmas, no entanto, tinham pressa, continuavam atormentando pessoas e lugares.
A falta de explicação, na verdade, não os impedia de existir e as pessoas não estavam isentas de serem vítimas de aparições e comunicações com o além.
Semión Andreievisk, profundo pesquisador destes fenómenos, interessava-se de tal forma por eles que começara a escrever alguns importantes apontamentos, que ele submetia ao critério de seu professor, Dmitri Nabor.
A Santa Rússia era um celeiro de médiuns e fantasmas que apareciam e desapareciam, incomodando os supersticiosos, que associavam sua aparição a mau agouro, e as pessoas que os viam eram desprezadas.
A ignorância dominava o povo russo, porque a religião, sem lhe explicar a travessia da morte e a fixação dos Espíritos no espaço invisível, aumentava a crendice e a superstição, evitando qualquer comentário.
Tal atitude só fazia alimentar a angústia de um povo já tão sofrido.
Semión não temia os fantasmas e até gostaria se um deles lhe aparecesse.
Apesar de seu aspecto fino e suas maneiras afectadas, fruto de sua educação, ele era um arguto observador, em busca da perfeição.
Atraído pela vida simples dos camponeses, gostava de observá-los, tirando suas conclusões que, depois de anotadas, ele mostrava a seu mestre, Dmitri.
Ambos ficavam horas conversando e discutindo estes assuntos, incluindo, entre eles, o principal:
a servidão que não fora erradicada totalmente, sendo um dos motivos das crendices; enfim era a vida russa, impregnada de lendas e superstições.
Nunca se sabia se as histórias que os mujiques contavam em volta da fogueira, passando-as de pai para filho, eram verídicas ou imaginárias.
Semión estava mais interessado que nunca, naquele novo facto, mesmo percebendo que Iulián não aprovava sua ideia de procurar a menina.
Na mansão Norobod, o assunto pegava fogo, atraindo, também, a atenção de seus moradores à isbá do cercado.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 14, 2016 9:12 pm

19 - Sra. Norobod e Mayra

A visão que Mayra tivera, conseguira despertar grande interesse nos verdadeiros avós e tio.
Para o professor Semión, havia outro tipo de interesse, era um farto material para suas pesquisas.
A Sra. Norobod, no mesmo dia em que soube do facto, também foi à isbá, levando Sácha em sua companhia.
A rica senhora, não obstante a vida faustosa, mas repleta de crimes, que o marido lhe proporcionava, era generosa, qualidade que aprendera a duras penas, de tanto participar dos sofrimentos dos empregados.
Ouvindo e vendo os maus tratos a eles infligidos por seu marido, acabou por se sensibilizar.
Eram tão cruéis, que ela os sentia na pele.
Compreendia que sua infelicidade conjugal era consequência dos actos insanos do esposo e de seu feitor.
A Sra. Norobod, desprovida de preconceitos, encontrava muito alívio conversando com os pobres camponeses, que, além de sofrerem por sua condição inferior, careciam de muitas coisas materiais.
Apesar de saber que a felicidade, não depende do conforto material, ela procurava amenizar, ocultamente, o sofrimento de uma família aqui e outra lá.
O estado constante de embriaguez do esposo, tomava-a livre e dona de seus actos.
À tarde, quando o Sol está quase desaparecendo, deixando no horizonte um clarão vermelho sobre tons alaranjados, surgem as sombras, envolvendo a Terra numa atmosfera misteriosa capaz de excitar a imaginação.
Vira a menina do camponês de longe.
Seus cabelos louros e dourados como as espigas maduras, chamaram- lhe a atenção.
Sumarokov fizera questão absoluta de que os filhos não brincassem perto da mansão e que continuassem respeitando as limitações por ele impostas.
A Sra. Norobod ainda não havia conversado com os filhos de Iulián, apesar da permissão de frequentarem as aulas junto com sua neta.
Sácha era uma menina só, sem crianças por perto para brincar.
Estava ansiosa por se encontrar com a menina que vira o fantasma de sua filha.
Tantos mujiques haviam visto o fantasma de Sácha, mas a filha do empregado chegara a adoecer por causa do Espírito.
Talvez o padre desse um jeito.
Fazia tempo que não o convidava para o exorcismo e as celebrações.
Precisava chamá-lo novamente.
Com estes pensamentos, a Sra. Norobod entrou em casa de Sumarokov pela primeira vez.
Sácha conhecia tudo ali, largou a mão da avó e correu para o interior da cabana, procurando Nicolau, seu preferido companheiro de brinquedos.
Catienka veio recebê-la, solícita, adivinhando o motivo que a levara ali.
Mayra ainda continuava deitada.
As duas mulheres conversaram sobre o episódio e alguns outros assuntos que envolviam a lida.
A Sra. Norobod manifestou seu desejo:
- Leva-me ao quarto da menina, quero vê-la.
- Podes entrar no quarto.
Iulián chegava da faina, neste exacto momento.
- Oh! Sra. Norobod, que prazer ver-te em nossa isbá.
- Sumarakov, vim conhecer tua filha.
O homem estremeceu, mas se controlou, fosse o que Deus quisesse, mais cedo ou mais tarde, isto aconteceria.
- Nossa Mayra tem estado doentinha, hoje mesmo, ela não se sente bem.
- Talvez eu possa auxiliá-la.
Tenho inúmeros medicamentos em casa que Alex trouxe da cidade, para diversos males...
Ela foi enumerando as doenças correspondentes aos remédios, quando entravam no modesto quarto.
Mayra encontrava-se deitada, dormindo, seus cabelos louros da cor de espigas maduras estavam espalhados.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 14, 2016 9:13 pm

A Sra. Norobod, ao entrar, sentiu-se inexplicavelmente emocionada, como se retomasse à presença de sua adorada Sácha.
- Meu Deus! Valha-me, Senhor, é o retrato vivo de minha Sácha!
Pela Imaculada Senhora dos Céus, como se parecem!
A emoção levou-a a uma crise de choro, assentada ao lado de Mayra, que continuava adormecida.
A Sra. Norobod, incontrolavelmente, arrebatou-a ao colo e apertou-a em seus braços em grande soluço.
Era como se estivesse abraçando sua desventurada filhinha, naquela idade.
- Que bela menina tens, Sumarokov - conseguiu dizer, entre soluços -, parece-se multo com minha Sácha, quando tinha esta idade, a mesma cor de cabelos, os mesmos olhos, gostaria de vê-la no claro.
A janela do quarto era muito pequena, o suficiente para iluminar apenas algumas partes durante o dia.
A Sra. Norobod não conseguiu ver bem a cor de seus olhos e examinava a menina, minuciosamente, como se estivesse querendo descobrir nela alguma coisa, algo que lhe fugia ao entendimento.
Encontrava-se ali a solução do enigma do desaparecimento de sua neta que, com certeza, tinha a mesma idade.
Mayra, assustada, despertou com a confusão em tomo dela.
- Que idade tens, minha filha?
- Ela irá completar seis anos - respondeu Iulián, lamentando a decisão de vir morar na fazenda.
Kréstian chegava do terreiro com seu cãozinho nos braços.
Sua presença desviou o assunto e Sumarokov aproveitou o ensejo para desviar a atenção da mulher e evitar responder ao questionário; não se sentia à vontade em ter que mentir e omitir certas datas.
Aproveitou a chegada do menino para tirar a mulher do quarto.
- Kréstian! Kréstian, deixa o cachorro lá fora! - ordenou energicamente, o pai.
Kréstian tratou logo de obedecer, soltando-o.
Ao ver a importante visita, ficou acanhado e se escondeu atrás de Catienka que se encontrava em pé ao lado do leito de Mayra.
Os dois irmãos tinham quase a mesma idade, e em nada se pareciam, fisicamente.
Aliás, os filhos de Anna e Iulián, apesar das diferenças, tinham sempre um traço em comum, a marca registada dos pais, ou na boca, ou no nariz, ou nos olhos, ou nos modos.
- Teus filhos parecem ter a mesma idade, Sumarokov, qual dos dois é o mais velho? - indagou a Sra. Norobod, sem tirar os olhos da menina, que agora se aninhava na cama, abraçada por Kréstian.
- Tens razão, senhora, foram concebidos muito perto.
Kréstian é muito desenvolvido para a idade.
Conversaram sobre algumas banalidades, a mulher sentia-se tão bem ali com eles, chamavam-na, porém, os deveres na mansão.
- Bem, tenho que ir, - disse, levantando-se - já que a menina está bem e de nada precisam.
Amanhã retornarei; quero vê-la correndo e brincando, enviar-lhe-ei alguns mantimentos.
Antes de sair, abraçou Mayra, emocionada, como se estivesse abraçando a própria filhinha.
Uma felicidade imensa inundou-a.
Pareceu-lhe que, naquela humilde cabana, deixava todo o seu tesouro.
- Onde estás, Sácha? - procurou pela neta.
Sácha estava com Nicolau e ouviu a avó chamando-a.
- Vamos!
- Grato pela visita, Sra. Norobod, és sempre bem- vinda.
- Obrigada, Iulián Sumarokov, há muito não ficava tão feliz.
Teus filhos são adoráveis, devolveram a alegria ao nosso meio.
Tu e tua família são bem-vindos!
Estabelecia-se entre eles e a Sra. Norobod um vínculo afectivo, quebrando as diferenças sociais.
A solidão e a dor são mestras silenciosas em adestrar e unir os corações.
Era inevitável o encontro.
Iulián havia se preparado, mais cedo ou mais tarde, alguém iria ver sua Mayra, não poderia mais ocultá-la.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 14, 2016 9:13 pm

Conformava-se. De que adiantava se parecerem, ninguém mais conhecia seu segredo, somente Deus.
Anna não retornaria da mansão dos mortos para falar, e ele, jamais o revelaria.
Ninguém, absolutamente ninguém o obrigaria a falar.
Mayra era filha dele e de Anna, e pronto.
A Sra. Norobod tomou Sácha pela mão e ambas seguiram por um trilho que levava à mansão.
Seu semblante, antes triste, seu olhar apagado, agora tinham um lampejo diferente, como se tivesse visto sua menina.
Estava tão emocionada e feliz que pareceu ter retornado à juventude.
Voltava tão rapidamente para casa, que Sácha estranhou a avó, e esforçou-se por acompanhá-la.
A mulher entrou em casa, decidida a não comentar o facto com Norobod, que lhe parecia meio alienado.
Ela temia que o encontro com a filha de Sumarokov, agravaria seu estado de delírio, levando-o a se entregar mais à bebida.
Sua alegria dava-lhe forças e o marido não desconfiava do motivo da súbita felicidade de sua mulher, embora percebesse sua mudança.
Norobod apenas soube que o fantasma de sua filha estava novamente por ali, aliás, ele nunca havia desaparecido e agora atacava a filha de Sumarokov.
Torcia para que ele, por causa disso, não se fosse, também.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 14, 2016 9:13 pm

20 - O Diabo não é tão feio como se pintam

Os dias na fazenda continuavam iguais.
Muito trabalho, empregados com carantonhas feias, trabalhavam contrariados, mal pagos e mal tratados.
Nem a expectativa de nova colheita.
Sergei, ciumento, não via com bons olhos as frequentes visitas da patroa à casa do mujique Sumarokov; engolia calado e, às vezes, envenenava Norobod, dizendo-lhe:
- Sumarokov é um empregado caro, Norobod...
- Eu sei, Sergei, quando terminar esta safra, vou dispensar o professor...
Darei uma desculpa... - Norobod pensou que ele se referisse ao alto salário de Semión.
- Não se trata do professor, mas de Sumarokov.
Se visitares sua isbá, verás o luxo que tem, graças aos favores de tua mulher, que não se cansa de lhes proporcionar uma vida farta.
Norobod já havia ingerido meia garrafa de Vodka, estava alheio, mas levantou os olhos para o feitor.
- Não me digas, Sergei.
Desconheço tal atitude de minha mulher.
- Vá conferir e aproveita para visitar os campos.
Norobod estava trémulo, a saúde abalada, quase não conseguia se firmar nas pernas.
Seu estado se agravara naqueles últimos dias.
- Amanhã, irei.
Sergei já conhecia de sobra aquela atitude.
Norobod, não se incomodava com nada.
O feitor saiu resmungando.
- Por que não morres, velho idiota, já que não serves para nada?
Se Norobod ouviu, nem fez caso.
Os dois tinham muitas culpas juntos, inclusive Sergei, o único que lhe poderia dar informações sobre o paradeiro do rebento de Sácha, sua desventurada bátiuchka.
Como não sabia o fim que levou a sua neta, mentia-lhe que a haviam matado na fuga.
- Ah! noite infeliz!
Nunca mais terei sossego.
Sácha, Sácha, o que fizeste de teu pai!
Onde estás, minha criança, que não te vejo?
Vem, vem, pelo menos o teu fantasma, que me entristece, mas fica comigo.
Vem... Vem!
Norobod, sem suspeitar, atraía para si e mantinha preso o Espírito de Sácha que, por esta constante evocação, não encontrava forças para alçar o voo necessário à própria libertação.
Ambos sofriam.
O velho Norobod era o quadro do desequilíbrio e seu modo de agir criava à sua volta um clima terrível de desolação e de revolta, pois quando Sácha surgia, atrás dela vinham as pobres vítimas da fazenda, algumas sacrificadas barbaramente por sua vontade, aliada à maldade de Sergei.
Todos se afastavam de seu convívio.
A bebida o piorava, as crianças o temiam, ninguém os visitava.
Os empregados ficavam à mercê de Sergei.
Se algum deles fosse reclamar ao patrão, era tempo perdido.
Norobod encontrava-se nas mãos de Sergei e dos Espíritos vingativos.
Apenas a Sra. Norobod ainda mantinha o respeito, para não impedir a invasão de sua mansão, tal era a revolta dos mujiques.
E, se isto acontecesse, Sergei e os dois comandados dele, que se mantinham em guarda, não seriam suficientes para detê-los.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 14, 2016 9:13 pm

21 - Kóstia

Nos campos de centeio da fazenda, a realidade era outra: os mujiques conversavam animadamente, ou melhor, muito revoltados.
Sumarokov ouvia-os, sem interromper, avaliando suas reclamações.
Muitos tinham razão.
Eles traziam em si a força que dá vida ao homem do campo que, embora massacrado pela luta, de repente, busca na tentativa em modificar as coisas, coragem suficiente para enfrentar a adversidade ou, se preciso for, dar a vida por um ideal.
Um homem, ainda moço, conservando os traços nobres, mas muito mal tratado pela vida difícil, liderava a conversa e todos o ouviam, como se nele estivesse a libertação da amarga servidão de seus filhos... do povo russo.
Era o camarada Kóstia, que começava a despontar, convidando os mujiques para um regime cooperativista, na tentativa de melhorar suas condições de vida.
Era um idealista, cujas ideias agradavam à maioria, sendo, às vezes, mal interpretadas.
Entretanto, seu poder de persuasão e sua simpatia, estavam conquistando novos adeptos ao seu ideal.
De onde este moço tirava tantas ideias que pareciam a salvação da Mãe Rússia?
Kóstia, porém, não estava só, atrás dele figuravam outros revolucionários que não apareciam:
professores, médicos, intelectuais, alguns filhos da aristocracia.
Kóstia contagiava a todos com seus discursos.
Ele próprio era a imagem do entusiasmo e vigor.
Sua coragem e inteligência brilhavam em seus olhos, retractando o homem Invulgar que viera para desacreditar o velho regime que balançava o solo da Santa Rússia.
Suas reuniões eram feitas ocultamente, disfarçadamente...
Ninguém suspeitava, por enquanto.
Sumarokov também participava destas reuniões.
Após estas reuniões, Sumarokov ficava mais revoltado contra esse regime que explorava o trabalho de camponeses e enriquecia os patrões.
Sabia como seus amigos eram maltratados e discriminados, sem direito a nada.
Recebiam como paga a alimentação e uma desconfortável cabana para morar.
No inverno, precisavam implorar lenha e agasalhos e jamais os filhos de mujiques tinham acesso à escola.
Os filhos cresciam tão analfabetos e revoltados quanto os pais, enquanto os senhores das propriedades passavam sorridentes em suas tróicas luxuosas, ricamente trajados.
O pior, não era o luxo que ostentavam, mas o tratamento desprezível, considerando os mujiques como se fossem animais.
Os senhores da terra tinham pleno direito sobre suas vidas.
Viviam escravizados porque não tinham outra opção.
Os russos que não prestavam mais para o trabalho e as crianças doentes, desapareciam misteriosamente.
As mulheres mais bonitas e sadias eram levadas para servir aos senhores e seus comandados mais dilectos.
O prazo de dez anos, estabelecido pela lei do lugar, era a época mais dura para os trabalhadores, que sofriam total agressão aos valores humanos.
A revolta era tão grande que Kóstia surgiu no meio deles, como um salvador, o Cristo Redentor.
Pior do que a pobreza e a tirania dos senhores, era a traição de alguns, que denunciavam os próprios companheiros, na ânsia de conquistarem as graças do patrão.
Tristes ocasiões em que o solo branco da Mãe Rússia se tingia de vermelho com o sangue injustamente derramado.
Muitos mujiques percebiam que Kóstia estava com a razão, e que suas ideias constituíam um roteiro seguro para libertá-los daquele cativeiro infernal.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 14, 2016 9:14 pm

Prestavam atenção em seu discurso:
- Camaradas, filho de mujique não tem direito à instrução, cresce como indigente e morre como animal.
A vergonha assola nossa terra.
Por quê? É o destino?
É a vida que assim o quer? Não, nada disto.
É o comodismo, a ignorância, a superstição, o medo que nos faz tremer e nos entregar a regime tão absurdo que ceifa as nossas mais caras esperanças.
A falta de dignidade humana transformou os russos em escravos.
Nós somos a maioria.
Sem nossos braços, os boiardos17 não comem, sem nosso trabalho eles não constroem suas mansões e palácios, não viajam, não se trajam com luxo e nem se utilizam de ricas carruagens para seu transporte.
E o pobre mujique tem que construir seus trenós e suas carroças desconfortáveis ou, por falta de madeira, patinar sobre velhos paus, colocando em risco sua vida.
Ou pior, enfrentar a pé as distâncias.
E nossas moradas? Nesta altura, Kóstia fez uma pausa, o silêncio era total.
Continuou:
- Camaradas, o único jeito de mudar esta situação e reverter tal disformidade é unirmo-nos, em tomo dos ideais daqueles que já começaram a alimentar dentro de si a esperança de reformas sociais.
Avante, camaradas!
Armemo-nos de coragem e de fé!
- Como fazer, camarada Kóstia, para que repartam connosco mais alimento? - interrompeu um trabalhador que acompanhava, atento, o discurso.
- Toda a mudança exige o sacrifício de alguns mais ousados; disponho-me a chefiar a primeira cooperativa, que ora passarei a explicar.
Antes é necessário que se conscientizem dos horrores perpetrados no solo da Pátria Rússia, das torturas e maldade a que nossas famílias foram submetidas.
Quais de vós conseguiram atingir os dez anos, com direito a uma pequena isbá e a um pedaço de chão como garantia de sobrevivência?
O silêncio foi geral.
Ninguém teve coragem de responder.
- Pois bem!
Já analisaram as razões porque não o conseguiram?
Os mujiques continuavam de cabeça baixa, sem ousarem encarar o camarada Kóstia, considerando sua observação correta.
Ninguém, ali, havia conseguido o almejado quinhão.
Sumarokov levantou-se e respondeu a Kóstia:
- O direito à terra e à moradia é uma ilusão, camarada Kóstia.
Nestes anos de luta, já vi mujique desaparecer da noite para o dia, sem ninguém saber de seu paradeiro, enquanto a mulher e os filhos ficam à mercê da sorte.
Somos tratados como animais no pasto.
Animado com o apoio de Sumarokov, Kóstia endereçou-lhe inteligente olhar; pelo menos, alguém arvorava-se com coragem, a apontar suas dificuldades.
Os outros, de tão pobres e subjugados, nem ousavam pensar, acreditando que tudo o que lhes acontecia era pura obra do destino.
Viviam aparentemente conformados, mas dentro de seus corações cultivavam ódio e desejo de vingança, apesar de ignorantes e submissos às mais absurdas maldades.
Temiam por si e por seus filhos.
Receavam piorar as coisas.
Aquelas reuniões que Kóstia promovia despertavam neles a vontade de lutar para modificar destino tão cruel.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 14, 2016 9:14 pm

Começaram a despontar, em um ou outro mujique, sentimentos de revolta e de adesão às ideias comunistas.
Quando, nos campos de lavoura, os mujiques sabiam que Kóstia viria falar-lhes, a faina tornava-se mais leve porque, finalmente, surgia alguém que se interessava por eles.
E todos ficavam mais alentados.
Kóstia era visto como um líder e, sua palavra, a salvação.
Aquelas reuniões secretas animavam os pobres mujiques e lhes traziam a sensação de uma importância que jamais tiveram.
Os mais temerosos eram logo convencidos pelos mais audaciosos e todos acalentavam o desejo de saírem do cativeiro.
Kóstia devolvia-lhes a alegria e a esperança de uma vida melhor.
Mesmo os mujiques que conseguiam obter um pedaço de terra, por menor que fosse, nunca se safavam do regime bárbaro de seu senhor, porque todo o seu trabalho continuava dependente de sua força maldosa.
Após alguns anos, ou até menos, o mujique era obrigado a devolver ao patrão o que havia conquistado, porque não dispunha de tempo para cuidar de sua propriedade.
Não adiantava colocar os filhos pequenos para auxiliarem na faina e melhorarem de vida, porque, quando cresciam, eram submetidos ao trabalho forçado, comendo o estritamente necessário.
Jamais conseguiam chegar à independência.
Kóstia fizera um levantamento dos pequenos proprietários e analisava sua pequena produção, estudando os meios para a concretização da cooperativa que, em outros lugares por ele visitados, estava dando bom resultado e muitos deles, ganhando autonomia.
O moço corajoso enfrentava a ignorância do povo e dedicava sua vida ao ideal.
Kóstia relacionava-se bem com os intelectuais, alguns deles filhos de aristocratas que, sensibilizados pelas novas ideias que iam surgindo na capital, discordavam do regime autocrata e almejavam mudanças.
Eram os idealistas, filhos da burguesia aristocrata, que haviam empobrecido, prestes a entrarem, também, na servidão.
Outros o faziam por puro sentimento humanitário, discordavam da atitude dos pais e pendiam para a classe operária, sempre incógnitos.

17 Designação dada aos aristocratas russos que se seguiam, na hierarquia nobiliárquica, aos príncipes reinantes. (N. da E.)
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

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22 - Alex Norobod, um Idealista

A vida na propriedade Norobod mudara sensivelmente com a presença do professor Semlón, que se encontrava naquele fim de mundo, a convite de Alex, filho de Norobod.
Conheceram-se na Universidade e fizeram amizade.
Semlón aparentava ser um moço afectado, mas na verdade, viera de uma classe de mujiques arruinados.
Conseguindo estudar, devido a seus dons artísticos e intelectuais.
Sobressaiu-se tão bem, que conquistou a simpatia dos professores que, logo o convidaram para ensinar.
Desejando voltar às origens, Semión, farto da cidade, aceitou o convite de Alex para ir trabalhar para sua família.
Ambos, no entanto, haviam combinado que seria melhor ocultarem sua amizade.
Semión possuía ideias semelhantes às de Kóstia e, para esconderem suas verdadeiras intenções, decidiram que Semión viria primeiro, depois Alex .
Alex fazia-se passar por um boémio irresponsável, para melhor defender seus Ideais revolucionários.
Quando o filho de Norobod desaparecia do cenário, o pai e a família julgavam-no em cruzeiros pela Espanha.
Suas viagens, porém, eram totalmente diferentes.
Alex era conhecido, por todos os mujiques, como Iahgo, e ninguém suspeitava que ele fosse filho da aristocracia, e... pior, do temido Norobod.
Alex, Semión e Kóstia queriam implantar suas ideias revolucionárias e libertar os pobres mujiques da condição servil e, para isso, arquitectaram ardiloso plano, em sigilo absoluto, defendendo-se da ira dos senhores de terras.
Depois de alguns meses, quando o professor já ministrava aulas, por ocasião do aparecimento do fantasma que ameaçava a saúde da filha do mujique Sumarokov, Alex surgiu novamente, no cenário da fazenda, com seu modo despreocupado de bon vivanti, boémio da aristocracia, que não pensava em outra coisa, senão em gozar a vida e gastar o dinheiro do rico pai.
O elegante rapaz conversava animadamente com a mãe, quando esta lhe apresentou Semión, o novo professor de Sácha.
Ambos, fingindo se verem pela primeira vez, cumprimentaram-se discretamente.
- Finalmente, temos alguém para quebrar a monotonia deste palácio! - elogiou a feliz ideia do pai, enchendo uma taça de bebida.
Sónia, com a chegada do marido, nem se abalou.
Interessada em conquistar a atenção de Semión, procurou ficar mais perto de Alex, que conversava animadamente, num canto, com o professor.
À presença de Sónia, eles mudaram de assunto e passaram a comentar sobre o último aparecimento do fantasma, facto que interessava muito a Semión, que desejava conhecer a opinião de Alex.
Aquela conversa deprimia Alex, pois sabia-o fruto da maldade do pai.
Esvaziou a taça de uma vez e a encheu novamente, sem perceber que seguia o mesmo caminho do pai.
A bebida já alterava seu comportamento e, logo, completamente embriagado, fadava em Sácha, sua querida irmãzinha.
A maldição também recaía sobre ele.
A festa de comemoração da chegada de Alex terminou como sempre:
pai, filho e convidados embriagados.
A Sra. Norobod ficava ainda mais desolada, pensando em sua menina adorada, que Jamais retornaria a seus braços.
Sentia-se muito só com a atitude do esposo e do filho, que nem se dava ao brio de corrigir a leviandade de Sónia.
Tais comportamentos deixavam-na mais deprimida do que nunca.
Por isso, frequentemente ia à isbá do cercado para conversar com Catienka e ver Mayra.
Lá, pelo menos, ela respirava um ar mais suave e equilibrado.
Aquela menina, a cada dia, mais se parecia com sua Sácha.
Como ambas se assemelhavam!
A pobre mulher procurava cercá-la de todo o conforto possível, levando-lhe comidas, agasalhos, alguns móveis, brinquedos, enfeites para o cabelo.
Sua atitude acabou por atrair a atenção de Norobod.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 15, 2016 10:14 pm

23 - Norobod e o Fantasma

Certo dia, o temido Norobod decidiu verificar com os próprios olhos, se os comentários sobre sua mulher eram verdadeiros e desceu até o cercado que não ficava muito longe de sua morada.
Amanhecera, naquele dia, menos trémulo e mais disposto; auxiliado por um servo da casa, foi caminhando lentamente até a isbá do cercado que, desde a morte de sua filha, ficara fechada, porque fora lá, exactamente na cabana, segundo Sergei, que ela e o tal mujique se encontravam às ocultas.
Ele nunca mais passara por ali, e nem gostava de olhar para o lado da cabana.
Havia muitos meses, Sumarokov e a família residiam nela.
Primeiramente, foi constatar pessoalmente se os boatos de Sergei eram verdadeiros e, em segundo lugar, queria conhecer a filha de Iulián Sumarakov que também vira o fantasma de sua filha.
O velho saíra às escondidas, apoiado numa rica bengala e no servo.
Era cedo. Sumarokov encontrava-se na lida e os filhos mais velhos estavam com o professor Semión.
Ficou parado em frente à isbá, observando os melhoramentos que seu empregado havia feito.
Ele tinha que convir, Sumarokov era um mujique muito esperto, trabalhador e educado.
Interessado nos melhoramentos que modificaram totalmente o lugar, observou o quintal, as aves que Sumarokov criava, algumas renas e ovelhas guardadas numa espécie de abrigo que ele construíra somente para elas.
Ali se respirava simplicidade, asseio e conforto.
Enquanto Norobod inspeccionava a isbá por fora e sua redondeza, Catienka ouviu o barulho e olhou por uma greta da porta o temido senhor da terra.
Assustada, passou o trinco na porta com cuidado e ficou quieta.
O velho retomou o seu caminho de cabeça baixa, estava muito alquebrado.
O velho senhor, curioso, passou a observar a família de Sumarokov, sem contudo ter coragem de abordar a menina, que lhe lembrava sua desventurada Sácha Alexnovitch.
Parecia que algo o impedia de lhe falar, mas com sua esposa, o mesmo não acontecia.
A mulher vinha demonstrando claramente sua alegria, quando voltava da isbá, e ele desconfiava que tal felicidade vinha da convivência com a família Sumarokoviski.
Intrigava-o saber que sua mulher dispensava tamanha atenção a uma família de mujiques.
Eles eram orgulhosos e não se misturavam com os empregados, considerando-os bárbaros, analfabetos e preguiçosos e que deveriam ser tratados como cães.
- Maria, sei que vais com frequência à casa dos Sumarokovisk, podes dizer-me o que tanto te atrai?
- Ainda não viste como são esforçados e educados estes mujiques?
- Sim, eu sei.
Mas tivemos outros também, assim, e nem por isso te aproximaste desta maneira!...
O marido tinha razão e Maria Norobod não sabia lhe dizer o motivo real que a levava a sentir-se tão bem indo à isbá do cercado.
Depois de meditar um pouco, aventurou-se em passar ao companheiro o que realmente havia encontrado naquela pobre família.
- Norobod, já viste a filha de Sumarokov?
É o retrato vivo de nossa Sácha quando tinha sua idade.
Norobod teve um choque e arregalou os olhos.
- Que dizes, mulher, nossa filha está morta, enterrada!
- Mas ninguém sabe o que aconteceu naquela noite, na verdade! - disse a Sra. Norobod testando o marido, porque evitavam falar em tal assunto, para não levantarem entre eles a desconfiança e a lembrança do triste episódio que gostariam de esquecer, e que tanto lhes marcara as vidas.
Norobod fechou o semblante e resmungou, contrariado:
- Referes-te ao bastardo?
- Sim, Norobod, refiro-me à nossa neta.
Nunca me disseste o que fizeste dela!... - Maria Norobod estava exaltada e se tomava corajosa perante a fragilidade do esposo, ao ponto de abordá-lo friamente, fitando seus olhos vermelhos.
Poderia ser nossa neta!
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 15, 2016 10:15 pm

- Porque estás, agora, preocupada com tal sorte, se nem mesmo eu o sei! Ela morreu!
- Onde então está seu corpo?
Ela desapareceu!
Maria Alexandróvna Norobod estava cansada de saber que seu marido tinha culpa naquela tragédia e que fora ele o único causador de tudo; por pura piedade, ela não o abordava, vendo que ele não respondia plenamente por suas atitudes.
Norobod, o temido senhor, não passava de um velho caquéctico, trémulo e bêbado.
Aquela criança que surgira no cenário da fazenda, cuja semelhança com sua filha era incontestável, dava-lhe coragem para afrontá-lo.
E o assunto, coberto em cinzas, tomava, entre eles, grande proporção; a ela, por necessidade de saber exactamente o que acontecera à filha de Sácha, a ele, por ter que prestar contas de um gesto que lhe pesava na consciência, consciência culpada que tentava sobretudo afogar na bebida.
- Norobod, preciso saber o que aconteceu!
A quem autorizaste o desaparecimento de nossa neta?
Foi Sergei, ou estarei enganada?
O marido foi ficando pálido, não conseguia articular palavra.
Alguma coisa estranha estava lhe acontecendo.
Nervosa, a mulher falou alto:
- Estás surdo?
Estou falando contigo!
Norobod continuava calado, seu cérebro parecia bloqueado, suas mãos estavam trémulas e a febre nervosa logo o agitou por Inteiro, sobrevindo um terrível acesso epiléptico.
O velho tombou.
Tentou erguê-lo, mas não conseguiu.
Vendo-o estrebuchando no chão, teve medo e saiu correndo atrás de socorro porque, ao cair, batera com a fronte no assoalho e estava ensanguentado.
Seu corpo havia enrijecido, as mãos crispadas, ele se contorcia no chão, babando.
Era um quadro horrível.
Aquilo parecia o fim.
Ao cabo de poucos minutos, todos correram para acudir o pai.
Alex, ajudado por um servo da casa, levou-o para a cama.
O velho estava paralisado, demonstrando que, além do ataque epiléptico, sofrera também, uma embolia cerebral.
O caso era grave e Alex tratou de buscar o médico.
O médico pouco pôde fazer:
caso Irreversível, característica de um derrame cerebral com graves sequelas.
Norobod passou semanas sem se manifestar.
Sabiam que continuava vivo, porque respirava e gemia.
Seu estado era deplorável.
Ele nunca mais articulou palavra, somente os olhos se moviam, porém a ninguém mais reconhecia.
O fantasma de Sácha estava ali com ele e sua presença aumentava o seu desespero.
Queria falar, fazia tentativas e seu esforço o extenuava, lágrimas desciam de seus olhos apagados e vermelhos.
Passaram-se, desde a queda fatal, algumas semanas, em que a família se revezava junto ao doente.
Norobod não suportou o choque ao saber que sua neta poderia estar viva, pois julgava-a morta, conforme fora sua ordem.
Aqueles acontecimentos que ele procurava por toda maneira esquecer, voltavam à tona.
O choque paralisou-o por Inteiro, e sua consciência martelava tanto, que ele não suportou mais e acabou por desencarnar no maior desespero e sofrimento.
Tempo em que o Espírito de Sácha não o abandonava, causando-lhe Intensa amargura.
Queria pedir clemência para seu Espírito e não conseguia.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 15, 2016 10:15 pm

Ninguém podia ajudá-lo.
Norobod nem sequer teve o alívio de rogar perdão por seus erros.
Ele, agora, iria comparecer ao Plano Espiritual para prestar contas a Deus dos actos insanos perpetrados contra pobres mujiques e contra sua filha Sácha.
Levava, também, para o túmulo o segredo do desaparecimento de sua netinha, que ele havia ordenado matar.
Ninguém pranteou a morte de Norobod, nem mesmo seus descendentes.
Somente Maria Norobod, sua viúva, derramava lágrimas discretas, chorando sua desdita e não a própria perda.
Libertava-se de um ser maldoso e insensível ao sofrimento humano, causador de toda a sua desventura.
A caridade mandava que se rezassem muitas missas em suas intenções, e ela pagou várias comemorações na igreja conforme a tradição.
Quanto mais círios e missas rezadas, mais o defunto encontrava a salvação.
O dinheiro de Norobod servia apenas para enriquecer o padre.
Porém, tudo isso não passava de ilusão para a família e de ironia para os mujiques que viam no facto apenas mais um desrespeito a Deus.
Sergei, mais temido que o patrão, acompanhou as exéquias junto à família, porque ninguém mais do que ele era conivente com as atitudes de Norobod.
Alex assumiria o destino das terras do pai, como único varão da família e legítimo herdeiro.
Os mujiques estavam agora, totalmente entregues ao comando de Sergei.
Muitos, em sua ignorância, acreditavam que ele era o dono das terras.
Há muito tempo, Sergei, aproveitando o desequilíbrio de Norobod e a ausência do filho, fazia-se passar pelo patrão, sendo temido e respeitado.
Quando os servos souberam que Alex era o filho do patrão e o responsável pela propriedade, acalmaram-se, pressentindo melhor sorte.
Todos torciam para que Sergei fosse demitido.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 15, 2016 10:15 pm

24 - Sergei e os Servos

Sergei, no entanto, urdira ardilosa trama e trabalhara de tal modo em benefício próprio, que possuía propriedade quase tão grande quanto a dos Norobodvlski.
Aliciara alguns camponeses vingativos que mantinha sob seu Inteiro domínio e estes, por sua vez, dominavam os pobres mujiques Ignorantes.
Durante os últimos anos, a insanidade de Norobod favoreceu seus planos.
Aos poucos, separou sua propriedade com cercas, anexando-lhe outras áreas roubadas aos mujiques que tinham adquirido pelo trabalho de dez anos, dando fim a eles e às famílias.
Desse modo, seu património foi-se ampliando, utilizando a mão de obra dos empregados de Norobod para as plantações.
Não havia lei que regulamentasse tal situação, tornando-a favorável a Sergei, que possuía legalmente os bens assinados por Norobod.
Os servos nunca sabiam quem era realmente o patrão, porque quem manobrava tudo era o capataz e com tal desenvoltura e segurança, que não despertava desconfiança.
Muitos o viam como o próprio Norobod.
Sabendo-o morto, começaram a sentir que eles também tinham sido ludibriados.
A servidão havia terminado, mas alguns proprietários continuavam a se utilizar do mesmo método, e muitos mujiques Ignorantes persistiam em receber alimentos e moradia, ao Invés de salários.
A fazenda Norobod era típica, a servidão havia sido abolida e eles continuavam subjugados ao antigo regime, ignorando a lei que os libertara.
Esta era, justamente, a revolução que Alex, Semión e Kóstia propunham aos mujiques que se mantinham, por medo ou ignorância, ainda em regime de servidão.
Alex Alexnovltch Norobod estava agora assentado na grande escrivaninha de seu pai, examinando alguns documentos, quando Sergei entrou.
Nunca simpatizara com o feitor, porém respeitava a decisão paterna.
Tinha primeiro que se inteirar da real situação dos negócios, para depois deportá-lo.
- Assenta-te, Sergei - convidou o moço.
Há muito, Alex queria ter uma conversa com o feitor, mas sua vida distante da fazenda e a amizade que seu pai parecia lhe devotar, o impediram, em todo este tempo, de aproximar-se do asqueroso empregado.
Sergei era tão sagaz que nem mesmo Alex, com toda a sua inteligência, podia dominá-lo.
O homem viera armado de argumentos para se defender de possíveis represálias por parte do filho de Norobod.
Alex tentou afastar a repulsa que sentia pelo empregado, controlando-se, porque precisava dele, ou melhor, tinha que mantê-lo por perto, até o momento apropriado, para expulsá-lo de suas terras, simulando interesse em mantê-lo na fazenda.
- Sergei, de hoje em diante, terás que me prestar conta de todos os actos relacionados à propriedade.
Logo mais, iremos verificar os limites que medeiam as terras Norobod e os empregados que vivem com suas famílias, em regime de servidão.
Como se já esperasse por isto, Sergei colocou-se à disposição.
Era hora de prestar contas das irregularidades por ele tramadas, mas nada temia, pois possuía todos os documentos legalmente assinados por Norobod.
Não havia lei que lhe tirasse a propriedade.
E, se preciso fosse, ele usaria de seus métodos com aquele gravatinha que ousava, agora, interferir em seu comando.
- Está bem, Sr. Alex, como quiseres.
- Prepara os cavalos.
- Não preferes a tróica, senhor? - perguntou ironicamente, pois jamais vira Alex montar um animal.
- Cavalos - respondeu secamente o moço.
Sergei saiu pisando o assoalho de madeira com mais força que o habitual e, ao sair, cruzou com Sónia que entrava.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 15, 2016 10:15 pm

Deu-lhe um olhar cúpido, porque era um dos homens que andava com ela.
A atitude de Sónia, em relação aos homens, muito contribuía para desautorizar Alex, que era considerado um homem fraco, sem pulso até com a mulher, que, na ausência do marido, ou mesmo estando ele na fazenda, não perdia oportunidade para desrespeitá-lo.
A atitude dela, embora visível a todos, deixava Alex indiferente.
Não amava a mulher e, qualquer dia, acabaria por vez com a desagradável situação que lhe manchava a honra.
O moço preferia passar pior embriagado e irresponsável a assumir de uma vez o papel de marido traído, estratégia que ele usava para disfarçar o movimento a favor da libertação dos mujiques, do qual era um dos líderes.
Sónia não estava acostumada com a presença do marido na fazenda e estranhou o facto dele ter se levantado pela madrugada para examinar os papéis.
Apesar dos maus hábitos e de sua leviandade, ela não era pessoa ignorante.
Possuía boa instrução, mas não sabia utilizar seus dons e, desgostosa com o pouco caso que Alex lhe dispensava, revidava com um procedimento irreverente.
No fundo, ela sofria com seu desinteresse.
Ambos mal se falavam, mas agora estavam assentados frente à frente, olho no olho.
Todos na casa, ainda estavam impressionados com o rápido e inesperado desfecho de Norobod e, mesmo depois das exéquias, existia no ar uma certa indagação, indagação a que Alex respondia com grande interesse, com uma nova atitude, que surpreendia a todos.
O moço, antes, despreocupado e desligado dos negócios do pai, agora assumia o comando de tudo, levantando-se cedo e se dedicando a visitar todas as áreas do império deixado pelo rico Norobod.
Sónia, apesar de não respeitar sua condição de esposa, tinha-lhe consideração, pois sempre fora tratada pelo marido com educação, embora friamente.
Alex não lhe permitia uma aproximação afectiva de modo que, agora, ambos pareciam dois estranhos, frente à frente, em silêncio glacial.
Foi ele quem quebrou o gelo.
- Sónia, de hoje em diante, quero que assumas teu papel de esposa, auxilies minha mãe na gerência da casa e te dediques mais à educação de Sácha, acompanhando os estudos que o professor Semión lhe ministra.
O tom do marido era tão severo, que ela se assustou, como se nunca tivesse visto tal homem, aliás, era a primeira vez que ele falava assim, com tamanha autoridade.
Os olhos de Alex tinham um novo brilho e ela nunca havia percebido como eram bonitos.
Aquela conversa deixou-a totalmente sem resposta.
Seu tom de voz suave e autoritário não lhe permitia argumentar, mas executar suas ordens.
Mexeu-se na poltrona sem entender o que estava acontecendo, quis balbuciar alguma coisa, a voz ficou presa na garganta.
Alex, percebendo seu embaraço, condoeu-se, modificando o tom autoritário da voz.
- Estás precisando de alguma coisa?
- Não, não.
- Espero que tenha ficado claro o que te disse.
- Claro, claro.
- Nada tendo que pedir, deixa-me só, pois tenho inúmeros documentos a examinar.
Sónia saiu encabulada com a nova atitude do marido e um pouco envergonhada de si mesma.
Aquela súbita autoridade deixava-a sem reacção, ele a tratava como se ela lhe fosse inferior.
Não sabia pensar qual seria o melhor tratamento; antes com pouco caso, ou agora, com total desprezo.
E, a coquete mulher passou o dia pensativa e sem graça, como se a tivessem desarmado.
Sua atitude não passou despercebida à sogra.
O que afinal tinham os esposos conversado, para que Sónia perdesse sua espontaneidade e alegria?
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 15, 2016 10:16 pm

25 - Nem tudo que se apresenta é verdadeiro

Novo capítulo começava para a grande propriedade dos Norobodviski.
A expectativa dos empregados era grande e todos torciam para que Sergei fosse dispensado de seu posto.
Os dois homens agora percorriam, a cavalo, a propriedade.
Alex montava tão bem quanto Sergei, para espanto deste.
Um dia não era suficiente para percorrerem todas as terras e as plantações de centeio, trigo, girassol e beterraba açucareira.
À passagem do patrão, os mujiques faziam profunda vénia e só se levantavam depois que ele havia passado.
Ao verem seu novo senhor, diziam:
- Súdar, súdar...
Era tardinha quando retomaram à casa, não demoraria e o tom avermelhado no horizonte seria tragado pela escuridão.
Alex observou os pobres mujiques voltando da faina, carregando suas ferramentas.
Notou que eles se desviavam quando avistavam Sergei, pois desconheciam Alex e não sabiam que se tratava do seu novo dono.
Os domínios de Norobod perdiam-se de vista.
Alex pensou na possibilidade da divisão de terras e nas dificuldades que enfrentaria.
Seus planos poderiam melhorar tudo, ou piorar.
Ele poderia sim, em suas próprias terras, fazer prevalecer seus ideais de justiça, embora soubesse que aquela briga seria a ferro, sangue e fogo.
Ele seria exemplo, mas e os outros senhores, por não desejarem mudanças mandavam saquear as plantações vizinhas, provocando, assim, a ruína das terras, relegando os servos à fome e a outro tipo pior de miséria, à falta de trabalho.
Como seu pai conseguira amealhar tanto chão?
Terras que se perdiam de vista na vasta planície e aqueles pobres mujiques que se mantinham totalmente subservientes, como animais de carga.
Por quanto tempo os camponeses ficariam dominados por um regime absolutista?
Sergei, observando a calma do rapaz e sua distinção, nada lhe disse sobre a metade da propriedade que lhe pertencia.
Ele também tinha paciência, saberia no momento certo fazer prevalecer seus direitos e sua autoridade perante os mujiques que trabalhavam em suas terras, mantidos por Norobod.
Deixasse o moço continuar apensar ser o dono absoluto.
Alex, inocentemente, não desconfiava que percorrera pouca coisa além da metade das terras que o pai lhe havia deixado.
À noite, Alex e Semión conversavam animadamente.
As mulheres tinham se recolhido e agora podiam falar de seus projectos sem interrupção.
- Percorri as terras, camarada.
Jamais pensei que nosso império fosse tão vasto!
- És um poderoso latifundiário, Alex, por ironia do destino - sorriu Semión.
- Nada disto tem valor para mim, Semión, excepto o direito de aplicar na prática o que temos discutido em teoria, mas para tal se efectivar, temos que começar a valorizar o pobre mujique que vive, com sua mentalidade, no século passado.
Constatei isso, hoje, ao vê-los como animais que voltam do pasto ao entardecer, para suas isbás imundas.
Pobres criaturas convertidas em animálias pelo poder, e pensar que somos filhos da mesma pátria, donos, também, do solo fértil da Mãe Rússia! - disse o aristocrata saturado das ideias comunistas.
- Terás coragem, Alex, converter tua propriedade em trabalho assalariado e com direitos iguais?
- Semión, meus argumentos não são em vão, nem minhas ideias, ilusão.
Sempre sonhei com a igualdade, desde criança!
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 15, 2016 10:16 pm

O professor admirava o amigo, sua audácia, inteligência e coragem, porque ele, igualmente idealista, nada tinha a perder, era apenas um professor, filho de mujiques que chegaram a possuir pequena propriedade, tornando-se depois arruinados.
Não possuía bens materiais, apenas a esmerada educação que recebera e lhe facultava o ganha pão com dignidade, suas conferências e publicações em jornais, que enviava à capital.
Para ele, era fácil ser um revolucionário.
- Quando se tem a perder materialmente, a coragem tem que ser redobrada, Alex, admiro-te sim, em levares avante teu plano.
Quanto a mim, nada tenho a perder, despojei-me por forças das circunstâncias, até de um título de nobreza que me ofertaram, para atender a este ideal, que com certeza haverá de consumir meus dias...
Libertar o povo russo da ignorância e do analfabetismo.
- Está aí, um grande mérito.
Considero-te mais rico que o proprietário de todas estas terras.
Não queiras, meu caro, jamais conhecer a procedência de tal império.
Há factos que me intrigam e não sossegarei enquanto não me inteirar de tudo.
- Como assim, Alex?
- Coisas... acontecimentos, Semión, que envolvem a morte de minha irmã e o desaparecimento de sua filha nascitura.
Alguém irá responder por este crime, isto eu te prometo! - dizia o herdeiro com o punho fechado, denotando mágoa em seu coração.
- Por falar neste trágico acontecimento, Alex, meu mestre enviou-me correspondência, informando que, brevemente, chegará aqui o mago Dmitri Nabor.
Lembras-te dele?
- Aquele mestre alorpado?
Manténs-te, ainda, em comunicação com ele?
- Sim, ele mesmo. Estamos sempre em contacto...
- O que ele tem feito nestes últimos tempos?
- Tem-se aprofundado no ocultismo e na hipnose, aliás, temas que também me apaixonam; diríamos que ele se tornou um caça-fantasmas, um magnetizador de mentes que vivem à beira da loucura, como moças nervosas sujeitas a crises histéricas.
- Não me digas que o professor assumiu de vez, tais ideias combatidas pelos cientistas catedráticos!
Ó,ó,ó, - Alex soltou uma gargalhada, ao se recordar das intermináveis discussões que as atitudes do professor Dmitri fomentavam na Universidade.
Ele está sempre nos surpreendendo com seus argumentos...
- Não somente as assumiu, mas firma suas teses em bases científicas, procurando comprová-las.
Sua tese tem conquistado muitos inimigos e atraído infinitos admiradores.
Corresponde-se com adeptos destas ideias em outros países, ampliando e fortalecendo seus argumentos.
Estou ansioso para que ele chegue.
Tomei a liberdade de convidá-lo, espero que não cause má impressão à tua mãe.
- Pelo contrário, Semión, poderá muito ajudá-la.
Se ele tem domínio sobre os Espíritos, talvez possa terminar com as crendices por aqui espalhadas.
Pior que a condição servil é a tal crendice que cega e gera o fanatismo supersticioso.
Alex e Semión ainda conversaram até tarde, sem suspeitarem que mais alguém acompanhava seus diálogos; era Karine, uma serva da casa, amiga e amante de Sergei, que ficara ali, propositadamente, para vigiar os dois amigos e os passos de Alex.
A mulher não perdera uma palavra do diálogo entre os dois e no dia seguinte relatou tudo ao companheiro.
Era assim que Sergei se mantinha informado de tudo quanto acontecia na mansão Norobod.
Karine era sua mais fiel testemunha dos factos que ali sucediam e das decisões tomadas.
Jamais alguém desconfiara dela, porque além de hábil actriz, sabia disfarçar com maestria sua ligação clandestina com o feitor.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 15, 2016 10:16 pm

Apresentava-se modesta, servil e nunca abria a boca para dizer qualquer coisa, mas seus olhos!
Ah! Seus olhos verdes pareciam duas tochas de fogo, tão vivos e expressivos!
A espiã ocupava quartos destinados aos serviçais e acalentava a ambição de, um dia, ser a dona daquela mansão.
Pertencia à classe das pessoas que não perdem por esperar, sempre cautelosa, agindo na surdina, aguardando o momento exacto para atacar.
Era assim que os dois alimentavam sua paixão pelo poder, usufruindo de longa convivência clandestina, a custo de intriga, maldade e do ódio que lhes saciava a alma.
Muitas vezes, as pessoas mais simples e, aparentemente, sem expressão são as que mais compreendem os caracteres à sua volta e os sabem distinguir.
São os mistérios ocultos revelados aos doutos e aos prudentes de que fala Jesus no Evangelho de Matheus.
Assim era a meiga Catienka, cuja simplicidade e modéstia encantava a todos.
A rapariga havia caído nas boas graças de Sra. Norobod, que tudo fazia para tê-la em sua companhia.
Maria Norobod notava a dedicação e a importância da moça junto aos filhos de Sumarokov, o desvelo que ela tinha por Mayra, sem fazer nenhuma exigência, mas acalentava o sonho de que aquela gentil donzela viesse um dia a servi-la como dama de companhia.
A prudente ama dos filhos de Sumarokov, nas poucas vezes que avistara Karine, logo observou que aquela mulher não era confiável e, por mais que ela tentasse se aproximar, Catienka, inteligentemente, colocava uma barreira entre elas.
Fora impossível, durante todo este tempo, uma aproximação de Karine à isbá; aliás os filhos de Sumarokov, sem excepção, pareciam haver tecido uma hábil combinação; para afastarem a aproximação da moça, faziam-lhe brincadeiras de mau gosto e ela acabou desistindo e deixando a família Sumarokov fora de suas bisbilhotices, embora continuasse a observá-los assiduamente, não perdendo nenhum de seus passos.
Após a morte de Norobod, o luto foi guardado conforme a amizade e simpatia do defunto, e no caso Norobod, ele foi logo relegado ao esquecimento.
A vida na propriedade voltava, enfim, ao normal.
Aproximava-se uma data festiva em que comemorariam o aniversário de Sácha Alexnovitch e sua entrada na sociedade local.
A Sra. Norobod, naquele dia, necessitava que Catienka a auxiliasse nos preparativos do Jantar que, logo mais, iria oferecer aos vizinhos e pessoas importantes do lugar.
Mobilizaram o trabalho de algumas mulheres para atenderem ao sumptuoso jantar que seria servido à luz de velas em ricos castiçais prateados.
Enfeites floridos espalhavam alegria e aroma por toda a casa.
Confeccionaram roupas novas para os empregados, a matrona queria que todos se apresentassem bonitos e bem vestidos.
Preparavam o salão de festas para um sumptuoso baile.
As famílias mais importantes e autoridades foram convidadas.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 15, 2016 10:16 pm

26 - A Festa de Sácha Alexnovitch

Sácha Alexnovitch estava em plena adolescência, era uma menina-moça bonita, mas multo espevitada e coquete como a mãe.
Os filhos de Sumarokov, com a morte de Norobod e a ascensão de Alex, cultivavam algumas regalias.
Tinham crescido, tomando-se elegantes rapazes, educados e belos.
Quem os visse agora, altos e bem trajados, falando com desenvoltura, graças às aulas de Semión, nem percebiam que eram filhos de pobres mujiques.
Nicolau, principalmente, se destacava por seus modos delicados e brilhante inteligência, apesar do um tanto afectado.
Sua alma de poeta encantava e estava sempre acompanhado de admiradores que o ouviam interessados.
Nem levavam em conta sua condição humilde, condição esta que Alex fazia questão de ignorar.
Enquanto ele fosse o proprietário daquele lugar, as pessoas tinham que respeitá-lo, mesmo porque a predilecção de sua mãe por Mayra compensava qualquer esforço.
A Sra. Norobod mandara fazer um vestido lindo especialmente para ela usar na ocasião da festa, cobrindo-a de excessivos mimos.
A atitude de Alex, em relação a Mayra, também não era diferente.
A atenção que ele dispensava à menina, causava em Sácha, sua filha, verdadeiro ciúme.
Ela e sua mãe detestavam Mayra que, a cada dia, tomava-se mais bela.
À noite, o salão estava lotado.
Alguns convidados que conheceram a filha de Norobod e ainda se recordavam dela e da tragédia, fizeram comentários sobre a semelhança de Mayra com a morta, julgando que ela fosse sua parente.
Mayra era muito graciosa, auxiliava na recepção dos convidados, servindo algumas bebidas.
Sentindo-se alvo dos olhares, retraiu-se um pouco, buscando Catienka.
- É o retrato vivo de Sácha Norobodviski!
O facto despertou tanto a atenção que Sumarokov pediu a Catienka que a retirasse do salão, contrariando os donos da casa.
- Ela é muito jovem para estar acordada - tentou explicar, receoso e desconfiado.
- Deixa que ela fique, Sumarokov, eu me responsabilizo por ela, nesta noite - insistiu a Sra. Norobod.
- Papacha, deixa-me ficar, estou sem sono... - reclamou.
Contrariado, Sumarokov teve que concordar.
Ele e os filhos permaneciam num canto, afastados, observando a chegada dos donos de terra que se aproximavam em elegantes carruagens e ricos trajes de festa.
O professor Semión e seu mestre recém chegado conversavam num canto da sala e, sem dúvida alguma, o assunto era o que mais empolgava o mago Nabor - fantasmas.
Sónia ainda não havia conseguido envolver o professor nos seus encantos, apesar de suas investidas e de seus olhares indiscretos.
Estava deslumbrante, naquela noite.
Usava um vestido vermelho de veludo que moldava seu corpo bem feito, tomando-a uma bela mulher e seus olhos negros brilhavam como nunca.
Com a ascensão de Alex na fazenda, os homens agora a respeitavam por causa da posição do marido e de sua bondade para com todos.
Sónia sentia-se menosprezada porque os homens da fazenda se desviavam dela, apesar de seus encantos e dos olhares, agora, mais discretos.
Alex a tratava com indiferença e sua vida estava enfadonha e sem graça.
Naquela noite, seu objectivo era conquistar Sumarokov ou Semión.
Tentou aproximar-se, primeiro, de Semión e do mago Nabor, mesmo sendo o mago um tanto velho para ela.
A coquete dama imiscuiu-se na conversa, trazendo na mão uma taça de bebida.
- Oh! que assunto tão interessante os mantém afastados das mulheres?
O mestre e psicólogo Nabor, acostumado à observação do comportamento humano, encantou-se com o modo da moça.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 15, 2016 10:17 pm

Apesar da diferença de idade, ambos poderiam passar a noite conversando, porque ali, na fazenda, Sónia era uma espécie rara, não tinha superstição e falava sobre os fantasmas, tecendo comentários, desprovida de quaisquer crendices ou medos.
Isto encantou o mestre, que a explorou como quis.
Enquanto Sónia contava ao mago tudo quanto sabia sobre o fantasma de Sácha, Semión aproveitou para deixá-los.
- Deixo-te, bela Sónia, fazendo companhia ao mago, não deixes que ele te hipnotize!... - e saiu em busca de novos convidados e novos alunos para a escola pública que tencionavam instalar na fazenda, mas antes, foi expiar Catienka e ver o que estava fazendo.
Tomara-se de encantos pela moça.
Ao atravessar o corredor deparou com dois olhos verdes que o examinavam detidamente.
Era Karine, uma das camareiras do castelo, que já conhecia o moço, seu quarto e suas roupas.
Trocaram significativo olhar, mas Semión, apesar de impressionado com seus olhos, continuou caminhando, como se não a tivesse visto.
Aproximou-se de Catienka que, encostada no parapeito de um balcão, tinha um aspecto cansado.
Ela havia trabalhado muito para que o jantar correspondesse à expectativa de Sra. Norobod.
Semión admirava a simplicidade e a beleza da moça, mas nunca tinha oportunidade de lhe falar.
Ela estava sempre ocupada e parecia não ter olhos para ele, embora notasse que sua presença a perturbava.
Ele nunca sabia se era timidez, ou se ela, na verdade, sentia alguma atracção por ele.
Ele preferia sua companhia.
Nenhuma das moças da sociedade que vieram à festa de Sácha, poderia se comparar a Catienka, que já lhe conquistara o coração.
- Catienka, pareces cansada!
- Adivinhaste, professor Semión, o trabalho na cozinha e a organização das mesas... confesso-te, deixaram-me exausta.
- Senta-te - ofereceu-lhe uma cadeira que estava perto.
- Obrigada, estás te divertindo, professor?
- Muito. É uma bela festa.
Tocavam uma polca e os pares se alinhavam para dançarem.
- É uma pena que estejas cansada, porque ficaria imensamente honrado em dançar contigo, Catienka.
- Não te preocupes comigo, professor, há tantas donzelas da sociedade que gostariam de dançar e não ficaria bem dançares comigo, uma serviçal.
O modo gracioso de Catienka o comovia e nenhuma daquelas moças que estavam no salão, bem trajadas, o interessava, preferia ficar ali, naquele canto, a conversar com ela.
Porém, sua alegria demorou pouco; ia responder-lhe, quando um grito alucinante partiu do lado oposto do salão.
Todos os pares que dançavam pairaram como que por mágica.
No meio do salão, estava o fantasma de Sácha, lívido, ensanguentado... apavorando a todos.
Assim, a festa terminou em gritos e prantos, como se o mundo estivesse acabando.
Ninguém soube como começou, exactamente, a confusão.
A pobre morta, de repente, surgia do nada, procurando alívio para o seu sofrimento.
Não lhe bastava a morte trágica, ela não tinha sossego.
Os convidados foram saindo em silêncio, as luzes da mansão foram se apagando lentamente e, dos convidados, sobraram os que ali estavam hospedados, Inclusive o mago Nabor, que nunca vira espectáculo igual.
Instintivamente, Catienka procurou Mayra, adivinhava que alguma coisa também lhe acontecera.
- Onde está Mayra? - indagou aos seus irmãos.
Ninguém a havia visto.
- Sr. Sumarokov, Mayra desapareceu.
Por mais que a procure não a encontro! - exclamou aflita.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 15, 2016 10:17 pm

E todos passaram a procurar a menina pela casa.
Felizmente havia Lua cheia, sua claridade tomava as coisas mais visíveis.
Nabor estava perplexo perante o inusitado fenómeno.
Ah! não arredaria o pé daquele local, enquanto não tivesse solucionado aquele caso.
Prometia a si mesmo.
Ali estava um vasto campo para suas pesquisas.
Durante algum tempo vasculharam os cómodos da casa, chamando por Mayra. Catienka, seguindo seu instinto foi à isbá, acompanhada por Iulián, o filho de Sumarokov.
Finalmente a encontraram lá.
A menina estava encolhida num canto da casa, vermelha, queimando em febre e delirando desconexamente.
- Meu Deus! Coitadinha...
Minha pobre criança! - exclamava a moça, abraçando-a - como conseguiu chegar até aqui, sozinha?
Mayra estava desfigurada, pálida, olhos encovados, o rosto crispado de angústia.
- É preciso um médico - afirmou Iulián, o irmão.
Não demorou muito Sumarokov entrou em casa.
Logo a isbá se encheu de curiosos.
- Ela tem febre e, com certeza, viu o fantasma - explicou Sumarokov.
O mago Nabor também se aproximou.
- Se me permites, gostaria de ficar a sós com a menina, talvez consiga tirar-lhe este mal.
Sumarokov sabia que ele era hipnotizador e detinha certos poderes, mas não confiava em deixar sua menina nas mãos de um estranho.
- Eu fico!
- Está bem, está bem.
O pai pode ficar, mas peço aos outros que se retirem, por favor!
Retiraram-se do pequeno quarto, mas a Sra. Norobod e Catienka ficaram na cozinha, aguardando um sinal de Sumarokov.
Era quase meia noite e lá fora a Lua continuava tão misteriosa quanto esplendorosa.
Nabor assentou-se à beira da cama, concentrou-se e começou a passar a destra por cima de sua cabeça, contudo, sem tocá-la, depois sobre suas pálpebras.
- Como te sentes, menina?
Mayra não respondia, sua boca estava contraída, como se estivesse com muito medo.
- Não temas, estou aqui para ajudar-te.
A voz grave de Nabor acalmava a tensão de Sumarokov.
O pai buscou uma cadeira e assentou-se.
Ele também parecia estar hipnotizado, suas pálpebras ficaram pesadas.
Nabor, por mais que tentasse, não conseguia acalmar a menina, apesar de utilizar todas as técnicas conhecidas para hipnotizá-la.
Depois de algumas tentativas a mais, conseguiu acalmá-la um pouco, sugestionando-a a adormecer.
Começou a passar um lenço sobre sua fronte suada e recomendou ao pai:
- Deixa que ela fique como está.
Não mexa um dedo para não despertá-la.
Ela dormirá assim até o amanhecer.
Fez a mesma recomendação a Catienka.
Ambos, obedientes ao professor, combinaram em dormir na sala, perto da estufa para não a acordarem.
Nabor saiu da isbá acompanhado da Sra. Norobod, que lhe agradecia a intervenção, explicando-lhe o quanto queria bem àquela menina.
Sónia havia lhe dito que o fantasma era sua filha e passou a lhe dar extremada atenção.
A amargurada mulher encontrou nele um certo alívio e sua presença forte transmitia-lhe segurança e conforto.
O mago passou a explicar os casos que sabia de aparições e como ele agia para auxiliar os Espíritos penitentes, aproveitando para ganhar as boas graças da infeliz mulher.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 15, 2016 10:17 pm

Suas técnicas pouco lhe interessavam, porque aquilo lhe parecia remoto, muito remoto para alentar sua dor, sua saudade, Catienka interferiu modestamente com a grande religiosidade que sua alma possuía:
- Contra a aparição dos Espíritos, a melhor coisa é nossa oração.
Eles somente desejam nossas orações para se acalmarem.
A Sra. Norobod balançou a cabeça concordando com ela, mas Nabor, infelizmente achava que bastava aplicar suas técnicas para que o mal fosse afastado.
Não querendo ofender o professor, decidiu dar-lhe atenção, interessada em buscar uma solução, já que as ideias do pope não a satisfaziam, nesse assunto doloroso.
A Sra. Norobod começou a lhe relatar os acontecimentos mais estranhos que aconteceram com seu marido, desde a morte de sua filha; o desaparecimento da netinha na noite trágica e depois as aparições durante a colheita e a estranha morte do marido, precedida de uma crise epiléptica, após saber que a filha de Sumarokov também via o fantasma de sua filha.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 15, 2016 10:17 pm

27 - A História de Sácha por sua mãe

O mago começou a investigar seriamente a vida daquelas pessoas e os últimos acontecimentos que precederam a morte de Sácha.
Era natural que a Sra. Norobod se esquivasse em dizer-lhe toda a verdade, para ela, muito dolorosa.
Pacientemente, Nabor tentou ainda arrancar-lhe algo mais, antes de recorrer à prática hipnótica, método que ele usava com extrema cautela.
- Sra. Norobod, permite-me mais esta pergunta, cuja resposta irá muito me auxiliar.
Não se trata de curiosidade comum, faz parte do tratamento e da saúde mental daquela pobre menina que, como teu marido, vê os Espíritos e sente-se mal.
Precisamos conhecer a causa desse mal-estar.
Apenas a senhora, com conhecimento da tragédia, poderá ajudá-la.
Faz um esforço, eu sei que é doloroso!...
O mago cientista sabia como tocar em seu coração.
Ela queria tanto bem àquela menina, não poderia se opor em auxiliá-lo, ele parecia agir com responsabilidade.
Então, começou a falar dos factos que lhe eram sumamente dolorosos.
- Fala, Sra. Norobod, haverás de te sentires muito melhor.
Ela teve, primeiro, uma crise de choro, um desabafo por ele provocado.
Prelúdio de toda cura.
Depois foi se acalmando, aos poucos, persuadida pelos argumentos do mago.
A catarse fazia parte da sua libertação.
Tudo se encontrava bloqueado, aquele sofrimento guardado no fundo de sua alma crispava sua vida e lhe tirava toda a alegria.
Finalmente, ela começou:
- Sácha era uma menina tímida e boa.
Quando fez quatorze anos começou a se interessar pelos rapazes, como todas as mocinhas de sua idade.
Fora apresentada a diversos jovens da sociedade e meu marido queria que ela se casasse com o conde Felipe, filho de um antigo nobre, colega de campanha, conforme o combinado entre eles.
Sácha andava tristonha por causa disto e chorava às escondidas.
Temia o pai e nada comentava sobre os seus sentimentos.
Certo dia, encontrei-a conversando com um jovem mujique, recentemente contratado para o trabalho junto com outros tantos jovens e algumas famílias.
Adivinhei logo que minha menina estava apaixonada; seus olhinhos brilhavam de felicidade quando avistava o moço indo para os campos de centeio.
O trabalho dos mujiques começava antes do dia clarear e eles só regressavam à noite, numa vida dura, sem esperanças de melhorar.
Eram vigiados por Sergei, o feitor da fazenda e por alguns de seus capangas para que nenhum deles fugisse.
Estávamos vivendo ainda os últimos dias da servidão, embora aqui, em nossa fazenda, ela nunca tenha deixado de existir.
Muitos permaneceram preferindo receber víveres e moradia, do que o salário, com a esperança de que, no final da década, conseguissem seu quinhão de terra, conforme a lei de nossa aldeia.
A Sra. Norobod fez uma pausa para tomar seu chá, como se estivesse bebendo coragem para continuar falando sobre aqueles trágicos acontecimentos.
Nabor ouvia-a silenciosamente.
A mulher continuou, após tomar o líquido:
- Norobod era severo, extremamente severo com a criadagem, excepto com Sergei em quem ele confiava cegamente e que apoiava, incondicionalmente, todas as suas decisões.
Envolvida com minha lida, pouco ligava para o que faziam em relação às famílias que trabalhavam para nós, e aos servos avulsos que chegavam, diariamente, para o trabalho.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 15, 2016 10:17 pm

Notava Sácha muito animada, à tarde, quando os mujiques voltavam do trabalho.
Ela ficava assentada à porta para ver os miseráveis camponeses passarem:
era sua distracção preferida.
Então, seus olhos se cruzavam com os do rapaz, cujo nome eu não sabia.
O interesse de ambos foi crescendo a ponto de romperem com a classe social que os distanciava um do outro, mas para o coração, doutor, quando o amor é sincero, esta barreira desaparece, foi o caso de Sácha.
Ela estava apaixonada pelo mujique.
Seu pai jamais poderia saber porque, se soubesse, os castigaria duramente.
Jamais permitiria que um mujique ousasse erguer os olhos para sua filha.
Este era o drama de minha bonequinha.
Os dois começaram a se olhar, às escondidas, durante longos meses, diariamente, até que eclodiu entre ambos um amor tão grande que passaram a se encontrar às escondidas, na cabana do cercado, que se encontrava abandonada, onde hoje mora Sumarokov com sua família.
Certo dia, na festa da colheita, costume da região, onde servos e senhores se encontravam para a comemoração do dia da colheita, o casal enamorado já estava ansioso por se ver.
Ninguém ainda desconfiava do seu relacionamento que acontecia à noite, no maior sigilo.
Porém, um coração de mãe tudo descobre, eu tinha dó de minha filha, mas ela se esquivava em me contar seu problema, temendo uma represália de minha parte.
Vivia seu drama sozinha, repartindo-o talvez com seu travesseiro.
Até que um dia, ela engravidou de seu namorado e já estava prometida em casamento ao filho do conde.
Era o fim, se seu pai descobrisse seu segredo.
Era sua morte e a do rapaz.
Sergei acabou descobrindo o caso, e a perigosa notícia do namoro foi levada aos ouvidos do patrão.
Nastássia, a sua aia, soube do facto e correu a avisá-la do perigo que ambos corriam.
Com imensa dor, ela pediu ao namorado que fugisse da fazenda imediatamente.
Os namorados pensavam que ninguém sabia de suas fugas nocturnas.
A gravidez estava avançada e ela também precisava fugir, não podia jamais falar disso a ninguém.
Ambos concordaram em fugir à noite e viverem em algum lugar, onde procurariam trabalho e ela se disfarçaria.
Teceram o plano de desaparecerem e se encontrarem longe da fazenda.
Ele fugiria primeiro, para preparar um lugar e, depois, voltaria para avisá-la.
Arquitectaram o melhor plano possível, estudando todas as possibilidades, horário de encontro e local.
Encontrar-se-iam na cidade, na ocasião em que ela faria uma viagem para adquirir algumas roupas para compor seu enxoval porque seu casamento estava marcado, pelo pai, para o ano vindouro.
Sua gravidez começava a aparecer, havia engordado.
Haviam decidido fugir na festa da colheita.
Aproveitariam o horário em que todos estivessem bêbados e relaxassem a vigilância.
O jovem mujique burlou a vigilância e conseguiu fugir, não obstante os latidos dos cães.
Os vigilantes avisaram, mas foi inútil, o moço havia desaparecido sem deixar vestígios.
Horas mais tarde, ouvi Norobod e Sergei conversarem enraivecidos:
- Como deixaste isto acontecer, Sergei, acaso não tens homens suficientes nas fronteiras?
- O infeliz foi mais esperto que imaginei, conseguiu se desviar até dos cães.
Era comum um ou outro mujique fugir das terras de Norobod.
Poucos jovens se sujeitavam ao duro regime e às humilhações.
Havia vários motivos para que abandonassem as terras.
Os que ficavam eram os piores, os mais preguiçosos, ou então, os velhos, cansados e sem força para mudarem a situação.
- Coloca novos homens nas fronteiras, Sergei, todos os que conhecem o fugitivo devem procurá-lo até à morte.
Quero-o vivo ou morto.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 15, 2016 10:18 pm

Vivo exercerei minha vingança, se morto quero erguê-lo numa grande fogueira, para que ninguém mais ouse olhar uma Norobod sem a minha autorização!
A ordem, imediatamente acatada, não deixava dúvidas, o pobre moço já estava condenado.
Os outros servos já haviam visto as piores coisas acontecerem, como exemplo, e não se aventuravam a fugir ou malbaratar o trabalho.
Dias depois, encontraram um moço e julgando ser ele o fugitivo, torturaram-no barbaramente.
O servo, desfigurado pelo sangue, foi atirado ao pátio, já desfalecido.
Sácha soubera de tudo, seu semblante era a pura dor.
Só não morrera porque a misericórdia de Deus estava ali connosco.
Quando ela encostou sua cabeça dourada em meu ombro e seus cabelos macios me tocaram o rosto, foi que percebi o quanto tremia e levei-a para a cama, antes que ateassem fogo ao rapaz que, por certo, ainda estava vivo.
O pai obrigou-a a assistir à incineração.
Minha pobre menina gritava de desespero.
Não suportando a dor de ver seu amado morrendo ali carbonizado, desmaiou e, quando desabotoei sua camisola, constatei que estava grávida.
Fiquei apavorada com a situação.
Se Norobod descobrisse sua gravidez, seria o fim de minha filha.
Ele não a perdoaria jamais.
Eu e minha pequena ficamos mais próximas do que nunca, faríamos qualquer coisa para que meu marido não soubesse de sua gravidez.
Temíamos por ela e pela criança.
Mesmo sendo seu neto, por certo não hesitaria em mandar matá-las sem piedade.
Nada poderia devolver a vida de seu amado, que todos supunham, pelas descrições, ser o jovem assassinado.
Restava-lhe lutar por seu filho e por sua sobrevivência.
- Mamacha, por que não vamos para longe daqui? - pediu-me, amargurada.
- Não temos, Sácha, jeito de sair da fazenda, temos que esperar a festa da colheita.
- Até lá, mamacha, meu filho deverá ter nascido.
Eu não poderia abandoná-la.
Ela estava fraca, muito fraca e sofrida com o desaparecimento do rapaz, chorava o tempo inteiro.
Emagrecera tanto que seu corpo mais parecia o de uma menina e não o de uma mulher grávida.
Compadecida de sua situação, procurávamos, de todos os modos, tecer planos, na tentativa de encontrarmos uma solução.
Apelei para Alex que estava, nesta ocasião, morando em São Petersburgo.
Ele poderia levar a irmã para passar alguns dias com ele e a esposa.
Por certo, meu filho haveria de compreender a situação da única irmã.
Longe do pai, Alex a ajudaria.
Era a única solução.
Mais um mês e Sácha não conseguiria mais ocultar sua gestação.
Enviei um emissário com uma carta para Alex, pedindo-lhe que viesse urgente à fazenda.
Infelizmente, quando a carta chegou, Alex estava viajando com a esposa e a filhinha, em visita a um parente no norte da Ásia.
As coisas foram piorando.
Se Norobod desconfiasse da real situação, nós duas estaríamos perdidas.
Ele quase não a via.
Sácha, ajudada por mim, apertava sua barriga com ataduras para escondê-la de todos.
Somente Nastássia, a boa criada e eu sabíamos da verdade.
Por ocasião da próxima colheita, o neném iria nascer.
Felizmente, Norobod totalmente envolvido com os capangas e com a comercialização de produtos da fazenda, havia se esquecido um pouco de nós duas.
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