Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 16, 2016 8:46 pm

Comerciantes não paravam de ir e vir diariamente.
Mal o víamos, e quando ele sossegava era noite, Sácha já estava dormindo.
Na véspera da colheita, quando Sácha estava para dar à luz, seu pai ouviu os gemidos, entrou de solavanco no quarto da filha, constatou o que ali acontecia sob as suas barbas e não perdoou.
Açoitou-a friamente. Não resisti.
Meu instinto de mãe falou mais alto e avancei sobre ele, para defendê-la, porém, senti apenas sua mão pesada sobre meu crânio e caí desmaiada, sem forças para me levantar.
Quando acordei, uma das serviçais estava a meu lado, limpando o sangue que escorria do ferimento.
Assustada, perguntei por Sácha.
Fazia dó ver a menina.
Norobod proibiu-me de vê-la. Ele havia bebido.
Foi então que soube da infeliz ordem de Norobod de matar o nosso próprio neto.
Com muita dificuldade consegui atravessar o corredor e entrar no quarto de Sácha que, desmaiada, estava prestes a dar a luz, antecipando a data.
Nastássia fazia o parto enquanto eu fiquei do lado de fora vigiando a porta, com medo de Norobod chegar.
Era noite, a fraca iluminação contribuía para disfarçar.
Ouvi um choro, ansiosa entrei no quarto e perguntei:
- Meu neto nasceu?
- Uma neta, senhora - respondeu-me Nastássia aflita.
Continua vigiando, senhora, corremos perigo.
Voltei para a porta a vigiar o corredor, mas antes disse à nobre ama:
- Nastássia, pegue a criança e fuja! - ordenei, sem pensar em mais nada, conhecendo meu marido, receava o pior .
Olhei para dentro e tive tempo de ver um vulto pegando a criança, enquanto Nastássia arrumava uma trouxa e fugia atrás.
A mulher temia pelo destino daquela criança, caso Norobod a visse; por isso, sem pensar um segundo nas consequências, fugiu dali, numa carroça.
Os cães ladraram e alguns homens a seguiram no meio da noite, depois disto não soube de mais nada.
Infelizmente, Nastássia foi encontrada morta e, junto dela, uma trouxa de roupas, que supunham ser o recém-nascido.
A esposa de um mujique contou-me que naquela trouxa de roupas não havia sinal de criança.
A carroça foi encontrada atrelada aos animais e vagando perto de uma choupana abandonada.
A morte bárbara de Nastássia nos deixou deprimidas, porque era a nossa última esperança.
Norobod jurou perseguir de morte, qualquer pessoa que estivesse envolvida naquele caso.
Antes tivesse me matado, porque dois dias depois, enquanto os servos festejavam a colheita, Sácha respondia aos maus tratos do pai com violenta hemorragia e sucumbia à emoção dos trágicos acontecimentos.
A Sra. Norobod, ao terminar a deprimente narrativa, não tinha mais nenhuma lágrima no rosto, apenas uma Infinita tristeza no olhar.
Nabor não sabia o que dizer, olhou-a ternamente:
- Obrigado, Sra. Norobod, por ter-me confiado estes acontecimentos.
Nunca soube quem ajudou a ama, ou algo sobre o paradeiro de sua neta?
- Jamais. Quando Alex chegou de viagem, pedi-lhe para procurá-la.
Tudo em vão, doutor, parece que a terra a tragou naquela triste noite.
O céu fez questão de ocultar qualquer lembrança de minha filha.
De que valeu?
Nem ao menos sei se mataram ou não minha netinha!...
- Mas, tua filha faz questão de que não a esqueçam - Nabor referia-se ao Espírito.
- Norobod a via sempre e seu fantasma o levou a mergulhar mais na bebida e desta à total loucura.
Penso que arada foi pouco pelo mal que ele causou - disse com amargura na voz e sem nenhum remorso.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 16, 2016 8:46 pm

Entre os dois caiu profundo silêncio, que a Sra. Norobod quebrou, interrogando-o:
- Que validade terão, doutor, minhas tristes recordações para o teu estudo?
Como poderás auxiliar minha Sácha, uma vez que de onde está não poderá mais voltar para nós?
- Quem disse que ela não poderá voltar, se ela ainda não se foi?...
- Não te compreendo!
- Os mortos voltam, e como voltam! Sra. Norobod.
Tua filha contínua se sentindo viva, em carne e osso, seu Espírito sofre por isto.
A centelha divina de que todos nós somos feitos é Indestrutível, jamais morre.
Ela precisa encontrar paz e é para isto que eu vim!
Confie em mim, peço- te, deixa-me agir!
- Está bem, doutor, terás todo o meu apoio, doravante.
Faz como quiseres.
- Não sabes como fico agradecido por tua confiança, este é o primeiro passo para erradicarmos o mal que neste lugar se instalou.
Neste momento, Karine os interrompeu, oferecendo-lhes frutas e pães em rica bandeja de prata.
O mago pôs-se a saboreá-los, enquanto a Sra. Norobod olhava-o com um resquício de esperança no olhar.
Todos aguardavam ansiosos um toque de mágica do mago que, agora, vivia às expensas de Sra. Norobod.
Esperavam que ele fizesse materializar o Espírito, ou melhor, o fizesse voltar à vida, mas nada disto acontecia.
Nabor continuava suas pesquisas e observações, porque fazer um Espírito materializar não era tarefa tão fácil assim, tudo dependia da vontade do Espírito, de sua aquiescência.
Sácha e Nicolau viviam atrás dele, procurando em vão descobrir seus segredos.
Os dois jovenzinhos acabaram desistindo desta fascinante brincadeira pois, para eles, o mago Nabor era apenas um homem estudioso, cheio de métodos, aparentando sempre um ar contemplativo.
Acabaram concordando que ele, na verdade, não possuía nenhum poder especial.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 16, 2016 8:46 pm

28 - A Proposta

A monotonia do lugar foi quebrada com a chegada de novos personagens à fazenda.
Eram Olga e Nicolau, os tios de Sumarokov que, saudosos, vinham visitá-lo em sua melhor tróica.
O tempo havia passado e tio Nicolau estava com a cabeça branca como neve.
Eles vinham com um objectivo, levar Sumarokov e a família para suas terras.
Os cachorros latiam para os cavalos, faziam muito barulho e Sumarokov foi recebê-los na entrada, com grande festa.
O novo patrão facultava-lhe essa regalia.
Podia, perfeitamente, acolher seus tios em sua isbá.
Não havia mais temor por parte dos empregados, muita coisa havia mudado com a morte de Norobod.
Alex era totalmente diferente e governava a fazenda com bondade e tudo estava prosperando, os empregados menos infelizes.
Haviam começado a construção de uma pequena escola, para atender os filhos de mujiques que quisessem estudar.
Sergei continuava na lida, ainda praticando sua maldade em surdina, a um ou outro empregado insurrecto.
Estava para abandonar a fazenda e assumir suas terras que lhe garantiriam uma vida cómoda até o fim.
Alex ainda não sabia que pouco mais da metade do património em terras, deixado por seu pai, não lhe pertencia, e Sergei era seu legítimo dono.
Sergei estava aliciando capangas que se afinavam com suas ideias, antes de se mudar definitivamente para sua propriedade.
Menosprezava aquele gravatinha que assumira o lugar de Norobod e criticava suas ideias.
Formava um grupo de homens, tão maldosos quanto ele, e que aguardavam, depois das mudanças, conseguirem parte em seu quinhão.
Os homens comandados por Sergei, na maioria, eram foragidos e criminosos.
O capataz formava na fazenda um regime à parte, o da violência e da crueldade.
Foi nestas circunstâncias que os tios de Sumarokov chegaram.
Encontraram um clima de Intrigas e resquícios de crueldade contra pobres mujiques.
A fazenda prosperava graças às plantações e à sincera alegria de alguns servos que, tratados com bondade, modificavam-se a olhos vistos e procuravam dar o melhor de si.
Os tios entraram, conversando alegremente.
Tudo havia mudado naqueles longos anos.
Surpresos, encontraram os filhos de Anna, moços bonitos, bem trajados e educados.
Nem pareciam camponeses.
A maior alegria de tia Olga foi ter encontrado Catienka na mesma lida.
As duas mulheres se abraçaram, contentes de se reverem.
- Não mudaste em nada, Catienka, continuas bonita e jovem.
Catienka não podia dizer o mesmo à mulher envelhecida que a abraçava e limitava-se a sorrir.
- Esta é Catienka, a jovem de quem falaste, Olga, aquela que assumiu a casa de Sumarokov e seus filhos?
- É esta mesma, Nicolau, é a menina da qual te falei.
Ah! se não fossem os préstimos desta menina, não sei o que seria de nós, naquela época difícil em que nossa pobre Anna... - a velhota começou a chorar, à lembrança daqueles dias difíceis para todos.
Onde estão Kréstian e Mayra?
- Estão estudando - respondeu Sumarokov, que abandonara por uns instantes o trabalho para atender aos tios, emocionado ao recordar aqueles tempos difíceis, quando ele acreditou que nunca mais conseguiria se equilibrar sem sua Anna.
- Estudando?! - tio Nicolau desviou o assunto, pois logo estariam todos chorando novamente a morte de Anna.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 16, 2016 8:47 pm

- Sim, meus tios, as coisas aqui são multo diferentes.
Vede esta construção de madeira que estamos fazendo, é uma escola - Sumarokov saiu da Isbá e mostrou-lhe uma construção a alguns metros dali, bastante adiantada, onde ele actualmente trabalhava com mais alguns homens.
- É uma ordem do novo patrão, Alex.
Enquanto sobrinho e tio foram até a construção, Olga voltou-se para Catlenka.
- E tu, Catlenka, o que me dizes?
A moça corou e abaixou a cabeça, timidamente.
- Eu, eu estou bem...
Tia Olga, grande psicóloga, adivinhou que algo ali ainda não havia se resolvido; afinal, ela e seu sobrinho estavam juntos, ou seu relacionamento continuava apenas de companheirismo?
Começou a jogar algumas Indirectas, para compreender a situação de ambos.
Eles estavam decididos a levarem Sumarokov para sua fazenda.
Este era o maior escopo de sua visita.
Catlenka, embaraçada, esquivava-se da mulher com evasivas.
As duas voltaram a falar nos filhos de Sumarokov.
- A que horas eles voltam?
- Está perto, não demora, aí verás como cresceram!
- Estou ansiosa para vê-los - e depois confessou-lhes:
- Catlenka, viemos especialmente para levá-los para nossa propriedade.
Nicolau está velho e não consegue mais gerir seus negócios.
Não temos filhos, o único que tivemos, morreu.
Empregado está, a cada dia, aborrecendo mais e pouco vale seu trabalho.
Agora, com as organizações que visam eliminar os grandes proprietários, ninguém mais tem sossego.
Por nossas bandas, há muita briga e confusão, a mão de obra toma-se cada vez mais escassa.
Sumarokov é trabalhador e quando morrermos ele Irá herdar nossa terra.
Para quem iremos deixá-la, afinal?
Catlenka ouvia a mulher, atentamente, depois começou a falar como se ela mesma tivesse parte naquele problema:
- Eu sei, Sra. Olga, o quanto gostas de teu sobrinho.
Sumarokov, realmente, é um homem digno e trabalhador, merece ter uma oportunidade.
Ele dá duro nas construções, gasta sua mocidade melhorando o património alheio, e nada constrói para o próprio futuro - a moça falava como esposa e não como uma serviçal.
Tia Olga começou a imaginar que entre os dois havia outro tipo de relacionamento, ou ela estava enganada.
- Ainda bem que meu sobrinho arranjou um boa donzela para viver.
Lembras-te, Catienka, de seu sofrimento, quando a pobre Anna morreu?
Deus ouviu minhas preces.
A moça percebeu a imaginação da mulher e tratou logo de corrigir a situação, explicando-lhe com um sorriso sem graça e muito vermelha:
- Não, não, Sra. Olga, o Sr. Sumarokov é, apenas, meu patrão.
Tia Olga, mulher prática, alegre, arregalou os olhos para a moça:
- Não me digas, Catienka, que estás todo este tempo aqui, cuidando dele, de seus filhos e ainda não vivem como marido e mulher?
O que este imbecil de meu sobrinho está esperando, que tudo despenque?
Catienka não conseguiu ficar séria e começou a rir da mulher, de seu espanto e de suas interessantes conjecturas.
Enquanto Catienka preparava alguns pães e fervia um caldo para ofertar aos tios e aos meninos quando regressassem, as duas continuavam alegremente sua conversa, que não desagradava, principalmente a Catienka, que achava um desaforo ainda não ter acontecido nada entre ela e Sumarokov.
Discretamente, ela o amava, mas julgava que ele só tinha pensamentos para sua morta, e apesar de tantos anos, ela continuava a respeitar, pacientemente, a lembrança de Anna.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 16, 2016 8:47 pm

Olga, no entanto, não se conformava com a situação e julgava Sumarokov um lerdo, perdendo tanto tempo, envelhecendo sem ter proposto a Catienka uma união.
Afinal, a moça havia deixado sua família para segui-lo, disposta a cuidar das crianças.
Como ele não havia ainda percebido o amor sincero que Catienka lhe devotava?
Casamenteira, acostumada a empurrar e desencravar moças e rapazes tímidos para o casamento, ela se sentia a própria santa dos casais, disposta a auxiliar os dois.
Quando os filhos chegaram, foi uma tremenda algazarra.
Mayra e Kréstian, embora tivessem ouvido falar naqueles tios caipiras e alegres, consideravam-nos uns desconhecidos e julgavam, pelas conversas, que eles fossem mais jovens.
Após alguns Instantes de brincadeiras, apresentações, os meninos já haviam se acostumado com os tios que, na verdade, substituíam os avós que eles não conheceram.
Olga, por mais que procurasse em Mayra um traço de sua família, não encontrava nada.
- Com quem mesmo esta menina se parece, Iulián?
- Não sei, tia, talvez tenha algum traço da família de Anna...
- Kréstian, no entanto, é a cara de Anna, disso ninguém duvida, parece que ela, ao lhe dar à luz, colocou nele seu rosto e seu olhar para que ninguém jamais a esquecesse.
- É verdade, tia Olga, de todos é o que mais se assemelha a ela.
Olga aproveitou aquela intimidade e começou a trabalhar seu plano de uni-lo a Catienka.
- Não ouviste os conselhos da tua tia...
- Quais conselhos? Não me recordo...
- Lembras-te, Iulián, quando voltávamos de tua casa, eu te pedi, que não te demorasses muito com o luto?
- Sim, da, recordo-me, eu estava tão confuso e magoado com a paruda de minha Annochka que, até hoje, posso confessar-te, depois de tanto tempo, não encontrei mulher que a substituísse.
- E porque não sabes olhar à tua volta.
- Como assim? - fez-se de ingénuo, sabendo onde a tia queria chegar.
- Não me digas que não percebeste durante todo este tempo? - brejeiramente, Olga ia completando sua táctica casamenteira.
Iulián fazendo-se mais de ingénuo e despercebido, querendo antes confirmar as ideias da tia, perguntou em tom de brincadeira:
- De quem estás falando, tia, não vejo ninguém à minha volta.
- Não. Homens, como tu, merecem mesmo a solidão.
Iulián, não sejas tolo, és cego?
Vê o primor, a jóia rara que tens em casa.
Estás esperando que outro a apanhe antes de ti?
Agora, era Iulián Sumarokov que ficava vermelho e sem graça.
Sabendo que a tia falava da ama de seus filhos, disse, aborrecido, mas alegre:
- Tia, Catienka é muito jovem para mim.
- Ah! isto não é desculpa, Iulián.
Conheço muitos casos de mulheres mais jovens que se dão bem com homens mais velhos.
Não estás tão velho assim... e já perdeste muito tempo.
Há quanto tempo se foi a nossa Annotchka?
- Um decénio...
Kréstian, meu caçula, tem esta idade.
- Tantos anos se foram!
É muito tempo, meu filho, para amargar tal solidão!
O assunto foi interrompido com a entrada dos meninos, que vinham do quintal, brincando com tio Nicolau, entusiasmados com o avô que agora conheciam.
Catienka também, vinha cheia de alegria.
Entrando em casa, foi directo para o fogão e falando:
- Vamos ao chá, aos pães... às batatas cozidas...
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 16, 2016 8:47 pm

29 - Iulián Enamorado

Sumarokov olhou Catienka, alegre e descontraída.
Ela parecia tão menina quanto seus filhos, era uma criatura encantadora.
Seus olhos azuis buscavam-na ansiosos.
Tia Olga disfarçava, demonstrando nada perceber.
Contente com o desenvolvimento subtil do namoro, saiu deixando-os à vontade.
Era muito difícil para o camponês declarar-se à moça, depois de todos aqueles anos de convivência íntima, tratando-a com respeito; as palavas da tia só fizeram acender nele uma necessidade abrasadora de confessar à moça os seus sentimentos.
Era sua última chance e ele deveria abraçá-la, antes que outro se antecipasse.
O professor Semión não perdia tempo, e se ele se declarasse primeiro?
Catienka poderia aceitá-lo.
Decidido a mudar o rumo de sua solidão, aproximou-se propositadamente dela, quando ela mexia na fornalha algumas achas de lenha.
Pôs o seu braço em sua cintura, estavam mais próximos que nunca e seus rostos quase unidos.
Quando ela se virou para apanhar o ferro e mudar as brasas, assustou-se, soltando um grito abafado:
- Sr. Iulián?
- Deixa-me ajudar-te... - disse-lhe, segurando sua mão fortemente.
A cozinha estava somente iluminada pelo crepitar do fogo, suas sombras cresciam na parede.
Todos já haviam se recolhido e Sumarokov, vencendo as barreiras, animado pelos conselhos da tia, beijou-a pela primeira vez.
Catienka, trémula, deixou-se beijar, era o que ela mais desejara e, agora, seu desejo se realizava, graças ao incentivo da velha tia Olga.
Abraçados, trocavam carinhos e sussurros, julgando que todos estivessem dormindo.
A tia, entretanto, os observava às ocultas, torcendo para a felicidade deles.
Não deixou que a percebessem e foi se deitar, pé ante pé.
No leito, agradecia ao seu santo casamenteiro, pelo sobrinho e a bondosa donzela.
Os enamorados não podiam conversar alto, o espaço era pequeno.
Queriam falar livremente e limitavam-se à troca de carinho, o melhor meio para aliviar todos aqueles anos de espera.
Era como se estivessem se encontrando naquele dia e as barreiras que os separavam foram totalmente quebradas.
Entregaram-se a carinhos cada vez mais ousados, tal era a necessidade de expandirem um sentimento represado, que o receio e a timidez contiveram durante tantos anos.
- Há quanto tempo esperei por este momento! - dizia a moça — pensei que não te interessasses por mim! !
- Eu sofri muito, julgando-te a meu lado, apenas pelo dever... casemo-nos, matuchka, casemo-nos... não quero perder mais tempo... aceitas este velho, pobre e solitário?
- Não és nenhum e nem outro, és muito amado por mim, mas és tão tolo, meu amor, tão tolo... que durante estes anos não percebeste o quanto eu te amo!
- Perdoa a minha tolice, era o medo de te perder que me fazia recuar.
Sempre pensei que sentias somente compaixão por mim e pela minha situação.
- Como és bobo, Iulián, não vês que tudo deixei para ficar contigo?
- Já perdemos muito tempo separados, não quero mais esperar, iremos avisar tua família e convidá-los para nosso casamento.
Quando os dois foram se deitar, a noite ia alta.
A felicidade de Iulián era tanta, que mal conseguia conciliar o sono.
Amanhã mesmo falariam com Alex, iriam à casa de Catienka e marcariam logo a data do casamento.
Ele parecia um menino feliz!
Seus filhos haveriam de concordar, todos amavam a moça.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 16, 2016 8:47 pm

Olga, no dia seguinte, estava exultante, pois as coisas andavam como ela havia planeado.
O namoro ostensivo, por parte de Sumarokov, deixava a pobre Catienka encabulada.
Envergonhada, tentava esconder seus sentimentos dos meninos e ficava inibida quando Iulián chegava em casa e se aproximava dela.
Os filhos, aos poucos, foram se acostumando com esse namoro, tão esperado por eles.
Eles amavam a moça como se fosse sua mãe.
Não houve nenhuma objecção por parte deles, quando souberam da decisão do pai.
Tia Olga ficaria tomando conta da casa, enquanto o casal iria à cidade para comunicar o noivado aos familiares de Catienka.
O sonho dos tios era levá-los para sua fazenda, já estavam velhos e cansados.
Não tinham filhos, deixariam tudo para Iulián.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 16, 2016 8:47 pm

30 - Iahgo

Com Alex no comando da fazenda, os mujiques nada tinham a reclamar.
Recebiam salários dignos, os filhos frequentavam a escola.
Somente Sergei persistia em seus antigos métodos, causando sofrimento às ocultas; ele e seus capangas ameaçavam o sossego da propriedade Norobod.
Sergei não suportava mais ocultar suas terras roubadas e decidira abrir o jogo, sair das terras de Norobod e assumir as suas como legítimo dono e continuar lá seu império de crimes.
Os mujiques continuavam trabalhando em terras que lhe pertenciam por lei, sem o saberem.
Aos poucos, esta separação foi-se tomando visível, com Sergei reforçando as cercas de divisa, levando os melhores trabalhadores para lá e tornando-as cada vez mais férteis e ricas em plantações.
Quando declarasse a separação, ele estaria com vasta plantação, gado vacum e um bom número de empregados.
Era este o plano sórdido e bem elaborado de Sergei, que trazia junto a si uns dez homens armados e prontos a lutar a qualquer momento, se preciso fosse.
Alex de nada suspeitava, apesar de notar que uma parte de suas lavouras não estava produzindo a contento.
Certo dia, ele decidiu ir pessoalmente verificar o que estava acontecendo.
O moço idealista deixara de participar das reuniões de Kóstia, envolvido em dirigir e fazer produzir sua propriedade, nela implantando suas ideias e tornando a vida dos mujiques menos infeliz.
Era natural que os mujiques o amassem.
Alguns conheciam suas ideias, e percebiam, claramente, que determinadas ordens que Sergei lhes dava não partiam do verdadeiro patrão.
Os camponeses, percebendo algo errado no ar, começaram a levar a Alex suas observações, pautadas em acontecimentos que o moço, ocupado em outros afazeres, desconhecia.
Acharam por dever informá-lo.
Porque de um lado as terras produziam e de outro estavam ficando cada vez mais abandonadas?
A vastidão das terras dificultava o acompanhamento de toda sua produção e Alex não era multo experiente, apesar da boa vontade.
Sumarokov trabalhava fora das lavouras, mas há algum tempo, tinha detectado o erro e a má-fé de Sergei e esperava o momento certo para agir, ouvindo sempre as lamentações dos mujiques maltratados.
- Camarada Semión, não tenho tido notícias de Kóstia e suas reuniões, sabes alguma coisa? - perguntava-lhe Alex, porque os negócios do pai agora o afastavam totalmente dos amigos.
- Tenho-as tanto quanto tu, envolvido que estou com a escola.
A propósito, meu amigo, necessito de mais uma pessoa para me auxiliar, porque o número de crianças aumentou bastante.
- Talvez, Sónia... possa ajudar-te, até que contrate um novo professor.
A ideia de ter Sónia por perto na escola, não o atraía, preferia os filhos de Sumarokov.
- Por que não convidas um dos filhos de Sumarokov, são Inteligentes e criativos.
" - Qual deles? Iullán, o mais velho?...
- Não. Iulián não.
É o que mais tem dificuldade, talvez Pável...
Nicolau é multo jovem - Semión colocou a mão sob o queixo e voltou-se animado para Alex:
- Tive uma ideia.
Por que não contratar os dois?
Nicolau ficará comigo me assistindo e Pável assumirá a turma dos principiantes.
Assim tudo se resolve.
Alex sorriu mediante a oportuna solução, desejando auxiliar Sumarokov e seus filhos.
- Peça aos dois para virem ao meu gabinete.
Hoje mesmo os contratarei.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 16, 2016 8:48 pm

Quanto a Kóstia, preciso que alguém vá até a cidade e saiba como andam as cooperativas, se mais fazendeiros se aliaram.
Tu deverás ir, Semión, em quem mais podemos confiar?
- Está bem, camarada Iahgo... Ah! desculpe-me, esqueci - Iahgo era o nome adoptado por Alex, para esconder sua verdadeira Identidade - Alex, chamarei os meninos, para que lhes comunique tua decisão e, depois, instruirei Pável, para que as aulas não sofram Interrupção.
- Cala-te, Semión, não cites jamais este nome aqui, as paredes têm ouvidos! - sussurrou Alex olhando para os lados.
- Esqueci-me, Alex, tens razão, desculpa-me, devemos tomar cuidado.
Semión saiu para a escola.
Instantes depois, Sumarokov entrou no gabinete.
- Senhor Alex, Catlenka e eu decidimos nos casar e peço-te permissão para irmos à cidade falar com sua família e marcar a data do nosso casamento.
- Que esperto! - sorriu Alex - vá... vá... Sumarokov.
- Obrigado, senhor.
Ficaremos apenas dois dias, é o suficiente.
- Irás à cidade?...
Penso que tua ida me será muito favorável, preciso que procures alguém... um amigo e me tragas notícias.
Sumarokov pensou tratar-se de algum aristocrata e ficou esperando que o patrão lhe desse o endereço.
Jamais havia imaginado que Alex pudesse ser, também, amigo do camarada Kóstia.
Iulián Sumarokov estava saindo, quando Alex ainda se lembrou:
- Sumarokov, tenho uma boa proposta a fazer a teus meninos.
Antes quero que concordes.
- Vindo de tua parte, Sr. Alex, pode-se esperar o melhor.
- Preciso de monitores que substituam o professor Semión e o auxiliem...
Estive pensando em teus filhos.
Nicolau e Pável, ao invés de irem para os campos ou assumirem trabalhos pesados, poderão ser melhor aproveitados, são Inteligentes e esforçados.
Darão óptimos professores.
Imensamente feliz com a sorte que o destino abria a seus meninos, Sumarokov agradeceu a bondade daquele senhor e da ventura que tiveram indo parar naquela fazenda, tão amaldiçoada por todos, mas para ele e sua família, a cada dia, mais abençoada.
- Sr. Alex, não sei como te agradecer - conversavam agora no gabinete, enquanto Karine completava a arrumação diária, e sem perceberem que a moça ouvia a conversa, despreocupadamente continuaram:
- Desde que teu pai me contratou para o serviço, prometi a mim mesmo que iria fazer o possível para corresponder à moradia, ao meu sustento e ao de minha família.
Porém, confesso-te, que a fama de teu finado pai era terrível e vim preparado para o pior, mas aqui só tenho encontrado paz e meus meninos regalias como nunca tiveram.
Só tenho que agradecer.
Acabei notando que teu velho pai, apesar de ter sido um homem nervoso, não era tão mau como diziam.
O mesmo não se pode dizer de Sergei, considerado por muitos o dono das terras - Sumarokov, sem o perceber, ingenuamente soltava a língua aos ouvidos intrigantes de Karine, que se fingia absorta no trabalho.
- Sabes mais alguma coisa sobre Sergei, Sumarokov, que por ventura, eu não saiba?
Iullán calou-se, havia sim, muitos comentários e ele não sabia se lhe competia falar.
Procurou verificar se as portas do gabinete estavam fechadas e deu com os olhos verdes da serviçal.
Fez um gesto significativo a Alex que, compreendendo a presença da moça, mudou logo de assunto:
- Bem, Sumarokov, vá à cidade tratar de teu casamento e antes que saias terei tempo para escrever a mensagem ao amigo a quem desejo que visites em nome de Iahgo, amigo meu.
- Iahgo?
- Sim, Iahgo, não quero que menciones meu nome, apenas o deste amigo.
- Está bem farei o que me pedires.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 16, 2016 8:48 pm

31 - Os Noivos

Iulián Nlkolai Sumarokov e sua namorada Catienka iam para a aldeia de N...
O outono aproximava-se e as folhas mortas ressequidas cobriam a paisagem de tons amarelos, alaranjados e avermelhados, formando belo contraste com o chão cor de chumbo e o céu azul pálido.
Os enamorados olhavam as árvores, quando Iulián interrompeu o silêncio e perguntou à namorada:
- Como andam as pesquisas científicas de Dmitri? - uma vez que o mago Dmitri Nabor tinha inteira liberdade para entrevistar sua filha.
- Ele a entrevistou várias vezes, mas acredito que pouco conseguiu.
Sempre que ele toca no assunto, ela se esquiva dificultando a pesquisa.
Tenho-os deixado a sós, mas ele está desanimado.
- Quais são os métodos que ele usa?
Catienka, que sempre acompanhava as sessões do mago, prestando atenção, respondeu-lhe:
- Ficam assentados frente à frente, ele a interroga, às vezes usa objectos, como papel para escrever, pedras...
- Mayra responde-lhe?
- Às vezes sim, outras, não...
Ele a faz dormir... Acho que a hipnotiza...
- Preferiria que nada disso estivesse acontecendo, mas não posso recusar o pedido da Sra. Norobod e do Sr. Alex, parecem muito interessados em desvendarem o enigma do fantasma que tanto os aflige.
- Notaste, Iulián, que depois da chegada do mago, ele deu uma trégua?
- É mesmo, Catienka, o Espírito parece que se aquietou...
- Eu penso que ele gostava mesmo de atormentar o pai e já que ele morreu, não tem mais graça... Que achas?
- Há coisas que não se explicam...
Vê, como se explica o facto dele procurar justamente nossa Mayra?
Isto quer dizer que não era só o pai que o fantasma vinha encontrar... - argumentou Iulián, convicto da ligação da filha com o Espírito da mãe consanguínea.
- Por que terá escolhido Mayra, uma menina tão boazinha?...
Iulián ardia de vontade de revelar à noiva o motivo que levou o fantasma a procurar Mayra.
No entanto, havia jurado jamais revelar este facto a quem quer que fosse e, embora Catienka fosse tão especial... não, não falaria.
Passou a mão sobre o velho e grosso casaco, depois a deslizou para a algibeira onde guardava o bilhete, a única prova que existia e que ele não tivera coragem de destruir.
Parecia que aquela história ainda não havia terminado.
Aquele segredo importante representava a verdade sobre a vida daquela menina que considerava como filha.
- Realmente não sei... - respondeu com um ar meio travesso - são coisas do destino que não se explicam.
- A Sra. Norobod visita-nos sempre e, a cada dia, mais se apega a Mayra.
Acredita, Iulián, que às vezes chama-a de Sácha?
Acho que a velha não anda multo bem do juízo.
Pergunto-me se talvez o sofrimento não tenha afectado seu cérebro.
- Ela me parece bem, comparando-a a Norobod.
O velho, sim, tinha um sério problema.
Nunca assististe às últimas crises nervosas que sofreu?
Vi, algumas vezes, seus ataques, fiquei horrorizado e compadecido.
Nunca queiras ver, Catienka, como é terrível um acesso epiléptico.
A conversa ia animada entre os dois e, de vez em quando, paravam para os cavalos descansarem.
Já estavam quase saindo da propriedade, quando foram interpelados por um homem mal encarado, que vinha em direcção oposta:
- Aqui é a fazenda Norobod?
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 16, 2016 8:48 pm

Sumarokov examinou o homem e, a julgar por suas botas e casaco, parecia caminhar há dias.
Era um andarilho moscovita que não pertencia àquelas paragens, seu cavalo estava cansado.
- É aqui mesmo, amigo - respondeu-lhe com seu vozeirão.
- Grato pela informação.
Falta-me muito para chegar ao destino?
- Algumas horas mais e lá estarás.
De onde vens e a quem procuras?
- Procuro alguém por nome Wladimir. Conheces?
- Ninguém, por este nome, nestas bandas.
É algum mujique que trabalha na lavoura?
- Não. Ele não é mujique da terra.
- Conheço quase todos por aqui, mas Wladimir?
Já ouvi este nome em algum lugar.
Se não foi aqui, onde foi, Catienka?
- Não sei, nunca ouvi, não seria nas reuniões?
- É... é isto mesmo...
Iulián nada podia dizer, sem antes saber com quem estava falando - e perguntou, agora encarando o desconhecido:
- Por acaso, este Wladimir é cooperativista?
- É este mesmo! - exclamou o desconhecido, satisfeito.
- Porém, amigo, creio que está procurando no lugar errado, não há nenhum cooperativista por aqui com este nome.
- Não mesmo?
Disseram-me que ele estava trabalhando na fazenda Norobod.
Se é aqui, aqui devo encontrá-lo.
- Tempo perdido. Tens liberdade para ires em frente, mas te asseguro, conheço esta gente e não vi nenhuma pessoa com este nome.
Acaso não te enganaram?
O homem fechou o semblante, pensativo.
- Como te chamas e de onde vens, companheiro?- interrogou Sumarokov, vendo que ele não desistia de sua procura.
- Karosky. Venho da cidade e tenho recado importante para Wladimir.
- Tu o conheces?
Diz-me, como ele é?
- Já o vi, uma vez... mas não me esqueci de seu semblante, apesar de noite, à claridade da fogueira.
Ainda é jovem, barba e bigodes tratados, magro e alto, expressa-se bem, cabelos e olhos pretos e quando fala tem a mania de torcer o bigode.
Quem seria aquele tipo?...
Ele estava atrasando sua viagem, mas tinha pena do homem, havia andado tanto para nada encontrar.
Iulián explicou:
- Está bem, por esta descrição... torna-se difícil... se queres, vai em frente.
Gostaria de ajudar-te...
Talvez ele esteja lá... não sei.
Catienka, grande observadora, chamou Iulián à parte:
- Não seria o professor a tal criatura?
Ele tem a mania de torcer o bigode, quando fala...
- És muito observadora.
Realmente, nunca havia percebido - e voltando-se para Karosky, argumentou:
- Conheço alguém que se assemelha à tua descrição, porém seu nome é Semión, ele é professor, não cooperativista, nem é um mujique.
Trata-se de homem culto.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 16, 2016 8:48 pm

- Semión?
- Sim, este é seu nome, talvez seja Wladimir Semión.
- Eu o procurarei.
Tenho urgência era encontrá-lo. Grato.
- Não seja por isto. Adeus.
- Adeus.
O homem partiu a galope, deixando uma nuvem de poeira cinzenta no ar.
- Que pressa! - exclamou, Catienka.
- Penso que o nome de Semión o instigou a partir depressa. Estranho!
- Vamos, Iulián, senão chegaremos muito tarde, já nos atrasamos demais!...
As coisas estavam ficando difíceis, naquele tempo de fome e de miséria.
Todos queriam tirar proveito da situação e não se sabia em quem confiar.
De um lado, havia os mujiques subjugados e do outro, os senhores cada vez mais exigentes.
Agindo às ocultas, os cooperativistas eram orientados por um grupo de idealistas e, por outro lado, outros grupos se organizavam para combater as ideias cooperativistas, que poderiam atrapalhar seus interesses mesquinhos de enriquecimento ilícito, à custo da mão de obra servil.
Este clima propício às brigas nas tavernas, à destruição das lavouras, à queima de casas de madeira, ao esvaziamento de armazéns, aos roubos em pequenas propriedades, deixava o povo medroso e desassossegado.
Ninguém confiava em ninguém.
Todos viviam apavorados com a fome que assolava o país, aumentando o número de mortes, e a horrenda miséria de suas vidas.
Na cidade, a situação ainda era pior.
Os camponeses que lá se refugiavam, fugindo do regime escravo, não conseguiam trabalho, viviam nas ruas como escórias e tomavam-se assaltantes.
Os velhos e as crianças eram os que mais sofriam com a profunda transição económica e social da decadente Mãe Rússia.
Em cada canto havia motins armados, murmúrios e desconfiança.
Era esse o clima desagradável e triste que a cidade oferecia a Iulián e Catienka, cuja ingénua felicidade não esperava encontrar tamanha desgraça.
A aldeia onde morava a família de Catienka estava próxima; iriam lá, primeiro, e depois levariam a encomenda do Sr. Alex.
Catienka e Iulián foram recebidos com muita alegria por parte de Luísa, a irmã de Catienka, e de sua mãe.
Na casa, moravam seu velho tio Bartolomeu e seus dois irmãos que se encontravam trabalhando em uma das fazendas, perto dali.
A mãe havia melhorado e a notícia do casamento trouxe-lhe muita alegria, pois ela confiava que, um dia, sua Catienka haveria de concretizar seu sonho.
Valeu ter esperado tantos anos, agora sua filha estava feliz.
Todos trataram Iulián como se ele já fosse um membro da família.
O lar pobre, mas aconchegante, tinha espaço suficiente para os hóspedes.
Felizes, marcaram a data do casamento, conversaram até tarde e quando foram dormir todos estavam cansados, mas radiantes com a novidade.
No dia seguinte, os noivos passariam pela cidade e depois regressariam à fazenda.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 16, 2016 8:48 pm

32 - Wladimir Antón Boroski é Kóstia

Antes de chegarem propriamente ao endereço que Alex lhes confiara, Iulián passou em uma loja para comprar alguns presentes para seus filhos e um casaco para a noiva.
O endereço ficaria por último e de lá, finalmente, retomariam.
Catlenka ajudou Iulián a escolher os presentes, mas ao saírem da loja, felizes e despreocupados, tiveram uma decepção, foram assaltados por dois homens, tão rapidamente que, assustados, não compreenderam de pronto o que estava lhes acontecendo.
Iulián deixou a noiva e correu atrás dos ladrões, mas os espertalhões corriam muito e o jeito foi deixá-los, antes que algo pior lhe acontecesse.
Queria retornar a casa imediatamente.
Lá, pelo menos, era mais seguro.
Sentiu pena de quem vivia na cidade, ou tinha suas fazendas ao redor.
Horrorizado com o clima da cidade, falou à noiva:
- Vamo-nos, rápido, daqui.
Tomou-a pelo braço, apanhou a carroça e suspirou:
- Ainda bem que não nos roubaram os cavalos e a carroça.
- Vamo-nos, Iulián, poderia ser pior.
Iulián Sumarokov açoitou os cavalos, a noiva lembrou-o:
- Não irás entregar a encomenda do Sr. Alex?
- É mesmo! Fiquei tão apavorado com estes ladrões, já havia me esquecido.
Onde mesmo é o endereço? - perguntou Sumarokov atrapalhado, porque era analfabeto.
Catienka tomou-lhe das mãos o envelope e leu.
- Temos que perguntar a alguém.
Não sei por onde começar, houve muitos mudanças por aqui.
- Quem é este Iahgo, que está subscrito no envelope, Iulián?
- Não sei. Sr. Alex pediu-me para não citar seu nome em hipótese alguma.
Devemos nos calar quanto à procedência da encomenda, limitando-nos apenas a entregá-la ao portador.
Se não o encontrarmos devo levá-la de volta.
- Está bem, manterei o sigilo.
Perguntando aqui e ali, demoraram, mas acabaram encontrando o tal endereço, pelo nome subscrito: Wladimir Antón Boroski.
Um rapaz simpático veio atendê-los.
Quando souberam da parte de quem vinham, o próprio Wladimir Antón veio imediatamente ao encontro do casal.
Mais surpreso ficou Iulián, quando reconheceu naquele Antón, o antigo líder cooperativista.
Vira-o algumas vezes actuando em reuniões de muita importância, só que ele atendia por Kóstia, o cooperativista.
- Camarada Kóstia? - perguntou, feliz com o reencontro.
- Sim, eu mesmo - respondeu-lhe animado.
Vens da parte de Iahgo? - perguntou, fazendo-os entrar, e tratando- os com grande educação, pois o vento da rua e o barulho impedia-os de conversar.
Sumarokov e a noiva entraram.
A cooperativa era quente e ficaram felizes por descansarem um pouco do desagradável clima da rua.
- Kóstia... és tu Wladimir Antón?
- Sim... usamos o nome de guerra nas reuniões, camarada...
- Sumarokov - arrematou Iulián, ajudando sua memória.
- ...Sumarokov, é bom que nem todos saibam quem realmente somos...
Em que propriedade trabalhas?
- Na fazenda Norobodvisky.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 16, 2016 8:49 pm

O sorriso do homem se desfez, fechou o semblante e perguntou:
- E... como andam as coisas na propriedade Norobodvisky?
Já aderiram ao novo sistema?
- Sim. Caminha de forma controlada.
O filho de Norobod tem tido alguns pequenos problemas que nem chegaram a afectar o desenvolvimento do trabalho ... - explicou Iulián.
Desde a morte do pai, Norobod, muita coisa mudou para melhor.
Norobod e sua fama eram muito conhecidos entre os cooperativistas.
- Soube que o infeliz morreu de forma muito deprimente - e uma chispa de raiva brilhou no rosto do moço guerreiro contra o ex-senhor de terra e seu absurdo sistema feudal.
Ele era o nosso mais temido adversário.
Foi uma sorte ter ocorrido uma morte natural, não sei como não o assassinaram.
Ele era mau e impetrou muitas crueldades contra centenas de servos!
- No final, Kóstia, ele era apenas um velho doente e bêbado...
Fazia pena ver seu estado - disse Sumarokov, que recebera do finado somente favores.
- Eu o conheci - disse, amargamente, o moço.
Soube de suas horríveis barbaridades contra famílias inteiras, dizimando-as nas próprias terras.
Talvez não o tenhas conhecido bem.
Quando moço, Norobod foi o demónio em pessoa.
Isto Sumarokov não podia contestar.
Tratou de se despedir, porque tinha de regressar antes que escurecesse.
- Está entregue a encomenda por parte de Iahgo.
Queres que lhe transmita algum recado, desejais responder-lhe, camarada Kóstia?
Os cooperativistas, liderados por Kóstia, usavam um lenço vermelho sob o gorro, e este lenço era utilizado para cobrirem o rosto caso tivessem que escondê-lo, pois alguns deles eram foragidos de terras e outros, filhos da aristocracia que não podiam ser identificados.
Kóstia usava-o constantemente porque era um foragido, também.
Sumarokov estivera em algumas reuniões, conhecia aquele lenço, porém não sabia que o emblema fora introduzido pelo camarada Iahgo, para que ninguém o reconhecesse.
Iahgo, nas reuniões, fazia questão de não ser identificado, sendo ele filho do pior inimigo de suas ideias e que, muitos mujiques tinham vontade de exterminá-lo e a seus descendentes.
Sumarokov lembrou-se que, certa vez, vira o lenço guardado em sua algibeira, por isto acreditava que ninguém ali sabia quem era de facto Iahgo.
Os cooperativistas também desconheciam quem era o camarada Iahgo, nem mesmo Kóstia o sabia.
Iulián Sumarokov constatava claramente, cheio de admiração, que Iahgo e Alex eram a mesma pessoa.
Sentiu-se muito orgulhoso de seu novo patrão e tudo faria para ajudá-lo a permanecer incógnito.
Essa revelação o aturdia!
Como podia ele, tão rico, interessar-se por pobres mujiques!
Aguardava ansioso a resposta de Kóstia, decidido a ocultar de todos sua grande descoberta.
Kóstia nunca poderia imaginar que a mensagem do camarada Iahgo, fora enviada por Alex Norobod, o novo proprietário da fazenda Norobod, seu principal inimigo, onde ele e sua família outrora haviam trabalhado e tinham razão de sobra para guardarem tão amargo ressentimento.
Iahgo era muito respeitado e querido por todos.
Embora raramente aparecesse em público, todos o conheciam através de suas ideias revolucionárias, traduzidas aos mujiques sob forma de panfletos.
O próprio Kóstia vira-o apenas uma vez, à noite.
Ambos mantinham assídua correspondência através de fieis intermediários.
Alex sempre encontrava um jeito de disfarçar sua verdadeira identidade. Kóstia trabalhava na linha de frente, traduzindo com fidelidade seu pensamento.
O objectivo da mensagem de Alex era, justamente, para marcar a data de decisiva reunião, presidida por ele e o camarada Wladimir.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 16, 2016 8:49 pm

Iahgo queria o maior número possível de adeptos.
Enquanto Kóstia respondia a mensagem, Sumarokov e Catienka tratavam dos animais e comiam algumas côdeas de pão, fortalecendo-se para a viagem de volta.
Finalmente, Kóstia entregou-lhe a carta.
Sumarokov pegou a missiva, colocou-a no bolso, despediu-se e partiu rumo à fazenda.
O incidente do roubo deixou o casal aborrecido e desconfiado dos transeuntes da cidade.
Gastaram os poucos copeques18 que possuíam, com roupas, e, agora, nem dinheiro e nem presentes, voltavam para casa de mãos vazias.
Ao chegarem, a Sra. Norobod soube do facto e, compadecida, tratou de auxiliá-los com alguns metros de lã e meias.
A alegria de Alex ao ter em mãos a mensagem do camarada Kóstia foi maior que o imaginado.
Os olhos do patrão brilhavam e agradeceu a Sumarokov, mandando confeccionar botas novas para todos os membros da família.
- Perdemos por um lado, mas ganhamos pelo outro, e até foi melhor assim, minha querida. - dizia ele à noiva.
A noiva examinava as fazendas e as lãs com muita alegria.
As botas, meias e tecidos eram superiores, em qualidade, aos que os dois haviam perdido.
- Tivemos sorte, Iulián, muita sorte mesmo.
Tia Olga, antes de partir, auxiliaria Catienka a trabalhar nas novas roupas, preparando-as para o inverno e, também, para as bodas.
Iulián e Catienka teriam que enfrentar um novo impasse, dar a resposta aos tios, antes de partirem.
A decisão era muito difícil.
Queriam aceitar a proposta, mas ela vinha justamente agora que estavam tão bem ali, tinham total apoio de seus patrões.
Não queriam ser ingratos nem com um e nem com o outro.
- Compreendes, tio Nicolau, folgo-me muito com teu convite, gostaria imensamente de poder atender-te, mas prefiro ficar por meus meninos.
Onde eles encontrariam escola tão adiantada, como a que o professor Semión dirige?
Os tios receberam a recusa muito contrariados.
A decepção estava estampada em seus rostos, porque acreditavam que eles aceitariam essa oferta irrecusável.
Agora começavam a achar seus sobrinhos muito amalucados.
Iulián reforçava seus argumentos, tentando explicar ao tio:
- Estás jovem, meu tio.
Dá-me mais um tempo...
Tenho que encaminhar meus meninos e Mayra.
Acredito que agora acertei.
Vê, tio, a oportunidade da escola.
Eles nem parecem ser meus filhos!
Nicolau tinha que concordar com o sobrinho.
Nunca os vira tão bem cuidados.
- Ficarei na expectativa de que venhas, algum dia, a mudar de ideia.
Enquanto isto torço por ti, Iulián.
Precisando do velho tio, lá estarei aguardando-te!
No dia seguinte, o casal partiu desolado, deixando a casa vazia, sem suas conversas alegres e casos intermináveis.

18 Moeda russa que vale a centésima parte do rublo.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 17, 2016 7:55 pm

33 - Três Homens e um Ideal

Na fazenda, o clima de Insatisfação de alguns empregados persistia num diz que diz, em surdina.
Karine e Sergei, aliados em extirpar da fazenda a família Sumarokov, empenhavam-se em enredá-los contra os patrões.
Felizmente, todas suas Insinuações nesse sentido eram Infrutíferas devido à simpatia que os senhores lhes votavam.
No entanto, o casal desonesto arquitectava terrível plano contra os dois e que, segundo suas conjecturas, mais cedo ou mais tarde, daria certo.
Alex se ausentara da fazenda durante algumas semanas.
A ninguém participara o real motivo dessa viagem, mas Iulián desconfiava que era algo relacionado com a mensagem que ele trouxera.
Para espanto de Iulián, o patrão outorgara-lhe alguns poderes sobre parte de suas terras, tomando-o responsável, em sua ausência, por dezenas de mujiques.
Sergei continuaria sendo o responsável por outro tanto.
Despeitado, o feitor não concordou com a atitude de Alex, porém, nada argumentou e ninguém percebeu o olhar cínico que endereçou ao patrão e a Iulián, quando os viu pelas costas.
Antes de viajar, Alex trocou algumas impressões com Dmitri Nabor e Semión.
- Recebi carta do camarada Kóstia.
As notícias são as piores possíveis, embora tenhamos conseguido importantes adesões.
Por incrível que pareça, temos a adesão de Inúmeros pequenos proprietários, aliás, são os que se encontram mais empenhados na cooperativa.
Pretendo, Semión, quando regressar, implantar aqui nossas Ideias.
Será uma nova experiência que levará outros proprietários a mudarem sua visão em relação ao trabalhador da terra.
- Admiro-te, Alex...
Embora com todo meu ideal... ainda assim não teria coragem em abdicar de meus bens, se os tivesse, em favor da causa - Semión, sem bens, nada tinha a abdicar, mas Alex que era um dos maiores proprietários da região.
Nabor, que acompanhava o diálogo, lançou um olhar brejeiro para Alex e virou-se para Semión, desejando esclarecê-lo:
- Como não, carneirada?
Tu, também, abdicas de outros bens.
Abdicas de teus conhecimentos em favor dos ignorantes, bens do Espírito, muito mais importantes, bens imperecíveis que nem a traça e nem a ferrugem roubam - argumentou Dmitri Nabor.
Jesus foi o maior revolucionário que a história registou e estas ideias estão contidas no Novo Testamento.
Os dois eram um tanto cépticos, mas convinham que o mestre Nabor tinha razão e, quando argumentava sobre as coisas do Espírito, levava sempre vantagem.
- Como vão tuas pesquisas, Dmitri, junto à menina? - indagou Alex.
- Progredindo... progredindo...
O mago parecia não querer, naquele momento, falar a respeito, talvez porque não possuísse ainda dados suficientes e não tivesse colocado suas observações em prática.
Semión interferiu:
- Mago, a menina Mayra tem progredido, na escola, de forma surpreendente, supera todos os alunos de sua idade, devora os livros e pouco fala.
Está entrando naquela fase encantadora da adolescência.
Suas maneiras delicadas e finas possuem tanta nobreza, que nem parece ser filha de mujiques.
Eu afirmaria tratar-se de uma criança super-dotada.
- Concordo contigo, Semión.
Tenho-a acompanhado de perto, possui maturidade suficiente para compreender o que se passa com ela.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 17, 2016 7:55 pm

Suas visões tem-me despertado novos raciocínios.
Mayra só falta adivinhar determinadas coisas, é como se ela se adiantasse ao meu pensamento e concluísse o que a minha razão propõe.
Tenho o maior interesse em continuar esta pesquisa.
- Quanto à aparição do Espírito de minha irmã, tens chegado a alguma conclusão, Dmitri?
- Sim, Alex, porém, ainda é cedo para o veredicto.
Estamos apalpando as areias movediças de sua mente, devido à constituição física da menina e à febre que a assalta todas às vezes em que o Espírito a visita.
- Estou muito interessado em que concluas logo tua pesquisa, trata-se de algo muito íntimo e doloroso para mim, compreendes, Dmitri?...
Eu não estava aqui, infelizmente, quando tudo aconteceu... até hoje nada soube sobre o desaparecimento de minha sobrinha que, segundo contam, foi tragada na noite de seu nascimento.
Paira uma dúvida, em minha mente.
Disseram-me que ela morreu ao nascer, porém, cá comigo, tenho minhas incertezas, depois de tanto tempo... acredito que somente teus métodos poderão nos trazer alguma luz.
Os três amigos saboreavam delicioso vinho, antes de se recolherem.
Era noite e Alex sairia bem cedo ao encontro do camarada Kóstia.
Nas primeiras décadas do século dezanove, uma avalanche de Espíritos descia à Terra com a missão específica de levar à humanidade o despertar do mundo espiritual, o desabrochar das relações extra-sensoriais, levando pesquisadores a estudarem os chamados fenómenos medianímicos corroborando mundialmente com o grande trabalho de Allan Kardec, o codificador da Nova Doutrina, o Espiritismo.
Na Rússia, a transição da situação económica contribuía para o surgimento de impostores e reformadores do pensamento.
Os intelectuais exerciam grande influência sobre as massas, surgindo, neste período, escritores que louvavam as dores dos russos, na tentativa de despertar neles a necessidade da mudança.
As revoluções internas fomentadas pelo pensamento abolicionista, neste período, mais pareciam uma caldeira fervente de água que sopitava, atingindo todas as camadas sociais.
Alex encontrava-se ausente da propriedade e, dias depois, o professor Semión seguiu em seu encalço.
Conforme haviam previamente combinado, realizariam a importante reunião com os cooperativistas.
Aproveitando este período de ausência, Sergei, insatisfeito com tudo e com todos, decidiu concretizar de uma vez por todas seu plano macabro; tomar posse definitivamente da propriedade que havia surripiado dos Norobod.
Aliciara dezenas de homens que, ansiosos por mudanças ou levados pelo mau carácter e pelo ódio cultivado dos senhores latifundiários, tomariam as terras à força das armas, se preciso fosse.
Iulián Sumaxokov, que ficara com alguns empregados na lavoura, não desconfiou da armadilha tecida e, julgando trabalhar em terras do patrão, acabou entrando no covil de ladrões que apoiavam Sergei.
- Arrumemos esta cerca e delimitemos de uma vez a área! - ordenou o feitor, decididamente.
Os homens reforçavam a cerca.
Para Sumarokov tudo aquilo constituía novidade.
Aqueles homens insurrectos não lhe obedeciam e causavam-lhe sérias dificuldades.
À tarde, o valoroso mujique reuniu alguns homens de sua confiança e conseguiu o reforço necessário para continuarem o trabalho designado pelo patrão e não o que Sergei os estava obrigando.
- Recebi ordens directas do Sr. Alex Norobod para não nos desviarmos do trabalho nas lavouras da divisa.
Desconheço o motivo pelo qual as plantações deste lado estão abandonadas - reclamava Sumarokov, contrariado.
- Estão abandonadas há vários meses, Sumarokov - explicou um dos mujiques.
- E qual o motivo? - indagou Iulián.
- Sergei - disse outro mujique.
- Ele está fazendo essa divisão há muito tempo, alegando que é daquele lado a melhor terra a ser cultivada - explicou um trabalhador, apontando a área.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

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- O Sr. Alex conhece essa separação? - indagou Sumarokov, preocupado.
- Alguns dias atrás, ele passou por aqui, mas Sergei acabou levando-o paira o outro lado.
Não sabemos se ele viu tudo... - o mujique olhou expressivamente Sumairokov.
Desconfio que Sergei o está enganando para que não saiba a verdade que, deste lado, as plantações e a terra estão arruinadas.
Os homens, que não simpatizavam com o feitor e desconfiavam de uma tramóia, começaram a conversar entre si, cada um relembrando alguns factos.
O vozerio atrapalhava o entendimento.
Sumarokov chamou-lhes a atenção:
- Escutem, camaradas, precisamos saber o que realmente está acontecendo.
Onde estão os outros homens?
Ninguém sabia do paradeiro dos outros.
- Devem estar na lavoura do outro lado - aventurou alguém.
- Como? Se a ordem era trabalhar este pedaço de chão! - exclamou Iulián Sumarokov, sem compreender por que suas ordens não eram atendidas.
Alex havia dito, perante todos os outros, que o obedecessem em sua ausência.
Irritado com a situação, Sumarokov decidiu:
- Vamos. Vamos todos lá, algo de errado está acontecendo...
Tal atitude está atrasando nosso serviço!...
Acompanhado dos homens, Sumarokov adentrou pela cerca muito bem construída, andou alguns metros, e viu um punhado de homens mal encarados guardando a área.
- Alto lá! - gritou o da dianteira.
Sumarokov reconheceu nele um dos empregados e, sem ligar para ele, continuou.
Estava cego de raiva pela desobediência, mas os camponeses que ali se encontravam foram Instruídos pelo feitor para atacarem qualquer pessoa que entrasse no campo.
Os homens de Sergei eram muitos, estavam armados e se renderam facilmente, levando-os dali.
Nestas condições, andaram a solavancos até chegarem a um acampamento.
Sumarokov e seus homens ainda tentaram se soltar, mas foram bastante maltratados com bastonadas e cordas.
Foram todos amordaçados e amarrados a postes fincados no chão.
Quando chegaram, viram outros homens, igualmente rendidos.
Era a força bruta, a tomada brutal de terras.
Só agora, Iulián compreendia o real motivo de sua aversão ao feitor.
Realmente, ele era um sujeito asqueroso e frio.
A situação deles não era nada boa.
O plano tão bem traçado e estudado, era totalmente favorável a posição do feitor.
Uma terça parte dos pobres mujiques subjugados pensava que ele era realmente o dono das terras.
Os mais inteligentes, que conheciam sua condição de feitor, nunca se deixaram envolver por suas ideias, apesar de serem afastados dos outros, para melhor continuarem enganados.
Agora o feitor contava com mais este trunfo.
Era o fim do reinado Norobodvisk.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 17, 2016 7:56 pm

34 - A Tocaia

No sobrado, ficaram o mago Nabor que de nada desconfiava, mergulhado em suas pesquisas, a Sra. Norobod, Sónia, alguns servos da casa e empregados que cuidavam das criações e dos arredores da mansão.
Perto dali, na isbá do cercado, Catienka aguardava Iulián Sumarokov, ansiosamente.
Seu coração estava amargurado com a demora.
O dia estava escurecendo e nada dos homens regressarem da faina, nem ele e nem os outros, nenhum sinal.
O que lhes acontecera? - Perguntava-se a todo instante.
Inquieta, foi à mansão.
- Sra. Norobod, aconteceu alguma coisa aos empregados?
- Não que eu saiba.
Porque perguntas, Catienka?
- A noite não tarda.
Iulián e os outros não voltaram...
Já deveriam ter regressado.
- Os meninos também foram?
- Não. Estão fazendo companhia ao mago Nabor.
- Não tens porque te preocupares, então.
- Vou até lá... vou procurar saber dos outros se os viram voltando... - disse Catienka apressadamente, antes que a luz do dia se fosse de vez.
Olhou o caminho que os empregados costumavam transitar e nada viu.
A escola ficava a alguns metros dali, o mago e os meninos estavam saindo.
- Pável, sabes de teu pai?
- Não, Catienka.
Aconteceu alguma coisa?
- Estou preocupada, até agora nem ele e nem os outros chegaram.
- Estranho! - respondeu Iulián, o filho, aproximando- se dela.
- Talvez tenham se atrasado...- reclamou Nicolau.
- Está quase escuro - argumentou Catienka, olhando o horizonte.
- Tens razão, Catienka - disse Pável.
Vai Iulián, tu conheces o local em que ele foi trabalhar, precisamos verificar se nada lhes aconteceu.
- Sozinho? - assustou-se o primogénito.
- Quem poderia ir contigo? - perguntou Catienka olhando em redor.
- Por que não o acompanhas, Pável? - argumentou Nicolau.
Nabor e Mayra vendo-os concentrados, com o semblante preocupado, aproximaram-se e Nabor perguntou:
- O que sucede?
Pável dava explicações ao mago, enquanto Iulián buscava os cavalos.
A conversa da meninada, que havia saído da escola foi sumindo, dando lugar ao silêncio.
Cada um retornava à sua casa.
Tudo ali estava muito quieto.
Realmente, alguma coisa havia acontecido.
Uma mulher ou outra, acompanhada de uma criança, surgia perguntando a Catienka sobre os companheiros.
Catienka não sabia lhes responder.
A aflição foi tomando conta de sua alma, suas mãos tremiam e suavam.
O crepúsculo vermelho ameaçava findar, tinham que ir rápido.
Ela mesma estava com vontade de montar e se certificar dos factos.
- Fique, Catienka.
Nós vamos ver o que aconteceu - disse Iulián.
- Cuidado, rapazes, escurecendo não continuem.
Voltem! - ordenou a moça.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 17, 2016 7:56 pm

Se escurecesse, de nada adiantaria insistirem, os rapazes não poderiam embrenhar-se no mato.
Não eram acostumados e desconheciam os perigos.
Depois de algum tempo, Iulián e Pável retomaram pesarosos para suas casas.
Catienka correu quando ouviu o tropel dos cavalos, mas os dois jovens regressavam sem notícias.
A escuridão os impedia de avançar mais.
- Sergei também não voltou? - indagou a moça.
- Nenhum sinal, nem barulho. Ninguém voltou.
Está tudo muito silencioso... - disse Iulián que acompanhara algumas vezes o pai e estava mais informado dos costumes.
O jeito era esperarem.
Catienka não conseguia se acalmar, estava trémula à beira do fogão, tentando aquecer as mãos.
Passaram a noite na maior expectativa e antes que o dia clareasse, todos estavam de pé.
A estufa aquecia a casa e o samovar mantinha a temperatura ideal.
Aos primeiros raios da aurora, Catienka correu à mansão Norobod.
Tudo quieto.
Aguardou, do lado de fora, os empregados da casa acordarem, para que alguns homens fossem atrás dos outros desaparecidos.
Aquilo nunca havia acontecido.
A Sra. Norobod costumava acordar cedo, não tardaria em aparecer.
Ela poderia ordenar a alguém que fosse procurá-los.
O barulho de pessoas se levantando animou Catienka que, disposta, não hesitaria em montar e ir, ela mesma atrás de seu homem.
Ela esperava encontrar uma solução para o problema da noite.
- A Sra. Norobod já se levantou?
- Sim - respondeu a aia - ela está descendo, parece que não dormiu nada bem.
- Onde está Karine? - perguntou a Sra. Norobod, entrando na sala.
- Não vi Karine, desde ontem - respondeu a moça.
- Ninguém a viu?
- Vou procurá-la - disse a criada, saindo para o interior da mansão.
Talvez ainda esteja dormindo.
As duas mulheres olharam para fora da casa e viram algumas mulheres que se aproximavam, interrogando por seus maridos.
Uns foram acordando os outros e logo estavam reunidos, dando falta de muitos empregados que trabalhavam com Sergei e com Sumarokov.
O mais estranho era que algumas isbás estavam completamente vazias.
Enquanto reunidos, ouviram um barulho, um tropel de cavalo e todos correram esperançosos.
Era um dos mujiques que havia conseguido fugir à cilada armada por Sergei contra Sumarokov e seus comandados.
- Sra. Norobod, Sra. Norobod, valha-me Deus!
O homem estava pálido e Catienka reconheceu nele o desconhecido que cruzara seu caminho, quando ela e Iulián foram à cidade.
- Eu conheço este homem - disse a Sra. Norobod.
Sim. É Karosky.
Ele foi recentemente contratado por meu filho, está trabalhando na lavoura com Sergei - enquanto o homem descia do cavalo e tomava fôlego para lhes contar o ocorrido.
Foi assim que souberam de toda a tramóia de Sergei contra os Norobod.
Ele fazia parte dos homens que se aliavam a Sergei instruídos para tomar a propriedade, mediante promessas do feitor.
No princípio, Karosky ignorava a maldade do feitor e tomara, inocentemente, o seu partido.
Quando notou algo errado, ficou de tocaia para ver até onde iria o feitor com suas ideias.
Era novato na propriedade e desconhecia seus antecedentes.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 17, 2016 7:56 pm

Soube do plano diabólico, por mero acaso, porque muitos outros homens ingénuos trabalhavam contra o patrão e desconheciam a verdadeira actuação e a intenção do cruel Sergei, julgando que o Sr. Alex estivesse a par de tudo.
Enquanto Karosky contava, a Sra. Norobod ia ficando lívida de raiva.
Seu rosto expressava toda a sua contrariedade contra aquele sórdido empregado que tinha ares de senhor e subjugara o finado Norobod.
Então era isto.
Ele sempre trabalhou contra eles!
- Onde estão Sumarokov e os outros? - perguntou a mulher, nervosa.
- Todos foram presos, poucos conseguiram fugir.
Os que fugiram devem estar escondidos ainda, receosos de serem presos.
- Como fugiste? - indagou Catienka, muito preocupada.
- Eles pensam que eu estou do lado deles.
Quando percebi a armadilha contra Sumarokov, fingi estar apoiando a captura e, com meu passe livre, consegui fugir.
Penso que ninguém me viu.
Ainda não sabem que vim avisá-los.
Sr. Alex não merece o que está acontecendo.
- Mas o que aconteceu aos outros?
- Estão amordaçados no pátio, nas tendas, que foram armadas há dias para a concretização do plano maldito.
É preciso avisar a Sr. Alex, urgente.
Karosky se dispôs a ir até o fim para ajudar aquela gente que, agora, iria realmente necessitar de muitos braços leais e fortes para vencer a dura briga armada em seus próprios territórios.
- Meu Deus! - murmurou a Sra. Norobod.
Como poderei avisar meu filho?
Não sei, exactamente, onde ele se encontra!!!
Mago Nabor que acompanhava o impasse, acudiu:
- Eu sei onde encontrá-lo.
Todos voltaram-se para o mago.
Ele falava tão calmamente como se nada estivesse acontecendo e seu modo tranquilo acabou por sossegá-los.
Felizmente, alguém ali de cabeça fria ainda conseguia raciocinar por eles.
- Oh! Graças a Deus! - exclamou alguém.
- Irás chamá-lo, mago Nabor? - perguntou a Sra. Norobod apoiando-se naquela esperança.
- Sim, imediatamente.
Preparem-me uma tróica.
- Irei contigo, senhor.
É perigoso nova cilada, os homens de Sergei estão armados - ofereceu-se Karosky.
Nabor, dado à meditação, agora se tornava um herói para aquelas mulheres, que depositavam nele toda a sua esperança.
Aguardavam a viatura e, enquanto isso, Karosky era crivado de perguntas pela Sra. Norobod e pelas mulheres que queriam saber de seus maridos.
Souberam então, que Karine era uma grande aliada de Sergei.
Muitos mujiques estavam aliados ao feitor, inocentemente, e outros se encontravam acampados com suas mulheres e filhos, conscientemente aderidos a seu tenebroso plano.
Dmitri Nabor e Karosky partiram assim que a tróica ficou pronta.
Muitos olhos ansiosos acompanharam a tróica até ela desaparecer na curva da estrada.
Aos que ficaram, só restava a esperança de um desfecho feliz, sem nenhuma tragédia.
Pelas descrições de Karosky, não lhes seria conveniente passarem pela estrada principal que, sem dúvida, deveria estar interditada.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 17, 2016 7:56 pm

Seguiriam por um atalho que desviava do acampamento onde estavam os prisioneiros.
Por precaução, a Sra. Norobod pediu que um de seus empregados seguisse a tróica, à distância, receosa de que não pudessem alcançar a cidade.
Que fossem seguidos e, depois, o informante deveria regressar imediatamente para lhe confirmar a notícia de que eles, realmente, haviam saído da propriedade.
Aqueles momentos de expectativa foram terríveis!
Até a desmiolada Sónia que, aparentemente, parecia não se ligar a nada, mostrava-se preocupada com o destino dos trabalhadores.
Algumas crianças compareceram à escola.
Nicolau e Pável as aguardavam, também com ar preocupado.
O clima estava pesado, porque a maioria tinha seus pais e irmãos também presos.
Catienka e Mayra entraram na sala de aula e a presença de ambas aliviou a tensão entre os alunos e os dois jovens professores.
- Viemos convidá-los para orarmos - disse Catienka.
A moça, apreensiva, não conseguia fazer nada dentro de casa e foi buscar alívio junto aos filhos de Iulián.
- Orando, poderemos nos acalmar.
Deus ouvirá o nosso pedido e, com certeza, nada de mal lhes acontecerá.
Todos concordaram.
Ajoelharam-se sobre o assoalho de madeira, como era costume na igreja, e acompanharam Catienka.
A voz da moça estava trémula, causando muita emoção em todos.
Ao final, rezou muitas vezes o Pai Nosso, benzendo-se como ordenava o ritual das missas russas e, depois, espargiu incenso pela escola.
Aquele cerimonial pareceu unir e acalmar os alunos e os filhos de Sumarokov.
Ao espargir o incenso, Catienka percebeu a ausência de Kréstian, mas não se preocupou porque pensou que ele tivesse ido ao banheiro.
Nova preocupação a aguardava.
Antes do fim do cerimonial, Mayra teve uma crise nervosa e começou a falar coisas sem nexo, mas com grande significado para os que acompanhavam sua vida e suas significativas crises.
- Fogo, fogo! Não deixem queimá-lo!
Acudam... eu imploro, misericórdia!
Sobreveio a febre nervosa e Mayra foi levada para a isbá, imediatamente.
Os alunos não compreenderam nada do que estava acontecendo e Nicolau interveio:
- Não riam, por favor!
Estamos passando por um momento difícil, não sabemos o que está sucedendo aos nossos pais.
Façam silêncio!
Voltemos às tarefas de ontem.
O Jovem Nicolau, que possuía grande domínio sobre os outros, foi prontamente obedecido e a aula voltou ao normal.
A Sra. Norobod soube que Mayra tinha tido nova crise e exigiu que ela fosse levada para sua residência, onde teria mais conforto.
Apesar dos rogos de Catienka, venceu a vontade da senhora do lugar e a menina foi transferida para a mansão.
- Ademais, Catienka, não sabemos o que se passa na cabeça destes homens e de Sergei e, se por ventura, assaltarem sua isbá, à noite?
É melhor que todos se transfiram para cá, até que Alex regresse.
Assim, todos foram para a mansão Norobod.
As mãos de Mayra suavam, sua cabeça estava empastada de suor e seu corpinho estremecia.
Catienka não mais a deixou.
Não perdia de vista um gesto ou palavra da menina.
- Papacha... Kréstian... não deixem... não deixem! - a menina gritava banhada em suor e ardendo em febre delirante.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 17, 2016 7:57 pm

- Onde está Kréstian? - pensou Catienka, lembrando- se de que notou a ausência do rapazinho na escola.
Eu não vi Kréstian!
Meu Deus, aonde ele foi?
- Kréstian, Kréstian... - gritava a menina se debatendo, parecia que seu Espírito assistia a uma tragédia.
A pobre noiva não sabia o que fazer, o mago havia partido em busca de Alex, Sumarokov preso, agora Kréstian, e os delírios, como contê-los?
Catienka chamou um dos pajens da casa e lhe pediu:
- Corre! Vai até à escola e verifica se Kréstian lá se encontra.
Encontrando-o chama-o, por favor.
Que ele venha até nós.
O pajem saiu, retornando logo em seguida com a notícia de que Kréstian não se encontrava lá.
- Deus! Raptaram-no, também!? - exclamou ansiosa
A alucinação de Mayra era uma vidência, o irmão talvez estivesse correndo perigo de vida.
Catienka agora não sabia de mais nada.
A dramática situação obrigava-a a procurar soluções rápidas, mas ela não estava conseguindo se acalmar para coordenar seus pensamentos.
Enxugava a testa de Mayra com um pano húmido e prestava atenção em seus lamentos, talvez a menina acrescentasse alguma coisa importante.
- Vês Kréstian?
- Sim. Vejo.
Às perguntas da moça, a jovem respondia naturalmente, permanecendo de olhos fechados como se estivesse em transe mediúnico.
O modo que ela usava para lhe fazer perguntas deixava-a mais calma, porque Catienka estava conversando directamente com o Espírito que dela se assenhoreava.
Sentindo-se identificado, o Espírito tomava-se dócil, falando com calma, porque alguém ali o havia finalmente percebido.
Recebia a importância e atenção devidas.
Catienka via, nitidamente, a entidade postada ao lado de Mayra, e o rosto da menina tornara-se sereno.
- Obrigada, meu Deus, o Senhor ouviu minhas preces - agradecia em voz alta, enquanto uma voz a intuía:
- Conversa com esta entidade, como se estivesse falando com alguém muito querido e a quem devesses esclarecer.
Obediente, a moça começou a formular perguntas, intuída por aquela voz generosa que parecia também acalmar sua mente:
- Quem és tu?
- Sácha - respondeu o Espírito, através de Mayra.
- Sácha?
- Sim, a filha de Norobod.
- Não morreste?
- Morrer é uma palavra por demais pesada para nós e significa o fim.
Antes, diria, mudei de plano e de habitação.
- O que desejas que eu faça?
- Obrigada por me compreenderes.
És boa, tens um grande coração.
Tua presença é pacífica.
Catienka conversava com a entidade naturalmente, intuída pela voz.
- Esforço-me apenas.
Queres algo de mim?
- Sim. Acalma-te, teu esposo e os outros serão soltos.
Não temas.
- E Kréstian? Onde está?
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 17, 2016 7:57 pm

- Kréstian seguiu a cavalo os outros, foi às escondidas.
É um guerreiro valente.
Deixem-no. Ele voltará.
As palavras da entidade que saíam da boca de Mayra traziam paz e esclarecimento à moça.
Encorajada, ainda perguntou:
- Por que Mayra sofre tais ataques?
- O mago que a assiste complementará seus estudos e encontrará a chave do enigma, oportunamente.
- O que tens a ver com Mayra?
O Espírito sorriu melancólico e respondeu:
- Logo também o saberás.
Tenho que ir. Esperam-me.
Ela ficará boa. Paz!
- Não te vás ainda, desejo saber apenas uma coisa.
- Sê breve.
Catlenka abriu a boca, mas o tempo do Espírito se esgotara e, antes que ela falasse, ela explicou:
- Não, não... não posso mais responder-te..
Ora por mim, ora por todos.
Voltarei com a permissão de Deus.
- Adeus! - disse Catlenka, ajoelhando-se no chão e rezando com toda a fé de sua nobre alma.
Mayra dormia em paz e sua respiração estava normal, o suor desaparecera.
Grande paz envolveu a alma de Catlenka.
Esquecera- se da tribulação, era como se nada estivesse acontecendo.
Ela falara com um Espírito, não sentira medo e Mayra fora a intermediária.
Agora estava em paz.
Animada, começou a limpar o quarto.
O mais importante é que Mayra estava dormindo, mansamente, como se nada houvesse acontecido.
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Re: Conde J. W. Rochester - ALMA DE MINH’ALMA / MARIA GERTRUDES

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 17, 2016 7:57 pm

35 - Kréstian Nikolai

Ninguém sabia do paradeiro de Kréstian e começaram a procurá-lo por todos os lados. Ninguém o vira.
Estavam todos reunidos na mansão Norobod e o novo facto aumentava a intimidade entre a Sra. Norobod e os demais moradores.
Esse momento único de provação colectiva os congregou em uma só família.
Catlenka auxiliava na lida da cozinha, quando a Sra. Norobod surgiu, desejando saber notícias de Mayra.
A moça lhe contou o singular facto que envolvia o Espírito de Sácha.
- Conversaste com minha Sácha! — exclamava, sem compreender.
Como foi isto?
- Naturalmente, como se estivesse falando contigo.
- Como sabias de suas respostas?
- Através da voz de Mayra.
Ela me respondia como se fosse a outra.
- Espantoso!
- Ela prometeu voltar em outra oportunidade - dizia alegremente a moça, tranquilizando o coração da saudosa mãe.
- Farei tudo para que isto aconteça...
Mayra dorme ainda?
- Sim. E como dormiu bem, depois que o Espírito se foi!
- Louvado seja o Cristo Jesus!
Estou ansiosa para vê-la.
- Ninguém viu Kréstian, Sra. Norobod.
Não temos a menor ideia de onde ele possa estar.
- Coloquei alguém à sua procura e estamos verificando os cavalos, as renas, os cachorros...
- Ele sempre foi um menino decidido.
Nada me espanta que tenha saído às escondidas atrás do pai, acompanhando os últimos homens que foram para os campos - Catienka dizia convicta, mas com o coração opresso.
Kréstian era o mais jovem de todos e o mais corajoso.10
Espírito de Sácha afirmou que não precisávamos nos preocupar e que os homens seriam soltos.
Kréstian foi atrás do pai, a cavalo e, mais tarde, voltaria.
- O que mais disse, Catienka?
- Não pôde dizer mais nada, seu tempo estava vencido, segundo ela, mas prometeu voltar.
A Sra. Norobod suspirava de emoção, e duas lágrimas quentes desceram sobre sua face pálida.
Ela também estava feliz e, apesar de sua crença, não duvidava que sua menina estivesse sempre com eles.
Enfim, concordava com a comunicação dos Espíritos entre os homens, apesar de o pope não aceitar.
Tratando-se de Sácha, sua adorada filhinha, nada disto agora tinha Importância, o pope que ficasse com seus preconceitos.
Mayra acordou tarde e bastante alegre, nada sabendo do que lhe acontecera.
Sendo ela médium inconsciente e sonâmbula, ao acordar tinha apenas a sensação feliz de haver prestado socorro a alguém.
A expectativa das mulheres, porém, era muito grande.
Entregavam-se ao trabalho, tentando se manterem ocupadas, desejando esquecer o perigo que ameaçava seus companheiros.
Conheciam de sobra a maldade do feitor e dele esperavam o pior.
Muitos já haviam sofrido suas crueldades.
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