Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 04, 2017 8:59 pm

Ilsiris está empestada.
Meu pai cambaleou e apoiou-se à parede, pálido como um cadáver.
— Calma, pai — disse apertando-lhe a mão — os deuses ainda podem salvá-la; vou procurar um médico enquanto mandas prevenir os convidados que não venham, a fim de não se exporem ao contágio.
Sem esperar resposta, saí precipitadamente, ordenando que atrelassem o carro; entretanto, já a desgraça havia transpirado, de modo que todos os criados, lívidos, repetiam tremendo: “a peste, a peste”!
Chicoteando os cavalos, corri para junto do velho sacerdote, médico de nomeada, mas não consegui ser atendido.
O criado informou que ele estava repousando, seriamente indisposto.
Corri a outro sábio e fui igualmente infeliz.
A esposa, desconfiada e abatida, declarou que ele tinha ido ver um doente.
Desencorajado e aflito com a perda de tempo, resolvi procurar um templo assaz distante e ao dobrar uma esquina, quase abalroei outro carro em disparada.
Praguejando, contive os animais; o outro fez o mesmo, e qual não foi minha surpresa ao reconhecer Omifer abatido e perturbado, a dizer-me:
— Graças a Amon que te encontro, pois ia justamente à tua procura.
— Fala então, depressa, pois também estou à procura de um médico.
— Também eu — respondeu — e quero que me informes o endereço do tal Pinehas, que tão maravilhosamente salvou nossos rebanhos; diz-me onde mora esse grande sábio e feiticeiro, porque Smaragda está afectada de peste.
— Como não me lembrei dele? — exclamei batendo na testa — mas, por que vieste tu e não Rhadamés?
— É uma história que te contarei durante a viagem — passa para o meu carro e devolve o teu; ali vai um soldado, chama-o!
Aceitei o alvitre confiando o carro ao soldado para que o reconduzisse à casa e segui Omifer, que me passou as rédeas, dizendo:
— Tu conheces o caminho e não poupes o chicote.
Os dois fogosos cavalos arrastavam o veículo com velocidade enquanto Omifer falava-me:
— Tu te admiras seja eu quem busque um médico para Smaragda e tens razão.
Devo dizer-te, contudo, que ela está em minha casa.
Esse miserável Rhadamés, que ontem regressou da caçada real, renovou, ao que parece, as investidas contra ela, por haver passado em minha casa a noite daquele dia em que lá a deixaste, adoentada e combalida por uma série de contrariedades; hoje, com, o frescor da manhã, ela regressou ao lar acompanhada da ama fiel, mas em viagem sentiu-se mal e notou no seio pequena mancha negra.
À porta da casa, surgiu-lhe o marido, que novamente explodiu em impropérios, e como Sacheprés lhe pedisse que não contrariasse a doente, exclamou:
— Que doença?
Que lhe falta?
Caprichos de enamorada!
— Oh! senhor — respondeu a velha — como podes chamar a peste de capricho?
Deixa-nos entrar para acamá-la quanto antes.
O covarde recuou espavorido:
— Então ela está contaminada pela peste e tu, bruxa, ousas trazê-la para cá?
Pois fica sabendo que não entrareis.
Permanecei na rua ou onde quiserem, menos aqui!
A aia, atarantada e sem saber o que fazer, voltou com Smaragda para minha casa e tive, assim, a ventura de cuidar pessoalmente da mulher amada, e certo não permitirei que ela volte para a companhia do infame.
Com profundo desgosto ouvi o episódio, pois não supunha Rhadamés tão vil.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 04, 2017 8:59 pm

Chegamos enfim, à casa de Kermosa; parei o carro e Omifer desceu sobraçando pesada caixa que depôs no solo.
O negrinho porteiro informou que a patroa estava na primeira sala.
Fomos gentilmente recebidos por Kermosa, que nos informou estar Pinehas atarefadíssimo, não podendo receber ninguém.
Entretanto, quando Omifer lhe ofereceu a caixa repleta de ouro e jóias e, por minha vez, lhe prometi cinquenta vacas à sua escolha, se Smaragda e Ilsiris recobrassem a saúde, desanuviou a fronte e contestou visivelmente comovida:
— É-me impossível ficar indiferente e surda ao vosso apelo, generoso Omifer e nobre Necho; tudo farei por conjurar o perigo, que, infortunada e horrivelmente, ameaça duas criaturas preciosas; encarrego-me, pois, de vencer quaisquer escrúpulos de meu filho; ide ao seu gabinete, mesmo porque, se houver alguém no mundo capaz de salvá-las, há de ser o meu sábio Pinehas.
Encontramo-lo em uma salinha contígua à que normalmente ocupava.
De pé, junto de pequeno fogareiro, ele cozia qualquer coisa numa panela de alabastro.
Sobre a mesa de pedra, uma serpente estendida e meio esfolada, exalando odor penetrante e desagradável e de um grande depósito colado à parede, corria um líquido esverdeado para uma gamela.
De início, Pinehas não se mostrou disposto a nos socorrer o murmurou mal humorado:
— Posso apostar que subornastes minha mãe a peso de ouro, para que ela vos deixasse vir até aqui; isso não é decente, Necho, porque detesto esmolas; o que possuo me basta e não desejo que se diga, jamais, que mercadejo com minha ciência.
Contudo, o nome de Smaragda produziu o efeito desejado e recebi logo as instruções necessárias:
— Deves pegar alguns camundongos e queimá-los até reduzi-los a pó, que adicionarás a vinho novo e dessa mistura darás à doente meio copo de hora em hora.
Como única bebida, suco de sargaço (cortado, esmagado e coado num pano).
Envolva a doente inteiramente, principalmente os braços e pernas, em panos embebidos no azeite doce e renovados logo que sequem.
Sob o lençol em que estiver deitada, estenda uma camada de terra fresca, renovada de duas em duas horas, e a terra substituída deverá ser queimada em forno que não receba o pão, é claro.
De um armário retirou uma caixinha e um pote com alcatrão, que me entregou.
— Aqui tens um bálsamo para pincelar as manchas negras, e como será preciso muito tempo para preparar o pó de camundongo, leva-o já pronto nesta caixinha.
Vendo-me apressado, acrescentou:
— Vai na frente e pede o meu cavalo, pois ainda preciso falar a Omifer.
Agradeci e já me encontrava no umbral da porta quando ele advertiu.
— Não te esqueças, se alguém dos teus vier a falecer, de mandar incinerar todos os objectos que lhe serviram e só transportar para o cemitério o cadáver, envolto em panos alcatroados.
Ao chegar a casa, pus logo em prática as prescrições de Pinehas e transporte e colocação da terra fresca sob o lenço da doente, cujo aspecto repugnava.
Cortou-se e espremeu-se o sargaço para lhe extrair o suco; quanto ao pó, ordenei que o empregassem sem dizer da sua origem.
Depois de transmitir as instruções à mãe, que, desfeita em lágrimas não tinha coragem de se chegar à enferma, fui a meu pai e conversamos acabrunhados.
Quando lhe contei o procedimento de Rhadamés, disse com desprezo:
— Pior que um réptil.
Recolhi-me por fim, ao quarto, cansado de corpo e alma, e adormeci profundamente.
Fui despertado já dia alto por meu pai, tão pálido e abatido que pensei ter morrido Ilsiris.
— Que há? — perguntei aflito.
— Más notícias, meu filho; durante a noite uma dúzia de escravos, homens e mulheres adoeceram.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 04, 2017 8:59 pm

"É uma grande perda!
— É necessário tratá-los da mesma forma que estamos fazendo com Ilsiris.
E como vai ela?
— Disse-me tua mãe que as manchas negras esmaeceram e que a respiração é mais tranquila.
Pobre mulher!
Parece que em toda a cidade a peste já fez numerosas vítimas e confesso-te que também eu não me sinto bem; roda-me a cabeça e tenho os membros pesados como granito.
É a mão de Moisés que pesa sobre nós e talvez estejamos errados em reter os hebreus!
Observei, com angústia, a expressão fisionómica de meu pai, estranhamente transfigurado.
— Dá as ordens necessárias para o tratamento dos escravos, meu filho, enquanto vou repousar um pouco.
Levei-o ao dormitório e, tomando as providências de mister, fui de coração opresso, até ao palácio do Faraó, porque estava na escala de serviço.
Ao atravessar a cidade, notei que a horrível moléstia havia invadido lares ricos e pobres; por toda parte, fisionomias aflitas e abatidas.
Diante de uma porta, vi um rabecão que recebia um cadáver repugnante, negro, disforme, coberto de manchas e tumores.
— Que estás fazendo, infeliz! — exclamei parando e recordando a recomendação de Pinehas.
Vais difundir o contágio por toda a cidade!
Envolve o cadáver num pano alcatroado e queima toda a roupa e objectos de uso.
Chegado ao palácio, notei geral consternação e soube que o príncipe herdeiro contraíra a moléstia.
O Faraó tentara congregar os maiores sábios à cabeceira do filho, mas os mensageiros voltaram com a desoladora notícia de que, precisamente os sábios e feiticeiros, em sua maior parte, estavam atacados e impossibilitados de se locomoverem.
No momento, estava reunido um conselho para assentar as providências adequadas.
Ocorreu-me logo a ideia de que o tratamento prescrito para Ilsiris poderia aproveitar ao príncipe herdeiro.
Assim dirigi-me rapidamente para a sala da reunião, e solicitei que me facilitassem a entrada, porque tinha em mira transmitir ao rei um assunto da mais alta relevância.
A princípio o porteiro hesitou, mas, as circunstâncias eram tão críticas que dispensavam formalidades extraordinárias, e acabei entrando e dirigindo-me ao mestre de cerimónias, que, por sua vez me levou até junto do trono, onde me prostrei.
Mernephtah, pálido e encanecido, fitou-me com olhar melancólico e fatigado.
— És tu, Necho?
Se trazes ao teu rei um conselho ou remédio, serás regiamente recompensado.
— Permite, grande filho de Rá, dispensador de vida e felicidade, que a minha palavra seja absolutamente confidencial.
— Aproxima-te.
Subi o estrado e inclinando-me, relatei em poucas palavras que obtivera para minha irmã uma receita capaz de aproveitar ao príncipe e que conviria consultar Pinehas, mas, com as maiores precauções, para não o expor à cólera de Moisés, que não deixaria de eliminar esse homem tão útil.
Um raio de esperança transpareceu no semblante de Mernephtah e coloriu-lhe as faces:
— Agradeço-te, fiel súbdito. Jamais serás esquecido e desde já vou conduzir-te para junto do príncipe; depois, irás à casa de Pinehas para obter o pó e o bálsamo e dir-lhe-ás que três medidas de anéis de ouro lhe pertencem, podendo recebê-las directamente do meu tesoureiro, ou por teu intermédio.
Levantou-se e disse em voz alta:
— Que o conselho se conserve em sessão permanente, até nova ordem!
Agora vou ver meu filho.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 04, 2017 9:00 pm

Em companhia apenas dos mais íntimos, dirigiu-se para o pavilhão ocupado pelo herdeiro, onde reinava um ambiente de incontida ansiedade.
Os criados torciam as mãos e os guardas, cabisbaixos, como sucumbidos, apenas se moveram para prestar continência.
Após atravessar diversos compartimentos ricamente mobiliados, ergui diante do rei o reposteiro azul e ouro, que ocultava a alcova do príncipe, uma sala não muito grande, aberta numa das extremidades para o extenso terraço todo florido; paredes cobertas de esculturas e quadros representavam os altos feitos do fogoso rei Ramsés II.
Nos cantos haviam extensos aparadores, repletos de colecções das armas mais variadas e troféus de caça, artigos predilectos do príncipe.
Em um dos ângulos, sobre um estrado com degraus cobertos com peles de tigre, via-se a cama de ouro maciço e sob lençóis de púrpura, Seti, deitado, braços estendidos, rosto congesto e todo o corpo sacudido por tremores convulsivos.
Da boca entreaberta saía respiração opressa e sibilante.
Ao redor do leito, comprimiam-se os companheiros e criados do príncipe, pálidos e indecisos, olhando ora a fisionomia do enfermo, ora a dos dois médicos, dos quais um, de cenho carregado, preparava uma poção, enquanto o outro evidentemente convencido da ineficácia do remédio, tinha-se voltado cobrindo o rosto com as mãos.
Imediatamente tomei todas às providências.
Mandei buscar terra fresca e os vasos de alabastro com azeite doce e folhas de louro misturadas com alcatrão; despido o enfermo, foi envolto no lençol embebido no azeite e colocado sobre a camada da terra.
Mernephtah havia-se afastado para outro lado, em frente, observando atentamente o que se fazia.
Ao cabo de alguns minutos, o doente, quiçá beneficiado pelo contacto da terra fresca e do óleo, abriu os olhos congestionados e olhou a assistência.
— Tenho sede! — murmurou.
Naquele momento entravam dois criados com o suco de sargaço; despejei o líquido esverdeado num copo e, ajudado por um jovem companheiro do enfermo, amparei-lhe a cabeça e aproximei aos lábios ressequidos o copo, que foi sorvido avidamente até a última gota.
Uma expressão de calma e bem-estar estampou-se-lhe no rosto.
O Faraó ergueu-se satisfeitíssimo e batendo-me no ombro, disse:
— Muito te devo, Necho; agora, vai buscar o pó e o bálsamo e entrega ao homem esta prenda (retirou o pegador ornado de soberbas esmeraldas, que lhe segurava o manto).
Depois, volta aqui sem tardança, pois fico mais tranquilo quando te vejo, dado que nossos sábios médicos são verdadeiras negações que não previram nem souberam evitar a peste.
Deu-me a mão a beijar e parti a toda pressa.
Invadi a sala onde Kermosa dormia na poltrona, junto da mesa cheia de garrafas vazias, sem fazer anunciar.
A princípio ela se mostrou muito agastada por ter sido incomodada; mas, quando lhe disse que vinha da parte do Faraó, que oferecia ao filho três medidas de anéis de ouro, a fisionomia se lhe abriu de contentamento e, apertando-me a mão, chamou-me seu benfeitor e correu a prevenir Pinehas.
Taciturno e preocupado, ele logo apareceu, dizendo:
— Que fazes, Necho?
Tuas tagarelices me arriscam a vida...
Estendi a Pinehas o pegador de esmeralda e pedi que me fornecesse o pó e o bálsamo.
Agradeceu, visivelmente satisfeito e foi ao quarto buscar um pote grande de bálsamo e uma caixinha de pó.
— Diga ao Faraó que esta noite mande afastar os importunos e curiosos que rodeiam o enfermo, pois irei eu mesmo tratá-lo; que providencie para minha entrada no palácio, sem dificuldade.
Correndo, voltei ao palácio, e encontrei Seti preso de sono agitado, embora respirando mais calmo; os circunstantes informaram que ele despertara, por vezes, bebendo o suco de sargaço.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 04, 2017 9:00 pm

Então eu próprio misturei o pó e o vinho, recomendando lhe ministrassem meio copo, de meia em meia hora; depois, ensinei como se pincelavam com o bálsamo as manchas negras, e a seguir fui ter com o Faraó para informá-lo da visita de Pinehas.
Estava, porém, em conselho e tive de esperar, até que saísse da reunião.
Ao ouvir-me, mostrou-se muito contente com a notícia.
Mandou que voltasse para junto do príncipe, onde também estaria depois de expedir algumas ordens.
Assim, fui obrigado a permanecer no palácio, embora impaciente por saber como corriam as coisas em casa.
Felizmente, a noite estava prestes a chegar e Pinehas, não poderia tardar.
Primeiro veio o rei, que mandou que saíssem todos, excepto eu e alguns jovens da nobreza, companheiros de infância do príncipe e a ele devotados de corpo e alma.
O doente continuava desfalecido, mas notava-se que o mal não progredira.
Mernephtah sentara-se junto de uma mesa e servimo-lo de vinho.
Após esvaziar o copo, disse com tristeza e ironia:
— Por toda a cidade a moléstia se agrava de momento a momento; mas, evidentemente, ela não me quer; talvez seja uma deferência de Moisés, temeroso de que não haja, depois, quem lhe consinta a retirada dos hebreus.
— Caro rei! — dissemos — é Rá, o deus poderoso, do qual descendes, que te protege e imuniza; pois que seria do teu infeliz povo se não velasses por ele, nutrindo-lhe a coragem?
O aviso de que o visitante do Faraó aguardava suas ordens, veio interromper nossa penosa espera.
O rei ordenou que fosse introduzido e logo apareceu um velho de barbas brancas, envolto em negro manto.
Pelos olhos e ademanes, reconheci Pinehas.
Depois de saudar o Faraó, desfez-se do manto e tendo examinado o príncipe, disse que ia começar imediatamente o tratamento, pedindo ao rei e aos assistentes que não se assustassem nem se admirassem do que iam presenciar e, sobretudo, que não o tocassem, a pretexto algum, porque daí poderia resultar acidente fatal ao enfermo.
Ninguém se moverá nem se aproximará de ti, sem que o autorizes — respondeu o rei — sobre isso podes ficar tranquilo.
Pinehas pediu um fogareiro com brasas e grande bacia d’água, que colocou junto do leito; a seguir, tirou do bolso um saquinho de ervas secas e jogou um punhado nas brasas, produzindo uma fumaça acre, mas aromática.
Inclinando-se para o fogareiro, aspirou fortemente a fumaça e ordenou que tirassem todas as lâmpadas, excepto uma colocada num canto; depois, assentou-se no chão, junto da bacia, de pernas cruzadas e mãos estendidas na direcção do enfermo.
Silêncio absoluto. Reunidos atrás da cadeira ocupada pelo rei, mal nos atrevíamos a respirar.
Longo tempo assim esteve Pinehas, de olhos fixos no príncipe; pouco a pouco o rosto cobriu-se-lhe de mortal pavor, como que petrificado.
Olhos escancarados, inexpressivos, braças sempre estendidos para frente, dir-se-ia uma estátua. Depois, começaram a lhe aflorar placas luminosas pelo corpo, ora esmaecendo, ora aumentando o brilho; das mãos como que se desprendia ténue claridade, que, em chispas multicores, mergulhava na água.
De repente, sem mudar de posição e sem qualquer auxílio visível, Pinehas elevou-se no ar e dessa forma pairou à altura do leito de Seti inteiramente descoberto.
Logo, notamos que das extremidades do enfermo, do vértice da cabeça e sobretudo da região do estômago, saía qualquer coisa negra, que se fundia em nuvem densa, aspirando e dissipando-se, enquanto o corpo do mago continuava a expelir partículas luminosas.
Assombrados, contínhamos a respiração, contemplando o espectáculo extraordinário.
Tudo cessou por fim. Pinehas voltou ao solo e passado certo tempo deu um profundo suspiro, lançando em torno um olhar fatigado. Levantou-se e distendeu os membros.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 04, 2017 9:00 pm

Feito isso, lançou em outro vaso a água que absorvera as partículas luminosas, bebeu um gole do restante, lavou o rosto e as mãos e, aproximando-se de Seti com um pano molhado na mesma água, esfregou-lhe o rosto, os pés e as mãos.
Voltou-se depois para o Faraó e disse:
— Poderoso soberano, aproxima-te e verifica que as manchas desapareceram, e, com elas, a terrível moléstia.
O príncipe se restabelecerá, pois todo o perigo passou.
O que resta é um estado de extrema fraqueza.
Sigam a rigor o tratamento prescrito e logo teu filho recuperará as forças e o viço da mocidade.
Mernephtah aproximou-se e após verificar que o filho dormia um sono normal e profundo, bateu no ombro de Pinehas, dizendo:
— Tu és o maior médico do Egipto, depois de Moisés; toma isto como prova do meu reconhecimento pela vida do meu herdeiro.
Tirou do dedo um anel com magnífica safira, na qual estava esculpida a cabeça de Ápis.
Acrescentando mais três medidas de ouro às que já te dei, presenteio-te com três cavalos encilhados, das minhas cavalariças; cem vacas e cem carneiros dos meus rebanhos.
Necho, regista estas ordens e providencia para que tudo seja enviado a Pinehas, da forma que melhor lhe convier.
Pinehas prostrou-se de braços cruzados, agradecendo.
Depois de entregar as tabuinhas com as prescrições a serem observadas, retomou o manto e saiu.
Logo depois, Seti abriu os olhos, inteiramente lúcido e pediu o que beber.
Todos se aproximaram.
— Filho, como te sentes? — perguntou Mernephtah inclinando-se e beijando-o na fronte.
— Perfeitamente bem, apenas fraco.
Tenho ideia de que um homem flutuava no ar, perto de mim, e que partia dele uma fonte d‘água tão fresca, tão perfumada que, à medida que escorria pelos meus membros abrasados e doloridos, eu me sentia renascer.
— É verdade, filho; os deuses te favoreceram com um verdadeiro sonho.
Um grande mago aqui esteve, junto de ti e te restabeleceu a saúde; a horrível moléstia abandonou o teu corpo; agora é preciso repousar, porque a calma e o silêncio te são necessários.
Mernephtah retirou-se e pouco depois eu também retomava, justamente aflito, o caminho de casa.
Apesar do adiantado da hora, as ruas ainda formigavam de gente e, certamente, alguma coisa do tratamento do herdeiro havia transpirado, porque muitos pobres carregavam sacos e cestas de sargaços e vasos de azeite.
Quando cheguei a casa, um velho escravo informou-me logo que nada de extraordinário ocorrera, mas várias pessoas haviam sido atacadas.
Fui até o quarto de meu pai.
Dormia sono pesado e inquieto, remexendo-se no leito de um lado para outro.
Não desejando incomodá-lo, retirei-me e fui dormir descansado.
De manhã, fui informado pelo velho criado que meu pai estava passando mal.
Corri para junto dele e não tive dúvida em concluir, pelo rosto inchado, olhos esbugalhados e corpo crispado, que tinha contraído a moléstia.
— Depressa — exclamei aos que deblateravam ao redor do leito — em lugar de ficarem aí inactivos, vão buscar terra e azeite.
Não há tempo a perder.
Depois de lhe dispensar todos os cuidados possíveis, resolvi chegar até os aposentos maternos.
Ao atravessar a sala de jantar, notei, com espanto, que um escravo estava caído perto do aparador, de onde pretendia retirar a baixela.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 04, 2017 9:00 pm

O rosto intumescido e as feias manchas que lhe pontilhavam o corpo, assinalavam uma nova vítima que ainda não tinha sido retirada.
Na ante-câmara de minha mãe, várias mulheres amontoadas e desfiguradas, davam a impressão de que não viam nem, ouviam.
Encontrei minha mãe assentada perto de uma mesa com a cabeça apoiada às mãos.
Com o ruído dos meus passos, levantou os olhos, dizendo:
— És tu, Necho?
Teu pai também foi atingido, já sabes?
Pobre Mentuhotep!
Sinto, porém, que o seguirei de perto, pois a cabeça me roda e não me aguento nas pernas.
Ao ouvir tais palavras fui preso de íntimo desalento:
Ilsiris, ela, e o pai...
Iria perdê-los a todos?
— Não fales assim, mãe; isso não significará mais que passageira fraqueza, devido aos aborrecimentos e ao cansaço; como vai Ilsiris?
— Ainda vive.
Queres vê-la? — acrescentou, deixando-se cair nos travesseiros.
Levantei-me e entrei no quarto contíguo, propositadamente mergulhado em penumbra.
Ilsiris lá estava no leito, esquelética e desfigurada.
A febre ainda lhe escaldava as faces e os olhos, mas as manchas horrorosas tinham desaparecido.
A velha Acca trocava, na ocasião, os panos molhados no azeite.
— Acca, como te sentes? - perguntei, vendo que Ilsiris fechava novamente os olhos.
— Bem — respondeu a velha enxugando uma lágrima — bebo de todos os remédios, fricciono-me com azeite e como o pó com o pão; sinto-me vigorosa como um peixe n’água.
Só me falta que os meus bons senhores sejam salvos!
— Querida Acca — disse acariciando-lhe a face encarquilhada — nunca esqueceremos teu devotamento nestes dias amargurados.
Voltei para junto de minha mãe e notando-lhe o rosto afogueado, convidei-a a respirar um pouco de ar fresco, no terraço.
Apoiada em mim, caminhou com dificuldade, mas apenas deu alguns passos, parou e levou a mão ao peito.
— Como queima!
Parece-me ter uma faca enterrada aqui! — disse afastando a roupa para mostrar-me a região.
Vendo, entretanto, uma grande mancha violácea, deu um grito agudo e tombou desacordada.
Coloquei-a no leito e chamei Acca.
Tornando-se indispensável e não podendo a velha, sozinha, atender a tudo, toquei a campainha dos criados, mas apenas dois se apresentaram.
— Senhor — disse um deles todo lacrimoso — ninguém atenderá ao teu chamado, pois metade das mulheres estão doentes e as outras estão esgotadas a ponto de não poderem fazer qualquer coisa.
Pus as mãos na cabeça e comecei a pensar que, da maneira em que vão as coisas, dentro em pouco não haverá quem cuide dos próprios doentes!
Lembrei-me novamente de Kermosa.
Talvez me cedesse, por empréstimo, uma serva bastante inteligente para dirigir os socorros aos doentes e auxiliar Acca no tratamento de meus pais; pagaria de bom grado o que fosse pedido.
Sem perder tempo, apanhei uma caixinha, enchia-a das jóias que encontrei à mão e, tomando o carro toquei para casa de Pinehas.
Kermosa me recebeu amavelmente.
— Ajuda-me — disse apresentando-lhe o cofre — todos os meus estão atacados da peste, sem contar mais de trinta escravos e criados.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 04, 2017 9:00 pm

Os que não estão doentes, estão horrorizados, vendo seus parceiros, que morrem sob suas vistas.
— Vejo que estás desatinado, pobre rapaz.
Teus pais estão doentes da peste e os servos, perturbados, incapacitados de agir.
Não deves, porém, desesperar.
Acalma-te, Necho; gosto da tua família e te ajudarei; vou emprestar-te uma jovem capaz de cuidar dos doentes, dirigindo o tratamento.
Entretanto, devo dizer-te uma coisa:
estimo essa moça que, jovem e bela, é, até certo ponto minha parenta — acrescentou baixando os olhos envergonhada.
Promete-me, pois, que nunca lhe faltarão atenções em tua casa.
— Quanto a isso posso jurar — respondi.
Ela te será restituída impoluta, ninguém lhe tocará com um dedo.
— Henaís — gritou Kermosa no seu metal de voz sonoro e agudo — depressa!
Logo, uma rapariga de beleza surpreendente assomou no umbral.
Um vestido simples, de pano listrado, desenhava-lhe o corpo esbelto, deixando a descoberto uns ombros e braços admiráveis.
A cútis bronzeada era tão pura que se diria ver o sangue circular na sua transparência, traços regulares e encantadores, olhos negros, doces e veludados, como os de uma gazela, exprimiam bondade extrema.
Ao ver-me, perturbou-se e baixou a cabeça.
— Henaís, vês este nobre egípcio? — disse Kermosa — três membros de sua família foram atingidos pela peste e o pessoal doméstico morre como mosca; ele veio pedir-me alguém capaz de o ajudar e foi a ti que escolhi.
Sei que te desobrigarás a contento, porque fui eu que te educou de forma idêntica à dos ilustres egípcios, meus patrícios.
Portanto, podes ir tranquilamente cuidar dos pobres doentes, porque Necho me prometeu que, a começar por ele, até o último escravo, ninguém abusará de ti.
— Mas — retrucou ela empalidecendo — Pinehas não há de concordar.
— Pinehas não tem outra coisa a fazer se não obedecer-me, compreendes?
Evita palavras imprudentes, que possam dar a entender que meu filho tenha outra vontade que não a minha, quando a verdade é que, desde a infância, sua adoração filial o faz considerar meus desejos como lei.
Vai, pois, e prepara-te para acompanhar o nobre Necho.
A moça, que muito respeitava Kermosa, desapareceu imediatamente.
Perguntei se não poderia avistar-me, um momento, com Pinehas,
— Creio que não — respondeu Kermosa — pois está ocupadíssimo, junto de Smaragda, gravemente contaminada.
Mas, vem comigo, e se for possível, vê-lo-ás.
Levou-me aos apartamentos do filho e deteve-se diante da porta velada com uma cortina que ela entreabriu discretamente para lançar um olhar pelo interior; depois, com o dedo nos lábios, em sinal de silêncio, acenou-me para que me aproximasse.
Avancei curioso.
Na sala confortavelmente mobiliada, vi Smaragda estendida como se estivesse morta, num leito de repouso.
Tão branca como a gaze que a recobria, mas sem as manchas negras no corpo; a febre deveria ter cedido, pois ela dormia como se apenas estivesse muito extenuada.
Junto dela, de pé, Pinehas, inquieto e com as veias intumescidas.
Com grande espanto, notei que, com a ponta dos dedos ele tocava a fronte da moça, descendo depois as mãos sem tocar o corpo, até os pés.
Isto incessante e seguidamente.
Não vi Omifer, notando apenas que numa esteira dormia profundamente uma negrinha.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 04, 2017 9:01 pm

Finalmente, Pinehas cessou de operar.
Parecia exausto e suor copioso escorria-lhe da fronte; inclinou-se para a enferma e auscultou-a.
Sua fisionomia tinha expressões alternantes de ódio e de ternura.
Depois, deixou-se abater no tapete, colou os lábios nas pequeninas mãos de Smaragda, que não se moveu.
Violentamente, Kermosa puxou-me para trás, sussurrando:
— Nada vimos, compreendes?
— Sem dúvida — respondi — percebo que no momento não lhe posso falar.
Henaís já estava à minha espera quando voltamos, com um véu na cabeça, envolvida num manto escuro e sobraçando um embrulho.
Atirou-se aos pés de Kermosa e lhe beijou as mãos.
— Felicidades, querida Henaís — disse esta beijando-a na testa.
— Fica a teu cuidado, Necho — acrescentou ao despedir-se.
— Vem — disse tocando a mão trémula da moça — nada receies, pois tudo farei para que te sintas bem em nossa casa.
Fi-la subir ao carro e chegando à casa levei-a para junto da boa Acca, com quem a deixei.
Comunicou-me nosso velho intendente que o azeite estava quase esgotado e perguntou onde poderia obtê-lo.
Temendo pela sorte do portador, que poderia adoecer no caminho, fui pessoalmente à casa de um rico negociante com quem meu pai tinha transacções.
Recebeu-me muito aflito, porque também tinha doentes e acabava de perder a filha, vitimada pela peste; ensinei-lhe o tratamento que tanto aliviou Ilsiris e, ele, em sinal de reconhecimento, prometeu-me fornecer todo o azeite de que eu viesse a precisar.
Ao regressar, já encontrei as coisas noutro pé.
Meu pai e minha mãe estavam revestidos de panos molhados em azeite; as ânforas estavam cheias de suco de sargaços.
Henaís, a correr de um doente para outro, ensopando de azeite os lençóis de um, dando a beber a mistura de vinho e pó a outro, atendendo a todos com solicitude.
Entre os criados, também parecia renascer a coragem.
Todos os doentes estavam acomodados e já haviam recebido os primeiros socorros; enfim, por determinação de Henaís, vários rapazes apanharam algumas serpentes e as esfolaram para retirar a gordura destinadas às fricções.
Quando cheguei junto de meus progenitores, vi Henaís dando de beber a meu pai, que se encontrava em deplorável estado, com o corpo coberto de manchas, rosto disforme e respiração sibilante.
Não me reconheceu e assentei-me perto dele, admirado eu próprio de não experimentar nenhum incómodo.
Estaria imune ao contágio?
Observei Henaís por muito tempo, não podendo desviar os olhos dessa encantadora criatura, que, ligeira e calada, parecia o anjo tutelar dos doentes.
Aproximei-me por fim, e tomando-lhe as pequeninas mãos morenas, disse reconhecidamente:
— Querida Henaís!
É admirável o teu trabalho!
Mas, não estarás abusando das tuas forças?
Forte e saudável, não poderia eu ajudar-te?
A princípio, ela se mostrou tímida e calou; depois, desembaraçando-se, ergueu para mim os grandes olhos brilhantes, dizendo:
— Não te preocupes, pois nada sinto e cuidarei de todos, sem prejuízo de ninguém — acrescentou ainda hesitante.
Não fiques assim triste e pálido; vai repousar um pouco e amanhã entrega-te tranquilamente ao teu serviço; não te acabrunhes, porque ninguém morrerá enquanto estiver sob os cuidados de Henaís.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 04, 2017 9:01 pm

Comovido, apertei-lhe fortemente a mão e tentei abraçá-la.
Recuou assustada e recordei, então, a promessa feita a Kermosa, afastando-me sem demora.
No dia seguinte, tudo continuava na mesma.
Alguns dos nossos homens ainda continuavam enfermos, mas não houve óbito.
Depois do almoço, fui ao palácio, onde o herdeiro ia passando bem, apenas muito debilitado.
Após a refeição do Faraó, um oficial perguntou-me:
— Não sabes o que há com Rhadamés?
Há dois dias que não aparece; felizmente o rei não procurou por ele.
Estará atacado da peste?
— Não sei — respondi — tenho muita desgraça em casa, por isso não posso pensar nas tragédias dos outros.
— Estamos em idênticas condições — acrescentou suspirando.
Havia muito que anoitecera, quando deixei o palácio, de volta a casa.
O aspecto da cidade, que se tornara asilo da peste e da morte, era ainda mais sinistro que durante o dia.
Em todas as ruas notavam-se grandes fogueiras, a que os soldados atiravam ervas aromáticas misturadas com alcatrão.
O revérbero das chamas reflectia-se fantasticamente nos corpos nus e nas cabeças selvagens dos guerreiros, assim como nos edifícios, quer fossem escuros, ou pintados de cores vivas.
Pela sombra das casas, evitando a luz dos braseiros, deslizavam pessoas transportando em padiolas grandes fardos envoltos em pano alcatroado.
Eram as vítimas da peste.
Silenciosos, como se temessem despertar em sua passagem a atenção dos circunstantes aterrorizados, lá seguiam eles para o cemitério com a carga sinistra.
Muitas vezes meu cavalo empacava, recusando-se a prosseguir, ou se desviava ao passar junto de um corpo estendido no solo, às vezes inanimado, outras vezes gemendo surdamente.
Eram as vítimas que a patrulha ainda não havia retirado.
Após pequeno desvio para livrar-me de extensa fila de padiolas, aconteceu-me passar diante do palácio de Mena.
O grande edifício estava imerso na escuridão e silencioso, apenas iluminado pelo reflexo da fogueira acesa no meio da rua.
Recordei-me de Rhadamés e da crueldade selvagem com que escorraçou daquela mesma porta a esposa gravemente enferma.
A peste que rondava o ponto, teria atingido aquela casa?
Procurei informar-me.
Ao redor do fogo estavam acocorados soldados etíopes de largas mandíbulas e cabelo encarapinhado, alimentando o fogo com ar sinistro e apatetado.
Chamei um, ordenando-lhe que segurasse o cavalo e aproximei-me da porta.
Suspendi o martelo de bronze para deixá-lo cair na campainha e um som agudo e prolongado se fez ouvir, quebrando o silêncio da noite.
Ninguém, entretanto, respondeu do interior, nem apareceu qualquer criado.
Estariam todos mortos lá dentro?
Pedi uma tocha e chamei dois soldados para forçar a porta.
Encontrei-a aberta e entrei sozinho, sem temor algum, pois já estava muito afeito ao contacto de doentes, para que me atemorizasse.
Percorri o pátio e, ao atravessá-lo, tropecei num obstáculo.
Abaixei a tocha e vi, horrorizado, um cadáver já em decomposição, nada mais representando que uma pasta negra e putrefacta.
Descortinei dezenas de corpos no solo, alguns assentados de encontro à parede, de olhos vidrados e boca escancarada, inchados como tonéis.
Um quadro verdadeiramente macabro e apavorante!
Que teria acontecido aos donos da casa?
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 05, 2017 8:34 pm

Era isso o que desejava saber.
Voltei e penetrei na casa, tremendo.
No vestíbulo, apenas encontrei o cadáver de um homem.
Galguei, então a soberba escadaria fracamente iluminada por uma tocha presa à parede; prosseguindo, divisei finalmente, um preto velho que, acocorado junto de um fogareiro, queimava ervas alcatroadas, tal como faziam os soldados nas ruas.
A meu chamado, aproximou-se logo e disse-me que apenas ele e uma mulher ali se encontravam.
— Todos os demais criados fugiram — acrescentou.
O patrão expulsou os primeiros que adoeceram, mas, quando a velha senhora e duas filhas foram atingidas, todos debandaram, inclusive o próprio patrão, que se meteu no subterrâneo e não mais apareceu.
Talvez já esteja morto.
— Por que não removem os cadáveres?
— Porque são muitos e não tenho forças para tanto, além de não saber a quem me dirigir.
Perguntei onde estavam a mãe e irmãs de Rhadamés.
O escravo deu-me a direcção e depois de atravessar diversas salas cheias de cadáveres, cheguei a uma grande alcova luxuosamente mobiliada e aclarada por duas lâmpadas, que iluminavam uma grande mesa repleta de pastéis, mel e uma ânfora de ouro cheia de vinho.
Jovem nubiana saboreava o rico repasto, após haver-se enfeitado, pois lá estavam cofres abertos, caixinhas viradas e o flagrante grotesco.
Na extremidade do quarto, três seres viventes se contorciam no leito, tão desfigurados que mal pude reconhecê-los.
Com a minha aproximação, a nubiana levantou-se contrafeita e assustada.
— Ouve, rapariga! fala-me sinceramente:
não encontraste nada a fazer senão roubar e comer?
Toda a cidade está em movimento, todos se auxiliam e no entanto estes infelizes aqui agonizam à míngua de socorro...
— Mas ninguém manda nem pede nada! — disse a pobre criatura — pois as senhoras nada falam que se entenda, já há dois dias.
— É verdade — disse o preto velho que me acompanhara, meneando a cabeça — ordenai o que é preciso fazer, porque não ouso aproximar-me do meu senhor, que se conserva furioso e incompreensível.
— Tens óleo de oliveira em casa?
— Ânforas deste tamanho — disse, designando altura quase igual à dele.
Indiquei-lhe, então, o tratamento a seguir, acrescentando que no dia seguinte voltaria a ver se tudo havia sido bem executado.
E pedi que me indicasse o refúgio de Rhadamés, pois se ele ainda vivesse queria envergonhá-lo por entregar-se a tal covardia, enquanto os parentes morriam à míngua de cuidados.
O preto levou-me até uma escada que descia para as adegas.
Desci, penetrando numa cava de tamanho regular, iluminada por uma tocha; junto às paredes, enormes cofres e ânforas de diferentes tamanhos e num canto, acocorado, alguém de costas voltadas para mim, sorvia avidamente o conteúdo de diversos vasos cinzelados, que lhe ficavam à frente.
Aproximei-me do personagem e iluminando-o com a tocha, reconheci Rhadamés horrivelmente mudado — pálido, as vestes sujas e desmanteladas.
Ao ouvir meu chamado, deu um salto e quis fugir de espada em punho.
Não encontrando saída, gritou:
— A peste que ataque a todo mundo, que todos morram.
Basta que eu viva!
E batia com a espada nos vasos e ânforas, que se quebravam com fragor, molhando o chão.
— Os deuses tê-lo-iam enlouquecido, punindo-o pela falta de caridade? — perguntava-me apavorado.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 05, 2017 8:34 pm

E de pernas bambas, fugi, entregando à protecção dos deuses a casa de Mena com os seus moradores.
Ao entrar em casa, encontrei meus queridos doentes no mesmo estado; nem piores, nem melhores, a gemer e rolar no leito.
Enquanto eu ajudava a erguer minha mãe, Henaís falou:
— Não te aflijas, pois não pode ser de outra maneira.
Só ao fim de três dias é que virão as melhoras.
Quem o disse foi Pinehas e suas palavras são sempre verdadeiras, pois é um grande sábio, na opinião de mãe Kermosa.
E ao notar meu aspecto de fadiga, acrescentou:
— Estás extenuado, vai ao quarto vizinho, onde acharás alguns refrescos; tardaste bastante e previ que chegarias com fome.
Vai-te refrescar e repousar, pois aqui estou de vigília e não há necessidade de teu concurso.
— Obrigado, boa Henaís, por teres pensado em mim — disse tomando-lhe a pequenina mão entre as minhas.
— Bem — disse, após um instante de hesitação — tu não estás, a bem dizer, doente do corpo, mas da alma, porque Pinehas diz que, quando entristecemos, a alma está doente; e tu te sentes infelicitado, porque os teus queridos estão sofrendo. '
Antecedeu-me na sala contígua e, colocando-se perto da minha cadeira, encheu uma taça de vinho que me ofereceu sorrindo.
Experimentei, então, uma viva e estranha simpatia pela bondosa criatura.
Seus gestos e suas palavras traduziam particular encanto.
Depois de muito instalada, consentiu em sentar-se a meu lado e serviu-me os melhores bocados.
Tendo comido com apetite incomum, deixei-me persuadir por Henaís e fui deitar-me.
Alguns dias transcorreram sem maiores novidades dignas de menção.
Ilsiris estava melhor, mas o estado dos meus progenitores e da maior parte dos servos continuava deplorável:
por vezes, sentia-me desanimado, mas Henaís encorajava-me.
— Que queres? — dizia sorrindo — ninguém ainda morreu; e quanto ao mais, é preciso ter paciência.
E eu já estava tão afeito ao seu convívio naqueles dias amargurados, que alguma coisa me faltava, quando ao entrar em casa não a avistava logo.
Certa vez, precisei madrugar para ir ao palácio, a fim de acompanhar Faraó ao Templo.
O príncipe Seti levantara-se, na véspera, pela primeira vez e o rei queria render graças aos deuses por lhe haverem poupado o filho.
Acompanhado apenas de reduzido séquito, Mernephtah entrou no Templo, onde os sacerdotes, também dizimados pela terrível epidemia, o receberam com as habituais solenidades.
Nós permanecemos na ante-sala que precede o santuário em que foi introduzido o rei, por um dos profetas, na ausência do grão-sacerdote, enfermo e acamado.
Vimos, então, Mernephtah prosternar-se diante do ídolo.
Ergueu os braços e a voz sonora ecoou pelas abóbadas:
— Poderoso Osíris, rendo-te graças por tua misericórdia em conservar-me o filho; mas tem piedade também do meu pobre povo!
Serás menos poderoso que o deus cruel dos hebreus?
Se ele pode ferir-nos com a peste, tu, grande protector do teu devotado povo, podes livrar-nos.
Dá-nos a conhecer a natureza do sacrifício que exiges para aumentar tua força e vencer o Deus inimigo e dá-me um sinal de que esta súplica foi aceita.
Todos nos prostramos e, braços alçados, unimos nossas preces à do nosso Faraó.
Ao mesmo tempo, os sacerdotes e sacerdotisas entoaram um cântico sacro, muito emocionante, ao Bom de suas harpas; isso num ambiente que, por sua fragrância activa, me comoveu até as lágrimas.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 05, 2017 8:35 pm

Foi então que vimos pequenas chamas aparecem na abóbada, e desceram sobre o altar, iluminando espontaneamente a oblata preparada.
Com este sinal evidente da graça de Osíris, nova esperança fortaleceu os corações; Mernephtah também pareceu reconfortado, e depois de haver prometido grandes sacrifícios e dádivas aos deuses, deixou o Templo.
Embora não divulgada, a visita do rei ao Templo de Osíris se propalou com enorme celeridade e quando ele retomou a liteira, viu todas as ruas do itinerário apinhadas de multidão compacta, da qual partiam soluços e lamentações.
Próximo ao palácio, foi preciso parar.
As cabeças se tocavam, ondulando como vagas ululantes; milhares de braços se erguiam e, sobrepujando gemidos e lamentações, ouviu-se o grito:
— Permite que partam os hebreus!
Tem piedade do teu povo, Faraó, antes que a peste horrível nos ceife a todos.
Olha que as casas se esvaziam, morrem senhores e servos, breve não haverá braços para o trabalho.
Doentes de aspecto horripilante foram empurrados para a frente.
Mulheres desesperadas enfrentavam a liteira, levando nos braços os filhos cobertos de pústulas e manchas negras.
De repente, a massa comprimiu-se soltando gritos e sendo esmagada; um claro abriu-se dando passagem livre a uma fila de carretas, atulhadas de cadáveres envoltos em panos alcatroados.
Diante desse quadro, a multidão aterrada passou a gemer lugubremente.
— Perece tudo! — exclamavam — almas e corpos, pois no cemitério os corpos ficam amontoados como animais impuros, à falta de mãos que os embalsamem ou enterrem honrosamente!
Depois, todos os gritos se fundiram num só:
-— Deixa partir os hebreus!
É a nossa única salvação!
Pálido, Mernephtah ergueu-se na liteira e seus olhos fuzilantes abrangeram a multidão desvairada que, vendo-o nessa atitude, emudeceu.
— Não sois os únicos atingidos — disse no seu diapasão de voz metálica, que facilmente atingia as últimas fileiras — o herdeiro da coroa não foi poupado e no palácio sofrer se como na mais modesta choupana; meus parentes e conselheiros, todos os chefes e oficiais do meu estado-maior, tem a casa repleta de doentes.
Nenhum deles, porém, ainda me veio pedir que deixasse partir os hebreus!
Vós temeis a tal ponto?
Estais certos de que Moisés tem poderes para impedir a peste e a morte?
Venho, agora mesmo, do Templo de Osíris, onde o poderoso deus ouviu minha súplica, pois a flama celeste baixou sobre o altar para consumir a oferenda que lá depositara.
Ao ouvir essas palavras consoladoras, ditas com decisão e veemência, todas as cabeças se ergueram e a esperança brilhou em todos os olhares.
Houve gritos de louvor e bênçãos.
A multidão abriu larga passagem.
— Meus fiéis egípcios, não desespereis, tudo que for possível o vosso Faraó fará por vós — acrescentou Mernephtah assentando-se.
E a liteira se pôs novamente em movimento.
Estrugiram aclamações frenéticas, pois o povo compreendeu que o espírito altivo do rei sofria e que, emocionado com a desgraça dos súbditos, acabaria cedendo, para os salvar.
O monarca recolheu-se acabrunhado sem tocar na refeição que lhe serviram.
Também a taça ficou intacta e ninguém ousou quebrar o pesado silêncio do ambiente.
Só à tarde ele se dirigiu a um dos conselheiros que o assistiam dizendo-lhe:
— Que amanhã cedo Moisés venha à minha presença.
Ainda sentado à mesa do almoço, no qual não havia tocado, anunciaram-lhe, no dia seguinte que Moisés aguardava suas ordens.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 05, 2017 8:35 pm

— Que venha aqui! — disse com um clarão nos olhos.
O vulto corpulento do profeta hebreu logo insinuava-se na galeria, acompanhado pelo inseparável irmão Aarão.
Diante do rei, inclinou-se ligeiramente e, cruzando os braços, perguntou irónico:
— Poderoso Faraó, que desejas de mim?
Se és forte porque me chamas?
— Cala-te, insolente!
Acreditas ter-me amedrontado com as tuas feitiçarias? — exclamou o rei dando um murro na mesa, fazendo-a estalar e entornando o vasilhame — empestaste o povo com processos infernais, pois não creio que isso possa ser obra de um deus.
Não foi por mim que te mandei chamar e sim por meus súbditos, que choram e desesperam, supondo que podes conjurar a morte desencadeada.
Povo cego e estúpido que imagina que tua força governe realmente o reino das trevas e das sombras.
Curvo-me diante dos seus desejos, concedo-te vinte e quatro horas; e, se dentro delas não houver um só egípcio empestado, poderás reunir os hebreus e partir com eles.
Fitando o rei com espanto, enquanto ardente rubor cobria-lhe as faces, Moisés recuou:
— São necessários três dias para extinguir a peste, — disse com voz pausada.
Malicioso sorriso descerrou os lábios de Mernephtah e, voltando-se para os guardas, ordenou:
— Descei com vossas trombetas e, percorrendo as ruas, convocai o povo a reunir-se aqui, diante do palácio, do lado do terraço.
Alguns oficiais desceram correndo, mas logo se convenceram de que não havia necessidade de convocação, porque, em todas as direcções, por mais longe que a vista alcançasse só se viam cabeças.
É que haviam reconhecido Moisés e, a multidão, sempre crescente, quase o havia impedido ao palácio.
Prevenido de que o povo ali acorrera, Menerphtah dirigiu-se para o terraço de onde já havia falado.
Aproximou-se da balaustrada e com um gesto, chamou Moisés para junto de si elevando a voz sonora, para dizer:
— Fiéis egípcios:
Moisés, o mágico, acaba de comprometer-se a extinguir dentro de três dias a peste que assola o Egipto.
Esgotado o prazo, não deverá restar um só doente em todo o país.
Se ele cumprir a promessa, concedo que se retire com o povo hebreu.
Ordeno, portanto, que dentro de três dias aqui estejais novamente para dar-me a prova do seu poder, ou da sua fraqueza, isto é, acompanhados dos vossos doentes, restabelecidos ou empestados.
Voltando-se para Moisés, que o ouvia estupefacto e contrariado, disse:
— Vê bem o que exijo.
Saudou, com um gesto, o povo exultante de alegria, que se prostrava beijando as paredes do palácio.
O monarca retirou-se e nós o seguimos e ficamos na sala contígua à alcova real, onde só entraram alguns dignatários.
Eu e outro colega nos postamos à porta.
Ainda pálido e combalido o príncipe Seti lá estava também numa cadeira, apoiado em almofadas.
Beijando a mão paterna, interrogou inquieto:
— Que significam esses gritos e clamores do povo?
Aqui, todos a quem pergunto, emudecem e baixam os olhos.
Que há, papai?
Alguma calamidade ameaça o Egipto?
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 05, 2017 8:35 pm

Mernephtah, sentando-se na cadeira que lhe trouxeram, respondeu:
— É o povo estúpido que pede deixe partir os hebreus.
Pois bem, atendi ao povo.
Moisés acaba de sair daqui e o que ouves são gritos de alegria de uma turba ensandecida, que se aferra a tudo que acredita constituir desafogo a seu favor.
Rubor intenso coloriu o rosto do príncipe e os lábios tremiam-lhe nervosamente, quando disse:
— Deixas partir os hebreus, pai?
É uma indigna fraqueza; como podes dar ouvidos a um povo atrasado e cego, que, no seu pavor, não sabe o que pede?
Revoga tua promessa, pois seria insensato mantê-la.
Exaltado, tentou levantar-se, mas logo recaiu extenuado.
O rei falou serenamente:
— Acalma-te, podes crer que eu ceda a clamores da populaça, embora me sangre o coração vê-la aflita?
Sim, o coração confrange-se ao ver milhares de cadáveres levados à morada dos mortos, ainda que lá seja a mansão do repouso e da alegria e aqui a das dores e lágrimas.
Grande, porém, é o nosso egoísmo, desde o do Faraó que receia por seu herdeiro, até o último operário, que treme pelo filho, menosprezado como ele.
Cada qual quer reter os seus neste mundo de sofrimento e misérias.
Mas tu te enganas, se pensas que cedo por fraqueza, quando quero apenas mostrar ao povo enceguecido pelo terror, que o poder de Moisés não é ilimitado.
Tu, discípulo dos mais sábios sacerdotes, deves saber que é mais fácil desencadear que reter um mal; a morte impiedosa, sobretudo, que jamais cede suas vítimas, desde que as tenha nas garras.
Se ele, portanto, livrar o Egipto da peste, quero inclinar-me ante o seu poder, porque aquele que detiver a morte será verdadeiramente um Deus.
Seti tomou a mão do Faraó e apertou-a contra os lábios, de olhos brilhantes.
— Em ti está toda a sabedoria como toda a justiça, meu rei e meu pai; perdoa minhas palavras cegas e imprudentes.
Apossou-se de todos febril agitação, motivada pela previsão de algum acontecimento extraordinário.
Todos quantos tinham doentes em casa aguardavam um desafogo e eu próprio não podia afastar a ideia de que talvez, ao entrar em casa, encontrasse os meus restabelecidos.
Jamais o serviço me pareceu tão longo e penoso; e quando, finalmente, pude deixar o palácio, corri para casa.
Em vão busquei na fisionomia dos serviçais a alegria e o espanto que anunciassem o milagre.
Como sempre, encontrei Henaís às voltas com os doentes em seus leitos, sem me reconhecerem; apenas Ilsiris, ao aproximar-me, despertou de um sono calmo e reparador e sorriu-me em pleno estado de consciência.
— Amanhã — disse Henaís — poderás conversar um pouco com ela.
Muito desencantado, recolhi-me aos meus aposentos.
No dia seguinte, quando fui procurar minha irmã, encontrei-a melhor, apesar da fraqueza; estendeu-me a mão descarnada e perguntou por nossos pais e por Chamus.
Este último havia desaparecido no mesmo dia em que adoecera e não mais fora visto, presumindo-se que tivesse ido para junto da encantadora Lea, que, certo, conheceria os meios de imunizá-lo, pois ele não era bastante corajoso, e muito menos, escrupuloso, quando se tratava de salvar a própria pele.
Teria, então, procurado o recurso da saúde, ainda que fosse preciso encontrá-lo num coração hebreu.
Mesmo assim, cuidei de ocultar o mais possível essa minha desconfiança, dizendo ao contrário, que, provavelmente, Chamus teria ido à casa de Ramsés, onde morava a velha progenitora e onde sua presença era indispensável à manutenção da ordem entre o pessoal, durante a terrível epidemia.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 05, 2017 8:36 pm

Acrescentei ainda que devia estar passando bem, porquanto não tivera notícia alguma a seu respeito.
Tranquilizada e reconfortada, a convalescente tratou de outro assunto.
Como Henaís lhe viesse dar de beber, disse-me acompanhando-a com os olhos:
— Onde compraste esta moça tão bela e tão bondosa, Necho?
Como enfermeira é talvez melhor que Acca e com isso já disse muito.
— Henaís não é pessoa que se deixe vender — respondi — é parenta de Kermosa, que a enviou aqui para vos cuidar, quando eu estava na iminência de perder a cabeça, vendo os três contaminados; por isso, muito me alegra o teu julgamento.
Ilsiris fitou-me um instante, para acrescentar com um sorriso:
— Necho, ela te agrada, não negues; trata pois de comprá-la a Kermosa, que tudo especula e negocia, desde que lhe dê um bom lucro; e quanto ao alegado parentesco, tenho cá as minhas dúvidas.
— Não, isso nunca — respondi levantando-me — porque a ideia de comprar Henaís me repugnava sem saber porquê.
Na manhã em que expirava o prazo dos três dias fixados por Moisés e aceito pelo rei, aprontei-me para chegar cedo ao palácio.
Nesse interregno, ninguém mais adoecera da peste, mas ainda se notavam por toda parte doentes que lutavam contra o terrível morbus.
No meu trajecto para o palácio, encontrei grande quantidade de padiolas e carroças cheias de pestilentos, que eram enfileirados em frente do palácio.
Logo após, Mernephtah apareceu no terraço e, dirigindo-se ao povo, disse:
— Pelo que vejo, não faltam doentes, o que prova que eu tinha razão e que Moisés não é o todo-poderoso.
A epidemia declina, mas não por influência dele e sim por uma lei natural.
Nenhuma tempestade dura meses, nenhuma epidemia pode aumentar após haver atingido a máxima virulência.
Retornai, pois, aos vossos lares, confiai na misericórdia dos deuses e crede que o vosso Faraó vela por vós como um pai por seus filhos.
Aclamações e bênçãos responderam a essas palavras.
— Quero esperar Moisés — disse entrando na galeria — suporá ele convencer-me de que dominou a peste?
Pensará tenha eu feito alguma transacção com o povo estúpido e apavorado?
Se ele baseia nisso a sua ousadia, está muito enganado.
Havendo a peste atingido todos os organismos predispostos ao contágio, deverá, por forca, diminuir e cessar, pois não encontrará mais onde fazer vítimas.
Os que permaneceram de pé continuariam ainda com saúde, mesmo que a moléstia durasse mais um ano.
Moisés sabe isto que vos digo, mas abusando da ignorância geral, quer basear numa lei pouco conhecida a libertação do seu povo, fazendo-nos crer que sustou a marcha da peste.
O povo poderá ser iludido na sua boa fé mas nunca um sábio, um pensador.
Ouvíamos, admirados, a palavra real.
Sabíamos que o Faraó trabalhava muitas vezes com sacerdotes, conquanto nunca falasse de ciência.
Tendo-se dirigido rapidamente para a pequena sala de recepção, sentou-se na cadeira alta em forma de trono, e pouco depois entrava Moisés, confiado e triunfante.
— Cumpri a promessa.
A peste foi debelada.
Os casos verificados diminuem e assim espero, Faraó, que cumpras tua palavra.
Mernephtah examinou-o com estranho sorriso:
— Tens muito espírito, Mesu — disse com ironia — mas não o bastante para o deus que te envia e de quem executas a vontade.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 05, 2017 8:36 pm

Será que as leis ao teu deus serão diferentes das dos nossos?
O céu é igual para todos:
para o hebreu como para o egípcio.
A água é igualmente clara, a terra igualmente fértil; o sol queima, o vento refresca, tanto a uns como a outros.
As mesmas leis regem a vida e a morte.
Quando o Nilo transborda e imunda a região marginal, as águas só atingem um certo limite, e após determinado tempo, se retiram sem que vontade humana qualquer possa detê-las ou engrossá-las.
O mesmo acontece com a epidemia.
Desencadeaste-a sobre nós, como?
É um segredo teu.
Diz-me, porém:
se a epidemia declina, como provas que o seu declínio é fruto de tua acção ou da vontade de Jeová?
Ainda esta manhã meus conselheiros leram-me relatórios que demonstram que em Tanis e nas cidades próximas, nenhuma casa está completamente livre; o número de vítimas varia de três a quarenta em cada família.
Por outro lado, ficou provado que os não atingidos nos três primeiros dias de surto epidémico ficaram incólumes, apesar de assistirem junto dos doentes.
Também os fiscais dos quarteirões hebreus informam que cadáveres ali foram consumidos secretamente:
não seriam pestosos que, a despeito da tua ciência, não pudeste preservar do contágio?
Entretanto, isso é secundário!
O essencial é que três quartos da população de Tanis continua afectada e o restante pereceu.
De que modo detiveste a epidemia, uma vez que os que ficaram incólumes nada provam?
Disseste que dentro de três dias não deveria existir um só doente no país.
Esta condição não foi satisfeita, uma vez que não podes, em cada corpo contaminado, insuflar força e saúde — coisa que só deus poderia fazer; não passas, portanto, de poderoso feiticeiro, um grande génio do mal, que se empenha em sua salvaguarda pessoal contra merecida punição.
Mas, não te entregarei os hebreus, e toma cuidado para que atrás desse deus, de que te dizes enviado, eu não encontre o agitador ambicioso que emprega a ciência adquirida nos templos do Egipto para destruir a terra que o educou.
Não é Jeová quem precisa de um povo para reinar sobre ele: és tu!
Grande calor espalhou-se pelo rosto expressivo de Moisés e seus olhos dardejavam chamas, enquanto amarfanhava o pano do manto.
Exclamou com voz rouca e sibilante, erguendo para o céu o punho fechado:
— O Deus supremo que me envia cuidará de te demonstrar o seu poder!
Depois, afogado em raiva, voltou-se e saiu quase a correr.
Ficamos admirados com o ardiloso discurso do nosso Faraó, que, sem dizer palavra, cabeça alta, desceu do trono e dirigiu-se para os seus aposentos.
Detendo-se na primeira sala, votou-se para os que o acompanhavam e disse gravemente:
— Creio que esperais algum dano que Moisés nos prepara, mas devo dizer-vos que, hoje, ao clarear do dia, estive no Templo e os astrólogos informaram-me que os astros predizem para breve uma horrorosa tempestade, consequência do tremendo calor desses últimos tempos.
Não vos assusteis e não a tomeis, como castigo, de Moisés, pela nossa intransigência.
Moisés também leu nos astros a aproximação do temporal e quererá, talvez, fazer crer que o desencadeou para nos punir.
Mas não vos deixeis iludir; se ele houvesse previsto minha recusa, não teria vindo triunfante e, além disso, os sábios fizeram a predição antes desta nossa entrevista.
Ao afastar-se, mais de um olhar inquieto voltou-se para a abóbada azulada, onde não havia a menor nuvem, a não ser o ar abafado e o sol causticante, impiedoso, a requeimar a terra exausta.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 05, 2017 8:36 pm

Os dias seguintes decorreram tristes sob a impressão de vagos temores.
Nada ocorria de extraordinário, mas pressentia-se alguma desgraça.
Meus pais estavam fora de perigo, em plena convalescença.
No palácio nada de novo, a não ser a perspectiva de faustoso banquete oferecido pelo Faraó para festejar o restabelecimento do herdeiro que, pela primeira vez, retomaria o seu lugar à mesa.
Nesse dia, quando me preparava para ir ao palácio, chegou Chamus abatido, desfigurado sem dúvida pelo terror, porque não havia adoecido.
Recebido de braços abertos, não pude, entretanto, ouvir a história fantástica das suas aventuras, por não dispor de tempo.
Desde cedo, o calor das ruas era sufocante e mal podia-se respirar; ao demais, a poeira em profusão, não só irritava os pulmões, como os olhos.
Ao notar as nuvens que se acumulavam no horizonte e as lufadas de vento que sopravam do deserto, levantando turbilhões de pó, não deixei de experimentar tal ou qual inquietação.
Ainda assim, o banquete começou sem novidade.
Com o fim de distrair e alegrar o príncipe Seti, que chegou carregado na sua cadeira preguiçosa, Mernephtah ordenara magnificência excepcional, convidando as damas mais ilustres e mais belas da Corte.
A alegria dos convivas chegara ao apogeu.
Erguiam-se vivas ao soberano e ao príncipe, quando o eco de trovões longínquos e o sibilar do vento atraíram as atenções para o que se passava fora.
Faraó, erguendo-se e chegando à janela, disse:
— É a tempestade prevista que se aproxima.
Muitos convidados o imitaram e, pálidos e mudos, puseram-se a contemplar o espectáculo verdadeiramente emocionante que se lhes oferecia.
Toda a atmosfera estava saturada de uma coloração pardacenta, que obscurecia o ambiente; grandes nuvens negras, zebradas pelas faíscas, amontoavam-se no horizonte e o vento rugia com violência, vergando as palmeiras como se fossem arbustos e fustigando-lhes as grossas palmas com sinistro ruído.
Ao longe descortinava-se o Nilo, cujas vagas negras de azeviche se elevavam montanhosas, impelidas pelo vento; pessoas assustadas corriam de todos os lados, ansiosas por encontrar abrigo que as acolhesse com suas cargas ou animais.
Nesse momento, um raio que pareceu desmoronar o céu, iluminou o salão com fantástica claridade, acompanhado de ribombo que sacudiu o palácio até os alicerces; as baixelas de ouro e prata oscilaram e tombaram sobre a mesa, enquanto, o vento invadia o recinto com aluviões de areia e grossas bátegas.
Ouviram-se gritos das senhoras, mas Mernephtah retomou lugar à mesa, ordenando que retirassem das janelas as pesadas cortinas azul-e-ouro e acendessem as lâmpadas, para que prosseguisse o banquete.
Ninguém, contudo, podia comer e era até impossível conversar, dado o fragor da tempestade.
Após serem retiradas ou arrancadas as cortinas, a fulgurância das faíscas eléctricas empalidecia a luz das lâmpadas.
Todos estavam pálidos e angustiados e meu coração se travava ao conjecturar o que poderia estar ocorrendo em casa, onde todos se encontravam doentes e Ilsiris apenas convalescente.
A medonha tempestade os apavoraria, certamente; e como Henaís a fiel enfermeira, se arranjaria sozinha para atender a tudo?
Arrependia-me de não haver, qualquer que fosse a consequência, inventado um pretexto para ficar em casa.
Naturalmente que mais de um comensal pensava do mesmo modo, pois muitos olhares se voltavam para a porta da rua.
Afinal a tempestade pareceu abrandar um pouco.
Embora a escuridão perdurasse quase completa, a chuva e o vento haviam cessado.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 05, 2017 8:36 pm

Mernephtah, que notara com mágoa e tristeza as fisionomias alteradas dos convivas, levantou-se para sair, ordenando ao mestre de cerimónias dissesse a todos, cuja permanência em serviço não fosse indispensável, estarem livres para ausentarem-se, caso desejassem fazê-lo.
Não esperei que a concessão se repetisse e tratei de alcançar a escadaria, de quatro em quatro degraus.
Eu viera da liteira, mas, como essa condução me parecesse morosa, pedi a um oficial que ali ficava me emprestasse o cavalo em troca da liteira.
Galgando a sela, devorei o espaço e fui encontrar os meus, reunidos com uma porção de outros criados, num grande vestíbulo iluminado por tochas.
O período de calma e bonança não durou muito tempo, pois apenas cheguei a avistar a casa, o temporal recrudesceu.
Os raios e trovões estalavam sem interrupção e a chuva era mais torrencial e, no instante mesmo em que o cavalo, coberto de espuma, abrigava-se comigo sob a abóbada espessa da porta de entrada para o pátio, um granizo do tamanho de ovos começou a cair com ruído ensurdecedor.
Entregando o animal a um criado, galguei a escada e na galeria, fracamente iluminada por um archote e pelos relâmpagos, notei extensa fila de verdadeiros espectros, colados à parede e apoiados uns aos outros.
Uns mantinham a cabeça entre os joelhos, outros, cobertos com as próprias roupas; eram os escravos e criados atacados da peste que tinham deixado o leito, acossados pelo terror e ali estavam. acreditando-se mais garantidos contra a terrível tempestade, que julgavam representar o término de seus dias.
Ao me verem, gritos de aflição partiram de todos os lados. Braços descarnados se voltaram para mim.
— Jovem senhor! — exclamou um velho egípcio, copeiro de meu pai — isto deve ser castigo do Deus de Moisés; depois de nos ferir com a peste, quer acabar de nos destruir.
É o fim do mundo, senhor!
— Não! — respondi alteando a voz — o Deus de Moisés nada fez; a tempestade é proveniente do grande calor e logo passará.
Tudo isto vai passar.
Voltai aos vossos leitos e não esgoteis as forças desta maneira.
Desviando a vista do quadro doloroso, dirigi-me para os aposentos de meus pais.
Numa sala que devia atravessar, percebi uma silhueta feminina, de pé, junto à janela.
— Quem está aí? — perguntei.
O vulto estremeceu e precipitou-se para mim.
O clarão de um relâmpago permitiu-me ver o rosto assustadiço e pálido de Henaís.
Tacteando-me, aflita, perguntou:
— És tu, Necho?
As pedras não te feriram, não te fizeram algum dano?
Que coisa horrorosa!
Atraí-a a mim, trémula como haste verde e não resistiu.
— Henaís — murmurei-lhe no ouvido — tremias por mim...
Também me agradas, mas diz: amas-me, então?
Não temas confessar teu amor, pois saberei retribuir-te e amparar-te.
Colou seu corpo ao meu e respondeu hesitante:
— Sim, Necho, amo-te; és belo... tão bom...
Ninguém ainda me distinguiu como tu, mas, nada poderás fazer por mim.
Pertenço a Kermosa e ela exige que ame apenas a ele, a quem temo e detesto, e diante de quem ela se curva como os demais, embora se gabe de ser por ele obedecida.
Ele, por sua vez, não cederá apesar de não mais me encarar, depois que conheceu a bela e altiva Smaragda.
Como picado por uma serpente, recuei:
— Henaís, que dizes?
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 05, 2017 8:37 pm

Pinehas gostou de ti?
Não és, então, parenta de Kermosa?
Ela ajoelhou-se de mãos postas e vi, ao lampejar de um relâmpago, seu belo rosto inundado de lágrimas e desfigurado pelo desespero.
— Disseram-me que sou filha de nobre egípcio, cujo nome ignoro, mas sempre fui tratada como escrava e em Pinehas só devia enxergar um senhor a obedecer.
Amar-me-ás menos por isso, agora que sabes quem sou?
A voz foi-lhe embargada por um soluço e eu me envergonhei de mim mesmo.
Estaria louco ou cego?
A bela criatura, entregue a Pinehas como escrava, não pertenceria de corpo e alma ao seu senhor?
Seria essa a sua falta, quando eu chegava em segundo lugar para amá-la?
Ergui-a e apertando-a de encontro ao coração, disse:
— Amo-te apesar de tudo, Henaís, e te libertarei do jugo de Kermosa, a qualquer preço.
Ela cingiu-me o pescoço e colou nos meus os seus lábios ardentes.
Cobri-lhe o rosto de beijos e, na embriaguez do amor, esqueci meus pais, os enfermos e até os elementos da tempestade fragorosa.
À luz vacilante de uma lamparina projectada sobre nós, ecoaram estas palavras:
— Para o momento, é demais!
Chamado assim à realidade, vi meu pai, pálido qual sombra, amparado por Chamus.
Depois, continuou, agitando os braços:
— Se não tivesse visto com os próprios olhos, não acreditaria.
Trava-se aqui um perfeito idílio, enquanto o mundo se esboroa!
E por cúmulo, com uma escrava!
Faltou ocasião para essas tolices quando fazia bom tempo.
— Essa moça é tua enfermeira e neste sentido falaremos mais tarde.
Mas, por que deixaste o leito?
— Porque é horrível permanecer deitado, quando a casa parece vir abaixo.
Esse Moisés e seu Deus querem nos destruir.
Que relâmpagos! Que trovões!
Por Osíris te digo que é a ruína, pois estamos no fim das colheitas.
O trigo, as uvas, os legumes, nada resistirá a este granizo.
Estás ouvindo?
As pedras chovem nos quartos e quebram tudo.
Baixei a cabeça, confuso, mas vendo aproximar-se minha mãe cambaleante e desmaiando ao pé da porta, atirei-me para ela.
— Que foi? — murmurou ela agarrando-se a mim.
Que escuridão, que barulho!
Onde está Mentuhotep?
Ele me deixou sozinha e tenho medo.
Levei-a para junto de meu pai e sentei-a numa cadeira ao lado dele.
Pouco depois, apareceu Ilsiris apoiada em Acca e assim reunidos e mudos, permanecemos encolhidos no canto mais isolado da sala.
O furacão continuava com violência inaudita; não era uma dessas tempestades impetuosas, porém, rápidas, que às vezes se desencadeavam na região.
Mais parecia um cataclismo universal.
A escuridão era tal que não permitia distinguir dois objectos mais próximos; pouco a pouco, tochas e lâmpadas se apagaram e ficamos em trevas, não ousando abandonar as cadeiras.
Horas, ou dias, assim passaram?
Não saberia dizê-lo.
Às vezes, tinha fome; depois, pesada sonolência me invadia e, por fim, veio o cansaço.
Embalado e aturdido pelo rugir da tempestade, adormeci como se estivesse morto.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 05, 2017 8:37 pm

Quanto tempo assim estive?
Nem isso saberia informar.
O que sei dizer é que quando despertei, era dia alto.
Dei um salto e reparei nos que me cercavam.
Poucos passos além, vi meus pais igualmente adormecidos e extenuados como cadáveres.
O aspecto da sala era desolador.
Poças d’água por todo o chão, cacos de vasos preciosos, arbustos raros colocados juntos das janelas, desfolhados.
Desci, reuni o pessoal ainda atónito, ordenando que uns preparassem uma refeição e fossem outros para junto de seus amos.
A seguir, despertei meus pais e logo que eles se alimentaram e se acomodaram, disse-lhes que iria à cidade para informar-me do que houve no palácio e saber quanto tempo realmente havia durado a tempestade, que a escuridão não permitira calcular.
Tão logo tomei uma ligeira refeição, saí de coração opresso.
Henaís tinha desaparecido e isso preocupava-me muito mais que as ocorrências palacianas.
As ruas continuavam apinhadas de gente, posto que desfigurada e abatida, na faina de angariar alimentos.
Uns conversavam em grupo.
Outros, convalescentes, ainda ostentavam as marcas da peste, procurando moverem-se arrimados em algum parente ou em bengalas, e todos comentavam e discutiam os acontecimentos.
Entre a multidão vi, admirado, que circulavam muitos hebreus, circunstância tanto mais estranhável quanto, nos últimos tempos, todos os que podiam se ocultavam.
E tagarelavam que nada tinham visto nem ouvido, pois em suas casas sempre fizera bom tempo, com dia claro.
Os egípcios simplórios os cercavam para ouvi-los, mudos de terror e espanto.
De passagem, simulando indiferença, arrazoava de mim para mim: eles podem falar, mas quem provará que entre eles o tempo estivesse claro e aos ouvidos não lhes chegasse o rugir da tempestade, quando ninguém saiu de casa?
Depois do discurso do Faraó, eu enxergava por um prisma diferente.
Seria, então, por ordem dele que os hebreus relatavam esse milagre, para impressionar o povo.
Fui onde o coração me atraia, isto é, à casa de Kermosa, certo de lá encontrar a bela Henaís, antes de ir ao Palácio.
O rapazote de guarda informou-me que todos dormiam, excepto Pinehas.
Assim fui, directo a ele, encontrando-o como sempre, absorvido com seus papiros.
Embora bastante emagrecido, pareceu-me muito satisfeito, acolhendo-me com um sorriso que aumentou minha tortura e me fez corar.
Sem me dar tempo de falar foi logo dizendo com subtil ironia:
— Compreendo...
Vens por causa de Henaís, que te agrada e a quem desejas ter a todo custo.
Senti todo o sangue subira-me à cabeça.
— Como podes sabê-lo?
— Foi ela própria quem me confessou — respondeu tranquilamente.
Achas que ela poderia esconder alguma coisa ao seu senhor?
Conformado baixei a cabeça.
— Tens razão, és o senhor e eu venho adquiri-la; estipula o preço.
— Não creio que Henaís esteja à venda; contudo, entende-te lá com minha mãe, pois foi ela que a educou e ludo que diz respeito a mulheres da casa está sob sua direcção e nisso não me intrometo.
Compreendi que não queria enfronhar-me em negócios e entrega o caso a Kermosa, que se aproveitaria para dar-me uma sangria.
Astucioso Pinehas! Mudei, pois, de assunto e perguntei:
— Que pensas dos últimos acontecimentos?
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 05, 2017 8:37 pm

— Nada!
— Como pensas que acabará tudo isso? — insisti.
— É difícil de prever.
Evidentemente, não queria comentar.
Levantei-me.
— Quando poderei falar a Kermosa? — perguntei despedindo-me friamente.
— Hoje à tarde ou amanhã, como quiseres — respondeu fingindo não ter percebido minha frieza.
Dirigi-me para o palácio, onde todos ainda comentavam a tempestade e o milagre da imunidade dos hebreus.
Um oficial amigo, que estivera de guarda ao quarto de Faraó, contou que os conselheiros relataram ao rei o extraordinário milagre e que o povo desejava ardentemente ver partir os hebreus, cuja presença se tornava intolerável.
Mernephtah, porém, mostrava-se intransigente, encolerizado, declarando que, cessada a escuridão, pouco importava que os judeus a houvessem ou não experimentado.
E quanto a sua libertação, nem queria ouvir falar.
Com a aparição de Moisés na sala a conversa foi interrompida.
As sentinelas, mudas de terror, haviam-no deixado passar, e quando, com voz pousada e imperiosa, ordenou que o anunciassem, ninguém ousou agir como desejava fazer, ou seja, escorraçá-lo de uma vez para sempre.
Ordenou Mernephtah que entrasse e nós o acompanhamos, ficando junto à porta, enquanto ele se aproximava do trono e perguntava sem mais preâmbulos:
— Soberano cio Egipto.
Pela última vez, venho saber se queres obedecer à voz de Jeová e deixar partir o povo de Israel.
O Faraó mediu-o com olhar altivo e glacial.
Com timbre de voz metálica onde transparecia surda indignação, respondeu:
—Não! — e a ti, Moisés, digo que estou farto das tuas insolências e ordeno que abandones o Egipto dentro de três dias.
Se esgotado este prazo ousares pisar a terra submetida a meu governo, mandarei decapitar-te.
Evita, pois, voltar à minha presença.
De braços cruzados Moisés ouviu com atenção a ordem e um relâmpago sinistro iluminou-lhe os olhos.
— Tu o dizes, Faraó, e obedeço — replicou com indefinível sorriso — não voltarei à tua presença, até que me chames para pedir que leve o povo escolhido de Jeová!
A passos lentos, saiu, deixando nos circunstantes uma impressão de pavor e mal-estar.
Mernephtah era o único que aparentava calma e disse aos conselheiros quando se retirava:
— O insolente mágico tantas vezes ameaçou em vão, quantas ocasiões ficamos vitoriosos.
De sorte que o seu Jeová deve estar esgotando os expedientes.
No dia seguinte, procurei Kermosa e renovei a proposta para comprar Henaís.
Ouviu-me com mal disfarçada hipocrisia, explicando depois, longa e capciosamente, que Henaís, filha de uma parenta, não era vendável.
Mas, como se encontrava doente há muito tempo, dar-se-ia por feliz se alguma família honrada quisesse tomar conta da rapariga, a quem prezava como filha.
Portanto, se eu estivesse disposto a reembolsá-la das despesas que tivera com a sua educação e manutenção, não me ofenderia com uma recusa.
Disse-lhe que fixasse o preço e exigiu uma colecção de vasos, ânforas, pratos e taças de ouro e prata.
Eu não podia compreender a utilidade e fins de tanta baixela, o que só mais tarde foi explicado.
Concordei apesar do preço exorbitante, porque Henaís valia muito mais.
A seguir, perguntei por Henaís, mas a astuta megera respondeu que ela não estava em casa e só poderia levá-la no dia seguinte.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 05, 2017 8:37 pm

Acabrunhado regressei à casa e solicitei de meu pai autorizar o nosso intendente a levar imediatamente o que combinara com Kermosa.
A princípio, protestou, achando absurdo o negócio, mas depois meneou a cabeça e encarou-me desconfiado, acabando por palmear-me o rosto, dizendo:
— Sim, o fiel servidor levará a baixela preciosa e trará Henaís.
Só a vi, contudo, no dia seguinte, porque estive de serviço no palácio.
Logo que ficamos a sós, ela me caiu nos braços, desfeita em lágrimas.
— Que tens? — perguntei aconchegando-a ao coração.
Não te sentes feliz por te veres livre, para sempre, de Pinehas e de sua mãe?
— Muito feliz se algo de horrível não me oprimisse o coração.
Vou contar-te tudo, mas jura que o não falarás a ninguém.
Prometi e mostrou-se mais calma.
— Horas antes de partir — confidenciou — surpreendi, por acaso, uma conversa entre Pinehas e Enoch.
Não pude perceber tudo o que diziam, mas compreendi que se prepara qualquer coisa pavorosa — um massacre de todos os primogénitos egípcios, do mais rico ao mais pobre.
Tu, também és primogénito e, ao lembrar-me disso, a cabeça começou a rodar-me e não pude aprender bem se o atentado se dará na quinta ou sexta à noite, a partir de hoje.
Jura-me, pois, que, durante essas duas terríveis noites, não dormirás e velarás armado, bem como teu pai.
Só assim ficarei mais tranquila.
Apesar de muito surpreso, jurei tudo quanto ela quis, embora a coisa me parecesse improvável.
Todavia, comuniquei a meu pai e resolvemos velar essas duas noites sem alardear inutilmente.
O tempo transcorreu tristemente, e a primeira noite que consagramos á vigilância foi tranquila.
Já começava a crer que Henaís tivesse compreendido mal, quando, à tarde, ao sair de casa, encontrei logo adiante uma mulher embuçada e visivelmente extenuada, que me perguntou com voz ofegante se não poderia indicar-lhe a casa do nobre Necho, filho de Mentuhotep e comandante de um pelotão de carros.
Admiradíssimo, respondi:
— Sou eu mesmo e aqui é nossa casa.
Mas, quem és e que pretendes?
Ela estremeceu e, segurando-me convulsivamente o braço, murmurou:
— Se Chamus aí estiver, levai-me até ele.
Notando que ela desfalecia de fraqueza, amparei-a e levei-a para casa.
Ao galgar porém, as escadas que conduziam ao aposento de minha mãe, suas mãos brancas e finas, bem como o porte gracioso, fizeram-me pensar.
Deve ser jovem e bela.
— Escutai — disse-lhe, detendo-me na galeria — que quereis dizer a Chamus?
Não vos esqueçais que ele é noivo de minha irmã Ilsiris.
Ao ouvir minhas palavras, a desconhecida parou como ferida por um raio.
— Traidor! — exclamou levando a mão à cabeça.
Com esse gesto brusco, o véu se desprendeu e vi, então, um rosto de puro tipo semítico, mas de beleza deslumbrante.
Massa de negros e sedosos cabelos lhe coroava a fronte, ainda mais realçando a alvura da tez.
Grandes olhos escuros a traduzir, no momento, sentimentos tumultuosos que lhe iam n’alma, ora parecendo extinguir-se, ora inflamando-se de paixão e raiva.
Com voz entrecortada murmurou:
— Que morra — esquecendo-se da minha presença.
Depois, voltou-se rapidamente e fugiu, ganhando a rua.
Permaneci estupefacto, por alguns instantes!
A seguir, fui tomado de angústia, pois era evidente que algo de terrível se tramava.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 05, 2017 8:37 pm

A formosa Lea não se arriscaria por qualquer futilidade, a vir prevenir Chamus assim como Henaís a mim o fizera.
Mas, de que estaria cogitando Moisés, o poderoso mágico e tenaz conspirador?
Talvez uma revolta a mão armada.
Fui procurar meu pai e contei minhas novas suspeitas.
Decidiu conservar-se armado em companhia de alguns homens fiéis e valorosos, capazes de defender as mulheres, alheias ao que se tramava.
Aconselhou-me, também, levasse minhas suspeitas ao rei, porque, se de facto pretendessem massacrar os primogénitos, a vida do príncipe herdeiro também estaria em perigo.
Depois de auxiliá-lo nos preparativos de segurança, troquei de roupa e bem armado saí em direcção ao palácio.
A poucos passos da casa, encontrei Chamus, que de pé, junto de uma mulher velada, lhe apertava as mãos e falava com ardor.
Ao ver-me, exclamou:
— Necho, Necho!
Olha, tenho um pedido a fazer-te.
Esta é a minha boa e querida Lea, a quem somos agradecidos pela salvação dos nossos rebanhos; ela deixou os próprios pais para encontrar-se comigo, mas eu lhe confessei que estava noivo de tua irmã.
Apesar disso, me perdoou e prometeu guardar-me amizade.
Como teme a cólera paterna, queria ir amanhã a Budastis, para casa de um parente, que intercederia em seu favor.
Não tem, contudo, onde ficar esta noite e te suplica hospedagem.
Espero que não lhe recuses.
Ilsiris nada precisa saber.
Temia acolher aquela criatura em casa, justamente nessa noite de ansiedade.
Entretanto, recusar asilo de algumas horas a uma rapariga que, em todo caso, viera com boas intenções, pareceu-me crueldade.
Anuí, portanto.
Soube, no palácio, que o Faraó estava ocupado; depois, jantou e somente à noite consegui que me levassem à sua presença, quando se preparava para repousar, havendo já despedido os familiares e tendo no quarto apenas Rhadamés, que lhe entregava a roupa de dormir.
— Fala, Necho.
Que vens ainda ensinar-me?
Ainda que contrariado com a presença do condutor do carro, a quem detestava visceralmente, pela conduta que tivera com Smaragda e por sua malícia covarde, expus em poucas palavras o que sabia e a presunção de que algo de mau se tramava.
Enquanto discorria, observava Rhadamés e percebi que ele estremecera e seu olhar tomara expressão equívoca e odiosa.
O Faraó escutou-me atento.
— Agradeço-te, vigilante e devotado rapaz.
É possível que o miserável conspirador, decepcionado nas suas esperanças, cogite de alguma sangrenta desforra.
Entretanto, um massacre geral parece-me muito arriscado eliminando o meu herdeiro.
Mas tomarei minhas precauções.
Rhadamés, vai ordenar que dobrem as sentinelas na ala do palácio ocupada por Seti e procura saber, outrossim, quem comandará a guarda nocturna dos seus aposentos.
— Sei que é Setnecht — informou Rhadamés.
— É um bravo e valente oficial, em quem se pode confiar — acrescentou o Faraó — entretanto, junta-te a ele, Necho, para a guarda do teu futuro rei.
Rhadamés voltou-se para o rei e ajoelhando-se falou em tom súplice:
— Concede-me também, poderoso filho de Rá, meu senhor e benfeitor, a graça de velar junto do príncipe — esperança do Egipto — pois do contrário, não terei um momento de sossego.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 05, 2017 8:38 pm

— Teu pedido foi aceito — respondeu Mernephtah bondosamente — ide e dormirei tranquilo, certo de que três homens fiéis e devotados velam pelo príncipe.
Imediatamente, dirigi-me para os aposentos de Seti, embora não lhe votasse particular afeição; aliás, eu pouco conhecia o príncipe, cujas atitudes reservadas e altaneiras afastavam dele os próprios íntimos.
Mesmo assim, ele era a esperança da dinastia, o herdeiro do maior dos reis do Egipto, e, para defender sua augusta cabeça, de um atentado dos hebreus, cumpria-me derramar a última gota de sangue.
Setnecht mostrou-se contrariado com a minha presença e só ficou tranquilo quando Rhadamés cochichou com ele.
As sentinelas dos postos foram dobradas e estabelecidos novos postos, mesmo dentro da galeria que levava ao quarto de dormir.
Tomadas as providências, apresentei-me ao príncipe.
Ele estava deitado, mas ainda não dormia; apoiado ao cotovelo, parecia absorto em si mesmo e assustou-se com a minha presença, mas logo fez sinal para que me aproximasse e perguntou gentilmente o motivo que até ali me levava.
Ajoelhando-me à beira do leito, informei-o dos nossos temores e precauções.
— Ah! miserável! - murmurou.
Dá-me o punhal que aí está no banco, pois não quero ficar desarmado.
Atendi seu pedido, e inclinando-me respeitosamente, saí para fazer mais uma ronda.
Ao chegar à galeria, Setnecht disse, encolhendo os ombros:
— Penso que tudo isso não passa de boato falso; vem beber connosco um copo de vinho para reanimar as forças.
Não aceitei, porque desejava estar calmo e senhor de todas as minhas faculdades.
Voltando ao quarto do príncipe, postei-me a pequena distância do leito.
Pouco a pouco, profundo silêncio reinou em todo o palácio, apenas quebrado pelos passos fortes e cadenciados dos dois oficiais que marchavam no corredor.
De vez em quando, um escravo deslizava descalço, até os fogareiros, distribuídos em vários sítios, reavivando as brasas e renovando as essências.
Apoiei-me a uma coluna, e fiquei imóvel qual estátua.
Enquanto assim permaneci, vi Rhadamés passar vagaroso.
A poucos passos do soldado, estava um grande fogareiro, no qual um escravo acabava de atiçar as brasas e lançar perfumes.
Passando junto dele, o condutor do Carro pareceu deter-se um instante, oculto por uma coluna, e vi-o estender a mão por baixo do fogareiro, cuja chama crepitou subitamente, como se alguma substância lhe fosse atirada.
Quase no mesmo instante, reapareceu e prosseguiu na ronda, sem olhar para o meu lado.
Esfreguei os olhos. Teria sonhado?
Fora tudo tão rápido que eu mesmo duvidava do testemunho dos sentidos.
Entretanto, avancei até a porta e acompanhei Rhadamés com a vista.
No fim da galeria, vi-o parar junto de Setnecht e, após rápida troca de palavras, aproximaram-se de uma mesa, onde se encontravam ânforas de vinho e vasos de alabastro cheios d’água.
Molhando num dos vasos um pano de linho branco, com ele esfregaram as mãos e o rosto.
Como voltassem a ocupar seus postos, nada pude descobrir de suspeito e afastei-me abanando a cabeça, para junto de Seti, que parecia haver adormecido.
Não me é possível calcular o tempo que se passou, até que comecei a sentir, pouco a pouco, estranho torpor em todos os membros, logo seguido de sonolência incoercível.
É verdade que tinha passado em claro a noite anterior, mas confesso que não havia sentido, em toda a minha vida, semelhante cansaço.
A cabeça rodopiava, as pernas tremiam e vergavam; as pálpebras, pesadas, fechavam-se a despeito de toda a resistência.
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