O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 06, 2017 10:31 am

E, com tudo isso, não se altera, não nos chama a atenção.
Orienta... Por quê?
Após pensar um pouco, o doutor David respondeu:
— Talvez por eu ver em Rosa Maria e Margarida as filhas que eu não tive.
Você sabe que, entre você e Henry, eu e sua mãe tivemos duas filhinhas e elas faleceram com poucos dias.
As gémeas eram muito fraquinhas, não resistiram...
Sabe... sempre me pego sonhando como seríamos animados com elas...
Teríamos uma casa cheia.
Risos, alegrias...
Quem sabe tenha despertado em mim o instinto de ajudar essas damas como as filhas queridas...
Elas são minhas filhas do coração.
Eu sei que você pode entender isso.
— Ainda não acredita no Espiritismo, não é, meu pai?
— Já li tudo aquilo que você me ofereceu, mas não estou preparado para assumir nada.
— O senhor já assumiu, meu pai.
— Como assim?
— O senhor assumiu ser um homem de bem.
Robert abraçou seu pai com carinho e depois se retirou.
***
Nos dias seguintes, Margarida ainda estava sob o efeito do encantamento de sua felicidade com o noivado.
Lamentava não poder sair de casa para passear no jardim devido à neve que não ofertava trégua.
Mesmo assim, recebia constantes visitas de suas primas.
Robert e Rosa Maria conversavam animados quando ele perguntou:
— Eu a vi conversando com sua cunhada no dia do noivado, falou-lhe a respeito das reuniões que desejamos?
_ Sim, Robert. Mas não sei...
Nada do que Dolores falou, agradou-me.
— Por quê?
_ Porque, como toda ciência, o Espiritismo não pode ser visto como brincadeira, e só acreditar na existência de espíritos, não faz de alguém uma pessoa esclarecida.
Muito se precisa aprender para se tornar responsável e não se ter consequências ruins.
—O que quer dizer?
Por acaso Dolores está usando a mediunidade erroneamente?
—Deus nos permite a mediunidade para nossa instrução e não para nossa exibição.
As pessoas desejam arrumar desculpas para suas atitudes incorrectas, e Dolores não é diferente.
—O que ela está fazendo de tão errado?
—Minha cunhada é uma boa médium, no entanto sua faculdade mediúnica está abalada pela falta de equilíbrio dos seus próprios pensamentos e desejos.
Reconhecemos a obsessão ou até a auto-obsessão por uma série de apontamentos, entre eles:
o médium sempre se ofende quando alguém faz críticas às suas comunicações; além do que, o médium confia absolutamente na infalibilidade e na identidade dos espíritos que se comunicam por ele; nos elogios recebidos desses espíritos; na vontade sentida frequentemente em ter de dar comunicações...
—Perdoe-me interrompê-la, Rosa Maria, mas isso é falta de educar a mediunidade através de estudos.
—Não é só isso, Robert.
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Ave sem Ninho

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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 06, 2017 10:31 am

Muitas vezes, pode-se ter estudado tudo sobre Espiritismo e ainda se deixar levar por acontecimentos assim.
—O que sua cunhada apresenta, especificamente, que você acredita ser desequilíbrio mediúnico?
—Dolores dificilmente está assumindo sua opinião própria.
Na maioria das vezes em que vai dar um parecer, ela diz:
"um espírito acabou de me dizer que..." ou então:
"sinto uma inspiração de que devemos fazer isso...".
Nós sabemos que não é em tudo que os espíritos nos inspiram e oferecem conselhos, principalmente quando se trata de espíritos evoluídos.
Eles nos deixam ter ideias próprias para que aprendamos a usar o bom senso e saibamos discernir o certo do errado.
Caso os espíritos dêem opiniões em nossos afazeres, estarão interferindo em nosso livre-arbítrio, fazendo-nos perder a oportunidade de que necessitamos, prejudicando-nos, uma vez que teremos de passar novamente pela mesma experiência em um futuro próximo, e sabe-se lá Deus em que condições.
Se resolvermos nossas dificuldades porque um espírito nos ajudou, deixamos de evoluir e ficaremos endividados.
Sabe, Robert, ninguém fica mediunizado vinte e quatro horas por dia. Isso não existe!
Além do mais, nenhum mentor fica ostensivamente nessas mesmas vinte e quatro horas e através de inspirações, dizendo o que devemos fazer.
Se um médium disser isso, é mentira!
Pois se assim fosse, o mentor estaria "vivendo" pelo médium, ou através dele, e isso é impossível.
É contra as leis naturais.
Nesse caso, podemos perceber a nítida fascinação do médium e sua falta de bom senso e educação mediúnica.
— O que Dolores diz exactamente? -— perguntou Robert interessado.
— Além de dizer estar em constante contacto com os espíritos e que eles a aconselham sobre tudo, Dolores só acredita dar comunicação de espíritos de grandes personalidades, quando encarnados.
Ela não é capaz de aceitar a comunicação de um nome desconhecido.
Parece que todos os espíritos célebres só dão mensagens por ela... Entende?
Isso é vaidade.
Há inúmeros espíritos ilustres que se manifestam e utilizam nomes que desconhecemos até por humildade, e acabam por nos passar grandes trabalhos e lições de vida.
E o médium, por orgulho, ou não admite ou lhe troca o nome simples, adoptando um que promove atenção a quem o ouça.
Como se isso tudo não bastasse, Dolores admite que os espíritos lhe "enviam" pessoas de posses, vamos dizer assim, para que ela, através da mediunidade, oriente-as e, em troca disso, a médium aceita as ofertas que esses lhes dão como pagamento.
— Sua cunhada está cobrando pelo trabalho mediúnico?! -— assustou-se Robert.
— Está. Dolores alega passar por situação difícil e, por essa necessidade, precisa aceitar o pagamento.
— Desculpe-me comentar, Rosa, mas Dolores está recebendo nossa ajuda material e, ultimamente, vejo que suas filhas, Isabel e Elisa, não saem desta casa e aceitam as generosidades da prima Margarida.
— Entendo que a presença das jovens nesta casa pode incomodar...
— Não! -— reagiu Robert educado.
— Não lembrei isso com essa intenção!
Por favor, Rosa...
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 06, 2017 10:31 am

— Sou eu quem afirma esse incómodo, Robert.
Não aprovo a presença constante das primas de Margarida aqui.
— Ora, Rosa, isso ocorre pelos preparativos do casamento.
É a animação normal pela aproximação dessa data tão especial.
— Mas o comportamento dessas moças...
Sabe do que estou falando.
Sei que você mesmo experimenta o... o...
Vendo que Rosa Maria não completava a frase à procura de termo correto, ele indicou:
— ... assédio.
— Sim... o assédio dessas moças.
Robert sorriu sem jeito, mas confirmou:
— É verdade, Rosa.
Já conversei com meu irmão a respeito e o alertei, principalmente pelo facto de Isabel recorrer constantemente a consultas médicas com ele, sem causa lógica.
— Eu não sabia disso!
— Não se preocupe.
Conforme minha orientação, Henry alegou à moça que "Uma vez que ele não conseguia diagnosticar o problema que a incomodava, iria passar o caso a seu pai, um médico muito experiente.
Afinal, ele ainda precisava de orientações, pois havia se formado há pouco tempo".
Sabe o que aconteceu?
— Não.
—Isabel não retornou mais às consultas.
Mesmo assim, vejo que, quando está nessa casa, ela se investe sobre o noivo da prima, enquanto a irmã procura distrair os cuidados de Margarida.
—Isso quando não o procura para lhe tomar a atenção, não é? —- perguntou Rosa Maria com um suave sorriso irónico.
Robert também sorriu.
—Isso será temporário, o casamento de meu irmão se aproxima e, depois, não creio que haverá motivos que mereçam tantas visitas.
—Não sei não -— desconfiou a jovem senhora ainda sorridente.
—Mudando de assunto, sabe me dizer se o senhor Gonzales está ansioso com o casamento?
—É estranho, Robert.
Vejo o senhor Gonzales muito diferente.
Constantemente está agitado, nervoso e mal consegue concentrar-se no que comentamos a respeito do casamento.
Deve estar com sérios problemas.
O prejuízo que teve foi grande e sua situação financeira não é das melhores.
—Ele tem nos visitado pouco.
—É verdade, porém...
Diante da frase incompleta, o cavalheiro perguntou:
—Porém?...
—Talvez seja melhor assim.
Robert compreendeu que Rosa Maria não queria a presença de seu esposo na casa.
Sentiu que ela também temia que Gonzáles, restabelecendo-se financeiramente, pudesse querer levá-la para morar com ele.
— Fique tranquila, Rosa.
Não creio que o senhor Gonzales queira tirá-la da companhia de Margarida, que lhe cerca de tantos cuidados.
— Tomara. Sem motivos justificáveis, minha cunhada quer que eu vá morar com ela.
Disse-me que iria falar com Gonzales a respeito do assunto, mesmo diante de minha recusa.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 06, 2017 10:31 am

Robert ficou preocupado e salientou:
— Não vejo motivos para Dolores pensar assim.
Nada justifica esse pedido.
Talvez sua cunhada esteja mesmo desequilibrada.
Ela não vê que você precisa de muitos cuidados e necessita de alguém com tempo disponível, ou de criados satisfeitos a fim de que trabalhem com dedicação?
Ambos se calaram por alguns minutos, mas logo depois, Rosa Maria perguntou:
— Visitou a Sociedade Espírita à qual me disse que iria?
— Ah! Sim. Fui até lá e, mesmo conversando rapidamente com alguns dos frequentadores, pude sentir que se trata de um grupo muito bom, sério, que cultiva os estudos.
Eles exibiram muita boa vontade. Tivemos sorte.
Você sabe, na Inglaterra é difícil encontrarmos grupos espíritas.
— Explicou a eles o nosso caso sobre os sonhos?
— Não. Procurei primeiro conhecer o tipo de trabalho que realizam, como os estudos, por exemplo.
Não vou confiar detalhes particulares de nossas vidas a um grupo de adivinhos, fanáticos ou mistificadores.
Temos de tomar cuidado a fim de não sermos enganados.
Por eu ter gostado do que me foi apresentado, voltarei para conversar com alguém indicado para orientação e, quem sabe, de acordo com o horário, pretendo unir-me ao grupo de estudo.
Conforme for, tenho ideia de levá-la para as reuniões, caso queira me acompanhar.
Os olhos de Rosa Maria brilharam, mas, logo em seguida a jovem senhora considerou:
— Não posso. Como irei?
Haverei de causar inúmeros transtornos por causa da minha deficiência.
— Sabe... é chegada a hora das pessoas que têm limitações não ficarem mais enclausuradas.
O mundo precisa se adaptar a elas e elas, por sua vez, têm de parar de se envergonharem do mundo.
Bem... não creio que você será um transtorno.
Sua companhia muito me agradaria.
Veja, lá não há escadas.
Além do mais, sair de casa só lhe fará bem.
Mas primeiro deixe-me frequentar algumas reuniões para ter mais confiança no grupo.
A jovem senhora ficou contente e animou-se com a ideia.
***
O casamento do filho mais novo do doutor David Russel foi um acontecimento marcante para a sociedade da época, pois o estimado médico disse que não poupassem dinheiro para traduzir na festa toda sua satisfação.
Na manhã do enlace, Margarida é despertada por Rosa Maria que, em sua cadeira de rodas, estava mais alegre que nunca.
— Margarida, levante-se!!!
Hoje deve ser o primeiro dia de uma felicidade imensa que, eu acredito, será sua vida de hoje em diante com Henry!
A noiva despertou feliz e exibindo satisfação, argumentou:
— O que eu faria sem você, Rosa?
— Eu desejaria estar em melhores condições para poder ajudá-la mais.
Uma leve tristeza toldava o olhar de Rosa Maria, provavelmente, por ter de resignar-se a ficar na cadeira de rodas para sempre.
Nesse momento, entra Elizabeth com toalhas, pente, escova e tudo mais, falando brejeiramente, alertou:
_ Hoje não é dia de tristeza!
Vamos menina! Apresse-se!
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 06, 2017 10:31 am

Não tem o dia todo!!!
Depois de banhar, pentear e perfumar a jovem Margarida, a gentil ama foi buscar o vestido de noiva.
Nesse instante chegaram as primas da moça; Isabel e Elisa, lembrando à jovem a tradição de usar algo que foi de sua mãe.
Assim, chamaram o senhor Gonzales para lhe entregar um lindo colar de pérolas que Estella usou no dia de seu casamento.
Por sorte, a tia Dolores conservou a jóia, do contrário teria se perdido no incêndio.
Como uma princesa, Margarida entrou no lindíssimo vestido confeccionado em uma maison francesa, uma casa onde se costurava as mais finas roupas femininas da época.
Todo de rendas brancas, bordado com minúsculas pérolas, enfeitando os miolinhos de delicadas flores que compunham o corpete e o barrado do elegante traje.
Como auréola, a noiva sustentava uma grinalda de pérolas, flores e um farto véu, descendo até o barrado do vestido e sobressaindo na longa cauda que se arrastava pelo chão.
Na mão direita, o anel de noivado completava o brilho.
Estando pronta, a noiva correu para sua amiga e a abraçou como nunca, demonstrando todo amor e gratidão.
Eram duas almas queridas que, mais uma vez se uniam, na alegria ou na tristeza, auxiliando-se a todo tempo.
Ao descer as escadarias da mansão, a belíssima noiva deu o braço a seu pai, que a conduziu, como se flutuasse até o salão onde o juiz de paz, encarregado de realizar a cerimónia de contrato de casamento, esperava-a, juntamente com o noivo, as testemunhas e demais convidados.
O doutor David Russel não deteve as lágrimas de emoção e, por alguns segundos, ficou imaginando como seria poder desfilar, daquela mesma forma, com as filhas que perdeu tão novinhas.
Ele sempre sonhou em estar de braços com uma filha, em trajes tão belos, a fim de entregá-la ao pretendente.
Como ele desejou realizar esse sonho!
O salão nobre da mansão da família Russel estava lindamente enfeitado com arranjos de lírios brancos e laços perolados da mesma cor em preciosos vasos de porcelana inglesa, tão a gosto da época.
Repuxos feitos com véus brancos, tornavam o ambiente principesco.
Após a cerimónia, que provocou fortes emoções, todos foram conduzidos ao jardim onde, em volta do lago adornado com dois casais de lindos cisnes brancos, havia mesas paramentadas, repetindo, no local, a mesma decoração requintada existente no salão em que foi realizado o cerimonial do enlace.
Lindíssimo bolo era o centro das atenções de quantos se aproximavam da mesa dos comestíveis.
O pátio central desse jardim, onde bancos de pedra e ferro compunham uma agradável pracinha, serviu para que o baile fosse realizado e os nubentes pudessem dançar a tradicional valsa.
Apesar de sua condição, Rosa Maria, enternecidamente e sem perceber, olhava para Robert e para os noivos, parecendo que vivenciava ela própria tamanha felicidade.
Traduzindo em seu meigo olhar, o brilho próprio das almas simples e sinceras.
Foi realmente um dia encantador na mansão daquela família.
Há tempos as portas do salão de festas não se abriam, vivendo-se, ali, um conto de fadas.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 06, 2017 10:32 am

12 - Laços

A felicidade pela grande festa do casamento parecia ainda permanecer viva no coração dos moradores da mansão, mesmo havendo se passado algumas semanas.
Enquanto que o senhor Gonzales praticamente já havia se esquecido
das alegrias experimentadas, tendo em vista tantos tormentos íntimos.
Na casa de Nancy, uma discussão muito acalorada agitava-os.
— Peter não fugiu! -— defendia a mãe.
— Então por que ele não aparece?!
Como Peter está sobrevivendo sem dinheiro?!
Aí está a prova de que foi ele quem me roubou!!!
— Meu filho não é ladrão!
Nesse instante, Peter entra na casa e assiste à cena.
Inflamado pela emoção, parte em defesa de sua mãe, dizendo:
— Não fale assim com ela!
Se não está bom aqui, suma!!!
— Não se atreva a falar assim comigo, moleque! -— intimou o pai nervoso.
— Quem é você para gritar comigo?!
Você não tem moral, nunca teve!
Além do mais, você não é nada meu!
Não tenho seu nome!
Gonzales foi na direcção de Peter, que puxou uma arma para se defender.
Ao vê-lo empunhá-la, Gonzales se deteve.
— Covarde! -— gritou Peter, desafiando-o.
Faz isso comigo, mas não tem coragem de ir lavar sua honra enlameada por sua mulher!
— Não sei do que está falando, moleque!
— Cale-se, Peter! -— gritou a mãe. — Não comece...
— Ele não é homem, mãe!
Se o fosse, não viria para cá a fim de se esconder, envergonhado, pois toda a cidade sabe que a senhora Gonzales o desonra em praça pública, mesmo aleijada.
E até fica se valendo da invalidez para estar nos braços de outro homem!
— Do que você está falando, infeliz?!
— Da sua honra, covarde!
Vai dizer que não sabe que Rosa Maria o trai com o tal médico?!
Gonzales foi na direcção de Peter, que novamente ergueu a arma para se defender.
— Não se atreva, velho!
Ah! E por isso que ela, tão bela senhora, trocou-o por um homem mais robusto, mais novo, seu velho!!!
Gonzales, enfurecido, chutou as cadeiras e virou a mesa.
— Se isso for verdade -— afirmou o marido sentindo-se traído—, lavarei minha honra com sangue.
Se for mentira, mato você!
Cego pelo ódio corrosivo, o homem abandona a casa, sobe em um coche, achibatando os cavalos, descarregando nos animais a sua ira destruidora.
***
Rosa Maria, Robert e Margarida já frequentavam a Sociedade Espírita e faziam parte do grupo de estudos.
Naquela noite, por ciúme das primas que lhes foram visitar, Margarida não quis deixar seu marido sozinho com as visitas, por essa razão não os acompanhou até a cidade onde o grupo de estudos se reuniria na Sociedade Espírita.
Escondido pelo anoitecer, que dominava parcialmente a luminosidade natural, Gonzales aguardava, ocultamente, para ver aonde iria a carruagem que saíra dos portões largos da mansão da família Russel e parecia dirigir-se para a cidade.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 06, 2017 10:32 am

Mesmo com a fraca claridade prejudicada pelo balanço da lanterna, alimentada à querosene e afixada dentro da condução, Gonzales teve certeza de que Rosa Maria e Robert estavam a sós, enquanto o cocheiro animava os cavalos.
Um sentimento de revolta inenarrável corroeu-lhe as entranhas.
Gonzales, sentindo-se como um marido traído, experimentou o fel do ódio e intenso desejo de se vingar de seu rival.
Em sua mente, mórbidas ideias povoavam seus pensamentos enfurecidos.
Lembrava da insistência do médico para tomar conta de sua mulher.
Dentro dele, gritos clamando por vingança pela traição a qual acreditava experimentar, atrofiavam-lhe qualquer ponderação.
Chicoteando o cavalo que já galopava velozmente, Gonzales alcançava a carruagem que conduzia sua esposa e o cavalheiro, conversando animados sobre as sessões de estudo.
No plano espiritual, Flora, cunhada de Robert quando encarnada, agitava vibrações negativas a Gonzales, alimentando-o com desejos perniciosos a fim de não deixar sua honra ser manchada.
Estavam próximos do centro, quando o cocheiro percebeu que alguém os seguia muito afoito.
Mesmo apressando os quatro cavalos, não houve jeito.
A carruagem estava sendo alcançada.
Observando o clima de agitação, Robert experimentou uma expectativa indefinível, deixando no ar uma pergunta sem resposta:
— O que está acontecendo? -— perguntou ele preocupado.
Segurando-se na alça interna da diligência, o médico abriu a porta e, colocando o tronco para fora da condução, perguntou ao cocheiro à medida que a diligência andava:
— O que houve?
— Creio que estamos sendo seguidos, senhor!
— Pare a condução! -— pediu Robert.
— Antes que essa pressa nos mate.
Vamos saber o que está acontecendo.
Devido às ordens do patrão, o boleeiro parou a carruagem e o esposo de Rosa Maria os alcançou ligeiramente.
Passou a manobrar pequenas voltas com seu cavalo que demonstrava-se ofegante, enquanto Gonzales exibia nervosismo através da visível perturbação nos pequenos gestos.
—Senhor Gonzales!
Que surpresa! -— comentou o médico ao reconhecê-lo.
— Não sabíamos que era o senhor.
—E lógico que não me esperavam!!!
Traidores!!! -— vociferou o homem, embrutecido de raiva.
Toda a Londres sabe que sou o marido traído!
Lavarei minha honra com seu sangue!
Sacando de uma pistola e sem esperar por explicações, Gonzales atirou, certeiramente, em Robert já de pé, próximo da condução.
Em seguida, atirou em sua esposa que, através da porta entreaberta, assistia ao ocorrido.
O cocheiro tentou chicotear o agressor, que fugiu logo depois.
Levando Robert e a jovem senhora para o centro da cidade à procura de socorro, o bondoso boleeiro retornou à mansão da família Russel para anunciar o ocorrido.
O doutor David Russel, antes de saber sobre o facto, sentia-se inquieto, andando de um lado para outro em sua biblioteca.
— Nervoso, meu pai? -— perguntou Henry ao observar suas atitudes não comuns.
—De certa forma... algo me desagrada -— tentou explicar o pai.
—A respeito do quê? -— tornou Henry.
_ Não sei explicar, meu filho.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 06, 2017 10:32 am

Não consigo definir a dor que sinto.
Nesse instante, Oliver, seu mordomo de confiança, bate à porta do recinto e, sem aguardar aprovação, adentra no local trazendo o cocheiro consigo.
_ Com sua licença, senhor David.
Carl, o cocheiro, trouxe uma notícia muito desagradável.
O dono da mansão sentiu-se gelar.
Um torpor o estonteou enquanto Oliver relatava:
— O senhor Robert e a senhora Gonzales foram feridos com disparos de tiros próximo do centro de Londres.
Eles foram levados à clínica médica, e aquele vosso amigo, o doutor Scoth, está atendendo-os.
O doutor David Russel sentou-se lentamente e, como se não quisesse acreditar no que ouvia, perguntou:
—Tem certeza, Oliver?
—Sim senhor.
—O que aconteceu, Carl?! -— perguntou Henry em desespero.
—Um homem, a cavalo, vinha nos seguindo velozmente.
Eu animei os cavalos, mas logo o doutor Robert mandou parar para saber o que estava acontecendo.
Afoito, o homem disse que iria lavar sua honra com sangue e atirou no senhor Robert e logo depois na senhora.
Após isso, fugiu.
—Quem era? -— perguntou o pai da vítima com inflexão triste na voz e temendo a resposta que conhecia.
—Senhor... deu para eu ver bem.
Era o marido da senhora Rosa Maria.
Henry, exibindo nervosismo, ordenou:
— Oliver, prepare a carruagem, vamos até o centro.
Peça Para Elizabeth ficar com minha esposa e dê ordens para que reforcem a vigilância da casa.
Virando-se para o pai, o jovem médico perguntou mais brando:
— O senhor vem comigo, pai?
Mesmo atordoado, o doutor David Russel respondeu ao se levantar:
— Sim. E claro que vou!
Ao saber do ocorrido, Margarida entrou em crise de choro, enquanto Elizabeth procurava acalmá-la.
Na clínica...
— Sinto muito, meu amigo.
Estamos fazendo de tudo por Robert e sua acompanhante, mas... não sei dizer...
O doutor David Russel teve de ser amparado pelo filho Henry.
Ele não esboçou nenhum sentimento de revolta, embora fosse nítido o abatimento súbito provocado pela dor que o chocava naquele instante.
Pouco depois, Rosa Maria não resistiu aos ferimentos e entrou em óbito.
Nesse momento, na espiritualidade, Robert experimentava uma perturbação comum.
O processo do desencarne é gradual, dependendo do caso.
O perispírito se desprende com certa lentidão, de acordo com as condições espirituais, ou seja, nível de valores morais que se cultivou quando em experiências corpóreas.
Se durante a vida encarnada, o espírito utilizou-se do corpo físico para a exteriorização sensual, vícios e prazeres materiais, o desprendimento deste da matéria física, pode demorar dias, semanas, meses ou anos.
O espírito sofre para se desligar da matéria e pode experimentar a decomposição do corpo que se transforma.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 06, 2017 10:32 am

Já aquele que procurou corrigir-se, cultivar os valores morais aprendidos, vivendo a experiência corpórea como sendo o meio pelo qual iria se depurar, a fim de se elevar na verdadeira vida, que é em espírito, experimenta um desligamento sem suplício e até sente-se aliviado por reconhecer sua nova condição, pois sua consciência está liberta das faixas da matéria, sem nada para acusar seus erros ou vergonha por ter desejado ou realizado o mal em certas circunstâncias.
Observando-o perturbado, no instante em que Robert se confundia entre os dois planos:
espiritual e físico e, enquanto iam se desligar seus liames a fim de desprender-se, o espírito Anne, sua mãe quando encarnada, aproximou-se dele transmitindo-lhe as mais agradáveis vibrações que podia emitir.
— Tranquilize-se, meu filho.
Você nunca foi apegado ao mundo físico.
Seus valores morais, intelectuais, seu raciocínio lógico, podem acelerar seu desprendimento do corpo físico.
Não há mais nada a ser feito para animar esse corpo que o serviu.
Você o tratou muito bem.
Robert ficava atento às sugestões de Anne, que, alargou seu sorriso e propôs:
— Não escute mais ninguém, Robert.
Pense em Jesus.
Lembre-se do Pai Celeste, meu filho.
Estendendo-lhe a mão, pediu:
— Venha, venha Robert, querido.
— "Pai do Céu, sinto-me confuso... atordoado.
Jesus nos disse: 'pede e te será dado'.
Rogo-lhe, Senhor!
Auxilie-me com forças que me façam recompor.
Ilumine minha razão com lucidez para que eu possa pensar com bondade, calma e saiba como agir, neste instante..." -— pedia Robert em prece pausada e sentida -— "...ouço outras vozes... talvez choro."
Percebendo-lhe a dúvida, Anne alertou:
— Robert, continue em prece, meu filho.
Não há mal que o alcance e o abale se o seu pensamento estiver em Deus.
Ouça a voz da sua consciência, filho.
Era o choro de Flora que Robert escutava.
Ela ainda queria perturbá-lo.
Por essa razão, Anne o alertava.
Valendo-se da fé que possuía, ele rogou sentido e desejoso de amparo:
— Ajude-me, Pai. Ajude-me, Jesus.
Fixando novamente o olhar em sua mãe, Robert deixou definitivamente de sentir as dores do corpo físico que lhe provocavam forte sofrimento.
Seu corpo deu o último suspiro enquanto sentia os liames que o prendiam a ele, serem desatados.
Em prece sentida, empenhava-se para esse desligamento se dar mais rápido.
Parcialmente desligado da matéria, Robert conseguia ver as imagens mentais passadas pelo espírito Anne que desenrolavam a visão mental de um futuro melhor, em estado de espírito.
Esse cuidado desviava a atenção de Robert aos apelos que o espírito Flora lhe fazia, pois ela tentava prender sua consciência na perturbação por mais tempo, com insegurança, medo, dúvidas tristes e os mais inferiores sentimentos a fim de prejudicá-lo.
Porém os merecimentos de Robert eram maiores, e ele recebeu a ajuda necessária que, principalmente, soube aproveitar através da fé.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 06, 2017 10:32 am

Bondosamente, Anne estendeu-lhe novamente a mão para ele poder compreender o que deveria fazer, e depois disse:
— Venha, Robert.
Levante-se, meu filho.
Com o olhar preso ao dela, invadido por um sentimento inexplicável, o espírito Robert atendeu ao pedido ainda que dominado pelo medo.
Anne sorriu e o conduziu para que descesse da maca onde o corpo físico foi colocado.
Ainda atordoado, Robert olhava à sua volta tentando compreender melhor a situação.
Devido à perturbação consciencial, ele trouxe consigo o ferimento que lhe causou a morte do corpo mesmo não o sentindo.
Vendo em seu peito, o furo e a mancha como a do sangue no corpo físico, Anne estendeu-lhe a mão sobre o ferimento e indicou:
— Você não precisa mais disso, Robert.
Sua consciência está tranquila e nenhum sentimento pernicioso, como a vingança ou a frustração, há em seus pensamentos.
A recomposição perispiritual foi imediata devido a sua aceitação, e Anne sorriu novamente propondo-lhe:
_ Venha comigo, vamos sair daqui.
_ Mas... eu morri! -— argumentou ele confuso.
_ Tem certeza, filho? -— perguntou ela bondosamente, fazendo-o raciocinar.
— Mãe, o que faço? Veja!
Robert indicou o médico que dizia:
— Temos que avisar o doutor Russel que seu filho também não resistiu.
Depois de certa pausa, confessou:
— Eu não gostaria de fazer isso.
Nunca pensei...
Robert era meu amigo... estou em choque! -— lamentou o médico com a voz embargada e lágrimas a brotar nos olhos.
Anne, sabiamente, interrompeu:
— Filho, não se preocupe com os acontecimentos que não poderão ajudar em nada.
Venha comigo, será melhor para você.
— Estou confuso...
— Você precisa de descanso, Robert. Venha.
— E Rosa? Onde está Rosa?! -— preocupou-se ele.
— Rosa já se foi.
Como vê, ela não está presa ao corpo.
— Eu sinto algo estranho, mãe.
É diferente. É...
— Confie na sabedoria de Deus, meu filho.
— Estou tonto, atordoado.
É como um mal estar.
— Robert, permita-nos envolvê-lo com fluidos salutares que hão de acalmá-lo para que possamos conduzi-lo para longe daqui?
Com o olhar piedoso, Robert aceitou.
— Sim, minha mãe. Por favor...
Anne sorriu verificando que aquele espírito ainda a admitia como mãe.
Com um olhar, o espírito Anne solicitou auxílio dos demais socorristas desencarnados que ali trabalhavam a fim de tratar o recém-desencarnado, porém antes avisou:
— Aceite os desígnios de Deus.
Ligue-se ao Pai Celeste pelo pensamento bom, salutar em prece sentida, não somente com pedidos, mas, sobretudo, com agradecimento verdadeiro pelo amparo, pelo socorro bendito que Ele lhe permitiu.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 07, 2017 3:48 pm

Ofereça a Deus seus sentimentos de gratidão, Robert.
Ele assim o fez e deixou-se dominar por um envolvimento sublime que jamais experimentou antes.
Reconfortante sentimento invadiu-lhe o ser e ele deixou-se dominar pelo alívio que lhe chegou como um sono irresistível.
O espírito Flora ficou ainda mais perturbado quando não pôde perceber a presença de Robert naquele lugar.
Ela escutava ininterruptamente as queixas do espírito Christine, sua irmã no passado, a qual Flora tanto influenciou quando em experiência corpórea.
Christine, que foi suicida inconsciente ao provocar a morte de seu filhinho através do aborto e que em seguida resultou no seu próprio desencarne, experimentava um estado consciencial deplorável e de muito sofrimento.
Ela chorava e suas palavras lamuriosas incomodavam quem lhe pudesse ouvir.
Christine acompanhava Flora cobrando por esta tê-la induzido ao erro.
Flora, por sua vez, estava em um estado de "loucura espiritual".
Tudo o que acreditava estar correto, por seus caprichos de vingança, a torturava agora.
Na verdade, quando encarnada como cunhada de Robert, após a morte de sua irmã Christine, Flora procurou ocupar seu lugar na vida do viúvo.
Observando a repulsa que este lhe ofereceu, apesar de toda cordialidade, Flora decidiu puni-lo tentando lhe acusar a consciência.
A princípio, Flora inventava que via e ouvia Christine com o filho nos braços pedindo perdão.
Como a lei de afinidade atrai para nós o nível espiritual dos pensamentos que cultivamos, atraiu Christine a qual, realmente, passou a fazer o que a encarnada inventava e apresentava como mediunidade.
Inevitavelmente, períodos de desequilíbrio passaram a atormentar Flora, que desejava torturar Robert, expressando-se como se estivesse com certo distúrbio psicológico.
Nessa época, Christine, sofrendo muito na espiritualidade, entrou na faixa vibratória dos pensamentos da irmã encarnada e esta começou, verdadeiramente, experimentar o que forjava, mas descontroladamente, alterando toda sua experiência reencarnatória.
Por querer se vingar de Robert de um passado mais distante, por trocá-la por outra mulher, Flora o seguia com seus desejos, mesmo depois do desencarne, sem pensar nas consequências.
Nessa época distante, quando Robert a deixou por Rosa Maria, Flora atrapalhou a vida do casal, mentindo em véspera de seu casamento.
Rosa o abandonou e realizou uma união de conveniência.
Mais tarde, infeliz com o matrimónio, Rosa encontra Robert e ambos não resistiram ao amor que sentiam um pelo outro.
Nesse tempo, o pai de Rosa era o doutor David Russel, que ajudou a filha a ser feliz com seu amor verdadeiro, causando uma emboscada ao esposo dela.
Nessa época, ele nunca se arrependeu por planejar e ajustar a morte do genro.
Robert e Rosa concordaram com a ideia, e assim foi feito.
O poderoso fidalgo, marido de Rosa, desencarnado, nunca perdoou ao seu rival e jurou matá-lo com as próprias mãos.
Restava somente, a rival de Rosa, Flora, quem primeiro atrapalhou seu romance com Robert, aparecendo em vésperas do casamento com um filho nos braços, acusando-o de ser o pai.
Nesse período, Robert desabafou com um amigo, Henry, os incómodos que sofria com Flora e este o aconselhou a livrar-se dela.
Henry arrumou quem pudesse emboscar Flora para ajudar o amigo.
Robert e Rosa Maria viveram, a partir daí, as experiências que desejaram.
Raramente as lembranças do que fizeram cobravam-lhe a consciência, quando encarnados, devido às alegrias que gozavam.
Mas as leis naturais são mais sábias, e um espírito nunca esquece o que fez errado.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 07, 2017 3:50 pm

A consciência é abrangente e justa em um espírito quando este não está mais preso nos limites do corpo.
Robert perturbou-se muito e decidiu reencarnar com o propósito de salvar e curar vidas, o contrário do que realizou.
Procurou encaminhar Christine a fim de que ela não se deixasse influenciar pelas opiniões alheias.
Aceitou viver perto de Rosa Maria respeitando-a como se deve, procurando resignar-se e corrigir o período que ficaram juntos ilicitamente.
Henry, agora como seu irmão, junto com seu pai, o doutor David, também fizeram o mesmo, pois planearam criar e curar, em vez de matar.
O doutor David sentia necessidade de proteger e amparar Rosa Maria, orientando-a, o que não exemplificou no passado.
Rosa Maria, que escolheu um casamento de conveniências, viveu na angústia dolorosa de um matrimónio de conveniências alheias, experimentando também o que fez o marido anterior provar no momento do desencarne.
Por outro lado, a actividade moral, o esforço intelectual e a fé, garantiram-lhes o amparo sublime, nada especial, apenas justo.
Margarida, alma simples e disposta a ajudar, veio garantir a Rosa o trabalho e o amparo, inclinando também Henry, seu amor de outros tempos, a sustentação necessária para o cumprimento de seu dever.
Acrescentando, inclusive, o amparo aos filhos queridos que viriam agracia-la.
Flora e Gonzales, que infelizmente negaram-se ao perdão querendo fazer justiça por eles mesmos, viram-se colocados em difícil situação, pois adquiriram débitos os quais viriam a lamentar.
E Christine precisava ainda descobrir que não podemos nos deixar influenciar pelas opiniões alheias sem antes analisar muito bem o que está acontecendo.
Ao saber do ocorrido, Margarida desesperou-se.
A jovem esposa de Henry quase não acompanhou os funerais.
O pai de Robert não suportava o sofrimento.
— O que fiz para merecer isso? -— lamentava o homem, desconsolado, com um único desabafo ao outro filho que, sem dúvida, também sentia-se deprimido.
Henry não queria acreditar no ocorrido e se calou diante da tragédia.
Dias depois, um pouco mais conformada com a ausência de sua amiga, Margarida foi até a casa de sua tia a fim de levar-lhe alguma ajuda, como era de hábito.
— Margarida, eu sabia que essa desgraça iria envolver nossa família.
Lembra-se de que eu disse para a Rosa vir morar aqui?
— Não vamos falar nisso, tia. Por favor.
Margarida sabia que sua tia queria a presença de Rosa Maria em sua casa a fim de receber mais ajuda para com a senhora e a disposição de criados que viriam, a princípio, com o objectivo de prestar assistências e cuidados à jovem senhora.
Outro motivo era a presença dos filhos de David Russel com visitas mais frequentes.
Porém nada comentou.
Enquanto sua tia insistia em confirmar suas previsões.
Eu fui avisada pelos guias espirituais -— afirmava Dolores. —
Cheguei a falar com Rosa Maria a respeito, mas ela não me deu ouvidos.
_ Tia, isso aconteceu porque meu pai estava e está desesperado com seus problemas e ficou cego para a realidade e, de alguma forma, não teve paciência para aguardar saber da verdade como ela é.
—Ora, ora, Margarida!
Eu vi que Rosa Maria e Robert viviam um romance.
Apesar da invalidez, Rosa era...
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 07, 2017 3:51 pm

—Não posso admitir que difame Rosa!!!
Ninguém poderá dizer que lhe faltou moral.
Quando tinha o físico e a saúde impecáveis, Rosa sempre respeitou meu pai mesmo sendo muito mais nova que ele.
Se saudável ela nunca o traiu, não haveria motivos para fazê-lo debilitada! -— alterou-se Margarida, indignada com a proposta de sua tia.
—Bem... vamos deixar isso prá lá.
Vejo que você está nervosa.
Um sentimento de revolta corroeu a jovem que não deteve os pensamentos.
—Se foi a senhora quem destilou seu veneno para meu pai, insinuando que Rosa Maria e Robert viviam um romance...
—Cale-se, menina! -— intimou a tia.
— Mesmo sabendo o que vai acontecer quando os espíritos me revelam, eu não saio por aí ofertando informações.
Margarida irritada, sem mais comentários, decidiu:
— Já é tarde. Tenho de ir.
Não esperando manifestação alguma, a jovem se despediu e deixou a residência de sua tia.
A noite já estava presente, quando a carruagem, que a levaria para a mansão dos Russel, fez o retorno e passou novamente em frente à casa de sua tia, Margarida, sem hesitar, pediu a cocheiro:
— Pare! Pare a diligência, por favor.
A certa distância, Margarida reconheceu a figura de seu pai que saía, furtivamente, de uma outra condução e, astuto, olhava para os lados, enquanto entrava na casa de sua irmã Dolores.
Logo após ele entrar na residência, a carruagem seguiu.
Nancy a conduzia.
Ela dava apoio a Gonzales que estava foragido.
Naquela noite, a seu pedido, a mulher trajou-se como homem, envolta em capa que a agasalhava contra o frio, passando-se por cocheiro para auxiliar o amante a ir até a casa de sua irmã.
Margarida ficou atordoada.
Em seguida, pediu ao cocheiro que seguisse para a mansão.
Mais tarde, ela relatava ao sogro e ao esposo o ocorrido.
— Tenho certeza, sim. Era meu pai.
Estarrecidos, eles não sabiam o que dizer.
Diante do silêncio, Margarida informou com a voz trémula e nervosa:
— Eu... eu avistei um policial...
Vendo-a em pranto compulsivo, Henry, muito carinhoso, aproximou-se e abraçando-a perguntou com generosidade, pois já desconfiava da atitude de sua esposa:
— O que você fez, Margarida?
Um pranto ininterrupto a dominou e logo o doutor David Russel compreendeu o que sua nora havia feito.
Aproximando-se da jovem, ele considerou:
— Não fique assim, filha.
Você fez o que acreditou estar correto.
— Você denunciou seu... -— Henry calou-se diante do olhar repressor de seu pai.
Enquanto sua mulher confessava:
_ Eu amo meu pai... mas ele não merece a liberdade...
Meu pai sempre se negou a mim e à Rosa.
Ele tirou Rosa de mim...
Meu pai só fazia coisas erradas!
Só me fez sofrer! Chega!
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 07, 2017 3:51 pm

Henry ficou perplexo.
O doutor David Russel aproximou-se e tirou Margarida com carinho dos braços de seu filho, oferecendo-lhe um abraço de solidariedade e compreensão.
Em seguida, de forma generosa fez com que se sentasse, ficando a seu lado, oferecendo-lhe o ombro amigo que todo pai deveria fazer em momentos difíceis.
— Acalme-se, filha.
Você fez o que acreditou estar correto.
Agora acalme-se.
Você tem a nós.
Somos uma família.
Viveremos felizes e tranquilos a partir de hoje.
Eu creio que Deus existe e, diante da justiça que Ele possui, haverá paz e novas oportunidades para Robert e Rosa a fim deles serem felizes também.
***
Gonzales foi preso e depois condenado pelo duplo homicídio.
Além de outras acusações que já havia contra ele sobre as sonegações que praticava.
Vendo-se sem o apoio de seu irmão, Dolores agora, mais do que nunca, passou a receber honorários pelo que denominava mediunidade, mistificando o quanto pudesse nas reuniões e enganando a quem lhe desse atenção com o seu animismo.
Dolores passou a cultivar afinidade com espíritos brincalhões que, de facto, revelavam-lhe alguns particulares daqueles que, pela fraqueza do momento oportuno e pela falta de instrução no que é correto, ficavam ansiosos em satisfazerem suas curiosidades, dúvidas e serem ajudados.
As filhas a ajudavam o quanto podiam, e inúmeras sessões denominadas, erroneamente, de Espíritas, eram realizadas com a intenção de ludibriar e alimentar a vaidade.
Depois de alguns meses, todos procuravam tomar suas vidas com objectivos, mas Robert e Rosa não eram esquecidos nem lembrados com tristeza deplorável ou choro.
Apesar da dor, o doutor David Russel procurava se recompor sempre por explicações que pudessem satisfazer, com respostas lógicas, suas dúvidas.
Abafava os sentimentos, porém não deixava de pensar no filho querido que partiu.
Às vezes, ele revia suas coisas procurando, em qualquer material, uma revelação que o fizesse crer na continuação da existência do filho, pois acreditava que a vida dele havia sido ceifada violentamente e sem razão.
No interior do quarto de Robert, o doutor David manuseava seus livros e apetrechos sobre a escrivaninha que, como médico, guardava seus estudos, anotações e experiências.
Tudo muito organizado.
Uma saudade incontrolável o arrebatou, e um sentimento de dor irresistível o venceu.
Sobre os braços, sentado à escrivaninha, o pai do médico chorou até adormecer.
Nesse instante, os espíritos Robert e Anne estavam presentes.
Ao ver o doutor David Russel se deixar envolver pelos fluidos calmantes que o dominaram, atraindo-o ao sono, Anne, muito gentil, procurou despertá-lo no outro plano.
— David, sou eu.
Por efeito do sono, o médico estava com maior afinidade com o Mundo dos Espíritos, porém um tanto atordoado.
Quando observou Robert sorrindo largamente, ele correu para abraçá-lo.
— Robert! Pensei que estivesse morto! -— alegrando-se, o pai banhou-se em lágrimas.
— Eu não morri, meu pai -— explicava o espírito Robert.
— A morte não existe.
Eu só ultrapassei a fronteira da existência corpórea.
Agora vivo em espírito.
Estou mais feliz que nunca.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 07, 2017 3:51 pm

Liberto do peso de minha consciência que me acusava pelo passado culposo.
Sinto-me tão bem agora, meu pai!
_ Meu filho! -— Exclamava ele comovido.
E voltando-se para Anne, observou:
— Eu sabia que você iria cuidar dele, Anne.
Você sempre foi uma mãe muito valorosa.
_ Pai -— tornou Robert —- por favor, não chore.
O choro provoca muitos tormentos a nós e ao senhor também.
Ocupe-se com tarefas úteis, meu pai.
Ame os filhos do mundo que também são seus.
— Porquê, Robert?
Porque você se foi, meu filho?
— Foi preciso, meu pai.
A fim de que eu, aqui na espiritualidade onde experimentamos a verdadeira vida, pudesse ter a consciência tranquila.
Para que todos tivéssemos harmonia, foi preciso sentir essa dor que causamos nos outros.
Meu pai, somos todos irmãos e devemos nos amar sem exigências e sem ambições.
Infelizmente nós só compreendemos isso quando, encarnados, inconscientemente, vivemos o que fizemos outros viverem, por isso é que sofremos.
Não lamente, meu pai, essa separação é temporária.
A verdadeira vida é em espírito e para que possamos vivificar a harmonia em nosso ser, precisamos nos livrar dos débitos que nossa consciência nos acusa.
—Não me conformo, filho.
Esse homem precisava tê-los matado?
—Jesus disse:
"...pois é necessário que venham escândalos; mas ai do homem por quem o escândalo venha".
Se não fosse assim como foi, seria por outro modo até por processos naturais.
Todos teríamos que passar por isso, meu pai.
— Mas, Robert... sofro muito, filho...
— Não vou lhe pedir que deixe de sofrer, meu pai.
Vou lhe pedir que procure tarefas a fim de preencher seu tempo e ocupar sua mente com o propósito de doar seus fluidos aos assuntos e trabalhos verdadeiramente úteis e importantes.
O choro não é salutar nessas condições, os fluidos que doa são tristes...
— Eu precisava sofrer assim, Robert?
— Não, meu pai.
O senhor precisava experimentar a perda de alguém que ama.
O sofrimento faz parte da sua consciência e a intensidade dessa dor será gradual à atenção que direccionar a ela.
— Como assim, Robert?
— Se ficar dando atenção ao sofrimento pela perda que teve, se der atenção à saudade, ao prejuízo irreparável de... vamos dizer... "perder um filho", o senhor se privará de outras oportunidades.
Viver constantemente esse sofrimento, é desperdiçar o tempo com algo que jamais poderá mudar.
Enquanto que ocupando-se com tarefas úteis, há de se aliviar da dor e ofertar àquele que ama o alívio através do sossego.
Pense nisso, meu pai.
O doutor David Russel ficou paralisado.
Anne, por sua vez, procurou esclarecê-lo:
— Lembra-se de que já lhe foi exibido o auxílio a Robert, em ocorrência de vidas passadas, quando você mesmo deu amparo ilícito ao que ele queria?
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 07, 2017 3:51 pm

O encarnado pendeu com a cabeça positivamente e com expressão de quem lamentava o ocorrido.
Anne tornou ainda mais generosa:
— Pois então, David?
Hoje é o momento de reformar, de construir.
Somente você mesmo poderá recompor o que desarmonizou.
Você é um homem forte, vai conseguir.
— Preciso de você, Anne -— implorou ele.
— Você me terá a seu lado, em espírito e também em seu coração, cada vez que procurar forças dentro de si.
Reconforte se em Jesus, David.
_ Eu gostaria que fosse diferente.
Sempre pensei em ter uma família feliz...
Nós somos uma família feliz, David, pois auxiliamos uns aos outros sempre.
Nunca estamos sós. Deus nos ampara.
— E Rosa, como está?
_ Nossa filha do coração recupera-se.
Passou por inúmeros traumas, mas está bem.
Ela se lembra de você com carinho e deseja, imensamente, visitá-lo.
_ Gostaria de poder tê-la orientado mais... eu queria cuidar dela.
— Teremos oportunidade, David.
Porém antes precisamos merecê-la.
Robert e Anne se entreolharam e, em seguida, foram se afastando.
Mesmo assim, Robert teve tempo de dizer:
—Pense em Jesus, meu pai.
Ele sofreu tanto quando esclareceu o mundo sobre as verdades eternas.
Pense em Jesus...
—Não vá! Não vá!
Robert! Robert!
—Senhor David? -— chamava Elizabeth, procurando despertá-lo.
O homem a olhou com espanto querendo entender o que estava acontecendo.
— O senhor estava sonhando, com certeza. Acalme-se.
Perdoe-me por tê-lo despertado, mas vi que o senhor chamava por seu filho e pensei que seria melhor...
Vendo-o sem expressão, a governanta perguntou:
— O senhor está bem?
— Sim, Elizabeth. Estou bem.
Eu sonhava com meu filho...
Ele se deteve, pois não sabia expressar em palavras o sonho que acreditava ter tido, retendo só as impressões.
Dando novo rumo à conversa, perguntou:
—Onde estão Henry e Margarida?
—Na sala, senhor.
A tia de sua nora veio visitá-los.
— Irei ter com eles -— avisou o dono da mansão, saindo logo em seguida.
Ao chegar à sala, onde todos se reuniam, o doutor David Russel constatou que a conversa era sobre o estado espiritual de Robert e Rosa Maria.
— Eles estão ainda dormindo na espiritualidade.
Podem acreditar! -— afirmou Dolores.
Intrometendo-se no assunto, o pai de Robert perguntou:
— Por que afirma isso, senhora?
— Ah! Bem... amigos espirituais me informam.
— A troco de quê? -— tornou ele.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 07, 2017 3:51 pm

— Bem... é...
Enquanto Dolores procurava palavras, o doutor David decidiu:
— Não sei nada sobre Espiritismo, mas, como uma pessoa racional, interesso-me em saber o motivo, o porquê das ocorrências.
O que justifica os espíritos mantê-la avisada sobre o estado de meu filho?
Porque esses espíritos fariam isso?
Ninguém faz nada por acaso.
Dolores se calou.
Ela não sabia o que dizer.
— Veja bem -— resolveu o dono da casa —- eu não consigo ver qual é o lucro que temos em saber qual a situação desta ou daquela pessoa que faleceu.
A não ser alimentar a nossa vaidade a fim de ficarmos sabendo algo que, para a maioria, é um mistério.
Ou então a vantagem é ter o orgulho de receber informações inéditas?
— Senhor David, creio que não é um simpatizante do Espiritismo.
Estou certa?
— Não, senhora. Não está.
Meu filho Robert me fez ler todas as obras do senhor Allan Kardec.
Não sou Espírita.
Não idolatro ou defendo essa doutrina.
Abstenho-me de comentários.
Mas posso afirmar que todo homem de bom senso, pensamento lógico e racional, ao ter conhecimento das propostas espíritas, há de ser um simpatizante lúcido do que ela defende e prova.
Então, por que o senhor reage quando lhe afirmo sobre o estado espiritual de seu filho?
_ Eu reajo, porque, como conhecedor do que li nas propostas e esclarecimentos da Doutrina Espírita, não vejo coerência em suas afirmações, tendo em vista que não há nenhuma necessidade para os espíritos lhe informarem tal facto.
—Não se esqueça de que Rosa Maria era minha cunhada!
—E o que isso quer dizer?
Por acaso os espíritos devem obrigações aos viúvos ou, em especial, aos parentes dos mortos?
Se assim o fosse, estaríamos encarando a injustiça de Deus, que não permite a revelação a muitos outros sobre o estado de seus entes queridos desencarnados.
Eu creio que, se for para sabermos onde e como está alguém que partiu dessa vida, tem de haver uma finalidade útil.
—Cada qual tem o direito de acreditar no que quiser, certo?
Vejo que o senhor está irritado, e isso se explica pela perda de seu filho.
Por isso o compreendo.
Além do que...
—Além do quê... -— interessou-se o doutor.
—Com toda a certeza o senhor não vai acreditar.
Mas... vejo que sua falecida esposa o influencia muito.
Ela é possessiva e sente ciúme.
Por essa razão, o senhor repele minhas orientações espíritas.
—Que orientações espíritas, senhora?
A senhora oferece um nome errado ao que pratica.
O estudo da Doutrina Espírita lhe seria muito bom a fim de que a senhora, não saia pronunciando o nome de uma prática que não faz.
Como disse, apesar de não ser espírita, conheço o proposto por essa doutrina.
Por isso eu sei que não existe misticismo ou dogmas na sua prática.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 07, 2017 3:52 pm

Os espíritas são criaturas conscientes e estudiosas que não se dispõem a exibicionismos, praticando o que é proposto pelos livros da Codificação Espírita.
A instrução é algo fundamental para quem quer defender uma causa.
Insatisfeito, e percebendo que estava sendo difícil fazer Dolores compreender seu ponto de vista, o pai de Henry se calou.
A mulher se apressou a ir embora.
Logo após sua saída, o doutor David se viu a sós com o filho e a nora.
— Perdoe-me, senhor David. Minha tia...
— Ora filha! Não se preocupe.
Eu era quem deveria ter me calado antes.
— Está virando um defensor do Espiritismo, pai?
O homem reflectiu um pouco e explicou:
— Defendo a tese do raciocínio lógico.
Como conheci o que essa doutrina propõe, pude afirmar, com segurança, que nada do que a senhora Dolores falou era lógico.
Não defendo a doutrina, defendo a minha liberdade de opinião.
Não aceito ilusões e não gosto de ser enganado.
Imediatamente ele desculpou-se com a nora:
— Perdoe-me, Margarida, é sua tia, não tive a intenção de ofendê-la.
A jovem sorriu, confessando:
— O senhor não me ofendeu.
Aliás, senti certa satisfação.
É difícil encontrar algo para esclarecer uma médium fascinada como minha tia.
— E em voz baixa murmurou:
— Se é que ela é médium...
***
O passar dos anos seguiram tranquilos para a família Russel.
Somente a morte do senhor Gonzales os abalou com muita tristeza.
O pai de Margarida enforcou-se na prisão.
Com o tempo, o doutor David viu seus sonhos realizados:
sua casa farta de netas e netos, ao todo eram oito.
Era cheia de vida e alegria.
Margarida, mesmo com o auxílio de muitas empregadas, alegava não ter tempo algum para nada.
Henry, como bom marido, auxiliava no que podia.
Principalmente ouvindo as queixas da esposa quanto à rotina dos pequenos filhos desobedientes.
Sempre que possível, Henry procurava retirar-se com a mulher para algumas férias, sem levar as crianças, para que ela pudesse se refazer.
Bem mais tarde, um dos filhos de Henry e Margarida, após formar-se, decidiu mudar para o novo mundo, escolhendo o Brasil como pátria e onde, com o passar dos anos, constituiu família.
Contra a vontade de seu pai, o jovem trouxe consigo o avô, o doutor David Russel, que, já estava aposentado devido à idade.
O bondoso velhinho apaixonou-se pelo belo país, tão diferente do seu... tão completo!...
Desencarnando nele pouco tempo depois, levando consigo as mais lindas recordações de beleza, fraternidade e optimismo a respeito da nova terra que conheceu.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 07, 2017 3:52 pm

Segunda parte
Para que não haja dificuldade na identificação dos personagens, acreditamos ser melhor manter seus nomes bem próximos do que receberam nessa última passagem.
Em alguns casos até os mesmos a fim de serem reconhecidos com facilidade pelos leitores. Segue abaixo uma lista contendo os nomes dos personagens principais na primeira e na segunda parte, respectivamente:


Primeira Parte - Segunda Parte
David Russel - Davi
Anne Russel - Ana
Henry Russel - Henrique
Rosa Maria - Rose
Robert Russel - Roberto
Gonzales - Gonçalves
Nancy - Nanei
Peter - Pedro
Margarida - Margarete
Flora - Flora
Oliver - Oliveira
Valerie - Valéria
Isabel - Isabel
Elisa - Elisa
Dolores - Das Dores
Elizabeth - Elizabete
Estella - Estela

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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 07, 2017 3:52 pm

1 - Reencontro

_ Rose?!
—Estou aqui, mãe!
Entrando no quarto da filha, Ana perguntou:
—Seu pai telefonou?
—Ah! Esqueci de te avisar.
Ele ligou sim e disse que vai se atrasar novamente.
Vendo a fisionomia singular de sua mãe, a jovem percebeu que não houve satisfação e decidiu animá-la.
—Estou aqui! Não chore!
Serei sua eterna companhia! Dia e noite... noite e dia!
—Ora, Rose! Deixe de gracinhas!
E mudando o assunto, Ana perguntou:
— Seu irmão já voltou?
—Não. Acha que este quarto estaria assim... arrumado... caso o Henrique já estivesse em casa?
Acho que está se divertindo...
—Henrique disse aonde ia?
—Namorar.
Desconfiada, a mãe se preocupou:
— Precisamos conhecer essa namorada de seu irmão. Hoje em dia...
Já faz algum tempo que ele namora essa moça, não é?
—Uns... três meses, mais ou menos.
Ele me disse que no próximo domingo irá me levar à casa dela.
Veja como é seu filho!
—Por quê? Qual o problema?
—Mãe! Domingo agora vou prestar vestibular! Esqueceu?!
—Ah!.. É mesmo, Rose!
Desculpe-me... eu esqueci.
—Sou a ovelha negra dessa casa!...
Ninguém se preocupa comigo!...
Pobre de mim!!!...
Dramatizava Rose, brincando como sempre, fingindo interpretar alguma cena.
— Pare com isso, Rose! -— pediu a mãe que se cansava de tanto teatro.
Mal posso ouvir meus próprios pensamentos, filha!...
Bem mais tarde, quando conversava com seu irmão, Rose perguntava curiosa:
—Onde você a conheceu?
—Nem te conto! -— narrava Henrique animado em falar da nova namorada.
Eu quase a atropelei!
—Nossa! Como foi isso Henrique?!
—Eu dirigia e desviei, por um segundo, o olhar e... Bum! —- sonorizou o rapaz.
Só vi aquele monte de pano no capo do carro.
Estava frio pra caramba.
Foi o dia que cheguei tarde e vocês todos estavam preocupados.
—Ah-rã!.
—Foi nesse dia.
Eu me molhei todo naquela garoa tentando convencê-la a aceitar minha carona.
—Aceitar sua carona ou a sua cantada?
Porque... veja, se você oferecesse só a carona, ela aceitaria, mas engolir sua cantada... hum... é dose!
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 07, 2017 3:52 pm

Atirando-lhe um travesseiro, Henrique se zangou dizendo:
— Pára! Não perturba!
Debruçando-se em sua cama, ele virou o rosto para a parede ignorando sua irmã e tentando puni-la.
_Ah! Henrique! Conta o resto, vai! -— pediu ela com inflexão na voz.
Adoro ouvir suas histórias. Conta, vai!
Henrique não se movia e Rose prosseguiu:
_ Henrique! Henrique?!
Henri... Prometo! Ficarei quietinha.
Vai Henri, fala!
Depois de alguns segundos, ele respondeu:
_ Não dá para falar nada a sério com você, Rose.
Você só brinca! -— reclamou seu irmão.
—Vai ver que eu economizei, em outra vida, o meu sorriso!
O meu charme! A minha graça! Meu encanto!...
—Vai dormir, Rose! .— respondeu o moço, virando o rosto para esconder o riso que não conseguiu segurar.
—...e você, em outra vida, gastou sua paciência e agora vive assim... chato!
—Cale a boca, Rose!!!
A jovem retornou animada e brincalhona:
— Então vai, conta! Qual o nome dela?
Henrique não resistindo falar do assunto que mais lhe agradava, cedeu aos pedidos da irmã dizendo:
—Margarete.
—Que nome bonito!
—Eu também acho — concordou ele.
—E você?
—Eu me chamo Henrique — retribuiu o jovem como chacota.
—Não seja bobo! — reclamou Rose, que agora sentiu a devolução de suas travessuras, atirando-lhe o travesseiro.
Quando Henrique quase dormia, Rose, inquieta, acordou-o perguntando:
—Vai trazê-la aqui?
—Ah...
—Quando vai trazê-la aqui em casa?
— Não sei... -— respondeu ele com a voz assonorentada.
Amanhã eu vejo — murmurou o jovem universitário.
Na manhã seguinte, quando todos se reuniam para o desjejum, Ana lembrou:
— Hoje à noite teremos visita.
Não se atrasem para o jantar!
— Ah, mãe! Hoje é sexta-feira! -— reclamou Henrique.
— E o que tem hoje ser sexta-feira, Henri?
— É dia dele namorar!
Não é, Henri? -— salientou sua irmã.
— Traga a moça aqui, filho -— pediu o pai.
Qual o problema?
— Ah, pai... é que... sei lá... entende?
— Com essa frase para me explicar, não vou entender mesmo.
— É assim -— tornou Henrique - o pai da Margarete é meio bravo.
— Segundo o Henri, o pai dela é uma fera! -— intrometeu-se Rose.
— Não amola, Rose! -— reclamou Henrique.
— Podem parar! -— pediu a mãe que os conhecia.
— Seria bom que você viesse para o jantar, Henrique.
É o doutor Oliveira, dono da clínica onde seu pai trabalha, que virá jantar connosco.
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Ave sem Ninho

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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 07, 2017 3:53 pm

— Ele e a esposa. -— salientou
Tomara que aquela peste não venha junto.
Acho aquela...
— Roooose! -— censurou-lhe a mãe.
— Creio que eles só trarão a Valéria, a mais velha.
O Oliveira me disse que Isabel tem um outro compromisso.
— A Valéria é legal!
Mas aquela Isabel!... -— considerou Rose. —
Sabe... eu sempre achei que o Henrique iria namorar a Valéria.
— Corta essa, Rose!
— Henrique, olha os modos, filho!
Veja como fala —- reclamou Ana.
— Como pensa em tratar seus pacientes no futuro?
Se eu entrar num consultório e ouvir do médico "corta essa", vou embora na mesma hora.
Tchau! Já estou atrasado -— avisou Henrique, despedindo-se com um beijo na testa de cada um.
_ Espere! -— avisou o pai.
— Hoje posso lhe dar uma carona.
_ Davi, não se esqueça do horário.
Não chegue tarde. -— alertou Ana ao esposo.
_ Ana -— lembrou o marido enquanto se despedia —- o Oliveira trabalha comigo e é o dono da clínica, não posso dizer a ele a hora de sair.
— Certo, mas pode apressá-lo.
Não quero servir o jantar muito tarde.
***
Com o passar dos dias...
—Amanhã?!
—Interessa?
— Claro! Estou curiosa para conhecer a Margarete. -— respondia Rose ao seu irmão, que a convidava para conhecer sua namorada.
— Eu só preciso de uma coisinha...
— Seu interesseiro!... -— gritou Rose em tom de brincadeira.
No dia seguinte, conforme o combinado, Henrique levou Rose consigo para a casa da namorada.
— Prazer, Rose —- apresentava-se a jovem.
Em dado momento, Margarete levou a irmã do namorado para seu quarto e conversavam muito animadas, esquecendo-se até de Henrique.
Parecia que as jovens se conheciam há muito tempo.
Assistindo à televisão, Henrique sentia-se deslocado.
Pedro, o irmão mais velho de sua namorada, era um sujeito de pouca fala e que naquele momento fazia-lhe companhia.
Um pouco mais tarde, Roberto, o outro irmão de Margarete chegou e, amigavelmente cumprimentou Henrique.
— E aí, tudo bem?!
— Tudo, Roberto! E você?
— Muito serviço, muito estudo... mas seguindo em frente!
Após breve pausa, Roberto perguntou:
— E a Margarete, onde está?
— Minha irmã quis conhecê-la e agora estou abandonado.
As duas estão há horas trancadas no quarto.
— Não minta! -— pediu Rose com ar de riso, saindo do quarto junto com a nova amiga.
— Não estamos aqui há horas não!
Ao se depararem, Rose e Roberto desfizeram o sorriso, sustentando agora uma expressão singular.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 07, 2017 3:53 pm

Um sentimento inenarrável os invadiu.
Algo sublime.
Margarete decidiu fazer as apresentações:
— Esse é o Roberto, meu irmão do meio.
— Voltando-se para a nova amiga, informou:
— Esta é a Rose, irmã do Henrique.
Ambos ficaram parados e sem iniciativa.
Fitaram-se indefinidamente até que, num impulso, Rose estendeu a mão, cumprimentou com a voz trémula:
— Oi! Prazer, Rose.
Um tanto atrapalhado pela emoção, retribuiu:
— Roberto!
— Virando-se para indicar um local, o jovem pediu: —
Por favor, sente-se.
Todos acomodaram-se e a conversa seguiu animada.
Mais tarde, Rose confessou:
— Puxa, Roberto!
Tenho a nítida impressão de conhecê-lo de algum lugar...
— Eu também. Só não sei de onde.
Henrique, intrometendo-se, deu seu parecer:
— O Roberto prestou vestibular, semana passada, na mesma Universidade que você.
Quem sabe não se viram lá?
Ambos perguntaram simultaneamente:
"Para que você prestou?"
Depois de rirem, Roberto indicou-lhe a preferência com um gesto, deixando-a falar primeiro.
_ Eu prestei para enfermagem. E você?
_ Minha paixão: Medicina! -— anunciou ele com um largo sorriso.
_ Meu pai tentou me persuadir para Medicina, mas... -— disse Rose.
_ Ela é boba! -— opinou Henrique.
— Deveria tentar Medicina.
Veja só, é a mesma área!
Roberto, mais sensato, considerou:
— É bom fazermos o que nos convém.
Quando nos apaixonamos por uma carreira... não adianta.
Sabe... eu sempre fui um apaixonado por Medicina.
Quando ia desanimar, conheci seu irmão que me deu o maior incentivo, o maior apoio moral.
— Por que iria desanimar? -— perguntou Rose curiosa.
— Falta de condições financeiras, entre outras coisas...
Nesse instante, Pedro, o outro irmão de Margarete, descontente com a conversa, retirou-se da sala dizendo:
— O Roberto é o sonhador da família.
Ele não se enxerga.
Deseja o que nunca vai conseguir!
Roberto abaixou a cabeça e sua irmã avisou:
—Não liguem.
O Pedro é o único que puxou ao nosso pai. Em tudo!
—Vamos, Roberto!
Continue o que estava contando -— pediu Rose, animada.
— Era só isso o que eu ia falar -— desfechou ele sem jeito.
Margarete decidiu esclarecer, dizendo:
O Roberto prestou vestibular para uma área difícil e que vai exigir muito dele.
E ainda pensa que está sonhando, como diz o Pedro, e não terá como terminar o curso.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 07, 2017 3:53 pm

— Meu pai sempre diz que devemos lutar honestamente pelo que desejamos.
Continue firme. Você vai conseguir!
Avisou Rose, olhando-o com firmeza por alguns minutos, até que Henrique decidiu:
— Vamos dar uma volta?
— Nós quatro?! -— perguntou Margarete.
— Sim, claro! -— afirmou Henrique.
— Você vai, não é Roberto?
— É... posso ir. Porque, não?
Durante o passeio, Henrique e Margarete se afastaram, esquecendo-se de Roberto e Rose os quais ficaram para trás.
A cada instante, Roberto se encantava com Rose que estendia sua alegria descontraída e até ingénua.
Ele contribuía com sua animação, atentando às dramaturgias da moça.
— Rose, você deveria ser uma... contadora de histórias!
— Ah! Eu adoro contar e ouvir histórias.
E lógico... desde que haja muita emoção, muita ênfase.
— Gosta de teatro?
— Amo! -— expressou-se ela com energia.
Vamos combinar para irmos a um, na próxima semana?
Sei onde está passando uma peça, ma-ra-vi-lho-sa! -— propôs Roberto, pausadamente, realçando com uma separação silábica bem pronunciada.
— Como sabe que é ma-ra-vi-lho-sa?
— Já assisti duas vezes! -— afirmou ele sorridente.
— Você gosta de ler? -— perguntou Rose.
— Amo! -— Roberto a imitou, ressaltando a expressão que a jovem havia feito antes.
— Espera aí!
Você está me imitando? -— perguntou Rose, muito séria, parando de andar.
Roberto estampou um largo sorriso no rosto.
Tomou coragem e liberdade, colocou-lhe o braço sobre o ombro e, vagarosamente, forçou-a a andar junto a ele sem tirar o braço que a envolvia.
Sorrindo, o jovem ainda esclareceu:
_ Adoro ler mesmo. É verdade!
Quem quer cultura, no mínimo tem de ler.
Ninguém aprende tudo ficando parado.
É muito importante termos educação, instrução.
_ É o que falta em muitas famílias hoje em dia.
_ Perdoe-me, Rose.
Mas o que entendo como sendo educação, não se resume somente dentro de uma casa.
Aliás, muitos costumam culpar a família, a sociedade ou até o governo, pela falta de educação, de cultura.
— Pensei que você estivesse falando sobre aquela educação que "vem de berço".
— Também. A educação se inicia na família, continua na escola e se prolonga por toda a existência, de acordo com a vontade de cada um.
A meu ver, educação é o processo pelo qual cada indivíduo ou grupo de indivíduos adquirem hábitos, atitudes, conhecimentos gerais, especializados, técnicos, literários, artísticos, científicos e tantos outros, aperfeiçoando-se, ou seja, educando-se.
Isso tudo com o objectivo de ampliar a inteligência, o raciocínio e desenvolver ou criar aptidões.
— Concordo com você, Roberto.
Mas há pouco disse que é através da educação que as pessoas adquirem certos hábitos e atitudes?
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 07, 2017 3:53 pm

— Veja bem, Rose, a dinâmica da sociedade actual tende a evoluir de forma extraordinária.
Os felizardos serão aqueles que acompanharem a modernização e estiverem sempre actualizados.
Nós não nos educamos somente através das escolas convencionais ou no lar.
Os contactos pessoais, leitura de livros, jornais e revistas, apreciação de obras artísticas, filmes, teatro e músicas podem nos trazer informações inimagináveis à nossa educação pois é através do bom senso que seleccionamos as mensagens transmitidas por esses contactos e somamos ou não essas informações aos nossos hábitos e atitudes.
A educação aumenta o poder de raciocínio lógico das pessoas, deixando-as capacitadas a se impulsionarem nas transformações materiais e espirituais exigidas na sociedade.
E fácil culpar o pai pela falta de educação do filho ou o governo e até a sociedade.
Mas, quando adulto e de posse do poder de decidir, a maioria procura se acomodar e reclamar, apontando o que o pai ou a sociedade deixou de fazer para sua realização.
Não podemos esperar que tudo caia do céu.
— Não cairá, mesmo.
Sabe, Roberto, se quisermos algo, teremos que nos decidir e ir atrás.
— Você trabalha, Rose?
— Meio período.
Sou digitadora em uma empresa.
— Percebo que você é uma pessoa instruída.
Não tem aqueles... papos vazios, como tantos.
Gosta de ler?
— Ah, sim! Gosto muito.
— Óptimo! Eu sei que seu pai é médico, sua mãe é auxiliar de enfermagem e seu irmão está no último ano de Medicina.
Ele já é estagiário e agora sei que você trabalha e no próximo ano fará faculdade de enfermagem. Por quê?
— Não entendi. Por que, o quê?
— Por que você trabalha?
— Sabe, Roberto, todos pensam que médico é milionário.
Grande engano!
Meu pai tem que dar duro para manter a casa e a faculdade do Henrique.
Minha mãe ajuda, mas não é fácil.
Meu pai trabalha em um hospital público e em uma clinica ortopédica, senão não dá.
Eu trabalho porque quero ter alguma coisa e não acredito ser justo exigir do meu pai.
É difícil eu ter de colaborar na manutenção da casa com dinheiro embora isso já tenha acontecido.
Eu quero ter meu dinheiro, a mente ocupada, é por isso que trabalho.
—Seria muito cómodo, da sua parte, pensar que por ter um pai médico, ele deveria fartá-la de todo o luxo.
Isso seria a atitude de uma pessoa improdutiva e incapacitada.
Quem age assim, com tanta dependência e improdutividade, não está preparada adequadamente para a vida.
E uma pessoa que não se educa.
—A pessoa improdutiva sempre culpa os outros pelo seus fracassos.
—É verdade -— concordou ele.
Se observarmos a história do mundo, podemos ver que, desde a Grécia antiga, a educação era o primordial objectivo da sociedade.
Desde cedo o jovem era preparado para as relações sociais.
Para desenvolver o sentimento de lealdade eram usados os instrumentos de cultura:
a música, as artes e a literatura nacional, principalmente, a fim de se vincular os laços sociais e valorizar o país.
—Roberto, não se esqueça de que a educação na Grécia entrou em decadência.
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