Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 14, 2017 10:07 pm

No centro do semi-círculo, encostado ao tronco de uma árvore, estava um homem de mediana estatura, cingindo alva túnica, com um manto escuro.
Embrenhei-me na multidão, procurei colocar-me do melhor modo possível para ver e ouvir o pregador, mas logo ao primeiro golpe de vista, diante daqueles traços fisionómicos, finos e regulares, bateu-me o coração emocionado.
De facto, o que tinha diante de mim era uma personalidade única, inconfundível, a irradiar um encanto e um fascínio irresistível.
Sedosos, anelados, castanhos cabelos rolavam-lhe pelas espáduas, moldurando um rosto pálido, levemente tostado do Sol; a boca se lhe desenhava em plissura sintomática de energia, mas, de energia temperada de bondade indefinível.
Diga-se, porém, que o que mais impressionava eram os olhos de um azul profundo, com tonalidade de safiras e uma agilidade de expressão que parecia torná-los cambiantes, como se fossem ora negros e fulgurantes, ora azuis e macios, da maciez azul da abóbada celeste.
Discorria sobre a imortalidade da alma, falava da frivolidade dos gozos terrenos e das delícias que constituem o património dos pobres, dos sofredores, no reino do Pai celestial.
Não me sinto capaz de lhe reproduzir as palavras, que ser algum, também, pudera dar ao verbo aquela sua eloquência divina, que comovia e consolava; a magia daquela voz que mergulhava nas camadas mais ínfimas do povo, e cujas modulações e ressonâncias timbravam todas as fibras da alma.
Empolgado, subjugado, ouvia-o com avidez crescente, admirado em meu foro íntimo de como pudesse uma tal criatura ser considerada perigosa, de vez que o desprendimento por ele predicado só poderia tornar os homens desambiciosos e
humildes.
Naquele momento, a mim mesmo se me figurava inútil a vida, desde que não tendesse para uma finalidade celeste, qual a descrevia e inculcava.
Terminada a predica, a turba se adensou e comprimiu em torno do Mestre, vários enfermos lhe foram apresentados e eu vi, com estes olhos, que uma criança paralítica das pernas foi, ao colo da mãe, instantaneamente curada a um só contacto seu...
Depois, começou a debandada e Ele, seguido de uns poucos homens (que me disseram ser os discípulos), desceu pela encosta da colina.
Ao passar rente comigo, deteve-se de súbito e mergulhando no meu o seu olhar profundo, de expressão indizível, murmurou baixinho:
centurião, renuncia à tua tarefa, já que minha palavra penetrou teu coração; justo, hás-de ser comigo, e convence-te de que os que insinuaram ao teu chefe que me vigiassem, têm em mira outra coisa...
Seguiu, esboçando ligeiro sorriso, deixando-me petrificado.
Seria um feiticeiro?
Ou seria um Deus que adivinhava meus pensamentos e desvendava, através do disfarce, a tarefa que ali me conduzira?
Intimamente conturbado, regressei a Jerusalém e no meu relatório afirmei que, a meu ver, a predicação daquele homem de modo algum atentava contra a segurança e a paz do Estado, antes, pelo contrário, tendia a destocar dos seus discípulos quaisquer ambições mundanas.
Ao ler esse relatório, meu comandante sorriu, dizendo:
ainda bem que me não enganei; é apenas uma questão de melindres pessoais, de sacerdotes e fariseus a quererem fazer deste censor dos seus abusos um inimigo do imperador.
Daí por diante, comecei a sentir um vivo interesse por Jesus e pela sua doutrinação.
Não mais o perdi de vista.
Tive ocasião de ouvi-lo ainda algumas vezes, sempre que mo permitiam o serviço e as circunstâncias.
Ouvindo-o, convenci-me de que era um grande reformador, que proclamava a igualdade, condenava a injustiça, a opressão do fraco pelo forte, e apelava para a consciência do homem, no intuito de o elevar a um nível moral superior.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 14, 2017 10:07 pm

Assim passaram alguns meses.
Aproximava-se a Páscoa dos judeus e eu não podia cogitar da pessoa do Mestre, tomado todo o tempo com o serviço, pois além da afluência de peregrinos que vinham celebrar as festas, também o procônsul Pilatos fora a Jerusalém e não faltavam trabalhos extraordinários.
Uma noite, entrando em casa, fatigado, notei surpreso que Abigail me esperava e tinha os olhos vermelhos de muito chorar.
Contou-me, então, que seu irmão mais velho, de guarda ao templo, viera apressado dizer-lhe que um grande perigo ameaçava o bom do profeta de Nazaré.
Era o caso que, dias antes, ao entrar na cidade, fora ele recebido e aclamado com palmas e flores, por toda uma multidão em delírio.
Sacerdotes e fariseus, furiosos e despeitados com o evento daquelas ovações a um homem que, a seu ver, desobedecia aos seus mandamentos e nem guardava os sábados, tramavam-lhe a perda e, nesse propósito, já se haviam combinado com um dos discípulos, pois David (assim se chamava o irmão de Abigail) vira por duas vezes um deles acercar-se do Grande Sacerdote e presumia que, naquela mesma noite, o profeta seria preso.
Onde, não o sabia ele dizer.
Amando a Jesus e sabendo que também eu o admirava, David viera preveni-la, na persuasão de que com o meu auxílio se pudesse ainda a tempo avisar o Mestre para que fugisse.
Essas notícias amarguravam-me profundamente.
Aliás, também ouvira falar daquela entrada triunfal em Jerusalém, mas não ligara ao evento consequências pessimistas.
Grato me fora poder, na emergência, salvar aquele homem de bem, cuja vida valia um programa de obras caritativas; mas a verdade é que não tinha a menor ideia do sítio em que poderia encontrá-lo, naquele momento.
E o grande caso é que não pude dormir toda a noite, afigurando-se-me diante dos olhos a sua fisionomia serena e caroável.
Em vão excogitava um meio de poder salvá-lo e, mal despontava o dia, abalei a correr para o palácio do procônsul.
Esperando lá encontrar David, dei volta ao templo, que não ficava longe, e junto à porta que dava para a sala do pontífice, encontrei efectivamente o rapaz, que me informou da prisão e imediato julgamento de Jesus, já “a caminho do pretório, para a confirmação de Pôncio Pilatos”.
Nes3a altura, o eremita calou-se e procurava enxugar as lágrimas que lhe corriam pela face.
Cáius Lucílius, comovido, interpelou com vivacidade:
— E foi condenado o inocente?
Como pôde Pilatos sancionar uma tal iniquidade?
— Decretos da Providência, filho...
Escrito estava nos astros, desde os primórdios do mundo.
O procônsul bem que tentou salvá-lo, mas o povo, cego e fanatizado pelos sacerdotes, não lho permitiu.
O divino mensageiro do Pai celestial houve mesmo de ser ultrajado, flagelado e condenado a morrer na cruz.
Mais tarde te contarei episódios desse martirológio horrível, pois de momento
Sinto-me incapacitado de o fazer e quero limitar-me às minhas impressões pessoais.
Eu já admirava e amava a Jesus; mas, à vista da sua paciência, doçura e sobre-humana majestade, com que suportava todos os martírios, haveria de ligar-me a ele irrevogavelmente, de sorte que, por salvar-lhe a vida, daria mil vezes a minha própria vida.
Pronunciada a sentença, o preso foi confiado à minha guarda, até o instante em que devia partir, com dois outros condenados, para o lugar do suplício.
Para passar as poucas horas que lhe restavam, fi-lo recolher a um compartimento que dava para o pátio, no qual permanecia a escolta.
Fingindo rigorosa vigilância, postei-me à porta do compartimento e acabei, finalmente, por lá entrar.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 14, 2017 10:08 pm

Foi então que vi Jesus ajoelhado junto de um banco de pedra, todo absorvido em prece fervorosa.
Seu rosto pálido, macerado, estampava os sofrimentos atrozes que lhe haviam infligido.
— Mestre — disse, aproximando-me —, não posso conformar-me que, sendo tu tão bom e tão puro, pereças assim de morte infamante...
Deixa-me salvar-te, toma a minha armadura, este manto e esta chave; abre a portinha que ali vês e que dá para um estreito corredor, ao fim do qual te encontrarás numa viela deserta; dali irás a minha casa, onde moram pessoas dedicadas que te facilitarão a fuga da cidade...
Deixa-me morrer em teu lugar, porque a vida de um soldado obscuro não vale a de quem, como tu, é providencial e benéfica aos enfermos e desgraçados...
Ele se levantara logo às minhas primeiras frases e seu rosto transpirava uma calma celeste...
Olhava-me com um velado olhar de melancólica doçura e assim falou:
“— Agradeço-te e muito aprecio o teu devotamento, mas, não posso aceitá-lo.
Acaso consideras menor o meu sacrifício, se houvera de permanecer neste mundo em que me é tão difícil praticar o bem?
Não, amigo, eu não deploro a minha sorte, a mesma que tiveram os profetas que me precederam, mortos pelos homens.
Mas, não suponhas, também, que eu desdenhe o sacrifício da tua vida (parou com os olhos no vácuo, dando à fisionomia uma feição singular), pois tu hás-de morrer por mim e estou a ver as chamas da fogueira que te espera...
Mas, isso não será por agora...”
E, como se quisesse rechaçar longínqua visão, esfregou os olhos e concentrou-se.
— Que dizes com isso, meu pai João?
Será que estejas mesmo fadado a morte assim horrível? — atalhou Cáius.
— Filho, certa feita, cheguei a crer-me destinado à glória do martírio, quando milhares de irmãos tombaram imolados à sua, à nossa Fé; e foi quando tive um sonho profético, que me assinalou essa glória para uma existência futura1. Deixa-me continuar.
Concentrando-se um instante, disse:
— Vejo que me pertences, que minhas palavras te tocaram o coração, e assim vou, por um sinal, incorporar-te à comunhão dos crentes...
Tomou de uma bilha que ali estava sobre um banco, enquanto eu me ajoelhava tirando o capacete.
— Em nome do Pai celeste, criador e senhor de todas as forças do corpo e da alma, eu te franqueio a fonte da Verdade, para que prossigas proclamando-a aos deserdados da Terra...
E assim falando, derramava a bilha sobre a minha cabeça.
1 João Huss, queimado em Constança em 1415.
Senti um calor benéfico, um indizível bem-estar a invadir-me todo o corpo.
Levantei-me, beijei-lhe a túnica, mas, nesse instante, vi que ele empalidecia e como que vacilava.
— O espírito é forte mas a carne é fraca — disse, procurando assentar-se e sorrindo com tristeza —, nada obstante, quero dizer ao último dos meus discípulos algumas palavras de ensinamento.
Eu tive por missão lembrar à Humanidade que o bem-estar do corpo deve subordinar-se à felicidade do espírito.
A vida terrena é apenas uma etapa no caminho da perfeição.
Não na conceitues, portanto, esta vida corporal, senão pelos benefícios que fizeres; perdoa aos teus inimigos, por isso que o ódio só pode ligar-te maiormente a eles; e ora sempre com fervor, pois a prece te unirá à divindade e te fará esquecer as misérias mundanas, clareando teu espírito e fortalecendo-o para que possas pagar o mal com o bem.
Esses que agora me condenam e contra os quais te revoltas no imo do teu coração, assim procedem porque não me compreendem; e os sacerdotes só me odeiam porque lhes censuro os abusos, sem quererem reconhecer que o meu ensino só poderia abrandar os corações e encher e dignificar os seus templos.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 14, 2017 10:08 pm

Esse estado de coisas ainda perdurará por séculos e séculos...
(Seu olhar parecia embeber-se em quadros longínquos).
A semente que espalhei germinará em lutas, mercê das quais progredirão uns e fracassarão outros.
Sim! Milhões de homens hão-de tornar-se meus filhos, ovelhas do meu rebanho, mas, também, quanta crueldade e quantos massacres se consumarão em meu nome!
Quanto sangue há-de correr em nome de quem proclama a igualdade à face do Eterno, cujo amor se estende a todas as criaturas!
Aqueles mesmos que ora me renegam, hão-de proclamar-me entre martírios, e tempo virá em que as minhas palavras hajam de ser adulteradas, repelidas e esquecidas de muitos povos, cuja fé vacilará.
Será então, quando lhes enviarei o Espírito de Verdade e a cortina que barra a pátria da alma se rasgará:
os mortos ressuscitarão e falarão aos homens por diversos meios.
Outras coisas quisera ainda dizer-te, mas teu espírito não está preparado para compreender-me.
— Mas a morte infamante que te aguarda, não te intimida, Mestre?
A mim se me enregela o coração só no imaginá-la.
As lágrimas sufocavam-me.
— Pastor do rebanho todo, desde o dia da criação deste mundo expiatório, a mim me compete esclarecê-lo e selar com o próprio sangue as verdades que predico.
Tal é a vontade do Pai.
Um barulho de vozes no corredor interrompeu nossa entrevista.
Apressei-me em sair e vi, com surpresa, uma mulher ajoelhada em atitude de súplica aos soldados.
Não era jovem, mas o semblante pálido e agoniado revelava os vestígios de uma formosura que deveria ter sido deslumbrante.
— Quem é e que pretende essa mulher? — perguntei, aproximando-me.
— É — respondeu um soldado — a mãe do condenado, que pede licença para entrar e falar com ele.
Os olhos dela me fixaram com tal expressão de angústia que tive um calafrio.
— A justiça — disse-lhe gravemente — condenou o culpado, que poucas horas terá de vida; mas a lei não impede a mãe de ver e despedir-se do filho; apenas, para que ela não vá transmitir ao preso qualquer mensagem suspeita, eu próprio assistirei à entrevista.
E convidei-a a seguir-me.
Ela ergueu-se cambaleante, penetrou na prisão, onde, sempre assentado, o Mestre continuava como que absorvido em prece ardente.
Ao avistá-lo, a mulher deu um grito abafado e começou a chorar copiosamente.
Jesus estremeceu e reconhecendo-a ergueu-se, abriu-lhe os braços:
— Mãe! minha pobre mãe!
Ela precipitou-se para ele, em soluços convulsos, deixou pender a cabeça no seu peito.
Ele, por sua vez, contemplou-a por momentos, com amor e tristeza indefiníveis; depois, ergueu-lhe a fronte e mergulhou nos olhos maternos um olhar radioso como jamais existiria na Terra:
— Mãe, como o fizeste?...
Instruí-te, contigo reparti minha ciência, a fim de que esta hora te fora menos dolorosa; tu me entendeste, tu me acreditaste e, contudo, choras e sofres neste transe decisivo...
Dir-se-ia que a morte te apavora, quando bem sabes que a nossa separação será apenas momentânea.
Dar-se-á que tenhas perdido a fé?
Como que reconfortada, a mulher perfilou-se e, tomando a mão do Mestre, beijou-a:
— Não, filho: hei-de conformar-me, quero mostrar-me digna do filho que tenho, seguir-te-ei até ao fim.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 14, 2017 10:08 pm

Em assim falando, enxugou os olhos, voltou-se para mim e disse com doçura e firmeza:
— Permite-me, Centurião, que o acompanhe ao lugar do suplício?
A plebe tem, creia, esse direito.
Não consintas que os teus soldados me rechacem de junto da cruz, pois quero consolá-lo nestes cruéis momentos.
— De acordo — respondi emocionado — e o que lastimo é nada mais poder fazer a teu favor.
Soou, finalmente, a hora de cumprir o meu dever, que nunca me houvera sido tão doloroso:
em marcha o té tricô cortejo, notei que a mãe do Senhor nos seguia, cambaleante, amparada por um dos discípulos...
Chegados ao Calvário, dei as ordens necessárias, mas, enquanto gemiam os martelos, desviava o olhar, porque aquelas pancadas lúgubres como que me percutiam o coração.
De repente, levantei a vista e vi que acabavam de aprumar a cruz!
Foi, então, que, ao cruzar com o meu, o profundo olhar do Mestre parecia dizer-me:
— “É assim que devemos morrer!”
As horas sequentes foram assaz penosas; o calor era simplesmente sufocante e a turba se comprimia em torno dos supliciados, tomada de estranha exaltação; gritava-se, altercava-se, não raro precisavam os soldados intervir a chanfalho, para manter a ordem.
Por volta das dezoito horas, o céu cobriu-se de nuvens negras e um trovão ainda longínquo fez estremecer o solo.
Levantei a cabeça e tive a impressão de me haver dementado:
pareceu-me que a escura abóbada celeste se rasgava para deixar sair do seu bojo milhares de seres alados, que emitiam uma luz dourada...
Em massas compactas, precipitavam-se, rodeavam o madeiro, que, por sua vez, aclarado de raios multicores, era como um sol resplandecente...
Naquele oceano de luz, rodeado de seres imateriais, a contemplá-lo radiantes e plenos de amor, o Mestre me apareceu não mais o mártir crucificado, mas o ser divinizado, luminoso também ele e de olhos fitos no céu, em beatitude de eternidade e de glória.
Trémulo, estupefacto, olhei em torno de mim e percebi a mãe do Mestre ajoelhada, braços estendidos à cruz.
Considerei, pela atitude estática que lhe transfigurava o semblante, houvera tido a mesma visão.
Quando de novo me voltei, o quadro luminoso desaparecera inteiramente, o céu continuava negro, sulcado de relâmpagos, os trovões se repetiam abalando terra e céus.
A multidão apavorada com as trevas e a violência da tempestade, debandava aos gritos e eu mesmo não sosseguei, enquanto a chuva torrencial não veio lavar a atmosfera.
*
* *
Cáius, que até então bebera avidamente, de faces incendidas, as palavras do eremita, exclamou:
— Não te lastimes, meu amigo, meu paternal amigo, pois também eu já compartilho a tua veneração por esse homem extraordinário; mas, diz-me uma coisa:
onde é que Jesus, de uma origem tão humilde, adquirira o grande saber e a sublime eloquência com que dominava os corações?
— A sua origem divina manifestou-se no berço, justamente por uma sabedoria que ultrapassava a sua idade, e isso em todas as fases da sua vida.
Entretanto, eis o que ouvi a respeito:
depois daquela conversa com o Mestre, tive o ensejo de, por intermédio de um dos discípulos, travar relações com um judeu rico e ardoroso adepto da nova doutrina, a propósito desta mesma pergunta que ora me fazes.
Pois bem:
esse homem contou que o Mestre, ainda criança, veio a Jerusalém pela Páscoa e tendo, por acaso, se intrometido entre os doutores, a todos surpreendeu por suas dissertações e raciocínios, inconcebíveis na sua idade.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 15, 2017 9:34 pm

Entre esses doutores encontrava-se um velho rabino de Alexandria, abastado e sábio homem, que se interessou pelo menino precoce e veio a proporcionar-lhe mais tarde uma viagem àquela cidade, a fim de se instruir.
A morte do velho o impediu de facultar a Jesus uma posição independente, mas, ainda assim, ele viajou pela Índia e só regressou a Galileia2 dois ou três anos antes de começar a sua predicação.
Sendo ele, ao demais, muito discreto, nenhum dos discípulos conhecia os pormenores da sua vida, nesse período que passou longe da pátria.
Sua mãe, essa, não poderia ignorar, mas, a verdade é que também se conservou muda a respeito.
E agora, basta por hoje, pois vejo que estás fatigado e precisas repousar.
Cáius obedeceu humildemente e, depois de haver abraçado e agradecido ao bom velho, deitou-se esgotado pela fadiga e pela emoção.
Nada obstante, há muito tempo que seu espírito não se sentia tão tranquilo e logo um sono reparador lhe cerrou as pálpebras.
Os dias subsequentes transcorreram em longas palestras, o rapaz não perdia oportunidade de se elucidar nos mais mínimos detalhes sobre o assunto que o apaixonava profundamente.
E aquele desejo como que reagia favoravelmente sobre o seu estado mórbido.
Uma tarde, achando-se no interior da gruta, ouviram a voz de alguém que pedia licença:
— Oh! de casa! pode dizer se há um mês, mais ou menos, um homem...
— Rutuba! — exclamou Cáius precipitando-se para a entrada da gruta.
És tu, meu fiel amigo?
— Até que enfim, meu senhor! já tinha perdido a esperança de te rever — respondeu alegremente, enquanto Cáius no seu transporte o apertava nos braços.
De repente, porém, empalideceu e deixou-se cair sobre uma pedra à guisa de banco, perguntando já com a voz alterada:
— E vovó? e meu pai? que é feito deles? estão vivos?
— A nobre Fábia passa bem de saúde; teu pai, teu irmão e Drusila estão salvos.
Acalma-te e ouve o que se passou.
A aparição do anacoreta suspendeu por instantes a entrevista.
Depois de o haver felicitado pelas boas-novas, o velho disse precisar socorrer um zagal enfermo e retirou-se, deixando os dois a sós.
— Fala, Rutuba, antes que eu estoure de impaciência: onde estão papai e vovó?
— Quando nos separámos, descemos à planície e lá encontrámos, finalmente, um povoado onde pude orientar-me e ministrar os primeiros cuidados à matrona.
Voltando a si, seu estado de fraqueza era tal que não pôde articular palavra e dar suas ordens.
Tive, assim, de agir por mim e concluí que o mais conveniente era conduzi-la à propriedade de teu pai, além de Capua, que era também a mais próxima.
Como os cavalos nada mais davam, arranjei uma liteira, e, depois de haver instalado em sua casa a nobre senhora, providenciando para que nada faltasse, corri para cá a toda pressa.
Entretanto, apenas se me deparou a ossada de “Furacão”!
De ti, nem sombra, nem rastro...
Lembrei-me, então, das tuas últimas palavras e presumi que tinhas seguido para Roma.
Para lá me abalei a toda brida, mas, na casa de Drúsus ninguém sabia de ti, nem de coisa alguma.
No auge da tribulação, sem saber o que fizesse, lembrei-me de que, no dia fatídico da erupção, Semprônius deveria visitar a galera de Hatérius Rúfus, de partida para Roma.
Hatérius, portanto, se vivo fosse, seria a única pessoa que me poderia orientar os passos.
Procurei informar-me e o questor teve a bondade de me receber, apesar da aflição em que se achava a sua própria família, pois é preciso dizer-te que dois filhos de Pompónia, o cunhado e cunhada, bem como outros parentes não embarcados, hão-de ter fatalmente perecido.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 15, 2017 9:34 pm

Hatérius informou-me de que teu pai, teu irmão e Drusila, Agripa e sua mulher, bem como a nobre Virgília puderam, felizmente, atingir a sua galera.
E por assim o desejarem todos eles, transportou-os à granja de Agripa, perto de Nápoles, onde ainda se encontram.
O desespero de teu pai, presumindo-te morto, é simplesmente indescritível e só igualável, talvez, ao de Virgília, que perdeu o marido e o filho na catástrofe.
— Pobre pai, infeliz Virgília!
Quem me dera poder voar para estar agora mesmo ao vosso lado...
E logo de seus olhos, assim deblaterando, rebentaram lágrimas fartas.
Rutuba continuou:
— Pouco mais tenho a dizer.
De posse desses informes, voltei para junto de Fábia.
A notícia de que Semprônius estava salvo, parece tê-la reconfortado e logo escreveu a Metela comunicando o que sabia, mas também pedindo nada dissesse a Semprônius, para não o engodar com esperanças duvidosas.
Metela não demorou a resposta, convidando-a a seguir para lá imediatamente, o que fez, não sem deixar de me encarecer a necessidade de te procurar a todo o transe.
Parti imediatamente, e, nada encontrando, já estava desanimado quando me apareceu um campónio que me informou haver um velho morador desta montanha recolhido um belo rapaz enfermo, do qual estava cuidando com o maior carinho.
— Jamais poderei pagar tua dedicação, meu Rutuba.
E agora, antes de tudo, precisamos cuidar da partida, pois eu não quero prolongar de um minuto a angústia dos meus pobres parentes.
Seria possível arranjar alguma liteira nestas paragens?
Digo-o, porque ainda me sinto fraco para montar.
Outra coisa: tens dinheiro?
— Quanto a isto, fica descansado, porque tua avó mo deu que farte.
E neste caso, permite-me partir já, com a segurança de aqui voltar amanhã, com a liteira.
Quando o eremita regressou, o moço patrício deu-lhe parte de tudo quanto ocorrera.
— Preciso partir, pai João, e apesar do desejo que tenho de receber o baptismo das tuas mãos, não quero tomar uma decisão tão grave sem estar autorizado por meu pai e minha avó.
Tu sabes quanto os amo e pelo que, também quero estar convicto de que aprovam o meu propósito, no instante solene em que me deva unir ao Divino Mestre que tu me revelaste.
— Pois vai, filho, e fica certo de que obedecer_ e honrar pai e mãe é dever primacial de todo cristão.
Prepara-te, portanto, para o grande ato do teu baptismo, praticando os preceitos do Senhor.
Procura dominar as paixões e fazer todo o bem possível.
— Teu falar alivia-me o coração do último peso que lhe restava — disse Cáius apertando a mão do velho —, e agora sou eu quem te pede, vem comigo e façamos uma prece ali onde ouvi a verdade e penso ter encontrado a saúde do corpo e da alma.
— Com muito prazer, filho.
Passaram-se ao Santuário, onde ajoelharam e oraram com fervor.
Isto feito, o eremita pôs a mão na cabeça do moço patrício, e, olhos fitos na imagem, disse com toda a unção:
— Abençoo-te, filho; não foi em vão que a Providência aqui te trouxe e a mim me permitiu tocar teu coração ardoroso, mas leal; ama a verdade, tão fielmente quanto amas a teus pais, e a bênção do céu te seguirá por toda a parte, sempre. Nos areais do deserto, ela fará brotar a erva que te forre o leito, como da rocha fará jorrar a linfa que te desaltere a sede.
Tu aqui voltarás, acompanhado de teu pai, mas, não tão cedo qual supões; ambos receberão de minhas mãos o baptismo.
Isso, bem o vejo, e vejo mais alguma coisa, que, porém, devo calar.
Profundamente comovido, Cáius levantou-se e osculou o supedâneo da cruz.
“— Mestre divino e misericordioso — murmurou — meu coração te pertence!”
Ao descer os dois degraus rústicos, apertou o velho num longo e estreito abraço.
— Obrigadíssimo, pai João, por tudo quanto me fizeste:
parto feliz, aliviado e esperançoso também, porque disseste que hei-de voltar.
Fica a meu cuidado fazê-lo o mais depressa possível, e, logo que se ofereça um ensejo, tudo confessarei a meu pai.

2 Ver capítulos I e XII — “A Caminho da Luz”, de Emmanuel, por Francisco Cândido Xavier. Nota da Editora (FEB) em 1975.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 15, 2017 9:34 pm

II - Corações enlutados

À beira-mar, entre Nápoles e Pusoles, erguia-se a vasta e magnífica vila de Fabrícius Agripa, na qual se haviam refugiado a família e os amigos poupados à destruição de Herculânum.
Num quarto ricamente mobilado, cujas janelas proporcionavam perspectiva admirável para o golfo sempre sulcado de embarcações, vamos encontrar Metela em azáfama de ordens ao intendente dos escravos, para a tarefa diuturna.
Tanto que ficou só, encostou-se à mesa de bronze dourado e deixou-se absorver no panorama esplêndido que ali se lhe deparava.
Desfigurada, emagrecida, via-se que aqueles últimos trinta dias lhe tinham decorrido bem aziagos, não tanto por si mesma, pois que os deuses lhe pouparam os tesouros mais preciosos — marido e filhos — mas pelo desespero dos seus amigos e pelos cuidados imediatos a Virgília, que enfermara gravemente desde o dia que ali chegaram.
Senhora de temperamento calmo quanto enérgico, encarava a existência humana sob prisma racional, compreendendo a necessidade da conformação com o inelutável e que, escravizar-se alguém a uma dor perene, o mesmo é que agravar a situação, comprometendo a saúde do corpo e do espírito.
E eis porque, sem deixar de quinhoar-se do infortúnio de seus amigos, procurava, a todo o transe, incutir-lhes resignação e coragem.
Dando um leve suspiro, levantou-se e foi em busca dos que chamava agora — seus caros precitoa, de vez que tinha para um deles uma surpresa agradável e com outro resolvera conversar seriamente.
Lesta e graciosa, encaminhou-se primeiramente para as galerias em colunatas, que davam para o jardim, onde o velho Semprônius passeava de um lado para outro, sempre sucumbido, de mãos cruzadas atrás das costas.
O austero patrício não parecia o mesmo homem! O busto alto se recurvava, os cabelos encaneceram totalmente e a contracção dos lábios era um sintoma típico do profundo desgosto que o minava.
Parando à entrada, a moça o contemplou com tristeza; depois, acercando-se, tomou-lhe do braço:
— Bom amigo, sentemo-nos um pouquinho:
não posso consentir que aqui definhes deste modo, tanto mais quanto venho dizer-te algo de esperançoso para todos nós.
— Que será, Metela? sei que teu grande coração anda a buscar pretextos mil por confortar-nos; mas, a mim, que mais me poderá restar senão a certeza de uma desgraça insanável?
— Então, ouve antes de me atribuíres invencionices — respondeu sorridente, atraindo-o para um banco de mármore.
Um de nossos servos salvo da catástrofe, mas que só agora conseguiu saber o nosso paradeiro, acaba de chegar esta manhã e diz que lhe pareceu ter visto, a caminho de Roma, o cavalo “Dafné”, exausto de cansaço e, não longe do local, um retalho de pano que acredita ter pertencido a Fábia.
Não tendo nós prova qualquer, positiva, da morte de Cáius, é admissível supor que ele tenha fugido para Roma, ou ainda que tenha adoecido em caminho e permaneça por aí, nalgum povoado, impossibilitado de dar notícias, mesmo porque, ignora onde te encontras.
No rosto esmaecido do nobre patrício fez-se o clarão de uma esperança...
— Tens razão, Metela, tudo isso é possível...
Oh! meu pobre filho!
Pudesse reaver-te e seria para mim uma nova vida...
Mas, onde está esse servo? Quereria vê-lo, falar-lhe eu mesmo.
— Nada mais do que isso te poderia dizer, além de que, no momento, está ausente.
Poderás, ainda assim.
vê-lo e falar-lhe logo que volte.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 15, 2017 9:35 pm

Agora, atende ao meu conselho: — procura combinar com Agripa a escolha de um homem de confiança, a fim de ir a casa de Drúsus, em Roma.
Dado que Cáius lá não esteja, esse homem deverá bater todo o caminho.
Cá por mim, tenho pressentimento de que os deuses ainda te reservam uma grande alegria, e tu bem sabes que os meus pressentimentos sempre valem alguma coisa.
— Possam eles ser tão seguros na alegria quanto na desgraça!
Aceito o conselho, pois tu és 3empre sensata, quão bondosa e corajosa.
Diz-me, porém, como passou Virgília — a nossa mimosa florzinha despetalada ao sopro do vendaval.
A pobrezinha nem me parece a mesma criatura...
— Vai bem melhor, tanto que hoje quero ver se ela comparece à nossa refeição.
Contudo, sua morna apatia e aquela profunda abstracção não deixam de me alarmar.
É verdade — acrescentou suspirosa — que, perder de um só golpe um filho único e um marido como Marcus Fábius, é coisa que ultrapassa as forças humanas.
— Mas tu esqueces que a pobrezinha perdeu também toda a fortuna sob os escombros, e o momento que todos vivemos é dos mais críticos, economicamente falando.
— Isso seria o menos, pois Agripa, quanto eu mesmo, estima em Virgília urna irmã, aliás por nós educada desde a idade de oito anos, o que nos dá o direito de protegê-la e assegurar-lhe um futuro.
— Mas, vossa fortuna também sofreu grande desfalque e não deveis esquecer que tendes dois filhos.
— Não discuto, vê bem, o teu direito de tuteia e asilo doméstico, mas espero que nem tu nem teu marido levem a mal que eu procure assegurar a Virgília a sua independência, de vez que também se me tornou querida como se fora uma filha... É que Cáius amou-a e foi ela a primeira pessoa que comigo chorou a sua perda.
— Acredito que Virgília jamais recusará a gratidão de um amigo paternal do teu quilate, mas, de qualquer forma, preciso guardá-la na minha companhia, já que ninguém a conhece como eu e sabe reagir sobre o seu espírito.
Quanto ao que diz com a nossa fortuna, é verdade que experimentámos perda enorme, mas ainda nos resta bastante para manter vida regalada e luxuosa.
De resto, mediante economias bem entendidas e orientação criteriosa, é sempre possível reparar todas as brechas da fortuna.
Isso mesmo é o que costumo dizer a Agripa, quando, após cálculos sobre cálculos, ele me surge com atitudes de Harpagão sucumbido...
Disse-o gracejando e acrescentou:
— Agora, vou-me a ver a nossa enferma.
— E eu vou pensar na melhor maneira de aproveitar o teu conselho, enviando quanto antes não um, mas três ou quatro batedores na pista do meu Cáius.
— Ainda bem que estou a ver aquele Semprônius que conheci há vinte anos, impaciente, resoluto, activo sempre.
Até logo, no jantar.
Satisfeita com o resultado da entrevista, lá se foi ao outro extremo da casa, onde ficava o quarto de Drusila, pois com esta é que Metela queria conversar seriamente.
O pequeno salão, bem como a alcova, estavam desertos.
Levantou de mansinho o pesado reposteiro e parou à entrada do pequeno gabinete, todo florido e também com vista para o golfo.
Junto à janela entreaberta, Drusila estava assentada numa grande cadeira de vime, tendo ao lado a mesinha atulhada de novelos de seda e fios de ouro, e sobre os joelhos um paramento, que bordava para o templo de Vesta.
Contudo, não trabalhava no momento:
antes lassa, com a cabeça apoiada ao encosto da cadeira, parecia chorar discreta e completamente absorta na sua imensa dor.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 15, 2017 9:35 pm

A patrícia esteve a contemplá-la um momento e logo, aproximando-se, pegou no bordado, fingindo examiná-lo.
— Não será tão cedo que poderás levar esta oferenda aos pés da deusa e olha que essas nodoazinhas não lhe vão de feição.
(Designava os salpicos de lágrimas, que desbotavam os cordões dourados.)
Precisamos ser razoáveis, filha...
Vamos, dá-me um abraço e conversemos.
Não é justo fiquemos assim a prantear toda a vida, e às vezes convém mesmo lançar uma vista de olhos ao fundo do coração.
A moça estremeceu e levantou-se:
— Ninguém, penso, pode censurar-me o pranto derramado pela perda tão trágica do melhor dos pais...
— Livre-me os deuses de te exprobrar tão legítima afeição — respondeu, chegando à mesa uma cadeira —, mas é preciso te lembrares da saúde precária e da triste vida que teu pai levava.
Quantas e quantas vezes disse-me ele que a sua enfermidade e a cegueira tornavam-lhe a vida um fardo insuportável?
Ora, neste caso, a morte é uma libertação.
Ao demais, também já não era moço e devemos considerar que a catástrofe não só colheu, destruindo-as, muitas vidas em flor, como terá ferido ainda mais rudemente outras famílias.
Lembra-te, por exemplo, da nossa Virgília, que perdeu marido, filho, fortuna...
Resigna-te, pois, à vontade dos deuses e procura, na prece e no trabalho, a calma do espírito necessária para que possas honrar a memória paterna com boas obras.
— Mas não posso...
E logo o pranto lhe borbulhou nos olhos, mais copioso.
— Ao menos por enquanto, não posso pensar em mais nada...
Metela franziu o sobrolho e acendeu mais vivo farol nos olhos negros.
— Pois eu sei que pensas muito em alguém, cujo nome não desejaria pronunciar neste momento; mas, considera o dever que me corre de falar-te com a máxima franqueza:
não é por Drúsus que choras, se bem que sinceramente lastimes a sua perda; essas lágrimas insopitáveis pertencem a Cáius Lucílius e eu não acho digno de ti pretender justificá-las com o nome de teu pai.
Há muito que te compreendo, querida Drusila, e só me tenho calado em respeito ao teu infortúnio: agora, porém, chegou o momento de apelar para o teu orgulho e dignidade femininos.
Como podes deplorar a morte de um homem que jamais te prestou atenção?
Além disso, trata-se de um homem casado, e se é que ele ainda vive, também é possível tenha salvado Dafné...
Atende-me por quem és, Drusila; risca da tua lembrança os olhos negros do teu primo e procura, num casamento honroso, a tranquilidade do teu espírito:
— um lar e filhos hão-de acabar afugentando essas fantasias danosas e tu serás feliz.
Se te repugna o partido de Nero, ou de Cláudius, nada impede escolhas outro.
Trémula e corada até à raiz dos cabelos, a moça ouvira aquelas palavras cuja veracidade não poderia recusar e, de repente, cobriu o rosto com as mãos e rompeu a soluçar.
Metela estreitou-a nos braços, beijou-a com ternura.
— Perdoa as minhas palavras de severidade e franqueza, porque só as disse no intuito de precaver-te contigo mesma.
Depois, quando mais calma, hás-de dar-me razão se, de facto, a tua inclinação por Cáius fosse uma coisa legítima, bem se vê que não precisarias acobertar teu desespero com a perda de teu pai.
Pensa nisso, querida, buscando forças na tua própria dignidade.
E agora, consente que me vá para Virgília, pois quero, conforme o estado em que a encontre, convidá-la a comparecer ao nosso repasto.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 15, 2017 9:35 pm

— Obrigada!
Procurarei seguir teu conselho.
Despediram-se.
*
* *
No vasto e magnífico jardim que circundava o solar, havia um bosquezinho dilecto da proprietária, pelo abrigo artificial de rochas, que oferecia aos ardores do Sol.
Rodeado de plantas olentes, gozava-se ali a atracção do silêncio, apenas quebrado pelo murmúrio suavíssimo de uma fonte cristalina e viva jorrando dum penedo.
Nesse refúgio poético, que se diria imaginado para repouso e devaneio, tinham colocado, naquele dia, um leito fornido de macias almofadas e nele se estendia Virgília de olhos cerrados, como que adormecida, enquanto uma negrinha com um espanador de penas rechaçava os insectos esvoaçantes.
Como estava mudada a “dourada borboleta”!
Aquele rosto oval, corado, mignon, afilara-se, macilento de cera; a boca se retraíra num ricto de mágoa indefinível; tudo nela indicava, enfim, que a catástrofe, roubando-lhe marido e filho, reagira no seu físico delicado, de maneira irremediável.
Dir-se-ia mimosa planta transplantada em pleno Inverno, incapaz de reflorir para a vida.
Parando à entrada do bosque, Metela fitou-a comovidamente e, já com olhos mareados, aproximou-se cauta e deu-lhe levíssimo beijo nos lábios descorados.
Virgília abriu os grandes olhos lúcidos e, reconhecendo a amiga, soergueu-se e apoiou a cabeça nas suas espáduas.
— Sonhei com Fábius... — E logo os olhos se lhe humedeceram.
A outra, abraçando-a com ternura:
— Não chores assim.
Se Marcus Fábius puder ver como prejudicas e comprometes a saúde e a vida, muito há-de sofrer com isso.
Porque atribular seu espírito com tamanho desespero e entristecer os que te assistem e te amam?
Uma criatura tão nobre e tão boa só pode estar feliz na mansão de repouso eterno, que os deuses imortais reservam às almas virtuosas.
Procura, antes, lembrar-te dele com amor, sim, mas sem lamentar-lhe o destino, e trata de viver para a nossa amizade.
Recorda o dia do teu casamento, quando, ao justar o véu de púrpura, eu disse:
“voa minha dourada borboleta” — e tu me abraçaste e respondeste:
— “hei-de amar-te sempre, tanto quanto a Marcus Fábius...”
Pois agora chegou a ocasião de provares que tais palavras não eram vãs.
Ou será que já me não amas?
— Não é pergunta que me faças, Metela...
Nem podes duvidar que, depois de Cáius, sejas a criatura a quem mais prezo neste mundo.
Concorda, no entanto, que tudo perder ao mesmo tempo, é provação dura demais.
Soluçava...
O pranto embargava-lhe a voz.
Metela procurava enxugar aquelas lágrimas carinhosas:
— Pois bem:
em atenção a mim, acalma-te; procura encarar os teus dois anos de ventura conjugal como se fossem um belo sonho desfeito ao amanhecer.
Vive para nós, ajuda-me na direcção da casa, na educação dos filhos, qual se fosses uma irmã.
E agora, nada de lágrimas por hoje...
Nosso amigo Semprônius vai receber hoje uma surpresa agradável e eu quisera que estivesses presente à nossa refeição.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 15, 2017 9:35 pm

— Deveras? Haverá notícias de Cáius?
— A coisa está em segredo.
É que, há dias, recebi uma carta de Fábia, em que me diz ter sido Cáius quem a salvou, mas teve, exausto de fadiga, de parar no caminho sem que o reencontrassem depois.
Fábia pede sigilo sobre o assunto, a fim de não aumentar o desespero do filho.
Ela vem ao nosso encontro e foi para esperá-la que Agripa viajou, à noite.
Se, pois, Cáius Lucílius está vivo, como presumo, ainda te restam dois bons amigos no mundo.
— Boas novas, na verdade, com as quais me regozijo em atenção ao nosso caro Semprônius, anuindo ao teu convite.
Antes, porém, repara que preciso corrigir estes trajes.
Pouco depois, todos os hóspedes se reuniam no triclínio, para o jantar.
Semprônius, mais animado, surgiu acompanhado de Nero, que tinha obtido uma dilação de licença.
Este, entretanto, mantinha-se frio e reservado para com o velho, a quem não podia perdoar as lágrimas vertidas pela perda do irmão.
Outro era o ímã que o retinha na cidade — Virgília, a quem não se cansava de testemunhar afectuosas atenções.
A paixão pela jovem viúva aumentara e, como via o pai menos severo a seu respeito, resolvera vir sondá-lo e saber o que pensava de uma possível ligação com Virgília, no caso de poder conquistar-lhe o coração.
Agradavelmente surpreendido, Semprônius mostrou-se mais sensibilizado que de costume e declarou que o plano correspondia aos seus votos, de vez que ninguém, mais que Virgília, mereceria o seu afecto.
A refeição correu silenciosa.
Apenas Semprônius perguntou se Agripa não havia regressado.
— Acidentes de viagem, certo, mas não deve tardar por aí — respondeu Metela, com o mais inocente dos sorrisos.
A seguir foram todos para o terraço, onde serviam frutos, doces, vinho.
Nero ajudou Virgília a instalar-se num divã, ajeitou as almofadas e, assentando-se junto dela, descascou uma laranja, forçando-a a chupá-la.
A moça aceitava aqueles pequeninos cuidados, a sorrir tristemente e agradecendo, por vezes, com um aperto de mão.
Cláudius não se revelava menos solícito ao lado de Drusila, para quem deletreava um longo poema que havia composto sobre a destruição de Herculânum.
Em mãos o pergaminho, o rapaz declamava em surdina, acentuando as cenas patéticas, nas quais soubera habilmente encaixar o fim de Drúsus, ao mesmo tempo que lhe deitava significativos olhares.
De repente Metela, que parecia espreitar todos os movimentos, levantou-se e saiu dizendo que ia ver se o marido já havia chegado.
Daí a pouco, a algazarra das crianças e logo a voz nítida de Agripa surgindo na galeria:
— Bom dia, amigos!
A todos vós, salve! Semprônius, olha aqui o que te trago.
O velho patrício voltou-se e tapou os olhos com as mãos, como se ficasse deslumbrado...
Era Fábia que, entre Metela e o marido, caminhava ao seu encontro:
— Filho! meu filho... — repetia, abrindo-lhe os braços.
— Mãe! minha mãe... até parece um sonho!
— Tens razão: só um favor dos deuses poderia proporcionar à nossa velhice a fortuna deste encontro, quando tanta juventude desapareceu para sempre na voragem da catástrofe.
Logo um sinal de dor sombreou o semblante de Semprônius; mas, dominando-se, tratou de conduzir a mãe a uma poltrona, enquanto todos dela se aproximavam para cumprimentá-la e felicitá-la.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 15, 2017 9:35 pm

Ao abraçar Nero, a veneranda senhora não enxergava senão o rosto transparente de Virgília, que, um pouco atrás de todos, conservava-se encostada à varanda.
— Coitada da minha filhinha! deixa abraçar-te, agora que me és duplamente cara — exclamou Fábia beijando-lhe os louros cabelos.
E logo acrescentando:
— Já sei que tudo perdeste naquele dia fatídico...
Eu mesma estaria morta, se não fosse a coragem do meu neto.
— Foi Cáius, então, quem te salvou? — interveio Semprônius já exaltado.
Conta-me, então, o que sabes dele até o último instante...
Oh! deuses implacáveis, porque haveríamos de sobreviver àquele que era o encanto e a razão da nossa vida?
— Que queres dizer com essa coisa de “últimos momentos da minha vida”, oh! pai querido?
Pois olha que a ainda pretendo viver muito, para muito vos amar a todos...
Estas palavras, bem timbradas, estouraram no salão como se fossem uma bomba!
Todos se voltaram como que electrizados e deram com o vulto esbelto de Cáius Lucílius, que, pálido e emagrecido, mas, sorridente, aparecia na entrada da galeria, tendo atrás de si o rosto desassombrado de Rutuba.
Semprônius ergueu-se cambaleante de emoção.
— Cáius! meu Cáius!
Será que o túmulo nos devolve as suas presas?
O rapaz atirou-se-lhe aos braços e assim permaneceram mudos, calados, a saborearem uma dessas venturas sem mescla, que o destino raro concede aos mortais.
Depois, o moço redivivo abraçou Fábia, que ria e chorava ao mesmo tempo.
— Boa vovozinha, meu querido pai, tranquilizai-vos, sou eu mesmo quem aqui está, são e salvo, e feliz por encontrar-vos a todos aqui reunidos.
A atenção geral se concentrara naquele quadro emocionante e semente Cláudius foi o único a notar que Drusila desmaiara, logo que ouviu a voz do primo.
Tratou de socorrê-la e ampará-la com o maior desvelo, fê-la aspirar um frasco de essências e, quando ela voltou a si, foram a ele que seus olhos viram.
Foi isso no instante exacto em que Cáius envolvia, num olhar afectuoso, os amigos todos que o rodeavam.
— Que sorte a minha!
Pois não é que de um só golpe encontro reunidos todos os que me são caros?
Dizia-o com aquela tão sua jovialidade, ao mesmo tempo que ia abraçando Nero, Cláudius, Drusila, Agripa...
Quando tocou a vez de Metela, tomou-lhe das mãos, conchegou-as ao peito e beijou-lhe os lábios vermelhos.
— Hoje — dizia — ninguém tem o direito de me recusar um beijo, e se te deres ao luxo de ter ciúmes, Agripa, então é que não és meu amigo...
Ria-se.
— Vá lá, vá lá, mas só por esta vez, mesmo porque espero que jamais nos encontraremos reunidos em identidade de condições e circunstâncias.
— Seu malcriado — disse Metela —, se eu pudesse prever que voltavas com a mioleira carregada de futilidades, sempre teria poupado as preciosas lágrimas que derramei em tua memória.
Contudo, resta-te agora o direito de te orgulhares de haver sido pranteado por olhos tão belos...
— Mas, onde está Virgília? Rutuba me informou que ela se salvara.
— Ei-la acolá — respondeu Metela, indicando a jovem que, de facto, procurara fugir ao tumulto, retirando-se para o terraço com os olhos rasos de lágrimas.
— Então que é isso, Virgília?
Foges-me deste jeito, quando volto são e salvo?
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 15, 2017 9:36 pm

Foi-lhe ao encontro, tomou-lhe ambas as mãos.
 vista, porém, da mudança que se deparava no físico da mimosa criatura, deteve-se impressionado:
— Avalio o teu pesar, mas, também não sou um ente querido do teu coração?
Como? Então a desgraça extinguiu a lembrança da nossa infância risonha?
— Não digas isso, Cáius, não sejas injusto; bem sabes quanto te estimo e de nada me esqueço, mas a ideia de que nenhum dos entes que perdi poderá ressuscitar, o que vale dizer — do meu eterno insulamento, me oprime o coração e torna-me a vida indiferente.
— Isolada não ficarás nunca, enquanto vivermos; teu lugar é junto de nós, já como irmãzinha de infância, já como legado precioso do nosso querido e malogrado Marcus Fábius.
Atraiu-a, abraçou-a, ela não resistiu e deixou pender a linda cabeça no peito do rapaz, até que, vencida por tantas emoções, teve um colapso.
Metela acudiu logo, em sobressalto:
— Vamos, Cáius, depressa, vamos deitá-la:
bem me estava parecendo que confiei demais nas suas forças...
Cáius levantou o fardo com precaução, conduziu a moça ao quarto e lá secundou Metela nos primeiros socorros.
— Pobre criatura — dizia Metela ao esfregar-lhe as têmporas —, tem estado gravemente enferma e seu estado é dos que exigem todo o cuidado.
Teu regresso, bem como de Fábia, emocionaram-na profundamente.
Mas, a propósito, que notícias me dás de Dafné?
Quem sabe também se salvou e nos vai reaparecer a qualquer momento?
Cáius que, no momento, estava inclinado para o rosto pálido de Virgília, sentiu um choque, empertigou-se, e mais pálido, ainda, murmurou:
— Se me estimas, peço-te não me fales nesse nome, não me lembres nunca que essa mulher existiu.
E notando o espanto da patrícia, acrescentou com voz mais calma:
— Está morta e bem morta, ninguém a poderá ver, jamais, em parte alguma.
A nobre dama compreendeu que algo de extraordinário se havia passado, e, apertando-lhe a mão, limitou-se a responder:
— Esqueçamo-la e pecamos aos deuses o perdão das suas faltas.
— Sim! sim! pecamos por ela — glosou ele com fervor.
Nesse momento, a moça agitou-se no leito, arregalou os olhos e, braço estendido como se apontasse um objecto invisível, murmurou com voz entrecortada:
“ali, ali, assentada, comprimida entre dois tigres, ei-la que me crava o seu olhar terrível!
E foste tu... Cáius...”
Retombou nas almofadas.
Lívido, com que fulminado, Cáius recuou e, virando-se de súbito, saiu correndo.
— Queridinha, que tens? de que tigres falas tu? — perguntou Metela inclinando-se para a moça que acabava de reabrir os olhos.
Virgília passou a mão pela testa e retorquiu espantada:
— Tigres? Não te entendo.
Será que tenha sonhado? Mas onde e como adormeci?
*
* *
Os dias seguintes foram de alegria e repouso para todos os que se salvaram milagrosamente.
Semprônius, esse, como que renascia a olhos vistos e bem depressa se revelou naquele seu temperamento enérgico e dinâmico.
— Caros amigos — disse uma noite em que se achavam todos reunidos no terraço à beira-mar —, por mais agradável e lisonjeira que nos seja a hospitalidade de Agripa, não posso deixar de reconstituir o meu lar e para isso vou expor-lhes meu plano:
— tenho, como sabem, uma grande propriedade perto de “Mincenes”, onde a fantasia de meu pai improvisou linda vivenda num rochedo à beira-mar, exactamente como esta, meu Agripa.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 15, 2017 9:36 pm

Há bem uns vinte anos que lá não ponho os pés e a casa deve estar sofrivelmente estragada, não obstante ter servido muito tempo de abrigo a uma velha parenta que tinha uma filha cega.
Isto, porém, não vem ao caso, e nestes poucos dias lá estarei para restaurar o que for preciso.
Cáius ainda está necessitado de repouso e por isso irei sozinho.
— Excelente ideia, meu filho — disse Fábia —, e eu me lembro de ter visitado essa casa, quando faleceu a boa Calpúrnia.
Goza-se ali, realmente, uni panorama admirável e havia belíssimos jardins, posto que um tanto descurados...
Acho que lá ficaremos magnificamente instalados.
— Uma vez que concordas, minha mãe, tratareis quanto antes de pôr mãos à obra e espero tudo concluir dentro de um mês, quando aqui estarei para levar Cáius, Drusila e Virgília, a menos que Cláudius não queira dar-nos o prazer da sua companhia.
— Bem se vê que Semprônius voltou ao que era.
Até parece que o mundo lhe quer fugir dos pés...
Entretanto, por mais que me pese a partida de hóspedes tão caros, não os posso impedir de refazerem o seu lar.
A uma coisa somente me oponho, num voto categórico, que é separar-me de Virgília, a quem criei, eduquei e casei, desde que perdeu os pais e os parentes mais próximos.
Retê-la connosco não é, agora, mais nem menos que retomar nossos direitos, e ainda mais quando, ninguém como nós a conhece.
Doente como está, só na casa que lhe foi segundo tecto paternal, pode e deve tratar-se...
Não é assim, minha querida?
Isto dizia Metela.
— Fico contigo e com as crianças, embora guarde o mais profundo reconhecimento pela prova de afeição que Semprônius acaba de dar-me.
Em compensação, logo possa, irei vê-los a todos — redarguiu Virgília.
Agripa propôs, taça em punho:
— Decidida a partida, fica-nos a “dourada borboleta” e Drusila irá ajudar a nossa venerável Fábia nos cuidados domésticos.
Nero ouvira toda a conversa, mudo e sorumbático, como sempre.
A ressurreição inopinada do irmão tinha-lhe causado a maior decepção, ao mesmo passo que a carinhosa intimidade daquele primeiro contacto de Cáius com Virgília exacerbava-lhe o ciúme, aguilhoando paixões mal sopitadas no coração.
A proposta de Metela o havia animado um tanto e ele resolvera aguardar que, retirando-se Cáius, suas probabilidades aumentassem, pois uma vez consolada, jovem e bela Virgília não quereria ficar viúva.
Ele bem sabia que o mais perigoso rival era Cáius; mas, considerava também que o amor ostensivo por Dafné não deixaria de influir desfavoravelmente no conceito de uma mulher orgulhosa, qual Virgília.
Esse orgulho poderia talvez induzi-la a repelir o legado da plebeia e optar pelo outro filho de Semprônius, que era... ele.
Afagando essas hipóteses, aproveitou um momento asado, antes que o pai se ausentasse, a fim de expor-lhe sou projecto da compra de uma grande propriedade não longe da de Agripa, e que estava à, venda justamente por ter o respectivo dono perecido em Pompeia.
O velho acedeu de bom grado e logo pôs à disposição os fundos necessários à imediata conclusão do negócio.
Assim que, quando Semprônius partiu para “Mincenes”, a vida no lar de Agripa entrou em calmaria.
Nero continuou a cortejar Virgília e Cláudius a cultuar Drusila.
Só Cáius estava consideravelmente transformado.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 15, 2017 9:36 pm

Já não era aquele rapaz alegre e estouvado, antes se revelara discreto e pensativo.
Dava longos passeios, solitários, lembrava-se do velho eremita, cogitava dos meios para converter o pai à sua nova crença.
A não serem essas, suas melhores horas seriam as que passava junto da amiguinha da infância, tentando distraí-la e consolá-la.
Pouco depois da sua chegada, despachara Rutuba à caverna do eremita, enviando-lhe boa soma de dinheiro, algumas ânforas de excelente vinho e uma carta na qual lhe pedia aceitasse a dádiva para os seus pobres, em nome daquele que, por seu intermédio, hoje conhecia.
Certa manhã, duas semanas mais ou menos depois do seu regresso, Rutuba dirigiu-se hesitante a Cáius e disse-lhe, apresentando a conta da viagem:
— Olha, patrão, a mãe de Apolônius encontra-se aqui.
Soube, não sei como, que teu pai aqui estava em casa de Agripa e, juntando os últimos centavos, veio à cata de qualquer notícia do filho, crente ainda de que ele tivesse escapado ao cataclismo.
“Eu disse-lhe que, provavelmente, o rapaz morrera em Herculânum, visto não nos ter acompanhado ao Anfiteatro, e acabei por dar-lhe algum dinheiro para regressar a Roma, pois que ela ficou na mais extrema miséria.
Cáius estremeceu e baixou a cabeça:
— Onde está essa mulher?
— Aqui pertinho, num albergue que ladeia a estrada de Nápoles.
— Pois vamos até lá. Toma este manto e espera-me no portão de saída.
Sem reparar na estupefacção do servo, Cáius dirigiu-se logo aos aposentos de Drusila e perguntou se a jovem prima poderia recebê-lo.
Admirada quão ruborizada, a moça não tardou em aparecer-lhe na antecâmara do seu quarto.
— Venho pedir-te um favor — disse, tomando-lhe carinhosamente a mão.
— Tanto quanto de mim dependa, estás servido de antemão.
— Ouvi dizer que a velha Dóris, a guardiã dos teus jardins, lá em Roma, acaba de falecer e desejo que coloques no seu lugar a mãe do escultor Apolônius, que ficou em extrema miséria.
— Não somente concordo, com muita satisfação, como mandarei remobilar a casinha dessa mulher e lhe darei tudo mais que seja necessário.
Satisfeitíssimo, o rapaz agradeceu e foi encontrar-se com Rutuba.
Em caminho, pôs-se este a falar:
— Patife! Que necessidade tinha de trair a quem generosamente o acolhia?
Se fosse bom, estaria ainda vivo.
Percebendo que suas pragas não tinham resposta, calou-se.
Calados prosseguiram e atingiram um albergue, à porta do qual uma mulher suja e desgrenhada castigava a sopapos um menino, porque quebrara uma tijela de sopa, cujos restos se espalhavam pelo solo.
à vista do patrício, largou o pequeno e, mesureira, conduziu o visitante ilustre para um pequeno corredor em cuja entrada estava uma velha acocorada com o rosto entre as mãos.
Suas vestes eram pobres e gastas, e, de sob um pano de lã, pendiam-lhe da cabeça umas mechas de cabelo branco.
— És a mãe do escultor Apolônius? — perguntou Cáius tocando-lhe nas costas.
Ela estremeceu e levantando para ele uns olhos vermelhos, já chorando:
— Sim, meu senhor, e fiquei na maior penúria, não apenas eu, porém dois filhos que deixei em Roma.
Apolônius era nosso único arrimo, nossa providência, e os deuses impiedosos no-lo arrebatando destruíram nossa vida também.
— Não chores, não maldigas assim, pois, nem tu nem teus filhos morrerão de fome.
Eu ficarei sendo essa providência que vocês perderam.
Vês este homem? (designava Rutuba).
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 15, 2017 9:36 pm

Pois bem: é o meu escudeiro e vai já comprar umas roupas mais convenientes e te suprirá algum dinheiro, bem como te levará uma negra para te ajudar, visto estares velha e cansada.
Além disso, estás desde já nomeada vigilante dos jardins e pomares do meu tio Drúsus, em Roma.
Este cargo te dá direito a uma casinha, na qual poderás viver tranquilamente até que teus filhos se façam, homens e possam ganhar a vida por si mesmos.
Terás, assim, assegurado ura ordenado anual de mil sestércios.
A pobre mulher que tudo ouvira admirada e comovida, lançou-se-lhe aos pés, beijou-lhe a toga a chamá-lo benfeitor; mas, esquivando-se a tais mostras, o jovem patrício retomou apressado o caminho de casa.
Sentia o coração repleto de alegria, conjecturava que também o seu velho amigo anacoreta havia de felicitar-se em o vendo assim praticar o preceito do Divino Mestre, que coloca o amor e a caridade acima da nobreza e da fortuna.
Ele acabava de fazer o bem aos que o ofenderam, procurando arrancar da miséria a mãe do salafrário que lhe perecera nas mãos.
Assomado de gratidão entusiástica, levantou os olhos para o céu, aonde, no dizer do cenobita, Jesus se exalçara, e dos lábios lhe brotou a prece fervorosa:
— Graças, Senhor! por me teres proporcionado ensejo de auxiliar esta pobre mãe, cujo filho sacrifiquei na minha cegueira ultriz; e graças ainda, por me haveres concedido os bens materiais que facultam secar lágrimas que haveriam de rescaldar-me o coração.
Rutuba observava-o aturdido, a si mesmo perguntando se a eclosão da catástrofe e a violência dos factos que se lhe seguiram não teriam perturbado a razão do jovem patrício, pois impossível lhe parecia premiar daquela maneira os parentes do bandido, que, no seu conceito, lhe havia maculado a honra.
A partir daquele dia, estabeleceu-se uma intimidade mais carinhosa entre Cáius e Drusila.
A boa acção que praticaram em comum, como que os aproximara.
Muitas horas passaram a combinar o melhor meio de educar e encaminhar os filhos da pobre mulher.
Uma só pessoa não via com bons olhos a intimidade dos dois primos: era Cláudius.
O elegante parasita, tão cordato quanto amável para com todos, maquinava surda e tenazmente o plano de esposar Drusila, não porque lhe tivesse amor, mas porque ambicionava a sua imensa fortuna.
Esse Cláudius era bem um exemplar da juventude ociosa e depravada, da Roma Imperial.
Gozar sem trabalhar, gastar sem contar, cortejar as mulheres, jogar à larga, eis aquilo a que aspirava.
De resto, sentia-se bem na casa de Semprônius, cuja confiança captara e onde nada lhe faltava.
Nada havendo perdido em Herculânum, porque nada tinha a perder, aproveitara-se do temporário abatimento moral do velho patrício, tomando a seu cargo a liquidação de alguns negócios, sem prejuízo do comitente, é verdade, mas, também, com lucros para si.
Ainda assim, não eram recursos que lhe pudessem bastar.
O que ele colimava era apossar-se do património opulento de Drúsus, a fim de entregar-se sem reserva às suas paixões desenfreadas.
Para consegui-lo, forçoso era arredar qualquer pretendente, máxime Nero e Cáius, estimulando-lhes o ciúme com habilidade.
No jogo dessa partida, Virgília afigurou-se-lhe a melhor das armas.
Ele admirava e pode mesmo dizer-se — amava a “borboleta” de olhos azulinos, e, se Virgília fosse rica, certo preferi-la-ia; viúva e pobre, porém, jamais poderia requestá-la e só lhe interessava como joguete de rivalidade entre os dois irmãos.
As assiduidades de Nero junto da moça eram mais que evidentes; ela, porém, chorava tão sinceramente a perda do marido, que poderia recusá-lo, e, neste caso, Nero também podia reviver o velho plano da família voltando-se para Drusila.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 15, 2017 9:37 pm

Contudo, mais perigosa lhe parecia a inopinada aproximação de Cáius, desta última.
Quem, de facto, poderia garantir que aquele galã fantástico, agora saturado da selvajaria de Dafné, cujo nome não pronunciava sequer, não se deixasse prender por aquela meiga criatura, que, aliás, parecia até lhe adivinhar nos olhos os mínimos desejos?
Para varrer tais dúvidas,’ resolveu sondar o coração de Cáius e, um dia em. que se viram a sós, disse com simulada displicência:
— Quem, ainda há poucos meses, seria capaz de supor que Nero pudesse ser o sucessor de Marcus Fábius!
E no entanto, a coisa é mais que provável, pois as intimidades de teu irmão não escondem suas tenções e Virgília não poderá recusá-lo, de vez que está reduzida à pobreza e sempre é duro viver-se à custa dos amigos.
Agora o que não padece dúvida é que a pobrezinha jamais será feliz, casando-se com um rapaz assim desconfiado e impulsivo, depois de ter fruído o amor calmo, profundo e ponderado de Fábius.
Ouvindo estes conceitos, Cáius se aprumou, ruborizado:
— Duvido que Virgília aceite Nero por marido, assim como duvido que o critério financeiro possa influir nas suas resoluções, a ponto de unir-se a um homem que lhe não fale ao coração.
Por outro lado, Virgília não ignora que meu pai, tanto quanto eu, estimamo-la como pessoa da família e estamos dispostos a assegurar a sua independência.
Ao demais, vou ser franco contigo e digo-te que, uma vez refeita do seu legítimo desgosto e da sua saúde, espero casar-me com ela.
Velhos camaradas de infância, ambos provados na vida, rudemente, não nos iludiremos mais com as niquices que deram motivo ao nosso dissentimento no passado.
Ela reconhece a afeição sincera que lhe voto e penso que me não há-de preterir, seja por quem e como for.
Intimamente satisfeito, Cláudius apertou-lhe a mão.
Por este lado, ficava tranquilo, nenhum embargo aos seus projectos.
Quanto a Nero, que continuasse como entendesse, já lhe não fazia sombra
Dias após esta entrevista, Semprônius regressava satisfeito:
a restauração da granja estava quase concluída e não tardou que, dentro de mais uns dias, reconduzisse ao novo lar toda a família acrescida de Drusila e Cláudius.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 15, 2017 9:37 pm

III - Quinze meses depois

Não longe do cabo “Mincenes”, sobre um promontório elevado, erguia-se garboso vilino, cujas colunatas brancas se lobrigavam através do arvoredo espesso, que todo o circundava.
Sinuosa aleia orlada de estátuas comunicava o solar com um grande terraço, que, construído artificialmente sobre alicerces enormes, entrava pelo mar a dentro e descortinava, para todos os lados, o soberbo panorama do golfo com suas praias ridentes, o porto de Mincenes e, mais longe, a silhueta escura do Vesúvio, cujo cimo fumarento dominava o quadro, qual sinistro memento mori.
Uma tarde primaveril, bela moça de cútis fresca e semblante infantil encontrava-se recostada a um banco de mármore desse terraço.
O vestido branco, justo, deixava entrever-lhe as linhas do corpo esbelto e flexuoso, enquanto os raios do Sol poente brincavam de luzir nas bordaduras do manto violeta, tanto quanto nos seus cabelos louro-fulvos.
Virgília, que outra não era, tinha, efectivamente, recuperado a saúde:
faces rosadas, lábios frescos, apenas um tico de melancolia e ligeira prega aos cantos da boca indicavam profunda transfiguração de espírito.
Grande seria o seu nervosismo no momento, porque esfarpava impaciente as franjas do cinto e no rosto se lhe reflectiam as mais várias emoções.
Tratava-se, efectivamente, de séria entrevista que tivera com Fábia e da não menos séria resolução da mesma decorrente.
A veneranda matrona não se pudera forrar inteiramente às terríveis emoções experimentadas com a erupção do Vesúvio.
Via-se que definhava dia a dia, que morria lentamente, sempre bela, calma, conformada, tal como se revelara em toda a sua vida.
Ultimamente, porém, as forças lhe caíam tanto, que filho e neto, cercando-a sempre dos maiores cuidados, convenceram-se de que ela se aproximava de um fim quiçá repentino.
Dias antes daquele em que retomámos a nossa narrativa, Metela e Virgília tinham recebido cartas de Cáius convidando-as a passar algum tempo em Micenes, pois que a avó não queria morrer sem ver ainda uma vez reunidos os velhos amigos.
Partiram as duas naquela manhã mesmo, ficando Agripa de se lhes juntar mais tarde.
Aproveitando o tumulto da recepção, Fábia afastara-se levando Virgília consigo.
Depois de haver sondado a fundo o coração da jovem viúva, disse-lhe, ao mesmo tempo que a abraçava:
“Minha boa amiguinha, antes de partir deste mundo, queria poder fixar a sorte daqueles que mais tenho amado na vida.
Para felicidade de ambos, casa-te com o meu Cáius.
O pesar que ainda te punge se esvanecerá na aurora de um novo amor e de novos deveres.
Compreendo perfeitamente que Marcus Fábius seja insubstituível no teu coração, mas, também me parece que o teu companheiro de infância é a única pessoa que ainda podes amar neste mundo.
Semprônius já te considera como filha e este casamento só lhe poderá alegrar.
Quanto a mim, não preciso dizer-te da minha ventura em poder assistir a essa união, para abençoá-la.
Agora vai, pensa no que te digo e resolve em consciência.”
Surpreendida, confusa, a moça correra a refugiar-se lá no terraço ermo, onde agora meditava.
Certo, a ideia de esposar Cáius não lhe repugnava e a afeição que lhe votava desde a infância poderia facilmente transmudar-se em amor; entretanto, de outra ordem eram as considerações que lhe entravavam o coração orgulhoso e caprichoso.
Cáius está bem mudado agora — pensava ela —, não é mais aquele arrebatado e desastrado doudivanas de outros tempos...
Quem nos dirá não seja essa transformação uma consequência da perda de Dafné?
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 15, 2017 9:37 pm

Aliás, tenho motivos para supor que ele a tivesse amado mais que a mim, pois quando Semprônius embargava o casamento ele entristeceu e definhou a olhos vistos, ao passo que, quando por mim recusado, não foi além de um ligeiro arrufo, para logo escandalizar toda a cidade com as suas extravagâncias...
Quem o dirá capaz de me votar agora um amor único, singular, exclusivo qual o de Marcus?
Uma coisa, entretanto, não posso compreender:
é que, tendo amado tanto a sua Dafné, nem sequer lhe pronuncie o nome...
Porque não tem a seu respeito uma frase, uma palavra de saudade?
Reconheço que ela teve faltas, sim, mas também penso que a morte tudo deve extinguir, mesmo que se trate de seres repulsivos, como aquele Gundicar, que tantos aborrecimentos me causou e por quem tive a única desinteligência conjugal.
Agora, pensando na morte horrível desse menino, chego a lastimá-lo...
Uns passos fortes e lépidos, ressoantes no mármore do pavimento, sustaram-lhe as reflexões.
Ao avistar Cáius Lucílius, ergueu-se, corou.
Ele aproximou-se com desembaraço e sentou-se ao seu lado.
— Querida Virgília, sei que vovó já conversou contigo — disse, beijando-lhe a mão.
Terás a coragem de me repelir pela segunda vez que te ofereço a mão de esposo?
Ela levantou os olhos e deu com o seu olhar de veludo, fascinante, dominador de almas e corações.
— Cáius, meu amigo, vexa-me o ter de trair a memória de Fábius, e, contudo, és o único homem a quem eu desejaria pertencer; amo-te, amei-te sempre, não bastantemente talvez, mas tu és assaz belo e bondoso para cativares um coração feminino.
Há outra consideração que me embaraça; é a seguinte: se nos casarmos, teu coração só a mim poderá pertencer e, então, eu te pergunto:
poderás tu votar-me o amor exclusivo e terno que Dafné te inspirou?
Então não é a saudade o que te faz assim tão triste e sonhador?
E porque não falas nela, não derramas uma lágrima em sua memória?
Ouvindo pronunciar o nome de Dafné, súbito palor assomou às faces do rapaz.
Contudo, dominou a emoção imprevista e falou:
— Tens razão, entre nós não deve haver segredos e eu vou contar-te o fim que teve Dafné ainda que arriscando-me a ser por ti repelido com horror.
E, baixando a voz, fez um esboço rápido dos terríveis episódios desenrolados em Herculânum.
Virgília ouvia-o ansiosa, palpitante e compreendia, agora, aquele silêncio glacial, a repugnância que lhe sopitava qualquer manifestação de pesar sobre o destino da mulher infida, que ele, na sua decisão implacável, condenara à morte.
E a injúria ao seu coração e à sua honra transformaram o volúvel e arrebatador patrício no homem melancólico e sonhador.
Doía-lhe, agora, o ter provocado recordações tão pungentes.
O lívido de Cáius, a tremura dos lábios e o brilho estranho dos olhos, estavam a revelar quanto havia sofrido.
Nada obstante, a vingança crua da honra ultrajada não deixou de entusiasmar o ânimo intrépido e vingativo de Virgília.
Nunca o jovem patrício lhe pareceu mais digno de ser amado.
Depois, notando que ele se calava a olhar fixo no vácuo, como que absorto no passado, um súbito arrepio de ciúme lhe veio ao coração, mas, logo se precatou e, passando a mão pela fronte húmida do rapaz, murmurou:
— Sou tua e juro que te hei-de fazer esquecer quanto sofreste por uma criatura indigna.
Aquela voz melodiosa, corroborada por um molhar húmido e prenhe de carícias, foi água na fervura:
o jovem Cáius, exultante de alegria, abraçou-a com efusão.
— Noiva adorada, eu te prometo que jamais te hás-de arrepender destes momentos.
Beijou-a.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 16, 2017 8:33 pm

E repetia — hei-de amar-te tanto, tanto, que a própria sombra de Marcus Fábius há-de felicitar-se pela homenagem rendida ao seu mais precioso tesouro.
Absorvido no seu colóquio, o jovem par não percebeu Cláudius, que se vinha encaminhando pelo terraço como se procurasse alguém e que, avistando-os, logo tratou de eclipsar-se na sombra do arvoredo.
— Bom proveito... — murmurou —, esponsais à vista, e logo com a “dourada borboleta”...
Maganão feliz, este Cáius!
Beleza, fortuna, amor, tudo lhe deram os deuses.
Mas, não é dele que me incumbe tratar e sim de mim mesmo...
Magnífico ensejo, este que se me depara.
Tento contigo e mão na roda, Cláudius amigo; e vamos agora mesmo dar a boa nova a Drusila, lançarmo-nos aos seus pés e oferecer-lhe o nosso... amor.
Ciúme e amor-próprio arranhados hão-de nos ser propícios; e a perspectiva de contemplar a ternura dos pombinhos também não deixará de pesar na balança.
Com franqueza: como bom amigo, penso que chegarei a tempo de livrá-la de si mesma, quero dizer — de um choque doloroso e... insanável.
Com ligeiro sorriso, deu meia volta e dirigiu-se rápido para o lado oposto do jardim, onde não tardou a encontrar Drusila, que, banhada pelos últimos raios do Sol, volteava a passo lento um pequeno lago de cujo centro, em repuxo, esguichava uma coluna líquida, prateada.
Era manifesto que a jovem Drusila estava satisfeita, pois sorria e mirava um ramalhete de flores silvestres, tocando as pétalas com os dedinhos atilados.
Ele parou à sombra de um plátano e contemplou-a com um olhar meio irónico, meio escrutante.
Aquele ramalhete, bem o sabia, fora Cáius que o trouxera do seu matinal passeio pelos campos.
Ela o gabara e Cáius num gesto de galanteria lho oferecera.
— E no entanto — considerou consigo mesmo — essa mulher desdenhada pelo Adónis venturoso, é bela a valer!
Formas irrepreensíveis, uma tez soberba e aqueles olhos negros, a contrastar com os cabelos louros, dão-lhe um tique de preciosidade inédita.
Pois tanto melhor para mim e para ela, com dote e tudo...
Deixando o refúgio, correu-lhe ao encontro, e, depois de palavras a esmo, desfechou brusco:
— Querida Drusila, não quero perder o ensejo de falar-te a sós, ensejo que há muito procuro.
Sabes que te amo, que sou teu escravo vai para dois anos, e conquanto não te venha importunando com a minha paixão, lembro-me que houve um tempo no qual me esperançavas.
— Sempre te considerei meu amigo, querido Cláudius; mas, porque escolherias justamente este dia para me falares do teu amor?
— Porque — respondeu lentamente — o espectáculo da felicidade alheia desperta em nosso coração uma tal ou qual inveja e desejo de felicidade.
Não sabes que venho de contemplar Virgília nos braços de Cáius a se jurarem fidelidade e amor recíprocos.
Esse quadro me fez sentir mais amargo o isolamento do meu coração e foi o que me trouxe à presença da mulher que adoro.
Como que tocada por uma corrente eléctrica, Drusila estacou e deixou cair o ramo, ao mesmo tempo que levava a mão ao coração.
Cláudius não percebeu aquele gesto nem ouviu o suspiro abafado que lhe saíra do peito, visto que se abaixara e tratava de juntar as flores espalhadas pelo chão.
Ao apresentar-lhe o ramo mal recomposto, também lhe tremiam as mãos e o que assim o agitava não era, seguramente, o receio de perder a mulher que amava a outro, mas o de ter de renunciar aos gozos que o dote lhe facultaria.
O minuto a seguir era decisivo para o seu futuro: coroamento ou destruição do plano hábil, longa e tenazmente desenvolvido e executado.
Finalmente asserenado, tomou a mão gelada de Drusila e disse em tom apaixonado:
— Diz-me: posso também esperar um futuro ditoso, qual outrora me prometias?
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 16, 2017 8:33 pm

Ela deitou-lhe um olhar desconsolado e compassivo:
— Se achas que te posso fazer feliz apenas com a minha amizade, consinto em pertencer-te e prometo ser-te esposa fiel e dedicada; mas, indigna seria de ti e de mim mesma, se mais que amizade te oferecesse...
Cláudius deixou cair as flores e cingiu-a nos braços.
— Amo-te de qualquer forma, amo-te tal como és, mesmo porque a amizade, de um coração como o teu, vale o amor de outro coração e, assim, que este beijo seja o selo da nossa união...
— Como quiseres...
Deixou pender a cabeça, pesadamente, no ombro do mancebo.
Fez-se breve silêncio.
O músico, feliz, impava de contentamento, estava ganha a partida, conquistava independência e fortuna.
Na sua retina espiritual desenhou-se radiosa miragem, a fruição de todos os prazeres da vida.
Ele era, contudo, bastante
inteligente para não desdenhar o estado de alma da futura esposa, e logo, tomando-lhe da mão, beijou-a e tratou de conduzi-la para o fundo do jardim.
Com a habilidade e subtileza de espírito que lhe eram peculiares, entabulou uma palestra que, forçando respostas da moça, acabou por distraí-la e restituir-lhe a calma necessária.
Quando entraram em casa, era já noite fechada e logo apareceu um escravo dizendo que Semprônius os convocava ao terraço, onde todos estavam reunidos.
O terraço, assim como o curto corredor que a ele conduzia, estavam fartamente iluminados.
Por toda a parte, tocheiros e lâmpadas aclaravam o grupo reunido junto da varanda.
Fábia estava recostada no seu diva de repouso, entre macias e ricas almofadas.
Seu nobre semblante exprimia uma alegria desbordante; à sua frente estavam os noivos, enquanto Semprônius, rosto aberto em sorrisos, conversava com o casal Agripa.
Diante daquele quadro, Drusila estacou, estremecendo, e não pôde furtar-se de notar o radioso sorriso de Cáius Lucílius que, braço passado às costas da sua rival, parecia devorá-la num olhar de fogo.
A forte pressão da mão de Cláudius chamou-a a si e logo Semprônius, que os divisara, gritou alegre:
— Venham cá, seus fujões, venham ver dois noivos que estão esperando que vocês os felicitem...
— Amigos — disse, levantando a mão em continência —, recebam as nossas e dêem-nos as vossas saudações, pois também tenho a ventura de vos apresentar minha noiva...
Drusila acaba de me conceder a sua mão e eu espero que o nobre Semprônius e tu, ilustre Fábia, não nos recusareis a vossa bênção, de vez que sempre me honrastes com a vossa amizade.
Não podia ter escolhido melhor oportunidade para formular aquele pedido:
a alegria de que estavam possuídos Semprônius e Fábia, com o verem finalmente realizado o velho sonho de casar Cáius com Virgília, tornava-os indulgentes e fazia calar considerações que, noutras circunstâncias, não poderiam deixar de pesar desfavoravelmente.
Assim foi que, estendendo-lhe a mão, Semprônius acabou por abraçá-lo e disse:
— Seja bem-vindo, meu sobrinho, e não se esqueça de que, esposando uma órfã, torna-se duplamente responsável pela sua felicidade.
Fábia, por sua vez, abriu-lhe os braços e rematou:
— Sejam felizes, meus filhos, e que os deuses vos abençoem.
Enquanto duravam aquelas expansões, os escravos haviam improvisado ali mesmo no terraço uma florida mesa repleta de finas iguarias.
Anunciada a ceia, todos se assentaram e se entregaram à mais franca alegria, trocando-se brindes e epigramas.
Esvaziando uma soberba taça de Samos, braço estendido, Agripa sentenciou:
— Quem diria, lembrando o cataclismo que nos sequestrou os tectos, que os deuses nos reservavam momentos de alegria como este?
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 16, 2017 8:34 pm

— Confessa, Agripa — obtemperou Cláudius risonho —, que os porões tão avisadamente cavados sob a tua casa e que te permitiram de lá retirar tantas preciosidades, além do milhão de setércios aferrolhados, não deixam de concorrer para o teu actual regozijo.
Com essa é que você não contava!
— Não nego; entretanto, é força dizer que devo a Metela o privilégio da invenção.
Tivesse-lhe ouvido outros conselhos ao invés de os ridiculizar...
Penitencio-me, Metela, e bebo, ao teu bom senso, mais esta taça!
E quanto a vós, noivinhos, aproveitai a lição, não deixeis de atender aos pressentimentos femininos.
O coro de risadas foi nessa altura interrompido pelo pequeno Valérius, que corria em torno da mesa, a empanturrar de pastéis um belo cão doméstico.
— Olha — disse o menino estacando —, Nero também quer jantar.
Todos se voltaram e viram entrar o moço oficial, de rosto esfogueado na pressa de chegar.
Sombria nuvem como que obscureceu o olhar de Semprônius, que logo franziu o sobrolho.
É que, só então, se lembrara de que Nero também pretendia Virgília e se havia antecipado em lhe pedir assentimento.
— Saudações a todos — disse o jovem tribuno —, venho directamente da tua casa, Agripa, encaminhado pelo intendente...
Mas... por Baco, que linda festa celebrais aqui!
A quem devo felicitar?
Enchia a taça.
Agripa, que não deixara de notar o ar suspeito dos donos da casa, apressou-se em responder.
— Chegas mesmo a propósito para consagrar um duplo noivado, isto é:
o de teu irmão com Virgília e o de Cláudius com Drusila.
Nem bem acabara de o dizer, a taça escapou-se da mão de Nero, estilhaçando-se no lajedo.
Pálido, parado o olhar, o rapaz recuou e tombou desfalecido.
Houve geral sobressalto e, enquanto os homens cuidavam de o levantar e estender num diva, Metela inclinou-se para Virgília, branca da cor do vestido, e lhe sussurrou no ouvido:
— Vê que as minhas suspeitas não eram infundadas...
Decididamente, o pobre rapaz não tem sorte.
Um instante após, o tribuno recuperou os sentidos e Cáius Lucílius, que para ele se inclinava solicito, percebeu-lhe no olhar um tal relâmpago de ódio, que logo se afastou apreensivo.
— Perdoem-me todos este contratempo... — disse, levantando-se —, tudo efeito do calor e da fadiga... uma simples tonteira, nada mais.
Vou beber à saúde e felicidade dos noivos é depois permitireis que me retire, pois suponho que algumas horas de sono me restabelecerão completamente.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 16, 2017 8:34 pm

IV - Bodas de sangue

Os dias que se seguiram, passavam céleres e absorvidos com os preparativos da festa nupcial, que abrangia os dois casamentos, conforme ficara desde logo resolvido.
Ninguém prestava maior atenção em Nero, que, aliás, mostrava-se aparentemente calmo e resignado com os acontecimentos.
A verdade, contudo, é que o seu estado de alma se agravara e pervertera como nunca.
Todos os maus sentimentos de longa data recalcados, como que atingiram a plenitude de saturação.
Uma carícia por mais inocente, um olhar por mais natural, que se trocassem os noivos, eram agulhadas de ciúme que lhe picotavam o coração.
E na sua mórbida vesânia começava a afagar a ideia de que só o sangue daquele irmão, que tudo lhe arrebatava no mundo, poderia apagar o incêndio que intimamente o devorava.
E foi assim que viu aproximar-se o dia aprazado.
Metela, somente, notava impressionada a extrema palidez do jovem oficial, bem como a sinistra expressão que às vezes lhe crispava os lábios.
Aquela calma aparente acabou por confundi-la, enquanto que ele buscava tirar do próprio ódio a força dissimuladora, espreitando o momento propício à execução do planejado crime.
*
* *
Retirando-se para seus aposentos antes de terminar a festa, Cáius e Virgília conchegavam-se junto de uma janela que dava para o jardim, gozando a frescura e o ar embalsamado da noite silenciosa.
Ligeiro ruído na porta da galeria atraiu-lhes a atenção, e foi com surpresa que viram dali surgir Nero, lívido, olhar coruscante, tendo a mão direita oculta atrás das costas.
— Que significa esta invasão? — interpelou Cáius amarrando-lhe a cara.
Mudo, Nero atirou-se a ele e apunhalou-o em pleno peito.
O rapaz deu um grito e rolou por terra.
Virgília ficou um instante como que petrificada, mas, percebendo que o tribuno se preparava para secundar o golpe, correu e apanhou de uma pequena mesa o punhal sírio que Cáius ali deixara minutos antes, quando despira a toga, e lépida, e certeira como um tigre, embebeu-o até ao cabo nas costas do cunhado.
Ele abriu os braços, oscilou e caiu de bruços.
No mesmo instante, gritos agudos partiam da galeria próxima.
Era uma escrava que, tendo visto Nero entrar nos aposentos do casal, tudo presenciara pela abertura de um reposteiro.
O espectáculo daquela dupla agressão levou-a de carreira até à sala do festim, onde, com palavras atropeladas, mal pôde reproduzir a espantosa ocorrência.
Num instante, o local da tragédia encheu-se de gente, qual mais aflito, qual mais terrificado.
Contemplando Nero, Semprônius não se conteve que não apostrofasse: — Fratricida!
Mas, logo reconsiderando, cobriu o rosto com as mãos e, mergulhado em remorsos, encostou-se à parede para não cair.
Metela precipitara-se para Virgília. que, hirta qual estátua, mão erguida e olhar parado, dava a impressão de haver enlouquecido.
De começo, ela parecia surda e insensível às palavras e carícias da amiga; mas, acabou reconhecendo-a e logo lhe desfaleceu nos braços.
— Agripa, vamos, ajuda-me a conduzi-la ao nosso quarto, pois não é possível aqui deixar a pobrezinha...
O patrício tomou-a nos braços e conduziu-a para o outro ângulo da casa, onde Metela a despiu e acomodou da melhor forma.
Muitas horas passaram, antes que a pobre Virgília retomasse conhecimento da negra realidade.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 16, 2017 8:34 pm

Nesse ínterim, tinham procurado socorrer os feridos.
Agripa que, na qualidade de velho soldado, retinha algumas noções de cirurgia, fez-lhes os curativos de emergência, até que chegasse o médico, um digno e sábio ancião que acabou por declarar que, sendo graves os ferimentos, não os julgava, contudo, mortais.
Ainda assim, não podendo prever complicações supervenientes, abstinha-se de prognosticar.
No livro dos destinos escrito estava que aquela noite deveria ser fatídica para a família de Semprônius.
É que a nova do atentado e o estado precário dos netos também atingira a nobre matrona, mergulhada em profundo torpor, que o médico dificilmente pôde combater.
Quando, finalmente, abriu os olhos, ninguém mais se iludiu — a sua agonia era transparente.
— Sei que vou morrer... — disse, enquanto apertava a mão de Drusila, que se inclinava para ela, com os olhos rasos de lágrimas.
Não chorem.
Os deuses me concederam uma vida bem longa...
Depois, voltando-se para o médico:
— Cáius Lucílius voltou a si?
Faço questão de o ver e abençoar pela última vez.
Consinta, doutor, que me levem até lá quanto antes, pois sinto que os meus minutos estão contados...
O velho esculápio fez de cabeça um sinal de assentimento, e enquanto se preparavam para conduzi-la até junto do neto, este, que até então se mantivera mergulhado em profundo torpor, abria subitamente os olhos e dizia:
— Vovó está me chamando...
Oh! vejo que a estão conduzindo para aqui...
Mas, como?
Vai deixar-nos, sim...
O laço de fogo que a retém, vai romper-se a qualquer momento e eu não posso prendê-la!
Retombou a cabeça, gemendo, e pareceu não ver quando os escravos depositaram a velha ao seu lado.
Ela permaneceu por instantes imóvel sobre as almofadas que a amparavam, até que abriu os olhos e circunvagou o olhar carinhoso por todos quantos ali se reuniam.
— Levantem a cortina da janela...
Sinto faltar-me o ar.
Agripa atendeu e logo uma onda fresca e olorosa invadiu o ambiente.
À voz da avó, o rapaz esticou-se estremecendo e, tomando-lhe da mão gelada, disse:
— Vais deixar-nos, vais morrer, vovó...
— Filho querido, vou para onde todos temos de ir: abençoo-te... e a ti também, meu Semprônius...
Mas ao outro, ao desgraçado, ao louco, transmitam-lhe o meu perdão, digam-lhe que... também o abençoo.
Nesse momento, o Sol despontava no horizonte e inundava o quarto de reflexos dourados.
Diante desse quadro, o semblante emaciado da matrona como que se transfigurou de súbito:
ligeiro rubor lhe coloriu as faces, os olhos negros refulgiam, de toda a sua pessoa desprendia-se um como revérbero de sua primitiva beleza.
Fitando o astro luminoso a elevar-se do seio das ondas, como se nelas boiasse, exclamou:
— É Rá que me saúda!
Rejuvenescido e triunfante, ei-lo que se levanta do país das sombras...
Oh! sim, de tudo me lembro!
Ergueu-se, mas para recair logo...
Estava efectivamente morta.
Enquanto removiam o cadáver, Cáius Lucílius, exausto de tantas emoções, recaiu num sono agitado, preso de ardente delírio, a debater-se como quem se visse afogar num pântano.
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