Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 02, 2017 9:06 pm

Eles se considerarão felizes em aproveitar o que lhes sobrar para o repouso.
Mernephtah levantou-se prazenteiro e bateu no ombro do príncipe:
— Vê-se bem que és meu filho.
A mesma divindade nos inspirou.
Já dei ordens para se reunirem os governadores e fiscais dos hebreus e vamos estabelecer os trabalhos que lhes deverão corrigir o desejo de conspirar.
Moisés e o grande Jeová ficarão impotentes.
— Porque não mandas prender esse perigoso intrigante? — perguntou Seti.
— Porque não convém atribuir-lhe o papel de vítima, a fim de não excitar o interesse que essa condição desperta.
Sua incapacidade torná-lo-á desprezado.
O malogro dos seus grandes projectos o tomarão detestado.
Deixemos este assunto por hoje, tanto que desejo divertir-me com uma caçada; que tudo esteja pronto e se teu pé o permitir, irás comigo.
E Mernephtah, cujo espírito inquieto não gostava de se demorar muito tempo num mesmo assunto, falou alegremente da caçada e da excelência dos seus cães.
O herdeiro pediu que lhe desculpasse, pois não poderia acompanhá-lo.
Após a partida do rei (que escolheu ele próprio os que deveriam segui-lo), solicitei e obtive do meu chefe uma dispensa até o dia seguinte.
Ao chegar a casa, encontrei os meus reunidos; Chamus lá estava e naturalmente não acabava mais de falar dos acontecimentos que testemunhara.
Quando entrei, ele ainda comentava o atrevimento do judeu impuro, a insolência do seu discurso, a dignidade de Mernephtah e a impressão própria e dos demais que assistiram à memorável audiência.
Minha mãe e minha irmã crivaram-me de perguntas, apenas dando tempo de tomar um copo de vinho.
Um grande conselho vai ser convocado — disse eu —, Aahmés levou ao governador da cidade uma ordem para convocar quanto antes os chefes e fiscais dos hebreus, cujos trabalhos serão regulamentados, pois tanto Mernephtah quanto Seti são de opinião que é preciso fazer abortar essa conspiração, não deixando aos hebreus, tempo para ouvirem discursos subversivos.
— Tem muita razão — redarguiu meu pai — essas hordas impuras trabalham muito pouco, mas, sabes se o conselho será secreto?
— Não sei dizer-te.
Além dos funcionários que já nomeei, convocaram também os principais sacerdotes, porque o tal Moisés é um grande mago e é perigoso meter-se com essa gente sem o auxílio dos sábios.
Por muito tempo conversamos sobre todos esses assuntos.
A inquietação era grande, na previsão de calamidades.
Minha mãe me recordou as terríveis previsões que lhe havia contado a nobre Herneka e ficamos sabendo que Chamus ouvira a mesma coisa em Thebas, da boca de um primo, sacerdote de Amon.
Passados dois dias, o Faraó resolveu ir ao templo de Rá para sacrificar ao deus de sua devoção, porquanto, na tarde desse dia, deveria congregar o grande conselho.
Quando o rei descia do carro para tomar a barca, um grupo de homens foi ao seu encontro.
Eram Moisés e seus companheiros, pelo que, logo empunhamos as espadas, mas Mernephtah fez sinal para que ficássemos calmos e perguntou com desdenhosa firmeza:
— Que queres ainda, Mesu?
Já não tiveste minha resposta?
O hebreu fixou seus olhos no rei com tal insistência que parecia devorá-lo e, depois dessa contemplação silenciosa, disse:
— O que pretendo é sempre a mesma coisa.
Deixa partir o povo de Israel; o grande Deus que me envia assim o exige; seu poder é sem limites e isso ele te provará.
Hoje eu ainda peço e suplico, mas livra-te da minha ameaça e treme diante do castigo à tua teimosia.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 02, 2017 9:06 pm

Enquanto falava, os olhos despediam chispas e pareciam pregados nos do rei.
Mernephtah estava como que oprimido, seu olhar amortecia, e por vezes passava a mão pela fronte.
Moisés continuou tomando à pequena carregadora de água o cântaro que trazia à cabeça:
— Vê, a vontade do meu Deus pode mudar em sangue esta água pura e límpida...
Despejando o cântaro, todos vimos, trémulos, grosso filete de sangue espalhar-se no solo.
Gotas cintilantes ao sol, como rubis, ainda ficaram matizando as bordas do vaso.
— Quero prevenir-te, pois, que se continuares retendo o povo escolhido, Jeová mudará em sangue as águas do Nilo; os peixes morrerão e tudo será empestado.
Pálido e imóvel, como fascinado pelos olhos incendidos de Moisés e de seu irmão o rei tudo ouvira.
Imediatamente, porém, meneou a cabeça como para aliviar um peso, corou, os olhos flamejaram e, fugindo ao olhar de Moisés, saltou para a embarcação, dizendo-lhe altaneiro:
— Tu te enganas supondo intimidar-me com os teus sortilégios; não passas de um grande mágico, mas, por tão pouco não libertarei os hebreus.
Vi Moisés bater o pé e acompanhar a barca real com olhar sombrio; depois, voltou-se e desapareceu entre a multidão.
Faraó parecia pensativo e assim esteve muito tempo no santuário, a sós com o grão-sacerdote.
Quando de lá saiu, mostrava-se desembaraçado e calmo.
Gracejando amavelmente com as ameaças de Moisés e com os doces envenenados que pretendia ofertar-nos, reentrou no palácio.
Na pequena sala do conselho, brilhantemente iluminada, reuniram-se à tarde, os fiscais dos hebreus, os governadores das cidades e os mais veneráveis sacerdotes, entre os quais o ilustre e sábio Amenofis, da casa de Seti, pessoalmente conhecido do monarca e por ele distinguido.
Eu e outros oficiais da guarda vigiávamos as portas.
Presentes todos os convocados, Menerphtah entrou acompanhado do herdeiro, ocupando o trono, enquanto o filho tomava assento mais abaixo; os funcionários se prosternaram mas com voz musicada, Faraó ordenou que se levantassem e perguntou, em seguida, se o conspirador já se tinha mostrado entre os operários a eles confiados.
Os chefes disseram ostensivamente que não.
— Porém, — informaram — sabiam que à noite os hebreus faziam reuniões a que compareciam provavelmente, portadores dos planos de Moisés, visto que manifestavam nas atitudes e na preguiça, imprudente grosseria e negligência, numa crescente resistência.
— Quais os principais trabalhos a que se entregam presentemente? — indagou Faraó.
— Edificações na cidade de Ramsés, reparação de canais e preparo de tijolos para essas obras — responderam os governadores.
— Então ouvi o que resolvo e transmiti aos vossos subordinados, — disse Mernephtah — o trabalho dos hebreus deverá ser aumentado de tal maneira que o cansaço lhes tire o gosto e o tempo de conspirar; mas de que modo pensais que lhes poderíamos aumentar a tarefa diária?
— Pensamos, grande rei, — respondeu um arquitecto — que se obrigarmos a cortar eles mesmos a palha de que necessitam e que agora recebem já pronta, exigindo-lhes, simultaneamente, a fabricação da mesma quantidade de tijolos, como anteriormente, isso bastará para ocupá-los até o esgotamento.
Ainda discutiram os pormenores da providência, até que o rei levantou-se e disse, dando por finda a reunião:
— Deverá entrar em execução a partir de amanhã, o que ficou resolvido.
Passaram-se mais de doze dias sem consequências dignas de menção.
Moisés e seu irmão não eram vistos em parte alguma; os hebreus trabalhavam dobrado e pareciam muito combalidos; todo mundo se tinha acalmado e eu me ocupava dos meus afazeres de família, acrescidos com a perspectiva do próximo enlace de minha irmã Ilsiris, assim triunfando a vontade materna em relação a Chamus.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 02, 2017 9:07 pm

Na manhã de um certo dia, achando-me de folga, meu pai me incumbiu de visitar um vinhedo muito retirado, cujo zelador tinha adoecido.
A certa distância da cidade, percebi, próximo da estrada, um ajuntamento considerável.
Ouvi exclamações e ameaças, enquanto braços erguidos pareciam designar algo que eu não podia ver.
Dirigi o cavalo para o local e nessa massa de gente de todas as idades, cansados e quase nus, reconheci os hebreus a carregarem palha para uma olaria.
De pé, fiscais egípcios, tranquilamente se mantinham à parte, observando o tumulto com indiferença; muito admirado, alcei-me na sela e vi, no meio do grupo, Moisés em pessoa, seguido do irmão.
A multidão furiosa o acusava; instrumentos de trabalho e pedras nas mãos erguidas, provavam que a raiva ia transformá-los em armas de agressão.
Uma voz dominando a celeuma, gritou:
— Pérfido impostor — nada podes fazer; em vez de libertar-nos apenas desencadeaste a cólera do grande Faraó; anda a ver todas as construções e fornos de cozer tijolos, contempla a tua obra; por toda parte nossos irmãos morrem de fadiga e trabalho.
Centenas de vozes roucas e dissonantes, exclamaram:
— Matem-no.
Pensei que, se os próprios judeus massacrassem o chefe, prestariam real serviço a Mernephtah, mas não queria imiscuir-me em coisa alguma, temendo atritar-me com o grande mágico.
Contentei-me em observá-lo.
Moisés parecia calmo e impassível; braços cruzados, cenho carregado, fitava com olhar profundo e indefinível a multidão enfurecida que o cercava; seu companheiro, agitadíssimo, rosto afogueado, gesticulava atrás dele, tentando certamente persuadir os mais próximos.
Nesse momento, o profeta elevou a voz e seu timbre poderoso e metálico tudo abafou como um sino de bronze:
— Tende paciência e confiança em Jeová, que prometeu vos libertar, homens pusilânimes e cegos — Mernephtah pagará pela sua crueldade e teimosia; antes que o sol se erga pela terceira vez, os trabalhos não mais vos serão impostos e tereis permissão de partir.
Cessaram os gritos e clamores, e a multidão dissolveu-se entreolhando-se espantada; as pedras lhes caíram das mãos.
O companheiro de Moisés, evidentemente muito inquieto, puxou-o pelo manto procurando afastá-lo o mais depressa possível; ele, porém, se desprendeu lesto e, devagarinho, dirigiu-se para a estrada, atravessando as compactas filas.
Ao passar ao meu lado, fitou-me com olhar de fogo, dizendo:
— Jovem guerreiro, diz ao teu senhor que o trabalho dobrado com que sobrecarregou o povo eleito o forçará a vir pedir-me, imediatamente, que o procure, para acabar com as calamidades que vão assaltar o Egipto.
Sem se deter continuou seu caminho e fiquei estupefacto da ousadia do feiticeiro, que, certo do temor que inspirava tornando-se invulnerável, ultrapassava todos os limites.
Ao regressar a casa, muito tarde, os meus já se haviam recolhido.
A ninguém falei, nem vi e deitei-me fatigadíssimo; mas eis que fui despertado a gritos e empurrões.
Abri os olhos sonolentos e percebi meu pai pálido e nervoso a sacudir-me, dizendo:
— Levanta-te, Necho, pois estão passando coisas extraordinárias.
Todo o Egipto está como assomado de loucura, porque Typhão enfureceu-se contra nós.
— Que está acontecendo? — perguntei aparvalhado, ao mesmo tempo que me levantava.
Sem dizer palavra, meu pai conduziu-me a um mirante, de cujo cimo avistava-se a rua e um bairro confinante.
Inúmeras pessoas corriam de todos os lados, rasgando a roupa e dando gritos desesperados; alguns aguadeiros quebravam as bilhas e rolavam pelo chão.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 02, 2017 9:07 pm

— Parece, — disse meu pai — que, ao clarear do dia, quando os aguadeiros se aproximaram para encher as vasilhas, verificaram que o Nilo se mudara em sangue; ninguém se atreveu a aproximar-se do rio sagrado; mas, coisa singular:
a pequenina fonte do nosso jardim continua inalterada.
— São obras das feitiçarias desse maldito Moisés — repliquei — e devo ir já ao palácio.
Aposto que todo o povo está se encaminhando para lá.
Descia a escada quatro a quatro e vesti-me enquanto atrelavam o carro.
Ao atravessar uma sala, encontrei minha mãe e irmã, que vinham ao meu encontro, lacrimosas.
— O Nilo está mudado em sangue! — exclamou Ilsiris.
— Já sei; mas, por Osíris, acalmai-vos! — respondi, abraçando-as — e como temos aqui água pura, enchei todas as ânforas, bilhas e bacias disponíveis, para o caso de vir o maldito mágico a contaminar também as fontes.
Vou de caminho para junto de Faraó, que encontrará, sem dúvida, um meio de livrar-nos desta calamidade; e tão logo tenha qualquer novidade, procurarei comunicar-vos.
Açoitei os cavalos e o carro voou pelas ruas de Tanis.
Nas proximidades do palácio a multidão era tal, que com muita dificuldade consegui avançar; todos os acessos estavam invadidos pelo povo, a custo contido por dupla fila de soldados, que só deixavam passar as liteiras e carros dos dignatários que se aproximavam apressadamente.
Assim, assisti à chegada do grão-sacerdote do templo de Amon, acompanhado do sábio Amenophis, e entrei atrás deles.
No interior do palácio não era menor a agitação.
Por todos os lados, rostos ansiosos, grupos que conversavam gesticulando; a maior parte dirigindo-se para o salão de recepção, onde todos se reuniam por ordem do rei.
Quando os clarins e o pregão dos arautos anunciaram a aproximação do Faraó, fez-se profundo silêncio.
Mernephtah entrou pálido e carrancudo, acompanhado do herdeiro e seguido do governador da cidade, sacerdotes e conselheiros.
Ao tocar o primeiro degrau do trono, parou.
Os clamores do povo que, vez em quando alcançavam a sala, lhe chegaram aos ouvidos.
— É o povo alarmado que clama; cumpre-me falar-lhe — disse ele.
E atravessando salas e galerias, dirigiu-se para uma varanda que dominava a redondeza.
Ao avistá-lo, brados de alegria e esperança estrugiram da multidão e milhares de braços súplices se estenderam para ele, de quem esperavam saúde e protecção.
Mernephtah ergueu o ceptro indicando que ia falar.
Como por encanto, acalmou-se o tumulto e reinou profundo silêncio.
— Fiéis egípcios, acalmai-vos — articulou a voz clara e sonora do nosso Faraó — não vos deixeis intimidar pelo mágico hebreu, que nos quer compelir a entregar nossos escravos e trabalhadores.
Estais de acordo com isso?
— Não, jamais! — berrou a turba.
— Ficai calmos então, e aguardai o que o conselho reunido vai deliberar.
Convoquei os sábios egípcios; talvez eles possam anular essa feitiçaria; ficai tranquilos, voltai para casa e guardai cuidadosamente os poços e as fontes não contaminados.
Prorromperam em brados de aclamação e louvor e enquanto o rei voltava à sala do trono, a turba se dispersou célere.
— O mago quer nos intimidar com repugnante malefício agindo sobre o rio sagrado e a maior parte dos poços e fontes; conselheiros, que providências sugeris?
— É preferível tudo sofrer que ceder, deixando partir os judeus! — declarou o príncipe Seti com voz firme.
— Sim, sim, tudo sofrer, jamais ceder; mas, consultar os sábios — tal foi o grito que ecoou tumultuosamente na assembleia.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 02, 2017 9:07 pm

— Sejam, então, convocados os sábios e feiticeiros! — ordenou o rei.
Destacou-se um grupo e defrontando o trono prosternou-se.
A maior parte vestia o longo hábito branco dos sacerdotes; outros, inteiramente nus, salvo o avental que lhes cingia os rins bronzeados, pulseiras de ouro nos braços e pesados argolões nas orelhas, eram os magos.
Fez-lhes sinal o Faraó para que se levantassem e perguntou:
— Podereis fazer aqui, diante de mim, os milagres que opera o hebreu?
Vós, sacerdotes, haveis estudado na mesma escola que ele.
Saberá ele mais do que vós?
Inclinaram-se os sábios e operaram diante de todos o milagre da serpente transformada em bastão; o da mão doente e, enfim, numa bacia, mudaram a água em sangue.
Satisfeito Mernephtah sacudiu a cabeça.
— Estou contente — disse — porque os meus egípcios não se deixam ultrapassar em saber por um impuro; entretanto, vossa grande sabedoria não merecerá louvores senão quando desembaraçardes o país da calamidade que o aflige.
— Grande rei, a quem os deuses concedam longa vida, glória e saúde, não poderemos fazê-lo — responderam, os sábios e magos inclinando-se — senão quando soubermos de que modo Mesu transforma a água em sangue; somente depois disso poderemos contrabalançar o seu poder.
— Que se mande imediatamente buscar o hebreu — ordenou o Faraó.
Insensivelmente, estremeci ao lembrar que ele o havia previsto.
Um oficial apresentou-se, dizendo que o emissário tinha, por feliz acaso encontrado Moisés na rua e acabava de entrar com ele no palácio.
Imediatamente, Moisés, seguido do seu inseparável companheiro, altivo e reservado estava diante do trono.
Contudo, um lampejo de triunfo lhe brilhava nas pupilas, quando o olhar penetrante do rei cruzou com o dele, como se cruzam as lâminas de dois sabres.
Disse Mernephtah com subtil ironia:
— Enviado do grande Jeová, com a ajuda dos nossos deuses, os sábios que aqui estão operam os mesmos milagres que fazes, e alem disso, pretendem que o sangue que fabricam é o único verdadeiro e não o teu; prova-me de que lado está a verdade; se contigo, deixarei partir teu povo.
O companheiro de Moisés pareceu-me querer impedi-lo, cochichando-lhe no ouvido; Moisés, porém, certo da vitória, ordenou, de olhos brilhantes, que trouxessem um vaso d’água; elevando os braços, fez vários gestos, no que foi imitado pelos sábios; imediatamente, as duas vasilhas estavam cheias de sangue — sangue tão real, que o rei se viu embaraçado para decidir a quem conferir o prémio.
— És poderoso mágico, bem vejo — disse Mernephtah, depois de confabular um instante com o grão-sacerdote de Amon, que se havia aproximado por trás do trono.
Se, pois, ao fim de três dias os meus sábios não tiverem restituído ao Nilo a pureza, desfazendo tu o malefício, procura-me e os hebreus serão libertados.
Retirou-se Moisés e o rei voltou aos aposentos, acompanhado pelos conselheiros e sábios.
— Agora explicai-me — disse — como procederei?
— Grande rei — respondeu o grão-sacerdote — agora sabemos como ele opera.
Ainda por três dias, teremos que sofrer, e o apodrecimento dos peixes dar-se-á como ele o disse; mas depois, tendo-lhe tu prometido a libertação de seu povo, uma vez cessado o flagelo, ele retirará a sugestão que nos faz ver sangue e as águas do Nilo voltarão à sua pureza natural.
Isto feito, dominá-lo-emos e impediremos a renovação do feito.
Entrei em casa contentíssimo e tranquilizei os parentes que me aguardavam ansiosos, embora também preferindo todo sofrimento à libertação dos judeus.
Passaram-se três dias aflitivos; o malefício continuava e os peixes colhidos ou relegados à praia exalavam podridão.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 03, 2017 9:07 pm

Raiou, enfim, o quarto dia e, ao alvorecer, quando me dirigia para o palácio, notei que o Nilo continuava a correr sanguinolento.
Em uma galeria exterior que levava ao terraço (de onde falara ao povo), o Faraó perambulava impaciente, quando Moisés e o indefectível companheiro se apresentaram diante dele, reclamando o cumprimento da promessa.
— Muito bem! - respondeu Faraó, em atitude serena — livra-nos das águas ensanguentadas e poderás levar teu povo.
Moisés falou e um clarão iluminou-lhes os olhos:
— Esta tarde estareis livre do flagelo...
Vindo de fora, grande clamor cortou-lhe a palavra; o rei avançou lesto para o terraço, acompanhado pelo seu séquito e pelos dois hebreus.
De todos os lados acorria gente com exclamações de alegria incontida, abraçando-se e elevando os braços aos céus, abençoando o rei.
Do Nilo, que novamente resplandecia ao sol, qual mar cristalino, avançava uma onda humana conduzindo em triunfo os sábios e magos, que, (segundo me contaram mais tarde), enquanto Moisés se encontrava diante do rei, se tinham reunido á margem do rio, conjurando as águas e elevando ardentes preces aos deuses; então, à vista de todos, o vermelho empalideceu e as águas se tornaram límpidas.
Olhei o profeta.
Pálido, lábios crispados, permanecia junto à balaustrada e seu olhar flamejante parecia querer reduzir a cinzas a multidão satisfeita, que tumultuava em baixo.
— Muito bem! grande mensageiro dos deuses — disse o rei, voltando-se — vês que os nossos sábios nos desembaraçaram dos teus malefícios; vai-te, pois, e diz ao teu Jeová que imagine alguma melhor para libertar os seus eleitos.
O rosto pálido de Moisés enrubesceu e, sem nada responder, deu as costas e saiu a passos rápidos, seguido pelo irmão trémulo de raiva e como que a censurá-lo em surdina.
Irónica explosão de riso saiu dos lábios do Faraó e essa risada real, reforçada pela dos que o cercavam, parecia repercutir em todas as salas, galerias e escadarias, acompanhando como um eco escarninho os dois hebreus.
— Vamo-nos todos ao templo, para agradecer aos deuses e lhes oferecer sacrifícios dignos da alta protecção que acabam de nos dispensar — disse Mernephtah.
O tempo que se seguiu foi de grande contentamento; todos pareciam libertos de um perigo mortal e buscavam uma compensação para os aborrecimentos experimentados; Moisés não aparecia e o bom humor do rei nunca foi tão evidente.
Certo dia, após o repasto da noite, o Faraó ainda saboreava seu vinho, rodeado de príncipes e íntimos, quando viu Rhadamés caminhar para ele e ajoelhar-se.
— Tu, meu fiel condutor do carro, que desejas de mim? .
Se é uma graça, diz, pois nunca me senti tão bem disposto para concedê-la.
Ouvindo palavras tão animadoras, Rhadamés corou de satisfação e formulou o pedido:
— Oh! maior dos reis, tu que, como Rá, de quem descendes, douras e embelezas tudo o que te é vizinho, concede-me a graça de honrar com tua presença os festejos do meu casamento com Smaragda, a irmã de Mena; desejaria celebrá-lo o mais breve possível e suplico fixares a data.
O Faraó, sorridente, esvaziou a taça e depois, dando a mão a beijar, disse com bonomia:
— Tua súplica está atendida.
De hoje a quatro dias festejaremos teus esponsais.
Após agradecer e obter também a promessa do herdeiro, o postulante retirou-se rapidamente cheio de alegria.
De mim para mim, não podia compreender que artimanha ele empregara para conseguir que a moça tivesse assim abreviado o casamento.
Intrigadíssimo, resolvi procurar Smaragda no dia seguinte, pois há muito que não nos víamos.
Cheguei ao palácio, levando, como homenagem à noiva, magníficas flores e uma caixinha de perfumes.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 03, 2017 9:08 pm

No primeiro pátio lobriguei Rhadamés cercado de intendentes e mordomos, aos quais dava ordens, vaidoso, tanto que nem me viu.
Velho criado prontificou-se logo a conduzir-me à presença da senhora.
Por toda a parte, no palácio, evidenciavam-se os preparativos da festa.
Criados que conduziam ou instalavam enormes jarrões com flores raras, outros que estendiam tapetes, adornavam aparadores com baixelas de ouro e prata, e circulavam colunas de guirlandas floridas.
Quando cheguei ao terraço, notei que a heroína da festa em perspectiva não estava contente.
Recostada numa espreguiçadeira, tendo junto de si a ama que dispunha jóias num estojo, vi Smaragda com a cabeça pousada nos travesseiros, tranças semi-desfeitas e semblante anuviado.
Parecia absorvida em triste e desolado cismar.
Ao ouvir meu nome levantou-se e, envolvendo-se em amplo véu, fino e transparente, deu-me as boas vindas e convidou-me a sentar.
Ofereci-lhe as flores e apresentei minhas felicitações.
— Necho, por que me felicitas? — disse com amargura — melhor farias se apenas me visitasses; teus conselhos me seriam úteis.
Não sabes que minha tentativa de evasão fracassou?
Eu deveria reunir-me a Omifer em Thebas; Setnecht, que me demonstrou muita amizade, ficou incumbido de preveni-lo; mas, quando cheguei ao sítio combinado, não encontrei Omifer e sim Rhadamés, saído não sei donde, e que me reconduziu para aqui, apesar da minha relutância.
Agora ele me espiona sem tréguas e assumiu atitudes de senhor; estou certa, entretanto, de que só ambiciona minha riqueza e não minha pessoa...
Como sou infeliz!
Escutei-a admirado.
— Acalma-te, Smaragda — disse por fim — não te surpreendas com a sua arrogância, de vez que, depois de amanhã ele será teu marido; ontem à noite, convidou Mernephtah, que prometeu honrar tuas núpcias com a sua presença.
Saltou, de olhos flamantes.
— Que miserável!
Ousou fazer isso?
— E por isso nada se pode fazer, Mernephtah felicitou-a.
Sê razoável, portanto, Smaragda; conforma-te com o inevitável.
Rhadamés apareceu no terraço nesse momento com o seu melhor sorriso.
— Que há por aqui? — perguntou.
Smaragda, tremes e tens as faces vermelhas.
Que te falta, querida?
— O que me falta é que te odeio! — exclamou fora de si, esquecendo minha presença - impediste-me de fugir agora, sem pedir meu consentimento, marcaste o casamento e convidaste o rei.
Mas, não te quero, porque amo Omifer, compreendes?
Pálido, Rhadamés falou:
— As mulheres não podem viver sem caprichos e sem histórias, pois Mena concedeu-me tua mão e eu não desistirei, jamais; não te fui indiferente, porque quando te falei de amor, não me repeliste; e agora que os deuses te concedem a felicidade, procedes como insensata.
— Julguei amar-te, sim, — disse Smaragda, de cenho carregado — porque não te conhecia tal como és.
Não eras tão impertinente, enquanto eu possuía apenas uma parte dos nossos haveres; e se Mena ainda fosse o senhor, voluntariamente, te desfarias de mim.
Desde aquele dia em que me regateaste asperamente os dez camelos enviados a meu irmão, te tornaste odioso e indigno do meu amor.
Transfigurada de repente e de mãos postas, deu um passo na direcção de Rhadamés, que à ouvia calado, mordendo os lábios.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 03, 2017 9:08 pm

— Ouve-me, dar-te-ei tudo.
Este palácio, minhas terras, rebanhos, ouro, os vinhedos que me pediste para dotar tuas irmãs; somente peço que renuncies a mim.
Dá-me a tabuinha de Mena e aceita, em troca, toda a minha fortuna; a pé, com minha ama, deixarei esta casa para ir ter com Omifer.
Ele me receberá sem um anel de ouro, sequer, pois que me ama!
Estava fascinante naquele momento.
Os cabelos negros e soltos, lhe realçavam a brancura da tez e os olhos brilhavam através das gotículas de lágrimas que lhe bordavam os lindos cílios.
Olhei Rhadamés; a proposta era tentadora e podia demovê-lo, mas, logo à primeira vista, pensei:
pobre Smaragda, és bela demais para que te renunciem!
Tão claramente como se ele falasse, li nos seus olhos:
“Hei de possuir-te, mulher sedutora, e contigo tudo o mais que me ofereces”.
Enlaçando-lhe o busto esbelto, atraiu-a para a espreguiçadeira e cobriu-lhe de beijos o rosto inundado de lágrimas.
— Retracta-te, Smaragda, pensas que não te aceitaria também assim, sem nada de teu?
Desconheces meus profundos sentimentos, para pensares que te ceda a outrem.
Acreditas amar Omifer, mas este capricho passará, porque fui eu quem primeiro te inspirou amor e nesta convicção baseio a felicidade do nosso futuro.
Ajoelhou-se e inclinando-se para ela, acrescentou sorrindo:
— Olha bem para mim...
Serei assim tão feio?
Terei mudado tanto depois que esses teus lábios me encorajaram?
Enxuga essas lágrimas, querida, perdoa-me se te ofendi, eu, o último dos escravos.
Mais uma vez abraçou-a, porém, não obtendo resposta, levantou-se e deixou o terraço em minha companhia.
Parou na galeria, semblante já transfigurado, denotando profundo descontentamento.
— Lastimo, Necho — disse em tom glacial — que o acaso te fizesse testemunha desta cena e das tolices que proferi; mas, deves compreender que tudo é lícito quando se trata de acalmar os caprichos de uma bela mulher.
Secamente despedi-me e saí pensando comigo mesmo: pobre Smaragda!
Que vida terrível te aguarda!
No dia do casamento, tudo que Tanis tinha de melhor na sociedade lá estava no palácio de Mena.
Não assisti à cerimónia, mas participei do séquito real, que veio para a festa.
A noiva no seu rico enxoval, coberta de jóias estava mais fascinante, mas tão pálida e triste que todo mundo reparou.
Depois que felicitou os nubentes e presenteou a noiva com uma caixinha repleta de pérolas, o Faraó assentou-se à mesa do festim, ocupando uma cadeira alta, a ele destinada.
No início a presença do rei impunha certo constrangimento, mas, tão logo foram esvaziados os copos de capitosos vinhos, que os criados rapidamente tomavam a encher, as línguas se desataram e a alegria generalizou-se.
Não descreverei a festa.
Os ágapes desse género se assemelham sempre; em todos os tempos.
Os homens sempre gostaram de comer bem; mas desta vez, a sorte não permitiu saborear à vontade finas iguarias que se ofereciam, porque, no instante em que a animação e a alegria atingiram o auge, gritos e clamores ecoaram fora.
Mernephtah depôs a taça que ia levar aos lábios e seus grandes olhos arregalados, se voltaram para a porta de onde irrompiam muitos escravos, trémulos e assustados, a exclamarem:
— Os ratos!
Os ratos tudo devoram!
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 03, 2017 9:08 pm

O tumulto estabeleceu-se no salão; comensais que se levantavam derrubando cadeiras, mulheres quê gritavam.
A um gesto imperioso do rei, todos se contiveram.
— Verifiquem o que ocorre! — ordenou.
Lancei-me com outros pela grande escadaria, para o local de onde provinha o alarido, que aumentava de momento a momento e logo se nos deparou um espectáculo verdadeiramente inaudito.
No grande pátio e numa parte reservada dos jardins, estavam armadas mesas enormes, sortidas de cerveja, bolos e assados para os pobres e o populacho; no momento, esse lugar da festa estava transformado em campo de batalha; parte das mesas e dos tonéis emborcados, inextricável mistura de homens, mulheres, crianças e escravos corriam, saltavam, sacudiam-se como loucos, dando gritos de angústia, debatendo-se contra legiões de ratos, ratazanas, sapos e outros animais, que, surgindo sabe Deus de onde, assaltavam as mesas e devoravam os pratos, subindo nas pessoas apavoradas.
Nós recuamos, fechamos as portas para impedir a invasão, mas filas dos imundos já haviam alcançado as escadas.
Voltamos à sala do banquete, onde o tumulto era indescritível; uma parte das senhoras e entre elas Smaragda, estavam desmaiadas.
Outras haviam galgado as mesas, pedindo em altos brados que as conduzissem às suas casas enquanto os homens e os criados abatiam a golpes de sabre, bastonadas e mesmo cadeiradas, os repugnantes animais que pareciam surgir de todos os cantos, dependurando-se nas roupas e devorando as iguarias e doces espalhados a esmo.
Nós, os oficiais, cercamos o Faraó e o herdeiro, que permaneciam de pé e de espada desembainhada, contemplando a cena incrível.
Mernephtah falou, com ar sombrio:
— É uma nova feitiçaria de Moisés.
Volto a palácio e que se transmita aos Sábios a ordem de ali comparecerem imediatamente! ...
Fizemos, com os escudos, uma cadeira improvisada e, erguendo o rei sobre nossos ombros, atravessamos com precaução o salão do festim, inundado de vinho a correr das ânforas entornadas pelas escadas coalhadas de sangue e detritos animais.
Em baixo, o Faraó tomou a liteira, mas, desde que o povo que invadira as ruas o avistou, prorrompeu em brados medonhos e todos os braços se voltaram para ele.
Nesse instante, enorme rato, subindo por um dos condutores, alcançou a liteira; Mernephtah o agarrou pela cauda, estrangulando-o, e, erguendo-se dentro da liteira para que todos pudessem ver, suspendeu o animal e exclamou com voz retumbante:
— Egípcios! Assim faremos com os miseráveis hebreus, que, pelas feitiçarias do seu chefe, querem nos intimidar; mas acalmai-vos, voltai para vossos lares e defendei-vos; os sábios já foram convocados e vos livrarão dos animais imundos, assim como vos livraram da água sanguinolenta.
Vendo o rei matar corajosamente o rato, sem demonstrar receio nem asco, enorme energia se apoderou do povo e aclamações entusiásticas acompanharam o cortejo real.
Voltei ao palácio de Mena, chamei meu irmão, minha mãe e Ilsiris e auxiliei-os a tomar a liteira.
Foi com dificuldade que conseguimos chegar à casa pois as ruas estavam apinhadas de gente e em todas as residências ecoavam brados de desespero.
No átrio da nossa casa, o primeiro intendente, todo lacrimoso, se agarrava aos joelhos de meu pai como louco.
Chão, vestíbulo, escadarias, tudo estava juncado de cadáveres de ratos, ratazanas, sapos, etc.
Meu pai deu ordens para que acendessem grandes fogueiras diante das portas; mas, coisa estranha; como cegos, os animais se precipitavam nas chamas e aí pereciam.
Outros as atravessavam para estrebuchar meio carbonizados logo adiante.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 03, 2017 9:08 pm

Escravos que chegavam, pálidos, anunciavam que os paióis, assim como os depósitos, tinham sido invadidos.
— É a ruína — disse meu pai, pondo as mãos na cabeça — lá se vão todas as provisões; vá depressa ao palácio, Necho, talvez os sábios encontrem um recurso; eu cuidarei da defesa aqui.
Rumei para as cavalariças, onde pretendia tomar um animal encilhado.
Lá me aguardava nova desilusão: o exército negrejante atirava-se aos cavalos, vacas, carneiros; os empregados dominavam à força os roedores enraivecidos, que pareciam multiplicar-se sob suas mãos e os animais, desesperados pelas dentadas relinchavam e pateavam.
O relincho dos cavalos e das mulas formavam um ruído discordante e ensurdecedor.
Com a cabeça a escaldar, montei e parti a toda brida, dirigindo-me à residência real, onde não era menos tumultuosa e agitada a situação.
A severa pragmática estava relaxada, e sem dificuldades consegui chegar a uma sala dos apartamentos privados do rei, onde este se encontrava em companhia do herdeiro.
Estavam sentados sobre uma mesa de vários degraus, cercados de oficiais que se esforçavam em não consentir a aproximação dos animais.
Multidão de gatos corria pela sala, guerreando bravamente seus mortais inimigos e alguns se mantinham aos pés do Faraó.
Outros, encima do espaldar da cadeira e mesmo nos ombros do herdeiro.
Se a coisa não fosse tão trágica, ter-me-ia rido gostosamente desses gatos e do drama cómico que se desenrolava em torno do rei, habitualmente cercado de solene majestade e honras quase divinas.
Atingia o auge a impaciência de Mernephtah quando, enfim, chegaram os sábios caminhando no assoalho coberto de animais, o que os impediu de se prosternarem, como exigia o protocolo.
— Vejamos o que há e livrai-nos dos nojentos animais que o hebreu nos envia! — exclamou o monarca dando um murro na mesa, que fez caírem os copos e entornar a ânfora.
Os sábios, finalmente, alegaram ser indispensável um prazo de três dias.
— Três dias! — Bradou o Faraó — até lá estaremos devorados; é preciso encontrar um remédio imediato.
— Grande rei! — um dos sábios reiterou — Mesu empregou uma raiz, que, indubitavelmente, mandou queimar por toda parte e cujo odor atrai e enfurece os animais imundos,
— Procurai, então, outra planta cuja fumaça os afugente! — exclamou o rei.
Darei dois talentos de Babilónia a cada um de vós, se, antes do amanhecer, nos desembaraçardes deste flagelo.
— Poderoso filho de Rá — respondeu tristemente o mais idoso dos sábios — toda a erva cujo odor os escorraçaria foi cuidadosamente subtraída; se tardamos em aqui chegar, foi precisamente por estarmos à cata dessa erva, no intuito de imunizar, antes de tudo, o teu palácio.
Todos fomos assaltados por angustioso tremor.
Onde iríamos parar?
Pálido de raiva, Mernephtah levantou-se e trovejou no ambiente:
— Ide, agarrai os hebreus.
Eles que procurem a erva salvadora, pois devem saber onde encontrá-la; dizei-lhes que, se não a descobrirem, suas cabeças serão decepadas e atiradas como pastos, aos ratos desencadeados contra nós pelo seu libertador.
Tal a minha vontade.
Seguiu-se um triste silêncio, apenas interrompido pelo grunhir dos roedores e uma ou outra exclamação do monarca ou do príncipe.
Cada qual permanecia no seu posto, triste, apreensivo, preocupado em livrar-se dos bichos que subiam pela roupa.
Intermináveis horas passaram-se na mais dolorosa expectativa, e os sábios não regressavam.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 03, 2017 9:09 pm

Por fim, não mais me contive, inquieto pelo que pudesse estar ocorrendo em casa; saí tomando o cavalo, que, de crina eriçada, pateava e empinava, porque o fâmulo que o mantinha não conseguia defendê-lo dos terríveis roedores.
Todos, na rua, estavam exaltados; por toda parte ardiam grandes fogueiras e notei, admirado, a tenacidade com que os egípcios se defendiam, não só os servos, como os senhores, a pau, enxada e forcado.
Febris, suarentos, massacravam os invasores.
— Coisa horrível! — pensei; creio que se o miserável Mesu me caísse ali nas unhas, o estrangularia como a um rato.
Ao chegar a casa, notei o grande pátio aclarado por enormes fogueiras e tochas.
Lá estavam os escravos na mesma faina; uns a matarem os animais; outros a juntarem e varrerem os destroços, atirando-os ao fogo em combustão nauseante e sufocante.
Fui informado de que meu pai se encontrava atrás dos jardins, perto dos celeiros, para onde me encaminhei apressado.
Brados, ordens diversas, logo me advertiram de que a luta era intensa.
Perto de um depósito, vi meu pai de pé sobre uma cuba emborcada, dando ordens com voz rouca.
Utilizando-se de escadas de emergência, saco às costas, escravos removiam o trigo para resguardá-lo em lugares ainda incólumes, mas os vorazes inimigos, não lhes davam trégua, ainda assim.
Nesse instante, passava perto de mim um escravo vergado ao peso de enorme saco de farinha, ao qual se penduravam ratos como sanguessugas a roerem-lhe o tecido e assim deixando vazar o precioso pó.
Detive-me por instantes a. observar o quadro, enquanto ia contando a meu pai as ocorrências do palácio e terminando por dizer-lhe:
— Deixemos isto, que é trabalho perdido; vamos lá para dentro.
— Eu fico, — retrucou ele — pois talvez consiga salvar ao menos uma parte dos nossos bens; vai tu para junto de tua mãe e de tua irmã, e trata de confortá-las.
Fui para os meus aposentos, que apresentavam aspecto lastimável.
Nas mesas, móveis, tapetes, formigavam sombras negras e via-se distintamente que tudo estragavam e remoíam.
Ao entrar no quarto de minha mãe, enorme gato ao saltar-me entre as pernas fez-me quase perder o equilíbrio; disse uma blasfémia mas no mesmo instante, o quadro cómico que se me deparou provocou-me um acesso de riso.
É que, num tamborete em cima de uma mesa, estatelava-se Chamus pálido e sucumbido, segurando com a esquerda um gato entre os joelhos e tendo na destra um chicote com o qual matava os assaltantes que ousavam acercar-se da sua fortaleza. À sua frente, tábuas, cadeiras e almofadas empilhadas, constituíam exótico monumento, em cujo cimo estavam minha mãe e Ilsiris, aconchegando gatos ao colo e de olhos inchados de tanto chorar.
— Necho, finalmente chegaste! — exclamou minha mãe exaltada — e ainda te ris vendo-nos semi-devorados?
Trazes alguns socorro?
Sempre rindo, saltei à mesa e assentei-me junto de Chamus, passando a narrar o que ocorrera no palácio.
Ilsiris exclamou soluçando:
— Se não for encontrada essa erva, seremos devorados vivos ou morreremos de fome, porque não só os ratos tudo roem, como as rãs e os sapos infestam a comida, as leiteiras estão cheias, não se pode amassar trigo sem os ter entre os dedos. As frutas nos armários ou nos cestos, estão sujas e contaminadas!
— Ê verdade — disse Chamus rodopiando furioso o seu chicote — esta guerra é pior que a dos Líbios, e creio que jamais houve um casamento igual ao da bela Smaragda.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 03, 2017 9:09 pm

Minha mãe suspirou:
— Eu esperava divertir-me bastante e afinal vejam como acabou a festa.
Nossas toiletes completamente inutilizadas e o que mais me entristece é que, na confusão, perdi o magnífico bracelete ornado com um escaravelho de legitimas esmeraldas, presente de Mentuhotep no dia do nosso casamento.
Procurei consolá-la e as horas difíceis passaram em palestra.
Por fim, impaciente, resolvi voltar ao palácio, onde talvez estivessem os sábios.
Quando montei a cavalo os primeiros raios do sol tingiam o horizonte.
Despedi-me de meu pai, que, cansado e suarento, continuava defendendo nossas provisões.
Raiva e tristeza me ferviam no coração, ao conjecturar os enormes prejuízos que nos causava o maldito feiticeiro, quando, ao ladear algumas casas hebreias, percebi, irado, que ali reinava a maior tranquilidade.
Nesse instante, abriu-se uma porta e saíram dois velhos judeus que, ao me verem, se esgueiraram por uma ruela e desapareceram.
Tive, então uma ideia:
apeei e bati com o punho da espada na porta de uma das casas.
De pronto ninguém se manifestou no interior, mas, quando os gonzos começaram a ranger sob a pressão dos meus braços vigorosos, a porta abriu-se e surgiu na brecha a cabeça de um velho hebreu.
Sem lhe dar tempo de falar, dei-lhe na cabeça com o punho da espada.
Ele se dobrou e entrei para atravessar apressadamente um corredor escuro, ao fundo do qual havia uma porta entreaberta, que dava para grande sala, de onde provinha um odor acre, mas agradável.
Num simples relance, percebi que ali não haviam entrado ratos nem sapos.
No meio da sala, um fogareiro em brasas e uma jovem judia que nele deitava uma erva que enchia cestos próximos.
Na galeria que dava para o pátio, outras mulheres, outros fogareiros e a mesma tarefa.
— Ah! — exclamei saltando para junto do fogareiro — vós vos garantistes, cães impuros!
À mulher e alguns homens que acorriam do pátio quiseram enfrentar-me, mas brandi a espada ameaçando-os de morte, tanto que recuaram aos gritos, enquanto as mulheres fugiam.
Apossei-me, então, de duas grandes cestas de erva e de um saco com um pó branco, desconhecido, cujos restos eu notara junto do fogareiro.
De posse do precioso achado, lancei-me para fora e voltei para casa a toda pressa.
Gritando por meu pai, tudo lhe contei.
Num abrir e fechar de olhos, preparou-se um fogareiro deitando-se-lhe um punhado da erva e do pó.
Observamos ansiosos o turbilhão de fumo que se desprendia, então — maravilhoso espectáculo! — apenas o aroma activo se difundiu no ambiente, os ratos, rãs e sapos se evadiram, desaparecendo nos buracos e gretas de onde haviam saído.
Diante disso, elevou-se um verdadeiro clamor de alegria.
Todos os presentes trataram de obter fogareiros e instalá-los por toda parte, mas eu não esperei o resultado; tornei a montar levando um cesto e metade do saco de pó e me dirigi para o palácio do Faraó.
Lá nada havia mudado; notava-se enorme angústia em todas as fisionomias.
Diante do rei, havia uma comissão de sacerdotes da cidade dos mortos que, com as vestes rasgadas, rostos salpicados de lama, contavam que os ratos haviam invadido os edifícios de embalsamamento e os túmulos, roendo as múmias.
A cidade e os templos reboavam clamores desesperados dos parentes dos defuntos, que temiam ver seus mortos queridos presa dos animais.
O suor escorria pela fronte melancólica do Faraó, quando abri passagem até junto dele.
Depondo o saco e a cesta no estrado da cadeira que ocupava, contei-lhe em breves palavras a minha aventura.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 03, 2017 9:09 pm

Iluminou-se o rosto de Mernephtah.
— És um bravo egípcio — disse — e grande será tua recompensa, se é que encontraste o remédio.
Tragam um fogareiro!
Pediu que o fogareiro fosse colocado à sua frente e que eu próprio lhe deitasse os ingredientes.
Tal como em casa, o efeito foi maravilhoso.
Desde que a espessa e acre fumarada se espalhou, os animais eclipsaram-se, buscando um buraco e desaparecendo como por encanto.
Demonstrando contentamento o rei bateu palmas e, dirigindo-se aos sacerdotes, disse:
— Apossai-vos da maior parte dessa erva e do pó e ide o mais depressa possível.
Os mortos são os nossos mais preciosos tesouros, pois, menos que ninguém, eles não podem defender-se; a eles, portanto, os primeiros socorros.
Radiantes de alegria, ao saírem os sacerdotes encontraram os sábios, de regresso, também já providos da erva benfazeja, embora em quantidade muito diminuta.
O rei lhes ordenou que a distribuíssem pelos quarteirões da cidade e fiscalizassem o seu emprego racional nas ruas e pontos mais atacados.
Depois das primeiras providências, o Faraó chamou-me para que o informasse com pormenores como obtivera a erva e, depois de elogiar o feito, deu-me um magnífico anel de seu próprio uso.
O príncipe Seti também aproximou-se e, retirando do pescoço um colar, com ele me cingiu, completando esse gesto real com palavra amáveis e lisonjeiras.
Feliz e satisfeito, voltei para casa a passos vagarosos, para melhor observar a calma que se restabelecia nas ruas.
Quando cheguei em frente ao palácio de Mena, lembrei-me da festa tão desastradamente interrompida na véspera e resolvi entrar para indicar-lhe o remédio, caso ainda não o conhecesse.
Amarrei o animal num dos mastros que ornavam a frente da casa e penetrei no pátio onde a desordem era ainda tão grande, que nenhum dos servos notou minha presença; enormes pilhas de animais mortos por toda parte, enquanto os homens se entretinham em acender um fogareiro.
Por entre corpos esmagados e avalanches de animais vivos, que ainda corriam de um lado para outro, dirigi-me para o salão deserto e devastado.
Numa sala contígua, porém, deparou-se-me Rhadamés, de pé numa espreguiçadeira, parecendo ter enlouquecido.
Boca espumejante, olhos esbugalhados, gritava brandindo uma arma em cada mão, enquanto alguns ratos corriam em torno dele e uma ferida sangrenta na face demonstrava não ter-se defendido convenientemente.
Tentei falar-lhe, mas, como não visse nem ouvisse, continuava a gritar e sapatear.
Voltei-lhe as costas e logo no ângulo oposto da sacada vi Smaragda, pálida como um cadáver, ainda com o vestido de noiva sujo e dilacerado.
Diante dela, ajoelhado, um escravo a soprar as brasas de um fogareiro enquanto a ama segurava uma cestinha cheia de planta odorífera.
Ao visitar-me, exclamou:
— Que noite terrível, Necho!
— Agora acabou-se — disse — atirando eu mesmo a erva nas brasas — vejo que os sábios aqui chegaram prestos.
— Essa erva não me foi dada pelos sábios e sim por uma velha judia.
Grata por lhe haver sustentado e cuidado o filho cego.
Mas vê, Necho, o que ocorre com Rhadamés.
Parece louco e não posso socorrê-lo. Fá-lo tu.
Não restando mais nenhum dos animais, graças à defumação, aproximei-me do bravo condutor do carro.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 03, 2017 9:09 pm

— Rhadamés, desperta — exclamei — tomando-o pelo braço — tudo terminou; basta de molinetes, os ratos não voam.
Como não me ouvisse, tomei um copo de vinho e atirei-lhe o conteúdo.
Com isso, despertou.
— É verdade, tudo acabou — repetiu em voz calma e olhar desvairado, descendo da cadeira para ficar sentado de braços caídos, sem dirigir um olhar à esposa.
Com desprezo ela falou:
— Deixa repousar esse poltrão!
Depois, afastado os longos cabelos soltos, estendeu-me a mão:
— Adeus, Necho.
Estou exausta de fadiga e emoção, preciso repousar; recomenda-me à tua mãe e à Ilsiris.
Diz-lhes que espero revê-las aqui, tão logo as coisas se normalizem, num festival mais tranquilo que o de ontem.
Todos estavam satisfeitos em casa, ocupados em restabelecer a ordem e preparar uma refeição qualquer para patrões e empregados esfaimados.
Extenuado, comi às pressas e atirei-me no leito.
Despertei quando já era dia alto; sentia-me indisposto e com uma coceira em todo o corpo; reagi, porém, levantei-me e desci à sala de estar, onde apenas encontrei meu pai, que caminhava de um lado para outro, inquieto, a coçar ora a testa, ora as costas.
— Sentes alguma coisa? — perguntou surpreso.
— Tenho o corpo como em brasas e tu não sentes nada?
— Insuportáveis coceiras.
— Era o que pensava, pois todos se queixam da mesma coisa; mas trata de observar e descobrirás a causa.
Inquieto, examinei-me e logo notei que tanto o corpo como a roupa estavam crivados de piolhos.
Enojado, deixei-me cair numa cadeira.
Para nós, egípcios, habituados à mais rigorosa higiene, aquela praga era talvez a pior de todas.
— Vou ao palácio e se lá também houver piolhos, é necessário convocar os sábios — disse fora de mim e saí mesmo sem me despedir de meu pai.
Quando entrei na sala, o rei andava impaciente, de um lado para outro.
Lancei o olhar em torno e não pude conter o riso:
não havia dúvida de que os terríveis parasitas formigavam nos velhos dignatários, tanto quanto nas jovens, como o demonstravam os gestos, piruetas e contorções com que procuravam disfarçar seu mal estar.
Nesse instante, porém, o olhar de lince de Mernephtah me descobriu entre os circunstantes.
— Aproxima-te, Necho! — disse com um aceno de mão.
Ontem, meu bravo guerreiro, trouxeste-nos o socorro; não conhecerás um remédio contra esses novos inimigos? — acrescentou apontando os asquerosos animalejos que lhe passeavam nas vestes de púrpura.
Estes são menos perigosos que os sapos e ratos, mas não deixam de ser incómodos e repulsivos.
Quando ia confessar minha ignorância, a chegada dos sábios desviou a atenção do rei.
Desta vez, eles nos deram poucas esperanças e acabaram confessando ignorar o meio de produzir piolhos, e, portanto, de eliminá-los.
Em vão procurou-se defumar, aplicar diversas pomadas, lavar-se, e até conjurar e sacrificar aos deuses.
Passaram-se muitos dias.
As mulheres estavam exaltadas e enraivecidas.
A cólera de Mernephtah ultrapassava os limites.
Quanto a Moisés, ninguém o via.
Uma manhã, o rei ordenou que lhe apresentassem um hebreu, a fim de interrogá-lo.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 03, 2017 9:10 pm

Um destacamento de soldados e alguns oficiais partiram imediatamente e em menos de uma hora já um velho trémulo e pálido estava diante de Mernephtah.
— Se prezas tua cabeça, cão impuro e miserável — disse com desprezo — vais dizer-me de que modo vos imunizais contra estes imundos parasitas.
O hebreu pretendia nada falar, mas, quando o rei chamou o executor, que acorreu imediatamente de machado em punho, prostrou-se em terra e confessou que Moisés havia proibido, formalmente, revelar o segredo.
— Então — disse o rei— jogas a cabeça, tanto aqui como lá; e nessas condições, só te resta escolher a quem preferes entregá-la: se a mim ou a Mesu.
Mesmo assim, se confessares, prometo livrar-te da cólera de Moisés.
Ao contrário, serás decapitado agora mesmo. Escolhe!
Angustiado, o velho contorceu-se no chão, mas, vendo o machado pronto a funcionar, acabou gaguejando ser preciso friccionar o corpo com azeite doce esfregando-o também em todas as frestas, buracos de fechadura, rebordos de cama, rampas de escada, etc.; depois tomar banho de folhas de loureiro e defumar-se com folhas de oliveira.
Só assim os parasitas desapareceriam.
Satisfeito, Menerphtah ordenou que levassem o informante a uma sala do palácio e lá o retivessem até que se normalizasse a situação.
Em seguida entrou, foi tomar seu banho, dispensando quantos estavam de serviço.
Voltei também para casa e depois de ensinar o remédio contra os piolhos, febril actividade apoderou-se de todos; trouxeram enormes vasilhas com azeite e eu próprio fiscalizava os escravos ocupados em esfregar as portas, frestas, camas, etc.
Quando, enfim, muito cansado, fui procurar meu pai, já o encontrei no banho e sua fisionomia traduzia inefável bem-estar.
— Louvados sejam os deuses! — disse ele — não esperava mais experimentar esta sensação de limpeza; esta guerra dos piolhos foi pior que a primeira dos ratos e sapos.
— Pareces uma rã nessa água verde, pai, — disse-lhe a rir.
— Vai depressa, também tu, metamorfosear-te em rã — respondeu de bom humor.
Estás exausto, meu rapaz, e dormirás logo; fizeste jus a isso!
Saí e depois de mandar incinerar toda a roupa que trazia, banhei-me deliciosamente para deitar-me logo e dormir profundamente.
A vaga lembrança das terríveis emoções dos últimos tempos, contudo, me perseguia mesmo em sonho; assim, vi Moisés a desencadear contra nós, todos os crocodilos do Nilo; eles invadiam ruas e casas e, por fim, era eu a defender Mernephtah de um enorme réptil, lutando corpo a corpo e acabando por enterrar-lhe na goela o punhal, até que dei um grito de vitória e despertei.
A alcova estava inundada pelo sol e logo convenci-me de que essa nova praga não passava de sonho.
Levantei-me e fui para a sala de jantar, onde toda a família já estava reunida.
Ilsiris, louca e radiante, atirou-se-me ao pescoço e nos felicitamos humoristicamente de não mais sermos formigueiros ambulantes.
Minha mãe, que conversava com, Chamus sobre os preparativos do casamento, fez um apelo para que não mais se falasse desse desagradável episódio e fui assentar-me perto de meu pai, que dava instruções ao primeiro intendente para distribuir recompensas a todos os escravos e criados, pela brava e corajosa conduta dos dias calamitosos.
Era geral o contentamento e todos se visitavam e narravam ocorrências espantosas, ou cómicas, das quais compartilhavam como heróis, ou simples testemunhas, calculando os prejuízos sofridos e ridicularizando Moisés.
Eu, porém, estava sobrecarregado de maus presságios e pensava que, de um momento para outro, alguma nova calamidade desabaria sobre nós; entretanto, tudo estava sossegado, os hebreus retraídos e nenhum ousava imiscuir-se na multidão jubilosa e bem trajada que enchia as ruas.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 03, 2017 9:10 pm

Chegou, pois, o dia da nova audiência pública, que a todos facultava apresentar-se ao rei, para expor suas quer elas e petições.
Ao entrar na sala da guarda, um colega disse-me que, pela manhã, fora encontrado estrangulado; em sua própria sala, o judeu que revelara o remédio contra os piolhos, sem que pudessem descobrir o autor do delito e muito menos como pudera consumá-lo.
Depois de muito comentarmos o caso, fomos ocupar nossos postos na sala, que rapidamente se encheu.
Displicente, observava a multidão que se comprimia diante do trono, quando repentinamente estremeci, ao reconhecer Moisés e o irmão, tranquilamente postados na primeira fila.
Que poderia ainda pretender o mensageiro da desgraça?
Ao entrar, o Faraó notou logo a presença do profeta hebreu e enrubesceu de cólera.
Detendo-se nos degraus do trono, mediu com olhar sombrio os dois homens, que, em toda a assembleia, eram os únicos que não se haviam prosternado.
— Bem se vê — disse o Faraó com voz tonitroante — que és um enviado do inferno e que teu deus é uma força do mal, que te ensina a colocar assassinos mesmo dentro do meu palácio.
Tens a audácia de te apresentares diante de mim, depois de, por três vezes, perturbares meu povo com as tuas feitiçarias!
E como te atreves, miserável feiticeiro, a não dobrares o joelho diante do teu rei?
Avançando alguns passos e, cravando olhar profundo em Mernephtah, Moisés disse calmamente:
— Não dobro os joelhos senão diante do Deus todo poderoso que aqui me envia, e te repito, rei, que deixes partir o povo de Jeová, ou então, as pragas continuarão a chover sobre ti e teu povo, até que tua teimosia seja dominada e te hajas curvado à sua vontade.
Eu sou apenas o instrumento e nada faço sem ordem do Deus de todos os deuses.
— Não farás nada mais, feiticeiro de todos os feiticeiros, porque minha paciência está esgotada — exclamou Mernephtah com olhos que transbordavam cólera e batendo o pé:
— Prendam-nos! — acrescentou apontando-os.
Um oficial e dois soldados munidos de cordas avançaram para manietar os culpados.
Moisés empalideceu e recuou; seu olhar parado voltou-se para os dois homens que iam prendê-lo e, elevando os braços, fez um gesto como se manejasse uma arma invisível.
Como lambidos por faísca eléctrica, os militares estacaram lívidos, sem vista, braços caídos, qual estátuas petrificadas...
O profeta voltou-se para o rei, calmo, como se nada houvesse acontecido e disse:
— Recusas? tu te arrependerás!
E retirou-se lentamente, seguido de Aarão.
Durante alguns instantes, todos na sala, ficaram mudos de espanto, com os olhares concentrados nas duas estátuas humanas que continuavam de pé, imóveis, segurando as cordas nas mãos estendidas.
Mernephtah deixou-se cair assentado no trono, enxugando o suor copioso que lhe escorria pelo rosto.
O príncipe Seti foi o primeiro que voltou a si e se precipitou para os dois soldados; todos o acompanharam e rodearam, mas, em vão tentaram sacudir os dois homens e despertá-los, gritando-lhes no ouvido.
Eles continuavam rígidos, imóveis, e não houve força capaz de baixar-lhes ou dobrar-lhes os braços inteiriçados.
O rei, mudo, acompanhava as diligências infrutíferas e por fim ordenou, com voz surda, que chamassem os sábios para libertar as duas vítimas do feiticeiro, que lhes arrebatara o espírito.
Reunidos em conferência, sábios e médicos, longamente cochicharam entre si e acabaram, requisitando duas bacias com água do Nilo.
Depois de muito exortar e esconjurar, aspergiram os infelizes, abanando-os fortemente com folhas de palmeira e ordenando em voz alta:
“Vamos! Despertem!”
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 03, 2017 9:10 pm

Curiosa, a assistência guardava religioso silêncio.
Os dois soldados já considerados mortos, de repente estremeceram; os olhos se reanimaram, e suspirando profundamente, tombaram ao solo.
Minutos depois, confessavam-se curados, mas fraquíssimos e absolutamente inconscientes do que lhes sucederam.
Depois de recomendar que fossem gratificados, o Faraó retirou-se acabrunhado, seguido dos príncipes e áulicos.
Uma festa que deveria realizar-se no dia seguinte foi cancelada e todos se dispersaram apreensivos.
Também voltei a casa, possuído de vago temor.
Palpitava-me que uma nova desgraça pairava no ar e que éramos impotentes para evitá-la.
Fui encontrar minha mãe e Ilsiris rodeadas de fâmulas e montes de fazendas preciosas, que escolhiam para o enxoval da noiva.
Contei-lhes o sucedido e com isso foi-se-lhes o bom humor e o desejo de concluir a tarefa.
Os dias corriam tristes, de uma tristeza enervante, que ensombrava toda a cidade.
Só quem era forçado a negócios ou deveres profissionais saía à rua; a maioria da população retraía-se em casa, presa de vagos temores.
O profeta não era visto, mas ainda que se exibisse em público, acredito que ninguém ousaria afrontá-lo, no supersticioso temor de ficar petrificado pelo olhar do feiticeiro.
Após o jantar e assaltado por íntima inquietação, resolvi uma noite fazer uma visita, há muito projectada, a um velho discípulo chamado Pinehas.
Havia-o perdido de vista, desde que deixara Menphis, mas em Tanis já o havia encontrado várias vezes, em casa de Mena.
Havido por grande sábio, ele poderia ser-me útil naqueles tempos difíceis e esta perspectiva desfez as últimas prevenções oriundas da reputação, pouco recomendável, que a mãe dele desfrutava.
Essa mulher, de nome Kermosa, era de boa família egípcia, mas depois que lhe morreu subitamente o marido, todos os parentes se afastaram dela e falava-se que cultivava ciências misteriosas e mantinha ligação amorosa com um hebreu rico.
Quanto a Pinehas, era um rapaz taciturno e estudioso e por Mena eu sabia que ele amava Smaragda, cuja mão de esposa obstinadamente disputara.
Todas essas circunstâncias me vinham, à medida que me aproximava da casa de Kermosa.
Ao chegar diante da modesta vivenda de madeira, desci do carro e perguntei a um preto que varria a entrada se Kermosa e o filho estavam em casa.
Respondeu que sim e me conduziu a uma sala modestamente mobiliada, onde encontrei Kermosa assentada a uma mesa cheia de frutas, bolos e uma bilha de vinho.
Junto dela, dois criados se ocupavam em escolher legumes.
Ao ver-me, Kermosa levantou-se e recebeu-me cortesmente.
Possuidora de alto porte, ombros largos e feições regulares e antipáticas, seus olhos negros espelhavam dureza e crueldade.
Convidou-me a tomar assento, mas ao dizer-lhe que desejava falar a Pinehas, ordenou a uma mulher que me guiasse até junto dele.
Passei por uma galeria que dava para amplo é descuidado jardim, onde havia um pavilhão isolado.
A serva ergueu uma cortina de grossa fazenda fenícia e penetrei numa grande sala luxuosamente decorada, na extremidade da qual, debruçado à mesa atopetada de tabuinhas e rolos de papiros, estava Pinehas sentado de costas, escrevendo.
— Uma visita, senhor — disse a mulher.
Voltou-se surpreso, mas, ao reconhecer-me, levantou-se e estendeu a mão, dando-me boas vindas.
Enquanto chegava a cadeira e desembaraçava a mesa de parte dos papéis que a cobriam, notei, admirado, que suas feições muito mudaram de quando o vira pela última vez.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 03, 2017 9:10 pm

Emagrecera e profundo sulco retraía-lhe os lábios.
Mesmo assim, era um belo rapaz, desempenado e elegante, tez pálida, cabelos negros e abundantes, sobrancelhas arqueadas tocando a base de nariz aquilino e sombreando os grandes olhos negros, duros, impassíveis e profundos como o mar.
Inicialmente falamos sobre diversos assuntos até que encaminhei a palestra para as calamitosas ocorrências dos últimos tempos.
— Desejaria saber como te livraste dessa catástrofe e ouvir tua opinião e conselho, pois talvez como sábio, terás implementos desconhecidos, e nesse caso espero que não recuses auxílio e conselho ao velho condiscípulo.
— Juro-te, Necho, que tenho sido muito pouco incomodado por esses distúrbios, mesmo porque raras vezes saio de casa, e apenas notei que minha mãe defumou a casa toda.
Tanto é verdade que nem interrompi meus estudos.
— Como és feliz!
Quanto a nós, quase fomos devorados pelos ratos, depois da tragédia imprevista que assinalou o casamento da bela Smaragda.
Contive-me logo ao notar a palidez mortal que assaltou Pinehas, de punhos crispados.
Estabeleceu-se doloroso silêncio até que, dominando-se, ele pôde dizer com simulada indiferença:
— Informaram-me de que a festa nupcial da bela irmã de Mena foi perturbada e compreendo como todos teriam ficado impressionados com esses acontecimentos que vos parecem sobrenaturais; no entanto, tudo isso não passa de forças da Natureza, empregadas a preceito.
Está provado, pela ciência, que tudo no universo se mantêm por contra-peso, com a eterna permuta de elementos; que uns exalam, outros absorverá; e que a velocidade dessa permuta produz e mantém a rotação, o movimento de toda a Criação.
Notando minha admiração, continuou:
— Necho, receio que não me compreendas; eu quis apenas dizer que existem, na Natureza, forças que certos homens têm o poder de captar e movimentar; para isso, eles se apoderam do contra-peso, ou da mola.
Um exemplo far-te-á entender melhor meu pensamento.
Pegou pequena harpa com uma mão e com outra, puxou um vaso que destampou; então vi, surpreso, que uma serpente das mais venenosas ali estava enroscada.
Pinehas tangeu as cordas, ensaiou uma melodia e quase de chofre a serpente permaneceu de olhos fixos no músico; depois, estirou-se e entrou a balançar como se dançasse acabando por enroscar-se no braço, sem lhe fazer qualquer dano.
Eu tremia espantado, mas, sem deixar de cantar.
Pinehas agarrou a serpente, colocou-a novamente no vaso, que tampou, depondo a harpa.
— Necho, vês o que é a música?
Um som imponderável, não tem peso, não ocupa lugar, é invisível e sem embargo, domina completamente o animal.
Depois de longas e minuciosas investigações, convenci-me de que a música é matéria gasosa, que entra no corpo da serpente, causando-lhe profundo bem-estar e formando o contra-peso dos instintos ruinosos que lhe são peculiares.
Pois bem: Moisés é um homem que conhece a fundo todas essas forças ocultas e que sabe maravilhosamente empregá-las; não é um feiticeiro vulgar como supões; é sábio proficiente, que aplica seus conhecimentos com determinado fim.
Ao notar que eu o compreendia muito imperfeitamente, calou-se.
Então, abriu uma caixeta, tirou uma amuleto de pedra amarela que me ofereceu, dizendo:
— Toma este amuleto, ele te imunizará contra o efeito de qualquer vontade estranha.
Agradeci calorosamente e coloquei o amuleto no pescoço.
Como o amigo parecia fatigado, despedi-me.
Menciono aqui, apenas de passagem, uma invasão de rãs, que, apesar dos estragos que causou, produziu menor impressão, porque foi rápida e seguida de outra calamidade bem mais horrorosa, principalmente por suas consequências.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 03, 2017 9:11 pm

Depois de alguns dias tranquilos, começaram a chegar de toda parte más notícias:
perigosa epizootia explodira nos rebanhos e, zombando de todos os remédios, aumentava de intensidade, de momento a momento; profunda angústia assaltava os corações, porque os rebanhos constituíam nossa principal riqueza e sua destruição seria a ruína!
Dentro em pouco, o terror atingia também a cidade.
Por toda parte os animais eram atingidos.
Cavalos, mulas e camelos caiam pelas ruas.
As estrebarias estavam entupidas de cadáveres e nenhum tratamento se mostrava eficaz; as esconjurações e aspersões com água do Nilo nada adiantavam.
O povo novamente se reuniu diante do palácio, a bradar desesperado.
O Faraó, inquieto e taciturno, tentou acalmá-lo, prometendo as mais enérgicas providências para conjurar a calamidade
Por sua ordem fui designado, com outros oficiais, para verificar se os rebanhos dos hebreus eram igualmente atacados e, se não o estivessem, procurarmos descobrir o remédio, ainda que isso custasse centenas de cabeças judias.
Fizemos grande verificação; nas zonas percorridas os rebanhos ofereciam aspecto lastimável; os animais morriam como moscas e os cadáveres que, ninguém sabia como enterrá-los, empestavam o ar.
Quando avistamos terrenos pertencentes aos hebreus, notamo-los desertos.
Os rebanhos tinha sido encerrados em quintais murados de pedras, ou em baias absolutamente indemnes.
Cheios de ódio invadimos algumas casas judias para conseguir, a qualquer preço, o segredo da imunidade, mas nada conseguimos.
Evidentemente, a morte do delator estrangulado no palácio de Faraó apavorara os hebreus e eles ficaram mudos.
A despeito das mais severas ameaças e castigos, não foi possível arrancar-lhes a menor confissão.
Desencorajados, regressamos ao palácio, onde os colegas nos contaram que, na véspera, os sábios haviam-se reunido, decidindo que se fizesse minuciosa inspecção em todos os poços e fontes onde os animais se alteravam.
Fomos imediatamente à presença de Faraó para relatar o resultado da nossa missão.
Sentado à mesa, pálido e constrangido, o monarca parecia intranquilo e insone.
Apenas acabara meu relato, gritos e clamores tumultuosos partiram das galerias e pareciam propagar-se por todo o palácio.
O Faraó franziu a testa e voltou-se para um dos dignatários, mas antes que pudesse ordenar qualquer coisa, um homem ofegante e extenuado surgiu na sala.
Era um jovem sacerdote com as vestes rasgadas, coberto de poeira, tendo o rosto salpicado de lama.
Avançou cambaleante para o estrado real e, após haver dito com voz soturna — morreu Ápis — tombou ao solo
A terrível notícia provocou lúgubres gemidos da assistência; uns rasgavam as roupas, outros batiam no peito ou se rojavam por terra; quanto a Mernephtah, vi que empalideceu mortalmente e empurrando com violência a cadeira, deixou a sala.
Em poucos minutos, os que puderam, abandonaram o palácio, pois cada qual tinha pressa de comunicar à família a nova desgraça, que feria o Egipto.
Eu também voltei para casa acabrunhado e lá encontrei meu pai desesperado, arrancando os cabelos, minha mãe e Ilsiris pareciam transformadas em fonte, tal a abundância de lágrimas que vertiam.
Refugiei-me no meu quarto, mas não pude dormir durante toda a noite.
Tive uma ideia salvadora, no decorrer dessas angustiosas horas de insónia.
Iria procurar Pinehas.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 03, 2017 9:11 pm

Sendo sua mãe amiga do rico hebreu Enoch, este, certamente, ter-lhe-ia ensinado o meio de preservar os rebanhos.
Levantei-me alta madrugada e ordenei que selassem o cavalo, mas o escravo logo veio dizer-me lastimoso, que o animal adoecera.
Com o coração trespassado, voltei para que não visse que também lacrimejava e mandei aprestar a liteira.
Quando cheguei à casa de Pinehas, perguntei a um pretinho que me ajudou a descer, se os rebanhos do senhorio tinham sido contaminados.
— Não, os deuses sejam louvados! — respondeu.
Ao atravessar a galeria, vi Kermosa e um velho de tipo semítico desaparecerem furtivamente num bosquezinho.
Presumi que fosse Enoch.
Pinehas estava só e perguntou-me no que me poderia ser útil.
Expliquei sucintamente o que desejava.
Ao terminar disse-lhe:
— Teus rebanhos não foram atingidos.
Sem dúvida a amizade de Enoch os preservou.
Ajuda-me, pois, por tua vez.
O rosto pálido de Pinehas tornou-se escarlate, quando o jovem ouviu a alusão às relações da progenitora com o rico hebreu.
— De nada sei — disse em tom glacial e contrafeito; e mesmo que soubesse, nada diria, porque estou preso a um juramento.
Indignado exclamei:
— Que dizes, Pinehas?
Tu, um egípcio?!
Teu povo tudo arrisca, trata-se do bem-estar de tua pátria, de milhares de famílias atiradas à miséria pela maldade de um homem, e te manténs ligado por um juramento a esse ingrato e miserável conspirador que destrói teus irmãos!
Ele voltou-me as costas e passou a folhear seus papéis.
Sem lhe dar a honra de uma palavra, saí furioso, mas, chegando à porta, nova ideia me ocorreu:
Pinehas estava enamorado; aquilo que me recusava, não recusaria, talvez, a Smaragda.
Diante do olhar fascinador da mulher amada, todo homem é fraco.
Pensando na importância da meta que deveria ser alcançada, convinha ao menos aventurar.
Dirigi-me então à casa de Mena, onde também reinava a maior desordem.
Todos lamentavam-se em voz alta.
Rhadamés estava pálido e nervoso, aprontando-se para sair.
— Perde-se tudo, não sei mas o que fazer — disse apertando-me a mão.
Sem hesitar, comuniquei-lhe meu projecto, que ele ouviu de cenho carregado, acabando por dizer:
— Estás com razão, Necho.
É preciso tudo tentar para evitar a ruína; e como Pinehas conhece o remédio que buscamos, nenhum sacrifício é demais para consegui-lo.
Mas, antes de falar com Smaragda, preciso consultar minha mãe e minhas Irmãs; vem comigo e eu te apresentarei a elas porque, afeiçoadas a mim, aqui se estabeleceram e assim nos vemos seguidamente e evitamos dobrada despesa com a manutenção de duas casas.
Levou-me a uma sala ricamente decorada, onde se encontravam três mulheres a conversar ruidosamente, lamentando os prejuízos causados pela peste; uma era a progenitora, mulher de meia idade e de aparência agradável; as duas moças, de vinte o dois e vinte e quatro anos, respectivamente, muito se pareciam, eram bem irmãs pelos traços fisionómicos, mas inexpressivos.
Em compensação, estavam cobertas de jóias e muito bem vestidas.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 04, 2017 8:58 pm

Rhadamés abraçou-as ternamente e depois apresentou-me, com frases elogiosas.
As duas moças, a requebrarem-se, endereçando-me olhares significativos, tomaram grande interesse pelo projecto que Rhadamés procurava expor.
— Sem dúvida Smaragda deve procurar Pinehas, exclamaram as três senhoras; será um mínimo que ela faz para salvar nossos rebanhos, evitando-nos a ruína.
— Vamos até lá — disse Rhadamés levantando-se.
Dirigimo-nos para o terraço, retiro favorito da jovem senhora, passando pelas salas e galerias já bem conhecidas.
Ao entrar, vimo-la meio recostada no leito de repouso.
O semblante, pálido e abatido, revelava melancólica indiferença.
— Smaragda, reconduzo-te ao mundo, — disse o condutor do carro.
Ao ouvir a voz do marido, a jovem estremeceu e ergueu-se para dar-me as boas vindas.
Logo que nos sentamos, Rhadamés tomou-lhe as mãos e disse com uma ternura que me pareceu pouco sincera:
— De ti depende salvar nossa fortuna, assim como a de Necho, querida Smaragda — e, acto contínuo expôs-lhe o que se lhe pedia.
Enquanto ele falava, o rosto da esposa enrubescia e o cenho se carregava.
— Jamais! - nada pedirei a Pinehas!
— Mas deves fazê-lo! - exclamaram a um só tempo as cunhadas; todos os rebanhos perecem e isso é a ruína; Necho Julga que só o teu pedido poderá sensibilizar Pinehas.
— Sim, deves ir! — acrescentou Rhadamés aflito.
Os olhos de Smaragda fuzilaram:
— E és tu que exiges vá pedir algo a um homem que me ama?
Isso não te repugna?
— É claro — respondeu de mau humor — isso me desagrada, mas, que fazer, quando se trata de nossa fortuna.
— Se é só isso o que te aflige — disse ela ironicamente — são os meus rebanhos que perecem.
Pois que pereçam! Não me importa.
Gritos de indignação partiram de todas as bocas:
— Não tens o direito de arruinar teu marido — atacou a matrona.
— E a nós, porque os nossos bens são comuns — acrescentou uma das moças.
Rhadamés empertigou-se autoritário:
— Como teu senhor ordeno-te pedires a Pinehas que nos ajude a salvar nossos rebanhos.
Que os demais pereçam, pouco me importa.
Ao notar, porém meu espanto, visto que de mim partira a sugestão, acrescentou em atitude obsequiosa:
— É claro que transmitirei a Necho o segredo desde que Pinehas o revele.
Smaragda calou-se e numa atitude indiferente, recostou-se na almofada e cerrou os olhos.
— Não penses só em ti, quando há milhares de famílias na iminência de se arruinarem, disse-lhe eu.
Considera, também, que esta calamidade acabará por nos fazer perder os hebreus.
— Tudo isso pouco me comove e nada pedirei a Pinehas, é escusado insistir.
Levantei-me e despedi-me mas apesar de tudo, achava graça no aspecto furioso da família tão sub-repticiamente instalada no palácio de Mena.
Ia entrar na liteira, quando Rhadamés aproximou-se correndo:
— Necho, escuta, tive uma ideia magnífica para vencer a teimosia de Smaragda.
Vamos à casa de Omifer; ela o ama e não quererá a ruína dele, cuja principal riqueza consiste em rebanhos, que se contam por milhares de bovinos e caprinos, centenas de camelos, etc.
Julgo que se ele intervir, o caso estará resolvido.
A casa de Omifer parecia mais um palácio que uma residência particular e não ficava muito longe, conquanto ele morasse habitualmente em Thebas.
Eu sabia que, fracassada a evasão de Smaragda, ele regressara a Tanis.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 04, 2017 8:58 pm

Um criado atarefado e perturbado que nos atendeu disse que o amo acabava de regressar de um giro pelo campo, e nos levou a um pátio onde encontramos Omifer, que mal acabara de apear da montaria branca de espuma.
A presença de Rhadamés fê-lo empalidecer, mas ainda assim, recebeu-nos com afabilidade.
Quando lhe declarei que a visita se prendia a assunto grave, ele nos levou a um gabinete de admiráveis tapetes e cujos móveis incrustados de ouro apenas teriam rivais, em magnificência, no palácio de Mernephtah.
Com olhos invejosos Rhadamés examinou o ambiente rico e depois, com palavras estudadas, abordou o assunto.
Omifer corou vivamente e envolvendo-o num olhar de profundo desprezo, disse:
— Sinto muito, mas não tenho a sua largueza de vistas; sou muito ciumento para enviar a mulher amada à casa de outro homem por ela apaixonado e por isso, jamais pedirei a Smaragda que se humilhe diante de Pinehas.
Prefiro ver perdida a última cabeça dos meus rebanhos.
Levantou-se e tivemos que nos despedir.
Ao voltar a casa, após esse insucesso, encontrei Ilsiris em tal estado de desespero, que me alarmou, e indagando o que havia, vim a saber que Chamus saíra disposto á obter da linda Lea o remédio para salvar nossos rebanhos.
Foi a própria Ilsiris que lho pedira, apesar do seu ciúme, mas notava-se que a decisão muito lhe havia custado.
Triste e faminto, mandei que me servissem qualquer repasto, porém, mal começara a comer, quando recebi umas tabuinhas trazidas por um portador de Rhadamés.
Admirado li:
“Venha quanto antes, tudo arranjado”.
Animado de nova esperança não fiz mais que tomar a liteira, ordenando que corressem à casa de Mena.
Rhadmés me recebeu muito nervoso e disse em surdina:
— Foi minha irmã que arranjou o negócio, inventando que Omifer está na iminência de suicidar-se para não sobreviver à perda total da sua fortuna.
Ao ouvir tal notícia, Smaragda sobressaltou-se e mancou chamar-me, mas — acrescentou rindo-se — também mudei de tom, declarei haver reflectido e, achando o negócio inconveniente não podia concordar.
Ela está fora de si, a sapatear e a jurar que o fará, apesar de tudo; então, anuí, mas como não poderá ir só, chamei-te para acompanhá-la, visto não desejar atritar-me com Pinehas; e o seu ciúme pela minha presença poderá prejudicar a empresa.
De bom grado concordei e quase em seguida apareceu Smaragda, envolvida em espesso véu.
Rhadamés levou-nos até à liteira fechada que se encontrava ao pé da escadaria, recomendando-me que a reconduzisse tão logo obtivéssemos o remédio salvador.
Calado sentei-me junto a Smaragda e assim chegamos à casa de Kermosa.
Informou-nos o negrinho que a patroa havia saído, mas Pinehas se encontrava só no quarto.
Receoso de expor Smaragda a uma grosseria ou recusa descortês, fui sozinho ao seu encontro.
Ao avistar-me, levantou a cabeça, como que admirado, e acabou esboçando um sorriso irónico:
— És tu, Necho?
Decididamente, elegeste-me para salvadora.
Extraordinária teimosia!
— Desta vez — respondi — não venho só:
trago comigo uma das mais belas mulheres de Tanis, cuja voz melodiosa mais te comoverá, talvez, que a própria ruína de nossa pátria.
Ele alçou bruscamente a fronte e respondeu desdenhoso:
— Uma mulher?
Não conheço nenhuma que me possa honrar com sua visita e gabar-se de ter sobre mim ascendência, unicamente pela voz, a ponto de me fazer violar um juramento.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 04, 2017 8:58 pm

Mas, enfim, onde está essa deidade?
— Não sabendo se te era grato revê-la, deixei-a lá embaixo.
— Fizeste bem.
— Assim, direi a Smaragda que...
— Smaragda!? — atalhou empalidecendo — porque não disseste logo?
E sem mais demora, precipitou-se para fora.
— Está vencido — pensei.
Fui-lhe no encalço e o vi de rosto esfogueado ajudar Smaragda a descer da liteira.
— Sinto-me grandemente honrado em receber neste humilde tecto a nobre irmã de Mena; minha mãe não está, mas não deve demorar — disse, devorando com os olhos o véu espesso que encobria o rosto da visitante.
— Não te quero enganar — murmurou ela acompanhando-o ao interior — não é a Kermosa e sim a ti que pretendo falar.
Ao chegarem à sala, Pinehas ofereceu uma cadeira a Smaragda e convidou-me, também a sentar. A linda criatura desvelou-se e notei que intenso rubor lhe cobria as faces; os grandes olhos brilhantes se fixaram em Pinehas, como se quisessem sondar no seu âmago a extensão do amor que ela pretendia explorar.
Como a serpente encantada ao som da música, Pinehas subjugado por aquele olhar fascinante, perdeu a compostura austera e baixou os olhos, pálido e conturbado.
Um raio de triunfo fulgurou nos olhos de Smaragda, que murmurou:
— Vim até aqui, repito-o, para implorar ao sábio Pinehas ajuda e conselho para evitar a destruição dos rebanhos que me ameaçam de ruína.
Uma palidez mortal estampava-se no rosto do egípcio e o peito arfava-lhe penosamente e nos olhos se alternavam relâmpagos de ódio e paixão.
— Não! — disse por fim, com voz rouca — por ti e por teu marido não violarei meu juramento; falemos de outra coisa, pois é inconcebível que salve teus bens para ajudar Rhadamés.
Smaragda levantou-se de pronto como que magoada e voltou-lhe as costas; mas, logo reconsiderando esse gesto, aproximou-se de Pinehas, que também se levantara, e tomando-lhe do braço inclinou-se para ele.
— Tu te enganas - murmurou com estranho olhar.
Rhadamés só ama as minhas riquezas; eu nada valho para a sua felicidade, mas não o poderei humilhar e dominar, senão enquanto for rica.
Acreditarás, seriamente, que, se ele me tivesse amor, aqui me enviaria?
Uma onda de sangue tornou escarlate a face pálida de Pinehas.
— Se foi ele quem te enviou, vou fornecer o chicote com que o sujeites; mas, Necho, dize a Rhadamés — e seus olhos pareciam querer devorar a bela Smaragda — que, para salvar os seus rebanhos, a esposa deverá pagar-me com três beijos...
Smaragda empalideceu e recuou de cenho carregado.
— Nunca por esse preço! — disse ela dirigindo-se para a porta de saída.
— Trata-se de Omifer! — soprei-lhe no ouvido.
Parou e cruzou os braços.
— Aceito, mas com a garantia de eficácia do remédio.
— Juro-o! — respondeu Pinehas estreitando-a nos braços e cobrindo-lhe os lábios descorados com os três beijos convencionados.
Pinehas passou a mão pelo rosto escaldante e levando-me para junto da janela, disse:
— Tens aí tabuinhas. Vou ditar o que é preciso fazer.
Apressei-me em tirá-las de meus bolsos.
Declarou necessário, antes de tudo, colocar grande quantidade de sal na forragem, untar a cauda do animal com alcatrão e esfregar-lhe todo o corpo com uma infusão de alcatrão e certa planta, que indicou; depois, apanhar os sargaços que crescem à margem do Nilo, picá-los, salgá-los e ministrá-los ao gado, não lhe dando a beber senão água do rio.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 04, 2017 8:58 pm

Além disso, defumações rigorosas nas baias e mesmo nos campos, e para casos especiais prescreveu um tratamento à base de azeite doce.
Smaragda pôs novamente o véu e saiu tão apressada que mal pôde agradecer a Pinehas.
Logo que entrou na liteira, ordenou que a levassem à casa de Omifer e não ousei contrariá-la, pois fora por ele que ela consumara todos os sacrifícios.
Smaragda parecia voar, mal tocando o solo.
Avisado, sem dúvida, Omifer nos recebeu à entrada de uma sala.
A bela amada atirou-se-lhe nos braços.
— Salvei-te mas, a que preço! — exclamou fora de si, desmaiando de raiva.
Omifer colocou-a num leito e perguntou-me o que significava aquilo.
Em, poucas palavras relatei toda a história e lhe comuniquei o remédio.
Ele tudo ouviu, indignado, e declarou que preferiria ver aniquilado todos os rebanhos, mas ao mesmo tempo, mandou chamar o intendente para transmitir-lhe a receita.
Como Smaragda não recobrava os sentidos, despedi-me.
— Devo correr para casa, pois lá também a ruína está iminente; encarrega-te de reconduzir a mulher de Rhadamés e transmitir-lhe a receita.
Satisfeitíssimo voltei para casa sem perder tempo e pusemos mãos à obra.
De toda parte se tirava sal e alcatrão; homens corriam à margem do Nilo para colher os sargaços, transmitindo a todos que encontravam a receita salvadora.
Com a rapidez do relâmpago, a boa nova se propagou.
Todos buscavam utilizar o recurso e breve não se viam nas ruas senão homens e mulheres carregando grandes molhos de sargaço ou cestas repletas de plantas.
Outros conduziam sacos ou ânforas de azeite.
Os armazéns onde vendiam sal, alcatrão e azeite etc., eram investidos de assalto; e enchiam-se as carrocinhas com os preciosos ingredientes para enviá-los ao campo, porque o efeito era evidente, mesmo para os animais já atacados.
Desde que começamos a aplicar o remédio não perdemos um só animal.
Tarde da noite apareceu Chamus triunfante, trazendo a mesma receita.
No dia seguinte, todos estavam mais ou menos serenados.
Febril actividade reinava por toda parte e um escravo que regressou do campo, trouxe igualmente consoladoras notícias; o mal estava seguramente debelado, porque os casos de contágio eram raríssimos e a maior parte dos contaminados se restabelecia a olhos vistos.
Ao entardecer, fui ao palácio falar com um colega sobre certo negócio.
Enquanto o procurava na sala da guarda, avistei Rhadamés e me aproximei para lhe apertar a mão; com grande surpresa, porém, deixou de corresponder e medindo-me com desprezo, falou com voz rouca:
— Nunca te julguei tão miserável e desleal, tanto que te confiei minha mulher e graças a mim não ficaste reduzido à miséria...
Em compensação, como te comportaste para comigo?
O remédio que foste buscar recebi-o dos transeuntes e não sei onde deixaste Smaragda, que só hoje de manhã regressou ao lar.
Falando assim, contorcia as mãos.
Abaixei a cabeça contrito e envergonhado:
— Ela quis ir à Casa de Omifer e lá teve uma síncope.
Eu não podia perder tempo e Omifer me prometeu reenviá-la logo que recobrasse os sentidos.
— Mas... como deixar uma mulher a ti confiada, em casa do homem a quem ama e a quem corresponde com fervor? — disse sapateando.
Mas, fiquem sabendo, os infames, que hão de pagar esta afronta logo que eu regresse.
E saiu apressadamente.
— Vai fazer alguma viagem? — perguntei ao colega?
— Creio que foi chamado para acompanhar o Faraó, que, para se distrair um pouco de toda esta confusão, vai por alguns dias, caçar leões no deserto.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 04, 2017 8:59 pm

Compreendi que Rhadamés adiava projectos de vingança e mais do que isso interessava-lhe um olhar benevolente do rei, de cujas boas graças se prevalecia para tratar os outros com arrogância.
Ele bem que acariciava os pés de Mernephtah, mas à socapa mordia os que lhe desagradavam.
Os dias seguintes foram de calma.
Moisés não era visto e cada qual procurava, com afinco, apagar os vestígios de todas as desgraças suportadas.
Meu pai resolveu aproveitar a tranquilidade reinante para realizar o casamento de Ilsiris dentro de oito dias.
Começaram os grandes preparativos, a casa parecia um formigueiro.
Mulheres que cortavam e cosiam, preparando os vestidos de minha mãe e da noiva; bem como intendentes, mordomos e cozinheiros, que ornamentavam as salas e preparavam a festa.
Convites eram expedidos a todas as pessoas notáveis de Tanis e fiz questão de ir pessoalmente convidar Pinehas e a progenitora, que prometeram comparecer.
Em seguida, Pinehas levou-me ao seu quarto, onde me serviu uma beberagem que me preservaria do mau olhado, em paga — acrescentou sorridente — da visita de Smaragda, que lhe facultei.
Ilsiris amanheceu queixando-se de violenta dor de cabeça na véspera dos esponsais, o que atribuímos à fadiga e excesso de actividade nos arranjos festivos.
Minha mãe concitou-a a não se deixar vencer e dominar por uma ligeira indisposição.
Ela sorriu e respondeu:
— Tentarei.
A tarde porém, sentiu-se pior, o rosto lhe escaldava e tremores glaciais faziam-lhe tremer o corpo.
Quando, no dia seguinte pela manhã, entrei na sala de estar, notei meu irmão muito preocupado.
— Ilsiris vai mal — disse-me — veja que situação!
Daqui a pouco os convidados começarão a chegar e a noiva lá na cama, incapaz de levantar-se.
— Posso vê-la?
— Sem dúvida; sobe ao seu quarto e lá irei também, pois quero apenas dar aqui algumas ordens.
Fui ao quarto de Ilsiris, situado num pequeno terraço ensombrado por plantas floridas.
Encontrei-a estendida num leito de repouso, de olhos fechados, rosto incendido e mãos convulsivamente crispadas.
A velha Acca lhe aplicava na testa compressas de água fria.
Inclinando-me, notei que da boca entreaberta lhe escapava um hálito escaldante.
— Querida Ilsiris — disse tocando-lhe na mão — sofres?
Lembra-te do dia de hoje e reanima-te!
Abriu os olhos baços, mortiços, tentando erguer a cabeça, mas deixou-a pender logo, gemendo.
Esse movimento afastou o lençol fino, que a cobria, e pude ver, então, no pescoço perto do ombro, escura mancha que se diria picada de cobra.
Afastei a cortina que ensombrava o ambiente e pude notar outra mancha semelhante à primeira, no braço.
Fora de mim, procurei minha mãe, que, na outra extremidade do terraço estava preparando um refresco.
— Mãe querida, tem calma e ouve tudo com coragem.
Ilsiris está atacada de peste.
Providencia para que nenhuma das aias saia de seus quartos, enquanto corro a buscar um médico e a prevenir meu pai.
— Necho, de que queres prevenir-me? — perguntou meu pai acabando de entrar.
Por Osíris! O que há? — acrescentou, ao ver minha mãe desfalecer numa cadeira e Acca, de joelhos, batendo com a cabeça no soalho, a gemer surdamente.
— Os deuses retiraram de nós seu olhar — disse minha mãe estendendo, aflita, os braços para ele; ferem o que temos de mais caro.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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