O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

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O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 27, 2016 10:52 am

O RETORNO
ELIANA MACHADO COELHO

Pelo Espírito SCHELLIDA

Inglaterra, século XIX.
Duas almas se procuram através dos tempos.
Mas é no Brasil actual que esse lindo amor vai se concretizar...
1888.
Nem o denso nevoeiro londrino conseguiu ofuscar a radiante troca de olhares entre Henry e Margarida.
O compromisso entre eles tem tudo para dar certo.
Diferentemente do que acontece com a bela e jovem senhora Rosa Maria e o cavalheiro Robert, irmão de Henry.
Obrigada a um casamento de conveniências com o rigoroso senhor Gonzales, Rosa Maria e Robert, duas almas afins, vêem-se diante de um amor puro, porém impossível de se concretizar.
Actos impiedosos e cruéis impedem a ambos de experimentar a felicidade, causando muitas dores e sofrimento naquela época...
Mas tudo deverá ser harmonizado.
Os ajustes de sentimento são necessários.
E é no Brasil, nos dias actuais, que todos se reencontrarão para um novo aprendizado e novas chances de reconciliação.
Neste O Retorno, o espírito Schellida, por intermédio da psicografia de Eliana Machado Coelho, mais uma vez nos traz ensinamentos sublimes e elevados através de um belíssimo romance.
Explica-nos, de forma clara, as diferenças entre animismo e mediunidade, além de nos esclarecer que a verdadeira felicidade é encontrada nos sentimentos nobres e dignos, proporcionando-nos bênçãos e paz no amor maior de Deus.

Eliana Machado Coelho nasceu em São Paulo, capital, em 9 de outubro.
Desde pequena, Eliana sempre esteve em contacto com o Espiritismo e a presença constante do espírito Schellida em sua vida, que até hoje se apresenta como uma linda moça, delicada, sorriso doce e sempre amorosa, já prenunciava uma sólida parceria entre Eliana e a querida mentora para os trabalhos que ambas realizariam juntas.
O tempo foi passando.
Amparada por pais amorosos, avós, mais tarde pelo marido e filha, Eliana, sempre com Schellida ao seu lado, foi trabalhando.
Depois de anos de estudos e treinos de psicografia, em julho de 1997 surgiu o primeiro livro:
Despertar para a Vida, obra que Schellida escreveu em apenas vinte dias.
Mais tarde, outros livros foram surgindo, entre eles O Retorno.
Após a tarefa árdua da digitação, O Retorno foi publicado timidamente em 2000.
Mas a espiritualidade endereçou-o a um novo caminho de luz para que fosse reeditado.
E eis aqui a obra retrabalhada agora em toda sua íntegra, com o respeito e o carinho que a médium faz questão de manter para com a tarefa que lhe foi confiada.
O Retorno ressurge exactamente como a espiritualidade o enviou e desejava que fosse publicado: com todas as emoções e ensinamentos que este belo romance oferece.
Trabalho à parte, curiosidades naturais surgem sobre essa dupla (médium e espírito) que impressiona pela beleza dos romances recebidos.
Uma delas é sobre a origem do nome Schellida.
De onde teria surgido e quem é Schellida?
Eliana nos responde que esse nome, Schellida, vem de uma história vivida entre elas e, por ética, deixará a revelação por conta da própria mentora, pois Schellida a avisou que escreverá um livro contando a principal parte dessa sua trajectória terrena e a ligação amorosa com a médium.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 27, 2016 10:53 am

Por essa razão, Schellida afirmou certa vez que se tivesse de escrever livros utilizando-se de outro médium, assinaria um nome diferente, a fim de preservar a idoneidade do tarefeiro sem fazê-lo passar por questionamentos duvidosos, situações embaraçosas e dispensáveis, uma vez que o nome de um espírito pouco importa.
O que prevalece é o conteúdo de moral e os ensinamentos elevados transmitidos através de obras confiáveis.
Eliana e o espírito Schellida contam com diversos livros publicados (entre eles, os consagrados O Direito de Ser Feliz, Sem Regras para Amar, Um Motivo para Viver, Despertar para a Vida e Um Diário no Tempo, todos editados pela Lúmen Editorial).
Outros inéditos entrarão em produção em breve, além das obras antigas a serem reeditadas.
Dessa forma, o espírito Schellida garante que a tarefa é extensa e há um longo caminho a ser trilhado pelas duas, que continuarão sempre juntas a trazer ensinamentos sobre o amor no plano espiritual, as consequências concretas da Lei de Harmonização, a felicidade e as conquistas de cada um de nós, pois o bem sempre vence quando há fé.


ÍNDICE

Primeira Parte

Capítulo 1 - Encontro
Capítulo 2 - Religião
Capítulo 3 - Conhecimento
Capítulo 4 - Cultura
Capítulo 5 - Premonição
Capítulo 6 - Sonho
Capítulo 7 - Torturas
Capítulo 8 - Resignação
Capítulo 9 - Amor
Capítulo 10 -Renúncia
Capítulo 11 -Fascinação
Capítulo 12 -Laços
Capítulo 13 -Vingança

Segunda Parte
Capítulo 1 - Reencontro
Capítulo 2 - Sensibilidade
Capítulo 3 - Fobia
Capítulo 4 - Consequências
Capítulo 5 - Amparo
Capítulo 6 - Médiuns
Capítulo 7 - Desobsessão
Capítulo 8 - Educação
Capítulo 9 - Desequilíbrio
Capítulo 10 - Reconciliação
Capítulo 11 - Realizações

Paranormalidade, Animismo e Mediunidade
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 27, 2016 10:53 am

Primeira parte

1 - Encontro
1888.


A brisa soprava húmida e fria na face serena daquele jovem que contemplava o céu em busca de alguma estrela no firmamento londrino que, devido ao constante nevoeiro, teimosamente recusava exibir-se.
Bem perto, a Estação Ferroviária Vitória anunciava com o apito estridente a partida de mais um trem.
Aquele som agudo do apito era o aviso do comboio que rumaria para outra parte do Reino Unido.
A elegante estação foi caprichosamente arquitectada e enriquecida de detalhes com foscos desenhos nas grandes vidraças que, além de embelezar o luxuoso saguão, também protegia os usuários do frio cortante de Londres.
Segurando o chapéu de aba curta em sinal de cortesia, o jovem Henry saudou as senhoras que passavam risonhas em conversação animada.
Junto delas, Margarida, uma bela moça de olhar meigo, furtou-se à prosa para observar melhor aquele cavalheiro.
Ao trocarem olhar radiante, talvez por distracção, Margarida tropeçou em uma pedra saliente do calçamento da rua.
Curvando-se delicadamente deixou escapar um leve gemido ante a forte dor.
Prontamente, apressando os passos ao encontro da jovem, Henry amparou-a com generosidade e até satisfação.
— Machucou-se? -— indagou o cavalheiro cortês e solícito.
— Foi somente uma torção -— explicou a moça com os olhos húmidos tentando disfarçar a dor.
Rosa Maria, a jovem madrasta de Margarida, interveio salientando muito educada e com sua voz meiga:
— Pode ser somente uma torção, mas com certeza nada suave.
O transtorno desfigurou-a. Veja! -— surpreendeu-se.
Solicitando permissão, Henry, com extrema delicadeza, laçou um dos braços de Margarida sobre seu ombro e segurando-a pela cintura, ergueu-a com facilidade, tomando-a em seus braços.
Exibindo firmeza, caminhou até a praça onde a assentou no banco de suaves contornos.
As acompanhantes seguiram-lhe de perto e, curiosas pela presteza do jovem rapaz, ficaram observando atentas.
Pedindo licença, Henry afastou o amontoado de tecido que compunha o longo vestido comprido e, segurando gentilmente o pé que Margarida machucou, tirou-lhe a botinha de cano curto com abotoamento lateral tocando-lhe o pé para examinar e sentir alguma protuberância.
Com um dos joelhos no chão, colocou o pé da jovem no outro que somente flexionou para apoiar observando melhor a contusão.
— Ai!... -— gemeu a moça instintivamente ante a dor, envergando-se suavemente, sem agravar com expressões.
— Não creio que seja grave, não me parece fracturado.
Creio mesmo ter sido uma torção forte.
Tente firmar o pé no chão -— pediu Henry estendendo no piso um lenço que tirou rapidamente da lapela para a admirável moça colocar o pé sobre ele.
Logo na primeira tentativa, Margarida se dobrou pela dor.
— Também!... -— exclamou Dolores, uma das acompanhantes e tia de Margarida.
Não olha por onde anda!
— Dolores -— justificou Rosa Maria com brandura—, - a iluminação é fraca.
Além do que, o alto-relevo do calçamento nos faz tropeçar com facilidade.
Pondere! — acentuou a jovem madrasta gentil tomando a defesa de sua enteada.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 27, 2016 10:54 am

— Estamos com pressa! Gonzales deve estar preocupado com vocês!
Precisamos ir logo! -— tornou Dolores ainda mais irritada.
Henry não podia ouvir a conversa que se fez paralela aos seus socorros.
Ele se encantou com aquela moça!
— Ei, rapaz?! -— perguntou Dolores deixando exalar o ciúme por verificar o interesse daquele moço por Margarida.
Rapaz?! - insistiu ao ver que o jovem não a ouvia.
— A sua ordem, senhora! -— atendeu Henry esboçando um agradável sorriso, simultaneamente ao inclinar da cabeça colocando-se prontamente à disposição.
— Como pode afirmar o que ela tem?
Por acaso é médico?
— Ainda não! — respondeu ele animado.
— Estou no quinto ano da escola de Medicina.
Fora isso, sempre que posso, acompanho o atendimento de meu pai, conceituado e experiente doutor, que clinica nesta cidade há longos anos.
A meu ver, não há fractura.
Não obstante, terá de deter-se com leve imobilização temporária a fim de se recuperar mais rapidamente.
Creio que como está não poderá andar.
A dor há de ser aguda.
Virando-se para Margarida, indagou:
— Mora longe?
Respondendo na vez da enteada, Rosa Maria informou por precaução:
— Um pouco! Tendo em vista a dificuldade que teremos com Margarida nessas condições...
Nem sei o que fazer!
Sempre prestativo, Henry prontificou-se novamente:
— Irei em busca de um carro!
Levantando-se, após generosamente apoiar o pé da moça sobre o calçado, Henry saiu à procura de uma carruagem para que pudesse servi-las.
Na ausência do rapaz, Dolores indignava-se com o ocorrido, insinuando que havia sido proposital por parte de Margarida.
— Se olhasse por onde anda, isso não aconteceria.
Parece enfeitiçada!
Não deixou de olhá-lo por um só segundo!
— Não é como diz, Dolores! -— defendeu a madrasta da jovem. —
Por favor, ninguém se acidenta porque o quer.
Tenha bom senso!
— Nunca vi alguém como você, Rosa Maria!
Por que justifica tudo a favor de Margarida?
— Procuro agir com justiça, Dolores.
Não vejo motivos para condená-la assim como o faz.
Poderia eu lhe perguntar:
Por que a agride tanto?
De certo a inveja a encobre para que não enxergue a verdade, deixando ressaltar a vaidade e a incompreensão!
— Ofende-me com tais palavras, Rosa! O que quer? Romper nossa amizade?! Se assim o é...
Sem mais palavras, Dolores enlaçou-se nos braços das duas outras moças acompanhantes, que eram suas filhas, mas não se pronunciaram, dando as costas à Rosa Maria e Margarida, deixando-as ali mesmo, sem hesitar.
— O que faremos? -— preocupou-se Margarida.
Sem saber o que fazer, Rosa Maria pediu calma enquanto procurava criar alguma ideia.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 27, 2016 10:54 am

A noite já se acentuava e nenhum transeunte circulava pelo local.
Preocupada, Rosa Maria olhava por toda volta.
Afastando-se um pouco, ela caminhava para lá e para cá, segurando seu longo vestido preto de fino trato que exibia sua boa classe social pelos detalhes em bordados caprichosos, formando pequenas florezinhas com fitinhas de seda no mesmo tom e, num toque final de elegância, do delicado chapéu caía graciosa renda, cobrindo-lhe metade do rosto.
O fog1 aumentava, humedecendo-lhe as vestes e o sobretudo pesado de lã abotoado na altura do pescoço, descendo-lhe até abaixo da cintura.
De repente fazia-se ouvir ao longe o som do atrito das patas dos cavalos no chão, tranquilizando o coração de ambas.
Alteando-se na ponta dos pés, Rosa Maria esticou-se procurando ver a carruagem surgir do centro da densa neblina.
Mais aliviadas, elas assistiram à condução estacionar próximo delas.
Do estribo da cabina, Henry desceu sorridente e cortês indo na direcção das duas.
O boleeiro segurou a porta a fim de deixá-la aberta.
O jovem, tomando Margarida em seus braços como um perfeito cavalheiro, acomodou-a no interior da boleia, auxiliando, em seguida, a madrasta da moça a subir no transporte trazido por ele.
Entrando somente depois de dar orientações ao cocheiro sobre as informações recebidas de Rosa Maria que indicava o local onde residiam.
No interior da carruagem eles não trocaram palavras, enquanto o trotar dos cavalos embalava-os suavemente.
Não demorou muito e chegaram frente à galanteadora residência com paredes primorosamente revestidas de pedras cinza onde grandes portais de ferro fundido, trabalhados em graciosos arabescos, ornavam as imponentes portas de madeira maciça, ladeadas com amplas janelas decoradas com cortinas bem dispostas que exibiam o primor da fachada residencial.
Frente à casa, estava um austero senhor aguardando ansioso.
Bem trajado, o homem desfilava inquieto, tirando a todo momento do bolsinho do colete, o relógio que pendia em uma corrente, para se actualizar precisamente do atraso.
Na parada da carruagem, Henry desceu primeiro, amparou com modos educados e gentis, a mão de Rosa Maria que, aceitando delicadamente a ajuda, preocupou-se logo com o olhar indefinido de seu esposo.
Indo em sua direcção, Henry auxiliava Margarida a descer, enquanto Rosa Maria procurava sondar a opinião do senhor, seu marido, antecedendo suas demonstrações de sentimentos, uma vez que o conhecia e já sabia de seus modos um tanto rústicos quanto a episódios desse tipo.
Impetuoso, antes das argumentações da esposa, o senhor Gonzales, com maneiras precárias, interrogou gravemente:
— Já era hora!
Não se importa com minha preocupação?!
São relaxados os seus cuidados, senhora Rosa Maria!
— Perdoe-me, marido -— pediu humildemente a jovem senhora que mais parecia ser sua filha.
Não presumi tanta demora.
Tivemos um incidente:
Margarida machucou-se e não conseguia andar.
O jovem cavalheiro propôs ajuda e só então conseguimos meios de transportar-nos até aqui.
Henry, um tanto apreensivo, tendo em vista a recepção nada gentil, parou sem reacção aguardando oportunidade para as devidas apresentações.
Caminhando para próximo da carruagem, o senhor Gonzales reclamava:
— Já adverti!
Temos nossos próprios meios de transporte.
Não deveriam caminhar a sós e sem os cuidados de que dispomos!
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 27, 2016 10:54 am

Mais brando, dirigindo-se à filha paralisada junto à porta da condução, perguntou com generosidade paterna, impecável:
— O que ocorreu, Margarida?
Descalçada, a jovem ergueu levemente o vestido, exibindo-lhe o local machucado que mal poderia ser visto com aquela luminosidade.
— Não consigo andar -— alegou Margarida com voz suave, quase chorosa.
Machuquei-me sem querer.
Rosa Maria não teve culpa pelo nosso atraso.
Pouco se importando com a presença de Henry, o senhor Gonzales aproximou-se da filha, segurou-lhe a mão e inclinando-se tentou examiná-la mais de perto.
Ao conduzi-la, amparando-a pelo braço, Margarida curvou-se pela dor aguda que a castigou impiedosamente.
De pronto, Henry segurou a moça com delicados cuidados, pois ela quase caiu.
Corpulento, o senhor Gonzales estudou uma forma de carregar a filha nos braços, mas, vendo-se desajeitado e ofegante, solicitou:
— Rosa Maria, chame um criado!
Pela primeira vez desde que chegou, Henry se manifestou prestativo como sempre:
— Perdoe-me, senhor.
Se me permite, posso levá-la para dentro de sua casa.
Atordoado e indeciso, com gesto singular, o senhor Gonzales permitiu ante a educação do rapaz:
— Com cuidado! -— ainda pediu o pai.
— Certamente! -— afirmou o jovem cavalheiro satisfeito.
Tomando novamente Margarida em seus braços, cuidadosamente Henry adentrou a residência dos Gonzales prestando os mais suaves e gentis encargos à jovem acidentada.
— Coloque-a aqui -— solicitou Rosa Maria, indicando um divã que enfeitava uma das salas onde se exibia excelente bom gosto, a observarem-se os quadros valiosos pendentes nas paredes em tom claro, contrastando com as cores escuras dos grossos tapetes de não tão menor valor.
Podiam-se notar lindos vasos de porcelana com flores frescas e aromadas, além dos adornos de cristais que enriqueciam os móveis e mostravam o luxo da nobre residência.
Ainda inquieto, o senhor Gonzales dirigindo-se à jovem esposa, indagando-a em tonalidade média de voz:
— De quem se trata? —- perguntou indicando o rapaz com apontamento singular.
Instante em que uma angústia instalou-se no peito de Rosa Maria que não sabia responder nem o nome do moço.
Certamente não encontraria, tão rápido, explicações satisfatórias que contentassem seu esposo.
Como ela teria aceitado estar com alguém que até o nome ignorava?
Depois de acomodar Margarida no divã, socorrendo Rosa Maria, Henry prontamente e sem proporcionar mais constrangimentos à jovem senhora, apresentou-se:
— Sou Henry Russel a seu dispor! -— inclinando meio corpo, em gesto cortês, bem a costume da época.
O senhor Gonzales retribuiu a apresentação e o cumprimento, logo direccionando preocupação à filha:
— Precisamos chamar um médico, Rosa Maria! -— intimou o senhor.
— Mande um criado de confiança, em nossa diligência, à casa de um doutor.
Quero que Margarida seja atendida hoje mesmo.
— Se me permite, senhor! -— interferiu Henry novamente.
Meu pai pode vir atendê-la.
— Quem é seu pai, filho? -— tornou o senhor.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 27, 2016 10:54 am

— O doutor David Russel, conceituado médico, há tempos, nessa cidade.
— Não conheço muitos por aqui...
Somos oriundos de Madrid, Espanha.
Passamos pela França, residimos em Paris por cinco anos e mudamos para Londres a menos de um ano.
— Se o senhor me permitir, darei ordens ao cocheiro para que o traga o quanto antes! -— insistiu Henry.
O senhor Gonzales ficou pensativo, mas, ao observar melhor o simpático rapaz, que se tratava de alguém com boa linhagem, concluiu pelos seus trajes e esmero exibido sem orgulho.
Usando um terno de casimira inglesa, muito bem passado, e botas polidas, Henry possuía uma elegância natural que completava harmoniosamente seu bom porte, inspirando confiança em todos, principalmente pela exímia educação.
Mais amável, o pai de Margarida, cuidadoso e preocupado, falou sem afectação:
— Acompanha seu pai enquanto este consulta?
—Sim, senhor! -— confirmou Henry.
— Quando estou na cidade, claro.
Estudo Medicina há cinco anos, em breve estarei formado.
—Onde estuda, rapaz? -— arguiu o senhor Gonzales com ar curioso e muito interessado.
—Na Universidade de Oxford!
Um dos grandes centros culturais do Reino Unido e de todo o mundo.
Pendendo com a cabeça vagarosamente, o anfitrião confessou:
—Não sei muito bem onde fica Oxford, apesar de conhecer, de certa forma, o seu país.
Embora tenha ouvido falar muito dessa cidade, não me lembro de ter passado por ela.
—A cidade de Oxford situa-se na planície do curso superior do rio Tamisa.
Fica a cem quilómetros a nordeste de Londres.
Tendo em vista as obras públicas que vêm sendo sucessivamente realizadas, o rio Tamisa oferece navegabilidade de Oxford até à foz.
—O rio Tamisa!
É esse que banha Londres?
Perdoe-me a ignorância, sou um homem rude.
—Não tenho pelo que lhe perdoar, senhor.
Mas sim, o rio que nos banha é o Tamisa.
Ele nasce nas colinas de Cotswold, passa por seis condados ingleses no decorrer de seu longo curso antes de desaguar no Mar do Norte, logo depois de cortar Londres.
—Mas as águas desse rio são um verdadeiro esgoto! -— reclamou o pai de Margarida, franzindo o semblante repugnado.
—Há cerca de uns trinta anos, o rio Tamisa vem sendo poluído principalmente próximo e depois dos condados que despejam em seu leito caudaloso, todos os detritos industriais e residenciais.
Motivo da mortandade dos peixes e impureza da água.
Infelizmente, o rio Tamisa é nossa principal fonte de abastecimento.
Isso é um perigo constante -— lamentou Henry.
Pestes e epidemias podem assolar a qualquer instante essa cidade.
— Quando vem a Londres, navega por ele?
— Até próximo do segundo condado sim.
Dali por diante, o odor, bem como a paisagem, em nada me agrada.
Tomo, para o restante do caminho, o trem a vapor.
O senhor Gonzales achou interessante as instruções do jovem, porém precisou interromper a aula:
— Agradeço suas explicações, filho.
Mas preocupemo-nos agora com Margarida.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 27, 2016 10:54 am

— Como não! -— surpreendeu-se o rapaz que percebeu alongar-se na conversa.
Henry tomou a iniciativa e deu ordens ao boleeiro que aguardava na carruagem para retornar com seu pai.
Antes da chegada do doutor David Russel, pai de Henry, eles ainda trocaram informações sobre a mais rica e famosa cidade do mundo naqueles tempos: Londres.
Observando o interesse do senhor Gonzales por aquela capital, Henry não economizou seus conhecimentos.
Enquanto que o pai da moça, estando impressionado com o rapaz, não inibiu suas curiosidades:
— Gosto muito dessa cidade, meu jovem! -— afirmou o senhor Gonzales.
Não tenho por ela somente interesses financeiros que a expansão do comércio marítimo nos proporciona aos negócios, por eu ser empreendedor, entende?
Não somente a Inglaterra, mas todo o Reino Unido, encanta-me!
Preocupou-me a atenção que deu, em instantes atrás, ao rio Tamisa pelo facto de estarmos tão próximos dele e dispostos às pestes e epidemias.
O que pode acrescentar a isso para esclarecer-me melhor?
— Devemos admitir -— justificou Henry—, - que Londres é a cidade mais rica do mundo e também a mais populosa.
Isso é de longa data.
Veja, não podemos conceber Londres como ela é hoje sem o rio Tamisa que, desde o Mar do Norte onde desagua, constitui importante artéria fluvial para nossas indústrias, devido ao seu estuário.
— "Estu... es..." o quê?!
Não estou acostumado a todos os termos do seu idioma, rapaz.
Desde garoto sempre viajei e, de certa forma, domino o inglês, o francês e o italiano.
Isso devido à companhia de meu pai que me fazia, desde cedo, integrar-me com palavras não usuais no dia a dia.
Entretanto algumas vezes me vejo em dificuldades.
Fale-me de modo a entender com facilidade, pois o teor desse assunto interessa-me muito.
— Estuário... deixe-me ver... -— reflectiu o jovem Henry, animado em esclarecer e impressionar.
Estuário é a parte do rio ou mar que invade terra adentro como um braço, assim formando o porto de Londres, indispensável ao nosso comércio e, porque não dizer, ao comércio de todo o Reino Unido da Grã-Bretanha, uma vez que ele atinge o coração da Inglaterra!
Henry fez breve pausa, tentando reconhecer as impressões do seu interlocutor, depois prosseguiu: —
Embora o rio Tamisa tenha seu nível fluvial regular, já tivemos registadas grandes inundações quando as chuvas prolongadas e a brusca fusão da neve coincidem com a maré alta, o que, literalmente falando, alaga o centro de Londres o qual já está praticamente ao nível do mar.
Sem trégua, prosseguiu:
— Como o senhor já deve ter ouvido falar, nos anos de 1664 e 1665 uma pandemia matou mais de 75.000 londrinos!
A peste epidémica assolou-nos, principalmente pela superpopulação que aqui se aglomerava em busca de ofertas, empregos e melhor qualidade de vida.
Actualmente, como podemos ver, experimentamos um aumento populacional crescente, pois, desde os séculos XVII e XVIII, vimo-nos diminuídos das epidemias pelos movimentos de divulgações e orientações que conscientizaram a população a adoptar hábitos de higiene. Isso diminuiu a mortalidade e, tendo em vista a manutenção da taxa de natalidade tradicional, dá-se hoje, não só em Londres, mas em todo o país, uma explosão demográfica.
É certo que, desde o século XVIII, a evolução industrial permitiu a orientação sobre uma alimentação mais adequada, dando-nos uma qualidade de vida melhor.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 27, 2016 10:55 am

Mas com tanta gente a nos rodear, como encararíamos hoje a mesma epidemia que ocorreu nos anos 1664 e 1665?
Ela atingiu grande índice de mortos pela super-população.
Naquela época o número de habitantes em Londres não chegava perto do que temos agora.
Por isso podemos dizer que seria uma verdadeira catástrofe se um pequeno foco de peste se instalasse em Londres e, coincidentemente, o Tamisa, já tão infectado com a poluição, transbordasse com o derretimento da neve ou das chuvas constantes.
O rio Tamisa nos serve muito, entretanto uma inundação com as condições "orgânicas" atuais desse rio, com essa cidade tão populosa, uma epidemia seria uma desgraça para todos nós.
Como o senhor mesmo disse, ele é um esgoto a céu aberto.
— Interessante! Eu nunca pensei nisso.
A chegada do doutor David Russel interrompeu-os.
Toda a atenção voltou-se novamente para Margarida que apreciava o assunto, bem como o rapaz falante, sem se manifestar.
O doutor David Russel foi conduzido por um dos empregados da casa até a sala onde todos estavam.
Acompanhado de seu outro filho mais velho, Robert, o médico educadamente direccionou olhar indagador ao filho Henry, que compreendeu imediatamente a gesticulação e, levantando-se, tratou de fazer as devidas apresentações de seus familiares, bem como detalhar ao pai o acidente ocorrido com Margarida, o que gerou a necessidade de seus cuidados.
Com polimento nobre de um verdadeiro cavalheiro londrino, autêntico do século XIX, o doutor David Russel pôs-se a examinar sua paciente.
Enquanto todos, muito atenciosos, circundavam Margarida, ao acaso Robert, irmão de Henry, espionava, sem perceber, detalhes da luxuosa moradia.
Não contendo a curiosidade, ele afastou-se de todos e se pôs a olhar minuciosamente os pormenores mais delicados.
Vagando o olhar, ele deixou seus passos seguirem sua contemplação, admirado com tantos detalhes miúdos nos lustres, enfeites e cortinas.
Encantou-se com os quadros e principalmente com o grande carrilhão2 espanhol.
Tal artefacto era colocado com destaque no centro de uma das paredes mais notáveis à visão.
Parou junto ao piano de calda, aberto, e arriscou algumas notas de uma romântica melodia, tão em moda naquela época:
um lindo Nocturno de Chopin, um músico polonês que procurava transferir as nuances de todos os sentimentos de sua alma e coração para a música composta e executada por ele com magistral desenvoltura.
Atraída pelo som das notas dedilhadas, Rosa Maria direccionou-se até a sumptuosa sala de estar onde Robert se encontrava, surpreendendo-o com a pergunta:
— Gosta de música?! — expressou-se com satisfação e sorriso.
Vendo-o sobressaltar-se pelo susto, Rosa Maria logo se desculpou:
— Perdoe-me! Não tive a intenção...
— Sou eu quem deve desculpas -— retribuiu Robert, educadamente.
— Não deveria invadir a residência alheia sem convite, especulando detalhes.
Respondendo-lhe a pergunta:
sim, gosto muito de música, principalmente as românticas e suaves, que elevam a alma e dão à nossa imaginação um transporte indizível à verdadeira harmonia e bem-estar.
— Concordo totalmente! -— animou-se Rosa Maria que quase não encontrava com quem dividir seus conhecimentos sobre a arte e a música.
Robert, muito admirado por ser um profundo conhecedor, indagou:
— A quem pertence esse piano?
Ele é de uma óptima procedência, fabricado por um artesão de primeira!
Não só um artesão, mas um verdadeiro pai!
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 27, 2016 10:55 am

Caprichou em cada detalhe como se o instrumento fosse o único e último, ou confeccionado especialmente para um exímio artista tocá-lo! Sua aparência é nobre e clássica.
E o som!...
Muito bem afinado!
Inibida, tendo em vista a súbita empolgação do cavalheiro, a jovem senhora informou:
— Foi um presente de meu pai em um de meus aniversários, há certo tempo, claro.
Gostaria muito de que Margarida se interessasse por ele, mas que ilusão!
Ela gosta mesmo é de ouvir.
Ah!... Isso sim.
Sem perceber, amante da arte e da música, Robert deixou sua empolgação dominar e, num impulso, falou expressando um brilho no olhar, ansioso no desejo pessoal:
— Gostaria de ouvi-la tocar!
Neste instante, ouve-se a voz alteada do senhor Gonzales chegar até aquele recinto.
— Rosa Maria!
Preciso de você, mulher!!!
Com delicado gesto de cortesia, a jovem senhora pediu licença antes de se retirar apressadamente para atender a solicitação de seu esposo.
Robert vagou na mente a ideia de poder contemplar uma bela melodia tocada naquele piano, pois imaginava ser agradável povoar os pensamentos de sonhos com indelével melodia executada por tão graciosas mãos.
Não dando importância mais aos pensamentos, o cavalheiro foi impelido a retornar a outra sala onde todos se reuniam para os cuidados com Margarida.

1. Nota da Autora Espiritual:
Fog (fóg) Nevoeiro espesso, que chega quase até o chão.
Nome dado ao famoso nevoeiro londrino.
2 N.A.E.: Carrilhão trata-se de um relógio grande de pedestal e pêndulo.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 27, 2016 10:55 am

2 - Religião

Atendendo ao chamado do marido, Rosa Maria verificou que necessitava dar ordens na cozinha, pois os visitantes, por insistência do senhor Gonzales, aceitaram o convite para o jantar.
Era uma forma do pai de Margarida demonstrar que estava satisfeito e grato com os cuidados carinhosos prestados pelos serviços médicos para com sua filha.
Logo depois, em meio à conversação animada entre os moradores da casa e os convidados, o mordomo, educadamente treinado, veio anunciar que o jantar estava pronto para ser servido no salão.
O casal Rosa Maria e senhor Gonzales tomou a dianteira, indicando o caminho para a sala de jantar.
O doutor David Russel e seu filho Robert seguiram, lado a lado, enquanto Henry ajudava Margarida, que apresentava dificuldade devido à imobilização de seu pé feita pelo médico experiente.
A jovem precisou de alguém para auxiliá-la a chegar ao seu lugar à mesa.
O local reservado às refeições exibia muito requinte.
A grande mesa era ornada com fina toalha de linho bege bem claro, ressaltando delicados bordados em alto relevo num tom levemente mais forte, formando graciosos raminhos de flor.
As baixelas de prata, muito bem decoradas pelos próprios alimentos que seriam servidos, mostravam arte.
Os pratos de porcelana inglesa e os talheres foram impecavelmente dispostos nos lugares que seriam ocupados por cada um.
A saber:
nas pontas da mesa, os donos da casa; à direita da senhora, o doutor David Russel; à esquerda Robert, e Henry em frente à Margarida.
Castiçais de prata brilhavam à luz das velas, completando a rica mesa de jantar dos Gonzales.
Uma criada, bem alinhada, servia-os com destreza, acompanhada de perto pelo solícito mordomo, imagem perfeita de um gentleman3, tão a gosto dos costumes ingleses que o senhor Gonzales procurava assimilar.
No decorrer da conversa que seguia, o doutor David Russel comentou:
— Perdoe minha curiosidade, porém é difícil não notar o sotaque francês que a Senhora Rosa Maria apresenta.
Por acaso viveu na França ou conviveu muito com franceses?
Timidamente a jovem senhora respondeu:
— Sou francesa.
E essa a razão do meu sotaque.
Desculpando-se novamente, o doutor Russel questionou:
— É interessante o nome Rosa Maria em uma francesa.
Depois de pequena pausa, acrescentou:
-— Observando melhor vejo que os traços fisionómicos vossos correspondem às características daquele povo.
Esclarecendo a situação, o senhor Gonzales com seus modos um tanto rudes, mas tentando ser gentil, salientou:
— O nome real de minha esposa é Rose Marie.
Mas não gosto do idioma francês ou pronúncias onde eu tenha que adoptar modos delicados.
Por essa razão, desde que nos casamos, eu a chamo de Rosa Maria.
Sinto-me melhor assim!
Por causa desse assunto, em que a espontaneidade do senhor Gonzales não media a indelicadeza de referir-se dessa maneira ao idioma francês, ninguém percebeu a alegria que Margarida deixava transparecer e o brilho do olhar endereçado a Henry, que correspondia do mesmo modo quando se entreolhavam durante o jantar.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 27, 2016 10:55 am

Após a refeição, todos foram à sala de estar para os licores e também tolerar o desagradável charuto do senhor Gonzales.
Não demorou muito e, por insistência de Margarida, Rosa Maria teve de executar uma música ao piano.
Diante da proposta da jovem, Robert foi o primeiro a incentivar o feito.
Ele estava muito desejoso para apreciar uma melodia.
Seu coração batia forte enquanto ouvia a música encantadora que a jovem senhora tocava tão bem, parecendo transportar sua alma gentil para as pontas dos dedos ao fazer vibrar cada tecla do piano.
As horas passaram alegres para todos, porém pelo seu adiantamento, o doutor David Russel, achou por bem retirar-se com os filhos, não se esquecendo de recomendar à sua paciente, seguir rigorosamente as instruções quanto às compressas e fricções com o preparo pastoso que ele lhe receitou.
Todos se despediram amavelmente, mas não resistindo Henry pediu permissão ao senhor Gonzales para voltar no dia seguinte a fim de visitar Margarida e saber de suas melhoras.
Tal solicitação do rapaz fartou os pensamentos da jovem de expectativas e sonhos românticos.
A experiência de vida do senhor Gonzales, somada à sua astúcia, fê-lo identificar imediatamente as intenções do jovem rapaz para com sua filha.
Moldando um semblante compassivo e agradável, ele concordou com a visita, uma vez que observou em Henry virtudes indispensáveis a um pretendente de seu gosto.
Com a saída dos convidados, a família Gonzales recolheu-se para dormir.
No quarto de Margarida, muito bem decorado ao estilo inglês da época, Rosa Maria e uma criada auxiliavam a moça a se trocar para dormir.
Muito bem aconchegada, envolta nas cobertas quentes, Margarida estendia-se na luxuosa cama onde um dossel4 rosa-claro, em seda, todo franzido, amarrados com babadinhos e laçarotes, decoravam o leito princesal.
Os olhos da jovem brilhavam enquanto seus pensamentos deslumbravam-se com as recordações de Henry, ao ponto dela nem incomodar-se mais com o ferimento.
Rosa Maria, percebendo o encantamento de sua enteada, aproveitou a saída da empregada e, com satisfação, aguçou ainda mais a imaginação da moça.
Sentando-se na cama de Margarida, observando-a enquanto alinhava os longos cabelos da moça, desfazendo-lhe as tranças e deitando-os na frente do corpo, do colo até próximo da cintura, sorridente comentou:
— Henry também ficou encantado com você, Margarida!
— Você jura?!!! -— duvidou a jovem desejosa de uma confirmação.
—E evidente que sim!
Creio que até seu pai percebeu!
—- Papai?!
— Sim, claro!
Olhei-o muito bem quando Henry solicitou permissão para retornar aqui amanhã — riu de modo gracioso.
—- Mas papai...
Tomando-lhe a dianteira da palavra, Rosa Maria atalhou-a e argumentou:
— Se houve concessão por parte do senhor Gonzales, é lógico que ele simpatizou com o rapaz e aprovou seu comportamento!
No sorriso de Margarida podia-se notar a estampa dos sonhos que acompanham os pensamentos juvenis das moças casadoiras5.
Rosa Maria, chamando-a para a realidade, despertou-a do sonho.
— Gostou dele, não foi? -— tornou a madrasta.
— Você nem imagina, Rosa Maria!
Nem imagina!!!
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 27, 2016 10:56 am

Suspirando fundo, falou encantada:
-— Nunca tive oportunidade de conhecer alguém assim, tão inteligente, delicado, fino...
— ...Educado! Prestativo! Atencioso! Cortês! Polido!
Um verdadeiro cavalheiro londrino! -— acrescentou Rosa Maria aos predicados que Margarida já havia ressaltado.
— Rosa, será?!...
— Será, o quê?! -— questionou Rosa Maria com um sorriso um tanto maroto parecendo tão sonhadora quanto a moça, mas forjou um olhar inquieto para intrigar a ansiedade de sua enteada a qual considerava mais do que a uma irmã.
— Aaaah!. Você sabe... -— disse com jeito mimoso.
— Não! Não sei, Margarida.
Diga-me!!! Vamos! -— exclamou Rosa Maria.
— Será que eu o agradei?!
— Que pergunta tola, Margarida!
Se Henry não estivesse interessado em você, para que viria aqui amanhã?!
Nesse ponto da fala, Rosa Maria engrossou a voz arremedando e caricaturando a severidade do pai da moça dizendo:
-— Ah! Henry virá aqui amanhã para encarar o velho Gonzales novamente porque se encantou com seu bigode!!!
Ambas riram gostosamente e Margarida reflectiu:
— É verdade! Ah!... -— suspirou esperançosa.
Vagando os pensamentos, estancou-se diante de novos planos, afirmando:
_ Amanhã quero estar linda!
Ajuda-me a escolher um vestido?!
Que tal aquele azul de corpete bordado?!
_ Aquele arrematado com rendas francesas, presenteadas por mim?! -— respondeu a madrasta com certo charme para ressaltar sua participação na beleza da roupa.
— Sim!!! Claro!!!
—Na cintura, amarraremos uma grande fita e um belo laço completará a elegância da jovem donzela! -— exclamou Rosa Maria como se sonhasse junto.
—E nos cabelos, Rosa?! -— perguntou a jovem ansiosa para não esquecer nenhum detalhe.
—Eu mesma providenciarei esse arranjo!
Tranquilize-se, Margarida -— afirmou generosa.
—Ah! Diga! Como será?...
Já tem uma ideia?! -— agitou-se Margarida impulsiva.
—Um arranjo enfeitado com mimosos miosótis azuis, para combinar com a cor de sua roupa -— revelou a madrasta com natural delicadeza, descrevendo, imaginando-o pronto.
Amanhã cedo irei encomendar essa confecção a uma florista dos arredores que conheci semana passada.
Ah! Ela tem "mãos de fada" para esse trabalho e de inigualável bom gosto -— esclareceu Rosa Maria dando mais vida aos sonhos da moça.
Entusiasmada com a sugestão do traje e do arranjo, Margarida afirmou:
— Quero impressionar Henry.
Puxa! Acho que me apaixonei! —
confessou a jovem mostrando seus sentimentos com suaves risinhos.
Com alegria e satisfação figurando no rosto alvo e sereno, Rosa Maria contentava-se com a felicidade da enteada, prazerosamente, como se fosse a sua própria.
Madrasta e enteada harmonizavam-se muito nos gostos, nos sentimentos e nas confidências, união maior do que a de mãe e filha, como duas amigas fiéis.
Até mesmo por causa da idade próxima, os pensamentos de ambas compatibilizavam-se.
E ficaram ali por mais algum tempo sonhando com o que fariam no dia imediato.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 27, 2016 10:56 am

***
Na manhã seguinte Rosa Maria percebeu que Margarida quase não dormira, reflectindo ansiosa sobre os últimos acontecimentos e sonhando com o futuro.
Bem cedo, a moça solicitou à criada que preparasse o quarto de banho, dando noções específicas sobre o aroma dos sais a ser utilizado na banheira.
—Vai banhar-se agora cedo, Margarida?! — perguntou Rosa Maria atenciosa.
—Por quê? Acha que não deveria?! -— quis saber preocupada.
—Bem... é que...
—Henry não informou que horário viria visitar-me, ou deu a entender e eu não o ouvi?
—Não -— respondeu a madrasta.
Creio que ele não mencionou nada sobre o horário que viria!
Reflectindo um pouco, Rosa Maria concordou animada:
— É isso mesmo! Lave-se agora!
Arrume-se! Fique liiiiinda!!!
—Você me ajuda? — perguntou a enteada insegura.
—Quando foi que me neguei a você?! -— respondeu Rosa Maria franzindo o semblante, com as mãos na cintura enquanto batia a ponta do pé no chão, brincando estar zangada.
Vamos! -— anuiu a madrasta.
Aproveite minha ajuda, mergulhe nessa banheira e lavaremos muito bem esses cabelos!
—Meus cabelos?! — estranhou Margarida sem animação.
—E lógico!!! Eles estão carecendo de uma boa ensaboada! —
Dirigindo-se à empregada, solicitou:
-— Traga-me um chá de ervas para banharmos, na última água, os cabelos de Margarida eu os quero com muito brilho e bem sedosos.
Todos os cuidados foram tomados para que Margarida causasse uma boa impressão no rapaz, além da que já havia provocado.
Depois de arrumada, a jovem nem queria alimentar-se.
Porém diante da insistência e orientação de sua protectora, aceitou fazer uma refeição.
Para Margarida, as horas pareciam não passar.
Bem mais tarde, ambas encontravam-se na sala de estar onde Rosa Maria tocava em seu piano uma bela música, procurando tirar a tensão ansiosa que já fazia Margarida transpirar, mesmo com o frio.
O bater da aldrava6 fizeram ambas sobressaltarem.
A ansiedade lhes circulava nas veias, enquanto o mordomo atendia a porta.
Com classe, os dois cavalheiros anunciados, Robert e Henry, curvaram-se aos cumprimentos das damas.
Obedecendo, educadamente, às regras de cortesia, ambos se sentaram somente após a acomodação da dona da casa que, atenta, observou a polidez dos visitantes.
— E o senhor Gonzales, não se encontra em casa? -— perguntou Henry exibindo gentil educação.
— Saiu cedo para cuidar de negócios e prometeu retornar para o chá, mas ainda não chegou —- justificou Rosa Maria.
Robert, muito sociável, questionou curioso:
— Obedecem ao costume britânico do "chá das cinco"?
— Sem dúvida -— confirmou a jovem senhora com belo sorriso. —
Mesmo quando não morávamos em Londres, seguíamos os costumes britânicos como o horário do famoso chá -— respondeu a senhora anfitriã com delicadeza francesa.
Sabem, o senhor Gonzales, apesar de espanhol, é amante nato de todo o Reino Unido da ilha da Grã-Bretanha, especialmente da Inglaterra.
Como podem ver, nenhum de nós usamos estilos espanhóis, principalmente o senhor Gonzales.
—E a senhora -— tornou Robert alongando o assunto—, - adapta-se aos estilos e costumes de nosso país?
Perdoe-me a curiosidade, mas é que sendo uma francesa, talvez conserve os sentimentos de rivalidades, comerciais e políticas, existentes entre a França e a Inglaterra que ocasionaram períodos de lutas quase ininterruptas entre os países até a derrota definitiva de Napoleão Bonaparte em junho de 1815, em Waterloo.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 27, 2016 10:56 am

—Sou uma pessoa flexível, senhor Robert.
Adapto-me a inúmeras circunstâncias e costumes, com facilidade.
Também não creio que haja quaisquer sentimentos rancorosos entre meus compatriotas pela derrota de Bonaparte ou pela destruição das forças francesas.
—Perdoe-me novamente, madame -— insistiu o cavalheiro educadamente.
Não estou querendo tentá-la ou desprestigiar a França.
Sou grande admirador de seu país, principalmente pelas artes, pelos artistas.
Além de médico, considero-me um apaixonado indescritível de tudo o que exibe beleza, sentimento, paixão... —
Depois de breve pausa, tornou:
-— Mas não é muito comum vermos franceses adaptarem-se ou prestigiarem nossos costumes.
De que lugar da França a senhora é?
—Da cidade de Reims.
Já ouviu falar?
—- Sim! -— animou-se Robert.
Como poderia me esquecer?
- Reims!...
E onde se localiza a Catedral de Notre-Dame7, erguida no século XIII.
É uma das mais belas igrejas da França, na minha opinião por seu estilo gótico, que eu diria inigualável!...
Eu a visitei! -— disse com entusiasmo.
— A cidade de Reims distancia-se uns... 145 quilómetros a nordeste de Paris, é um dos centros mais produtores da região vinícola da França, com seus deliciosos vinhos e champanha.
Assim como Londres, Reims situa-se às margens do rio Vesle e do canal Marne-Aisne —- acrescentou a jovem senhora com satisfação por falar de algo que a animava.
— Se eu não estiver enganado, Reims foi fundada por romanos e o que resta deles hoje é somente um arco de triunfo.
Estou certo?
A mesma não deve ser confundida com a Catedral do mesmo nome, Notre-Dame, existente em Paris e às margens do Rio Sena cuja construção foi no mesmo século.
— Certíssimo, senhor Robert! — sorriu.
— E ainda foi a partir do baptizado do rei Franco Clóvis, no século V, que muitos outros monarcas franceses foram ali sagrados, como Carlos VII, em 1429.
— Estou surpresa, senhor Robert! Que cultura!
Ambos foram interrompidos por Henry que solicitou fazer nova imobilização no pé acidentado de Margarida, após uma fricção suave com o linimento, um preparo pastoso receitado por seu pai contra aquela dor muscular, alegando que esse tratamento deveria ser feito três vezes ao dia.
Rosa Maria consentiu e auxiliou na acomodação da jovem.
Enquanto Henry dispensava atenção e cuidados à sua protegida, uma conversa paralela se fez novamente entre a senhora Gonzales e o filho mais velho do doutor David Russel.
— Vejo que conhece muito sobre meu país, a França.
—- Já residi em Paris a fim de estudo e aperfeiçoamento.
Além disso, sou atraído por tudo o que é belo e novo.
Invenções, por exemplo.
—O que a França traz de novidade a esse respeito que o interesse tanto, senhor? -— perguntou ela.
—A criação de um veículo de três rodas em 1771 pelo francês Nicolas Joseph Cougnot!
Movido a vapor, não necessita de trilhos ou cabos e gera a energia que ele próprio consome.
Aperfeiçoado com quatro rodas pelo inglês Richard Trevithick em 1801.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 28, 2016 11:30 am

E outro inglês, Goldsworthy Gurney, foi o primeiro a colocar, durante certo tempo, três carros para servir às pessoas que mais os procuravam por diversão e para passeio pelos arredores de Londres.
—Acredita que esse tal de automóvel, um dia, será um meio de transporte mais eficiente do que os trens?
—Todo meio de transporte é útil e sempre será.
Sem dúvida o automóvel será mais um a atender as necessidades das pessoas.
O ser humano tende sempre a evoluir e aperfeiçoar seus inventos.
Hoje, com relação aos veículos, todos os projectos baseiam-se no uso de caldeiras a vapor como fonte de energia para sua locomoção.
Um dia, haveremos de ter carros mais rápidos e versáteis.
Eu soube que um americano quase chegou a fazer, com um veículo, trinta quilómetros por hora!
Não é incrível!
—- Sim, realmente! -— admirou-se a jovem senhora.
—- Acredita no desenvolvimento e na elevação da inteligência do homem, bem como na evolução das colectividades, certo? -— propôs Robert em pergunta.
—- Sim, é claro -— concordou a senhora.
—- Eu também -— prosseguiu o cavalheiro.
Tomemos a Inglaterra como exemplo e a comparemos com o restante do mundo. Os primeiros anos de reinado da rainha Vitória, que se iniciou em 1837, foram marcados por divergências de opiniões e interesses.
O país sofreu muita agitação de 1838 até 1850, mas com um domínio incrível da situação, nossa rainha tomou em seus punhos as rédeas do comando e conduziu a Inglaterra magnificamente bem, erguendo-a com um sistema económico sólido na pilastra do capitalismo, cada vez mais moderna, rica e industrializada.
Como podemos ver, a Inglaterra vive um período de ouro, ela é uma potência industrial e colonialista em todos os continentes.
Para mantermo-nos nesse ritmo de estabilidade, desenvolvimento social e intelectual a escolarização se tornou obrigatória desde 1870.
Com esse óptimo sistema educacional, nosso índice de analfabetismo, hoje, é quase zero.
Isso é evolução!
É desenvolvimento!
Robert empolgava-se.
Mesmo com o seu alongamento sobre as exposições de suas opiniões, Rosa Maria não fugiu ou esqueceu-se da pergunta ou da resposta e opinou:
— Sem dúvida que eu acredito na evolução do ser humano, como pessoa e como espírito.
Entendo que a Inglaterra é um berço de cultura para o mundo.
Veja, no ano de 1249 a Universidade de Oxford foi construída, em seguida a Universidade de Balliol em 1263 e Merton em 1264.
Isso é evolução e desenvolvimento intelectual e, consequentemente, teremos um desenvolvimento social.
Porém, preocupo-me com a nossa evolução como espíritos.
O senhor não acredita que diante de tanto desenvolvimento criativo, político, cultural, entre outros, não devemos ter algo para desenvolver e evoluir como espíritos, para uma... libertação, vamos dizer assim?
-— Perdoe-me, senhora Rosa Maria -— pediu Robert.
Creio em Deus. Não sou católico.
Não sou protestante.
Não creio em santos nem em superstições ou mitos.
— Crer em Deus já é uma grande coisa, senhor Robert!
É um excelente princípio.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 28, 2016 11:30 am

Não é comum uma pessoa acreditar em Deus e não crer em religião alguma.
Há um porquê?
Robert parou, pensou um pouco e depois respondeu:
— É curioso!
Nunca alguém me perguntou por que creio em Deus e não em religiões -— observou ele atencioso e tentou justificar-se. —
Deixe-me ver...
Há longa data, povos e civilizações muito antigas já veneravam um criador ou protector.
Alguns acreditavam na existência de um Deus, o que é monoteísmo.
É o que prega, de longa data, a religião judaica e em tempo mais remoto ainda um faraó egípcio, enquanto outros povos acreditavam na existência de vários deuses.
Veja, a civilização romana, por exemplo, possuía uma organização política bem estruturada.
Imperadores, senadores, governadores, isso bem antes de Cristo.
Eles tinham muita cultura na época, no entanto inclinavam-se à crença de vários deuses, rendiam cultos e homenagens dentro dos próprios lares e templos diversos.
Rosa Maria o interrompeu e acrescentou:
—Mas com a passagem de Jesus pela terra onde Ele divulgou a existência de um único Deus, o Pai Celeste, houve uma verdadeira revolução religiosa que perdura até hoje.
Isso porque o homem é egoísta e sempre quer ter razão em tudo o que pensa e fala, dificultando que alguém esclareça com simplicidade, ele cria mitos e rituais.
—Sim, eu sei disso senhora.
O ser humano, não podendo ter ou admitir alguém acima dele, quis, pelo menos, estar ao lado de Deus, autonomeando-se "porta voz do Criador Eterno".
Eu acredito em Jesus Cristo e procuro seguir Seus ensinamentos, mas sou contrário ao poderio de alguns que se intitulam "emissários" ou "advogados de Deus" como se houvesse um Império.
Minha mãe era religiosa e muito fervorosa.
Ela faleceu há cerca de treze anos e estendeu sua vida sempre nos ensinando noções sobre o certo e o errado, sobre os mandamentos e tudo mais.
Porém, quando iniciei estudos mais arrojados da história do mundo, o que tenho de confessar ser um amante nato, vi, através da história, as arbitrariedades de um ser humano para com outro ser humano, com isso fiquei indignado.
—O senhor acredita que as dores e as destruições, muitas vezes, são necessárias para aprendermos e evoluirmos?
Depois de reflectir um pouco sobre a pergunta da interlocutora, Robert avaliou:
_Actualmente, do meu ponto de vista, posso concordar com isso - revelou Robert demonstrando ser uma criatura flexível a novas ideias sensatas.
Mas logo continuou:
— O ser humano é uma criatura egoísta e vaidosa, esses dois atributos sempre foram os males do mundo em todos os tempos.
O homem sempre quis escravizar o semelhante, isso ocorre desde que o mundo é mundo, porque, quando o ser humano tem alguém abaixo dele, ele se sente no poder.
Acreditando que tem o domínio de tudo em suas mãos, ele quer governar, ser deus!
Agora, o homem dotado de sabedoria verdadeira, ou seja, os mansos e humildes, sempre foram ultrajados pelos chamados inteligentes, dominadores que os escravizavam e humilhavam.
De repente, com a chegada de Jesus Cristo, como a senhora bem lembrou, houve um conflito entre a verdade e a crença da época, que admitia o domínio e a escravização, mas o Mestre esclarecia com amor e pregava igualdade.
Jesus Cristo sempre salientou que a caridade nos salvaria, que o perdão da nossa parte para com um irmão que nos tenha ofendido era essencial para entrarmos no "reino de Deus".
Jesus Cristo deu muita ênfase ao amor para com todos os que nos consideram inimigos e nos caluniam.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 28, 2016 11:31 am

—- Senhor Robert, acredita estar preparado, hoje, para perdoar alguém, por mais cruel que essa pessoa lhe tenha sido?
—Sim, eu sou capaz de perdoar.
—É uma afirmação muito séria!
— Como Cristão, não no sentido de denominação religiosa, mas como um crente nos ensinamentos e práticas de Jesus, eu tenho que me forçar aos hábitos que Ele nos ensinou para futuramente ser uma acção bem natural e que não exija reflexão.
Rosa Maria, tomada por uma alegria espontânea, inebriante, foi impelida a repetir as palavras do Mestre Jesus, suavemente, como se estivesse declamando a mais bela poesia já ouvida:
— "Amai os vossos inimigos; fazei o bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos perseguem e caluniam.
Porque, se somente amar os que vos amam, que recompensa tereis disso?
Se unicamente saudar os vossos irmãos, que fazeis com isso mais do que os outros?
Não fazem o mesmo os pagãos?
Sede, pois, perfeitos como perfeito é o vosso Pai Celestial."
Tomando fôlego, com leve sorriso de satisfação, a jovem senhora desfechou generosa com um único nome: -— Jesus.
Robert ouvia encantado por ela lembrar-se tão exactamente das palavras do Mestre Jesus que vinha esclarecer melhor as suas explicações.
—- É exactamente isso! -— salientou o cavalheiro empolgado.
Jesus sempre pregou o perdão aos inimigos, o amor e a caridade a todos sem distinção.
Muitos pensam que caridade é tirarmos algum valor e doar a outro. Que engano!
Caridade não é somente isso.
Muitas pessoas privilegiadas precisam da caridade como por exemplo:
fazemos caridade quando ouvimos alguém, quando orientamos para o bem, para os bons pensamentos.
Veja só, Jesus nunca admitiu ter uma religião nem criou qualquer uma.
Ele sempre exemplificou as boas acções e os bons pensamentos, ensinou paz e mansuetude e mesmo assim o crucificaram por isso.
Eu acredito em Jesus Cristo, mas acho abuso o que fizeram e o que fazem em nome Dele e em nome de Deus, usando para isso a palavra religião.
A palavra religião tem origem no latim:
religio, originária de religare que quer dizer:
"ligar", "atar", "apertar" com referência a ligar o homem a Deus.
Porém definindo as observações e as experiências que a história do mundo nos aponta como facto, vemos que as religiões têm como base fundamental a prestação de tributos, ou seja, pagamento em sinal de dependência e o estabelecimento de regras de submissão aos poderosos de sua cúpula, pois passam sempre a ideia ou o decreto de uma afirmação indiscutível que os fiéis não podem questionar, duvidar ou desejar saber mais.
Qualquer outra forma de crer, de associar é errada, e muitos foram punidos por isso.
As pessoas são escravizadas e nem percebem.
Interrompendo-o para somar uma explicação melhor, Rosa Maria argumentou:
_ Essa forma de crer e de aceitar sem questionar, sem discutir, sem dar o direito de pensar, é dogma.
—Perfeitamente — concordou Robert.
Dogma é impor regras a cultos, cerimónias, rituais, crenças em algo como sendo verdadeiro e absoluto, sem dar explicações que justifiquem determinadas práticas.
Eu diria até que isso é a fé cega daqueles que não possuem vontade de pensar e não desprendem de si ânimo para aprender.
Em minha opinião, esses fiéis assinam um atestado de falta de inteligência quando não perguntam:
"Por que tenho que fazer isso?"
ou "Por que isso tem que ser dessa forma e onde está escrito ou justificado que tem de ser assim?"
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 28, 2016 11:31 am

Rosa Maria sorriu e Robert continuou:
— E verdade! -— afirmou ele.
As pessoas se deixam escravizar sem questionar o "porquê", o motivo das coisas só pelo facto de aceitar ser, para elas, mais cómodo.
Falo isso não somente pela religião Católica Apostólica Romana ou pela Igreja Católica do Oriente, mas pelo que vejo no Islamismo, Judaísmo, Budismo, Quakers ou Quacres, Comunhão Anglicana, Igrejas Baptistas, Calvinistas, Congregacionais, Episcopal, Luteranas, Metodistas, Presbiterianas, Protestantes, Hindus etc... etc... etc...
— Senhor Robert, não acha que, por termos pessoas com ideias e culturas diferentes, necessitamos de várias religiões?
Vejo que sua opinião é muito forte.
— Perdoe-me, senhora, mas penso assim -— respondeu em tom suave e educado.
Sim, sem dúvida precisamos de vários tipos de religiões devido aos diversos níveis de entendimento.
Mas vejo que as religiões fogem às resoluções básicas as quais se propuseram a princípio, que é a religação do homem com Deus.
Grande parte das religiões não enfoca as relações humanas de "amai uns aos outros", independente de quem seja esse outro.
Não dão ênfase à evolução das criaturas com a prática de uma boa moral, boas atitudes e pensamentos adequados.
Algumas religiões não deixam o ser humano organizar seus pensamentos na sua origem, na sua existência, na sua base racional.
Outras induzem a criatura humana a render culto, práticas até incabíveis e criminosas de ritos, normas de conduta e instituições.
Mas o pior é que as pessoas realizam tudo isso porque não raciocinam por si mesmas.
E preferível deixar o raciocínio por conta dos ministros, sacerdotes ou encarregados desse tipo de prática.
E como se não quisessem ter responsabilidade pelo que fazem.
Para sua evolução, o ser humano tem que buscar o conhecimento da verdade, o estudo para entender e praticar o que é bom para ele e para os outros.
— O senhor não acha que está sendo muito rigoroso?
— Não interfiro na religião de ninguém -— riu.
Sou rigoroso para comigo mesmo e não para o que os outros devem fazer -— justificou o cavalheiro com voz amável e muito ponderada.
— Perdoe-me a franqueza, senhora.
Mas, diante do conhecimento que tenho, vejo que algumas religiões escravizam o homem e não libertam.
Isso acontece quando impõem sistemas e normas éticas que nunca foram ditas ou mencionadas com bases verdadeiras que possuam fundamento. Observe que até o Budismo desenvolveu diversas classes de rituais contra os ensinamentos de Buda.
E muitos budistas não sabem disso.
Talvez eles não estudem nem questionem.
Assim como outras religiões que se dizem cristãs e dentro delas próprias encontram-se inúmeros factores anticristo como a vaidade, em que dizem que somente eles serão salvos, além do orgulho ao desclassificarem as demais religiões e seitas, a falta de amor, quando não compreendem a pequenez do próximo e tantos outros factores que escravizam o semelhante.
Sabe, não consigo concordar com qualquer religião que determine o que eu deva fazer.
Posso até concordar que uma religião mostre-me o caminho e deixe a minha transformação acontecer naturalmente à medida do meu entendimento.
—Senhor Robert, as religiões possuem o método que as pessoas escolhem para aprender.
A pessoa é quem fica acomodada e estaciona na evolução.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 28, 2016 11:31 am

—A culpa não é da religião, mas pode ser daqueles que a conduzem.
Veja os caminhos absurdos tomados em nome da religação com Deus como O Santo Ofício ou Inquisição, que foi o nome dado a um tribunal eclesiástico que vigorou na Idade Média e início do Modernismo.
Todas as pessoas suspeitas de se desviarem da ortodoxia católica eram julgadas hereges, isso por meados do ano 340 d.C, mais ou menos.
Porém a maior inflamação dessa desventura, deu-se com vigor no século XIII.
Bem no início do ano 1200, a Inquisição ressurgiu na Espanha e em Roma onde se adaptou em novos sistemas, mais cruéis e com grande poder, dinheiro e exércitos.
A Igreja Católica Romana implicou com todo e qualquer movimento suspeito contra ela, ou seja, qualquer indicação que fizesse as pessoas pensarem e raciocinarem.
Na metade do século XIII, apareceram muitos grupos considerados heréticos, suas teses religiosas subtendiam as causas sociais e isso foi considerado uma ameaça geral à sociedade, à igreja e por essa razão incontáveis pessoas suspeitas ou actuantes nesses movimentos foram executadas nas fogueiras ou por estrangulamento, a machadadas e outros métodos horríveis, mas isso depois de muita tortura.
Por não haver um tribunal Católico especializado para os casos que surgiam, uns diferentes dos outros, e diante de muitos fracassos para combater essas seitas, em 1231, o papa Gregório IX, criou o tribunal da Inquisição, que ficou ao encargo da "ordem dos dominicanos" e com o poder de investigar prender e julgar todos os suspeitos de heresia.
Esse tribunal actuou principalmente no sul da França, norte da Itália, reino de Aragão ou Espanha, Alemanha, etc.
Não houve tribunal da Inquisição aqui na Inglaterra, mas sabe-se que por volta de 1320, o rei Henrique IV decretou a condenação de alguns rebeldes que exageraram na severidade de costumes que se diziam discípulos de Walter de LoUhard, esses foram condenados à fogueira.
Depois disso, o monarca Henrique VIII, irritado porque o papa Clemente VII negou seu divórcio, conseguiu que o Parlamento subordinasse a igreja à coroa.
Essa reforma doutrinária e litúrgica foi imposta mediante perseguição e pena de morte.
Só a título de curiosidade, cabe lembrar que esse mesmo rei, Henrique VIII, mandou decapitar a própria esposa, Ana Bolena, por traição.
Sabe-se que forjaram provas de seu adultério.
O monarca Henrique VIII é conhecido como "barba azul", ele teve oito mulheres.
Bem depois, no governo católico de Maria Tudor, passamos por cinco anos de período sangrento.
Mas a rainha seguinte, Elizabeth I, restabeleceu a autoridade da Igreja Anglicana em 1559.
Era considerado heresia para a Inquisição:
o judaísmo, o protestantismo, blasfémia, feitiçaria, bigamia, ofensa aos costumes ou à fé.
Não era permitido usar toalha limpa ou acender velas no começo do sábado.
Era crime não jejuar no "dia do Perdão" ou da rainha Ester e recusar-se a comer peixe sem escamas ou carne de porco, pois tudo isso eram práticas de outras religiões.
O tribunal da Inquisição aceitava denúncias de quem quer que fosse - crianças, mulheres e escravos, só que como testemunhas de acusação, de defesa, nunca!
_ O senhor sabia que, ao acusado, não era informado o motivo pelo qual ele era preso nem quem o havia denunciado?!
Diante da confirmação positiva de Robert com o balançar da cabeça, a jovem senhora continuou:
-— No julgamento, ele possuía um advogado que era determinado pelo próprio Tribunal da Inquisição ou Santo Ofício, que o iria julgar, submetendo-o a longos interrogatórios e torturas.
_ Sem mencionar -— continuou Robert — que os bens dos considerados hereges eram confiscados pela Inquisição, assim como sua residência era totalmente destruída.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 28, 2016 11:31 am

Penas das mais bárbaras eram aplicadas.
No chamado "auto-de-fé", que era uma espécie de relatório onde o inquisidor lia publicamente a sentença.
O acusado de crimes graves que não abjurasse as faltas, ou seja, renunciasse abandonando publicamente a crença, opinião da qual ele tivesse sido acusado, eram direccionados ao chamado "braço secular".
O braço secular era uma espécie de departamento do tribunal da Inquisição que executava as penas, em geral, na fogueira.
Os acusados de alguns crimes menos graves eram encaminhados para os serviços forçados nas galés que, de tão sofridas as condições, era o mesmo que pena de morte.
Alguns papas, antes de 1200, repeliram a tortura, mas tudo era realizado impiedosamente contra a vontade desses.
Entretanto o papa Inocêncio IV, em 1252, decretou novamente a tortura quando se duvidasse da verdade, o que sempre ocorria! - enfatizou quase indignado.
A Inquisição ou Santo Ofício extrapolou os fins religiosos e invadiu o lado político.
Um exemplo da Inquisição na política foi a condenação de Joana d'Arc à fogueira, em 1431 —- interrompeu a senhora.
- Exacto. Já na Espanha, para reprimir os judeus que formavam uma poderosa burguesia, os reis católicos Fernando de Aragão e Isabel de Castela solicitaram ao Papa da época o poder de denominarem inquisidores de sua confiança.
Foi até criado um Conselho da Suprema e Geral Inquisição e o seu "governador" foi o Frei dominicano Tomás de Torquemada, fanático e cruel, ele condenou mais de duas mil pessoas à fogueira.
— Mas será que tudo isso não tem uma explicação? -— interrompeu Rosa Maria muito afeiçoada em justificativas.
- De repente, esse velho mundo necessitava dessas provações.
— Hoje eu não sei explicar exactamente, mas creio que poderia ser diferente.
E quanto a esse continente estar necessitado de uma provação, o que me diz do novo mundo?
As colónias da Espanha na América foram também invadidas pela Inquisição.
Por volta de 1519, os primeiros inquisidores apostólicos chegaram por lá.
Em Lima e no México foram criados tribunais Inquisidores.
Até no Brasil, colonizado por Portugal, a Inquisição chegou.
Mesmo não tendo instituído por lá um tribunal inquisidor, por volta do século XVI, o arquiduque Alberto da Áustria, inquisidor-mor de Portugal e de suas colónias, enviou ao Brasil um visitador a São Tomé, Cabo Verde, São Vicente, São Paulo, Bahia, Pernambuco, Rio de Janeiro.
Os jesuítas e padres ou vigários, mesmo de outras ordens, auxiliavam na procura de acusados, prendiam, puniam e confiscavam os seus bens.
Reviraram o Brasil!
Prejudicaram, por séculos, a produção de açúcar e café, os principais produtos de exportação daquele país afectando o comércio gravemente.
Muitas prisões foram efectuadas e os brasileiros eram retirados do país e encaminhados a Lisboa, julgados e condenados.
Sei que no século XVIII cerca de duzentos e cinquenta pessoas foram acusadas pela Inquisição.
Após breve pausa, manifestou:
-— Dizem que o Santo Ofício ou Inquisição teve seu fim por volta de 1834, mas eu duvido muito.
— Por quê?
Em datas mais recentes, tivemos informações da actuação da Inquisição na Espanha.
_ Quando se deu isso? -— perguntou ela interessada.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 28, 2016 11:32 am

_ Há vinte e sete anos, em Madrid, na Espanha -— contou —- foi assim:
um pedido de um senhor chamado Maurício Lachâtre, livreiro em Barcelona, de trezentos volumes dos livros sobre Espiritismo, escritos pelo Senhor Allan Kardec, foram interceptados.
Tais livros iriam ser expostos à venda a fim de propagar conhecimento da nova Doutrina.
Ao chegarem a Espanha, essas obras não foram entregues ao destinatário por ordem do bispo de Barcelona, que julgou esses livros perniciosos à fé católica.
Além disso, o clérigo inquiriu e tornou nulo o pedido do Senhor Kardec que reclamou a sua devolução e fundamentou sua recusa com uma resposta mais ou menos assim:
"A Igreja Católica é Universal e, por esses livros serem contrários a fé católica, o governo não pode admitir que eles comecem a interferir e perverter a moral e a crença de outros países."
Daí, como na Idade Média, o bispo de Barcelona fez queimar em praça pública, na manhã do dia nove de outubro de 1861, precisamente às dez horas e trinta minutos, as obras de Espiritismo por ele incriminadas.
Temendo, a princípio, a multidão só ficou olhando.
Após assistirem às chamas definharem, além de apanharem as cinzas restantes da fogueira, eles gritaram:
"Abaixo a Inquisição!"
Demonstrando conhecimento dos factos, Robert completou:
- Fiquei sabendo, através de colegas da Universidade que, ao clarão dessa fogueira, o Espiritismo cresceu inesperadamente em toda Espanha e conquistou, aí, um grande número de adeptos.
A jovem senhora sorriu e nada comentou.
Nesse instante da conversa, eles foram interrompidos pelo mordomo pedindo licença e anunciando que o "chá das cinco" estava sendo servido na sala ao lado.
Todos se dirigiram para lá animados e alegres.

3. N.A.E.: gentleman: cavalheiro inglês.
4. N.A.E.: dossel: armação ornamental, forrada e franjada, que se coloca como ornamento sobre camas, muito usada no passado.
5. N.A.E.: Casadoiras são as mulheres que estão em idade de casar.
6. N.A.E.: Aldrava: é uma argola de metal, geralmente bem polido, pendurado à porta, que era utilizado para anunciar a chegada de uma visita.
7. da Primeira Guerra Mundial, foi restaurada.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 28, 2016 11:32 am

3 - Conhecimento

Depois de apreciarem o verdadeiro ritual do "chá das cinco", todos retornaram à sala anterior onde Rosa Maria, muito curiosa e portadora de inúmeros motivos particulares, salientou:
—Admira-me sua cultura, senhor Robert.
Locais, nomes, datas...
Que presteza de inteligência e memória!
—Meu irmão, senhora —- avisou Henry —- não é só dotado de excelente memória.
Robert é grande estudioso, interessa-se pelos mais diversos assuntos.
Além de médico formado em Oxford, ele doutorou-se em teologia também, em Wittenberg, Alemanha.
Com o olhar indicando grande surpresa, a jovem senhora surpreendeu-se ainda mais deslumbrada.
—Merece todo nosso respeito, senhor Robert.
Que dedicação!
—Foram os factos da vida que me fizeram buscar conhecimento -— justificou-se um tanto acanhado.
—Sim senhora! -— concordou Henry.
Mas isso justifica todo o conhecimento religioso que meu irmão possui.
Invejo-o, no bom sentido, claro.
Acho que não conseguiria levar em frente tanta dedicação.
Também não lhe resta mais nada para preocupar-se.
Não é mesmo, Robert?
Com um sorriso sem graça Robert concordou com seu irmão, sem ressaltar orgulho.
A súbita entrada do senhor Gonzales tirou a atenção do assunto em vigor, pois todos se voltaram para os cumprimentos.
O dono da casa ficou satisfeito com a presença dos cavalheiros, demonstrando isso num sorriso constante.
Minutos depois, o bater da aldrava na porta indicou a chegada de mais uma visita, que não se deixou anunciar pelo mordomo e adentrou a residência dos Gonzales pela liberdade familiar.
Era Dolores, irmã do senhor Gonzales, que na noite anterior havia abandonado, na praça, a cunhada Rosa Maria e a sobrinha Margarida, quando esta última machucou-se e aguardava os socorros de Henry.
—Ora! Ora!
Vejo que têm visitas! -— exclamou Dolores com um sorriso cínico estampado na face, mas reprovando em pensamento a presença dos cavalheiros.
Mesmo reconhecendo Henry, ela demonstrou ignorá-lo.
Depois dos cumprimentos e apresentações, Dolores salientou indicando Henry:
— Você não é?...
—Sim, Dolores -— afirmou Rosa Maria calma, porém descontente com o desdém da cunhada.
Henry é o rapaz que nos auxiliou ontem à noite, protegendo-nos com sua companhia, principalmente quando você e suas filhas nos abandonaram sozinhas àquela hora.
—Como "as abandonaram?!" -— perguntou o senhor Gonzales sem muitos cuidados ou modos educados na presença dos visitantes.
Posso lhe contar sobre isso depois, senhor Gonzales.
Tranquilize-se, tudo já foi resolvido -— respondeu Rosa Maria com exímia polidez.
Depois de breve pausa, Dolores querendo atrair a simpatia dos visitantes, perguntou a Henry:
—Veio medicar sua paciente?
—Não senhora -— respondeu o jovem sorrindo espontaneamente.
— Não sou formado ainda.
Porém meu pai já esteve aqui e a clinicou ontem mesmo.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 28, 2016 11:32 am

Hoje, eu e meu irmão viemos visitá-la e, caso houvesse algo errado, Robert, que já é médico, poderia examiná-la novamente e prestar-lhe os devidos socorros.
—Ah! Você também é médico? -— espantou-se Dolores muito interessada.
—Sim senhora -— confirmou o cavalheiro cortês.
—Então Medicina é uma tradição entre os homens de sua família? -— tornou a irmã do senhor Gonzales.
—Não exactamente -— explicou o filho mais velho do doutor David Russel.
Nosso avô era mineiro.
Ficou rico com isso.
Medicina foi a primeira paixão do nosso pai.
—E a segunda?! -— perguntou Dolores indiscretamente exibindo ironia.
—A segunda foi nossa mãe -— retribuiu Robert dizendo a verdade, mas sorrindo com o canto dos lábios.
—E vocês decidiram agradá-lo?
—Não senhora.
Nosso pai jamais nos imporia a realizar as suas vontades.
Ele nos instrui, educa, ampara e aconselha, mas nos deixa livres para escolhermos de acordo com a nossa própria conclusão.
—Isso é maravilhoso! -— concordou Dolores.
Dando o assunto por encerrado, Robert consultou seu irmão:
—Já é tarde, necessitamos ir para deixar a família mais à vontade!
—Não! É cedo! -— exclamou Margarida subitamente, provocando ar de riso em Rosa Maria, sua gentil madrasta que escondeu o rosto para não ser visto.
Robert, mais experiente, sorriu amável, e ao exibir suas conclusões salientou amainando a empolgação da jovem:
_ Não imagina quanta satisfação as damas nos proporcionaram nesta tarde.
Fico muito feliz por me certificar que nossa conversa foi produtiva.
Deduzo isso pela forma como se expressou agora.
Contudo precisamos ir.
Mas poderemos, com a permissão do senhor Gonzales, marcar nova visita até que a senhorita esteja curada o suficiente para acompanhar seu pai e a senhora Rosa Maria à nossa residência a fim de retribuirmos a hospitalidade.
Não é mesmo, Henry?
_ Sem dúvida! -— concordou o jovem muito animado.
Podemos vir novamente amanhã!
Corrigindo-o a tempo, Robert alertou:
— Por favor, meu irmão, "As amizades são como porcelanas, para que as porcelanas durem muito, pouco devemos nos servir delas."
O pai da senhorita deve nos conceder permissão.
Sem entender a filosofia do provérbio popular da época, o senhor Gonzales defendeu:
— Temos muitas porcelanas!
Podem vir para um chá ou refeição quando quiserem!
Irei recebê-los com imenso prazer!
Atenciosa, portando um doce sorriso, a jovem senhora interferiu gentilmente:
—Perdoe-nos, cavalheiros.
Creio que devem entender que são muito bem-vindos.
—Sentimo-nos lisonjeados com o convite do senhor Gonzales, senhora —- disse Robert, interpretando a falta de conhecimento do anfitrião como elogio.
Voltando-se a seu irmão, solicitou:
-— Vamos agora?
— Sim, claro -— confirmou Henry, parecendo contrariado.
Em meio aos cumprimentos de despedida, o senhor Gonzales salientou novamente a satisfação em recebê-los.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 28, 2016 11:33 am

Empolgado, Henry afirmou que retornaria.
Enquanto os olhos de Margarida brilhavam, sua tia Dolores mirrava o olhar, espremendo as pálpebras exalando expressões estranhas, dignas de seus pensamentos venenosos.
Rosa Maria, de beleza encantadora, moldava uma simpatia muito natural e verdadeira.
Não deixando de exibir seus interesses pessoais sobre conhecimentos e factos históricos, ressaltou ao se despedir:
—Senhor Robert, se não for entediá-lo, gostaria que pudéssemos continuar com a conversa produtiva de seus conhecimentos gerais em sua próxima visita.
—"Entediá-lo?" -— respondeu Henry, perguntando ao sorrir largamente.
Duvido muito!
Uma das coisas mais difíceis de fazer é obter o silêncio de meu irmão quando o assunto é história ou artes.
—Ora, rapaz! -— acrescentou o senhor Gonzales rindo.
Duvido que ele possa ser comparado com minha mulher.
Rosa Maria é fascinada por temas como esses.
Quando começa com o assunto, não pára de falar.
—Se é que permitem minha defesa... - —justificou-se Robert, sorridente.
Creio que trata-se de assunto salutar, melhor que muitos outros.
Não concordam?
Dolores, tomando a frente na resposta, opinou:
—Sem dúvida alguma, doutor Robert!
Melhor tratarem de factos históricos e conhecimentos gerais do que fofoca.
—Perfeitamente, senhora.
Mas, se me perdoa o pedido, entre amigos eu sempre peço que subtraiam o título de doutor, por favor.
—Grande homem! -— salientou o dono da casa, estapeando-o amigavelmente nas costas.
Mediante o tratamento não habitual, Robert sorriu e encerrou as despedidas com toda cortesia britânica.
Recebeu das mãos do mordomo o sobretudo, seu chapéu, o cachecol de lã, a elegante bengala e, verificando que seu irmão também havia pegado seus apetrechos, sinalizou com um leve aceno de cabeça, chamando-o e retirando-se em seguida, acompanhado por Henry.
Após a partida dos irmãos, Dolores, com ironia e certo tom de voz exibindo desdém, comentou:
__Quanta cortesia!!!
_ É evidente! São ingleses! -— respondeu o senhor Gonzales com ênfase e satisfação.
Meu irmão, às vezes acho que você nasceu na família errada Não! - argumentou Dolores.
Nasceu no país errado!
_ A reencarnação explica isso -— acrescentou Rosa Maria sorridente e satisfeita.
_ Somente isso pode justificar a paixão de Gonzales por esse país tão... tão... -— perdeu-se Dolores tentando encontrar termos para desprestigiar a Inglaterra.
Não os encontrando, dissimulou mudando bruscamente o assunto:
-— Não vejo por que ostenta o carrilhão de papai no meio da sala!
Ele não tem nada de inglês.
Nem combina com a decoração britânica -— retrucou referindo-se ao belo relógio de pêndulo.
— Não vou lhe dar esse carrilhão, Dolores!!! -— irritou-se o dono da casa.
Você se desfez de todos os pertences do nosso pai!
Esse carrilhão é meu!!!
— É um carrilhão espanhol!!!
Você gosta do estilo britânico que...
— Chega, Dolores!!! Chega!!!
Apaziguando o clima que se inflamou rapidamente, a jovem senhora interferiu, dando outro rumo ao assunto:
— Realmente o povo britânico possui muita educação.
Acho que o senhor Gonzales aprecia muito isso, não é mesmo?
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