Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Página 3 de 7 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6, 7  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 28, 2016 8:05 pm

Enquanto ele se debatia, gritando horrivelmente, Smaragda chamou um escravo, e, dando-me as costas, ordenou que a carregasse para fora da sala.
Retirei-me furioso.
Chegando à casa encontrei minha mãe desesperada, porque, apesar das precauções tomadas, alguns ratos a tinham invadido e roído um saco de farinha.
Ela vociferava, lançando a Moisés e Enoch toda espécie de maldições celestes.
Acalmei-a, e, depois de haver eu mesmo cuidadosamente depurado a casa, os terríveis roedores desapareceram.
Recolhi-me aos meus aposentos e entrei a considerar os sucessos.
Uma coisa me consolava:
é que não havia mais amor no palácio de Mena e o condutor do carro de Faraó estava longe de conquistar o coração de Smaragda.
Mas, a quem amaria ela?
Debalde quebrava a cabeça e, não encontrando solução, consultei os invisíveis.
Foi com grande espanto, que soube que seu coração pertencia a Omifer, jovem belo e riquíssimo, mas a quem dificilmente poderia esposar, sobretudo com o consentimento de Mena, porque velho ódio de sucessivas gerações separava as famílias.
Essa inimizade, oriunda de uma rivalidade em assunto de amor e favor real, se envenenara tanto que ambas as partes, esquecendo respeito e compostura, chegaram a insultar-se reciprocamente na presença do próprio Faraó, culminando num abrir e fechar de olhos em luta corporal, e causando a morte de um apaziguador.
Irritado, o Faraó, condenara o assassino (ancestral de Omifer) à deportação para as minas, e ainda que anos mais tarde, o indultasse em atenção a serviços anteriormente prestados, o ódio entre as duas famílias havia-se enraizado e, sobrevivendo aos autores do drama, galvanizava-se entre os descendentes por uma série de intrigas e crimes.
Só a poderosa palavra do grande Ramsés II lhe pusera fim, oficialmente:
os representantes das famílias inimigas concordaram, perante o rei, em se apertarem as mãos, jurando esquecimento e perdão.
Já impossível abertamente, a inimizade, as relações cobriram-se de cinza:
cumprimentavam-se em público, visitavam-se cerimoniosamente, mas qualquer ligação consanguínea era considerada indigna de parte a parte.
Além de tudo, o pai de Omifer, faltando ao compromisso assumido com a grei egípcia, desposara bela escrava prisioneira de guerra, assim ferindo muitas susceptibilidades.
O filho tinha-se dedicado inteiramente à administração das extensas propriedades que possuía e não exercia função alguma, fosse na Corte ou no exército; começara a frequentar o palácio de Mena, havia cerca de um ano; o irmão de Smaragda facilitava essa visitas pelos motivos que acabamos de indicar, mas não estimava Omifer e, certo, jamais concordaria num casamento, mas antes empregaria todos os meios de o impedir.
De qualquer forma o amado de Smaragda também experimentava, como eu, nesse momento, as mesmas torturas do ciúme, e esta ideia foi um alívio para o meu coração ferido.
Nos dias que se seguiram pouco saí, mas soube por Enoch que o povo, assustado, já havia suplicado a Faraó deixasse partir os hebreus.
Mernephtah, embora inquieto, resistia; havia convocado sábios, quando um acaso desvendou o plano, favorecendo os egípcios.
Um oficial da guarda, aquele mesmo Necho, meu condiscípulo em Thebas, julgando um mistério a incolumidade das residências judaicas, forçou uma delas, lá surpreendeu mulheres, depurando-a.
Apoderou-se das raízes, grãos e tudo mais que pode apanhar, apresentando-os a Mernephtah.
Assim encaminhados, não foi difícil aos sábios desembaraçar o país da calamidade.
A raiva dominou Moisés.
Declarou, num conciliábulo de chefes das tribos, que Jeová, irritado com semelhante resistência aos seus desígnios, ia lançar sobre o Egipto flagelos mais terríveis que os precedentes.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 28, 2016 8:05 pm

Tomou várias providências e recebi ordem para ficar com Enoch, junto dele.
Logo que ficamos a sós, levou-nos a um grande galpão de trigo, vazio no momento.
A abertura do tecto estava fechada por uma tampa de couro e algumas lâmpadas fumarentas o iluminavam.
Obedecendo sua ordem abrimos dois grandes sacos cheios tio grãos cinzentos; despejamo-los em compridas gamelas de madeira contendo terra misturada com um pó branco.
Depois, cobrimos os grãos com esterco humedecido em água quente, e Moisés estendeu as mãos sobre as gamelas, projectando nelas um olhar inflamado, ao mesmo tempo que pronunciava palavras incompreensíveis.
Impediu-nos de sair.
Enoch, de vez um quando, umedecia o esterco e eu auxiliava; Aarão estava ausente.
Um movimento começou a esboçar-se nas gamelas no terceiro dia, depois houve um crepitar seguido de sussurro, que aumentava sempre de intensidade; nuvens negras e compactas se elevaram; gritamos, mas Moisés destapou o tecto e vi, então, que as nuvens eram de gafanhotos que, atraídos pelo ar fresco, saíam aos borbotões.
Fiquei assombrado.
Sim, Moisés era um grande mago!
Não sei explicar como ele procedeu, mas sacos semelhantes foram distribuídos em várias regiões e Aarão superintendeu a distribuição.
Certo é que nuvens de gafanhotos apareceram e causaram grandes devastações no país.
Não obstante o descontentamento do povo, Faraó resistia e prolongava a situação; no momento talvez de ceder, um acaso veio favorecê-lo.
Providencial tempestade desencadeou-se carregando todos os gafanhotos e atirando-os ao mar, onde desapareceram.
Pensei, então que Jeová se voltava contra nós, mas seu enviado não era homem para consentir que semelhante dúvida pudesse ser tomada em consideração; declarou, portanto, aos anciãos, que o Eterno, na sua bondade, tinha afastado os gafanhotos, conhecendo a intenção do Faraó, de submeter-se, mas sua falta de lealdade seria duplamente punida.
Certo dia, Moisés mandou que lhe trouxessem animais de várias espécies: cavalo, burro, carneiro, camelo, vaca, etc., fazendo em cada qual uma incisão com uma faca de pedra e introduzindo na ferida certa substância tirada de um vidro; depois, mandou prendê-los; nessa mesma tarde eles ficaram cobertos de chagas.
Convenci-me de que tinham sido empesteados.
Então, Moisés mandou que trouxessem enormes vasos cheios de moscas vivas, as quais foram lançadas sobre os cadáveres e que, depois voaram; ao mesmo tempo, pedaços dessa carne foram jogados em todos os poços e fontes, onde os egípcios davam de beber aos animais, e aguardou-se o resultado.
Não foi longa a espera.
Decorridos alguns dias, por toda a parte clamores se levantaram anunciando a peste nos rebanhos, ameaçando aniquilar a principal riqueza do país.
Por um esquecimento deixei de mencionar que encontrara ainda em casa do pobre Mena um antigo camarada, Necho, que agora servia na guarda pessoal de Faraó, como oficial; ele me visitara apenas uma vez, mas como não lhe agradasse a natureza científica dos meus trabalhos não mais me procurou.
A peste que lhe feria o bolso, como a muitos outros, fez-lhe recordar os meus conhecimentos.
Uma manhã apareceu, atormentando-me para que lhe fornecesse um remédio capaz de lhe salvar os rebanhos.
Recusei, naturalmente, para não trair Moisés.
Necho ficou furioso.
Muito admirado fiquei quando ele reapareceu horas mais tarde e renovou o pedido.
Dada a minha formal recusa, disse com estranho olhar:
— Não estou sozinho; uma ilustre egípcia acompanha-me e vem pedir-te auxílio e socorro.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 28, 2016 8:06 pm

Perguntei-lhe aborrecido:
— Uma mulher? — não sei quem tenha o direito de me pedir qualquer coisa, que, ao demais, não posso fazer.
— Era essa resposta que já esperava — disse Necho — e vou dizer à irmã de Mena que recusas recebê-la.
Lampejou-me uma chama no cérebro:
Smaragda rendia-se!
Precipitei-me para o pátio, empurrando Necho que saía, e vi a jovem sentada na liteira, cercada de porta-abanicos e cuidadosamente velada.
Cumprimentei-a reverente, ajudei-a a descer e encaminhei-a para meu quarto.
A ideia de ter em minha casa a mulher amada, que vinha fazer-me um pedido, perturbava-me a razão; o coração pulsava desordenadamente e pressentia vagamente o perigo que ameaçava os segredos do chefe, se Smaragda me fixasse os belos olhos suplicantes.
Sentou-se e após retirar o véu conservou-se de olhos baixos.
Com voz entrecortada, pediu-me lhe indicasse o remédio para salvar os seus rebanhos, evitando-lhe a ruína.
Recusei; ela se ergueu ofendida, mas Necho inclinou-se e lhe sussurrou qualquer coisa ao ouvido.
Vi-a então enrubescer; depois, voltou-se, tomou-me a mão, inclinou-se quase roçando no meu o belo rosto ansioso, e pediu-me veemente, lhe concedesse o remédio salvador.
Calei-me, fascinado, e escutava-lhe mais a música vocal que as próprias palavras, aspirando com volúpia o perfume que me acariciava as faces; uma felicidade mesclada de amargura apertava-me o coração, como a esmagá-lo; ora tinha ímpetos de cingi-la, ora de repelir a traidora que, conhecendo minha fraqueza, queria dominar-me e não sabia, ao demais, que era a favor de Omifer que havia de ceder.
Uma ideia luminosa esclareceu-me subitamente:
— Smaragda — disse — abusas do teu fascínio sobre mim, mas só te atenderei em troca de três beijos.
Fremente de orgulho e cólera ela recusou e, sem responder, dirigiu-se para a porta.
Pela segunda vez, Necho a deteve pela mão e falou qualquer coisa, naturalmente alguma palavra mágica, porque Smaragda parou, e voltando-se para mim, pálida como um cadáver e mais bela que nunca, disse, baixinho:
— Aceito.
Embriagado, esquecendo tudo apertei-a entre os braços e beijei-lhe apaixonadamente os lábios gelados, que ela não me recusava.
Dei-lhe, depois, as fórmulas para garantir os animais ainda não atingidos e ela, velando-se saiu.
Mais tarde, Enoch procurou-me e comunicou que no dia seguinte, à tarde, haveria reunião de todos os chefes, na sua casinha do subúrbio.
Deveríamos tomar todas as providências para a partida do povo de Israel; todos deveriam estar prontos para o momento em que Faraó consentisse.
Não mais se duvidava de que, por fim, ele cedesse definitivamente, porque, conforme todas as previsões, a peste tão habilmente disseminada pelos rebanhos, deveria contaminar também as pessoas.
Tudo favorecia esse contágio:
o calor escaldante, o ar infectado de miasmas deletérios dos milhares de animais mortos, e, desde que a morte começasse a ceifar as vidas humanas, Mernephtah deveria conjugar a causa do tamanha calamidade.
Enoch me recomendou pontualidade.
Quando a noite desceu, fui ao local designado, lá encontrando já reunidos os chefes das tribos, em sua maior parte anciãos de aspecto venerável.
Conversava-se pouco e quase todos se mostravam apreensivos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 28, 2016 8:06 pm

Moisés não tardou a chegar, acompanhado de Aarão; tomou assento na cadeira mais alta.
Enquanto serviam refrescos, eu não podia tirar os olhos do nosso perigoso chefe a quem, no íntimo, temia; sua fisionomia austera denotava inquebrantável resolução e seu olhar brilhava de audácia e inteligência; eu tinha a convicção de que seria bem sucedido.
Depois de esvaziar o último copo, o profeta ergueu-se e disse:
— O momento da libertação aproxima-se, irmãos, porque a peste que devasta os rebanhos egípcios breve assolará também as famílias, sem executar o palácio do indigno Faraó que ousa resistir à vontade de Jeová, vendo embora que o látego do Eterno fere sem compaixão o seu povo flagelado.
Mas quando a doença e a morte lhe entrarem no lar, então, tremerá, e o povo eleito de Deus sairá deste país de escravidão, para fundar um novo reino.
Tudo deverá estar pronto para o momento em que eu der o sinal da partida; chefes das doze tribos de Israel, ouvi, pois, as ordens que Jeová vos transmite por minha boca.
Dizei a vossas mulheres e filhos que tenham lavadas, enxutas e empacotadas as roupas; fazei o mesmo com o que possuirdes de mais precioso e, por outro lado, arrebanhai dos egípcios o mais que puderdes em ouro, baixelas preciosas, pedrarias e tecidos; carregai as mulas e camelos de quantos tesouros puderem suportar, e nada temais; sois o povo escolhido de Deus e deveis sair daqui não como mendigos, mas ricos e poderosos, O Eterno vos ordenai pois, pilhar o ouro dos réprobos, que, pela metade, representa o vosso suor; tendes necessidade desse ouro para fundar um reino e construir um Templo.
Nada do que temos deverá ficar no Egipto, a não ser a lembrança da cólera celeste; deveis, portanto, levar como relíquia sagrada as cinzas do patriarca José, a fim de que a bênção dos antepassados vos acompanhe à nova pátria.
Braços cruzados religiosamente, os chefes mantinham-se cabisbaixos.
— Tudo será feito como ordenas — responderam por fim, inclinando-se.
Voltei para casa agitado, pelos mais estranhos sentimentos.
Como todos os iniciados, eu sabia que existia um Deus único, superior a tudo, tão grande que não havia como nomeá-lo.
Mas se Moisés já se atrevia a desvendar esse grande mistério, como ousava, entretanto, rebaixar o Criador do Universo, até à vulgaridade, ordenando em seu nome o roubo e a pilhagem, e fornecer detalhes meticulosos para a partida, o conforto e mesmo os aprestos culinários do povo hebreu?
Por experiência própria, sabia como eram graves, austeros, mas misericordiosos, aqueles a quem os mistérios permitiam evocar, e que, no entanto, não passavam de mandatários do Grande Senhor do Universo.
Osíris ou Isis jamais haviam ordenado o roubo ou autorizado a semear a morte e a peste; prescreviam, ao invés, a virtude e o amor ao próximo, e curavam em todos os templos, milhares de doentes e peregrinos, ou consolava-os em suas penas.
No meu terraço, debruçado à balaustrada, passei horas a pensar.
A paixão por Smaragda, o desejo de possuí-la, porem, matava em mim todo escrúpulo.
Que me importavam, afinal, os deuses e os egípcios, uma vez que realizasse meu ideal de felicidade?
Passei os dias imediatos em indescritível impaciência e inquietação; caminhava horas a fio de um lado para outro, no quarto ou no jardim, sempre na esperança de que me viessem dizer que a terrível moléstia atingia a população.
Se Smaragda fosse atingida, viria procurar-me e poderia, então, tratá-la e raptá-la com mais facilidade.
Certa tarde, enfim, minha mãe veio prevenir-me, muito apreensiva, que em nossa rua havia três famílias contaminadas.
À noite, dispunha-me a sair e dar uma volta pela cidade, quando dois homens pálidos e atónitos me invadiram o aposento:
uma era Necho e no outro reconheci, estupefacto, Omifer!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 28, 2016 8:06 pm

— Pinehas? - exclamou Necho apertando-me a mão — presta-me um favor que fará de nós teus escravos para o resto da vida:
salva minha mana Ilsiris, atingida pela peste, bem como Smaragda, para quem Omifer vem implorar teu socorro.
És muito sábio para não ignorares um recurso salvador.
Por um momento hesitei.
Que me importava a morte da irmã de Necho?
Recusando, porém, auxiliá-lo, não poderia socorrer Smaragda.
Acabei anuindo, e dei a Necho os remédios e prescrições necessárias.
Ordenando-lhe urgência, ele saiu correndo e deixou-me com Omifer.
Disfarçando a raiva e o ciúme que me inspirava o belo moço, dela amado, fitei-o desdenhoso e glacial.
— Quem és — perguntei-lhe — e a que título intercedes pela vida de Smaragda?
Foi Rhadamés que te enviou?
Ele cruzou os braços e amargo sorriso crispou-lhe os lábios.
— Amo Smaragda, que, no momento, não se abriga no seu lar, porque o marido, horrorizado e acovardado, vendo-a contaminada pela peste, mandou-a embora...
Tenho em minha casa a enferma, que me foi cara nos tempos saudáveis e venturosos.
Pinehas, a ti, que és poderoso mágico e competente médico, venho pedir socorro; arbitra o preço que entenderes.
Darei prazeirosamente dez camelos carregados de tesouros pela salvação da mulher adorada.
Compreendi que Omifer ignorava a minha paixão, pois, doutra forma não me confiaria a enferma.
Respondi, então, simulando indiferença:
— Bem, aceito a proposta.
Manda-me os dez camelos e tratarei de Smaragda.
Mas só me responsabilizarei por sua vida se a mantiver aqui comigo, a fim de acompanhar dia e noite a marcha da moléstia.
— Eu a trarei, se juras salvá-la — exclamou Omifer, de olhos brilhantes.
— Juro-te guardá-la e tratá-la como se fosse tu mesmo — respondi com o coração palpitante de alegria.
Ele saiu e procurei minha mãe para avisá-la da chegada dos camelos e pedir o seu concurso no preparo de quanto se fazia preciso para receber Smaragda.
À notícia de tão inesperada fortuna, Kermosa não pode conter-se.
— Finalmente, Pinehas — exclamou — tua ciência nos traz alguma coisa e me compensa um tanto os cuidados e gastos enormes que tive com a tua educação.
Aos terminarmos os preparativos, chegou o cortejo.
Smaragda, resguardada e envolvida numa colcha de seda, vinha deitada em liteira conduzida por escravos.
Omifer a acompanhava, trazendo consigo uma velha criada.
Pusemos a enferma em seu leito e despedi Omifer, dizendo-lhe que poderia vir no dia seguinte, porque, no momento, precisava ficar só com a doente, para pronunciar, sob os raios da lua, as conjurações necessárias.
Tão logo ele saiu, retirei o véu que ainda a cobria e inclinei-me avidamente para o belo rosto impassível.
Ela parecia desmaiada, da brancura do lençol que a envolvia; grande mancha violácea no pescoço e no braço, advertiram-me logo da gravidade do mal.
Esqueci tudo por um instante e deixei-me ficar embevecido na contemplação da bela criatura, estendida, qual marmórea estátua, emoldurada pela massa dos cabelos negros de azeviche.
— Até que enfim — monologuei apaixonadamente — eis-te em minha casa e nenhuma força te arrancará de minhas mãos; seguir-me-ás longe do Egipto e tu me amarás.
Aquelas manchas negras chamaram-me à realidade; urgia intervir sem demora, se não quisesse deixar perecer o fruto da minha vitória.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 28, 2016 8:06 pm

Com todo o poder da vontade concentrado, fixei os olhos naquele rosto que seria capaz de contemplar por toda uma eternidade e, elevando as mãos sobre o corpo da enferma, apliquei-lhe passes longitudinais da cabeça aos pés.
Vivo calor espalhou-se-me sobre todo o corpo, acompanhado de abundante suor; levíssimo crepitar, como de brasas, me entorpeceu o cérebro sem lhe tirar a lucidez.
Todas as minhas faculdades mentais estavam em plena actividade, apenas mais vivazes e mais agudas.
Na semi-obscuridade do aposento, percebi que, a cada passe, jactos de fumaça azulada e brilhante me saíam da ponta dos dedos e essa cascata prateada caía sobre a doente, e parecia absorvê-la, exalando, em troca, espesso vapor enegrecido, que, pouco a pouco se dissipava, deixando o corpo da enferma como envolvido em nuvem azul prateada.
Seu aspecto também experimentava várias mudanças.
À palidez cadavérica sucedeu rubor ardente e febril; à imobilidade, contracções bruscas; depois, tudo se resolveu em profundo e tranquilo sono.
Só então percebi que os eflúvios argênteos que me saiam dos dedos tornavam-se agora em fumo espesso, avermelhado e causticante; compreendi já não eram fluidos benéficos, dados pelos invisíveis, que eu expelia e, sim, a própria força vital, e por isso eu devia repousar.
Puxei uma cadeira e nela tomei assento.
Contemplava Smaragda com sentimentos bem diversos.
Sua respiração suave e calma, a mão molhada de um suor quente, a indicar que o maior perigo havia passado.
Não desejava, porém, conservá-la para Omifer ou Rhadamés; os punhos se me contraíam de raiva, à lembrança deste último; a sorte lhe havia conferido com essa mulher uma fortuna, e ele a expulsara do próprio lar, expondo-a à caridade pública.
A mim, ela preferira esse egoísta, ingrato, insensível ao amor ou ao ciúme e que se desfizera dela, aborrecido e horrorizado.
Nem por um momento a teria cuidado, sua mão não lhe servira sequer uma gota d’água e teria morrido abandonada se Omifer e eu não a houvéssemos socorrido.
Sem dúvida, ela merecia esse ultraje e eu antegozava, com alegria, o momento em que recobrasse os sentidos, para lhe revelar tudo e vê-la corar de indignação, a boca frequentemente tão dura e desdenhosa contraída pelo orgulho ofendido.
Entretanto, invejava a indiferença desse Rhadamés que, tranquilamente, sem remorso, afastara da lembrança aquela mulher de beleza fascinante enquanto eu, louco, me tinha apegado a ela por um amor fatal, que nenhuma afronta ou desprezo podia destruir.
Desprendi-me dessas divagações com um suspiro.
Era tempo de preparar um remédio.
Servi-me de um grande vaso de alabastro cheio d’água e impus-lhe as mãos pronunciando uma evocação; o mesmo fluído azulado desprendeu-se-me dos dedos e encheu o vaso de uma flama coleante, e ministrei um copo a Smaragda que o sorveu avidamente, adormecendo logo após.
Chamei o serviçal e ordenei observasse os menores movimentos da enferma, subindo ao terraço, extremamente fatigado.
Lá me deitei numa esteira forrada de tapetes e adormeci profundamente.
Na manhã seguinte veio Omifer e permiti que visse Smaragda ainda adormecida.
Constatando o sono tranquilo e o leve rosado das faces, ele ergueu as mãos ao céu em muda prece; depois, expliquei-lhe que a enferma estava extremamente fraca e precisava de longo e absoluto repouso, dizendo-lhe que evitasse vê-la ou falar-lhe.
Nada obstou confiando cegamente em mim, e apenas pediu lhe entregasse, de sua parte, um rico bouquet de lírios e rosas. Despediu-se.
Coloquei as flores num vaso e, quando a doente despertou, servi-lhe um cordial.
Vendo-me inclinado para ela, mostrou-se profundamente contrariada.
— De ti nada quero — disse com acrimónia.
— Deves beber, Smaragda; do contrário não te darei o bouquet que Omifer trouxe.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 28, 2016 8:07 pm

Estendeu a mão, mas adverti:
— Não te darei antes que bebas.
Depois de o fazer, entreguei-lhe as flores, e ela as beijou.
— Muito obrigado, Smaragda, essas rosas são minhas e não as desprezes por isso; em todo o caso, foi o teu Omifer quem aqui te trouxe para que te curasse.
Entre contrariada e aborrecida guardou as minhas flores e adormeceu novamente.
As semanas seguintes foram para mim calmas e felizes, apesar da terrível epidemia que assolava a cidade e o país; poucas famílias egípcias restavam indemnes do flagelo e o desespero atingia o auge.
Minha mãe ganhou muito com esses tempos aflitivos, vendendo remédios por mim preparados.
Eu, por minha vez, conservava-me oculto, aguardando impaciente a ordem de marcha, tendo já tomado todas as providências para transportar o tesouro vivo, sequestrado a Omifer.
Smaragda sobreviveu ao terrível morbo e estaria inteiramente livre da extrema fraqueza que ainda a retinha no leito, se não a entretivesse, de propósito, para guardá-la em casa.
Persuadi-a, assim como a Omifer, que era um resto da doença e que a menor mudança ou emoção podia originar uma recaída.
Não fora reclamada pelo excelente marido Rhadamés, o qual nem se dignara perguntar por ela.
Omifer visitava muitas vezes a bem-amada, mas sobrecarregado de afazeres, não podia demorar-se muito tempo; sua presença tinha de bom a manifestação do profundo reconhecimento à minha pessoa, e isso tornava Smaragda menos rebelde e até amável, às vezes.
Mas mulher é sempre mulher, isto é, curiosa e tagarela.
Smaragda entediava-se, queria saber das novidades, dos boatos correntes na cidade e na Corte e, assim, além de médico, cumpria-me a função de noveleiro.
Durante as longas horas passadas à sua cabeceira, sentia-me mais num paraíso que num inferno; para não exacerbá-la, sopitava meus gestos de amor, impunha serenidade às palavras e à expressão fisionómica, mas não podia conter-me quando, admiravelmente vestida de branco, ela se acomodava qual gata nos coxins do leito, dizendo caprichosamente:
— Pinehas, morro de tédio, conta-me alguma coisa.
Ora, eu não queria somente distraí-la mas igualmente educar a mulher que já considerava minha, para companheira de toda vida.
Assim, quando, através da janela aberta, contemplávamos o céu estrelado, falava-lhe desses mundos longínquos e da sua influência sobre os nossos destinos; descrevia-lhe as maravilhas da região onde esperava viver um dia, com ela; afinal explicava as leis da reencarnação, não como a ensinavam ao povo mas como a compreendiam os sacerdotes.
Ela ouvia-me, de olhos brilhantes, cheios de curiosidade; mas, apesar do ardente desejo de prendê-la a mim, não o conseguia e, muitas vezes, me veio ao pensamento que não era a primeira vez que nos encontrávamos e que um misterioso passado nos separava.
Nessas longas horas de confidências, saturava-me cada vez mais do ebriante veneno, esquecendo Moisés e a peste, que, além da minha casa, feria os homens e enchia o ar de gemidos e lamentações.
Não via outra coisa além de Smaragda, junto de quem podia chegar a todo momento para aplicar-lhe passes magnéticos, que lhe proporcionavam extraordinários benefícios.
Sobreveio um acidente mais grave, quando fui chamado por Necho para junto de Seti, filho de Faraó, igualmente empestado.
Curei-o e recebi real recompensa.
Tratei ainda, com sucesso, de alguns parentes do rei, porque queria ser rico, a fim de cercar Smaragda de todo o luxo a que estava habituada.
A cada momento esperávamos a ordem de marcha, porém Mernephtah permaneceu firme.
Lutando heroicamente com a epidemia dentro do próprio palácio, ele soube ainda assim, acalmar e persuadir o povo.
Os egípcios tudo suportavam pacientes e os hebreus não recebiam a autorização para sair.
A princípio, Moisés, exasperado com essa resistência, tornara-se sombrio e parecia planear alguma heróica decisão.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 28, 2016 8:07 pm

Confessou-me Enoch que ainda havia o pavor de um terrível furacão, cuja aproximação o profeta previa; que não obstante, se o povo não se intimidasse com esse novo castigo divino, preparava-se algo de extraordinário, cujos detalhes só me forneceria nos últimos momentos.
Precisei ir a casa de Enoch para tratar de negócios; o calor era insuportável, o solo e o calçamento de peara pareciam irradiar fogo; lá cheguei extenuado e, mal me reconfortara, meu pai me comunicou que horrível temporal varria o deserto e nuvens negras e ameaçadoras se acumulavam no horizonte.
Resolvi regressar a toda pressa, sabendo que Smaragda estava só e morreria de susto, sê se desencadeasse o ciclone previsto por Moisés.
Montei a cavalo, mas, apenas havia atingido as portas da cidade, o vento começou a zunir, e a areia se levantava em redemoinhos cegando-me, assim como a montaria, que recusava prosseguir.
O vento sibilava vergando e quebrando palmeiras; as águas do Nilo cresciam, elevando-se em vagas pardacentas, açoitando os navios como cascas de noz e submergindo as pequenas embarcações.
Fui forçado a abandonar o animal, que pinoteava muito louco, ameaçando desmontar-me; procurei refúgio sob as colunatas do Templo.
O céu, de coloração esverdeada, tornou-se rapidamente negro; relâmpagos e coriscos riscavam o firmamento em todas as direcções, seguidos de estrondos que pareciam abalar a terra.
A lembrança de Smaragda arrancou-me imediatamente do abrigo temporário; minha mãe era assaz medrosa para lhe fazer companhia e muito menos poderia confiar nos escravos.
Recomendando-me aos deuses, retomei o caminho de casa, tropeçando na escuridão quase completa, cego pela areia, várias vezes derrubado pelo vento, meio surdo, e finalmente cheguei.
Encontrei minha mãe deitada no chão, de cabeça coberta para não ver os relâmpagos, gritando aterrorizada em uma peça que servia de sala de visitas; ao redor, escravos e criados jaziam acocorados, mudos, imbecilizados.
Sem me deter, corri para os meus cómodos.
Anoitecera completamente, mas, ao lampejar dum relâmpago, vi Smaragda ajoelhada junto do leito, a cabeça enfurnada nos travesseiros, os cabelos desgrenhados.
Inclinei-me chamando-a pelo nome.
Levantou-se de um salto, o rosto contraído pelo terror, lábios semi-abertos, olhar fixo; depois atirou-se-me nos braços e escondeu o rosto em meu peito; todo o corpo lhe tremia, o coração batia como se fora romper-se e seus pequeninos dedos, gelados, apertavam-me convulsivamente.
Fiquei assustado, pois tal excitação nervosa podia ser prejudicial ao seu organismo delicado, ainda combalido pela recente enfermidade.
Enlacei-a pela cintura e fi-la sentar-se a meu lado, no leito, tentando acalmá-la com sugestões e conselhos.
Nada respondeu.
Calei-me, premendo os lábios na sua opulenta e perfumada cabeleira.
O que experimentava, então, era indescritível; a paixão me alucinava, não mais percebia raios e coriscos, o ruído da grossa saraivada e o zunir do furacão.
No caos dos elementos revoltos, apenas sonhava uma longa existência na Terra da Promissão.
— Não te deixarei com Omifer — murmurei intimamente; hás de esquecê-lo e acabarás amando-me, vivendo contente num castelo que te ofertarei.
A ter de te restituir a ele, preferia perecer contigo neste cataclisma, ou contemplar-te morta.
Não sabia que aquela pálida e débil criatura, que, abatida entre meus braços, estremecia a cada ribombo, me preparava no futuro um inferno de ciúme e ódio, e que a sorte implacável não me deixaria ao pobre coração mais que a contemplação do seu corpo inerte.
Passaram-se horas e a tempestade aumentava em vez de diminuir, e quando a ampulheta anunciava que o dia há muito despontara, Smaragda adormeceu, vencida pelo cansaço.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 28, 2016 8:07 pm

Deitei-a no leito, cobri-a, e, inclinando-me para ela, sonhava com o futuro e gozava as primícias do paraíso.
Ao reabrir os grandes olhos negros, a violência da tempestade havia amainado um pouco, os trovões eram mais espaçados, mas ainda assim ela me apertava nervosamente a mão.
Tinha ímpetos de estreitá-la ao peito, para lhe demonstrar que não estava só e que era amada e protegida.
Continha-me, mas não podia calar inteiramente, naquele instante em que o coração transbordava.
— Desperta! — disse-lhe inclinando-me; acalma esses temores; lembra-te dos mistérios de que te falei, desse Deus único e poderoso que dirige o Universo; admira, nessa desordem da natureza, a emanação de uma potência perante a qual o poder de Faraó não representa mais que a haste frágil de uma planta.
Um relâmpago naquele momento iluminou a casa inteira; ela tremeu e fechou os olhos.
— Smaragda, não tremas; essa luz brilhante que atravessa o céu com a velocidade do pensamento, é fogo da mesma essência do nosso espírito, e quando deixarmos o corpo, assim atravessaremos o espaço.
Falei muito tempo, como nunca havia falado e, se não eram palavras de amor, era o amor que as ditava e o desejo de acalmá-la era tão grande, que, finalmente, se tranquilizou.
Infantil sorriso lhe entreabriu os róseos lábios.
A natureza por fim serenou, mas a tempestade parecia ter-se concentrado na fronte de Moisés; seus olhos dardejavam coriscos e uma expressão de cruel resolução lhe contraía a boca; eu sabia que se preparavam graves acontecimentos.
Enoch não me revelara qualquer pormenor, apenas recomendara que estivesse pronto a partir, porque dessa vez era certo o consentimento de Mernephtah para libertação do povo de Deus.
Essa afirmativa me bastava, e eu suspirava pelo momento em que, fora do Egipto, teria assegurada a posse de Smaragda.
Passaram-se dias.
Certa manhã, ao regressar da cidade, aonde fora realizar algumas compras, ao levantar a cortina do aposento presenciei uma cena que me chumbou ao solo, sufocado pela raiva e pelo ciúme.
De mãos crispadas, contemplei Omifer ajoelhado junto ao leito, cingindo Smaragda pela cintura.
Ela, colada em seu pescoço, com os braços cobertos de pulseiras; corada e radiante, ouvia em enlevo o que o eleito lhe segredava.
Não viram minha chegada.
— Ingrata! — pensei estremecendo.
Amas esse belo rosto insignificante e não concedes um olhar àquele que te assistiu, curou e guardou noite e dia!...
Pois expande teu amor pela última vez; entoa o cântico de despedida à sorridente Tanis, às cem portas de Thebas, porque jamais as contemplarás e então, só eu te restarei.
Compreendi, apesar dos sentimentos tumultuosos que me agitavam, que, se Omifer desconfiasse da traição, todas as minhas esperanças falhariam.
Assumi atitude calma, e fingindo entrar ruidosamente, exclamei:
— Bom dia, Omifer, como vês nossa doente está quase restabelecida e tão bela como antes; mais alguns dias de paciência e poderás reconduzi-la, se Rhadamés não reivindicar seus direitos.
E, a propósito, diz-me: que deverei responder a esse nobre egípcio, que hoje aqui veio para saber quando a esposa estará em condições dê regressar ao seu domicílio?
Smaragda empalideceu:
— Jamais! — exclamou energicamente — Voltarei a conviver com Rhadamés.
Meu pai serviu fielmente ao Faraó e os Templos de Thebas o inscreveram entre os seus benfeitores; lançar-me-ei aos pés do rei e dos grandes sacerdotes, para que me libertem desse homem.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 28, 2016 8:07 pm

— Fica calma, querida — Omifer falou.
Rhadamés perdeu todo o direito moral de reter-te, ao negar-te asilo em tua própria casa, quando tu estavas enferma e agonizante:
quebrou, assim, os laços de amor que te punham sob sua protecção.
Ainda se falou sobre o assunto, até que Omifer despediu-se prometendo voltar breve.
Apertando-me fortemente a mão, disse:
— Agradeço-te, Pinehas.
Fico-te obrigado pelo resto da vida.
Dentro de alguns dias te libertarei da doente e os dez camelos aqui chegarão ainda hoje.
Permito-me acrescentar um belo cavalo sírio, que me trouxeram há dias.
Agradeci.
E como me encontrasse muito agastado para conversar com Smaragda, fui para o terraço, onde, recostado, a observava cautelosamente.
Absorvida pelas recordações da entrevista com Omifer, ela nem sequer notou minha saída; apoiada nos cotovelos, balançava a bela cabeça, sorrindo alegremente, ao imaginar, sem dúvida, o maravilhoso porvir que a esperava.
— Espera, pois — disse comigo, devorando-a com os olhos — poderás sonhar sob a tenda que te armarei no deserto, mas o sonho é fantasia e a realidade serei eu.
Entrou um escravo naquele momento, que, inclinando-se com os braços cruzados, anunciou que o nobre Rhadamés, condutor do carro de Faraó, acabava de chegar e desejava ver a esposa.
Smaragda deu um grito abafado.
— Não! não!
Diz-lhe que não quero vê-lo.
Não me movi, curioso pelo que pudesse suceder.
Falava ainda a jovem, quando a cortina descerrou-se e apareceu Rhadamés.
Parou um instante, espantado e fascinado pela beleza de Smaragda, a quem não via há muitas semanas e que supunha muito diferente; sua atitude, reservada e altaneira, transformou-se num sorriso de apaixonada ternura.
— Querida esposa! - exclamou, desfazendo-se do capacete e da capa e estendendo-lhe os braços.
Eis-me aqui.
Graças aos deuses, que te conservaram para o teu fiel Rhadamés que passou dias e noites em desespero inominável.
Ela levantara-se e, trémula, apoiava-se à mesa perto do leito.
Pálida, colérica, olhar a transbordar desprezo, mediu desdenhosamente ô marido, na atitude de quem desejaria fulminá-lo.
Rhadamés deixou pender os braços até então erguidos.
— Meu fiel Rhadamés, falta-te memória — disse-lhe por fim com mordaz ironia.
Tu te esqueces de que, quando enferma da peste, me expulsaste de casa e, fugindo horrorizado, temeroso de que o meu hálito empestasse o ar que respiravas, recusaste-me um aposento, esquecendo totalmente que é na minha casa e nas minhas propriedades que mandas.
Acabou-se a minha doença e com ela o teu reinado.
Quando voltar ao meu palácio, não mais consentirei que outro qualquer lá administre.
Por enquanto, não posso expulsar-te; mas todos os teus — e aqui a voz tornou-se imperiosa — devem abandonar minha casa hoje mesmo.
Compreendeste-me?
Apenas não te reterei, se desejares acompanhar tua mãe e irmãs.
O condutor do carro estava lívido de raiva.
— Tu te esqueces com quem falas — retrucou batendo o pé.
Sou teu marido e senhor:
o que possuis me pertence.
Nenhum dos meus abandonará o palácio, ouviste?
Veremos quem vence, e por agora vais acompanhar-me.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 29, 2016 8:37 pm

Acreditas que te deixarei, assim tão bela, a Omifer, ou mesmo ao judeu Pinehas?
Rapidamente estendeu o braço para agarrá-la, mas, de um salto, interpus-me entre eles, e empurrei o condutor, amparando Smaragda, que ainda fraca e nervosa, desmaiou soltando um grito surdo.
Deitei-a no leito, palpei-lhe as mãos geladas e o coração que apenas palpitava.
— Não importam teus tardios amores e cuidados — disse, voltando-me para Rhadamés.
Como médico e dono desta casa, ordeno que saias; tua esposa teve uma recaída e tu demonstras temer a moléstia.
Era meu único intento arredar o importuno, que, por sua brutalidade, me ajudava a reter Smaragda até o momento decisivo.
Não me enganei quanto ao efeito das minhas palavras:
o “valente guerreiro” saiu correndo, sem mesmo lançar um olhar à jovem esposa desmaiada.
Notando que ele esquecera o próprio capacete é capote ri-me com prazer.
Mandei logo as peças por um escravo, que foram recebidas quando ele tomava o carro.
Ainda procurava reanimar Smaragda, quando chegou Enoch, dizendo ter coisas graves e urgentes a confiar-me.
Apenas a jovem senhora despertou, ressentindo-se de extrema fraqueza, fi-la adormecer por meio de passes, e colocando junto dela a fiel criada, fui com Enoch à casa contígua, onde ele morava.
— Pinehas — disse, quando ficamos sós — devo comunicar-te grandes acontecimentos em preparo; Moisés recebeu de Jeová a ordem de matar todos os primogénitos egípcios, desde o de Faraó ao do mais modesto operário.
Deus protegerá os de nossos irmãos, que executarão esse justo castigo à teimosia desse povo rebelde.
Para facilitar os assassínios no palácio real, o profeta corrompeu a peso de ouro dois oficiais da guarda:
um é Rhadamés, o condutor do carro de Faraó, outro é Setnecht, ajudante de ordens de Seti, o herdeiro do trono.
Na noite do quinto para o sexto dia, a partir de hoje, os dois estarão de serviço, e nessa ocasião, portanto, tudo deverá estar pronto para a partida.
Logo mais à noite, reunir-se-á grande assembleia em casa de Abrahão, de todos os anciãos das tribos, chefes e auxiliares do profeta.
Não deixes de comparecer.
Moisés dará as últimas instruções e transmitirá as ordens de Jeová.
Ao regressar a casa, absorvia-me nos próprios pensamentos pouco agradáveis; se eu não amasse tão loucamente Smaragda, já me teria afastado de todo esse negócio, que dia a dia se tornava mais perigoso e escabroso.
Se falhasse o massacre, como sucedera às calamidades precedentes e se descobrissem que eu, egípcio, estava comprometido na conjura dos hebreus, podia ficar certo de apodrecer nas minas ou nas pedreiras da Etiópia.
Mas o facto é que já estava muito comprometido para recuar, e um olhar deitado a Smaragda mudou todo o curso dos meus pensamentos.
Fui à noite à casa do velho Abrahão.
Já conhecia esse judeu rico, da residência de Enoch, onde nos havíamos encontrado; era um homem cruel e cúpido, imbuído de ódio fanático contra os egípcios, possuidor de imensos rebanhos dirigia um exército de sacerdotes e sua influência sobre os anciãos era considerável.
Ao chegar, já estavam todos a postos e logo apareceu Moisés seguido de Aarão e Josué; tinha o rosto austero, pálido, como assombrado por tempestuosa nuvem.
Braços cruzados sobre o peito, falou:
— Anciãos e chefes do povo de Israel!
A teimosia dos egípcios e do seu rei, sua rebeldia aos desígnios de Jeová tiraram-lhe a paciência.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 29, 2016 8:37 pm

É terrível a resolução que vos transmite por meu intermédio.
Na noite do quinto para o sexto dia, a contar de hoje, todos os egípcios primogénitos deverão morrer!
Pais de família, escolhei entre os vossos filhos os mais dignos de serem os mandatários do Eterno.
O anjo do Senhor lhes guiará o braço e os cobrirá com suas asas.
Quando houverem ferido o inimigo, recolherão na tigela um pouco do sangue e com este farão, na porta da própria casa, ao deixá-la, uma cruz que ateste o cumprimento da missão e o prémio da liberdade.
Todas as famílias devem estar prontas a partir, preparando a massa do pão sem, fermento; o chefe da casa derramará, então, nessa massa, o sangue trazido na tigela; cada pessoa da família deverá comer um pedaço desse pão; o resto será guardado para o futuro e empregado em parcelas, uma vez por ano, em memória de vossa miraculosa libertação do cativeiro egípcio.
Todos os pais deverão transmitir aos primogénitos de sua família, de geração em geração, este preceito, enquanto existir o povo hebreu, porque são estas as palavras de Jeová:
“Quero mostrar a todos que amo esse povo mais que a qualquer outro, e que me vingo de cada gota de sangue, derramada pelo Faraó que ordenou o massacre dos vossos filhos varões; salvei um dentre eles, para que viesse diante de vós como enviado meu e vos repete que, tão logo meu povo beba o sangue dos seus inimigos, prosperará, reinará sobre eles, nutrir-se-á do seu suor, como os egípcios se saciam do suor do meu povo eleito”.
Moisés, perfilando-se e fazendo ecoar sua voz metálica acrescentou:
— Será, porém três vezes maldito o que trair o juramento, de segredo inviolável sobre este mistério, estabelecido pelo próprio Eterno; esse tal perecerá de morte horrível e sua descendência será destruída por calamidades piores do que as que feriram o país indigno, porque Jeová é infinito na sua misericórdia com os fiéis, quanto implacável na sua cólera contra os desobedientes, e diz a todos vós:
“olho por olho e dente por dente!”
Fixou o olhar inflamado em toda a assembleia, aturdida e trémula e calou-se; depois, todos o cercaram beijando-lhe os pés, as mãos, as vestes, e com palavras entrecortadas proclamavam o poder de Jeová e seus agradecimentos ao grande profeta escolhido para libertá-los.
A inveja, pela primeira vez assaltou-me o coração.
Por que — pensei — não tive a ideia desse homem hábil, fazendo-me rei de Israel?
Como ele, também eu era iniciado nas ciências secretas e não me teria faltado energia; mas, quem sabe?
Talvez nesse longínquo país, para onde Moisés queria conduzir os hebreus, ainda tivesse ocasião de suplantá-lo e ocupar o lugar que ele preparava para si próprio.
Batia com violência meu coração e a ambição desdobrava a meus olhos um futuro de riquezas e poderio; a exemplo de Moisés, também podia utilizar o nome desse Deus cruel, que ordenava o roubo e o assassínio, e cuja divisa era:
“olho por olho e dente por dente”.
Fundamentais porém tremendas palavras do Antigo Testamento, que se incrustaram na alma dos povos, fazendo correr rios de sangue, e que, por sua tenacidade, dominaram e fizeram muitas vezes esquecer as palavras de um outro profeta, cheio de mansidão divina, que pregou o perdão das ofensas e o amor do próximo.
Quando voltei à casa, informei minha mãe e ela ajudou-me a terminar os últimos aprestos da partida; empacotamos os meus papiros e os remédios mais necessários; os cavalos, mulas e camelos, foram trazidos do pasto e reunidos no pequeno pátio interno, prontos para serem carregados.
Transportaria Smaragda adormecida e narcotizada.
Para acomodá-la no dorso de um camelo, preparei comprida cesta de vime, forrada de seda e cobertura comi orifícios que permitissem a renovação do ar.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 29, 2016 8:37 pm

Também por sua causa, adquiri rica tenda estofada de seda fenícia, raiada de branco e azul, com suportes e vigas douradas, bem como almofadas, mesas, cadeiras de marfim e ébano, tudo para que minha amada, acostumada a um luxo principesco, não se mofinasse em sua vivenda errátil.
Smaragda mal suspeitava de tais preparativos.
Depois da cena com o marido, mostrava-se abatida e nervosa.
Omifer visitou-a duas vezes, mas eu lhe proibi que voltasse antes de alguns dias, alegando que sua presença exacerbava a enferma.
Ele pretextou viagem imprescindível, para não inquietar a jovem senhora com sua ausência.
Assim tranquilizado, pude ocupar-me activamente dos muitos negócios que me foram confiados por ordem de Moisés, porquanto, para cada quarteirão da cidade, fora designado um fiscal, encarregado de visitar as casas israelitas, dirigir os preparativos e velar para que tudo estivesse pronto, nada deixando para trás.
A noite decisiva chegou enfim.
Entreguei à minha mãe o narcótico para Smaragda, pedindo-lhe que a vestisse para a viagem, tendo tudo pronto para quando eu regressasse.
Depois dessas providências, saí para a última inspecção.
Era estranho o aspecto daquelas moradias, tão tranquilas externamente, mas agitadíssimas desde que se lhes transpunham os umbrais.
Em todos os pátios os animais de carga estavam pesadamente carregados.
Os cómodos vazios, mas toda a família vestida de roupas novas; os homens, de bordão em punho, agrupavam-se ao redor da mesa, onde havia um cordeiro assado, frutas e vinho, ou cerveja, aguardando os convivas.
Em parte alguma faltava a gamela de madeira contendo a massa crua.
Todos estavam silenciosos e a inquietação expectante podia notar-se nas fisionomias; os velhos, sobretudo, pareciam desencorajados e, entre as mulheres com os filhos, assentadas nos embrulhos, percebi mais de uma enxugando furtivas lágrimas.
Constatando que tudo estava em ordem, dirigi-me à casa de Abrahão, onde Moisés deveria passar a noite memorável, e onde também Enoch marcara entrevista comigo.
A entrada estava cuidadosamente guardada, e só depois da senha convencionada, pude franqueá-la.
Atravessei dois enormes pátios, repletos de mulas e camelos carregados.
A casa parecia mergulhada em profundo silêncio, mas Enoch, que me esperava à porta, levou-me para um salão iluminado, porém oculto a vistas exteriores e no centro do qual havia uma mesa repleta de iguarias.
Também ali a massa crua.
A um canto, comprimia-se uma centena de homens, mulheres e crianças de todas as idades e empregados de Abrahão.
Do outro lado, a família e alguns parentes próximos, e bem ao fundo, solitário, sentado junto de pequena mesa, Moisés com a cabeça apoiada na mão.
Profundas rugas lhe vincavam a fronte; a boca contraída, lampejos brilhantes no olhar.
Pensaria no massacre, ou caso não fosse bem sucedido, na necessidade de renunciar ao trono de Israel?
Aarão e Josué, os dois fiéis companheiros postavam-se, imóveis, atrás do chefe irredutível.
Calado, sentei-me junto a Enoch e analisei a numerosa assembleia.
Em algumas fisionomias não pude descobrir expressão de alegria e confiança na esperada liberdade; as cabeças permaneciam baixas, e dos velhos, apoiados em bordões de viagem, escapavam longos suspiros, como a denunciar que lhes era penoso deixar os sítios onde viveram e encaneceram, para enfrentar azares duma viagem cujo objectivo ignoravam quando o organismo senilizado só requeria repouso.
Sem o querer, veio-me à ideia que, se um homem enérgico soubesse arengar, demonstrando àquela gente os riscos que corriam abandonando o Egipto para enfrentar um futuro desconhecido, a multidão vacilante recuaria e poucos acompanhariam Moisés.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 29, 2016 8:37 pm

Também notei estranha agitação entre os componentes da família de Abrahão, cuja esposa não cessava de chorar e mesmo ele parecia desesperado.
— Que significa a tristeza dos nossos hospedeiros? — perguntei baixinho a Enoch.
— A filha desapareceu, acreditando-se apaixonada por jovem egípcio; Abrahão receia que ela tenha traído o nosso segredo para salvá-lo.
Passaram-se algumas horas pesadas como chumbo.
Moisés, incapaz de dominar o desassossego íntimo, havia-se encaminhado ao terraço, sondando o céu estrelado, por duas vezes.
A porta da sala abriu-se de repente com estrépito e uma Jovem pálida, descabelada, com as vestes em desalinho, apareceu comprimindo ao peito um punhal ensanguentado e mantendo na outra mão um vaso, no fundo do qual se via um líquido negro.
Vendo-a, a esposa de Abrahão deu um grito, estendendo-lhe os braços; mas a jovem não pareceu notá-la nem ouvi-la; seus olhos cintilavam e no rosto transparecia um ódio feroz.
Avançando para Moisés, apresentou-lhe o vaso:
— Está morto!
Eu mesma o matei! — disse com voz entrecortada.
O profeta tomou-lhe das mãos a arma e o vaso, mas não teve tempo de falar, porque a porta já se abria novamente para deixar passar um homem vestido de longo manto branco, cabeça coberta por véu negro, e que avançou célere.
Vi que era Eliezer, rubicundo e triunfante, tendo na mão direita pesado vaso de ouro cravejado de gemas.
— Foi executada a ordem de Jeová; o anjo exterminador guiou meu braço.
O filho do Faraó está morto! — exclamou exaltado.
O semblante de Moisés foi iluminado por um sorriso cruel de satisfação e vitória; por um momento, ele ergueu os olhos e os braços ao céu; depois, tomou o vaso e, derramando na massa preparada o sangue do herdeiro do Alto e Baixo Egipto, amassou-a e disse com voz soturna:
“Assim deveis fazer sempre e por toda parte, comemorando a hora solene em que o Anjo do Senhor vos retirou do pescoço o jugo da escravidão; bebendo o sangue dos inimigos, triunfareis.”
Presos de supersticiosa emoção, todos se prostraram e Moisés fundou nessa noite memorável o grande mistério do repasto cruento, que, em parte, se perpetuou até nossos dias entre os descendentes do povo de Israel.
Os raios do sol nascente iluminavam a residência de Abrahão, quando pancadas violentas se fizeram ouvir na porta principal; eram dois oficiais da guarda de Faraó, seguidos de um destacamento de soldados que, por toda a parte; procuravam Moisés, intimado a comparecer imediatamente perante Mernephtah.
Recebendo o chamado, irónico sorriso frisou os lábios do Profeta.
Seguiu a escolta, ordenando-nos que o esperássemos.
Seguiram-se horas de penosa expectativa.
Finalmente, regressou, rosto incendido e olhos chamejantes, anunciando com voz retumbante qual sino de bronze:
— O grande Faraó Mernephtah autorizou-me a capitanear o povo de Jeová e com ele emigrar, sem perda de um minuto.
Antes do pôr-do-sol, devemos ter abandonado Tanis; ponde-vos, pois, em marcha sem tardança, dirigindo-vos para a cidade de Ramsés, que designei como ponto de reunião de todas as tribos.
Mas, antes de nos dispersarmos, rendamos graças ao Senhor.
Elevando os braços, prostrou-se e cantou:
— Aleluia!
Nós te agradecemos, Senhor!
A assembleia em coro o imitou e depois saíram todos, precipitadamente.
Nas ruas que atravessei para chegar à casa, reinava a maior confusão; arautos munidos de longas tubas proclamavam a decisão de Mernephtah; destacamentos policiais egípcios circulavam por toda parte, a fim de impedir atritos sangrentos entre o povo exasperado e os hebreus, que, em massas compactas, se agrupavam nas praças com suas bagagens, enquanto os chefes organizavam as colunas para encaminhá-las às portas da cidade.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 29, 2016 8:38 pm

Inquieta e curiosa, minha mãe recebeu-me anunciando que, conforme lhe recomendara, Smaragda lá estava adormecida no meu aposento.
Avisei-a que, dentro de três horas, no máximo, deveríamos abandonar a casa e, com o coração palpitante de alegria e triunfo, dirigi-me ao pavilhão em que habitava.
Alcançava, enfim, a meta:
partir com a mulher amada, sequestrando-a ao marido miserável e ao amante devotado.
Dali por diante, só a mim pertenceria.
Abeirei-me do leito onde estava Smaragda, mergulhada em sono tão profundo que parecia morta; Kermosa vestiu-a de branco e utilizou todas as jóias que Omifer havia trazido para distraí-la.
Penso que jamais me apareceu tão bela.
Reverente, beijei-lhe as mãos, os lábios e a perfumada cabeleira.
Desta vez, não podia repelir-me com frases desprezíveis; depois, cauteloso, acomodei-a na cesta, cobrindo-a ligeiramente e fechei o escrínio precioso dos meus tesouros.
Disfarcei-me com barba para não ser reconhecido e, duas horas mais tarde, cavalgava o camelo que transportava Smaragda.
Assim, abandonei a casa que me vira nascer.
Reuniu-se minha pequena caravana a uma coluna de hebreus que, passo a passo, se dirigia para uma das portas de saída.
Como somos felizes por desconhecer o futuro!
Pudesse eu prever o que me esperava, a mim que, por uma mulher, traía e abandonava a pátria e a religião, talvez tivesse recuado!
Não relato a saída da minha cidade, bem como a de Ramsés por entre a multidão curiosa e rancorosa dos egípcios, que contorciam as mãos exasperados, ou nos mostravam os punhos cerrados, cobrindo-nos de maldições.
Atingimos enfim, o deserto e continuamos a caminhar folgados.
A estrada, contudo, era má nessas planícies áridas, sob os raios escaldantes do sol e num areai abrasador.
As mulheres e crianças sofriam mais que todos.
Havia já quem lastimasse ter deixado o Egipto, as cabanas ensombradas de palmeiras, a água clara das fontes e os banhos refrescantes.
As murmurações surgiam aqui e acolá, reclamando repouso.
Moisés decidiu fazer alto e conceder um dia de descanso aos homens e animais extenuados.
Resolvi aproveitar esse alto para despertar Smaragda do longo torpor, explicando que tudo havia terminado e a sua sorte irrevogável consistia em acompanhar-me e amar-me, porque jamais veria o Egipto e os seus.
Assim instalei minha tenda junto da de Kermosa; um dos camelos foi descarregado e mobiliou-se a tenda provisoriamente atapetada.
Depois coloquei Smaragda, ainda desacordada, sobre almofadas cobertas com pele de tigre.
Ao lado, sobre a mesinha, uma cesta de frutas e um copo de vinho; depois friccionei-lhe a fronte e os lábios com uma essência revigorante, deitando num fogareiro em brasa algumas ervas aromáticas.
Recobri de uma colcha a cesta de vime e sentei-me um pouco mais alto para observar o despertar da jovem senhora.
Agitação violenta oprimia-me o coração.
Como comportar-me diante daquela criatura por quem tudo havia sacrificado, no momento decisivo?
Era impelido pelo meu carácter a ser duro e implacável, para sufocar qualquer veleidade de revolta; a razão, porém, aconselhava a ser amável e bondoso, para conquistá-la.
Passei algumas horas nessa luta íntima; os ruídos do acampamento que envolviam minha tenda extinguiam-se pouco a pouco; tudo, agora, repousava em profundo silêncio.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 29, 2016 8:38 pm

Uma lamparina de alabastro ardia a um canto, projectando luz fraca e vacilante sobre o leito de almofadas, fantasticamente contrastando com o vestido branco da jovem Smaragda e as jóias que lhe ornavam pescoço e braços.
A qualquer momento, poderia despertar porque o ar fresco da noite e as emanações perfumadas das plantações queimadas dissipavam o efeito do narcótico.
Meu coração batia descontroladamente.
Qual não seria o seu espanto ao encontrar-se num acampamento?
Que emoção a empolgaria vendo-se entregue à minha discrição, forçada a esquecer Omifer, para amar-me?
Esse pensamento fez-me recordar o jovem egípcio; sem dúvida ele procurava a eleita, e se desconfiasse que fora raptada, não haveria de seguir-nos?
Convulsivamente tacteei o cabo do punhal que levava na cintura...
Se tivesse tal audácia, pagaria com a vida!
Um ligeiro tilintar dos anéis de ouro, do colar e pulseiras de Smaragda chamou-me à realidade.
Rapidamente afastei-me para o escuro, a fim de não ser visto desde logo e observei os movimentos da jovem; imediatamente percebi a sombra que se projectava na parede da tenda; a seguir, vi-a empalidecer com os grandes olhos negros, assustadiços, à luz da lâmpada; finalmente, levantou-se e a passos vacilantes, dirigiu-se para a porta de saída.
— Vai, vai — pensei — não irás longe.
Ao erguer a cortina que servia de porta, Smaragda deteve-se estupefacta diante do inesperado panorama:
tão longe quanto a vista podia alcançar, espalhavam-se milhares de tendas entre as quais ardiam fogueiras, havendo uma em frente à minha, que a iluminou com um tom avermelhado.
A fisionomia pálida e orgulhosa pareceu petrificada de espanto e deixou escapar um grito.
— Que é isto?
Onde estou e por que sozinha?
Não me pude conter.
Avancei, colhendo-a pela cintura, e murmurei, estreitando-a ao peito.
— Smaragda, não estás só e abandonada; aqui estou para adorar-te.
O grande amor que te voto levou-me a raptar-te para não mais te abandonar.
Com um grito de horror repeliu-me:
— Que dizes, insensato? Mentes!
Pálida de cólera, mãos crispadas, olhos transbordantes de orgulho e desprezo, deu um passo para mim:
— Fala! Onde estamos?
Fala — insistiu, batendo o pé — que lugar é este?
A quem pertence esta tenda?
Logo perdi a embriaguez apaixonada, mas, desta vez, era dono da situação e podia, enfim, fazer-lhe sentir o meu poder absoluto, de modo a convencê-la que não devia maltratar assim o seu senhor.
Forcei-a a sentar-se na cadeira mais próxima, segurando-a violentamente pelo braço.
— Smaragda, não é mais a ti que cabe julgar e pedir contas da minha conduta — disse, cruzando os braços ao peito ofegante — deves compreender que estás diante do teu senhor, neste acampamento dos hebreus que Mernephtah finalmente libertou.
Para separar-te de tudo, acompanhei este povo, tornei-me um filho de Israel; aqui todos me estimam e consideram.
Não tentes, pois, fugir, tu, que és uma estrangeira, filha do inimigo, pois caro seria o preço da ousadia.
Arrancada para sempre do Egipto, não tens outro asilo além desta tenda e deves, pois, reconhecer tua impotência; domina o teu orgulho e ama-me, como te pedi por todas as formas em Tanis e, neste caso, ser-te-ei um marido indulgente, atento à tua beleza e condição social.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 29, 2016 8:38 pm

Mas nessa altura minha voz tomou expressão feroz e implacável:
— Não tentes, jamais desobedecer-me e repelir meus afagos, porque, impiedosamente, te dobrarei à minha vontade e, esquecendo que pertences à ilustre família de Mena, empregarei meios que normalmente apenas se aplicam aos escravos.
Uma resposta insolente, uma chuva de impropérios, era o que esperava, mas com espanto vi que emudecera.
Pálida como um cadáver, com os belos e sombrios olhos arregalados, continuava imóvel.
Comecei a recear que a minha rispidez lhe houvera perturbado a razão.
Temia haver sido muito cruel e era preciso amenizar essa impressão.
Tomando-lhe as pequeninas mãos geladas, sentei-me a seu lado e murmurei:
— Depende só de ti, Smaragda, que eu me torne bom e indulgente.
Enlacei-a e beijei-lhe a cabeleira.
Não ofereceu a mínima resistência e pareceu mesmo não me ver nem ouvir.
— Desperta, Smaragda!
Serei teu escravo se o quiseres; sabes que meu amor não tem limites; reanima-me com um meigo olhar e meu coração será como a cera e nunca mais pronunciarei palavras tão duras.
Mas, por Osíris, que tens?
Estás inteiramente gelada!
Cerras os olhos!
Smaragda, não quero que morras, não podes morrer.
Sacudiu-a com violência, trémulo e temeroso de perdê-la.
Estremeceu e fitou-me com olhar esgazeado; depois, ocultou o rosto com as mãos.
Fez-se um silêncio de morte.
Contemplei-a, coração opresso, inteiramente iluminada pelo fulgor do braseiro exterior.
Então, seria aquela a hora tão sonhada, tão apaixonadamente almejada!
Quem o diria!
Constatar, ainda uma vez, que a mulher amada não experimentava senão aversão por mim.
Oh! Se Omifer a houvesse conduzido até ali, ela não se lembraria dos parentes nem da pátria, porque o ditoso amante concentraria em si todas as forças fascinadoras.
Sua tenda teria sido o paraíso.
Amargura, raiva e desespero apoderaram-se de mim. Apoiando o cotovelo à mesa, ocultei os olhos com a mão:
sim, era dono de seu corpo mas não do coração; horrível coisa, forçar o amor e ter nos braços uma mulher que, só em pensar no meu domínio, gelava de pavor.
Em minhas dolorosas reflexões fui interrompido pelo contacto de pequenina mão que procurava descobrir meus olhos; ergui a cabeça e vi Smaragda ajoelhada diante de mim; grossas lágrimas rolavam-lhe pela face, e fitava-me súplice.
— Pinehas — disse de mão postas — se o teu amor por mim é tão grande como dizes, sé bom e generoso, deixa-me partir, pois do contrário morrerei no meio deste povo.
De que te pode servir uma mulher que não te ama?
És moço, belo, sábio; podes encontrar um coração que te vote o amor que mereces, e eu te seria eternamente reconhecida, considerando-te o meu melhor amigo.
A porta de minha casa te estaria sempre aberta e contigo compartilharia minha ventura, como se fosse uma irmã; mas, tem piedade, não me deixes morrer no deserto, nesta promiscuidade odiosa; consente que volte ao Egipto ou volta comigo, sê meu irmão, o hóspede querido e honrado da casa de Mena.
Oh! Pinehas, deixa que teu coração se sensibilize com as minhas preces, crê que manterei minha promessa; poderei ser tua amiga, tua irmã, mas nunca tua esposa!
Não digas não, Pinehas, sê meu irmão, porque de outra forma, será uma desgraça, eu o pressinto.
Extinguiu-se-lhe a voz num soluço e as lágrimas molhavam-me as mãos, que ela apertava entre as suas.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 29, 2016 8:38 pm

Não me é possível descrever os sentimentos que me agitaram a alma; aquela voz súplice, o contacto da sua cabeleira solta me embriagavam, e o sentido de suas palavras me gelava; queria dividir comigo, conceder-me a esmola da sua amizade em troca do amor que eu aspirava, mas isso era impossível.
Não podia amá-la como irmão.
— Pinehas — murmurou novamente — vê, humilho-me suplicando-te de joelhos que me concedas a liberdade, a vida, porque aqui morrerei e tu que me amas podes desejar tal coisa?
E Smaragda ergueu para mim o belo rosto banhado em lágrimas.
Coitada! Mal sabia que o encanto fascinador da sua pessoa era o maior inimigo da sua causa; ceder, era perdê-la para sempre.
Meu coração fechou-se. Não!
Tudo, mesmo seu ódio, era preferível à tortura de uma renúncia.
E quem sabe se a convivência, o tempo, venceriam a causa?
Deixei-me empolgar por uma formal intransigência e, erguendo-a, murmurei:
— Tu te enganas.
Não quero tua humilhação nem tua riqueza, mas não te posso libertar; meu amor é mais ardente que a areia do deserto; pensa bem e não desencadeies a tempestade, pois prefiro morrer a renunciar-te; sê indulgente, enxuga as lágrimas, diz que me perdoas e te esforçarás por amar-me, pois doutra forma usarei da força, que uma vez já me proporcionou a promessa que quebraste em favor de Rhadamés.
Ouvindo essas palavras imprudentes, trémula de pavor e cólera, Smaragda recuou.
— Queres aprisionar minha alma pela feitiçaria, fazendo-me confessar o que não sinto?
Não faças tal coisa, Pinehas.
Ainda tremo à lembrança dessa luta travada pela razão contra a magia, que, me impunha um falso amor.
Enfim, havia encontrado um meio de dominá-la e ela o temia...
— Smaragda — disse-lhe, — podes perfeitamente habituar-te comigo, bastando que demonstres boa vontade, para que me torne paciente; doutra forma, repito, usarei da força que receias; se concordas, dá-me espontaneamente a mão e um beijo, como promessa para o futuro.
Seu rosto expressivo reflectia os mais desencontrados sentimentos e ela permaneceu imóvel por um instante; os olhos erravam como velados, ao redor dá tenda; depois se fixaram em mim.
Estendeu a mão, aproximou a cabeça baixa e os lábios trémulos.
Cingi-a, exclamando:
— Enfim conformada.
Nenhuma resistência opôs, mas com destreza incrível, escapou-me dos braços e arrebatou-me do cinto o punhal.
Um lampejo me feriu a retina e um frio mortal me invadiu o peito.
Petrificado, fixei Smaragda, cujo semblante encantador me pareceu então demoníaco; os olhos brilhantes exprimiam a ferocidade do tigre e um riso sardónico lhe contraía a boca.
Turvou-se-me a vista, e perdi os sentidos.
Não sei quanto tempo assim estive, até que reabri os olhos, atordoado e confuso.
De nada recordava, a não ser a vaga impressão do sofrimento e uma dor atroz no peito; sentia extrema fraqueza e todos os membros como moídos por contínuos solavancos.
Tentei coordenar as ideias:
seria o balanço de um navio?
Mas que significava, então, o ruído ensurdecedor que me cercava, rugir de animais, gritos e imprecações de homens que pareciam altercar?
A cabeça entrou a rodar e novamente desmaiei.
Um forte solavanco me fez despertar e percebi, então, que estava no lombo de um camelo, que acabava de ajoelhar-se.
Ao redor e a perder de vista, armavam tendas e acendiam fogueiras; por toda parte, febril actividade.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 29, 2016 8:39 pm

Nesse instante recuperei a memória:
era o acampamento dos hebreus e ali, diante daquela tenda já erguida, estava Enoch dando ordens; alguns passos adiante Kermosa, auxiliada por mulheres, desembrulhava um cesto de provisões; mas onde estaria Smaragda?
O coração martelava-me o peito; teria sido condenada à morte, pelo atentado contra mim?
Ou estaria ainda viva e presa alhures?
Alguns homens aproximaram-se de mim nesse momento e transportaram-me para a barraca.
Tomei a mão de Enoch e perguntei com voz sumida enquanto me punham no leito:
— Onde está Smaragda?
— Paciência, pobre filho — respondeu — fortalece-te um pouco e depois tudo te contarei.
Kermosa lavou-me o rosto com água fresca, dando-me em seguida uma bebida reconfortante.
Devorado pela sede, bebi com avidez e comi algumas frutas.
A inquietação, entretanto, não me abandonava.
— Responde-me - disse novamente, apoiando o cotovelo no travesseiro — onde está Smaragda?
Quero saber toda a verdade.
— Pobre filho — repetiu Enoch, com expressiva tristeza, apertando-me a mão — o que te vou contar não é agradável; mas precisamos aceitar o inevitável.
O tempo cura todas as chagas da alma.
Depois do atentado, ela fugiu e errou pelo acampamento; o acaso permitiu que se encontrasse com Moisés, que fazia a ronda e aos pés de quem se arrojou.
O que confidenciaram, ninguém soube; mas o profeta ergueu-a com benevolência, mandou um mensageiro prevenir-me do teu estado e depois levou-a, ele mesmo, à extremidade do acampamento, onde lhe forneceu montaria e um guia egípcio que nos havia acompanhado.
Foi assim que Smaragda deixou o acampamento e deve estar longe a estas horas.
No dia seguinte, perguntando a Moisés por que assim procedera, — respondeu — “porque Pinehas é um homem útil à nossa causa, dados seus conhecimentos e energia, e não quero que ele tenha a existência ameaçada a todo instante.
Por outro lado, uma paixão cega, como a dele, enerva a alma e o corpo; e o que não mais se vê, se esquece.
Eis porque libertei a jovem egípcia, que, além do mais, é casada e ama outro”.
— Impossível não lhe dar razão — continuou Enoch — e lhe sou muito grato, porque veio duas vezes visitar-te, meu filho, impondo as mão sobre o teu ferimento e fornecendo um bálsamo que operou maravilhosamente, pois já estás quase restabelecido.
Sê, pois, razoável; esquece a ingrata, e tudo irá bem.
Fiquei calado.
Intimamente abatido, recaí nos travesseiros.
Ela estava, então, livre e, sem dúvida, perto de Tanis, onde o amante a receberia de braços abertos; e Moisés, a quem fielmente servi e a quem só aderi por causa dessa mulher, acabava de trair-me e havia-me separado de Smaragda!
Poderia ele apagar a imagem dela em meu coração?
Como fui insensato, pensei!
Desprezei pátria, religião, ocupações gratas, para errar no deserto, tornar-me um instrumento útil nas mãos desse hábil personagem e, mais ainda, seu prisioneiro, visto que no acampamento ele era o todo-poderoso!
Foi tão forte minha emoção que perdi os sentidos.
Ao recobrá-los, um único e tenaz pensamento me dominou o espírito:
recobrar as forças o mais depressa possível para fugir a todo custo e reunir-me à traidora, fazendo-lhe pagar caro as minhas torturas.
Essa decisão pareceu fortalecer-me; pedi meus unguentos e tratei eu mesmo do ferimento.
A natureza moça e robusta ajudou-me maravilhosamente, e apesar do cansaço de uma jornada pelo deserto, refazia-me a olhos vistos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 29, 2016 8:39 pm

Quando os balanços e as sacudidelas do camelo me molestavam, ou quando me entristecia ao considerar que me afastava cada vez mais da ingrata, consolava-me em ver o magnífico cavalo árabe que Omifer me ofertara e que marchava a meu lado.
Então, pensava:
“Tu, rápido como o vento, me levarás ao Egipto e ressarcirei o tempo perdido”.
Uma tarde acampamos à margem do Mar Vermelho, o Mar dos Sargaços, como o designávamos.
Minha tenda, bem como a de Enoch, ficou muito à retaguarda do acampamento.
Assentado à porta, eu podia contemplar a planície que se estendia atrás de nós.
Como sempre, estava absorvido nos meus planos de fuga, quando Enoch interrompeu-me, dizendo:
— Pinehas, como tens melhor vista, repara e diz-me se não percebes algo de suspeito no horizonte?
Fitei a planície espantado e logo distingui nuvens de poeira por sobre as colinas escuras, donde partiam reflexos brilhantes.
Um grupo se formou junto a nós e todos os olhares se fixaram ansiosos nos pontos negros.
Já não havia dúvida que lá se movimentavam colunas de homens, marchando em boa ordem, carros e cavaleiros, cujas armas brilhavam aos raios do sol poente, um exército, enfim.
— São os egípcios que nos perseguem!
O alarme correu de boca em boca, espalhando o pânico entre a turba medrosa.
Num instante expandiam clamores, imprecação e libelos contra o profeta que tirara o povo do Egipto para deixá-lo massacrar-se miseravelmente.
Moisés, pouco depois, deu uma volta pelo acampamento, pronunciou um discurso alentador e mandou reunir em sua barraca todos os chefes e conselheiros.
Fui também convocado mas escusei-me, pretextando grande fraqueza.
Que me importava a sorte dos hebreus e de seu chefe, a quem odiava?
Meu pensamento único era fugir na primeira oportunidade, sem mesmo considerar se tal coisa seria possível, uma vez travada a batalha.
Passei a observar, curioso, a aproximação dos egípcios sentado em um montículo de areia; assim, pude notar que ainda se detinham a grande distância, estabelecendo acampamento, em cujo centro logo se ergueu a imensa tenda de Faraó.
Quando Enoch voltou do conselho, disse-me que Moisés não estava absolutamente preocupado; sob pena de morte, havia ordenado que todos se calassem; na extremidade oposta do campo, já começaram a desarmar as tendas, silenciosamente e, à hora do refluxo, o povo e os animais deveriam atravessar o mar num lugar que Jeová designara.
Com a chegada da noite tudo foi executado segundo as ordens.
Desde que as águas começaram a refluir, o povo descendo ao leito do mar, que ali formava um vau, desfilou para a outra margem.
Entrei na minha barraca, tomei uma arma, escondi sob o manto um boné egípcio e desfilei para fora; ninguém me percebeu naquele momento de confusão.
Atrás do primeiro montículo de areia, cavalguei a mula que levava pelo cabresto e célere me dirigi para o acampamento egípcio.
O dia raiava quando o alcancei; espessos vapores se elevavam do mar e me ocultavam o acampamento hebreu.
A primeira sentinela que me interpelou, exclamei:
— Leva-me a qualquer chefe com urgência; que fazes aqui?
Os hebreus fogem e passarão o mar antes que possais alcançá-los!
O soldado ficou trémulo e, chamando um companheiro, mandou que me apresentasse a um oficial.
Perto encontramos alguns, aos quais participei, igualmente, o que ocorria.
Dispersaram-se com exclamações de raiva e, dentro de poucos minutos, a notícia se espalhava por todo o acampamento, provocando febril actividade.
Toques de corneta, soldados armando-se e entrando em forma, carros que se atrelavam ou cavalos que se encilhavam; oficiais acorrendo a seu posto, um barulho terrível.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 29, 2016 8:39 pm

Graças a essa confusão entre soldados e animais que empinavam, abri caminho até a tenda de Faraó:
lá reinava, igualmente, o maior tumulto.
No momento em que me aproximava, traziam-lhe o carro e quase no mesmo instante apareceu Mernephtah; ostentava a coroa e uma couraça de escamas de peixe; rosto pálido e olhos brilhantes, saltou para o carro e, tomando as rédeas, brandiu o feixe de armas, exclamando com voz potente, que abafou o ruído do acampamento:
— Avante, egípcios!
Tripulai vossos carros, súbditos fiéis, cada qual conduza dois homens a pé.
Corramos, antes que os miseráveis nos escapem!
Açoitou os animais fogosos que arrancaram com o ligeiro veículo e tudo se deslocou na sua esteira; primeiramente, os carros com um ruído ensurdecedor de metais, relinchos e trotar de alimárias; depois, o grosso da infantaria a passo acelerado, brandindo as armas com gritos selvagens.
Num instante o campo se esvaziou e em breve tudo desaparecia à distância.
Permaneci sentado à sombra de uma barraca para aguardar o resultado da luta.
De uma coisa apenas me admirava:
por que Mernephtah partira sem o condutor do seu carro?
Onde estaria Rhadamés?
Entretanto, eu tudo devia esquecer para lembrar-me de mim próprio, pois abusara das minhas forças, os ouvidos me zumbiam e a ferida ardia como fogo.
Do cinto retirei pequeno pote de pomada, apliquei-a na ferida quase cicatrizada e depois retirei-me para uma barraca onde um escravo, mediante propina, me forneceu água e me instalou num leito de peles.
O triste fim de Faraó e do seu exército será descrito por Necho em sua narrativa.
Apenas mencionarei aqui que, quando acordei, após um sono reconfortante, chegava ao acampamento a notícia do pavoroso desastre, levado por alguns soldados feridos, ao redor dos quais se acumulavam, pálidos e petrificados, os restantes guerreiros, escravos e criados.
Seguro de que não seria incomodado pelos proprietários, resolvi dar uma batida nas tendas abandonadas e comecei pela de Mernephtah, onde ao entrar, recuei horrorizado:
no tapete, poucos passos distantes do leito do Faraó, jazia num mar de sangue o cadáver de um homem com extenso ferimento no peito.
Passado o efeito da primeira impressão, inclinei-me e reconheci, com indescritível espanto a Rhadamés!
Que misterioso drama se teria passado?
Por que esse homem estimado por Mernephtah perecera sob as vistas do seu soberano?
Haviam desaparecido os que me poderiam responder, mas... meu coração fremiu:
Smaragda estava viúva!
Senti insopitável desejo de voltar quanto antes ao Egipto.
Confabulei com alguns escravos e, com promessa de recompensa, ajudaram-me a carregar vários camelos com ouro e objectos preciosos que ficaram sem dono.
Ao anoitecer, deixamos o acampamento abandonado; meu coração estourava de alegria; revia-me, enfim, livre dos hebreus e imensamente rico.
Depois de uma viagem extremamente fatigante descortinei, muito longe, as portas de Tanis.
Era tempo de chegar.
O calor sufocante, a areia, os abalos constantes, haviam-me extenuado; a ferida reabriu e me sentia nos limites de minha resistência.
Assim, foi com redobrada alegria que saudei o aparecimento da cidade natal; apressei o camelo, o que ocasionou um passo em falso; o abalo foi muito violento, e apenas sei que experimentei dor viva no peito, a cabeça num escuro abismo sem fundo, até que perdi os sentidos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 29, 2016 8:39 pm

Ao despertar não pude compreender onde me encontrava.
Estava deitado num leito de peles, numa espécie de gruta sombria e abobadada, apenas iluminada por uma tocha, colocada, ao fundo, numa trípode de ferro.
Junto a mim, pequenina mesa na qual se encontravam um copo de alabastro e uma cesta de uvas e sob o archote, perto de grande mesa de pedra, cheia de ervas e vidros, um homem de meia idade lia um papiro.
Tal personagem, cujo semblante típico se enquadrava na barba negra que lhe chegava à cintura era-me totalmente estranho.
Junto a ele, acocorado, um anão, ricamente vestido, ocupado a encher e rotular frascos de diversos tamanhos.
De vez em quando, apresentava ao senhor pequenina caixa dourada, na qual este colocava, sem desviar os olhos, qualquer coisa que ele levava aos lábios.
Esforcei-me por falar o mais claramente possível, apesar da fraqueza.
— Onde estou?
O homem barbado levantou-se imediatamente, fitou-me com os grandes olhos negros, brilhantes, dizendo:
— Até que enfim despertaste, Pinehas!
Admirado observei-o; como poderia ter sabido o meu nome?
E ele, sorridente:
— Meu nome é Bartus, e, ainda que sejamos velhos conhecidos, tu me esqueceste.
Mas, não importa!
Agora, sinto-me feliz por ver-te em teu pleno juízo; bebe isto:
e apresentou-me um copo cheio de um líquido esverdeado, que, tão logo esvaziei, fez-me sentir maravilhosamente reconfortado.
Bartus sentou-se junto ao leito, compassivamente.
— Por que acaso me encontro em sua casa? — perguntei.
— Foste trazido aqui, desfalecido, por serviçais do Faraó, morto no Mar dos Sargaços.
Disseram-me que viajavas com eles e que, forçados a continuar a viagem, não sabiam onde deixar-te.
Faz pouco tempo que me estabeleci num subúrbio de Tanis, mas já consegui alguma reputação como médico e feiticeiro.
Assim que te acolhi e tratei, e dado não tenhas onde ficar, nem meios de subsistência, ficarás comigo.
Vivo só e necessito de um auxiliar amigo e instruído, como tu.
— Que estás dizendo? — exclamei apavorado — onde foram parar meus sacos de ouro, baixelas e jóias preciosas que os camelos conduziam?
— Não sei de nada, nem vi tais coisas — disse Bartus — sem dúvida, teus companheiros, vendo-te desacordado, abandonaram-te e fugiram com os ricos despojos.
Mas, não desesperes, pobre amigo; fica, restabelece-te, não te abandonarei e dar-te-ei ocupações que te farão esquecer tuas desgraças.
Mergulhei a cabeça entre as mãos, acabrunhado.
Smaragda não me seria mais acessível, agora que estava indigente!
Como a odiava!
Se naquele instante dispusesse de uma arma, teria dado cabo dos meus dias.
Ergui a cabeça estremecendo ao contacto de pesada mão que me pousou no ombro.
Bartus falou, cravando-me o seu olhar profundo:
— Pinehas, a paciência nos leva ao fim.
O trabalho restabelece a calma do espírito.
Deves ainda aprender que a ingratidão se colhe mais frequentemente lá onde semeamos o amor; e que a vingança não é realmente agradável, senão quando não se sofre mais em si mesmo.
Além disso, a mulher que te atormenta o coração deixou Tanis.
Mas, pobre cego desatinado, ignorando o passado, desejas o impossível no presente.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 29, 2016 8:39 pm

Aquela que foi Foemés não pode amar-te, e, sim, só odiar-te.
Bartus, ao notar minha extrema perturbação, colocou a destra sobre meu coração e a esquerda em minha fronte escaldante.
A esse contacto, pareceu-me que aragem fresca me saturava o corpo; rosada nuvem parecia oscilar acima da fronte de Bartus, exalando delicioso aroma que me acalmou os nervos excitados.
Apesar de estarem os lábios do sábio cerrados, ouvi distintamente uma voz que dizia:
— Coração impetuoso, cessa de bater violentamente; cérebro superexcitado, ordeno-te que expulses os pensamentos que te assaltam.
Inclinara-se para mim e seu olhar percuciente e estranho penetrava-me pouco a pouco; um torpor repleto de bem-estar invadiu-me inteiramente; as pálpebras se velaram.
Tive, então, um sonho singular.
Vi uma clareira enorme no meio de colossal e luxuriante floresta.
Larga estrada aberta no maciço verde, deixava entrever ao longe edifícios de compacta e bizarra arquitectura.
Ao centro da clareira, enorme e grotesco ídolo, a cujos pés, servindo de altar, jazia estendida uma mulher com o peito descoberto, o rosto pálido e contraído, fixos em mim, cheios de horror e angústia, os olhos grandes e negros...
Reconheci Smaragda e percebi que era eu quem, cutelo em punho, estava de pé diante dessa pedra, pronto a desferir o golpe mortal na vítima; mas, nenhum arrependimento, nenhuma compaixão me constrangiam.
Meu olhar, frio e atrevido percorria a multidão que se comprimia na clareira, até que parou um homem, de pé, à frente de todos, ricamente vestido e ostentando na cabeça uma coroa de penas multicores.
Gritos soaram nesse momento e vi um cortejo que rapidamente avançava pela estrada.
Numa espécie de liteira aberta, conduzida por alguns homens, estava um moço assentado, coberto de magníficos ornamentos, a gritar e gesticular, acenando-me para que compreendesse a ordem de sustar o sacrifício.
Raiva, ciúme, orgulho de autoridade inflamaram-me.
Eu era grão-sacerdote e, pelos deuses, a vítima me pertencia; no momento em que, a poucos passos, o moço saltou da liteira, eu, cheio de ódio satisfeito, enterrei o cutelo no peito da mulher, pura logo o sacar e mostrar ao povo.
E isso o fiz impassível, de coração frio.
Petrificado, o moço parou: mas logo avançou para mim, arrebatando-me a ensanguentada e sagrada arma exclamando com voz rouca:
— Onde estiver Foemés, quero estar igualmente — e enterrou o punhal no próprio peito.
Fez-se um tumulto, vi o homem com a coroa de penas cair com o rosto contra o chão e o povo imitá-lo, depois o quadro se esfumou, desapareceu, e acordei sobressaltado.
Meu primeiro olhar foi para Bartus, de pé ao meu lado; no mesmo instante vi uma sombra, parecendo reflectida por um espelho de metal, passar como um raio e desaparecer no peito de Bartus; o olhar do sábio animou-se e ele me disse sorrindo:
— Teu sonho, Pinehas, é o passado, aquele passado que cavou um abismo entre teu coração e o de Foemés.
A partir daquele dia, tive uma sensação de calma e de paz interior; a imagem de Smaragda me vinha à memória como uma sombra pálida, sem deixar atrás de si um inferno de paixões; soube até, com indiferença, que a viúva de Rhadamés voltara para Tebas e Omifer a seguira; só um sentimento estava adormecido no meu coração, era a esperança de vingança, mas eu aguardava pacientemente, pois Bartus tinha razão: a paciência leva ao fim.
Durante minha convalescença, procurei obter detalhes sobre a vida de Bartus, mas ele jamais me disse quem era, nem de onde vinha; apenas fiquei sabendo que pensava em partir logo; não recebia ninguém (com excepção de doentes, em número limitado) a não ser um jovem egípcio que lhe demonstrava uma veneração extraordinária e com o qual se trancava horas a fio.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 29, 2016 8:40 pm

Um dia ele me disse espontaneamente:
— Não te admires, Pinehas, com o interesse que devoto a esse jovem, foi por ele que vim para cá; em mais de uma vida eu o conheci e ele me seguirá para uma terra distante, que é mãe de toda a sabedoria do Egipto.
Compreendi que ele viera da índia.
Sentindo-me completamente restabelecido, pedi-lhe que me confiasse algum trabalho.
— Bem — respondeu —, quero ensinar-te uma ciência que permitirá manter-te honradamente quando eu não estiver mais aqui; devemos separar-nos, pois prevejo que cometerás crimes que não me permitirão, de forma alguma, respirar o mesmo ar que respiras.
A partir daquele dia começou a ensinar-me uma maneira muito especial de embalsamamento, diferente da usada entre nós, mas bem mais perfeita e que conservava nos corpos um frescor sem igual.
— Ensino-te isto para proporcionar-te um bom ganha-pão — repetia com frequência — mas em geral desaprovo o embalsamamento; os egípcios estão bem atrasados na conservação de cadáveres e, por isso mesmo, na vinculação da alma a um invólucro destinado à destruição.
— Mas — observei — a alma perderá a plenitude de suas faculdades se seu corpo material for destruído.
— Errado, errado!
A alma é uma chama, o fogo deve separá-la do invólucro perecível; então, a morte pelo fogo, que tudo depura, é a morte mais nobre que existe.
Devotava-me com ardor àquele novo estudo e consagrava-lhe as vezes noites inteiras; naquelas horas muitas vezes ficava intrigado com o que faria Bartus, trancado sozinho numa pequena gruta interna onde, no entanto, eu ouvia sons estranhos e, não raro, o murmúrio distinto de vozes.
Não me contendo, um dia pedi-lhe explicações. Ele sorriu.
— Alguns amigos vêm visitar-me - disse — e poderia mostrar-te um deles, pois o conheceste, mas também odiaste, e temo que perturbes nossa entrevista.
Jurei-lhe que não me moveria e então, chegada a noite, ele me levou para a pequena gruta e fez-me sentar a uma mesa redonda.
Pensei em Amenophis e na visão de Isis.
— Sim, é a mesma coisa — disse o sábio que muitas vezes parecia ler meu pensamento.
Ficamos imóveis e em silêncio e logo uma agradável sonolência invadiu-me; eu não estava dormindo, pois via claramente diante de mim a gruta debilmente iluminada, pela chama oscilante de uma lamparina de alabastro pousada no chão, e no entanto parecia-me estar flutuando na atmosfera, levemente embalado por um vento fresco e agradável; as paredes e a abóbada de pedra pareciam expandir-se, afastar-se, depois fundir-se; acima de mim vi o céu estrelado e a lua cujos raios prateados iluminavam uma planície solitária e uma vasta extensão de água polida e cintilante como um espelho.
Aquilo não era um sonho: eu aspirava o aroma puro e fresco da noite, ouvia o marulho da água e o leve rumor do vento nos caniços, depois a voz de Bartus dizendo:
“Amigo, vem falar-me”.
Todo meu ser estava concentrado nos olhos e eu vi, estremecendo, que entre os juncos levantava-se pouco a pouco a alta e imponente figura de um homem coberto por uma armadura, a cabeça cingida com a coroa do Alto e Baixo Egipto, e quando a lua iluminou o belo rosto pálido, contraído pelo sofrimento, reconheci Mernephtah, mas tal como devia ter sido na juventude.
— Pobre amigo — disse Bartus, estendendo os braços à visão — acalma-te, deixa esse lugar fatídico a que te prende teu ódio, e segue-me.
A espectro pousou em nós os olhos tristes e brilhantes e abanou a cabeça.
Ligeira palestra se travou entre eles, em linguagem desconhecida; depois, a visão se voltou lentamente, cumprimentando Bartus com um gesto de mão e de cabeça, e deslizando à flor d’água, mergulhou.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 29, 2016 8:40 pm

Senti no mesmo instante, uma corrente de ar fresco e encontrei-me na gruta.
— Terei sonhado, Bartus? — exclamei entusiasmado.
— Não. Viste, realmente, Mernephtah, meu amigo de muitos séculos.
Nem sei quanto teria dado para saber o motivo que ligara Bartus ao espírito do nosso infeliz Faraó; mas sobre este assunto ele se manteve sempre mudo.
Em compensação, discorria muitas vezes sobre a imortalidade da alma, indestrutível centelha autora de todas as nossas acções.
Com austera gravidade, falava das responsabilidades do espírito após a separação dó corpo perecível, sujeito à decomposição.
— Não são ridículos e dignos de piedade aqueles que sacrificam suas melhores aspirações, mancham a sede do pensamento pelo ignóbil desejo de vingança, inveja e rapacidade, Pinehas?
Quantas cogitações importantes e sublimes poderiam, durante esse tempo, circular em seus cérebros!
E por que os homens fazem todos esses sacrifícios?
Para o mais ingrato dos ingratos, esse corpo grosseiro e frágil, sujeito a todos os incómodos, a todas as doenças e que, para cada excesso ou abuso de paixões, vinga-se parecendo dizer:
“Sou poeira, e cheguei nu e nu hei de voltar, nada levando comigo”.
Viste Mernephtah, poderoso soberano de uma rica região; senhor a cujo menor gesto obedeciam milhares de guerreiros.
De que precisa ele no sargaço, onde jaz seu corpo decomposto?
Assim, Pinehas, todos os crimes que praticardes para satisfazer a vaidade desta vida perecível, levareis para o espaço transparente, mais povoado que a terra, e onde todos nós iremos dar conta de nossos actos e expiar duramente nossas faltas, porque não é o corpo que goza, mas o espírito que inventou para si as delícias culpáveis.
Procurou convencer-me que o perdão constitui um bálsamo para a alma.
Que eu devia renunciar ao ódio e viver unicamente para a ciência e o trabalho, porque os crimes que perpetrasse, haveria de os pagar dolorosamente em futuras encarnações.
Para mim, porém, mais fácil me seria renunciar à vida, que a esperança de vingar-me.
Ele, talvez, pudesse agir como aconselhava; ele, cujo olhar sempre sereno parecia demonstrar nunca haver experimentado paixão e sofrimento.
Já inteiramente integrado nessa vida em comum, certa manhã, ao levantar-me, encontrei a gruta solitária.
Bartus desaparecera, deixando sobre a mesa um pergaminho aberto, com o qual se despedia.
Legava-me tudo que a gruta continha e renovava o afectuoso conselho de banir do pensamento qualquer ideia de vingança.
Foi grande a tristeza por ver-me absolutamente só.
Gostaria de evitar qualquer contacto com os homens, mias a necessidade de ganhar a vida impelia-me ao trabalho, e assim, curava os enfermos, predizia o futuro, preparava filtros mágicos, auxiliava os herdeiros impacientes, embalsamava múmias pelo meu sistema, tudo aliás bem pago e, portanto, materialmente falando, não havia de que me queixar.
Contudo, o Isolamento completo em que vivia e o vazio de minha alma eram responsáveis pelas horas tristes que vivia.
Pensava sempre em Enoch e Kermosa que, talvez já tivessem, atingido a Terra Prometida, e que também ignoravam meu paradeiro.
Mais uma vez encontrei velhos conhecidos, mas ninguém reconhecera Pinehas, o egípcio, naquele sombrio mágico de longas barbas que o vulgo chamava de Colchis — o feiticeiro.
Assim passaram-se mais ou menos oito anos, após meu despertar na gruta de Bartus, quando, uma noite em que me senti mais triste e aborrecido que de costume, resolvi dar um passeio nocturno.
Grande festa religiosa havia sido celebrada nesse dia.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 3 de 7 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6, 7  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum