Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 08, 2017 8:21 pm

HERCULÂNUM
(Época Romana)
Wera Krijanowskaia

ROMANCE MEDIÚNICO DITADO PELO ESPÍRITO CONDE J. ROCHESTER

PRIMEIRA PARTE

I
- A visita
Era uma radiosa manhã primaveril, do ano da graça de 79 (832 de Roma).
O Sol, já comburente, punha coalhos de luz nas ruas movimentadas da pequena e risonha cidade de Herculânum, encravada, qual pérola entre esmeraldas, no meio de jardins e pomares espessos, a perder de vista, até as faldas do Vesúvio.
Certo, o mundo elegante da cidade de Hércules ainda dormia àquela hora; mas, sem embargo, notava-se em todas as ruas um certo movimento.
Aqui, mercadores de frutas, de louças, de flores, atroavam os ares com os seus pregões; ali, campónios regressavam procurando as portas da cidade, com os cestos já vazios; além, magistrados, funcionários, escravos, cruzavam em todas as direcções.
Através dessa multidão azafamada, distinguia-se, balouçante aos ombros de oito capadocianos, uma liteira riquíssima, de lindas incrustações.
As cortinas suspensas deixavam entrever no interior, reclinada em custosas almofadas, uma formosa mulher dos seus vinte e tantos anos.
Bela, realmente, de beleza pouco comum:
o rosto oval de cútis mate tinha a emoldurá-lo basta cabeleira de ébano, e a vivificá-lo um par de olhos grandes, calmos e ao mesmo tempo severos.
Entretanto, a comissura dos lábios, o nariz fino e recto, de narinas móveis, traíam na aparência tranquila a concomitância de paixões ardentes, tanto quanto desmedido orgulho.
Simplesmente trajada de branco, da cabeça lhe pendia o longo véu característico das patrícias romanas.
Ao dobrar uma rua menos movimentada, a liteira parou defronte de uma casa de melhor porte.
Na soleira da porta entreaberta, lia-se gravada esta legenda hospitaleira: Salve!
Um velhote de cabelos grisalhos, cujas vestes indiciavam o serviçal de confiança, discutia com algumas floristas que lhe exibiam cestas bizarras e policromas.
Ao perceber a recém-vinda, precipitou-se para a liteira, exclamando em atitude reverente:
— Benvinda sejas, nobre Metela, e que a bênção dos deuses te consagre todos os passos.
— Bom dia Scopeliânus — replicou por sua vez a jovem patrícia com benevolência.
Diz-me: a patroa já está de pé?
— O patrão saiu, mas a nobre Virgília deve estar no vestiário, pois há talvez meia hora que lhe serviram o almoço.
Permites que te acompanhe até lá?
— Não é preciso.
Cuida das tuas ocupações, subirei sozinha.
E quanto a vocês — acrescentou, voltando-se para os carregadores —, esperem-me aqui.
Lépida, atravessou o vestíbulo e o corredor, galgando a escadaria de acesso ao andar superior, onde havia vários quartos pequenos e grande sala de banho ornamentada de muitas estátuas.
Duas escravas moças ali se entretinham na arrumação de roupas e frascos de perfumes.
Em avistando a visitante, logo correram a beijar-lhe as vestes e, depois, arrepanhando um rico reposteiro, deram-lhe entrada na alcova de Virgília.
Esse cómodo, ricamente ornamentado, comunicava com pequeno terraço de cobertura horizontal, ornado de plantas raras e, ao demais, ensombrado pela ramagem de grandes árvores montantes do jardim.
Nessa espécie de latada umbrosa e odorante, estava assentada junto de pequena mesa atulhada de estojos, frascos e utensílios outros de toucador, uma linda criatura rodeada de escravas.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 08, 2017 8:21 pm

A poucos passos, uma negrinha acocorada, sobre um tapete de lã, brincava com uma criancinha de meses.
— Bom dia, querida Metela — exclamou a dona da casa, correndo ao encontro da recém-vinda para abraçá-la com efusão.
Que feliz lembrança a tua!
Estou só, como vês; Fábius foi ao mercado de escravos, pois temos necessidade de alguns.
Mas... assenta-te e vamos conversando enquanto acabo de me vestir.
Chegaram-lhe a poltrona de vime, puseram-lhe aos pés o escabelo e ofereceram-lhe uma taça de vinho, na qual a gentil visitante mal humedeceu os lábios.
Nesse comenos, Virgília retomava lugar no toucador e toda se remirava ao espelho de metal, sustentado por uma escrava, enquanto outra lhe calçava as douradas sandálias.
Era também uma deliciosa criatura essa Virgília, tão franzina e delicada que lhe não dariam mais de catorze a dezasseis anos.
Semblante fresco e rosado, de linhas por assim dizer infantis, ressumbrava alegria e candura; entretanto, os olhos, redondos como duas contas azuis, reluziam brilhantes de inteligência e malícia, para comprovação de uma alma inquieta e sonhadora.
Os cabelos eram louros, mas desse louro ruivo, tão bem cotado entre as damas romanas.
Naquele instante, duas aias mal se aviam por destrinçá-los, a fim de penteá-los.
— Que boa estrela te trouxe à cidade esta manhã...
E como vai Fabrícius Agripa?
— disse — enquanto escolhia e fixava ao dedo um rico anel.
— Meu marido vai bem e te saúda; quanto a mim, precisando madrugar para assistir à ginástica dos pequenos, aproveitei a frescura da manhã para dar um passeio e vir pessoalmente convidar-te a tomar parte em nossa reunião desta noite. Dá-nos o prazer da tua presença com Marcus Fábius.
Reunião muito íntima, ao demais:
— o senador Vérus com a mulher, Semprônius e o filho, Flávia Secunda e alguns outros, que Fabrícius convidou em homenagem ao seu amigo Serapião, que acaba de chegar de Roma trazendo consigo o jovem Cláudius, insigne harpista e cantor.
Este também lá estará e nós teremos o ensejo de ouvir o que há de mais moderno na capital, em matéria de música e poesia.
— Um encanto! — exclamou Virgília esfregando as mãos de contente.
E olha que me rejubilo de poder conversar com Cáius.
Ele é tão espirituoso...
E tem um aprumo que até faz lembrar aquela cabeça de Apoio que lá se ostenta no teu “átrium”.
Depois, Cáius é sempre um artista consumado, um gentil homem, quer tangendo a lira, quer tramando epigramas.
No ano passado, quando da sua viagem a Roma, tirou o prémio da corrida de bigas e por sinal que, dizem, Semprônius muito se contrariou com isso.
— É verdade — atalhou Metela —, Cáius é dos homens mais belos que podemos imaginar, mas a verdade é que também revela alguns pendores extravagantes.
Tomá-lo-iam antes por um gladiador do que por filho do opulento patrício Semprônius.
Haja vista, por exemplo, aquele pátio que mandou fazer e no qual se entretém agora a domar e lutar com um tigre e um leopardo.
Presentemente, dizem, quer comprar também um leão para melhor cultivar a sua ostensiva coragem.
E como se tudo isso não bastara, ainda agora sacode a cidade com o escândalo de uma paixão insensata por essa tal Dafné, a ponto de querer esposá-la.
— É exacto. Ainda ontem aqui esteve Sextila, que mora defronte da loja de Túlia, e me contou que Cáius ali passa metade do dia á cortejar essa mulher!
É deveras esquisito... querer desposar uma plebeia pobre e obscura, quando podia escolher entre filhas de senadores...
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 08, 2017 8:22 pm

Somente — acrescentou com certa vivacidade — espero que Semprônius não anuirá, jamais, a semelhante aventura, a despeito do fraco de sua afeição pelo filho.
— Veremos — obtemperou a outra sorridente...
Seja, porém, como for, tu és a única culpada do risco que corre o doudivanas.
Porque não acedeste ao desejo do velho quando pediu a Fabrícius a tua mão para o filho?
Como tua segunda mãe, também te aconselhei e tu te obstinaste em recusá-lo.
Virgília voltou-se tão bruscamente que o espelho e os pentes caíram no chão.
De faces incendidas, revidou sem demora:
— Como podes falar dessa maneira?
Estarás gracejando?
O malicioso sorriso da outra espicaçava-a.
— Acreditas que haja no mundo um homem comparável a Marcus Fábius?
Bom quanto belo, indulgente quão generoso, o seu amor reaquece e fortifica, qual os raios do sol nascente.
O amor de Cáius, impetuoso, selvagem como ele mesmo, deve asfixiar e queimar como as tempestades do deserto...
De costas para a porta, as duas senhoras não haviam notado que, já de alguns minutos, o reposteiro se retraíra e um rapaz de esbelto porte ali se detivera a ouvir-lhes a palestra, com um sorriso à flor dos lábios.
Aquele rosto fino e regular transpirava nobreza e lealdade.
Cabelos castanhos, anelados, ornavam-lhe a linda cabeça, e os grandes olhos velutíneos se fixavam na esposa com indefinível ternura.
— Bravos! querida Metela...
Vejo com gáudio a inutilidade do teu esforço em roubar-me o coração de Virgília, a prol de Cáius Lucílius...
Mas, toma cuidado: olha que, qualquer intriga pode inclinar-me à vingança e, nesse caso, comunicarei a Fabrícius Agripa que a loura Lívia se julga inditosa com o lhe haver ele preferido certa patrícia morena, das minhas relações.
— Vejam só como Fábius quer ser mau e rancoroso!
E eu que o supunha incapaz de matar um mosquito sem chorar...
Disse-o, apertando cordialmente a mão do jovem patrício.
Este assentou-se ao lado da esposa, abraçou-a e respondeu igualmente a sorrir:
— Desengana-te, pois, da minha bondade:
incapaz de matar um mosquito inutilmente, não se me daria de estrangular um rival a sangue frio.
— Então — aparteou Metela — é conveniente não exacerbar os teus ciúmes e considerarmos os motivos da minha visita, isto é, convidá-los para o sarau desta noite.
Serapião nos trouxe Cláudius e Cláudius nos trará música, o que não deixa de ser interessante para um amador do teu quilate.
— Como te arranjaste lá pelo mercado? — perguntou a petulante Virgília interrompendo o marido, que agradecia e aceitava o convite — sempre encontraste os escravos de que necessitas?
— Sim, comprei espécimes vigorosos, adequados ao serviço da lavoura; mas, por outro lado, também me deixei enternecer por um rapazola dos seus doze anos e acabei comprando-o a resto de barato, porque o seu aspecto taciturno, sua maldade e teimosia fizeram-no repelido e odiado de todo o mundo.
Quando me dispus a interrogá-lo, recusou-se responder e então começaram a vergastá-lo tão barbaramente que acabei por comover-me e adquiri-o.
De caminho, na sua algaravia de bárbaro, ele me revelou ser de origem germânica, filho de um chefe de tribo qualquer.
Chama-se Gundicar e talvez possas aproveitá-lo para pequenos serviços caseiros.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 08, 2017 8:22 pm

— Eu já devia estar longe — disse Metela —, mas o que acabo de ouvir desperta-me curiosidade e, já agora, desejo ver esse rapaz.
Manda que o tragam até aqui a fim de nos certificarmos se de fato poderá ser aproveitado nos misteres domésticos.
— É para já — respondeu Fábius; e voltando-se para uma das aias:
— Vá dizer a Próculus que traga aqui o pequeno escravo vindo no lote do mercado.
A rapariga partiu apressada e a conversa prosseguiu, ferindo novidades da Corte e da cidade.
Pouco depois, um rumor de passos e o vozeirão de um homem atraíram todos os olhares para a porta.
A cortina abriu-se e Próculus, o abegão, surgiu agarrando pela gola, apesar de toda a resistência, um meninote pálido e franzino.
Acabou aplicando-lhe vigoroso pontapé, gritando:
— De joelhos, animal!
De joelhos diante dos teus benfeitores.
Dirigindo-se a Fábius:
— Perdoa a ousadia de te apresentar um escravo tão rebelde, mas fica descansado que dentro de poucos dias lhe terei amolecido a espinha e desentupido os ouvidos.
O rapaz mantinha-se de pé, braços cruzados, a medir o ambiente e os circunstantes com um olhar sombrio e arrogante.
Não era feio:
basta cabeleira loura lhe amoldurava o rosto descarnado mas de linhas regulares; os grandes olhos fúlgidos revelavam energia e coragem, prontos a tudo enfrentar e vencer.
À vista daquele desgraçadinho, Virgília empalidecera subitamente.
— Não! absolutamente não — exclamou estremecendo —, não o quero a meu lado, a sua presença me repugna; mas, onde foi, ó deuses caros, que eu já vi esses olhos?!
— É, na verdade, um olhar singularíssimo — acrescentou Metela — e também a mim me parece já o ter surpreendido no rosto de alguma estátua.
Contudo — ajuntou, compassiva — ele parece estar completamente exausto.
Vejam que palidez profunda!
É preciso alimentá-lo bem e trocar desde já em roupa esses molambos.
Tomou um copo de vinho, ofereceu-lho.
Gundicar pegou no copo e, silenciosamente, depositou-o na mesa, perto de Virgília, ao mesmo tempo que a encarava com um misto de ódio e admiração.
— Por Júpiter! — exclamou, rindo-se, Marcus Fábius; — dir-se-ia que este brutinho deseja que Virgília lhe ofereça o vinho...
Não se dirá que tenha mau gosto, mas, apenas, que não sabe apreciar tua beleza, ó Metela!
— E a mim não me resta senão consolar-me com o insucesso da conquista — respondeu ela em tom humorístico, enquanto Virgília, já prazenteira e risonha, apresentava o copo ao pequeno selvagem que, toda a envolvendo num olhar de gratidão, esvaziou-o de um trago.
Houve uma gargalhada geral.
— Leva-o, Próculus, dá-lhe roupa, concede-lhe alguns dias de repouso, não quero que o maltratem.
— O rapaz promete e hás-de ver que fizeste uma bela aquisição — terminou por dizer Metela ao despedir-se.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 08, 2017 8:22 pm

II - Pai e filho, mãe e filha

Em pequena quanto elegante sala de banho, um homem alto, magro e musculoso, estendia-se no amplo diva, enquanto um escravo acocorado lhe enxugava os pés, para os calçar de seguida com altas botas de atacar, de couro marron.
Outro escravo, de pé, sustentava em pequena salva prateada uma taça de vinho aromatizado que, já por vezes, oferecera ao senhor sem que este, absorto em profundas cogitações, lhe notasse os gestos insistentes.
Essa personagem de fisionomia carrancuda, cuja boca e olhar severo indiciavam um carácter firme e resoluto até ao despotismo, era Títus Bálbus Semprônius, rico patrício e magistrado aposentado, residente em Herculânum, onde possuía muitas terras e benfeitorias consideráveis.
Evidentemente, naquele momento, qualquer angustiosa ideia o preocupava.
Franzindo o sobrolho, alisou os grisalhos cabelos cortados à escovinha e, com voz impaciente, ordenou que o vestissem depressa.
Daí a dez minutos deixava o banheiro e passeava de um lado para outro, a passos cadenciados, numa galeria de colunatas.
Um serviçal dali o foi arrancar às suas cogitações, anunciando que a refeição estava pronta.
Sem dizer palavra, encaminhou-se ao refeitório, onde rica mesa se ostentava, provida de fina baixela e com lugar para dois comensais.
O velho patrício reclinou-se no divã, atrás do qual se postaram o copeiro e outro escravo, enquanto o mordomo se encarregava de apresentar os pratos, cortar as carnes e servir o amo.
Um rapazinho, ajoelhado junto ao divã, sustinha a bacia de prata e o guardanapo rendado.
Semprônius mergulhava os dedos engordurados na água perfumada e logo os esticava para que o jovem escravo os enxugasse solícito.
— Chamaram Cáius Lucílius? — perguntou de repente, ao fixar o lugar vago do filho.
— Ele está lá no pátio, entretido com as feras — respondeu o mordomo.
Flácus bem que o chamou três vezes, mas parece que lhe não deu atenção.
O repasto continuou silenciosamente.
O patrício comeu bem, bebeu melhor, e por fim, levantando-se, encaminhou-se a passo firme e lesto ainda, para as dependências confinantes com o jardim.
Abrindo pesada porta, entrou num pátio de altos muros e na extremidade do qual assentavam duas jaulas grandes e fortes, contendo respectivamente um tigre e um leopardo.
No centro do pátio erguia-se um quadrante solar, e estátuas de pedra vermelha, representando gladiadores célebres, ornavam-lhe os ângulos.
Defronte das jaulas, numa reentrância do muro, havia um banco de mármore e ao lado jorrava, da goela de um leão para uma piscina, um jacto d’água cantante e cristalina.
Naquele banco, assentado em atitude bizarra, com ares displicentes, deparava-se um jovem de túnica branca.
Ao avistá-lo, toda a raiva e severidade do velho Semprônius se transformaram num misto de indulgência e orgulho paternais.
De resto, a aparência exterior, verdadeiramente sedutora de Cáius Lucílius não deixaria de justificar, até certo ponto, a comovida ternura do austero ancião.
Tipo clássico de linhas perfeitas, qual estátua de Apoio, o peito largo e os braços musculosos indicavam força hercúlea.
A cabeça, de contornos nítidos como entalhes de um camafeu, ornava-se de cabelos negros e crespos; mas, sem embargo de prendas que tais, dos olhos vivos e profundos, tanto quanto da comissura dos lábios, inferiam-se temperamento fogoso e audácia capazes de raiar por temeridade.
Tanto que avistou o pai, voltou-se amuado e disse-lhe:
— Disseste que me não querias ver até que eu mudasse de pensar...
Eis porque não fui ao teu encontro nem voltei a procurar-te.
Semprônius assentou-se ao lado do filho.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 08, 2017 8:22 pm

— Vim, não para te repreender, mas para falar-te com a voz da razão.
Sempre tiveste em mim um pai indulgente e exclusivamente preocupado com a tua felicidade.
Como podes acreditar quisesse eu, por mero capricho, ou por orgulho, contrariar-te nos teus desejos?
Estou convencido de que uma tal mulher só poderá fazer a tua desgraça, não por ser plebeia — pois certo é que o homem enobrece e eleva a mulher ao seu nível social —, mas porque essa Dafné é frívola, rústica e bronca, filha bem digna, enfim, da megera que a gerou e educou.
Esta, mal podes sabê-lo, é uma criatura pérfida, de antecedentes obscuros, tenebrosos mesmo.
A vida que levou em Roma, ninguém a conhece.
E é essa mulher que insinua à filha que te imponha o casamento, no intuito de mesclar-se à nossa velha e nobre estirpe.
Olha: eu quero crer que Dafné te ame realmente, mas, vaidosa e leviana qual a conheço, também creio que anuiria de bom grado em fazer-se tua amante, desde que lhe desses dinheiro, jóias, carruagens, criados...
E com isso também eu concordaria desde logo.
Túlia, porém, quer excitar a tua paixão e forçar-te, finalmente, a cometer uma loucura.
— Talvez te enganes, pai.
Então essa plebeia não poderá possuir as rígidas virtudes de qualquer virtuosa patrícia?
Porquê? Casos conhecemos, de mulheres do povo que preferem matar-se antes que ceder a um amor ignominioso.
Não; de modo algum; se me amas, como dizes, hás-de dar-me autorização para casar com Dafné.
O velho ergueu-se de cenho carregado:
— Não queres ouvir meus conselhos...
Neste caso, a teu benefício, recuso a autorização; mas (pousando-lhe a mão no ombro), conheço o filho que tenho, sei que não me desobedecerá, nem algo fará que possa manchar as tradições da família.
Esses amores, filho, são passageiros como o calor diuturno, a que sucede, invariável, a frescura das noites.
Conhecendo Túlia, tu não te ligarás a Dafné.
Imagem fiel da mãe, ela é rapace, falsa, intrigante e não te adora senão pela impossibilidade de te possuir.
Agora, vai almoçar e repousar, se é que não queres ficar magro e... feio.
Esta noite temos um convite para a casa de Fabrícius Agripa e isso te distrairá.
Prepara-te para me acompanhares logo à tarde.
E até logo....
— Vais sair agora? — perguntou Cáius sempre irritado.
— Não, mas preciso receber alguns feitores que acabam de chegar dos nossos campos de plantação e pastagem.
Há que os ouvir e examinar a produção.
A propósito:
esta manhã vieram oferecer-me quatro magníficos cavalos e eu os comprei para ti.
Queres acompanhar-me até às cocheiras e lá examiná-los?
— É para já e depressa — exclamou o jovem Cáius subitamente transformado.
Bela ideia, meu pai!
Poderemos hoje mesmo experimentar esses animais, atrelando-os ao meu carro para irmos a casa de Agripa.
Tu irás comigo, pois sempre é mais agradável que andar de liteira, a passo de lesma.
Um leve sorriso assomou aos lábios de Semprônius quando viu o filho calar os cuidados do namoro, tanto que ouviu falar de cavalos.
Atravessaram longo pátio ladeado de cavalariças e estábulos, de onde partiam mugidos e relinchos do rebanho recém-chegado, e foram parar no extremo, perto de um bebedouro, onde uma vintena de escravos se ocupavam em descarregar os carretões pejados de sacos de aveia.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 08, 2017 8:22 pm

A presença dos senhores paralisou o trabalho.
— Depressa, Mômus, manda que tragam aqui os cavalos comprados esta manhã — disse Cáius ao capataz da tropa.
A um sinal do homem que apontava em tabuinhas a medição da safra, alguns escravos se precipitaram para as cavalariças e, dentro em pouco, regressavam puxando quatro soberbos cavalos, tão fogosos que mal os continham dois homens ao cabresto.
— Esplêndido! — diz o moço aproximando-se de um cavalo de pêlo branco prateado, narinas róseas e sedosa crina.
O animal resfolgante relinchava e escarvava o solo.
— Há-de chamar-se Dafné, disse, acariciando o dorso luzidio do nobre animal.
— Obrigado, pai; muitíssimo obrigado!
Voltou-se para Semprônius, beijou-o nas faces.
O velho sorriu, inclinou-se ao ouvido do filho e sussurrou:
— Contenta-te com este Dafné de quatro pés e nós ficaremos bons amiguinhos...
E logo, em voz alta:
— agora, deixo-te, os feitores lá estão à minha espera.
Saudou o filho com um gesto carinhoso e foi-se.
Horas depois dessa entrevista, numa rua deserta, duas mulheres permaneciam assentadas à soleira de pequena loja de perfumaria e flores.
Pela porta entreaberta, divisavam-se estantes carregadas de frascos, vasos e boiões de líquidos e pomadas, bem como, pelo chão, grandes ânforas de óleos e resinas.
Ao fundo da loja, pequena porta que dava para o interior.
A mais idosa das mulheres aparentava uns quarenta anos:
semblante descorado, vulgar, trazia à cabeça e preso ao queixo um lenço de lã.
Vestia um traje marrom, simples, porém limpo.
Ocupava-se em atilhar pequenos pacotes de plantas aromáticas, à medida que as retirava de uma cesta ao lado.
A outra era na verdade uma jovem de radiante formosura, magnífica cabeleira loura, tez alabastrina, lábios rubros e dois olhos azuis, transparentes de ousadia.
Também sustinha nos joelhos uma cesta de plantas, mas, ao invés de trabalhar, entretinha-se a remirar um rico bracelete de ouro e rubis que lhe enfeitava o braço.
Sem embargo de um tal enlevo, transparecia-lhe do rosto profundo aborrecimento, tanto que, nervosamente, mordicava os lábios.
— Tua ridícula vigilância começa a irritar-me — disse com voz metálica —; não me deixas um minuto a sós com Cáius Lucílius, não permites que o abrace, nem mesmo a título de gratidão por um presente como este...
Precisas compreender que não sou nenhuma criança e que, amando-o, apraz-me com ele conversar sem testemunhas.
Depois, é claro que na tua presença ele nunca se poderá explicar com franqueza, dizer-me tudo quanto sente e deseja.
— Tolinha — respondeu a outra —; justamente por te conhecer a leviandade é que fiscalizo os teus colóquios.
Se me descuidasse um minuto, estou certa de que o casamento iria por água abaixo.
Tu és o vitelo faminto que divisa a erva tenra e quer devorá-la de qualquer forma; mas, deixa-me agir e verás como daqui hás-de sair legítima esposa de Cáius.
Então, já não terás de empacotar ervinhas, e as altivas patrícias que ora contemplas com inveja, refesteladas em douradas liteiras, hão-de de ser íntimas, como iguais.
O rapaz está louco de paixão, precisamente por não poder abraçar-te nem ficar a sós contigo.
Abrasado nesse amor, ele há-de empalidecer e definhar, até o dia em que o orgulhoso Semprônius dobre a cerviz e me venha pedir-te em casamento.
Só então, reconhecerás o fruto bom da minha prudência.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 08, 2017 8:23 pm

E agora que conheces a razão da minha conduta, acaba de vez com as recriminações, precavendo-te em não perderes o pomo de ouro antes de o haver colhido.
Dafné calou-se.
Lábios contraídos, continuou namorando o bracelete.
Por fim, levantando a cabeça, disse:
— Aí vem Cláudius...
— Tira, então, o bracelete e retoma o teu trabalho.
Abstém-te, também, de rir e gracejar com ele...
Este músico está-se tornando muito assíduo; desconfio que tu lhe agradas e nisso não vai mal algum, mas com ele importa ser sempre discreta.
— É também patrício e um guapo rapaz — disse Dafné com aquele espírito de contradição que lhe era peculiar.
— É exacto, mas... sem cheta; um pobre diabo que vive dos acordes da sua harpa.
Tu amas o luxo, a riqueza, portanto não penses em dar a Cáius um rival.
Deixa que Cláudius me arraste a asa...
Que diabo! também não sou assim tão velha e não é a toa que lá diz o rifão:
— “conquista-se a filha corrompendo-se a mãe”.
Tirou o lenço da cabeça, alisou os cabelos e, tomando da prateleira uma caixinha, tirou dela, e cingiu ao pescoço, um colar de pérolas.
A esse tempo, já um moço louro, de porte insinuante, acompanhado de um escravo a carregar uma harpa enfeitada de flores, transpunha a passos lépidos os umbrais da loja.
— Bom dia, Túlia! bom dia, Dafné!
Vamos, depressa, dêem-me perfumes bem fortes.
Passei por aqui apenas para me perfumar um tantinho.
— Dize o que prefere — sublinhou a moça com um sorriso encantador...
Óleo de rosa para o cabelo? Essência de jasmim para as roupas, um pouco de carmim para o rosto e os lábios?
— Para o rosto?
É boa! — graças aos deuses, minhas faces são tão coradas quanto as tuas...
Nada disso: — dá-me apenas qualquer essência para as roupas e amanhã cá estarei para comprar todo o resto que já me vai faltando.
Olha, conta também com uma caixinha de doces, pois a mim me parece que esses teus dentinhos de rato precisam roer boas coisinhas...
Aproximou-se do espelho colgado à parede, ajeitou com elegância o rico colchete de ametista que lhe prendia a toga e retirou-se saudando-as com galanteria.
— Aonde irá ele assim formalizado?
Alguma festa, talvez... — resmungou Túlia.
— Ora... aonde vai.
Vai à reunião em casa de Fabrícius Agripa.
Quem me disse foi a Foebé, a criada da opulenta Sextila, que teve o seu convite, bem como Cláudius e outros patrícios.
Felizardos! Vão deleitar-se, ouvir música, comer, beber, brincar...
Quando poderei fazer o mesmo?
Mãe, tu tens razão, eu preciso mesmo casar com Cáius para poder compartilhar dessas festas, ter escravas e camarote no circo, em vez de ficar confundida na massa anónima, que detesto.
Impaciente, deu umas voltas pela loja e parou, bamboleante, defronte da mãe.
— Vou deitar-me e ver se durmo um pouco para matar o tempo.
Não me conformo que estejam lá a se divertirem, enquanto aqui morro de tédio.
E sem esperar resposta, dirigiu-se para o fundo da loja, desaparecendo no interior da casa.
Túlia ficou debruçada à mesa, toda engolfada nos pensamentos que lhe trabalhavam o cérebro.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 08, 2017 8:23 pm

Não tardou que aquele semblante vulgar, aparentemente calmo, se transfigurasse num ríctus de requintada maldade.
Os olhos, habitualmente mortiços, chispavam fagulhas aceradas, venenosas, qual os das serpentes.
É que, no plenário da consciência, desdobravam-se-lhe os quadros de um passado distante, quando ela própria sonhava tornar-se patrícia e Semprônius lhe destruiu o belo sonho.
— Fica sabendo, orgulhoso déspota — rugiu surdamente —, que o momento da desforra chegou, afinal...
Foi longa a espera, foi; mas Túlia é paciente e nada esquece.
Fizeste tudo para que teu irmão Drúsus não se casasse com a plebeia, mas agora a filha da plebeia há-de ser tua nora, para quebrar o teu orgulho.
Oh! sim... conheço bem a filha que tenho... ela é que vai cobrar a tua velha dívida para comigo...
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 08, 2017 8:23 pm

III - A festa

Defronte da casa de Semprônius, alguns escravos a custo mantinham atrelados ao carro dois fogosos ginetes impacientes, a relinchar e a escarvar o solo.
Acompanhado do filho, o velho patrício surgiu afinal e lançou um olhar suspeitoso à parelha inquieta.
— Vê lá o que vais fazer, Cáius... olha que te podes sair mal com estes bichinhos.
Já providenciei para que nos sigam dois homens, pois sempre é melhor prevenir que remediar.
O rapaz acarinhou o sedoso pêlo das alimárias, deu-lhes palmadinhas no pescoço e, saltando à boleia, empunhou as rédeas.
— Não confias neste pulso?
Pois olha que, para mim, o domínio destes poldros é brincadeira de criança.
Arredem-se daí, vamos!
Os escravos largaram as bridas enquanto o moço retesava as guias, com os músculos e braçais intumecidos, encordoados, e mãos que pareciam de ferro.
Os animais fremiram, os arreios ringiram, mas ficaram estacados.
— Suba sem medo, pai; confie em mim. Semprônius aboletou-se e o rapaz afrouxou as rédeas.
Partiram. Atravessaram vertiginosamente as ruas da cidade, mas a firmeza do condutor era tal que evitava a tempo encontros e acidentes comuns, como se estivesse dirigindo a mais pacífica atrelagem.
Depressa transpuseram uma porta da cidade e deslizaram pela estrada que levava à vi venda de Agripa, situada no campo.
— Sobretudo, vê se estacas precisamente na porta de entrada, dado que lá estejam os amigos à nossa espera — disse Semprônius.
— Não te incomodes — respondeu, enveredando por um caminho de través, ao fim do qual se divisavam as construções da vasta quinta rodeada de parques e jardins.
O velho Semprônius não se enganara.
Diante do portão de bronze que dava para um pátio ensombrado de árvores seculares, estava um grupo de pessoas a conversar e a sondar a estrada.
— Lá vêm eles! mas, reparem: que raio de cavalos são aqueles!
Essa, a exclamação de um belo patrício de cabelos cortados rente, aparentando uns trinta e cinco anos e cujo porte e maneiras denunciavam-lhe a hierarquia militar.
Efectivamente, Fabrícius Agripa — pois era ele — tinha feito o seu tempo no exército, mas, gravemente ferido em campanha, dera baixa para só se dedicar à gestão da sua, aliás, opulenta fortuna.
Naquele instante, seu rosto regular, de grandes olhos penetrantes, exprimia a mais franca cordialidade e admiração, diante da súbita estacada do carro que antes parecia voar pela estrada empedrada, como se ali fora detido e encravado no solo por dois pulsos de aço.
Estrugiram aplausos, todas as mãos se estenderam aos recém-vindos, que apearam sorridentes, expansivos.
— Parabéns, Cáius! na verdade tens um pulso de Hércules — disse Agripa apertando-lhe a mão.
Ainda ontem essa parelha me foi oferecida e recusei-a por me parecer ariscado confiar em tais alimárias...
Contudo, vejo que os levas como mosquitos presos por uma linha.
Franquearam a casa, reuniram-se a outros convidados.
Agripa fê-los atravessar o soberbo “átrium”, pintado a cores vivas e todo pavimentado de jaspe e ágata vermelhos.
Dali passaram ao salão de recepções e seguidamente ao amplo terraço de colunas em hemiciclo.
Diante desse terraço desdobrava-se um prado florido, ao centro do qual uma fonte esguichava a linfa prateada, que recaía em gotículas multicores na piscina de mármore.
Grupavam-se ali algumas mulheres ricamente vestidas e uma dezena de homens que, todos, aplaudiam e agradeciam a Cláudius pela audição musical que acabava de lhes proporcionar.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 08, 2017 8:23 pm

Com a entrada dos novos convidados, todos os olhos se voltaram para eles.
Quando a Cáius lhe chegou a vez de cumprimentar Metela, esta o acolheu como pessoa de casa, dizendo:
— Assenta-te aqui a meu lado, vou mandar que te sirvam um refresco, pois vejo-te muito encalorado.
E passando-lhe o lenço pelo rosto suarento:
— Mas, a verdade é que nos esqueceste! — há muito que não nos vemos e as crianças estão sempre a perguntar pelo seu grande amiguinho.
O rapaz instalou-se comodamente numa cadeira de bronze cinzelado e, voltando-se para a interlocutora, disse-lhe risonho e malicioso:
— Será que o belo sexo de Herculânum se tenha tornado mudo e discreto?
Contudo, estou a ler nesses olhos algo que me diz não ignorares os motivos da minha falta com os amigos...
E o que me admira é que as damas, ainda as mais belas e nobres, se mostrem implacáveis quando se trata de satisfazer à sua curiosidade, ao ponto de meterem o dedinho nas chagas alheias...
Um escravo surgiu com os refrescos, enquanto outro aproximava pequena mesa e, tirando de uma cesta linda grinalda de rosas, com ela cingiu a fronte do moço patrício.
— Ah! — disse ele com um olhar enternecido: — porque não me guardaste antes uma coroa de espinhos?
Assim, ao menos, veria que compartilhas os meus pesares.
Metela levou ao rosto do mancebo o leque etrusco, de penas de pavão, com o qual brincava, e disse com um olhar significativo:
— Mandarei tecer, para ofertar-te, uma coroa de espinhos, mas, quando desposares aquela que toda a cidade propala ser tua noiva.
— Pérfida que és, Metela! — tudo sabes e ainda me perguntas, com revoltante ingenuidade, qual a causa da minha ausência e do meu abatimento!
Estivesse eu louco e fora possível ver-te assim, tão jovial e, ao mesmo tempo, preocupada com um mistério de consciência?
A nobre senhora puxou o manto num gesto brusco e revidou:
— Se devêramos avaliar teu desgosto pelo colorido da face, meu querido Cáius, era o caso de. nos inquietarmos, antes pelo rubor que pelo palor...
Dar-se-á que té hajas carminado?
Mas, se assim for, a causa dos teus desgostos seria mesmo, qual propalam, uma fonte de artifícios...
Tanta ironia desconcertava-o; levantou-se, amuado, dirigindo-se a Virgília, que, de vestido azul bordado a rosas, cabeleira salpicada de pérolas, risonha, acabava de galgar os degraus do terraço.
Nesse ínterim, o austero Semprônius se rodeava de convivas como ele idosos e graves, a conversarem política e negócios.
Contudo, aquele velho amigo, que era o senador Vérus, não perdera uma brecha favorável para perguntar, confidencialmente, quem era a tal Dafné que a voz pública assoalhava haver-lhe enfeitiçado o filho.
— Frioleiras, nada mais que frioleiras e boatério.
E logo à surdina:
— é verdade que o rapaz está pelo beicinho, mas há contar com o meu embargo.
Há-de espernear, e enquanto esperneia vou-lhe comprando cavalos para que se distraia; em último caso, mandá-lo-ei a Roma por dois ou três meses, posto que a separação me seja penosa.
Nessa altura, alguém chamou a atenção do senador.
Semprônius ficou meditativo um instante e logo, avistando Cláudius recostado, sozinho, na sacada, teve uma ideia súbita.
Aproximou-se do musicista, travou-lhe do braço e encaminharam-se ao jardim.
— Caro Cláudius, sempre notei que o teu génio alegre, folgazão, reage favoravelmente sobre Cáius, cuja paixão insensata pela plebeia não ignoras, certamente.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 08, 2017 8:24 pm

Quererás utilizar esse ascendente para convencer o maluquinho de que o amor é nuvem passageira?
Prova-lhe com o teu exemplo que se pode amar a todas as mulheres, mas nem todas podem convir para esposas...
Um rapaz, como tu, não deixará de ter tido muitas paixões e conquistas amorosas, conquanto não te sobejem ainda os recursos para casar...
Um sorriso velhaco aflorou aos lábios do rapaz.
— Aceito a vida qual se me oferece...
As mulheres bem sabem que não as posso instalar na minha harpa e contentam-se com o meu amor, mesmo sem himeneu...
Nada obstante, se julgares que posso ser útil ao Cáius, dispõe de mim com franqueza.
— Muito bem, obrigadíssimo.
A partir de amanhã, irás residir connosco e Cáius vai exultar com a convivência de um rapaz da sua idade.
O que eu quero é que o distraias.
Podes engendrar as diversões que bem te prouverem, contanto que o arredes daquela sirigaita.
Escusado é falar-te de minha gratidão.
— Mas, a mim é que compete provar o meu reconhecimento, e acredita que aprecio devidamente a tua generosidade. Tudo farei para auxiliar o nosso Cáius.
Um aperto de mão selou o pacto.
Separaram-se. Semprônius juntou-se de novo ao Senador, que o convocara em altas vozes para uma partida de dados.
Cláudius, por sua vez, encaminhou-se para o jardim, onde, à sombra de espessa fronde de plátanos e loureiros, se erguia um pequeno templo consagrado aos deuses lares.
Quem quer que, naquele momento, observasse a fisionomia calma e ao mesmo tempo cínica daquele rosto corado como as rosas que lhe ornavam a fronte; aqueles olhos castanhos cheios de suavidade, suporia que os seus pensamentos todos se
concentravam em qualquer nova canção, ou futilidade equivalente.
Entretanto, bem falho seria um tal juízo.
É que, sob as aparências discretas e modestas daquele jovem artista, latejavam pendores de refinado libertino.
Era a paixão do fausto, do jogo, das mulheres.
E como lhe faltassem recursos para saciar essa paixão, vivia de expedientes, sempre endividado.
Sem embargo, era bem acolhido em toda parte, graças aos seus talentos e habilidades.
Sabe Deus, porém, a ginástica que se lhe impunha nessa vida de ociosidade opulenta, quando, para ser recebido nas rodas patrícias, por direito de nascença, precisava assegurar um camarote no teatro e no circo, uma evidência social, em suma.
Aquele convite de Semprônius chegava-lhe a talho de foice...
Casa riquíssima, nela viveria folgado, nada mais carecendo para prover necessidades materiais.
Mas, não era sentimento de gratidão o que lhe martelava o cérebro; era todo um plano de domínio, para explorar a generosidade moça e a inexperiência coniiada de Cáius Lucílius, incapaz de com ele lutar e vencer, num plano de intrigas premeditadas.
Nessa personagem de carácter tão dúpiice, tão hábil na improvisação de uma existência faustosa, com recursos medíocres, os leitores hão-de reconhecer a personalidade ricamente dotada, mas enfraquecida pelos vícios,, que (na época da narrativa — O episódio da vida de Tibério) fora Marcus, o médico do imperador, e que haveria de reencarnar como Vilibald de Lanau, o cavaleiro arruinado e intrigante, já descrita em obra anteriormente publicada.
Suas maquinações foram subitamente cortadas por Cáius Lucílius, que, jucundo, o interpelava:
— Em que pensas? olha que até te tomei por uma estátua...
É na florista Balbila?
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 08, 2017 8:24 pm

Buscava-te para propor uma bela coisa.
Agripa me permitiu tomar aqui um banho e eu estou mesmo morto de calor.
Queres fazer-me companhia?
Um mergulho na piscina é quanto basta para refrescar, e dentro de meia hora voltaremos ao salão sem que possam dar pela nossa ausência.
Quando, uma hora mais tarde, eles reapareceram, já os convivas se dispunham a passar ao triclínio, onde lauto banquete haveria de os reter até alta madrugada.
Uma bela tarde, quinze dias depois dessa reunião, os dois rapazes achavam-se juntos num pequeno terraço em casa de Semprônius.
Estirado no diva, rodeado de almofadas, permanecia Cáius cujo aspecto era deveras impressionante, a denotar profundo abatimento físico.
Do outro lado da mesinha que se interpunha, Cláudius, negligentemente recostado a uma poltrona, sorvia, a pequenos goles, uma taça de falerno, ao mesmo tempo que provava, retirando de uma cesta dourada, doces finos e frutos secos.
— Ouve, Cáius — disse por fim, rompendo o silêncio —, teu pai está alarmado e ainda hoje me falou a teu respeito.
Diz-me: estás efectivamente enfermo, ou finges apenas para quebrar-lhe a teimosia?
Se assim for, o momento torna-se oportuno, porque Semprônius está convicto de que essa paixão acabará por te comprometer a saúde.
Cáius perfilou-se, olhos incendidos:
— Que juízo fazes de mim?
Acreditas-me, então, capaz de emagrecer e definhar por causa de uma mulher?
Não, nunca!
É bem verdade que amo Dafné e sinto o efeito da insatisfação dos meus desejos, tanto mais quanto, habituaram-me a realizar todos os meus caprichos e fantasias.
Mas, por outro lado, jamais algo faria no intuito de iludir meu pai.
Nada mais verdadeiro.
Desde o berço, o filho dilecto de Semprônius sempre tivera todos os mimos e vontades.
Se a mãe o adorava, a avó (mãe de Semprônius, ausente no momento) tinha por ele verdadeira loucura, e tanto escravos como fâmulos sabiam que os seus desejos eram ordens consumadas.
— Também não posso dizer que tenha qualquer enfermidade — prosseguiu deixando-se cair nas almofadas —, mas o facto é que experimento uma fraqueza, um cansaço irresistível, incapaz de qualquer exercício a pé, de carro, ou a cavalo.
E isto, a partir daquela festa em casa de Metela.
— Hum! — resmungou Cláudius enchendo mais uma taça.
Dar-se-á que Dafné, ou a velha, te haja propinado alguma droga enfeitiçada para apressar o casamento?
São casos comuns, infelizmente...
— Não, absolutamente, mesmo porque nada me lembro de haver lá bebido.
Ao demais, a pobre rapariga deve estar desolada, pois há doze dias que não nos vemos.
Anteontem mandei-lhe uma cesta de flores, mas isso que adianta?
Quererás tu fazer-me um obséquio?
— Como não?
— Vai até lá, diz-lhe que estou doente, não posso sair, e entrega-lhe esta caixinha.
É urna corrente de ouro e um amuleto que ela me pediu.
E mais estas tabuinhas com algumas palavras de ofertório.
Ela não sabe ler, mas a mãe lhas lerá.
Cláudius esvaziou a taça e levantou-se.
— Vou já cumprir tuas ordens e só peço me permitas fazer aqui mesmo a “toilette”, para não ter o trabalho e a demora de chegar ao meu quarto.
— Isso mesmo ia propor-te e, de resto, faz-me por tua vez o favor de escolher, entre os objectos comprados esta manhã, algo que possa agradar à tua Balbília, pois a mim me palpita que não deixarás de lhe passar à porta.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 08, 2017 8:24 pm

E dou-te parabéns, porque a florista é deveras feiticeira, tem uns olhos soberbos e o bom gosto de admirar o teu talento musical, tanto quanto os teus cabelos louros...
— Obrigadinho e... até logo.
Dentro de duas horas aqui te trarei notícias.
De passagem pelo quarto contíguo ao terraço, o emissário despertou um molecote que lá dormitava numa esteira junto à porta, e supriu-se de um espelho e alguns perfumes.
Enquanto os dois rapazes assim conversavam, um cortejo composto de liteira, cinco mulas cargueiras e alguns homens de escolta franqueavam o grande pátio da herdade.
Aos primeiros rumores da comitiva, o próprio Semprônius correra a amparar uma respeitável matrona, que procurava descer da liteira.
Depois de o abraçar cordialmente, a velha toda aflita circunvagou o olhar e perguntou logo:
— Cáius, onde está? porque não veio esperar-me?
— Simplesmente porque ignora a tua chegada, minha mãe.
Não lhe comuniquei o teu aviso. Há uns doze dias que anda adoentado e nós temos, a respeito, muito que conversar.
Fica, porém, para depois, quando tiveres repousado da viagem.
O semblante da velha toldou-se de melancolia, pois tinha pelo neto verdadeira adoração.
— Segue-me ao meu quarto, filho, conta-me tudo o que se passa, pois, de outro modo, sabes, não poderia ter qualquer descanso.
Silenciosos, mãe e filho atravessaram pequeno pátio interno e dirigiram-se para a ala do edifício destinado às mulheres e localizada no ângulo oposto.
Ao atingirem uma ante-sala ricamente decorada, Fábia recostou-se em ampla poltrona.
Apesar da sua idade avançada, via-se-lhe ainda os vestígios de uma beleza admirável: estatura mais que regular, mantinha-se inflexível ao peso dos anos.
Cabelos brancos, sedosos, olhos grandes e negros, deixava em tudo transpirar, da sua personalidade, aquele subtil encantamento que só uma existência ilibada pode dar.
— Obrigada, meu filho — disse ao receber-lhe das mãos alguns refrescos.
Manda sair essa gente e, enquanto aqui descanso, conta-me o que se passa com o nosso Cáius, pois, como que estou a ler nos teus olhos, algo de grave ocorre.
Semprônius tomou de uma cadeira e passou a expor sucintamente os amores de Cáius, o projecto de casamento e, por fim, aquela inexplicável moléstia que fazia do rapaz activo e folgazão um ser apático e indiferente, mesmo para os seus divertimentos favoritos.
— Quando te escrevi sobre esse namoro com a plebeia, não quis alarmar o teu espírito, acrescentando que esta Dafné é filha de Túlia, a miserável, a vilíssima Túlia que suspeitamos causadora da cegueira de Drúsus.
Há muitos anos perdemo-la de vista e agora, há poucos meses, ei-la que surge aqui, estabelecida com uma perfumaria no prédio de M. Mônius.
A velha matrona ergueu-se, branca de cera:
— E é a filha dessa mulher que ele ama?
Mas, isto é outro caso, nós não podemos consentir, jamais.
É bem verdade que não tivemos a prova do crime, mas quem, a não ser Túlia, poderia ter trocado aquela pomada?
— Não te deixes empolgar por estas recordações, minha mãe...
Antes do mais, precisamos pensar no rapaz.
Visando a distraí-lo, arranjei, para lhe fazer companhia, um jovem que deves conhecer por tê-lo visto em casa de Drúsus, quando estiveste em Roma:
— é o harpista Cláudius.
— Ah! sim; eu queria mesmo falar-te dele, pois fez reiteradas visitas a teu irmão, que, aliás, o estima.
Mas, o pior é que ele teve artes de conquistar o coração de Drusila e desejaria esposá-la...
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 08, 2017 8:24 pm

Ora, Drúsus que, bem sabes, nada tem de orgulhoso e nas suas horas de profunda melancolia sói deleitar-se com a música de Cláudius, parece que lhe favorece o plano; mas eu, por mim, me oponho, pois, embora seja Cláudius um homem honrado, não é partido para uma jovem rica e de nobre estirpe, qual a tua sobrinha.
A ela fiz ver tudo isso e prometeu atender-me, sob a só condição de lhe não impormos outro noivo e deixá-la ficar junto do pai, a quem, pela natureza do seu mal, ela se torna indispensável.
— Drusila é uma excelente criatura e havemos de cogitar do seu futuro — disse Semprônius.
Mas, minha mãe, não achas que estás sendo muito severa?
Cláudius é patrício e de uma família que goza de excelente conceito.
Quanto ao mais, filho terceiro de família arruinada, não podia deixar de fazer o que fez, isto é, ganhar a vida de qualquer forma.
— Voltaremos ao assunto e, por agora, o que urge é cuidarmos de Cáius.
Vai-te, deixa-me assentar um pouco as ideias.
Irei ter com ele e, depois de lhe falar de coração aberto, dar-te-ei minha opinião e meu conselho.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 09, 2017 8:41 pm

IV - Um passado

Pouco depois dessa entrevista, a velha matrona atravessava apressadamente os aposentos do neto e detinha-se na soleira do terraço.
Ele lá estava deitado, cabeça enterrada no travesseiro, como que profundamente adormecido.
Uma nuvem de tristeza sombreou o semblante de Fábia ao contemplar o rosto desfigurado do seu ídolo.
Aproximou-se de mansinho, inclinou-se e ficou a contemplá-lo com infinita ternura.
Depois, carinhosa, passou-lhe a mão pelos cabelos anelados e murmurou baixinho:
— preguiçoso...
O rapaz abriu os olhos e, reconhecendo-a, atirou-se-lhe ao pescoço, cobrindo-lhe a face de beijos.
— Tu, aqui? Mas, como é isso? papai nada me disse; do contrário, teria ido ao teu encontro.
Insistiu para que se assentasse e, colocando-lhe uma almofada aos pés, curvou-se, beijou-lhe as mãos enternecido.
A matrona por sua vez o cingiu com ternura e perguntou:
— Mas, porque venho encontrar-te assim desfigurado e abatido?
Semprônius já me falou a teu respeito e agora, meu filho, espero me abras o coração para que te possa consolar e aconselhar no transe que tanto perturba e prejudica a tua saúde e mocidade.
Ele permanecia cabisbaixo, incapaz de fixar os grandes olhos lúcidos e penetrantes, da avó.
Sabia perfeitamente que a mulher da sua paixão não podia convir à sua família e duvidava, outrossim, que a sua eleita rústica, rebelde, caprichosa, pudesse manter-se convenientemente no solar dirigido por aquela figura veneranda, que ele considerava símbolo da mãe-de-família e glória da sua estirpe.
Nada, entretanto, neste mundo o levaria a confessar que algumas alusões indirectas de Túlia lhe vergastavam, por vezes, o coração orgulhoso, como se foram látegos candentes.
“Eu sei” — dissera-lhe certa feita — “que te deixas dominar por teu pai e tua avó; que não tens vontade própria e só farás o que te permitirem... e eis porque te rogo nos visites o menos possível, malucando-me a pobre da filha”...
Posto soubesse quanto era querido dos seus, que lhe satisfaziam todos os caprichos, a ideia de que pudesse alguém considerá-lo um nulo, um autómato, exacerbava-o e mais o emperrava nos seus desígnios.
À luz daquele olhar bondoso e terno, que lhe deitava a avó, teve pejo de si mesmo; e reclinando a cabeça no seu regaço, sem ousar fitá-la, titubeou recalcitrante:
— Bem sei que Dafné não é mulher que convenha à nossa linhagem, como pessoa da família.
Já deixei de visitá-la e não peço mais a papai o seu consentimento para que nos casemos; mas, a verdade é que a amo acima de tudo e prometi esposá-la.
Para conjurar esta fraqueza e melancolia, nada posso fazer, não está na minha vontade.
Somente o que desejo é que não acredites seja eu capaz de fingir-me doente por causa de uma mulher, seja qual for.
Para mim, não há mulher merecedora de atitudes que tais, indignas de um homem-homem...
— Tranquiliza-te, filho:
— tua avó jamais presumiria em ti, e de ti, algo menos decoroso e eu me prontifico a reeducar essa moça para que se torne digna da posição
que lhe reservas.
Antes, porém, de uma resolução definitiva, permite que te exponha a biografia de Túlia, que, a meu ver, representou um papel infame na vida do teu desventurado tio.
E eu tenho um pressentimento de que a filha dessa mulher ser-te-á funesta; mas, se depois de me ouvires não quiseres ou não puderes desistir, comprometo-me a convencer teu pai, visto como a tua vida e saúde valem para nós mais que todos os preconceitos deste mundo.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 09, 2017 8:41 pm

O rapaz ajeitou as almofadas para que a avó melhor se acomodasse, meteu-lhe aos pés um escabelo e, retomando o seu lugar, concentrou-se todo ouvidos:
— Há cerca de vinte anos — começou ela dizendo — Túlia era uma esplêndida mulher, esbelta, elegante mesmo, de alva cútis e bastos cabelos louros.
Para mim, contudo, aqueles olhos azuis tornavam-se repulsivos, por traiçoeiros e frios que se me afiguravam.
Morava ela aqui em Herculânum com o pai, velho negociante de tecidos, chamado Túlius Enceládus.
A esse tempo, teu pai já estava casado em segundas núpcias e tinhas tu dois anos apenas; mas, teu tio Drúsus era solteiro e morava em nossa companhia.
Certa feita, procurando adquirir grande partida de fazendas para a rouparia dos escravos e nossa, Drúsus teve ensejo de ver Túlia e apaixonar-se por ela.
Qual a natureza das relações que entretiveram, foi coisa que jamais procurei averiguar, pois Drúsus sempre se mostrou reservado a tal respeito.
Somente um dia, explodiu... estava resolvido a casar-se!
Teu pai, que nutria pela rapariga uma aversão irresistível, perdeu a cabeça; e, como tivesse grande ascendente sobre o irmão, tratou logo de o dissuadir.
Além disso, o génio impulsivo de Semprônius levou-o logo a cortar o mal pela raiz.
Foi a casa de Túlia exigindo-lhe a desistência dessa união desproporcionada, que só lhe poderia ser fatídica e assegurando-lhe que jamais seria bem acolhida nas rodas patrícias e, mesmo ele, não a reconheceria por sua cunhada.
Apesar de tudo, argumentos e ameaças, Túlia revelou-se de uma tenacidade incrível, declarando que nada haveria no mundo capaz de a demover.
Teu pai foi ao auge da indignação e, valendo-se do forte ascendente sobre o irmão, exigiu que ele o acompanhasse a Roma, em viagem projectada para breve.
Drúsus esquivou-se, ficou, mas não falou mais em casamento.
Teu pai houve de partir sozinho, quase de relações cortadas com teu tio.
Foi uma fase bem dolorosa essa, da nossa vida, para mim e para tua mãe.
De um lado, a profunda tristeza de teu tio; de outro o génio irascível de teu pai...
Este, escreveu -me de Roma dizendo que seu amigo Flávius Sabínus era obrigado a partir, em viagem de negócios e, tendo-lhe
falecido a mulher, pedia-me que guardasse a filha única em minha casa, por alguns meses.
Acedi com prazer e pouco depois regressou teu pai acompanhado da jovem Sabina, que era, realmente, uma das mais lindas e meigas criaturas que tenho conhecido.
Em casa, todos lhe queriam bem e mesmo teu tio se comprazia em conversar com ela, pois Sabina não só era fascinadora quanto instruída.
Tais palestras se tornaram dia a dia mais longas, mais frequentes, mais íntimas, à proporção que rareavam as visitas a Túlia, até que uma noite, fui surpreender o jovem par lá no terraço, ambos emocionados ainda pela presumida declaração que se fizeram, tendo ela a cabecinha reclinada no ombro dele.
Drúsus corou logo que me viu, e tomando a jovem pela mão encaminhou-se para meu lado, dizendo:
— “Mamãzinha, aqui te apresento uma filha que, estou certo, acolherás com alegria.”
Por única resposta, concheguei-os ao coração.
Felizes, radiantes de alegria, apressámos o enxoval de casamento, após o qual deveriam os nubentes seguir para Roma, a fim de lá viverem na companhia de Flávius Sabínus, que, não tendo filhos, pretendia cometer a Drúsus a administração dos seus bens.
Não sei o que Túlia pensava de tudo isso; mas, a verdade é que todos a supúnhamos conformada, ao menos na aparência.
Realizaram-se as bodas ruidosas, pomposamente, mas logo no dia seguinte fomos feridos pela desgraça.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 09, 2017 8:42 pm

Nesta altura, preciso dizer que, havia pouco, Drúsus padecera de uma conjuntivite que lhe depilara parte dos cílios e o médico receitara uma pomada para fricção das pálpebras.
Pois bem:
no dia imediato ao casamento, achando-se Drúsus no vestiário, ouvimos um grito horrível e Sabina e Semprônius, que foram os primeiros a acudi-lo, encontraram-no caído ao chão e desmaiado!
Um velho escravo do seu serviço particular, todo trémulo, tentava esperta-lo e nada soube dizer do acontecido.
Voltando a si, Drúsus explicou que havia, como de hábito, friccionado as pupilas, quando, instantes depois, sentira uma dor atroz, qual se um dardo de fogo lhe perfurasse os olhos e o cérebro.
De nada mais se recordava.
E a verdade é que estava cego.
Chamado o médico, verificou-se que a pomada havia sido trocada por outra de aparência absolutamente semelhante, mas contendo um tóxico violento e corrosivo bastante para destruir Irremediavelmente a vista do meu pobre Drúsus.
Imagina o nosso desespero...
Mil conjecturas se fizeram sobre a autoria do crime, tanto mais inconcebível, quanto teu tio era benquisto e estimado de toda a gente.
Túlia, só ela, podia alimentar contra ele sentimentos de vingança.
A suspeita era geral, era unânime, mas, infelizmente, não havia provas.
Mal conformado com tamanha desventura. Drúsus seguiu para Roma acompanhado da jovem esposa, que lhe foi verdadeiro anjo tutelar na dedicação, no carinho, na bondade.
Alguns meses depois, Túlia casou com um perfumista e mudou-se daqui.
Depois, muito mais tarde, soubemos que estava morando em Roma.
Apesar da cegueira, o meu pobre Drúsus ainda poderia ser relativamente feliz, se uma também estranha morte misteriosa não lhe houvesse arrebatado a esposa.
Acabava ela de ter Drusila quando, certa manhã, a encontraram morta!
E picada por uma serpe! De onde poderia ter vindo aquela serpe?
Quem poderia tê-la intrometido no quarto da parturiente?
Eis o que ficou envolto nas dobras do mistério...
Mas a verdade é que uma certa mulher recomendada a Sabina para assisti-la durante a gestação, dizendo excelente parteira, acabou por desaparecer sem deixar traço de paradeiro...
E a mim ninguém me convence de que Túlia não compartilhasse deste segundo atentado, por vingar-se do infortunado Drúsus, que, cego e abandonado, deveria, ao seu pensar, acabar louco.
Foi uma parenta afastada de Sabínus quem se encarregou de criar a orfãzinha, já que não podia, por minha vez, abandonar-te também recentemente orfanado.
Suspirou longa e profundamente.
Cáius Lucílius tudo ouvira com vivacidade e interesse.
Depois de breve silêncio, disse:
— Mas, apesar de tudo, não há uma prova concreta da culpabilidade de Túlia.
E admitindo mesmo que ela tivesse assim procedido, seria uma razão a mais para arrebatar Dafné a uma influência maternal tão funesta.
Ela conta apenas dezoito anos e não é crível já esteja empeçonhada do vírus materno.
Outra coisa, vovozinha: não deveremos temer que a minha falta de palavra também redunde em cegueira?
A mão hábil que destruiu a vista do tio, pode também encontrar o roteiro dos meus olhos...
Fábia estremeceu e, num gesto de ternura e comoção, tapou com as mãos os olhos do neto.
— Que os deuses nos preservem de semelhante desgraça...
Olha, vou conversar com teu pai. Até logo, filho...
*
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 09, 2017 8:42 pm

* *
Ao sair da casa de Semprônius trauteando uma canção, Cláudius encaminhou-se por uma rua das que desembocam no mercado.
Diante de um alpendre resguardado por um toldo de lona, parou.
Ali, entre plantas raras, ramos e cestas floridas, uma bela rapariga entretinha-se a confeccionar uma guirlanda, toda absorvida na sua tarefa.
— Bom dia. Balbília...
Com quem e com que sonhas, assim mergulhada entre as tuas irmãs rosas?
Ruborizada e comovida, a bela florista saltou do escabelo.
— Até que enfim, seu demónio!
Há dois dias que gasto os olhos a espiar a rua deserta...
Pensei que me houvesses esquecido, ingrato...
— Espero que te hás-de arrepender, já-já, destas suspeitas — disse ele a rir-se —, mas, olha, não podíamos conversar um pouco mais à vontade?
Bem vê que aqui, assim, ficamos mal acomodados.
— Vem cá...
Abriu uma portinha encravada no muro e fê-lo atravessar dois compartimentos escuros e estreitos, depois um corredor que dava para o pátio interno, todo murado.
Estrados e canteiros ornados de plantas e flores ocupavam todo o centro, onde, de uma bacia de pedra, esguichava um fio d’água.
— Assenta-te aqui, meu maroto — disse a moça conduzindo-o para debaixo de uma latada espessa, junto à parede da casa —, isto enquanto despacho Agra para o mercado, e volto a trazer-te uns belos refrescos...
Depois... conversaremos à vontade, porque o papai foi ao grande horto e não estará de volta antes da noite.
Foi-se e de fato logo voltou trazendo uma bilha de vinho, uma copa de alabastro e um cestinho de bolos.
Depositando a merenda na mesinha ao lado, encheu a copa e disse prazenteira:
— Bebe! é a melhor pinga que o pai reserva para os amigos...
Eu cá, sei como substituí-lo no tonel, por outro menos precioso, sem que um e outros dêem pela coisa.
O musicista cingiu-a pela cintura, ergueu a copa:
— À tua saúde e ao nosso amor, Balbília!
— Oh! — respondeu ela suspirando, a brincar com as trancas louras — quando é que os deuses consagrarão o nosso amor e te facultarão os meios de esposar-me?
Tivesse eu coragem para tudo confessar ao papai e talvez tudo se arranjasse, pois sei que ele é muito rico e eu sou filha única...
Mas, também sei que haveria de enfurecer-se, dar por paus e por pedras, de vez que odeia os patrícios, chama-lhes cambada de orgulhosos e afirma que fugir de negócios com eles é o mesmo que fugir de ser tratado como cão.
Além disso, pensa em casar-me com Públius, o jovem jardineiro do parque, a quem estima como filho.
Cláudius mostrava-se contrafeito com a loquela.
— Porque te preocupas assim de coisas tristes? — e logo insidioso — é só teres paciência, calar o nosso amor, por enquanto, e tudo mais se há-de arranjar...
Agora, veja o que aqui te trouxe.
Tirou de sob o manto um embrulho envolto no lenço de seda e depositou-o no regaço da moça, que logo o abriu curiosa e sôfrega:
— Ah! que beleza! — exclamou, tirando umas sandálias douradas, um espelho de metal ricamente emoldurado e um frasco de prata cinzelado e cravejado de turquesas, pendente de um cordão de ouro.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 09, 2017 8:42 pm

— Obrigada, querido Cláudius... — E esfregava as mãos de contente.
Depois, lançando-se-lhe ao pescoço:
— Como podes falar em pobreza, quando me compras presentes assim tão caros?
Ele sorriu constrangido, e retrucou:
— Se te afirmo que sou pobre, deves compreender que se trata de uma pobreza relativa, isto é:
que para um homem da minha condição não basta o que possuo, o que não quer dizer que me não sobre o suficiente para obsequiar a minha Balbiliazinha...
Seria lá capaz de confessar que aqueles preciosos dixes lhe provinham da generosidade de Cáius Lucílius?
Ou não tivesse ele carácter assaz mesquinho para gozar, perante aquela ingénua criatura, da reputação de homem desprendido e superior à própria condição.
Meia hora mais de banal conversa, levantou-se:
— Agora, não há remédio senão deixar-te, pois ainda me resta uma tarefa a cumprir.
É que Cáius está enfermo e pediu-me levasse a Dafné alguns mimos e um rico ramalhete de flores, que me vai fornecer.
Passaram-se à loja, Balbília escolheu um ramalhete de rosas vermelhas, presas por um rubi de cambiâncias auri-rubras.
— Eis aqui:
rubi e rosas rubras como a paixão do belo Cáius — disse ela sorrindo.
— E, penso, podes pagar-me dobrado, porque o herdeiro do opulento Semprônius não há-de ser cainho nestas coisas de amor...
— Mas, certamente — respondeu Cláudius, enquanto depositava na escudela uma moeda de ouro.
Saudou a jovem e partiu.
De caminho, enrolando aos lábios um subtil sorriso, cínico e zombeteiro, ia murmurando:
néscia criatura... está mesmo convencida de quo sou capaz de casar com ela...
Não digo que me não conviesse para... amante, mas... como mulher do patrício Cláudius, lá isso é que não, nunca!
Isso é papa-fina, que reservo para a herdeira do riquíssimo Drúsus, dado que as infernais divindades não me estraguem os planos.
Absorto nesses projectos de futuro, chegou a ir além da perfumaria.
Ao dar pela distracção, virou nos calcanhares, montou os degraus da loja e espiou para dentro.
Túlia lá estava, só, preocupada, a contar e empilhar moedas.
E tinha uma tal expressão de ferocidade, que o mancebo não deixou de ficar surpreendido.
— Bom dia — exclamou, detendo-se à porta.
A mulher ergueu-se de supetão.
— Sê bem-vindo e dize que ventos aqui te trazem.
— Venho da parte de Cáius.
Onde está Dafné?
— Olha, vem cá e vê se lhe podes dar um tanto de juízo — disse, abrindo a porta dos fundos.
Dafné estava deitada num sofá, de rosto voltado para a parede.
Tremia e soluçava, convulsivamente; com as mãos crispadas arrancava os cabelos, esperneava, era um perfeito animal enfurecido.
— Louquinha, não maltrates assim o teu piloso tesouro — gritou-lhe a mãe.
Olha quem aí está é Cláudius, e traz notícias de Cáius...
Ele não te esqueceu, ouviste?
Está doente, apenas.
Em tal coisa ouvindo, a moça acalmou-se.
O vestido em desalinho descobria-lhe os seios; os cabelos desgrenhados a caírem-lhe pelo rosto, antes pareciam a juba de um leão; os olhos túmidos deixavam correr pelas faces algumas pérolas da sua cólera.
— Besta! que bem te faria agora uma boa tunda de chicote — conjecturou Cláudius, ao contemplar com enfado aquela amostra de estupidez amorosa.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 09, 2017 8:42 pm

Contudo, bastante prudente para calar uma opinião que poderia prejudicá-lo de futuro, caso Cáius viesse a esposar aquela fúria, limitou-se a exclamar com fingida quão afectuosa compaixão:
— Pobre Dafné, enxuga essas lágrimas, consola-te; ele está doente, é verdade, mas enviou-me a saudar-te e trazer-te estas tabuinhas escritas de próprio punho: mais, ainda, este estojo com um miolo de regalo.
Ela atirou-se ao embrulho, desfê-lo em três tempos e retirou o conteúdo, idêntico ao de Balbília.
Depois, tomou de um espelho e pôs-se a remirar nele, com o cordão já cingido ao pescoço.
Alisou os cabelos e disse, voltando-se para Túlia:
— Tenho a garganta seca, dá-me um refresco.
Mal a porta se fechou atrás de Túlia, lançou-se de olhos acesos ao jovem músico, que se assentara no escabelo.
— Obrigada pelas boas-novas.
Pensei que tudo estivesse acabado, mas, agora, estou radiante, como vês.
Isto, dizia, abraçando e beijando freneticamente, nos lábios, o moço patrício.
Nada obstante uma fugaz surpresa, Cláudius era bastante depravado para deixar de repelir as investidas de uma bela mulher.
Carícia por carícia, correspondeu-lhe aos transportes, efusivo também.
— Espero Dafné, que, ao te tomares rica e patrícia, ao demais, não me recusarás os teus carinhos, pois só o amor te poderia inspirar este gesto de reconhecimento pelo meu trabalho.
— Pois então? também me agradas e hei-de ajudar-te, desde que disponha da bolsa de Cáius, esse palerma que se deixa governar por todo o mundo.
Tivesse ele um pouco de energia e há muito estaríamos casados, em vez de me fazer alvo da chacota dos vizinhos...
Ah! mas também te asseguro que ele não perde por esperar.
E cerrava os punhos à guisa de ameaças.
Ouviram-se passos, ela desprendeu-se dos braços de Cláudius e dissimulou como se examinasse um frasco.
— As tabuinhas? — perguntou Túlia, passando à filha uma taça, logo esvaziada com avidez.
Cláudius entregou-lhas e ela leu:
“Cáius Lucílius, à Dafné, envia uma terna saudação e roga a Eros que a proteja e conserve de boa saúde, para maior glória do seu amor.”
— Mas, é muito gentil o que ele escreve!
Que pena tenho de não saber ler...
Mas hei-de guardar bem esta mensagem.
Túlia ponderou que o analfabetismo era coisa secundária e o essencial seria guardar bem aquela lembrança, ao mesmo tempo que a encerrava na caixinha..
Cláudius levantou-se.
— Que queres que eu diga ao Cáius? — e sublinhando a frase com sorridente ironia:
— Quererás que lhe transmita um beijo ardente?
Ela enrubesceu e a mãe interveio meneando a cabeça:
— Isso não tem cabimento...
Olha, toma uma rosa daquele ramalhete, beija-a e manda-lha em sinal do teu...
Um forte rumor na loja não lhe permitiu concluir.
Saiu apressada.
Dafné fez como lhe dissera, tomou de uma rosa, beijou-a e, entregando-a ao músico, disse com olhos expressivos:
— Volta breve, meu gentil mensageiro de Eros, e acredita que serás sempre bem recebido...
Cláudius apertou-lhe a mão e sussurrou-lhe no ouvido:
— Olha, o ramalhete é meu... guarda segredo.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 09, 2017 8:42 pm

V - O noivo

Quinze minutos após a saída de Cláudius, um grito vindo da loja interrompeu Dafné toda embevecida a contemplar e experimentar os presentes agora espalhados na pequena mesa ao lado.
— Mamãe está discutindo com alguém cuja voz não me é estranha... quem será?
Levantou-se, curiosa, entreabriu a portinha e soltou um grito abafado.
De pé, na loja, deparava-se um rapaz alto e magro, fisionomia dura, enérgica.
Depositara numa cadeira um grande embrulho e falava acaloradamente com sua mãe, que, conturbada e aflita, mal podia disfarçar o seu enfado.
— Rutuba! descobriste-nos afinal — exclamou caminhando para ele.
— Sim. Mas o que eu estranho é que tua mãe viesse sem me comunicar.
Vocês poderiam, suponho, aguardar o meu regresso, poupando-me esta ausência de mais de um ano.
Isto porém, agora, pouco importa.
Meu tio faleceu legando-me uma bela granja vinhateira.
Agora, já tenho de sobra com que viver e venho apenas reclamar a mão de esposa que teus pais me prometeram há três anos.
Quanto a ti, Dafné, sei que não te esqueceste.
— Tudo isso é verdade, meu caro Rutuba — disse Túlia em tom meloso —, a tua fidelidade só te pode honrar; entretanto, depois que nos separámos ocorreram graves acontecimentos que modificaram radicalmente os nossos projectos.
Acompanha-me lá dentro para que melhor nos expliquemos e tu, Dafné, fica aqui para atender a freguesia.
Pálido, carrancudo, sem algo objectar, o rapaz passou-se ao compartimento interior.
Seu primeiro olhar incidiu naquela mesinha atulhada de preciosas bugigangas, dixes inúteis, provocando-lhe um sorriso amargamente sarcástico.
Túlia, assaz contrafeita, tirou do armário um botijão de vinho, pão e carne, que depositou na mesa, depois de enfurnar atabalhoadamente na canastra aqueles objectos comprometedores.
— Deves estar fatigado da viagem — continuou, fingindo-se amável —, e enquanto comes vou contar-te o que sucede, como quem se confessa a um amigo...
Rutuba engoliu um trago da pinga e, sem tocar no resto, encostou-se à mesa, fixando a interlocutora com olhos severos e penetrantes.
— Já prevejo que não me queres mais para teu genro.
É intuitivo, não precisas dizer-mo.
O que resta, somente, é inteirar-me dos motivos dessa resolução...
Ela bateu-lhe no ombro afavelmente.
— Meu caro Rutuba, é uma fortuna imprevista que desponta para o futuro da minha Dafné:
imagina que Cáius Lucílius, sobrinho daquele opulento Drúsus que tu conheces, está apaixonado por minha filha e promete desposá-la.
Ele próprio me disse que apenas aguarda c consentimento paterno.
— E não perderá por esperá-lo — disse Rutuba ironicamente —, pois eu conheço o altivo Semprônius e sei que ele jamais consentirá um enxerto plebeu na sua estirpe, a menos que tenha mudado, isto é, que já não seja aquele mesmo homem que impediu a ligação de Drúsus com uma plebeia igualmente ávida de fortuna e grandeza.
Os olhos da florista fuzilaram de ódio.
— Ainda não te disse que Cáius é, sem dúvida, o mais belo dos homens de Herculânum e que Dafné o ama loucamente.
Esverdeado livor cobriu as faces do jovem romano, acendendo-lhe o olhar de fulgurações estranhas.
— Dafné ama-o? e eu que acreditava fosse a tua louca ambição o móvel único de tudo isso!
Mas, nesse caso, nada me resta fazer aqui.
É claro que não posso impedir tua filha de casar-se com um patrício.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 09, 2017 8:43 pm

Mas, porque voltar tão depressa? Acalma-te...
Não tenciono voltar a Roma, que não quero que La se riam de mim, por me verem sem a mulher prometida.
Hei-de conseguir colocar-me por aqui mesmo, para contemplar, ainda que de longe, a nobre patrícia Dafné.
Em ouvindo essas palavras, a moça que espreitava atrás da porta experimentou uma viva inquietação.
Seria pressentimento de que o noivo repudiado pudesse comprometê-la perante Cáius Lucílius?
Ela bem conhecia o carácter enérgico do rapaz, cujo olhar lhe estancara mais de um daqueles seus acessos de raiva.
Leviana e cúpida, sempre se deixara cortejar com os presentes que Rutuba lhe ofertava e correspondia-lhe como a qualquer homem de boa aparência que se lhe deparasse.
Mas, tanto que pressentiu nele um marido autoritário, arrefeceu-se-lhe o entusiasmo.
Ao demais, tendo já experimentado o corrosivo efeito da munificência de Cáius, só desprezo e indiferença lhe causava o que outrora motivo fora de alegria.
Rutuba, por sua vez e muito mais do que ela poderia presumir, tinha-lhe estudado o carácter; conhecia-lhe o feroz egoísmo, a leviandade, a cupidez; sabia que aquela boca de lábios rubros estava sempre pronta para morder a mão que pretendia acarinhá-la.
Ainda assim, amava a sua beleza de linhas impecáveis, aquela cabeleira de ouro fulvo, aqueles olhos vivos e profundos...
Sonhava, desejava possuí-la, ao mesmo tempo que esperava dominar-lhe a tigrina maldade a chicote, quando lhe falhassem os recursos de influência moral.
Dafné não deixava de ter razão temendo a vingança possível daquele homem duplamente ofendido, no seu amor próprio e na sua paixão.
Foi por isso que, dando à fisionomia expressão de viva mágoa, entrou no aposento e, contorcionando as mãos, exclamou lamentosa:
— Rutuba, meu querido e fiel amigo! choro a tua perda, crê; e nunca como neste momento experimentei a realidade do nosso amor.
A nenhum homem poderei amar como te amo, mas... que fazer?
Mamãe assim o quer.
Em compensação, quando eu for poderosa e rica, hei-de cumular-te de ouro e presentes outros...
Mie fitou-a firme e friamente; depois, segurando-lhe o braço, sacudiu-a:
— Não mintas, não te rebaixes em arrancar lágrimas de olhos secos. Eu te conheço e sei o que em ti me despertou amor:
foi a tua beleza plástica e não a tua alma hipócrita e ingrata, só capaz de amar as pessoas pelos bens que possuem.
Os presentes, que ainda há pouco aqui vi, deveriam mesmo tornar-me supérfluo...
Neste momento, tremes supondo-me capaz de ir à presença de Cáius Lucílius e denunciar-lhe as prendas do teu carácter.
Tranquiliza-te, porém, porque desmanchar este teu plano seria, para mim, apenas um mínimo de vingança...
Olha, casa-te com o filho de Semprônius, mas guarda-te bem de lhe revelares o fundo da tua alma naquelas crises de raiva em que te rebolcas e desgrenhas corno louca, rasgando as roupas e mordendo, furiosa, aquela pobre e velha escrava, único ser que até hoje os deuses te permitiram atormentar...
Vai-te qual és, rude, vulgar, impulsiva; imiscui-te na família do austero Semprônius e da impoluta Fábia... mas, não te esqueças que essa gente tem melindres de honra diferentes dos nossos.
Sei eu, minha casta Dafné, quanto gostas de abraçar o primeiro rapaz que o acaso te depara, tanto que o possas.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 09, 2017 8:43 pm

Pois lá, essas coisas não se toleram jamais, e no dia em que Cáius Lucílius te descobrir qualquer vilania, serás expulsa a chicote.
E será essa, então, a minha única vingança, vingança que há-de vir, que virá fatalmente, porque tu não és capaz de dominar as paixões viciosas que te corroem a alma.
Lívidas, mudas, estupefactas, as duas mulheres tudo ouviram sem protesto.
Rutuba mediu-as de alto a baixo, enojado:
— Estão admiradas com o conhecimento que tenho da minha ex-noiva?
Se assim é, também eu espero que ela ainda terá ensejo de admirar a minha sagacidade, até o momento em que haja de arrepender-se por não haver aceitado o marido plebeu que a conhecia e acolhia tal como era...
Gargalhou e saiu impetuoso, estrondando com a porta.
Túlia levantou a cabeça e, procurando os olhos da filha, ainda confusa e consternada, disse gravemente:
— Este homem é um inimigo perigoso, astuto quanto ousado; portanto, toma cuidado, trata de ser prudente e fiel, deixa essa coisa de namorar a todo mundo.
Cáius Lucílius é belo e generoso, mas também lhe tenho surpreendido no olhar relâmpagos que indiciam nele um impulsivo, capaz de, na desafronta dos seus brios ofendidos, tornar-se cruel como as feras que ele tanto se compraz em amansar.
Os homens violentos gostam das mulheres calmas e ele sempre conviveu entre patrícias ciosas da sua dignidade, quais Fábia, Metela, Virgília, etc.
Não te reveles a ele senão como capaz de te tomares uma esposa bondosa, obediente.
Por mim, digo que o casamento é viável, mas a ti compete assegurar-lhe as vantagens, mantendo-te na posição conquistada sem dar razão a Rutuba, que, aliás, não deixa de tê-la.
A tua identificação, a comunhão doméstica com Cáius é tão problemática e arriscada que eu mesma embargaria o lance, se com ele não me prouvera vingar a velha ofensa de Drúsus e de Semprônius...
— Ah! — exclamou a moça — queres, então, imolar-me à tua vingança e ainda por cima envenenar meus prazeres e meus sonhos de futuro?
Entrou a soluçar, atirou-se na cama a esgadanhar-se, a vomitar contra a mãe uma torrente de impropérios e recriminações.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 09, 2017 8:43 pm

VI - O camafeu de Tibério

Num pequeno pátio interno da casa de Marcus Fábius, que comunicava com o corredor junto da escada, reboavam gritos e clamores.
Um magote de escravos premia-se em torno do feitor, que segurava pelo gasnete o pequeno Gundicar, ao mesmo tempo que uma mulher de mãos à ilharga gritava com voz estentórica:
— Canalha! gatuno precoce, desaforado!
É preciso enforcá-lo ou dar-lhe de rijo, até matar.
Ontem de manhã, a patroa tirou do estojo o camafeu e colocou-o sobre o toucador.
Tinha-o na mão quando este patife foi ao terraço levando um recado do patrão, e eu não deixei de notar a avidez do seu olhar, fixando a jóia.
Hoje, o camafeu não aparece:
já remexi, já revolvi tudo, gavetas, escaninhos e... nada!
— Confessa, animal, onde puseste o roubo ou eu te esgano aqui mesmo — disse o feitor, a sacudir violentamente o rapazelho.
Testa franzida, lábios cerrados, cadavericamente lívido, o adolescente deixava-se bater e maltratar sem um gemido.
— Desgraçado! ninguém, senão tu, podia ter furtado a jóia...
Calas-te? Pois bem:
vou desatar-te a língua...
O chicote serpenteou no ar e estalou nas costas do pequeno em lambadas frenéticas, violentíssimas.
Ele se acocorava cruzando os braços, mas, sempre mudo.
A cada vergastada tingia-se-lhe de sangue a camiseta e o feitor como que mais se exacerbava, repetindo:
— Confessa, maldito, ou mato-te.
Nesse comenos, Virgília assomou à porta do corredor.
Regressava do habitual passeio acompanhada da ama e do filhinho, quando foi atraída pelo alarido.
Ao deparar com aquele espectáculo e notando o pequeno ensanguentado, empalideceu e perguntou:
— Que fez ele para ser assim castigado?
— Senhora — exclamou a criada —, sumiu-se o camafeu, e ontem, quando a senhora o tinha em mão, Gundicar foi ao terraço e lá o viu...
Juro que foi ele quem o furtou e agora não quer dizer onde o escondeu.
Virgília afastou-se sem articular palavra, subiu as escadas de cenho carregado.
Outro qualquer escravo assim cruentamente flagelado ter-lhe-ia despertado comiseração e indulto; aquele rapaz, porém, era-lhe odioso pela voz, pelo olhar, por tudo enfim, que ela sentia, mas não podia definir.
Quanto ao camafeu de Tibério, detestava-o igualmente, embora fosse uma relíquia preciosa que a imperatriz Plantia Urgalanila dera a avó de Marcus Fábius.
A pedra admirável, que representava o belo e altivo porte de Tibério quando moço, cercada de soberbos rubis e pendente de um cordão de ouro, constituía um medalhão, apenas desbotado de um lado, como se houvesse sofrido a acção do fogo.
A respeito da origem dessa jóia que, diziam, o tirano jamais deixava de levar consigo, corriam desencontradas versões:
afirmavam uns, em tom de zombaria, que era por excesso de autolatria; outros que por superstição, e finalmente os que estimavam no imperial fetichismo uma simples lembrança de mulher muito amada.
Verídicas ou não, tais lendas haviam suscitado em Virgília uma profunda ojeriza pelo precioso medalhão, a ponto de jamais o ter usado.
Mal dera costas ao deprimente e bárbaro espectáculo, quando, na outra extremidade do pátio, uma porta se abriu para dar passagem a Marcus Fábius.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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