O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 04, 2017 10:38 am

— Meu pai está muito preocupado com os negócios que ele tem.
A perda da casa e do dinheiro o atrapalhou muito.
Suas preocupações estão longe de mim e de Rosa.
Sabe como ele é.
Quando eu pedi para que Rosa pudesse morar comigo aqui, depois do meu casamento, ele me olhou com certa aprovação, como se eu o estivesse... livrando de um problema.
Apesar de não ter dito nada, ele me ouviu e fez uma expressão de alívio.
Por isso eu creio que concordou com a ideia.
Minha maior preocupação era contar a todos o que eu fiz. Desculpe-me.
Robert, sustentando um sorriso de satisfação, animou-se:
Então todos estamos aliviados.
Se nossa expectativa era essa, podemos nos tranquilizar.
Só nos resta fazer o pedido formal ao senhor Gonzales.
— Muito obrigada, senhor David!
Muito obrigada, Robert!
A jovem aproximou-se de cada um deles e deu-lhes um beijo no rosto como sinal de agradecimento.
O senhor da casa, emocionado, saiu do escritório enquanto Margarida falava:
— Essa é a verdadeira família:
A família espiritual.
Entre Robert, Henry e Margarida a conversa seguiu animada com os planos para o noivado.
— Então em dezembro, no próximo inverno, meu irmão Henry terá de estar preparado para duas fortes emoções: será médico e noivo!
Henry sorriu surpreso, acostumando-se com a ideia.
Logo depois lembrou:
— Sabe, Robert, aqueles vestidos de mamãe?...
— O que têm?
— Eu não sabia o que fazer com eles, será que...
Henry se deteve ao ver o riso que provocou em Robert.
— Não reparou que Margarida e Rosa já os estão usando?
Henry se surpreendeu e seu irmão concluiu:
— O incêndio consumiu tudo, e elas precisavam de vestes.
Papai pediu para Elizabeth seleccionar o que pudesse servir e colocar à disposição das damas.
— Como pude ser tão distraído?!
E o resto das roupas?
— Continuam sendo suas, Henry.
Brincando, Robert concluiu: —
Poderá fazer o que quiser. Até usá-las.
Henry olhou-o de modo estranho, pois seu irmão não costumava fazer brincadeiras tão ousadas.
Em seguida, virando-se para sua escolhida, o jovem perguntou:
— Você aceita os demais vestidos e apetrechos que foram de minha mãe?
A emoção dominou Margarida e as lágrimas embargaram-lhe comentários.
Ela abraçou Henry dando-lhe um beijo.
Diante da cena, Robert tossiu, alertando o exagero.
Recompondo-se, a moça agradeceu a Henry e desculpou-se com o futuro cunhado, que não deixou transparecer seu ar de riso.
Horas depois, vendo-se a sós com Robert, Margarida perguntou-lhe:
— Robert, poderia lhe fazer uma pergunta pessoal?
— Claro, faça-a.
— Quando sua mãe faleceu, aquele quarto ficou intacto, não foi?
— Sim, foi.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 04, 2017 10:39 am

— Somente depois de algum tempo, seu pai resolveu dar tudo a vocês e, nessa época, você nos contou que já estava casado.
— Isso mesmo. Por quê?
— Sua esposa recusou ter as roupas que foram de sua mãe?
— Não foi bem assim.
Meu pai nos ofereceu tudo aquilo, mas nós, no momento, ficamos sem saber o que fazer.
Se tivéssemos uma irmã, seria diferente.
Quando eu contei a ela o que meu pai fez...
— Ela quem? Sua esposa?
— Sim, minha esposa na época.
Percebi que ficou muito empolgada.
Seus olhos brilharam.
— Então por que você não deu sua parte à Christine?
Toda mulher gosta de coisas finas.
— Minha ideia não foi diferente, Margarida.
Eu a amava muito.
— Não a ama mais?
— Quando nos decepcionamos com alguém, independente da intensidade do sofrimento, nós não deixamos de amar, porém descobrimos que nunca amamos.
Vendo a jovem um tanto confusa, informou:
— Desculpe-me, Margarida. Isso é filosofia.
Foi o seguinte, com toda certeza daria a ela o que lhe interessasse, e Henry até afirmou que não queria nada.
Pediu que tudo ficasse com ela.
Meu irmão e ela sempre se deram muito bem.
Só que no dia em que a irmã de minha esposa soube disso, encontrei as duas revirando e se apropriando, vorazmente, de tudo o que havia naquele quarto.
Fiquei indignado.
Solicitei a minha esposa que colocasse tudo no lugar, como estava.
Ela disse que já tinha dado metade das peças para Flora.
O que era verdade, pois, na porta da mansão, havia uma carruagem cheia com os baús.
— Você brigou com ela?
— Não. Não foi preciso.
Mas tive de usar autoridade.
Pedi aos empregados que levassem tudo de volta ao quarto, que as criadas arrumassem ao gosto de minha mãe, trancassem a porta à chave e trouxessem para mim.
Virei as costas e saí.
Quando tive as chaves em minhas mãos, entreguei-as a Henry e contei o ocorrido.
Informei que ela não poderia ficar com o que foi de minha mãe.
Percebi que não merecia.
Aliás, foi ali que comecei notar algo errado em meu casamento.
Com tanta interferência de minha cunhada, parecia que eu havia me casado com ela.
Margarida ficou pensativa.
Curiosa, indagou:
— Posso fazer outra pergunta?
Robert sorriu e respondeu:
— Todas.
— Essa é mais íntima.
— Vamos, Margarida, não crie suspenses.
— Já conversamos outras vezes sobre sua esposa e eu nunca o vi chamá-la pelo nome.
Sempre a trata de "minha esposa", "ela", "minha mulher", mas pelo nome, não. Por quê?
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 04, 2017 10:39 am

O futuro cunhado viu-se atordoado.
Abaixou a cabeça, compreendendo a simples curiosidade da jovem, não vendo maldade em sua pergunta.
Suspirou fundo, depois explicou:
_ Sabe, Margarida, eu sofri muito com ela e por causa dela.
Creio que, desde sua morte, foi você a primeira pessoa com quem eu falei sobre meu casamento.
Vou lhe confessar uma coisa:
eu não sabia, depois de tanto tempo, que poderia falar de meu casamento sem magoar-me.
Mas descobri que trago grande dor em pensar nela, ou melhor, em pronunciar seu nome.
— Desculpe-me, Robert.
Não pretendia magoá-lo.
— Não me magoou em nenhum momento.
Você me fez relembrar da minha vida.
Comentar a respeito de um facto e encará-lo, sem dramas ou lamentações, é voltar a viver.
Eu agradeço por ter me feito isso.
Você me ajudou muito.
Hoje tenho a impressão de que andei me escondendo da realidade.

10. N.A.E.: Espécie de meia-mesa, geralmente fixa na parede; peça saliente para servir de ponto de apoio em que se colocam jarras ou pequenos objectos de curiosidade e ornamento.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 04, 2017 10:39 am

10 - Renúncia

Um grito de mulher cortou a noite e alertou, quem o ouviu, a reocupar-se com Rosa Maria.
Margarida, que dividia o quarto com a madrasta, sentou-se na cama dela, procurando despertá-la do pesadelo.
O dono da casa, preocupado, invadiu o dormitório seguido do filho, desejosos de informações.
Rosa parecia alucinada e ainda gritava como se o sonho não tivesse sido interrompido.
—Não! Ele vai me levar lá para cima!
Tirem-me daqui! -— repetia ela várias vezes.
—Foi um sonho, Rosa -— afirmava Margarida.
—Estamos aqui, Rosa.
Olhe! -— dizia o senhor com benevolência, tentando orientá-la enquanto ela o empurrava.
Vendo-a debater-se, Robert, muito firme, segurou-a pelos pulsos, com um leve balanço para alertá-la.
Postou autoridade na voz e chamou-a:
— Rosa! Acorde! Estamos aqui!
A mulher parou repentinamente.
Fitando-a nos olhos, ele esclareceu mais brando:
— Foi um sonho.
Agora você está bem. Está segura.
Rosa virou-se para a enteada abraçando-a e chorando ao mesmo tempo.
Depois de ofertar-lhe água e vê-la mais calma, pai e filho se retiraram.
Antes de entrar para seu quarto, o doutor David comentou:
—Quero tanto ajudar essa moça... você nem imagina, Robert.
—Eu sou suspeito em tecer quaisquer comentários, meu pai -— confessou Robert.
—- Desde quando a conheci, encantei-me por sua personalidade, por sua educação, delicadeza.
Era a filha que sonhei ter.
Gosto muito de Margarida também, mas por Rosa tenho um amor paternal que só pode ser comparado pelo que sinto por você e por seu irmão.
Como eu quero ajudá-la...
Felizmente Margarida terá a Henry que há de realizá-la, ela merece.
Mas... pobre Rosa -— lamentou ele preocupado.
—E a família espiritual!
—Como disse, Robert?
—Nada não, meu pai. Vamos dormir.
Na manhã seguinte, antes de ir para a clínica, Robert passou no quarto para ver se Rosa estava bem.
—Desculpe-me pelo que fiz durante a madrugada.
Sinto-me envergonhada.
Preciso pedir perdão a seu pai.
Não sei como pude...
—Não peça desculpas, Rosa.
Meu pai está acostumado a gritos nocturnos.
—Como assim?!
—Eu sou uma pessoa muito... vamos dizer... envolvida por pesadelos e, muitas vezes, não consigo dominar as falas.
Começo a narrar ou conversar, em voz alta, o que digo no sonho.
É difícil conseguirem me acordar.
As vezes chego até a gritar.
—Isso nunca me aconteceu antes -— recordou Rosa Maria.
—Posso perguntar o que você sonhou?
—Foi com o incêndio. Eu vi alguém...
Rosa começou a chorar.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 04, 2017 10:39 am

— Acalme-se, Rosa.
— Era um rapaz... ele entrava na casa...
O choro a dominou e o médico lembrou-se do relato dos empregados sobre o moço que rondava a mansão.
— Um rapaz? Desculpe-me, Rosa.
Pode dizer como ele era?
Muito cortês, Robert ajoelhou-se a seu lado, tomando-lhe uma das mãos a fim de procurar acalmá-la.
Olhando-a fixamente e com muita atenção, ele ignorava sustentar sua clarividência do facto passado.
— Eu via um rapaz. Talvez da idade de Henry...
Foi um sonho esquisito, Robert.
Eu ficava me vendo como se observasse uma cena do alto.
Eu estava no divã, lendo.
Esse rapaz entra sem provocar ruídos... —
Rosa chora, mas consegue continuar.
— Cada vez mais perto de mim...
Daí eu me virei, e ele me bateu. Eu caí.
— Nesse instante, a jovem senhora começa a relatar depressa a cena como se estivesse assistindo a ela, transmitindo todo seu desespero.
— Caí! Olhei para ele que veio na minha direcção.
Tentei fugir, mas...
Ele queria me pegar!
Queria me bater!- — segurando com força as mão do médico, ela as apertava usando toda força que possuía. —
Tentei correr!...
Ele me segurou, jogou-me contra a parede! Robert!
Bateu-me com muita força... eu perdi os sentidos.
— Agora, com a respiração menos ofegante, Rosa narrava mais pausadamente, sem desviar, por um segundo, seus olhos dos dele, como se eles a sustentassem para "receber" aquela vidência.
Enquanto isso o médico, ajoelhado na sua frente, ouvia atento seu relato, prendendo seu olhar no dela.
— Ele me pegou.
Jogou sobre um ombro e subiu as escadas.
Ele entrou no primeiro quarto que encontrou e me atirou sobre a cama.
Não! Não!
Gritou Rosa em pânico.
Vendo-a em desespero, Robert a abraçou e pediu:
Calma. Esqueça tudo, Rosa.
Embalando-a afirmou:
Você está segura, agora.
_ Não! Não! -— insistiu ela com a voz mais branda, afastando-o de si.
— Eu preciso falar.
— Se acha que deve...
_ Sim...
— Fitando-o, ela continuou:
— Ele me ajeitou na cama.
Olhou para os lados, achou um lampião apagado e derramou o que tinha sobre mim.
Não havia como acender o fogo.
A iluminação era pouca, provinha da parte inferior da casa.
Daí ele saiu à procura de...
Encontrou Valerie próxima da porta do quarto... Valerie!
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 05, 2017 11:25 am

O choro a dominou por alguns segundos, mas logo prosseguiu:
— Minha fiel Valerie.
Ele a agrediu, deixando-a caída.
Desceu as escadas e, lá em baixo, quebrou outro lampião que estava apagado, ateando fogo com o tição da lareira. Não!
— Calma, Rosa. Já passou.
— Não passou! Não passou, Robert!
Eu queria me levantar.
Alguém me pedia para que levantasse.
Eu queria abrir os olhos, mas não podia... a fumaça!
Estava difícil para respirar e a fumaça me sufocava.
Eu queria acordar!
Eu tentei! Juro que tentei!
Os olhos da senhora pareciam alucinados, sua fala era quase automática.
— Quem pedia para que você se levantasse, Rosa?
Alguma empregada? Ou a Valerie?
— Não. Valerie não acordava. Nem eu...
— Quem, então?
Eram duas mulheres.
Eu não sei dizer... -— respondeu ela mais calma.
Tomando consciência do que relatava, inibiu-se em dizer que uma das mulheres vistas, parecia-se com a esposa do doutor David que conhecera através do retrato.
— E o rapaz? Você o conhece?
— ...fugiu. Eu queria levantar, mas...
Robert a abraçou com ternura, procurando acalmá-la do choro, agora, mais brando.
Ao olhar para a porta do quarto, viu seu pai que parecia estar ali há tempos.
Sem se incomodar com sua presença, Robert informou:
— Rosa não teve um pesadelo.
Ela teve a recordação do incêndio.
O doutor David acenou positivamente com a cabeça compreendendo o que havia ocorrido, depois disse:
— Filha, não comente nada com ninguém.
Se o incêndio foi criminoso, será melhor que saibam que você não se lembra de nada.
***
Mais tarde, Margarida, que havia tomado conhecimento da recordação de Rosa Maria teve, comentava com seu pai o facto.
— ...ela ficou em pânico, pai.
— Rosa sonhou?
— Eu acho que não.
Ela sempre afirmou que, na noite do incêndio, ela estava lendo na sala, sendo que Robert dizia que a havia encontrado no quarto.
Somente a presença de um intruso explica essa contradição entre os dois.
Alguém entrou e tentou nos roubar, e por Rosa poder reconhecê-lo, ateou fogo na casa para matá-la.
— Um rapaz?! -— perguntou Gonzales assustado.
— Rosa afirma que foi um rapaz.
Diz que talvez, pela aparência, ele possa ter a idade de Henry.
Os olhos do pai de Margarida cresceram.
De imediato ele perguntou:
Rosa sabe quem é?!
_ Não. Não sei.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 05, 2017 11:25 am

— Eu não ia subir para vê-la -— disse o senhor Gonzales, e reclamando decidiu:
— Terei que me dar ao trabalho.
_ Ah, não! -— proibiu a filha.
— Rosa está dormindo.
Ela precisa descansar e não vamos incomodá-la.
Se é pelo que lhe contei, pode ter certeza, foi exactamente o que Rosa lembrou.
Não há nada para acrescentar.
— Após breves segundos, Margarida perguntou:
— A propósito, pai, o senhor concordou com o facto de Rosa morar aqui comigo, não foi?
— Façam como quiserem.
Não quero ter problemas.
Admiro-me muito o seu futuro sogro concordar com tanta bagunça nessa casa.
Ter os parentes todos juntos... que confusão não deve ser.
Pra mim, quanto mais longe melhor.
Agora tenho de ir.
Estou com muitos problemas.
Talvez tenha de viajar esta semana mesmo.
— Tia Dolores me falou que o senhor não está na casa dela.
Onde se instalou?
— Cuide de sua vida! -— respondeu o pai rude e impiedoso. —
Tenho tantos problemas que não posso ficar lhe dando satisfação de bagatelas.
A jovem ficou magoada e comparou a educação da família Russel com a que seu pai apresentava.
Quanta diferença!
Inquieto, o senhor Gonzales ruminava em seus pensamentos a possibilidade de Peter ter incendiado sua casa a fim de roubar seu cofre.
***
Mais tarde, na casa de Nancy, enfurecido pelas deduções, Gonzales vociferava:
— Onde ele está?!!
— Saiu, Gonzales.
Peter não disse aonde iria -— informava Nancy com medo.
— Aquele vagabundo!
Só pode ter sido ele!
Segurando a mulher pelos braços com rispidez, agitando-a, agressivamente ele inquiriu:
— Diga-me a verdade!!
Foi ele e você sabe, não é?!
— Largue-me.
Com firmeza ele a chacoalhou novamente, perguntando:
— Cade meu cofre?!!
Onde Peter o colocou?!!
— Peter não fez nada.
Ele estava aqui comigo no dia do incêndio.
— Se você estiver mentindo, eu a mato. Entendeu?!!
Eu quero meu dinheiro!!
Quero aquele cofre!!!
— Deveria ter posto esse dinheiro no banco.
Em casa não é lugar de guardar tanto dinheiro assim.
Dando-lhe um tapa, Gonzales gritou:
— Não me dê palpite!!!
Se Peter incendiou minha casa e me roubou, ele vai me pagar com a vida!!!
Quase noite, na residência da família Russel, Rosa Maria lia um livro, no seu quarto, sentada em sua cadeira de rodas.
Entediada, decidiu sair.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 05, 2017 11:26 am

Não havia ninguém naquele andar da casa para ajudá-la.
Sem prática, Rosa Maria enfrentou a dificuldade de manobrar a cadeira e abrir a porta do recinto.
Ventava muito.
Era uma noite fria e a porta de vidro que dava acesso à varanda, no final do corredor, estava aberta e batia de um lado para outro de forma insistente.
Aquilo irritava Rosa Maria, que conduzindo sua cadeira, chegou perto da referida porta, mas não conseguia fechá-la.
Nesse instante, Peter, o filho de Gonzales, sai das sombras e subitamente toma Rosa Maria em sua cadeira pelas costas.
Tapa-lhe a boca com uma das mãos e conduz a cadeira de rodas até o patamar da escada.
No mesmo momento, o médico e seu filho mais velho, acabavam de entrar pela porta principal e assistiram à cena em que Peter empurrava Rosa Maria com a cadeira escada abaixo.
O doutor David Russel gritou e correu para a escada, enquanto Robert, vendo que Peter empreendeu fuga, saiu novamente tentando apanhá-lo pelo lado de fora.
Rosa Maria, sem perceber, agarrou-se ao corrimão e sua cadeira desceu capotando escada abaixo, vindo atingir levemente o dono da casa que corria a seu encontro.
Robert atracou-se com Peter.
Na escuridão que reinava atrás da casa, depois de algum tempo de luta, Peter conseguiu fugir.
O filho mais velho do doutor Russel retornou para dentro de casa, encontrando seu pai e Rosa Maria sendo socorridos pelos criados.
Elizabeth acomodava o senhor David no sofá.
Ao passo que Margarida e outra criada tentavam pegar Rosa Maria.
— O senhor está bem, pai? -— perguntou o médico rapidamente.
— Sim, filho. Veja como está Rosa.
Robert subiu as escadas e verificou se Rosa Maria possuía algum machucado ou fractura que dificultasse sua remoção, ao mesmo tempo em que perguntava:
— Está bem, Rosa?
Sente alguma dor?
— Não -— confirmou ela em choque.
Margarida e a empregada se afastaram e o médico a levou para baixo, acomodando-a ao lado de seu pai.
O que é isso, Robert?!!! -— espantou-se o doutor David ao ver o sangue na mão de seu filho.
Sem se assustar, ele lamentou:
— Se ele não estivesse com uma adaga, eu o teria pegado.
Isso não foi nada, é um corte.
De imediato, Margarida pegou a maleta do médico e começou a cuidar do machucado que havia na mão de Robert, enquanto este indagava:
— Conhece esse homem, Rosa?
— Não sei se vão acreditar, mas é o mesmo rapaz com quem sonhei.
— Você não sonhou, Rosa.
Você teve uma vidência do ocorrido. É diferente.
— Estou com medo -— confessou ela.
— Estaremos juntos, minha filha.
Vamos encontrar esse homem e saber o que ele quer.
Não se preocupe. Seremos uma família -— comentou o pai de Robert, procurando animá-la.
Procurando dar humor à tristeza de todos, Robert reclamou:
— Vá devagar, Margarida, por favor.
Médicos também sentem dor.
Naquela noite novo pesadelo agitou Rosa, que não se controlou e chegou aos gritos.
Novamente todos se reuniram tranquilizando-a.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 05, 2017 11:26 am

Procurando entretê-la, no dia seguinte, ao chegar da clínica, Robert foi ao seu encontro, entregando-lhe um embrulho muito bonito onde uma tulipa prendia-se no laço do arranjo.
— Robert! Para mim?!
— Claro. Veio da França especialmente para você.
Emocionada, Rosa não tirava o sorriso do rosto, ao abrir delicadamente o presente, que estava em uma caixa com tampa, presa a um belo laço.
Seus olhos brilharam de alegria e encantamento ao ter nas mãos os livros:
"O livro dos Espíritos e o Evangelho Segundo o Espiritismo"
As lágrimas de Rosa Maria molharam as capas dos livros enquanto com as mãos ela buscava esconder o rosto.
Ajoelhando-se frente de sua cadeira, o médico procurou tirar-lhe as mãos do rosto, dizendo:
_ Desculpe-me, cara amiga.
Não foi essa minha intenção.
Tentando controlar-se, Rosa Maria falou baixinho:
_ Querido, Robert, somente você...
Como soube?
_ Tenho um certo conhecimento na área teológica e, pelos seus assuntos...
Além do que, Gonzales comentou que você era apegada a livros espíritas.
Deduzi que deveria sentir falta deles.
— Somente este consolador, prometido por Jesus, poderia me dar forças para suportar tamanha prova.
Creio que me entende, Robert.
Cada vez que leio ou releio o conteúdo desses livros mais forças para viver encontro na vida, mesmo em condições tão limitadas.
Porém vejo que Deus não me abandonou pelo facto de me deixar sob a guarda de companheiros como os que tenho hoje, auxiliando-me e apoiando.
Especialmente com um amigo tão gentil como você, Robert.
O médico ainda estava de joelhos junto a ela.
Segurando-lhe o rosto suavemente com as mãos, ela pediu:
— Permita-me retribuir tanta gratidão com um único beijo em sua face?
É o mínimo que posso fazer.
Robert aproximou-se mais e cerrou os olhos, sentindo seu peito apertar de emoção indefinível.
Os delicados lábios de Rosa Maria tocaram-lhe na face, tão somente como agradecimento sincero e rápido.
Seus olhos marejaram ao fitá-la, e com coração descompassado, ele segurou suas mãos.
Aproximou-se dela como se fosse beijá-la, quando ouviu sua voz suave, com extrema gentileza e educação, dizer:
_ " Por favor, meu amigo...
Dizendo isso, Rosa Maria abaixou a cabeça, virando delicadamente o rosto.
— Rosa, eu...
Robert não conseguiu terminar, e suas lágrimas não temeram cair.
Ainda com as mãos da jovem senhora entre as suas, ele as levou até a fronte e pendeu a cabeça como quem admitisse certa tristeza e desilusão, mas não o arrependimento.
— Erga-se, Robert -— pediu ela.
— Levante-se, por favor.
Você tem toda uma vida pela frente.
Ainda de joelhos, ele concluiu sussurrando e de cabeça baixa:
— Por que tem de ser assim?
Rosa... eu... eu a amo.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 05, 2017 11:26 am

Segurando seu rosto para que pudesse encará-lo, Rosa Maria buscou suas forças morais mais latentes, desfechando:
— Meu amigo, o verdadeiro amor á aquele que aceita sem pretensões.
Jesus amou a humanidade renunciando a si mesmo.
Por isso vamos nos valer desse amor incondicional que o Cristo nos exemplificou.
Vamos nos amar sim, mas aceitando e respeitando todos os limites que a vida nos impôs, por agora, pois eu acreditando na justiça do Pai Celeste, tenho a certeza de que as almas que se identificam na harmonia e nas qualidades mais sublimes do verdadeiro amor, hão de se unir um dia, depois de cumprirem sua jornada de aperfeiçoamento e evolução, para juntas caminharem lado a lado com muito amor, no mesmo ideal e para um mundo feliz de verdade.
Não esquecendo, é claro, do objectivo de servir sempre em nome de Deus.
O silêncio se fez por alguns segundos, mas logo Rosa Maria o quebrou:
— Levante-se, Robert -— pediu ela gentilmente.
— Levante-se, hoje, meu amigo, para que amanhã não esteja no chão.
Eu tenho fé, assim sendo acredito que amanhã eu removerei a montanha dessa paralisia e ninguém vai me deter, pois tenho muito a fazer na seara de Jesus.
Levante-se, Robert, porque eu o quero, hoje e sempre, a meu lado e não abaixo de mim. Eu o amo.
Robert, com o coração aos pedaços, experimentou a maior dor de sua vida.
_Perdoe-me, Rosa.
Não devia ter chegado a esse ponto... desrespeitando-a.
Acima de tudo você é uma mulher casada.
Sou um crápula! -— repugnou ele, após erguer-se e esconder o rosto.
Imediatamente, Rosa reagiu com ternura:
— Não Robert! Isso você não é!
Você é meu amigo e um ser que ama de verdade.
Ama e compreende. O que seria de mim sem você?
Por favor, meu amigo -— tornou ela, pedindo que se aproximasse —- dê-me um abraço.
— Rosa...
— Por favor... Os amigos se compreendem e não se negam.
Robert voltou a se ajoelhar.
Rosa o abraçou com ternura, segurou-lhe o rosto e beijou-lhe a outra face.
— Agora, vá. Sei que terá um dia cheio.
Precisava vê-lo bem.
— Desculpe-me -— pediu ele.
— Mas é verdade. Terei um dia cheio.
Suspirando profundamente, Robert se recompôs, levantando-se.
— À noite podemos conversar, se você quiser -— sugeriu ela.
Terei liberdade para falar com você sobre meu assunto predilecto.
Logo à noite, após o jantar, Rosa Maria e Robert conversavam novamente como se nada houvesse acontecido.
Sabe, Rosa, creio que esse rapaz voltou até aqui por medo de você reconhecê-lo.
Só existe essa explicação.
O que mais me intriga é o facto dessa tentativa parecer ser contra mim.
O que eu teria feito a ele?
Veja só, se fosse uma vingança contra o senhor Gonzales, ele poria fogo somente na casa.
Isso ele conseguiria fazer pelo lado de fora da residência.
Não seria necessário entrar, correr risco de ser pego para me agredir, levar-me para o quarto...
— E se fosse pelo roubo do cofre de Gonzales? -— pensou Robert em voz alta.
— Não sei, sinto que o roubo do cofre foi por acaso, ou foi só para despistar.
Só sei afirmar o seguinte: ele está atrás de você, pois é a única pessoa que poderá reconhecê-lo.
Quero que tome muito cuidado e não fique sozinha fora da mansão, por favor.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 05, 2017 11:26 am

A mulher acenou positivamente com a cabeça, concordando. Depois de breve pausa, ele tornou com novo assunto:
— E os sonhos?
— Continuam. Não é fácil.
— Eu sei. Também os tenho.
— Sonha com o incêndio? -— perguntou ela.
— Também. Algumas noites tenho a impressão de ter pesadelos mesmo acordado.
Fico em claro... perturbado.
— Estudou teologia e conhece Espiritismo, não é Robert?
Não sei se crê, mas penso que estamos recebendo influência de algum espírito, concorda?
O cavalheiro a olhou de modo singular sem se manifestar, e Rosa Maria insistiu:
— Acredita em espíritos, Robert?
Acredita nessa nova doutrina que nos esclarece sobre a vida após a vida e nos oferece uma justificativa para tantas diferenças sociais?
— Não sou um defensor de teses dessa doutrina, entretanto não posso negar que quando li "O livro dos Espíritos" pela primeira vez, foi impossível deixar de notar as mais fiéis expressões com bases científicas.
O autor, ou melhor, os espíritos e o codificador, provam e nos fazem entender a realidade espiritual, a imortalidade da alma, a necessidade da reencarnação e a ampla ligação e comunicação entre os mortos e os vivos.
Seu conteúdo filosófico está muito longe de ser complexo ou sem finalidade útil e prática, além do que, as explicações e as consequências morais que justificam, incontestavelmente, as leis de causa e efeito, fazem-nos religar com Deus, com um Criador.
Essas opiniões eu concluí logo após lê-lo totalmente.
Reflecti um pouco e determinei-me a estudá-lo melhor.
Logo na introdução, muito clara, verdadeira e aberta a todos os questionamentos e sentimentos nobres, sem deixar dúvidas no objectivo da obra, podemos perceber que "O Livro dos Espíritos" em nada é religioso.
Meu lado filosófico me fez pensar e repensar sobre a religião.
— Como assim, Robert? Não entendi.
— O pensamento da criatura humana tem a noção da existência e a crença em um Ser Superior a partir do instante em que ele começa a ganhar inteligência e noções morais, ou seja, a criatura humana é a única entre os animais que raciocina e procura por harmonia ou equilíbrio no momento em que começa a evoluir.
Isso a leva a crer em um Ser superior: O Criador.
A partir daí, a criatura humana sente o desejo de entrar em comunhão, em harmonia com esse Criador.
Esse desejo de se harmonizar, de se ligar a esse Criador a faz acreditar que é necessário agradá-lo para que Ele se aproxime, o que é justamente o oposto que deve ocorrer.
Até aí, esse ser humano já descobriu que o Criador a criou e que para sentir-se em harmonia, ele precisa religar-se com Ele.
Rosa Maria o interrompeu acrescentando:
— "Religare", que provém de "religio" do latim, que significa: ligar, certo?
— Exactamente! Foi com esse desejo de se ligar a Deus que o ser humano criou a religião a fim de tentar se religar, unir-se novamente a Deus.
As religiões têm como objectivo comum o reconhecimento na crença do sagrado, na adoração ou veneração ao sagrado.
Só que daí o egoísmo e a vaidade da criatura desarmonizaram a religião no instante em que estabeleceu formas de submissão a esse "sagrado", criando mitos, superstições, rituais, e atribuindo o medo ao sobrenatural.
—Concordo com você, Robert.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 05, 2017 11:27 am

A princípio, devemos ser racionais e usarmos a pouca inteligência que temos para afirmar:
O sobrenatural não existe.
Não existe nada sem explicação na natureza.
O que existe é a nossa ignorância sobre determinados acontecimentos.
Porém, infelizmente, quando não temos explicações para o que desconhecemos, chamamos de sobrenatural.
—Então veja -— tornou ele —- aqueles que possuem um pouco mais de "criatividade", vamos dizer assim, inventam mitos, rituais ou superstições.
E os que não têm conhecimento, criam os seus medos e respeitam, fielmente, sem questionar, esses "doutrinadores de ilusões".
Esses fiéis aceitam os sentimentos de dependência e submissão pelo medo, por não conhecerem a realidade, por superstição, falta de condições de aprender pela própria necessidade cármica e, alguns, por comodismo, porque alguém disse que isso agradaria a Deus.
Daí, acreditam que tais crendices o religariam a esse Criador.
—Desculpe-me, Robert, mas, por acaso, você quer dizer que as religiões não são necessárias?
—Na minha opinião, as religiões são necessárias quando não deixam dependentes e submissos seus fiéis, quando não os exaltam criando em suas mentes a crença de que só eles são os puros, os perfeitos e os únicos que terão salvação e que os demais estão confinados ao "fogo do inferno", de onde jamais sairão.
Tais exaltações levam muitos a crer que aqueles que estão condenados ao "inferno", por suas práticas erradas, não merecem piedade, amor, consideração de ninguém.
Isso é contra os ensinamentos de Jesus Cristo que não teve nenhuma religião.
Estudando teologia, descobrimos a divisão da religião em duas categorias amplas:
as religiões primitivas e as religiões superiores.
Religiões superiores são denominadas assim dado o seu desenvolvimento e estímulo de ensino, estudo e cultura, e não ao grau de crença de seus praticantes.
Religiões primitivas são as que não possuem estudo ou ensino e seus praticantes habituam-se às repetições dos ritos, das palavras, das práticas supersticiosas ou da fé, sem questionar, sem saber o motivo, a origem e o objectivo de tudo aquilo, e o pior:
sem saber as consequências.
Essa última é por minha conta porque eu acredito na lei de causa e efeito.
Que podemos dizer de passagem:
não foi criada pelo Espiritismo que tanto a defende e lembra.
A lei de causa e efeito foi descoberta pela ciência que afirma:
"Não pode haver um efeito sem uma causa".
Rosa Maria sorriu, e Robert continuou:
— Se estudarmos um pouco, observamos que os historiadores já encontraram provas de que nas sepulturas paleolíticas obrigavam-se os integrantes dos clãs a renderem homenagem e ritos aos mortos pelo desejo de obterem benefícios ou por medo de suas influências.
Isso prova que há séculos antes de Cristo já se acreditava na vida após a morte e na influência desses espíritos no mundo dos vivos.
A antropologia define fetichismo como sendo a crença atribuída a determinados objectos considerados mágicos ou divinos Que passam a representar um "ser" ou "energias superiores", geralmente, animista.
— Como animista?
Animista é... anímico, ou melhor, é a criação da própria pessoa.
— Então animismo é aquilo que a pessoa inventa?
É aquilo que ela imagina sem nenhuma base racional ou científica comprovada?
— Pode ser também.
O animismo é aquilo que vem do ser, vem da própria criatura ou da alma.
O animismo é um atributo do espírito.
Ele pode ser bom ou mau de acordo com o uso.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 05, 2017 11:27 am

O animismo é como qualquer outro atributo que temos, é como a inteligência, por exemplo; usamos nossa inteligência para o bem ou para o mal.
As pessoas criam ideias novas, inventam e isso pode ter consequências boas ou más, de acordo com o nível, com o objectivo do projecto.
— Sei que vamos nos afastar do assunto, Robert, mas o que você me diz da religião dos negros da Africa Ocidental, que consiste na adoração de objectos aos quais se atribuem poderes sobrenaturais e que são possuídos por espíritos?
Integram também elementos muitos distintos e litúrgicos em cultos como: o "vodu" ou a "macumba", a que atribuímos isso ou como explicar isso?
— Veja, Rosa, a religião é tida em muitos lugares como "instituição social" porque é o que está mais perto do povo, da sociedade daquele local e do entendimento que essa sociedade tem, trazendo orientação dogmática ou moral.
O "vodu" ou a "macumba" é a forma de representar o poder de intervir na natureza para receber graças ou administrar castigos e vinganças.
Para essas práticas ou cultura, tenho uma explicação evangélica, incontestável, que Jesus Cristo mencionou incontáveis vezes.
— Qual? -— perguntou ela com muita expectativa.
— "A tua fé te curou" ou "A tua fé te salvou".
Já naquela época, Jesus dizia que a fé remove montanhas, com isso, podemos concluir que possuímos, dentro de nós, energias poderosas.
Elas podem ser renovadoras, criadoras ou destruidoras de acordo com a nossa vontade.
Isso explica o recebimento de uma graça após o pedido fervoroso.
Mas, geralmente, as pessoas atribuem o recebimento dessa graça a promessas que fizeram como se Deus já não fosse o "dono" daquilo que ela está lhe ofertando.
Jesus promoveu curas e os chamados "milagres" sem oferecer nada em troca a Deus, a não ser suas boas acções, o seu comportamento digno, que não se modificou a fim de que Ele recebesse qualquer recompensa, ou melhor, Jesus já possuía o comportamento digno sem ter que barganhar com Deus.
Ele já era perfeito.
Todos nós temos essas "energias poderosas".
Isso é anímico porque é do próprio ser, é próprio da alma.
Esses talentos ou atributos são capazes de transformar, de renovar, criar ou destruir, independente dos espíritos que nos rodeiam.
Como nos disse o próprio Jesus:
todos os temos, em maior ou menor quantidade, só que preste atenção: desenvolvê-lo e usá-lo depende de nós.
Seremos responsáveis por tudo o que fizermos.
Não tenha dúvida.
— Eu sei que as Leis de Deus são as mesmas para todos e Jesus disse:
"faça ao outro o que quereis que vos façam".
— Rosa, Deus nos deu a inteligência, nós possuímos vontade própria, sem falar nas ambições.
Jesus nos disse que possuímos "talentos", ou seja, condições de realizar o que Ele demonstrou.
As pessoas têm um poder magnético muito grande, próprio de seu ser.
Usá-lo para o bem ou para o mau, vai depender da sua vontade.
Certas pessoas possuem esse magnetismo muito aflorado.
Esse magnetismo é algo anímico, ou seja, é do próprio ser, pertence aquele espírito, independente do plano espiritual.
A utilização desse magnetismo, seja para o que for, é responsabilidade da pessoa.
Fora esse atributo anímico, existe também o plano espiritual que rodeia a criatura.
Sabendo que os espíritos dispõem de vontade própria e podem nos influenciar, podemos ou não, aceitar a influência desses espíritos.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 05, 2017 11:27 am

A aceitação dessa influência junto ao atributo magnético que possuímos, pode ser benévolo ou malévolo a nós ou aos outros.
Posso garantir-lhe, Rosa, não existe poder mágico.
Existe sim, o poder da mente de algumas pessoas, a criação mental que transforma; construindo ou destruindo.
E isso ainda depende da "permissão de certas leis naturais".
— Mas, Robert, como se explica o boneco "vodu" e a "macumba" ou a feitiçaria?
— Normalmente, Rosa, as pessoas enfeitam os acontecimentos e não os observam como eles ocorreram naturalmente.
Você, como estudante dessa Doutrina, deverá saber que tudo é criação mental.
Você acredita, você tem fé e atrai tudo pelo pensamento, ou então, em certos casos, você produz efeitos pelo poder do seu pensamento.
Os Espíritos não são atraídos pelos talismãs ou pelas coisas materiais, eles são atraídos pela afinidade, pela força do pensamento igual ao dele.
Não há nada sobrenatural, Rosa.
O que existe é a nossa ignorância sobre os factos naturais.
Se alguém com o seu magnetismo intenso, deseja fazer mau uso desse talento, imediatamente, espíritos que concordam com aquilo que essa pessoa deseja, aproximam-se e se utilizam ou absorvem, ou seja, alimentam-se da energia mental daquela pessoa a fim de tentar provocar a realização daqueles desejos, isso porque também, por algum motivo, querem vê-lo realizado e se comprazem com isso.
Ora, por que a feitiçaria ou o "vodu" não atingem determinadas pessoas e agridem impiedosamente outras?
— Porque uma pessoa possui seu magnetismo mais forte do que a outra? -— respondeu Rosa com outra pergunta.
— Sem dúvida.
Se você faz uma feitiçaria para mim, e eu sou uma pessoa que crê em Deus, cumpro com meus deveres morais, não cultivo inveja, ódio, vingança, não tenho orgulho ou vaidade e pratico o bem, Deus não permitirá que essas energias magnéticas inferiores me prejudiquem.
Eu estarei envolvido por um magnetismo, e outros espíritos, com os mesmos valores morais que os meus, irão me auxiliar.
Diante de toda essa protecção, a única coisa que poderá me prejudicar é se eu souber de tal feitiço e tiver medo, porque isso provocará um abalo na minha fé e eu estarei acreditando ou dando forças a um poder mau.
Em outras palavras, eu estaria abrindo brechas em meu campo magnético para que outras energias grosseiras o penetrem e me atinjam.
— Deixe-me ver se eu entendi:
Então a "macumba" ou o "vodu" só funcionam quando a "vítima", vamos dizer assim, é uma pessoa sem valores espirituais, medrosa e sem fé?
— Exactamente!
— E o que você me diz daqueles que realizam a feitiçaria para o bem?
— Há pessoas que utilizam seus talentos, ou melhor, seus atributos, para a cura dos outros e muitas vezes conseguem se o "curador" e o "necessitado" estiverem na mesma sintonia ou afinidade e se tiverem também pureza de sentimentos e um imenso desejo de realizar o bem.
Eu acredito que isso seja possível.
Só que uma vez adquirido o que tanto almejavam, deverá haver uma transformação benéfica no "curador" e no "necessitado" ou, de alguma forma, o prejuízo será maior do que a "enfermidade", pois para cada efeito deve haver uma causa.
Entretanto aquele que busca os bens materiais e as realizações pessoais, por mais que tente defender que possui intenções Puras, devemos questionar a veracidade.
A pessoa que faz isso tem o objectivo material e não moral.
Ela tem orgulho e vaidade não aceita os desígnios de Deus.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 05, 2017 11:27 am

— Ela pode conseguir o que deseja?
Robert pensou e respondeu:
— Eu acredito que o magnetismo humano possa influenciar momentaneamente a matéria e a atracção do que é material, mas nada se dá sem a permissão de Deus e, quem forçar receber dádivas que não merece, receberá também em acréscimo a falta de condições que lhe era reservado a experimentar, isso no futuro.
Veja, Rosa, estaremos sempre onde a nossa consciência estiver.
Se vivermos de sonhos e ilusões, não encarando a vida e não auxiliando com a verdade, ficaremos parados na escala evolutiva, sofrendo o efeito do nosso próprio egoísmo.
Agora vou dizer a minha opinião:
Nenhuma religião pode nos ligar com Deus.
— Robert!
— Nenhuma. Nem o Espiritismo é capaz de fazê-lo, com todas as suas provas científicas, com todas as suas teses filosóficas e toda a sua indicação religiosa.
Através dos ensinamentos da Doutrina Espírita, nós percebemos que ela nos indica, mostra-nos e esclarece o que devemos e podemos fazer para nos ligarmos a Deus.
Preste atenção, Rosa:
Somos nós, somente nós que nos ligamos a Deus, quando nos transformamos intimamente, não só em criaturas dotadas de inteligência, mas principalmente em criaturas inteligentes que utilizam esse atributo para o bem.
Nós temos que nos transformar em criaturas humildes e dedicadas à prática de atitudes cujas consequências morais, automaticamente, religam-nos com esse Criador Eterno.
A religião que disser que religa o homem a Deus ou que somente suas práticas e suas crendices agradam a Deus ou faz o Criador vir até nós, está mentindo.
Somos nós que temos que evoluir para nos elevarmos a Deus.
Jamais qualquer religião conseguirá me fazer evoluir se eu não me transformar em uma pessoa humilde, portador de actos morais elevados, despojada de orgulho, vaidade e egoísmo.
—Agora concordo com você, Robert.
E gostaria de lembrar que Jesus nos indicou também a prática da caridade.
—Todos temos inteligência, mas poucos a usam e, quando o fazem, atribuem essa talento a seu próprio favor e egoisticamente.
Aquele que já é inteligente, pensa, estuda, analisa e age, desenvolvendo a prática da boa moral, fazendo isso você já está começando a ser caridoso para consigo mesmo.
O que é caridade senão uma acção moral em prática!
Muitas religiões ensinam e pregam sobre a imortalidade da alma, mas somente a Doutrina Espírita ousou explicar cientificamente a reencarnação dando justificativas cabíveis e até incontestáveis ao que ensina.
A Doutrina Espírita também justifica o estabelecimento de regras para a comunicação entre os vivos e os mortos.
Mesmo que não admitam, todas as pessoas têm um interesse irresistível sobre a espiritualidade, sobre seu futuro após a morte.
Disfarçadamente elas especulam, ali e acolá, sobre a realidade do mundo dos espíritos. Que pena!
— Por que? Isso não é bom?
— Não. Se elas tivessem mais personalidade, mais carácter e segurança em si, além do desejo de evoluir, elas não procurariam satisfazerem pequenas curiosidades e procurariam a fonte de esclarecimento:
a Doutrina Espírita a fim de se fartarem de ensinamentos úteis e sem o risco de cometerem erros, e não participariam de acções ou comunicações isoladas dos espíritos.
Você disse que "O Livro dos Espíritos" não é religioso, baseado em que você diz isso?
No próprio livro, claro.
Ele é diferente de tudo o que as religiões mais diversas têm pregado.
Eu disse: "pregado" e não (?)
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 05, 2017 11:28 am

***
Robert nada mais explicou do que as colocações que encontramos em "O Livro dos Espíritos" em Poder oculto, talismãs, feiticeiros, no qual os espíritos e o codificador, nos explicam tão bem da pergunta 551 a 556 sobre a "chave de uma infinidade de fenómenos" que ignoramos.
"O livro dos Médiuns" onde é explicado sobre o atributo anímico de cada um.
Podemos, hoje em dia, muitas vezes, substituir a palavra anímico ou animismo, utilizada nos livros da codificação, pelo termo científico paranormal ou paranormalidade.
Como crentes de que o Pai Celeste é imparcial, bom, justo e sábio, temos consciência de que a "Seus olhos" não prevalecem as distinções sociais.
Assim sendo, seremos julgados pelo que fizermos em pensamentos e acções, pela nossa própria consciência.
"As faltas de uns, não justificam as de outros".
Toda vez que nos afastamos do caminho recto, com o desejo de saciarmo-nos material ou pessoalmente, forçando adquirir o que não nos seria permitido de forma natural, indica dívida e, cedo ou tarde, teremos de pagar.
O conjunto de qualidades de alto valor compõe o homem de bem.
Essas qualidades são o que agrada a Deus.
Mas vale ressaltar que o homem de bem não é somente o que tem "fé em Deus, no futuro e coloca os bens espirituais acima dos bens temporais, possui o sentimento de caridade e amor.
E bom, justo e benevolente para com todos sem distinção".
Homem de bem é, principalmente, aquele que se esforça, a cada dia, para possuir essas qualidades durante o caminho e interroga sua própria consciência sobre seus próprios actos, sobre suas violações, suas práticas no mal e no bem.
Essa vigilância constante exibe a fé de alguém no Criador e também mostra o desejo sincero dessa criatura a fim de evoluir.
O homem de bem aceita o que Deus lhe oferece, sem queixas.
Libertando-se das amarras quando não se prende ao medo do desconhecido e busca se esclarecer.
O mundo hoje é tão carente de socorro ao infortúnio quanto de socorro à ignorância, que escraviza e faz sofrer bem mais do que qualquer calamidade que o assole.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 05, 2017 11:28 am

11 - Fascinação

Em outro dia, Gonzales estava enfurecido e gritava com Nancy para que a mulher dissesse onde estava o filho, pois ele não o havia encontrado.
— Ele foi até a mansão da família Russel!
Tentou derrubar Rosa Maria das escadas porque somente ela poderá reconhecê-lo.
— Peter jamais faria isso!
— Ele roubou meu cofre!!!
Incendiou minha casa!!!
Onde ele está?!! -— gritava o homem descontrolado, pressionando a mãe de Peter sem perdão.
No mesmo instante, na casa do doutor David Russel, toda a atenção se voltava para o noivado de Henry e Margarida.
— Na próxima semana, Henry retorna de Oxford formado em seu curso e deveremos estar com tudo arrumado para o jantar de noivado -— informou o pai do noivo, entusiasmado.
— Senhor David —- perguntou Rosa Maria —- acredito que irá até Oxford para acompanhar as solenidades do encerramento do curso de Henry, estou certa?
— Sim, claro que irei.
Pretendo levar Margarida comigo, mas antes tenho que falar com o senhor Gonzales, mas creio que ele vai concordar.
Quer nos acompanhar, Rosa?
—Adoraria!
Mas devido às limitações, não será conveniente.
—Ah, Rosa! Vamos! -— pediu a jovem animada.
Faremos um passeio, não é tão longe e Robert também irá.
Muito tranquilo, o filho mais velho do dono da casa anuncia:
—Não, Margarida. Não posso ir.
Também não acho que seja conveniente que Rosa viaje.
Esse resfriado que ela apresenta não deve ser reforçado por intempéries bruscas.
Não se esqueça de que enfrentamos um rigoroso inverno.
Temo por complicações.
—Robert, não acredito que não vá prestigiar seu irmão! -— admirou-se a jovem.
Será também um passeio para Rosa!
—Tenho certeza que Henry vai compreender, não se preocupe.
Quanto à Rosa, nos raros dias em que o clima apresentar melhoras, poderá sair e passear aqui mesmo.
—Ficaremos lá cerca de quatro ou cinco dias, Robert.
Poderá controlar tudo por aqui e na clínica, não é? -— perguntou seu pai.
—Lógico! Não se preocupem, passeiem à vontade!
—Margarida -— tornou o doutor David —- pedirei à Elizabeth que nos acompanhe.
Converse com ela para que a ajude e oriente com alguns detalhes e apetrechos para a viagem.
Informaremos a seu pai que ela será sua "dama de companhia".
— Obrigada senhor David.
Vou falar com ela agora mesmo.
Outras criadas passaram a dispensar cuidados especiais à Rosa Maria para suprir a ausência de Elizabeth e Margarida, que lhe era tão prestativa.
Certa noite, Rosa Maria comentava com seu amigo as suas dificuldades.
— Não imagina como é difícil, Robert, depender dos outros para coisas tão pessoais e íntimas.
Foi difícil acostumar com Margarida e Elizabeth dispensando esses cuidados, mas com o tempo, acostumei-me.
Agora, com a ausência de ambas...
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 05, 2017 11:28 am

— Lembre-se, Rosa, somos todos espíritos que buscamos tarefas para aprender e evoluir.
Todos nós temos que oferecer oportunidade de trabalho aos outros.
Comece a pensar assim e veja se não se sente melhor.
— A propósito, Robert, você pensou na minha sugestão sobre frequentar uma sociedade Espírita onde poderemos, se for o caso, solicitar ajuda e amparo a fim de nos libertarmos dos tormentos que sofremos?
— Não só pensei como estou à procura de um grupo que proporcione estudo e trabalhos sérios.
Isso é importante analisar.
— Eu, Margarida, minha cunhada, suas filhas e outras amigas, iniciamos um grupo de estudos da Doutrina Espírita.
Mas depois de tudo o que me ocorreu, não sei dizer como estão caminhando.
Vou procurar entrar em contacto com Dolores.
Vendo-o cabisbaixo, Rosa não conteve a preocupação e perguntou:
— Você está bem, Robert?
— Fisicamente sim. Espiritualmente não.
Tenho pensamentos incompatíveis à minha moral, à minha disciplina e à minha fé.
Eu sei do que se trata, tenho consciência do que é certo e errado.
Porém cada dia está mais forte e temo perder o controle.
— Posso saber o que o abala ou o que sente?
— São pensamentos, Rosa.
Ideias inúmeras que me bombardeiam de desejos quase incontroláveis.
Muito sério, ele relatou:
— Penso sempre em todas as decepções que vivi, em meio a tanto comportamento correto que pratico, e ainda sofro.
Essas lembranças intensas me fazem concluir que tudo em que eu acredito, não vale a pena e é uma ilusão mentirosa usada para me satisfazer.
O desejo de morrer me assola, e o planeamento de um acto como o suicídio é constante.
— Robert! Por favor!...
— Acalme-se. Estou bem.
Tenho consciência.
Sou racional e abomino o acto do suicídio.
Sempre me socorro no Evangelho e nos ensinamentos que justificam a existência e a continuação da vida.
_ Você sabe que o socorro também deve chegar ao espírito lhe perturba, não é?
-Sim, eu sei.
Por isso estou à procura de um grupo sério.
***
Naquela noite, no meio da madrugada, Robert experimenta um terrível assédio espiritual durante o sono.
Ele acorda aterrorizado, sobressaltando num impulso instintivo de defesa natural.
Sentado em sua cama, o médico fazia uma prece buscando harmonizar-se.
Depois de alguns segundos, ouve-se um grito de pavor.
Era Rosa Maria que se fez ouvir de seu quarto.
Robert saiu às pressas e direccionou-se imediatamente ao quarto da jovem senhora.
Ao abrir a porta, surpreendeu-se quando deparou com a cama vazia.
Ao avançar alguns passos, alguém o atinge fortemente na nuca.
Caindo de joelhos, muito tonto pela pancada, procurou reagir.
Deu-se uma luta entre Robert e o invasor, que durou alguns segundos.
A iluminação era fraca, Rosa Maria se arrastava pelo chão com muita dificuldade e tentava se aproximar.
Em dado instante, a mulher apalpou no chão uma arma e a tomou para defender Robert do agressor.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 05, 2017 11:28 am

Disparou um único tiro, escutando um gemido curto e abafado.
Observou que alguém se evadiu enquanto um corpo tombava.
Robert caiu ferido.
Rosa Maria gritou desesperadamente tentando chegar até ele.
Ninguém a ouvia.
— Robert! Por favor! Robert!
Gritava ela, tentando agitá-lo com dificuldade.
Mesmo sem conseguir ver o local do ferimento, ela pôde observar que o sangue jorrava em abundância.
Depois de algum tempo, seus gritos foram ouvidos pela criadagem.
O mordomo, Oliver, rapidamente colocou Robert sobre a cama.
Nenhuma das criadas conseguia fazer Rosa Maria se controlar.
— Senhor Robert?! -— dizia o mordomo, tentando despertá-lo.
O médico abria os olhos esmorecidos, entregando-se ao desfalecimento.
Oliver tomou a iniciativa de estancar o sangue, fornecendo os primeiros socorros, mesmo que precários, levando, o quanto antes, o patrão ao centro da cidade para ser tratado por um profissional.
Um colega de profissão foi despertado no meio da madrugada.
O médico assustou-se com o ocorrido.
Enquanto tratava do ferimento, o doutor perguntava ao mordomo solícito que socorreu seu colega.
— Como isso foi acontecer?!
A família Russel é composta de excelentes pessoas!
Inconformado, ele confiava relatando:
— Devo muito a eles, principalmente a Robert.
Hoje, eu não seria médico se não fosse por ele.
Tive dificuldades financeiras e até emocionais.
Tanto Robert quanto seu pai ajudaram-me muito!
Estudamos juntos em Oxford.
Não só eu, mas também outros colegas do condado lhe são imensamente gratos.
— Eu também devo muito a eles, doutor -— dizia Oliver.
— Eles não são meus patrões, são a minha família.
Tenho filhos e, como o senhor sabe, sempre há um que nos dá excesso de preocupação.
Passei por sérias dificuldades e, se não fossem eles, eu e minha esposa não teríamos onde morar.
Os patrões nos compreendem, nos ajudam e participam da nossa vida.
Se algo acontecer...
_ É estranho que alguém os queira mal, invadindo-lhes a residência.
Creio que muitos nessa cidade lhes devam favores.
Robert e seu pai clinicam gratuitamente, oferecem medicamentos e tratamentos prolongados...
Até o conselho da cidade os homenagearam em público!
_ O que o senhor acha, doutor? -— perguntava o mordomo que não foi retirado da sala enquanto Robert era atendido.
— Ele vai ficar bem?
— Perdeu muito sangue.
Estanquei a hemorragia. Ficará bom.
Pouco depois, ao ver Robert voltando a si, o médico ressaltava:
— É, meu amigo, teve sorte!
Alguns centímetros a mais... teríamos um grande prejuízo.
Vendo Robert mais lúcido, concluiu:
— Há de se sentir fraco pela perda de sangue e...
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 05, 2017 11:28 am

Ah!... veja a quem estou orientando... -— disse o doutor sorrindo ao lembrar que tratava de um médico.
— Sente-se bem?
— Sim.
Robert começou a rir e o colega, sem entender, perguntou:
— Do que está rindo, fiz algo errado?
— Lembrei-me de que o amigo é uma alma muito rara, que procura nos ajudar a satisfazer todos os desejos, auxilia-nos em nossos sonhos...
— E daí? -— perguntou o interlocutor.
— Foi a minha melhor amiga quem me feriu quase mortalmente.
Estou pensando se ela tentou satisfazer algum desejo que eu tivesse manifestado.
Robert riu novamente e o colega de profissão esboçou suaves traços de contentamento por não entender a análise do amigo.
Mais tarde, trazendo o braço imobilizado e preso ao corpo, Robert retorna à mansão da família Russel e só então Rosa Maria contém o pranto que estava incontrolável.
—Acalme-se, Rosa -— pedia ele sentado em sua cama, afagando-lhe os cabelos com a única mão que restava.
A jovem senhora recostou em seu ombro sem conseguir falar.
— Não sei onde a senhora encontra tanta lágrima -— dissimulou a empregada, tentando mudar o clima.
Robert, mais refeito e usando de moderação a autoridade que possuía, perguntou com firmeza:
— Onde você estava?
Fitando-a com os olhos arregalados, a moça tentou dizer timidamente:
— Precisei descer, senhor...
Ela havia sido designada para cuidar de Rosa Maria e dormir naquele quarto.
— Vou perguntar novamente.
Onde você estava e, por quê? -— tornou o patrão firme e ponderado.
— Eu... -— tentou dizer a moça abaixando a cabeça.
Depois de uma pausa, o médico insistiu:
— Você saiu da casa?
— Eu precisei...
Vendo-a sem coragem, Robert concluiu:
— Você saiu da casa, não avisou ninguém, abandonou a senhora sozinha e, para não ter dificuldade ao retornar, deixou a porta aberta, o que facilitou a entrada do intruso. Não foi?
— A criada começou a chorar e abraçou-se a sua companheira.
Robert suspirou profundamente, exibindo seu descontentamento.
Virando-se para Oliver, ele pediu:
— Elas podem ir.
Dê-lhe outra tarefa de menor responsabilidade e chame alguém competente e de confiança para cuidar da senhora.
— Sim senhor. Farei isso.
Mas se me permite?...
— Diga, Oliver.
— Minha irmã chegou semana passada na cidade.
Ela é moça, mas é responsável.
Está hospedada na casa de nossa tia...
Robert sorriu e perguntou:
_ Por que não a trouxe para cá?
Vamos homem! O que está esperando?!
Oliver sorriu e apressou-se, pois o dia já era claro.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 06, 2017 10:29 am

Mantendo Rosa Maria recostada em seu ombro, o médico brincou:
_ Não precisava se esforçar tanto para realizar todos os meus desejos, minha amiga!
Rosa Maria recompôs a postura e tornou a alinhar-se.
Tocando-lhe a face de leve a fim de colher as últimas lágrimas que brotavam, ele perguntou:
—Você está bem?
—Fiquei tão desesperada...
— Não vamos mais falar nisso.
Já é dia. Tudo já passou.
Pedi ao chefe de polícia que compareça nesta casa a fim de prestarmos queixa.
Não vai demorar e ele estará aqui.
Onde foi parar a arma?
—O cocheiro, Carl, a pegou.
Disse que ia guardá-la.
—Certo. Vou falar com ele.
—Perdoe-me, Robert.
Por favor, perdoe-me?
— Se é para tranquilizá-la, não está perdoada!
Vou penalizá-la a me ouvir pelo resto de seus dias, ou dos meus para que retribua com tarefa activa o mal que me provocou.
Foi o único instante, depois do acidente, que Rosa Maria sorriu, mesmo embaraçada.
—Onde acertou exactamente o tiro?
Oliver disse que você escapou por pouco.
—Acertou nas costas, na altura do ombro, muito perto da cervical.
Mais um ou dois centímetros minha coluna, ou até a vida, ficaria comprometida.
A sorte foi que o projéctil não se aprofundou e pôde ser retirado com facilidade mesmo tendo Perfurado uma veia.
— Por que a imobilização do braço?
— E que os movimentos provocam dores.
Reflectindo um pouco, ele lembrou:
— Veja, Rosa, faltam cerca de dez dias para o noivado de Henry e Margarida, vamos procurar não fazer alarde para não atrapalharmos a felicidade dos noivos, porém não vamos descuidar.
Vou providenciar a segurança da casa e ficaremos atentos.
Só uma pergunta:
você conseguiu ver, com detalhes, o rosto do invasor?
— Não -— afirmou ela.
— Tudo foi muito rápido.
— Sem problemas.
Eu também não pude ver, mas posso dizer que o porte físico é o mesmo de quem lhe empurrou da escada e se atracou comigo no jardim.
Vamos deixar a polícia tomar conta do caso e prestaremos todas as informações que puderem favorecer.
***
Com o passar dos dias, todos retornaram de Oxford.
A aproximação do dia do noivado causava muita animação e expectativa.
O jantar que comemoraria o evento, apesar de reservado aos parentes e poucos amigos, deveria ser em grande estilo.
No dia, a criadagem recebeu informações para prepararem a mesa de jantar com luxo e requinte.
Assim como as iguarias a serem servidas, foram muito bem seleccionadas.
A mansão estava lindamente enfeitada para o Natal que seria naquela mesma semana.
Ramos de arminhos e grandes laços de veludo vermelho contornavam as escadarias e os portais.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 06, 2017 10:30 am

Sobre as lareiras, arranjos com motivos natalinos davam um ar festivo e alegre ao ambiente.
Um músico, especialmente contratado para abrilhantar a cerimónia, executava agradáveis melodias ao piano, quando Margarida apontou no patamar da escadaria, atraindo a atenção de todos.
A jovem parecia flutuar ao descer degrau por degrau.
Tinha-se a impressão de que o belo vestido teria sido feito sob encomenda especial para aquela jovem.
O tom de leve rosado em fundo azul possuía a leveza delicada e suave em alto estilo clássico em que o talhe discreto realçava-lhe a beleza juvenil.
O pai do noivo ficou impressionado e sentindo imensa satisfação, curvou-se ante à escolhida de seu filho, cumprimentando-a como pedia a educação de um cavalheiro inglês.
Margarida, depois de agradecer, aceitou a oferta do cavalheiro que aguardava com o braço direito curvo, escondendo o outro atrás das costas a fim de levá-la ao seu lugar à mesa.
A tia de Margarida e as primas não tinham palavras que pudessem expressar a admiração que experimentavam.
Henry, maravilhado, não tirava o sorriso do rosto.
Rosa Maria sentia-se realizada, enquanto o pai da moça ostentava um ar de orgulho e satisfação.
Os demais estavam encantados e alegres.
Após o jantar solene, o doutor David Russel anunciou a todos o casamento de seu filho Henry com a senhorita Margarida para o próximo verão.
Com excepção de Robert, o doutor David surpreendeu a todos quando passou para o filho Henry o precioso anel de brilhante, que fora de sua esposa Anne Russel, para ser o anel do noivado presenteado à Margarida.
Ninguém podia esconder a alegria que os invadia pelo acontecimento.
Um pouco mais tarde, como de costume, os homens se reuniram em um outro cómodo, e as mulheres continuaram em animada prosa.
O senhor Gonzales fazia questão de saborear um licor enquanto desagradava o bem estar dos demais com o odor do seu tabaco.
—Não bebe, senhor Robert? -— perguntou o pai da noiva.
—Não, senhor -— afirmou o médico.
—Nem fuma? -— tornou ele.
—Não. Ninguém da nossa família faz uso de álcool ou tabaco.
—Penso tê-lo visto beber quando esteve em minha casa!
—Perdoe-me, senhor Gonzales, mas o senhor nos ofereceu os cálices de licor, colocando-os em nossas mãos, sem nos dar oportunidade de recusar.
—Mas vocês beberam! -— insistiu Gonzales.
—Não, senhor.
Nós ostentamos o cálice por algum tempo, depois o depositamos na bandeja.
Creio que não tenha observado.
—A propósito, senhor Gonzales -— interferiu o doutor David Russel.
É de impressionar sua pistola estar em poder do invasor da nossa residência naquele dia, não acha?
—Sim. Fiquei surpreso ao ver a arma e identificá-la.
Eu mantinha aquela pistola dentro do meu cofre -— confirmou Gonzales.
Com toda certeza, o homem que esteve aqui foi o mesmo que incendiou minha casa.
Ele deve acreditar que Rosa Maria possa reconhecê-lo.
—Exactamente -— confirmou o médico.
Por essa razão solicitamos reforço na segurança da propriedade.
—Desculpe-me causar tantos problemas a todos aqui, mas foi o senhor e seu filho que insistiram para elas ficarem.
Eu iria levá-las para a casa de minha irmã.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 06, 2017 10:30 am

Agora... veja só como Rosa retribui tanto favor!
Quase matou seu filho!
Com cautela, Robert reagiu:
— Não a culpe, senhor Gonzales. Foi um acidente.
Lembremos que sua esposa queria me defender, não houve intenção.
_ Por mim, Rosa estaria na casa de Dolores.
Estão incomodando demais.
_ De forma alguma! -— recusou o dono da mansão.
Sabemos que a senhora, sua irmã, não dispõe de acomodações adequadas e, segundo ela mesma, está sendo difícil manter a casa.
Preocupado, o senhor Gonzales confessou:
— É verdade. Meus negócios não estão indo bem...
Mas, assim que possível, verei a possibilidade de tirar Rosa Maria daqui.
Como Margarida estará casada, terei de acomodar somente Rosa em outro lugar.
— De forma alguma, senhor Gonzales! -— revidou Robert, impensadamente, sendo censurado por seu pai, de imediato, com um olhar repressor.
A senhora Rosa Maria não está nos incomodando em nada -— tornou ele mais cauteloso.
— Tememos por sua saúde e afirmamos que ela necessita de muitos cuidados e atenção.
— É verdade. Eu percebi -— afirmou o pai de Margarida.
Ela está me parecendo fraca...
Não estou reclamando -— corrigiu ele a tempo.
— Vejo que é próprio da paralisia que a maltrata.
E se com todos os cuidados que recebe aqui ela está assim... morando comigo Rosa estaria pior.
— Além do mais, senhor Gonzales -— informou o doutor David Russel - Rosa Maria sofreu muito e, como já lhe relatei, sua vida não será mais a mesma.
Aqui, além de receber acompanhamento médico, Margarida pode lhe dispensar muita atenção, carinho e cuidados pessoais que, tenho certeza, Rosa Maria não gostaria de receber de outras acompanhantes.
Todos nós gostamos muito dela e sentiríamos, imensamente, não poder tê-la perto.
A verdade, senhor Gonzales -— alertou Robert —- é que meu pai gosta de movimentação pela casa.
Ele a acha muito grande.
— É verdade!
Não vejo o momento de ter aqui, meus netos, meus herdeiros!
A conversa prosseguiu animada.
Mais tarde, com o passar das horas, todos se foram.
Margarida, Elizabeth e Rosa Maria ainda estavam na sala conversando.
O doutor David Russel, muito observador, perguntou:
— Você está bem, Rosa?
Parece estar tão abatida!
Com voz generosa e agradecida, a jovem senhora explicou:
— É cansaço, senhor David.
Não estou mais acostumada a ficar até tão tarde.
— Nós esquecemos de Rosa! -— exclamou Henry.
— Como fizemos isso? Com a animação...
Dirigindo-se para próximo dela, o noivo de Margarida solicitou:
— Elizabeth, por gentileza, providencie o leite de Rosa e peça para alguém ir à frente arrumando-lhe a cama!
Irei levá-la para seu quarto.
Animado, Henry a pegou em seu colo e subiu as escadarias da mansão em direcção aos aposentos da senhora.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 06, 2017 10:30 am

— Quanto trabalho e esforço eu exijo de vocês, não é mesmo, Henry? -— dizia Rosa Maria, tímida e até entristecida, ao ser carregada.
— Não há esforço nem julgamos trabalho quando podemos ajudar aqueles que amamos, Rosa! -— dizia o noivo ao colocá-la sobre a cama.
— Nós nos sentimos úteis.
Após acomodá-la, ele ofereceu:
— Posso ajudar em mais alguma coisa?
— Não! Não! Não! -— exclamou Elizabeth com modos brejeiros. —
Agora é comigo.
Pode se retirar.
— Tenha uma boa noite, Rosa.
Muito obrigado por tudo! -— disse Henry beijando-lhe a testa como sinal de gratidão.
— Por que me agradece, Henry?
_ Por tudo, Rosa!
Pelo seu exemplo de vida... pelo seu amor.
Boa noite! Com licença -— cumprimentou o jovem, educadamente, como era de costume.
Robert e seu pai também foram até o quarto se despedirem de Rosa, mas Elizabeth tratou de apressar-lhes a retirada a fim de oferecer a ela os devidos cuidados.
Antes de entrar em seu quarto, o doutor David perguntou ao filho:
— E o ferimento, Robert? Como está?
— Perfeito. Sem problemas.
— Robert? -— tornou o pai.
O que o intriga?
Ele parou, reflectiu e depois confessou:
— Temo por esse homem querer tirá-la daqui.
Ele é rude, indelicado e até...
— Até?...
— Cruel! -— afirmou Robert, encarando seu pai.
— Ele não tem um pingo de escrúpulo, bom senso.
Penso que se ele quiser tirá-la dos nossos cuidados e atenção...
— O que você fará?
—Certa vez, eu prometi a Rosa Maria que iria ajudá-la, e eu o farei, nem se para isso tenha de provocar um escândalo nessa sociedade.
Se eu souber que o senhor Gonzales vai tirá-la de nós e não houver o que o faça mudar de ideia, vou levá-la para bem longe desse homem.
Mesmo que precise encerrar minha carreira em Londres como médico.
—Todos os lugares do mundo nos pedem referências, Robert.
Você é um médico, não se esqueça.
—Darei um jeito, meu pai. Vou para o novo mundo.
América, colónias francesas, Brasil... há tantos lugares necessitando de profissionais nessa área sem muita exigência.
Além do que, sou bom profissional e, às vezes, penso se outro clima não seria melhor para ela.
— Acalme-se, filho.
Não creio que Gonzales tire Rosa Maria de nossos cuidados.
Ele não quer ter preocupações.
Fiquei sabendo que seus credores o estão pressionando.
Acho que comentou o facto de levar Rosa para outro lugar somente para parecer preocupado.
—O senhor sabe algo que ignoro?
—Talvez.
—Pode me contar? -— insistiu Robert.
—Entre aqui em meu quarto.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 06, 2017 10:30 am

Robert aceitou.
Margarida, que vinha trazendo um recipiente com o leite para Rosa Maria, ouviu toda a conversa escondida na curvatura da escada.
O dono da mansão e seu filho passaram a dialogar no quarto, só que com a porta aberta.
O pai passou a actualizar Robert sobre as notícias mais recentes.
— Algumas informações sobre a vida pessoal do senhor Gonzales vieram à tona com as investigações sobre o incêndio, a invasão à nossa residência e o atentado à Rosa Maria.
A polícia descobriu que esse homem possui outra família nos subúrbios desta cidade.
— Outra família?! -— surpreendeu-se Robert.
— Sim. Ele mantém uma outra mulher e um filho que, parece-me, não foi reconhecido.
As suspeitas apontam para esse rapaz que, até agora, não foi encontrado.
— Rosa Maria sabe algo a respeito dessa outra família?
— Creio que ela nem imagina.
Nem mesmo Gonzales tomou conhecimento do que as investigações descobriram a seu respeito.
—Que estranho... -— observou Robert.
—Robert, você sabe do que Gonzales vive?
— Do comércio, claro.
Ele possui várias lojas no comércio.
Não somente aqui, mas em outros pontos do Reino Unido e me parece que até na Espanha. Por quê?
_ Você sabe qual o ramo do comércio?
_ É... É sortido.
Ele não tem um ramo específico.
Sei que vende desde tecidos até móveis e alimentos.
Depende do local onde a loja se encontra instalada. Por quê?
_ Talvez eu não devesse lhe contar, pois obtive essas informações por meios não oficiais.
Mas a primeira coisa que descobriram sobre Gonzales, é a evasão de impostos e receptação.
—Isso é crime!
Ele vende mercadorias que foram adquiridas ilicitamente?!
Através de roubos?!!!
—Tudo indica que sim.
E seus credores o estão pressionando depois que ele perdeu a residência e todas as economias.
—Nem consigo acreditar!
Então isso explica porque ele guardava suas economias no cofre de sua casa e não em um banco!
Sempre achei estranho alguém guardar tamanha soma em casa!
—Que isso fique entre nós, Robert.
Confiei a você para que verifique o quanto Gonzales está preocupado com outros assuntos, e Rosa Maria e a filha serão suas últimas preocupações.
Não tome atitudes precipitadas.
—E se ele, por um impulso de possessividade, quiser Rosa junto a ele para fugir?
—Rosa oferece preocupações e muito trabalho.
Não creio que faça isso.
Só não quero que tudo venha a público até o casamento deles.
Seria muita tristeza e até vergonha para a moça.
Depois de alguns segundos de silêncio, enquanto ambos reflectiam, Robert decidiu.
—Pai, posso lhe fazer uma pergunta?
—Sem dúvida, Robert.
As vezes eu não entendo como o senhor pode concordar com tudo o que está acontecendo sem se abalar.
O senhor sempre levou uma vida tranquila e equilibrada e, de repente, passa a experimentar a casa invadida, preocupações com o que não lhe pertence, atentado.
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