Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 26, 2016 8:44 pm

Ardente prece partiu do meu coração a favor daquele que, no emaranhado das paixões terrestres, havia dito em nome do Eterno:
“olho por olho, dente por dente”, mas, na hora da morte, repelia espontaneamente essa máxima.
Com fé e amor, dirigia-me a esse Deus único e poderoso, que tem a clemência por apanágio, e que a dispensa da mesma forma ao mais miserável escravo, como ao profeta fracassado na sua missão.
Imediatamente, apresentou-se uma entidade radiante de luz, circundada por um clarão cintilante, enquanto uma vibração harmoniosa que nenhum som humano poderia imitar, parecia dizer:
— Que aquele dentre vós, espíritos vingadores, que não lutou contra ele senão pelo bem, despreocupado de ambição, de cálculo ou de rivalidade, o julgue e condene.
Recuaram e tremeram as massas.
Ninguém havia agido desinteressadamente, desde o Faraó, que por orgulho e rapacidade, havia perseguido o povo escravizado para aproveitar-lhe os serviços, até os hebreus revoltados, que, por inveja, haviam sacrificado os seus irmãos para apossar-se do lugar de chefe.
Condenados pela própria consciência, as sombras vingadoras empalideceram e se confundiram na bruma, enquanto um facho de fogo cortava o último laço que ligava a alma ao corpo material de Moisés.
Logo, o perispírito balançava no espaço transparente — nossa pátria eterna — e o espírito luminoso murmurou doce e compassivo:
— “Pobre cego!
Vês o que resta da tua passagem pela Terra?
Um corpo transparente e uma alma culposa; todo o poder, toda a riqueza, lá ficaram nesse raio luminoso que espelha o teu passado.
Não te seria mais útil que esse raio reflectisse a pobreza, a humildade e a sabedoria e criaturas amparadas pela tua caridade e clemência em lugar desta legião horrorosa de acusadores, constituíssem uma falange de amigos devotados em te seguir?
Elevando-se aqui, onde a imensidade dos sistemas planetários reduz o homem a um átomo imponderável, limitado e enfraquecido no entendimento e na vontade, a ambição e os prazeres terrestres surgem em toda a sua nudez, pobres joguetes trabalhados pelas mãos de espíritos inferiores".
Do fundo do infinito elevaram-se vibrações que ecoaram no espaço com majestade esmagadora, e dessas vibrações harmoniosas partiu o sentido seguinte:
— “Espírito!
Tu que te serviste do nome do Eterno e Misericordioso Criador do Universo, vem prestar conta dos teus actos!”
Vibrações tumultuosas envolveram o perispírito flutuante de Moisés; depois, uma nuvem o elevou, eclipsando-o aos nossos olhos espirituais.
Do meu coração, entretanto, brotou ardente súplica, no sentido de poder comparecer ao Tribunal dos Supremos Juízes, que eu avistava ao longe, cercado de deslumbrante fulgor.
E esse apelo lhe franqueou uma passagem através das massas transparentes dos inimigos, porque era a voz do amor eterno.

THERMUTIS
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 26, 2016 8:45 pm

NARRATIVA DO ESPÍRITO DE PINEHAS
(mais tarde Tibério)

Certa noite, quando meu corpo terrestre mergulhou em profundo sono, cinzento vapor me envolveu e depois, ao dissipar-se pouco a pouco, vi que uma fita de fogo me atraía para um ser fluídico, no qual reconheci Rochester, meu perseguidor, hábil perscrutador de vidas e de crimes sepultados no olvido, e que ele desenrola, impiedosamente, aos olhos dos homens, para lhes servir de ensinamento.
— Não! não quero; desta vez não quero que as minhas quedas e torturas morais sirvam ao que chamas tua missão — protestei energicamente.
Não obtive nenhuma resposta, porém uma vontade superior continuava a reter-me no espaço.
Depois, pareceu-me atravessar uma camada escura e compacta como um rochedo e, ao meu olhar conturbado, surgiu espaçosa gruta, fracamente iluminada por uma claridade azulada e vaulante.
Estremeci.
Quem seria aquela sombra pálida, de braços contorcidos e encarquilhados, que, qual teia de aranha, flutuava junto de um sarcófago em ruínas?
Nesse sarcófago, meio coberto por uma tampa gasta pelos séculos, jazia a múmia de uma mulher, tão fresca e bela, que parecia zombar da acção do tempo e cujos olhos de esmalte como que me diziam:
— Eis-te, enfim!
— Pinehas! — murmurou Rochester a meu lado.
Atravessou meu perispírito — o qual estava trémulo de emoção e terror — uma corrente eléctrica.
Sim, recordava-me:
a sombra daquele homem de cabelos pretos e feições semíticas, era o reflexo de mim mesmo, Pinehas, contemporâneo de Moisés, o grande legislador hebreu e ela, Smaragda, ali dormia o sono eterno!
Não, não era ela, era apenas o corpo da orgulhosa e vingativa egípcia, que repousava naquele sarcófago; seu espírito estava longe.
As recordações assaltaram-me esmagadoras em turbilhão.
Meu peito arquejava; queria rever os lugares que foram teatro de tantos acontecimentos.
À força de vontade, meu olhar atravessou o rochedo e contemplou a planície coberta de destroços, onde se ostentava, outrora, a grande a populosa cidade que habitara.
Templos desmoronados, obeliscos em frangalhos, uns restos de paredes do palácio dos Faraós, era o que restava da antiga Tanis.
Entre os montículos de areia que cobrem as ruínas de templos e palácios rondam os chacais ou circula, furtivamente, algum ladrão nativo.
Só o Nilo continuava o mesmo e, como tantos séculos antes, corria calmo e silencioso, reflectindo na superfície polida das águas os argênteos raios do luar.
Meu passado — pensei...
Mas, quem pode ser Rochester pura desejar evocar, precisamente, esta existência?
Meu olhar fixou-se nele e... (estranha lassidão d’alma sempre escrava das aparências) tudo esquecendo, curvei-me ante a sombra que ali flutuava, purpúreo manto sobre os ombros, ostentando na fronte a coroa mística dos soberanos do Nilo.
Pinehas, o egípcio, não esquecera o respeito devido a Mernephtah, seu poderoso Faraó.
Um riso ferino de escarninho fez-me voltar a mim.
Envergonhado e furioso, revi-me em Tibério.
Rochester falou:
— Pinehas, deves relatar essa vida; preciso de uma grande obra para acalmar minha alma ferida e sofredora; para isso, escolhi o passado longínquo e obscuro; desejo fazer reviver o antigo Egipto, Moisés, e os graves acontecimentos de que fomos testemunhas.
— Jamais — respondi, recordando, com orgulho e satisfação essa vida laboriosa, cheia de descobertas científicas.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 26, 2016 8:45 pm

Queres que confesse esse passado interessante para te tornares mais agradável àqueles a quem odeio, testamento que ele deseja extorquir, ele que taxa e negocia seu amor na proporção dos futuros benefícios dos teus labores; a esse Rhadamés cuja brutalidade descarada triunfou em tantas existências e conquistou a amizade de Smaragda, que não tem um olhar para mim, modesto e silencioso operário que não deseja sobressair, nem valorizar-se a si mesmo.
Não quero trabalhar para ele.
Acreditas que ignore ou tenha esquecido o presente? — acrescentei, fitando enraivecido o perispírito embaçado de Rochester, cuja fronte, inclinada, denotava melancólico desânimo.
Sei que teu querido filho, o ídolo do teu coração(1) tem quase conquistado o teu médium, instrumento que tão bem manejam para flagelar teus inimigos.
O coração brutal a quem confias, mãos tão rudes entre as quais põe tua pena frágil e delicada, o tem quase dominado, porque esqueces, sempre, que uma implacável severidade só pode dominar o ser ingrato que proteges tão obstinadamente.
A fronte fluídica se ergueu e o ligeiro crepitar-me fez compreender que Rochester se entregava a activo trabalho eléctrico.
Depois, pondo-me em contacto com vários filamentos fluídicos, disse:
— Olha e procura acalmar teus ciúmes.
Raio extenso e luminoso formou-se, descortinando uma paisagem bem diferente da que acabava de contemplar.
No meio de terrenos pantanosos vi, então, a moderna Palmira do Norte; em lugar de palmeiras isoladas, estendiam-se umbrosos pinheirais; depois, pedregosa estrada orlada de árvores e uma aldeia e casinhas de madeira, de arquitectura modesta, rodeada de pequenos jardins de vegetação exótica e peculiar das zonas frias, como os próprios homens desse país setentrional.
Vi, no segundo andar de uma dessas vivendas, então banhadas pela lua, junto à janela aberta, uma moça de vestes, pitorescas, à eslava.
Semblante mimoso, pálido e abatido, grandes olhos brilhantes, contemplava a cadeia de florestas que delimitava o horizonte, como se estivesse mergulhada em profundo sonho.
— Smaragda! — pensei — e vi que seus pensamentos estavam exclusivamente voltados para Rochester e suas obras.
— Pois bem! - murmurou Rochester - pensa ela em quem odeias?
— Neste momento, não; mas, se o seu pensamento se voltar para ele, verei talvez a tortura de um amor insatisfeito.
Um feixe luminoso partiu do cérebro de Rochester e feriu o da moça com violento choque eléctrico, surgindo logo à sua visão espiritual a figura de um jovem militar uniformizado, de rosto pequenino, emoldurado por alourada barba e olhos azuis, de crueldade fria e arrogante.
Meu perispírito tremeu e todo meu desejo se concentrou em recolher a impressão que esse quadro ia causar no espírito da Smaragda actual.
Ela estremeceu, corou vivamente e passou a mão fina e branca pela testa; no mesmo instante, um jacto de fogo lhe jorrou do coração e do cérebro, repelindo e devorando a imagem que acabava de se lhe apresentar.
O fogo de desprezo fazia palpitar todas as fibras dessa alma orgulhosa, cruel mesmo, quando ofendida na sua dignidade feminina.
Uma onda de satisfação invadiu minha alma; acabava de convencer-me que o antigo Rhadamés não lhe inspirava mais que aversão e desprezo; e no momento a Smaragda de outrora repelia energicamente qualquer lembrança do vilão.
Retirando o colar de pérolas que lhe ornava o pescoço, ela preparou-se para repousar, e antes de fechar a janela, inclinou-se para fora e chamou com voz cristalina e pura:
— Venham, que é muito tarde.
Uma conversa que se percebia no jardim cessou e uma voz feminina respondeu:
— Lá iremos.
Depois, tudo voltou ao silêncio.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 26, 2016 8:45 pm

— Rendo-me — disse a Rochester, que sorria maliciosamente — darei meu depoimento.
E eis como, nessa noite do ano de 1885, Rochester criou o seu “Fará Mernephtah”.
Nasci em Tanis, em modesta casa de madeira, e tive por mãe a egípcia Kermosa.
Nenhuma lembrança conservo de meu pai, que perdi em tenra idade.
Cresci solitário, abandonado a mim mesmo, pois minha guardiã, uma preta velha, passava a maior parte do tempo junto a minha mãe, sempre ocupada, bem como os demais fâmulos.
Somente nas horas de refeições lembravam-se de mim.
Não gostava de minha mãe, cujo carácter impertinente e violento inspirava-me temor e repugnância.
Ela passava o dia lodo na cozinha, entre os criados, indagando e comentando a vida alheia.
Uma tal camaradagem, porém, era muitas vezes perturbada por cenas espantosas, de vez que costumava se enraivecer à toa, e então, espumava, sapateava, quebrava a louça e chovia pancada, mesmo sobre mim, se lhe estivesse ao alcance. Horrorizado e revoltado, refugiava-me no grande jardim da vivenda, dele fazendo meu retiro predilecto.
Esse jardim, outrora belíssimo, estava agora abandonado e inculto, mas a natureza desse abençoado país lhe prodigalizava seus tesouros — frutas e flores em abundância.
Deitado na relva, à sombra de algum caramanchão de rosas ou jasmins, ali passava horas e horas a sonhar ou observar o que ocorria em torno.
Por isso, notava a incessante actividade das formigas, os pássaros tecendo ninhos, e ouvia o pregão estridente dos vendedores d’água e de frutas, que perambulavam na rua.
Pouco a pouco, veio-me a ideia de que todos, homens e animais, se ocupavam em alguma coisa, excepto eu.
Assim reflectindo, senti um desgosto e um vácuo indefiníveis.
Aquela vida ociosa estava se tornando insuportável, até que um dia me aproximei de minha mãe (contava então quatorze anos) e lhe disse:
— Quando estou no jardim, noto em torno de mim uma actividade constante; as formigas conduzem os ovos, os pássaros constroem ninhos, as pessoas na rua vendem qualquer coisa ou vão aos seus negócios; só eu jamais saio e de nada me ocupo; morro de tédio; dá-me alguma coisa para fazer.
Ouvindo essa inesperada confissão, minha mãe, surpresa, deixou cair a romã que estava comendo e abateu-se na cadeira, rindo até às lágrimas.
Por fim, enxugando os olhos, disse:
— Tu me fazes rir, Pinehas!
Que te falta, então, menino estúpido?
Comes o que queres, dormes à vontade, aborreces-te porque queres; acaso não te basta isso?
Agradece aos deuses o te haverem dado uma mãe que cuida da casa e de todos os trabalhos com energia e habilidade tão raras que jamais teve necessidade de homem para auxiliá-la; mas, se instas em fazer alguma coisa, toma esta cesta de vagens e descasca-as.
Assim fiz, assentado a um canto, mas enquanto descascava as vagens, entregava-me também aos próprios pensamentos e, assim, lembrei-me da festa de Osíris, a que tínhamos assistido, naquele ano, e dos sacerdotes erectos e majestosos!
Como todos, se inclinavam diante deles, classificando-os de sábios, de iniciados!
Certa feita, um deles veio Visitar minha mãe doente, deu-lhe um rolo de papiro e receitou, pondo-a boa.
Aprender o que sabiam os sacerdotes, isso sim, valia a pena; mas descascar ervilhas...
Amesquinhado, atirei longe a cesta e corri para o jardim, eterno retiro onde me entregara a cogitações íntimas.
Triste e amofinado, joguei-me sobre um banco de pedra no caramanchão de acácias, junto do muro.
Quanto tempo assim estive, não sei dizê-lo.
Recordo-me somente que foi um ruído seco que me fez estremecer.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 26, 2016 8:46 pm

Com grande espanto, vi que uma pequena porta (habilmente dissimulada e até então despercebida), acabava de abrir-se no muro e que um homem de estatura alta me fitava atentamente.
Esse desconhecido, cujos cabelos crespos, nariz aquilino e tez amarelada denunciavam origem semítica, trajava longa túnica de linho sob um manto escuro.
Os olhos negros, cheios de energia e astúcia, brilhavam sob as espessas sobrancelhas.
— Ah! És tu, Pinehas! — exclamou, atraindo-me e abraçando cordialmente.
Percebendo meu espanto, conduziu-me ao banco e acrescentou rindo:
— Não te assustes por te chamar pelo teu nome, pois sou um velho amigo.
Diz-me, entretanto, que fazes aqui sozinho e porque tens esse ar tão triste.
Fitei-o desconfiado, mas, sobrepondo a amargura à prudência, respondi:
— Aborreço-me. Nada faço.
Queria estudar, tornar-me sábio como os sacerdotes, preparar remédios eficazes como o médico que veio tratar minha mãe...
Minha mãe! Ela zomba de mim e manda-me descascar ervilhas.
O rosto do desconhecido iluminou-se.
— Ah! queres tornar-te sábio — disse batendo-me no ombro — deves aprender a ciência dos astros, conhecer as propriedades das plantas e os mistérios ensinados no Templo.
Tranquiliza-te, Pinehas, teu desejo será satisfeito, aprenderás tudo isso; agora, vai chamar Kermosa e volta com ela, sem dizer que estou aqui.
Parti correndo e busquei minha mãe, que me acompanhou ao jardim, intrigada com a minha alegria.
Ao defrontar o visitante, deu um grito de alegria, tão forte que recuei espantado.
— Enoch! — exclamou atirando-se-lhe ao pescoço — eis-te, enfim!
Onde estiveste tanto tempo e por que me abandonaste?
Aí está Pinehas!
— Sim — respondeu Enoch — eu já o tinha visto, porém, Kermosa, vejo que negligenciaste o rapaz, que devia ter estudado.
Qualquer dia vou apresentá-lo a Amenophis, quando vier visitar-me.
Quanto a mim, estive de visita a países longínquos, além do deserto, e com grande proveito; volto agora de Menphis, onde passei alguns anos, junto a um velho tio paralítico, que acaba de falecer legando-me considerável fortuna.
Eis-me aqui, pois, novamente em Tanis e poderemos ver-nos frequentemente.
Kermosa escutava-o radiante.
Depois mandou-me sair, ordenando absoluto segredo, que prometi guardar.
À noite não pude pregar olho; a impaciência em encontrar aquele que deveria ensinar-me tantas coisas me enfebrecia.
Passaram-se alguns dias sem qualquer novo incidente e já começava a perder as esperanças, quando, uma tarde, minha mãe me chamou ao quarto e me vestiu com cuidado todo particular; enfiou-me uma túnica branca como neve, mantida por cinto dourado; grande colar de ouro ao pescoço e boné egípcio. Uma vez pronto, ela me examinou com satisfação:
— Vendo-te, ninguém duvidarás sejas um filho de família abastada — disse.
Preparei-te assim, Pinehas, para impressionar Amenophis, que um dia suspirou pela bela Kermosa; é um poderoso sacerdote que vais conhecer, mas lembra-te de que os sacerdotes amam e apreciam tudo que brilha.
— Filho — concluiu dando-me uma capa — agora vai ao jardim e aguarda Enoch perto da porta.
Emocionado e desajeitado dentro da minha rica indumentária, fui assentar-me no banco, absorvido nos próprios pensamentos.
Aguardei longamente, e só ao cair da noite vi abrir-se, enfim, a pequena porta, e surgir Enoch, que me perguntou a meia-voz:
— Estás aí, Pinehas?
— Sim — respondi aproximando-me.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 27, 2016 8:40 pm

Apertou-me a mão e saímos.
Após atravessar o vasto jardim e um pequeno pátio, desembocamos numa rua que eu não conhecia.
Enoch caminhava apressado, em silêncio; devíamos percorrer várias outras para alcançar uma das portas da cidade, junto à qual meu guia abordou um escravo preto, de guarda a um carro atrelado a dois cavalos.
Enoch tomou das rédeas, ordenando-me que assentasse a seu lado, e prosseguimos.
Após rápido percurso, que muito me agradou, paramos na extremidade de um bairro, diante de uma casa de modesta aparência, circundada de jardim e de um muro muito alto.
Enoch saltou e bateu à porta que um criado abriu imediatamente.
O carro entrou num pátio deserto, iluminado por uma tocha.
Apeamos, penetrando por uma porta maciça, que se fechou de pronto.
Surpreso, notei que, enquanto a parte externa dessa mansão era sombria e modesta, o interior apresentava-se luxuoso e elegante.
Atravessamos diversas dependências, cujo mobiliário me maravilhou; depois, uma galeria que dava para o jardim, até chegar à sala brilhantemente iluminada e preparada para uma recepção.
Ao centro, mesa circundada de cadeiras de marfim, e sobre ela, uma cesta com frutas, uma taça de ouro e pequena ânfora do mesmo metal.
As paredes revestiam-se de esculturas de coloração tão fresca e tão viva, que logo me chamaram a atenção.
Fiquei admirado diante de um quadro representando um homem coroado e assentado num trono, tendo à frente outro, vestido como Enoch, de braços erguidos para o céu.
Outra pintura representava uma rua repleta de gente que parecia aclamar um personagem levado num carro, precedido de batedores e músicos empunhando longos clarins.
— Que vem a ser isso? — perguntei a Enoch.
— Esses quadros — respondeu com incontido suspiro — representam a história de um grande homem chamado José, que foi outrora o benfeitor de um povo hoje infeliz e oprimido, ao qual espero venhas a apreciar com o passar dos tempos.
Saiu e tive oportunidade de admirar as pinturas e a disposição da sala, até que voltou, passada uma hora, precedendo respeitosamente um homem de porte elevado, vestido de branco e ouro, como os sacerdotes.
Rosto muito belo e regular, transparecia grave melancolia, mas nos olhos percucientes brilhava uma inteligência tão viva e tão profunda, como jamais eu tinha visto.
(Esse homem era o sacerdote Amenophis, e mais adiante direi donde provinha essa amistosa intimidade entre o judeu e o representante da mais orgulhosa casta do Egipto.)
— Aí está Pinehas, de quem te falei — disse Enoch, apontando-me.
Amenophis aproximou-se lépido e, erguendo-me a cabeça, examinou-me, sorrindo:
— És o filho de Kermosa e desejas instruir-te?
É muitíssimo louvável, meu filho; mas, quererás também separar-te de tua mãe, acompanhar-me a Thebas e viver no Templo sob minha estrita é severa vigilância?
— Se me prometes ensinar tudo o que sabem os sacerdotes, seguir-te-ei por toda parte e te obedecerei como escravo — respondi, de faces afogueadas.
— Se não mudares nas tuas boas resoluções, serás satisfeito — acrescentou Amenophis, assentando-se e apresentando a taça a Enoch, que a encheu, permanecendo de pé.
A convite do sacerdote assentamo-nos a seu lado e os dois homens conversaram longamente em linguagem para mim desconhecida.
Ofereceram-me frutas, mas não as toquei, inteiramente absorvido nos meus pensamentos.
Finalmente, Amenophis levantou-se, e passamos ao terraço que dava para o jardim.
Noite magnífica.
O ar embalsamado pelas acácias, rosas e jasmins.
O sacerdote debruçou-se na balaustrada e ergueu a cabeça, fixando o céu pontilhado de estrelas, que a escuridão da abóbada parecia destacar em rendilha prateada.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 27, 2016 8:40 pm

— Pinehas — disse, voltando-se para mim — que pensas desses pontos brilhantes?
Que são eles e para que os vemos ali?
Calei-me, porque nada sabia, receando repetir a explicação que me havia dado minha mãe e na qual não acreditava.
— Esses pontos brilhantes, meu filho — disse Amenophis — são os astros, árbitros de nossos destinos.
Um dia aprenderás a conhecer-lhes a trajectória imutável e saberás que a felicidade, como a desgraça dos homens e dos povos, dependem das vibrações que descem de lá sobre nossas vidas.
Se os astros benfazejos projectarem sobre ti boa influência da matéria imponderável, serás feliz.
Eu estava ofegante.
Minha inteligência, ávida de sabedoria, despertava; desejaria interrogá-lo e ouvi-lo durante toda a noite mas Amenophis me interrompeu, dizendo:
— Paciência, tudo virá a seu tempo.
Por agora, basta, é tarde e preciso partir.
Tu, Enoch, leva o rapaz dentro de oito dias, conforme combinamos; eu me encarregarei de o educar.
Na ocasião aprazada, segui para Thebas e fui colocado pelo meu protector no Templo de Amon entre os rapazes filhos de sacerdotes e guerreiros, que ali estudavam.
Amenophis interessava-se visivelmente pelo meu aproveitamento e auxiliava o desenvolvimento das minhas faculdades incomuns.
Posso dizê-lo sem vaidade, porque essa facilidade era fruto de um passado laborioso.
Estudava com ardor e tenacidade incansáveis.
As ciências secretas, sobretudo a astrologia e a magia, me seduziam; e para estudá-las deixava tudo.
Mais tarde dediquei-me também à medicina; meu espírito, insaciável de conhecimentos, queria tudo conhecer e quando em algum velho papiro proveniente da índia decifrava a virtude misteriosa de uma planta, apoderando-me assim de uma arma poderosa, pensava com orgulho que apenas me encontrava no início e que, diante de mim se desdobrava uma vida inteira para trabalhar em novas descobertas.
Assim compreende-se que, com tal entusiasmo, pouco convivia com os colegas e não entretinha intimidade com nenhum deles.
Entretanto, experimentava certa amizade por dois, um chamado Necho, bom rapaz, sempre alegre, que dividia espontaneamente as fartas guloseimas que recebia da família; outro, Mena, mais velho que eu um ano, muito rico, filho de alto funcionário da Corte de Faraó, que deixara o Templo muito antes de mim, mas vinha às vezes visitar-me, acompanhado de jovens sacerdotes, seus amigos.
Nessa calma exterior e actividade intelectual, transcorreram doze anos da minha existência, até que chegou o momento de voltar a Tanis.
Alguns dias antes da partida, estive com Amenophis na parte mais alta do terraço conduzente à sua residência.
Havíamos falado um pouco de tudo; depois, nos calamos; meu companheiro fitava o céu estrelado, qual zimbório sobre nossas cabeças, e nesse momento se me reavivou claramente na memória aquela noite em que, pela primeira vez, lhe falara.
Recordei suas palavras relativas ao papel que os astros desempenham em nossos destinos.
— Amenophis — disse — recorda-te da nossa primeira entrevista na pequenina casa de Enoch, em Tanis?
Disseste, então:
“Se boa influência da matéria imponderável descer sobre ti, serás feliz”.
Depois disso, muito tenho estudado da ciência dos astros e, não obstante, muita coisa permanece ainda incompreensível para mim.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 27, 2016 8:41 pm

Por exemplo: li nas estrelas que a vida me reserva muitas desilusões e, entretanto, sou activo, tenho em mãos a ciência das armas poderosas e a força de vontade para realizar qualquer propósito.
Amenophis tinha-me ouvido com a face apoiada na mão.
Após curto silêncio, respondeu suspirando:
— Filho, jamais foi dado ao homem desvendar todos os mistérios com que a Divindade o cerca; nós apenas levantamos uma ponta do véu; mas, como te recordas das minhas palavras, aqui aditarei algumas reflexões:
sabes, Pinehas, o que se diz desses pontos brilhantes? (e apontou para o céu).
Diz-se que são mundos quais o nosso, habitados por seres ínfimos, iguais a nós, animados pelos mesmos sentimento e cuja vida e destino se reflectem sobre os nossos.
Sabes, também, que o Universo está cheio de um elemento imponderável, que denominamos matéria primitiva, mas nada na natureza se oferece de graça; por toda parte há trocas.
Por exemplo: entre os homens, os animais e as plantas, há perpétua permuta de emanações e é isso que produz a rotação; desta, o atrito dos corpos, desse atrito o fogo, isto é, o calor que tudo anima; e a mesma lei do mínimo ao máximo rege o Universo.
O mundo tem por contrapeso outro mundo; um sistema planetário se atrita com outro sistema planetário; o destino de um homem vale o de outro homem; e o produto do bem ou do mal recai sobre nós, da parte do contrapeso que o movimenta.
— Compreendo: onde está o fogo está a vida, isto é — a alma, a inteligência que se move, e meu destino depende do de alguém que, invisível e longe de mim, constitui o contrapeso da minha existência; o fluido que exala em troca do meu nos junge um ao outro.
Da mesma forma, o destino dos povos depende do de outros povos que vivem nesses astros.
Mas isso é injusto — continuei, animando-me pouco a pouco — tão injusto quanto a lei estúpida e indigna que condena a alma, após a morte, a expiar seus crimes e erros, no corpo de um animai.
Acreditas nisso sem restrição, Amenophis?
Isto não é contrário à sua razão?
Estranho e grave sorriso descerrou os lábios de Amenophis.
— Como és atrevido, Pinehas, em classificar de injusto tudo que os deuses acharam justo e necessário: e por que tanto te revolta essa lei de expiação?
Se admites que o fogo é a nossa alma; que onde há calor e movimento há inteligência, deves também admitir que todos nós, homens e animais, somos formados da mesma matéria.
— Admito-o, realmente mas, como punir minhas paixões já refinadas, num corpo de animal?
Como pode o homem, inteligência plena de aspirações e raciocínio, cuja palavra já demonstra elevação, e desenvolvimento intelectual, descer ao ponto de tornar-se seu escravo no corpo de um bruto?
Não, não, Amenophis, nossa crença ou é loucura ou injustiça revoltante dos deuses.
Expressão indefinível brilhou no olhar profundo e espiritual do sacerdote quando falou apoiando em meu ombro a mão fina e bem tratada:
— Por que não admitir, jovem impetuoso, que ora te encontras num meio inteligente e que és homem, porque pertences ao círculo dos homens mais esclarecidos naquilo que o desenvolvimento intelectual permitiu conhecer até hoje?
Mas, observa os selvagens prisioneiros trazidos da última guerra pelo nosso Faraó.
Comparando-os a ti, não te inspiram o mesmo desprezo que o homem sente pelo animal?
Como a fera, esse prisioneiro está acorrentado, mudo, privado de vontade, de liberdade e mesmo de vida, se isso for a vontade do seu senhor; sua linguagem deficiente, gutural, evoca os roncos do bruto, entretanto, esse mesmo ser no seu meio era um homem livre, estimado, ao passo que entre nós é um animal.
Vê agora, este céu cheio de extraordinários mistérios, de vidas e mundos desconhecidos.
Quem poderia afirmar que nesses pontos brilhantes não resida a divindade ou seres muito próximos a ela pela perfeição, e que, se fosses lá enviado, para desempenhar junto deles a tarefa que cabe aos animais mais inteligentes, não serias lá tão atrasado, com a língua perra, a palavra gutural, o corpo tão grosseiro e feio como o dos animais em relação ao nosso?
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 27, 2016 8:41 pm

Não procurarias também ler nos olhos dessas inteligências superiores, adivinhar seus pensamentos para suprir os sentidos que te faltassem?
Os homens tomam tudo ao pé da letra e acreditam, verdadeiramente, que voltarão a viver e expiar suas culpas num corpo de animal; de resto, essa convicção é salutar para o orgulho humano porque se sentem felizes e confiantes em serem homens e se apavoram com a perspectiva de voltar a um meio onde suas paixões hajam de ser consentidas e a língua travada para não transmitir combinações astuciosas.
— Compreendo — interrompi — ameaçam-nos, se nos tornamos indignos de ser homens, de voltarmos animalizados; mas, na realidade, é somente em razão da diferença do meio intelectual em que nos encontramos.
Onde aprendeste tudo isso, Amenophis?
Quem te disse?
— A resposta a essa pergunta, meu filho, será minha última iniciação ao maior dos nossos mistérios; não pertences à nossa casta, mas teu zelo e dedicação pela ciência tornaram-te digno.
Portanto, amanhã à noite, vai à minha casa depois de te purificares pelo jejum e pela prece.
Lá serás esclarecido.
Na noite seguinte, mal sofreando a impaciência, procurei Amenophis.
Sem demora levou-me para uma grande sala redonda, fracamente iluminada por uma lâmpada.
Assentando-se à mesa, disposta no centro, falou com solene gravidade:
— Pinehas, quero transmitir-te os últimos ensinamentos, que acabarão por esclarecer tua inteligência.
A despeito de toda a ciência que adquiriste durante vários anos de incessante labor, milhares de questões permanecem ainda insolúveis para ti, e serias um mendigo do pensamento, um pássaro de asas cortadas, que, em vez de elevar-se até às nuvens, cairia no vácuo sem jamais encontrar ponto de apoio, se não te dissesse o porquê de muitas coisas.
Somos insignificantes; nossa inteligência limitada se anula e perturba com as noções variadas, adquiridas sem método; estamos ligados à matéria, e daí a necessidade de nos humilharmos, de elevarmos os braços ao céu, implorando nos conceda um mestre que nos venha instruir e não nos deixe ao sabor dos erros do mundo, sujeito a paixões corporais, mas que seja um ser esclarecido pela experiência profunda de um passado imensurável.
Um tal mestre é que desejo dar-te, Pinehas!
Emocionado e palpitante de misterioso temor, bebia-lhe as palavras.
A seguir, colocou as mãos sobre a mesa, ordenando-me que fizesse o mesmo e guardando absoluto silêncio.
Depois de algum tempo, percebi que ele respirava profunda e ruidosamente; vi, com espanto, que parecia adormecido e, no mesmo instante, clarões estranhos Oscilavam-lhe ao redor; pancadas surdas se faziam ouvir em diferentes pontos da sala.
Depois, da tábua da mesa elevou-se uma massa nevoenta e esbranquiçada, que se dilatou emitindo luz prateada e brilhante.
Do centro, destacou-se nítido o busto de mulher velada, sobre cuja fronte uma estrela esverdeada refulgia em raios multicores.
Essa mulher retirou de sob o véu a mão recoberta de luz azulada e traçou na mesa, em caracteres de fogo:
“Pinehas será admitido como nosso aluno, sê se mostrar digno, seguindo, as lições de Isis e não se deixar empolgar pelas paixões mundanas”.
A visão empalideceu, fundiu-se na atmosfera e Amenophis despertou com profundo suspiro.
Muito forte fora a impressão.
Todo o meu corpo tremia, a cabeça rodava e perdi os sentidos.
Quando os recobrei, Amenophis me conduziu ao seu quarto e me deu, sobre o fenómeno que acabava de presenciar, uma série de explicações e indicações.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 27, 2016 8:41 pm

— Agora és discípulo de Isis — disse ao terminar — quando tiveres que resolver alguma questão aparentemente insolúvel, deverás meditar-te, como hoje, a uma mesa redonda, colocando sobre ela tabuinhas; cairás logo em profundo sono, durante o qual a resposta será confiada às tabuinhas, onde a encontrarás ao despertar.
Previno-te, porém, que só em casos graves e excepcionais poderás empregar esse recurso.
O abuso não só te esgotarás as forças, como não se pode futilmente entrar em relação directa com a divindade e com os mortos.
Três semanas mais tarde, regressava a Tanis e me estabelecia em casa de minha mãe, que ficou muito contente com minha volta.
Minha idade era então, de vinte e seis anos e Kermosa, muito vaidosa pelo meu aspecto e saber, instalou-me em pequeno quarto que dava para o jardim e separado por uma galeria, do corpo da casa, a fim de que pudesse, silenciosa e calmamente, entregar-me aos meus pendores de sábio.
Perguntei por Enoch, que apenas me visitara duas vezes em Thebas e de quem, todavia, guardava grata recordação.
Minha mãe informou que ele havia comprado a casa contígua à nossa, que ali morava e de pronto o veria.
Passei os primeiros dias desencaixotando e arrumando numerosos papiros, pacotes de plantas secas, unguentos e remédios que trouxera de Thebas.
Finalmente, uma tarde considerei-me definitivamente instalado e, sentindo-me fatigado, estendi-me num canapé para cochilar.
Em vez do sono desejado, fui tomado de estranho torpor.
Involuntariamente, os olhos se fixaram num espelhinho de metal polido, pendente da parede e no fundo do qual li, traçado em caracteres de fogo:
“Discípulo de Isis, conserva-te fiel à fé egípcia”.
Quis levantar-me e desviar o espelho. Impossível!
Embotava-me crescente torpor, ouvindo sempre palavras misteriosas, cujo sentido me escapava.
Sacudidelas violentas fizeram-me despertar.
Era minha mãe que dizia espantada:
— Com que sonhas, Pinehas?
Por que dormes de olhos abertos, imóvel como estátua?
Vamos, Enoch chegou e quer ver-te.
Levantei-me atordoado e, após lavar o rosto em água fresca, acompanhei minha mãe.
Passamos pela pequena porta secreta do jardim e atingimos a casa que eu ainda não conhecia.
Via-se logo que era habitada; numerosa criadagem, toda hebreia, lá se movimentava.
Saudaram-nos reverentes, principalmente a mim, que envergava rica indumentária branca com imponente altivez.
Um rapaz semita introduziu-nos na sala, onde se encontrava Enoch, assentado à mesa abastecida de frutas e vinho.
Ao avistar-me, levantou-se, abraçou-me e fazendo-me sentar a seu lado, examinou-me com olhos brilhantes de alegria.
— Enfim, eis-te de regresso, Pinehas!
Grande, belo, sábio!
Jeová te abençoe, querido filho!
Apertei-lhe a mão e agradeci o me haver proporcionado o ensejo de ingressar no Templo e estudar.
— Com prazer, faria muito mais por ti.
Como vês, vivo só, viúvo três vezes; nenhuma das esposas me deu filhos; entretanto, tenho um em cujas veias o sangue hebreu se mistura ao egípcio e a quem desejaria legar todas as riquezas que possuo.
Adivinhas quem seja esse filho?
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 27, 2016 8:41 pm

Estremeci sob o olhar de Enoch e vaga angústia apertou-me o coração.
— És tu, Pinehas; sim, meu filho e de Kermosa; amo-te de todo o coração e não recuses corresponder-me de corpo e alma.
Pálido de emoção, levantei-me.
Enfim, sabia a verdade sobre a minha origem e o motivo da estranha semelhança com os homens de raça semítica; meus pensamentos se chocavam tumultuosamente no cérebro; orgulho e desgosto me invadiam, ao pensar que pertencia a esse povo, ao mesmo tempo que a cupidez me aconselhava a dissimular repugnância, para não perder as riquezas oriundas do parentesco humilhante para o meu orgulho egípcio.
— Meu filho — concluiu solenemente — queres passar secretamente para a fé de Israel, tornar-te súbdito fiel de Jeová, o verdadeiro e único Deus?
Tudo está preparado para te receber entre o nosso povo e nomear-te herdeiro da minha enorme fortuna.
Para ligar-te ainda mais fortemente a nós, desejamos, entre outras coisas, casar-te com uma judia.
Ouvindo tal proposta, recuei e pareceu-me ver dançar diante dos olhos o espelho metálico com a inscrição ígnea:
“Discípulo de Isis, permanece fiel à fé egípcia”.
— Não — respondi com energia — tudo farei por ti, menos isso...
És amigo de Amenophis e se, como suponho, compartilhas da sua opinião, por que repeles minha crença e exiges que a repudie?
— Filho — retrucou, — justamente por compartilhar das opiniões de Amenophis é que não admito deuses, senão Jeová — único Deus, criador e senhor do Universo.
Quanto à amizade que me liga ao ilustre sacerdote, vem de remota data e, em mim, vê reviver um passado que lhe é caro.
Quero mesmo contar-te essa história, ocorrida quatro anos antes do teu nascimento, ou seja há trinta anos; Amenophis contava então vinte e quatro, e como era filho de um grande sacerdote, levava vida faustosa.
Devo acrescentar que, então, eu era ainda pobre e vivia em companhia de uma única irmã, perto da cidade de Menphis.
Certa tarde, Amenophis aproximava-se da cidade, quando os cavalos dispararam.
Arremessado fora do carro, caiu não longe de nossa casa, gravemente ferido na cabeça.
Socorremo-lo e Esther tratou-o com o maior desvelo.
Quando melhorou disse quem era e preveni seu pai, que estava muito aflito.
Depois, recompensou-me e reconduziu o filho ao Templo.
A extraordinária beleza de Esther, que era, na verdade, a mais bela mulher que já tenho visto, transtornou a cabeça do jovem sacerdote, que voltou a visitar-nos secretamente.
O amor que os ligava era tão grande que, voluntariamente, Amenophis a desposaria; o pai, porém, o espionava e o orgulhoso grão-sacerdote se revoltou ao pensar num casamento desigual.
Tomou providências e, como um raio, recebemos ordem de Faraó para que Esther se casasse imediatamente com um jovem israelita da nossa tribo e a família se exilasse em Tanis.
Quando Amenophis, que fora prudentemente afastado, soube do que acontecera, não se conteve de raiva e ciúme e, alcançando-nos ainda próximo da cidade, apunhalou o marido de Esther, tentando arrebatá-la consigo, mas o guarda que nos acompanhava envenenou-a.
Em virtude do prestígio do grão-sacerdote, toda essa história foi abalada.
Amenophis voltou para Thebas, mas, desde então, revelou-se calmo, sério e sombrio, qual o conheceste.
Dedicou-me sincera amizade, visitando-me às vezes e sempre me protegendo.
Tive, então, ensejo de conhecer sua crença religiosa, e confesso que é um grande sábio.
Quanto a ti, meu filho, gostaria que pertencesses de coração e convicção à nossa; entretanto, como isso te repugna, apelo para o futuro, pois talvez mudes de opinião.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 27, 2016 8:42 pm

Repeti que me era impossível aquiescer aos seus desejos e voltei para casa aborrecido.
Passada uma hora, minha mãe procurou-me, furiosa, para crivar-me de insultos:
— Estúpido! Desprezas a sorte por uma bagatela que nem vale a pena mencionar; recusas tantas riquezas, e uma esposa adorável!
Pois procura ao menos vê-la, antes de resolver... Vamos!
A despeito da minha relutância, ela me arrastou até sua casa e, afastando delicadamente uma cortina que separava seu quarto de uma grande sala, murmurou:
— Olha!
Olhei o interior e, sobre almofadas e tapetes amontoados, notei uma jovem adormecida.
Formas opulentas, cabelos negros, nariz aquilino, tez mate, não deixando nenhuma dúvida quanto à sua origem semítica.
Curioso inclinei-me, pois raro tivera, até então, ensejo de ver mulheres.
Educado na severa disciplina do Templo, absorvido pelos estudos, apenas havia sonhado com elas.
— Quem é esta moça, e como veio parar aqui? — perguntei.
— É uma parenta da primeira esposa de Enoch, que me pediu recebê-la em nossa casa, para que tivesses ocasião de conhecê-la.
— É pena que tenha vindo unicamente para isso, pois não me agrada e jamais a amarei.
Tenho mais de que me ocupar.
Minha mãe olhou-me boquiaberta.
— Não te agrada?
Que procuras então?
— Nem mesmo eu sei.
Sinto, somente, que esta moça não corresponde aos anseios do meu coração; vendo-a, não experimentei a menor emoção.
Estou certo de que sob aquelas pálpebras cerradas, não julguem esses olhares que queimam, que gelam, que matam, mas atraem invencivelmente; por ela jamais deixarei a fé egípcia.
Manda-a de volta a algum jovem hebreu que melhor possa apreciá-la.
Lembrei-me, ao sair, que ainda não me havia alimentado e pedi a minha mãe que me mandasse alguma coisa.
Ao regressar ao quarto, atirei-me sobre o leito, agitado e aborrecido.
Apenas deixara o aprazível asilo do Templo e já me atormentava de todo jeito; a ideia de casar-me com uma filha da raça impura, pareceu-me ridícula e repugnante.
Resolvi defender energicamente minha liberdade.
Absorvido pelos próprios pensamentos, não percebi a chegada de uma mulher que aproximou de mim uma mesinha, nela depondo duas cestas de frutas, pastéis e uma bilha de vinho.
Leve ruído fez-me erguer a cabeça e vi que a servente era uma jovem de tez bronzeada, formas admiráveis, cujos olhos grandes, sonhadores, me examinavam curiosamente.
— Ah! — pensei, ainda uma outra para me corromper!
Sob a influência do meu olhar perscrutador, ela se perturbou e baixou os olhos.
— Tu quem és e por que baixas o olhar? — perguntei.
Não sou nenhum animal feroz para que temas encarar-me.
— Chamo-me Henais — murmurou com voz trémula.
— Descendes de hebreu?
— Não.
Suspirei aliviado.
— Por que te mandaram aqui, se há criados na casa?
Diz à minha mãe que quero ser servido por um escravo.
Tendo-me alimentado, dormi sem que nenhuma imagem feminina me perturbasse o sono.
No dia seguinte retornei às ocupações habituais, evitando sair.
E assim passaram-se mais de dois meses, calmamente, Enoch havia partido levando a bela parenta e minha mãe, antes furiosa, agora se distraía, com o tumulto e as cerimónias que agitavam toda a cidade.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 27, 2016 8:42 pm

Chegara de Thebas o Faraó Mernephtah para fixar a Corte em Tanis.
A entrada triunfal do soberano, as visitas aos Templos, cercados de majestosa pompa, o enorme exército de sacerdotes, dignatários, guerreiros, cortesãos e vassalagem incorporados ao séquito real, tudo emprestava à cidade invulgar animação.
Também Amenophis veio estabelecer-se em Tanis, por alguns meses, mas, muito ocupado, apenas me visitara uma única vez, ligeiramente.
Desde minha chegada de Thebas, ainda não tentara invocar o ser invisível que Amenophis me mostrara; até que uma tarde. veio-me insopitável desejo de o fazer e obtive, com grande espanto, a seguinte inscrição enigmática:
“Cuidado no Templo; um grande perigo ameaça teu coração”.
Inquieto, e sem nada compreender desse aviso, resolvi consultar Amenophis; assim, fui, no dia seguinte de manhã, ao Templo onde estava certo de o encontrar.
Cheguei justamente quando o serviço divino terminava e o povo em ondas se dispersava em todas as direcções.
Atravessava o primeiro pátio, quando uma voz me chamou pelo nome.
Voltei-me e vi que um mocetão bem trajado se aproximava a passos largos.
— Finalmente te encontrei, Pinehas — exclamou rindo e batendo-me no ombro.
Onde te escondestes?
Há mais de um mês aqui estou em Tanis sem te encontrar! Procura-me.
Reconheci Mena, ricaço e antigo condiscípulo.
Apertei-lhe cordialmente a mão.
— Desculpa-me, estou ocupadíssimo; mas, que fazes aqui?
Vens também visitar Amenophis?
— Não; vim ao Templo acompanhando minha irmã Smaragda, a quem quero apresentar-te. Vem.
Conduziu-me logo a um pequeno grupo formado perto da saída, à sombra das colunas.
Vi uma espécie de liteira aberta, conduzida por escravos e nela instalada uma mulher vestida de branco.
Alguns rapazes a rodeavam em animada palestra.
Mena postou-se ao lado da liteira e foi dizendo:
— Smaragda!
Apresento-te um velho conhecido meu.
Ergui a cabeça e me senti fascinado pela bela egípcia, jovem na qual o boné, ornado de pedras, assentava admiravelmente; seus traços regulares, a tez de uma alvura mate.
Quando ela pousou sobre mim os dois grandes olhos negros como a noite e brilhantes como diamantes ao sol, foi como se uma chama me transpassasse e senti o peito opresso.
Também ela parecia não poder desfitar-me, com um misto de curiosidade e acrimónia.
Ah! se eu soubesse que era a recordação a ferir assim todas as fibras do meu ser, dizendo-me, pelas pulsações desordenadas do coração:
“Eis-vos de novo face a face sob aspectos diferentes”.
O que acabo de referir não durou mais que um instante Mena interrompeu-me o curso do pensamento, dizendo:
— Este é Pinehas, meu antigo companheiro de estudos, a quem muitas vezes me referi, dizendo que trabalhava como uma toupeira; agora, reside em Tanis e espero venha ser muitas vezes nosso hóspede.
É um homem amável e instruído, para quem encareço tua consideração.
Ela inclinou ligeiramente a cabeça, enquanto eu a cumprimentava respeitoso.
Depois, travei conhecimento com os demais jovens, entre os quais se encontravam dois oficiais da guarda de Faraó, que se destacavam pelas ricas armaduras e brilhantes capacetes.
Um deles, de porte médio, rosto bronzeado pelo sol, aspecto agradável e expressão espiritualizada, chamava-se Setnechet.
O outro, já o conhecia, pois tinha frequentado a escola um ano; mas, medíocre e preguiçoso, nada aproveitou.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 27, 2016 8:42 pm

Pouco estimado por seu carácter rabugento e mau, havia abandonado o Templo.
Actualmente, Rhadamés (era o seu nome) apresentava-se como um moço de atitude insolente e desagradável; era o condutor do carro de Faraó e diziam que gozava de grande conceito junto de Mernephtah.
Seu olhar dissimulado acompanhava todos os movimentos de Smaragda e espreitava, avidamente, cada palavra que ela trocava com Setnechet.
A liteira movimentou-se, despedi-me, e logo a perdi de vista entre a multidão.
Como embriagado, retomei o caminho de casa, desistindo de me avistar com Amenophis.
A visão de Isis explicava-se por si mesma e o perigo que me atingira no Templo não era para desprezar.
Nunca uma mulher me impressionara tão forte e profundamente como essa branca Smaragda de olhos causticantes.
Meu estranho humor foi percebido por minha mãe que me crivou de perguntas, mas eu não estava disposto a confidências e, repelindo-a acerbamente, tranquei-me no quarto.
Triste, inquieto, caminhava no aposento, de um lado para outro tentando ordenar as ideias.
A irmã de Mena me agradou a tal ponto que me sentia capaz de a desposar imediatamente, mas não me iludia.
Mena era fabulosamente rico, de origem nobre, e eu apenas remediado; quanto à minha origem, nem queria pensar.
Além do mais, um pressentimento me dizia que não agradaria à empertigada moça, já sob os olhos ardentes dos oficiais de Faraó.
Mesmo assim, quanto mais a razão contrariava os meus projectos, tanto mais meu carácter tenaz se apegava à ideia de triunfo, a despeito de todos os obstáculos.
A ciência, que havia posto nas minhas mãos tantas armas poderosas, poderia fornecer-me algo que inspirasse a Smaragda muita simpatia e me poupasse uma recusa humilhante.
A magia me havia ensinado vários processos de domar a vontade alheia.
Tomei a decisão de empregar um deles com Smaragda, e, depois de haver estudado cuidadosamente o assunto alguns dias, apresentei-me no palácio de Mena.
Fui recebido cordialmente pelo irmão e com reservas pela Irmã.
Sem desanimar, experimentei, pela concentração da vontade, inspirar-lhe o desejo de levantar-se, tomar qualquer objecto, ou ainda voltar os olhos para mim.
Depois de alguns ensaios, ela se submeteu facilmente ao meu domínio, e depois de muitas visitas resolvi tentar um passo decisivo.
Preparei uma cesta com magníficas flores cabalisticamente trabalhadas e inclinei-me sobre ela; depois, invocando mentalmente a imagem de Smaradga, forcei, pelo pensamento, seus olhos a languescerem e seus lábios a pronunciarem palavras amáveis.
Tão forte era a tensão, que o suor banhava-me a fronte.
A seguir, sem perder tempo, fui à casa de Mena acompanhado de um escravo com a cesta.
Mena estava ausente, mas Smaragda me recebeu displicente, assentada numa cadeira de marfim mais bela que nunca, e divertia-se com um pássaro raro.
Aceitou as flores, aspirou-lhes o perfume.
Eu observava, inquieto, e de repente notei, satisfeito, que se voltava sorridente e me estendia a mão, fazendo-me sentar junto a ela.
Brilhavam-lhe os olhos com fulgor febril, mas a boca repetia fielmente as palavras que eu mentalizara sobre as flores, à proporção que suas pequeninas mãos as retiravam da cesta, uma por uma.
Escutava-a alegre com o coração cheio de esperança, pois encontrara o caminho da vitória.
Aquela criatura adorável e uma parte das riqueza de Mena bem compensavam a difícil empresa.
Levantei-me para me despedir e ela, que parecia pálida e indisposta, suspirou aliviada.
Voltando-se, enxugou a fronte molhada de suor.
Lembrei-me então de que não havia exigido me convidasse a voltar muitas vezes.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 27, 2016 8:42 pm

Olhei fixamente sua fronte inclinada e, quase imediatamente, ela se voltou de olhar fixo e lábios trémulos:
— Volta com assiduidade, Pinehas — disse rapidamente.
Saí radiante e desde esse dia voltei sempre, exercendo e consolidando meu poder.
Por vezes, recusou receber-me.
Era bastante concentrar-me e sugestioná-la para que um escravo apressado viesse chamar-me para junto da senhora.
Completamente seguro do sucesso resolvi concluir a obra.
Assim, fui certa manhã à casa de Smaragda, que me recebeu sombria e desconfiada, evitando o meu olhar.
Sem me precaver dessa má disposição de sua parte, sentei-me junto dela e tomei-o das mãos da ama, acocorada junto da cadeira, um abanico de plumas, comecei a abaná-la e disse, fitando-a:
— Smaragda, meus sentimentos não são mistério para ti:
queres ser minha esposa?
Mena muito te estima e não se oporia à tua escolha.
O semblante da jovem contraiu-se, fez menção de levantar-se, mas, corando e empalidecendo, recaiu na poltrona, comprimindo a fronte com as mãos trementes.
— Tu me enfeitiçaste, Pinehas!
Não quero ser tua esposa e nem te amo; quero gritar não! não! — e uma força misteriosa me constrange a dizer sim — amo-te, aceito-te!
Que mistério é esse?
Inclinou-se vivamente para a frente, buscando ler na minha fisionomia o enigma dos seus sentimentos contraditórios.
Ainda que ferido desagradavelmente, permaneci firme.
— Que, dizes, Smaragda?
Enfeitiçar-te eu?
És livre nas tuas decisões, e se minha presença te desagrada, deixo-te imediatamente.
Dirigi-me para a porta, sugestionando-lhe que dissesse:
"amo-te, fica...”
A velha nubiana nada compreendia das estranhas palavras do sua senhora; olhava-nos boquiaberta com os seus olhos redondos.
Nesse momento, Smaragda voltou para mim o seu olhar terno e murmurou com voz entrecortada:
— Fica Pinehas, eu te amo...
Triunfante, avancei para ela, mas, antes que pudesse abraçá-la, entrou Mena.
Smaragda repeliu-me e atirou-se nos braços do irmão.
— Não é verdade, eu não o amo, mesmo que o tenha aceitado, exclamou a moça.
Defende-me, irmão, deste homem terrível.
Lágrimas em profusão brotaram-lhe dos olhos, e desmaiou.
Mena olhou-me embasbacado e quando o cientifiquei de tudo, meneou a cabeça.
Todavia abraçou-me, chamou-me de irmão e convidou-me a voltar no dia seguinte para ver minha noiva.
No dia seguinte quando me apresentei, soube que Smaragda se havia recolhido por alguns dias ao Templo de Isis.
No outro dia, um escravo levou-me um rolo de papiro, no qual Smaragda traçara estas linhas:
“No templo da grande deusa, livraram-me do fascínio que exercias sobre mim; teu olhar me é vedado, se quiser ficar senhora de minha vontade; não procures, portanto, rever-me.
Não te desposarei, pois livre do teu olhar não te amo”.
Terminada a leitura dessa missiva, desmaiei de raiva.
Muitos dias se passaram.
A raiva e o desejo de vingança me empolgavam de tal maneira, que permanecia surdo e cego a tudo que me rodeava.
Enoch regressara e parecia muito atarefado e preocupado; a mim um só pensamento obsedava:
seria vã a ciência?
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 27, 2016 8:43 pm

Se não o era deveria oferecer-me novas armas.
Uma tarde, estendido sobre o meu leito e abatido, alguém, me sacudiu com força. Era Enoch:
— Levanta-te; como te podes entregar a uma tal indolência?
Vamos, quero apresentar-te a um homem extraordinário, que te dará, talvez; a felicidade.
Levantei-me maquinalmente e o segui.
Atravessamos silenciosamente o jardim e várias ruas da cidade.
A opressão no peito impedia-me de falar.
Ao atravessarmos uma das portas da cidade, um carro nos esperava.
Enoch nele sentou-se, seguido por mim e fustigou os cavalos.
Essa rápida corrida fez-me bem.
O ar da tarde refrescou-me o cérebro escaldante, mas o coração continuava a bater angustiado.
Não podia conformar-me com o malogro dos meus planos e com a hipótese de que Smaragda estivesse perdida para mim.
Paramos diante da pequenina casa de Enoch, onde um escravo ficou cuidando do carro enquanto entramos.
Meu companheiro desapareceu e eu atravessei sozinho o salão, onde pela primeira vez, me avistara com Amenophis.
Uma mesa repleta de frios, frutas e pastelaria ali se encontrava; atravessei a sala sem me deter e fui directo ao terraço.
Chegando à balaustrada, contemplei o panorama soberbo que se desenrolava a meus pés, pois a vivenda assentava numa elevação e dali se descortinava a enorme cidade, a perder de vista com seus palácios, templos, muralhas fortificadas e portas maciças; argenteado ao luar, o Nilo deslizava calmo e majestoso, reflectindo nas águas polidas grupos de palmeiras copadas, edifícios marginais e, mais longe, a silhueta magnífica do Templo de Isis.
Esse quadro majestoso reagiu poderosamente sobre meu espírito atormentado.
O contraste da alma profunda e divina da natureza com o inferno do meu coração, transformou todos os sentimentos fogosos numa grande amargura.
Com a cabeça apoiada nas mãos deixei que as lágrimas caíssem.
Outra mão que me pousou no ombro fez-me estremecer; voltei-me envergonhado e irritado, porque gotas acres que molhavam meus dedos eram de lágrimas ridículas e humilhantes de um amor desdenhado.
— Pinehas, meu filho, confias pouco na afeição do teu pai; por que ocultas o que tão profundamente te perturba? — disse Enoch apertando-me a mão.
Quando tentei falar, interrompeu-me:
— Não digas nada, conheço o teu segredo; Kermosa encontrou no teu quarto o bilhete com as duras palavras da irmã de Mena; compreendo-te por experiência própria, que um amor insatisfeito é chaga mais ardente que areia do deserto a despertar sede inextinguível; mas, filho, não se morre de um amor infeliz; o homem, neste caso, é mais resistente que o camelo, que atravessa sem dificuldade o deserto arenoso, desde que o alimentem a esperança e a persistência necessárias para atingir o destino.
Por que tal desânimo?
Quem te disse que não poderás possuir, contrariando-lhe a vontade, essa orgulhosa egípcia, senão hoje ou amanhã, pelo menos dentro de um ano?
Olha, vou revelar-te um segredo de enorme importância para o povo hebreu, e talvez para a realização dos teus desejos.
Respirei desafogado.
As palavras de meu pai agiam como fresca aragem no meu coração ardente.
Desde que havia uma esperança melhor seria esperá-la.
— O homem de quem falei — continuou Enoch, de olhos brilhantes, com selvagem entusiasmo — sabes quem é?
— É Moisés, a criança miraculosamente salva do massacre do nosso povo e adoptada pela filha de Faraó.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 27, 2016 8:43 pm

No deserto, onde se refugiou, o próprio Jeová lhe apareceu e ordenou-lhe que executasse o gigantesco plano de libertar o povo de Israel, conduzindo-o para fora do Egipto, livre e independente, dando-lhes leis e reinado sobre ele.
— Filho, se quiseres seguir-me, poderás levar a mulher amada e viver com ela, longe deste pais de servilismo, em região bem-aventurada que, pela fertilidade do solo e abundância de frutos, assemelha-se ao paraíso terrestre, habitado pelos primeiros homens.
Conduzido pelo próprio Eterno, o povo de Jeová se instalará nessa terra de promissão, que lhe será concedida; lá haverá, também, um templo e necessidade de sacerdotes sábios e, neste caso, teu saber te proporcionará um belo futuro.
Escutava-o fascinado.
Levar Smaragda, viver com ela longe da sua orgulhosa parentela, tê-la inteiramente sob meu domínio que mais poderia desejar?
— Está na hora de regressares ao salão — disse Enoch — mas evita possa alguém suspeitar esta confidência.
Testemunha a Moisés a maior deferência e segue-lhe os conselhos, porque a sabedoria do Eterno fala pela sua boca.
Ele saiu e desci à sala brilhantemente iluminada.
De pé, junto da mesa, olhava impaciente a porta por onde deveria entrar o grande homem.
Depois de alguns minutos, ressoaram passos e, seguido respeitosamente de Enoch; apareceu um homem alto, cujo aspecto infundia respeito; o rosto de traços acentuados moldurava-se na cabeleira negra e abundante; a boca severa indicava férrea vontade, e sob as espessas sobrancelhas brilhavam dois grandes olhos cujo fulgor estonteava.
Atrás de Enoch surgiram cabeças grisalhas e longas barbas brancas de nove ou dez anciões, chefes das tribos hebreias.
Inclinei-me profundamente diante de Moisés, que parou um instante e fixou-me.
Julguei que duas lâminas incandescentes me transpassavam e baixei os olhos.
— Pinehas - disse com voz metálica e profunda - Enoch falou-me de ti e conto contigo.
Com a cabeça ligeiramente inclinada, passou e tomou assento numa cadeira mais elevada.
Após um momento de profunda meditação, notando que permanecíamos de pé, disse:
— Assentai-vos, irmãos; Enoch e Pinehas, a meu lado.
Sentaram-se os velhos em bancos dispostos ao lado da mesa e Enoch serviu as iguarias, dizendo:
— Nosso chefe não quis a presença de criados.
Encheu de vinho, em seguida, numa taça de ouro, passando-a a Moisés e mandando que os demais se servissem por si mesmos.
Moisés ergueu a taça:
— Bebamos pelo bom êxito dos nossos projectos de salvação comum — disse — conto contigo entre nós, meu filho, sem forçar-te, porque sei que o interesse que te liga mais fortemente à nossa causa é mais poderoso que todos os juramentos da terra; para a paixão não existe irmão, lei, religião ou casta; os fins justificam os meios, não é assim?
Desejas possuir o que ambicionas?
— Sim — respondi, baixando a cabeça.
Recordo essa página do passado com estranha emoção.
Parecerá inverosímil à actual geração que possamos descrever os actos, relatar as palavras de Moisés em sua vida privada; de Moisés, o grande profeta do Antigo Testamento, cercado pela lenda de milhares de véus fantásticos, cuja memória passou à posteridade para ter um lugar à parte.
Entretanto, tudo é verídico nesta narração.
É bem verdade que, naquela mesa, eu me encontrava ao lado do poderoso legislador dos hebreus, do génio que soube arregimentar um povo indestrutível como os monumentos egípcios, à cuja sombra ele crescera.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 27, 2016 8:43 pm

Tendo esvaziado o copo, assim como os companheiros, Moisés apoiou-se nos cotovelos e, abarcando a assembleia com olhar de dominante, disse:
— Meu irmão!
Conheceis as decisões que tomamos para o caso em que o Faraó Mernephtah, homem obstinado e orgulhoso, recusa libertar nosso povo torturado e explorado há muito tempo.
Nós venceremos, pois venho armado do poder de Jeová e ferirei o Egipto com flagelos terríveis, qual mo predisse o Eterno, junto da sarça ardente.
Entretanto, para atingir meu propósito, necessito dos homens que ele me apontou na sua sabedoria infinita.
Obedecereis todos vós, sem restrição, às ordens de Jeová, transmitidas por mim, seu enviado?
Levantou-se após pronunciar as últimas palavras, imitado por todos, que, em sinal de submissão, se inclinaram até o solo, de braços cruzados sobre o peito.
Fiz o mesmo, mas não podia despregar os olhos daquela fisionomia sedutora.
Não era em vão que eu havia sido discípulo do Templo e, observador atento, quando todas as cabeças se abaixaram, pareceu-me ver passar nos olhos de Moisés uma fugitiva expressão de amargura e ironia. Estremeci.
Rir-se-ia da fé cega que inspirava?
Não tive tempo de cogitar, porque logo continuou:
— Parte dos flagelos que afligirão este país devem ser produzidos pela força dominadora que o Eterno projectará sobre vós, por meu intermédio, e de vós sobre os egípcios; Jeová apontou-me homens dignos desta missão e o teu nome figura entre eles — acrescentou, voltando-se para mim.
Dentro em breve apresentar-me-ei diante de Mernephtah para reivindicar dele o povo eleito de Deus; antes, porém, deste passo decisivo, é preciso resolver um assunto importante.
Eliezer, um de nossos irmãos, acusado pelos egípcios de sugar sangue humano, foi preso e condenado à forca, com a língua a ser arrancada e atirada aos corvos.
Essa condenação é duplamente injusta, porque mesmo que tivesse sugado o sangue de alguns egípcios, nada mais teria feito que retribui o que vêm eles fazendo com o nosso novo, há mais de quatro séculos.
Eis — prosseguiu ele — o que realmente aconteceu:
incapaz de suportar por mais tempo os maus tratos que nos impõem, e inspirado pela vontade de Jeová, que aqui me chamou, Eliezer tentou uma revolta de sua tribo; mas, pouco numerosos e mal dirigidos, foram derrotados e o desgraçado Eliezer, preso como instigador da revolta, foi condenado à morte, tendo antes arrancada a língua com que falou ao povo oprimido.
Vê o Eterno, porém, os sofrimentos do seu povo e quer libertá-lo e sua mão ampara todos os nossos irmãos; por isso, não permitiu que Eliezer perecesse tão miseravelmente.
Por graça de Jeová, ele permanece desacordado como se estivesse morto e a língua desapareceu.
O próprio Deus arrebatou-a por algum tempo.
Quando, antes do suplício, os egípcios lhe descerraram os dentes e não viram a língua que lhes falara poucas horas antes, ficaram aterrorizados.
Terrível vento desencadeou-se quebrando a árvore da qual pendia o corpo, que assim caiu ao Nilo.
Os egípcios vão procurá-lo para o destruir.
Isso é o que importa evitar, porque Eliezer não está morto e vou tomar as providências para salvá-lo.
Breve irei reclamar de Mernephtah a liberdade do meu povo.
Ficai prontos para tudo, pois, se necessitar de vós, irmãos, eu vos avisarei.
Agora, separemo-nos; preciso ainda falar a Enoch.
Os anciãos despediram-se reverentes, e eu perguntava a mim mesmo, indignado, com que direito Moisés designava por “seu povo” aquelas tribos hebreias que o Egipto alimentava havia mais de quatro séculos.
Nada mais justo que recompensassem essa hospitalidade com o seu trabalho.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 27, 2016 8:43 pm

A ideia de subtrair ao Egipto essa gente, e com esse êxodo comprometer a prosperidade do país, revoltava-me; eu era bastante egípcio, apesar do sangue hebreu que me corria nas veias.
Não fosse querer dominar Smaragda, possuindo-a acima de tudo...
Esse desejo me abafava e fazia-me dócil instrumento à vontade do chefe.
Uma vez a sós, Moisés voltou-se e disse-me com estranho sorriso:
— Jovem discípulo do Templo, não poderás ajudar-me a encontrar o corpo de Eliezer?
Então compreendi que esse homem, antigo aluno dos sacerdotes, iniciado nos mistérios, conhecia a força oculta inerente ao homem e que tantas coisas lhe revela quando sabe utilizá-la.
Já havia resolvido obedecer a Moisés e por isso, inclinando-me, respondi:
— Mestre, se devo encontrar o corpo de Eliezer, a quem designas para servir de instrumento?
Após um momento de reflexão, respondeu:
— Caso não encontres alguém entre os jovens hebreus que te vou mandar, e que estão designados para agir sobre os seus companheiros, é necessário encontrar uma mulher, para ajudar-te.
Imediatamente lembrei-me do poder que exercia sobre Smaragda.
— Conheço uma pessoa em condições de nos servir, mas não posso me aproximar dela.
Então, Moisés retirou do seio uma pedra fulgurante engastada num camafeu:
— Fica com esta pedra — disse — e faz incidir um dos seus raios sobre a pessoa a quem pretendes dominar; ela corresponderá aos teus desejos.
Se precisares consultar-me, Enoch te encaminhará ao meu retiro, que ele conhece bem.
Adeus, meu filho.
Despedi-me, mas em vez de tomar o carro, montei a cavalo e segui de modo a passar perto do palácio de Mena.
Em rua estreita que limitava com o muro do palácio, parei.
Soerguendo-me na sela, agarrei os ramos de uma árvore secular e galguei a crista do muro.
Descer foi fácil para um homem ágil como eu; um minuto mais tarde, saltava os copados arbustos e rapidamente dirigi-me para a parte da casa habitada por Smaragda.
Um rumor de vozes fez-me estremecer; avancei com a máxima precaução e evitando a folhagem percebi, com grande espanto, a própria Smaragda sentada num banco de pedra, a conversar com uma velha nubiana.
O luar, muito claro, deixava entrever-lhe o vestido branco, o rosto corado pela emoção e os olhos brilhantes.
— Assim, é certo que ele virá hoje? — perguntou ela.
— Sim, minha querida; deverá chegar dentro de poucos minutos.
— Então, Tent, corre para a portinha, a evitar que ele bata em vão.
Como um raio a velha fâmula desapareceu e Smaragda ficou só.
Suas pequeninas mãos brincavam impacientes com os pesados anéis de ouro do colar que lhe ornava o seio.
A quem esperaria?
Amada de quem?
Rhadamés ou Setnechet?
O ciúme travou-me dolorosamente o coração, mas logo, recordando Moisés e sua promessa, readquiri sangue-frio.
Era preciso aproveitar os momentos de solidão da jovem.
Tirei a pedra da cintura e, deslizando de modo a defrontá-la, afastei a folhagem e suspendi o talismã para que a lua nele incidisse e um raio reflectisse nela.
Ao cabo de breves segundos, seus olhos se fecharam, o corpo entorpeceu e a cabeça descansou pesadamente no tronco da árvore.
Após haver escrutado o ambiente, abandonei meu esconderijo estendendo as mãos para ela e perguntando:
— Dormes?
— Sim.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 27, 2016 8:44 pm

— Podes ver o que desejo?
— Ordena - respondeu.
— Vai, procura às margens do Nilo o local em que se encontra o corpo de Eliezer!
Alguns minutos depois, ela me dava todas as indicações necessárias, com a descrição exacta do lugar onde se encontrava o corpo, entre as caniçadas.
Soprei-lhe então, no rosto, sacudindo-a com força e voltei ao esconderijo, enquanto ela reabria os olhos.
Quase ao mesmo instante, ouvi passos e a curiosidade sugeriu-me ouvir e observar a entrevista de Smaragda com o eleito do seu coração.
A prudência, entretanto, triunfou e abandonei o jardim, voltando à casa de Enoch.
Transmiti-lhe todos os detalhes obtidos e declarei que o resto era encargo seu.
Tão logo começou a despontar a aurora, Enoch acompanhou-me a uma pequena casa escondida no interior de um jardim, onde se encontrava um homem estendido e aparentemente morto.
Recuei, estremecendo.
— É Eliezer? — perguntei.
— Sim — respondeu Enoch — e justamente por isso precisamos de ti; Moisés me disse que deves conhecer o processo indiano para despertar o sono, como é conhecida essa espécie de morte.
Fiquei pálido.
O que de mim exigiam fazia parte dos grandes mistérios, que eu havia prometido, sob o mais severo juramento, nunca divulgar.
Quereria Moisés forçar-me a tudo revelar, para o servir, e desse modo cortar-me a retirada?
Depois de um instante de reflexão, concluí que, mantendo oculta a maneira de provocar esse estado, poderia, sem perigo, indicar o processo de despertamento.
Friccionei-lhe, pois, ligeiramente, todo o corpo, banhando-o em água tépida, insuflando-lhe o ar, etc.; e logo Eliezer soltou um suspiro e abriu os olhos.
Enoch ficou para falar com ele, enquanto eu me dirigi à casa de Moisés.
O prestígio do profeta tinha diminuído consideravelmente a meus olhos, depois que me convenci que ele não passava de um sábio habilidoso.
Habitava Moisés no quarteirão dos estrangeiros, em pequenina casa escondida no interior de um jardim, ao qual se chegava depois de atravessar vários pátios.
Quando entrei no quarto, vi-o assentado junto à janela, conversando com um homem de estatura mediana, mas vigoroso, e cujo semblante inteligente irradiava audácia e astúcia.
À minha chegada o profeta levantou-se e, inteirado do feito, apertou-me a mão, dizendo:
— Apresento-te meu irmão Aarão, auxiliar e fiel companheiro.
Saudamo-nos e Aarão, em linguagem fluente e colorida, falou igualmente da libertação do povo hebreu e da grande missão que o Eterno havia confiado ao irmão.
Quando nos sentamos, cruzei os braços e voltei-me para Moisés:
— Permite, Mestre, que fale, não como ao enviado de Jeová, mas como ao sábio discípulo do Templo, dá Casa de Seti.
Pertenço ao número dos que se iniciaram numa grande parte dos mistérios.
Sem dúvida, sendo tu bem mais velho do que eu, tudo conheces.
Ser-te-á lícito desvendar ao povo os mistérios sagrados que te foram confiados mediante o mais solene juramento e utilizar tais segredos para amedrontar as massas e forçar Faraó a libertar os hebreus?
Perdoa-me estas perguntas, mas devo ser esclarecido, para poder servir-te utilmente.
Compreendo que as forças da natureza, habilmente empregadas, podem atemorizar as pessoas ignorantes; mas, conseguirás assustar Mernephtah, que filiado, também à casta sacerdotal e, consequentemente, iniciado, conhece os fenómenos que queres produzir?
Ouvi-te dizer aos velhos que terríveis pragas cairão sobre o Egipto, determinadas por Jeová; disseste que a água se mudaria em sangue e a serpente em bastão; mas isso os nossos prestidigitadores e mágicos também fazem nas praças públicas, nos dias festivos, para divertir o povo, como não ignoras.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 28, 2016 8:04 pm

Moisés pareceu ofendido; mordia os lábios e sulcos profundos vincavam-lhe a fronte lisa.
Depois de um momento de silêncio, disse, fitando-me:
— Pinehas, tu és profundo pensador, e dizes uma verdade; sei mais que tu, pois contava já cerca de quarenta anos quando abandonei o Egipto; também tens razão quanto aos fenómenos que não achas assaz convincentes; isto, entretanto, não será senão o começo, e aquilo que isoladamente constitui um passatempo pode, suficientemente estendido, tornar-se apavorante.
Uma salamandra não é perigosa, mas se houver inúmeras delas a devastarem os campos, então o povo se abrigará nos Templos; uma poça d’água que se torne vermelha, fará rir, mas se o Nilo Sagrado rolar em ondas sanguinolentas, o povo clamará aterrorizado.
Inclinei-me.
— Sabes, Mestre, o que fazes, e obedecerei naquilo que o teu saber e génio deliberarem.
Levantou-se e de braços cruzados deu alguns passos pela sala; depois, parando à minha frente, disse:
— Agrada-me teu espírito observador e prudente.
Queres devotar-te de corpo e alma à minha causa e prestar o juramento de aliança?
Se a isso te decidires, eu te iniciarei e te colocarei em presença daquele que tudo dirige.
— Sim - respondi com firmeza, pois já havia decidido intimamente unir-me à sorte de Moisés.
— Vem aqui todos os dias e ensinar-te-ei uma parte do meu saber.
Entusiasticamente agradeci-lhe e, desde esse dia, estudava com ele noites a fio, convencendo-me de que os sacerdotes e sábios ignoravam muita coisa; que, ainda que conhecessem as primeiras manifestações de certos fenómenos, não tinham nenhuma ideia do desenvolvimento que eles comportavam.
Dia após dia Moisés demonstrava-me maior amizade e confiança.
Certa feita, ousei lembrar-lhe a promessa de mostrar-me àquele que o inspirava.
Passados alguns momentos de reflexão, respondeu:
— Sei que és fiel e devotado; que seja satisfeito, pois, o teu desejo; prepara-te durante dois dias pelo jejum e pela prece; na tarde do terceiro, vem até aqui após te purificares, segundo o rito.
Compareci emocionado e agitado no dia combinado.
Prestado o juramento recebi o sinal da aliança e o profeta levou-me, em companhia de Aarão, a uma sala fracamente iluminada; um único banco de madeira ali se encontrava.
Aarão sentou-se nesse banco, mantendo os braços cruzados.
Nós nos colocamos à sua frente; dentro em pouco, sua respiração opressa e sibilante advertiu-me que dormia e adivinhei que espécie de fenómeno se preparava.
— De joelhos! — murmurou Moisés, abaixando a fronte até o solo.
Imitei-o, porém quando ouvi uma voz articular distintamente estas palavras:
“Nada de vítimas nem de sangue!” — ergui a cabeça e fiquei deslumbrado.
Diante de nós, formando o centro de grande círculo luminoso, flutuava uma forma humana; vaporosa túnica de alvura deslumbrante a envolvia, presa ao peito por uma cruz, cujo fulgor mal se podia suportar.
O rosto transparente, cheio de doçura e majestade, parecia iluminado por olhos e sobre-humana mansuetude.
— Osíris! — murmurei estremecendo, por me encontrar tão perto da divindade.
— Não sou Osíris - disse a aparição, mas Cristina-Crist.
Moisés, — continuou — abandona a casa, sei que ela deve custar muitas lágrimas.
Falo-te, meu filho, como a um chefe que vai batalhar; dispondo de aguerrido exército, contra numerosos inimigos; mas indefesos, porque ignoram tua aproximação.
Ser-te-ão pedidas contas de cada vida, amiga ou inimiga, porque as forças da natureza podem ser empregadas pelo homem para o bem, nunca para o mal.
Guarda-te, pois, de te servires das paixões alheias em teu benefício.
No grande empreendimento que sonhaste no deserto e que agora vais realizar, a paciência e a fé nos teus guias devem constituir tuas armas; não o ferro, o fogo e o sangue.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 28, 2016 8:04 pm

Se não te julgas capaz, agora, de cumprir a missão que te foi confiada, outra ocasião mais favorável ser-te-á dada; não te deixes, pois arrastar (2).
Moisés tudo ouvia carrancudo.
Estendendo os braços para a visão, arrastou-se de joelhos e exclamou com voz entrecortada:
— Mestre de clemência e divina mansidão, eu desejaria que tuas palavras pudessem, qual fonte refrigerante, acalmar e refrescar minha alma!
Não posso recuar no momento de agir, deixar meu povo na opressão; se Mernephtah recusar obedecer, não ouso prometer indulgência; sinto que minhas paixões me arrastarão.
— Meu filho - disse com tristeza a aparição - se te deixares levar pelo teu arrebatamento e ambição, — desaparecerei do teu caminho; quanto mais vítimas fizeres, maior distância nos separará, porque as sombras projectadas por teus pensamentos me repelirão.
Entregue a ti mesmo, teu espírito lúcido se perturbará e vagará no deserto; a dúvida e a incerteza serão teus únicos guias; reconhecerás a ingratidão e a revolta; a coroa com que sonhas jamais a cingirás; cansado, roído de desgostos, coração desenganado, morrerás só e desolado.
Empalideceu a visão, descompondo-se num vapor esbranquiçado, até que se fundiu na atmosfera.
Moisés, rosto colado ao solo, ergueu-se; cruzando os braços sobre o largo peito, apoiou-se à parede, evidentemente agitado por pensamentos tumultuosos; os olhos tanto lhe chamejavam como pareciam extinguir-se; mas, rapidamente; dominou a luta íntima e, voltando-se para mim, disse no seu tom habitual:
— Acabaste de ver aquele que me protege; eu lhe obedecerei voluntariamente, mas ele me pede o impossível; ele já atingiu a impassibilidade inalterável, fruto da perfeição, e não admite a violência dos sentimentos que agitam o coração humano.
Agora, vai, meu filho, e não esqueças o juramento que me prestaste.
Regressei à casa indisposto, com a cabeça pesada; os últimos acontecimentos e os terríveis abalos morais que suportei, começavam a reagir.
No dia seguinte, declarou-se uma febre perniciosa, seguida de tal prostração de forças que me custou algumas semanas para recuperar a saúde.
Os acontecimentos que agitaram o Egipto nessa época me passaram quase despercebidos.
Kermosa me falou dos prodígios ocorridos e, sobretudo, do pavor do povo, quando as águas sagradas do Nilo se transformaram em sangue.
Enoch veio uma tarde buscar-me, dizendo que Moisés queria ver-me.
Se as forças me permitissem, no dia seguinte iríamos ambos ter com o profeta, muito irritado com a resistência e teimosia de Mernephtah, que, passado o primeiro momento de terror, violara sua promessa e recusara libertar o povo de Israel.
Em seguida, contou-me, o consórcio de Smaragda com Rhadamés, marcado para breves dias.
Informou-me, também, do desaparecimento de Mena e desfiou vários boatos que corriam sobre a sorte do jovem cortesão, e que as mais activas pesquisas tinham sido inúteis para descobrir-lhe o paradeiro.
A opinião mais aceite era que Mena, homem dissipador e aventureiro, havia-se demorado mais durante a noite, no bairro dos saltimbancos, dançarinos e outros elementos estrangeiros e baixos, onde não estaria isento de perigos mesmo durante o dia, sendo então assassinado por malfeitores seduzidos pelas jóias que ele gostava de exibir.
O facto era tanto mais provável quanto, já em Thebas, tinha sido ferido em zona escusa do quarteirão dos estrangeiros, só escapando por milagre.
Algumas línguas ferinas tentaram mesmo ligar essa desaparição ao escândalo ocorrido no Templo de Isis, com uma jovem sacerdotisa; entretanto, uma visita feita a Smaragda pelo príncipe herdeiro, e a promessa que fez de assistir, com Faraó, ao seu casamento, afastou esses rumores, de vez que a família real jamais demonstraria tanta consideração à irmã de um sacrílego.
Natural que, apesar da sua tristeza e inquietação, a jovem e bela herdeira se colocasse sob a protecção de um marido.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 28, 2016 8:05 pm

Somente uma dessas novidades atingiu-me como um raio.
O coração cessou de bater e toldou-se-me a vista.
— Filho, tem paciência, — disse Enoch notando-me a emoção — tu triunfarás, mas o profeta te previne que não te entregues a nenhum acto de vingança; confia nele, o futuro te pertence.
Comprimi o peito com as mãos.
— Esperarei paciente - disse cerrando os dentes - mas, se demorar muito, tudo afrontarei.
No dia imediato fomos à casa de Moisés.
A nossa espera estava um ancião que nos conduziu à grande sala subterrânea onde estavam reunidos os anciãos das tribos judias:
Aarão, Moisés, e junto dele um jovem israelita que eu ainda não tinha visto, cuja expressiva fisionomia e olhar brilhante, me impressionavam.
Chamava-se Josué e foi o sucessor de Moisés, o conquistador da Terra Prometida.
O profeta estava visivelmente irritado, veios da testa dilatados, os olhos chamejavam sob as espessas sobrancelhas franzidas e a voz ressoava na abóbada, qual surdo trovão.
— Meus irmãos, vós sabeis — disse — que esse Faraó, traidor perjuro, recusa permitir a partida do povo de Deus, apesar do pavor que experimentou, tanto quanto seu povo, diante das águas sangrentas do Nilo?
Mas não se afronta assim a cólera do Eterno.
Elevou os punhos cerrados e, diante do seu olhar terrível, todos os anciãos se inclinaram até o solo.
— Vou punir os egípcios e seu rei, por ordem de Jeová, de modo que lhes faça cair os cabelos da cabeça e arruinar-lhes os bens de fortuna.
Deu uma ordem, e, prontamente, Aarão e Josué apanharam num canto dois sacos e um fogareiro com brasas.
De um dos sacos, Moisés retirou fragmentos de raiz; do outro, uma espécie de flauta de madeira esverdeada, que exalava odor penetrante.
— Toma e toca — disse — entregando-a a Josué.
Obedeceu-lhe o moço e tirou do instrumento vibrantes e prolongados sons.
Escutávamos curiosos e interessados.
Ao fim de alguns minutos, surdo rumor se fez ouvir ao redor de nós; atritos, assobios e grunhidos ecoaram.
Imediatamente um verdadeiro exército de ratos, lagartixas, sapos, etc., surgiu de todos os cantos do velho subterrâneo, desembestados e como impelidos por estranha força.
Recuamos todos com gritos de pavor.
Imediatamente Aarão lançou nas brasas as raízes e, desde que a espessa e aromática fumaça atingia os animais, eles recuavam e desapareciam nas suas tocas subterrâneas.
— Eis agora o que deveis fazer — disse Moisés.
Aarão distribuirá a cada um dos anciãos quantidade destas flautas, raízes e grãos cujo uso indicarei; cumpre a cada qual confiar as flautas a pessoas devotadas, que se encontrem a serviço nas casas egípcias de Tanis, do campo e cidades circunvizinhas, tão longe quanto possível.
Essas pessoas deverão esconder-se nos socavãos das casas, dos templos e palácios, sem mesmo exceptuar o de Faraó.
Desde que surjam os animais, atirem-lhes nacos de carne embebidos num líquido preparado com as sementes de que falei.
Uma vez atraídos para fora de seus esconderijos, excitados e imundos, se espalharão por toda parte, devorando tudo que encontrem na sua passagem.
Cada noite se renovará o processo, a fim de manter a continuidade da invasão.
Á margem dos lagos, canais e pântanos, colocar-se-ão outros músicos, neles lançando um pó que se lhes dará.
Usarão docemente as flautas para atrair à terra firme lagartos, rãs, etc.
Para que nosso povo fique livre desta calamidade, Jeová ordena que as moças e damas de Israel mantenham, nas casas e pomares, fogareiros em brasa, lançando-lhes raízes, cuja fumaça afugentará de suas moradias e terreiros todos os animais daninhos.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 28, 2016 8:05 pm

Tudo deverá estar pronto dentro de três dias.
Começaremos por perturbar as núpcias de um rico egípcio, às quais Mernephtah prometeu assistir com o seu séquito.
Compreendi, e quando ficamos sós, agradeci-lhe essa atenção.
Sorriu com benevolência, entregando-me uma flauta e uma caixeta de raízes e grãos.
— Tu mesmo, filho, atrapalharás o casamento da ingrata Smaragda; estragarás essa esplêndida festa que o Faraó e os grandes da Corte devem honrar com sua presença.
Fica certo — continuou — que o medo e o horror farão esquecer ao vilão Rhadamés os madrigais que prepara para sua bela noiva.
Calorosamente agradeci-lhe, e essa perspectiva de vingança constituiu um bálsamo para meu coração corroído pelo ciúme; esforcei-me por comer e dormir para estar forte no dia seguinte.
Afinal chegou o dia do casamento de Smaragda, tão doloroso para mim.
Na hora fixada, dirigi-me, seguido de um escravo hebreu, para o palácio de Mena.
Extraordinária animação ali reinava; pátios, vestíbulos e escadarias, repletos de escravos e criados; uns colocavam flores por toda parte, outros sobraçavam cestas de frutas e doces, ou pratos de iguarias e ânforas de vinho; nos pátios externos, estendiam-se imensas mesas para regalo do povo e dos indigentes, como de uso.
O serviço era fiscalizado por mordomos armados de bengala.
Ninguém deu por mim e por meu companheiro, de modo que, sem dificuldade, deslizamos até o porão cujas portas estavam abertas, para facilitar o aproveitamento de vinho.
Acomodamo-nos bem no fundo, por trás de enormes ânforas.
Logo que nos instalamos, clamores populares seguidos do retinir de armas, anunciaram a chegada de Mernephtah.
Com isso, os rumores da festa aumentaram em todo o palácio; cantos, músicas, ruídos de louças, de taças, chegavam vagamente ao meu refúgio.
Era tempo de agir.
Abandonei o abrigo e tirando do saco do companheiro pedaços de carne ensopada no líquido preparado, de cheiro activo, abri as portas dos compartimentos contíguos e subi num caixão vazio, juntamente com o escravo, pondo-me a tocar a melodia prescrita.
Surdo ruído anunciou-me imediatamente, a aproximação do inimigo e, das profundezas surgiu em negra torrente a massa dos asquerosos animais.
Atirei-lhes a carne e eles, como enfurecidos, precipitavam-se para fora.
Não parei de tocar, contemplando, estranhamente impressionado, o desfile que continuava a meus pés e parecia interminável; sabia que, por toda a parte, o mesmo se dava, isto é, que naquele momento Tanis e seus arredores eram invadidos por esse exército de novo género.
Angustiosos e ensurdecedores, os gritos e clamores advertiram-me do combate aos invasores.
Então, passando a flauta ao companheiro, ordenei-lhe sob pena de morte, que não abandonasse o posto, antes que ali voltasse e deslizei para o pátio, no intuito de franquear os apartamentos e ver com os próprios olhos Smaragda, a festa desfeita e a fisionomia espantada da noiva a combater os ratos.
Entretanto, não pude passar, por causa do tumulto e aglomeração.
Mernephtah acabava de retirar-se, mas ainda se ouvia, lá fora, a voz dos oficiais que demandavam passagem.
Os convidados dispersaram-se tão rapidamente que abandonaram os cavalos; estes empinavam, os carros se abalroavam, as liteiras tombavam.
Cada qual se apressava em chegar à própria residência igualmente assaltada.
Enfim, o palácio esvaziou-se, o que permitiu avaliar a desolação espalhada por toda parte.
Fingindo vir de fora, passei saltando sobre cadáveres de roedores; ninguém me notou, porque os criados, escravos e mordomos, todos com o que lhes tinha podido vir às mãos, lutavam, contra as ratazanas que invadiam as mesas emborcadas, devorando as iguarias pelo chão, festejando, com pasmosa voracidade, as núpcias de Smaragda.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 28, 2016 8:05 pm

Subi as escadas, penetrei no magnífico salão, donde precipitadamente fugira a brilhante nobreza egípcia; no centro, enorme e bem provida mesa, estava posta com baixelas de ouro e prata; as cadeiras derrubadas, jarras e mesmo terrinas enormes, atiradas ao solo; ânforas entornadas, vinhos custosos correndo pelo chão e, por todos os lados, onde havia carnes ou pastéis, grupos de animais imundos a grunhir, tudo devorando ou mordendo-se ruidosamente.
Atarefados serviçais corriam berrando e gesticulando, não sabendo o que fazer.
Súbito, uma ideia me confrangeu o coração:
se eu encontrasse Rhadamés abraçado à sua jovem esposa, defendendo-a contra os famélicos agressores e ela, assim lhe correspondendo com amor?
Punhos cerrados, meu olhar temeroso, mas ávido, percorreu a sala fixando-se, admirado, em Rhadamés que, em cima dum aparador, pálido, de aspecto horrível, manejava a espada sem cessar e proferia impropérios para chamar os escravos e ordenar que o cercassem e defendessem com seus bastões.
Seus olhos, atarantados, não se voltavam para a mulher que lhe havia confiado a vida.
Brotou-me na alma amarga satisfação.
A mim que a teria protegido e resguardado, repelira duramente, para escolher aquele poltrão egoísta.
No mesmo instante vi Smaragda de pé, colada à parede, do outro lado da sala.
Ela estava maravilhosa num vestido branco, bordado a prata, preso à ilharga com um cinto de rubis; grande colar e pulseiras de faiscantes gemas lhe ornavam o colo e os braços; o rosto pálido de morte, mas não era o medo que lhe transparecia no semblante marmóreo, mas sim raiva e desprezo.
Lábios contraídos e olhos chamejantes, observava o marido preocupado na própria defesa; ela se esquecia do resto, não vendo, sequer, a velha ama que, acocorada a seu lado, procurava defendê-la corajosamente, matando ratos e ratazanas a pontapés.
Cruzando os braços, aproximei-me e disse com ironia:
— Smaragda, não sei se posso felicitar-te pela escolha.
Para um recém-casado, vejo que o preferido cuida mais da sua defesa pessoal; conheço alguém a quem ofendeste e recusaste cruelmente e que, entretanto, melhor te consideraria nessa conjuntura, por força de sua estima.
Vendo-me e ouvindo-me, ela deu um grito, mediu-me com expressão odiosa e disse com asco:
— Pinehas, tu te enganas, não foi a Rhadamés que eu preferi; vós vos equivaleis, meu coração pertence a um terceiro, a quem não posso amar abertamente; se pensas que este transtorno, no festim de minhas núpcias, me contrariou, estás redondamente enganado.
Eu apenas declaro uma coisa, estar ligada a esse poltrão que devia defender-me.
Se os ratos o devorassem, eu daria graças aos deuses por tê-los enviado.
Atónito pelo que ouvia, adverti:
— Se nos estimas da mesma forma - disse - por que consentiste em esposá-lo?
Por que escolheste Rhadamés?
Eu fui o primeiro a oferecer-te o coração.
Seu rosto tomou expressão dura e cruel.
— Primeiro — retrucou — porque Mena lhe havia prometido minha mão; mas, principalmente, porque ele é o condutor do carro de Faraó, enverga brilhante uniforme e desempenha um cargo na Corte; tu nada tens; nem função, nem farda com que te vestires e, ademais, passas por feiticeiro!
Interrompeu-se, dando um grito, porque enorme ratazana lhe subira pelas vestes.
Apanhei o animal pela cauda.
— Agradeço-te, Pinehas; agora dá-me um prazer (desdenhoso sorriso lhe descerrou os lábios):
atira este delicado animal à cara de Rhadamés.
Naquele momento ele olhava o tecto, supondo que os inimigos também dali provinham.
Contente por poder descarregar minha raiva sobre alguém, obedeci ao sábio conselho de Smaragda e lancei com tanta felicidade o animal, que ele foi bater justamente no peito de Rhadamés, cravando-lhe as garras no pescoço.
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