O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 30, 2016 10:25 am

Depois de alguns minutos, Henry, que havia terminado os primeiros socorros a Robert, entrou na sala onde a emergência a Rosa Maria era feita e solicitou serviços:
— Posso ajudar em algo?
Calmamente, o experiente médico respondeu:
— Sim, é claro que pode.
Está tudo sob controlo, mas uma ajuda é sempre bem-vinda.
Primeiro leve Margarida para a outra sala, deixe-a com Robert.
Dê-lhe algo para que se acalme e volte para me ajudar.
— Temos algumas pessoas aí na porta pedindo informações —- comentou Henry.
— Há mais feridos?
— Não senhor.
Eles querem notícias sobre a senhora Rosa Maria.
— Os curiosos devem ser a nossa última preocupação.
Não abra a porta, esses bisbilhoteiros vão sobreviver, eu garanto.
Agora leve Margarida e retorne logo.
— Pai, Robert quer vir aqui.
— Deu-lhe um sedativo?
— Sim senhor.
— Diga para que se deite e descanse.
Ele já fez muito.
Vendo Henry parado, olhando-o retirar pequenos pedaços das vestes que se grudavam retorcidas nas graves queimaduras, o médico exigiu com firmeza, mas amável.
— Vamos, Henry!
Preciso de você, filho.
O jovem se sobressaltou e foi realizar o pedido de seu pai.
Na outra sala, sentado em uma maca, Robert estava pensativo, mas ao ver chegar Henry e Margarida, perguntou:
— Como ela está?
_ Perdeu os sentidos, a respiração está fraca...
Vou ajudar o pai -— afirmou Henry sentido.
Ameaçando se levantar, decidiu:
- —Eu vou lá.
—- O pai pediu que ficasse aqui.
Será melhor para você. Deite-se e descanse.
Ele aceitou e tornou a se sentar.
Achava-se estava ainda atordoado pela intoxicação e pelas fortes dores.
Margarida lavou as mãos e o rosto enquanto o silêncio reinava naquela sala.
Robert sentado, perdeu o olhar, indicando pensamentos indefinidos diante de tanta surpresa.
Após longos minutos, Margarida, que estava observando-o, rompeu a pausa e recomendou:
— Seria melhor que se deitasse, Robert.
Ele não teve o que dizer e também não aceitou a recomendação.
Robert demonstrava uma expectativa amarga com seu silêncio.
Aproximando-se dele, Margarida, com a voz embargada e deixando brotar dos olhos as lágrimas de emoção, falou com ternura:
— Obrigada por tudo, Robert.
Sua coragem, sua determinação me emociona.
Sensibilizou-me muito.
Não é comum alguém se arriscar tanto pelos outros, principalmente por aqueles que pouco se conhece.
Margarida não conseguiu deter o choro brando que dominou sua vontade.
Mesmo sentindo muita dor pelos ferimentos, Robert estendeu-lhe os braços procurando confortá-la.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 30, 2016 10:26 am

A jovem recostou-se com cuidado em seu ombro e deixou fluir suas emoções.
Logo depois, afastando-se um pouco, Margarida se recompôs secando as lágrimas e respirando fundo.
Parou e observou os ferimentos graves que ele possuía.
— Está doendo muito? -— perguntou ela.
Robert pendeu a cabeça positivamente, mantendo o silêncio.
Olhando-o agora mais de perto, a jovem verificou outras pequenas bolhas as quais surgiram por queimaduras na lateral da face e parte do pescoço de Robert, provocadas por fagulhas ou estilhaços incandescentes que lhe acertaram quando passou sob as vigas em chamas.
— Há outras queimaduras aqui! -— indicou ela admirada.
— Vou me recuperar -— afirmou ele, forçando um leve sorriso para não provocar forte impressão.
Estou preocupado com a senhora.
Queimaduras em tão grandes proporções e intensidade são perigosas.
-— Não entendo, Robert.
Como em meio a um incêndio, Rosa Maria não procurou sair de seu quarto?
— Por ela estar em sua cama, eu acredito que já estava dormindo e deve ter se sedado com o excesso de fumaça.
Isso ocorre com facilidade.
— Ela iria nos esperar, não creio que dormisse, principalmente em seu quarto -— afirmou a jovem Margarida duvidando do ocorrido.
— Em todo caso, a fumaça deve tê-la feito perder os sentidos pela intoxicação.
Eu acredito que dormia pela posição em que a encontrei.
— Como? -— tornou Margarida, preocupada.
— Ela se deitara de lado, mais precisamente sobre o braço esquerdo do corpo.
A parte da cama que ostenta nossos pés estava com chamas sobre o colchão, e o fogo subia e dominava uma das laterais a qual Rosa havia dado as costas e encontrava-se com as pernas levemente flexionadas.
As chamas já lhe queimavam a cintura e parte das costas, enquanto a frente do tronco não era atingida.
—Ela não se movia?!
—Não.
Depois de breve pausa, Robert observou pensando em voz branda:
— Estranhamente ela não se movia.
Estava muito quieta... parada.
—A fumaça pode provocar o desmaio de alguém de modo tão intenso assim?
—Sim, pode. Isso é comum.
Há quem falece pela intoxicação antes de ser queimado.
Mas Rosa não parecia desmaiada, ela parecia ter se deitado como se fosse ido dormir.
Se houvesse a perda dos sentidos pela intoxicação, provavelmente ela se moveria um pouco quando sentisse a falta de ar.
Outro detalhe curioso é que, relembrando melhor, ela não se deitaria para dormir com os calçados nos pés.
—Rosa ainda está com os cabelos presos e arrumados.
Ela sempre os solta para dormir -— garantiu Margarida, provocando mais desconfiança.
—Lembro-me agora de que ela disse que iria ler.
Com certeza deve ter pegado no sono, isso justifica sua posição ao deitar, e certamente perdeu o sentido quando a fumaça chegou ao quarto, por isso não reagiu.
—Há algo errado, Robert.
Rosa não lê em seu quarto devido à iluminação muito fraca.
Quando o faz, ocupa o divã que há em nossa sala.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 30, 2016 10:26 am

— Não estou entendendo, Margarida.
Aonde quer chegar?
A jovem ficou olhando-o com firmeza sem nada comentar, mas ele insistiu:
—Margarida, o que você tem em mente?
O que acredita ter ocorrido?
—Não posso afirmar nada.
Rosa estava muito triste... a culpa foi minha!
— Não a estou entendendo, Margarida.
Em meio ao choro, a jovem gaguejou:
— Eu relembrei-lhe de coisas...
Rosa... Rosa estava amargurada... Eu...
— Acalme-se, Margarida -— pediu o médico que, mesmo com dificuldade, conduziu-a para que sentasse.
Margarida cobriu o rosto com as mãos e entrou num pranto compulsivo.
Somente depois de alguns minutos de desabafo com o choro, a jovem recompôs as emoções enquanto Robert, mesmo ansioso, aguardava explicações mais lúcidas, demonstrando paciência em sua espera.
Vendo-a refeita nos sentimentos, ele perguntou novamente:
— O que você quis dizer quando falou que a fez relembrar de coisas?...
Depois de tomar fôlego, a moça começou a relatar:
— Pouco antes de vocês chegarem à nossa casa hoje, eu e Rosa Maria estávamos conversando sobre algumas particularidades dela.
— Como assim?
Se é que eu posso saber.
Falei-lhe sobre a sua felicidade.
Às vezes, eu acho que Rosa vive a minha alegria.
Vejo que, em sua vida, as experiências boas, sua juventude, suas expectativas foram abafadas desde quando se casou com meu pai.
Era sobre isso que falávamos, isto é, fui eu quem a fez recordar essas dores insistindo no assunto.
— E o que isso implica com o incêndio, Margarida?
Você acha que não foi um acidente?
Após alguns minutos de pausa, a jovem pendeu a cabeça negativamente, dizendo:
— Não sei... Não posso acreditar que teria coragem para...
Robert ficou pensativo e intrigado.
— Conheço sua madrasta há pouco tempo, Margarida, não posso crer que ela fosse capaz de provocar uma tragédia desse nível.
Acho Rosa Maria muito ponderada, muito sensata.
Em hipótese alguma acredito que ela chegaria a tanto.
É porque você não sabe o que Rosa já enfrentou e enfrenta, Robert.
— Como assim?
_ Meu pai é um homem muito rude.
Não tem educação ou bons modos.
Percebo que somente a mim ele não oferece maus-tratos.
— O que você quer dizer, Margarida?
— Quero dizer que, desde quando se casou com meu pai, Rosa Maria enfrenta o drama da violência dentro da própria casa.
— O senhor Gonzales?...
—Ele mesmo.
Sabe, Robert, qualquer motivo é razão para que meu pai a agrida.
—Mas não foi isso o que eu observei das vezes em que estive presente em sua casa.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 30, 2016 10:26 am

—Na frente das visitas e de familiares, meu pai não exibe sua personalidade violenta.
Rosa Maria nunca se queixou.
Ela é ponderada e muito discreta.
Com a maior educação e cautela, expõe sua opinião, pois em tudo ele vê motivo de se zangar.
Sempre acha uma causa para descontar nela sua insatisfação.
Robert ficou transtornado.
A dor sentimental experimentada agora era maior do que as das queimaduras sofridas.
Indignado, o médico comentou:
—Não posso acreditar que o senhor Gonzales a agrida fisicamente!
Não consigo imaginar isso!
Desde quando isso ocorre e qual a razão?!
—Tudo o que o insatisfaz é motivo.
Essas agressões ocorrem desde quando se casaram.
Eu tinha dez anos na ocasião que meu pai se casou com ela.
Eu estava com sete anos quando minha mãe faleceu.
Ao ganhar consciência de que iria ter uma madrasta, fiquei revoltada até porque Rosa Maria tinha dezanove anos, a idade que tenho hoje.
Nessa época eu a via como a sucessora de minha mãe e não conseguia admitir uma substituta para minha querida mãezinha.
Insatisfeita, fiz algumas birras reclamando dela para meu pai logo nos primeiros dias de convivência.
No momento, meu pai não fez nada nem se manifestou.
Mas à noite, trancados em seu quarto, eu pude escutar as agressões.
No dia seguinte, esperei que Rosa fosse se vingar de mim.
Ao contrário, procurou me tratar melhor e nunca tocou no assunto.
Fiquei com pena.
O remorso me consumiu.
Aprendi com ela a ser uma pessoa a não tecer reclamações.
Foram muito poucas as vezes que a ouvi chorando baixinho no silêncio do quarto.
Ela sufocava o choro abafando o rosto no travesseiro.
Mas jamais fez isso na presença de meu pai.
Robert nunca se sentiu tão contrariado, tão indignado ao tomar ciência de uma situação.
Margarida, com o olhar perdido, parecia hipnotizada ao revelar tanto drama.
Mesmo com as lágrimas rolando em abundância por sua face, ela continuou seu relato.
—Nunca vi meu pai agredindo Rosa Maria.
Ele sempre o faz em seu quarto depois que todos vão dormir.
E... bem... não sei como ela o suporta.
Interrompendo-a, com educação, Robert perguntou:
— Margarida, há uma razão, alguma coisa que justifique essa atitude de seu pai?
Ciúme, por exemplo?
— Já lhe disse, Robert.
Tudo é motivo.
— Seja sincera -— disse ele preocupado —- das vezes em que eu estive lá e mantive longos diálogos com ela, seu pai zangou-se por isso?
— Por vocês conversarem? Não.
Ele os admira muito.
Adora ver você ou Henry lá em casa.
Preocupa-se e se intriga quando você não aparece, fica preocupado por não tê-lo agradado. Mas...
— Mas?...
— Naquele dia, quando me machuquei e acabei conhecendo Henry...
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 30, 2016 10:26 am

— Sei. -— afirmou ele, lembrando-se.
— Nesse dia sim, ele bateu nela.
— Não reparei marcas ou hematomas.
— Nunca no rosto.
Poucas vezes percebi vergões como uma correiada em seu maxilar ou no pescoço, mas ela o disfarça com a roupa ou com o cabelo.
— Não posso acreditar... -— comentou o médico sentindo-se mal com a revelação.
— Por isso Robert, eu cheguei a pensar que Rosa estivesse farta de tudo e...
Robert e Margarida trocaram olhares indefinidos, reflectindo sobre o enigma daquele incêndio.
Nada mais lhes restava a não ser aguardar.
Enquanto o tempo passava, nenhuma palavra foi dita por eles.
Robert, contrariado com as confissões de Margarida, exausto e sofrendo pelas dores ininterruptas de seus ferimentos, deitou-se e perdeu o olhar no tecto da sala.
A jovem acomodou-se em uma cadeira.
Às vezes chorava sem emitir som.
Uma porta abriu-se vagarosamente e Henry surgiu provocando expectativa e ansiedade naqueles que o aguardavam.
— Como ela está? -— perguntou Margarida com voz piedosa, demonstrando preocupação e carinho para com a enferma.
Não esperando a resposta do irmão, Robert indagou firme e rápido:
— Recobrou a consciência?
— Sim. Vamos dizer que ela reagiu, mas está em choque.
Sente dores muito fortes... geme... não fala coisas exactas... delira. —
Voltando-se para a namorada, Henry tristemente afirmou:
Não posso dizer que ela esteja bem.
Margarida abraçou-o.
Ele retribuiu com ternura e secou suas lágrimas, que rolavam involuntariamente.
Robert, franzindo o rosto pelas fortes dores que sentia, esforçou-se para levantar.
Ao vê-lo reagir, Henry tentou impedi-lo.
— Descanse, Robert. Você precisa.
— Minha consciência dói mais do que os ferimentos.
Preciso vê-la.
Mesmo achando estranha a resposta de seu irmão, Henry não comentou nada e compreendeu sua vontade ajudando-o a se colocar em pé e guiando-o até a sala onde o Doutor David Russel prestava os últimos cuidados.
Ao ver o filho entrar, o médico perguntou atencioso:
— Como está, Robert?
— Com muita dor, meu pai -— respondeu ele tranquilo, sem exibir sofrimento no semblante.
— Eu sei, ou melhor, imagino -— afirmou o pai sensibilizado.
Aproximando-se de Rosa Maria, Robert observou que ela murmurava alguma coisa enquanto agitava a cabeça vagarosamente de um lado para outro.
— Estou tentando mantê-la deitada na posição lateral esquerda onde o corpo não sofreu lesões, mas ela se agita e torna a cair sobre as costas muito feridas. -— informou o médico.
—E se colocá-la em decúbito ventral? -— sugeriu Robert.
—A parte da frente das pernas estão ainda mais lesadas.
— Ela teria que ficar na mesma posição que se queimou para não ferir as queimaduras -— observou Robert.
Pai, tente colocar apoio na nuca e no peito, com o corpo na lateral, mas inclinando-o com o peso para a frente do tronco.
Assim terá mais dificuldade para mover-se.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 30, 2016 10:26 am

Mesmo com os braços doloridos e enfaixados, Robert apontava ao pai suas ideias procurando ajudar.
Nesse instante, Rosa Maria começou a balbuciar algumas frases:
_Je naime pas être triste.
"Eu não gosto de ser triste" - disse ela. —
Mon bonheur est mort... je veux être gai comme auparavant.
"Minha alegria morreu... quero ser alegre como antes...
—Je serais dü mourir! -— "Eu deveria ter morrido!"
—Não entendo o que ela fala -— comentou o médico, preocupado com o murmúrio insistente.
—Ela está falando em francês -— afirmou Robert que conhecia o idioma.
—Você está entendendo?
—Algumas coisas.
— O que ela diz? -— insistiu o médico experiente.
Robert não respondeu de imediato, mas depois esclareceu:
— São frases que não fazem sentido.
Ela diz que não gosta de ser triste e desejaria ser como antigamente.
Acredita que a morte seria melhor.
Depois de alguns momentos de reflexão, ele perguntou:
— Por algum instante, ela ficou lúcida?
— Logo que despertou, acredito que sim.
Ela perguntou onde estava.
Enquanto expliquei, entrou nesse estado de choque provavelmente pelas dores.
Não sei se devo sedá-la mais...
— Pode ser arriscado.
Seu porte físico é frágil por natureza -— opinou Robert.
Reflectindo, seu pai acreditou:
Vamos deixá-la assim.
Tenho medo de reacções.
Após alguns instantes, o doutor David Russel indagou ao filho:
Como aconteceu isso, você sabe dizer?
Henry me contou, mas o que você tem para acrescentar?
Robert sentiu-se atrapalhado, não sabia o que falar.
Por fim arriscou:
—Tenho a dizer que, ao ver a casa em chamas, não resisti a pensar que poderia haver lá dentro alguém que eu pudesse ajudar.
Daí entrei.
—Não pensou em sua vida, meu filho? -— perguntou o pai com olhar meigo e preocupado.
Encarando-o de forma singular, Robert afirmou.
—Não, meu pai. Não pensei em mim.
—Como a encontrou? A casa é grande.
—Não sei dizer.
Lembro-me de que procurei andar onde as chamas não haviam chegado ainda.
Instintivamente subi as escadas e a única porta de onde não saía labaredas era do quarto em que ela estava.
Tudo foi muito rápido. Eu não sei dizer.
Tranquilamente, mas exibindo apreensão, o pai acrescentou:
— Sinto orgulho de você.
Mas, sinceramente, meu filho, sinto muito medo.
E mesmo agora, vendo-o aqui na minha frente, estou com medo e preocupado.
Era uma casa em chamas -— alertou o pai brandamente, porém impondo atenção.
Impensadamente, Robert revidou com a voz branda:
—Era uma casa em chamas, meu pai, onde havia, dentro dela, três vidas!
—Quatro com a sua, meu filho.
Robert abaixou a cabeça pensando nas palavras de seu pai enquanto este o abraçou e o conduziu para a outra sala fazendo, ambos, companhia a Henry e Margarida.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 30, 2016 10:27 am

6 - Sonho

Aquela noite foi muito longa.
Robert recusou-se a ir para casa, ficando ali em companhia de seu pai, Henry e Margarida.
A jovem senhora precisou de compressas frias, trocadas constantemente sobre a testa e as têmporas a noite inteira, pois a febre castigava o corpo já tão sofrido.
Robert também ficou febril, tirando-lhe o ânimo e as últimas resistências que o enriqueciam de energias para perambular como fez a princípio.
Ninguém adormeceu.
Com excepção de Robert que se ferira, os demais se revezavam nas trocas de compressas e cuidados intensivos, porém muito precários devido à época.
No início da manhã, subitamente todos se sobressaltaram com um grito de dor desferido pela paciente que, em meio a tanta agonia, perdera o equilíbrio e o controle sobre si.
Ao aproximar-se da jovem senhora, o doutor David Russel notou que ela recobrava a consciência.
Por essa razão tentou falar-lhe.
— Rosa Maria? Sou o doutor Russel, pai de Henry...
O olhar expressivo daquela mulher parecia invadi-lo como um pedido de socorro, tamanho era seu sofrimento.
Robert, com certo esforço, aproximou-se e também tentou atrair-lhe a atenção.
— Rosa Maria, consegue me entender?
Mesmo com a respiração ofegante e com suaves movimentos de contorção com a cabeça e o tronco, a jovem senhora procurou fixar sua atenção em Robert, demonstrando consciência.
Lágrimas copiosas rolavam pelos cantos de seus olhos, enquanto ela procurava conter os gemidos.
Quando fechou os olhos, como se buscasse um alívio impossível de se conseguir naquelas condições, Robert procurou alertá-la:
— Rosa, preste atenção -— dizia ele com voz branda, procurando lhe conduzir o raciocínio enquanto ela forçava a manter os olhos abertos.
Pode me ouvir?
Ela pendeu com a cabeça positivamente confirmando sua pergunta, e ele prosseguiu:
— Houve um acidente onde você se feriu.
Sei o quanto está sofrendo.
Mas, por favor, é o momento de ser forte.
Busque em si mesma razões para resistir.
São momentos difíceis que vão passar.
Quanto mais firme se fizer, mais rapidamente há de se recuperar e se livrar do sofrimento.
Com as lágrimas correndo longamente, ela engoliu a seco e forçou-se a falar o que saiu como um sussurro:
— Je ríai pas de raisons. Mon Dieu! Cest le moment le plux douloureux de ma vie!
"Eu não tenho motivos. Meu Deus!
É o momento mais penoso da minha vida!"
Por ter pronunciado a frase no idioma francês, somente Robert pôde compreendê-la e tornou a afirmar:
— Pour Dieu, Rose Marie. Le Dieu est votre raison.
"Por Deus, Rosa Maria. Deus é o seu motivo."
Ela cerrou os olhos e abafou o choro.
O doutor David Russel, tocando com cuidado no ombro do filho, sinalizou-lhe o momento de parar.
Em seguida, conduziu-o para que se deitasse, pois percebeu que Robert perdia as forças.
Ele estava empalidecendo.
Houve muito desgaste.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 30, 2016 10:27 am

Margarida sufocava seu choro abraçada a Henry.
Ela não tinha coragem de encarar aquela alma irmã, tão querida, tão amiga e fiel.
Com o passar do tempo, Rosa Maria teve novos instantes de lucidez e delírio.
Depois de algumas horas, Dolores compareceu à clínica para saber sobre sua cunhada.
Após ser recebida por Margarida, a jovem solicitou ao doutor David Russel que colocasse sua tia a par da situação.
Dolores ficou assustada e pediu para vê-la.
— Eu restringi as visitas à senhora Rosa Maria.
Devemos evitar, ao máximo contactar com ela, qualquer contaminação, impureza, poderá agravar, e muito, o seu estado já tão comprometido e delicado.
— Mas eu sou sua cunhada, doutor!
— Senhora, por favor.
Compreenda que é para preservar a saúde de Rosa Maria.
Voltando-se para a sobrinha, Dolores perguntou:
— Margarida, onde está Gonzales?
— Não sei, tia.
Dificilmente ele comenta aonde vai.
Talvez somente Rosa saiba.
— Você já viu como ficou a casa?
— Não, tia.
Vi somente no momento do incêndio.
Depois não mais.
— Não sobrou nada.
As únicas coisas que ficaram em pé foram algumas colunas de pedra e a parede da frente, devido aos adornos de rochas.
Do restante, sobraram somente cinzas.
Margarida não exibiu sentimentos em expressões visíveis.
Nem teceu comentários.
Entretanto seu coração apertava de tristeza e dor pelo ocorrido.
Tão lamentável.
Dolores convidou Margarida para que a acompanhasse, mas recusou.
Estava decidida a ficar perto da amiga.
O doutor David Russel iria se retirar da clínica por algum tempo, a fim de se recompor e se alimentar em sua residência.
Convidou Margarida para que o acompanhasse, porém ela se negou a princípio.
— Agradeço senhor.
Quero ficar aqui com Rosa.
— Filha -— insistiu ele previdente e cauteloso —- você está exausta, tensa.
Passou a noite em claro e até agora não se alimentou.
Precisa de descanso e alimentação.
Aqui não terá isso com boa qualidade.
Se ficar assim vai enfraquecer e piorar a situação.
Em vez de somar pontos às soluções, dará acréscimo aos problemas.
Em nossa casa, tenho empregadas que sabem cuidar de uma jovem muito bem.
São senhoras que possuem filhas, creio que de sua idade.
Venha comigo para recompor as forças e animar-se mais.
Robert irá connosco, não é mesmo, filho?
—Pretendo ficar, meu pai.
—Para quê?
Robert não respondeu e seu pai insistiu:
—Venha connosco. Ficará melhor em casa.
Tenho que voltar rápido, atenderei o dobro de pacientes hoje.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 30, 2016 10:27 am

—Não vai desmarcar as consultas, pai?! -— preocupou-se Henry com a fadiga de seu pai.
—Não. Atenderei inclusive os pacientes de seu irmão.
O doutor Robert Russel estará se convalescendo, mas nem por isso seus pacientes têm de sofrer junto, só se for de outros males.
Farei o possível para oferecer atenção e atendimento a todos.
—Mas o senhor está exausto, pai!
Pensei que fosse dispensar até os seus pacientes. -— insistiu Henry.
_ Filho, preste muita atenção:
Eu sou um médico.
Tenho o dever de ajudar as pessoas.
Tenho, por missão, aliviar suas dores.
Minha consciência só está tranquila quando eu cumpro o que me cabe fazer.
Justifica eu deixar de atender alguém somente em extrema impossibilidade, como no caso de seu irmão agora.
Do contrário, quando eu não atender alguém, não estarei faltando com a obrigação para com alguma pessoa, estarei faltando para com Deus que me ofertou todas as possibilidades de ministrar o alívio para os corpos humanos.
O cansaço é a maior riqueza que eu posso ter, diante da pobreza que muitos experimentam na paralisia física ou mental.
Estou cansado sim, mas estou capacitado.
Assim que as auxiliares chegarem, informe sobre o ocorrido, filho.
Não permita que alguém entre na sala onde Rosa Maria se encontra.
— Nem seu esposo? -— perguntou Henry.
— Ninguém. Controle a situação. Você é capaz.
Voltarei o mais rápido possível, para que você também vá até nossa casa e retorne para me ajudar o quanto antes.
Precisarei de você.
Henry concordou com seu pai.
A caminho da casa da família Russel, o médico pediu ao cocheiro que passasse em frente a residência dos Gonzales.
Todos ficaram assustados com os escombros e restos de incêndio que sobraram no local.
Margarida começou a chorar e cobriu o rosto com as mãos enquanto o pai de Henry afagou-lhe os cabelos suavemente procurando confortá-la.
Robert perdeu o olhar nas cinzas estagnado, sem reacção.
Na residência do doutor Russel, os mais afectuosos gestos de carinho e atenção eram dispensados a Robert por todos os empregados que o estimavam intensamente.
Ao mesmo tempo que Margarida se encontrava cercada de gentilezas muito peculiares.
—Soubemos do ocorrido, senhor David -— confessou o mordomo, preocupado.
O senhor tem alguma recomendação especial a nos fazer? -— solicitou Oliver, ansioso em ajudar.
—Por favor, Oliver, peça para que me prepare uma boa alimentação.
Vou me lavar e, depois de me alimentar, retornarei o quanto antes à clínica.
—Vai clinicar hoje, senhor?
—Sim, meu amigo. Sem dúvida.
Os doentes não tiram folga porque as doenças não o fazem.
Irei assim que me recompuser.
—E quanto ao senhor Robert? -— tornou o criado preocupado.
—Ele sabe o que fazer.
Robert me impressionou hoje.
Porém fique atento, por favor.
Caso a febre volte, mande me avisar.
—E a jovem? -— insistiu ele.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 30, 2016 10:27 am

—Faça uma gentileza, Oliver.
Solicite cuidados e atenção para com ela.
É uma boa moça e está muito sensível com todo esse ocorrido.
Margarida precisa de alimento e descanso.
Se possível, pergunte se Elizabeth pode ficar com ela.
Por ser muito amável, bondosa e ter filha da mesma idade, saberá lidar com a moça.
Não quero que Margarida se sinta pouco à vontade, imaginando que somente homens moram nesta casa.
Tratem-na com carinho.
—Certamente, senhor.
Não se preocupe -— afirmou o mordomo muito dedicado e solícito.
Pedirei que preparem o quarto de hóspede o quanto antes para que a moça repouse.
Todas as providências foram tomadas conforme as recomendações do chefe da família, o qual tratava muitíssimo bem seus empregados, com todo respeito que eles mereciam, colocando-se sempre no lugar de quem recebesse suas orientações.
Com o passar das horas, vendo que não conseguia dormir, Margarida saiu do quarto que lhe foi indicado e começou a andar pela mansão de proporções e decoração ao estilo da época.
Ao descer as largas escadas que davam acesso do hall9 da sala principal ao andar de cima, a jovem observou uma linda pintura se destacar com a pose clássica de uma bela mulher, muito elegante, exibindo, mesmo através do retrato pintado, um carisma sem igual.
Vendo-a em contemplação demorada frente à majestosa obra, Elizabeth, uma das criadas, informou-lhe atenciosa:
—Essa é a senhora Russel. Anne Russel.
—Como era linda! -— comentou Margarida, admirada.
—Não somente a beleza exterior a destacava, como, principalmente, sua generosidade a fazia uma das criaturas mais belas que já conheci.
—Robert comentou que ela faleceu há cerca de treze anos.
A senhora sabe dizer o motivo?
—Coração. Em certa manhã, a senhora Anne simplesmente não acordou mais.
—Deve ter sido um choque muito grande para todos.
—E como foi! -— confirmou Elizabeth exibindo emoção.
O senhor David estava viajando.
Raramente ele não a levava consigo em suas viagens.
Seus filhos estavam em casa e... Foi um drama.
—Robert já era médico?
—Ainda estudava.
Ele estava no fim do curso.
Mesmo assim, ela foi encontrada morta, não poderia fazer nada.
Naquele mesmo dia, no final da tarde, o senhor David chegou e recebeu a surpresa mais desagradável de sua vida.
Quanto sofrimento!
—Ele não quis se casar novamente? -— perguntou Margarida, curiosa.
—Não. O senhor David só possuiu um único amor em sua vida.
Creio que seu filho seguirá pelo mesmo caminho.
Não entendendo a explicação de Elizabeth, a jovem solicitou detalhes:
—Como assim? Não entendi.
O que quis dizer com:
..."seu filho seguirá pelo mesmo caminho"?
—A senhorita não sabe que o senhor Robert também é viúvo?
—Não! -— afirmou Margarida, perplexa.
—Após se formar em Medicina, o senhor Robert se casou com uma jovem de boa família com quem se comprometera durante seus estudos.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 02, 2017 1:57 pm

Formavam um belo casal.
Só que a irmã da moça a influenciava muito.
Christine, uma esposa jovem, não tinha opinião própria e aceitava tudo o que sua irmã falava.
A pedido do senhor David, após se casarem, eles vieram morar aqui.
A irmã de Christine não a deixava em paz envenenando-a com falsos testemunhos sobre seu esposo.
O senhor Robert, médico já formado, clinicava junto com seu pai e cada mulher que ele medicava, de alguma forma, a irmã de Christine incentivava a jovem esposa a brigar com o marido.
O senhor Robert tem uma paciência ilimitada.
Ele é um homem muito bom, herdou de seus pais todas as melhores qualidades, e da mãe a mais fina educação.
Conversava muito com a esposa, procurava lhe dar provas de sua fidelidade, fazia-lhe todos os caprichos exigidos e até a colocou para trabalhar como sua auxiliar para que ela própria acompanhasse seu trabalho de perto a fim de não ter por que brigar.
No primeiro ano de casamento, Christine ficou grávida.
Quando a irmã dela soube de sua gravidez, envenenou-a de tal modo, fazendo-a crer que Robert queria vê-la trancafiada em casa, gorda e, com a desculpa de cuidar de seus filhos, ela não iria acompanhá-lo, e ele teria total liberdade de ir para as "farras".
Christine se deixou envolver pelos conselhos da irmã e, duas ou três semanas após saber que estava grávida, disse ao marido que não queria ter aquele filho e, por ele ser médico, deveria fazer alguma coisa a respeito.
O senhor Robert ficou revoltado.
Não admitia tal ideia e chegou a expulsar a irmã de Christine desta casa, proibindo suas visitas.
De tão farto com a insistência e choro da esposa que desejava livrar-se do filho, o senhor Robert exibiu sua insatisfação com gritos.
Foi a primeira vez que eu o vi gritar.
Aliás, foi a primeira vez que ouvimos um Russel gritar nesta casa.
O senhor Robert chegou às lágrimas, tamanha era a imposição que sua mulher fazia.
Dias depois, logo após a ida do senhor David e do filho para clínica, Christine sumiu.
Quando retornou para casa, Robert ficou preocupado com a esposa.
Ela não o avisou de sua saída e também não o fez a nenhum dos criados.
No início da noite, Christine chegou em casa carregada pela irmã e por uma outra senhora que não conhecíamos.
Ela chorava muito e pedia perdão e socorro ao esposo.
Na tentativa de interromper a gravidez, passou muito mal, e não conseguindo deter a hemorragia, a irmã e a parteira vieram pedir socorro ao médico, seu marido.
—E Robert, como ficou? -— impressionou-se Margarida.
—A princípio paralisado. Incrédulo.
Tive tanta pena dele!
—O que ele fez? O que disse?!
— Nenhuma palavra.
Carregou-a para o quarto e pediu ajuda a seu pai.
Não puderam fazer nada.
Christine estava muito mal e morreu poucas horas depois nos braços do marido, pedindo perdão e implorando para que ele não a deixasse morrer.
O senhor Robert ficou atónito.
Sua alegria morreu com a esposa e a seriedade dominou-lhe a alma.
Depois disso, ele se dedicou mais do que nunca ao trabalho e aos estudos.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 02, 2017 1:58 pm

Viajou algumas vezes para aperfeiçoar-se, retornou e nunca mais, nesses nove anos, soubemos que ele tivera compromisso ou interesse por alguém.
Creio que seguirá o caminho do pai.
Eles sempre foram muito unidos e, depois de todas essas tragédias, mais ainda.
— Você trabalha aqui há muito tempo, Elizabeth?
— Eu era criada da mãe da senhora Anne Russel.
Estive com ela na juventude e, quando ela se casou com o senhor David, eu a acompanhei.
Casei-me logo depois, e continuei aqui.
Moro nos fundos da mansão.
Com um singelo sorriso, relatou:
— Vi esses dois moços nascerem, ajudei a criá-los, encontrei dona Anne morta e assisti à esposa do senhor Robert falecer.
Isso não é fácil, filha.
— Imagino. Elizabeth, qual a idade de Robert?
— Mesmo não aparentando, ele tem trinta e oito anos. Por quê?
— Tão novo, com tanto conhecimento, oportunidades...
— Sim, filha. Ele tem tudo isso e muita experiência amarga também.
— Ele nunca falou nesse assunto. Eu não sabia.
— Robert não fala, mas também não nos impede de comentar.
Chorei muitas vezes com ele quando o surpreendi em lágrimas silenciosas em seu quarto.
Porém ele só me abraçava e chorava.
Nenhuma palavra.
Nunca mais ouvimos de sua boca o nome de Christine.
Nesse instante, outra empregada solicitou a presença de Elizabeth em outro cómodo da casa, mas antes de ela se retirar, Margarida perguntou:
—Elizabeth, sabe me dizer se Robert está acordado?
—Sim, ele estava quando saí de seu quarto.
—Acha que posso incomodá-lo?
Será que devo...
_ Vá visitá-lo, filha.
Fará bem a vocês dois.
Suas últimas experiências também não foram muito boas, não é mesmo?
Fique tranquila e pode me chamar, se precisar.
Margarida sorriu.
Subiu novamente as escadas e foi até o quarto de Robert cuja porta já estava aberta mas, mesmo assim, bateu suavemente pedindo permissão para entrar.
— Por favor, Margarida, entre! -— aprovou o médico que se encontrava em sua cama apoiando seu corpo em travesseiros e tendo almofadas nas laterais para sustentar os braços tão feridos.
— Como você está, Robert?
— Com muita dor.
É um sofrimento muito difícil de se enfrentar.
Dá vontade de gritar.
— Você reage de uma forma tão diferente -— observou a jovem.
— Como assim?
— Não expressa na fisionomia o sentimento de dor, nem mesmo reclama com gemidos.
— Não adiantaria, você concorda?
— Sim. Mas isso não é comum.
— Não é por isso que eu deixo de sentir dor.
Creio que, quando não reclamamos muito ou com frequência, sofremos menos.
— Pode ser. A propósito, teve febre?
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 02, 2017 1:58 pm

— Pouca.
— Seu pai pediu para avisá-lo caso tornasse a ficar febril.
Robert sorriu e a lembrou:
— Margarida, também sou médico.
Há pouco, mediquei-me com a ajuda de Elizabeth.
A jovem também achou graça, mas logo em seguida fechou o semblante demonstrando preocupação e comentou:
— Não paro de pensar em Rosa Maria.
Queria saber como está. Meu Deus!
Ela está sofrendo tanto!
Robert nada disse e ficou observando brotarem lágrimas copiosas de emoção sincera do olhar da jovem.
Pouco depois, ele perguntou:
—Acredita que a senhora Rosa Maria pudesse incendiar a casa?
—Na verdade não.
Não sei por que eu tive essa suspeita.
Ela é muito humana, se chegasse a um extremo absurdo desse, não acredito que arriscaria a vida dos outros.
Mesmo assim, acho muito estranho ela estar em seu quarto, como você descreveu.
—Não vamos criar ilusões ou suspeitas inafundáveis, Margarida.
É comum uma pessoa ir para seu quarto e se deitar um pouco, principalmente quando não se tem o que fazer e precisa aguardar a chegada de alguém, como foi o caso.
—Isso não é comum para Rosa.
—Por que não?
—Aquele quarto é o último lugar da casa onde ela ficaria.
Franzindo o semblante, intrigado, ele estranhou:
—Porquê, Margarida?
— E indelicado da minha parte contar o que sei em segredo, mas... penso que podemos estar diante de um crime.
— Robert ficou aguardando e ela continuou:
— Rosa Maria odeia aquele quarto.
Só dorme lá quando meu pai está em casa.
Mesmo assim, com a desculpa de cuidar de mim, ela fica comigo o quanto pode, até bem tarde, na esperança de que ele adormeça logo.
Rosa nunca me contou isso, mas eu percebi.
— Ora, pode ser que eu entrei em quarto errado.
Pode até ser seu quarto.
Eu não conheci a parte superior da sua casa.
— Ao subir as escadas, era o primeiro quarto à esquerda?
— Sim... era.
— Então era o quarto do meu pai.
Se Rosa tivesse vontade de se deitar, ela o faria num pequeno cómodo que tem na parte de baixo e que ela esconde de meu pai tê-lo feito de quarto para si mesma.
É lá que mantém ou mantinha, tudo a seu gosto:
decoração, flores, livros...
— Margarida, aonde que chegar?
Suspeita de um crime?
— Não sei. Sinto algo muito estranho.
Não acredito em acidente.
— Por quê?
A jovem caiu em choro consternado e, mesmo com a voz trémula, depois de alguns, minutos insistiu:
— É algo que eu sinto, Robert.
Eu sei que Rosa também sentia, só que não comentou.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 02, 2017 1:58 pm

— Sentia o quê, Margarida?
— Eu prestei muita atenção quando estávamos na casa de minha tia e você disse que ficou preocupado em deixá-la sozinha em casa.
Por que falou isso?
— Não sei.
Logo em seguida arrependi-me daquelas palavras preocupando-me com os julgamentos preconceituosos ou maldosos de sua tia.
Contudo nada tenho a temer.
O que aconteceu foi o seguinte:
Desde que a senhora revelou que não iria ao jantar, senti algo muito estranho que pouquíssimas vezes experimentei.
Insisti para que nos acompanhasse, mas não possuía argumentos para defender minha opinião.
—Deveria ter falado.
Rosa acredita em pressentimentos.
Depois de poucos segundos, ele tornou preocupado:
—Sabe quando seu pai vai retornar?
—Ele nunca avisa.
Se o fez, talvez tenha sido para Rosa.
—Em média, quantos dias ele fica fora de casa?
Margarida pensou um pouco para calcular melhor e respondeu:
— Uns cinco, mais ou menos.
Porém já chegou a ficar fora quinze dias e até um mês.
Já faz uma semana que eu soube que ele viajou.
Se ele foi para o continente, com certeza demorará muitos dias.
—Ele pode ter chegado a casa ontem à noite, depois que saímos?
—Geralmente ele retorna só à noite para casa.
Por quê? Está pensando o mesmo que eu?
—Não. Não devemos julgar.
Estou pensando em sua reacção quando ele deparar com a casa.
—Eu não posso imaginar.
Às vezes eu nem acredito no que está acontecendo.
—E difícil acreditarmos nas surpresas, principalmente as que não nos agradam.
—Você já experimentou surpresas muito amargas, não é Robert?
Ele a olhou de forma singular, acenou com a cabeça positivamente e depois perguntou:
—Henry lhe contou?
—Não. Foi Elizabeth.
Desculpe-me perguntar, mas você ainda sofre com isso?
—Muito. E o pesadelo que me assombra há nove anos.
—A culpa não foi sua -— disse ela, tentando confortá-lo.
—Eu sei. Nunca me culpei pelo que ocorreu.
Tentei tudo ao meu alcance para levar uma vida feliz, para salvá-la...
—A família dela o culpa pelo que aconteceu?
—Minha cunhada, quem promoveu todo esse inferno, sim.
Culpou-me por dois anos, dizendo que, se eu tivesse feito quando sua irmã me pediu, ela não teria procurado uma parteira curiosa e não teria perdido a vida.
Após alguns minutos ele confessou:
— Eu não poderia matar meu filho.
Jamais faria isso! Você entende?
—Claro que entendo.
Depois desses dois anos, a irmã dela desistiu?
Lágrimas começaram a brotar dos olhos de Robert, que ficou tentando controlar as emoções.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 02, 2017 1:58 pm

Mesmo com a voz embargada, relatou:
_ Meus maiores problemas começaram exactamente aí.
Flora irmã de minha esposa, falava que a via depois de morta, com o filho nos braços, pedindo-me perdão.
No começo eu não acreditei, mas depois...
Cada dia que passava, Flora se desequilibrava mais e mais.
Sofreu crises e teve de ser trancada em casa.
Quando conseguia fugir, ia para a clínica me acusar, falava muito e gritava também.
—Ela enlouqueceu?
—Sim. E eu quase.
—Como assim?
— À medida que Flora se desequilibrava e desviava-se da lucidez, eu me perturbava muito.
Quando ela dizia que via minha esposa a meu lado...
Robert deteve-se, procurando ter cautela, e Margarida insistiu:
— O que aconteceu?
— Bem... a princípio eu tinha ódio da minha cunhada, mas nunca exibi isso com palavras ou acções.
Ficava, simplesmente, calado e ouvindo.
Porém, com o passar do tempo, eu passei a sentir.
Por favor, Margarida, não pense que é ilusão ou que me deixei impressionar por minha cunhada.
Não sou homem de me deixar influenciar.
Eu percebia a presença de minha esposa e podia ouvi-la.
Como eu disse, a princípio não.
O mais impressionante era que Flora, minha cunhada, repetia exactamente a frase que somente eu escutava, segundos antes dela pronunciar.
Flora sofreu crises, acessos e faleceu louca.
— Daí você teve sossego?
— Não. Sofri perturbações terríveis que custaram muitos anos.
Ainda hoje, em ocasiões em que eu deixo algumas emoções me dominar, posso vir a sentir tais incómodos, com menos intensidade, é claro.
_ E seu pai, o que pensa de tudo isso?
—Meu pai é meu maior apoio. Sempre foi.
Não há outro igual. Sofre comigo. Teme por mim...
—Por quê?
Um pouco relutante, o médico confessou:
—Assim que minha esposa faleceu, eu procurava ficar só e ele temia que eu pudesse desistir da vida.
—Suicidando-se?
—Sim. Sabe, tenho que confessar que não deixei de pensar nisso.
Mas algo me dava forças e me renovava o ânimo.
O sentimento de perda, de solidão é terrível.
Procurei explicações para a vida, estudei e encontrei.
Mesmo assim, até hoje, meu pai teme que eu desista da vida.
—E você, Robert?
—Eu creio que ainda tenho muito a fazer em vida.
Não posso parar ou desistir.
Muitos dizem que o suicídio é um acto de coragem, eu tenho certeza de que é um acto de covardia, se a pessoa for mesmo corajosa, ela enfrentará as dificuldades.
Fugir é típico dos covardes!
Na pequena pausa que se fez, o silêncio reinou e os passos de Henry puderam ser ouvidos por ambos.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 02, 2017 1:58 pm

O irmão mais novo de Robert parou à porta esboçando um suave sorriso esperando pelas perguntas que não demoraram.
—Como está Rosa? —- interessou-se Margarida.
—Percebemos que está consciente, mas não quer falar connosco.
Responde com a cabeça: sim ou não.
Isso é compreensível.
—E a febre? -— perguntou Robert.
—Está difícil de ceder.
—Já é possível fazer uma avaliação? -— tornou o irmão mais velho.
—Não, Robert.
As queimaduras foram muito profundas em alguns pontos.
Como está, é difícil prever as sequelas.
—Ela deve sentir muita dor, não é? -— lamentou a jovem com uma pergunta.
_ Com certeza, Margarida -— afirmou Robert penalizado.
_ Pelo pouco que sofri, comparado a seus ferimentos, posso imaginar o quanto ela agoniza.
— Eu gostaria de vê-la! -— pediu Margarida.
— Deixe para amanhã, Margarida -— aconselhou Henry.
_ Agora vou alimentar-me um pouco e procurar dormir.
Depois ficarei lá com ela a noite toda e preciso ficar acordado para qualquer eventualidade.
— Então vá logo.
Não perca tempo -— sugeriu Robert.
— Acompanha-me na refeição, Margarida? -— solicitou Henry à jovem, estendendo-lhe o braço curvo para que ela o enlaçasse.
A moça levantou-se, aceitou o convite e virou-se para o irmão de Henry, perguntando:
— Deseja alguma coisa, Robert?
Ele sorriu educado e respondeu:
— Por enquanto não.
Vou tentar dormir um pouco.
Com a saída de Henry e Margarida, Robert teceu uma prece a Deus muito sentida.
Mesmo com tanto sofrimento, o acidentado conseguiu repousar o corpo, relaxando-o, enquanto os liames que uniam espírito e matéria foram se afrouxando, e, não necessitando mais o corpo deter aquela alma, esta se afastou, deixando de receber as impressões mais intensas daquela matéria corpórea.
Quando dormem, as pessoas experimentam uma condição que lhes será permanente após o desencarne.
Durante o sono, as almas se encontram umas com as outras e também com espíritos desencarnados.
Juntos, eles conversam, instruem-se e trabalham.
Nesse estado, ligamo-nos com o Mundo dos Espíritos superiores ou inferiores de acordo com nossas atitudes, pensamentos, vícios e desejos.
A alma, isto é, o espírito encarnado, na maioria das vezes, traz consigo, quando se une novamente ao corpo, rápidas recordações que denominamos sonhos.
Nem sempre nos lembramos deles.
Isso não significa ficarmos livres de experiências durante o sono.
Depois de desperta, a mente consciente interpreta ou traduz de formas diversas a realidade do que vimos e vivemos durante o período de sonolência, pois nem tudo é permitido lembrar.
Depende muito do grau de entendimento de cada um.
Em O Livro dos Espíritos, a resposta da pergunta 402 explica-nos sobre sonhos:
"O sono é a porta que Deus lhes abriu para o contacto com os amigos do céu, é o recreio após o trabalho..."
Entretanto essa porta deve ser aberta aos amigos que nos libertam e não aos que nos escravizam, e isso está sujeito à pureza de nossos desejos, do amor verdadeiro de nossos corações e da vigilância constante no desejo do bem.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 02, 2017 1:59 pm

Geralmente as pessoas relacionam seus sonhos a superstições, ou seja, "sonhou com uma coisa, significa outra", essas comparações são transmitidas por tradições culturais que são recebidas, mas na maioria das vezes, nada tem a ver com a realidade.
Quantas vezes sonhamos com coisas que, para a nossa crença, aquilo significa e simboliza prejuízo, desgraça ou fortuna e nada disso nos acontece?
Porém continuamos acreditando nelas.
Muitas vezes, essas comparações se identificam com factos reais e acabam por ocorrer, são meras coincidências; outras, são impregnações da própria pessoa em sua mente.
Não podemos esquecer que, em estado que chamamos sono, a alma está sempre sob influência do corpo, por isso, se temos uma expectativa ou um medo, nossa própria imaginação age com base nas informações de nossas crendices, provocando em nossa mente, na condição intermediária entre o sono e a vigília, imagens do que anteriormente comparamos, acreditamos, tememos ou relacionamos.
É importante lembrar que os espíritos ignorantes também utilizam o sonho para perturbar as almas fracas e sem conhecimento, principalmente àquelas influenciáveis facilmente pelos assombros, superstições e significados dos sonhos.
Esses espíritos impregnam medos e preocupações para se vingarem ou simplesmente se divertirem.
Estamos sempre ligados com o que desejamos, acreditamos ou tememos.
Durante o repouso do corpo, pode-se encontrar com amigos e parentes, encarnados ou desencarnados, que podem simplesmente conversar para matar a saudade como também nos prevenir de ocorrências que não precisamos experimentar, ou nos animar para enfrentarmos determinados acontecimentos.
Quando essas prevenções ocorrem com nitidez, indica que devemos educar a mediunidade, pois esse intercâmbio feito entre o plano espiritual e físico, através do sono, necessita de ser bem analisado a fim de não interpretarmos erroneamente a mensagem.
Um dos registos mais antigos sobre esse tipo de mediunidade nos é trazido, na Bíblia, através dos profetas.
Lembramos que é de inteira responsabilidade do médium todas as revelações feitas por qualquer tipo de mediunidade, pois, se fosse para todos saberem, a eles também seria revelado.
Mesmo não se recordando das experiências durante o sono, todos merecedores de protecção, receberão conselhos benéficos e os terão no momento certo, através de uma inspiração.
Os portadores de maledicências, pensamentos e acções não dignas, receberão da mesma forma conselhos e orientações de espíritos inferiores, induzindo-os a práticas de pouco valor.
Por essa razão, o desejo de melhorar, de evoluir, a humildade e o pedido de bênçãos ao Pai Celeste, envolverá, instantaneamente, qualquer criatura que, verdadeiramente, deseje o auxílio e, assim será feito.
Foi o que ocorreu com Robert.
Seu pedido de amparo a Deus o envolveu e, imediatamente, na espiritualidade, ele foi despertado com ternura, mesmo estando ligado ao corpo físico, pois ele era um encarnado.
Após dispensar-lhe fluidos calmantes e salutares, sua mãe aproximou-se, afagando-lhe a face com gestos de carinhos maternos que ele, como encarnado, pudesse compreender.
Normalmente um espírito mais evoluído, exibe um gesto a fim de que a compreensão do outro, encarnado ou desencarnado, possa traduzir a mensagem de acordo com seu nível de entendimento.
Anne Russel, que foi mãe de Robert, quando encarnada, assim o fez.
— Filho querido -— afirmou ela.
Como é bom tê-lo tão evoluído, tão mais liberto das prisões em que tentaram sufocar-lhe as forças!
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 02, 2017 1:59 pm

Robert estava um tanto assonorentado e com certa brandura, recordando-se de encontros anteriores nas mesmas condições, respondeu:
— Minha mãe! Que bom revê-la!
Não possuindo, naquele estado, as impressões das queimaduras, ele abraçou sua mãe muito emocionado.
Ao olhar para o lado, percebeu a presença de seu pai encarnado que, naquele instante, havia cochilado na clínica quando se acomodou um pouco para observar Rosa Maria.
— Meu pai! -— exclamou o médico.
Também está aqui?
— Eu e sua mãe estamos muito preocupados com você, filho.
— Eu estou bem, meu pai -— afirmou ele, ainda abraçado à sua mãe.
No mesmo momento, ela o alertou:
_ Sim filho, você está bem, mas tememos os desejos que alguns têm por você.
Se não nos recompomos em pensamentos firmes, o excesso de vibrações inferiores pode nos atordoar e, num instante de invigilância, nós nos conduziremos aos erros.
Procure desejar o bem a todos que se julgam seus inimigos.
Assim atrairá para junto de si, fluidos benéficos que serão direccionados à criatura indicada e serão o bálsamo que dissolverá as vibrações que lhes enviam.
Você proporcionará o benefício de outros e o seu também.
—Tenho pressentimento, minha mãe.
Avisos de coisas que não identifico.
—O que for necessário irá identificar, porém seleccione, filho.
Bem sabe o quanto esses pressentimentos podem ser um meio de tentarem nos enganar, de nos colocar medo.
Tenha fé e ore. Ore muito.
—Preocupo-me com Rosa, mãe.
Acredito que aquele incêndio foi criminoso. Pode me ajudar?
A senhora Anne e o pai de Robert se entreolharam e, no minuto imediato, ela facilitou-lhe uma espécie de clarividência, pois a emancipação daquela alma permitia a apresentação de factos já ocorridos, através dessa faculdade que é muito mais ampla quando estamos libertos, total ou parcialmente do corpo físico, assim como também se dilatam outros atributos já possíveis aos espíritos.
Na cena que se passava, na tela mental de Robert, ele reconhecia o subúrbio de Londres onde via, no interior de uma residência não muito luxuosa, mas confortável, a discussão entre uma mulher bem madura e seu filho.
Por que a senhora não exige mais?!!!
Gritava o rapaz enfurecido.
A mãe, que parecia temê-lo, respondeu com timidez:
— Não há como, Peter.
Por que você é tão egoísta?
—Não sou egoísta!!! -— vociferava o rapaz.
Sinto-me humilhado.
Sou um bastardo!!!
Gonzales não me assume, nem nos larga.
Hipócrita!!!
—Não reaja assim, filho.
Um dia ele vai dar um jeito em nossa situação.
Gargalhando estrondosamente, satirizando a crença de sua mãe, Peter completou tentando ofendê-la:
—Se ele não a quis quando a juventude vigorava-lhe no corpo e na alma, velha e cansada é que ele não vai querer.
Gonzales a usou!!!
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 02, 2017 1:59 pm

—Não diga isso, Peter!
Respeite-me! -— pediu a mulher quase chorando.
—Você nunca se deu ao respeito, por que eu o faria?
Você é a outra, mãe!
Ele nunca irá assumir situação nenhuma com você ou comigo.
Fico revoltado quando vou ao centro da cidade e deparo com aquela francesinha e sua enteada, desfilando pelas calçadas sem problemas, dificuldades, preocupações ou vergonha, enquanto nós temos que ficar escondidos aqui feito ratos!
Se ele quisesse mesmo a senhora, não teria se casado com aquela...
Ele já tinha um filho com você quando ficou viúvo.
Por que não a procurou após a morte da mulher?
— Cale-se, Peter!
Não quero ouvir mais nada!
A discussão seguiu um pouco mais, até Nancy, mãe de Peter e amante de Gonzales, comentar:
—Se eu pudesse acabar com Gonzales!
Queria deixá-lo na miséria e vê-lo humilhar-se para mim, porque só quando ele fracassa é que se lembra de nós.
Tenho tanto ódio dessa Rosa que... nem imagina!
—Não se preocupe com a Rosa, mãe, precisamos é melhorar as nossas finanças.
— Mas enquanto ele abastecer aquela casa, faltará para nós.
Peter ficou em silêncio ruminando a ganância e o ódio em seus pensamentos.
Naquela mesma noite, ele foi até a residência de seu pai, o senhor Gonzales, e entrou na casa furtivamente, sem ser percebido.
Rosa Maria estava sentada em seu divã lendo um livro conforme havia planeado.
Ele estava bem perto da jovem senhora, quando esta sentiu a presença de alguém e virou-se.
Peter a esbofeteou com muita força.
Ela ficou atordoada e ainda o olhou antes que ele a golpeasse novamente, levando-a a perder os sentidos.
O jovem a tomou em seus braços e subiu as escadas, colocando-a no quarto do casal.
Ajeitou-a na posição lateral, talvez para simular que dormia, e decidiu provocar um acidente.
Quando uma das empregadas o viu, ainda na parte superior da casa, Peter também a agrediu fazendo-a desmaiar.
Abandonando a empregada, ali mesmo no corredor que dava acesso aos quartos, Peter desceu as escadas à procura de querosene que alimentava a iluminação da residência como combustível para os lampiões.
Não foi difícil de encontrá-lo.
Não querendo ser pego, ou arriscar que Rosa e a criada acordassem, o rapaz derramou o querosene na sala, abaixo do quarto onde Rosa estava, ateando fogo e fugindo.
Os outros empregados já estavam dormindo.
Minutos depois, todos acordaram na casa já com altas chamas.
O mordomo e sua esposa saíram da residência, mas uma outra empregada teimou em procurar sua irmã, a empregada que Peter agredira.
Na busca, a jovem moça, ao tentar despertar a irmã, foi atingida por uma viga e não teve condições de sair sob ela, ficando presa.
Junto às cenas do plano físico, eram apresentados a Robert, os acontecimentos no plano espiritual.
No instante da briga entre Peter e sua mãe, o espírito Flora, cunhada de Robert quando encarnada, influenciava Peter a se revoltar e a se vingar de Gonzales e até da família que o afastava de sua mãe.
Mesmo não tendo, até então, nenhuma ligação com Flora, Peter, por ser uma alma de fraco carácter, deixou-se levar pelas opiniões que recebia daquela criatura desencarnada, sem perceber.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 02, 2017 1:59 pm

Seus desejos foram alimentados pelo incentivo daquele espírito, o que lhe fez criar coragem para, friamente, cometer aquele crime.
Robert chegou a se ver na cena.
No momento em que ele tentava convencer Rosa Maria para acompanha-los ao jantar, o espírito Estella, que havia sido mãe de Margarida, passava-lhe as impressões daquela insistência.
Mais tarde, quando entrou na casa em chamas, pôde ver também o momento em que os espíritos Estella e Anne o guiaram em meio à fumaça, pois, sem aquela inspiração, seria impossível chegar tão rapidamente até Rosa Maria.
Assim que as imagens cessaram, Robert perguntou à sua mãe:
— Estava completamente deformado, mas pude perceber o espírito Flora influenciando aquele rapaz, estou certo?
— Sim filho -— confirmou Anne Russel.
— Minha mãe, Rosa não tinha nenhuma ligação com Flora.
Por que mesmo em espírito, Flora incentivou toda essa catástrofe?
— Meu filho, nessa existência terrena, você pôde notar o quanto Flora desejava lhe conquistar e ocupar o lugar da irmã como sendo sua esposa.
Antes de seu casamento com Christine, ela chegou a se declarar para você.
— Não dei importância a isso, mãe.
Ela era moça, jovem demais.
Mas trazia em si a cobrança do passado, ainda mais remoto.
Em outra época, você abandonou Flora às vésperas do casamento.
Dias antes do enlace, você a avisou que tudo entre vocês estava terminado, pois havia se apaixonado por outra.
Flora não acreditou e, mesmo com o seu sumiço do vilarejo, ela não avisou ninguém.
Arrumou-se toda e ficou esperando-o na igreja, enfrentando uma situação muito difícil para com os convidados e consigo própria.
Flora nunca lhe perdoou por isso e prometeu não deixá-lo ser feliz com mulher alguma.
Naquela mesma época, você tentou se casar com Rosa, por quem havia se apaixonado.
Mas Flora impediu seu casamento.
Dias antes, ela procurou sua noiva sustentando nos braços um bebé que pegara emprestado com a verdadeira mãe, Christine, que nem o conhecia.
Flora disse que a criança era filho dela e seu.
Rosa, decepcionada, abandonou-o.
Mais tarde, desorientada, Rosa fez um casamento de interesses: luxo e fortuna.
Ela não tinha amor pelo esposo.
Creio que isso explica seu casamento tão incompleto hoje com Gonzales.
Christine adquiriu débitos desnecessários ao auxiliar Flora.
A princípio, quando Flora dizia que via a irmã desencarnada com o filho nos braços pedindo-lhe perdão, era mentira.
Mas depois o que acabou ocorrendo foi uma cobrança, não só pelo que promoveu em vida passada com uma criança em seus braços, mas também por sua consciência cobrar-lhe todos os erros.
Flora o segue há longa data, você bem sabe.
Ao vê-lo hoje, reencontrando-se com Rosa, não quis que ficassem juntos e influenciou Peter, que possui personalidade muito fraca e pouca moral, dando-lhe ideias a fim de afastar Rosa de você.
Rosa é casada, mãe.
Não podemos ficar juntos.
Tenho-lhe respeito e a considero demais.
Não despertou em mim nenhum sentimento mais forte.
Tenho por Rosa um amor de irmão. Garanto!
—Até agora, sim, meu filho, sim.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 02, 2017 1:59 pm

Não posso desconsiderar sua moral, mas bem sei o quanto é forte os sentimentos de amor verdadeiro a uma alma afim, a qual nos entrelaçamos por inúmeras compatibilidades e afeições de ternura.
E, muitas vezes, por séculos, procuram se ajudar, tendo, por amor, muito êxito nesse auxílio mútuo.
—O que quer dizer com isso, minha mãe?
O que a senhora quer dizer com "até agora"?
Anne se calou e Robert entendeu que ela não poderia lhe fazer mais revelações.
— O que posso fazer então, minha mãe?
— Ore muito, meu filho.
Continue servindo ao bem e seja cauteloso.
Auxilie Rosa Maria.
Ela vai precisar de você e você dela, que tem muito a lhe ensinar.
— Rosa necessitava dessa experiência, mãe?
— Às vezes, o livre-arbítrio de alguém não é bem utilizado.
Mas quem nós somos para julgar?
Porém, quando suportamos com resignação as provas que não necessitamos, temos acréscimos e evoluímos.
Por isso, não cultive um sentimento de revolta nem acredite em injustiça de Deus.
Não pense em vingança nem cobre uma providência imediata.
Deus é sábio e não nos cabe julgar.
Quando Robert olhou para o lado, seu pai não estava mais ali.
Percebendo sua preocupação, Anne informou:
—David precisou ir.
Alguém necessita de seus cuidados.
Ele foi chamado ao corpo.
Agora é a sua vez, meu filho.
Retome sua vida, você tem muito a fazer.
Sabe... apesar de tudo, deixei de realizar muitos trabalhos... hoje lamento as oportunidades perdidas.
Não deixe o mesmo ocorrer com você, seja ponderado.
Vigie-se e tenha fé.
Anne beijou-lhe a testa enquanto aquela alma era arrebatada da espiritualidade para o corpo, sem que ele mesmo pudesse impedir.

9. A.E.: hall: termo inglês oferecido a um saguão ou sala de grandes dimensões.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 02, 2017 2:00 pm

7 - Torturas

Robert, despertando suavemente, surpreendeu-se ao pronunciar baixinho:
— Minha mãe...
Elizabeth, que lhe trouxera uma refeição, estava parada à sua frente olhando-o piedosa.
— Senhor Robert -— disse ela afável - sou eu.
Vim lhe trazer algo para comer.
Precisa se alimentar.
Robert não se lembrava do sonho, mas sentia-se um tanto refeito, mesmo com as dores que ainda inflamavam-lhe os braços.
Essa recomposição deu-se graças ao envolvimento que recebido.
Elizabeth puxou uma cadeira para próximo da cama e sentou-se nela para auxiliar o médico na alimentação.
Ele se encontrava num estado de total dependência.
No dia seguinte, sentia menos dor em seus ferimentos, estando assim, um pouco mais refeito.
Ao ir vê-lo, o doutor David Russel ficou animado com sua disposição, porém não deixou de fazer recomendações ao filho.
— Fique deitado por hoje meu filho.
O repouso lhe fará bem.
—Não sei se vou conseguir continuar por muito tempo nessa cama, meu pai.
Sinto-me sufocado aqui.
Quero ir para a clínica.
—Nem pensar -— negou-lhe o pai.
Lá ficaria muito exposto.
Você sabe que não deve se contaminar.
—E meus pacientes, foram bem atendidos? -— perguntou ele a seu pai, tentando brincar.
—Creio que vão deixar de ser seus pacientes, apreciaram mais o trabalho de outro médico! -— completou o experiente doutor concordando com a brincadeira.
—Isso é bom!
Não preciso me preocupar quando necessitar de férias.
Para animar o filho, o doutor David Russel comentou:
— Todos seus pacientes sentiram muito o ocorrido e lhe desejaram melhoras rápidas.
Ontem compareceram à clínica até aqueles que não haviam marcado consulta, só para saber de seu estado.
Você é bem conceituado, filho.
Robert sorriu e ironizou:
—E que eles nunca foram atendidos por outro.
O dia em que isso ocorrer, como agora, saberão distinguir-me de coisa melhor.
—Não foi isso que demonstraram.
Depois de alguns segundos de pausa, Robert perguntou:
—Esperava que me contasse como está a senhora Rosa Maria.
Como ela reage?
—Estava esperando que me perguntasse -— retrucou seu pai. —
Bem... seu estado é bastante delicado.
As primeiras quarenta e oito horas são as mais importantes.
Ela é forte, mas as queimaduras foram de muita intensidade.
—Acredita que ela possa não resistir?
—Não sei dizer.
Creio que sim, ela corre sérios riscos.
—Quero ir à clínica, o senhor me ajuda?
_ Robert, seria bom que ficasse aqui.
_ E com os pensamentos conturbados, meu pai?
Eu não teria descanso.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 02, 2017 2:00 pm

_ Henry comentou que ontem você confessou a ele que "sua consciência doía mais do que os ferimentos".
Explique-se melhor, filho.
Não vejo como pode culpar-se pelo que ocorreu.
— Não me culpo, de forma alguma, pelo que ocorreu.
Cobro-me por não ter insistido mais para que a senhora nos acompanhasse naquele jantar.
Essa é a dor que sinto.
Acredito que se houvesse insistido um pouco mais, ela teria nos acompanhado.
O pai de Robert compreendeu sua tristeza, afagou-lhe as costas com a palma da mão, estapeando-o suavemente, exibindo seu apoio ao sentimento do filho.
—Sabe, meu pai, é tão difícil encarar uma situação lamentável sabendo que uma simples atitude ou palavra nossa poderia ter mudado todo o ocorrido.
—Eu sei o que é isso, Robert.
Quando sua mãe faleceu, lamentei não estar aqui.
Era para eu ter voltado um dia antes, mas não me esforcei para que isso ocorresse e, às vezes penso que, se eu estivesse em casa, teria sido diferente.
—Falando em mamãe, lembrei-me agora de que sonhei com ela.
Foi ontem à tarde quando consegui tirar um cochilo.
Sei que, nesse sonho, nós conversávamos e ela sorria para mim.
Não sei relatar mais nada.
—Ontem à tarde, em um momento de pausa que ocorreu milagrosamente entre um paciente e outro, eu também tirei, sem perceber, uma soneca.
Acho que fiquei impressionado com o que aconteceu e sonhei com o incêndio.
Só que, nesse sonho, sua mãe estava nele.
Ela passava por entre as labaredas e não se queimava.
Era estranho.
Depois lembro-me de tê-lo visto entre a fumaça.
— E depois? -— interessou-se Robert.
— Sua auxiliar me chamou, avisando que um de seus pacientes havia chegado.
Não me lembro de mais nada.
Tudo foi rápido e sem nexo.
— O senhor me libera para ir até a clínica, doutor? -— perguntou Robert com leve sorriso no rosto, tentando convencer seu pai. —
Preciso examinar uma paciente para ter minha consciência tranquila, "ou terei faltado com minha obrigação, não para com ela, mas para com Deus que me proporcionou tantas realizações" -— completou ele, furtando a frase filosófica que o doutor David se justificou a Henry no dia anterior.
O doutor David Russel sorriu e alertou-o em tom de brincadeira.
— A paciente deixou de lhe pertencer aos cuidados no instante em que você a entregou para mim e se impossibilitou de tratá-la por motivos de saúde.
Mesmo assim, posso pensar em conceder-lhe uma visita de observação.
Sob efeito de fraterno sorriso, o pai auxiliou cuidadosamente o filho a se levantar.
Logo depois, seguiram juntos para a clínica.
Henry estava lá.
Ele havia passado a noite observando Rosa Maria.
— Como ela reagiu durante a noite, doutor Henry? -— perguntou o médico fazendo o filho acostumar-se com o título, enquanto olhava a paciente.
Henry, sorrindo surpreso, deu seu parecer:
— Ficou estável. Teve febre, delírios, instantes de lucidez com pouca duração...
Percebi que suas queixas diminuíram.
Quando em delírio, não consigo entender o que ela diz.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 02, 2017 2:00 pm

— Talvez esteja falando em francês -— opinou Robert que ouvia atento.
— Vá para casa, Henry. Descanse bem.
À noite você volta.
Peça ao cocheiro que retorne dentro de algumas horas a fim de levar Robert para casa.
Não é do meu gosto que ele se exponha tanto.
— Voltarei para ajudá-lo, pai.
Seu dia será tão cheio quanto ontem.
— Prefiro que descanse.
Várias noites com o sono prejudicado, não lhe será favorável.
Fique em casa e durma.
— É verdade, Henry -— aprovou Robert.
O sono é um dos melhores alimentos.
Se surgir qualquer emergência, com certeza será chamado.
O jovem concordou e se foi.
Logo após a saída de Henry, o doutor David Russel propôs:
— Venha, Robert, vamos trocar essas ataduras.
— Depois, meu pai.
Quero ver a senhora primeiro.
— Será melhor agora.
Daqui a pouco as auxiliares chegarão, a enfermeira e os pacientes também.
Não teremos muito tempo ou privacidade.
Robert sentou-se e estendeu os braços sobre uma mesa para que o pai retirasse os curativos.
Em poucos minutos, enquanto o médico dispensava seus cuidados, o filho abaixou a cabeça encostando a testa à mesa, enfraquecido pelas fortes dores que sentia, devido às ataduras terem aderido aos ferimentos.
Mesmo penalizado, o doutor David Russel não deixou sua emoção dominar-lhe, continuando com a retirada dos curativos, percebeu que Robert perdeu os sentidos pelo excesso de sofrimento.
O pai o ajeitou na cadeira, colocou seu rosto sobre um apoio macio e continuou seu trabalho.
Robert passou a murmurar:
— Não, Flora... deixe-me em paz...
Seu pai, embora ocupado com os curativos, estava atento às palavras que ouvia do filho, mas não interferia.
— Saia!... Vá embora! -— tornava ele, falando baixinho.
Eu só queria ser feliz... porque Rosa?
Depois de longos minutos de silêncio, Robert foi recobrando a consciência lentamente, enquanto seu pai o reanimava.
— Robert?! -— chamava o médico com brandura no tom de voz. —
Você é forte, filho. Reaja.
O enfermo parecia não saber onde estava.
Atordoado, olhava a sua volta procurando por alguém.
— Sente-se melhor, filho?
— Acho que sim -— respondeu ele com voz esmorecida.
— Eu sei que não é fácil, é muito dolorido, mas é preciso.
Ainda confuso, Robert esclareceu:
— É bom um médico sentir dor a fim de respeitar seus pacientes e dar atenção e carinho às suas queixas.
— Deite-se um pouco aqui -— indicou o pai ainda preocupado.
— Não, obrigado. Estou melhor.
— Ainda tem pesadelos, não é, filho?
Há pouco você murmurou aflito.
— Agora?! -— perguntou ele preocupado.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 02, 2017 2:00 pm

— Sim, agora mesmo quando perdeu os sentidos pela dor.
Mencionou o nome de Flora e pedia para ela se retirar.
— Não me lembro de nada que eu possa ter dito.
Mas, às vezes, sou acometido de sonhos estranhos.
É um tormento, meu pai.
— Preocupo-me com você, Robert.
Gostaria de poder ajudá-lo.
— O senhor já me ajuda, meu pai. Pode acreditar.
Ao fazer menção de se levantar, seu pai pediu:
— Descanse mais, filho!
— Não. Já estou bem.
Quero ver a senhora mais de perto.
Aproximando-se de Rosa Maria, Robert percebeu que ela estava consciente mesmo mantendo as pálpebras fechadas.
— Senhora Rosa Maria?!
Pode me ouvir?
Ela abriu os olhos lentamente e com o semblante abatido e cansado fitou-o.
— Pode me compreender? -— tornou ele.
Com esforço, a jovem senhora murmurou:
— Sim, Senhor Robert.
— A senhora está se recuperando muito bem.
Continue assim, lutando pela vida.
Essas dores vão passar, mas precisamos que reaja a fim de que se cure mais rápido.
Os olhos de ambos embaçaram pelas lágrimas.
Robert nunca havia ficado tão penalizado pelo sofrimento de alguém.
Ele lutou para suas lágrimas não rolarem enquanto Rosa Maria não pôde detê-las.
Por fim, murmurou:
— O senhor também se feriu.
— Só um pouco. Não é nada sério.
— Estella me contou... -— balbuciou a enferma, parecendo confusa ou em delírio.
Ela pediu... pediu que eu me levantasse, mas... não consegui... não consegui.
Daí Estella foi chamar Anne para ajudar... eu precisava de ajuda.
— De quem a senhora está falando? -— perguntou Robert preocupado, enquanto seu pai aguçou a audição e aproximou-se para ouvir melhor.
Rosa, com as pálpebras fechadas, tornou a responder com voz pausada:
— Falo da Estella... Anne... Estella me contou...
— Quem é Estella, senhora?
De que Anne está falando?
— Sua mãe... Anne é sua mãe.
Pai e filho sentiram-se gelar, enquanto ela prosseguiu:
— Estella foi chamar sua mãe para ela pedir que me ajudasse...
Você e Anne são muito afinados na mesma sintonia de vibrações.
Você recebe com facilidade suas inspirações...
— Ela está delirando -— afirmou o doutor David, incrédulo.
— Anne usa o vestido que seu esposo mandou confeccionar especialmente para a pintura do quadro...
É um belo vestido em fundo azul claro, tem detalhes em leve tom rosa suave... foi feito em Paris...
Robert e seu pai sabiam que Rosa Maria ignorava a pintura do quadro retractando Anne Russel.
Ela nunca o vira nem sabia de sua existência e, principalmente, do detalhe sobre o feitio daquele vestido.
Até Robert ignorava o facto da roupa ser confeccionada em Paris.
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