Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 30, 2016 9:36 pm

Toda a cidade era um caos de ruídos e movimento; o Nilo formigava de embarcações embandeiradas e iluminadas e eu esperava distrair-me entre a turba festiva.
Depois de muito perambular, já buscava o caminho de casa, quando o povo à minha frente teve de parar diante das portas iluminadas de um grande palácio, ornamentado de grandes mastaréus embandeirados.
Evidentemente, os convidados dispersavam-se, pois a rua estava congestionada de carros, liteiras, batedores e escravos.
Quase no mesmo instante, pequeno cortejo, precedido de portadores de tochas, se destacou e passou rente a mim.
Maquinalmente, ergui a cabeça e a luz das tochas iluminou uma liteira conduzida por oito escravos e na qual iam duas senhoras magnificamente vestidas.
Uma, já idosa, era-me desconhecida; a outra, porém, jovem, bela, coberta de jóias e cujo semblante alvo denotava orgulho e completa felicidade, era Smaragda.
Como meu coração parasse de bater, senti uma dor aguda como se ele fosse comprimido por pinças; todos os sentimentos, recalcados e adormecidos, acabavam de reflorir com violência desconhecida, diante daquela por quem tudo sacrificara e que me havia desdenhado e odiado de morte.
Inteiramente transtornado entrei em casa, despedi os dois criados e, de cotovelos fincados na mesa, esvaziando copos sobre copos, ruminava o meio de acabar com a bela traidora, pois deixá-la viver e gozar a venturosa companhia de Omifer, por mais tempo, ultrapassava o limite das minhas forças.
Fez-me despertar desses devaneios o crepitar da lâmpada, que se apagava por falta de combustível.
Levantei-me e espreguiçando satisfeito, estendi-me no leito.
Tinha planeado a vingança.
Na manhã seguinte mandei comprar uma cesta com as mais lindas flores e despachei os criados, encarregando-os de negócios, por assim dizer, urgentes.
Uma vez só, dispus artisticamente as flores na rica cesta de ouro e escondi sob as mesmas uma serpente, cuja picada era mortal; depois, tingi o corpo, disfarcei-me e, transformado em escravo de casa nobre levando na cabeça a cesta coberta com um lenço de seda, encaminhei-me ao palácio de Mena.
No dia seguinte a uma festa, era bem presumível que algum admirador anónimo enviasse à bela egípcia a homenagem discreta.
Se ela o aceitasse e se inclinasse para aspirar o perfume das flores, minha mensageira lhe transmitiria o beijo que ela me recusara.
Quando penetrei na rica mansão, inúmeras recordações me assaltaram.
Que diferença do dia que ali entrara, cheio de esperanças!
Agora, era simplesmente mensageiro da morte!
Fiz-me anunciar e, após minutos de espera, um escravo veio dizer que a esposa de Omifer estava no terraço e me receberia.
Com o coração agitado, acompanhei o nubiano e, ao franquear o terraço todo florido, avistei Smaragda recostada num leito de repouso.
Duas raparigas a abanavam e um anãozinho, acocorado no tapete, apresentava-lhe ora uma taça, ora uma cesta de doces.
Repousando displicentemente, a jovem bebericava e comia uma fatia de bolo.
Aproximando-me respeitoso, depus as flores a seus pés e, ajoelhando-me, retirei o lenço de seda.
— Ilustre esposa de Omifer, digna-te de aceitar, da parte do meu senhor, estas flores do seu jardim.
Ela fitou-me curiosa sem me reconhecer.
— Teu senhor quem é? — indagou.
— Ele prefere ficar incógnito, mas conhece teu marido, que lhe prometeu trazê-lo até aqui.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 30, 2016 9:36 pm

Eu a fitava e sugestionava que aceitasse e guardasse as flores junto de si, enquanto falava.
— Se teu senhor conhece Omifer, aceito o presente — concluiu enternecida.
Aqui tens tua parte — disse — atirando-me um anel de prata.
Bek, põe esta cesta no tamborete, aqui ao lado, pois quero aspirar o perfume dessas flores.
Humildemente agradeci e saí.
Logo que alcancei o último degrau da escada, um grito agudo repercutiu no terraço.
A mensageira havia cumprido a tarefa.
Grande tumulto, vozes femininas, agudas e penetrantes, chamavam por socorro.
Aproveitei a confusão para ganhar a rua e confundir-me com a multidão.
Regressei à casa satisfeitíssimo é fui para a sala de trabalho.
Ali, sobre a mesa de pedra, jazia uma velha conhecida, a bela Henaís, aquela moça outrora educada por minha mãe e tornada, por obra do acaso, esposa de Necho.
Ela acabava de falecer e o antigo condiscípulo confiara-me o corpo para o embalsamar pelo processo maravilhoso que dava ao cadáver toda a aparência de vida.
Enquanto preparava as faixas que deveriam envolver o corpo até o pescoço, pensava comigo mesmo.
“Se me confiassem Smaragda para o mesmo fim, apoderar-me-ia da sua múmia e fugiria.
Os deuses bem podiam conceder-me esta compensação mínima”.
Mal sabia que a sorte me reservava coisa melhor:
a satisfação de contemplar sua agonia.
Passada uma hora, um escravo anunciou que uma liteira com emissários de Omifer estacionava à entrada da gruta.
Pediam que os atendessem quanto antes no socorro de Smaragda.
Imediatamente tomei o estojo de medicamentos, coloquei o manto e acompanhei os mensageiros.
O palácio de Mena estava mergulhado na maior desolação; pessoas pálidas, inquietas, cochichavam em grupos.
Com a minha chegada, muitos se precipitaram para mim e, antes que me levassem à sala contígua, fui conduzido directamente ao terraço onde Smaragda, com o lindo semblante já ensombrado de morte, jazia, estendida no leito.
Ajoelhado, Omifer mantinha entre as suas as mãos da esposa.
Suas feições alteradas denotavam desespero que raiava pelo estupor.
Um pouco afastados, dois médicos egípcios conversavam em voz baixa; por essa atitude e gestos, compreendia-se claramente que haviam perdido toda a esperança.
Em torno do leito, comprimiam-se algumas mulheres lacrimosas e a velha ama de Smaragda, que banhada em lágrimas, lhe aplicava compressas no seio descoberto.
— Colchis, o feiticeiro!
Estas palavras correram de boca em boca até Omifer.
Os médicos olharam-me de soslaio e saíram precipitadamente.
Omifer apertou-me a mão e levou-me para junto do leito, murmurando com voz sumida e entrecortada:
— Salve-a e a metade dos meus bens lhe pertencerá.
Examinei-lhe o seio alabastrino, já arroxeado, e o ponto negro da letal picada.
Nesse instante Smaragda abriu os olhos e me fitou com tal expressão de sofrimento, terror e muda súplica, que o coração de bronze me tremeu.
Sim! Ela era feliz, temia a morte e era a mim que pedia lhe conservasse a vida, mas... para outrem, para Omifer...
Tornei-me insensível.
Ter-lhe-ia tremido a mão ao enterrar-me o punhal no peito?
Inclinando-me para Omifer, disse:
— Senhor, chamaste-me muito tarde; nada posso contra a morte.
Poderei apenas, se quiserdes, aliviar os últimos instantes de vossa esposa.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 30, 2016 9:36 pm

— Emprega tudo que tua ciência indicar para aliviá-la.
Ali me detive, verificando como a morte se apoderava pouco a pouco de sua vítima.
Mas, se por um lado meu ódio estava satisfeito com arrancar a mulher amada dos braços do rival, meu ciúme atingia as torturas do inferno, ao contemplar as tocantes despedidas dos dois esposos, ao constatar o amor infinito daqueles olhos embaçados buscando os do marido; a ternura, a carícia daquelas mãos desfalecentes, tacteando-lhe o pescoço.
Não me contive mais.
Impunha-se precipitar o desenlace.
Eu sabia que bastava uma emoção mais forte para romper o último fio de vida.
Assim, afastei Omifer, a pretexto de examinar a ferida e, colocando-me de forma que só a agonizante pudesse ver-me, abri o manto e lhe deixei visível a minha cicatriz, murmurando com a minha voz natural — Smaragda!
Apavorada, abriu os olhos.
— Pinehas!
Quase roçando os lábios roxos, inclinei-me.
— Quem te trouxe as flores fui eu.
Morres tal como quiseste matar-me!
Dou um grito, estendeu o braço e adivinhei que diria:
— É ele!
A voz extinguiu-se, os olhos se lhe avivaram pela última vez e um relâmpago de ódio e desprezo me envolveu; depois, a cabeça pendeu, as pálpebras fecharam-se, e a respiração cessou estava morta!
Nessa mesma tarde, vieram ter comigo Necho e Omifer; aquele queria mostrar a este a múmia de Henais e fazê-lo confiar-me o embalsamento de Smaragda.
Omifer admirou, sinceramente, a perfeição do meu trabalho o disse que nessa mesma noite traria o corpo, bem como os adornos que lhe destinava.
Exultou meu coração e quando saíram, preparei festivamente o compartimento da gruta destinado a esses trabalhos.
Tochas e lâmpadas foram acesas e, sobre uma mesa coloquei os óleos e essências, cujo segredo só eu conhecia, para darem ao cadáver flexibilidade e aparência de vida.
Era quase meia-noite, quando um ruído exterior me anunciou a diligência.
Saí com os dois criados munidos de tochas e percebi um cortejo.
Além da liteira coberta, que trazia o corpo, numerosos escravos sobraçando cestas e caixas e, finalmente, Omifer desfeito em lágrimas.
Precedi a liteira, que mandei depor na sala de trabalho e depois entraram os criados com os objectos que ali ficaram igualmente.
Omifer ajoelhou-se junto do corpo, e pareceu orar, mas sem descobrir o rosto.
Depois, levantou-se e disse:
— Trouxe-te o que tenho de mais caro, mas não desejo revê-la senão quando estiver como viva.
Apontando estojos e cestas:
— Aí estão a mais delicada tela, os perfumes mais esquisitos, tecidos e jóias; no saco, ouro para o que ainda se fizer necessário.
Nada economizes, sábio Colchis, pois se fizeres conforme os meus desejos, far-te-ei rico para o resto da vida.
Em sinal de assentimento inclinei-me e, quando ele saiu com o seu pessoal, afastei também os meus domésticos, puxei a cortina de couro que fechava a gruta e, aproximando-me da liteira, afastei a coberta e descobri o rosto pálido de Smaragda, belo mesmo depois de morta!
— Pertences-me enfim, murmurei — não mais poderás fugir como fizeste no acampamento; far-te-ei bela, tal como em vida; amar-te-ei sem que me possas repelir; e tua alma sofrerá, porque testemunhará meu gozo, cruel e traidora Smaragda.
Com um sentimento de triunfo, tomei-lhe o corpo, estendi-o num banco de pedra, despi-o e muni-me de uma lâmina para as incisões necessárias.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 30, 2016 9:36 pm

Antes de tudo, queria extrair-lhe o coração, o coração ingrato, que só aversão me votara; desejava embalsamá-lo separadamente para trazê-lo sempre colado ao peito e, impregnando-o do meu calor, ressonasse a cada batimento do meu coração, e sofresse duplamente sua impotência.
Trabalhei dia e noite desde aquele instante, concedendo-me apenas algumas horas de repouso.
Era a obra-prima que criava.
Nesse embalsamento pus toda a minha ciência, todos os requintes de artista.
Não se tratava de um cadáver, mas de um corpo flexível, encantador, ressumando os mais suaves perfumes.
Enfim, dei as últimas demãos.
Alisei e trancei os longos cabelos pretos; colori lábios e faces, como em vida, parecendo que o sangue ainda circulava naquela epiderme delicada o transparente, adornei o pescoço e a cabeça de gemas preciosas, enfaixei o corpo de finíssimas sedas e depositei-o no magnífico sarcófago de cedro enviado por Omifer.
Com o coração ofegante eu admirava minha obra e não podia dela afastar-me; parecia que a maravilhosa múmia me havia enfeitiçado; acreditava amá-la ainda mais que em vida, quando seu coração rebelde sempre me repeliu.
Eia ali estava muda, olhos de esmalte a me fitarem sem exprobração e, na sombra misteriosa da gruta, eu a velaria com a fidelidade de escravo, apenas receando perder meu tesouro!
Qualquer ruído fazia-me estremecer; não seria Omifer que vinha reclamar a esposa, com pleno direito?
Só ao pensar nessa eventualidade ficava como louco e vinha-me o desejo de defender minha obra prima com todas as forças.
Assim, pouco a pouco, resolvi eliminar Omifer.
Com essa intenção, coloquei em uma mesa próxima do sarcófago uma garrafa de vinho com subtil veneno, e esperei.
Enfim uma manhã, ele chegou.
Levei-o para junto do sarcófago.
Erguendo o véu de gaze que o cobria, aproximei o archote, que iluminou em cheio o rosto em êxtase.
Eu o observava, com ciúme e ódio.
Poderia ele que, em vida se embriagara dos olhares amorosos de Smaragda, estar satisfeito com esses olhos de esmalte, parados, frios e imóveis como o escaravelho de ouro que substituía, em seu peito, o coração que só palpitara por ele?
Aqueles olhos, que já não traduziam os sentimentos da alma, só podiam agradar a quem os tinha visto enfurecidos ou indiferentes.
Depois de longo silêncio, Omifer levantou-se e estendeu a mão:
— Agradeço-te, sábio Colchis — disse — trabalhaste maravilhosamente; é como se estivesse viva.
Posso levá-la imediatamente?
— Amanhã. Se tiveres pressa, avisarei cedo para vires buscar o teu tesouro; esta noite darei o último retoque, e amanhã poderás mandar teus servos buscar o sarcófago.
Entretanto, como estás pálido e abatido!
Toma um copo deste vinho que te reconfortará.
Agradeceu-me, esvaziou o copo e saiu.
— Nunca mais voltarás — pensei satisfeito, retomando meu posto junto do sarcófago.
Agora, Smaragda, só a mim pertences.
Soube, dois dias depois, que Omifer havia morrido e, desde então, tratei logo de abandonar Tanis, não admitindo mais visitas, porque sabia que a casta dos médicos e embalsamadores me observava suspeitosa.
Já tinham tentado descobrir meu segredo; era de temer algum ato de violência e por esse motivo queria fugir com o meu ídolo e a enorme fortuna adquirida.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 30, 2016 9:37 pm

Entretanto, a doença me impediu de partir; a saúde violentamente abalada pelo ferimento mal curado, não pode resistir ao excesso de trabalho e emoção dos últimos tempos; em virtude disso emagrecia a olhos vistos.
Algumas frutas e goles de vinho eram toda a minha alimentação; o sono fugia e eu receava a morte com a consequente responsabilidade, na qual acreditava.
Noite e dia, martelava o cérebro por descobrir um meio de me subtrair à inevitável passagem, reter a força vital no corpo gasto, sem deixar escapar a alma e assim evitando comparecer ao Tribunal vingador.
Em uma dessas noites intermináveis de insónia, experimentei ardente desejo de saber o que era feito de Enoch e Kermosa.
Concentrei neles o pensamento e, com grande espanto, renovou-se o fenómeno que Bartus me mostrara.
As paredes da gruta pareceram afastar-se; vi a planície imensa e árida do deserto e ao longe numerosas tendas do acampamento.
Em uma vala deserta, cujo solo pedregoso estava ensanguentado, jaziam montes de cadáveres e num deles, com o rosto em decomposição voltado para mim reconheci Enoch.
Tremendo de terror, voltei à realidade.
Só mais tarde, já no plano espiritual, desencarnado, soube que, tendo-se envolvido numa revolta contra Moisés, Enoch havia sido vitimado num dos massacres com que Jeová vingava a desobediência ao seu profeta.
A estranha visão me reavivou o passado e os factos que testemunhara; também recordei Eliezer e com isso estremeci:
havia descoberto o modo de evitar a morte.
Seria bastante entorpecer todo o organismo conservando-lhe a força vital.
Para isso, era preciso tão só permanecer de forma que ninguém me tocasse e poderia assim viver uma eternidade, sem que o fluído vital se esgotasse, jamais, do corpo adormecido.
Minha resolução foi logo tomada e, sem delongas, iniciei os preparativos necessários.
Mandei embora os criados recomendando-lhes não tentarem nunca penetrar nas grutas, mas, ao contrário, lhes disse simular a entrada o mais possível, pois quem tentasse abri-las deixaria escapar perigosos demónios, que matariam o temerário e espalhariam na cidade e no país, calamidades horrorosas.
Levantei por dentro, um muro vedando a entrada; reuni na sala de operação tudo que possuía de mais precioso e estendi um tapete junto do sarcófago.
Todos esses preparativos tomaram-me três dias, durante os quais nem uma gota d’água me suavizara o rigoroso jejum.
Por fim, chegou o momento de agir.
Banhei-me, vesti roupas novas, prendi um archote na parede, de forma que, ao extinguir-se, não ocasionasse incêndio.
Ajoelhei-me perto do sarcófago.
Uma última vez contemplei a incomparável múmia; beijei-lhe os lábios, a fronte perfumada e sentei-me de pernas cruzadas no tapete.
Com pequeninas bolas de cera tapei os ouvidos e virei a língua, de modo a fechar o conduto nasal; concentrei-me em mim mesmo, de olhos semicerrados.
Não demorei a sentir pesado torpor assenhorear-se de mim:
as paredes e objectos dançavam, rodopiavam em torno do corpo, que parecia balançar no espaço; depois tudo se turvou à minha vista e perdi os sentidos.
Dormia um sono que os viventes acreditariam eterno.
Quanto tempo durou esse sono?
Ignoro-o; apenas sei que uma corrente de ar frio e húmido me fez despertar.
Não podia reconhecer minha situação; dor aguda me transpassava; a garganta cerrava-se e todo o corpo se estorcia como a fragmentar-se.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 30, 2016 9:37 pm

Uma torrente de fogo caía sobre mim, vinda não sei de onde e me queimava; o sofrimento era tão intenso que, novamente, perdi os sentidos; e contudo, quase imediatamente, o atordoamento se dissipou e notei que balançava no ar, envolto em um manto pardacento e flutuante; baça claridade avermelhada iluminava os objectos circundantes.
Estava na minha gruta, com o meu tesouro, o sarcófago, os vasos de ouro, prata e outros objectos preciosos.
Nada me roubaram durante o sono...
De onde provinha aquela segunda múmia de pele negra e encarquilhada, cujos braços, dissecados como cordas de couro, se cruzavam sobre o peito?
De repente estremeci:
reconhecia aqueles traços pronunciados, a cabeleira negra e espessa, o amuleto preso ao pescoço por uma corrente de ouro e contendo o coração de Smaragda; era e não era eu!
Havia-me tornado horroroso!
Notei um orifício negro, antes uma chaga e, sobre os joelhos, uma serpente enrolada em espiral, cujos olhos fosforescentes brilhavam na escuridão.
Reflectia sobre minha estranha situação sem poder compreendê-la; recordava ter provocado o entorpecimento para evitar a morte.
Por que motivo me havia acordado?
Quis demolir a barragem da gruta, mas não pude mover-me.
Aturdido, inquieto, uma voz oculta sussurrou-me:
— Tens, então, tua bela múmia?
Guarda-a bem, sentinela fiel, para que não te escape.
Permaneci, no entanto, flutuando sobre o espectro horrível — o meu sósia — até que, pouco a pouco, comecei a experimentar um mal cuja origem não saberia explicar.
O ar parecia-me espesso, e invencível peso oprimia-me todos os membros.
Tristeza mortal sufocava-me o coração,
Uma vez que olhava o sarcófago, esse pareceu-me vazio; no mesmo instante, vi Smaragda passar rente a mim, na companhia de Omifer.
Louco de raiva, quis detê-los:
— Ladrão — exclamei — devolva meu amor.
— Foi para roubar-me a bem-amada que me assassinaste! -respondeu Omifer menoscabando — agora, retomo-a, pois há muito que a reténs...
E desapareceram.
Fora de mim, quis persegui-los, mas as pernas paralisadas recusaram obedecer-me e ali fiquei pregado ao lugar onde suportei, muitas vezes, o reaparecimento de ambos, que me afrontavam desdenhosamente e ridicularizavam minha impotência.
Paulatinamente, a situação tornava-se insustentável.
Em vão meu cérebro trabalhou para remediá-la.
Eu estava convencido de que, sozinho, nada podia; mas a quem dirigir, a quem implorar auxílio e alívio?
Os egípcios, nas suas necessidades, oravam a Osíris, Isis, Ptah e muitos outros; mas essas divindades me. pareciam mesquinhas ao lembrar as palavras de Moisés, de que blocos de madeira ou de pedra que adorávamos eram incapazes de nos valer.
Eu não podia fazer uma ideia do grande Uno, criador do Universo, de que faziam menção os mistérios.
Pensava também em Jeová, o deus de Moisés, que conduziu os Hebreus para fora do Egipto; mas este tinha-se mostrado, por todos os seus actos, de uma tal crueldade, de carácter tão vingativo para cada desobediência — o destino do Faraó e do seu exército bem o comprovava — que eu temia.
Evidentemente, Jeová se vingaria da minha traição, tornando-me responsável, diante dele, ao fugir do campo hebreu; foi ele, sem dúvida, que me inspirou a matar Smaragda e enviou a serpente para me picar e assim me despertar.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 30, 2016 9:37 pm

A esse deus implacável, que preceituava o dente por dente e a quem havia ofendido, não ousava dirigir-me.
Não havia, igualmente, ofendido os deuses egípcios, renunciando-os em favor de Jeová?
Eles, então, também me repeliriam.
Senti-me extremamente infeliz.
Com todas as forças de minha alma pedia um alívio, mas a quem dirigir-me para obtê-lo?
Ignorava-o, porquanto me envergonhava de orar, às divindades que renegara.
No auge da aflição, lembrei-me da terna aparição que Moisés me inculcara como sendo o seu guia, e que havia aconselhado clemência, renúncia e paciência.
Lembrei-me de que seu nome era Cristna-Cristo; que ele não poderia ser severo e vingador como o grande deus do povo de Israel e logo se me dissiparam as dúvidas.
O orgulho e a obstinação desapareceram, porque, perante essa divindade, eu não havia procedido mal, como fizera em relação a outras.
Concentrando toda a minha vontade, orei:
— “Benevolente divindade; ajuda-me e alivia-me, não te pertenço mas sempre pensei em ti, respeitosamente; não desdenhes, pois, minha súplica: perdoa-me sem julgar-me”.
Enquanto formulava essa evocação, com grande dificuldade, sentia uma torrente de calor benéfico invadir-me os membros entorpecidos.
Como que atraído para essa fonte reconfortante, elevei-me pouco a pouco num espaço nevoento, que atravessei com velocidade crescente.
Subitamente parei; o espaço cinzento parecia ter-se fendido, descortinando vasto horizonte luminoso.
No fundo dessa imensidade, desenhava-se claramente uma visão que a pena humana é impotente para descrever:
sobre um fundo anulado, circundado de nuvens brancas de neve, cintilando aos raios do sol, pairava um ser cuja túnica flutuante irradiava como feixes líquidos de uma fonte iluminada por milhares de sóis.
Rodeavam-no seres semelhantes, porém menos brilhantes:
um deles me evocou a visão de Isis; mas o brilho resplendente ofuscava-me de tal forma que não podia ver-lhe as feições.
Um véu prateado cobriu a radiosa visão e sobre esse fundo mais nebuloso, se desenharam dois olhos como não é dado aos mortais admirar.
Não procurarei mesmo descrever-lhes a forma e a cor; mas diante dessa manifestação de caridade e clemência divina, devia prosternar-se o ser mais endurecido; sob esse olhar de mansidão sobre-humana, a alma culposa podia, sem pejo e sem humilhação, desvendar os mais sombrios arcanos da consciência e os maiores segredos do coração.
Tudo se esquecia, tudo desaparecia sob esse olhar regenerador.
Se os encarnados, cegos pelo esquecimento do passado, guardassem ao menos uma vaga lembrança da clemência infinita do Guia Divino do Nosso Mundo!
Qual dentre eles seria capaz de desdenhar a prece, por orgulho e desgosto, privando-se dessa consolação?
Chegaram aos meus ouvidos sons mais suaves que a mais bela música terrestre.
Não eram palavras, mas uma mensagem cujo sentido era-me compreensível.
— Pobre filho do espaço — dizia essa vibração harmoniosa — enceguecido pela carne, pudeste crer que o Criador Todo-Poderoso, cuja bondade povoa de mundos incontáveis o espaço infinito, poderia como vós, seres imperfeitos, experimentar ódio ou vingança?
Ora e arrepende-te, Pinehas; esse Deus que temos não tem para ti outra coisa mais que indulgência e perdão; fez-te apto a tudo compreender e obter, legando-te, como Pai infinitamente bom, uma parcela da divindade com que te criou.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 30, 2016 9:37 pm

Se queres quebrar e dominar as paixões que obscurecem tua alma, ele te dará toda a sabedoria e te abrirá as largas e luminosas portas da perfeição; e quando, depurado pelas quedas e provas, reencarnações e sofrimentos, te apresentares diante Dele, puro e luminoso, poderás dizer-lhe:
— "Pai Celestial, volto, digno de ser chamado teu filho para que me indiques a tarefa que me corresponde no espaço infinito, onde quero proclamar tua sabedoria”.
Para que atinjas essa meta luminosa, porém, Pinehas, as cadeias que ligam tua alma à carne devem ser quebradas pela prece, arrependimento e caridade.
— Por quê, Espírito misericordioso, não te conheci assim lá na Terra?
Por que ídolos mudos e severos lá representam o Pai Celestial?
— Meu filho, o culto da divindade, - continuou a entidade — tu o conduzes no teu próprio ego e em qualquer lugar onde nasceres.
Desde que o homem eleve um altar a essa divindade e a invoque, um servo do Pai Celestial se lhe apresenta e o instrui no bem.
De todos os tempos, gerações e cultos, dos mais selvagens aos mais refinados, a divindade sempre pregou o bem, de acordo com o meio e o nível intelectual aos homens; jamais ensinou o mal.
Procura invocá-la simplesmente e não serás abandonado.
Quantas vezes, porém, espírito vacilante, já te falamos dessa mesma forma?
Sempre reincides nos teus vícios para estacionar um tempo infinito no mesmo degrau de elevação.
Pobre ser que te punes a ti mesmo, porque tuas paixões te estimulam e te prostram exausto, para novamente recomeçar teu roteiro criminoso?
Fiquei esmagado pela verdade dessas palavras!
Eu mesmo era o meu pior inimigo; nada me torturava mais, agora, do que as próprias fraquezas; mas, onde encontrar forças para resistir ao mal?
No olhar do meu Guia divino reflectiam-se bondade e mansidão infinitas:
— Quando teu coração, Pinehas, houver adquirido o verdadeiro amor; quando recusares infligir sofrimentos aos que te cercam, a virtude te auxiliará e, amparado por esses dois aliados, sairás da luta armado de inquebrantável vontade, voltado unicamente para o bem.
Serás forte e nenhuma tentação te abalará.
Vai, pois, ao encontro do teu guia e prepara-te para uma vida diferente, por meio da prece e da humildade perante teus inimigos; depois, tenta novamente dominar tuas paixões e despertar teus nobres sentimentos, a fim de que teu amor te transforme em fonte de felicidade e não de suplícios para aqueles a quem te devotares.
Extinguiu-se a visão e encontrei-me no espaço plúmbeo, acompanhado de um espírito luminoso, que me disse:
— Crendo escapar à lei imutável do Criador, retardaste por longuíssimo tempo o desprendimento do corpo; agora estás livre, mas perdeste muito tempo.
Teu grupo já foi julgado e seus membros tiveram, desde então, muitas reencarnações; prepara-te, pois, pelo arrependimento e pela humildade, diante das tuas vítimas, para uma nova etapa expiatória.
* * *
O que acabo de descrever, o ditei voluntariamente a Rochester.
Depois disso, muitas vezes, tenho comparecido diante dos meus juízes, sempre sobrecarregado de crimes e apenas mais refinado nas minhas fraquezas.
Lenta, demoradamente, subo um degrau na escala da perfeição e como espírito, em parte liberto (enquanto dito isto), vejo com tristeza e amargura que minha encarnação actual também fracassou no seu principal objectivo.
O espírito que valorosamente devia combater pela nova causa da iluminação das almas deixou que passassem em ociosidade moral todos os momentos graves de sua existência, todas as ocasiões de se ligar à grande família espírita.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 30, 2016 9:37 pm

Preso por mesquinhos interesses, tenho julgado com indiferença os esforços realizados nesse sentido, empregando todas as energias de minha alma e do meu saber, na aquisição de ouro, a eterna causa de minhas quedas.
Não me inflamou ainda a luz da virtude.
Ligado a velhos companheiros do passado criminoso, o egoísmo e a libertinagem secreta me dominaram.
Gozarei o fruto de meu esforço?
Ou antes, morte imprevista, quando em repouso, virá chamar-me a prestar contas da vida que me concederam em grave circunstância, correspondente ao importante movimento das inteligências terrestres e extra-terrestres?
Não me é dado sabê-lo; um vago sentimento de inquietação e tristeza envolve meu espírito, em parte livre, à lembrança de tudo abandonar após tanto trabalho, visando unicamente a satisfação dos meus apetites materiais.
Fortes como são as paixões humanas, é difícil dominá-las; minto mais terrível, porém, para o espírito, é voltar ao espaço após uma vida desperdiçada.
Que Deus preserve de semelhante situação qualquer dos meus irmãos encarnados!
Pinehas

(1) O personagem a que se alude aqui, na «Abadia dos Beneditinos» tem o nome Kurt de Rabenau, e o leitor encontrará explicações disso no romance «O Judas Moderno». (N. do espírito autor).

(2) Observação do Espírito autor — A missão revelada era conquistar a amizade de Mernephtah e dominar, assim, esse homem violento, mas generoso.
Por intermédio de Faraó, deveria aliviar a sorte dos hebreus (que aliás, não era tão desgraçada como ele pintava), prepará-los para a liberdade e, chegado o momento favorável, obter de Mernephtah a libertação.
O ensejo de tornar-se árbitro da situação não lhe teria faltado, no momento justo.
Moisés, porém, queria atemorizar não só o Egipto, mas também os israelitas, que talvez recusassem obedecer-lhe e deixar o conhecido pelo desconhecido, e que haveriam de o acompanhar principalmente pelo temor de irritar o Deus sanguinário de quem ele era enviado.
A prova desta verdade decorre da própria Bíblia.
Vede no segundo livro de Moisés (Cap. 4, versículo 21, cap. 7, versículos 3 e 4), como o Eterno, querendo livrar seu povo, declarou que endureceria o coração do Faraó, para dar ao seu enviado ocasião de castigar o Egipto e, dessa forma, convencer os filhos de Israel da realidade da sua missão.
Abandonado o Egipto, Moisés logo compreendeu que os maiores obstáculos estavam por vencer; a massa popular que o seguia, preguiçosa e turbulenta, sempre pronta a revoltar-se, reclamava o bem-estar perdido; para dominar os sediciosos, serviu-se novamente do nome de Jeová e, reduzindo à sua estatura o Criador infinitamente bom e Senhor do Universo, atribuiu-lhe sua própria cólera e, em seu nome, puniu e massacrou os rebeldes, Moisés não possuía o dom de disciplinar as massas pela magia da palavra; dominava-as pelo pavor.
Ao regressarem seus emissários, enviados à rica região que ele elegera para estabelecer seu reino, contaram que povos valentes e aguerridos ali habitavam.
Foi tal o pânico, que ele houve de mandar assassiná-los pela propaganda ruinosa que faziam, convencido de que, com essas hordas indisciplinadas e covardes nada conquistaria; preciso era desaparecesse a velha geração de Israel, antes de tentar qualquer coisa.
Ficou, pois no deserto, levando vida inútil, desabituando o povo da agricultura, que faz o homem sedentário, das artes e dos trabalhos aos quais estava acostumado.
Homem genial, mas ambicioso e violento, quebrava os obstáculos, em vez de contorná-los habilmente, para atingir o fim.


Última edição por Ave sem Ninho em Sex Dez 30, 2016 9:38 pm, editado 1 vez(es)
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 30, 2016 9:38 pm

Discípulo dos sacerdotes mais sábios do Egipto, no país mais civilizado do mundo antigo, Moisés não sonhava, então, absolutamente, libertar os hebreus; gozava tranquilamente a posição e os privilégios de nobre egípcio, que lhe eram assegurados pela estima da real protectora, mulher fraca e amorosa, que ele dominava completamente.
Cego pela ambição, concebeu, desde logo, o audacioso plano de tomar-se Faraó.
Não vingou, porém, o projecto.
Cercado de inimigos e invejosos, seria talvez eliminado, mas Thermutis lhe angariou um comando no exército e ele partiu a guerrear no estrangeiro.
Faltando-lhe as qualidades de guerreiro, foi vencido e os egípcios, excitados por seus inimigos, atribuíram a derrota à sua má vontade.
Altivo e arrogante, regressou ruminando o projecto de se tornar rei dos hebreus, conduzindo-os para fora do Egipto.
Mas Thermutis faleceu.
Uma vez sem defensor, os inimigos esperaram a primeira ocasião para o exilar.
E assim partiu de coração raivoso, jurando vingança.
No deserto, para onde se retirou, amadureceu os planos, visitou a Índia, estudou, e somente quando julgou assegurado o sucesso, voltou ao Egipto.
Reuniu o povo de Israel, e com ele saiu.
Os desencantos que experimentou amarguraram-lhe o coração.
Querendo, porém, tudo dominar sempre, proclamou-se chefe da religião, nomeando o irmão Aarão sumo-sacerdote, instrumento dócil nas suas mãos e, para disciplinar o povo, decretou leis.
Aqui faço inteira justiça à sabedoria e profundeza do seu espírito, que soube reunir num resumo exacto a essência da sabedoria da Índia e do Egipto, e que, pelos dez mandamentos, estabeleceu as bases das leis fundamentais da moralidade, que se tomaram herança de todos os povos cristãos.
Nisso, o grande missionário foi digno do seu mandato divino; mas, onde o homem político sobrepõe-se ao profeta, surge a sombra.
Ele sabia que a união faz a força; deu, pois, às hordas vacilantes que conduzia, um código que as galvanizou num povo indestrutível.
Entretanto, essas leis emanadas de Jeová são cruéis; consagram a pena de maior vingança até à quarta geração e o ódio a tudo que não seja hebreu; elas fizeram do povo judeu, inimigo de tudo que não seja dele, buscando o trabalho fácil a expensas de outrem, recordando que os roubos ordenados pelo Eterno, por ocasião da saída do Egipto, o haviam enriquecido sem esforço.
Tudo quanto acabo de referir bem o sei, levantará uma tempestade contra mim, espírito audacioso, que ousou erguer a ponta do lendário véu que encobre o grande legislador hebreu, para revelar sob Moisés profeta, o grande sábio egípcio, o ambicioso candidato a um trono.
Caro leitores, não vos esqueçais, porém, de que o escritor destas linhas é Mernephtah, o infeliz Faraó que lutou contra esse homem férreo, com desespero do soberano que assiste à destruição da prosperidade do seu povo, mediante inauditas calamidades e comoções políticas sem precedentes na história.
Submetido pelo terror, quase louco pela impossibilidade, em que me encontrava, de compreender o modo pelo qual Moisés agia na missão divina em que eu não acreditava, cedi; mas, após a morte dó Faraó, meu espírito sondou avidamente a vida e as acções do antagonista que me vencera.
Diante do olhar desabusado do meu espírito, o grande profeta empalidece não restando senão alguns raios divinos; dele apenas fica o grande sábio, o hábil e ambicioso político.
É assim que ele me ressurge na memória, ao vos oferecer estas páginas de um longínquo passado.

ROCHESTER
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 30, 2016 9:39 pm

O FARAÓ MERNEPHTAH
Volume II

NARRATIVA DO ESPIRITO DE NECHO

Para o espírito, centelha indestrutível e eterna, o tempo não existe.
Ao evocar particularidades duma vida encoberta aos homens, pela poeira de trinta e dois séculos, elas revivem na minha lembrança com tanta clareza e frescor, como se fora ontem que houvesse testemunhado os graves e terríveis acontecimentos relatados na Bíblia, e revejo a luta desesperada entre o meu rei e seu tremendo antagonista Moisés — o grande legislador hebreu — de quem fui contemporâneo.
Na época em que começa esta narrativa, eu era um rapaz de vinte e cinco para vinte e seis anos e servia como oficial na guarda do Faraó Mernephtah, filho do grande Ramsés II, que empunhava então o ceptro do Egipto e havia instalado a Corte em Tanis, tão apreciada por ele quanto por seu pai.
Não merecem referências, esses primeiros anos de minha vida, calmos e venturosos, até que um dia fui despertado por extraordinária ocorrência, que, de certo modo, engendrou o prólogo das calamidades que se seguiram.
Foi em Tanis, repito, e num dia de audiência pública, na enorme sala das colunas.
Sentado no trono de ouro maciço, no alto de alguns degraus e junto do qual pareciam velar dois leões do mesmo metal, estava o Faraó.
Próximo a ele agrupavam-se portadores de abanos, conselheiros, dignatários e, finalmente, formando grande semi-círculo na sala e tomando as entradas, oficiais e soldados da guarda, perfilados e imóveis.
Já haviam sido atendidas em suas queixas ou pretensões, inúmeras pessoas, recebendo graças ou justas sentenças, quando ocorreu ligeiro tumulto na porta de entrada.
A compacta multidão abriu larga passagem e vimos avançar solene o grão-sacerdote do Templo de Isis, seguido de uma fila de acólitos, todos revestidos de longos hábitos brancos e, na cabeça a pena de avestruz — símbolo de iniciação superior.
Inclinaram-se reverentes e ergueram os braços em sinal de bênção, diante do trono.
Saudou-os o Faraó e perguntou-lhes o motivo que até ali levava os veneráveis servidores da grande deusa.
— Poderoso filho de Rá, grande Faraó a quem; os deuses concedam longa vida, saúde e glória — exclamou o grão-sacerdote — aqui estamos para dar-te conhecimento de graves e extraordinários acontecimentos e dizer-te que, se a raça odiosa e abominável dos hebreus não for severamente reprimida, acabará desencadeando a desgraça sobre o Egipto, porque os Espíritos infernais que eles instigam atacam até as virgens sagradas e votadas ao serviço da deusa.
O Faraó deu um salto na cadeira e nós empunhamos as nossas armas, prontos para, a um gesto seu, atirarmo-nos aos hebreus e massacrá-los.
Mas já o rei, precatado de que era impróprio de sua dignidade exteriorizar tal emoção, assentara-se calmamente, dizendo com gravidade:
— Servidores de Isis, se vindes trazer-me uma queixa, ser-vos-á feita justiça.
Falai, pois, veneráveis sacerdotes; se os hebreus ousarem tocar no que quer que seja, pertinente à honra e dignidade de uma mulher agregada ao vosso Templo, asseguro-vos que pagarão com sangue o nefando sacrilégio.
Bateu no peito e toda a assembleia se prosternou.
— Trata-se — começou o sumo-sacerdote — de um judeu chamado Eliezer, homem rico e influente entre os seus, que, após uma ausência de dois anos, aqui se encontra residindo novamente, numa casa que confina com uma de tuas vinhas. Sorrateiramente, ele persuadiu os operários de que nós os oprimimos e, com essa aleivosia, promoveu uma revolta dos teus trabalhadores.
Nesse motim, o fiscal, funcionário consciencioso, filho de distinta família egípcia, foi massacrado e a vinha quase destruída.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 30, 2016 9:39 pm

Isto ocorreu há seis meses e o vigilante de Faraó, o nobre Aamés, que mandara prender os culpados, os condenou após rigoroso inquérito, uns ao trabalho nas minas, outros a bastonadas, devendo o instigador Eliezer ser enforcado, depois de lhe arrancarem e atirarem aos corvos a pérfida língua.
A sentença foi proferida há seis dias, mas dá-se que, quando os executores entraram na prisão de Eliezer, lá o encontraram morto.
O corpo foi levado ao lugar da execução, mas, quando tentaram abrir-lhe a boca, viram que os dentes estavam de tal maneira cerrados, que seria forçoso quebrar os maxilares; e como na ocasião ameaçasse tempestade, contentaram-se em suspendê-lo pelos pés.
A violência do vento à tarde foi tanta que a forca levantada à beira do rio tombou e várias pessoas viram horrorizadas, o corpo projectado nas águas sagradas do Nilo, tragado pelas vagas.
Esse facto lastimável foi precursor de outro pior, pois essa noite fomos despertados por gritos lancinantes, partidos da sala onde repousavam as mulheres consagradas ao culto da deusa.
Todo o Templo ficou em polvorosa e quando, à frente dos mais veneráveis sacerdotes, entrei na referida sala, triste espectáculo se nos deparou; algumas mulheres jaziam por terra, desmaiadas, outras encolhidas nos cantos tapavam o rosto com as mãos e finalmente outras se movimentavam, contorcendo as mãos ao redor de um leito onde, estendida, rija, imóvel, permanecia Snefru, a mais bela das virgens consagradas ao serviço de Isis.
No pescoço, uma ferida semelhante a uma dentada.
Foi-nos impossível tranquilizar as mulheres desesperadas, cujos gritos angustiosos repercutiam longe.
Por fim, uma das jovens me explicou, trémula, que Eliezer aparecera de chofre entre elas, atirando-se a Snefru, que se deixara tomar de culposa paixão por um belo semita.
O pai, temendo, com razão, que os deuses punissem aquela inclinação impura, conduziu-a ao Templo e consagrou-a ao serviço da deusa.
Pálido e suando por todos os poros o Faraó ouvira atónito a estranha narrativa.
— Por que não prenderam o miserável — perguntou — se o viram?
— Ele foi visto — disse o grão-sacerdote — mas nenhum vivente teria podido prendê-lo, porque fundiu-se na parede, atravessando-a qual sombra.
— Consultastes, então, os deuses sobre o que fazer nesta terrível emergência?
— Sim. Mandaram-nos procurar o cadáver do réprobo e, se o encontrarmos, os deuses me revelarão, apenas a mim, o que se deverá fazer dele; portanto, grande Faraó, aqui estamos a implorar-te auxílio.
Concede-nos barcos e soldados que, munidos de ganchos e fisgas, revolvam o Nilo, enquanto os acompanhamos com cantos sagrados.
— De acordo — disse o rei levantando-se — eu próprio e meu séquito nos reuniremos a vós e ainda esta noite todo o Egipto procurará nas águas turvas do rio sagrado o cadáver do tétrico vampiro.
Os que estavam presentes, inclusive os suplicantes e o povo que se comprimia à entrada da sala, prorromperam em aclamações e brados de contentamento pela sábia providência.
Mernephtah desceu do trono e, acompanhado do séquito, recolheu-se aos aposentos privados.
Duas horas mais tarde, livre do serviço, tomei o carro e dirigi-me ao lar paterno.
Meu pai, homem rico e honrado, desempenhava na Corte a função de fiscal dos animais — cargo correspondente, pouco mais ou menos, ao de chefe das cavalariças, em nossos dias; esta função o obrigava a acompanhar o Faraó por toda parte.
Como possuía, porém em, Tanis uma casa e outras propriedades consideráveis, minha mãe e minha irmã o acompanharam.
Fatigado pelo serviço em palácio, que me obrigava a permanecer dê pé longas horas, imóvel qual estátua no meu uniforme, procurei alcançar meu quarto o mais depressa possível, mas o velho escravo que guardava a entrada participou-me que uma serva de minha mãe o encarregara de prevenir-me que a procurasse sem demora.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 30, 2016 9:40 pm

Dirigi-me, então, à sala contígua ao terraço, onde, como de costume, se reuniam todos os meus nas horas mais quentes do dia.
Quando entrei vi minha mãe deitada num divã, envolta em leve vestido branco, abanada por duas negrinhas.
Alguns passos afastada, minha irmã Ilsiris, assentada num banco, mirava-se num espelho redondo, mantido por pequenina escrava ajoelhada diante dela, e experimentava o efeito de diversos berloques de ouro retirados de um estojo, para os colocar nos belos cabelos negros.
Ao centro do grande terraço, ornamentado de flores e arbustos raros, meu pai, junto da mesa abastecida de refrescos, examinava atentamente, num extenso rolo de papiro as contas apresentadas pelo intendente.
Vendo-me, Ilsiris e minha mãe exclamaram ao mesmo tempo:
— Finalmente, Necho!
Nós te esperávamos com ansiedade; — acrescentou minha irmã deixando as jóias e afastando o espelho — decerto não ignoras as estranhas novidades que por aí se propalam.
— Deixa-o ao menos sentar e tomar fôlego — atalhou minha mãe, atraindo-me para uma cadeira junto dela e afagando-me o rosto orgulhosamente.
Mentuhotep, deixa também tuas áridas contas e vem ouvir o nosso Necho, pois ninguém pode estar melhor informado e conhecer as ordens emanadas da boca do próprio Faraó.
Meu pai levantou-se sorridente e apertando-me a mão disse:
— Tua mãe tem em alta conta a tua importância, meu rapaz.
Por conseguinte, se puderes, explica-nos o que significa a estranha ordem de varejar o Nilo esta noite, tal como dizem os arautos por todos os quarteirões da cidade.
— Isso decorre de um facto bem desagradável — expliquei — mas antes de tudo, dêem-me um copo de vinho, porque tenho a garganta seca.
— Alguma guerra, invasão ou moléstia contagiosa? — perguntaram as mulheres espantadas, enquanto uma escrava se esforçava por entregar-me o copo de vinho.
— Nada disso, respondi-lhes, mas tão só por causa de Eliezer, o miserável conspirador judeu, executado há dias; transformado, sem dúvida, em demónio impuro, ou vampiro, mercê dos seus crimes, introduziu-se esta noite no dormitório das mulheres consagradas ao culto de Isis e a bela Snefru, que todos conhecemos, foi vítima do horroroso espectro, segundo ouvi da boca do próprio grão-sacerdote.
Insinuou-se, nesse momento, entre as cortinas da porta, a cabeça de uma negra velha e o sorriso de triunfo que lhe escancarava a boca indicava que tinha ouvido toda a conversa.
— Vem, Acca — disse minha mãe.
Foi ela quem trouxe a notícia de que no Templo de Isis uma sacerdotisa havia sido assassinada por um fantasma que lhe mordera o pescoço, sugando-lhe o sangue — acrescentou voltando-se para mim.
— Minha pobre Snefrú — exclamou Ilsiris lacrimosa — mesmo morto, não a abandonou o infeliz Eliezer, que tão horrivelmente a enfeitiçara, porque, de outro modo, uma donzela de sua condição e fortuna não teria amado um miserável hebreu!
— Deixem de interromper Necho — disse meu pai impaciente — pois assim não logrará explicar-nos o que significam as batidas no rio.
— Querem descobrir o cadáver do executado lá caído.
Os deuses ordenaram essas buscas e indicarão o que se deverá fazer dele.
Afirmo-vos, porém, que diante da incrível revelação do grão-sacerdote, o próprio Mernephtah, apesar da sua intrepidez, tremeu o empalideceu:
entretanto, com a sabedoria que lhe é peculiar, ordenou imediatamente as pesquisas para esta noite, porque o sono nos torna impotentes e o vampiro pode atravessar as paredes sem probabilidades de captura.
A fim de evitar esse perigo ao povo, nosso grande rei, incorporado aos sacerdotes e soldados, munidos de ganchos, varas e redes, irá em pessoa ao Nilo, dirigir e activar as buscas; todo bom egípcio está na obrigação de o acompanhar na sua embarcação, e estou certo de que não faltarás, pai, a esse dever.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 30, 2016 9:40 pm

— Naturalmente!
Acaso não estamos todos ameaçados pelo perigoso fantasma que atravessa paredes e zomba até da santidade dos Templos?
— Irás também, Necho? - perguntou Ilsiris suspirando.
— Claro! Não sou oficial da guarda do Faraó? — respondi alçando os ombros — meu lugar é junto dele.
— Crês, Mentuhotep, que as mulheres também poderiam assistir a esse grandioso e interessante espectáculo? — perguntou maliciosamente minha mãe.
— A minha não — respondeu meu pai contrariado — pois suponho que nenhuma senhora sensata e de boa condição social se intrometerá nessa balbúrdia; em compensação, penso que deves ir amanhã ao Templo de Isis e oferecer-lhe um sacrifício para obter protecção contra esse perigo,
— Tens razão; amanhã irei ao Templo com Ilsiris e aproveitarei o ensejo para visitar a nobre Herneka, esposa do grão-sacerdote; ela está com um pé doente e não pode sair, mas, por seu intermédio, saberei mais alguns detalhes da horrorosa morte de Snefrú.
Nossa conversa foi interrompida por um escravo, que veio anunciar a refeição.
Recolhi-me aos aposentos depois do repasto para dormir algumas horas, recomendando ao escravo que me despertasse a tempo.
Levantei-me refeito e bem disposto à hora marcada; tomei um banho e tendo-me fardado e armado, encaminhei-me ao palácio real.
Caía a noite e todo o palácio regurgitava, dando passagem aos conselheiros do rei e outros funcionários que acorriam.
Galguei a larga escadaria e fui até a sala próxima dos aposentos particulares do rei, reuni-me ali a um grupo de oficiais e jovens que animadamente conversavam.
Discutiam-se as possibilidades de encontrar o cadáver do judeu e comentava-se a recompensa oferecida por Mernephtah, de vultosa quantia e um anel de próprio uso, a quem fizesse a descoberta, ainda que fosse um mísero escravo.
— Quem sabe se a sorte não te favorecerá, Necho! — disse alguém rindo e batendo-me no ombro; — tens sempre tanta sorte na luta e nos jogos!
— Pescar o cadáver do hebreu não me interessa — respondi — prefiro ganhar na guerra um anel, da mão do Faraó; mas creio que o espectáculo será grandioso.
— Também o creio.
Olha que o rio já está coberto por toda uma multidão; as embarcações se comprimem enfileiradas nas margens, assim como nas proximidades do Templo de Isis, onde se antecipará o Faraó, a fim de trazer os sacerdotes.
Continuamos a conversar e analisar os que passavam, até que o chefe e o mestre do cerimonial dessem o sinal para se organizar o cortejo.
Pusemo-nos em fila, de um e outro lado da porta dos aposentos reais, enquanto os demais ocupavam os lugares, de acordo com a função que cada um desempenhava.
Abriu-se logo a porta e Mernephtah, revestido das insígnias reais, apresentou-se acompanhado dos porta-abanicos e dignatários.
Junto à escadaria, galgou a magnífica liteira aberta em forma de trono, conduzida por doze rapazes, príncipes e parentes da família real.
Precedido por batedores que, com os seus bastões dourados abriam caminho, por músicos e soldados, com suas bandeiras dirigiu-se o séquito enorme e vagaroso, pelas ruas iluminadas como em pleno dia por archotes e lampiões, até as margens do Nilo.
Recebendo aclamações da multidão que se comprimia por toda parte, Mernephtah tomou a barca dourada, que, seguida de centenas de outras embarcações, rumou ao Templo de Isis.
Tomei lugar na embarcação que seguia de perto a do rei; ao nos aproximarmos do antigo edifício cuja silhueta maciça se reflectia nas águas, ouvimos cânticos sagrados e descortinamos imponente procissão descendo os degraus.
À frente, o grão-sacerdote conduzindo o sistro da deusa, as sacerdotisas com suas harpas, frontes ornadas com flores de lótus e uma extensa fila de sacerdotes de todas as categorias com suas longas vestes brancas.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 30, 2016 9:40 pm

O soberbo barco do grão-sacerdote emparelhou com o do Faraó e começaram as mais activas pesquisas.
Em vão, porém, percorreram o rio da montante à jusante; em vão sondaram rebojos e caniçadas; o cadáver do miserável sugador de sangue continuava inatingível.
O sol já ia alto no horizonte, quando a barca real atracou e Mernephtah, sombrio e pensativo, regressou ao palácio.
Cansado e desanimado, entrei em casa e mergulhei em pesado sono, para só me levantar chamado à refeição, aliás servida muito tarde, porque meu irmão, que havia tomado parte na expedição nocturna também repousava.
Quando ficamos sós, livres dos criados, trocamos impressões do feito, contando pormenores das pesquisas infrutíferas.
A seguir, meu pai perguntou o que minha mãe colhera no Templo.
— Tenho muito que contar — disse ela erguendo a cabeça — a terrível história do sugador de sangue não é a única que alarma o Templo; outro acontecimento, não menos emocionante, verificou-se esta manhã.
Descobriram uma ligação amorosa entre Menchtu, a mais bela das sacerdotisas e cantoras, com um nobre egípcio cujo nome ignoram, ou pretendem ocultar.
Essa infeliz, que mereceu a honra insigne de representar a deusa nos últimos mistérios, teve a audácia de introduzir o amante no bosque sagrado, onde um velho pastor os surpreendeu.
O indigno sedutor, forte como um búfalo e ágil como um símio, conseguiu fugir empurrando violentamente o velho, quando tentava barrar-lhe a passagem.
Menchtu está presa e, se conseguirem capturar o comparsa, será julgado sem misericórdia, porque, não só transpôs o muro sagrado, como ergueu a mão contra um venerável sacerdote.
— Qual será a punição? — perguntou Ilsiris.
— A morte, naturalmente.
Quanto a Menchtu, sei que será enterrada viva; o escândalo é tremendo.
Fica sabendo, Mentuhotep, que, à vista de tais horrores, penso chegados os tempos.
A nobre Herneka também me contou, sob segredo, que os astros anunciam grandes calamidades.
— Pobre Menchtu! — exclamou Ilsiris comprimindo o peito.
Que coisa horrível!
Enterrada viva, sentir-se sob uma abóbada de pedra, asfixiar-se na treva...
Só de pensar, estremeço e já sei que não vou pregar olho à noite; falemos de outras coisas.
Sabe, mãe, quem vi hoje no Templo?
Smaragda. Chegou na sua liteira, bela é adereçada como sempre, enquanto eu esperava tua saída da casa de Herneka.
No momento em que ela se dispunha a descer, Seti, o herdeiro do trono, saía com sua comitiva e, vendo-a aproximou-se imediatamente; não pude perceber o que disseram, mas ele se mostrou muito amável e lhe ofertou uma rosa.
Moça feliz! — acrescentou despeitada — novas jóias todas as semanas e, ainda por cima, um rosto tão claro que atrai até mesmo as homenagens de um filho de rei.
Nesse momento nossa conversa foi interrompida por um escravo que me apresentou um rolo de papiro, trazido por um jovem que recusou nomear o remetente.
Curioso abri o rolo e vi, surpreso, que era uma carta de Mena, o irmão da bela Smaragda, que minha irmã havia pouco nomeara e que foi meu companheiro de infância.
Pedia-me, com insistência que o procurasse alta noite, fora da cidade, num local designado.
Pelo tom da missiva, calculei que se tratava de assunto grave e pedi licença para retirar-me, a fim de redigir a resposta.
De saída, percebi sorrisos dos meus, que imaginavam alguma aventura galante.
Não procurei dissuadi-los e recolhi-me ao quarto.
Quando a noite desceu mandei encilhar um cavalo, envolvi-me numa capa escura e parti sozinho.
O local da entrevista era o remanescente de um Templo consagrado a Hathor, cuja construção fora abandonada.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 02, 2017 9:04 pm

Naquele labirinto de abóbadas inacabadas, de colunas e blocos de granito espalhados no solo, nenhum vivente se aventuraria, máxime à noite.
Diante de mim, avistei logo as maciças construções, que, esbatidas fantasticamente ao luar, apresentavam-se como gigantescas ruínas.
Saltei da montaria ocultando-a entre os enormes blocos de pedra e, piando três vezes como coruja, (sinal convencionado na carta), esperei.
Logo surgia Mena e, apertando-me a mão, reconhecido, conduziu-me para o santuário da deusa, meio construído.
— Muito obrigado por teres vindo, Necho — disse com voz disfarçada — compreendes que não te chamaria a este local por coisa de somenos; trata-se de minha vida...
Surpreso exclamei, ao notar-lhe o semblante pálido e inquieto:
— De tua vida?
— Justamente, o amor perdeu-me.
Seduzi Menchtu, sacerdotisa de Isis e fomos surpreendidos no bosque, perto do lago sagrado; se os sacerdotes conseguirem deitar-me a mão, terei castigo horrendo, e contudo não me posso conformar em abandonar Menchtu; dá-me um conselho, Necho, porque não tenho cabeça.
Estimava Mena sinceramente, como homem leal e generoso, apesar das suas paixões violentas.
Resolvi, de pronto, fazer tudo para salvá-lo.
Depois de pensar um momento, disse-lhe:
— Ouve-me — é preciso fugir o mais depressa possível, porque nada podes fazer em favor de Menchtu.
Penso ter tido uma feliz ideia:
amanhã sai para a Síria uma grande caravana; o chefe é pessoa de confiança, discreto e sobrinho do nosso antigo intendente; prepararei tua partida com essa caravana que passará por aqui.
Só não sei se convirá daqui partires, ou se deva levar-te para minha casa...
— Silêncio! — interrompeu Mena segurando-me as mãos — e, na calma da noite, ouvimos então, distintamente, passos de gente que se aproximava e o murmúrio de muitas vozes.
— Silêncio! — repetiu Mena, levando-me para um nicho profundo, onde nos agachamos, inteiramente encobertos pela escuridão.
Passado algum tempo, vários homens embuçados surgiram à nossa frente.
Uma voz profunda e metálica disse:
— Aqui poderemos conversar à vontade, porque ninguém, salvo os chacais, visita este terreno, onde não há a temer a presença de espiões.
Quem assim falava era um homem de imponente estatura, ultrapassando a dos companheiros.
Deu alguns passos à frente e tirou a capa.
A lua iluminou em cheio um rosto notável, que, visto uma vez, não mais se poderia esquecer:
longos cabelos escuros e cerrada barba enquadravam traços pronunciados e regulares; espessas sobrancelhas se reuniam à raiz do nariz aquilino, e sombreavam uns olhos severos e sombrios.
O conjunto dessa fisionomia era a personificação da energia e da inteligência.
Como fascinado, eu fitava o imponente personagem, que ainda não me fora dado encontrar.
Sua conversa atraiu de pronto toda a minha atenção; eu não falava perfeitamente o hebraico, mas minha ama, judia, algo me ensinara desse idioma (de resto, conhecido por muitos egípcios), o que me permitiu apanhar a conversa.
Dizia a voz sonora:
— Irmãos — Jeová está convosco, para que se cumpram os destinos preditos ao nosso povo; mão sábia e hábil deverá libertar-vos do jugo, para fundar um novo reino, onde cada hebreu viverá sob as leis justas e misericordiosas e não sob abominável tirania.
Não é revoltante que todo um povo trabalhe e, com o suor do seu rosto, permita que outro se farte nos prazeres e na indolência?
Que funde cidades e construa monumentos que causarão inveja à posteridade e atravessarão os séculos como padrões de arte egípcia, conquanto erigidos por mãos dos nossos patrícios maltratados?
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 02, 2017 9:04 pm

Um murmúrio de aprovação percorreu a assembleia.
— Não ignoro — continuou — que é uma luta de gigantes a que vou empreender contra o Faraó e os sacerdotes, porque é o nosso povo que os sustenta por toda parte.
Nos campos como nos vinhedos, nos lares como nas obras públicas, vemo-nos de lombo curvo sob o bastão egípcio.
Mas não desespereis, meus irmãos, o Deus único e poderoso que me salvou das águas do Nilo e permitiu que os nossos próprios inimigos me colocassem nos seus Templos para lhes aprender a ciência e a sabedoria; esse mesmo Deus me dará a força e as armas necessárias à libertação do meu povo, porque assim me foi prometido lá no deserto.
Na próxima assembleia, a reunir-se noutro local, que designarei — porque nunca é demais a máxima prudência — marcarei o dia de minha apresentação a Mernephtah.
Um dos anciãos falou em tom de aprovação:
— Nossas preces te acompanharão, Moisés.
Passaram, depois, a discutir diversas providências para estabelecer estreita ligação entre todas as tribos e fazer chegar, rapidamente, a todas elas, as ordens do chefe.
Dispersaram-se logo.
Quando cessaram os últimos passos, saímos do esconderijo.
— Conspiração curiosa — disse a Mena.
Que pensas?
Não seria prudente avisar o rei?
Mas, quem poderá ser esse Moisés, que pretende apresentar-se a Mernephtah com tão absurda proposta?
Imagino como será bem recebido...
— Segundo o que disse sobre sua miraculosa permanência na superfície das águas do Nilo, sou levado a crer que se trata do filho adoptivo da princesa Thermutis, que pescou o tesouro quando se banhava e o protegeu até a morte, com uma tenacidade muito feminina.
Foi meu pai quem me contou isso — acrescentou Mena; — ele conheceu Thermutis na sua mocidade e não gostava dela.
Há trinta anos passados, mais ou menos — continuou Mena — Moisés foi banido por haver assassinado um egípcio; agora esquecido, quer apresentar-se pessoalmente ao Faraó.
Creio não ser preciso avisá-lo e mesmo não poderias explicar tua presença aqui, porque assim me comprometerias.
— Tens razão. Tratemos de ti.
Que recomendações tens a dar-me com relação à tua irmã, que ficará inteiramente só?
Naturalmente com o tempo e muito dinheiro, poderás acalmar os sacerdotes e regressar um dia.
Agora o que é necessário é garantir o presente.
Para não despertar suspeitas, mandar-te-ei grossa quantia do meu bolso, e mais tarde me indemnizarás.
Mena conservava-se cabisbaixo.
Pesaroso ele falou:
— Minha pobre Smaragda, tão jovem e tão bela, quão ingénua, não poderá viver solitária, precisa casar-se.
Escuta, Necho; dois egípcios requestam-lhe a mão.
Um é ó nosso antigo condiscípulo Pinehas, homem sombrio, calado e até, dizem, dado à feitiçaria; o outro que suponho muito do agrado de minha irmã, é Rhadamés, condutor do carro de Faraó; não é rico, mas estimado por Mernephtah e, em consequência do meu desaparecimento, nossa imensa riqueza reverterá unicamente para Smaragda.
É a este que escolho e peço transmitires à minha mana este meu último desejo.
Rapidamente tirou tabuinhas e escreveu:
“Preciso exilar-me e te concedo a mão de minha irmã; protege-a, até que um dia venha pedir-te contas da felicidade dela”.
— Envia-lhe estes escritos amanhã cedo; penso poder confiar nele.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 02, 2017 9:04 pm

Não me trairá... comunica depois a Smaragda.
Conversamos, ainda, sobre vários pormenores, ficando definitivamente assentado que partiria com a caravana para a Síria e de lá mandaria notícias.
Separamo-nos e voltei para casa agradecendo aos deuses me haverem livrado de um amor como esse, que perdera o pobre Mena.
Na manhã seguinte, fui à casa de Rhadamés, que morava em companhia de sua mãe e duas irmãs.
Casa de modesta aparência, mas ornamentada exterior e interiormente com pretensões de elegância.
O condutor do carro já havia saído para o palácio e foi lá que o encontrei para entregar a mensagem.
Lendo as palavras de Mena um clarão de alegria e triunfo iluminou-lhe o semblante duro e impassível; mas, logo procurando dissimular essa impressão, apertou-me a mão:
— Agradeço-te, Necho, a boa notícia que me trouxe, mas onde está Mena?
Nunca depositei grande confiança em Rhadamés, e o olhar dissimulado e penetrante com que me fez a pergunta reforçou minhas presunções.
— Não é conveniente dizê-lo aqui onde tantos ouvidos indiscretos podem ouvir-nos, — respondi evasivamente, e logo me afastei.
Fui ao palácio de Mena, porque tencionava, a todo custo, falar com Smaragda antes que Rhadamés se apresentasse.
Ao chegar diante da porta ornada de esfinges e bandeiras, alguns escravos ricamente trajados se precipitaram para deter o veículo e me ajudar a descer.
Eu não era, evidentemente, o primeiro visitante, porque também lá estava uma elegante liteira; e quando perguntei se poderia falar à irmã de Mena, um velho mordomo respondeu, respeitosamente, que a senhora se encontrava no terraço e prontificou-se a acompanhar-me.
Passamos por uma série de salas ricamente mobiliadas e, a seguir, extensa galeria, sustentada na parte externa por colunas cuja pintura imitava palmeiras.
À entrada dessa galeria, troquei um aperto de mão com um jovem já conhecido, por já havê-lo encontrado várias vezes em outra casa.
Chamava-se Omifer e era fabulosamente rico, mas de linhagem medíocre, pelo lado materno.
Nesse momento, sua bela fisionomia irradiava contentamento e os grandes olhos negros espelhavam radioso triunfo, que me fez pensar:
— Se foi tua entrevista com a bela Smaragda que te pôs tão contente, logo te sentirás desencantado, pobre Omifer; quando o insulso e tirânico Rhadamés aqui mandar, este palácio perderá muito do seu encanto...
Terminava a galeria no vasto terraço aberto para o jardim.
Esse era ornamentado de cortinas raiadas de vermelho e branco e literalmente ensombrado pelas flores mais raras.
Numa espécie de bosque havia uma mesa rodeada de cadeiras do ébano com incrustações de ouro e marfim.
Lá deparei a bela Smaragda, tão abstracta que nem deu pela minha chegada.
A irmã de Mena era uma criatura realmente encantadora, esbelta e delicada.
Herdara da progenitora uma tez de alvura incomparável, realçada por cabelos e olhos de azeviche; traços mimosos e infantis.
Entretanto, um friso de ironia, que por vezes lhe retraía os lábios róseos, o olhar acerado e a mobilidade das narinas, indicavam a mulher enérgica, dotada de paixões ardentes.
Estava radiante e toda sua atenção se concentrava em maravilhosa cesta, onde, como em cochim de flores, figuravam magnífico colar e precioso diadema ornado de esmeraldas de tamanhos invulgares.
Seria presente de Omifer... — pensei — e eu que lhe vinha anunciar que estava prometida a Rhadamés!
Fatal incumbência!
A voz do mordomo, que de braços cruzados, me anunciou, Smaragda levantou-se e recebeu-me amavelmente.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 02, 2017 9:05 pm

Falamos, a princípio, de coisas superficiais, pois custava-me abordar o assunto, na verdade inoportuno para o momento.
Finalmente, pedi que afastasse os criados, porque cumpria confiar-lhe coisas graves.
Surpresa, despediu o anão e as damas de companhia, conservando apenas a velha ama que a abanava, acocorada a seus pés.
Então, em poucas palavras, expus a tragédia de Mena e o desejo que manifestava de vê-la casada com Rhadamés.
Ao ouvir tais palavras, sua fisionomia tomou súbita expressão de cólera e contrariedade.
— Não quero Rhadamés, nem o aceitarei — exclamou de rosto esfogueado.
Que ideia de Mena!
Dispor da minha pessoa, como se eu fosse um camelo ou um escravo!
— Mas — objectei — ele supõe que tu o amas e o escolheu de preferência a Pinehas, que te é antipático.
Ela baixou os olhos e sacudiu nervosamente a echarpe vermelha, bordada a ouro, que lhe cobria os ombros.
— Sim — amei-o até... isto é, pensei que o amava... mas, agora não! Nunca!
Cobriu o rosto com as mãos e desatou a soluçar.
Vendo essa cena a velha ama, largando o leque, abraçou os joelhos da jovem senhora e pôs-se a lamentar desesperadamente.
Eu também sentia-me constrangido.
Tocando-lhe no braço, disse:
— Smaragda, enxuga as lágrimas e ouve um conselho do amigo:
evita ofender Rhadamés, que possui engodos pelas quais tua mão lhe foi confiada e que, por outro lado, lhe revelam o segredo de Mena.
Será neste que se vingará, se preferires um outro.
És bela e rica e Rhadamés, que é vaidoso, mau e pobre responderá a uma recusa com a perda e a desonra do teu irmão.
Ela ergueu a cabeça e disse com tristeza:
— Tens razão, Necho, não posso romper abertamente.
Mas preciso ganhar tempo, até que Mena esteja em segurança. Tratarei, então, de mim.
Um pequeno nubiano apareceu naquele momento, esbaforido, no terraço, anunciando que o carro do nobre Rhadamés acabava de parar à porta.
— Que seja bem-vindo; acompanha-o até aqui — disse Smaragda dando-me uma prova da dissimulação extraordinária de que são capazes as mulheres.
Rapidamente, as jóias desapareceram de entre as flores e entregando a cesta à ama, acrescentou:
— Leva daqui estas flores, cujo perfume aborrece-me.
E aproveitando o momento em que a ama se afastara, murmurou:
— Se és meu amigo, nem uma palavra sobre o meu descontentamento e meu amor a outro.
Ajeitou-se na cadeira e tomando no prato um bago de uva, pôs-se a chupá-lo com ar displicente.
Achava-me ainda admirado com aquela atitude, quando Rhadamés entrou alegre, seguido de dois escravos sobraçando enormes cestas.
Jogando às mãos de um criado a capa e o capacete, foi ajoelhar-se diante de Smaragda.
— Caro amor — disse, abraçando-a e beijando-lhe a face — teu irmão abençoou o nosso amor e me concedeu o direito de proteger-te.
Levantou-se, acenou aos escravos para que se aproximassem e depusessem as cestas aos pés da jovem.
— Recebe esta insignificância, que espero ver-te usar, um dia.
Aproveitando o momento em que Smaragda inclinava-se, pálida mas sorridente, sobre as cestas cheias de sedas, jóias e preciosos frascos de perfumes e cosméticos, Rhadamés tirou da cintura uma bolsa que atirou aos escravos e, risonho, afivelou no pescoço da ama um cordão de ouro.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 02, 2017 9:05 pm

Antes que houvesse terminado meu copo de vinho, em homenagem aos noivos, Rhadamés arrastou a cadeira para junto da futura esposa e lhe disse com ternura:
— Fui informado da desgraça sobrevinda ao teu pobre irmão e considero dever de honra tudo envidar para socorrê-lo; vejamos, pois, como proceder.
Necho, que lhe conhece o paradeiro, tem a palavra.
Posto assim em evidência, expus o mais sucinta e evasivamente o plano por mim idealizado.
Rhadamés sacudiu a cabeça em sinal de aprovação.
— Não se poderia conseguir nada melhor; as caravanas partem todos os dias, em todas as direcções e quem o descobrirá entre elas?
Uma vez fora do Egipto, estará garantido.
Smaragda tudo ouvira suspeitosa, de cenho carregado.
— Escuta, Necho, uma coisa — disse ela por fim.
Vou carregar dez camelos, de ouro e objectos preciosos e indispensáveis; um velho escravo, fiel como um cão, os levará e tu te Incumbirás de os incorporar à caravana, sem despertar suspeitas, pois eu não posso consentir que meu pobre Mena permaneça no exílio sujeito à pobreza e passando privações.
— Isso é fácil.
Logo à tarde, mandarei pessoa de confiança levar os camelos ao pouso da caravana.
Ao ouvir as palavras de Smaragda, Rhadamés franziu a testa e corou como um pimentão.
Compreendi que temia perder as riquezas que lhe pareciam imensas, porque sua avareza era conhecida.
— Deixa que te observe — disse ele, esforçando-se por conservar um tom de voz conciliador — que assim te desfazes de coisas cujo valor mal podes apreciar; sabes quanto valem dez camelos carregados de riquezas?
Não há dúvida de que, a todo momento, poderemos enviar recursos a teu irmão, mas não uma fortuna de uma só vez.
Tu não entendes de negócios, minha querida, e como Mena me constituiu teu protector, torno-me automaticamente gestor dos teus bens e não posso autorizar um tal desperdício.
Lábios desdenhosamente crispados, um clarão sinistro a jorrar-lhe os olhos, Smaragda levantou-se.
— Sempre soube governar minha vida e não serás tu quem há de cassar-me este direito!
Recusas dez camelos carregados de riquezas ao senhor deste palácio!
Aquele a quem deves quanto esperas?
Tranquiliza-te, pois mesmo sem esses dez camelos, ainda sobrarão muitos haveres na casa de Mena, para manter seu esplendor.
Deu um passo para sair, mas Rhadamés já tinha caído em si e reteve-a, dizendo:
— Smaragda, perdoa.
Estamos de acordo, faze como quiseres pois que meu amor é desinteressado.
O olhar equívoco e o tremor de seus lábios contradiziam as ternas palavras.
Sem dúvida, a dissimulação lhe custava tanto, que se levantou para sair, pretextando serviço no palácio.
— Ficai cientes — acrescentou — de que a caçada marcada para amanhã foi transferida, em vista do acidente havido com o herdeiro, que, ao descer uma escada, escorregou e luxou o pé.
Conversamos ainda um pouco a esse respeito, mas Smaragda manteve-se calada.
Logo que ele desapareceu, ela deixou-se cair na cadeira com um suspiro abafado.
— Que insolente! — disse comprimindo o seio ofegante — cedo se desmascara!
Que fazer para desembaraçar-me dele? Tenho uma ideia.
Seti, o herdeiro do trono, me quer muito bem, prestando-me sempre muita atenção; vai procurá-lo, Necho, confia-lhe tudo, suplicando em meu nome que me socorra se for possível.
Foi banhada em lágrimas que me fez esse pedido e eu prometi ir sem demora ao palácio, tanto mais quanto precisava apresentar a Seti o meu pesar pelo acidente que sofrerá.
Assim dirigi-me ao pavilhão ocupado pelo herdeiro e fui, sem demora, levado à sua presença.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 02, 2017 9:05 pm

Estava na grande sala contígua ao terraço.
A um canto, sobre um estrado, estava o leito de ouro maciço, e, sobre almofadas de púrpura e peles de leão, Seti deitado.
Belo rapaz, esbelto e elegante, mas cuja fisionomia altiva e olhar profundo, davam sempre a ideia da sua dignidade.
O pé machucado estava envolvido em ataduras, mas parecia não lhe causar maior sofrimento, de vez que acompanhava com visível interesse os trejeitos de um prestidigitador acocorado no tapete.
Para não incomodá-lo, meti-me entre a multidão de oficiais e cortesãos que enchiam a sala e, somente quando ele me fixou, aproximei-me e o saudei respeitoso.
Falou-me com bondade e aproveitei o ensejo para dizer que tinha a incumbência de lhe transmitir, em particular, uma petição feminina. Sorriu e, com um gesto, ordenou que saíssem todos, passando a ouvir-me atentamente.
Quando terminei, disse:
— Sinto que este acidente me impeça de falar pessoalmente à bela Smaragda, mas outra coisa não lhe poderia dizer senão isto, que peço transmitir-lhe.
Sou de opinião que ela se conforme com o inevitável, porque, dado o carácter de Rhadamés, este lhe moverá tremenda guerra e não cederá.
Se, ainda assim, ela fizer questão de esposar Omifer, de quem tenho boas referências (e com o que poria termo a velhas rixas), deverá fugir e opor ao noivo indesejado o fato consumado do casamento, o que não deixa, aliás, de ser uma solução perigosa, por vários motivos, além de que o rei, como sabes, muito estima Rhadamés e poderá levar a mal a afronta ao condutor do seu carro.
Cumpria-me ficar satisfeito com essa resposta, porque o príncipe me despediu e voltou-se para um harpista que acabava de entrar.
Ao descer do estrado, notei aborrecido, que um oficial de nome Setnecht, ajudante de ordens do príncipe herdeiro, me observava desconfiado.
Felizmente, nada pôde ouvir da conversa. Setnecht era primo de Rhadamés.
Cheguei à casa cansado e com fome e lá soube que todos já tinham almoçado e se encontravam no terraço.
Mandei que me servissem a refeição no quarto, e depois de ligeiro repouso, reuni-me aos meus familiares.
Estavam todos reunidos em torno do hóspede, que falava com grandes gestos e parecia despertar grande interesse com a sua loquacidade.
O visitante era um bom amigo, que não via há várias semanas, porque tinha ido a negócios, à cidade de Ramsés.
Homem dos seus trinta e cinco anos, mais ou menos, gordo e algo pretensioso, mas amável, bem falante e muito abastado.
Chamava-se Chamus.
Ele apenas me inspirava fraca simpatia, mas minha mãe apreciava-lhe a palrice e eu sabia que ela desejava casá-lo com Ilsiris.
Chamus cumprimentou-me cordialmente e, quando pretendi saber o que narrava e suscitava tanto interesse, disse, com ares de mistério, que estava investigando uma grande conspiração, cuja descoberta tornaria Faraó e o Egipto reconhecidos à sua actuação.
As ideias lhe galopavam sem freios, vendo-se já como o falecido José, que salvara o país da fome, num carro triunfal cingindo o colar de honra, com anel da própria mão do Faraó, precedido de batedores a proclamarem-no salvador da pátria.
Desconfiado, perguntei-lhe como havia descoberto a pista da conjura que se propunha denunciar.
— Foi em Ramsés — devo dizer que, aborrecido com a vida que levava nessa cidadezinha, eu alimentei as fantasias de uma jovem judia, que se tomou de frenética paixão por mim.
Por muito bonita, não a repeli.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 02, 2017 9:05 pm

O mais interessante é que Lea devia ocultar o seu amor, porque o pai, velho muito rico, tem ridículas ideias sobre a virtude e foi precisamente devido a esses preconceitos que descobri a conspiração.
Tudo aconteceu poucos dias antes do meu regresso.
Lea desesperada por não me ver durante uma semana, mandou-me um bilhete marcando encontro em certo lugar secreto, de cuja entrada fornecia minuciosa descrição.
Na noite combinada, lá fui ter, pois bem sabes que sou destemido, máxime em assuntos amorosos, nos quais sou ousado até a loucura.
Dá-se que essa entrada misteriosa era uma velha cisterna esgotada.
Numa das paredes, rodava uma pedra sobre gonzos ocultos, com acesso a galerias e cavernas subterrâneas.
Lá me aguardava Lea, que disse arriscar a própria vida ao revelar-me aquele esconderijo, onde seu pai e parentes guardavam o que possuíam de mais precioso.
Acomodamo-nos em enorme caverna abarrotada de cofres e cubas, e onde vinha dar uma escada de pedra.
Estávamos no melhor da entrevista quando ressoaram passos ao longe.
Ela me levou para um canto onde nos acocoramos atrás de duas grandes cubas, apagando a lâmpada.
Prontamente, luz e passos se aproximaram e o grupo espalhou-se na caverna.
Eu tudo observava por uma fresta entre duas cubas e reconheci no primeiro que chegava, Abrahão, pai de Lea, depois um homem alto, de aspecto distinto, rosto pálido emoldurado de cabelos pretos e espessos como uma juba de leão, e olhos que também lembravam pelo brilho e expressão, o rei dos animais.
Comecei a prestar mais atenção à narrativa de Chamus.
Se o homem que ele acabava de descrever fosse Moisés é claro que, antes de vir a Tanis, teria pregado a revolta em Ramsés e a coisa se complicava.
— Ouço-te com toda atenção.
Continua, pois — disse a Chamus, que fizera uma pausa abanando-se com afectação.
— Caro amigo — secundou minha mãe — não nos faças esperar pelo que tanto nos interessa, pois suponho que esses miseráveis querem atentar contra a vida do nosso grande Mernephtah, a quem concedam os deuses longa existência, glória e saúde.
Chamus continuou:
— O velho Abrahão pendurou o archote na parede e todos, cerca de doze pessoas, acomodaram-se como lhes foi possível.
Arrependo-me de saber muito pouco a língua hebraica, pelo que muitas palavras me escaparam.
Entretanto, ouvi o bastante para saber que o personagem destacado de que falei era Moisés, nem mais nem menos que o menino judeu salvo do Nilo pela princesa Thermutis.
O que ele disse, compreendi muito bem, porque sua pronúncia é lenta.
Falou longamente; depois, referiu-se a um deus chamado Jeová, que lhe apareceu no deserto e ordenou que se dirigisse a Mernephtah — que os deuses conservem — a fim de o dominar por milagres.
Disse ainda, que um brilhante destino aguardava os hebreus, que fundaram, não sei onde, um reino de que ele, Moisés, era o soberano, sem dúvida...
Ah! Ah! Ah! Um reino de judeus, que Ideia extraordinária não achas?
Falaram ainda muito, porém tão rapidamente que nada pude entender.
Naturalmente, tratava-se dos milagres que deveriam impressionar Faraó, porque trouxeram grande cesta que depuseram aos pés de Moisés, e donde este retirou enorme serpente, segurando-a pelo meio.
Como a luz do archote o iluminava em cheio, pude notar que depois elevou os braços e fez um apelo a Jeová.
A seguir, voltou a olhar com terrível fixidez o animal, enquanto com a mão livre, meio fechada, parecia acariciar lentamente todo o corpo do réptil.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Facto estranho!
A serpente eriçou-se e transformou-se em um bastão, com o qual ele bateu na cuba que me ocultava.
Depois, o passou aos assistentes para examiná-lo, e, quando lhe voltou às mãos, aplicou-lhe novamente gestos, pronunciando estas palavras:
— “Em nome de Jeová, retoma o teu estado!”
Imediatamente o animal agitou-se enroscando-se em espiral.
Outras experiências foram ainda feitas por ele, mas nada pude ver, porque os circunstantes se comprimiam ao seu redor e eu estava muito estarrecido para compreender o que ele dizia.
Agora, estou convencido de que Moisés é um grande mágico, que quer enfeitiçar o nosso Faraó, mas irei denunciar a Mernephtah os planos desse homem perigoso.
Em vista dessa descoberta adiei a partida de Ramsés.
Quanto a Lea, não me trairá, pois, tem muito medo, sabendo que essa aventura poderá custar a vida do pai.
Estou agora convicto de que Moisés tem um grande plano bem urdido, mas não querendo revelar que também já o havia surpreendido aqui, deixei que continuassem a comentar a narrativa de Chamus e retirei-me para meu quarto, porque já se fazia tarde e, de um momento para outro poderia chegar o portador de Smaragda com os dez camelos.
Havia prevenido o nosso velho intendente, e com a sua ajuda tudo consegui.
Os camelos foram incorporados à caravana.
Ao escurecer, fui para as ruínas abandonadas do Templo de Hatbor, onde Mena aguardava-me.
Com a notícia de que lhe trazia uma fortuna e o seu velho e fiel escravo, tornou-se visivelmente calmo e animoso, abraçou-me calorosamente e incumbiu-me de agradecer à irmã.
Alguns instantes depois, o fiel nubiano abraçava os joelhos de Mena, com lágrimas de contentamento.
Trocamos um último aperto de mão e o amigo cavalgou o camelo, acompanhando a caravana.
Permaneci de pé seguindo-os com a vista até desaparecerem na bruma.
Suspirando, montei o cavalo.
Não sabia que, nesta existência, não mais reveria o amigo.
Na manhã do dia seguinte, procurei Smaragda para informá-la da partida do irmão e também da resposta de Seti.
Senti-me desagradavelmente surpreendido de ali encontrar Rhadamés, o que me impediu de desempenhar meu intento.
Contudo Smaragda soube, por iniciativa própria, afastá-lo um momento, que aproveitei para tudo dizer.
— Compreendo.
Seti tem razão, — ela falou empalidecendo — esse insolente me espiona e começo a detestá-lo.
A chegada de Rhadamés interrompeu a confidência e logo me despedi.
Passados dois dias, o Faraó dava nova audiência pública.
Eu estava de serviço e me postara junto ao trono.
Um pouco distante, incorporado ao séquito, vi Chamus que se tinha apresentado ao grão-mestre da Corte, solicitando uma audiência particular, para revelar ao rei importante segredo.
A audiência estava prestes a terminar, quando entrou na sala um grupo de pessoas e qual não foi meu espanto reconhecendo Moisés à frente, seguido de um homem de porte médio, fisionomia velhaca, astuta e vários anciãos hebreus.
A expressão aflitiva de Chamus convenceu-me de que também ele acabava de identificar o conspirador.
Ao ficar em frente ao trono, Moisés parou sem fazer as saudações obrigatórias.
O Faraó olhou-o com espanto e desagrado, e perguntou bruscamente:
— Quem és e o que queres?
O olhar coruscante de Moisés fixou-se em Mernephtah, mas fosse porque se perturbasse com a gravidade do momento, ou com a presença do rei, o certo é que só depois de prolongado silêncio, respondeu vagaroso, com certa dificuldade:
— O Deus de todos os deuses, Jeová, que o povo de Israel adora, enviou-me à tua presença para pleitear a libertação dos hebreus, e para que o deixes partir para o deserto oferecer-lhe sacrifícios, porque Israel é o povo escolhido e amado por Jeová, acima de qualquer outro.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 02, 2017 9:06 pm

— Os hebreus estão ocupados em trabalhos úteis, que não interromperei para facultar passeios ao deserto — respondeu Mernephtah tranquilamente.
Os olhos de Moisés lançaram chamas.
— Sim, é verdade e eles sucumbem aos milhares nos trabalhos úteis com que os egípcios os sobrecarregam.
Tu te julgas grande e poderoso rei.
Desprezas como impuros os meus irmãos; entretanto, nem tu, nem os teus súbditos, desdenham alimentar-se à custa do seu suor.
Sacrificas aos teus deuses, que recompensam a virtude e a caridade.
Crês que a alma culpada e cruel deve expiar seus crimes no corpo de um animal e deixas maltratar seres indefesos, criados como tu, e que, tal como os egípcios, são teus súbditos e como estes últimos, trabalham para ti, aumentando teu luxo e riquezas e pagando impostos.
Em compensação, vêem-se desprezados, maltratados e esmagados no trabalho.
Jeová, o deus grande e único, cuja justiça iguala a sabedoria e cuja paciência afinal chegou ao fim, falou:
“Deixei passar mais uma dinastia de Faraós sem lhes fazer sentir minha cólera, mas agora retirarei aos egípcios os homens que os sustentam e para eles trabalham, porque são injustos, ingratos e cruéis”.
É Jeová quem manda dizer-te, Faraó Mernephtah; consente na partida dos filhos de Israel para que eles lhe ofereçam sacrifícios no deserto.
Silêncio de morte reinava no grande salão.
Diante de tão insolente discurso o monarca parecia mudo.
Depois, vivo rubor esfogueou-lhe a face e os olhos fuzilaram.
Nós próprios estávamos de armas prontas, acreditando que ele ia ordenar que parasse ou puníssemos de morte o temerário.
Mas o que sobreveio à cólera real foi um sorriso escarninho e zombeteiro.
— Que deus é esse — disse ele — que tem a pretensão de me julgar e aos meus antepassados?
Seu poder não me inspira temor nem respeito, de vez que se proclama pai e protector de um povo tão preguiçoso, qual o de Israel, criados para o cativeiro, tanto que procria rapidamente, a ponto de não se saber o que fazer de tanta gente que nasce.
O que é nobre é raro:
entre milhares de bois encontra-se um Ápis.
A massa é sempre vulgar.
Desiste, pois, de importunar-me com o teu deus.
— Não desdenhes Jeová, grande rei! — disse então com voz clara e fácil o companheiro de Moisés (eu soube mais tarde que se tratava de seu irmão Aarão); o poder desse Deus é imenso e poderás ter a prova sem mesmo te afastares desse trono.
Moisés atirou no mesmo instante o bastão no assoalho e ergueu os braços.
Vimos Mernephtah estremecer, e todas as cabeças se inclinarem para a frente e um grito de espanto partiu da assistência.
Uma serpente deslizava nos degraus do trono, silvando e contorcendo-se em espirais.
Então, Moisés abaixou-se, agarrou o animal pelo meio e passou a outra mão pelo seu corpo, tal como havia contado Chamus.
A serpente transformou-se novamente em um bastão cinzento, com o qual bateu fortemente no assoalho.
Todos estavam inquietos e pálidos; apenas Mernephtah havia recobrado a calma.
— És um grande mágico — disse — mas não vi o poder do teu deus.
Moisés retrucou:
— Olha minha mão, está inteiramente sã?
E metendo-a nas vestes, retirou-a pouco depois coberta de chagas leprosas.
O rei recuou com asco.
O profeta tomou a colocar nas vestes a mão e retirou-a completamente limpa e sã.
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Re: Conde J. W. Rochester - O FARAÓ MERNEPHTAH / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 02, 2017 9:06 pm

Erguendo a cabeça e encarando Moisés com olhar perquiridor, disse Mernephtah:
— Tu te dizes o enviado do grande deus dos hebreus e que o desejo dele e teu, é levar esse povo para o deserto.
Mas, consultaste os filhos de Israel que aqui vivem há séculos, fartos, sem que nada lhes falte?
Quererão eles acompanhar-te?
— Queremos! — responderam em uníssono os anciãos que acompanhavam Moisés e o irmão.
— Então, consultaste-os, recebeste-lhes as observações e explicaste as vantagens de uma mudança?
Porque não posso crer sejam teus irmãos tão imprudentes para concordarem, sem conhecer de antemão, todas as possibilidades da empresa.
Ao ouvir essa pergunta insidiosa, Moisés voltou-se vivamente para trás, pretendendo impor silêncio aos companheiros, mas fê-lo tardiamente, pois já um se havia escapado.
Admirando a habilidade de Faraó e todas as cabeças se esticaram avidamente, quando ele prosseguiu com desdenhoso sorriso:
— Diz ao teu deus, enviado do grande Jeová, que, se o seu poder não vai senão ao ponto de criar alguns conspiradores, que excitam habilmente uma legião de preguiçosos que muito pouco produzem, então, o povo escolhido não sairá jamais do Egipto.
Darei ordens para que esses ouvidos ociosos tenham outras ocupações que não ouvir discursos deletérios e sediciosos.
Vai-te e leva ao teu Deus esta proposta de Mernephtah.
Altivamente levantou-se, demonstrando, assim, que dava por encerrada a recepção.
Lentamente desceu os degraus do trono e passou junto dos hebreus sem lhes dar a honra de um olhar.
Braços cruzados, Moisés seguiu o rei com olhar bastante estranho.
— Retornarei — disse com voz surda mas bastante forte para que todos ouvissem, e voltando-se, saiu acompanhado dos anciãos hebreus.
Em seus aposentos, o Faraó despediu a comitiva, com excepção de alguns altos dignatários, conselheiros e oficiais de serviço.
Despiu as insígnias reais e pôs-se a caminhar de um lado para outro, pensativo.
Por fim, atirou-se numa poltrona e tomando tabuinhas de sobre a mesa, disse:
— Enviai imediatamente ao herdeiro e dizei que venha até aqui.
Depois de escrever qualquer coisa e entregando a um dos conselheiros, acrescentou:
— A conspiração que nos revelou o insolente, hoje, Aahmés, não é de pouca importância como parece.
Providencia, pois, para que as ordens agora expedidas sejam executadas o mais depressa possível, e que todos os chefes e fiscais dos hebreus, assim como os governadores das cidades onde eles residem, sejam convocados para uma reunião que eu próprio presidirei.
Saiu Aahmés e o rei, apoiando os cotovelos nas almofadas, pôs-se a pensar com ar sombrio e cenho carregado.
A entrada do herdeiro fê-lo erguer a cabeça.
Evidentemente, o príncipe já estava inteirado da ocorrência, porque seu rosto altivo estava pálido e os lábios contraídos.
Com o passo rápido dirigiu-se para o rei, beijando-lhe a mão, e agradeceu a cadeira que este lhe indicou, permanecendo encostado à mesa para dizer com voz vibrante de paixão mal contida:
— Não deixes sair os hebreus, pai, pois isso seria a ruína do país!
— Acalma-te; eles não partirão jamais.
Como, porém, impedi-los de murmurar, conspirar e desejar a liberdade?
Seu número é considerável e uma sedição é sempre perigosa.
Com uma expressão fria e cruel ele respondeu:
— O chicote e o trabalho dobrado mudarão suas ideias.
Os desejos e projectos de viagem — disse com voz imperiosa — desaparecerão com a falta de tempo e as fadigas.
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