Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 18, 2017 8:38 pm

Dirigiu-se a marchas forçadas para Nápoles.
Enquanto cavalgava, foi maturando o plano mediante o qual haveria de ferir o eremita, aniquilar Cáius e esmagar o coração de Virgília.
Logo que chegou, foi a casa do pretor e lhe fez o seguinte relatório:
“Viajando a negócios, sentira-se adoentado; um velho o socorrera e conduzira a uma gruta, onde, desde logo, se convenceu haver caído numa armadilha.
Aquele velho era um cristão, um grande feiticeiro, que espreitava os viajantes e os enfermos no intuito de os converter à força.
Tinha como auxiliar um rapaz chamado Paulo.
Certa noite, supondo que ele Nero estivesse adormecido, conversavam e pôde, então, ouvir horrorizado que seu irmão Cáius Lucílius, ali recolhido por ocasião da fuga de Herculânum, fora convertido e, por tal forma fascinado, que lá regressara mais tarde com Semprônius, a fim de o baptizar também.
A peculiar energia do velho patrício fizera abortar o plano, mas, temendo uma denúncia, eles o teriam matado lá mesmo.
Em sua inconcebível cegueira, Cáius tolerara o crime e tudo ocultara à vindicta das leis, assoalhando que o pai falecera de morte natural.
Tendo ele Nero conseguido evadir-se, por um acaso feliz, julgava dever prevenir as autoridades, tanto mais quanto, dois criminosos foragidos de Nápoles se haviam internado nas montanhas e foram homiziados pelo eremita.” ,
O pretor ouviu, atento, agradeceu ao tribuno o seu zelo pela causa pública e declarou que, fosse como fosse, mandaria prender o perigoso velho e os seus cúmplices.
— Quanto ao que se refere a teu irmão, não posso prender um homem da sua categoria sem previamente interrogá-lo.
É exacto que os funerais de Semprônius se realizaram sem pompa; todavia, Cáius Lucílius não praticara abertamente o Cristianismo e até parece viver exclusivamente para a família, raro saindo de casa.
Hoje mesmo expedirei ordem para que ele compareça ao pretório e tu, tribuno, ficarás aqui na cidade, peço-te, até que se deslinde este negócio.
Talvez te encarregue da prisão do criminoso, cujo antro conheces.
Era esse o seu desejo, respondeu: — dirigir em pessoa a captura do assassino de seu pai, e por isso agradecia.
*
* *
Nada suspeitando do terrível furacão que se armava sobre as suas cabeças, Lucílius e Virgília lá estavam calmamente sentados no terraço, na mesma noite daquele dia.
O encantador semblante da moça recuperara a sua rósea frescura e os olhos azuis reflectiam a ventura que lhe ia n’alma.
Alegres como duas crianças, tinham brincado com o pequenino Semprônius, que já fizera um ano e tentava os primeiros passos num macio tapete ao lado.
Uma carta interrompera aquele idílio.
Virgília dera um brinquedinho ao filho e, debruçada ao ombro do marido, acompanhava a leitura em voz alta.
Essa carta era de Drusila.
A patrícia comunicava ao primo que, a conselho médico, Cláudius, adoentado há algum tempo, tencionava
internar-se em afamado estabelecimento de águas termais, perto de Baias.
Assim, nesse propósito, iriam habitar uma casa que possuíam não longe daquelas fontes.
Tendo que ficar uns quatro dias em Nápoles, por ocasião de sua passagem, pedia-lhes fossem visitá-la, visto achar-se fatigada da viagem.
A entrada brusca de Rutuba interrompeu a leitura.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 18, 2017 8:39 pm

— Que há? — perguntou o patrício fixando surpreso o semblante pálido do servo fiel.
— Um destacamento de soldados acaba de chegar e o centurião Cornélius Burra deseja falar-te incontinenti.
Ele me acompanhou e aqui está.
Jovem oficial, seguido de alguns soldados, avançou ligeiro para Cáius, que se erguera, pálido, de sobrolho fechado.
Deparando com Virgília, que na ocasião conchegava ao seio o pequenino Semprônius, o oficial saudou-a respeitoso:
— Não se aflija, nobre senhora, nenhum perigo ameaça seu marido.
Desenrolou um pergaminho e, estendendo-o ao patrício, pediu-lhe delicadamente que o acompanhasse, para comparecer ao pretório no dia imediato.
— De que me acusam?
— Penso que deveras explicar diversas circunstâncias inerentes à morte de teu pai e à sua última viagem...
O resto, saberás do pretor.
— Muito bem, estou pronto para acompanhar-te e só peço me concedas duas horas para tomar algumas providências indispensáveis.
— Perfeitamente.
— Obrigado. Rutuba, leva o centurião à sala que ele preferir e faz-lhe servir refrescos.
A esses guapos rapazes, manda-lhes dar uma boa merenda e vai preparar-me o indispensável para a viagem.
Tanto que ficaram sós, beijou, desanimado, a fronte de Virgília.
Pressentia chegado o momento da luta...
Mas, quem poderia tê-lo denunciado?
Instantaneamente, Nero lhe veio ao pensamento.
A mão da esposa, assente no seu braço, arrancou-o daquelas conjecturas.
— Cáius, que fizeste para seres assim convocado ao pretório?
E a que vem, em tudo isto, a morte de teu pai?
— Querida, perdoa-me a angústia desta hora — disse-lhe ele abraçando-a com ternura —, até hoje te ocultei um passo grave da minha vida, mas agora devo confessar-te francamente a minha fé...
Sou cristão e meu pai também recebeu o baptismo.
Virgília recuou, trémula...
— Estás louco? Tu, cristão?
Semprônius também?
Que fizeste, Cáius?
Será possível tenhas renegado a fé dos nossos avós para adoptar uma seita condenada, que acarreta ignomínia e morte aos seus adeptos?
— Não sabes o que dizes, não conheces a pureza dessa fé...
Quando compreenderes os seus postulados de fé e amor, também hás-de repelir os ídolos e te prosternares ante o filho de Deus, que baixou ao mundo para ensinar os homens a sofrer e perdoar.
— Não — respondeu ela com veemência —, jamais me prosternarei diante do Nazareno crucificado; não aceito esse teu Deus sem dignidade nem orgulho, que prescreve o amor dos inimigos.
Não posso admitir que essa crença supere a dos nossos antepassados e sim que ela só pode produzir hipócritas, de vez que pretende anular sentimentos inatos no homem — a energia e as paixões.
Tua fé exige o perdão dos inimigos...
Que absurdo!
É coisa que se pode, a rigor, exigir dos lábios, nunca do coração que odeia.
Não suponhas que ignore, assim tanto, o sectarismo cristão, pois Metela teve ocasião de conhecer muitos adeptos e tivemos ensanchas de examinar e discutir os artigos da nova fé.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 18, 2017 8:39 pm

Pois fica sabendo que Metela está de pleno acordo comigo em afirmar que as novas doutrinas nada têm de melhor que as nossas e que, muito ao contrário, difundindo-se, criarão massas miseráveis e hipócritas, porque a dignidade humana será calcada a pés e se dissolverá num frouxo, morno sentimento de perdão, sem realidade sinceramente viva.
Aturdido, Cáius Lucílius ouvia a jovem esposa que, olhos incendidos, faces ruborizadas, defendia a causa dos velhos deuses.
Compreendeu, desde logo, que ela jamais se converteria.
Carácter passional, orgulhoso, tornava-se, por isso mesmo, inacessível ao agridoce sentimento da humildade e do perdão.
A educação de Metela, altiva e ciosa da sua aristocracia, estóica por índole e por princípio, teria concorrido, ainda mais, para firmeza de suas convicções.
— Virgília — exclamou sentidamente —, vejo que detestas a minha fé até à injustiça; podes tu averbar de covardes os mártires que sofrem as mais horríveis torturas?
Ignoras, acaso, que essa intrepidez lhes tem aliciado a fama de heróis?
— Não, mil vezes não — respondeu Virgília cuja veemência de linguagem começava a fundir-se em soluços —, essa gente imola-se estupidamente a uma utopia.
Ninguém me convence que, para fazer o bem e evitar o mal, seja preciso morrer torturado e arrastar outros ao sacrifício, deixando em torno de si um montão de viúvas e órfãos.
Um Deus que tal coisa exige não é Deus, é um tirano abominável.
(Agarrou o filhinho e ajoelhou-se aos pés do marido.)
Oh! Cáius, meu querido marido, por quem és, renuncia a esse erro e não me abandones novamente ao insulamento e ao desespero; jura-me que voltarás são e salvo, visto que um mau presságio me oprime o coração, estou a pensar que te não tornarei a ver.
Nero está metido em tudo isso e não resta dúvida de que uma grande ameaça paira sobre nossas cabeças.
Alarmado com aquela exaltação da mulher, como que delirante e de fisionomia alterada, ele a ergueu e conduziu a um banco de mármore, assentando-se a seu lado.
Como se estivesse ébrio, mergulhou a cabeça entre as mãos e uma tempestade passageira, porém terrível, lhe rebentou no íntimo do ser — a luta entre o amor e o dever.
Venceu o primeiro, como não raro acontece.
Levantou-se, pálido mas resoluto e, atraindo a si a esposa, deu-lhe um beijo apaixonado.
— Sossega, Virgília, pois eu te juro que voltarei são e salvo.
Por ti, farei o sacrifício de renegar o que a honra me adjura a defender com a última gota de meu sangue.
Sacrificarei aos deuses, sim, mas só por ti e pelo nosso filhinho.
Como que aliviada de um peso enorme, a moça ergueu a fronte e uma centelha de esperança lhe fulgiu nos olhos.
Conversaram mais calmos até que Rutuba os veio interromper, trazendo o manto e o chapéu do amo.
— É tempo de partir, mas, minha Virgília, não te exaltes assim, nenhum perigo me ameaça, nem te deixo como prisioneiro.
Confia em mim, repito:
voltarei logo, são e salvo.
Abraçou comovido a mulher e o filho.
Nesse instante, contudo, indefinível angústia lhe travou o coração, teve um pressentimento de que era definitiva aquela separação, que era pela última vez que contemplava aqueles olhos azuis nele cravados com expressão de angústia indefinível.
Num supremo esforço, desprendeu-se-lhe dos braços e partiu sem olhar para trás.
Quando, quinze minutos após, o barco em que seguia assentado ao lado do centurião, cruzou defronte da vivenda, ele avistou de pé, apoiado ao corrimão do terraço, o vulto esbelto de Virgília esbatido à luz avermelhada do poente.
Trocaram o derradeiro adeus e de novo lhe assaltou a ideia de que não mais tornaria a vê-la...
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 18, 2017 8:39 pm

VIII - Diante do pretor

No dia seguinte de manhã, o pretório estava repleto de gente.
A nova de denúncia contra o filho do opulento Semprônius, bem conhecido em Nápoles por suas aventuras e prodigalidades, espalhara-se rapidamente.
No meio da massa compacta e crescente de minuto a minuto, também estava Nero disfarçado com uma capa escura e chapéu de abas largas.
Aprazia-lhe, fazia mesmo questão de ouvir a sentença condenatória.
Quando Cáius Lucílius, acompanhado de Rutuba, pálido, porém calmo, surgiu à barra do tribunal, o juiz, que havia pouco ali se instalara, teve um gesto de admiração diante daquele belo homem de olhar translúcido, acusado de um quase parricídio.
Logo, a breve trecho, deu-lhe ciência das suspeitas que sobre ele pesavam, com relação à morte de Semprônius.
O rapaz tudo ouvia surpreso, sim, mas tendo nos lábios um ríctus de enfado.
— A afeição que me ligava a meu pai é bem conhecida — disse — para que desça de minha dignidade no rebater tão insensata acusação.
Todos os que me conhecem de menino, todos os nossos amigos e servos aí estão para atestar que o meu amor filial antes me levaria a sacrificar por meu pai a última gota do meu sangue.
O velho que me recolheu e tratou após minha fuga de Herculânum é um bravo militar, que serviu sob o comando de meu avô e a nossa viagem ao seu tugúrio obedeceu a razões de ordem particular, que só a nós interessam.
— A mim — disse o juiz — nada mais grato que poder proclamar tua inocência e, dado possas refutar a, segunda parte do libelo, a primeira cairá por si mesma...
Dizem-te cristão e nós bem sabemos que o fanatismo dessa seita tem culminado nas mais estranhas aberrações, a ponto de aniquilar as mais legítimas afeições humanas, como sejam os laços da família.
Se, portanto, a acusação que te irrogam é falsa, aproxima-te dessa estátua de Júpiter que aí está e oferece teu sacrifício ao soberano dos deuses.
Só isso te exculpará de toda e qualquer suspeição.
Coração opresso, cabeça baixa, Cáius Lucílius acercou-se do altar portátil, colocado frente à estátua.
Imprevisto, doloroso combate travou-se-lhe no imo d’alma...
Abjurar? — era degradar-se aos próprios olhos...
Confessar? — era a ruína completa. Diante da retina espiritual passou o semblante angustiado de Virgília, olhos húmidos, súplices...
Não lhe jurara que voltaria são e salvo?
Tomou da taça como em delírio, fez as libações do ritual.
“Senhor Jesus, como Pedro eu te nego, mas, não me retires a tua graça, tem compaixão da minha humana fraqueza.”
Maquinalmente, ergueu a vista para a estátua e uma invocação muda saiu-lhe do coração triturado, para o deus que ele renegava.
Pareceu-lhe, então, que o semblante impassível do Senhor do Olimpo se transfigurava numa cabeça coroada de espinhos e que um olhar de mansuetude infinita nele se fixava indulgente.
Os aplausos da assistência desfizeram a visão.
O pretor logo o proclamou livre e isento de culpa.
Apoiados, felicitações calorosas romperam de todos os lados.
Agradecendo, cumprimentando à esquerda e à direita, Cáius deixou o tribunal e dirigiu-se à casa em que Drusila se hospedara, a fim de saudá-la e convidá-la a chegar até aos seus penates.
Entretanto, um sudário de trevas lhe envolvia a alma, que o remorso começava a ferretear.
Também Nero, poucos instantes depois dele, deixara o tribunal, fulo de raiva.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 18, 2017 8:39 pm

Agora, a única coisa que lhe restava fazer era colocar-se à testa da escolta incumbida da prisão do eremita, que, ao menos este, lhe pagaria por Cáius.
Antes, porém, veio-lhe à mente a execução de um plano diabólico e, ao seu ver, capaz de compensar, talvez, a derrota que acabava de sofrer.
*
* *
Em avistando o primo, Drusila, pálida e comovida, atirou-se-lhe aos braços.
— Querido Cáius, é mesmo verdade que te imputaram crimes abomináveis? Mas...
se aqui estás é que foste absolvido!
Demos graças aos Deuses!
Quem, no entanto, poderia ter propalado semelhantes infâmias?
— Não importa sabê-lo — respondeu com amargura —, mas, cara Drusila, não te posso conceder senão alguns rápidos minutos; preciso voltar antes que Virgília morra de susto.
Queres vir comigo até lá?
— Sinto imenso não poder satisfazer-te, visto que hoje, precisamente, Cláudius volta de Baias, a fim de levar-me consigo.
Antes, porém, de partires, descansa um pouquinho ali naquele divã.
Dentro de 15 minutos estarei aqui e então irás tranquilizar a nossa Virgília.
Ao regressar como prometera, Drusila trazia na mão um pergaminho, ao mesmo tempo que o virava e revirava entre os dedos:
— Um desconhecido, que disse haver-te procurado em Micenes, trouxe esta mensagem e eu tive grande desejo de a inutilizar, visto que, após os acontecimentos desta manhã, suspeito de tudo e de todos; contudo, faltou-me a coragem e aqui tens a mensagem.
Cáius desenrolou o pergaminho e, depois de o ler sofregamente, levantou-se conturbado.
— Eis o que vem alterar todos os meus planos.
Preciso fazer uma viagem de alguns dias e vou cientificar Virgília.
Queres encarregar-te da carta que lhe vou escrever e apor-lhe algumas linhas tuas, confirmativas desta minha resolução?
Faz também o favor de me chamar Rutuba, a fim de conseguir dois animais de sela, pois tenho de partir sem demora.
Ansiosa, olhos já mareados, Drusila tomou-lhe da mão:
— Aonde vais, Cáius?
Vejo que esta mensagem te perturbou inteiramente; diz-me:
de que se trata?
Olha, eu saberei compreender-te, saberei calar...
Dize, diz aonde vais, para que eu possa rogar por ti.
Tocado pela expressão súplice da sua voz, Cáius fitou o rosto descorado da prima, cujo olhar era assaz significativo, e, pela primeira vez, compreendeu a natureza dos sentimentos que lhe inspirava.
Um misto de vergonha, de piedade e arrependimento lhe ensombrou a fisionomia.
— Querida Drusila, não mereço tua amizade nem teus cuidados; na verdade, não passo já de um indigno que traiu a sua fé.
Mas, para dar-te uma prova da confiança que me mereces, da afeição que te voto, declaro-te que sou cristão.
Sim! recebi o baptismo, e, no entanto, ainda há pouco reneguei a Jesus e sacrifiquei aos ídolos, por motivos meramente humanos.
Esta mensagem é do piedoso ancião que me converteu.
Está moribundo e quer ver-me antes de morrer.
Além disso, parece que o denunciaram como acoitador de malfeitores e ele me deixa entrever que se acha ameaçado.
Compreendes, portanto, que me cumpre partir imediatamente para cerrar-lhe os olhos ou para salvá-lo, se for possível.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 18, 2017 8:39 pm

Se conseguirem prendê-lo, estará perdido, porque não é como eu, não negará a sua fé.
Estranha expressão de alegria e entusiasmo como que transfigurara o rosto de Drusila.
— Que me dizes, Cáius?
Cristão, tu?
Professas, então, essa nova doutrina de que tanto me falava minha mãe de leite?
Doutrina que promete aos sofredores, aos abnegados da Terra, a sua reunião aos que na Terra lhes foram caros, num paraíso de felicidades eternas, sob a égide de Jesus?
Vai! vai a esse bom velho que te iniciou na religião de caridade e misericórdia.
Pedirei ao teu Jesus que te proteja e perdoe a tua fraqueza.
Mais tarde hás-de ensinar-me os preceitos cristãos, pois eu quero crer e orar como tu.
Profundamente comovido, o rapaz beijou-lhe as mãos.
— Para mim será uma felicidade o poder ensinar-te a nossa doutrina; e até que o possa fazer, querida irmã em crença, toma e guarda esta lembrança, até que eu volte dignificado para poder trazê-la comigo.
Tirou do pescoço uma grande medalha presa a um cordão de ouro, e, abrindo-a, mostrou-lhe o conteúdo — uma cruzinha de madeira.
Drusila beijou o símbolo da fé cristã e ergueu os olhos ao alto:
— Vai — disse —, minhas preces serão contigo.
Daí a duas horas, Cáius Lucílius e Rutuba, cavalgando valentes corcéis, deixavam Nápoles, tomando a trote a direcção das montanhas.
Não suspeitavam que um troço de cavaleiros, comandados por um oficial superior, também deixaria a cidade um quarto de hora mais tarde, marchando-lhes no encalço.
Depois de uma jornada rápida e exaustiva, Cáius e Rutuba se detiveram, finalmente, perto de um bosque, do qual partia a senda que conduzia à gruta.
— Fica-te aqui — disse Cáius apeando-se do cavalo —, logo que me informe do que por lá se passa, voltarei a fim de resolvermos o que melhor convenha.
A termos de aqui demorar alguns dias é preciso cuidar da pastagem dos animais.
— Não te incomodes, patrão, pois conheço aqui perto um rincão fechado, onde os cavalos podem ficar o resto do ano.
Vou conduzi-los para lá e dentro de duas horas estarei lá em cima.
Com o coração opresso o moço patrício penetrou na primeira caverna e ficou surpreso de a encontrar deserta.
Preso? Morto? — pensou angustiado.
Depois, dirigindo-se ao santuário, levantou com a mão trémula o couro que lhe servia de cortina.
Percebeu, então, o velho eremita estendido aos pés do altar.
Junto dele, ajoelhado, o jovem pescador Paulo friccionava-lhe as têmporas com a essência de um pequeno frasco.
— Gabriel, filho do meu coração, aproxima-te para que te abrace e abençoe antes de morrer...
Cáius ficou petrificado, tapou o rosto como para não ver...
— Oh! meu pai!
Não sou digno de transpor estes umbrais sagrados, pois pesa-me na consciência um ato abominável, tão abominável que não me sinto com forças para te confessar.
E as lágrimas lhe brotaram, quentes e copiosas.
— Vem, não temas, filho!
Essas lágrimas são os primeiros sintomas do teu arrependimento e o nosso misericordioso Redentor abre sempre os braços ao pecador repeso.
Sei o que fizeste cedendo a uma fraqueza humana...
— Pois tu o sabes e não me repeles?
Atirou-se para o velho, abraçou, beijou-lhe a mão já fria e húmida.
— Sim, sei que renegaste a Jesus diante dos homens, mas sei também que os seus preceitos latejam no teu coração e procuras praticá-los.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 18, 2017 8:40 pm

É que, meu filho, quando nossa alma se destaca do seu casulo perecível, começa a ver além das possibilidades humanas.
Eis porque te digo: aceita a minha bênção, o meu perdão e vai-te imediatamente daqui, porque te ameaça um grande perigo.
— Que dizes, meu pai?
Na carta que me escreveste, falavas de um grande perigo, sim, mas para ti, e por isso aqui estou para defender-te, mesmo com sacrifício da vida.
— Nada te escrevi.
Tua presença aqui só pode ser fruto de uma traição covarde.
De resto, que poderia temer quem, como eu, dentro em breve estará nesse mundo invisível à porta do qual se anulam todos os poderes humanos?
Não, absolutamente: eu estou acima de todo e qualquer risco, mas tu... deves partir já. Vai!
— Não, nunca, antes que te feche os olhos e te enterre ao lado de meu pai.
Nem podes exigir de mim um ato de covardia e ingratidão.
— Meu Deus! é tarde, eles se aproximam — disse quase imperceptivelmente, tombando desfalecido.
Cáius e Paulo trocaram-se olhares admirativos e prestaram atenção.
Por instantes tudo parecia silente, mas logo se ouviram passos pesados e tinido de armas.
A cortina de couro violentamente arrancada deixou entrever um oficial de espada desembainhada e seguido de soldados.
— Por que estranho acaso, nobre Cáius Lucílius, te encontro aqui neste antro de facínoras? — perguntou Nero com ironia.
Muito bem! aos pés do judeu crucificado e depois de haver sacrificado aos deuses...
Soldados, prendam todos três.
Cáius levantou-se, olhar em chamas.
— Que ninguém ouse aproximar-se desse velho moribundo.
Dentro de poucos minutos, Nero, poderás dar por finda a tua tarefa ignóbil.
— Pois ainda ousas insultar-me, tu, duplo miserável, covarde renegado de Júpiter e de Jesus?
Cavemos este charco, o resto do bando aí estará decerto.
Cáius arrancou do punhal:
— O primeiro que tocar o velho, é um homem morto.
No mesmo instante, Nero atirou-se a ele.
— Miserável! Ousas opor-te à lei? — e traiçoeiramente enterrou a espada fundo, nas costas do irmão.
Cáius abriu os braços, rodou nos calcanhares e tombou pesadamente, sem um gemido, aos pés do eremita, a quem inundou de sangue.
Como que galvanizado, o moribundo ergueu-se, lábios frementes, olhos chame jantes.
Era a alma do velho guerreiro que despertava naquele instante supremo, e, diante da majestade daquela figura veneranda, os soldados estacaram recalcitrantes.
— Maldito sejas, tribuno!
Maldito tu, que conspurcas a tua magistratura fazendo ofício de mercenário!
Perjuro e fratricida, eu te maldigo.
Errante, sem repouso nem tréguas, hás-de vir aqui morrer miseravelmente neste mesmo lugar onde...
A voz que reboava sonora nas anfractuosidades da caverna, calou subitamente e ele recaiu ao solo, inerme...
Sem poder dominar a impressão que lhe causavam aquelas palavras, Nero encostou-se à parede, contemplando com os olhos ferozes a soldadesca que escavava o solo em fúria vandálica, a destroçar tudo que lhe caía nas mãos.
Num abrir e fechar de olhos a cruz foi arrancada, o altar destruído, as lâmpadas quebradas, esvaziadas as ânforas de vinho que o monge reservava para os seus doentes.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 18, 2017 8:40 pm

De nada valeu, porém, todo aquele trabalho de pesquisa, os dois malfeitores evadidos de Nápoles lá não estavam.
Propunham-se já à retirada, quando um soldado notou que o moço pescador procurava ganhar a porta de saída e, furioso, lhe descarregou na cabeça uma pancada que o fez tombar mortalmente contuso.
Quando, uma hora mais tarde, Rutuba (que cruzara com a escolta) penetrou na gruta, um grito de horror partiu-lhe do peito.
Precipitou-se para o amo, auscultou-lhe o coração.
— Deuses imortais, sede benditos, está vivo ainda!
E logo tratou de lhe banhar a ferida.
Depois, tratou de socorrer o jovem pescador, que se contorcia em penosa agonia.
*
* *
Três dias dobaram sobre estes lamentáveis episódios.
Vamos encontrar Virgília na ignorância da desgraça que lhe sucedera.
A carta de Cáius tinha-a tranquilizado um tanto e a chegada de Metela, que lhe trouxera pormenores do julgamento, mais contribuíra para acalmá-la.
Cedendo a reiterados convites, Metela concordara em fazer-lhe companhia até o regresso de Cáius.
Vemo-las agora reunidas no grande terraço sobranceiro ao mar.
Um vasto toldo vermelho, armado em vergalhões dourados, protegia dos raios solares dois divas e uma pequena mesa provida de frutas e doces.
Cingindo branca túnica de tecido oriental, Virgília reclinava-se em almofadas.
A fisionomia denotava inquietação, tanto que esfrolava nervosamente as borlas da faixa azul que lhe cingia o busto.
Metela, em trajes simples como lhe aprazia usá-los, estava sentada em frente.
Tinha terminado uma canção e os dedos atilados brincavam ainda nas cordas de uma lira de ébano com incrustações de ouro e nácar, em harpejos perolados e seguros, que indicavam uma artista consumada.
De repente, pousou a lira aos pés e, inclinando-se para frente, disse:
— Olha, há dois dias que me estás desgostando...
Sentes alguma coisa? Estás doente?
Se são saudades de Cáius, não vejo razão, pois, como já te disse, Agripa ouviu da boca do pretor que não restava sobre teu marido a mais leve suspeição; se, ao invés, o que te atormenta é a insensata conversão de Cáius, penso que também não há motivo, pois os homens da sua tempera não se apaixonam muito tempo por uma crença, de resto sedutora apenas para escravos, que, naturalmente, aspiram a encontrar noutro mundo as regalias que neste não alcançaram.
E demais, já te disse que espero chamar teu marido ao bom caminho.
Que, pois, mais te falta para me andares assim indisposta, febril, inquieta?
— A bem dizer, doente não estou, se bem que sinta a cabeça pesada de chumbo.
Entretanto, uma angústia indescritível me oprime o coração como se algo de tétrico pairasse sobre mim.
Não tenho sossego em parte alguma, o mínimo ruído me assusta.
Sei que este temor não se justifica e, no entanto, o meu desejo é fugir, é conjurar um perigo indefinível, sim, mas, sem embargo, imanente para mim.
— Louquinha, são essas emoções que te enfermam e a imaginação exacerbada é que te sugere esses quiméricos terrores.
Levantou-lhe a cabeça, beijou-a, prosseguiu:
— Chi! mas olha que estás febril...
Vou desnastrar teus cabelos, isso te aliviará.
Logo a massa loura e ondulante se espalhou qual manto luminoso.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 18, 2017 8:40 pm

— Obrigada, Metela, tu adivinhas sempre o que me faz bem, mas agora devo confessar-te que não são apenas esses pressentimentos que me apoquentam, pois também me sucedeu ontem, à noite, algo que me pressagia qualquer desventura.
Ao notar o espanto da amiga, continuou com maior vivacidade.
— Antes de contar-te a visão inexplicável, devo lembrar-te alguns casos remotos.
Recordas-te do pequeno Gundicar, aquele que roubou o camafeu de Tibério, e que na opinião de Marcus Fábius, muito se parecia com o perverso imperador?
Pois bem:
se não parecesse ridículo, eu diria que o pequeno bruto nutria por mim uma paixão surda quão violenta.
A verdade é que procurava sempre estar a meu lado, a fitar-me com embevecimento ostensivo.
Por minha vez, abominava-o; e quando, e sempre, que lhe pressentia o olhar persistente, ficava nervosa.
Não sei se te contei alguma vez que, no dia da grande catástrofe, Gundicar queria seguir-nos a Pompeia e, depois de nos assediar toda a manhã, foi lançar-se-me aos pés quando já tomava o carro, suplicando desesperadamente lhe permitisse acompanhar-nos.
Por mim, confesso que acabaria cedendo; mas, Fábius que sabia quanto me antipatizava com o rapaz, ordenou-lhe ficasse e lhe decretou, com isso, a sentença de morte, porque ele pereceu no cataclismo.
Ora pois:
a ideia desse rapaz me vem perseguindo de alguns dias como um pesadelo, e de ontem para hoje aumentou de intensidade:
não podia pensar noutra coisa a não ser nos últimos dias de Herculânum, com Fábius e Gundicar.
Vinham-me, então, à mente, os menores episódios dessa fase e sempre sob um prisma amarguroso.
“Ontem tu te recolheste um pouco mais cedo para escrever a teu marido e logo me veio um desejo incoercível de rever os objectos que usava antes do desastre que veio, pela primeira vez, destruir minha felicidade e transformar o meu destino.
“Ordenei a Ivone que me trouxesse o cofre das jóias, salvo pela Rufila, e, depois de assentar-me lá na escadaria, não sei porque me assaltou o temor da solidão.
“Acabrunhada, estendi em cima da mesa as jóias que Fábius me dera e lá estava, entre elas, o camafeu de Tibérius.
Detive-me longamente a contemplá-lo e logo me assaltou a ideia de ser aquela relíquia um amuleto fatídico, apesar do seu alto valor venal, e, pelo que, convinha passá-lo a outrem.
Em tais conjecturas, apoiei-me ao gradil e pus-me a contemplar a noite luarenta, calma, soberba, e foi quando um ruído abafado, bem debaixo dos meus pés, me despertou atenção.
Coisa singular! o mar polido e calmo, como que refervia no subsolo do terraço!
Imagina, porém, o meu espanto quando vi surgir das vagas espumantes uma silhueta humana, a princípio vaporosa, indecisa, e logo após um homem alto envolto em purpurada túnica e tendo à cabeça uma coroa de louros.
O rosto pareceu-me o de Gundicar!
Petrificada, gelada, não podia despregar os olhos daquela visão que, de braços cruzados, elevava-se rapidamente para o terraço!
Parou a dois passos e vi, então, que não era Gundicar mas um homem na força da juventude e com o mesmo Gundicar admiravelmente parecido.
O rosto fresco, de linhas regulares, contrastava singularmente com os cabelos brancos que o molduravam.
Quase a roçar-me com a sua toga, dirigiu-se para a mesa, apanhou qualquer coisa e veio de novo para meu lado.
Seu olhar fixo, terrificante, mergulhou no meu, um sorriso sarcástico contraía-lhe os lábios...
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 18, 2017 8:40 pm

“Até breve, ingrata”, murmurou, “lá...” — acrescentou, apontando para o abismo!
Vi-lhe na mão estendida cintilar a corrente, na qual se balançava o camafeu...
Atravessando a balaustrada, o fantasma parecia resvalar em linha oblíqua para o abismo, e, ao tocar o nível do mar, fundiu-se, desapareceu numa nuvem pardacenta.
“Só então despertei do meu torpor e lancei-me para Ivone.
Ela dormia tão profundamente que tive de sacudi-la muitas vezes, antes que acordasse.
“Depois, mais animosa, aproximei-me da mesa e verifiquei, com pesar intraduzível, que o camafeu tinha realmente desaparecido!
Aí temos, creio, uma prova de que não foi um mero pesadelo e que na verdade um filho dos infernos me veio anunciar que Caronte não tardará para conduzir-me aos domínios de Plutão.”
Enquanto Virgília falava, Metela empalidecera gradativamente, os lábios lhe tremiam nervosos:
— De modo algum duvido da realidade da tua visão, visto que factos deste teor estão de sobejo averiguados; dir-te-ei mesmo, sob sigilo, que meu marido já viu, certa feita, o fantasma de seu pai, que lhe ordenou o resgate de uma dívida absolutamente ignorada.
Julgo mesmo que a tua visão se pode explicar naturalmente, de vez que, daqui se avista aquele solar de Lucílius, onde expirou o tirano e deve errar o seu espírito culposo.
Entretanto, tudo isto é secundário para o momento.
O essencial é afastar-te destes sítios funestos e mal-assombrados.
Assim, pois, até que Cáius regresse, vais comigo e vou já providenciar, a fim de partirmos dentro de duas horas.
Iremos jantar com Agripa, fazendo-lhe uma agradável surpresa.
— Oh! sim, vamos quanto antes.
O só pensamento de não mais dormir nesta casa, já me conforta.
Boa ideia, Metela!
Pena é não a tivesses tido há mais tempo.
Depois, antes de aqui retornar, mandarei expurgar a casa com preces e sacrifícios aos deuses...
Não queres que te vá ajudar?
— Descansa, minha santinha, não preciso de auxilio para dar ordens, e a tempo mandarei Ivone prevenir, para que te vistas.
Levantou-se, abraçou a amiga, satisfeita da resolução tomada, e encaminhou-se para o interior da casa.
Uma vez só, Virgília estendeu-se indolentemente no divã.
Também recuperara a calma, parecia-lhe que aquele perigo iminente ali ficaria naquela casa.
Cáius não poderia tardar muito; e depois, junto dele, nada tinha a temer.
Pedir-lhe-ia que lhe fizesse companhia algumas semanas, em casa de Agripa, até que de todo se desfizessem aqueles terrores obsidentes.
Decididamente, o alvitre de Metela era um santo remédio...
Porque não lhe dissera logo tudo, imediatamente?
Se o fizera, já lá estaria longe, sossegada, fora dali...
Uns passos rápidos e fortes, no lajedo do terraço, arrancaram-na daquele devaneio:
— Senhora! — disse um jovem escravo — o tribuno Cnéius Semprônius Nero deseja falar-te sem demora...
Como vês, nem esperou, acompanhou-me, aqui está...
Ela ergueu-se, já lívida.
— Bem, Máulius, corre e dize a Metela que aqui esteja sem demora.
Enquanto o escravo corria a bom correr para o interior da vivenda, Nero atravessou o terraço e parou diante da moça, fazendo-lhe uma rápida saudação.
Examinava-o com desdém e notara de pronto que uma grande transformação se operara na sua personalidade:
a fleugma sombria cedera a uma vivacidade febril, com tiques nervosos nos lábios e um olhar brilhante, que tinha laivos de loucura, de ferocidade e de amor, ao mesmo tempo.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 18, 2017 8:41 pm

Sintomas que a fizeram estremecer.
— Sei que sou uma visita importuna, sempre indesejada nesta casa; visita que se recebe de pé, a fim de que se vá quanto antes...
Sou ainda, ai de mim, um mensageiro do infortúnio e, no entanto, desta vez, apresento-me como amigo.
O tom da voz era lastimoso.
— É possível... mas, de que infortúnio queres falar — retrucou Virgília, aparentando calma.
— Serei breve:
o monge que socorreu Cáius quando fugia de Herculânum, foi denunciado como cristão e, graças a uma circunstância toda fortuita, coube-me o encargo de o prender; não sei como teu marido pôde saber o que ocorria, mas o grande caso é que, após haver-se justificado, ele seguiu imediatamente para as montanhas, onde o fui encontrar ao penetrarmos na cripta.
Com aquela sua temeridade peculiar, ele tentou a resistência e, na luta, um soldado acabou por feri-lo gravemente.
Enquanto procurava socorrê-lo, entrámos em explicações e destas proveio a nossa reconciliação.
Daí, haver-me incumbido de fazer pazes contigo, de ser o teu amparo, velando pelo futuro do pequeno Semprônius.
Assim, expirou-me nos braços, confessando-se cristão e dizendo-me que também te havias convertido.
Como que fulminada, Virgília deixara-se abater no divã, exclamando:
— Cáius morto! Cáius assassinado!
Mas, logo às últimas palavras de Nero, ergueu-se como que galvanizada e protestou:
— Cristã eu?
Nunca, jamais o fui nem serei; essa última calúnia imputada a Cáius é o que te define no meu conceito.
Assassino, miserável, foste tu que denunciaste teu irmão, que lhe armaste a cilada na qual havias de o abater mais à vontade que da primeira vez...
E ainda ousas, cínico, aqui vir para substituir tua vítima junto da viúva e do filho?
Infame! celerado! bandido!
E não ter eu aqui um punhal para ferir-te com a segurança do meu ódio... — deu um passo para o tribuno, cerrou os punhos na sua cara.
Nunca, jamais, Virgília se mostrara tão fascinantemente bela como naquele momento de exaltação e desespero: olhos rebrilhantes, lábios despregados, cabelos fulvos à guisa de leonina juba, dava ideia de uma hiena mal ferida.
Dir-se-ia a personificação exacta da vingança! O olhar do tribuno, posto nela, tinha por sua vez um misto de amor e ódio.
— Pois bem, seja com quiseres — acabou glosando com aspereza —, fui eu que o denunciei, fui eu que o matei e isso deveria convencer-te de que a minha paixão chegou ao extremo de não respeitar barreiras, ainda que opostas por um irmão.
Não me repilas, peço-te; se me não podes amar, dá-me ao menos uma esperança, consente fique a teu lado, suporta-me, certa de que saberei conquistar teu coração e fazer-te esquecer o estigma da nossa união.
Agarrou-a num ímpeto brutal, comprimiu-a ao peito, cobriu-lhe o rosto e os lábios de beijos tumultuosos, lúbricos, apaixonados.
Ela, com uma força que se lhe não poderia atribuir, arrancou-se-lhe dos braços e, como ele lhe interceptasse o caminho da casa, recuou até o extremo do terraço, encostando-se à balaustrada.
Seu rosto tinha, naquele momento, uma expressão de nojo indefinível.
— Certo, a monstruosidade dos teus crimes te enlouqueceu; ou, então, estás bêbedo para assim me insultares!
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 18, 2017 8:41 pm

Fica, porém, sabendo que tenho amigos e hei-de achar quem te desmascare e promova a merecida punição.
Suportar aqui a tua presença ignóbil, não, nunca, antes prefiro a morte!
Isto proclamava com supremo desdém e logo lhe veio um suspiro de alívio ao avistar Metela seguida de Ivone e Máulius, que vinham correndo.
Não reparou na onda de sangue violáceo que inundou o semblante do inimigo.
— Morre pois, mulher pérfida, nascida para minha desgraça! — sussurrou com voz estranha — morre, antes que encontres quem te vingue, criando-me terceiro inferno!
Não serás minha, serás de ninguém...
E antes que a moça pudesse defender-se, elevou-a nas braços e arremessou no vácuo.
Um tríplice grito de horror respondera ao angustiado e derradeiro grito de Virgília.
Metela estacara, como que petrificada à entrada do terraço.
Levando as mãos ao rosto, abateu-se depois sobre o lajedo.
Subitamente alertado, o tribuno contemplou estarrecido o abismo que acabava de tragar a vítima da sua paixão; a nuvem de sangue que lhe toldara a mente desfizera-se e dera lugar a um sentimento novo, estranho, pungente, como jamais houvera experimentado.
Silencioso, acabrunhado, tratou de afastar-se e foi de cabeça baixa que passou diante da patrícia desmaiada e dos escravos que lhe abriram passagem, espantados de quanto viam.
Depois, atravessou toda a casa, montou a cavalo e partiu a galope desenfreado.
Dentro em pouco, toda a casa estava em reboliço.
Alguns homens atiraram-se ao mar no intuito baldado de salvar Virgília; outros tentavam, também inutilmente, despertar Metela.
Tontos, sem saber o que fazer, os servos davam ideia de haver também perdido a cabeça, até que o velho abegão resolveu enviar um mensageiro a Agripa.
Quando o nobre patrício, desolado, a duvidar de quanto via, chegou, encontrou a mulher em estado gravíssimo.
Não o reconhecera, presa que era de acessos delirantes, seguidos de prostração extrema.
Revoltado, desesperado, resolveu deixar quanto antes aquele lugar fatídico.
Fez ainda uma última tentativa para encontrar, ao menos, o corpo de Virgília e depois partiu, levando consigo o pequenino Semprônius e a mulher ensandecida.
*
* *
No dia imediato, já noite fechada, uma liteira tirada por dois muares caminhava lentamente pela estrada que levava ao seu solar.
Um homem alto, de aspecto sombrio e desconfiado, puxava a mula da frente.
Chegando ao portão da muralha externa, parou e, debruçando-se para dentro da equipagem, procurou ouvir, ansioso, a respiração sibilante de um enfermo que gemia acamado entre almofadas.
Aquele condutor era o fiel Rutuba.
Tanto que se inteirou de que o amo ainda respirava, lá na cripta, tratou de lhe pensar o ferimento, ao mesmo tempo que cuidava de socorrer o jovem pescador.
Este, não obstante a gravidade do seu estado, lhe apontara o local da sepultura de Semprônius e nomeara alguns homens de confiança, nas redondezas.
Sem perder tempo, procurou aquela gente e conseguiu a liteira e os respectivos portadores.
Depois de enterrar o monge, deixaram a cripta, levando os dois feridos em direcção a Nápoles.
Era sua intenção escalar pela casa de Agripa, não só para suavizar a viagem, como para dar tempo de preparar Virgília para receber aquele novo golpe.
Depois de se haver certificado de que o amo adormecera, Rutuba fez soar o tímpano de bronze do portão.
Um escravo de cabeça grisalha abriu o postigo e perguntou quem era que assim chegava fora de horas.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 18, 2017 8:41 pm

— Abre depressa, Sêxtus; sou eu, Rutuba.
É preciso não alarmar Virgília.
Aqui temos nosso amo mortalmente ferido...
Abriu-se o portão, a liteira atravessou o longo parque arborizado.
— Ah! Rutuba — disse Séxtus —, agora me lembro que ainda não sabes o que se passou.
E expôs, sucintamente, os acontecimentos.
No primeiro instante, Rutuba oscilou, encostou-se ao muro, mas logo a fraqueza se lhe transformou em explosão de raiva.
— E não prenderam o miserável?
Rilhava os dentes, punhos fechados.
— Não me consta.
Ainda hoje aqui tivemos médicos todo o dia.
Dois ainda aí estão, pois Fabrícius Agripa não pôde arredar pé do leito da mulher, que continua vendo o crime e querendo atirar-se ao criminoso...
Contudo, também ouvi dizer que amanhã cedo Agripa vai ao Pretório.
Mas... espera um instante, eu vou chamar o patrício.
Ao deparar-se-lhe o amigo em tão precárias condições, Agripa pôs as mãos na cabeça e disse:
— Eis aí dois dias que valem pela erupção do Vesúvio; entre Cáius e minha mulher, não sei onde e como possa ter a cabeça...
Ah! — batendo na testa — tenho uma ideia que pode resolver a situação.
Sêxtus, chama alguns homens para transportar o ferido.
Logo que Cáius ficou convenientemente instalado e o médico lhe fez os curativos, Agripa escreveu minuciosamente a Drusila e ao marido, pedindo-lhes fossem ajudá-lo a cuidar dos enfermos.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 18, 2017 8:41 pm

IX - Drusila e Cáius

No triclínio de estio da pequena mas graciosa vivenda de Drusila, em Baias, os jovens esposos estavam reunidos para o almoço.
Cláudius já havia tomado o seu banho e todo se deleitava com uma torta de figos, enquanto a mulher, sempre sonhadora, tasquinhava um bolo de sésamo com mel.
A presença de um escravo, entregando a Drusila um pergaminho, quebrou o silêncio ambiente.
— Senhora, um correio esbaforido e fatigado acaba de entregar esta mensagem da parte do nobre Fabrícius Agripa e diz tratar-se de assunto grave e urgente.
A moça apressou-se a desenrolar o pergaminho e, mal nele correu os olhos, levantou-se dando um grito abafado.
Lívida, tentou dizer alguma coisa, mas a voz lhe faltou e ela acabou por cair em colapso.
— Pelo tridente de Plutão! quem anuncia uma tal desgraça? — exclamou Cláudius impressionado com a comoção da mulher.
Tratou de apanhar a carta e com um gesto imperioso afastou os escravos.
Mas, tanto que leu as primeiras linhas, logo tornou a assentar-se, tremendo, e mergulhando a face nas mãos, exclamou:
— Morta? Virgília morta! e de morte tão horrível?
Pobre borboleta dourada! que fim triste te aguardava!
Esqueceu a mulher, absorveu-se todo em suas cogitações.
Um sentimento de mágoa e piedade acabava de empolgar o coração daquele homem insensível e egoísta.
Surgia-lhe à lembrança, naquela hora, a diáfana silhueta da encantadora criatura que já não era deste mundo.
Marcus, o médico de Tibério, mal suspeitaria naquele instante a revivescência da sua antiga paixão.
Quantas vezes a sedutora Virgília lhe fizera palpitar o coração e deplorar a impropriedade daquela inclinação!
Nem foi sem resquícios de recalcada inveja, que pôde apreciar a ventura de Marcus Fábius e de Cáius...
E agora, aquele olhar azul, aquela boquinha risonha, estavam extintos para sempre...
Um frio glacial lhe percorreu a espinha: mocidade, vida, beleza, não passavam de espuma fugaz à flor das vagas!
— Cláudius, dá-me licença que vá cuidar do pobre ferido e do malogrado rifãozinho.
Metela está doente, nada pode fazer.
Eu bem sei que chegaste a ter ciúmes de Cáius, mas, não acredito que os mantenhas diante de tamanha desgraça.
No coração de Cáius não pode haver outro lugar senão para a pobre morta, cujo fim trágico, aliás, ele ainda ignora.
De resto, tens o meu juramento de fidelidade.
Ele deitou-lhe um olhar indiferente e ela corou ligeiramente.
A verdade é que, de muito tempo, nenhuma afeição real o prendia a Drusila, cujo discreto e melancólico silêncio o enfarava.
Contudo, não deixava de estimar nela a bondade, a paciência com que o tolerava, sem jamais lhe exprobrar os desperdícios e aventuras escandalosas que toda a Roma estava farta de saber e comentar.
Sem algo responder, pegou da carta, releu-a atentamente:
Agripa descrevia a enfermidade de Metela, o estado melindroso de Cáius Lucílios, cujo restabelecimento parecia duvidoso, e suplicava-lhe que enviasse Drusila para ajudá-lo naquela premente conjuntura.
A perspectiva de uma pingue tutela desenhou-se-lhe na mente:
se Cáius morresse, a quem poderia escolher para criar e educar o filho, senão ao parente e amigo que lhe dera a própria mulher por enfermeira?
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 18, 2017 8:41 pm

Superintender os imensos domínios de Semprônius era assegurar-se um futuro radioso, referto de gozos inexauríveis.
Deslumbrado com essas conjecturas que lhe assomaram com a rapidez do relâmpago, acabou por apertar efusivamente a mão da esposa, dizendo-lhe com fingida austeridade:
— Drusila, nosso lugar é junto do pobre ferido e do seu filhinho tão cedo infortunado.
Quando, mais e melhor que agora lhe poderíamos testemunhar nossa amizade?
Certo, amo-te bastante para, a pretexto de um baixo sentimento de ciúme por
um moribundo, não honrar a tua dignidade e a tua virtude.
Vou já ordenar que atrelem a “carruca” e eu mesmo te conduzirei.
Não interrompo meu tratamento, até que obtenha completa cura, mas comprometo-me a visitar-te e ajudar-te amiúde.
Vai emalar os utensílios e roupas de mais urgência e deixa ficar o resto, que depois te enviarei.
Agradecendo-lhe num olhar significativo, Drusila afastou-se apressadamente, a fim de aprestar-se; mas, quando finalmente se viu na “carruca”3 tirada por três cavalos tessalianos a caminho de Micenes, deixou-se cair nas almofadas e uma prece muda quanto ardente lhe aflorou no coração:
“Oh! misericordioso Jesus dos cristãos, dá-me a força de tudo suportar sem revolta, para que possa velar e consolar o ser amado, sem eiva de ciúme, contentando-me com a só felicidade de permanecer junto dele.”
Horas mais tarde, enquanto Cláudius e Agripa se entretinham a comentar os acontecimentos, Rutuba a encaminhava ao aposento do ferido.
Entrou. Mal disfarçava a emoção que lhe arfava o seio.
Cáius jazia adormecido num sono profundo, antes parecendo desmaiado.
Os cabelos crespos e negros, em desordem, emolduravam-lhe o rosto contraído e de palidez cadavérica.
Não fora um respiro rouco e sibilante, dir-se-ia morto.
Trémula, mas de olhos enxutos, ela ajoelhou-se, tomou-lhe das mãos ardentes, beijou-as e de novo obsecrou ao Deus dos cristãos.
A seguir, quis ver o pequenino Semprônius, e quando o menino, que era o retrato de Cáius, lhe estendeu as mãozinhas, a sorrir-lhe do fundo dos olhinhos negros, apertou-o convulsivamente ao peito e deixou que uma torrente de lágrimas lhe viesse aliviar o coração opresso.
Dali em diante, plantou-se à cabeceira do ferido, a velá-lo dia e noite com absoluto devotamento.
O Deus ao qual orava tão fervorosamente, parecia abençoar aqueles cuidados, porque o estado do enfermo entrou a melhorar visivelmente, até que, certa manhã, pôde constatar no seu olhar a reintegração da consciência.
— Sempre que adoeço és tu, querida Drusila, quem vejo à minha cabeceira: mas, diz-me, porque não estou lá no meu quarto...
E Virgília onde está?
O coração da jovem patrícia estremeceu; era-lhe preciso ocultar, fosse como fosse, a pavorosa realidade, até que o convalescente readquirisse forças para suportá-la sem perigos de uma recaída.
Esboçou um sorriso contrafeito e disse, fingindo calma:
— À primeira pergunta é fácil de responder:
é que Rutuba aqui preferiu trazer-te antes que levar-te a Micenes, por não ser possível ir além; estás, portanto, em casa de Agripa, que foi quem aqui me chamou para auxiliar a tua cura.
Quanto a Virgília... acha-se indisposta.
— Doente? grave talvez; não me querem dizer...
— Não, absolutamente; deixa-me concluir.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 19, 2017 8:26 pm

Foi Metela em pessoa quem se incumbiu de lhe comunicar o que te havia sucedido, mas, apesar de todas as precauções, o abalo foi tão forte que ela quase perdeu a razão.
Essa crise passou, felizmente, mas Virgília ainda se mantém muito sensível e o médico receia uma recaída, no caso, por exemplo, que te visse assim desfigurado.
E eis porque lhe foi imposto um regime de absoluto repouso e isolamento.
Metela faz-lhe companhia lá em Micenes e ambas nos dão constantes notícias.
Agora, basta de explicações por hoje e trata de ver se podes dormir.
*
* *
Também Metela conseguira triunfar da terrível enfermidade e entrara em lenta mas progressiva convalescença.
Dominava-a, contudo, uma ideia fixa — a vingança, o castigo exemplar.
Seu primeiro brado de consciência foi para reclamar a prisão de Nero.
Supunham que a notícia da sua fuga pudesse ocasionar-lhe uma recaída; entretanto, ela não esmoreceu e até parece que revalidou energias para auxiliar a captura do criminoso.
A instâncias dela, Agripa foi novamente ao pretor e instituíram-se prémios valiosos a quem desse notícias do fugitivo.
Interditaram a casa do tribuno e todos os seus escravos sofreram severo interrogatório.
Trula informou que o amo ao regressar, acabrunhado e silencioso, se fechara no quarto por algum tempo e depois mandara selar um cavalo, partindo sem dizer para onde ia nem quando voltava.
Só podia dizer que ele, Trula, lhe afivelara na garupa um pesado alforje, que lhe parecia conter dinheiro.
Metela assistia em pessoa, com impaciência febril, a todos os trâmites do processo.
Para ela, as palavras indulgência e perdão não existiam; seu intuito era aniquilar o traiçoeiro assassino, saciar-se da sua humilhação e dos seus sofrimentos.
Seria capaz até de exultar com o seu suplício.
Ninguém supusera, assim vingativa, uma mulher pacífica, amante da filosofia, artista por temperamento.
Enquanto assim se desdobravam os fatos, Cáius melhorava e sua inquietação crescia na razão inversa das melhoras que experimentava.
— Porque Virgília não me escreve? — repetia a todo momento.
A fim de o tranquilizar, Agripa simulou uma viagem a Micenes e trouxe uma carta de Metela, na qual dizia que a jovem estava quase completamente restabelecida e dentro de quinze dias lhe traria a esposa.
Esta, no intuito de o pacientar, enviava-lhe o filho.
Essa carta e a presença do pequeno acalmaram-no um tanto, mas, continuou contando os dias e as horas, já fazendo projectos, já imergindo em profundos cismares.
Na véspera do dia fixado, o jovem patrício, enquanto almoçava, disse:
— Se soubesses, querida Drusila, o sonho que tive esta noite!
Parecia-me estar lá em casa, já restabelecido e chegado de surpresa.
Procurava Virgília por toda a casa, sem poder encontrá-la!
Acabei encaminhando-me para o terraço, a cavaleiro do mar, e encostei-me no parapeito.
De repente, vi flutuando, ao nível das águas, um vulto branco e, estupefacto, nele reconheci Virgília.
Ela parecia aproximar-se, embalando-se sobre as vagas.
As águas como que se elevavam pouco a pouco, rugindo surdamente, até o nível do parapeito.
Aí, já Virgília estava no terraço e caminhava ao meu encontro.
Dos seus cabelos, das suas vestes, escorria água, tinha os lábios brancos e os olhos vítreos, que me fitavam com indizível tristeza...
Abraçámo-nos, reconheci que estava gelada...
Mas, que tens?
Desmaias, Drusila?
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 19, 2017 8:27 pm

— Nada, não é nada; estou apenas debilitada com estas vigílias.
— Tens razão, nem mesmo sei como ainda não adoeceste; entretanto, se algo te merece um pedido meu, peço-lhe que vás repousar.
Manda-me aqui, por um pouco, a velha Semeie e, logo à noite, retomarás o posto.
Mal contendo a emoção, ela anuiu, mas, ao invés de se deitar, foi para o quarto de Metela, onde também se encontrava Agrina e contou-lhes o que acabava de ouvir.
— Pobre Virgília, sua sombra errática, privada de sepultura, procura os entes que lhe foram caros...
Ah! que horrível desgraça nos acarretou aquele cão! — exclamou Agripa fechando os punhos, ao mesmo tempo que uma lágrima de piedade lhe brilhava nos olhos.
Mas, eu vos direi, continuou, que é tempo de decidir e dizer a Cáius o que não podemos ocultar-lhe toda a vida.
Ele vai bem, já se levanta, e qualquer acaso pode tudo revelar-lhe de um momento para outro.
Hoje mesmo irei falar-lhe.
Vou mandar chamar dois médicos, por prevenção, e a ti te pergunto, Metela, se terás coragem de assistir ao embate, visto que a tua presença, desacompanhada de Virgília, já seria para ele uma advertência.
A patrícia empalideceu, mas logo se reafirmou.
— Certo que irei, mesmo porque, considero um ato de fraqueza evitar o infortunado Cáius nesta conjuntura.
Algumas horas mais e Drusila foi reunir-se ao seu enfermo, que, recostado em almofadas, estava assentado junto da janela, aberta de par em par.
— Meu amigo, Metela acaba de chegar e aí vem...
A porta abriu-se quase instantaneamente. Alegre,
sorridente, Cáius levantou-se, estendeu-lhe as mãos, mas logo tornou a sentar-se, exclamando angustiado:
— Vens só?
E como estás descorada e magra! Onde está Virgília?
Quero saber tudo, vejo que me ocultam alguma coisa...
Mas, que há? Não me torturem mais...
— Justamente para dizer-te a verdade é que nós aqui estamos e apenas te pedimos ouvi-la corajosamente,, como quem és.
Isso dizia, mal abafando as lágrimas.
— Pois bem, meu amigo — atalhou Agripa —, ouve o que se passou e lembra-te de que ainda tens um filho que necessita do teu amparo.
Apertou-lhe a mão, relatou em termos claros e concisos o lutuoso acontecimento.
Mal contendo a respiração, Cáius tudo ouvia, petrificado.
Pelo seu rosto passavam contracções alternadas de admiração, de raiva, de desespero.
Por fim, levantou-se na ponta dos pés, enterrou as mãos na cabeleira em desordem e exclamou:
— Morta! assassinada covardemente, sem que lá me encontrasse para defendê-la!...
Ah! caí na cilada como um parvo!...
Calou-se. Uma golfada de sangue lhe saltara da boca e ele tombou exânime nos braços do amigo.
Os dois médicos previamente chamados acorreram, pensaram-lhe o ferimento do peito, que se rompera ao esforço feito.
Ainda uma vez a força vital daquele organismo pareceu triunfar da enfermidade.
As melhoras não falharam, mas, bem depressa compreenderam que só poderiam ser factícias.
O jovem patrício tinha os seus dias contados.
Logo que pôde falar, manifestou desejos de regressar a Micenes.
— Não me julguem ingrato, mas sei que estou condenado e quero expirar lá naquele terraço onde disse a Virgília o meu último adeus, e tendo à vista o pélago que a tragou.
Deu depois algumas instruções, que Agripa de olhos molhados prometeu executar rigorosamente.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 19, 2017 8:27 pm

Nessa mesma noite, o patrício partia para Micenes, onde, sob a sua enérgica direcção, levantaram, como por encanto, um belo pavilhão contíguo ao terraço e ligado à vivenda por um passadiço coberto.
Essa ligeira construção de madeira e leve alvenaria, constava de dois quartos e um gabinete mobilado com todo o conforto.
Logo que lhe foi possível, Cáius regressou aos penates e se instalou definitivamente naquele pavilhão.
Agripa e Metela comprometeram-se a visitá-lo semanalmente e, quanto a Drusila, o marido lhe permitiu ficasse junto do primo até finalizar o tratamento.
O bom do Cláudius ouvira, aliás, a opinião dos médicos, concordes em que o rapaz não iria longe e haveria de extinguir-se pouco a pouco, qual cera derretendo-se ao Sol.
Natural, portanto, que testemunhasse ao moribundo a mais calorosa amizade, ao mesmo tempo que lhe prometia amar o pequenino Semprônius como se fora seu filho.
Isto posto, lá se foi para Roma, onde alegava ter negócios importantes a resolver.
Escusado dizer que comediava como verdadeiro artista, mas, no fundo, afagava risonhas esperanças.
Uma vez só naquele solar que ditoso lhe fora, agora definitiva e tragicamente enlutado por mão criminosa, as forças do pobre Cáius como que se debilitaram ainda mais.
Silencioso, sonhador, passava horas e horas deitado no terraço, a contemplar o pélago e deixando-se adormecer ao ritmo das vagas.
Profundas cogitações absorviam-lhe a mente; não se iludia com o futuro.
Cada dia que se fechava no horizonte era um passo rápido para o mundo só atingível através da tumba...
Contudo, qual a situação que lá o esperava?
Até onde iria a sua alma quando, mergulhada naquele éter transparente, onde se poderia distinguir átomo por átomo?
Lá deviam estar, certo, aqueles seres que os seus olhos corporais já não viam...
E fitava, então, o céu, persuadido de que atrás das nuvens se grupavam os entes que tão caros lhe haviam sido na Terra.
Quantas vezes cansava a vista procurando varar o azul profundo, esperando surpreender a todo momento, na aberta de uma nuvem, o rosto do pai, a cabeça loura de Virgília, ou a barba do monge caroável.
Mas, quando pensava em Nero, o sangue lhe fervia nas veias, os músculos se lhe retraíam, desejaria estrangular o covarde...
E no entanto, oh! desespero — ali se via anquilosado, inerme, moribundo...
Também quisera entregá-lo à justiça dos homens, mas Metela e o marido disso se encarregavam e, seja dito, com uma tenacidade implacável.
A denúncia que deram fora até ao Imperador e por toda a Itália o tribuno estava sendo procurado.
Nada obstante, todas as batidas redundavam inúteis, como se a terra houvesse engolido o criminoso.
Passada a crise, Cáius logo recaía em si e se envergonhava, lembrando-se que era cristão, que adorava o Redentor crucificado, aquele mesmo que perdoara aos seus algozes; vinham-lhe à mente as lições do eremita e imaginava qual não seria a angústia de seu pai presenciando o filho dilecto esmagado pelo filho desprezado.
Nesses momentos, voltava-se para Jesus, pedia-lhe com fervor que o amparasse, que o auxiliasse a repelir aqueles pensamentos ultrizes, para não odiar o irmão, já que não podia perdoar.
Drusila tinha para com o primo toda a solicitude engenhosa das mães.
Sempre presente, sem nunca se tornar importuna, parecia adivinhar os pensamentos do enfermo; e Rutuba era a única pessoa que tinha permissão de substituí-la naquelas aturadas vigílias.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 19, 2017 8:27 pm

Seu estado de espírito era deveras estranho, singular, oscilando entre a ventura e o desespero.
Estar ali assim, constantemente junto dele, conchegar-lhe os travesseiros, ministrar-lhe os remédios, ler e cantar para distraí-lo, eis a felicidade...
Mas, a ideia de que ele se extinguia lentamente à sua vista, e mau grado aos seus cuidados, eis o desespero...
A estreitar-lhe no rosto descarnado, nos olhos inquietos, a aproximação do momento fatal, ela experimentava antecipadamente toda a desdita da perda irremediável.
E, ainda por cima, havia que dissimular os sentimentos que lhe amargavam no íntimo; apenas demonstrar uma amizade fraterna, para não lhe dar a entender o seu amor...
A verdade, entretanto, é que ele já de há muito lhe adivinhara o segredo.
Uma noite, insone como sempre, estava deitado e fingia-se adormecido para não incomodar os devotados enfermeiros.
Primeiro, pôs-se a escutar a respiração forte, rítmica de Rutuba, e pouco a pouco os pensamentos se foram encaminhando para o tema que o absorvia e atormentava — o desejo de ver um dos seres amados que o haviam precedido no túmulo.
Sabia que isso não era impossível, pois a própria Metela lhe contara a visão de Virgília na véspera da sua morte, e o monge vira Jesus entre milhares de seres flutuantes no espaço.
Porque, então, não poderia ele obter a graça de ver um ente querido, desde que pedisse a Deus, com fervor?
Ergueu-se com dificuldade, juntou as mãos, orou com aquele fervor d’alma apaixonada que lhe era peculiar.
O rumor de uma respiração penosa e sibilante interrompeu-lhe a invocação.
Voltou-se, fitou Drusila que, sentada numa poltrona junto do leito, parecia adormecida.
À luz mortiça da lamparina, notou, então, que a jovem tinha mudado de posição: corpo retraído, cabeça inclinada, parecia debater-se sufocada...
Contudo, que centelhas seriam aquelas que lhe formigavam em torno e se concentravam por vezes em placas fosforescentes?
Estupefacto, surpreso, contemplava o estranho fenómeno quando, de repente, viu formar-se acima de Drusila uma nuvenzinha branca, que logo se transformou em coluna a tocar o assoalho, para logo condensar-se e iluminar os próprios contornos com uma claridade azulina e vacilante.
Depois, daquela massa flocosa, surgiu gradualmente a silhueta de um homem alto, cingindo uma toga.
A mesma luz azulada esbateu-se, então, a cabeça encanecida de Semprônius.
Aqueles olhos pardos, brilhantes, fixavam-se nele com expressão de amor e de pesar.
Coração em sobressalto, acreditando ver, Cáius deixou-se escorregar do leito e pôs-se de joelhos, braços estendidos para a aparição, sem ousar tocá-la.
— Pai! meu pai... atendeste ao meu chamado?
A figura inclinou-se, tomou-lhe da mão.
Trémulo, atónito e ao mesmo tempo alegre, sentiu o calor e a densidade da carne.
— Pai querido, tua mão... esta mão é de um vivo: estarei louco?
Estarei sonhando quando te julgo morto?
— Não, filho; eu já não sou um habitante da Terra — respondeu Semprônius com voz nítida, se bem que um tanto abafada e como que longínqua —, mas grande é a bondade do Criador, que te inicia num dos mistérios mediante os quais se ligam os mundos visível e invisível.
Não temas o momento da tua libertação do invólucro carnal, nós te esperamos.
Ora por ti e por mim.
Ainda voltarei a aparecer-te, adeus!
Cáius sentiu na testa o ósculo do espectro.
Depois, ele elevou-se, esmaeceu afastando-se, como que se fundiu na parede.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 19, 2017 8:27 pm

Deslumbrado e satisfeito, ergueu as mãos em fervor de graça e foi logo assaltado de súbito colapso, que o fez tombar desfalecido à borda do leito.
Quando despertou, já o Sol alto e claro lhe inundava o aposento.
Rutuba e Drusila, assustados, debruçavam-se a espreitá-lo.
— Oh! deuses poderosos! que susto nos pregaste — disse-lhe a prima com ares de recriminação —, pois não é que estavas de joelhos e de mãos postas, fora da cama?
Essas preces te fatigam, evidentemente, mas também não sei como pude adormecer ao ponto de nada ter percebido!
— Não te incomodes, boa Drusila, pois esta noite tive uma grande esmola, que muito me tranquiliza.
De fato, dali por diante, profunda mudança se operou nele.
Suportava pacientemente os sofrimentos físicos e nos seus belos olhos negros transluzia uma serenidade indefinível, quando não uma fé entusiástica.
Nas horas de maior alívio, entretinha-se a brincar com o filhinho ou a conversar com a prima sobre os preceitos sublimes da doutrina redentora.
Certo dia, no terraço, todo se absorveu na contemplação do pequenino Semprônius, que dormia profundamente com a cabecinha loura e um sorriso ingénuo, a lembrarem a querida morta.
Longo suspiro lhe saiu do peito:
— Pobre criança! breve te deixarei duplamente órfão...
Sem o querer, seus olhos procuraram os de Drusila, já mareados de pranto.
Não era de agora que notava o seu emagrecimento e a profunda melancolia da pobre moça, mas nunca, como naquele instante, a sua secreta mágoa se lhe evidenciara.
Era a imagem mesma da dor e via-se-lhe no rosto o esforço que fazia para conter os singultos e as lágrimas.
Imensa vaga de piedade lhe assomou ao espírito, tomou a mão da prima e beijou-a.
— Drusila, há muito que venho notando o teu acabrunhamento...
Queres confiar-me as tuas mágoas para que te possa consolar?
Meus ouvidos serão uma campa e as palavras sinceras de um amigo sempre aliviam as nossas penas; fala, pois, sem receio, porque também quero testemunhar-te o meu afecto e gratidão.
Ela estremeceu, baixou a cabeça.
— Oh! Cáius — disse —, és a última pessoa a quem quisera abrir meu coração e confessar minhas amarguras, mas, por quem és, deixa-me apenas que continue a assistir-te até recolher o teu derradeiro suspiro.
Nada mais posso desejar.
Ele inclinou-se e o seu olhar carinhoso, fascinante, teve por instantes o brilho cambiante dos passados tempos.
— Alma fiel e incompreendida — prosseguiu, apertando-lhe mais fortemente a mão —, confessa ao homem amado o que negas ao amigo...
Fá-lo sem pejo, porque um sentimento que engendra abnegações qual as tens, honra tanto a quem o tem como a quem o inspira.
Não podes atribuir-me pruridos de mesquinha fatuidade, absolutamente...
Sou hoje cristão, amanhã serei pó.
Mas, o que eu quero é libertar-te desse constrangimento tortuoso que a ti mesma impuseste.
Acredita-me, Drusila, nunca te amei e venerei tanto como neste momento.
Ela calou-se, cobriu com as mãos o rosto inundado de lágrimas, debruçando-se à mesa.
Depois, ergueu-se e encontrando os olhos serenos do primo a fitá-la com tristeza, estendeu-lhe a mão e disse:
— Adivinhaste, Cáius; se estivesses de saúde, se não te considerasse perdido, infelizmente, eu tudo negaria como tenho feito até aqui.
Ao moribundo, porém, posso confessar que o amo.
Como pôde este amor, a despeito da tua indiferença e da voz íntima da minha própria consciência avassalar todo o meu ser, é o que não posso explicar.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 19, 2017 8:28 pm

Verdadeira fatalidade, em vão apelei para o meu decoro feminino, em vão me casei, esperando que os novos deveres e os encargos de um lar mudassem o curso dos meus sentimentos.
Tudo, tudo em vão! Mais:
Cláudius não era homem pelo qual pudesse esquecer-te e nem mesmo pude estimá-lo.
Sou franca, como vês, e confesso que te amo louca, profundamente, mas também recuso toda e qualquer palavra de consolo que, a título de compensação, me queiras dar agora.
Bem sabes que, por duas vezes, te vi casar, vi-te lamentar a perda de Virgília, sofri um ciúme infernal e, todavia, o teu Deus se tornou meu Deus e eu aqui estou à tua cabeceira para cerrar-te os olhos, se assim aprouver a esse mesmo Deus.
Não me fales, portanto, de estima, de amizade, de amor fraternal; não procures consolar-me, pois tu, menos que ninguém, tens autoridade para fazê-lo.
Se queres fazer a minha felicidade, uma só coisa te peço:
— lega-me teu filho.
Pouco a pouco a sua voz se firmara, o olhar animava-se-lhe:
— Sim, Cáius, deixa-me o teu retrato vivo, para que eu o crie e eduque.
Os afectos, os impulsos que recalquei no coração, hão-de reflorir para o pequenino Semprônius, que será a menina dos meus olhos, o tesouro da minha alma.
E um dia, quando ele me retribuir em sorrisos, gestos e olhares, que serão teus, o amor filial que lhe haveria de inspirar a própria mãe, nesse dia me julgarei ditosa.
Entrega-me o pequeno, mas só ele e não a tutela.
Cláudius é um jogador, um perdulário que está cavando a minha ruína, sem que me sobre energia nem desejo de lho impedir.
Ele não pode nem deve tocar no património do pequeno e, para que assim seja, só Agripa deve ser o tutor.
O patrício sentia-se grandemente comovido.
— Pois seja como desejas, boa Drusila.
De resto, nossa entrevista nos levou a abordar um assunto que me vinha preocupando já de alguns dias.
É indispensável pôr em ordem os meus negócios, tomar umas tantas disposições, pelo que te peço, desde já, escrevas a Agripa que venha passar alguns dias connosco e traga um escrivão e um magistrado, a fim de legalizar minhas últimas vontades.
Três dias depois, os fiéis amigos do patrício encontravam-se reunidos no salão.
Calma e explicitamente, o enfermo ditava as suas disposições testamentárias.
Depois de consideráveis legados aos filhos de Agripa e a Rutuba, era uma vasta lista de escravos a libertar, esmolas a distribuir, lembranças para os amigos.
Ninguém, nem coisa alguma, foi esquecido; quem não tinha uma jóia, tinha um objecto de arte.
Finalmente, Fabrícius Agripa era nomeado tutor, mas a educação do pequenino Semprônius ficava entregue à Drusila.
Em ouvindo esta cláusula, Metela corou e interveio:
— Espera aí, Cáius, permite-me uma observação:
— acho injusta e mesmo estranha essa tua resolução, pois é à família do tutor que compete a educação do tutelado.
E, uma vez que o filho da minha pobre Virgília (criada, posso dizê-lo, quase em meus braços) seja confiado a outra pessoa, estou no direito de me opor formalmente à tutela de meu marido.
— Oh! Metela!... — exclamou Drusila já lacrimosa — então tu, esposa feliz e mãe venturosa, vais disputar-me o direito de criar esta criança que eu adoro como penhor de consolação para uma existência de sacrifícios?
— Estás moça, os deuses ainda podem dar-te filhos — disse Metela com brandura —, e, em consciência, não creio possas dar ao menino a educação que mais lhe pode convir, pois as crianças devem ser amadas mas nunca mimalhadas e enervadas num culto de perpétua adoração, e tu me pareces disposta a proceder doutra forma, precisamente porque amas cegamente.
Uma segunda razão que me leva a contrariar-te é o génio do teu marido:
Cláudius (disse-o com voz de soberano desprezo) é tudo quando se pode imaginar de negativo para modelo de paternidade.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 19, 2017 8:28 pm

Cáius Lucílius ouvia comovido a controvérsia das duas senhoras, cujas provas de amizade lhe eram igualmente gratas e preciosas:
— Amigos de minha alma — interrompeu em tom magoado —, não ensombrem assim os últimos dias da minha precária e dolorosa existência; aceitai amigavelmente uma solução- que as palavras de Metela acabam de me sugerir.
As provas de amizade, a mim e à pobre Virgília, quer de uma, quer de outra parte, são irrefragáveis, não se discutem.
Pois bem: apelo, em nome dessa amizade, para que você Agripa, e você Metela, se encarreguem da tutela de meu filho, visto que a vultosa fortuna que lhe deixo precisa ser administrada com pulso firme quanto hábil.
Relativamente à permanência de Semprônius na companhia da minha cara Drusila, apenas quero aditar-lhe uma condição.
Vocês compreendem que estou pagando com a própria vida o erro das predilecções familiares e, neste caso, não quero que os filhos de Drusila, com pleno direito aos seus carinhos, possam a qualquer tempo inculpar o meu Semprônius de lhes roubar o maternal afecto.
Determino, portanto, que, caso Drusila venha a ter um filho, Semprônius seja entregue a Metela, no pressuposto de que os pequenos Agripa e Valérius, já crescidos, não terão de que se queixarem.
Os dois citados meninos que lá estavam a brincar com o pequeno Semprônius, carregaram-no para o diva de Cáius e, interpelados, disseram à uma:
— Não, decerto; não só não lhe teremos inveja, como até te juramos.
E não penses, Cáius — acrescentou o pequeno Agripa —, que eu não compreenda o valor de um juramento.
Assim, eu juro que hei-de ver no Semproninho um irmão digno da minha protecção e do meu conselho.
Podes ficar tranquilo e certo de que também Valérius não pensa de outro modo.
— Sim, amiguinhos, estou tranquilo e satisfeito, aceito a vossa promessa como se viesse de homens feitos.
Isto dizia, afagando a cabeleira negra do menino, legítimo herdeiro dos belos e nobres predicados de sua mãe, e cujo rostinho irradiava, então, generosidade e alegria.
— Suspendam agora o vosso irmãozinho para que eu o abrace, e depois vão brincar lá no jardim.
Lembrem-se de que não o confio a vocês somente por hoje, mas, para sempre..
Quando as crianças se afastaram, Cáius voltou-se para as duas patrícias:
— Muito bem; aceitam as minhas condições?
Metela, eu não creio te vás mostrar menos generosa do que teus filhos...
— Aceito — respondeu, já dominada pelo orgulho maternal e também pelo súplice olhar de Drusila.
— Obrigado. Volvamo-nos por conseguinte aos negócios.
A vida de uma criança é sempre fragilima, por maiores cuidados que lhe dispensemos.
Preciso, portanto, prever a hipótese da morte de meu filho, e neste caso lego-te a ti, minha boa Drusila, todo o meu património, inclusive esta casa cheia de recordações.
Igualmente lego-te a fortuna que me proveio por herança materna, excepto os terrenos próximos de Palermo e as duas vilas que possuo em Pozuóli e Palermo, bens estes que destinarei aos seus irmãos adoptivos, Agripa e Valérius.
Os pais destes quiseram protestar, mas Cáius tratou de confirmar e registrar o resolvido, sem demora.
Terminada a tarefa, selados e assinados os documentos, quando viu partir os funcionários estranhos, o doente desabafou num grande suspiro de alívio:
— Agora, concluídas todas estas coisas, displicentes e rebarbativas, resta-me agradecer o vosso concurso e convidar-vos para o triclínio, pois quero, hoje, presidir à refeição.
O pequeno grupo assentou-se à mesa ricamente servida.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 19, 2017 8:28 pm

Todos procuravam conversar e distrair o anfitrião, que, por sua vez, também procurava ser jovial e distrair os comensais.
Em vão, contudo, sucediam-se as iguarias mais finas e apetitosas, que mal eram tocadas.
As taças permaneciam cheias.
O ambiente estava como que saturado de pungentes recordações.
E, contudo, não longe ia o tempo em que ali naquele mesmo salão e naquela mesma mesa assentados o ainda robusto e alegre Semprônius, a nobre Fábia e a irrequieta Virgília, desnublavam as frontes mais sombrias.
Agora, aqueles lugares estavam vazios e não tardaria que o de Cáius Lucílius também o ficasse.
Seus amigos contemplavam-no pálido, magro, abatido, como tendo já estampado na fisionomia o selo da morte.
Quem poderia reconhecer nele o jovem atleta, exuberante de vida e cuja saúde fazia presumir uma segura longevidade?
O duplo golpe desferido no seivoso carvalho por mão fratricida, havia atingido o cerne, a fronde soberba, já desbotada, esfolhava-se e flectia para o solo.
E, contudo, poderia dizer-se que Cáius jamais fora tão belo como naquele último repasto!
O rosto, de uma palidez transparente, conservara as linhas clássicas agora mais espiritualizadas.
A boca, outrora risonha e de expressão algo irónica, tornara-se firme e acolhedora.
Mas aquele ágape foi uma imprudência.
Cáius presumira muito das suas forças e, apesar do esforço que empregava, logo teve de ser carregado para o leito.
Depois de haver dormido algumas horas, acordou como que reconfortado e as melhoras foram tais que os seus amigos chegaram a presumir, senão a cura, pelo menos um prolongamento de vida.
Mais tranquilos então, Agripa e sua mulher volveram a Nápoles, onde os aguardavam negócios urgentes, prometendo voltar dentro de quatro dias, a fim de auxiliar Drusila, cansada de tantas vigílias.
Na mesma noite da partida, o enfermo piorou subitamente, uma fraqueza e sonolência extremas se manifestaram, ao mesmo tempo que uma tosse seca lhe fazia aflorar aos lábios uma espuma sanguinosa.
Sobressaltados, pressentindo o desenlace próximo, Drusila e Rutuba não se despregaram da cabeceira do doente.
Na manhã do terceiro dia, já não podendo dominar a inquietação, Drusila expediu um portador, solicitando a Agripa regressasse o mais breve possível.
As horas escoavam-se sem alterações para melhor, mas, à noite, o enfermo pareceu reanimar-se, pediu água e lançou em torno um olhar claro e lúcido.
— Porque me fecham aqui? Falta-me o ar...
Rutuba, abre essas janelas, vamos, afasta essas cortinas.
Agora, arrastem a cama até lá, quero ver o mar...
Se eu adormecer, não fechem as janelas, pois o ar puro me alivia...
Muito bem... obrigado...
Instantes após, recaía num sono profundo, mas agitado.
Glacial tremor agitava-lhe o corpo.
De repente, acordou, ergueu-se nos cotovelos, circunvagou o olhar ansioso.
Nunca se sentira tão mal.
A luz mortiça da lâmpada de alabastro, pendente do tecto, aclarava o rosto desfigurado de Drusila, repousada nas almofadas.
Vencidos pelo cansaço, os dois fiéis atalaias tinham adormecido, um à cabeceira, outra aos pés do leito.
A viração marinha arejava e refrescava o ambiente, mas a tonalidade pardacenta do céu e o desmaiado brilho das estrelas prenunciavam o dealbar da aurora.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 19, 2017 8:28 pm

Mal podendo respirar, o moço patrício passou a mão pela fronte banhada de frio suor.
Que poderia significar aquele peso que lhe invadia o corpo todo, sacudido em glaciais tremuras? — aquela opressão, aqueles precipitados batimentos do coração; enfim, aquela estranha angústia jamais sentida?
Seria a morte?
Seria a aproximação do temido transe no qual o espírito quebra os laços do corpo para viver num outro mundo?
A custo, estendeu a mão, tomou de uma caixinha sobre a mesa de cabeceira, tirou uma cruz, beijou-a...
— Jesus, Mestre divino, alivia-me, perdoa os meus pecados, assim como perdoo aos meus inimigos...
E recaiu, exausto, nos travesseiros.
— Meu pai, vovó, Virgília, todos vós que me amastes, amparai-me nesta transição dolorosa que me deve conduzir a vós.
Seu olhar embaraçado cravou-se na porta do terraço repentinamente iluminado.
Sonhava? Não.
Via condensar-se, rápida, uma nuvem brancacenta, qual já uma vez presenciara.
Uma luz azulada invadia o ambiente e parecia fundir na sua claridade todos os objectos adjacentes.
Ora se condensando, ora se dilatando, aquela nuvem se aproximava do leito, até que da sua massa se destacaram criaturas logo reconhecidas.
Sim! Aí estavam Semprônius e junto dele Virgília, louça e risonha como outrora; atrás deles, o semblante de Fábia envolto num véu prateado como os seus cabelos em vida!
Acima de todos, pairava o eremita, de mãos postas, elevando uma cruz luminosa, na qual podia ler esta legenda:
— morrer para renascer e progredir sempre, tal é a lei.
Todas aquelas sombras o rodeavam, inclinavam-se para ele, amparavam-no, aliviavam-no, como que o envolvendo num vapor nebuloso a desprender centelhas luminosas.
Quis falar, estender-lhes os braços, mas, dores atrozes lhe contraíram os membros.
Tinha a impressão de estar atravessando uma compacta massa crivada de espinhos.
Súbito, flamígero clarão se projectou sobre ele e arremessou-o em trevas profundas, com a violência de um furacão que arrebatasse uma pluma.
Então, tudo se fundiu, tudo se apagou diante e dentro dele!
Perdeu a noção de si mesmo.
Ao sair desse estado indefinível, viu-se flutuante num ambiente de claridade prateada e, tímido, e perturbado, procurou examinar quanto o cercava.
Era em baixo, a casa, o célebre terraço e o quarto onde adormecera; o Sol terrestre vinha repontando no horizonte e salpicava de rubis as ondas movediças ao mesmo passo que lhe clareava o quarto, e neste o rosto inerte de um homem adormecido, tendo entre as mãos hirtas, cruzadas sobre o peito, uma cruzinha de madeira.
Aquela máscara irradiava a serenidade expressiva de um triunfo indefinível, última expressão do espírito vitorioso abandonando a matéria inerte.
Naquele momento, um raio de sol se esbateu no semblante de Drusila adormecida.
Ela estremeceu, despertou e, fitando o cadáver, deu um grito agudo para tombar desfalecida junto do leito.
Aquele grito acordou Rutuba, que, por sua vez petrificado, contemplou longamente o rosto do amo querido.
A seguir, chorando como se fora uma criança, ajoelhou-se, beijou-lhe a mão gelada.
Extremamente comovido, Cáius tentou orar...
Quisera falar, consolar os que lá se ficavam, e sofria por não poder fazê-lo.
E foi quando, de repente, viu-se cercado de seres semelhantes, cujas fisionomias revelavam amor e ternura.
Entre eles lobrigava todos os parentes e muitos amigos esquecidos durante a vida corporal.
— Meu pai, Virgília, amigos todos que aí estais, saúdo-vos de todo o meu coração e crede que este minuto de gozo me recompensa de todas as amarguras terrenas.
Dizendo-o, mergulhou no espaço, acompanhado dos seres amigos que o arrastavam para bem longe dos penosos espectáculos do mundo...

3 Espécie de viaturas semelhante à dos tempos de Luís XIV.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 19, 2017 8:28 pm

X - O réprobo

Entardecia.
Pelas gargantas fundas das montanhas a sombra da noite descia rápida.
Havia, porém, num planalto desnudo, lateralmente bordado de rochas pardacentas, um revérbero de luz avermelhada.
Tumular silêncio reinava por toda a parte, avolumando a melancolia daquelas paragens desertas.
A boca da caverna, outrora ocupada pelo eremita, antes se diria, agora, simples abertura de gigantesca marreta talhada na rocha por mão ciclópicas.
A cortina de lianas silvestres, que noutros tempos lhe disfarçava a entrada, fora arrancada pelos soldados quando lá penetraram, e os seus compridos cordões rastejavam mirrados, desbotados, formando aqui e ali tufos de amarelada folhagem.
No interior, menor não era a desolação.
Os destroços do precário mobiliário do grabato lá jaziam no chão da primeira caverna em plena escuridade.
Entretanto, no fundo do santuário, podia ver-se uma lâmpada oscilante, que dava ao altar em ruínas uns tons avermelhados.
Lá, numa reentrância mais funda e mascarada por acidente natural, o nicho onde o monge guardava as melhores provisões, brilhava, naquele momento, uma candeia cuja chama fumarenta deixava entrever um homem reclinado sobre uma pele de carneiro e embrulhado num manto escuro.
Aquele homem, ali oculto e segregado do mundo, apresentava desolador aspecto: vestes rotas, cabeleira intonsa, pés barrentos, inchados.
Mantinha, contudo, sobre os joelhos, em flagrante contraste de aparências, uma bela espada com punho de marfim e um punhal sírio, com cabo de ébano e incrustações de coral, pendia-lhe da cintura.
Faces encovadas e olhar cansado davam a impressão de quem trouxesse n’alma um pandemónio de remorsos e paixões.
Certo, ninguém reconheceria naquele fugitivo esfarrapado o altaneiro e guapo oficial, filho do opulento Semprônius.
E, no entanto, outro não era ele senão aquele mesmíssimo Nero, reduzido por seus crimes àquela situação de extrema penúria.
Depois de assassinar Virgília, entrara em casa completamente atónito e magoado:
era a primeira vez que sentia a pua do remorso morder-lhe n’alma.
Acreditava estar vendo por toda parte o olhar apavorado da vítima e ouvindo-lhe o supremo grito de angústia.
Não obstante, ainda lhe sobrava calma para compreender a gravidade da situação:
as leis romanas não deixariam de punir um crime inaudito, que tivera três testemunhas.
Concluiu, portanto, que, para evitar a prisão, não tinha tempo a perder.
A noção do perigo deu-lhe presença de espírito e arquitectou logo um plano que tinha probabilidades de êxito:
resolvera montar a cavalo e ganhar qualquer pequeno porto longe de Nápoles, e de lá fretar uma embarcação que o transportasse a Massília.
Naquela remota província, onde ninguém o procuraria, tencionava viver discretamente, até que, passada a tempestade, acalmados os ânimos e esquecidos seus crimes no turbilhão dos acontecimentos e de outros crimes, pudesse entender-se com o seu irmão Antonius, cujo ódio pela família paterna ele bem conhecia.
Pedir-lhe-ia, então, que sondasse as autoridades quanto à oportunidade e possibilidades de um indulto.
E se a reabilitação não viesse, o irmão lhe mandaria recursos para comprar alhures, nos confins do Império, uma propriedade onde pudesse esperar melhores dias.
A princípio, tudo lhe correu à medida dos desejos; atingiu sem acidentes o porto escolhido, lá encontrando, contra toda a expectativa, um navio de saída para Massília.
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