O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 03, 2017 11:45 am

Pai e filho se entreolharam surpresos e voltaram em seguida sua atenção à enferma que passou a balbuciar palavras desconexas.
***
Com o passar dos dias, Rosa Maria permanecia cada vez mais lúcida.
Duas semanas depois, o senhor Gonzales chegou de sua viagem e foi acometido de crises nervosas ao ver o que restou de seu património.
Na casa de sua irmã, ele gritava, esmurrava as mesas e chutava também os móveis.
Quando começou a passar mal, Dolores chamou o doutor David Russel para atendê-lo.
—Não preciso de médico! -— gritava ele.
Quero saber como aconteceu isso?!
—Ninguém sabe, senhor -— informava o médico.
Nem sua esposa sabe dizer.
Ela não se lembra.
— Como Rosa Maria não se lembra?!
Ela estava lá!
— Sua senhora estava dormindo em seu quarto e, pelo que nos consta, a fumaça a entorpeceu e ela não viu o fogo queimar a casa, quase morreu por isso.
— E minha filha?! -— tornou o homem intolerante.
—Sua filha está em minha casa, senhor Gonzales.
Lá, Margarida tem todos os cuidados e atenção.
—Ela não quis vir para cá, Gonzales —- interferiu Dolores afirmando.
Eu bem que fui buscá-la, mas ela não obedeceu.
Você bem a conhece, não larga a Rosa.
_ Onde Margarida estava na hora do incêndio?
— Aqui em casa, jantando connosco.
Henry e Robert estavam aqui também.
_ Rosa Maria deixou minha filha sair sozinha?!
E com o moço que se comprometeu com ela?!!!
Se Rosa não morreu, eu a mato!!!
—O que é isso, Gonzales?!
Moramos perto! -— defendeu sua irmã.
—Não interessa!!!
As ordens para Rosa foram para que cuidasse de Margarida!
Mandei que ficasse com minha filha.
Vou matar a Rosa Maria!
O senhor Gonzales perdeu completamente o controle emocional.
Aos berros, jurava vingar-se de Rosa Maria acusando-a, inclusive pelo incêndio.
— Foi ela quem ateou fogo em minha casa!
Rosa estava ficando louca!
Não gostava de dinheiro!
E por um segundo se lembrou:
— Dinheiro! Meu dinheiro se queimou!!!
O senhor Gonzales lembrou-se do cofre que possuía em casa onde mantinha guardado toda sua economia.
— Preciso ir para minha casa!!! -— vociferou ele, levantando-se com rapidez.
Momento em que se sentiu tonto e teve de ser amparado.
O excesso de adrenalina provocou-lhe forte vertigem.
Levado para um quarto, na casa da irmã, deitado em uma cama, o senhor Gonzales agitava-se sentindo vertigens e mal estar.
O doutor David Russel, tranquilo, medicou-o e recomendou:
—O senhor deve permanecer em repouso.
Sentirá um pouco de sono e isso será normal pelo que lhe mediquei.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 03, 2017 11:46 am

Procure não se agitar, é perigoso para a saúde.
—E minha filha? -— perguntou o homem mais brando.
Não deveria ter ficado em sua casa logo após o ocorrido.
—Nesse instante, ela está na clínica.
Não se preocupe com Margarida, senhor Gonzales.
Fui eu quem a levou para minha casa e exigi todos os cuidados para com ela como se fosse minha própria filha.
Recomendei a uma governanta, considerada como ente da família, que a servisse de ama.
Elizabeth até está dormindo no mesmo quarto que sua filha, fazendo-lhe companhia.
Essa senhora é de minha total confiança.
Cuidou de minha esposa e de meus filhos.
Fique tranquilo.
—Quero ver Rosa Maria! -— insistiu o esposo.
—Eu restringi todas as visitas à sua senhora.
Ela sofreu queimaduras de grandes proporções e precisa ficar isolada para não adquirir uma infecção, o que poderia ser fatal.
—Ela é uma irresponsável! -— acusou o senhor Gonzales demonstrando irritação.
O médico não disse nada e resolveu se despedir.
—Procure descansar. Agora tenho de ir.
Há pacientes que me aguardam lá na clínica.
—Pode ir, sim.
Mas gostaria que compreendesse, respeitando o isolamento e a restrição de visitas.
Ao retornar para a clínica, o médico contou à Margarida e Robert, que já estavam lá, o ocorrido com o senhor Gonzales.
A jovem ficou preocupada e depois pediu:
—Por favor, senhor David, não permita que meu pai a visite.
Ele é um homem muito rude.
—Eu entendo, filha.
Procurei detê-lo o quanto pude, mas...
—E quanto a mim, senhor?
—Como assim, Margarida?
—Ele quer que eu vá para a casa da minha tia?
—Seu pai não disse nada a esse respeito, porém preocupou-se.
Como eu já disse, parece que não gostou de saber que você saiu sozinha com meu filho e de estar em nossa casa.
Mas eu lhe garanti todos os cuidados.
_ Não quero ir para a casa da minha tia, senhor.
Por favor, se puder fazer algo a respeito, ficarei eternamente grata.
Robert interferiu no assunto e aconselhou:
_ Margarida, perdoe minha intromissão, mas é seu pai.
Nem mesmo vai vê-lo?
Sem pensar, a jovem respondeu:
_ Não quero. Sei que me compreende, Robert.
Você conhece toda a história.
— Farei o que puder, filha -— garantiu o pai de Henry.
Fique tranquila. Vá para casa.
Mais tarde conversaremos a respeito disso.
Preciso falar com Robert agora.
A jovem obedeceu.
Ao se ver a sós com seu filho, o médico, experiente, perguntou:
— O que você conhece sobre a história dessa família que apavora tanto essa moça?
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 03, 2017 11:46 am

Robert relatou a seu pai todo o drama de Margarida e Rosa Maria, inclusive a suspeita sobre Gonzales ter incendiado a própria casa.
— Não creio que tenha sido ele o incendiário.
Esse homem é muito materialista.
Sua preocupação, em nenhum momento, foi em relação aos ferimentos da esposa.
Ele reclamava dos danos materiais e do dinheiro que perdera.
— Amanhã cedo eu conto.
Deixe que durma bem esta noite.
Estou pensando em levá-la para nossa casa.
Ela já está reagindo bem e creio que o contacto directo com quem lhe dispense atenção, auxiliará bastante.
— E se o marido quiser levá-la para a casa da cunhada?
— Não sei dizer. E um caso para se pensar.
Talvez eu deva falar com ele, mas este homem, além de rude, é imprevisível.
Depois de alguns minutos, a auxiliar do médico bateu à porta informando sobre a chegada de um paciente.
Robert levantou-se e seu pai perguntou:
—Vai ver como está a senhora?
—Vou sim. Pouco antes do senhor chegar, ela dormia.
Talvez agora já tenha acordado.
—Converse com ela, vá preparando-a vagarosamente para receber o marido.
Procure saber sobre sua opinião a respeito de amanhã mesmo, se possível, ir ficar em nossa casa.
—Farei isso -— concordou o filho.
Logo depois, ao entrar no quarto onde Rosa Maria estava, Robert ficou observando-a a distância, percebendo que ela se encontrava acordada.
Aproximando-se vagarosamente para não assustá-la, provocou suaves barulhos que lhe chamassem a atenção, denunciando sua presença.
—Tudo bem, senhora?
—Sim, senhor Robert —- respondeu exprimindo em sua aparência um abatimento sem igual.
Seu rosto não havia se queimado, mesmo assim Rosa Maria parecia ter envelhecido alguns anos naqueles poucos dias.
— Estava dormindo tão tranquilamente há pouco, que chegava a esboçar um sorriso -— comentou o médico.
A face generosa da jovem senhora exibiu alegria.
Depois ela perguntou com voz branda:
— E o senhor, como está?
Robert olhou para o antebraço e as costas das mãos que possuíam a pele já um pouco cicatrizada, mas muito retorcida, e respondeu:
—Óptimo. Posso dizer que já melhorei.
—Ainda está recente, senhor.
Deve doer muito.
—Não. O pior já passou.
—Senhor Robert -— mencionou ela com voz enfraquecida— - serei eternamente grata pelo seu heroísmo...
Interrompendo-a, ele afirmou:
_ Por favor, senhora, não me agradeça.
Cumpri meu dever...
_ Senhor! Senhor Robert! -— exclamou ela, atraindo-lhe a atenção. —
Permita-me agradecer, é o mínimo que posso fazer, por enquanto.
Arriscou sua vida... feriu-se com um dos piores acidentes.
Dificilmente alguém faria isso.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 03, 2017 11:46 am

Quero que Deus o abençoe muito.
— Obrigado, senhora.
Mas, se não a magoo, gostaria que esquecêssemos disso.
A propósito, seria interessante poder sair da clínica, não acha?
Rosa Maria expressou um sorriso fraco, depois argumentou:
— Creio que minha casa não exista mais.
Teria que ver com minha cunhada a possibilidade de oferecer-me hospedagem até meu marido voltar, e...
— Por favor, senhora.
Conversando com meu pai, chegamos à conclusão de que seria um prazer tê-la, juntamente com Margarida, como hóspedes em nossa casa.
Principalmente porque necessitará de constantes observações médicas.
Não posso crer que o senhor Gonzales se oponha.
— Alegra-me muito, senhor Robert, saber que posso sair daqui, mas temo ser um incómodo.
Não quero lhes causar nenhuma preocupação.
Sei que darei trabalho, estou muito dependente.
— Não dará trabalho algum, senhora.
Nossa casa é ampla e temos empregados para cuidar da senhora.
São pessoas de nossa inteira confiança e temos a certeza de que vão lhe dispensar cuidados muito generosos.
— Eu acredito, senhor Robert.
Minha enteada tem me colocado a par da atenção que vem recebendo de todos.
— Então, senhora; pense no assunto.
Não quero influenciá-la mas creio que, na casa de sua cunhada, os cuidados para com a senhora podem ser prejudicados pela... vamos dizer, atenção ou boa vontade -— completou ele timidamente.
Acredito que a senhora Dolores não possui empregados podendo estafar-se com a tarefa.
Além do que, estando em nossa casa, será verdadeiramente observada por olhos clínicos.
Pense nisso!
Ela parou por alguns segundos, depois perguntou:
— Senhor Robert, meu marido ainda não retornou?
O médico ficou pensativo e não sabia decidir o que deveria dizer.
Por fim, falou:
— Não o vi senhora.
Ele não esteve aqui na clínica.
Eu não tenho percorrido o centro da cidade nos últimos dias a não ser para o trajecto de casa.
— É estranho.
— O quê?
— O senhor Gonzales demorar tanto.
Bem, deixe estar, isso já ocorreu antes.
O doutor David Russel pediu a todos que não comentassem com Rosa Maria sobre seus momentos antes ou durante o incêndio, mas a curiosidade de Robert o assolava e ele não se conteve.
— Senhora, vejo que até agora não comentou sobre o ocorrido.
Seus olhos marejaram lágrimas que, suavemente, rolavam na face pálida.
— Desculpe-me, por favor.
Não quis magoá-la relembrando momentos tão dolorosos.
Perdoe-me, senhora?
Rosa Maria ficou em silêncio e, por fim, relatou com a voz rouca e embargada:
— Não consigo lembrar nada, senhor Robert.
Como já disse ao senhor seu pai, tudo fica confuso...
Quando penso no ocorrido, não consigo deter o choro.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 03, 2017 11:46 am

—Acalme-se. Não vamos mais falar no assunto.
Fique tranquila.
Mesmo com o pedido do médico, ela insistiu:
—Recordo-me de estar na sala... lendo...
—Não estava em seu quarto?
—Não senhor. Eu estava no divã, em minha sala, lendo, como costumo fazer -— dizia ela entre o choro.
—Não sabe dizer como subiu as escadas e foi ao seu quarto?
Se alguma empregada a ajudou, ou coisa assim?
— Absolutamente nada... -— confirmou ela.
Com piedade, o médico amigo aconselhou:
— Procure relaxar, senhora.
Não se preocupe. Já passou.
Vou pedir à enfermeira que permaneça aqui com a senhora.
No momento preciso ir, mas estarei à disposição se precisar.
— Senhor?...
— Sim! -— tornou ele atencioso.
— Não consigo sentir meus pés. É normal?
O médico ficou preocupado e observou os membros inferiores muito deformados pelas queimaduras.
— Bem, senhora, as lesões são recentes e a insensibilidade é comum em queimaduras.
Com alguns dias poderemos diagnosticar melhor.
— Obrigada, doutor. Por tudo...
— Não precisa me chamar de doutor nem de senhor.
Gostaria de que se sentisse à vontade, se isso lhe for agradável.
Ela sorriu e não disse nada.
Logo após a retirada de Robert, a enfermeira foi fazer companhia à Rosa Maria conforme o pedido do médico.
***
Na manhã seguinte, o senhor Gonzales chegou à clínica logo após o doutor David Russel.
— Bom dia, doutor! -— expressou-se o pai de Margarida com firmeza.
— Bom dia, senhor Gonzales.
Eu estava mesmo pensando no senhor.
Como passou de ontem até agora?
— Bem, estou melhor -— respondeu ele mais flexível.
— Eu não informei à sua esposa que o senhor estava na cidade.
— Como não?!
— Senhor Gonzales -— começou o doutor David Russel a relatar com a autoridade médica que lhe cabia —- sua esposa sofreu um sério acidente como já relatei.
Correu sério risco de morte e ainda temo pela circulação comprometida nos membros inferiores.
Caso não volte ao normal, receio que teremos de operá-la.
— Quero adiantar ao doutor que não tenho como pagar.
Ontem mesmo fui até minha casa e procurei meu cofre naqueles escombros, por horas, sem encontrá-lo.
Fui roubado! Não tenho nenhuma reserva disponível.
— Não estou cobrando, senhor Gonzales.
Jamais faria isso, principalmente nesse caso.
— Eu vim aqui para falar com Rosa Maria e perguntar se ela sabe de algo sobre meu dinheiro.
— É justamente isso que gostaria de poupar à nossa paciente.
É importante para sua recuperação o estado emocional de alguém que se feriu.
Sua esposa sofreu muito, ela precisa ser preservada de emoções fortes.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 03, 2017 11:46 am

O senhor poderá ir vê-la, mas gostaria de que se mantivesse muito, muito calmo.
O senhor entende?
— Entendo sim, senhor.
Mas tenho tantas perguntas para fazer a ela que não sei se vou aguentar ficar calado.
Robert que até então ouvia tudo em silêncio, interferiu ponderadamente:
— Senhor Gonzales, bom dia!
— Oh! Perdoe-me, doutor Robert.
Eu estou tão eufórico que nem percebi o senhor.
Está melhor? Soube que se feriu para salvar Rosa.
— Estou bem, sim, obrigado.
Mas, se me permite aconselhar: o pior já aconteceu.
Sua esposa nos conta que não se lembra de nada.
Ela só sabe dizer que estava em sua sala apreciando uma leitura...
— Deve ser sim!
Ela vive enterrada nesses livros Espíritas.
Tomara que não tenha sobrado nenhum sem queimar, porque não vou comprar outros!
— Certo, senhor -— concordou Robert tolerante.
Mas como ia dizendo, a senhora Rosa Maria não se lembra de nada.
O choque que sofreu com os ferimentos deve ter apagado de sua memória os últimos acontecimentos antes do incêndio.
Ela nem sabe dizer como foi para o seu quarto, uma vez que diz ter estado na sala.
Porém eu a encontrei no andar acima.
Se deixá-la nervosa, preocupada, pode piorar o seu estado, o senhor entende?
— Nervoso e preocupado estou eu que nem tenho para onde ir e não possuo reservas imediatas.
Terei de ir para a Espanha ver o que posso fazer para conseguir provisões com brevidade.
Mas antes, preciso falar com Rosa Maria.
— A propósito, senhor Gonzales, tendo em vista que sua irmã não dispõe de grandes acomodações e criadagem, gostaria de lhe pedir a permissão, e também convidá-lo, para transferir-se, juntamente com sua esposa, para nossa casa.
Margarida já está lá e a senhora Rosa Maria será muito bem acolhida.
Temos várias criadas, como já lhe disse, de muita confiança.
Será um prazer recebê-lo também -— convidou o doutor David Russel com exímia educação.
— Mas... na sua casa, doutor?
— Sim, claro.
Ficará mais fácil para que ela receba atendimento médico.
Será bem servida.
Além disso, evitará trabalho para sua irmã, pois sua senhora ficará muito dependente.
— Por que, ela não anda?
Não vai andar, doutor?
— A musculatura inferior das pernas ficou comprometida.
Saberemos somente com o passar dos dias.
Agora ela nem pode tentar ficar em pé.
Pela primeira vez, o senhor Gonzales se deu conta do estado de Rosa Maria.
Inquieto ele pediu:
— Posso vê-la?
— Acompanhe-me -— pediu o doutor David Russel enquanto Robert ficava apreensivo.
Ao entrarem na sala onde Rosa Maria se recuperava, o senhor Gonzales assustou-se já com a tenda de lençóis que armaram para evitar contacto com o corpo.
Rosa Maria deitava-se sobre a lateral do corpo que não havia se ferido e mantinha o peito agasalhado com cobertas.
Uma lareira, com fogo brando, era mantida acesa para aquecer o quarto, pois não podiam cobri-la com nada por sobre o corpo ferido, mas ela precisava ser aquecida de alguma forma.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 03, 2017 11:47 am

Henry, que estava sentado em uma poltrona estudando um livro, surpreendeu-se com a entrada do pai de Margarida e pôs-se em pé.
Rosa abriu lentamente os olhos cansados que verteram lágrimas de preocupação.
—O que é isso?! -— exclamou o marido assustado com tantos cuidados.
—Essa tenda que o senhor vê, serve de protecção para os ferimentos.
Não se pode arriscar uma infecção nesse caso -— explicou o médico experiente.
—Como tem passado, senhor Gonzales? -— cumprimentou Henry um tanto apreensivo.
—Não posso dizer que estou bem, meu filho.
Virando-se para sua esposa, sem rodeios, perguntou:
—O que aconteceu, Rosa Maria?
Um choro brando a dominou, enquanto ela respondia:
_ Não sei lhe dizer, senhor Gonzales.
— Como não sabe?! -— ressaltou o marido alterado.
Os dois irmãos ficaram atentos, enquanto o doutor David, cauteloso, alertou:
—Calma, senhor Gonzales.
Tudo vai se esclarecer. Mas não agora.
Tenha paciência.
—Doutor, não posso ter paciência!
Como essa mulher deixou acontecer isso?!
Voltando-se para a esposa, insistiu:
— Rosa, procurei por meu cofre naqueles escombros e não o encontrei.
O que você tem para me dizer?
Tímida, a pobre mulher pendeu com a cabeça negativamente enquanto, com a mão que não havia se queimado, apertava a coberta contra o próprio peito, demonstrando medo e coacção.
— Vamos, Rosa! -— gritou o esposo rude e enfurecido.
Diga alguma coisa!!!
Nesse momento, o senhor Gonzales segurou a mão de Rosa Maria com força, agitando-a.
Mas não por muito tempo, os doutores David e Robert o seguraram com firmeza, impedindo-o de agredi-la com tal gesto.
— Soltem-me! Larguem-me! -— gritou ele no momento em que era levado para fora do quarto.
Rosa Maria caiu em choro compulsivo e Henry ficou tentando acalmá-la.
— Je serais dü mourir!... — "Eu deveria ter morrido!..."
Lamentou a mulher infeliz em idioma francês, com desilusão e medo. Henry não entendeu, mas sentiu sua queixa triste, traduzindo os sentimentos.
Fora do quarto, Robert se impôs contra o senhor Gonzales com veemência.
O senhor deve se conter ou eu chamo a polícia.
Poderá tratar sua esposa como quiser, mas longe de nossas vistas e quando ela não estiver mais sob a nossa responsabilidade, senhor Gonzales!
O que está fazendo é crime!
O marido, antes imponente, agora se acovardou.
Abaixou a tonalidade da voz e justificou:
— Perdi o juízo.
O pai de Robert, muito ponderado, alertou:
— Vamos nos acalmar, estamos todos nervosos devido à tragédia.
Com agitação não poderemos resolver nada.
Senhor Gonzales, não se controlando, terei que restringir sua visita à senhora Rosa Maria.
— Eu não sei o que fazer, nem por onde começar! -— alegou Gonzales, perturbado.
— Agredindo sua esposa não é um bom começo -— avisou Robert sem controlar os sentimentos.
— Filho, por favor -— recriminou seu pai.
Robert, insistente, prosseguiu:
— Senhor Gonzales, já que não sabe o que fazer nem como irá reconstruir sua vida, sua casa, permita-nos levar sua senhora para nossa residência.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 03, 2017 11:47 am

Margarida também ficará lá e, quando quiser, poderá visitá-las.
Até que se estabilize novamente.
Assim que isso ocorrer, sua esposa estará recuperada.
No momento ela será mais uma preocupação, o senhor não concorda?
— Vou levá-la para a casa de minha irmã.
Lá elas se viram.
— Procure compreender, senhor Gonzales -— insistiu Robert.
Sua irmã não tem prática ou condições para cuidar de uma doente no estado de sua esposa.
Um enfermo assim oferece muito trabalho, sem contar que a casa ficará pequena para todos vocês.
Podemos levar sua senhora para nossa residência, temos espaço e excelentes acomodações.
Estaremos sempre presentes para quaisquer emergências e sua filha lhe fará companhia.
Até onde posso ver, a senhorita Margarida e a madrasta são muito amigas.
Robert, apesar da fala firme, parecia se desfigurar.
Seu pai percebeu, mas nada comentou.
Enquanto que o esposo irritado se manifestava:
— Não quero dar trabalho ou preocupação para vocês.
Além disso, não concordo com Margarida morar na casa do moço com quem tem compromisso.
Transparecendo sua calma, o pai de Henry se manifestou:
— Não teremos trabalho algum, e vai nos criar preocupações se não a tivermos sob vigilância para sabermos de seu estado.
Quanto a meu filho Henry, como é de seu interesse, devo relatar-lhe que ele tem ficado aqui todas as noites, desde o incêndio, a fim de oferecer cuidados à sua esposa e, pela manhã, quando Margarida chega para ficar com a madrasta, Henry retorna para casa, pois precisa se recompor para a próxima noite em claro.
Além disso, na semana que vem, meu filho retorna a Oxford porque acaba o período de recesso escolar.
Contudo -— esclareceu o pai depois de breve pausa —- ontem estive conversando com Henry e aconselhei meu filho a tomar Margarida como noiva e providenciar seu casamento quando retornar formado de Oxford.
Perdoe-me fazer-lhe esse pedido nessas condições, mas, não tivemos ocasião melhor.
O senhor permite?
— Estou atordoado, não sei o que dizer.
Gosto muito do Henry,..
Após poucos segundos, perguntou:
— Quando seu filho se forma?
—No próximo inverno.
—Já?!
— Sim. Eu sei que falta pouco.
Mas, se o senhor quiser, poderemos esperar o verão.
Creio que será tempo suficiente.
Enquanto isso, sua filha receberá os mais finos e gentis cuidados em minha casa, junto com sua esposa, até que o senhor se reorganize.
— Isso não me agrada.
Mas tenho que admitir, doutor, não me resta alternativa melhor.
— Está decidindo pelo melhor, senhor Gonzales.
Acredite, não se preocupe.
Quanto às comemorações desses acontecimentos, pedirei ao senhor que me deixe prestigiar os noivos.
Faço questão de tomar conta de tudo. Espero que entenda.
Devo a Henry o que proporcionei a Robert.
— Como o senhor quiser, doutor.
Mais tarde, posso vir aqui para ver minha filha?
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 03, 2017 11:47 am

— Teremos prazer em recebê-lo.
E, com certeza, a jovem ficará feliz em revê-lo.
— Eu duvido -— retrucou o homem.
Mesmo assim, virei.
Com a saída do senhor Gonzales, o doutor David Russel virou-se para Robert que se transformava, desfigurando-se na sua frente.
Preocupado perguntou:
— Você está bem? Está pálido!
Robert ergueu uma das mangas de seu agasalho e exibiu a seu pai seus ferimentos de queimaduras dilacerados.
— O que foi isso, Robert?!!! -— assustou-se o médico impressionado.
— Estou até me sentindo mal por tanta dor... -— confessou Robert relaxando o semblante fechando os olhos como se fosse desmaiar.
— Ajude-me, pai...
— Deite-se aqui, depressa! -— pediu seu pai, levando-o para outra sala e colocando-o sobre uma maca.
— Como foi isso, filho?
— Quando detivemos o senhor Gonzales para que não agredisse a esposa, ele torceu meu braço e esfolou toda a pele parcialmente cicatrizada e fina.
O doutor providenciou os curativos para o filho, depois mandou-o para casa junto com Henry.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 03, 2017 11:47 am

8 - Resignação

Rosa Maria foi levada para a residência da família Russel onde a receberam com muita generosidade.
Em poucos dias, ela já havia acostumado com a criadagem que lhe proporcionava muita atenção.
— Não consigo andar, Margarida -— comentou a madrasta com melancolia.
Já tentei tantas vezes...
— Acalme-se, Rosa. Faz pouco tempo.
— Nem tanto.
Não consigo apoiar nem estender as pernas.
Meus músculos se atrofiaram, eles mirraram.
— Não diga isso.
Poucas batidas na porta fez Margarida permitir:
— Entre!
Robert as cumprimentou como sempre, com educação e apresso, depois perguntou:
— Como se sentem?
Já se acostumaram com as novas instalações?
Sim, claro! -— afirmou Rosa Maria.
Tudo é muito confortante.
Quanto ao tratamento que estamos recebendo... nem tenho palavras que expresse minha gratidão.
—Robert —- interrompeu Margarida - Rosa está preocupada, ela sente que suas pernas atrofiaram!
—Perdoe-me, Margarida, não é bem assim.
Posso explicar:
sinto dificuldade com os pés.
Perdi o movimento com eles junto aos tornozelos e a perna direita, na articulação do joelho.
Sabe como é Ro... -— a senhora se deteve quando ia pronunciando o nome do médico sem um título de respeito.
De imediato, justificou: —
Desculpe-me, senhor, é que Margarida... às vezes me deixa atordoada.
Creio que saiba do que estou falando, senhor Robert, tenho dificuldade com a extensão e com o apoio.
—Por favor, chame-me de Robert -— propôs o médico, esboçando suave sorriso.
—Então a chame de Rosa Maria! -— sugeriu Margarida espirituosa.
Rosa Maria enrubesceu e Robert, ainda sorrindo, aceitou:
— Pois bem, de hoje em diante, Rosa, passe a me chamar de Robert.
A jovem senhora concordou alegre e retribuiu animada:
—Está certo, Robert.
Como ia dizendo, é uma sensação estranha de não poder mexê-los, entende?
—O que ocorreu foi o seguinte:
As chamas queimaram os nervos e os músculos, fazendo-os encolher.
Essa redução diminui a flexão e o estiramento.
—Não poderei andar mais? -— indagou ela, com muita tristeza no olhar.
—Não sei dizer, Rosa -— confessou o médico.
Daqui alguns dias irei acompanhá-la com certos movimentos e exercícios para facilitar a articulação, talvez isso ajude.
Mas, por ora, o que posso fazer é providenciar um transporte.
— Transporte?! -— perguntou Margarida, curiosa.
— Sim. Uma cadeira de rodas.
Rosa precisa sair desse quarto.
Temos um grande e belo jardim, ela precisa se distrair.
Voltando-se para a jovem senhora perguntou:
- Já conhece o pequeno lago?
— Não.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 03, 2017 11:48 am

_ Margarida o conhece bem.
Iremos visitá-lo, tenho certeza de que será o local predilecto para seus passeios.
Enquanto todos os cuidados eram oferecidos a Rosa Maria e Margarida, Gonzales instalou-se na casa de Nancy e Peter.
O jovem Peter dificilmente trocava palavras com seu pai.
Porém, à medida que conversava com Nancy, o rapaz prestava muita atenção em todos os detalhes da conversa.
— Então Rosa Maria não morreu? -— interessava-se Nancy ao conversar com Gonzales.
— Não. Rosa queimou-se toda, mas não morreu.
O doutor Robert a salvou.
Agora ela e a Margarida estão instaladas na casa do médico.
— E você, não pode ir lá?
— Posso sim. Como já fui.
Só que sou orgulhoso para aceitar favores, principalmente para mim mesmo.
Não poderia morar lá.
E ficar na casa da minha irmã é um inferno.
Na próxima semana, volto para a Espanha.
Verei o que resolvo depois de tanto prejuízo.
Todo meu dinheiro ficava naquele cofre.
— Tem certeza que procurou direito?
— Como não?! -— retrucou Gonzales.
Se Rosa Maria tivesse juízo, teria mandado Margarida procurá-lo logo cedo, após o incêndio.
— Ora Gonzales, ela estava machucada!
Eu até pensei que houvesse morrido.
Gonzales encontrava-se agitado, além do normal.
— Você está nervoso, homem.
O que está acontece?
— Depois de ver toda essa desgraça, você ainda pergunta o que está acontecendo?!
Nancy calou-se, procurando outros afazeres.
Peter, que em outro cómodo ouvia toda a conversa, começou a ficar preocupado pelo facto de Rosa Maria tê-lo visto quando ele a agrediu antes de levá-la para o quarto e incendiar a casa.
— "Eu não sabia que Rosa estava viva!" -— pensava o filho de Gonzales.
"Quando eu perguntei, no dia seguinte ao incêndio se houve vítimas, disseram que foram duas mulheres!
Pensei que Rosa... Maldita!"
Irritado e temeroso, Peter começou a pensar em um jeito de resolver a situação.
— "Aquela mulher não pode falar que me viu!" -— continuava Peter a pensar -— "Ela pode me reconhecer.
Tenho que acabar com aquela infeliz de uma vez!"
Descontrolado por sua fraqueza e falta de Moral, Peter aceitava receber as influências de Flora, um espírito perturbado e sem harmonia pelo desejo de vingança.
O rapaz se determinou a livrar da consciência a preocupação de ser reconhecido por Rosa Maria, fosse como fosse.
***
Com o passar dos dias, Robert fazia questão de levar Rosa Maria para passear a fim de animá-la, pois percebeu que depois de algumas visitas do senhor Gonzales, ela se entristecera perdendo, cada vez mais, o brilho de sua alegria.
A jovem senhora não saía do quarto, principalmente por estar tão dependente.
— Não posso!
Advertia a jovem senhora.
Robert, após muita insistência, não a convenceu a sair do quarto com sua ajuda.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 03, 2017 11:48 am

— Você não ousaria, Robert!!! -— alertou ela, ao vê-lo inclinar-se para pegá-la nos braços.
Não pode fazer isso!
O gentil cavalheiro pouco se importou com as queixas.
Tomou-a em seus braços e, sem dar satisfações, estampando um leve sorriso no rosto, desceu as escadas de sua residência com triunfo, carregando-a.
Elizabeth, a governanta e o doutor David Russel estavam na sala de estar e, ao ver seu filho no patamar da escada com Rosa Maria nos braços, descendo em seguida, nada comentaram apesar de estranhar a cena.
Ainda sustentando-a, Robert cumprimentou seu pai e a governanta com naturalidade.
— Bom dia, meu pai! -— voltando-se para a mulher tornou:
— Bom dia, Elizabeth!
— Bom dia, Robert! -— retribuiu o pai olhando por sobre os óculos.
Mesmo achando incomum o comportamento de seu filho, procurou manter-se indiferente e perguntou:
— Vai sair, filho?
Vi o coche parado à porta e...
— Sim! -— confirmou ele com satisfação.
Vou levar Rosa a um passeio.
Dispensei o boleeiro. Eu mesmo guio.
Voltando-se para Elizabeth, solicitou:
— Por gentileza, senhora, poderia pegar, no quarto de Rosa Maria, sua sombrinha e a bolsa?
—Certamente. -— afirmou a mulher indo à busca do pedido.
Envergonhada, Rosa Maria tentou dizer:
—Por favor, sinto-me...
— Há de sentir-se melhor, Rosa.
Daqui a pouco -— atalhou Robert com satisfação.
A jovem senhora segurava em seu pescoço, exibindo, sem motivo, um certo receio de cair.
Em seu rosto rubro, podia-se notar o quanto estava constrangida.
— Até breve, meu pai!
Despediu-se o médico de seu pai, saindo porta afora em direcção ao coche luxuoso e indo acomodar a jovem senhora naquela condução.
O doutor David Russel lia seu jornal sossegado e mostrou um sorriso animado, pendendo a cabeça suavemente, achando graça no que via.
Depois de entregar a Robert a sombrinha e a bolsa que lhe foram solicitadas, Elizabeth entrou e comentou com o patrão.
— Há anos não vejo o senhor Robert sorrindo assim... animado e alegre como nos últimos tempos.
— É verdade, Elizabeth, há tempos não o vejo feliz.
Já faz dias que insiste com a Rosa para que aceite sua ajuda a fim de sair daquele quarto e... nunca pensei que ele se encorajasse e chegasse a tanto! -— comentou o pai com singular expressão.
— O senhor está preocupado, não é?
— Sim, Elizabeth. Isso me preocupa um pouco.
Mas sei que meu filho é muito responsável, ele sabe o que está fazendo e recorrerá a mim quando estiver em dúvida.
Tenho certeza. Confio nele.
— Ele me parece tão feliz!
Retomou a juventude.
Sempre desejei que algo transformasse sua vida novamente para que tivesse o que merece... o que sempre mereceu: vida e alegria.
— Robert é um bom homem.
Sei que merece ser feliz e é isso o que me preocupa, Elizabeth.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 03, 2017 11:48 am

— Como assim, senhor David?
— Meu filho pedirá minha opinião para análise de sua conduta, porém tenho que admitir:
ele é muito determinado.
Preocupa-me quando descobrir o que o faz feliz e o que terá de fazer para manter essa felicidade definitivamente, entende?
— O senhor é contra uma união assim?
— Sou a favor da felicidade dele, Elizabeth.
— Eu entendo, senhor David.
Deus é grande, Ele dará a Robert o que ele merece e não teve a oportunidade de conseguir até hoje.
Só lamentarei se Rosa não puder andar mais.
Ambos merecem toda a felicidade... são criaturas tão...
Ah! Não sei... _ empolgou-se ela entoando a voz com doçura.
Seria um conto de fadas se o senhor Gonzales sumisse... e...
Ah! Ela é moça! Um casamento... filhos...
Elizabeth parecia sonhar na confissão feita sobre seus pensamentos, sem perceber.
Ao olhar para o doutor David, estranhando suas conclusões, fitava-a com expressão surpresa.
Ela calou-se imediatamente e, pedindo desculpas, retirou-se.
O passeio realizado foi deslumbrante.
Rosa esqueceu-se da vergonhosa situação e sempre sorria graciosamente ao depararem com curiosidades.
— Veja! Veja lá! -— alertava o cavalheiro animado.
— Não lhe disse que os automóveis iriam ganhar mais velocidade?!
— Ora! Ainda são mais lentos que os cavalos, que as carruagens!... -— observou ela.
— Ah! Eles serão aperfeiçoados, eu tenho certeza!
— Tem vontade de guiar um?
—Não imagina que já o tenha feito?!
Rosa surpreendeu-se, exclamando:
—Verdade?!
— Foi um percurso pequeno, mas eu consegui!
Quem sabe ainda não terei um!
— Não duvido, Robert! Não duvido.
Tomando novamente as rédeas e adiantando os cavalos, ele comentou, à medida que se afastavam da cidade, alongando o passeio.
— Acredito na modernização e no aperfeiçoamento de tudo, por essa razão nunca critico uma ideia nova.
Veja só: Benjamim Franklin, quando empinava uma pipa, num dia de tempestade, percebeu os efeitos eléctricos através da linha e concluiu que os relâmpagos resultavam da desarmonia eléctrica entre o solo e as nuvens.
Foi então que construiu o primeiro: Pára-raios.
Em 1752, quando apresentou seu relatório a respeito da experiência, todos o criticaram e riram muito dele e de suas conclusões.
A partir daí, em 1800, Alessandro Volta inventou a pilha eléctrica.
Em 1873, o cientista Zenobe Gramme, da Bélgica, provou que a electricidade poderia ser conduzida de um lugar para o outro através de cabos condutores aéreos.
E, há menos de dez anos, em 1879, um americano, Thomas Edson, inventou a lâmpada incandescente que temos hoje em nossas ruas principais e até em algumas residências, substituindo as tochas.
Ah! Lá na América mesmo, em Nova York, Thomas Edson construiu a primeira central de Energia Eléctrica com sistema de distribuição.
Entusiasmada, Rosa ressaltou sua experiência:
—Eu estava na "Opera de Paris", em 1880, quando a luz eléctrica foi utilizada pela primeira vez no palco de um teatro.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 03, 2017 11:48 am

Era uma peça de Shakespeare. Fiquei tão emocionada!
Não sei se pela peça ou pela iluminação que deu vida, muita vida ao espectáculo!
Toda cenografia sofreu profunda modificação.
A iluminação eléctrica passou a imprimir ao cenário mais beleza e uma dinâmica nas mensagens visuais que faltavam aos telões pintados.
Nem a luz a gás fornecia tanta expressão.
—Teria que ser Paris, "a cidade Luz", a adoptar iluminação com lâmpadas incandescentes!
Já foi a um teatro com iluminação de tochas e velas ainda existentes em pequenas cidades?
—Sim, Robert, já.
E com candeeiros a óleo, com manga de vidro também!
—Você tem muita cultura, Rosa!
Isso me agrada.
Se gosta de teatro, marcaremos um dia para irmos assistir a uma bela peça.
Sempre as temos aqui em Londres.
O olhar da jovem senhora, que até então brilhava encantado pela conversa agradável, pareceu perder a animação enquanto Robert planeava o passeio.
Porém, muito atento, o cavalheiro percebeu a tristeza no silêncio de sua acompanhante.
Preocupado, procurou um lugar adequado, parando o coche e perguntou:
_ O que foi Rosa?
Sente alguma coisa?
O que aconteceu?
Impossibilitada de deter as lágrimas, ela foi sincera em sua confissão:
—Como posso divertir-me?
Ir a festas, dançar ou simplesmente assistir a uma peça teatral?
Não consigo mais andar!
—Não pense assim, isso pode ser temporário! -— disse ele, virando-se para trás e entregando-lhe um lenço.
—Como meu amigo e como o meu médico, por favor, diga-me a verdade:
voltarei a andar novamente?
Nesse segundo, Robert sentiu toda a responsabilidade de dar ou não esperanças a alguém com sua resposta.
Ainda voltado para trás, pois sentara-se no banco dianteiro do coche, olhou-a fixamente nos olhos, sem se expressar.
Ele não possuía palavras.
Um tanto melancólica, mas sem drama, Rosa Maria insistiu:
— Por favor, meu amigo, se é que posso lhe chamar assim.
Responda-me a verdade -— pediu ela com muita meiguice:
— vou andar novamente?
Emocionado, o médico e amigo, declarou:
— Talvez...
Detendo-se em seguida, ele tomou suas mãos delicadas, por sobre o banco, beijou-as com respeito, dizendo:
—Perdoe-me, Rosa...
—Não vou andar mais, não é?
Insistiu ela retirando suas mãos dentre as dele com delicadeza.
Robert ergueu o corpo, espraiou o olhar pela paisagem, suspirou fundo, encarou-a novamente e afirmou:
— Talvez não. Desculpe-me.
Faltou-me coragem para lhe dizer isso antes.
Rosa Maria começou a chorar de tristeza e Robert, saindo do banco onde se acomodava, sentou-se a seu lado e contemplou-a com imensa piedade.
Sentindo as lágrimas marejarem também em seus olhos, não sabia o que fazer.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 03, 2017 11:49 am

Depois de algum tempo, a jovem senhora se recompôs e confessou sua preocupação:
— Meu medo, minha tristeza, não é somente pelo facto de ficar paralítica.
— Como assim? O que quer dizer?
— Estarei condenada à prisão de uma casa quando o senhor Gonzales reconstruir a vida.
Margarida vai se casar... não poderei mais sair, ficarei dependente... só... abandonada.
Um choro pesaroso a dominou e Robert, comovido, não resistiu, reagiu contra o comportamento que sua educação exigia junto aos costumes da época e acabou por abraçar Rosa Maria.
Recostando-a em si, o médico não deteve as lágrimas e chorou também, sem que ela percebesse.
Passados aqueles minutos de fortes emoções, mesmo sentindo seu coração apertar, ele procurou animá-la.
— Eu posso estar enganado.
Veja só, há pessoas que reagem melhor do que outras dentro de quadros acidentais semelhantes.
A jovem senhora não disse nada nem chorou mais.
Porém podia se perceber seu medo e sua dor.
— Rosa?! -— chamou Robert com generosidade.
Ela o encarou com o olhar ainda umedecido ouvindo sua pergunta:
— Não quer mais ir morar com Gonzales?
As lágrimas insistentes brotaram nos olhos daquela mulher, e ele tornou:
— Responda-me. Quer voltar a morar com seu marido?
O medo a fez sussurrar:
-Não...
Depois de alguns segundos, ela relatou:
— Se eu pudesse, juro a você, após o casamento de Margarida, eu iria sumir.
Sempre planeei isso.
Desculpe minha sinceridade, mas não podia suportar mais...
Agora, assim como estou... ele vai me confinar a...
Rosa chorou novamente e Robert, muito preocupado, prometeu-lhe amparo.
_Não fique assim. Vou ajudá-la.
_Não pode! Não há nada que você ou alguém possa fazer.
— Confia em mim, minha amiga?
— Eu confio mas...
Ele sorriu e avisou:
— Já tenho duas ideias.
E se uma não der certo, a outra, com certeza, dará!
— O que tem em mente?
— Primeiro, podemos induzir Gonzales a observar suas limitações e dependência.
Meu pai nos ajudará.
— E daí?
— Não estaremos mentindo, é a verdade.
Depois, examinando o trabalho e a preocupação com você, Gonzales não ficará animado.
Será a hora de Margarida agir.
— Como?
— Pedindo para tomar conta de você.
Implorando, se preciso for, ao pai para que a deixe cuidar da amiga que sempre lhe deu bons tratos.
Será a oportunidade dela retribuir tudo o que recebeu de você.
Com o casamento, Margarida e Henry vão morar na mansão, obviamente, você fará parte do nosso convívio.
Procurando brincar com Rosa, ele alegou:
— Só espero que Margarida tenha realmente boas referências a seu respeito!
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 04, 2017 10:36 am

A jovem senhora sorriu e depois perguntou:
— E se não der certo?
E se Gonzales não me deixar morar com Margarida?
Talvez até Henry não queira.
— Eu duvido que meu irmão não a queira connosco.
Mas quanto a Gonzales, se ele não quiser, usarei meu segundo plano.
— Qual? -— insistiu ela.
— Um escândalo na sociedade londrina! -— disse ele eufórico e com ironia, exibindo pela primeira vez um sorriso espontâneo.
— Como assim, Robert?
Dissimulando, ele deu novo rumo a conversa:
— A propósito, amanhã sua condução pela casa estará à disposição!
Isso lhe dará mais mobilidade.
— Robert, não desvie o assunto.
Ele sorriu animado e falou:
— Confie em mim! Certo?
Rosa se recompôs.
Ele tomou novamente seu lugar como guia no coche e eles seguiram com o passeio retornando ao centro de Londres.
O cavalheiro deu início a outros assuntos a fim de distrair sua acompanhante.
Na praça principal, próximo à Ponte de Londres, estacionou o coche, desceu e falou:
— Aguarde-me aqui. Volto logo.
Ao retornar, como um parceiro que se esforça fielmente a buscar o ânimo do amigo, ele a presenteou com um lindo ramalhete de flores.
— Robert!... -— exclamou Rosa Maria maravilhada, sem mais palavras.
— Só quero um sorriso para cada flor! -— pediu o educado cavalheiro, querendo vê-la alegre.
Rosa nunca havia ganhado flores.
Ela sentia-se muito feliz.
Recuperando o ânimo, seguiram de volta à mansão da família Russel, afastando-se do centro da cidade.
Ao estacionar frente à porta principal, Margarida os recebeu com largo sorriso, exclamando:
_ Quando Elizabeth me contou, não acreditei!
Henry, que acabava de chegar de Oxford, contribuiu para Rosa Maria perder a encabulação quanto a sua dependência, o mais rápido possível, pois sabia que teria de acostumar-se com o auxílio de todos.
— Com licença, senhora!
Pediu o jovem, abrindo a porta do coche.
Pegou Rosa Maria em seu colo e levou-a para dentro da residência, acomodando-a na sala.
Ainda muito tímida, era difícil acostumar-se com aqueles cuidados.
Principalmente para ela, mulher sempre independente e prestativa com todos.
Mas haveria de ser assim, pois para cada local que precisasse ir, teria de receber ajuda.
Naquele mesmo dia, Robert foi ter com seu pai, no escritório da mansão, relatando-lhe seus planos.
— E uma boa ideia, filho.
Só não sei se aquele homem vai concordar.
Ele, como já disse, é imprevisível!
— Veja, pai, o senhor mesmo concluiu que Gonzales é materialista.
Uma pessoa assim, não quer ter preocupação ou responsabilidade que o prenda.
Lembra-se de que reparou que ele não pensou, por um instante, em sua esposa, dando mais atenção ao dinheiro do cofre e aos prejuízos do incêndio?
Gonzales não vai querer ficar com a mulher nessas condições, principalmente quando Margarida pedir para tomar conta dela a fim de retribuir-lhe todos os cuidados.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 04, 2017 10:36 am

— Tem certeza, Robert?
Muito confiante, o filho confirmou:
— Claro que sim, meu pai!
Imediatamente, andando pelo escritório e fechando a porta para mais privacidade, de súbito, o pai perguntou:
— E você, filho?
A indagação surpreendeu Robert, que considerou:
— Como? Eu não entendi, pai!
— Tornou ele menos ansioso e, tentando esclarecer, explicou:
— Espero que o senhor não pense que minha dedicação e cuidados para com essa senhora casada, esteja ocorrendo com interesses outros.
Não haveria motivos nem cabimento eu... eu..
O filho mais velho do doutor David Russel não sabia que termo usar em sua defesa.
Ponderado, o pai declarou:
— Robert, meu filho, sei que você é um homem e não necessita mais de minhas orientações, porém isso não me impede de observar os acontecimentos.
Filho, desde quando seu irmão Henry iniciou compromisso com a filha de Gonzales, percebi seu interesse em acompanhá-lo, procurando não marcar pacientes para os dias do namoro de seu irmão principalmente no horário do compromisso, só para fazer presença, junto com ele, na residência dos Gonzales.
—Pai!...
—Permita-me terminar, Robert.
Não pude deixar de notar quão entusiasmado você sempre relatava a educação, a inteligência, a instrução e o interesse da esposa de Gonzales pelos assuntos que você conhece, aprecia ou domina.
Ficando ainda mais maravilhado por ela estar sempre animada em ouvi-lo.
O filho do médico tomou postura, quase arrogante, e com o semblante sisudo informou a seu pai:
—Meu pai, não posso admitir que o senhor me acuse de ter invadido um lar a fim de conquistar uma senhora compromissada!
—Robert, Rosa Maria não representa uma senhora.
Você nunca a viu assim.
Ela tem pouco mais idade que seu irmão.
Ouça-me, filho, eu tenho certeza de que não foi sua intenção aproximar-se sentimentalmente dela.
Porém tem de admitir, hoje, que não a vê mais como a senhora Gonzales.
O filho reagiu sério, mas sem agressão, atalhando-o.
_ Sou um homem responsável, meu pai!
Sempre forcei-me às maiores expressões da fina educação que recebi e vivenciei nesta casa, principalmente com o senhor.
Jamais, em nenhum instante, nutri quaisquer sentimentos ou desejos por Rosa Maria que não fosse o da mais pura e sincera amizade e consideração.
Não posso acreditar que o senhor esteja me julgando como um cafajeste.
Eu nunca lhe dei nenhum motivo para isso.
Hoje, o que sinto por ela é uma profunda piedade que, com certeza, creio que o senhor também experimenta no mesmo grau e intensidade que eu.
Por isso, como o senhor, eu também quero ajudá-la.
Meu pai, veja o estado lamentável que ela enfrenta hoje!
É uma pessoa tão nova e cheia de vida que está condenada a limitações, dependência total, além de uma série de complicações com a saúde que terá, a partir de agora, não só pela paralisia e imobilidade.
Como médicos, sabemos que existirão problemas renais porque a pele perde suas funções de transpiração com as queimaduras... não só isso, pai... haverá impedimentos...
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 04, 2017 10:37 am

O senhor viu como ela ficou!
Nem sei como sobreviveu!
Somente um crápula poderia pensar em envolver-se com uma pessoa tão sofrida como Rosa Maria a fim de desenvolver propósitos e desejos sentimentais induzindo-a a um relacionamento mais íntimo.
Creio que não preciso ser mais claro e penso que o senhor me entendeu.
A prova de que eu não quero e não vou me envolver com Rosa, o senhor terá, após o casamento de Henry, com a minha saída dessa casa.
Isso se dará para que nem o senhor nem qualquer outro tenha alguma dúvida quanto às minhas intenções.
Eu tenho condições, em todos os sentidos, de me manter muito bem em outro local.
Por essa razão abro mão de todo o conforto dessa casa para que ela possa ter os cuidados de que necessita e o carinho que merece ao lado de Margarida.
O pai ouvia com paciência, aguardando que Robert chegasse a uma pausa a fim de não cortar-lhe o desabafo.
Chegado o momento, o médico experiente ponderou:
— Já entendi, filho.
Eu o ouvi com calma e paciência.
Você poderia me oferecer um pouco de atenção?
Robert reclinou a cabeça concordando.
Permanecendo em silêncio, seu pai prosseguiu:
— Eu nunca considerei a possibilidade de ter um filho cafajeste! —- declarou o médico com autoridade e firmeza, mas sem perder a postura.
— Em nenhum momento acreditei que você estivesse se aproximando de Rosa com qualquer outra intenção que não fosse a de ajudá-la, principalmente.
Se aconteceu uma transformação em seus sentimentos, tenho certeza de que não houve planeamento de sua parte.
Além do mais, não vou aceitar que saia dessa casa para não restar dúvidas quanto a seu comportamento ou sua moral.
Robert, antes de mais nada, você é meu filho e nós temos uma família a preservar.
Faço empenho e admito que ela cresça, porém jamais poderei concordar com sua divisão por motivos como esse.
Se você quiser sair dessa casa devido à presença de Rosa Maria aqui, não poderei tolerar que ela fique connosco.
Serei muito firme quanto a isso, meu filho.
Rosa seguirá seu caminho com seu marido caso você queira nos deixar.
O silêncio se fez por alguns instantes.
Estarrecido, Robert não esperava essa decisão de seu pai.
Muito atento, continuou ouvindo, enquanto o patrono da casa prosseguia ponderado:
— Preste atenção, Robert: você é meu filho!
Se desejamos e podemos ajudar Rosa Maria, nós o faremos juntos.
Minha preocupação com você está muito longe de duvidar de seu carácter, de sua educação e de sua postura moral.
Eu, mais do que ninguém, acompanhei sua vida, suas dificuldades e suas decepções, as quais não foram poucas, meu filho.
Não acredito que você mereça sofrer mais.
Creio que já chega!
— O que o senhor quer dizer com isso, meu pai?
— Que em nenhum momento duvidei de você, mas quero fazer o possível de preservá-lo contra novas decepções.
Há tempos eu o vejo apaixonado pela personalidade maravilhosa de Rosa Maria.
— Pai...
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 04, 2017 10:37 am

Interpondo-se ligeiro, o doutor David prosseguiu:
— Deixe-me continuar.
Você já me interrompeu e eu o ouvi, por favor?
O filho calou-se, enquanto seu pai indicando uma cadeira, pediu:
— Sente-se aqui.
Robert aceitou e o médico continuou:
— Vou repetir: você apaixonou-se pela personalidade de Rosa Maria.
Sinceramente fiquei preocupado por ela ser uma mulher casada.
Mas depois que percebi o tipo de vida que o casal Gonzales experimentava, visto que ele só a ostentava como esposa no nome, pensei:
"Mesmo indo contra todos os meus princípios, eu o apoiaria totalmente caso esse matrimónio se desestabilizasse e você se empenhasse, se determinasse em ser feliz com Rosa, fosse como fosse."
— Pai!...
— Escute-me!
— Exigiu o pai mais veemente, depois prosseguiu: —
Quem não percebeu que Rosa Maria estava aguardando uma pequena e única possibilidade e estabilidade para abandonar o marido?
— Não pode pôr em dúvida a moral de Rosa, meu pai!
— Ora, Robert! Não me venha com conversa!
Não estou duvidando da moral dessa mulher, meu filho!
Acredito que ela já deveria tê-lo abandonado há muito tempo.
Rosa Maria não merece aquele homem... aquela vida!
Não sou cego!
Sou um homem experiente e já percebi tudo!
Rosa Maria suportou isso porque é dependente totalmente do marido e uma mulher com referências de abandonar o lar, sob qualquer pretexto, só encontrará apoio junto às... às... mulheres da vida.
— Pai!
— Não se iluda! É a realidade.
Eu já havia percebido que não iríamos receber em nossa casa somente a filha de Gonzales.
Enfrentaríamos o maior escândalo da sociedade londrina quando recebêssemos a madrasta da moça.
Por isso até planeei estabilizá-lo com um consultório em outro condado ou até no continente, a fim de que você e Rosa Maria pudessem ser felizes sem incómodo algum.
Robert estava surpreso e mantinha-se calado enquanto o pai prosseguia:
— Filho, a cada dia nesses últimos meses, tive que reformar muitos princípios morais que sempre fiz questão de preservar para chegar a essas conclusões.
E vou lhe confessar uma coisa:
minha consciência se tranquilizava cada vez que, no fim dessa história, em tudo que eu planeava, eu o via com Rosa, filhos e felicidade.
Mas o destino não foi fiel e traiu meus planos.
Por isso, hoje, preocupo-me com você.
— Meu pai, eu não estou apaixonado por Rosa Maria.
— Tem certeza, filho?
— Claro que tenho.
— Robert... Robert... -— dizia o pai, caminhando lentamente pela sala.
— Lamento vê-lo tão cego ou então mentindo para si mesmo.
Seu amor por Rosa vem se desenvolvendo aos poucos pelas compatibilidades, pelas afinidades e explodiu, incontrolável, no exacto instante que você entrou naquela casa totalmente em chamas e prestes a desabar, sem saber se ela ainda estaria viva e muito menos onde encontrá-la, ferindo-se, sem se incomodar, suportando a pior das dores, mesmo tendo condições de fugir, só para tirá-la dali, daquele inferno.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 04, 2017 10:37 am

Podemos dizer que você entrou no inferno para salvá-la.
Isso nós não fazemos se não tivermos amor.
Eu, por exemplo, só o compreendo porque faria o mesmo por sua mãe e por um de meus filhos.
Por essa razão posso afirmar que você a está amando sim.
O filho abaixou a cabeça e por alguns minutos o silêncio dominou o ambiente.
— Robert, você ainda vai continuar me contradizendo?
Ele não respondeu de imediato, mas a expectativa do doutor David Russel, que fixou o olhar nele, cobrou-lhe uma manifestação.
Suspirando profundamente, Robert perguntou humilde:
— Eu não medi as consequências nem me dei conta do que estava ocorrendo.
Creio que o senhor descobriu antes de mim.
O que eu faço, meu pai?
— Não sofra.
— Como? -— perguntou com a voz trémula, emocionado e triste.
— Conscientize-se de que, ficando ao lado de Rosa Maria, poderá amá-la, mas terá de respeitá-la como a uma irmã.
Não a induza a lamentações tristes porque agora ela não pode levar uma vida normal.
Rosa Maria já está com muitos problemas e sofrimento.
Não seja você a causa ou o motivo de mais um.
— Devo me afastar dela?
— Não. Trate-a como vem fazendo, mas sem dar-lhe esperanças.
Você consegue.
— O senhor acredita que ela sente algo por mim?
— Claro que sente, Robert!
O filho encarou seu pai ainda mais surpreso e preocupado.
— Não se assuste, Robert. É a realidade!
Só não percebe quem é cego.
— Eu gostaria que fosse diferente, meu pai -— confessou Robert, alinhando os cabelos com as mãos pelo nervosismo que experimentava.
— Eu também quereria que fosse diferente.
Mas tenho de encarar a realidade e evitarmos mais sofrimentos.
— Pai, como o senhor vê o estado de Rosa?
Qual seu parecer como médico?
Andando pela sala, pensou e por fim respondeu sincero:
— Deveria ser mais directo, Robert.
Eu sei o que você quer perguntar e sei que, como excelente profissional, já tem um parecer claro e vai coincidir com o meu.
Encarando o filho, ele relatou:
— Rosa sofreu queimaduras em diversas partes do corpo.
Foram muito intensas ao ponto de eu acreditar que devíamos operá-la a fim de amputar-lhe uma das pernas.
Você chegou a concordar comigo, mas os dias provaram não ser necessário mais sofrimento.
Essa atrofia dos membros inferiores, é permanente.
Reconhece também que sua saúde ficará sensível pela falta de mobilidade.
Nosso clima não ajuda e ela ainda não enfrentou o inverno rigoroso.
Como bem lembrou, terá problemas renais, gástricos, intestinais e respiratórios, tudo isso pela paralisia.
Bem, Robert, esse diagnóstico você já conhece.
Serei bem claro, pois já entendi qual parecer você quer.
Sem piedade, o médico concluiu:
— Devido às queimaduras, Rosa Maria tem sérios comprometimentos físicos.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 04, 2017 10:37 am

Eu não sei lhe informar como será, a partir de agora, sua vida pessoal, nem quais suas condições.
Mas tenho certeza de uma coisa:
se houver uma gravidez, Rosa não vai suportar. Você entendeu?
Robert sentiu-se gelar.
Um torpor o dominou, e seu pai insistiu:
Fui claro, Robert?
_ Sim, meu pai.
O senhor foi muito claro.
— Não quero vê-lo sofrer, meu filho.
Acho que já chega.
Robert meneou a cabeça positivamente e se levantou a fim de se retirar.
Aproximando-se dele, o doutor David Russel o puxou para um abraço de apoio e amizade, percebendo que seu filho estava muito abalado com tanta decepção.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 04, 2017 10:38 am

9 - Amor

O filho mais velho do doutor David Russel, muito preocupado após falar com seu pai, experimentou ver passar cada segundo daquela noite pensando na dificuldade que seria sua vida dali por diante.
Pela manhã, estava decidido em não alterar seu comportamento nem seu tratamento para com Rosa Maria.
Gentil e educado, querendo fazer as honras, levou ao quarto de Rosa Maria a cadeira que lhe possibilitaria maior liberdade.
— Aqui está, Rosa, não vai precisar ser carregada de um lugar para outro.
A mulher esboçou um sorriso singelo de agradecimento, mesmo tendo os sentimentos doloridos por observar o objecto de sua prostração.
Procurando animá-la, sugeriu:
— Agora vamos, deixe-me ajudá-la a sair dessa cama e se acomodar nesta cadeira.
Você ainda não conhece a casa e eu quero levá-la para um passeio.
Elizabeth, com carinho, forrou a cadeira com cobertas para evitar a friagem e proporcionar mais conforto à Rosa Maria.
Seguindo a boa educação que recebeu, Robert decidiu mostrar todos os cómodos da residência para ela ficar mais à vontade.
Margarida, sempre animada, resolveu acompanhar o trajecto.
Ao saírem do quarto e ganharem um comprido corredor, lembrando-se de que, ambas as hóspedes eram admiradoras de delicada beleza, como toda mulher, o médico e amigo indicou dizendo:
— Vamos entrar no santuário que foi de minha mãe.
Aqui era seu quarto de vestir.
Desde sua partida, as criadas o conservam sempre limpo e arejado, exactamente como ela o deixou:
— Fazem isso a pedido de seu pai? -— perguntou Rosa Maria, não contendo a curiosidade.
— Não. Depois de uns dois anos, mais ou menos, que minha mãe faleceu, ele nos chamou e disse:
"Tudo o que foi de sua mãe é de vocês agora.
Façam o que quiserem"
Eu não tinha nenhum interesse apesar...
Deteve-se ele por alguns segundos até Margarida insistir:
— Apesar?...
— Apesar de já estar casado, voltei-me para Henry e disse que todo esse quarto era dele.
Henry pensou em doação, em vender e o que arrecadasse, doar para algum hospital.
Mas diante de tanta dúvida e por não estar maduro o suficiente, acabei aconselhando-o a esperar um pouco.
Depois ele enterrou-se nos estudos, e creio que nem se lembra de tudo o que está aqui:
Ao adentrarem no referido "santuário", ambas ficaram deslumbradas com tamanho bom gosto e requinte daquele aposento.
Era um amplo quarto repleto de armário "Regência" por duas paredes.
Uma consola10 em madeira dourada e uma cómoda no estilo Luís XIV, de muito bom gosto, combinavam em seus alto relevos, harmonizando como conjunto com o espelho de talha doirada no estilo João V.
Muito observadora, Rosa Maria não pôde deixar de reparar no leito de madeira dourada esculpida e guarnecido de veludo de Génova, tendo ao lado uma cadeira de braços com orelhas, ambas da época de Luís XVI.
Curiosa, perguntou:
— Robert, percebo que uma parte do estilo da decoração é Indo-português, sua mãe era portuguesa?
— Admiro-me com sua destreza, conhecimento e observação, Rosa!
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 04, 2017 10:38 am

Isso me surpreende! Mas não.
Minha mãe era inglesa.
Porém sabendo de sua paixão por esse estilo, meu pai mandou preparar esse aposento a seu gosto.
— Ela dormia aqui? -— perguntou Margarida.
O cavalheiro sorriu pela forma espontânea e directa da jovem e respondeu:
— Na parte da tarde, para um cochilo rápido, sim, ela dormia.
Sempre que meu pai não estava em casa, minha mãe gostava de fazer uma siesta.
Observadora, Rosa Maria comentou:
— Tudo está em ordem.
Veja só, até na penteadeira espelhada, os apetrechos de toucador estão alinhados!
— Veja os vestidos -— pediu Robert, abrindo o armário de roupas. —
Observem esse em especial!
Empolgada, Margarida quase gritou, tamanha sua admiração:
— Que lindo!
É o que sua mãe está usando na pintura daquele quadro que está no hall, não é?
— Sim. É ele mesmo -— confirmou Robert sorridente, achando graça pela admiração da jovem.
O doutor David Russel, adentrando ao quarto sem que eles percebessem, advertiu:
_ Esse vestido está reservado.
Tomem muito cuidado com ele, por favor.
Margarida, um pouco assustada pela seriedade daquele senhor, afastou-se imediatamente da cama onde Robert deitou o vestido.
Num gesto quase instintivo, a jovem colocou as mãos para trás do corpo, exibindo que não iria mais tocar na preciosidade.
— Bom dia, Rosa! Bom dia, Margarida! -— cumprimentou o dono da casa.
Depois de ambas retribuírem o cumprimento, ele declarou:
— Como Robert já sabe, esse vestido foi a única coisa de que eu não lhes dispus.
Ele está reservado para a escolhida de Henry, a fim de que ela o use no dia do noivado.
Margarida demorou de entender e não se manifestou até que o pai de Robert, sorrindo, perguntou:
— Aceita, Margarida?
— O vestido?! -— perguntou ela um tanto atrapalhada.
— Sim, filha, o vestido.
Pois o Henry eu acho que você já aceitou.
A jovem começou a rir de emoção sem saber o que responder.
Com os olhos marejados, riso baixo e descompassado, buscou em Rosa Maria um olhar de aprovação.
A delicada dama ajudou a responder:
— Minha enteada ficará honrada em usar um vestido tão elegante em seu noivado, senhor David.
Muito agradecida.
Margarida, com a voz embargada pela emoção, também agradeceu beijando a mão e a face do pai de Henry e dizendo-lhe:
— Senhor David, jamais saberei agradecer tanto carinho e consideração que nos têm demonstrado.
Observando que a emoção de ambas levaram-nas às lágrimas, Robert interveio gentil:
Vamos continuar nosso passeio ou ficaremos o dia inteiro aqui.
Após saírem daquele aposento, Rosa Maria perguntou a Robert enquanto esse a conduzia em sua cadeira:
— As roupas que nos cederam, desde que chegamos, foram todas de sua mãe?
— Algum problema, Rosa?
— Nenhum. Vinha me perguntando quem as tinha emprestado.
Não são novas, mas estão impecáveis e são roupas caras, finíssimas.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 04, 2017 10:38 am

Não acreditei que pudessem pertencer a uma das empregadas.
Seria difícil terem peças de tal qualidade.
Por outro lado, preocupei-me, pois, se essas roupas pertencessem à criadagem, estariam se privando do melhor por nossa causa.
— Não se preocupe.
Foram todas de minha mãe.
Mais tarde, no quarto de Rosa Maria, quando Margarida se viu a sós com sua madrasta, exteriorizou toda a sua felicidade com um gritinho de animação.
Com os olhos brilhando, na sua despreocupação juvenil, nem se preocupou com o necessário descanso de Rosa Maria, e sobrepondo o vestido do noivado, rodopiava e bailava por todo o quarto, exclamando alegremente:
— Veja, Rosa, que encanto!
Não é o mais belo vestido que você já viu?!
A amiga, contagiando-se com a alegria da mocinha, retrucou:
—Sim, querida! E lindo!
E de muito bom gosto.
Traga-o aqui para que eu o examine de perto.
Hum!... -— expressou-se ela.
Que tecido fino! É musselina francesa.
Repare na delicadeza dos bordados com finíssima linha de seda.
É curioso -— confessou Rosa que, sem perceber, usava a mediunidade delicada e sensitiva—, tocando nesse vestido, posso dizer que a senhora Anne Russel era uma dama de personalidade suave, marcante e delicada.
—Foi isso o que pensei -— concordou a enteada.
— Não me admira a paixão que todos dessa casa nutrem por ela.
Deveria mesmo ser uma mulher encantadora.
— Você ficará linda nesse vestido!
— Você acha?
— Não! Tenho certeza!
Ambas se abraçaram satisfeitas e felizes como duas almas que sempre se auxiliaram diante das alegrias e das dificuldades.
Após deixar Rosa Maria descansando em seu quarto, Margarida se retirou.
Nesse instante, Robert, em outro cómodo da casa, ouvia com atenção o relato de um dos empregados.
— ... então ele correu, doutor.
Mas se eu ver novamente* sou capaz de reconhecê-lo.
Elizabeth também envolvia-se na conversa.
— Alguns dias atrás, a filha do cocheiro contou-me que um rapaz, com as mesmas descrições que acabamos de ouvir, interpelou-a sobre as hóspedes.
— O que ele perguntou? -— interessou-se Robert.
— Não posso afirmar com certeza.
Parece-me que ele queria saber se a mulher do senhor Gonzales estava nessa casa.
A jovem confirmou, e depois o rapaz perguntou se ela já estava saindo do quarto e recebendo visitas.
E a moça negou porque a senhora Rosa Maria não havia saído de seu quarto ainda.
— Por que não me contou, Elizabeth?
— Desculpe-me, senhor Robert.
Pensei que fosse somente algum vizinho dos Gonzales portando curiosidade.
Não dei importância ao facto.
Somente agora que Carl contou-me que deparou com esse rapaz dentro da propriedade e sondando a casa, lembrei-me do ocorrido.
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Re: O RETORNO - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 04, 2017 10:38 am

— Peça para todos os empregados ficarem em alerta.
Não dêem informação alguma sobre quem quer que seja.
No banho de sol da senhora, não se afastem da casa nem a deixem só.
Vou procurar saber o que está acontecendo.
Pouco depois, Robert reunia-se com seu pai, Henry e Margarida expondo os factos.
— ...Carl não conseguiu pegar o rapaz, pois este correu.
Mas tem certeza de que o jovem tentava escalar a casa pela cerca de arranjo floral da parede por onde chegaria à varanda acima e ganharia o corredor dos quartos.
— Isso nunca nos aconteceu.
Que estranho! -— manifestou o dono da casa.
Robert, alerta, advertiu:
— Vamos tomar cuidado.
Promoveremos a segurança da casa e ficaremos atentos.
— Não há de ser nada. -— acreditou seu pai.
Oferecendo novo rumo à conversa, o doutor David comentou:
— Vou aproveitar a presença de todos, para juntos analisarmos e tomarmos a melhor decisão.
Henry e Margarida, tendo visto o estado em que Rosa Maria se encontra e de sua continuação futura à muita dependência, observações e cuidados, eu e Robert estávamos pensando na possibilidade de solicitar a seu esposo que nos confie todo o tratamento de que sua mulher necessitar de agora em diante.
Consentindo, inclusive, que ela venha morar aqui.
Essa oferta pode parecer estranha para o senhor Gonzales e, por essa razão, o ideal seria você, Margarida, fazer esse pedido a seu pai.
Mesmo ele recompondo a vida, sabemos que suas viagens são constantes e até de longa duração.
Isso deixará Rosa Maria entregue aos cuidados de estranhos.
A solidão vai desanimá-la muito.
Além do trabalho e cuidado que vão ter de dispensar-lhe, existe a preocupação.
Gonzales poderá ficar bem mais tranquilo se souber que a esposa está sendo cuidada pela filha.
O que vocês dois acham?
— Senhor David -— comentou Margarida um tanto tímida— - gostaria que me perdoasse.
É que na última visita de meu pai, eu acabei me empolgando e, mesmo sem a autorização do senhor, pedi a ele que me deixasse cuidar de Rosa.
Uma vez que, desde quando eu a conheci, ela sempre se esforçou para me oferecer todo o carinho e a atenção que, muitas vezes, nem vemos certas mães ofertarem.
As lágrimas começaram a rolar no rosto da jovem, mas ela continuou:
_ Depois que conversei com meu pai, fiquei muito preocupada com o que o senhor, Robert e Henry iriam pensar de mim, da minha atitude...
Aflita, ontem comentei com Henry o que fiz e... -— sua voz embargou e, mesmo assim, ela continuou:
_ ...ouvindo-o agora, posso afirmar o quanto Deus é bom... meu coração estava tão apertado...
Como o senhor é generoso.
Margarida aproximou-se do anfitrião e o abraçou como a um pai, enquanto os soluços a dominavam.
O doutor David Russel retribuiu com carinho, procurando acalmá-la.
— Tranquilize-se, filha. Não chore.
Robert entregou seu lenço à jovem que procurava conter as emoções sem êxito.
Vendo-a mais à vontade, o dono da casa perguntou:
—O que seu pai disse? Ele concordou?
—Creio que sim.
—Pode ser mais clara, filha.
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