Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 16, 2017 8:34 pm

Chamava os seus soldados, repelia o médico chamando-lhe maldito feiticeiro que pretendesse perdê-lo e aos seus súbditos...
*
* *
Daí a três dias, celebraram-se tristemente, sem pompas quaisquer, os funerais de Fábia.
Só as pessoas da família e Agripa com a mulher assistiram ao ato e verteram sinceras lágrimas em memória daquela nobre e venerável criatura.
Um morno abatimento pesava em toda a casa, o estado dos feridos continuava alarmante, a se consumirem em febre alta.
Temeroso, quanto desanimado, Semprônius perambulava de um lado para outro, do leito de Cáius, aonde o atraía o amor, para o de Nero aonde o levava a voz da consciência.
O pensamento de que “seu” filho erguera o braço criminoso para o próprio irmão, era como ferro em brasa a requeimar-lhe o coração.
Drusila e Metela desvelavam-se abnegadamente em assistir os feridos, prodigalizando-lhes aqueles cuidados inteligentes que as mãos salariadas jamais realizam.
Por outro lado, Metela amiúde procurava estar junto de Virgília, cuja saúde lhe causava temores indefiníveis.
Ao voltar a si daquele longo desmaio, a moça mantinha-se em profunda apatia, da qual ninguém, nem coisa alguma, podia arrancá-la.
E na verdade, Metela não deixava de ter razão. De compleição delicada, ainda mal refeita do abalo que lhe causara a perda do marido e do filho, era mesmo de presumir não resistisse àquele segundo golpe.
Uma pessoa havia, naquela casa, que, só ela, mantivera-se indiferente aos dolorosos acontecimentos, aos quais acompanhava com tedioso despeito:
era Cláudius, cujo espírito egoísta e ávido de gozos, ansiava pelo momento de entrar, como senhor, no solar de Drúsus.
Assim que, muita vez, mal sopitava uma praga ao contemplar a garbosa galera ali amarrada no embarcadouro e que deveria transportá-lo a Roma.
Na noite que se seguiu aos funerais de Fábia, ele não se conteve e, aproveitando um momento em que a mulher procurava repousar um tanto, disse-lhe:
— Cara Drusila, agora que temos cumprido os últimos deveres em relação à nobre Fábia, parece-me que nos assiste o direito de cuidar da nossa vida.
Aqui, somos já dispensáveis, pois ouvi Metela prometer a Semprônius que nem ela nem o marido o deixariam enquanto a calma não se restabelecesse com a franca convalescença dos feridos.
Em consequência, Agripa já deu todas as instruções ao seu intendente e eu penso, portanto, que não haverá inconveniente em partirmos amanhã mesmo para Roma, onde temos, como bem sabes, interesses que nos chamam e não podemos negligenciar.
A tais palavras, a moça corou e dirigiu-lhe um olhar profundo, escrutador.
— Estou magoada por ver a tua pouca afeição à casa hospitaleira que te recebeu como amigo, vai para dois anos.
Como podes abandonar Semprônius numa ocasião justamente em que ele mais precisa de conforto e dedicação?
Metela e Agripa deixam o lar, os interesses, para aqui ficarem, e queres tu que eu abandone meu tio e os feridos?
Absolutamente não irei.
Mas tu podes ir, mesmo porque, o imperativo dos negócios e o prurido de mandar como dono afiguram-se-te pretexto razoável.
Pois vai, que aqui também não fazes falta e, a fim de evitar comentários maldosos, eu mesma direi que fui quem te aconselhou a partir.
Ele mordeu os lábios, ela compreendeu a impaciência que ele tinha de senhorear os novos domínios, e, delicadamente, lhe atirava em rosto a sua vaidade e ingratidão para com aqueles que durante dois anos o vinham alimentando e vestindo.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 16, 2017 8:34 pm

Aquela ousadia e pertinácia, em ficar, despertava no espírito de Cláudius uma raiva surda.
Não amava Drusila, certamente, mas, não menos certo é que ela era, agora, sua mulher...
Como ousava mostrar-lhe, assim, predilecção por outrem?
Trabalhado por esse brutal despeito, pôs de parte a prudência que até então mantivera, respeitando-lhe as susceptibilidades, e inclinando-se ao seu ouvido, disse com bruteza:
— Compreendo...
Pesa-te deixar Cáius assim ferido...
Pensas que sou cego?
Casaste comigo no intuito de poderes sair desta casa, mas, agora que a louca paixão te leva a cuidar do seu objecto, ao menos para sonhar que algo lhe mereces, não se te dá despachar-me.
Pois bem:
irei, mas não devia fazê-lo sem te demonstrar que não me iludo a teu respeito.
Drusila levantou-se, pálida, e seus olhos habitualmente tão doces, tão calmos, cravaram-se no marido rebrilhantes de orgulho e desdém:
— De vez que és tão clarividente, nobilíssimo Cláudius, não te faltou conhecimento de causa para, atendendo à oportunidade do momento, conquistares uma fortuna que te facultaria satisfazer pendores de ociosidade e faustos gozos. Indolente, jamais procuraste trabalho honroso na administração do Estado, preferindo parasitar, mercê de lisonjas e canções.
Vai, portanto, ingratalhão indigno, não já de amor, mas de simpatia; vai na qualidade de primeiro mordomo de tua mulher, representar o papel de dono dos bens adquiridos a preço vil, isto é — de vil intriga.
Deu-lhe as costas, sem o fitar sequer.
Só, o músico teve um acesso de raiva, maldizendo a leviandade que o levara a ofender a mulher de tal jeito; mas, reflectindo — e com razão — que o melhor era dar tempo ao tempo, tratou de apresentar a Semprônius e Agripa os motivos que o induziam a partir e, logo ao dealbar da aurora, velejou para Roma.
Pobre Drusila! órfã desde o berço, tivera uma infância e uma juventude melancolicamente sombrias, ao lado do pai enfermiço e cego.
A vida -só lhe reservara desilusões e a última fora aquela cena brutal do marido, que lhe tirara todas as esperanças que porventura ainda pudera alimentar.
Os melhores momentos de sua vida, balda de ventura, eram os que passava junto de Cáius Lucílius, a tratá-lo com devotamento impar, visto que Virgília, não obstante restabelecida, mantinha-se debilitada a ponto de o médico não lhe consentir que passasse algumas horas diárias à cabeceira do marido.
Era, pois, Drusila quem velava pelo primo, e o sorriso de gratidão, e o carinhoso aperto de mão que lhe ele ofertava, compensavam-na das noites de vigília à sua cabeceira.
Tão-pouco, assistia-lhe o direito de guardar qualquer mágoa do rapaz, visto que ele não poderia adivinhar os sentimentos que lhe inspirava.
Suspirou, imaginando no que seria quando restabelecido, houvesse ela de abandonar aquele tecto amigo para regressar a Roma, em convivência obrigatória com aquele marido egoísta e hipócrita.
Fora, indubitavelmente, uma aspiração malévola que a decidira a entregar-se a Cláudius, e agora não havia como se esquivar às consequências da sua imprudência.
Seis semanas transcorreram.
Os feridos melhoravam a olhos vistos.
Semprônius já não temia perder os filhos, mas, a lembrança do atentado abominável torturava cruelmente o velho patrício, de feição a inspirar-lhe ora aversão e cólera, ora remorsos pungitivos.
Em tais momentos, recriminava-se acerbamente de não haver criado e educado em comum todos os filhos!
Oh! quantas desgraças não teria evitado se eles tivessem crescido juntos, à sombra de um paternal amor equânime?
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 16, 2017 8:35 pm

Jamais, então, aquele vesânico ciúme, aquele ódio a raiar pelo crime haveria irradiado no coração de Nero para cavar um abismo que impossibilitava os dois irmãos de conviverem debaixo do mesmo tecto, a que tinham, aliás, iguais direitos.
Um dia, Semprônius assentou-se à beira do leito de Cáius, que pela primeira vez haviam transportado ao terraço do jardim.
— Que tens, pai? — perguntou o rapaz depois de o fitar silenciosa e longamente.
Acaso não podes confiar-me os pensamentos que tanto te acabrunham?
A pergunta provocou irritação.
Semprônius explodiu numa torrente de impropérios contra Nero, cuja atitude lhe criara uma posição insustentável.
Vendo o pai encolerizado, ouvindo-lhe o libelo acusatório, Cáius logo se lembrou do solitário da caverna e da narrativa concernente ao Mestre, que tinha perdoado e intercedido por seus algozes.
E veio-lhe, então, incoercível desejo de confessar ao pai suas novas crenças e levá-lo, talvez, a compartilhar delas.
— Acalma-te, pai — disse, apertando-lhe fortemente a mão —, sê indulgente, perdoa a Nero; lembra-te de que ele é apenas uma vítima das circunstâncias e muito terá sofrido antes de chegar ao extremo a que chegou...
Por mim, não lhe guardo o menor rancor e desejaria, sinceramente, reconciliar-me com ele, pois tenho a alma repleta de uma nova doutrina que prescreve o perdão das ofensas e manda fazer o bem aos nossos inimigos.
Há muito desejava confessar-te minha nova fé, mas, faltava-me a coragem.
— De que fé nova me falas tu? — perguntou admirado.
Tuas palavras são conceituosas, sábios os preceitos, mas eu duvido que os homens possam praticamente executá-los.
Perdoar ofensas não é coisa fácil, e beneficiar inimigos é coisa ainda mais difícil.
Mas, conta-me tudo, tudo, pois não é de hoje que venho notando profunda transformação no teu carácter.
— Tua benevolência em ouvir-me muito me alegra, pois desejava mesmo abrir-te meu «coração.
E logo formulou uma resenha de tudo que havia calado, até ao dia do seu encontro com o eremita.
Com a eloquência que lhe era inata e com a força persuasiva que lhe brotava do coração, falou da excelsitude da fé cristã, dos preceitos de abnegação e caridade pregados pelo divino mensageiro do Pai celeste, da precariedade da vida terrena e da bem-aventurança sem mescla, reservada, em mansão de luz, aos penitentes e sofredores fidedignos.
Retraçando a inexaurível mansuetude do profeta, a sua morte sublime, a fisionomia do moço patrício como que se animara do fogo divino e nos olhos negros lhe flutuava a mesma fé ardente que experimentara lá na gruta, quando prosternado aos pés do Mestre crucificado, que o redimira.
Confuso, admirado, subjugado, Semprônius tudo ouvira sem algo objectar.
Por fim, disse:
— Vejo que profunda é a tua convicção e isso me induz a crer que me enganava sobre a fé cristã.
Também eu preciso ser aliviado e quero implorar perdão para minhas faltas, a fim de que o profeta Jesus me reserve um lugar no seu reino de paz e amor.
Assim, logo que as circunstâncias o permitam, iremos à caverna do solitário.
— Ele bem me predisse que lá voltaríamos para receber de suas mãos o baptismo — exclamou Cáius radiante.
Oh! Jesus, grande é o teu poder, esse poder que em mim mesmo tenho experimentado!
E quanto a ti, meu pai, não sabes quanto me alegro por nada ter agora a ocultar-te.
Dias após esta entrevista, Metela e o marido encontravam-se no seu quarto, em palestra animada.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 16, 2017 8:35 pm

Agripa tinha regressado da cidade, ainda na véspera, e preparava-se para lá voltar breve, levando consigo a família o os dois feridos, agora quase completamente restabelecidos.
Naquele momento, referia-se a Semprônius:
— É uma situação realmente digna de piedade, temeroso de conservar sob o mesmo tecto esses dois filhos com idênticos direitos ao seu amor, mas dos quais um se fez quase assassino do outro.
E quem nos dirá que, ficando aqui, não reincida no atentado?
Oh! bem avalio quanto sofre o velho amigo em não poder dizer ao Nero - vai-te, ao mesmo tempo que reconhece a inconveniência em dizer — fica.
— Mas, olha que poderíamos levar Nero connosco — concluiu Metela, que ouvira o marido pensativa.
Todos sabem que fui a sua enfermeira quase exclusiva e ninguém estranhará queira assistir o meu doente até o final.
É uma solução que remove o impasse de Semprônius e nós precisamos demover o rapaz de acompanhar-nos.
— Excelente ideia e vou já entender-me com ele — disse Agripa seguindo logo para o quarto do tribuno.
O rapaz tinha-se levantado, vestia-se e descansava numa poltrona de vime junto da janela escancarada.
Suas feições estavam muito mudadas, pairava-lhe no rosto descarnado um quê de selvagem e sinistro, os lábios se contraíam num ritmo de profunda amargura.
Durante o período da convalescença, uma verdadeira tempestade moral lhe toldara a alma.
A ideia de que Virgília, a mulher amada, o ferira em defesa de Cáius, tinha-lhe gerado e decantado no coração todo um mosto de ódio e fel inconcebível, contra o pai e contra o irmão.
O escravo mal acabava de arrumar os travesseiros, quando Agripa surgiu no quarto.
— Retira-te, Trula — disse ao escravo, ao mesmo tempo que sentava junto do convalescente e lhe tomava da mão perguntando como passara a noite.
E tanto que o escravo se afastou, foi-lhe dizendo sem preâmbulos:
— Vim, meu caro Nero, para falar-te de coisas que sei penosas, ou seja, da tua permanência nesta casa, onde provocaste luto e dores acerbas.
Aqui ficando, não é possível deixar de ver teu irmão, o que decerto não te pode aprazer; e assim, venho propor-te que vás connosco na próxima semana lá para nossa casa, onde Metela, tua devotada enfermeira, cuidará de ti até que possas regressar a Roma, completamente restabelecido.
Às primeiras palavras do patrício, Nero mudou de cor.
— Foi decerto meu pai quem te deu o recado...
Não lhe sobrou a coragem para vir dizer de viva voz ao filho inútil:
— sai de minha casa!
Digníssimo pai!
Como haveria ele de perdoar-me o haver erguido o braço ultriz contra o outro, o favorito?
Ele, que sempre me deu do seu ouro como quem dá uma esmola; ouro de humilhação, frio e duro como ele mesmo.
— Estás enganado:
teu pai ignora este meu alvitre, mesmo porque, ainda está bastante acabrunhado para cogitar de qualquer coisa.
Entretanto, dá que te diga que te deixaste arrastar à prática de um ato abominável que nada, absolutamente nada, poderia justificar.
Isto, é claro que ninguém o comenta, em atenção ao pobre velho e até fizemos constar que já chegaras adoentado e foste acometido de um acesso de loucura.
— Vê-se que são bem caridosos... — disse o ferido, com ironia — mas, de qualquer forma, não importa; irei de bom grado, tal o desejo que tenho de abandonar esta casa, onde tudo se me torna odioso.
Uma coisa só te peço:
é que, dando a meu pai a grata nova, lhe digas do meu desejo de ter com ele uma entrevista sem testemunhas, antes de minha partida.
E como, provavelmente, será a nossa última entrevista, espero que não ma recuse.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 16, 2017 8:35 pm

V - Semprônius e os dois filhos

Na manhã do dia fixado para a partida de Agripa e sua família, Semprônius, já cedinho, irritado e carrancudo, perambulava pelo terraço, à espera da entrevista solicitada por Nero.
A primeira impressão que lhe causara o desejo do filho, foi de cólera, por isso que o seu temperamento despótico não podia admitir outra vontade além da sua.
Considerava imperdoável ousadia imporem-lhe assim o exame de um assunto que previa irritante, quanto desagradável.
Contudo, os remorsos insopitáveis e os preceitos de caridade, que Cáius lhe insinuava sempre que tinham ensejo de palestrar, acabaram por dominar aquela primeira impressão.
Foi assim que, embora constrangido, dirigiu-se para o quarto de Nero.
O rapaz estava assentado a uma pequena mesa, mãos à cabeça e de tal modo absorvido, que não percebeu a entrada do pai.
Este aproximou-se, bateu-lhe de leve no ombro, e disse:
— Queres conversar a sós comigo, aqui estou para ouvir-te.
Nero estremeceu, levantou-se e um lampejo de ódio lhe fuzilou no olhar.
— Antes de tudo, preciso dizer-te que estás para sempre livre de um filho cuja presença sempre te foi penosa; mas, ao mesmo tempo chamo sobre ti a vingança dos deuses, como pai cruel e desnaturado que escorraçou do lar os filhos para só amar a um, só porque a Natureza mais ricamente o dotara.
Acreditas tenha eu esquecido, algum dia, a maneira por que nos trataste, privando-nos de carinho e assistência, para nos entregar aos cuidados de uma velha rabugenta e má, que nos maltratava, que nos humilhava repetindo a cada instante que éramos enjeitados desde a hora em que nascemos?
“Vinte e quatro anos se passaram e eu jamais transpus os umbrais da casa onde nasci.
Se um dia lá voltei foi porque esperava, apesar de tudo, conquistar um lugar nesse lar, com um quinhão de afecto no coração de meu pai.
Louco que eu era!
Depressa me convenci de que ali não passava de um estranho, tolerado, certamente, mas cujo futuro e felicidade a ninguém interessava.
Tu, nem mesmo na hora da desgraça me chamaste para te amparar, para te socorrer.
Preferiste misturar tuas lágrimas às de uma criatura estranha, antes que abrir os braços ao filho exilado.
Reservaste todo o teu culto para essa estátua viva, enervada pela lisonja de todo mundo — Cáius, que as cinzas do Vesúvio te devolveram intacto, a fim de me espoliar da minha felicidade.
“Sim! porque, antes de tudo, não foi senão em consideração a ele que tu me traíste.
Fui o primeiro a confessar-te meu amor por Virgília, e, não obstante, foi a ele que acabaste ligando-a, porque não podes conceber algo imagine o “deus doméstico”, que se não realize logo.
“Pois bem: eu tentei acabar com essa idolatria, aniquilar esse caçula insolente, que nos roubou, a mim e aos meus irmãos germanos, o amor paterno, e me rouba o afecto de todos, sempre e onde quer que nos deparemos juntos.
“Ao brandir o punhal, não me tremeu o braço, porque eu sabia que aquele golpe atingiria igualmente o teu coração.
Finalmente, tudo poderia perdoar-te, menos a perda da mulher amada.
E eis porque parto maldizendo a tua memória.
Era isto o que te queria dizer, antes de nos separarmos de uma vez para sempre.”
Fatigado, assentou-se e passou a mão pela fronte camarinhada de suor.
— Terminaste? Ou tens ainda alguma injúria com que me afrontes?
— É o que tinha a dizer.
— Então, ouve-me por tua vez e não me interrompas.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 16, 2017 8:36 pm

Há alguns meses atrás eu me consideraria rebaixado o minha dignidade, pretendendo justificar-me diante de um filho ingrato e revoltado.
Qual o fiz com Semprónia, ter-te-ia, em consequência do teu atentado abominável, simplesmente excluído da família para entregar-te à justiça legal.
“Hoje penso de outra maneira:
lastimo-te e quero apenas mostrar-te, através de um prisma real, certos «ventos do meu passado.
Teu avô era um homem rude, Severo, despótico, a quem nem mesmo minha mãe ou Síria desobedecer.
Se, a despeito disso, cresci com receptiva liberdade, foi porque o alto cargo que ele ocupava, no Exército, afastava-o constantemente, e às vezes por longo tempo, do nosso lar.
“Tinha eu meus 22 anos quando me apaixonei por Lívia, bela, rica, bem nascida.
Minha mãe achou que ira um partido convinhável e concordou em que nos calássemos.
Somente aguardávamos o regresso próximo de teu avô para realizar aquele sonho.“
Ele voltou, afectivamente, mas trazendo consigo, e com grande surpresa nossa, uma jovem de aparência agradável, que aliás não me impressionou, porque eu já amava outra mulher.
À noite desse infausto dia, meu pai chamou-me ao seu quarto e com a concisão e autoritarismo que lhe eram peculiares, comunicou-me que o de Júlia morrera por lhe salvar a vida e que, em testemunho de reconhecimento por aquele seu ato de abnegação, havia jurado ao velho irmão de armas, in articulo mortis, assegurar o futuro da filha casando-a com o seu primogénito.
Assim, trazia-nos Júlia, ordenando que estimasse nela, desde logo, a minha futura esposa.
Retirei-me sucumbido e pedi a minha mãe a sua intercessão, aliás inútil, porque teu avô julgava inviolável a palavra dada a um moribundo e sobre isso não admitia réplicas.
“Durante um ano lutei contra aquela tempera de ferro; houve, entre nós, cenas que só a intervenção de Fábia impedia tornarem-se criminosa.
Aquela resistência levou-me, então, a apelar para a generosidade de Júlia, oferecendo-lhe metade de minha fortuna para que desistisse da nossa união.
Que motivos levá-la-iam a recusar a proposta? Até hoje o ignoro...
Sei, contudo, que a partir daquele momento passei a odiar a mulher que teimosamente se intrometia em minha vida.
Por fim, rendendo-me às lágrimas e súplicas de tua avó, cuja saúde se ressentia com aqueles conflitos, anuí no casamento.
Com que propósito? dirás...
Não há necessidade de tos dizer, a ti, a quem a perda da mulher amada quase levou ao fratricídio e deverias, portanto, me compreender e julgar com mais indulgência.
“Nossa vida conjugal, iniciada sob tais auspícios, não poderia ser ditosa e o ciúme feroz, as suspeitas e espionagens com que tua mãe me perseguia, acabaram por torná-la supinamente detestável.
Nada obstante, quando nasceu Antonius, eu lhe tive paternal afeição, o que me fez crer chegaria a devotar-me inteiramente a todos se Júlia não mo houvesse impedido.
É que, vendo que as suas cenas de ciúme e lágrimas cada vez mais me afastavam dela, não tardou em dar curso à sua maldade, inspirando aos filhos tal aversão por mim, que era bastante saberem-me em casa para se esconderem, sem coragem para me fitarem de frente.
“Entrementes, morreu teu avô.
Eu, porém, desgostoso da inferneira doméstica, solicitei e obtive uma magistratura, passando a viver no Fórum ou em viagens constantes, de mais a maior alheio à família.
“Teu nascimento quase custou a vida de tua mãe e pode mesmo dizer-se que ela não mais gozou saúde depois do parto.
Ainda assim, viveu mais três anos e mais viveria, certamente, se não fosse um resfriado imprudentemente adquirido por ocasião das festividades da boa deusa.
Uma pneumonia levou-a em poucos dias, deixando-me liberto de um cativeiro de nove anos.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 16, 2017 8:36 pm

“Tentei, então, casar-me com Lívia, que se mantivera fiel ao nosso amor.
Percebendo que o convívio contigo e teus irmãos era molesto a essa mulher que a teimosia e o inescrúpulo de tua mãe condenara ao abandono e sacrifício da melhor fase de sua mocidade, resolvi a sua punição sem imaginar que um dia haveria de deplorar o meu erro.
“Ao Cáius sempre votei dupla afeição, não pela sua beleza mas pela sua índole amorosa, pela dedicação filial quo sempre me demonstrou, desde que nasceu.
“As ternuras excessivas nunca foram do meu feitio; mas creio ter cumprido lealmente meu dever de pai, assegurando-te, bem como ao Antonius, um futuro brilhante.
“A sábia e estrita economia que me impus, permitiu duplicar quase a minha fortuna, que, por morte, será Igualmente partilhada pelos três, posto que Antonius, por uma conduta odiosa, merecesse ser deserdado.
Cáius só possui, a mais, o património de sua mãe.
“Por outro lado, nunca procurei contrariar teus desejos e logo que pretendeste comprar terras convizinhas de Agripa, não pus ao teu dispor os fundos necessários?
“A increpação de te haver traído, com relação a Virgília, é simplesmente ridícula.
Amo essa moça que, posso dizer, nasceu e cresceu sob as minhas vistas, e desejaria vê-la casada com qualquer dos meus filhos.
“Se ela te preteriu pelo seu companheiro de infância, a culpa não é minha, não intervim na escolha e só me cumpre deplorar-te, se é que de facto lhe tens amor.
“A conjectura de quanto sofres e tens sofrido com o exílio do lar e minha falta de carinho; as duras frases que acabas de me dirigir, provam que teu coração está profundamente ferido.
Pudéssemos regredir no tempo para revivê-lo e eu te asseguro que outra seria minha conduta.
Mas, como isso é impossível, tratemos ao menos de reparar o possível, estabelecendo a paz entre nós.
“Meus dias, creio, estão contados: estes últimos acontecimentos, o choque que me causou o espectáculo de dois filhos mortalmente feridos, alteram-me profundamente a saúde.
O ódio que nutres por Cáius e Virgília e o abismo sangrento que cavaste entre eles e ti, obrigam-te a partir...
Pois bem:
eu fico para morrer entre eles.
“Quem poderá dizer que ainda nos avistemos neste mundo? Não me deixes, pois, com o coração pleno de fel e de rancor, para que mais tarde não hajas de te arrepender.
Abracemo-nos, pobre filho exilado, e aceita de coração a minha bênção!”
A emoção e a raiva de Semprônius ao começo do seu discurso, extinguiram-se pouco a pouco; o diapasão metálico da voz tornara-se melodioso e suave, e quando ele abriu os braços ao filho, uma lágrima furtiva lhe repontou nos olhos claros e habitualmente frios.
Nero ergueu-se lívido, confuso, presa de sentimentos os mais dissímeis.
A emoção profunda, o olhar terno daquele pai sempre austero, tinham-no desarmado.
Cedendo a súbito impulso interior, deixou-se cair de joelhos e murmurou com voz rouca e gaguejante:
— Não pelo teu coração, meu pai, porque nele sô existe lugar para um; mas, por mim mesmo, abençoa-me para conjurar a maldição que carrego, sempre isolado, sempre desamado de todos.
Não te condeno mais, e que os deuses julguem os motivos que te levaram a banir-nos do teu coração...
O meu, confesso-te, é uma chaga viva!
Extinguiu-se-lhe a voz num soluçar convulsivo.
Semprônius o atraiu a si e beijou-o mudamente nos lábios.
Era a primeira vez que um impulso espontâneo e natural unia aquelas duas almas.
— Que os deuses te abençoem, ajudem e protejam em todos os teus passos — disse, pondo a mão na cabeça do filho —, e, agora, descansa um pouco, pois receio que esta emoção possa agravar o teu estado.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 16, 2017 8:36 pm

Antes de partires, ainda nos veremos.
Abraçou-o mais uma vez e saiu precipitado.
Enquanto se realizava aquela delicada entrevista, estava Virgília no quarto do marido.
Posto que em franca convalescença, o rapaz passava deitado a maior parte do tempo.
No momento em que o vamos encontrar, tinha ele, ajoelhada, a esposa ao seu lado, segurando em uma das mãos uma taça de vinho, e na outra uma coxa de galinha, insistindo para que se alimentasse.
Ele, por sua vez, fazia-se rogado, a gracejar e procurando beijar-lhe os dedinhos.
Terminada a refeição, levantou-se para dar o seu passeio e Virgília travou-lhe do braço para, ao que dizia, amparar-lhe os passos ainda trôpegos.
Atingindo o jardim, seguiam vagarosamente e conversavam a propósito da iminente partida de Metela, bem como do profundo abatimento de Semprônius, que tanto os inquietava, quando, na curva de estreita aleia e de inopino, deram de cara com Nero.
Os dois pararam ao mesmo tempo e ficaram como que chumbados ao solo.
Virgília deu um grito abafado e conchegou-se ao marido.
Eles não se avistavam desde a noite do atentado, mesmo porque, tudo se fazia na casa por evitar-lhes um fortuito encontro.
Era aquela a primeira vez que o tribuno saía sozinho, procurando acalmar a excitação nervosa que lhe produzira a entrevista com o pai.
Branco, da brancura da sua túnica, lábios trémulos e olhar incendido de ódio, Nero fitava o casal que assim lhe aparecia soldado como num bloco, como que a zombar da sua impotência para separá-lo ou destruí-lo.
Cáius foi o primeiro a quebrar o penoso silêncio:
— Esqueçamos o passado, Nero...
E logo lhe estendendo a mão:
— Perdoa-me a preferência que a Natureza e a amizade me acordaram, sê meu irmão pelo coração e trata de restituir a paz à nossa família; não sejas tão rancoroso e tão injusto, pois eu não tenho culpa que te banissem da casa paterna. Acredita-me:
não te guardo ressentimento por me haveres ferido, de vez que não andei bem, esposando a mulher que amavas; mas, lembra-te de que Virgília só me preferiu por ser seu companheiro de infância porque crescemos juntos, como se fôramos noivos do berço.
Entretanto, eu sei que ela te estima e somente num impulso de extrema exaltação, julgando-me morto, ousou apunhalar-te.
Façamos as pazes, portanto, senão por mim, ao menos por nosso velho pai, cuja saúde vai profundamente comprometida com estes factos.
Pensa na alegria imensa que lhe causaria a nossa reconciliação.
Nero tudo ouvira silencioso, a respirar com dificuldade.
A emoção que tivera com a entrevista paterna ainda não se acalmara.
O génio invisível do bem inspirava-o para que aceitasse uma paz tão generosamente oferecida e procurasse extinguir aquele ódio que nenhum benefício lhe acarretava; mas, cada vez que o seu olhar incidia na mimosa criatura que se colava ao braço do marido — a “dourada borboleta”, o ciúme e a paixão apertavam-lhe o coração e abafavam e repeliam os bons sentimentos.
Quando o irmão terminou, o olhar de Nero havia readquirido a dureza de expressão que lhe era característica, e foi com voz mordente que replicou:
— Não posso deixar de admirar a tua generosidade, visto quereres esquecer e perdoar minhas faltas; entretanto, também não deixa de surpreender-me a manifestação desses mesmos sentimentos, tão contrários à tua índole impetuosa e vingativa. Será que os encontras na presunção da tua superioridade?
Sim, porque o destino foi injusto dando-te tudo, para tudo me arrebatar.
É verdade que devo conformar-me com isso, mas nem por isso me julgo um mendigo a viver de esmolas, ou seja, neste caso, de uma amizade de favor.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 16, 2017 8:37 pm

Eu te odeio, Cáius, pelos dotes que possuis e que a teus pés arrastam qualquer mulher e não apenas aquela que me apaixonou.
Aliás, acho também natural que a tenhas desejado...
Pois não foste tu mesmo que a ela te referiste como sendo uma criatura adorável, uma “dourada borboleta”?
E terás, porventura, a culpa de que a falena me ludibriasse até ao momento de voar para teu lado?
— Mentes! — atalhou Virgília já de olhos inflamados — eu nunca te dei confiança, nunca te dei a entender que te amava e muito menos que acreditasse no teu amor.
— Sem dúvida, bela Virgília, tu não podias suspeitar da minha paixão; mas, neste caso, porque me toleraste a corte, porque me sorrias com a luz dos teus olhos?
Porque acarinhavas, acolhedora, as flores que te ofertava e me dizias, sempre que me despedia:
— fica, porque a tua presença me dá prazer? — e dando-me mil pequeninas mostras de preferência que levam os homens a se julgarem amados?
Agora, no entanto, compreendo que tudo isso corria por conta do meu parentesco com Cáius...
Concordo que fui um louco que sonhava acordado, mas quanto a ti, Cáius, desengana-te se pensas que ainda eu possa amar essa mulher!
Não, nunca!
A frieza do seu punhal desencantou-me para sempre e hei-de odiá-la eternamente...
Parou um instante, sufocado, mãos crispadas.
— Hoje estou convencido de que a mulher amada não passava de fementida miragem, como as sereias que o atraem os incautos para os perder.
Em suma: entre nós há um abismo intransponível, porque, se um me roubou o coração e o lar paterno, a outra me sequestrou esperança do futuro.
Parto, assim, sem me reconciliar convosco, e um dia voltarei para vos pagar minha dívida.
Virou as costas e afastou-se ligeiro.
Silenciosos, acabrunhados, os jovens esposos recolheram-se a casa.
— Oh! criatura abominável! porque não te matei logo de uma vez — disse Virgília atirando-se numa cadeira.
Cáius, toma cuidado, meu amor; eu tenho pressentimento de que teu irmão ainda nos há-de acarretar grandes desgraças.
Perverso, sem religião, ele nos vota ódio de morte.
Foi o que li nos seus olhos, que pareciam querer devorar-me.
— Acalma-te, minha Virgília, não exageres assim um perigo quiçá imaginário.
Nero é mais temível por palavras do que por actos.
Eu, por mim, não lhe temo as ameaças, mesmo porque são os deuses quem conta os nossos dias neste mundo:
todavia, eu te prometo acautelar-me e tê-lo sempre de mira, em atenção a ti e a meu pai.
Agora, sossega, enxuga essas lágrimas e vai, como pretendias, para junto de Metela, cuja palavra amiga e sempre ponderada te desanuviará o espírito.
Eu, por minha vez, vou procurar o velho, com quem preciso conversar sobre uns tantos negócios.
Impaciente por confiar à amiga as suas apreensões, Virgília tratou logo de procurar Metela, que foi encontrada entre as criadas, a fiscalizar o apresto das bagagens.
— Alguma novidade?
Tens assim um ar tão espantado. — disse, fazendo sinal a Virgília para que a acompanhasse ao terraço.
Em lá chegando, assentaram-se e ela prosseguiu:
— Tiveste algum encontro desagradável com o Nero...
Assim o presumo, porque o vi quando voltava do jardim e trazia estampado no olhar algo de ferocidade.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 16, 2017 8:37 pm

Também me declarou que seguia imediatamente para o navio e lá nos aguardaria.
Lacrimosa, Virgília atirou-se nos braços da amiga e passou a contar o sucedido.
— Os deuses não são justos — acabou por dizer —, deixando viver esse homem abominável a quem tudo concedemos e, sem motivos, nos persegue com a sua vingança.
Não podes calcular o que seja a vida assim ameaçada de perigo invisível, que não podemos prever nem saber como evitar.
Com a face na mão, Metela tudo ouvira silenciosa e pouco a pouco o seu rosto se ensombrou de amarga tristeza.
— Enganas-te em supor-me incapaz de compreender os teus temores.
Eu também tive um inimigo tenaz e implacável, e como tu tremi na expectativa de um perigo invisível e sempre ameaçador; sei, de experiência própria, que, nestes casos, não podemos deixar de concentrar todas as nossas energias e deixar correr o resto por conta dos deuses.
Virgília levantou-se, resoluta, e as lágrimas se lhe estancaram nos olhos brilhantes de curiosidade.
— Então, tiveste um inimigo como Nero?
Algum namorado de refugo, aposto...
Mas, como me ocultaste até agora uma coisa tão interessante?
— Eras muito nova quando isso se deu, e, além disse, evitamos sempre, Agripa e eu, contar os tristes episódios que precederam nosso casamento.
— Mas ao menos a mim, podias confiá-los... não?
Eu não posso conformar-me em ignorar o que de perto te diga respeito.
Agora compreendo porque te calavas sempre que indagava de tua vida de solteira...
— Tem paciência, minha bisbilhoteira, não me censures.
Já que fazes tanto empenho, vou narrar-te esse episódio da minha juventude, do qual decorre uma lição proveitosa, isto é:
que, mesmo nas mais críticas circunstâncias, não se deve perder a cabeça nem desesperar da misericórdia dos imortais.
Concentrou-se um momento e continuou:
— Sabes que nasci e me criei em Roma, órfã desde o berço, porque minha mãe morreu precisamente ao dar-me à luz.
Posto que no vigor dos anos, meu pai, rudemente provado com « perda de cinco filhos e da esposa que adorava, não quis casar segunda vez e concentrou, em mim e no meu irmão, todo o seu afecto.
“Meu irmão Sérgio era dez anos mais velho do que eu, e todavia meu pai nos criou e educou juntos, tanto quanto possível.
Assim, cresci entre os retóricos, filósofos e artistas, que instruíam meu irmão e dos quais também ele gostava de acercar-se, sempre que a sua função senatorial lho permitia. Um velho estóico, chamado Aurélius, afeiçoou-se particularmente a mim e me leccionou desde a mais tenra idade, atribuindo-me um estofo de verdadeiro estoicismo.
Meu pai condescendia, sorridente, e o certo é que a influência daquela roda de sábios não deixou de contribuir para dar ao meu carácter este cunho severo e um tanto másculo que por vezes me censuram.
“Feliz e benquista de todos, atingi os quinze anos, quando os candidatos começaram a surgir; mas, como nenhum me satisfizesse inteiramente, meu pai me descartava e julgava-se feliz em conservar-me na sua companhia.
“Preciso é dizer-te que possuíamos então, perto de Tíbur, um vilino encantador, no qual passávamos todo o tempo que ele podia roubar aos negócios do Estado.
“Uma noite, depois do jantar, tivemos visitas:
meu irmão e eu fazíamos as honras da casa, enquanto esperávamos meu pai, que já estava demorando.
Achavam-se todos reunidos no terraço e eu cantava à lira, quando vi entrar meu pai seguido de um rapaz alto e que me era completamente estranho.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 17, 2017 8:33 pm

“Enquanto meu pai cumprimentava os convidados, notei que os grandes olhos castanhos do recém-vindo fixavam-me com profunda admiração, que, aliás, não procurava dissimular.
Eu não saberia dizer porque aquele olhar me enregelava até à medula dos ossos.
Era como se tivesse cravadas em mim as pupilas de um tigre, e logo senti pelo intruso uma aversão invencível.
“Daí a pouco, foi-me ele apresentado e fiquei sabendo chamar-se Flávius Sulpícius Varro, de passagem em Roma para regular negócios de seu interesse, e para o que, procurara meu pai, como seu amigo que era.
“Ansioso em ouvi-lo sobre detalhes da sua vida depois que se separaram, meu pai o trouxe a casa, naquele dia.
“Dali por diante, frequentes se tornaram as visitas e ele insistia em cortejar-me, apesar da glacial indiferença com que lhe correspondia.
Foi justamente nessa ocasião que conheci Fabrícius Agripa, o qual, mortalmente ferido num combate ao norte de Gália, tinha vindo a Roma a fim de pleitear sua reforma e entrar na posse de vultosa herança.
Agripa era íntimo amigo de meu irmão e visitava-o amiúde.
Logo se apaixonou por mim e escusado é dizer que a sua inclinação só podia agradar-me, tanto mais quanto, pelo seu carácter franco e leal, pela sua prosa interessante e variada, ele me inspirou logo a simpatia que haveria de evolver para este nosso amor.
“Flávius Sulpícius acompanhava com olhos de ciúme a minha intimidade com Agripa.
Desdobrava-se em visitas e galanteios, mas, sempre que encontrava Agripa, era tal a sua raiva que eu bem deveria prever qualquer desgraça.
Entretanto, na minha estulta vaidade, considerava-me invulnerável e até me lisonjeava com aqueles ciúmes.
“Um dia, de manhã, meu pai procurou-me satisfeitíssimo para dizer que Flávius me pedira em casamento e que ele quase lhe dera o sim, apenas dependente do meu assentimento, com o qual contava.
Recusei, peremptoriamente, e pela primeira vez meu pai insistiu, alegando que o partido era dos mais auspiciosos.
Averbou-me de louca.
Todavia, mantive-me firme e ele teve de render-se.
No dia seguinte veio participar-me, de mau humor, que Flávius muito melindrado havia deixado Roma.
Regozijei-me sinceramente por não mais ter de suportar aquela cara e poder maiormente ligar-me a Agripa, que passava metade dos dias em nossa casa.
“Uma noite, estávamos reunidos eu, ele e meu irmão, quando percebi que este último estava distraído e preocupado.
Depois de muito interrogá-lo, confessou que precisava sair e dar um passeio, mas, não desejando ser reconhecido e abordado por amigos indiscretos, queria que Agripa lhe emprestasse o capacete e o manto, ao que este logo anuiu, partindo ele imediatamente e prometendo regressar dentro de duas horas.
Depois que se foi, Agripa contou, risonho, que desconfiava tratar-se de ciumadas com uma jovem florista, à qual ele quereria surpreender assim disfarçado.
Com a chegada de meu pai, a conversa mudou de rumo.
Entretanto, a noite foi-se passando e Sérgius não voltou.
“Pela madrugada, acordei com os clamores e gritos de desespero por toda a casa.
Trémula de espanto, vesti-me à pressa e desci.
Sob as arcadas da primeira galeria lobriguei meu pai a contorcer as mãos, enquanto ouvia a um oficial que apontava uma padiola conduzida por soldados e rodeada de compacta multidão de curiosos, que se estendia pelo jardim, até a rua.
Na padiola, um corpo e sobre o corpo um manto, que reconheci ser o de Agripa!
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 17, 2017 8:33 pm

“Dando um grito, precipitei-me para a maca e meu olhar recaiu logo no rosto lívido do meu infeliz irmão.
Ouvi, a seguir, que o triúnviro que comandava o policiamento nocturno o encontrara caído de bruços numa das ruas próximas do Fórum.
O ferimento profundo, nas costas, provava que fora atacado traiçoeiramente.
A morte devia ter sido instantânea.
“Impossível descrever-te o nosso desespero!
Todo o mundo se perdia em conjecturas quanto aos móveis do crime:
roubo não era, porque a bolsa referta e as jóias preciosas, que a vítima carregava, estavam intactas; inadmissível, igualmente, a ideia de vindicta, porque Sérgius era bom, serviçal, geralmente estimado, não tinha, não podia ter inimigos.
“Na véspera dos funerais, dirigi-me ao templo para orar e oferecer sacrifícios aos manes do meu desditoso irmão.
Ao regressar, meus condutores tiveram de abrir brecha na multidão que se apinhava em torno da casa, ávida de esmolas e vitualhas, que meu pai mandara distribuir naquele dia.
Como caminhássemos a passo lento no meio da turba, um tipo moreno e barbado, trajado à maneira dos carregadores do porto, plantou-se à frente da liteira e deitou-me um olhar de fogo, que me fez estremecer e quase perder os sentidos.
Aqueles olhos eu os haveria de reconhecer entre mil ou dez mil outros, onde quer que os encontrasse.
Aquela aparição foi como se uma venda se rasgasse diante de mim. Flávius Sulpícius não deixara Roma, antes ali ficara e procurava eliminar o seu rival.
O capacete e o manto de Agripa era o que o levara a matar Sérgius.
Travou-se-me o coração, porque também ficava sabendo o que de um tal inimigo eu podia esperar.
“Nada revelei a meu desolado pai, mas tive um entendimento com Agripa, tudo lhe confiando e jurando que lhe havia de pertencer, mas pedindo ao mesmo tempo que saísse de Roma por algum tempo, até que meu pai mais consolado pudesse sancionar o nosso casamento.
“Vendo a minha agitação, ele a tudo aquiesceu, prometeu andar sempre armado e, logo no dia seguinte, deixou a cidade.
“Respirei mais desafogada, mas o facto é que a minha tranquilidade tinha-se aniquilado.
Era assim, aflitíssima sempre, que aguardava as cartas do noivo, por intermédio de uma escrava fiel, enquanto incidentes outros me indicavam que o inimigo vigilava e maquinava na treva.
“De fato, certa feita em que me dirigia para a cidade, tive a liteira assaltada e só por um acaso me salvei.
A partir desse dia, abstive-me de sair de Roma, ao mesmo tempo que me deixava empolgar por tenebrosos presságios.
Presságios bem fundados, aliás.
Um dia, após a refeição, meu pai sentiu-se mal e o médico declarou que os espargos estavam envenenados.
Todos os recursos da Ciência foram baldados- e, depois de uma noite agoniosa, meu pai expirava em meus braços.
Simples acaso, ou mais um crime?
“Naquela noite lúgubre, achava-me ajoelhada junto ao corpo de meu pai, quando a fumaceira espessa e gritos de “fogo”! me arrancaram do meu torpor!
Súbito, uma turba de escravos invadiu a casa toda, no afã de levar o que fosse possível.
Uma das minhas criadas levou-me para a rua através de uma galeria já esbraseada e enfumarada.
A crepitação do incêndio e os gritos da populaça casavam-se num coro tempestuoso, indefinível...
Houve um momento em que um pano espesso me envolveu a cabeça e me senti presa pelas costas e rapidamente transportada.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 17, 2017 8:34 pm

Tentei resistir, gritar, mas o pano espesso abafava-me a voz e uns braços vigorosos tolhiam-me os movimentos.
Por fim, tonteei, desfaleci.
Quando dei acordo de mim, um ligeiro balanço e o ritmo dos remos batendo n’água fizeram-me compreender que estava num barco em marcha, ao mesmo tempo que ouvia uma voz imperativa a ordenar:
— Atraque devagar, Stíchus; leva essa mulher ao camarote, e vós outros ficai atentos à primeira voz de largar velas.
“O coração como que se me paralisou no peito, aquela voz era de Flávius Sulpícius, estava, portanto, em poder do inimigo.
Senti que me transportavam ao navio e me depositavam num divã.
Tiraram o pano que me cobria a cabeça e o rosto, ouvi fecharem uma porta.
“Abri os olhos e vi que estava no camarote ricamente mobilado de uma esplêndida galera.
Ao lado, pequena mesa e sobre ela vinhos, licores, frutas.
Compreendi que aquela solicitude não haveria de ter maior duração e tratei de concentrar todas as minhas energias.
Desde a primeira tentativa de rapto, nunca mais deixei de levar comigo um punhal, oculto sob as vestes.
Nem mesmo as escravas, de quem eu desconfiava, tinham conhecimento daquela precaução.
Meu primeiro cuidado foi procurar essa arma e ela ali estava no seu lugar.
Tomei alento.
Na pior hipótese, o mais que podia acontecer-me era sucumbir.
Antes, porém, queria jogar com a astúcia, ver se enganava aquele homem terrível que me fizera tanto mal.
“Passos apressados avizinhavam-se, interrompi o fio das ideias, ergui-me e, palpando o punhal entre as pregas da túnica, encostei-me à mesa.
Ao deparar-me assim e fixando o meu olhar calmo, parou indeciso e desapontado.
“— Vejo com prazer — disse finalmente — que estas calma e talvez possamos conversar razoavelmente.
“— Antes de tudo, quero saber com que direito assim se violenta uma cidadã romana.
Nem te esqueças que estás falando à filha de um senador e não a uma escrava...
“— Não quero de outra coisa saber senão que te amo e que não sou daqueles que se deixam humilhar.
Aqui, nesta galera, só há uma lei — a minha vontade.
De ti, portanto, depende o seres rainha ou escrava.
Não te iludas com a hipótese de qualquer socorro.
O próprio soldado aventureiro que a mim preferiste, está de nós bem distante, talvez por prudência.
“— Queres, então, dar-me por morta e reter-me aqui prisioneira?
Pois olha:
a um tal opróbrio, prefiro a morte.
Vês? aqui tenho o que me livre da tirania.
E mostrava-lhe o punhal reluzente.
Não te aproximes porque morrerei antes que me toques.
“Viu, sem dúvida, no meu olhar, que não estava a gracejar, visto que recuou, vermelho, e com palavras repassadas de emoção passou a falar da paixão insensata que eu lhe inspirara e jurou que não recuaria nem mesmo diante de um crime. Entretanto, propunha-se a esposar-me e explicou o intento de conduzir-me a Massília, onde possuía grandes haveres, a fim de lá celebrarmos e festejarmos o casamento.
“Ouvi-o de cabeça baixa, fingindo-me surpresa e conformada.
“— Não pensava — disse-lhe por fim — que pudesses amar-me a tal ponto, e vejo que o teu amor é daqueles que podem domar o coração e o orgulho de uma mulher.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 17, 2017 8:34 pm

Não te repudio mais, Flávius, mesmo porque, além do mais, nada adiantaria; mas, digna-te de ouvir as minhas condições:
em primeiro lugar, não te seguirei a Massília, porque não quero comprometer minha reputação nessa viagem, que, de resto, nada justifica.
A filha de Sérgius Metelus deve casar-se pública, solenemente, nunca à socapa como qualquer obscura moça do Eaquilino.
Além disso, quero me concedas três meses a prantear, em retiro espiritual, a perda de meu pai; e, pois que Roma se me tornou indesejável, quero transportar-me a Herculânum, à casa de um velho amigo de meu pai.
Lá irás buscar-me logo que termine o período do luto e, desde então, considerar-me-ei tua noiva.
“— Mas, quem responde pela tua fidelidade?
“— Minha palavra — respondi altivamente —, mesmo porque, tua desconfiança vale por uma ofensa.
“— Pois bem: aceito e peço-te como penhor de aliança, que recebas este anel e me dês, aqui mesmo, o beijo nupcial.
“Deixei que me abraçasse e justasse o anel.
Combinámos, de seguida, que me reconduziria a casa e de lá seguiria para Herculânum, depois de assistir aos funerais paternos.
“Ao reentrar em casa, ainda enorme era a confusão que ali reinava, tanto que ninguém dera pela minha ausência.
No dia seguinte, Flávius apresentou-se em visita oficial de condolências, assistiu às exéquias e fiscalizou, discretamente, minha partida para Herculânum.
Ali cheguei, finalmente, triste, acabrunhada, e fui recebida de braços abertos pelo magnânimo Virgílius e sua mulher Lélia.
— Como assim? foi então em casa de meus pais que te acolheste? — exclamou Virgília, admirada.
— Exactamente, e foi quando lá vi, pela primeira vez, uma trêfega meninota muito do teu conhecimento.
Confiei minha tragédia a teus pais e Virgílius, que conhecia Agripa, aconselhou-me a precipitar o casamento, logo que regressasse da viagem que se propunha fazer a Roma, a fim de intervir junto de um tio de Flávius, para que pusesse cobro às loucas aventuras do sobrinho.
“Tudo se passou de acordo com o plano traçado por teu pai, que voltou trazendo do cônsul as mais sérias promessas.
Agripa visitava-me discretamente e o casamento estava prestes a realizar-se quando, certa manhã, Flávius surgiu de inopino na sala em que me achava com meu noivo, que, por sinal, já se preparava para sair.
Fulo de raiva, bolsando impropérios, atirou-se a Agripa no intuito de o apunhalar.
Agripa também fugiu-lhe com o corpo e arrancou do seu punhal.
Entre os dois empenhou-se, então, uma luta silenciosa, luta de morte, tremenda.
Rilhando os dentes quais tigres esfaimados, os dois homens lutavam corpo a corpo, enquanto que eu me quedava petrificada, no temor de perturbar ou distrair o meu Agripa.
Sem embargo, só eu sei o que sentia vendo o sangue que lhe escorria.
“De repente, Flávius tombou.
Agripa deu alguns passos para meu lado e também tombou!
Virgílius logo acorreu com os criados, levantaram os feridos, chamaram médicos.
Flávius não resistiu aos ferimentos, expirou dois dias depois.
Agripa só se restabeleceu lentamente.
Não descansei um minuto à sua cabeceira, e, logo que se levantou, casámo-nos e nos instalámos lá naquele solar que conheceste, hoje amortalhado em cinza e onde passámos anos e anos venturosos.
— Querida Metela, os deuses se apiedaram de ti, livraram-te de um inimigo perigoso quanto ignóbil.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 17, 2017 8:34 pm

Não te invejo a sorte, mesmo porque, além do mais, foste para mim, após a perda de meus pais, a melhor das mães, a mais carinhosa das irmãs e a mais fiel das amigas.
Não; o que apenas deploro é que a morte não me tenha livrado deste abominável Nero.
— Nisso eu te dou razão e é mil vezes lamentável que a tua punhalada uma vez desferida não o tivesse logo matado.
Todavia, acalma-te, não desanimes.
Eu cuidarei de vigiá-lo enquanto estiver em nossa casa, procurarei contê-lo o mais possível.
Ao demais, o serviço há-de distraí-lo, pois Agripa me informou que ele mudou de ideias e acabou por desistir da licença.
Estamos assim entendidas.
Eis que ali vêm Agripa e Semprônius, provavelmente procurando-nos para o almoço das despedidas.
No dia seguinte ao da partida de Metela, Drusila também resolveu regressar a Roma.
Todos instaram para que ficasse ainda por algum tempo. Debalde. Cáius, que estava muito longe de suspeitar a paixão da prima e lhe tributava maior reconhecimento pela sua assistência e desvelo durante a enfermagem, queria acompanhá-la. Recusou.
— Devo voltar para junto de Cláudius, uma vez que aqui já não me torno precisa.
E tu, Cáius, agora completamente restabelecido, mantém-te ao lado da tua mulher.
Ela escapou de perder-te e não pode estar tranquila, senão te vendo ao seu lado.
É natural.
Esforçando-se em parecer calma, despediu-se do tio e dos primos, mas tanto que se viu só, na liteira, aquela coragem factícia abandonou-a e pôs-se a soluçar convulsivamente.
A separação de Cáius fazia-lhe sangrar o coração e, posto compreendesse muito bem a natureza culposa e a inutilidade do seu amor, não se sentia com forças para banir do coração aqueles sentimentos que dele se apossaram, sempre mascarados diante dos outros, mas, na verdade, senhores absolutos de todo o seu ser.
Fora assim, debaixo daquela impressão que os maus fados tinham-na levado a escravizar-se a um senhor, e senhor da marca de Cláudius, que, nada mais estimando além da fortuna, caro lhe faria pagar sua predilecção por Cáius, predilecção que ele adivinhara, intimamente arrepiada, ela já imaginava as cenas de brutal ciúme que teria de suportar e de que já tivera uma prova.
Não conjecturava, na sua ingenuidade, que o astuto e maleável Cláudius já lastimava profundamente estar assim desmascarado.
Gozando, pela primeira vez em sua vida, da volúpia de agir como senhor; de gastar a rodo e satisfazer a todas as paixões e caprichos, não estava inclinado a irritar a mulher, que bem lhe poderia cassar a administração dos seus bens e estava, assim, disposto a reconciliar-se, a viver no melhor acordo possível.
Eis porque, chegando a Roma, Drusila ficou agradavelmente surpreendida quando o marido a recebeu com a mais terna deferência.
Ajudando-a a descer da liteira, conduziu-a aos aposentos e francamente se desculpou da sua partida antecipada, assegurando que seu maior desejo era viver em boa harmonia com a bela e meiga companheira que os deuses lhe tinham destinado.
Ela, que só aspirava à paz, perdoou de bom grado, e, mediante acordo tácito, passaram a viver aparentemente muito unidos, posto que fundamentalmente separados.
A moça absorveu-se toda em melancólica homenagem à memória do pai:
rodeava-se dos objectos que ele usara, dava longos passeios pelos sítios nos quais outrora o guiava na sua cegueira, e acabou por mandar erigir-lhe um soberbo mausoléu.
Cláudius não a contrariava em coisa alguma, antes se rejubilava por ver que a mulher deixava-o gastar à vontade, não se preocupava com as suas aventuras amorosas e nem mesmo com as demasias do seu culto a Bácus.
Felicitava-se pelo fato de haver ela consentido em presidir, com graciosa docilidade, às festas sumptuosas que lhe aprazia promover.
Certo, ninguém reconheceria já, naquele patrício que atraía aos magníficos salões do palácio de Drúsus a nata da sociedade romana, o modesto músico que considerava grande felicidade o convite que um dia lhe fizera Semprônius para viver em sua casa, livre de gastos, de penas e de cuidados.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 17, 2017 8:34 pm

VI - A morte de Semprônius

Um regime de calmo e relativo repouso se estabeleceu na casa de Semprônius, após a partida dos seus hóspedes, mas esse regime durou pouco, porque não tardou lhe sobreviesse perigosa enfermidade, aliás logo debelada.
Nada obstante, a sua saúde ficara comprometida.
Homem robusto e dinâmico que sempre fora, caminhava agora com dificuldade, as costas lhe bombeavam, passava os dias deitado e vencido por extrema debilidade.
O nascimento de um netinho foi como um derradeiro clarão de alegria no poente tristonho do pobre patrício.
Cheio de orgulho e satisfação, abençoara o pequenino Semprônius e não cessava de o admirar, ainda porque, pelos grandes olhos negros e pelos cabelos dourados, era bem o retrato dos seus ascendentes.
Repartindo-se entre a dor e a mágoa, Cáius Lucílius ia do berço do filho ao leito do pai, cujo esgotamento progressivo não lhe deixava a mínima ilusão.
Um dia, disse-lhe Semprônius:
— Filho, não temos tempo a perder, dado tenhamos de visitar o virtuoso ancião que te edificou na doutrina do Divino Mestre...
Por mim, desejo ouvir dele palavras de conforto, que me assegurem a paz no reino dos céus.
O moço considerou logo como dever sagrado cuidar dos aprestos da viagem.
Tratou de escrever a Agripa, comunicando-lhe que motivos de força maior obrigavam o pai a ausentar-se de casa por duas ou três semanas, ao mesmo passo que lhe pedia permitisse a Metela ficar fazendo companhia a Virgília.
Esta, posto que surpreendida e penalizada com àquela viagem misteriosa, não se lhe opôs, compreendendo que, dado o seu precário estado de saúde, o sogro não podia ir só.
Tanto que chegou Metela, o velho patrício fez as mais ternas despedidas às duas mulheres, que choravam copiosamente como se pressentissem que não o tornariam a ver.
Depois de fatigante viagem, interrompida por longas paradas indispensáveis ao enfermo, chegaram ao povoado além do qual se estendiam as montanhas que homiziavam o eremita no seu tugúrio.
Ali deixaram os animais e trocaram a liteira por leve cadeira de junco, carregada por dois robustos montanheses, acompanhados apenas de Rutuba, sempre dedicado.
Depois de penosa marcha durante a qual o patrício aumentava de impaciência, chegaram à porta da gruta.
O venerando anacoreta lá estava de pé, robusto e sereno, tal como três anos antes.
Num sorriso de amizade acolhedora estendeu-lhes os braços:
— Sede bem-vindos, amigos! eu vos esperava...
Cáius abraçou-o comovido, e falou:
— Meu salvador e generoso protector, tuas predições realizaram-se...
Como vês, aqui te trago meu pai moribundo, para que o instruas e consoles.
João encaminhou-se para Semprônius, abraçou-o efusivamente e disse-lhe:
— Bem-vindo sejas, meu irmão, certo de que farei o possível por aliviar-te; mas, antes de tudo, é preciso repousar.
Auxiliado por Cáius, amparou e conduziu Semprônius para dentro da gruta, onde o deitou no mesmo grabato que havia servido ao filho.
Tratou, depois, com juvenil ardor, da instalação dos hóspedes.
Descarregaram as duas mulas das bagagens e conduziram-nas para outra cava ali perto, indicada desde logo como alojamento de Cáius e Rutuba.
Dispensaram os montanheses e, logo que reconfortados por ligeiro repasto, o velho assentou-se a um tronco, perto de Semprônius, e disse-lhe carinhoso:
— Agora, meu irmão, vamos conversar e o Deus de misericórdia que revelei a teu filho há-de inspirar-me para que te conforte.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 17, 2017 8:34 pm

— Venerável amigo — disse Semprônius erguendo-se e tomando-lhe a mão —, meu filho me transmitiu os preceitos de amor e caridade pregados pelo divino Mestre que te foi dado conhecer; por minha vez, desejo compartilhar da tua fé; tenho, até aqui, levado vida faustosa e despreocupada, de homem rico; sempre tive, como prerrogativa minha, repelir o que me desagradava, tanto que amei uns e desprezei outros membros da minha família.
Agora, porém, começo a compreender que era despiedado, orgulhoso, egoísta, e queria revelar-te muitos actos que me pesam na consciência, para que me aconselhes e possas, porventura, suavizar meus remorsos.
— Neste caso, acompanha-me ao santuário e lá, sob as vistas daquele que lê no âmago das almas e pode aliviá-las, tu me confiarás o que te oprime o coração.
Cáius, ajuda-me a conduzir teu pai aos degraus do altar, e depois retira-te, porque, se o que Semprônius quer confessar é amarguroso ao seu coração, inútil é saberes o que teu pai reprova a si em si mesmo.
Não compete aos filhos julgar as faltas dos pais, porque nada pode nem deve diminuir o seu respeito e veneração por eles.
Horas depois, chamou o moço e, apertando-lhe a mão, disse:
— Conversei longamente com teu pai e pude, graças ao Senhor, levar a paz ao seu espírito:
fi-lo ver as grandes verdades da nossa fé, desvendei-lhe o mistério da morte e com isso se lhe desvaneceram os temores da transição inelutável. Para o momento, ele quer isolar-se, não deseja ver ninguém, nem mesmo tu, a fim de, pelo insulamento e pela prece, receber o baptismo que lhe prometi para dentro de três dias.
— E a mim, meu pai, não me concederás essa graça?
Olha que tenho também o coração referto de fé e amor ao Deus de misericórdia, cuja graça me tocou.
— Faça-se como desejas, pois reconheço que tens um coração leal e generoso, embora ensombrado de paixões violentas.
Mas, neste caso, convém te prepares pelo retiro, pelo jejum e pela prece, a fim de receberes o divino sacramento.
Retirou-se, abençoando o penitente.
Cáius voltou à sua gruta e, depois de breve oração, estendeu-se nas almofadas que improvisara em leito.
Contraditórios pensamentos lhe assomavam ao espírito: seu pai renunciava à fé ancestral para fazer-se cristão e, também ele, ia seguir-lhe o exemplo.
De relance vieram-lhe à mente as consequências que lhe poderiam advir dessa tão grave resolução.
Naquele momento, os cristãos não eram perseguidos, mas, a todo instante, um novo édito de proscrição poderia atingi-los; e, então, o que arriscava era nem mais nem menos que a fortuna, o amor da família e, quiçá, a própria vida.
As imagens de Virgília e do filhinho lhe vieram à retina, qual visão tentadora, mas, logo, por um esforço de vontade, repeliu aquelas ideias assopradas, sem dúvida, pelo espírito do mal.
Mas, como?
Como poderia ele, que lhe havia sentido a graça, duvidar da omnipotência e da protecção daquele Deus que houvera por bem revelar-se aos homens, humilde, pobre, morto na cruz infamante e que, no entanto, dobrava aos seus preceitos de amor um coração altivo e revel, qual o de Semprônius, ao demais inspirando aos seus prosélitos o desprezo da vida até ao martírio?
Com aquela exaltação própria do seu carácter, Cáius entregou-se à prece e ao jejum.
A presença de Rutuba afigurou-se-lhe inconveniente e, logo ao clarear do dia, o licenciou por três ou quatro dias, a fim de visitar uma parenta, casada com um lavrador das redondezas.
Na manhã do dia fixado para a santa cerimónia, depois de haver vigilado e orado toda a noite, Cáius se encaminhou para a gruta do eremita.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 17, 2017 8:35 pm

Avistando o pai, ficou logo surpreendido com a expressão de serenidade e alegria que lhe aflorava no rosto.
— Remocei, filho — disse o velho patrício abraçando-o —; se soubesses como retemperei meu espírito, a luz e a paz que me repletaram o ser!
Mas, apressemo-nos, dá-me o braço porque já estamos sendo esperados no santuário.
Amparando o pai, assim penetraram na gruta contígua.
Ajoelharam-se diante do altar, no supedâneo do qual, de pé, estava o eremita quase irreconhecível na sua paramenta de brancura imácula, a cair-lhe até aos pés.
Trazia ao peito uma cruz de ouro e as tochas acesas no altar davam-lhe à fronte veneranda uma como auréola refulgente.
A seu lado, também de pé, um rapaz envolto em longa túnica, e no qual Cáius reconheceu o jovem pescador que, por ocasião da sua enfermidade, carregava as provisões.
Depois de ligeira prece em comum, seguida de alocução na qual resumira aos neófitos a magnitude do sacramento que iam receber, o eremita ordenou-lhes se despissem e entrassem na piscina cavada no centro da gruta.
Auxiliado por Paulo, o jovem pescador, derramou-lhe água na cabeça e deu a Semprônius o nome de Serafim, e a Cáius o de Gabriel.
A seguir, saíram da piscina e Paulo os revestiu de túnicas alvas, iguais à sua, e ajudou Semprônius, ainda fraco, a ajoelhar-se, indo retomar o seu posto no último degrau do altar.
O eremita, braços estendidos à cruz, olhos de inspirado, suplicava em voz alta:
— “Senhor Jesus, meu redentor e mestre, ouve esta súplica:
Não disseste que, onde se reunissem dois ou três em teu nome, aí estarias?
Lança, pois, um olhar de misericórdia a estes dois novos servidores da tua doutrina, e permite-lhes gozarem da graça deste ato que vou realizar em teu nome e memória.”
Com grave expressão de majestade, abriu uma caixinha que estava sobre o altar, dela retirando dourado cálice, que Paulo encheu de vinho, dando-lhe também um pão, que logo partiu.
— “Acredito — disse erguendo a voz — que esta é a tua carne e este é o teu sangue, derramado para salvação de todos nós.”
Levantou o cálice, abençoou os neófitos prosternados e deu-lhes do pão e do vinho, dizendo:
— “Crede que aqui estão a carne e o sangue do salvador do mundo, porque acaba de operar-se o grande mistério da fé.”
Como se não houvesse de esperar o término daquele ato, Semprônius desmaiou...
Carregaram-no para a primeira gruta, onde lhe prestaram todos os socorros possíveis.
Voltado a si, o eremita impôs-lhe as mãos e ele mergulhou num sono reparador.
Já era noite quando reabriu os olhos.
Ao perceber Cáius e o eremita assentados junto do leito, estendeu-lhes as mãos, dizendo:
— Filho querido e tu, meu grande amigo! obrigado pela dita que me proporcionaste, instruindo-me nesta nova fé que retemperou meu coração e me fez compreender que a morte é apenas simples passagem a um mundo melhor, no qual se me abrirão as portas da salvação.
Por isso, também te peço, filho, me enterrares como convém aos cristãos e não entregar meu corpo à incineração, conforme os falsos ritos dos falsos deuses...
Prometes fazê-lo?
— Fica tranquilo, pai, teus desejos hão-de ser fielmente cumpridos — disse Cáius todo emocionado.
— Obrigado. E agora que me sinto inteiramente pacificado, deixem-me contar-lhes um sonho estranho, mas de extraordinária clareza, que acabo de ter.
Assentando-se recostado nas almofadas, começou:
— Sentia-me como que flutuante, num ambiente escuro; opresso e angustiado, procurava, sem o conseguir, desembaraçar-me daquelas trevas e, ainda repleto de gozo por haver reconhecido e adoptado a nova fé, perguntava a mim mesmo porque se dava aquilo, quando me surgiu um ser resplandecente de beleza sem par, que me disse:
— De facto, compreendeste a verdade, tens a alma repleta de ventura, mas, com o tempo, essa fé nova, destinada a regenerar as almas, será postergada, degradada pelas paixões humanas, e as leis sagradas e postas pelo Salvador se tornarão opressivas, vexatórias.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 17, 2017 8:35 pm

Haverá quem a ridiculize, adultere, renegue, para que não haja nos corações humanos um lugar de cabimento à virtude, à verdade, à fé.
Sacudidos pelas mais dissímeis opiniões, desencantados dos próprios vícios, os espíritos que ainda aspirarem ao bem hão-de suplicar ao dispensador de todas as graças que os retempera na virtude, para não permanecerem estacionários na evolução conducente ao fim supremo e lhes acuda a certeza da imortalidade, para que se elevem à perfeição.
“Então, na sua infinita bondade, o Criador do Universo dará aos homens a possibilidade de constatarem, pelo testemunho dos próprias sentidos, a presença dos invisíveis a que eles chamam mortos.
E os intermediários dessa comprovação renovadora hão-de ser as vossas mulheres, filhos e filhas.
Eles formigarão por toda a parte sem distinção de classe, de fortuna, de nacionalidade; e os sofredores, os pobres, os abnegados, os caritativos, serão os mais bem dotados e preferidos.
“Naquele momento, as trevas se rasgaram e eu te divisei, venerável mestre, num ambiente luminoso.
Empunhavas e agitavas um disco alvinitente, no qual li, ou antes adivinhei, esta legenda:
“Morrer para renascer e progredir sempre, tal é a lei.”
“Em torno de ti como que desfilava toda uma multidão agitada, mas, à medida que os seres de ti se aproximavam, seus semblantes se acalmavam e suave claridade os envolvia.
“Desejei imensamente aproximar-me, também, mas notei que a pesada e suja túnica, com que me revestia, tolhia-me os movimentos, paralisava-me enfim.
— “Maculaste as vestes alvas do cristão — disse-me a luminosa aparição.
— “Não, não — respondi —; eu sou cristão de corpo e alma.
— “Foste-o e és de longa data, mas os séculos dobraram após a tua conversão e a tua fé desmereceu porque se tornou inesforçada, morna.
“Foi nesse comenos que, da multidão que te rodeava, destacou-se um homem moço, no qual reconheci meu filho Nero.
— “Vamos, pai, ali está a verdade — disse ele arrastando-me; mas, no momento justo em que eu tocava a tua legenda, senti um calor vivificante penetrar-me todo e vi que Nero oscilava e caía num fosso escuro.
Do coração lhe jorrou uma chama de odor estonteante, que logo o consumiu.
Estava ainda perturbado com aquela catástrofe, quando uma bola de fogo surgiu, flutuando a meu lado, e nessa bola estava de pé um adolescente, no qual reconheci Cáius...
Com uma das mãos erguias uma tocha, com a outra conchegavas ao peito uma cruz...
Tinhas, entretanto, um ar melancólico e foi com voz plangente que disseste:
— Oh! meu pai, quanto sofro em trevas!
Dá-me luz...
“Tive um desejo imenso de satisfazer-te, mas, parecia-me que o fardo era por demais pesado.
— “Que fazer? — murmurei, erguendo a vista para a entidade luminosa que sobrepairava no espaço...
— “Querer — respondeu-me ela.
“Concentrei energias, tomei o globo em que te achavas e comecei a elevar-me.
Antes de tudo, um cardume de seres negros, horrendos, tentou opor-se à nossa ascensão; mordiam-me, crivavam-me de dardos venenosos, enroscavam-me répteis nos pés; outros, à compita, procuravam arrebatar-me o precioso fardo, mas, em vão. Ascendendo sempre, eras leve qual pluma e parecias arrastar-me para um foco de luz mais esplendente que o Sol.
Depois, subiste ainda mais e raios multicores te envolveram, te sequestraram à minha vista e... despertei.”
Completamente exausto, Semprônius recaiu nos travesseiros.
Falou, então, o eremita:
— É um sonho singular e certamente profético, com que Deus houve por bem favorecer-te.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 17, 2017 8:35 pm

Nossa limitada inteligência não permite interpretá-lo integralmente, mas parece-nos que pressagia, em futuro longínquo, o repúdio à lei do Senhor e que, segundo prometeu, Jesus terá de enviar o Espírito de Verdade para esclarecer os homens.
— Neste caso, filho, se me for permitido levar-te à luz, hei-de considerar-me bem feliz — murmurou Semprônius, cujo olhar começava a apagar-se...
— Mas, que me importa o futuro se agora me foges? — respondeu-lhe Cáius cobrindo de beijos e lágrimas as mãos frias do moribundo.
*
* *
Quando amanheceu, Semprônius estava morto.
Facultando ao filho algumas horas para acalmar a primeira emoção, o eremita veio oportunamente ao seu encontro.
— Vem, filho — disse afectuosamente —, aqui, apenas repousa um corpo perecível e a um cristão não é lícito entregar-se a excessivas lamentações e desesperos, quando um ente caro se liberta das misérias terrenas.
Cáius ergueu-se, submisso, cobriu com um lenço o semblante do morto e saiu com o velho, da gruta, para logo se assentarem numa pedra.
— Cuidemos, agora, de executar as últimas vontades de teu pai e eis o que, a propósito, te quero propor:
no santuário, junto do altar, existe um fosso cavado na rocha.
Eu mesmo o preparei para nele repousar depois da morte; mas, como tem espaço de sobra, quero aproveitá-lo para o bom velho, a quem me foi dado converter e cuja fé repontou tão ardente quão profunda.
Cáius agradeceu, comovido, e, quando chegou a noite, encaminhou-se ao santuário.
Auxiliado pelo moço pescador, levantou do solo, junto ao altar, uma pesada laje, sob a qual se encontrava uma cova larga e funda.
A ela desceram o corpo do velho Semprônius amortalhado em lençóis, tendo ao peito uma cruzinha de madeira, aposta pelo eremita depois de breve oração.
Recolocada a laje, ninguém dissera haver ali vestígios de sepultura.
Na manhã seguinte, Rutuba regressou.
A morna tristeza de Cáius e a notícia do traspasse de Semprônius, cujo corpo desaparecera, deram muito que pensar ao servo dedicado.
Guiado pelo instinto do seu devotamento e também pela subtileza do seu espírito observador, ele como que adivinhou a verdade e deixou-se possuir de um vago temor quanto ao futuro.
Tomando-se de súbita resolução, dirigiu-se ao moço engolfado em profundos cismares e bateu-lhe ao ombro para dizer:
— Meu caro amo, crês no meu absoluto devotamento?
— Como não? — respondeu Cáius, surpreso.
— Então, dá licença que te diga uma coisa: morto o nosso velho patrão não vais, ao regressar, fazer-lhe os funerais condignos e próprios da sua hierarquia?
E vendo a hesitação de Cáius, prosseguiu:
— Devo dizer-te que a crença deste santo varão, que aqui mora, não é segredo para ninguém, nestas paragens.
Se o nobre Semprônius resolveu adoptar a crença desse homem, não é a mim que compete comentar, bem ou mal, mesmo porque todos os cristãos que tenho conhecido se distinguem por suas virtudes extraordinárias...
Entretanto, penso que todos devem ser prevenidos, a fim de evitar indiscrições, comentários e possíveis surpresas desagradáveis.
Não queres que me vá à cidade mais próxima e traga uma urna funerária, a fim de com ela reentrares e te justificares no lar?
Não te esqueças que tens esposa e um filhinho, cujo futuro te está confiado.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 17, 2017 8:35 pm

— Adivinhaste, é isso mesmo e só posso agradecer e louvar a tua argúcia e devotamento.
Faz, portanto, o necessário para evitarmos suspeitas e tagarelices inúteis.
*
* *
Oito dias depois, reentrava no lar, conduzindo a urna por continente das cinzas de Semprônius.
Ao rever a casa paterna, o coração se lhe travou de amargura e as lágrimas de Virgília e Metela, que não podiam conformar-se com aquela perda, mais lhe aumentaram a tristeza.
Seguido de todos os fâmulos, encaminharam-se ao sarcófago que Semprônius mandara construir depois da morte de Fábia, e ali depositaram, solenemente, a referida urna.
Terminada a cerimónia e quando contavam os episódios dos últimos momentos do falecido, Metela anunciou que uma carta de Agripa lhe anunciara a visita de Nero, que se propunha passar algumas semanas na sua
nova propriedade.
— Assim sendo, pede a teu marido que se incumba de regular o mais depressa possível os negócios da herança, porque a mim me repugna tratar pessoalmente com meu irmão — disse Cáius.
— Nada mais justo e de antemão te asseguro que Agripa te substituirá com todo o prazer.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 17, 2017 8:35 pm

VII - Nero

Pouco distante de Nápoles, situada em cômoro pitoresco assentava a magnífica herdade ultimamente adquirida pelo jovem tribuno.
O rico habitante de Pompeia a quem ela pertencera, e que não podia prever o cataclismo no qual perecera com toda a família, nada poupara para embelezar aquela granja.
O tribuno, entretanto, não quisera custear os gastos de conservação, de modo que agora, desguarnecida a casa, descurados os jardins, tinha tudo um aspecto de abandono e tristeza.
Um mês depois da morte de Semprônius, ao entardecer de um belo dia, vamos encontrar o tribuno no seu gabinete de trabalho, assentado junto de uma janela aberta para o jardim.
Sombrio, taciturno mais que nunca.
Profundo vinco a mediar-lhe os supercílios, um ricto de maldade dolorida a contrair-lhe os lábios.
No interior da sala, Trula, seu criado de quarto, entretinha-se a arrumar sobre a mesa uns rolos de papiros e documentos que a mão nervosa do amo compulsara e desordenara.
Acabrunhado e pensativo, sorvia agora, a pequenos tragos, uma taça de velho Falerno.
Terminara, ainda na véspera, todos os efeitos inerentes à herança, mas, não era uma questão de dinheiro que o preocupava e sim aquela viagem misteriosa que culminara na morte do pai, longe da família.
Em tudo aquilo, farejava um mistério e queria desvendá-lo...
Mas... onde e como proceder?
A quem dirigir-se?
Trula, rapaz astuto e folgazão, não deixava de observar o amo, de soslaio, e de ouvido aguçado como que lhe apanhara o monólogo em surdina.
Aproximou-se da mesa como quem procurava ver se a ânfora ainda tinha vinho.
— Queres que te sirva algumas frutas cristalizadas que eu trouxe ontem de Nápoles?
É artigo de primeira, disse-me o vendedor.
O nobre Cáius Lucílius é um grande freguês, segundo me disse Sapala, que lá encontrei na ocasião.
— Ah! — disse o tribuno erguendo a cabeça — viste Sapala?
Que há-de novo lá por casa de meu irmão?
— A bem dizer, pouco sei; falámos apenas ligeiramente da morte de teu pai e dos funerais que lhe fizeram, desprovidos de pompas, tanto que os servos nem puderam prantear junto da pira.
— E Sapala acompanhou meu pai na viagem?
— Sim. Ele, Rutuba, Gurges, Próspcr, os dois pretos mudos e quatro gladiadores o escoltaram até um certo lugarejo próximo das montanhas.
Uma vez ali, contrataram alguns montanheses e seguiram acompanhados somente de Rutuba.
Doze dias se passaram, quando o nobre Cáius Lucílius regressou com a urna funerária.
— E Sapala não se informou dos montanheses aonde meu pai se dirigira?
— É gente muito discreta, aquela, segundo me informou o mesmo Sapala; contudo, um rapaz lhe contou que numa caverna da montanha vive um ancião venerável, que visita os pobres e opera curas maravilhosas.
— Está bem, toma este resto de vinho e vai-te.
Só, muito intrigado, Nero meditou longamente no que acabava de ouvir, sendo-lhe porém impossível atinar com o motivo secreto daquela misteriosa viagem.
“Conversarei a respeito com Cláudius, pois dado que o dinheiro não o tenha imbecilizado completamente, é finório bastante para encontrar a chave do enigma...”
E tomou logo a resolução de regressar a Roma.
Em lá chegando, apresentou-se no palácio de Drúsus, onde Cláudius o recebeu com a maior cordialidade.
— Ora bem, meu caro primo, eis-te podre de rico — disse ele enquanto oferecia ao tribuno uma cadeira.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 17, 2017 8:36 pm

Drusila recebeu carta de Virgília, participando a morte de Semprônius...
Já regularizaste os negócios da herança?
— Perfeita e pacificamente.
Cáius, pode dizer-se, revelou-se a previdência personificada e nada tenho de que me queixar quanto ao meu quinhão.
Não é disso que se trata e não foi isso que aqui me trouxe para te pedir um conselho...
— Se for para bem gastar o teu dinheiro e mais facilmente esqueceres uns tais de olhos azuis, não podias bater a melhor porta — disse Cláudius, rindo-se.
— Não, nada disso: o que aqui me trás é coisa muito diferente — retrucou agastado com a alusão feita a Virgília, e passou a discorrer o que sabia da viagem de Semprônius e das misteriosas reservas em torno da sua morte.
— Penso poder esclarecer as tuas dúvidas, pois as tuas palavras apenas vieram confirmar uma suspeita que guardo há muito tempo.
É que sei, por um amigo que exerceu a magistratura nessa província e visitou-a minuciosamente, que na região indicada vivem muitos cristãos, que para lá se retiraram depois da última proscrição.
Também me falou de um velho habitante das montanhas, que abriga os viajantes transviados e alicia prosélitos para o seu falso credo.
Agora, é bem sabido que esses sectários possuem um dom mágico de enfeitiçar quantos se lhes aproximam, a fim de lhes insinuar fidelidade inquebrantável aos preceitos do judeu crucificado e por eles adorado qual um deus.
O pretor Lêntulus contou-me que, por ocasião do último édito de proscrição, testemunhou factos absolutamente extraordinários, pais que renegavam filhos, mulheres que abandonavam maridos...
E nada, absolutamente nada que os pudesse dissuadir do terrível sortilégio.
Contra toda a expectativa, contra a razão e o bom senso, os desgraçados se deixavam torturar com verdadeira beatitude, a repetirem até dentro da fogueira:
— “ficamos fiéis a Jesus!”
— Não desconheço estes factos, mas, que relação podem ter com o caso em apreço?
— Vais ver.
Lembras-te de que depois da catástrofe de Herculânum teu irmão foi recolhido enfermo e tratado por um velho cujo nome jamais declinou?
Creio que isso foi justamente naquela região, e todos nós não deixámos de notar a grande transformação que se operou no carácter de teu irmão, daí para cá.
Pois o que de tudo isso concluo é que teu irmão foi parar nas garras do velho propagandista, que não perdeu ensejo para incorporar ao rebanho uma tão rica ovelhinha.
Continuando a operar o filtro mágico, teu irmão converteu teu pai e acabou por conduzi-lo até lá, para ser baptizado.
E agora, com certeza, vamos ter uma Virgília cristã, coisa aliás deplorável, pelas consequências que de futuro podem acarretar a toda a família.
— Agora, tudo compreendo e só me resta agradecer — disse Nero levantando-se e desculpando-se de não aceitar o convite para jantar.
*
* *
Quando chegou a casa, trabalhavam-lhe na mente os mais desencontrados pensamentos.
Estava convicto da realidade do tal talismã cristão e daí a suspeita que Cáius dele se aproveitara para conquistar e roubar-lhe o coração de Virgília.
Raiva insana o empolgou, mas, pouco a pouco lhe veio outra ideia.
Se procurasse, por sua vez, alcançar o mesmo talismã e o empregasse no sentido de separar Cáius de Virgília, ferindo e punindo, assim, ao mesmo tempo, em benefício próprio, o irmão odiado?
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 17, 2017 8:36 pm

Aquela fatal paixão pela cunhada não se extinguira, nem mesmo se atenuara, infelizmente; mas, muito ao contrário, turvara-se e azedara a ponto de excluir desejo outro que não o de possuí-la a todo o transe.
Depois de grande luta íntima, passados alguns meses, deliberou, finalmente, dirigir-se à lura do anacoreta e obter dele o mirífico talismã, ainda que, para lhe ganhar confiança, houvesse de baptizar-se.
Isto feito, queria reconciliar-se com o irmão para melhormente conquistar a cunhada, aplicando o sortilégio.
Nesse intuito, requereu licença de algumas semanas e pôs-se a caminho.
Não lhe foi difícil obter informações e assim visualizá-lo simplesmente trajado, já galgando a pedregosa senda que conduz à gruta.
O eremita lá estava, da parte de fora, assentado na pedra que lhe servia de banco, com as mãos cruzadas ao peito e mergulhado em profunda meditação.
Ao avistá-lo, o tribuno estacou tão admirado quão perturbado.
Como que se envergonhava da convizinhança daquela figura venerável, levando no seu imo a mentira e o perjúrio.
Contudo, abafando aquele ténue protesto da consciência, aproximou-se, ajoelhou e disse fingindo humilde:
— Venerando mestre, sou dos que buscam a paz de espírito no conhecimento de uma religião nova.
Quererás dar-me essa luz que, dizem, nos faz entrever uma vida nova?
O velho levantou-se e cravou no recém-vindo o olhar percuciente.
Em seguida, levou a mão encarquilhada à fronte inclinada do tribuno e, depois de ligeira concentração, disse:
— O Senhor preceituou que mais vale aceitar dez indignos do que perder um verdadeiro crente.
Quero crer que o teu desejo seja sincero, meu filho...
Levanta-te, vem descansar um pouco e conversaremos.
Depois de longa palestra entremeada de muitas perguntas, o velho acabou por dizer com solenidade:
— Nossa doutrina não se fica conhecendo em duas horas, e, uma vez que desejas sinceramente ser cristão, fica por aqui, exercita a tua humildade pela abstinência e pela prece, e só assim poderei iniciar-te nos santos mistérios.
Nero concordou.
As últimas palavras do cenobita mais lhe aguçaram o desejo de possuir o talismã.
Ficou, portanto, fingindo uma profunda fé e submetendo-se a tão novas quanto, para ele, extravagantes privações.
Diariamente conversava longas horas com o eremita, e, involuntariamente, os admiráveis preceitos da nova crença lhe balsamizavam o coração.
Era, admirado, que pressentia aquele ancião a pairar acima de todas as contingências humanas, considerando a caridade e o amor os únicos bens ambicionáveis neste mundo.
Pobre, tinha ele sempre o que dar do tesouro da sua alma; às portas da morte, nada temia e até a desejava, como festividade de vitória, na qual devesse investir o manto da glória, a fim de com ele ascender à morada do pai celestial.
Perturbado, abalado, vinha-lhe às vezes o desejo de atirar-se aos pés do cenobita e lhe abrir o coração ulcerado; tinha um como pressentimento de que, uma vez aceitando aquelas doutrinas renovadoras, elas lhe dissipariam todas as trevas; nada obstante, sempre que assim acontecia, a paixão desvairada se interpunha e o seu mau génio fazia luzir a seus olhos a imagem sedutora de Virgília, a acenar-lhe com o talismã com que haveria de conquistar-lhe o coração.
Cedendo, por fim, aos seus rogos, o eremita lhe concedeu o baptismo, acto que lhe provocou uma derradeira tempestade n’alma, último prélio entre o bem o mal.
Saídos do santuário, não foi sem mágoa que o eremita, depois de lhe fixar longamente o rosto pálido, ergueu a cruz, abençoou-o e disse:
— Filho, dei-te a noção da vida futura, abri-te os olhos para a luz da verdade.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 17, 2017 8:36 pm

Não tornes a cair nas trevas do vício e de uma paixão impura, não desmereças da fé augusta que aqui vieste espontaneamente buscar, porque, neste caso, grande será o castigo e acabarás de modo fatal.
Previno-te, não obstante saber que todo o destino haja de cumprir-se: procede como entenderes, mas, lembra-te de que Jesus, nosso Senhor, também conheceu o traidor e não o deteve.
No dia seguinte, muito cedo, à hora de partir, Nero veio, agitadíssimo, despedir-se do cenobita.
Era o momento azado para obter o talismã, mas não sabia como abordar um assunto de que o velho jamais lhe falara.
De repente, num gesto brusco, tomando-lhe as mãos:
— Pai João, estou plenamente convencido da verdade, mas, ainda espero algo que me deve fazer o mais ardoroso dos prosélitos:
é o talismã que granjeia o amor dos corações rebeldes.
Experimentei no imo d’alma a força mágica que empregas para ganhar novos adeptos, não me recuses o teu talismã, faz a minha felicidade, peço-te pelo deus que pregas.
O anacoreta deitou-lhe um olhar límpido e admirativo:
— Não compreendo o que queres dizer, nem esse tremor que te sacode.
Queres aliciar amor?
Mas, o talismã tu o tens contigo mesmo, na aplicação dos preceitos que te ministrei:
paciência, bondade, são os dons com que conquistamos prosélitos.
— Bem o sei — atalhou Nero já impaciente —, mas o que te peço é outra coisa:
quero o talismã que vos liga a quantos de vós se aproximam, tornando-os invulneráveis a quaisquer outras influências, pois pretendo empregá-lo numa criatura a quem amo e me não corresponde, tanto mais quanto foi, neste só intuito, que me propus aceitar a vossa fé.
— Então, preciso dizer-te que te enganaste, infeliz! — disse o velho com majestade — nós não possuímos outro dom mágico além das palavras legadas por Jesus, senhor e mestre.
Ele, o mestre, nos predicou o amor puro e sem limites e tu, insensato, vens procurar forças nefastas da Natureza para uma aplicação criminosa!
Pois bem:
— aqui podes encontrar a prece, a caridade, a abnegação e nunca um filtro para te fazeres amar.
Será que as palavras sublimes do mestre não te tocaram o coração?
A graça não te retemperou a alma conturbada?
Desperta, meu filho! repele do teu espírito as potências do mal e ora, porque a prece é bálsamo que cura as chagas do coração, é fogo divino que se projecta à fonte celeste onde foi gerada a tua alma imperfeita.
A prece deve ser o teu escudo contra o espírito do mal, que te obscurece a razão.
Ora, filho, e terás a coragem de viver e sofrer.
Lívido, olhos brilhantes, o rapaz ouvira aquelas exortações que destruíam irremediavelmente os seus loucos desígnios.
Uma cólera insensata lhe rugia por dentro.
Todos os sacrifícios baldados!
Em troca de um fogo fátuo, renegara a religião dos seus antepassados, e o talismã que devia subjugar o coração de Virgília, o talismã que já considerava conquistado, esvaecia-se qual sombra!
— Recusas-me, então, o teu segredo? — perguntou com voz rouca.
— Eu te perdoo, filho, e antes quisera chamar-te à razão.
— A mim é que isso compete, velho infame; e olha que te hás-de lembrar desta hora em que to afirmo.
E lá se foi, fremente de raiva, não pensando senão em vingar-se.
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