Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 06, 2017 8:02 pm

Naquele momento, creio que daria, por uma hora de sono, até um membro do corpo.
Contudo, não queria dormir, pois da minha vigilância nessa noite dependia, talvez, a vida do príncipe herdeiro.
Lutava, então, suando, contra o torpor que me subjugava.
De repente, os olhos vagos e sonolentos deram com uma bacia d’água, colocada perto do leito, que servia para imersão das compressas que Seti pedia muitas vezes durante a noite, porque, desde que adoecera da peste, sofria frequentes dores de cabeça.
Reunindo as últimas energias, dirigi-me cambaleante até a mesa, e tirando o capacete, mergulhei as mãos e o rosto na bacia.
Senti-me refrescado, mas fatigado e modorrento, a ponto de não poder retomar o primitivo posto junto da coluna.
Encostei-me na parede e só então notei que um velho escravo, que não abandonava o príncipe e que velava ao pé do leito, estava estendido no estrado e dormia a sono solto.
Procurei apurar o ouvido, tanto quanto os sentidos embotados permitiam: nada quebrava o silêncio ambiente e até os passos dos oficiais da guarda haviam cessado; os fogareiros já se haviam apagado e uma penumbra reinava ao longo da parede, vinda do terraço.
Esfreguei os olhos julgando-me semi-adormecido, mas no mesmo instante senti-me quase petrificado!
Uma forma humana, envergando longo hábito branco, cabeça envolta em negro véu, surgiu no estrado da cama e um grande punhal lhe brilhou na mão alçada e mergulhou, num ápice, no peito do príncipe!
Seti tentou aprumar-se e agarrar o agressor, mas dando um grito, recaiu inerte.
Como ferido por um raio, permaneci imóvel.
Depois, reunindo todas as forças, sacudi o torpor e atirei-me ao assassino, quando ele recolhia num copo o sangue real, que borbotava do ferimento.
Atraquei-me com o miserável tentando derrubá-lo, mas desgraçadamente o estranho torpor me tirara as forças e a destreza.
O hebreu, a debater-se tentava apunhalar-me e, afinal, vendo-me cair com um empurrão mais forte, fugiu levando o copo.
Caí, batendo com a cabeça no solo e dei um grito estridente, mas ninguém acudiu.
Levantei-me a custo, apanhei uma lâmpada e precipitei-me para a galeria.
A primeira coisa que notei foi a sentinela estendida no chão, dormindo profundamente.
Adiante, uma segunda e ainda terceira; num banco de pedra, mais além, igualmente estendidos Rhadamés e Setnecht, mergulhados em profundo sono!
Em vão os sacudi, gritando-lhe nos ouvidos.
Em último recurso, lancei-lhes o conteúdo de um vaso que estava sobre a mesa e eles deram então um salto, aturdidos, de olhos esbugalhados.
— Seti foi assassinado! — exclamei com voz rouca — correndo adiante e repetindo o mesmo grito, que reboava em todas as salas e corredores.
— Mataram o herdeiro, Seti foi assassinado.
Num ápice, o palácio pareceu despertar.
De todos os lados surgiram escravos empunhando tochas e oficiais brandindo armas.
E toda essa gente aterrada, repetia em coro a nova apavorante, que ecoava de galeria em galeria, espalhando confusão e pavor.
À entrada de uma sala, surgiu de repente Mernephtah pálido e meio descomposto, tal como abandonara o leito, rodeado de guardas e criados.
Ao avistá-lo dei meia volta e nos dirigimos todos para os aposentos de Seti, já repleto de gente que, apavorada comprimia-se junto ao leito em que jazia o príncipe, de cabeça derreada, descoberto, enquanto o velho nubiano, tremendo como vara verde, tentava enfaixar a ferida do peito com uma compressa humedecida.
À vista desse quadro o Faraó deu um grito, cambaleou e nada mais vi, pois que as forças me abandonavam, os ouvidos zumbiam e tudo rodopiava em torno de mim.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 06, 2017 8:03 pm

A lâmpada caiu-me da mão e perdi os sentidos.
Quando voltei a mim, estava estendido num banco e um preto me friccionava a testa e as mãos com essência fortificante.
Levantei-me fraco, trémulo, incapaz de compreender o sucedido.
As pessoas aparvalhadas que corriam no local reavivaram-me a memória.
— Seti morreu? — perguntei a um oficial que passava próximo.
— Não — respondeu, apertando-me a mão — até o momento, vive; se tens forças, vamos até lá, eu te auxiliarei.
Levou-me, com efeito, até o quarto do príncipe, cujas portas estavam guardadas por magotes de soldados.
Lâmpadas e archotes em profusão iluminavam o ambiente, como se fosse dia claro.
Junto do leito uma sumidade médica, cabeça calva e reluzente, introduzia um aparelho na ferida; a seu lado, dois jovens sacerdotes, brancos como seu hábito, sustendo cada qual, respectivamente, uma bacia com água avermelhada e uma caixa de medicamentos.
No lado oposto do quarto, Mernephtah sentado, com a cabeça apoiada nas mãos e os cotovelos fincados na mesa; a túnica de dormir aberta deixando entrever o peito; e atrás da cadeira dois conselheiros, mudos, de braços cruzados, enquanto vários jovens da nobreza cercavam o Faraó.
Ajoelhados, dois deles calçavam-lhe os pés nus; um terceiro tentava prender-lhe a roupa e ajustar um manto de púrpura, enquanto o quarto lhe alisava os cabelos com um pente que introduzia num pote de óleo de rosas, que um nubiozinho segurava na bandeja de prata.
Imóvel e mudo, o rei a tudo se submetia, como se estivesse petrificado.
Em vão o solícito copeiro lhe apresentava, por vezes, um copo de vinho reconfortante: o Faraó parecia não ver nem ouvir.
Nesse momento, o médico desceu do estrado em que assentava o leito e vi o rosto pálido do príncipe apoiado no travesseiro.
Os olhos estavam cerrados, mas o tremor dos lábios indicava que vivia.
O velho aproximou-se do rei, sempre insensível ao que se passava, e, rojando-se-lhe aos pés, abraçou-lhe os joelhos.
— Grande filho de Rá, querido senhor, pai e benfeitor de teu povo, ergue a fronte abatida pela tristeza; a graça dos imortais concede aos meus últimos dias uma grande alegria, porque te afirmo: a esperança da tua raça, a alegria e orgulho do Egipto — Seti, viverá!
A mão poderosa de Rá amparou teu herdeiro; a arma criminosa foi desviada por este amuleto, que se bem tenha sido perfurado lado a lado, logrou amortecer o golpe:
o ferimento é grave, mas não mortal.
Mernephtah ergueu a cabeça, leve coloração tingiu-lhe as faces e, tomando o amuleto, estendeu os braços para o alto em fervorosa acção de graças:
— Se tuas palavras são verdadeiras, velho, se tua ciência me conserva o filho, este dia será verdadeiramente um dia de felicidade para ti e para tua prole.
Ao ver a taça que o copeiro lhe apresentava, esvaziou-a de um trago.
— Agora — acrescentou empinando-se — devo cuidar do meu povo:
que, os conselheiros se reúnam imediatamente nos meus aposentos e tu, Necho, vai com alguns oficiais e soldados dar o alarme em toda a cidade; batam a todas às portas, de ricos e pobres, que assim poderão, talvez, evitar o morticínio de entes caros.
Saí rapidamente pois, a ordem, muito razoável, me facultava saber o que se passava em casa, onde sé havia introduzido a suspeitosa judia, cuja paixão por Chamus podia acarretar alguma vingança infernal.
À porta do palácio, separei-me dos companheiros, que, voluntariamente, me atribuíram o quarteirão de minha residência.
As ruas continuavam silenciosas e desertas.
A grande cidade parecia mergulhada em profundo sono.
Eu olhava ansioso aquelas casas fechadas e tranquilas, a conjecturar que lá dentro talvez a desgraça já houvera penetrado.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 06, 2017 8:03 pm

E monologava:
“Quem sabe alguma erva, ou pó, atirado ao fogão, vos entorpece e imobiliza enquanto o sustentáculo da vossa família, a esperança da vossa velhice é ceifado por uma morte miserável.»
Iniciamos a tarefa penosa e difícil, casa por casa, rica ou pobre; batíamos com insistência, até que alguém viesse atender, e quando uma sombra, cabeceando de sono e cansaço aparecia, dávamos o sinistro alarme:
“Guardai vossos primogénitos, condenados a perecer esta noite!”
E seguíamos adiante, muitas vezes ouvindo atrás gritos clamorosos, denunciando o encontro de uma vítima.
Finalmente, louco de inquietação, precipitei-me para casa, igualmente mergulhada em lúgubre silêncio.
Aos meus brados, o velho guardião deu, enfim, um salto e deixando, os soldados na rua, para despertar os vizinhos, entrei e fui directo ao quarto de Chamus.
Junto da porta estava estendido um escravo, ferrado no sono; agarrei-o pelos ombros e o sacudi até que abrisse os olhos.
— Diz-me, onde está a mulher que Chamus aqui trouxe hoje? — perguntei — onde a acomodaram?
— Não sei — respondeu esfregando os olhos — só sei que lhe deram o quarto à esquerda da escada; mas o nobre Chamus mandou-me vigiar do lado; do muro para ver se alguém se aproximava por ali, e... — acrescentou, coçando a cabeça, — parece que ela saltou o muro...
Sem mais querer ouvi-lo precipitei-me para o quarto de Chamus, fracamente iluminado por uma lâmpada e em vão procurei Lea.
Tomando a lâmpada, aproximei-me do leito e fiquei aterrado; rosto contraído e violáceo, braços caídos, Chamus apresentava extenso ferimento no peito nu!
O sangue tudo ensopava, formando no chão uma grande poça negra.
Mãos trémulas, tentei reanimá-lo, mas estava frio e rígido.
Deixei-o e corri ao quarto de meus pais.
Sacudindo meu pai, exclamei:
— Levantai-vos — Seti foi ferido no palácio e Chamus foi aqui assassinado; talvez um socorro imediato ainda possa salvá-lo.
Meu pai saltou do leito e minha mãe, igualmente despertada, gritou angustiosamente.
Dentro em pouco toda a casa estava despertada e corria para os aposentos de Chamus.
À porta deparamos com Ilsiris em desalinho, amparada por Acca.
Com voz débil e segurando-me o braço, perguntou:
— Que há? Que sucedeu a meu noivo?
— Coragem! minha irmã; uma grande desgraça fere o Egipto e nossa família; volta para teu quarto e ora; o aspecto deste aposento não te convém.
Ela cobriu o rosto banhado em lágrimas e deixou-se conduzir pela velha serva, que lhe pedia calma.
Voltei para junto de meus soldados porque a tarefa não estava terminada.
Ao atravessar o pátio, uma mulher descabelada precipitou-se para mim, gritando apavorada:
reconheci a esposa do nosso segundo intendente, mas a infeliz parecia louca, pois tanto comprimia ao peito, como erguia nos braços o corpo de um menino de três anos, em cujo peito se notava um ferimento sangrando.
Horrorizado, tentei falar-lhe, mas a infeliz não me reconheceu e dando um grito selvagem seguiu a correr, soluçando e desvairada.
Emocionado e desnorteado, prossegui na tarefa batendo nas portas ainda fechadas.
A cidade, porém, já despertava e terrível era esse despertar.
De quase todas as casas partiam clamores desesperados; as ruas estavam cheias de pessoas horrorizadas e seminuas, correndo de todos os lados; umas em busca de médico, outras, sem destino mas todas em desespero.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 06, 2017 8:03 pm

O sol despontava iluminando os cadáveres dos primogénitos egípcios, cercados dos parentes desolados, que haviam dormido profundo e sinistro sono, enquanto a morte rondava e feria o que tinham de mais caro.
A lembrança do que vira fazer Rhadamés me assaltava, obsediante:
seriam, ele e Setnecht, cúmplices da terrível conspiração? Ademais, eram dois oficiais geralmente benquistos.
Perseguido por essa suspeita, voltei ao palácio.
Ao aproximar-me, vi enorme multidão diante da residência real. Choros e gritos explodiam em coro:
— Deixai partir os hebreus!
Procurei abrir passagem até uma entrada e, seguido por um colega, subi a uma das torrinhas da muralha que dominava a grande praça.
O companheiro informou-me que Seti vivia e o Faraó presidia a um conselho; que se haviam congregado em sala contígua todos os escribas do palácio e que haviam expedido um destacamento militar em busca de Moisés, para trazê-lo quanto antes à presença do rei.
Enquanto conversávamos, a multidão, fora, aumentava de tal forma que todas as cabeças se tocavam e essa massa negra, febrilmente agitada, movimentava-se de todos os lados, a perder de vista.
Lamentos, gritos e súplicas, para que o Faraó se mostrasse, eram cada vez mais fortes.
Mernephtah, porém, ainda retido junto dos conselheiros, governadores e comandantes de corpos, não aparecera.
Subitamente, estalou um tumulto:
alguém teria dito (ou a ausência prolongada do rei teria inspirado ao povo) que ele morrera, bem como Seti, cujo estado de saúde ignoravam...
Mas o facto é que os clamores continuavam:
— “Mataram Mernephtah, bem como o herdeiro!
Moisés quer cingir a coroa e nós ficaremos à sua mercê!
Quem nos protegerá, quem reinará sobre nós?”.
Comprimindo-se contra as paredes, a massa avançou.
— "Mostrai-nos o nosso Faraó, vivo ou morto; queremos saber a verdade!” — ululavam milhares de bocas.
E como desvairado, o povo investiu contra as portas do palácio, tentando transpô-las em luta com os soldados, que, cerrando fileiras, de armas em punho, embargavam a passagem.
Advertido sem dúvida do que se passava, o Faraó apareceu no terraço.
Ao vê-lo, as massas enceguecidas pelo desespero recuaram qual imensa vaga, lançando gritos de alegria e alívio.
Todos os braços se voltavam para ele em muda súplica.
Mernephtah, com a voz sonora e metálica anunciou ao povo, em breves mas enérgicas palavras, que de conformidade com o parecer de todos os conselheiros e sábios, havia decidido a expulsão imediata dos hebreus, de modo que, até o pôr-do-sol, o último tivesse abandonado Tanis, e dentro de três dias o território egípcio estivesse limpo.
Brados de alegria e reconhecimento abafaram as últimas palavras do soberano e a multidão começou a dispersar-se, apregoando por todos os cantos que os hebreus iam, enfim, deixar o país.
Entrei e dirigi-me para a sala de recepção, porque desejava presenciar a entrevista com Moisés.
Na galeria que a precedia, estavam alguns escribas atarefados escrevendo sobre rolos de papiro o decreto liberatório do povo de Israel, que deveria ser lido e publicado em todo o Egipto.
Através das colunas da galeria, via-se Mernephtah, pálido, de olhos brilhantes, sentado junto à mesa de alto estrado.
Assinava os papiros que lhe passava um velho conselheiro, enquanto outro dignatários lhes apunha logo o selo real.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 06, 2017 8:03 pm

A certa altura, entrou um oficial, para anunciar que Moisés acabava de chegar.
Logo após, o profeta hebreu avançava empertigado e calmo até à cadeira real.
Ao vê-lo, o rosto do Faraó cobriu-se de uma palidez esverdeada, os punhos crisparam-se e flocos de espuma lhe afloravam na comissura dos lábios.
Evidentemente, a raiva embargava-lhe a voz.
— Faraó do Egipto.
Venho atender o teu chamado — disse Moisés detendo-se, com voz que mal disfarçava o sabor de triunfo — queres confirmar o que o povo reclama nas ruas, ou seja:
que te submetes, finalmente, á ordem de Jeová, deixando partir seu povo?
Silêncio absoluto.
Todos os olhares voltaram-se ansiosamente para o Faraó, que, de pé, cruzara os braços.
— Sim — disse o Faraó com voz soturna — chefe de um povo de assassinos, leva esses filhos eleitos de um deus digno do seu enviado; que, ao pôr-do-sol, nenhum hebreu reste em Tanis, sob pena de experimentar no lombo o ferro reservado aos retardatários.
E a ti — o mais miserável dos súbditos, uma última palavra:
ingrato, educado e sustentado pelo Egipto, cumulado de honras e ciências; a ti, que mascaras a ingratidão com o nome de um deus, para torturar impunemente esta pátria, cobrindo-a de ruínas e cadáveres, digo:
esse deus que te envia eu o conclamo como juiz e vingador; vai-te, erra sem descanso, sem encontrar lugar para erigir o trono que ambicionas; e que o sangue das vítimas da peste e do punhal recai sobre ti!...
Calou-se.
A cólera embargava-lhe a voz; um copeiro entregou-lhe uma taça de vinho.
Agarrou-a maquinalmente e, em vez de levá-la aos lábios, atirou-a ao rosto de Moisés, exclamando com iracunda voz:
— Agora, réprobo, vai-te!
O hebreu, que tudo ouvira de rosto esfogueado, abaixou-se desviando o golpe, e apanhando a taça exclamou irónico:
— Nesta taça real beberei o primeiro vinho em louvor ao trono que me propus erguer.
Depois, guardou-a no bolso e afastou-se rápido.
Foi um dia triste.
Escoltas militares percorriam as ruas para manter a ordem, impedir conflitos sangrentos e patrulhar os pontos de concentração, donde partiam os hebreus em colunas cercadas procurando as portas da cidade.
Cada tribo capitaneada por seu chefe e ancião seguia em boa ordem, levando quanto possuía em mulas, camelos ou carros.
Ao constatar tanta riqueza, a quantidade de cabeças de gado, meu coração transbordou de raiva; eu era muito egípcio para não sentir a perda dos nossos servos.
De pé, no terraço da torre mais alta do palácio, assistido por seus áulicos, Mernephtah, silencioso, contemplava com o olhar triste e inquieto o imenso e ruidoso desfile de milhares de súbditos válidos, úteis, prestimosos, que escapavam ao seu domínio.
Dominado pela fadiga, somente alta noite pude recolher-me.
Apesar de tudo, sentia-me aliviado por haver enfim, chegado ao termo dessas tribulações, não mais sujeito ao imprevisto de uma desgraça, não mais temer o despertar para algum espectáculo emocionante.
Considerando, porém, que egípcios tais, como Rhadamés e Setnecht, haviam tomado parte no infame conluio que custou a vida de tantos inocentes, cerrava os punhos e muito daria para desmascarar os dois traidores.
Como não possuísse elementos comprobatórios, vi que não era possível fazê-lo imediatamente.
Rhadamés era muito estimado pelo Faraó e, em todo o Egipto, dormira-se profundo sono nessa calamitosa noite.
Jurei, contudo, observar os miseráveis e na primeira oportunidade, denunciá-los, sem dó nem piedade.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 06, 2017 8:04 pm

Encontrei os meus ainda acordados:
meu pai combinava com o intendente uma nova distribuição dos criados, dada a expulsão dos de origem hebraica; minha mãe e Ilsiris, conchegadas, choravam amargamente a morte de Chamus; Acca fazia coro amaldiçoando Moisés, Lea e os hebreus; maldições de fazerem tremer os céus.
Apenas Henaís, terna e prestativa, como sempre, ia de minha mãe para Ilsiris, fazendo-as respirar essências e administrando-lhes compressas na fronte.
Querendo conversar um pouco com Henaís, dirigi-me para a galeria, fazendo-lhe sinal para que me acompanhasse.
Quando ficamos a sós, disse-lhe:
— Conta-me agora o que aqui se passou na minha ausência.
Chamus ainda não deu sinal de vida?
— Chamus morreu e o desespero de tua mãe e de Ilsiris foi tão grande que rasgaram os vestidos, unharam os seios e deram com a cabeça pelas paredes; só a muito custo conseguimos acalmá-las um pouco; o corpo, por ordem de teu pai, está numa sala lá em baixo, onde amanhã, os embalsamadores virão buscá-lo.
Houve muito alarido e perturbação entre os serviçais hebreus, expulsos: alguns não queriam sair e os dois velhos — Rebeca e Ruben — rojaram-se aos pés de teu pai, suplicando que os amparasse, pois não tinham parentes e desejavam morrer junto dos seus bondosos senhores.
O nobre Mentuhotep, porém, mostrou-se inflexível e eles partiram como loucos.
Toda a casa está em polvorosa e contudo eu me sinto feliz, porque te vejo vivo e tu és tudo para mim!
Pegou-me a minha mão e beijou-a.
Abraçando-a disse-lhe:
— Boa Henaís há-de chegar o dia de te demonstrar meu reconhecimento.
Nos dois ou três dias imediatos, além do desespero de milhares de famílias atingidas, a raiva empolgou a população, porque verificou-se que os hebreus ao partirem haviam cometido enormes furtos; sem falar no prejuízo de empréstimos não resgatados.
Muitos aproveitaram-se do profundo sono dos egípcios para se apossarem dos valores que ambicionavam.
A ideia da perseguição a mão armada ganhava corpo em todos os espíritos, mas ninguém ousava falar abertamente, porque Faraó resistia.
Soube, também, com espanto, que Kermosa e Pinehas tinham acompanhado os hebreus, levando consigo Smaragda, ainda convalescente.
O pobre Omifer, ferido na noite fatídica, não se continha de desespero; mas o ferimento o impedia de rastrear o traidor.
Rhadamés suportava com muita calma a perda da esposa; a alegria malsã que experimentava com a tristeza de Omifer e, sobretudo, a ideia de ficar único possuidor da imensa riqueza de Mena, não seria, acaso, compensação consoladora?
Por mim, lamentava deveras que a bela e jovem Smaragda, tão elegante e prendada, fosse condenada a passar a vida no dorso de um camelo, no meio de um povo impuro e desmazelado, ademais forçada a suportar a fogosa paixão de Pinehas.
Infeliz destino!
Afinal, certa manhã, o desejo de vingança, que empolgava toda a população, encontrou eco no palácio.
Por determinação de Faraó, reuniu-se um grande conselho, por ele presidido.
Analisaram-se, abertamente, todos os prejuízos causados ao país pelos hebreus; os governadores queixavam-se de que todas as obras públicas estavam paralisadas por falta de operários; mas a maior grita era contra a pilhagem verdadeiramente atrevida dos judeus, aproveitando a tribulação das famílias ocupadas com os seus mortos e feridos.
O que eles haviam surripiado em jóias, ouro, vasos preciosos, estojos etc., era positivamente incalculável.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 06, 2017 8:04 pm

Mernephtah, que havia acompanhado atento a discussão, levantou-se por fim, e disse:
— A mais elementar justiça manda não se deixe aos miseráveis judeus o produto da rapinagem; persigamo-los para dominá-los e reavermos nossos escravos e artífices; já decidi que o exército marche no sétimo dia, a contar de hoje; será o décimo da sua partida mas, levando eles muitas mulheres, crianças e bagagens, não será difícil alcançá-los, apesar do tempo decorrido.
Que se publique, em todos os corpos de tropas, que aquele que me trouxer a cabeça de Moisés, ainda que seja o mais ínfimo soldado, será elevado à primeira categoria da minha nobreza, por mim dotado e isento para sempre, bem como seus pósteros, de todos os impostos.
As palavras do Faraó foram acolhidas por fortes aclamações, e desde logo foram expedidas as necessárias providências.
Como o rei desejasse, em pessoa, comandar o exército, Seti foi nomeado regente na sua ausência.
Em virtude, porém, de o ferimento ainda o reter no leito, foi-lhe agregado um velho parente de Mernephtah, a título de auxiliar.
A notícia de que a guerra estava decidida alegrou a todos; não havia um guerreiro que não quisesse lavar no sangue hebreu sua legítima vingança.
Todos os aprestos foram acelerados.
Diariamente chegavam batalhões vindo de Thebas, Memphis e outras cidades mais próximas, enquanto mensageiros partiam com ordens para os destacamentos estacionados nas províncias mais distantes.
Também eu fui enviado à cidade de Ramsés, levando ordens ao governador para abastecimento do exército e uma expedição de espias que informassem o rumo exacto seguido pelos Israelitas.
Tive ainda de cumprir a triste missão de comunicar à mãe de Chamus, lá residente, a morte do filho.
Confesso que foi com dolorosa emoção que presenciei o desespero da venerável matrona.
Meus pais me haviam incumbido de convidá-la a passar alguns meses em nossa companhia, convite que ela aceitou reconhecida, por lhe parecer menos desconsolante chorar em companhia dos que também estimavam o filho.
Aconselhei-a entretanto, esperar a passagem do exército, para evitar o congestionamento das estradas, prometendo a vinda oportuna do nosso velho intendente, a fim de conduzi-la a Tanis.
Cumprida minha missão, retomei o caminho dos penates, onde muitos negócios e providências reclamavam minha presença.
Ao atravessar, à noite, uma planície próxima de Ramsés, encontrei velho tropeiro tangendo algumas mulas extenuadas, numa das quais ia montada uma mulher envolta em espesso véu.
Lancei um olhar curioso à singular caravana fantasticamente iluminada pela lua, quando, de repente, a mulher deu um grito e me chamou pelo nome.
Surpreso e atónito, parei o animal, mas a mulher já havia tirado o véu e reconheci, então, o belo semblante de Smaragda.
— Tu aqui! como assim? — exclamei saltando do cavalo e apertando-lhe a mão.
— Deves saber que o miserável Pinehas sequestrou-me — raptou-me narcotizada com algum terrível filtro, — respondeu de olhos brilhantes.
Quando despertei, estava numa tenda em pleno acampamento hebreu!
Falou-me, então, do seu amor e disse que deveria acompanhá-lo e viver com ele o resto dos meus dias, entre o povo imundo.
Aproveitando um momento favorável, arranquei-lhe do cinto o punhal e matei-o.
Olha, Necho — e dizendo-o tirou do seio um punhal cuia lâmina apresentava manchas negras mostrando-mo com selvagem alegria:
— É sangue de Pinehas...
Quando o vi por terra, faces contraídas e o sangue a jorrar do peito como de uma fonte, fugi e errei sem rumo pelo acampamento, buscando uma saída, até que, junto das últimas barracas, encontrei um homem de aspecto imponente e fisionomia atraente:
devia ser um chefe, porque vários anciãos o seguiam reverentes.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 06, 2017 8:04 pm

Esse personagem deteve-me para perguntar quem eu era e para onde corria daquela maneira.
Então, me rojei a seus pés, confessei-lhe a verdade e pedi que me deixasse partir.
Interrogou-me sobre minha família e parentela e, quando mencionei meu avô, ele estremeceu e pareceu meditar profundamente.
Ao cabo de alguns instantes que me pareceram uma eternidade, passou a mão pela fronte, ergueu-se e disse bondosamente:
— És casada, volta aos teus deveres; a lei do meu Deus condena o adultério e não permitirei no meu acampamento raptos nem violências; como, entretanto é arriscado uma bela e jovem mulher viajar sozinha, dar-te-ei um condutor.
Falou aos do seu séquito no seu idioma e seguiu adiante, estendendo-me a mão em despedida.
Passado pouco tempo, chegou este velho com estas mulas que ai vês e nos deixaram partir.
Diz-me onde posso encontrar Omifer, porque não desejo voltar para a casa de Rhadamés.
Se podes, leva-me até lá.
Inteiramente perturbado, montei a cavalo.
Então Pinehas, o grande sábio, o homem triste e laborioso estava morto, assassinado pela pequenina mão branca daquela mulher franzina e graciosa, que a fatalidade vigorizou?!
Durante a viagem, fiz a Smaragda um breve relato dos acontecimentos que ela ignorava:
o ferimento de Omifer, a perseguição que se preparava, e ela me suplicou então, que a conduzisse secretamente à casa do seu amigo, onde se albergaria até a partida de Rhadamés, no que concordei.
Rumei para casa depois de a entregar a Omifer, que de contentamento, sentiu-se meio restabelecido.
Os dois dias que se seguiram e antecederam à partida, passaram com relâmpago, entre preparativos de bagagem, visitas de despedida, compras e aprestos de toda a espécie.
Na véspera do grande dia, o intendente de Omifer levou-me dois magníficos cavalos, acompanhados de uma carta na qual me pedia aceitar os admiráveis animais para serviço de campanha.
No dia da partida, levantei-me muito cedo e acabava de vestir-me, disposto a procurar meu pai, quando Henaís foi ao meu quarto abatidíssima e banhada em lágrimas.
— Necho, venho despedir-me de ti, — disse abraçando-me — dentro de alguns instantes, irás ter com teus pais e a pobre Henaís não se atreverá aproximar-se; entretanto, sofro tanto quanto eles ao ver-te partir para essa guerra sangrenta, e se não regressares, mato-me, pois tu és, nesta vida, tudo para mim.
A voz foi-lhe embargada pelos soluços; apertei-a apaixonadamente contra o peito e cobri-lhe o rosto de beijos.
— Henaís, enxuga essas lágrimas.
Se os deuses permitirem que volte são e salvo juro solenemente fazer-te minha esposa legítima, pois amo-te e a ninguém amei senão a ti.
Vivo rubor cobriu-lhe as faces pálidas e murmurou reconhecida:
— A aventura é tão grande, que nem ouso esperar, mas tuas boas palavras me ficarão na memória até o derradeiro alento.
Depois de poucas palavras mais e um último beijo, separamo-nos.
Fui despedir-me de minha mãe e de Ilsiris, pois meu pai devia acompanhar-me até o palácio.
Foi comovente a despedida.
As duas criaturas se desfaziam em lágrimas.
Depois, desci entre alas de servos escalonados na escada e galerias, até à porta da rua.
Todos beijavam-me as mãos e as vestes, rogando que as bênçãos do céu caíssem sobre mim.
De coração opresso galguei o carro.
Era intenso o movimento no palácio.
Pátios, galerias, escadas, repletas de guerreiros, sacerdotes, e dignatários que deviam integrar o cortejo, pois o Faraó se dirigia previamente ao templo para implorar a protecção dos imortais.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 06, 2017 8:04 pm

Foi lá que me despedi de meu pai, que tinha lugar adequado e porque não esperava reencontrá-lo no cortejo.
Logo depois, apareceu Mernephtah, que tinha ido levar um terno beijo em despedida ao príncipe herdeiro; ele trazia, estampadas no rosto, energia, coragem e confiança na empresa; o magnífico uniforme de guerra mais lhe realçava o imponente aspecto, ostentando a coroa do Alto e Baixo Egipto, circundada de serpentes místicas dourado na liteira aberta, levada pelos condutores, príncipes e afins da Casa Real, apresentou-se à multidão, todos os olhos convergiram para ele, com estima e admiração.
Era bem o soberano de um grande povo, a encarnação da sua força e majestade.
O imponente e interminável cortejo atravessou as ruas entupidas da populaça, vagarosamente.
Exclamações, gritos e bênçãos, quase abafavam a música e as fanfarras; ruas tapizadas de flores e ramos de palmeiras, a multidão, alegre e animada pelo desejo de vingança, acreditava já estar vendo a chegada de todos os tesouros roubados e resgatados no sangue dos ignóbeis rapinantes.
Com seu olhar de lince, Mernephtah perscrutava aquelas fisionomias satisfeitas, e, quando chegou diante do Templo, o rosto se lhe tornou mais radiante, o olhar mais brilhante que ao sair do palácio.
O grão-sacerdote, seguido dos acólitos e sacerdotisas, o recebeu à entrada e o introduziu no santuário; mas, durante a cerimónia religiosa, um triste presságio amargurou todos os corações:
o fogo, que deveria consumir a oblata real, extinguiu-se de súbito, no momento em que Mernephtah, ajoelhado e de braços erguidos, suplicava aos imortais que lhe concedessem a vitória.
Palidez intensa invadiu as feições másculas do Faraó, que preocupado e cabisbaixo, retomou à liteira para, em companhia dos sacerdotes que conduziam as estátuas dos deuses, ganhar a planície além da cidade, onde o exército já estava acampado.
No centro do vasto quadrado constituído pelo grosso das tropas, via-se o altar das oferendas e solenes sacrifícios aos deuses exposto aos soldados.
Bem como os demais oficiais que haviam tomado parte no cortejo, retomei meu lugar no corpo em que servia, e como durante as calamidades houvesse assumido o comando de um destacamento de carros na guarda nobre de Faraó, coloquei-me na primeira fila, logo atrás do carro real, então ocupado apenas pelo condutor Rhadamés.
Esse carro, de ouro maciço, finamente lavrado, era tirado por dois soberbos corcéis de crinas esvoaçantes.
Impacientes, os animais riscavam o solo com os finos cascos, mal sofreados na sua fogosidade pela mão vigorosa do condutor.
Olhei Rhadamés atentamente.
Odiava-o e desconfiava de sua lealdade desde a noite dos massacres; ele estadeava boa presença assim de pé, segurando com uma das mãos as rédeas, enquanto a outra se apoiava no grande escudo com que deveria cobrir o rei durante o combate.
Uma couraça de escamas de peixe se lhe ajustava ao esbelto e atlético busto; reluzente capacete lhe resguardava a cabeça, e contudo, estava pálido, lábios contraídos e olhos ora ternos, ora brilhantes, como que a maquinarem algo de grave e maléfico.
Apertando o cabo de meu feixe d’armas, pensei:
— Toma cuidado, miserável, se é que tramas alguma nova traição — desta vez, tenho os olhos postos em ti, é não me escaparás.
Terminadas as cerimónias religiosas, o Faraó, acompanhado dos grandes sacerdotes e dignatários, tomou o carro.
Por um momento, seu olhar profundo e estranho fixou-se no rosto pálido do condutor.
— Rhadamés, estás doente, a ponto de me privares dos teus serviços?
Que te falta?
Vejo, satisfeito, que minha vontade te restituiu a saúde.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 06, 2017 8:05 pm

Não pude ouvir a resposta, mas notei que a fisionomia se lhe alterou, e tão vagarosamente retesou as rédeas que os animais empinaram e, arrancando, deslocaram bruscamente a ligeira viatura.
Sobre a viagem não direi, senão que avançamos a marchas forçadas para alcançar os hebreus.
É claro que essa caminhada sob os raios ardentes do sol e nuvens de poeira sufocante, não podia ser agradável, mas ninguém se queixava, porque todos queriam vingar-se.
Finalmente, aproximando-nos do Mar dos Sargaços, avistamos o inimigo.
A noite começava a cair e Mernephtah mandou fazer alto e acampar, dado que, através do mar, Moisés não poderia escapar; e ao dealbar da aurora engajaríamos a luta.
Impaciente por verificar algo com exactidão, galguei a sela e galopei até um montículo, donde pude observar perfeitamente o acampamento hebreu e a massa escura dos nossos antigos servos, que ondulava à distância.
Ao regressar, fomos honrados, eu e outros colegas, com um convite para jantar na tenda real.
Mernephtah, isolado em mesa à parte, sobre um estrado, mostrava-se muito bem humorado, conversando alegremente com os chefes e bebendo à vitória do exército egípcio.
Após o repasto, retirou-se para uma barraca menor, que lhe servia de dormitório.
Pouco a pouco o silêncio desceu sobre o acampamento, só quebrado pelo relinchar dos cavalos e mulas, ou pelo rugir dos leões enjaulados, pois tal como seu pai, Mernephtah gostava de os ver na cauda do seu carro, em combate.
Todos dormiam no grande acampamento e também eu me recolhi a uma barraca, onde alguns camaradas repousavam tranquilamente.
Em vão, porém, me revolvia na cama, sem poder conciliar o sono, preso de vaga inquietação.
Resolvi levantar-me, sair, respirar o ar livre.
A noite estava escura, mas o céu recamado de milhares de estrelas.
Assentei-me à sombra da barraca, num saco de forragem e absorvi-me nos próprios pensamentos:
Tanis, meus pais, Henaís, desfilavam diante de mim...
Será que não mais os tornaria a ver?
Que nos reservaria o dia seguinte?
O terrífico presságio do Templo não significaria um ferimento grave, ou quiçá a morte de Mernephtah?
Arrancou-me dessas cogitações, um rumor de passos, não mui distante.
Ergui a cabeça e vi que um homem de elevada estatura, envolto em negro manto, caminhava cauteloso.
Ao passar junto de uma fogueira cujas chamas rubras iluminavam um grupo de soldados adormecidos, pareceu-me reconhecer Rhadamés.
Onde iria?
Ele não comandava nenhuma patrulha, não tinha necessidade de abandonar o repouso, que, sabia, tanto lhe agradava.
Veio-me a ideia de alguma nova traição.
Levantei-me e, fugindo à claridade das fogueiras, deslizei no seu encalço.
Ele caminhava apressado e não tardou a alcançar as lanças fincadas no solo para delimitar o acampamento.
Aproveitando o momento em que a sentinela se afastava em direcção oposta, deitou-se e desapareceu rastejando na obscuridade.
Fazendo manobra idêntica, acompanhei-o e chegando à certa distância, vi-o erguer-se e prosseguir quase correndo, até que, da sombra de um montículo, saíram dois homens.
Pelas frases que pude apanhar, fiquei sabendo que eram hebreus e tive, assim, corroborada a suspeita de uma nova traição.
Tacteei o cinto, porque havia alijado as armas na barraca e experimentei grande satisfação ao verificar que ainda me restava longo e sólido punhal.
Empunhando-o, continuei a seguir o traidor e logo atingimos segundo montículo que limitava, provavelmente, o acampamento hebreu, e onde se erguia pequena barraca isolada.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 06, 2017 8:05 pm

Rhadamés e seus dois guias para ali se dirigiam, enquanto eu a contornava, deslizando pela encosta do montículo, a fim de atingi-la do lado oposto.
Colado ao solo, fiz com a ponta do punhal um pequeno orifício na lona da barraca e pus-me a sondar o interior.
À luz de um archote preso a um tronco enterrado no solo, vi Moisés em pessoa, sentado junto de uma mesinha de madeira branca, e sobre esta um estojo ricamente lavrado.
Em frente do profeta, ouvindo-o atentamente, Rhadamés sentado num banco tosco.
— Se concordares em ajudar-nos, repito-o, terás régia recompensa.
Vê se me desembaraças, esta noite, de Mernephtah.
É louco, teimoso, que renega a palavra empenhada.
Só pela tua promessa, levarás este estojo, cheio de riquezas; mas eliminado Mernephtah, porei em tuas mãos uma força invisível que rojará a teus pés quantos homens te aprouver dominar.
Retirou do seio um anel com uma pedra cintilante e acrescentou:
— Vê esta gema preparada por um grande mago; ela tem o poder de ligar todas as vontades à tua; por ela subirás degrau a degrau, ao trono dos Ramsessidas; Seti morrerá e será a ti que o povo há de escolher por sucessor, pois o anel conquistará Os corações e te dará tesouros imperecíveis, comparáveis aos quais os de Faraó nada representam.
Calou-se, mas seu olhar de fogo não se desviava do rosto de Rhadamés, no qual se espelhavam ardente cobiça e estúpido orgulho.
Estendendo avidamente a mão disse:
— Dá-me esta pedra; ensina-me a produzir ouro à vontade e esta mesma noite Mernephtah morrerá.
Moisés sorriu:
— Vamos fixar as condições:
um dos meus fiéis companheiros te acompanhará até meio-caminho e tu lhe entregarás a cabeça de Mernephtah:
ou então, desde que os clamores desesperados dos soldados egípcios me anunciem, com certeza, a sua morte, virás receber o anel mágico.
Quanto ao poder de criar tesouros à vontade, vou dar-te uma prova:
Olha! — e indicou um monte de cascalho em forma de pirâmide, num canto da barraca.
— Vês aquelas pedras?
Repara na sua transformação...
Levantou-se de olhar fixo e cenho carregado, ergueu o anel descrevendo círculos ao redor dos olhos de Rhadamés.
Notei, surpreendido, que a fisionomia do traidor começava a mostrar estupefacção e acabou por esboçar a mais frenética alegria.
— Ouro! Que vejo!
Lingotes de ouro!
De início não compreendi o que se passava, pois as pedras que lá estavam não se haviam transformado.
Mas logo pensei que o traidor fora, certamente embrulhado, porque, com as feições alteradas, olhos arregalados, dizia arquejante:
— Não duvido de ti.
Dentro de duas horas entregarei ao teu delegado a cabeça de Mernephtah.
Sem mais ouvir, despenhei-me do montículo para o acampamento, qual cervo monteado em plena selva.
Ofegante e coberto de suor, cheguei à barraca real e, conhecido das sentinelas, não tive dificuldade em entrar e me aproximar do rei, que dormia profundamente.
Ajoelhei-me e toquei-lhe no braço.
Despertando sobressaltado, perguntou:
— Que foi? És tu, Necho?
Diz-me o que te traz aqui.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 06, 2017 8:05 pm

Emocionado, relatei sucintamente o que acabava de presenciar e o Faraó, que me ouvia meio recostado nos cotovelos, ergueu a cabeça, suspirando:
— Então esse homem, cumulado de benefícios, é um traidor?
Afinal, teu relato não constitui novidade para mim; eu estava prevenido.
Na véspera de nossa partida de Tanis, Smaragda pediu-me uma audiência secreta e me relatou a conduta ignóbil de Rhadamés durante as calamidades, bem como as suspeitas veementes da sua convivência com os hebreus, durante a noite do massacre.
Agora, vejo que a jovem senhora tinha razão para prevenir-me.
Quero, contudo, apanhar o miserável em flagrante de tentativa; dá-me o meu punhal e esconde-te aí atrás dessa cortina, enquanto vou fingir que durmo.
Com o coração aos pulos, ocultei-me numa dobra da espessa cortina fenícia que circundava o leito, apertando nas mãos o feixe de armas e disposto a abrir a cabeça do traidor, se o rei demorasse em lhe deter o braço.
Passaram-se momentos que me pareceram séculos em muda angústia; todos os sentidos intensamente concentrados, eu vigiava.
O Faraó havia novamente cerrado os olhos, conservando o punhal oculto sob a pele de leão com que se cobria.
Parecia adormecido.
De repente, estremeci:
levíssimo toque na parede da barraca, logo seguido de ligeiro ruído e vi surgir à luz da lamparina um vulto que avançava para o leito real, em atitude cautelosa...
Era Rhadamés!
Na mão uma faca larga e curta.
A face lívida e contraída espelhava todas as más paixões.
Inclinou-se para o rei e alçou o braço, enquanto eu, de coração palpitante, brandi o machado; mas a cena foi tão rápida que fiquei estatelado, de olhar fixo e como que chumbado ao solo!
Assim que vi baixar, rutilante, a faca de Rhadamés, num relâmpago, Mernephtah travou-lhe o braço, saltou do leito e, derrubando-o com um soco tremendo, enterrou-lhe o punhal no coração.
Tão rápida e silenciosa foi a cena que as sentinelas não deram pelo sombrio drama desfechado na tenda real.
Por instantes, Rhadamés manteve-se de joelhos, fisionomia petrificada de angústia, esvaindo-se em sangue; depois rolou sobre a pele de tigre que tapetava a barraca.
O Faraó deixou-se cair numa cadeira, pálido, de olhar sombrio.
Com a voz soturna, murmurou:
— A que prova me submetem os deuses!
O mais querido dos meus súbditos, de todos os funcionários o mais chegado, cumulado de honras e depositário da minha confiança, trair-me e atentar contra minha vida!...
Com as mãos trémulas, enchi um copo de vinho e apresentei-o ao Faraó, mas um espectáculo inesperado nos fez estremecer, fazendo pender a mão de Mernephtah já estendida.
É que o ferido acabava de levantar-se sobre os joelhos!
Lívido, olhos esgazeados, dirigiu-se para o rei com os braços já frouxos abraçou-lhe as pernas.
— Meu senhor e benfeitor — murmurou com voz débil, a extinguir-se: — perdoa; deixa-me levar tua mão aos lábios frios; não me abandones na hora da morte; estás vingado...
Um misto de inexprimível horror, piedade, arrependimento e pesar desenhava-se no rosto desfigurado de Mernephtah.
— Infeliz — disse estendendo-lhe a mão — que fizeste?
Por que forçaste esta mão a ferir-me?
Contudo, eu te perdoo, morre em paz.
O Faraó mal terminou suas palavras, os braços de Rhadamés afrouxaram e a cabeça tombou pesadamente sobre os joelhos do rei.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 06, 2017 8:05 pm

Tudo estava consumado.
Calado o Faraó depôs o cadáver no tapete, cobrindo-o com o próprio manto; depois, apoiando os cotovelos na pequena mesa, abstraiu-se em triste cismar.
Retirando-me respeitosamente para um canto da barraca, passei a observá-lo com a maior curiosidade.
Em que estaria ele pensando?
Só aqui, na espiritualidade vim a saber que remorsos e arrependimentos lhe sangravam o coração.
Chegavam-lhe à mente, então episódios remotos:
lembrava-se de como havia conhecido, em certa festividade, a mãe de Rhadamés, jovem de grande beleza e de como a seduzira.
O filho que lhe dera, nove meses depois, fora amado e protegido, mas o mal feito havia frutificado e esse filho, arvorado em traidor, acabava de cair assassinado por suas próprias mãos.
Gritos e exclamações vindos de fora interromperam o silêncio.
— Vê o que se passa — disse Mernephtah, erguendo a cabeça contrariado.
Antes, porém, que eu atingisse a porta, dois jovens oficiais, primos do rei, invadiram a barraca exclamando fora de si:
— Faraó! eles nos escapam; os hebreus estão vadeando o mar!
Empurrando com o pé o cadáver de Rhadamés, o rei deu um salto e exclamou com voz retumbante:
— Arma-te, Necho, e ordena que atrelem o carro.
Corri e notei que todo o acampamento já estava em alvoroço.
A hipótese de uma possível escapada do inimigo detestado parecia estimular as massas.
Quem levara a notícia da fuga dos israelitas, não pude saber, senão que a nova corria de boca em boca e ninguém conhecia a fonte.
Os carros eram atrelados com febril presteza.
Encilhavam-se cavalos e revistavam-se as armas.
Os relinchos dos animais, o vozerio dos soldados, as ordens de comandos que tentavam manter a disciplina, tudo se confundia num caos indescritível.
A princípio, quis agregar-me à minha companhia, mas lembrando que Mernephtah ficara sem o condutor do carro, pensei talvez me concedesse o honroso posto e retomei, correndo, em direcção da barraca real.
Quando me aproximei, já o Faraó saía todo armado e saltava para o carro, tomando as rédeas.
Alçou o machado e deu o grito de guerra com voz tão forte que chegou a abafar o toque de clarim, partindo a galope.
Tudo se moveu na sua esteira.
Sem pensar em outra coisa que não avançar, apoderei-me de soberbo cavalo que um escravo havia trazido para um senhor, e dei de rédeas.
Despontava o dia cheio de brumas, e grossas nuvens deslizavam no horizonte impelidas por forte ventania.
O espaço que nos separava do mar foi coberto em poucos minutos.
Aproximando-nos, notei, já na margem oposta, imensa mole de hebreus entalados entre os seus animais, enquanto os últimos elementos da retaguarda ainda atravessavam céleres, em coluna cerrada, o leito do mar, quase descoberto na ocasião.
Via-se Moisés, de braços erguidos para o céu, no cimo de um cômoro.
Eu e um pequeno grupo de cavaleiros, antecipamo-nos aos demais e, levados pelos rápidos e fogosos corcéis, transpusemos o mesmo vau e atingimos a margem oposta, com os últimos israelitas.
Logo a seguir, ruidosos e formando larga coluna, vinham os carros pejados de soldados (assim conduzidos para maior presteza), entremeados de cavalaria e seguidos pelo grosso do exército.
Arrebatada e não pensando em outra coisa que não fosse o seu objectivo, toda essa massa precipitou-se no mar, mas onde os hebreus haviam passado a pé, em longa fila e não equipados, os carros egípcios, já pelo peso da carga, já pela largura frontal da coluna, não podiam passar e começaram a voltear no fundo lodoso.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 06, 2017 8:06 pm

Em vão, os condutores chicoteavam os animais cobertos de espuma, corcoveantes, tombando os carros e aumentando a desordem.
Ofegantes pela nossa rápida disparada, de arma em punho, íamos acometer os hebreus, quando gritos desesperados me fizeram voltar a cabeça.
Aterrorizado, detive-me a contemplar o espantoso espectáculo que se desenrolava à minha frente:
quais flechas desferidas do arco, cujo inicial impulso ninguém podia deter, os carros, cavaleiros e soldados continuavam a avançar, a precipitar-se, esmagando os que os precediam e atolados.
Não podiam avançar nem retroceder, porque novas levas se despejavam sobre eles.
Confusão de homens, animais e carros a se chocarem e se esmagarem, e de todos os lados gritos de angústia e dor.
Nesse momento, uma nuvem passou-me diante dos olhos:
formando uma como cinzenta muralha, as águas impelidas pelo vento cresciam ruidosamente; ainda um instante, horroroso e pungente clamor pareceu fundir-se no barulho da massa revolta e espumante, que tudo cobriu!
Ali ou acolá, ainda surgiram das ondas uma cabeça de cavalo, um braço armado, um capacete brilhante, alguns corpos flutuando...
Depois, nada mais vi; toldou-se-me a vista, a cabeça rodou, tombei do cavalo.
Não era bem uma síncope, era alucinação, pavor.
As notas harmoniosas de um canto de triunfo e alegria fizeram-me despertar; fixei o olhar desvairado nos hebreus, que, prostrados, braços erguidos, louvaram por essa forma o deus que tão visivelmente os havia protegido.
À vista de todos, havia sucumbido todo um exército numeroso e aguerrido:
comandantes experimentados e o nosso rei — o generoso e valente Mernephtah!
Dessa poderosa força não restava mais que míseros destroços, algumas centenas de homens dispersos, que, como loucos, corriam na outra margem, ou se rojavam ao solo.
Instintivamente, os companheiros me rodearam.
Vivos, não queríamos render-nos de graça.
Moisés aproximou-se do pequeno grupo e seu porte majestoso parecia ainda maior:
o olhar aquilino, fulgurante de orgulho e exaltação.
Com voz vibrante falou-nos:
— Guerreiros egípcios, concedo-vos a vida; voltai para o vosso país.
Comunicai ao novo Faraó esta grande derrota do seu antecessor e dai-lhe testemunho de como o Deus todo poderoso, de que sou enviado, protege o povo eleito.
Mais tarde, tristes e acabrunhados, repassamos o braço de mar e chegamos ao acampamento abandonado pelos guerreiros e ainda repleto de escravos, criados e bagagens, guardados por alguns destacamentos de reserva.
Como alma penada e contendo soluços, vaguei entre as intermináveis filas de barracas intactas como se nada houvera mudado naquelas poucas horas!
Contudo lá estava o pavilhão azul e ouro, no qual passara, junto do Faraó os últimos momentos de sua existência, e onde ainda jazia o cadáver de Rhadamés!
Agora, no reino das sombras, estariam reunidos ele e sua vítima.
Durante a tarde e a noite, reuniram-se pouco a pouco os desesperados fugitivos, triste remanescente do brilhante exército de Mernephtah.
Seu pranto se confundia com o dos escravos e criados, cuja dor e desespero atingiam à loucura.
Entretanto, era preciso tomar uma decisão e abandonar aquele lugar fatídico.
Com assentimento geral, assumi o comando e ao nascer o sol ordenei que, desarmadas as barracas e carregadas as bagagens, se formassem colunas de marcha.
Acabrunhado e indisposto, cavalguei um camelo e dei sinal de partida.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 06, 2017 8:06 pm

Lenta e preguiçosamente, retomamos o caminho do solo egípcio, onde só poderíamos ser recebidos com gritos de desespero e torrentes de lágrimas.
Não sou capaz de traduzir as emoções que me angustiavam nesse desventuroso regresso.
Basta dizer que não experimentei um só momento de alegria por voltar são e salvo.
Via-me quase isolado e só, pois toda a flor da nobreza egípcia havia perecido e o desespero das famílias que perderam pais, irmãos, filho ou marido, me apertava o coração como se fossem caros e próximos parentes meus.
Ao chegar à fronteira deixei a triste caravana e adiantei-me com alguns companheiros, para comunicar quanto antes ao novo Faraó o desastroso acontecimento.
O coração batia-me, ao considerar que ia à presença de Seti como mensageiro da desgraça, cumprindo descrever-lhe o espantoso desastre que lhe arrebatara o pai, o exército e a nata do seu povo; mesmo assim não havia como esquivar-me.
Poeirentos e fatigados, um dia, de manhã, entramos em Tanis, em direcção do palácio.
Os transeuntes nos tomavam por mensageiros do exército e nos acompanhavam curiosos e inquietos, formando desde logo um longo cortejo.
A vista do maravilhoso edifício reavivou meus dolorosos pensamentos, ao recapitular todos os detalhes da arrancada tão brilhante e esperançosa.
Abatido, solicitei do chefe dos guardas, surpreso e espantado, que nos levasse imediatamente à presença do príncipe.
Um oficial levou-me até um vasto terraço florido onde estava o jovem regente, pálido e enfraquecido, sentado junto de uma mesa e atento à leitura de um papiro submetido à sua assinatura.
Rodeavam-no alguns velhos conselheiros, que, em atitude respeitosa, anotavam em tabuinhas algumas breves disposições.
Ao lhe ditarem meu nome, Seti levantou-se bruscamente.
— Necho! tu aqui?
Que significa essa palidez e o abatimento dos teus companheiros?
Vindes anunciar uma desgraça, uma derrota?
Fala, pois, em vez de me torturares o coração com a serpente da dúvida e da angústia.
Que é feito de meu pai?
Mal podendo reter as lágrimas, prosternei-me e erguendo os braços, exclamei titubeante:
— Seti, filho de Rá, dispensador da vida e da felicidade, meu senhor e Faraó, que os deuses te concedam longa vida e glorioso reinado!
O príncipe tornou-se lívido e levou a mão ao peito ferido.
— Que dizes, infeliz?
Como, por que assim me tratas?
Teria meu pai perecido?
— Sim, o glorioso Mernephtah pereceu e com ele todo o exército, antes mesmo de desembainhar a espada.
Seti cambaleou e teria caído se os conselheiros não o tivessem amparado, sentando-o numa cadeira.
Daí a pouco, reabriu os olhos e disse com voz calma, mas firme:
— Fala, quero tudo saber!
Narrei-lhe a catástrofe, em poucas palavras, entrecortadas pela emoção, mas enquanto o novo Faraó me ouvia desolado, de mãos crispadas, a notícia do grande desastre já havia transpirado e o chefe dos guardas veio anunciar que o povo, apavorado e desesperado, comprimia-se diante do palácio e reclamava a presença do príncipe.
Seti revestiu-se das insígnias reais, cingiu a coroa do Alto e Baixo Egipto e, acompanhado dos dignatários e cortesãos, apresentou-se no terraço.
Foi saudado pela multidão em desafogo de soluços e aclamações.
Com belas e incisivas frases, ele notificou a catástrofe que acabava de ferir a nação, encarecendo ao povo que se mantivesse calmo e conformado, quanto ele mesmo, ante o inelutável desígnio dos imortais.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 07, 2017 8:14 pm

Retirou-se depois para conferenciar com os seus conselheiros sobre as medidas indispensáveis e nós tivemos permissão para procurar nossas famílias.
Este desiderato não era fácil, pois estando as ruas apinhadas de gente, a cada passo éramos detidos e crivados de perguntas sobre o acontecimento e notícias dos que haviam perecido ou escapado.
Agradeci a Osíris, quando, enfim, as portas da casa paterna se fecharam atrás de mim e as lágrimas de alegria dos meus e o olhar radioso e húmido de Henaís me fizeram experimentar (pela primeira vez após o desastre), que a vida ainda tinha mérito para mim.
Dominadas as primeiras emoções e satisfeitas minuciosamente a curiosidade geral, resolvi, apesar de cansado, ir até à casa de Omifer, para cientificá-lo da morte de Rhadamés.
Lá, o velho intendente informou-me que, após a partida do exército, Omifer se retirara para uma casa de campo, algumas léguas distante da cidade, onde se mantinha em completo isolamento, não saindo e a ninguém recebendo.
Tive, pois, de adiar a visita e somente no dia imediato fui até lá.
Julguei que o isolamento fosse devido à presença de Smaragda, que, sem dúvida, lá estaria homiziada, mesmo porque sabia, por meu pai, que ela não fora ao palácio de Mena, onde falecera uma irmã de Rhadamés e continuava acamada a genitora, gravemente enferma.
Em todo caso, estava certo de que a notícia que levava me proporcionaria o mais caloroso acolhimento.
Situada em pequeno bosque de palmeiras, contornada por grande jardim, como se estivesse perdida entre roseiras, a casa de campo de Omifer era encantadora vivenda.
A velha escrava que me recebeu só consentiu que entrasse depois de muito insistir.
Afinal, apareceu Omifer, inquieto e admirado:
— Necho, és tu? — exclamou empalidecendo — por que estás de regresso e que motivos te trazem até aqui?
Resumidamente expliquei a situação.
Profundamente comovido, apertou-me a mão, dizendo:
— Smaragda aqui está, vamos procurá-la para que fique conhecendo os pormenores dessa tragédia.
Levou-me a um pequeno terraço, onde se encontrava Smaragda sentada à mesa de refeição, igualmente inquieta e nervosa.
Omifer precipitou-se para ela, e, abraçando-a murmurou comovido:
— Estás livre.
Enfim, poderei esposar-te.
A jovem senhora deu um grito:
— Rhadamés morreu?
— Sim — respondi — e de morte bem triste.
Contei em detalhe todos os lúgubres acontecimentos que havia testemunhado e que ainda não haviam chegado ao conhecimento do amoroso par.
Smaragda ouvia-me com a cabeça apoiada nas mãos, chorando copiosamente.
Seriam de contentamento aquelas lágrimas, por estar livre?
Ou seriam causadas pelas circunstâncias trágicas da morte do marido?
Jamais pude sabê-lo.
Meses mais tarde, eles celebraram esponsais e foram-se para Thebas.
Também meu caso amoroso foi resolvido melhor, do que podia esperar.
O carácter meigo, atraente e prestativo de Henaís lhe havia granjeado, pouco a pouco, a estima de todos os meus parentes e quando me arrisquei a falar em casamento, meu pai não fez a mínima oposição.
Quanto aos preconceitos maternos, consegui vencê-los a troco de súplicas.
Henaís tornou-se, pois, minha esposa e, durante oito anos, minha vida não foi mais que um rosário de felicidade; mas o advento do terceiro filho foi fatal a Henaís, que faleceu deixando-me desesperado.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 07, 2017 8:14 pm

Um amigo que me visitou na mesma tarde do seu falecimento, impressionado com o meu acabrunhamento em face da perda irreparável, aconselhou-me a procurar, para o embalsamamento um sábio mago que morava fora da cidade e possuía maravilhoso segredo, graças ao qual as múmias conservavam absoluto frescor e aparência de vida; e assegurava ter visto o corpo da noiva de um seu irmão, embalsamado pelo sábio Colchis.
O conselho animou-me um pouco: se o informante dizia a verdade, restava-me, ao menos, a consolação de contemplar, quando quisesse, o rosto encantador da querida morta.
Mais que depressa, tomei a liteira e fui procurar o mago.
Parei defronte a uma gruta cavada na rocha, em cujo pórtico estava sentado um negrinho, a preparar pacotes de ervas secas.
Respondendo à minha pergunta, disse que o sábio Colchis estava em casa e chamou outro serviçal para guiar-me.
Atravessei primeiramente uma caverna cheia de ervas, vidros e instrumentos de formas bizarras; a seguir, um pequeno corredor abobadado e uma segunda gruta menor, iluminada por algumas tochas e quase vazia; várias saídas pareciam dissimuladas por cortinas de couro.
Junto de enorme mesa de pedra escura, estava assentado o sábio, lendo um papiro à luz da lâmpada.
Ao avistar-me, levantou-se tossindo e fitou-me com olhar perscrutador.
Era um homem alto, magro e um tanto corcunda; as barbas brancas lhe caíam sobre as vestes negras e um gorro egípcio ocultava parte da fronte.
Trocamos cumprimentos.
Indagou o motivo da minha visita.
Estremeci e examinei-o curioso.
Onde teria ouvido aquela voz de timbre metálico?
Onde teria visto aquele rosto pálido e anguloso, aqueles olhos sombrios e profundos?
Certo, não me era estranho, mas quando, onde, em que circunstâncias nos encontráramos não saberia dizê-lo.
Também ele não pareceu reconhecer-me e fixou cuidadosamente o preço e as condições do embalsamamento de Henaís.
Concordei com todas as suas exigências e prometi mandar-lhe o cadáver nessa mesma noite.
Enquanto aguardava impaciente o resultado do trabalho de Colchis, triste episódio se propalou em Tanis com a maior repercussão.
Omifer e Smaragda ali tinham ido para assistir ao casamento de um primo.
Ambos compartilhavam sinceramente da minha mágoa, pois muitas vezes nos visitamos.
Certa manhã, um escravo titubeante foi comunicar-me que a jovem senhora acabava de expirar, após dezoito horas de agonia, em consequência da mordedura de uma serpente escondida numa cesta de flores que lhe fora levada por um desconhecido.
Penalizado, fui visitar Omifer, que me contou o deplorável acontecimento.
Para confortá-lo um pouco no seu triste desespero, aconselhei-o a que confiasse igualmente a Colchis, o embalsamamento de Smaragda.
Conheci-o muito tarde para salvar Henaís, acrescentei, mas o seu saber é imenso e dizem que conserva o cadáver com todas as aparências de vida.
Esta manhã, mandou-me dizer que enviasse o ataúde e dentro de dois ou três dias poderia ir buscar a múmia de minha mulher.
— Vem comigo, ficarás conhecendo a casa dele e julgarás, por ti mesmo, da habilidade desse mago e se convém confiar-lhe o corpo de sua esposa — reiterei-lhe, convicto.
Concordou e partimos imediatamente.
Atendendo ao meu pedido para que mostrasse o seu trabalho ao amigo, Colchis nos levou à pequenina sala onde se achava um fardo alongado, coberto com um pano de seda.
Acendeu algumas tochas e retirou depois o véu, fazendo-nos sinal para nos aproximarmos.
Com um grito mesclado de alegria e desespero, caí de joelhos: ali estava Henaís estendida como se estivesse viva; a tez morena e transparente conservava todo o aveludado natural; os lábios, o rosto, o esmalte natural dos olhos que pareciam fitar-me!
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 07, 2017 8:15 pm

Não fora as faixas que a envolviam até o pescoço, teria podido iludir-me e supor que a minha amada ia levantar-se, como vestida para uma festa.
— Sábio Colchis, agradeço-te — disse, finalmente, ao levantar-me — com excepção da vida, que é um dom dos deuses, tu ma restituis, tal como a amei.
Quando poderei mandar buscar o ataúde?
— Amanhã de manhã — respondeu.
Despedi-me, deixando o mago com Omifer deslumbrado.
A vida em Tanis tornou-se-me insuportável; resolvi abandonar o serviço e transferir-me para Thebas com o corpo de Henaís, que eu desejava depositar no jazigo dos meus antepassados, ali me estabelecendo definitivamente, porque meu bom pai havia recentemente falecido.
Ilsiris se casara com um jovem sacerdote de Heliópolis, onde morava, e minha mãe, sozinha, desejava a minha companhia, mas por coisa alguma deste mundo deixaria o lugar onde repousava o seu caro Mentuhotep.
Passaram-se mais de doze anos e não contraí novas núpcias, dedicando-me unicamente à educação dos dois filhos e da pequenina Henaís, que herdara a beleza e a bondade maternas.
Uma tarde, ao regressar do cemitério, onde se havia celebrado pomposa cerimónia e onde me demorara no jazigo da família, ao atravessar o rio atravancado, minha embarcação colidiu tão desastradamente com outra, que soçobrou.
Mau nadador, gritei e me debati algum tempo, mas a escuridão impediu que os companheiros me localizassem, enquanto a água me entrava pelos ouvidos e pela boca, asfixiando-me.
Horrível aflição!
A cabeça rodava, tudo rodopiava e sibilava em torno de mim, dando-me a impressão de rolar para um abismo sem fundo.
Depois, perdi os sentidos.
Ao despertar, flutuava balançando-me ligeiramente num espaço transparente, sem poder dar conta da situação, encontrava-me normalmente vestido e enxuto, apesar do tremendo mergulho e, todavia, achava-me ainda no bojo do Nilo, pois via distintamente as duas margens, as pessoas que o atravessavam, etc.; enfim, percebi meus dois filhos numa barca cheia de mergulhadores!
Desolados, sondavam o rio em todas as direcções.
A despeito dos meus gritos e gestos, não me viram e passaram junto a mim.
Comecei, então, a me sentir mal:
que significava tudo aquilo?
Porque me encontrava ali, impossibilitado de retornar à casa, como tanto desejava?
Donde provinha aquela estranha multidão que pululava ao redor de mim balançando-se no ar, ou sobre as ondas e mesmo no fundo do rio?
Reconhecera vários dos que ali se encontravam, mas todos já falecidos de muitos anos.
Apoderou-se de mim intenso desejo de abandonar o local; num instante, acreditei elevar-me no espaço, mas, dor aguda no cérebro e um calor que parecia consumir o corpo aturdiram-me inteiramente.
Quando recobrei a consciência, notei que ainda estava sobre as águas, mas o cenário havia mudado:
o grande e sólido edifício rodeado de palmeiras, que se reflectia nas ondas transparentes, era o Templo de Isis, em Tanis.
A entrada, vagava um homem com as vestes rotas e ensanguentadas, a torcer as mãos, desesperado; depois, ajoelhado, batendo com a cabeça no solo.
De repente, estremeci:
aquele desgraçado era Mena, o pobre amigo desaparecido havia muitos anos!
Quando a caravana a que ele se juntara voltou a Tanis, o sobrinho do nosso intendente contou que, durante a viagem, Mena, extravagante e versátil como sempre, havia mudado de ideia e assim, em lugar de acompanhá-los até a Síria, como ficara combinado, reuniu-se a outra caravana e seguiu rumo A Babilónia.
Desde então, nunca mais se ouviu falar dele.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 07, 2017 8:15 pm

— Mena! — exclamei — e ao mesmo tempo um jacto de centelhas me esguichou do cérebro, indo tocar o dele.
Percebeu-me e aproximou-se.
— Pobre amigo, de onde vens e que fazes aqui? - Perguntei.
Contou-me então que durante a viagem sua caravana fora surpreendida e atacada, à noite, por um bando de malfeitores, sendo ele morto com uma facada.
Quando recobrei os sentidos — continuou — já me encontrava aqui, donde não posso afastar-me, obrigado a contemplar o horroroso espectáculo que me alucina.
Vem comigo, talvez possa ajudar-me a libertar Menchtu — terminou, vertendo lagrimas que pareciam gotas de fogo.
Como louco acompanhei-o até um sítio afastado do Templo, interdito aos profanos, e lá, numa espécie de cela fechada por enorme pedra, vi Menchtu, a infeliz sacerdotisa por ele seduzida!
Parecia enlouquecida, descabelada, vestes trapejantes, a dar com a cabeça na parede da estreita prisão fracamente, iluminada por uma lâmpada suspensa da abóbada; depois, dando pontapés numa bilha vazia, rolava pelo chão, roendo os dedos com gritos horrorosos, entremeados com o nome de Mena, a quem ora invocava apaixonadamente, ora maldizia por tê-la abandonado.
Impressionado com o que via quis ajudar o amigo, que fazia esforço sobrenatural para remover a pedra que vedava a entrada.
Esforço inútil, nada conseguimos, embora vendo tudo que se passava no interior.
Diante da minha impotência fiquei desanimado, resolvi abandonar aquele sítio pavoroso e, dessa vez, consegui deslocar-me mais facilmente.
Qual folha levada pelo vento, deslizei na atmosfera:
diante de alguns rochedos pardacentos, pareceu-me que me detinha, e subitamente recordei que ali havia residido o mágico que embalsamara Henaís.
Procurei a entrada, mas não pude encontrá-la logo.
A seguir, notei que estava murada pela parte interior e, por fora, dissimulada com uma grande pedra.
Surpreendi-me por atravessar facilmente esse obstáculo e encontrar-me no interior da gruta, onde, pela primeira vez, falara com o sábio.
Assombrado, tudo observei:
um largo facho de luz azulada e cintilante iluminava a sala, concentrando-se no centro, ao redor de um homem assentado no chão, de braços cruzados.
Um pouco acima, ligado a ele por larga faixa de fogo, pairava o duplo desse personagem, mais transparente, mais remoçado, porém numa completa imobilidade:
era Colchis!
Olhei-o sem nada compreender de tudo aquilo, quando um riso sarcástico e desdenhoso fez-me estremecer e só então notei que, junto do adormecido, havia um ataúde com o corpo de Smaragda, admiravelmente embalsamado, tendo na borda, sentada, uma segunda Smaragda perfeitamente viva e que continuava a rir.
— Estas louco, Necho, pois nem agora reconheces o miserável Pinehas; foi ele quem levou a serpente escondida sob as flores; ele quem envenenou Omifer para ficar com minha múmia.
Querendo fugir à responsabilidade, pôs-se em letargia, a fim de enganar a divindade; mas ele despertará e nós aguardamos esse momento — eu e todas as vítimas do seu saber mal empregado.
Na realidade eu distinguia atrás de Smaragda uma multidão de seres horrorosos, de rostos disformes, uns com fermentos que exalavam odor nauseabundo, outros com punhais de pontas fosforescentes, todos contemplando Pinehas com ódio e ferocidade, pedindo o seu despertar com imprecações tremendas.
Apavorado, eu não pensava mais que em fugir e quase no mesmo instante a gruta e seus horríveis ocupantes esmaeceram, parecendo desmantelar-se.
Depois encontrei-me, numa atmosfera cinzenta, oceânica, ilimitada.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 07, 2017 8:15 pm

Quanto tempo fiquei, desesperado e só, nesse deserto nevoento não saberia dizê-lo, senão que, certa feita, não sabendo o que fazer, nem para onde ir, dirigia a Osíris ardente suplica para que me socorresse, me livrasse daquela situação miserável e imerecida, pois estava certo de não haver cometido crime algum.
Instantaneamente quase, surgiu diante de mim um ser luminoso, de expressão calma e terna, que me falou bondosamente:
— É verdade que nada fizeste, mas justamente a consequência de uma vida tão inútil é que te faz sofrer!
Não cometeste crimes, não fizeste mal a ninguém, dizes...
Mas, isso porque rico, feliz, amado, satisfeito em todos os teus desejos, jamais experimentaste grandes tentações.
Diz-me, porem: que bem praticaste?
Deste do teu supérfluo aos pobres?
Mitigaste-lhes a miséria?
Tens-te em conta de bom senhor, interessado pelos teus criados, que, embora escravos, são teus semelhantes?
Cuidaste-os nas suas enfermidades, amparaste os na velhice?
Ou, pelo menos, trabalhaste intelectualmente para aumentar teus conhecimentos e tua espiritualidade?
Tu nada fizeste neste sentido — continuou a entidade — garantido pela condição social e pela fortuna, evitaste o contacto das misérias humanas, levando vida preguiçosa e instintiva, de irracional.
Sim, somente gozaste e agora que, despojado da carne, como espírito, continuas a errar preguiçosamente sem destino, perguntas por que sofres?
Nada sabes, nenhuma inclinação experimentas, apenas existes e sofres!
Compreendi que meu guia tinha razão e humilhei-me intimamente.
— Então que devo fazer para ser útil e não mais sofrer a inactividade?
— Vai e ora por todos os sofredores que encontrares; esclarece-lhes a própria condição em que se encontram; fala-lhes do arrependimento, persuade-os a buscarem a consolação do trabalho digno do espírito, como operários do Universo, ou uma expiação terrena, porque a actividade, o arrependimento, e perdão das ofensas, são indispensáveis a todos os espíritos que aspiram o bem.
Esvaneceu-se a aparição e engolfei-me em ardente prece, implorando ao Criador a força para reparar minhas faltas.
Lembrei-me depois de Henaís, que ainda não tinha visto e, instantaneamente, me encontrei no jazigo de nossa família, avistando-a só e desolada, a chamar por mim.
Não posso descrever a alegria desse encontro!
Expliquei-lhe tudo e, juntos, percorremos o espaço, procurando nossos irmãos mergulhados na dor, sustentando-os com as nossas preces e conselhos.
Ocorreu-me, certa feita, a ideia de ir ao sítio onde haviam perecido nosso rei e seus valentes guerreiros.
Talvez, também eles se debatessem em angústia, julgando-se ainda vivos na Terra.
Apenas idealizado esse desejo, já me encontrava no lugar fatídico.
Diante de mim o Mar dos Sargaços e, sob as vagas, ainda se debatendo em medonha agonia, o nosso malogrado exército.
Ouvia gritos soturnos, desesperado retinir de armas, relinchos de animais enlouquecidos, e todo esse espantoso combate com a morte parecia não ter fim!
Notei de repente que não estava só; sob as águas espumantes caminhava, triste e inquieto, Mernephtah tentando em vão explicar a nova situação àquelas sombras perturbadas por suas paixões e ligadas por seu obscurantismo a esse lugar de sofrimento.
Vendo-me, disse:
— Tu também estás aqui, Necho?
Vês? Estes infelizes não compreendem o próprio estado e nada posso fazer em seu favor.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 07, 2017 8:15 pm

— Ora por eles — respondi inspirado por uma voz do Alto.
O Faraó-espectro elevou ao Criador ardente prece, a fim de receber força e esclarecimento e poder auxiliar aqueles a quem ele próprio arrastara ao báratro.
Imediatamente pareceu transfigurar-se, e um apelo semelhante e longínquo trovão fez convergir para ele a atenção geral.
Então falou:
— Insensatos! — acalmai vossa fúria impotente, voltai à razão, ponderai:
o causador da vossa perda vai entrar no mundo dos espíritos e vamos ao seu encontro.
Lançou-se no espaço e, qual onda pardacenta, a nuvem de inteligências o acompanhou, guiada por sua vontade.
Com a rapidez do pensamento, atingimos alto cimo de árida montanha.
Estendido sobre o manto, cabeça apoiada numa pedra, lobriguei um homem de rosto desfigurado, barba e cabeleira grisalhas.
Apenas os olhos de águia cheios de inteligência e audácia, não haviam mudado. Era Moisés.
Desiludido, esgotado de alma e corpo, ali morria só, com seu orgulho — último escudo, que lhe restava.
E com o olhar espiritual revia o Egipto, toda a sua vida se desenrolava, paulatinamente, diante dele!
Doloroso regresso à pátria espiritual.
Assaltado por seus inimigos flutuantes, debatia-se dolorosamente, quando um chamado partindo do espaço se fez ouvir:
— Espírito que te serviste do nome do Eterno, vem prestar contas de teus actos!

Necho
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 07, 2017 8:16 pm

NOTA DO ESPIRITO AUTOR

Creio que será Interessante, para os meus leitores, saber como se encontra o Espírito de um faquir durante o estado de letargia, ou de qualquer pessoa nessa condição.
Darei assim algumas breves explicações.
As sensações do espírito durante esse estado são agradáveis.
A Inactividade do pensamento é quase completa; o bem-estar do perispírito atinge o apogeu, porque, destacado do corpo ao qual apenas fica retido pela artéria principal, paira num espaço de fluído azulado, fosfórico e renovador, que é a fonte onde a Terra se abastece dos sucos vitais necessários à manutenção da vida material.
O perispírito absorve todas as partículas indispensáveis ao sustento do corpo abandonado e lhas veicula por intermédio do canal da grande artéria vital, à qual sobrepaira, retido junto do corpo.
Se assim não fosse, o corpo, privado de todo o alimento, deixaria de funcionar e, como está provado, sem funcionamento cessaria a vida e teria Inicio a decomposição.
Com relação ao caso de que nos ocupamos, apesar de um estado de morte aparente, os órgãos continuam a exercer todas as funções indispensáveis para manter a união do corpo ao Espírito, facultando, além disso, a este último, reentrar naquele, caso seja preciso, activando-o como anteriormente. Entretanto, esse bem-estar, essa beatitude do perispírito, só ocorre quando ele está separado do corpo, quase inteiramente. Nos casos de letargia, em que os órgãos são submetidos ao estado de torpor, sem que o perispírito deixe o corpo, o espírito vê e ouve tudo que se passa ao redor e experimenta todas as angústias do seu estado.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 07, 2017 8:16 pm

OBSERVAÇAO SUPLEMENTAR DO ESPIRITO AUTOR

Alguns amigos meus, que leram esta obra ainda em manuscrito admiraram-se que em um país policiado como o Egipto, com o governo firmemente estabelecido, um único homem (qualquer que fosse, aliás, sua inteligência e audácia) ousasse tão abertamente afrontar um povo inteiro e o seu rei, que dispunha de todos os recursos de um poder, de um exército forte e de apoio sacerdotal, sem que o mandassem prender e justificar como elemento perigoso, não só para lhe anular o prestígio ou, ao menos, consumir com ele secretamente.
Na suposição de que a mesma ideia possa ocorrer a mais de um dos meus leitores, quis que se acrescentasse ao manuscrito a resposta que dei àqueles amigos.
Não há dúvida de que, em sua legislação, na arte e mesmo nas ciências, o Egipto havia atingido elevado grau de civilização, mas isso não impedia que o povo (com excepção de algumas poucas personalidades), se mantivesse na maior superstição; a própria religião, resguardada pelo sacerdócio, de véus e mistérios, assim o ensejava.
Moisés que, força é confessá-lo, era um impostor, porquanto utilizava as forças da Natureza, desconhecidas do vulgo, havia granjeado para a sua pessoa uma tal auréola de temerosa superstição, por uma série de factos cujo relato excederia o quadro de um romance, que ninguém, entre o povo desorientado, seria capaz de levantar a mão contra ele, receoso de que o perigoso mago destruísse o temerário e quantos lhe pertenciam.
Assim entre outros casos, um egípcio que jogara uma pedra à cabeça de Moisés foi por ele amaldiçoado e, três dias depois graças a um veneno habilmente administrado por criado hebreu, teve a família atacada de terrível enfermidade:
com o corpo cheio de chagas em decomposição lenta, morreu vitima de atrozes sofrimentos.
Idênticos factos, aliás exagerados pela voz popular, produziam feitos extraordinários.
Quando Moisés anunciou, por intermédio dos israelitas, que no dia em que fosse vítima de algum atentado o mundo acabaria, a multidão estúpida acreditou e tê-lo-ia defendido mesmo contra os próprios soldados,
Mernephtah e seus conselheiros mais esclarecidos tentaram, então, eliminá-lo secretamente, para evitar o pânico.
Um destacamento de soldados sob comando de oficiais escolhidos, foi mandado, certa noite, cercar-lhe a residência e no momento de forçarem a porta romperam labaredas de todas as frestas: apesar do perigo evidente, os guerreiros, que eram veteranos experimentados se precipitaram para o interior, mas, ao verem Moisés de pé no meio do fogo, com a roupa intacta, aureolado por intensa claridade, perderam a coragem temendo o sobrenatural, e fugiram.
Outra feita, oito oficiais valentes juraram, à minha vista, que o seguiram passo a passo até abatê-lo, ainda que isso lhes custasse a vida.
Necho menciona em seu depoimento que, certa vez Moisés desaparecera por muito tempo; havia deixado Tanis para fiscalizar pessoalmente as suas próprias determinações.
Justamente nessa ocasião, foi que os citados oficiais o surpreenderam perto de uma cidade próxima, apenas acompanhado por dois hebreus.
Atiraram-se a ele.
Os dois israelitas tombaram imediatamente e Moisés foi alcançado por alguns golpes de punhal, mas, revestido certamente de algum escudo protector, ficou incólume e dando, então, um salto atrás, retirou do cinto grande faca, ferindo o primeiro assaltante, enquanto com um soco repelia o segundo; mal a ponta da arma tocou o ombro do primeiro e sua mão à fronte do segundo, ambos caíram como fulminados por um raio; a mesma sorte tiveram os demais.
Escapou apenas um, que fugiu como louco, vindo contar-me o sucedido.
Mandei buscar os corpos dos infelizes militares, os quais foram encontrados horrorosamente decompostos, notando-se ao redor das feridas, e das pequenas incisões, parecendo arranhaduras, um círculo negro como de queimaduras.
Essas tentativas e muitas outras ficaram ignoradas, mesmo de Necho.
Entretanto, exasperado, eu teria sacrificado a metade dos meus súbditos para deter o insolente e descarregar sobre ele a minha vingança.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Ordenava, pois, sempre, novas tentativas, até que uma pareceu, enfim, resultar eficiente.
Moisés foi agarrado de surpresa, e levado secretamente ao palácio, e, de pés e mãos atados, encerrado numa sala com dois soldados e todas, as saídas guardadas por destacamentos armados.
Pretendia mandar decapitá-lo publicamente, no dia seguinte.
Quando, porém, horas mais tarde, foram buscá-lo para que me fosse apresentado encontraram a sala vazia, os dois soldados profundamente adormecidos e as cordas e correntes amontoadas no solo.
(Não me arguam de narrar coisas impossíveis:
para os que estudaram os fenómenos mediúnicos, a explicação se impõe por si mesma; para os demais, recordarei um facto perfeitamente idêntico, consagrado pela Igreja; a libertação miraculosa do Apóstolo Pedro, que desembaraçado das cadeias, saiu igualmente da prisão, apesar dos guardas lá postados por Herodes).
Este último facto tornou-se público, ocasionando verdadeiro pânico.
Quanto a Mernephtah, estava convencido de que enfrentava um homem mais que perigoso, não só pela astúcia, como pelo saber, muito superior ao dos sábios egípcios, o que o tornava quase invulnerável; assim a força do Faraó consistia em não ceder e lutar contra as calamidades, precisando para isso de toda a confiança e estima que os súbditos dedicavam ao seu soberano, para manter a ordem entre as massas desvairadas.
Moisés, ao contrário, dispunha de milhares de serpentes que deslizavam por toda parte no cumprimento de suas pérfidas ordens.
Será um erro, entretanto, acreditar que tudo se passava calmamente, sem encontros entre egípcios e hebreus.
Na realidade houve inúmeros assassinatos e mesmo massacres parciais; apenas ninguém ousou tocar na pessoa de Moisés, pelos motivos acima mencionados, tão poderosos, que o Faraó, apesar do seu poder e do seu ódio, não pôde abater a cabeça insolente e ambiciosa, que, em nome do Eterno, sancionava o roubo e assassínio, havendo por bons todos os meios que conduziam ao fim.
Os monumentos egípcios silenciam essa época de subversão e desgraça nacional, e o que a Bíblia relata sobre Moisés foi escrito por seus irmãos hebreus, parciais e animados unicamente do desejo de exaltar a grandeza do seu povo.
Não obstante, nesse relato, o leitor atento encontrará elementos para retractar o verdadeiro Moisés, grande legislador e homem de génio, porém mau, arrebatado, ambicioso, inescrupuloso, que usurpou a direcção de um povo sobre o qual nenhum direito tinha: dum povo que ele não estimava, antes, detestava e de que se serviu para ferir o Egipto e erguer um trono para si próprio.
É verdade que pregou a existência de um Deus único e pelos Dez Mandamentos estabeleceu uma base para o futuro edifício da cristandade, mas também lhe pertencerá a responsabilidade de ter feito do Criador do Universo, do Ser infinitamente grande, sábio e misericordioso, o Deus parcial, vingador e sanguinário do Velho Testamento.

ROCHESTER

FIM

§.§.§- O-canto-da-ave
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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