O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 28, 2016 11:33 am

Eu admiro muito.
A propósito, hoje, pela manhã fui até o consultório médico do doutor David Russel -— avisou o senhor Gonzales.
Interrompendo-o, Dolores perguntou:
- Há outro irmão desses dois?!
Não. O doutor David Russel é pai deles.
— Eles têm mais irmãos? -— insistiu ela.
— Não sei. Você sabe se há outros filhos do doutor Russel Rosa Maria? -— perguntou o senhor Gonzales.
— Para mim, ninguém contou nada.
O senhor Robert comentou que a mãe morrera há uns treze anos, nada mais, além disso, foi acrescentado.
— Ah, Dolores! -— zangou-se o irmão.
De que importa isso? —
Tomando novamente o assunto, o senhor Gonzales continuou: —
Fui até o consultório porque ontem nem me lembrei de perguntar qual o preço da consulta!
Que falta de educação da minha parte!
Principalmente para com gente do nível dele!
— E quanto esse doutor cobrou? -— perguntou Dolores muito curiosa, arregalando os olhos estampando grande expectativa enquanto aguardava a resposta.
— Nada!
— Nada?! -— tornou a irmã pasmada.
— Nada! -— confirmou o pai de Margarida, tornando a salientar: —
Que homem educado!
Ah! O Robert estava atendendo também.
— Ele não comentou nada sobre tê-lo visto.
Aliás, o jovem Henry perguntou por você assim que chegou -— explicou Rosa Maria.
— Nós não nos falamos lá no consultório -— comentou o senhor Gonzales.
Eu só vi a auxiliar do médico ir até à sala para encaminhar o próximo paciente, avisando que o doutor Robert o aguardava.
Ele clinica separadamente de seu pai.
É tudo bem organizado e luxuoso.
Conversei um pouco com o doutor David e ele contou-me que já estão preparando uma sala para que o Henry também se acomode por lá quando se formar.
Somente quando o nome de Henry foi mencionado, Margarida desligou-se de seus sonhos e atentou para a conversa.
— É bom termos conhecidos médicos -— disse Dolores.
__ Interessada nos descontos das consultas, Dolores? -— perguntou Rosa Maria sem maldade e em tom de brincadeira.
_ Não! Lógico que não! -— retrucou a cunhada com modos agressivos.
Posso pagar pelo que quero.
Refiro-me a um médico de confiança.
Não conhecemos nenhum nesta cidade.
Então, Rosa Maria -— tornou o Senhor Gonzales —- o doutor David não quis cobrar, mesmo com a minha insistência.
Ele disse que ficou satisfeito com a nossa recepção de ontem à noite e falou sobre a empolgação do filho Henry -— sorriu o homem com satisfação.
Dolores ficou atenta, enquanto Rosa Maria, muito experiente, atalhou seu marido acreditando não ser o momento certo para aqueles detalhes.
—Realmente, senhor Gonzales, o jovem é muito animado e prestativo.
Para um estranho, Henry nos serviu muito bem.
Preocupando-se em nos trazer até aqui e ainda mandando chamar seu pai para os cuidados com nossa menina.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 28, 2016 11:33 am

—Bem lembrado!
Que história foi aquela de Dolores tê-las abandonado sozinhas?! -— inquiriu o senhor Gonzales, recordando-se da conversa que não terminaram antes pela presença dos visitantes.
—Margarida estava com manha! -— defendeu-se Dolores, antecipando qualquer explicação.
— O que aconteceu?! -— insistiu o senhor, mais irritado.
Rosa Maria, sabendo que todos os factos estavam a seu favor, tranquilizou-se em silêncio, aguardando o desenrolar da história na versão da cunhada.
Rapidamente, Dolores tomou a dianteira na palavra e relatou:
- O moço, o tal de Henry, estava lá na praça olhando o nada.
Nós estávamos passando e Margarida não tirou os olhos dele, muito oferecida!
-— Espere um pouco, Dolores!
Oferecida não!
Jamais vou admitir que fale isso de Margarida, você ofende sua honra! -— defendeu a madrasta tomando posição firme a favor da enteada.
— Foi o que eu lhe contei, Gonzales.
Acha que iria mentir?!
Margarida tanto ficou olhando para o rapaz que ele até tirou o chapéu para nos cumprimentar.
Atordoada, Margarida não olhou por onde andava e tropeçou!
Imediatamente ele veio pegá-la em seus braços, levando-a até um banco.
—- Chega, Dolores! -— determinou Rosa Maria com veemência. —
Estou indignada com seu relato! Como pode?...
-— Margarida estava fingindo!
Qualquer um podia ver!
—- Tia!!! Que calúnia!!!
Andando até bem próximo da enteada sentada no divã com as pernas estendidas e observando assustada o desenrolar da história, Rosa Maria levantou-lhe o amontoado de tecido que lhe compunha o longo vestido e exibiu:
— Veja por si mesma!
Pode-se mentir com palavras, mas não com factos.
Mesmo com as faixas podemos observar nitidamente o inchaço do tornozelo e dos dedos que estão aparentes e até roxeados.
Você vai dizer que bati nela para auxiliá-la na mentira?
Margarida não tinha condições de andar, sua entorse foi séria e inspira cuidados ainda.
Admita Dolores, você e suas filhas foram negligentes e egoístas.
Abandonaram-nos lá e nem para chegarem aqui e avisarem seu irmão sobre o ocorrido.
Precisamos da ajuda de um estranho!
— Já era tarde! -— exclamou Dolores.
— Por isso mesmo!
Já era tarde para ficarmos sozinhas na rua.
Gonzales estava preocupado.
Como você mora somente a cinco residências daqui...
— Chega! -— determinou o dono da casa.
Eu não gosto que vocês cheguem tarde.
Já avisei sobre horário.
Atrasa o jantar!
Não gosto de atrasos!
Quanto a você, Rosa Maria, conversaremos depois. Você sabe!
A mulher empalideceu e tentou defender-se:
— Senhor Gonzales, já lhe expliquei tudo isso.
Gostaria de não tomar o assunto novamente.
A única coisa que peço, como regalia, é poder dispor livremente desses horários de reuniões e estudos.
Já solicitei que nos acompanhasse ressaltou ela humilhando-se com tom piedoso na voz.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 28, 2016 11:36 am

— Não me interesso por espíritos!
Nunca vou me interessar!!!
—Ninguém se interessa por espíritos aqui —- tornou a esposa ainda mais amável e submissa.
Nós nos interessamos por nossa evolução, por nosso conhecimento...
—Cale-se, Rosa!
Não estou disposto agora.
Falaremos disso depois.
—Mas...
—Cale-se!!!
—Não seja ignorante, Gonzales! -— intrometeu-se Dolores.
Você admira a educação dos outros, mas não procura demonstrar nenhum pouco de bom senso.
Deveria se esforçar para ser menos ignorante!!!
—Não admito que me chame de ignorante, Dolores!
Se sou assim, não tive quem me ensinasse a ser diferente!
—Gonzales, você é um cabeça-dura! -— insistiu a irmã.
—Posso ser cabeça-dura, mas a sustento junto com suas filhas!
—Você me ofende, Gonzales!
—Ofendo, mas a sustento!!!
— Vai se arrepender disso! -— desejou Dolores inconformada.
Procurando acalmar os ânimos, a jovem senhora alertou:
— É importante a calma.
Por favor, meu esposo...
Não deixe nenhum mal-entendido inflamar nosso bom senso.
Nesse instante, Dolores já se punha em pé para ir embora.
Rosa Maria, muito sensata, procurou envolvê-la:
— Não dê importância a Gonzales, Dolores.
Você conhece seu irmão.
Chamando-a para outro cómodo, convidou-a a sentar-se e solicitou ao mordomo que lhes servissem um chá, procurando tranquilizar a cunhada, enquanto seu marido procurava outros afazeres.
Minutos depois, Dolores desabafava:
— Sabe Rosa Maria, sinto-me humilhada com as agressões recebidas por minha família.
— Minha cunhada, não são agressões.
Sabe, quando temos liberdade com determinadas pessoas, costumamos dizer o que pensamos e sentimos.
Está certo que, para expor nossos sentimentos, não necessitamos ser agressivos.
— Ora, Rosa Maria, todos me ofendem, até você!
— Pense bem, Dolores -— tornou a jovem senhora com brandura na voz.
Não a ofendo. Sou uma pessoa muito sincera.
Costumo me expressar sempre educada, mas com verdade, principalmente para tratar aqueles que estão a meu lado e com os quais acredito ter liberdade.
Pode parecer rudeza quando se fala de modo a desejar passar uma mensagem importante para o outro, mas, se esse outro desejar, aprenderá com a indicação.
— Às vezes você é dura demais, Rosa.
Procurando envolver a cunhada com ternura, Rosa Maria acrescentou:
— Veja Dolores, se eu não a considerasse, se eu não confiasse em você, não seria sincera, verdadeira.
Você mesma me disse que poderíamos lhe apontar as falhas no instante exacto das mesmas, não foi?
Disse-me que isso lhe ajudaria com a reforma íntima.
Alguns segundos de silêncio se fizeram, enquanto a cunhada reflectia.
Mas, como se esquecesse o assunto, Dolores deu outro rumo à conversa:
_ Gostei muito desses dois rapazes.
Que elegância!
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 28, 2016 11:36 am

_ É verdade!
_ Rosa, você não achou o tal de Henry interessado em Margarida?
Sim achei. Para ser sincera, tenho certeza -— riu.
— Aliás, observo que é recíproco o interesse.
Mas vou avisando: tudo farei para a felicidade dessa menina.
Posso lhe garantir! Entendeu? —- falou demonstrando suspeitas.
_ Não precisa garantir, Rosa Maria.
Eu a conheço bem!
A jovem senhora deu um leve sorriso enquanto Dolores comentava:
—Nunca imaginei como uma madrasta pode ter tanta afeição por uma enteada!
Isso não é comum.
—Admira-me não entender, Dolores.
O que me diz das experiências em vidas anteriores?
—Você sabe que minha vidência é muito apurada, mas eu não consigo ver seu passado. É estranho.
—Dolores, por favor, eduque-se enquanto pode.
Não use o que possui para alimentar a curiosidade ou a vaidade.
Se eu possuo a dádiva do esquecimento, faço questão de valer-me dela a fim de aproveitar ao máximo a presente reencarnação, principalmente se tenho, como agora, um pouquinho de entendimento sobre a vida espiritual.
Sabe Dolores, viver preocupada com o passado ou alimentando-se dele pela vaidade de ter sido 'essa' ou "aquela" pessoa importante, ou viver do passado com o orgulho de ter experiências e amizade com "esse" ou "aquele personagem que talvez hoje compartilhamos companhia, e perder o tempo precioso do presente em assuntos fúteis que em nada irão nos ajudar na evolução individual.
Pelo contrário, quando tomamos conhecimento de nosso passado, corremos grande risco de errar novamente e errar feio!
_Por que você diz, errar novamente?
—Se estamos aqui reencarnados hoje, é porque não fizemos tudo certo no passado.
Se fomos princesas um dia, no passado, olha como vivemos hoje!
Cabe até salientar:
"Que decadência! De princesa no passado, veja como estamos aqui?!"
—Somos privilegiadas! Você não concorda?
—Financeiramente, sim.
Mas que pobreza espiritual a nossa para estarmos ainda aqui aprendendo, pois, se já soubéssemos, estaríamos ensinando, não acha?
—Rosa Maria, você deu outro rumo à conversa.
Falávamos de Margarida e você.
Como pode... é uma moça tão sonsa!
—Não diga isso! -— repreendeu educada e firme.
Margarida é uma óptima criatura.
Amável, educada, alegre...
—Só vendo com os seus olhos!
—Aponte-me seus defeitos, Dolores!
Se eles existirem de maneira tão forte, como você diz, teremos que nos preocupar muito.
—Por quê?
—Somos mil vezes piores do que ela.
Possuímos a maldade nos pensamentos, tecemos julgamentos e fofocas não vigiando a nossa boca.
—Eu a vejo sempre "carregando Margarida no colo".
—E farei isso enquanto tiver forças.
Trato Margarida como gostaria de ser tratada por ela, se acaso ela tivesse que me dispensar cuidados.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 28, 2016 11:37 am

Sabe Dolores, você deveria ler mais o Evangelho, ele lhe faria muito bem a reforma íntima.
—Está vendo como você me ofende?!
—Estou fazendo com que você se vigie, Dolores.
Tenha bom senso!
—É que Margarida me faz lembrar a mãe dela.
Eu não me simpatizava com ela.
—Vamos parar por aqui, Dolores.
Estamos indo longe demais.
—Você nem a conheceu, Rosa Maria.
Não tem por que defendê-la.
Era a mulher mais...
—Cumpridora de seus deveres.
Segundo eu soube pelo próprio Gonzales.
Agora vamos deixar Estella em paz na espiritualidade, por favor.
Você sabe o quanto é prejudicial para um espírito ficarmos tecendo comentários sobre o que ele fez ou como ele foi, quando encarnado.
Além do que, nós nos prejudicamos muito quando falamos dos que já desencarnaram, devemos deixá-los em paz.
Dando novamente outro rumo à conversa, Dolores indagou:
—Acha que Gonzales permitirá o namoro de Margarida com esse médico?
—Por que não permitiria?
Ele me parece ser um excelente rapaz.
—Indo e voltando da Universidade, huuuum!...
Não sei não. Deve ter outra por aí!
Ainda mais sendo médico!
Cansada de ouvir conversa improdutiva e de nível tão inferior, Rosa Maria procurou mudar de assunto:
—Já estudou o Capítulo XXV de O Livro dos Médiuns— Das Evocações?
Iremos debatê-lo na próxima reunião.
—Não. Ainda não tive tempo -— afirmou a cunhada.
—É um assunto muito importante.
Rosa Maria empolgou-se ao ponto de falar sobre a lição do livro, não lhe interessava comentários que proporcionassem fluidos desnecessários e pesarosos ao ambiente de seu lar ou a si própria.
Sabe Dolores, eu já li o capítulo.
Agora estou estudando de forma mais minuciosa.
Tenho incontáveis argumentos para não apoiar a evocação, o chamado de espíritos inutilmente, para futilidades.
—Ora, Rosa Maria, se não fizermos perguntas a eles, faremos a quem?
—Refiro-me ao tipo de pergunta, a qualidade e a utilidade.
Se nossas perguntas forem para fins sérios e instrutivos, óptimo!
Aprendi muito com esse capítulo, as recomendações aos médiuns são formidáveis!
— Que recomendações?
— A de que não cedam a dar comunicações de espíritos a quem os peçam, eles podem cair em armadilhas e ficarem vulneráveis a espíritos inferiores.
Que os médiuns, sem estudo ou conhecimento, não se prestem a dar comunicações de espíritos sob pretexto algum.
Geralmente os outros lhes pedem essas comunicações para curiosidade, interesse pessoal e não por um interesse geral e assunto produtivo que contribua para a compreensão, a evolução e harmonização de muitos outros.
— Eu sou a favor da comunicação com os espíritos.
Todos nós temos o desejo de saber sobre o futuro ou sobre o passado.
— Para quê?
O que você poderá fazer com essa informação, Dolores?
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 29, 2016 10:59 am

— Melhorar a minha vida!
— Dolores, acorde para a realidade!
Se fosse necessário que soubéssemos sobre o passado ou o futuro, nasceríamos com a recordação do que fomos e com a vidência do que nos vai acontecer, isto é, todos nós!
Se somente a alguns é dada a condição de saber sobre o mundo dos espíritos, é porque nem todos podem ter conhecimento dos factos.
A comunicação com os espíritos tem que ser algo feito com muita prudência e muita responsabilidade.
É preferível até que não seja feita para evitar relações fluídicas entre encarnados e desencarnados que não se consigam dispersar com facilidade.
O médium responsável não se transforma em "agente de consultas".
Vamos lembrar que os espíritos não estão à nossa disposição, principalmente para a satisfação pessoal, egoísta e leviana.
Bons espíritos não se dispõem aos chamados, às evocações, sem um fim sério, instrutivo e colectivo.
E se por acaso eles atendem ao chamado, sua comunicação é curta e restrita, ou seja, não dão respostas que satisfaçam à curiosidade.
A evocação é muito penosa para espíritos bons quando são chamados inutilmente, para futilidades.
Daí que ou eles não vêm, ou se retiram logo.
Eles não gostam de servir de distracção a curiosos, como nos ensina O Livro dos Médiuns.
Os Espíritos maus atendem aos chamados dos curiosos para enganar ou dominar.
Veja bem, Dolores, quem diz isso não sou eu.
Isso está na Codificação Espírita.
—Sabe, Rosa Maria, às vezes acho que o senhor Allan Kardec foi egoísta ao tecer tantas negatividades sobre a comunicação dos espíritos.
—Não foi o senhor Kardec quem teceu "tantas negatividades sobre a comunicação dos espíritos", foram os próprios espíritos quem avisaram.
Aliás, não vejo negativas quanto às comunicações dos espíritos, eu vejo a indicação do bom senso.
Observe bem, Dolores, se o consolador prometido por Jesus é a Doutrina Espírita, esse consolador tem que nos ensinar o que é correto.
As pessoas pensam que o consolador é aquele que só vai lhes afagar os cabelos no instante de crise e choro.
O consolador verdadeiro é aquele que ensina a não errar mais para não ter pelo que chorar.
O senhor Kardec foi o codificador.
Foram os próprios Espíritos que explicaram e enviaram as mensagens.
Veja bem, Dolores, aquele que lhe agrada, que resolve para você os seus problemas, que a adula, nem sempre é quem a consola.
O consolo verdadeiro vem daquele que ensina a fazer correctamente para que você não erre mais, não sofra mais.
Consolador é aquele que liberta e não o que nos deixa dependentes, endividados.
— Por que dependentes?
Ninguém nos deixa dependente.
— Ah! Deixa sim.
Se você se acostumar a consultar espíritos para o que deseja fazer de importante, ficará dependente.
Nunca se sentirá livre e vai se tornar uma criatura incapacitada, porque não vai conseguir resolver seus desafios e, não solucionando seus problemas, você ficará endividada, cega, sem soluções próprias e vai demorar muito mais para evoluir.
Não pense que, quando outro resolve os seus problemas, você está livre!
Isso é ilusão.
Você enfrentará o mesmo problema novamente, nesta ou em outra vida, até que o solucione sozinha.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 29, 2016 10:59 am

E quanto ao senhor Kardec, ele não foi egoísta, nem mesmo os Espíritos que passaram a codificação o foram.
Como consolador, a Codificação Espírita explica e ensina o que é correto e nos dá a esperança e a força necessária para caminharmos sem erros e com soluções próprias.
Em nenhum momento, o Senhor Allan Kardec ou os Espíritos nos proibiram quanto a nós nos comunicarmos com os Espíritos, mas sim, ensinam-nos a analisar a comunicação, o bom senso que devemos ter, o que queremos perguntar para não nos prejudicarmos e para não nos enganarem.
Em nenhum momento, como eu já disse, a Doutrina Espírita nos proíbe de alguma coisa.
Entretanto a todo instante ela nos orienta.
Cabe a nós decidirmos o que é correto.
— Certo, Rosa Maria! -— decidiu Dolores insatisfeita com a conversa.
Está tarde, preciso ir.
Amanhã à noite vamos nos reunir.
Deixemos esses assuntos para o momento preciso.
Bem após a partida de Dolores, a noite então chegara e Rosa Maria decidiu ver se Margarida precisava de alguma coisa.
Já no quarto da jovem, depois de auxiliá-la a chegar lá, Rosa Maria ouvia o relato encantado de sua enteada.
— ...como ele é incrível!
Ah, Rosa! Henry será sempre assim?
— E você, será sempre assim como é hoje? -— sorriu, aguardando.
— Como assim?! -— perguntou a jovem.
— Pelo menos para mim.
Você é tão... amiga!
Será que não irá se esquecer de mim quando tiver seus planos realizados?
Quando estiver ao lado de Henry?
Com filhos chorando?
Com um monte de afazeres domésticos?...
Rosa Maria gargalhou em seguida ao fazer Margarida se lembrar das tarefas que um lar exige, pois sabia que toda moça sonhadora se esquece das responsabilidades.
—Rosa, não atrapalhe meus planos -— pediu Margarida com certo mimo.
—Não são planos, são sonhos, minha querida -— disse amavelmente.
— Devemos sonhar... sonhar é maravilhoso!
Alegra-nos a alma, porém devemos estar acordadas e com os pés no chão.
—Rosa, e... quanto a papai querer falar com você a respeito de ontem?
A madrasta fechou o semblante com ar de preocupação, mas não respondeu e Margarida tornou:
— Você viu, ele não gostou.
Rosa... eu posso tentar falar com ele!
—Não! -— afirmou a jovem senhora com veemência.
Eu saberei lidar ele.
Não quero ver o senhor Gonzales irritado com você.
—Mas... Rosa, eu sei que ele...
—Por favor, Margarida -— pediu Rosa Maria sem deixá-la terminar a frase.
Agradeço. Fique tranquila, saberei resolver.
Beijando com ternura a testa da enteada, a jovem senhora se retirou deixando-a a sós para dormir.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 29, 2016 11:00 am

4 - Cultura

Com o passar dos dias, o jovem Henry solicitou ao senhor Gonzales a permissão para firmar compromisso com sua filha Margarida.
Não havendo empecilho que o preocupasse, o pai da jovem consentiu que o namoro ocorresse em sua casa e sob os cuidados de sua esposa, como era o costume da época.
Sem questionar, Henry aceitou e passou a frequentar a residência dos Gonzales levando consigo, na maioria das vezes, seu irmão mais velho, Robert.
Henry avisou de seu regresso à Universidade de Oxford porque estava terminando seu período de recesso escolar, mais conhecido como férias.
Assim, teria somente algumas semanas para ver a jovem encantadora, sua pretendente, uma vez que em determinadas folgas teria de se dedicar muito aos estudos.
Devido às saídas e até viagens constantes de seu marido a fim de negócios, como dizia ele, a jovem senhora Gonzales, que era acostumada a solidão, viu suas tardes preenchidas de alegria e atenção pela presença dos cavalheiros e suas conversas entusiasmantes.
Numa das vezes em que Henry comparecia em sua casa levando consigo seu irmão Robert, Rosa Maria pôs-se ao piano 1encantandoos com belas melodias.
A alegria envolvia a todos e era agradabilíssima a confraternização.
Aproveitando a distracção dos jovens enamorados, que se puseram em conversação paralela, Rosa Maria tornou ao assunto de seu interesse:
— Impressionei-me com o domínio que o senhor possui sobre história, conhecimentos gerais e religião, senhor Robert.
Tenho um interesse muito particular por religiões.
— Na minha opinião, senhora Rosa Maria, algumas religiões fogem aos seus objectivos, que é a religação do homem com Deus e o ensino da evolução de cada criatura.
Eu vejo o seguinte:
a religião Islâmica, fundada por Maomé no século VII depois de Cristo, faz os muçulmanos acreditarem em Maomé como sendo o último dos profetas entre Adão, Abraão, Moisés e Jesus.
Eles afirmam que somente a Maomé Deus transmitiu informações verdadeiras e ninguém pode pesquisar ou questionar a respeito.
Isso é dogma, certo?
Rosa Maria pendeu com a cabeça suavemente junto com um sorriso agradável, e ele continuou:
— O Islamismo foge da religião quando interfere na vida interior, política e jurídica de seus praticantes, assim como o Judaísmo, o Hinduísmo e os Quakers.
Para mim, o Islamismo possui alguns rituais muito estranhos.
Todo muçulmano tem que peregrinar à cidade de Meca no último mês do ano, visitar a mesquita sagrada, circular sete vezes em volta dessa construção, sendo três vezes correndo e quatro vagarosamente, tocar e beijar a pedra negra de Abraão, beber água no poço de Zemzem, correr sete vezes a distância de Safa a Marva, andar até o Monte Arafat e Mina, atirar pedras nas colunas e sacrificar um animal, entre outras práticas.
Tudo isso ocorre em nome da fé.
Mas fé em quê?
Eles não perguntam para que serve tudo isso?
Em que isso é útil?
Como podem crer que isso agrada a Deus?
Antes que a senhora os defenda -— informou Robert, antecedendo as observações ponderadas de Rosa Maria —- eu sei que isso é para a cultura e o desenvolvimento espiritual de cada homem e mulher daquela região.
Mas estou tentando explicar pontos pequenos dentro de várias religiões que me levam a raciocinar muito sobre a fé.
Caminhando com a história das religiões, observamos que a Igreja Católica Apostólica Romana usou de todo o seu poderio e indulgência para dominar, reinando política e militarmente sobre todos, sem piedade ou respeito.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 29, 2016 11:00 am

— Perdoe-me interrompê-lo, mas creio que não foi toda a Igreja Católica e sim alguns de seus clérigos.
Por essa razão houve um pedido de "Reforma".
— Justo! -— empolgou-se ele.
— Eu vou chegar até aí.
Mas ocorreu o seguinte:
Por volta do ano de 1400, quando a sede papal transferiu-se para a cidade francesa de Avignon e devido às arbitrariedades cometidas pela Inquisição, o povo, mesmo coagido, começou a ficar revoltado.
Por isso surgiram vários homens solicitando uma mudança no comportamento da igreja, principalmente no que diz respeito ao entendimento do Evangelho.
Esse movimento foi chamado de "Reforma", e denominados reformadores os indivíduos que reivindicavam essa reforma, mudança, uma revisão de todos os actos católicos.
Com isso surgiu com destaque o reformador Martinho Lutero.
— Não sei muito sobre Martinho Lutero -— admitiu a senhora, por isso solicitou —- poderia esclarecer-me mais sobre ele?
— Martinho Lutero nasceu na Alemanha em meados de 1483.
Ele provém de uma família muito rigorosa, exigente ao extremo e demasiadamente religiosa.
Depois de concluir seus estudos bacharelando-se em artes, Lutero decidiu seguir a vida religiosa e ingressou na "Ordem dos Eremitas Agostinianos", um convento rigoroso às regras Agostinianas.
Ordenou-se e dedicou-se rigorosamente às ordens pastorais e ensino de Teologia.
Ele foi enviado à Roma para tratar de assuntos da ordem, mas ficou impressionado com o que viu.
Desde quando a sede papal localizava-se na França, em Avignon, houve excessiva influência de sobrinhos e parentes dos Papas na administração eclesiástica.
Além disso, foram constatadas práticas imorais explícitas de alguns pontífices e a indulgência, ou seja, o perdão do Papa aos pecados dos homens em troca de doação em dinheiro para a construção da Basílica de São Pedro, em Roma.
Ao tomar ciência de tudo o que ocorria no seio do catolicismo, Martinho Lutero indignou-se e formulou noventa e cinco teses contra o sistema da indulgência e afixou-as na porta da igreja de Wittenberg, na Alemanha.
Nessa época, cerca de seis príncipes alemães mantinham relações tensas com o imperador Carlos V e com Roma, principalmente devido ao pagamento de impostos.
Os príncipes ficaram satisfeitos por terem em seu meio um reformador disposto a apontar os erros da Igreja e deram muito apoio e incentivo a ele; Martinho Lutero.
Só que Lutero, a meu ver, não sabia muito bem o que queria ainda.
E devido à pressão que sofrera, de certa forma, pelos príncipes que necessitavam de um "apoio religioso" para rebelarem-se contra Roma, Lutero teve de acelerar a conclusão de suas teses, dando, logicamente, uma inclinação muito favorável aos poderosos políticos que o apoiavam:
os príncipes.
Lutero não tinha alternativa agora: ou ele era favorável aos príncipes ou era entregue a Roma, pois o Papa da época já o havia acusado de herege e solicitava seu comparecimento em Roma.
Só então, creio eu, Martinho Lutero percebeu que suas noventa e cinco teses contra o sistema foram precipitadas na divulgação.
O príncipe Frederico III protegeu Lutero e não deixou que o enviassem ao Papa.
Veja porquê:
Nessa mesma época, na Alemanha mesmo, um outro reformista Thomas Müzer, visava à criação de comunidades sem culto e sem sacerdotes, dizendo que Jesus não teve religião nem indicou nenhuma.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 29, 2016 11:00 am

Thomas Müzer incentivava os camponeses alemães a esse tipo de doutrina e isso não agradou aos mesmos príncipes que apoiavam Martinho Lutero.
Os príncipes necessitavam de um povo submisso e medroso que obedecesse cegamente às suas ordens.
Sem cultos e sem sacerdotes, o povo pensaria por si só, teria que estudar e desenvolveria a liberdade de raciocínio.
Quando os príncipes se viram ameaçados por essa nova doutrina de Thomas Müzer, que parecia se expandir, reprimiram duramente os camponeses quem seguissem suas ideias com uma sangrenta opressão.
Eles fizeram punições exactamente como as da "Santa Inquisição", e mais:
não dava o direito das pessoas abjurarem nem oferecia julgamento com direito à testemunha.
É bom salientar que esse massacre teve a aprovação de Martinho Lutero, que pregava:
"a comunidade deveria constituir a Igreja, unida pela fé, subordinada ao poder dos príncipes instituídos por Deus."
Martinho Lutero apoiou o massacre dos príncipes contra os camponeses que reivindicavam liberdade de pensamento.
Esse reformador Lutero tirou o povo do poder arbitrário de Roma e os condenou ao domínio repressor dos príncipes -— contava Robert com um tom piedoso na voz enquanto Rosa Maria nem piscava.
Breve pausa e ele continuou:
— A princípio, Martinho Lutero era a favor do celibato, mas quando se apaixonou por uma freira de nome Katherine, decidiu afirmar que seus clérigos não necessitavam do celibato.
Lutero se casou com Katherine.
Antes de seu casamento, ele escreveu três célebres tratados e a base do luteranismo em A nobreza cristã da nação Alemã.
Particularmente, penso que, além de incentivar o orgulho do povo alemão, Lutero iniciou a implantação do germe degenerativo da vaidade naquela nação.
— Isso é verdade! -— concordou Rosa Maria.
Estamos em 1888 e hoje mesmo podemos sentir o orgulho do povo alemão.
Se esse germe do orgulho se propagar, futuramente o povo alemão pode acreditar ser o escolhido, o melhor e o superior.
Isso provocaria grandes destruições almejando o domínio do mundo por acreditar serem os únicos nobres, os únicos superiores.
Além disso, os seguidores dessa religiosidade pregada por Lutero, poderão sentir-se os escolhidos, os únicos a serem salvos em qualquer parte do mundo.
— Exactamente, senhora! -— concluiu o médico.
— Sabe me dizer, senhor Robert, como Martinho Lutero iniciou suas teses? -— perguntou ela interessada nos factos.
— Martinho Lutero estava angustiado sobre a salvação do homem e reflectiu uma epístola de São Paulo, o apóstolo, aos Romanos:
"O justo viverá da fé" — Romanos 1:17.
Daí, Lutero decidiu que o protestantismo iria fundamentar-se na "Salvação somente pela fé."
Isso quer dizer que, independente de quem você seja ou o que faça, se tiver fé, irá para o reino de Deus.
Podemos ver que foi conveniente para Martinho Lutero se afirmar somente nessa epístola, pois, se ele fosse realmente estudioso e fiel para consigo mesmo, teria analisado e reflectido em Paulo— I Coríntios, 13:13 — "Agora, pois, permanecem estas três:
a fé, a esperança e a caridade, porém a maior destas é a caridade", ou então:
"Bem aventurados os pacificadores porque serão chamados filhos de Deus."
— Jesus.
Para escravizar o povo sob suas teses, Martinho Lutero explicava à sua maneira que devemos ser submissos e respeitar a vontade de Deus, isso se denomina De servo-arbítrio, ou seja, o arbítrio escravizado.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 29, 2016 11:00 am

Arbítrio é a vontade própria, então seria "sua vontade própria não existe, você está escravizado".
Fazendo o povo adoptar a ideia de arbítrio escravizado, eles se submetiam às imposições das leis dos príncipes, dos abusos dos impostos e de normas incabíveis sem reclamar, pois com a ideia de arbítrio escravizado, acreditavam que tudo era vontade de Deus.
Estavam cativos daquela religião.
O povo não tinha direito a perguntar sobre nada.
Isso favorecia muito o governo.
Eles deveriam aceitar as leis e as normas.
A isso se dá o nome de ortodoxia, ou seja, é a doutrina religiosa considerada como verdadeira, a única que é correta e sobre a qual inexiste o direito de se querer saber algo além do que é exposto.
Embora Martinho Lutero desejasse denominar de Igreja Evangélica, ela foi logo chamada de Igreja Luterana por causa de seu reformador e também chamada de Religião Protestante devido ao protesto dos príncipes da Alemanha contra Roma.
—Mas as Igrejas Protestantes ou Luteranas se dividiram — completou a senhora.
—Certo. Porém o principal factor das Igrejas Luteranas dividirem-se, ainda mais entre si, foi pelo facto de Martinho Lutero ter afirmado:
"A nobreza Cristã da nação Alemã".
—Como assim?
—As Igrejas Luteranas têm seus princípios baseados em "somente a fé salva" e que "não é preciso obras humanas para adquirir a salvação."
Isso resulta em que podemos fazer o que quisermos e não nos responsabilizarmos ou nos preocuparmos com o próximo.
Depois basta pedir perdão com muita fé e seremos salvos.
Isso é cómodo aos providos de preguiça e contra o princípio da caridade que Jesus exemplificou e ensinou.
Jesus ainda disse que "...ninguém chegará ao pai se não por mim", isto é, praticando o que Ele demonstrou em acção.
Veja o absurdo de Lutero ter apoiado o massacre aos camponeses somente a fim de ser protegido e não ser entregue a Roma como herege e correr o risco da Inquisição, e ainda criando a vaidade daquele povo!
—Por favor, senhor Robert, não entendo a divisão das Igrejas Luteranas, Protestantes ou Evangélicas.
— Protestantismo foi o nome dado para designar as várias igrejas cristãs que surgiram com a Reforma.
Algumas são diferentes entre si como as Testemunhas de Jeová e a Igreja Luterana, mas todas têm em comum, compartilharem seus princípios básicos e fundamentais na "salvação pela fé".
Existe também, a ortodoxia, ou seja, a crença que é a única doutrina a dizer a verdade, a única que salva e eles não podem pensar ou contestar, pois se fizerem isso estão sendo comparsas do demónio.
Há ainda o arbítrio escravizado dizendo que todo ocorrido é a vontade de Deus e há de se aceitar a provação ou vai pro inferno.
Essas são as regras principais desse tipo de doutrina criada pelos protestantes.
Isso inibe o povo pelo medo e não o deixa livre.
A maioria dessas religiões, baseadas na ortodoxia protestante, mesmo as não denominadas Igrejas Luteranas e, às vezes, chamadas de Igrejas Evangélicas, adoptam a Bíblia como autoridade suprema das leis e mesmo os não simpatizantes de Lutero abraçam a Bíblia traduzida por ele em 1534 a pedido do príncipe Frederico.
Assim como a Vulgata, que é a Bíblia traduzida e composta por S. Jerónimo, foi feita a pedido do Papa.
Fora isso, a melhor versão da Bíblia, na minha opinião, é a que tem a tradução feita por Erasmo.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 29, 2016 11:00 am

— Por favor, volte à separação das Igrejas Luteranas.
— O termo protestante surgiu pelo protesto dos seis príncipes, como eu já disse, em quatorze cidades alemãs por volta de 1529, quando o imperador Carlos V anulou a autorização que concedia a cada príncipe determinar a religião de seu próprio território.
O termo protestante foi adoptado pelos católicos que protestavam e por inúmeros partidários da Reforma da Igreja Católica Romana, pois esses protestos eram as rejeições à autoridade de Roma.
Todos os que reclamavam contra Roma, inclusive os próprios católicos, eram considerados protestantes.
A desigualdade e as crescentes divisões das igrejas protestantes como:
luteranas, calvinistas, anglicanas, entre outras ocorreram principalmente pela forma pessoal das interpretações dos Evangelhos como norma de vida sob o entendimento do Espírito Santo.
Isso fez aparecer duas tendências no meio do protestantismo:
a tendência liberal e a fundamentalista que se autodenominou: Evangélica.
Dentro dessas duas tendências houve divergências que provocaram o surgimento de outras igrejas como a Evangélica e Reformada, Evangélica Luterana e a Evangélica Alemã.
Mesmo com a divisão e subdivisão existente, as ideias dos princípios básicos são fundamentados na ortodoxia de Lutero.
Se por um lado, Martinho Lutero e muitos outros reformadores, basearam-se em que somente a fé salva e que não é necessário boas práticas para a salvação, por outro lado o Catolicismo, tão acusado por eles de fazerem o que era errado, indica-nos que a salvação só é conseguida quando o homem muda suas acções e entendimento para os ensinamentos de Cristo.
Isso é muito importante, pois o Catolicismo prega o que Jesus ensinou, isolando a ideia de orgulho, vaidade, práticas maldosas contra o semelhante etc.
Bem diferente do que Lutero fez ao apoiar os príncipes contra os camponeses.
Apesar das subdivisões das Igrejas Luteranas, sejam elas as liberais ou fundamentalistas, mas todas Evangélicas como as Presbiterianas, as Congregacionistas, a Evangélica e Reformada, a Evangélica Luterana, a Alemã, a Baptista, as Pentecostais, as Calvinistas, as Anglicanas e tantas outras pregam a palavra de Deus conforme as ideias de Lutero que só queria esquivar-se de qualquer responsabilidade, como podemos ver.
— Perdoe-me, senhor Robert, mas não consigo ver onde a frase de Martinho Lutero subdividiu a Igreja Luterana.
Sem demora o médico explicou:
— Martinho Lutero deu superioridade à nação alemã quando com a frase "A Nobreza Cristã da Nação Alemã", deu a entender que somente os alemães são nobres cristãos.
Se ele pretendia propagar sua doutrina fora da Alemanha, como poderia fazê-lo considerando como cristãos nobres somente os alemães?!
Oferecendo alguns minutos para a reflexão de Rosa Maria, logo Robert continuou: —
Sentindo-se subjugados, mesmo adoptando os princípios básicos de Martinho Lutero de que só se salva pela fé, outros reformadores também queriam, desejavam ser nobres cristãos e quanto mais puros, melhor!
Os protestantes liberais das Igrejas Luteranas, na Alemanha, acreditavam ser os melhores, os mais nobres e não contestavam a ortodoxia nem a doutrina religiosa considerada como única e verdadeira imposta por Lutero de forma tão inquisidora quanto alguns Papas fizeram com o catolicismo.
Ninguém reclamava, pois eram alimentados com as ideias de serem os mais puros, os melhores.
Na minha opinião, senhora, Martinho Lutero e os adeptos de sua doutrina, como também os das Igrejas Evangélicas que se subdividiram, são de natureza tão corrupta quanto foram os inquisidores católicos.
— O senhor quer dizer quanto foi inquisidora a Igreja Católica?
— Não. Não podemos misturar os homens com a religião de onde eles provêm.
Dentro do Catolicismo temos ensinamentos riquíssimos e personagens maravilhosos.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 29, 2016 11:01 am

Cabe até salientar São Francisco de Assis, exemplo vivo de Jesus e suas obras caridosas.
Enquanto muitos outros que foram contra o catolicismo defendem a escravização de irmãos pela falta de conhecimento e práticas caridosas porque seu "líder", no passado, não reflectiu direito.
Mas temos também algumas teses protestantes, principalmente sobre a indulgência, que são meritórias de valor e análise.
No entanto alguns dos seguidores dessas religiões deturparam o entendimento e a prática dos ensinamentos mais elevados de Jesus e, por ostentarem o nome de "religiosos desta ou daquela doutrina", adoptam-no como título de nobreza e acabam por assumirem o orgulho e a vaidade.
Observe bem, o Evangelho de Jesus é maravilhoso!
A tradução feita por Lutero é muito boa, mas transformou esses ensinamentos com as suas explicações e os seus feitos.
Veja bem:
somente ele pregava, somente ele possuía o saber.
Lutero guardava o conhecimento para si próprio, e os outros, que não possuíam acesso a informações, não tinham consciência, ou seja, não sabiam como reconhecer as ideias básicas porque para isso exige-se tempo e estudo.
Assim, aceitavam como verdadeira a sua palavra e a sua orientação.
É a fé cega.
Lutero foi comprovadamente um homem louco, sabia?
Por vontade própria, por seus caprichos e personalismo pode levar milhões ao erro se esses "milhões" forem acomodados e não quiserem adquirir conhecimento.
A loucura e o fanatismo que Lutero experimentou certamente abraçará a todos os fascinados pela doutrina protestante ortodoxia e de fé cega.
Vejamos como isso é verdade:
os protestantes fundamentalistas, principalmente os calvinistas, sentiram-se ultrajados com a ideia de somente a Alemanha ser de nobreza cristã.
O francês João Calvino, outro reformador -— daí originou-se o nome calvinista -— pregava piamente que todos deveriam aceitar a predestinação, que era a absoluta vontade de Deus, e ainda afirmava a dupla predestinação:
a salvação e a condenação.
Essa doutrina de João Calvino, desejava e acreditava serem os verdadeiros e os únicos salvos, que começaram a pregar com puritanismo do maniqueísmo.
— Maniqueísmo?!
Do que se trata?
— É uma religião que surgiu por volta do século III depois de Cristo, fundada por Mani ou Maniqueu, na Pérsia.
Segundo essa religião, que também afirma ser a única verdadeira e salvadora, o Universo é a criação de dois princípios que se opõem:
o bem, Deus e o mal, demónio.
Daí eu pergunto:
se houver dois princípios, Deus e o demónio, tem de haver um outro criador desses dois, não é?
Porque Deus deixa de ser Deus se houver um outro igual a Ele, mesmo que este seja o Seu oposto.
—Perfeitamente — concordou a mulher.
Se existe outro semelhante a Deus, no poder e na força, mesmo que seja Seu oposto, mas que tenha potencial tanto quanto Ele, Deus não é o criador de todas as coisas.
Deus não foi criado por alguém, não existe outro igual ou superior a Ele, nem existe o seu oposto.
Deus é!
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 29, 2016 11:01 am

—Exactamente, senhora Rosa Maria!
Se existir o mal eterno, ao qual alguns julgam serem condenados, Deus deixaria de ser bom e justo.
Se houvesse um demónio para tomar conta desse mal eterno, que seria o inferno, teríamos um outro ser tão poderoso quanto Deus.
Isso é inadmissível porque, se foi Deus quem criou tudo, Ele não criaria algo tão poderoso quanto Ele e ao mesmo tempo destrutivo.
Se Ele é bom, se Ele é justo, não condenaria sua criação, ou seja, seus filhos a penas eternas no fogo do inferno.
Então analisando com o raciocínio lógico, nós temos a criação do inferno e do purgatório, feita pelo próprio homem para amedrontar o seu semelhante a fim de algum lucro.
—A escravização pela obediência no medo: o domínio! — enfatizou ela.
—Exactamente! Estamos em 1888, em plena época em que a educação é muito estimulada.
Vivemos em tempos civilizados e vemos que algumas pessoas têm preguiça de ganhar conhecimento,
por isso elas não estudam, não raciocinam, não lêem, não pensam.
E mais fácil aceitar o que os outros falam e ditam como verdadeiro.
Somente os mais inteligentes questionam e vão atrás da verdade.
Mas esses são a minoria.
Os doutrinadores que massacram e dominam querem guiar as nossas vidas, detêm o conhecimento e não admitem ser questionados.
Ameaçam com gritos e condenações as penas perpétuas no inferno que ninguém nunca viu e aceitam pela fé cega.
Sejam eles de quaisquer religiões, o objectivo desses oradores é serem obedecidos cegamente pelos seus fiéis, por isso impõem medo com o desconhecido, como se Deus fosse injusto e só fizesse revelações para eles.
—Mas o senhor não acredita que podemos receber algumas revelações?
—Acredito sim.
Se recebemos uma revelação a nosso respeito, devemos ter o bom senso e procurarmos nos corrigir porque revelações pessoais sempre vêm como um alerta para que nós corrijamos os nossos actos errados.
Se a revelação é para uma colectividade ou um grupo, é egoísmo querer guardá-la para si ou um grupo fechado.
Deus é justo e eu não posso conceber isso.
Por essa razão, os grupos protestantes queriam ser uns melhores do que outros.
Os calvinistas quiseram demonstrar ser os mais puros e os mais perfeitos.
Eles se espalharam rapidamente na França, com violência e imposição, para provarem que eles se destacavam e eram os melhores.
Melhores que os "nobres cristãos alemães de Lutero".
Para não ficarem para trás, mesmo seguindo alguns princípios de Lutero, o suíço Huldrych Zwingli8, fundou, em Zurique, uma doutrina mais radical do que a de Lutero, os anabaptistas, ou como alguns dizem:
os baptistas.
Os baptistas eram denominados assim por defenderem e praticarem o baptismo somente em adultos, dizendo que as crianças não poderiam ter a graça de Deus, pois não compreendiam a fé.
Eles exigiam uma observação muito radical nos ensinamentos bíblicos.
Huldrych Zwingli foi o primeiro humanista a elaborar o dogma reformado, fez abolir o celibato dos padres e as missas sem interesses pessoais.
O outro reformador, João Calvino, teólogo francês, tentou unificar vários grupos de protestantes ou evangélicos em um único e teve muito êxito com os anabaptistas, principalmente após a morte de Zwingli. Entretanto, definitivamente, João Calvino não aceitava os luteranos nem queria ouvir falar em Martinho Lutero.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 29, 2016 11:01 am

Daí eu pergunto: que grupos de cristãos são esses que rejeitam outro semelhante por sua nação, por sua etnia, cor ou princípios?
O que Jesus pregou se não o perdão e a caridade?
E inadequado dizerem que seguem os preceitos do Evangelho!
É bem estranha a história das religiões que, a meu ver, não nos religa a Deus, pois pregam e incentivam orgulho, egoísmo e alimenta a vaidade de ser o melhor.
Mas o melhor em quê?
Melhor em protestos e guerrilhas? Brigas? Intrigas? Vaidade e orgulho?
Católicos protestam contra os católicos!
Protestantes contra protestantes!
E todos querem sustentar a vaidade de serem os correctos, os puros, os melhores, os nobres e os mais amados por Deus?!
— Em meio a tudo isso, senhor Robert, ao que o senhor se inclina?
A quem o senhor é favorável?
— Bem... eu sou a favor de Thomas Münzer, reformista alemão que alimenta ideias radicais para sua época:
"comunidades sem culto nem sacerdotes."
Mas este foi calado, junto com seus seguidores massacrados pelos príncipes que apoiavam Lutero.
Veja, senhora, não tenho o desejo de induzir alguém às minhas ideias.
Deixo bem claro que essa opinião é pessoal.
O que estou procurando lhe trazer são informações do que aprendi.
— Entendo que estamos trocando conhecimento, senhor Robert.
Esse assunto me interessa e, como pode ver, anseio por noções e histórias das religiões.
Sei pouco a respeito.
Gosto de estar bem instruída e, felizmente, encontrei no senhor uma fonte de sabedoria.
Mas não vamos desviar nosso assunto, por favor! -— sorriu.
— E sobre Erasmo de Rotterdam, o que o senhor tem a dizer?
— Não vejo Erasmo de Rotterdam como reformador.
Ele era filho legítimo de um padre.
Seu nome verdadeiro era Desidério Erasmo e por ter nascido em Rotterdam, colocaram-lhe essa alcunha.
Erasmo entrou para um convento agostiniano a fim de poder estudar e solicitou dispensa depois que conseguiu seu objectivo.
Em seguida, estudou por quase toda a Europa, incluindo Oxford onde se dedicou ao idioma grego.
Ele sugeriu reformas no seio da igreja Católica Romana, apontando as práticas imorais de alguns pontífices.
Opôs-se à indulgência e, ao verificar irregularidades na vulgata, a Bíblia traduzida por São Jerónimo, antigo e novo testamento, iniciou um trabalho de nova tradução o qual podemos observar o quanto se acresceu no Novo Testamento e o quanto se diferencia, em certas partes, da vulgata católica.
Martinho Lutero queria que Erasmo aderisse ao protestantismo, mas Erasmo, humanista muito consciente, era contra o dogmatismo.
Cauteloso, ao expressar suas ideias, ele foi firme quando discordou piamente de Martinho Lutero defendendo o livre-arbítrio e que Deus não impõe a alguém provações miseráveis por puro capricho Dele, isso é injustiça.
Lutero reagiu violentamente aos pensamentos de Erasmo, que defendia muito a "filosofia de Cristo".
Erasmo buscava sempre um equilíbrio para suas ideias, pois queria compreender a pequenez dos outros.
Ele era criterioso e rigoroso para consigo mesmo e não para com os outros.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 29, 2016 11:01 am

Não tendo como se defender de Lutero, pois seus seguidores evangélicos ou protestantes eram fascinados, verdadeiros loucos, que desejavam, mesmo à força, impor as suas verdades de serem os únicos com razão, com pureza, e tendo de fugir da Inquisição, Erasmo refugiou-se em Londres.
Ele sempre se envolvia em polémicas sobre religião e adquiriu fama de erudito desde que estudou na Universidade de Paris.
Mas sua postura liberal não o prendeu ao dogmatismo e sua posição era de tolerância e nunca a violência.
Muito amigo do humanista Thomas More, Erasmo ficou em sua casa por algum tempo onde escreveu "Elogio da Loucura".
Seu erro, se podemos dizer assim, foi publicá-lo com esse título que foi mal empregado, eu acho.
Para Erasmo, a loucura divide-se em loucura sã, que é o despertar de uma criatura para a vida verdadeira, sem medo, misticismo ou dogmatismo, o despertar para a sabedoria.
É a mera loucura, que é o saber enganoso dos loucos que se acham com razão e devido as suas crendices, sem raciocinar, seguem a "sabedoria" alheia e se deixam enganar por burrice ou preguiça.
Esse tema "Elogio da Loucura" soou como satírico e não é assimilado até hoje porque seu autor não poderia ser mais claro em sua época.
Desidério Erasmo, mais conhecido como Erasmo de Rotterdam, não foi compreendido quando tentava passar aos outros o equilíbrio das acções porque muitos impunham as "suas verdades" por meio de violência e eram obedecidos.
Já Erasmo, mesmo sendo erudito e dinâmico, manifestava suas opiniões cumprindo seus propostos de paz e liberdade, sem impor, só esclarecendo, respeitando o livre-arbítrio de cada um.
—Senhor Robert, fico tão satisfeita em encontrar uma pessoa como o senhor, que não julga a religião como perversa e sim acompanhando os factos, analisa e descobre que foram algumas pessoas que desequilibraram o entendimento de muitos seguidores.
—Veja, senhora, não podemos misturar pessoas e credos.
Sei que o homem, a criatura humana, necessita evoluir moralmente e isso só se dá se ela religar-se com Deus e entender as Leis Naturais do Universo.
Nesse instante eles são interrompidos pelo mordomo, que interfere, pedindo permissão para se pronunciar:
—Com licença, senhora Rosa Maria.
Recebi um recado urgente.
—Pode dizer, por favor -— aceitou Rosa Maria, ficando na expectativa.
- —Vieram avisar que Elisa, filha da senhora Dolores, não passa bem.
Pedem que a senhora vá ajudar.
Prontamente Robert e Henry se levantaram solícitos.
—Trago na carruagem que nos espera minha maleta médica -— avisou Robert.
Seguiremos agora mesmo para a residência da senhora Dolores.
—Por favor, senhor Robert, pegue então sua maleta.
Não precisamos da condução, minha cunhada mora aqui perto.
Em poucos minutos, todos estavam na residência da irmã do senhor Gonzales e Robert examinava a jovem.
Dolores, exibindo nervosismo, expressava-se aflita:
—- Ela estava bem!
De repente... caiu!
Não pude fazer nada!
Ah! Minha filha!...
—Acalme-se, Dolores.
Desespero só nos deixa mais agitados do que já estamos -— alertou a jovem senhora.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 29, 2016 11:02 am

Após embeber um chumaço de algodão em química apropriada, que o doutor Robert lhe colocou próximo para ser inalado, Elisa reagiu imediatamente.
—Tranquilize-se, está tudo bem -— afirmou o médico com paciência, demonstrando ter o domínio da situação.
—Filha! -— exclamou Dolores, correndo para próximo da moça.
—- Foi um mal súbito, senhora.
Nada que exija preocupação.
A moça deve ter se alimentado mal, tontura e desmaios são comuns nesse estado de pouca alimentação -— afirmou o doutor Robert, experiente.
—Como pode saber? -— indagou Isabel, irmã de Elisa.
—É nítido o ruído de vísceras ocas.
Foi a única anormalidade que pude ouvir ao auscultá-la e examinar -— justificou o médico.
Elisa, abraçada a sua mãe, começou a chorar.
Rosa Maria providenciou chá e torradas, oferecendo-os à jovem que a princípio recusou.
— É melhor aceitar -— recomendou Robert.
Um alimento suave como esse só lhe fará bem.
Depois de verem Elisa recomposta, todos se uniram em conversa agradável e até se esqueceram do ocorrido.
Quando Robert decidiu que deveriam ir, pois já era tarde, Dolores, muito grata pela atenção do médico em ter socorrido a filha, insistiu que ficassem para o jantar.
— Não posso aceitar uma recusa, senhor Robert.
Por mim, se não for hoje, o jantar já está marcado para outro dia.
Não vendo alternativa, Robert aceitou o convite e confirmou sua presença.
Depois que todos se despediram e se foram, vendo-se a sós com as filhas, Dolores se irritou:
—Isabel!!! -— gritou ela para uma das filhas.
Estava aguardando o momento de ver estampar uma gargalhada em seu rosto!!! —
Empurrando a filha pelos ombros, pois esta começou a rir de verdade, Dolores salientou:
— Não seja imbecil!
O prejuízo será seu!!!
—Mãe -— argumentou Isabel —- a Elisa fez uma cara para parecer desmaiada, que eu não aguentei ficar olhando... -— e mostrando riso na frase, a moça não a terminou.
—Por que você não fez em meu lugar?!! - irritou-se Elisa.
—Calem-se!!! -— vociferou Dolores.
Mais branda na tonalidade da voz, ela aconselhou:
— Esqueçam tudo isso.
O objectivo foi alcançado!
Queríamos atrair a atenção dos irmãos Russel para a nossa existência.
Pronto! Já conseguimos!
- —Mãe, isso não é errado? -— perguntou Isabel atenta.
—Eu passei mal de verdade!
O que você está pensando, que foi tudo uma farsa?
Fiquei o dia inteiro sem comer nada!!! -— reclamou Elisa.
—- O que quer dizer com errado, Isabel?
Nós chamamos sua tia para ajudar, só que nesta hora ela recebia a visita de um médico.
—Mas... —- tentou argumentar Isabel, porém foi atalhada pela mãe.
—- Já chega!
Agora é com vocês.
Temos um excelente candidato a pretendente de uma de vocês.
—Se ele é candidato, ainda não sabe! -— comentou Isabel ironicamente.
—Cale-se Isabel! — determinou a mãe.
—Por que a senhora diz que temos "um candidato"?
Não podemos contar com o outro também? -— propôs Elisa com segundas intenções.
Dolores sorriu e não comentou nada, aprovando a insinuação da filha.

8 N.A.E.: Em alguns relatos da história encontramos o nome desse reformador como Ulrico Zuínglio.
Trata-se, simplesmente, de uma questão ortográfica de cada idioma ou tradutor.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 29, 2016 11:02 am

5 - Premonição

No dia marcado para o jantar, Rosa Maria ajudou Margarida a se arrumar, porém não se preocupou consigo.
—Rosa, por que não vai ao jantar? -— perguntou a enteada, lastimando não ter a companhia da amiga.
—Para ser sincera, Margarida, não senti que fui convidada.
Dolores não estendeu o convite para mim, ela o fez somente a Henry e Robert.
—Então eu não deveria ir!
—Se Henry foi convidado para esse jantar na casa de sua tia e, se ele é seu namorado, você deve ir.
Impensadamente, a sábia mulher acrescentou:
-— Fique atenta com suas primas.
—- Como assim?
Rosa Maria se calou e, alguns minutos depois, decidiu:
- —Estou julgando. Sei que isso é errado, mas não vejo com bons olhos esse interesse súbito de Dolores em convidar o senhor Robert e Henry para irem lá.
Parece algo simulado, entende?
—- Você acha mesmo, Rosa?
01hando-a com ternura, a jovem madrasta afirmou:
-— Acho sim, Margarida.
Na verdade, acredito que o convite para esse jantar não foi espontâneo.
Preocupada com sua madrasta e confidente, Margarida perguntou:
— Ficará bem, aqui e sozinha?
— Ficarei.
Afirmou a jovem senhora sem se exaltar, expandindo um doce sorriso e completando:
— Não se preocupe comigo.
— Meu pai nos deixa muito sós.
Depois de ligeira pausa, considerou:
— Se bem que ficamos mais tranquilas quando ele viaja por muito tempo.
Você também fica constrangida com sua presença, não é?
— Se o senhor Gonzales não viajar, não cuidará de seus negócios e não conseguirá manter o conforto que ele mesmo exige.
Se para isso ele tem que ficar fora por algum tempo, ele fica.
— Rosa, posso lhe fazer uma pergunta pessoal?
Sorrindo, Rosa Maria lembrou:
—Quando foi que não permiti que me fizesse perguntas pessoais, Margarida?
—É que essa é muito particular -— tornou a jovem com muita prevenção.
A jovem senhora, muito meiga, pegando em suas mãos a fez sentar, acomodou-se a seu lado inspirando-lhe confiança.
Olhando a enteada nos olhos, pediu amável:
— Se tem alguma pergunta a fazer, faça-a.
Não é bom haver medo ou dúvida entre amigas que se entendem e se respeitam acima de tudo.
Essas palavras fizeram com que Margarida se encorajasse, por isso confiou:
— Você não ama meu pai, não é mesmo?
De certa forma, Rosa Maria parecia esperar por uma indagação desse nível.
Respirando profundamente, procurando relaxar, a jovem senhora explicou:
_ Veja bem, Margarida, eu gosto e respeito muito o senhor Gonzales.
Mas não o ama?! -— tornou a moça insistente.
Você é jovem, bonita, inteligente... meu pai... bem... meu pai é um homem que não tem juventude, alegria, não tem gosto pela vida.
Rosa, você tem idade para ser minha irmã!
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 29, 2016 11:02 am

Às vezes eu vejo que você deseja tanto a minha felicidade como se estivesse vivendo ou sendo feliz com a minha vida!
Você se realiza e sonha junto comigo, por você!
A mulher se surpreendeu com as observações de sua enteada.
Muito cautelosa, observou:
- —Eu quero a sua felicidade.
Por isso me realizo com o que lhe acontece de bom.
—Rosa, por que você se sacrifica?
Você não ama meu pai!
Isso deve ser horrível.
Eu sei o que você passa com ele...
—Eu não me sacrifico, Margarida.
Posso não amar o senhor Gonzales, mas o respeito.
Eu o quero bem e farei de tudo para a sua... felicidade, para sua evolução.
—Rosa, eu sei que você se casou com ele por ordens de seu pai, que lhe devia muito e a usou para se ver livre dos débitos.
Sejamos realistas, Rosa.
Foi isso o que aconteceu.
Rosa Maria abaixou a cabeça, escondendo as lágrimas que brotavam em seus olhos e teimavam em rolar na face alva e bela.
Procurando manter a voz firme, pois a mesma teimava embargar pela emoção, ela afirmou:
—Já está feito, Margarida.
Estou casada com ele e não posso reclamar do que ele me proporciona.
—Não me diga que gosta desta vida, Rosa.
Eu sei que você passa muitos tormentos.
Tudo poderia ser diferente.
Às vezes, quando a vejo conversando com Robert, penso...
Atalhando-a rapidamente, a jovem senhora a interrompeu:
—Não posso mentir a você.
Eu não mentiria, você sabe.
Mas também não vou admitir que me influencie, Margarida!
Perdoe-me a franqueza.
—Por que aceita estar casada com ele, Rosa?
—É meu esposo! Onde já se viu?!
Cuidado com os pensamentos, Margarida.
São neles que iniciamos tormentos terríveis para nós mesmos.
Depois de alguns segundos fitando a madrasta, com olhar piedoso, Margarida observou:
—Você não merece a vida que leva, Rosa.
Você é tão boa, inteligente... bonita.
Quando eu a vejo perto de meu pai, como sua esposa, eu mesma me espanto.
Tanta juventude jogada fora!
—- Não sou tão nova assim.
Entre nós há uma diferença de nove anos!
—Há irmãos que possuem diferença de até quinze anos ou mais!
- Você parece filha do meu pai.
Para ser sincera, quando vejo Robert e você...
Tomando o controlo da situação, Rosa Maria procurou a origem de todos aqueles pensamentos intrigantes que assolavam a jovem Margarida.
—- Por que isso agora, menina?
Não vejo motivo para insistir num assunto que não tenho interesse algum, no momento.
—- Sabe, Rosa, todos me acham tola só porque não me manifesto com opiniões.
Mas eu observo muito e reflicto sobre tudo o que vejo, porém não exponho o que penso.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 29, 2016 11:02 am

Somente agora estou questionando tudo isso com você, pois é a única pessoa que me respeita, compreende-me e não me acha uma sonsa!
—- Não se importe com a opinião dos outros.
Seja você mesma.
Não fique de um jeito ou de outro, com essa ou aquela opinião para agradar alguém, contrariando você mesma.
Seja você, respeite os outros, mas seja feliz, Margarida!
_ Foi isso o que você fez, não foi?
Contrariou você mesma, não fez sua opinião prevalecer!
Vendo a curiosidade insaciável da jovem enteada, Rosa Maria tentou colocar um fim às perguntas dizendo a verdade:
_ Eu não sei, Margarida.
Não posso afirmar que contrariei a minha vontade quando aceitei me casar com o senhor Gonzales.
Na época eu não tive opinião, não podia ter.
Tudo aconteceu muito rápido e eu não dispus de tempo para pensar nem coragem para dizer não.
Eu não raciocinei...
Eu tinha dezanove anos e muito medo.
Medo do meu pai também.
- —Como você pôde se conformar com essa situação? -— perguntou a jovem Margarida, angustiada.
- —Quando senti a falta de ter alguém a meu lado, a meu favor, alguém com quem pudesse dividir meus gostos, comentar sobre o que mais me interessava e não encontrei essa companhia ideal em seu pai, procurei preencher essa insatisfação com tarefas produtivas e não com queixas que só iriam fazer de mim uma criatura detestável e amarga.
Eu acredito que as queixas me tornariam uma mulher improdutiva, pobre de valores nobres e repleta de dramas e reclamações.
Não, Margarida, eu não quis ser isso.
Isso é morrer em vida.
Temos de ser criaturas produtivas e as queixas, as reclamações e as amarguras são os sentimentos mais destrutivos e detestáveis em uma pessoa.
Apeguei-me a você e procurei dar um sentido à minha vida.
Se eu teria de cuidar de você, que fosse então da melhor maneira, se eu tinha de educá-la, seria a melhor educação.
Temos de fazer correctamente e depressa as tarefas que nos cabem, se não repetiremos a dose.
— Eu sei Rosa.
Eu vivi tudo isso.
Eu me lembro de que, no princípio, eu não a aceitava.
Logo depois tive de reconhecer que havia ganhado uma amiga, justamente eu que era tão só.
Recordo-me de que ficava preocupada em ter irmãos.
Eu não queria que você tivesse filhos porque achava que iria gostar mais deles e não me daria mais atenção.
Por que não teve filhos?
— Não sei, Margarida.
Eles simplesmente não vieram.
Dando novo rumo ao diálogo, ela propôs:
— Agora vamos terminar de arrumá-la para que esteja pronta quando Henry chegar.
Geralmente os rapazes não gostam de ficar esperando.
Rosa Maria se animou rapidamente procurando contaminar sua pupila com alegria e pensamentos salutares.
Porém seu coração ficou apertado com o despertar da semente de insatisfação com sua vida pessoal.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 30, 2016 10:24 am

Ao descerem as escadas da bela residência, Henry e Robert já aguardavam na sala.
Henry contemplou cada passo de sua amada, admirado com cada detalhe que salientava sua delicadeza e beleza natural.
Aproximando-se da escadaria, estendeu-lhe a mão, fazendo Margarida deslizar em suave rodopio para observar melhor sua beleza.
Robert, muito gentil e educado, curvou-se ante à jovem Margarida, cumprimentando-a, com um largo sorriso pela elegância.
Rosa Maria, dando as últimas orientações, salientou:
— Lembre-se, mesmo com a ausência do senhor Gonzales, não é bom que retornem tarde.
Verifiquem o relógio e voltem cedo.
Atento e surpreso, Robert perguntou imediatamente:
— A senhora não vai nos acompanhar?
— Hoje não, senhor Robert -— justificou Rosa Maria com singelo sorriso e doce tonalidade na voz.
— Mas porquê? -— tornou ele sentido.
— Ficarei em casa.
— Ficará sozinha!
Sem algo que a distraia ou alguém que lhe faça presença!
Por favor, senhora, vamos?
Faça-nos companhia! -— insistiu o cavalheiro, preocupado.
_ Perdoe-me, senhor Robert.
Nem mesmo me arrumei para sair Farei companhia a vocês em uma próxima ocasião.
Nitidamente observou-se uma seriedade no semblante do cavalheiro, que se satisfazia com a companhia daquela senhora.
Henry e Margarida ficaram quietos, sem tecerem comentários.
Rosa Maria, educadamente, tomou a iniciativa de mandá-los embora entregando a bolsa de longa alça, em forma de saco-linha, à sua enteada, compondo-lhe ainda mais com detalhes a combinar a cor do acessório com os laços delicados do belo vestido rodado que lhe cobria até os calçados.
Tomando um sobretudo, ajeitou-o nos ombros de Margarida para protegê-la do frio e, quando o abotoou na frente, liberou um agradável e singelo sorriso de satisfação, beijando-a no rosto e recomendando:
— Divirtam-se! E lembrem-se da hora!
Margarida, muito animada, exibindo felicidade espontânea, retribuiu o beijo recebido enquanto apertava rapidamente as mãos da madrasta em sinal de satisfação.
Henry mal se despediu de Rosa Maria, preocupando-se em ceder o braço a sua bela companhia.
Uma inquietude invadiu inexplicavelmente os pensamentos de Robert e um sentimento estranho de medo e perigo incompreensível dominou-lhe, por essa razão, decidiu insistir.
Esperando que o jovem casal se distanciasse um pouco, ele desabafou:
—Senhora, se me permite dizer, estou contrariado em deixá-la sozinha aqui.
- —Encararei esse comentário como uma preocupação, senhor Robert.
—- Sem dúvida, senhora Rosa Maria.
É uma preocupação sim.
Mesmo que inexplicável.
Tenho de confessar que sua companhia muito me é agradável.
Dificilmente deparo com quem dividir meu entusiasmo por determinados assuntos e encontrei na senhora uma amiga, se me permite chamá-la assim, uma amiga com quem eu pude compartilhar opiniões e trocar conhecimentos sem receio de preconceitos ou algo desse nível.
— Agradeço mais uma vez, senhor Robert.
Como já lhe disse, admiro seu intelecto, sua educação e, principalmente, a forma como as expõe, sem agredir a opinião dos demais -— disse ela, retribuindo o elogio.
Não se preocupe, usarei esse tempo de solidão para colocar a leitura em dia.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 30, 2016 10:24 am

— É por isso, senhora, que fico contrariado em deixá-la.
Devo confessar que estarei lá, mas não garanto diversão, tendo em vista minha preocupação, até inexplicável, para com a senhora.
Robert falava com modos gentis e firmes, sem cortesias vulgares que induzissem a qualquer tipo de interpretação duvidosa.
Rosa Maria sentiu-se atrapalhada com a observação do cavalheiro e não sabia o que dizer.
— Ainda temos tempo, senhora.
Posso falar com meu irmão e esperaremos a senhora se arrumar.
Ele ficará feliz com sua companhia e creio que, por ser sua cunhada, a senhora Dolores não irá se incomodar com nosso atraso.
Gentil, Rosa Maria agradeceu:
— Muito obrigada, senhor Robert.
Mas, realmente, não estou mesmo animada a sair.
— Sente-se bem?! -— preocupou-se ele, deixando as observações de sua profissão aflorarem.
Vejo que está um pouco abatida e, se me permite dizer, observei certa tristeza em seu olhar assim que chegou para nos recepcionar.
Com sorriso amável, ela afirmou:
— Não estou doente, senhor.
Ficarei bem, pode acreditar.
Vou aproveitar esse horário para leitura.
Já está ficando tarde, acho melhor irem.
Não vendo alternativa, o cavalheiro dobrou-se frente à dama, beijando-lhe a mão em cortesia e educação.
Apanhando o chapéu e a elegante bengala, já na porta de saída, olhou para trás pela última vez antes de agasalhar-se com a capa de lã, na esperança de que Rosa Maria mudasse de ideia.
Em vão. Robert experimentou uma amargura jamais provada antes.
Rosa Maria, por sua vez, pendeu com a cabeça suavemente acenando e despedindo-se.
Inexplicavelmente, sentindo seu coração chorar.
Ao caminharem a pequena distância até a casa de Dolores, Robert seguiu calado atraindo a atenção do irmão.
— O que se passa, Robert?
O que o desagrada?
— Nada -— negou ele calmamente, omitindo seus pensamentos.
Margarida só ficou observando, sem tecer nenhum comentário.
Ao chegarem à residência de Dolores, o assunto foi logo esquecido pela animação provocada.
Dolores perguntou por sua cunhada ao vê-los chegar e se satisfez com a explicação de Margarida, sem tocar novamente no assunto.
A conversa seguia animada, mas a ausência de Rosa Maria era sentida por Robert, que parecia retractar essa preocupação.
Elisa, a filha mais velha de Dolores, procurou chamar a atenção do médico durante todo o tempo.
Instruída por sua mãe, procurou falar sobre os assuntos que interessavam ao cavalheiro.
Mas logo a conversa morria, pois Robert respondia às suas perguntas e ela, por ignorar detalhes do tema ou da matéria tratada, não conseguia enriquecer a conversa com opiniões saudáveis, ostentando um sorriso com falso interesse o qual não podia sustentar.
Observando a seriedade de seu convidado, Dolores perguntou:
— Robert, posso chamá-lo assim, não é? -— indagou a dona da casa.
— Como queira, senhora.
— E então, Robert, por que está tão sério?
Você me parece preocupado demais.
— Sim, estou preocupado, mas não muito sério.
Não fiquei satisfeito em deixar a senhora Rosa Maria sozinha em sua casa.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 30, 2016 10:25 am

Nesse instante, a atenção de Margarida voltou-se imediatamente à conversa paralela que se fazia entre Robert e Dolores.
— Ora, Robert!
Minha cunhada está acostumada a ficar só.
Gonzales sempre viaja e quando não, também não pára em casa.
Para Rosa isso é comum.
— É que normalmente Margarida lhe faz companhia.
— É chegada a hora de Rosa Maria desligar-se da enteada, afinal, Margarida já está bem crescida, já sabe se cuidar.
Rosa tem de deixá-la viver, e isso significa ter de acostumar-se sem ela.
— Perdoe-me se deixei transparecer minha preocupação.
É que sem motivo racional, lógico ou aparente, fiquei insatisfeito com o facto.
Interrompendo-os, Isabel acrescentou de modo singular:
— Talvez um pressentimento o avise de algo que esteja por vir.
Robert olhou-a longamente sem dizer nada, reflectindo sobre sua observação.
— Acredita em pressentimento, Robert?
—Acredito -— confirmou ele muito sério.
Contudo não podemos dar crédito ao medo interior, que é provocado pela ignorância dos factos, e dar a esse medo o nome de pressentimento.
—Acredita que temos vida após a morte? -— tornou a anfitriã, arriscando certa ousadia ao invadir as crenças do cavalheiro.
—Acredito que Deus não nos iria matar depois de ter o trabalho de nos criar para a vida.
Por isso, sim, eu creio que continuemos a viver após a morte.
Robert sentia-se pouco à vontade e até demonstrava uma branda inquietude, ignorando o motivo.
Procurando, educadamente, pôr um término no assunto, o médico, na primeira oportunidade, convidou seu irmão e Margarida para irem embora.
Por estarem de acordo, todos se despediram com as lamentações de Dolores, que alegava ser cedo demais.
A anfitriã e suas filhas não os acompanharam até à rua, ficando dentro de casa após a retirada dos convidados.
Dolores não ficou nem um pouco satisfeita com Elisa ou Isabel, zangando-se com as duas.
Quando saíram à rua, Robert olhou espantado em direcção da residência dos Gonzales.
Pelo espanto que vivificou no rosto, Margarida, enquanto procurava ver o ponto de sua atenção, perguntou:
— O que foi, Ro...
Depois de poucos segundos, a jovem gritou: —
Meu Deus!!! Rosa!!!
Os três correram em direcção à casa que se fazia consumir pelas labaredas.
As vigas das colunas principais já eram visíveis, dando contorno incandescente ao que era a majestosa residência.
O incêndio parecia não ter mais controle.
Frente à casa, Henry teve de usar a força para deter Margarida que se descontrolava aos gritos e, por instinto de protecção e ajuda impensados, poderia entrar na casa em chamas a fim de salvar sua amiga e protectora tão fiel.
Dois dos empregados, em trajes de dormir, envoltos em cobertas e em choro compulsivo, ficavam olhando para as chamas impiedosas que castigavam a residência dos Gonzales.
Robert, desfazendo-se do chapéu e da bengala, procurava uma maneira de entrar na casa tendo em vista que um lado da parte do andar térreo da casa, apesar da fumaça excessiva, parecia ainda não ter sido devorado pelo fogo.
Não! -— pediu Henry, segurando-o pelo braço, enquanto prendia fortemente Margarida a si.
-— ...eu preciso... -— retribuiu Robert sensibilizado e implorando compreensão ao fitá-lo.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 30, 2016 10:25 am

Por alguns segundos, os irmãos trocaram um olhar profundamente fraterno e repleto de sentimentos intraduzíveis.
Robert se virou, não atendendo ao apelo silencioso de Henry, quebrou uma das janelas e entrou na casa.
Os bombeiros, que procuravam apagar o fogo, eram impotentes pelo rudimentar equipamento da época.
Rapidamente, uma corrente humana baldeava a água para que chegasse até a casa, mas era insignificante.
As porções, que mais pareciam gotículas, nem chegavam a resfriar as paredes que se faziam em pé.
Um barulho muito estranho começou a ser ouvido.
Era o ranger das paredes de madeira que iriam desmoronar a qualquer momento.
—- Meu irmão!!! -— gritou Henry em desespero.
Meu Deus! Traga Robert de volta! -— murmurou o jovem com a voz mais abafada enquanto abraçava fortemente Margarida, que chorava muito.
Os heróicos homens do fogo, em contínuas machadadas, procuravam separar a casa em chamas de qualquer ligação que pudesse propagar o fogo, como cercas e arbustos.
Dirigindo-se ao casal de empregados que escaparam da casa, o encarregado dos bombeiros perguntou:
—Quantos havia na casa?
—Nós dois, duas empregadas e a senhora Rosa Maria.
—Sabe nos dizer em que parte da casa elas podem estar?
—A senhora, creio que estava na sala, lendo.
As outras duas não sei responder.
O desespero tomava conta de Henry, que interferiu na conversa:
— Senhor? -— chamou ele.
Meu irmão entrou nessa casa para procurar por elas e...
Henry não sabia o que dizer mais.
O homem o olhou seriamente sem passar expressões que o animassem.
Voltando-se para os demais, argumentou:
— Se não houvesse gente lá, poríamos a casa abaixo para evitar riscos.
Se ela tombar para um dos lados, vai incendiar a casa vizinha.
A fumaça excessiva colocava todos um passo atrás a cada minuto.
Em dado momento, Robert saiu em meio da densa cortina nevoenta de fumaça carregando nos braços um corpo desfalecido com pequenas chamas nas vestes.
Era a madrasta de Margarida sem sentidos pela intoxicação com a fumaça, e trazia na pele sérias queimaduras em muitas partes do corpo.
Henry sentiu-se aliviado, correu para junto do irmão e tirou a jovem senhora de seus braços, enquanto Margarida preocupou-se com Robert que tossia em demasia.
Contornando seu braço em volta dele, procurou conduzi-lo para longe da casa indo logo atrás de Henry.
— Há mais alguém lá? -— perguntou o responsável dos bombeiros.
— Encontrei dois outros corpos -— respondeu o médico com a voz entrecortada pela tosse —- não sei dizer quem eram.
Estavam sem vida e deformados.
— Vamos derrubar a casa! -— gritou o encarregado dos heróis do fogo para os bombeiros que se prontificaram em cumprir seriamente a tarefa.
— Vamos, Henry! -— gritou Robert.
Depressa, vamos para a clínica!
Henry subiu na carruagem mais próxima, dando ordens ao cocheiro de levá-los para a clínica, tendo em seus braços Rosa Maria ainda desfalecida.
Ao ajudar Robert a subir na condução, pois ele parecia estonteado, Margarida observou:
—- Robert, suas mãos! -— reparou ela comovida com o que viu, apiedando-se do médico.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 30, 2016 10:25 am

Robert tinha as mãos e parte dos braços sem a pele.
Os ferimentos de queimaduras graves foram adquiridos ao socorrer Rosa Maria.
Rapidamente ele explicou:
—- Ela estava no quarto e as chamas dominavam a cama onde ela se deitava.
Tive de pegá-la. Por isso me queimei.
Enrolei-a no meu casaco, que abafou o fogo.
Depois disso, consegui trazê-la para fora.
Margarida sensibilizou-se com ele, abraçando-o com ternura e gratidão.
Às pressas, o cocheiro efectuou o socorro dos feridos.
O doutor David Russel foi chamado para a emergência.
Mesmo vendo as mãos, os antebraços e parte dos braços de seu filho com sérios ferimentos, o doutor decidiu por atender Rosa Maria que estava em estado muito grave.
No instante da opção, voltou-se para Henry e perguntou:
—- É capaz de cuidar dos ferimentos de seu irmão?
O impacto pela surpresa desagradável fez Henry demorar com a resposta, e Robert, mais experiente e controlado, mesmo sentindo as terríveis dores provocada pelo fogo, afirmou:
— Cuide da senhora, meu pai.
Henry será capaz sim. Vou orientá-lo.
— Tem condições para isso, Robert? -— insistiu o pai preocupado.
— Sim, senhor -— assegurou ele com convicção.
Voltando-se para o irmão, exigindo de si próprio imenso controle para não ceder ante o sofrimento, Robert, exibindo segurança e dando início a seu socorro, determinou.
— Vamos, Henry, lave-se bem.
Uma infecção é tudo o que não devo adquirir agora.
Apanhe a tesoura, corte as mangas de minhas roupas, retirando-as e procurando não passá-las por cima dos ferimentos...
Vendo que Robert orientava muito bem seu irmão o doutor David Russel virou-se para Margarida e perguntou:
— Consegue se controlar, filha?
Com os olhos marejados, a jovem respondeu:
— Estou um pouco nervosa, mas creio que consigo sim.
— Eu também estou nervoso e preciso muito da sua ajuda.
Venha comigo, vamos cuidar da senhora Rosa Maria com muito carinho, certo?
Sem pânico ou desespero, ela só tem a nós dois.
O doutor David Russel procurou conduzir Margarida a se conscientizar de que qualquer crise nervosa, naquele instante, prejudicaria muito o atendimento e o socorro de Rosa Maria, esclarecendo à Margarida que precisava de auxiliar e só poderia contar com ela, porque seus filhos não poderiam ajudá-lo de imediato.
A jovem Margarida respirou fundo, secou as lágrimas e seguiu o médico para a sala onde sua amiga fiel se encontrava.
Rosa Maria ainda estava inconsciente, sua respiração era fraca e ela não apresentava nenhuma reacção animadora.
Após remover os restos das roupas queimadas, pôde-se analisar melhor as proporções das queimaduras.
A jovem senhora possuía os pés e as pernas totalmente queimados, com sérias lesões provocadas pelo fogo, grande parte das costas e a parte externa do braço e antebraço direito, também foram alcançados pelas chamas que lhe retiraram quase toda a pele.
Margarida encontrou em si forças até então desconhecidas.
Mesmo com as lágrimas rolando-lhe na face, a jovem obedecia prontamente aos pedidos do médico.
Vez e outra, o doutor Russel a observava para ver se a moça estava suportando o choque por acompanhar aquelas cenas tão dolorosas e deprimentes.
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