Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 19, 2017 8:29 pm

No albornaz já mencionado por Trula, também havia dinheiro e valores bastantes para isentá-lo de cuidados até receber recursos do irmão.
Na manhã do terceiro dia da morte de Virgília, Nero contemplava, com relativa sensação de alívio, as costas da Itália a apagarem-se no horizonte.
O dia manteve-se claro, o mar tranquilo; mas, ao cair da noite, nuvens negras se encastelaram no firmamento e o vento soprou impetuoso e violento.
Após uma luta desesperada acabaram por divisar, ao clarão dos relâmpagos, uma costa inçada de rochedos.
Não tardou que o navio, levantado com violência, batesse num cachopo, desconjuntando-se com sinistro fragor.
Homens e carga precipitados ao mar!
E o mar, de tantas vítimas só recusou uma...
Arrebatado por enorme vagalhão, o tribuno, desfalecido, foi arremessado à praia.
Quando abriu os olhos era dia alto, mas a região erma lhe pareceu absolutamente desconhecida.
Nada sentia, de resto, a não ser uma contusão da rótula, que aliás lhe causava dores atrozes.
Fazendo grande esforço caminhou ao longo da costa, na esperança de encontrar algum povoado, e, depois de penosa marcha de algumas horas, atingiu finalmente, quase exânime, um rincão de pescadores e dentre eles um que se prestou a recebê-lo.
O ferimento do joelho, por mal cuidado, reteve-o mais de um mês naquelas paragens, dando-lhe com isso lazeres para meditar na sua situação.
Do seu espírito se apossara um supersticioso temor.
Estranha fatalidade aquela, que o atirara para terras de Itália, quando delas procurava fugir!
E porque, de toda a equipagem do sinistrado navio, só ele haveria de escapar?
O mar tudo tragara e ele ali estava, sem nada mais que magra bolsa, com algumas parcas moedas.
Era para desesperar...
E por cúmulo do desespero, aquelas noites de insónia, aquelas alucinações que principiavam a salteá-lo.
Tanto que se viu restabelecido, resolveu ganhar sem demora a alta Itália, onde residia o irmão.
Gratificou os pescadores e mandou comprar por um deles, na cidade mais próxima, a roupa indispensável.
Ao regressar, o pescador contou que se falava na cidade de uma grande recompensa a quem prendesse um oficial de família patrícia, que assassinara a cunhada, e para o que davam também os seus sinais.
Em tal ouvindo, Nero sentiu esvurmar-se-lhe o coração como preso a um tornilho.
Aqueles homens simples e rústicos nada suspeitaram, porém, de vez que nele viam apenas a vítima de um naufrágio constatado pelos destroços recolhidos, tanto quanto por dois cadáveres que eles mesmos enterraram.
Deixaram-no partir com votos de boa viagem.
E ele foi-se, não sem atender às maiores precauções.
Não tardou a compreender que impossível fora chegar até ao irmão.
Com a argúcia do seu ódio, Metela previra que o assassino haveria de procurar o amparo de um aliado nato e espalhara atalaias por todas as estradas conducentes a Ravena, em cujos arredores residia Antonius.
Qual veado que pressente a matilha, temendo o cerco a todo o instante e só se arriscando andar à noite por desvãos e atalhos, ao fim de três meses encontrou-se perto de Nápoles e enveredou para o lado das montanhas.
Extenuado, trapejante, depois de vender o último anel com risco de ser preso, errou por aqueles sítios alpestres a esconder-se durante o dia, a tremer ao menor ruído, apavorado, louco.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 19, 2017 8:29 pm

E como se isso não lhe bastara por expiação, as noites lhe chegavam para a tortura dos sonhos e visões alucinantes.
Quantas vezes já palpara a lâmina do punhal, disposto a acabar com aquela existência miserável.
E certo já o teria feito, se um sentimento instintivo, algo mais forte que o seu desejo, não lhe amortecesse a mão.
Na véspera daquele dia, o acaso ou a fatalidade o conduzira àquela trilha pedregosa, que demandava a caverna do eremita.
Rilhando os dentes o fugitivo galgou-a e, impossibilitado de prosseguir, refugiara-se no lutulento santuário do mesmo deus a quem traíra.
Não era, pois, o templo de Júpiter que lhe facultava um abrigo.
A cruz despedaçada por sua ordem e cujos destroços ainda ali se viam, ainda o protegia naquela emergência, a despeito de tudo.
Pungente ironia do destino!
Mas, como fugir-lhe se estava totalmente alquebrado?
Ficaria... sim.
A um canto, encontrou pequena lâmpada, uma ânfora de azeite, um saco de frutos secos e alguns restos de provisões.
Mantendo acesa a lâmpada, por isso que a escuridão o apavorava, acabou por adormecer num sono febril e agitado.
Algo reconfortado fisicamente, passou todo o dia seguinte acocorado junto da lâmpada, a pensar na tirania do seu destino.
A sua retina espiritual, desenhava-se agora o passado irreparável.
Entretanto, considerava, as coisas poderiam ter tomado outro rumo se não se houvesse deixado empolgar por vis paixões, que de todo lhe obliteraram a razão.
E afinal que lucraria com a saciedade do seu ódio?
Que demónio cruel e zombeteiro o teria inspirado e empurrado pouco a pouco para o abismo, transformando um homem tão bem nascido e auspiciado à felicidade, num réprobo, num foragido, faminto, escorraçado da sociedade, monteado qual fera bravia e ali homiziado na gruta do mesmo ancião a quem traíra, e cuja agonia perturbara com um acto nefando — o assassínio do próprio irmão?
Não seria o sangue da vítima que ali estava a escorrer-lhe das mãos? O olhar suspeitoso, feroz, resvalou para o altar esbatido em meia sombra...
Não fosse ali surgir o rosto descorado de Cáius Lucílius...
Mas, não — era a balaustrada de mármore de um terraço e nele, de pé, um vulto gracioso de mulher...
Virgília! Sim, ela!
E aqueles olhos de aço cravaram-se nos seus olhos...
Não se enganava...
Era bem dela a túnica flutuante e, agora, seus cabelos roçavam-lhe o rosto, tonteavam-no...
Ergueu-se sobre o abismo planturoso, sentiu-lhe toda a angústia trágica daquele momento supremo, decisivo, cruel, ouviu um grito lúgubre e o baque do corpo mergulhado no abismo...
Oscilou das pernas, estendeu os braços como se procurasse tactear no vácuo um corpo invisível.
Esbarrou na rocha e, como se despertasse de um sonho, fitou a parede nua, na qual reflectia uma gigantesca silhueta negra!
Será que também o eremita me vem maldizer?
Mas, era a sua própria sombra.
E, contudo, aquela companheira silenciosa causava-lhe pavor!
Trémulo, a suar frio, deixou-se cair no grabato.
— Maldito, sim, maldito que sou!
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 19, 2017 8:29 pm

E porque prolongar esta existência inútil, perdida?
No mundo não há mais lugar para mim, e por mim também não tenho Deus no coração.
Porque vacilo em esmagar de vez este coração que em mim palpita e me devora? — este cérebro que me sugere ideias infernais? que força será essa que, tantas vezes, me tem paralisado o braço?
Serão as sombras ultrizes das minhas vítimas?
Ou será o Deus criador que rege nossos destinos?
Ah! se eu pudesse ter a certeza de que esse Deus existe...
Se pudesse sondar o mistério... Ser ou não ser!
Aprumou-se e começou a andar de um lado para outro:
— Os cristãos juram que a imortalidade da alma é um facto inconcusso e que, pelos crimes que pratica, essa alma é relegada ao fogo eterno; também os nossos deuses consagram uma Némesis.
Aquela tempestade que destruiu todos os meus planos não seria uma demonstração da cólera celeste?
Mas, então, para onde fugir? Que fazer?
O passado causa-me horror, o futuro me causa temor...
Serei, porventura, condenado na Terra e condenado no céu?
Em crescente exaltação, lançou-se de joelhos defronte do altar:
— Jesus, filho de Deus único, perdoa-me.
Não estás porventura bem vingado do meu perjúrio?
Não estarei já suficientemente punido por haver conspurcado o teu altar com o sangue de um irmão?
Dizem que, pregado na cruz, perdoaste os teus algozes e até oraste por eles; lança pois, sobre este réprobo, o teu olhar misericordioso, afasta as sombras vingadoras que me perseguem, ensina-me a orar, a elevar-me ao teu sólio para pedir-te perdão e misericórdia.
Se existes, dá-me prova de que meu espírito é flama divina, dirigida por ti, ouvindo-me esta súplica...
Calou-se, exausto, olhos fitos na abóbada da caverna, em atitude expectante...
Tudo silente, tudo sombrio...
Gargalhada selvagem lhe estalou então nos lábios:
— Mentira! É tudo mentira.
Jesus é tão surdo como os nossos ídolos de pedra.
Nada, absolutamente nada existe além da morte e bem andei em renegar todas essas divindades.
Rápido, desembainhou a espada, apontou-a ao coração, mas logo estremeceu e deixou pender o braço...
Alguém lhe tocara no ombro e dizia gravemente:
— Pára! Não queiras, filho meu, ajuntar mais um crime aos muitos cometidos.
Voltou-se espantado e divisou à luz indecisa da lâmpada um velho alto, porém arqueado ao peso dos anos.
Longa barba prateada enquadrava-lhe o semblante austero e doce.
Com toda a brandura tomou-lhe a espada e enxugou-lhe a fronte suarenta.
— Pobre filho desvairado!
Insultas a divindade, gabas-te de tê-la renegado, sem compreenderes que sofres justamente as consequências do teu ateísmo.
Qualquer que seja o nome dessa divindade, não a rechaces do coração, por isso que nela reside todo o germe do bem, e, tanto que demore em tua alma, ela te encaminhará, protegerá, acalmará paixões, reconciliar-te-á contigo mesmo, dar-te-á esperança, enfim.
Essa divindade é quem te dita a virtude, inspira o perdão, conduz à prece.
Em repelindo a fé, tua alma se torna em campo inculto, esterilizado pelos ventos da vingança, revolvido pelo temporal das paixões nunca saciadas.
O mais endurecido dos criminosos só está perdido quando de todo perde a fé.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 19, 2017 8:29 pm

Só o homem que desprezou essa âncora de salvação perece, esmagado ao peso das próprias iniquidades.
Guarda o que te digo, filho...
E agora, ajoelhemo-nos, oremos juntos, vamos reconstruir em tua alma um novo altar para os teus votos e pensamentos.
Nero tudo ouvia silencioso, fascinado; as palavras que acabava de ouvir eram bem o eco de uma voz íntima que, muitas vezes, lhe dizia a mesma coisa.
Sim! Ao abjurar a sua nova fé, ele havia desterrado para bem longe as lições do velho anacoreta, aquela dignidade do coração, que veda a aproximação do mal.
Na sua traição bojava o castigo, o desencadear das paixões compeliram-no ao crime e arruinaram-lhe a existência.
— Quem és tu, venerando ancião, cujas palavras aliviam as úlceras do meu coração? — murmurou com voz trémula e olhar agradecido.
Vejo que me deploras, e, no entanto, sou um criminoso, matei meu irmão, matei uma mulher em plena floração de vida e de esperanças; do meu ódio por ambos derivou o repúdio à fé do Cristo, a quem traí, conspurcando o seu altar.
E tu não te horrorizas, não me repeles?
Quem és, enfim?
És um ser celeste que responde ao meu apelo extremo, ou és apenas um discípulo do Crucificado cuja misericórdia dizem infinita?
— Sou um homem como tu, cheio de erros e imperfeições; chamo-me Domítius, humilde cristão e discípulo de pai João, a quem devo a minha conversão.
Aqui vim no intuito de orar sobre a sua sepultura, sem presumir que Deus me reservasse a alegria de poder consolar um irmão sofredor.
Deixa-me dizer-te ainda uma coisa filho:
— Não responsabilizes nunca uma causa pelo ódio que te inspiram os homens que a defendem.
Tu podes riscar do coração os “que te ofenderam”, mas não enlamear o “ideal que adoraste”.
O homem que se vinga das susceptibilidades pessoais abrindo mão de verdades admitidas em foro íntimo, é um covarde indigno de apreço; rejeitando princípios que o ampararam sem nada adquirir em troca, ele cambaleia e basta um simples choque moral para torná-lo um criminoso.
Se é que minhas palavras tocaram teu coração; se verdadeiramente reconheces teu crime, feliz me considero e pronto estou a amparar-te na medida do possível.
Não obstante, preciso é que encontres dentro de ti mesmo a força renovadora que te reconduza ao caminho da virtude.
Por agora, aproxima-te de nosso pai celestial pela humildade e pela prece.
Feita esta, com sincero fervor, Nero levantou-se mais calmo.
— Filho, não abandones a âncora da salvação, ela te sustentará na prova — disse Domítius com doçura.
O discípulo de Jesus não considerava mais em Nero o réu da justiça humana e sim um desgraçado a debater-se na senda espinhosa da vida.
Levado por instintivo impulso de afeição, cuja origem se perdia nos arcanos do passado, atraiu-o a si, abraçou-o, beijou-lhe a testa húmida.
Ignorava que, séculos dobrados, o cavalheiro Teobaldo, movido pelos mesmos sentimentos, haveria de abrir os braços a Sométus, o monge sacrílego que, tal como fazia no momento, lhe reclinaria no peito a cabeça, murmurando:
— “Deus há-de julgar-me, mas tu, pai, não me condenes.”
— Agora, filho, assentemo-nos e vamos conversar: fala para que eu veja em quê e como te posso ser útil.
Quando Nero terminou a narrativa dos seus crimes e provações, Domítius disse, apertando-lhe a mão:
— Não desesperes:
o Pai celestial não quer a morte do ímpio e sim que ele se regenere.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 19, 2017 8:30 pm

Penso que poderei salvar-te.
Permanece oculto aqui, onde ninguém poderá descobrir-te.
Amanhã, à noite, hei-de trazer-te alguma roupa e alimento reconfortante.
Mais tarde, um amigo de inteira confiança se incumbirá de te transportar a Alexandria.
Tenho lá um parente cristão, íntegro e caridoso, a quem te farei recomendado.
Eusébio (é como se chama) te ajudará a empreender vida nova, pobre, laboriosa certamente, mas que aceitarás conformadamente, desde que sincero seja o teu arrependimento.
Depois da partida do seu novo amigo, Nero encheu-se de esperança.
Deitou-se, dormiu um sono calmo como não tivera há meses.
Todavia, quando acordou, sentiu-se muito indisposto, cabeça tonta, arrepios de frio alternados de intenso calor, os membros lassos...
Aquela exaltação nervosa, que até ali o sustentara, desaparecera e dava-se a reacção violenta do organismo debilitado por toda a sorte de privações e abalos morais.
Quando voltou, Domítius o encontrou com febre ardente e delirante, a evocar as suas vítimas.
Profundamente aflito, instalou-se à sua cabeceira.
O pobre rapaz, privado do luxo e conforto a que estava habituado, longe dos amigos e parentes, agonizava ali assim num miserável grabato.
Depressa se convenceu de que não havia esperança de cura.
Ainda assim, como que esgotado da sua própria violência, a enfermidade parecia deixar à sua vítima um derradeiro minuto de espera:
extenuado, agonizante, Nero abriu os olhos, absolutamente lúcido.
— Pai Domítius, diga-me: estarei irremediavelmente condenado e corrido da mansão divina?
Pergunto, porque grandes foram meus crimes e tarde me arrependi.
— Filho — respondeu solenemente o velho —, quando uma árvore não dá fruto, o bom lavrador corta-lhe os galhos e a transplanta para terreno mais propício ao seu crescimento; assim, também o divino Salvador dá ao culpado repeso uma nova posição, uma nova existência que lhe permita dar frutos de virtude.
— Possa a misericórdia do bom lavrador transplantar-me desse modo — balbuciou o moribundo, já dos pórticos da eternidade.
Alguns estremeções ainda lhe agitaram o corpo abandonado do princípio vital; depois, o rosto se lhe contraiu e distendeu para fixar-se naquela indefinível, misteriosa expressão de serenidade que os homens não contemplam sem tal ou qual temor...
Cnéius Semprônius Nero terminara a sua prova terrena.
O velho Domítius cerrou-lhe as pálpebras, encruzou-lhe as mãos, ajoelhou-se e orou com fervor por aquela alma sofredora e perturbada, que ia comparecer diante do seu juiz.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 20, 2017 11:20 pm

XI - O fim de Cláudius

Mais de um ano decorrido sobre o falecimento de Cáius Lucílius e ainda na sua vazia, quão silenciosa vivenda, permanecia a fidelíssima Drusila com o pequenino Semprônius.
Quando soube que a tutela fora confiada a Agripa, o ambicioso Cláudius ficou fulo de raiva; contudo, as cláusulas testamentárias que asseguravam à sua mulher a herança, por morte do pequeno, foram de molde a calmá-lo, relativamente.
Já de todo aborrecido com a convivência doméstica, não se opôs a que a mulher ficasse residindo em Micenes.
Ela, por sua vez, considerou a prerrogativa como verdadeira esmola da Providência.
Devotou-se ao pupilo com verdadeiro fanatismo e fez da casa de Micenes o templo da saudade, começando por se instalar no pavilhão onde Cáius fechara os olhos, e venerando como relíquia sagrada tudo o que lhe pertencera.
Seu desespero diluía-se pouco a pouco em suave melancolia.
Pensar no ídolo extinto, brincar com a criança naquele terraço pleno de recordações, era o que constituía toda a sua felicidade neste mundo.
Também as frequentes visitas de Metela e uma demorada estada em sua casa haviam reagido favoravelmente no seu moral.
Assim transcorreu todo um ano, quando a inesperada presença do marido veio perturbar a calma ainda mal reconquistada.
O aspecto de Cláudius não deixou de surpreendê-la desagradavelmente.
Naquele homem pálido, prematuramente gasto por todos os excessos, ninguém reconhecia o musicista alegre, de faces coradas, que o velho Semprônius elegera para camarada do seu dilecto Cáius.
A jovem Drusila não pôde furtar-se a uma profunda repugnância por aquele perdulário debochado que, não contente com o dissipar-lhe a fortuna, ainda vinha perturbá-la no seu voluntário retiro.
E aquela repugnância ainda aumentou para degenerar em ódio suspeitoso, quando surpreendeu, certa feita, os olhares de sub-reptícia maldade com que ele costumava fixar a imbele criança.
Desde logo, tratou de o vigiar, e ai dele se ousasse tocar no seu ídolo!
Nada suspeitando dos pensamentos de sua mulher, Cláudius recolheu-se ao quarto pretextando fadiga.
Mas, a verdade é que não chegou a deitar-se, e ainda alta noite continuava a errar de um lado para outro, esvaziando taças sobre taças de vinho.
Quem o visse naquele momento, não vacilaria em afirmar que todas as paixões violentas se lhe espelhavam no rosto, enquanto os olhos exprimiam cólera e inquietação simultâneas.
— Esta noite preciso, a todo custo, arranjar cem mil sestércios...
Mas, como fazer?
Com Agripa?
Do seu, já sei que me não dará cheta, e no património do pequeno não tocará, tão-pouco.
Bem o conheço.
Maldito pequeno, que me impede usufruir o que de direito me pertence.
Ah! é preciso que morras e hás-de morrer, olaré!
A questão é poder tirar-te a vida sem levantar suspeitas...
Só isso...
E eu que não trate de agir já, já...
Lucílius Sabínus dará o escândalo para toda a Roma...
Mas esta neurasténica Drusila monta-lhe guarda tão fechada que eu mesmo não sei como acercar-me do pimpolho...
Oh! deuses infernais, inspirai-me!
Aproximou-se da mesa e bebeu sucessivamente de um trago dois copázios de vinho.
Vermelho de lacre, olhos congestos, continuou a trocar pernas.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 20, 2017 11:21 pm

De repente, bateu na testa:
— Eureca! Admirável! Soberbo!
Não há necessidade de cúmplices e dou à minha cara mulherzinha a satisfação de ser mesmo a herdeira do seu Cáius bem-amado — nos olhos fulgiram-lhe sinistros lampejos e, como se aquela decisão lhe houvesse dissipado os vapores do álcool, perfilou-se com firmeza, foi lavar o rosto e recompor o vestuário.
A seguir, tomou da bolsa e do manto, escuro como a sua alma.
Cauto, por evitar qualquer rumor, esgueirou-se para o jardim e saiu ao campo em direcção de pedregosa trilha, que começava costeando o mar e se perdia entre rochedos abruptos.
Depois de andar uma hora, mais ou menos, parou como que procurando tomar alturas.
Encontrava-se numa garganta agreste, circundada de pedras fantasticamente configuradas, em cujos flancos se ostentavam tocas e fendas.
A escuridão da noite e o silêncio reinante faziam mais tétricos aqueles sítios ermos e desolados.
Cláudius enxugou a fronte banhada de suor.
— É aqui... deve ser aqui mesmo a lura da feiticeira...
Tolo que fui.
Se tivesse pensado nisto lá em Roma, teria logo trazido o necessário.
Em todo caso, ainda me dou por feliz de haver guardado a lembrança destes sítios e da boa gente que neles vive.
Assim matutando, contornou grande penhasco e parou defronte de uma caverna, ao fundo da qual lucilava frouxamente o clarão de uma lanterna.
— Acteia! oh! diabo! — chamou baixinho, batendo com os pés no solo.
Logo uns passos arrastados se fizeram ouvir e uma velha corcovada, apoiando-se à bengala, surgiu na boca da caverna.
— Quem és tu que assim me procuras em hora tão imprópria?
— Preciso falar-te sem testemunhas:
hei-de pagar-te bem, toma lá isto por conta — disse atirando-lhe uma moeda de ouro.
Com agilidade incrível, a velha aparou a moeda e, recuando um passo, disse com obsequioso servilismo:
— Dá-me tuas ordens.
Entraram.
Ela ergueu a cortina que vedava o interior do antro e conduziu o visitante a um compartimento mais profundo, alumiado por um archote.
Numa espécie de marmita, posta ao fogo, fervilhava uma caldo escuro a exalar um cheiro nauseabundo.
A megera designou-lhe um escabelo e acocorou-se a um tronco, perto do fogaréu.
Era uma criatura bizarra, cuja idade mal se poderia avaliar:
corpo engelhado, dorso curvo, rosto amarelado, rugoso, reflectia todas as paixões imagináveis.
Cem anos, talvez...
Nada obstante, o olhar negro, fulgurante, tinha a vivacidade e o vigor próprios da juventude.
— Afinal, que queres de mim? Um filtro amoroso?
Tenho vários e... infalíveis.
— Nada disso, digna filha de Locusta:
o que necessito é de um veneno e isto com a maior urgência, porque não tenho tempo a perder; mas esse veneno deve ser fulminante sem deixar vestígios.
Estás habilitada a servir-me?
Ou sim, ou não; mas, vê lá:
qualquer traição custar-te-á simplesmente a vida.
Ela levantou a cabeça:
— Tenho o que queres, mas, custa caro.
Ele limitou-se a despregar do cinto a bolsa e mostrou-lha.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 20, 2017 11:21 pm

Cúpido sorriso se esboçou no rosto magro da virago.
— Generoso, serás bem servido.
Levantou-se, desapareceu numa galeria de provável acesso a outra cava, para voltar com um pequeno frasco em que se via um líquido incolor.
— Isto mata sem deixar traço.
Quem quer que tome duas gotinhas deste suco, morrerá dentro de uma hora, pela ruptura do coração.
Satisfeito, ele pegou do frasco, atirou-lhe com a bolsa e, dando-lhe um sinal de adeus, saiu apressado.
Uma hora depois, reentrava em casa sem que alguém suspeitasse daquela surtida tenebrosa.
Escondeu o frasco e atirou-se ao leito, fatigadíssimo.
No dia seguinte, vamos encontrá-lo muito agitado, lá no terraço que dava para o jardim.
Fora um dia de calor forte e todos procuravam gozar a frescura da tarde.
Recostado numa cadeira de bronze, o patrício lia, ao mesmo tempo que sorvia a pequenos goles uma taça de vinho.
Drusila conservava-se no jardim, entretida num trabalho de costura, a vigiar o pequeno Semprônius, que, ora apanhava flores para depositá-las num banco de mármore a seu lado, ora se entretinha a saltar e correr pela escada do terraço.
Cláudius, que o espreitava, aproveitou um momento em que se deteve a poucos passos dele, para descansar, chamou-o com um gesto e disse-lhe em tom carinhoso:
— Como estás cansadinho! Vem cá, toma um gole de vinho para refrescar.
O menino aproximou-se, risonho, pegou a taça com ambas as mãozinhas e bebeu avidamente, de um trago.
Se alguém pudesse, naquele instante, observar o patrício, haveria de lhe surpreender a palidez do semblante, o sinistro fulgor dos olhos, a tremura dos lábios.
A pobre criança é que nada poderia notar. Devolveu-lhe a taça fatídica e voltou às suas correrias e traquinadas pelo jardim.
Naquele comenos, surgiu Rufila à porta do terraço.
A velha criada de Virgília também se dedicara a Drusila e ficara a lhe fazer companhia.
Velava ciosamente pelo pequeno e tinha verdadeira afeição pela sua nobre e meiga patroa.
Aproximando-se, então, anunciou que uma pobre mulher da vizinhança pedia instantemente para falar a Drusila.
— Vou já — disse esta levantando-se.
E tu, Semprônius, dá boa noite ao tio e vem comigo, pois é tempo de tomar banho e ir deitar.
— Mas eu queria brincar ainda um pouquinho...
Rufila, entretanto, pô-lo ao colo e o levou consigo,
sem atender as lágrimas nem protestos do pimpolho, acostumado a ver satisfeitos todos os caprichos e fantasias.
Chegando ao grande quarto do pavilhão outrora ocupado por Cáius nos últimos dias da sua vida, Drusila lançou em torno um olhar desconfiado.
— Como! Onde está a velha Cláudia?
— Perdoa-me o te haver mentido, minha boa senhora — disse Rufila baixando a voz —, mas tudo não passou de pretexto para poder revelar-te um assunto grave que me chegou aos ouvidos.
Lembra-te de Rêmus, aquele menino papudo a quem certa vez socorreste e que mora lá na gruta da sibila?
Pois bem:
ele teve um serviço aqui perto e aproveitou o ensejo para me vir contar que anteontem, à noite, o patrão lá esteve na caverna.
O rapaz não pôde ouvir o que disseram, mas verificou que depois da entrevista a megera contava muitas moedas de ouro.
Veio-me então a ideia de qualquer ameaça à tua vida e pensei na conveniência de passares algum tempo com Metela.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 20, 2017 11:21 pm

Drusila empalideceu e caiu trémula numa cadeira.
— Obrigada pela tua dedicação, minha fiel Rufila:
tu tens razão, eu irei com o menino.
É por ele e não por mim, que eu temo. Contudo, para evitar suspeitas de Cláudius, vou escrever a Metela e provocar o convite.
Entretém o menino enquanto vou escrever a carta e depois expedirás um portador e tratarás dos aprestos para a viagem.
Procurando dominar a emoção, aproximou-se de um armário e retirou o necessário para escrever.
Terminada a carta, voltou para guardar o carimbo de ouro com que a selara e o olhar já lacrimoso se fixou nos utensílios evocativos de tantas saudades agridoces:
eram anéis, broches, medalhas usadas por Cáius; a taça que lhe servira ainda na noite em que falecera e até o punhal com que Nero o ferira no dia do casamento com Virgília.
Absorta, enlevada naqueles pensamentos, deixou-se ficar até que um grito estridente fê-la despertar.
— Senhora! acuda!
Veja o que tem o menino! Semprônius acabava de cair-lhe nos braços com os lábios entreabertos, o olhar parado, já inconsciente.
Um palor cadavérico tomava-lhe as feições e ligeiros tremores sacudiam-lhe o corpinho, crispando as mãos.
Fora de si, ela o sacudia, abraçava-o, tentava reanimá-lo à força de beijos, mas, tudo em vão!
O corpinho esfriava rapidamente, a cabecinha anelada recaía inerte.
— Tem calma, minha patroa, ele está morto — repetia a serva soluçante.
Os braços da patrícia afrouxaram, o corpo da criança caiu por terra, inanimado.
— Morto! — exclamou, possuída de estranha serenidade!
Morto o meu filhinho adorado, a herança, o tesouro que Cáius me confiou!
Sim! mas eu bem sei quem o matou!
Apertou a cabeça com as mãos, encostou-se à parede, olhos fixos, arregalados, a morder os lábios em trejeitos insólitos, desordenados, simplesmente terrificantes.
Parece que uma revolução se lhe havia operado no cérebro.
Súbito, abriu o armário, colheu o punhal fratricida e disparou correndo.
Lesta e ténue qual sombra, atravessou a casa e dirigiu-se ao terraço onde estava o marido.
à ombreira de uma porta em colunata que dava para o jardim, estacou por momentos:
Cláudius lá permanecia assentado à mesa repleta de iguarias.
É que a noite fechara e, para matar o tempo e a surda inquietação que o remoía, ele mandara servir o jantar, embora lhe minguasse o apetite.
De ouvido alerta a cada rumor que lhe chegava, estremecia, tentando afogar no vinho as emoções que o perseguiam.
Um leve roçagar de panos chamou-lhe a atenção: virou-se e viu a mulher parada à porta, branca da cor do vestido, a fitá-lo com olhar feroz.
Acreditou que tinha a defrontá-lo um demónio vingador, egresso dos reinos de Plutão!
— Que é, Drusila? que me queres? — ousou dizer levantando-se.
Faltaram-lhe, porém, as pernas, a taça que empunhava espedaçou-se no ladrilho...
— Que me queres? — repetiu assentando-se novamente.
— Bandido! assassino! — exclamou ela com voz sibilante — enganas-te se é que pensas gozar o fruto do teu crime!
Vai, miserável, vai juntar-te à tua vítima.
Num salto de jaguar, atirou-se a ele e, com energia e precisão surpreendentes, enterrou-lhe o punhal na garganta, até o cabo.
O ferido levantou-se, deu um grito surdo, levou a mão à boca, gorgolejando sangue.
Cambaleou tentando alguns passos e caiu exânime. Morto...
Drusila inclinou-se para o cadáver e o examinou com olhar de fera saciada.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 20, 2017 11:21 pm

— Está morto e bem morto — murmurou — e agora é preciso arrasar também este tecto maldito.
Deu uma gargalhada sinistra. Tomando uma das mechas de sobre a mesa, chegou fogo às vestes do morto e, seguidamente, aos tapetes e cortinas.
— É preciso queimar tudo... — repetia.
De repente, o riso se transformou em pavor:
— Oh! o Vesúvio, o vulcão! — exclamou angustiada.
E chamava Cáius, Drúsus, o pequeno Semprônius...
Aqueles gritos não tardaram a repercutir em toda a casa.
Entretanto, que esforços humanos poderiam dominar o incêndio?
Peristilos, colunas, galerias ardentes, braseadas espelhavam-se, pela última vez, nas águas profundas do golfo, para que o Sol da manhã não banhasse mais que um montão de escombros fumegantes, vestígios informes de paredes que testemunharam tantas desgraças e tantos crimes.
Um pouco afastados do braseiro, os servos mudos e consternados grupavam-se em torno do cadáver de Drusila, asfixiada antes que pudessem arrebatá-la, já demente, do turbilhão de fumo.
Dentro de poucas horas, um barco singrava as águas do golfo à força de remos.
Iam levar a Agripa a triste nova dos trágicos eventos que, consumando uma estranha fatalidade, acabaram por destruir o último rebento do filho dilecto do poderoso e nobre Titus Bálbus Semprônius.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 20, 2017 11:21 pm

Epílogo - AS SOMBRAS DA CIDADE MORTA

Noite. A Lua peneirava no ambiente a sua luz prateada, que se estendia qual lençol na planície pardacenta, uniforme, até a extrema do horizonte, onde se desenhava memento mori, a silhueta do Vesúvio com o seu penacho de fumo palhetada de cintilas.
Aquela planura desolada e coalhada de farpas e blocos de lava, sulcada de brechas profundas, era a mortalha das duas cidades.
Debaixo do lençol de pedra e cinza dormiam Herculânum e Pompeia, afogadas de improviso, na plenitude da sua actividade colectiva, pelo velho gigante flamívomo, até então considerado inofensivo.
Se fora dado a humanos olhos ver, no fundo daquele vasto sarcófago, um espectáculo porventura mais desolador ainda se lhe depararia.
Lá veriam a cidade morta, com as suas ruas desertas e devastadas, as casas vazias e os templos arrombados.
Na treva espessa daqueles lugares lúgubres erravam, ora isolados, ora agrupadas, pequenas flamas oscilantes como fogos fátuos.
Rápidas e como que agitadas, aquelas luzes semelhantes a falenas ígneas voejavam sob as cúpulas das casas abandonadas e aclaravam alguma estátua ainda de pé, quando não um montículo de cinza petrificada, sob o qual se conservava, para os séculos futuros, o selo do infeliz ali tão tragicamente amortalhado.
Numa casa outrora ricamente ornamentada, cheia de objectos preciosos e que havia excepcional e melhormente resistido à destruição, um grupo numeroso de pequenas flamas esvoaçavam agitadas, parando de quando em vez junto de um quarto, onde se viam dois esqueletos abraçados, para logo em seguida se deterem num corredor em que se comprimia um grupo ainda estranho.
Todos aqueles fogos fátuos, brilhantes uns, esmaecidos outros, dirigiram-se, no seu curso oscilante, para um porão vasto e abobadado, cujas paredes guarnecidas de urnas funerárias testificavam a sua utilidade.
Pouco a pouco, o subterrâneo se aclarou de uma luz azulada e as borboletas ígneas se transformaram em nuvens brancacentas e logo em sombras vaporosas, atraídas reciprocamente pelas vozes da afeição ou da inimizade, até que se congregaram junto de uma grande urna de alabastro, na qual se recostava uma mulher de traços regulares, com uma bela cabeleira negra.
Junto dela, desenhava-se nítida a cabeça grisalha de um homem alto, fisionomia enérgica, e o vulto atlético de um rapaz de olhos negros e brilhantes.
Em torno dos três comprimiam-se os atores do drama terreno, que parecia encerrado com a morte, mas cujo desdobramento (ai deles) devia projectar-se por séculos futuros, a reclamar de cada qual, inexoravelmente, benefício por benefício e sofrimento por sofrimento.
Todos aqueles semblantes espelhavam tristeza, remorso, amarguras.
— Oh! meus queridos pais — exprimiu o pensamento de Cáius Lucílius —, que terríveis angústias laceram o espírito do homem quando, de olhos abertos, ele sonda as suas encarnações passadas!
Quantas faltas, quantos erros se poderiam evitar!
E quantas ocasiões se perdem de praticar o bem e adquirir amigos!
— Eu sofro — suspirou Lívia — por haver repelido, com ciúme e orgulho, os filhos da minha rival...
E agora Nero e Semprónia me vêm lançar em rosto, asfixiando-me com seu ódio, o fim miserável que tiveram!
— Participo do teu sofrimento, Lívia — obtemperou Semprônius baixando a cabeça acabrunhado —, cego de egoísmo, escorracei para longe do lar e do coração os seres a mim confiados para os fazer progredir; não quis compreender que o amor se pode dilatar infinitamente, sem nunca se exaurir.
Também tu, Cáius, terias sofrido menos se eu me houvera mostrado equânime para com todos os meus filhos.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 20, 2017 11:22 pm

Foi a minha austera preferência que te criou três inimigos, que agora me perseguem com o seu ódio.
Só aqui pude compreender que, em tornar-me cristão, iria adquirir um grande benefício, qual o de aliviar os derradeiros momentos da vida terrena; mas também compreendi que essa conversão por si só não bastava para escoimar-me dos meus crimes.
As máximas sublimes do Cristianismo proclamadas em nome do Divino Missionário para lembrar aos homens as leis da caridade, esses preceitos sublimes, já os conhecia do mundo espiritual, mas, endurecido e rebelde, repelia-os por incómodos; agora, desiludido com a morte, vejo que não basta baptizar o corpo e o que importa é retemperar o espírito na humildade e na oração, a fim de poder exemplificar em actos os mandamentos de Jesus.
Ah! filho querido, quão pouco a alma humana embotada na carne, orgulhosa do seu terrenal asilo, compreende a finalidade da vida!
Ao invés de lutar contra as paixões e arrastamentos da materialidade, ela supõe que.um simples arrependimento de boca mendaz, per jura, blasfema, basta para torná-la pura; e que uma criatura farta de gozos, embora já incapaz de pecar, possa resgatar faltas repetindo ensinamentos que jamais praticou.
Terrível o despertar aqui, onde vemos o caminho a percorrer, o formidável trabalho a realizar para nos domarmos e podermos retomar novo corpo, como legítimos discípulos de Jesus.
— Compreendo-te, meu pai, mas deixa que me acuse de maior culpa, visto que, convertido por minha livre e espontânea vontade, nem sequer tive o desejo de lutar a prol da minha nova fé e cheguei mesmo a renegá-la, covardemente, logo que me vi na iminência de comprometer interesses humanos.
Nesse instante, uma viva claridade inundou o subterrâneo com a irradiação de uma figura de suavíssima beleza.
O olhar sereno daquela entidade superior fixou-se piedoso no grupo penitente.
— A fé no misericordioso Criador do Universo — parecia dizer em pensamento — não está num altar em que se deva imolar a carne de seus adeptos, nem é oferecendo o corpo à morte e a torturas inúteis que a Deus se glorifica.
É só mediante provas rudes, em porfiadas lutas, que as almas adquirem a força de corresponder, por actos concretos ao bem, ao belo, ao verdadeiro.
Mas essa grande força, que é emanação do próprio Deus, não se manifesta nem pode ser mesquinha e parcial, qual a entendem os homens.
Ela pesa o espírito, não a letra, e é por isso, meu filho, que tua abjuração diante dos homens ser-te-á relevada.
É que os preceitos de Jesus estavam no teu íntimo, visto haveres perdoado àquele que atentou contra a tua vida, bem como socorreste a pobre mãe do salteador da tua honra.
Todas as religiões prescrevem fazer o bem e evitar o mal, pelo que são todas iguais à face de Deus.
Assim, quaisquer que sejam os credos, seus prosélitos se farão igualmente amados do divino Mestre, desde que lhe cumpram o essencial preceito.
“Mas, não é apenas isso que vos venho dizer, oh! pobres espíritos vacilantes e perturbados, a fim de vos fortalecer e sustentar na rude ascensão.
Estou autorizado a vos desvendar um futuro ainda longínquo no ambiente terreno.
Tempo virá, no qual a religião de amor pregada por Jesus, visando a nobilitar a triste Humanidade, perderá a sua influência eficiente: descobertas científicas e desvendadoras de parcelas da sabedoria infinita, orgulharão os homens a ponto de negarem tudo que não possam pesar e medir na craveira dos seus instrumentos e processos de investigação.
Deus não passará de hipótese absurda ou ilusão quimérica!
Chasquearão da fé e, como derivativo lógico e inevitável de tais princípios, verdadeiros anjos decaídos, estultos e presunçosos, chegarão até à revolta contra o Criador e Pai.
A Humanidade se animalizará, então, quebrará todos os freios e, nessa corrida cega de gozos a qualquer preço, o vício se altanará em virtude, a maldade reinará soberana e milhões de inteligências, privadas do senso moral, estrebucharão e procurarão no suicídio um remédio para a vacuidade que as tortura.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 20, 2017 11:22 pm

“Quem quer que nesses evos ainda conserve noções do bem, há-de tremer e mandar seu brado de angústia ao Criador, jamais surdo a uma prece sincera; mas, como nessas almas enceguecidas pelo orgulho, esterilizadas pelo egoísmo, nenhuma palavra pode frutificar, o Eterno em sua clemência dirá aos seus servos:
“Baixai, misturai-vos com os vossos irmãos encarnados, provai-Ihes a sobrevivência, a imortalidade, a cadeia engendrada pelo mal e poupai-lhe, dessarte, um demorado arrependimento mediante tremendas expiações.”
A essa palavra de ordem, falanges se abalarão do Invisível e a Terra se coalhará de missionários obscuros, que, por suas faculdades, permitirão aos desencarnados manifestarem-se aos homens, deixando-se controlar de todos os modos.
E, então, uma luta encarniçada se empenhará entre o cepticismo presunçoso e a verdade que não mais poderá ser abafada.
“Deveis visualizar, desde já, essa época de grandes lutas intelectuais, preparando-vos para atravessá-la em etapas sucessivas.
Se, a esse tempo, tiverdes adquirido a força para o bom combate, ou seja, o domínio das próprias paixões, a fim de corresponder ao ataque do adversário, que não mais vos queimará o corpo mas há-de ulcerar-vos a alma — grande será a vossa recompensa e podereis, quem sabe, deixar este calabouço da Terra para ascenderdes a uma esfera melhor.
Sonhai com esse futuro, caros irmãos atónitos, e trabalhai, pois áspero será o embate e... — ai de vós — “muitos serão os chamados e poucos os escolhidos”.
Lançando sobre os espíritos ali reunidos um eflúvio vivificante, a entidade luminosa projectou-se no vácuo.
Sua presença atraíra, contudo, numerosos ouvintes, que ali se comprimiam, amigos e inimigos.
Sacudidos pelos mais díspares sentimentos, as entidades mais odientas entreolharam-se mudas. O desejo de progredir, de não faltar à parada dos soldados da Verdade e adquirir o prometido galardão, a todos animava, mas nenhum se iludia quanto aos tropeços da tarefa.
— Amar os que me repudiaram, não mais invejar Cáius, perdoar a Cláudius a sua doblez covarde, poderei fazê-lo jamais? — exclamava Nero.
Vibrando, dilatando-se por momentos num círculo de fogo, o perispírito de Metela flutuava diante de uma sombra negra, da qual jorravam flamas espessas, fumosas, características de paixões rasteiras e violentas.
— Eras tu, então, Sálius, que o meu instinto farejou no invólucro de Flávius?
Oh! ser odiento que, em tantas etapas, me arrastaste ao crime, como poderei amar-te, perdoar-te, trocar contigo o mal pelo bem?
Esforço extremo que só a perspectiva da perfeição permite conceber...
— Mas, terás de o fazer se quiserdes alcandorar-te nas primeiras filas que imaginas únicas dignas de ti — satirizou, gargalhando, o espírito de Sálius...
E a sombra de Tibério trovejou surdamente:
— Hei-de domar-te, hás-de amar-me Virgília.
— Nunca! — respondeu esta — sofrerei tudo, hei-de progredir, mas nunca, nunca me aproximarei de ti; e enquanto apodreceres ligado a Foebe, cujos instintos ignóbeis hão-de reter-te no muladar do vício, eu subirei, eu lutarei pela boa causa, unida aos que me são caros.
A agitação propagava-se entre os culpados, uns procuravam reconciliar-se, outros se prometiam vindictas implacáveis.
O turbilhão potente de uma vontade superior fez cessar a querela e, como se fossem flocos de névoa, levíssimos, todos foram suspensos, arrastados e dispersos no Espaço, a fim de se prepararem pelo jejum e pela prece, para novas encarnações.
*
* *
O tempo, esse nada tão longo para o homem quanto incomputável para o espírito, havia dobado séculos na sua impassibilidade imutável.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 20, 2017 11:22 pm

Insensivelmente, mais de 17 séculos haviam transcorrido, a caírem qual gotículas fugitivas no bojo hiante da Eternidade, onde os biliões de biliões de pérolas semelhantes nada representam.
Na trama desses séculos se haviam escoado muitas existências; os Espíritos, cuja história descrevemos, tinham lutado, pecado, expiado; uns se tornaram virtuosos e sábios, outros permaneceram estacionários.
Chegara, enfim, o momento decisivo predito pelo Espírito superior nos subterrâneos de Herculânum.
Ia começar a grande pugna do plano espiritual contra o ateísmo presunçoso.
Antes de reencarnar, aqueles que primeiramente deveriam fazê-lo, procuraram reunir-se. Graves, concentrados, evocaram o passado e olhavam ansiosos para o futuro.
Sairiam vitoriosos das provas que os aguardavam?
Soleníssimo instante, aquele: o deslocamento das massas inteligentes ia graduar uns e rebaixar outros, retardatários, a mundos inferiores, onde se prestariam a instrutores de humanidades mais incipientes.
Entre aqueles grupos numerosos encontrava-se Semprônius, que, antes de encarnar, se despedia de Cáius Lucílius.
— Temo — repetia — deixar-me empolgar ainda uma vez pelos interesses de ordem material, de vez que me vou novamente ligar a Lívia, mas, tendo por filhos os seres que conheces...
E poderão eles amar-nos como lhes cumpre?
E saberemos nós, por nossa vez, afeiçoá-los a nós mediante profundo afecto que nos identifique e escureça o passado?
E Nero, de novo meu filho, poderei mantê-lo e conduzi-lo na senda do bem?
— Prometi-lhe apoio e penso que desta vez ele encontrará o coração e os braços de pai — respondeu Cáius.
Coragem, meu velho e fiel amigo, hás-de cumprir o teu dever, visto que Nero também cuidou de melhorar-se e está possuído das melhores intenções.
Eis que surge o Espírito de Nero, também aflito e agitado.
— Oh! Cáius, reconheço agora, de bom grado, a tua superioridade; quero lutar valorosamente pela nova fé, o que me permitirá aproximar-me de ti.
Ajuda-me para não falir, para não experimentar pela beleza da tua alma aquele velho ódio que me inspiravam os teus dotes físicos.
Eu vejo, eu sinto que o teu perdão é sincero, mas, ainda assim, posso tropeçar e, se me faltar a flama que me aclare o caminho, então, está visto, rolarei no abismo de uma existência inútil, pois, em mentindo à própria consciência, só poderei ser um falso sacerdote no ofício do Bem e da Verdade.
— Meu irmão, lembra-te de que a minha voz só pode ser ouvida sutilmente, fracamente, e que, por outro lado, as paixões humanas hão-de rugir no teu âmago; mas, tanto quanto me seja possível, ajudar-te-ei, procurarei esclarecer tua alma.
Teu pai, a quem deveras levar a verdade pela crença espírita, também te será na Terra um sustentáculo.
— Bem o sei e, não obstante, tremo; mas, se eu vacilar, se me deixar sugestionar por inspirações pérfidas; se, obliterado pela carne, assediado por inimigos visíveis e invisíveis (olha que Cláudius vai encarnar a meu lado), não me mantiver firme e me afastar da luz, quem, a não ter tu, Cáius, poderá auxiliar-me?
— Ao demais, aquele a quem me cumpre oferecer a salvação, esse, pressinto-o, há-de amparar-te — disse Semprônius com vivacidade.
— Oh! — replicou Nero já tomado de forte agitação — teu espírito inflexível, de antes quebrar que torcer, não encontrará, talvez, brecha em meu coração.
Serás capaz de recrutar mendigos da rua para beneficiá-los, mas ao mendigo espiritual que te será filho, hás-de o entregar a si mesmo em sua luta moral e lhe dirás possivelmente — “assim o quiseste”.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 20, 2017 11:22 pm

Atirar-me-ás, ainda uma vez, com o teu ouro, ao invés de me dispensares indulgente, paternal afeição?
Serás capaz de sustentar o filho pródigo nos seus desfalecimentos?
Repelido dos homens por mim ofendidos, amar-me-ás bastante para reconduzir-me à senda da verdade?
Não, sem dúvida, pois eu prevejo que o nosso ódio se reacenderá para asfixiar todos os bons sentimentos e as aspirações generosas que também havemos de acalentar.
Mas ao menos tu, Cáius, não te apartarás de mim?
O remoto convertido de “pai” João suspirou profundamente.
— Acreditas fácil a minha tarefa?
Estás vendo esta falange de Espíritos que, gradualmente, vão encarnar para progredir, desbravando o terreno para germinação das verdades espíritas?
Entre essa massa, quantos se detestam entre si?
Quantas inteligências acanhadas, presunçosas, invejosas?
Pois bem, em consequência mesmo da pesada missão que pedi, todos esses seres de mim se aproximarão para solicitar conselhos, auxílio moral em suma; cegos na carne, eles não me conhecerão, mas eu os reconhecerei através da máscara carnal, com todos os vícios e falhas, ingratidões e covardias com que haverão de retribuir o meu devotamento.
E nessa luta enervante, com a incredulidade jactanciosa, eivada de torpezas humanas, a mim só me cabe ser calmo, indulgente, equânime como a. própria verdade a proclamar.
Hei-de ser o amigo, o conselheiro, o consolador de todos quantos para mim apelarem, sejam amigos ou inimigos, a todos servindo como operário humílimo, e ainda que certo de ter a calúnia e a traição por exclusiva recompensa...
Repito: essa tarefa será rude, perigosa mesmo para o meu temperamento arrebatado.
Trata pois, amigo, de não agravá-la mais ainda.
De resto, meu irmão, seja qual for o futuro, e mesmo que, estimulado por velhas hostilidades, te venhas a separar de mim e do grupo de minha direcção, não consideres uma tal deserção como decisiva para a tua fé.
O homem pode a qualquer tempo tropeçar e cair, mas tende sempre a levantar-se e atingir a verdade noutro rumo.
Deus está em tudo e por toda a parte e não são os homens, em si e por si, que fazem o Espiritismo, mas a sua convicção e os seus actos.
Lembra-te de que, divorciados na Terra, acabamos sempre reencontrando-nos aqui...
Da falange em preparo de encarnação, destacou-se numeroso grupo que rodeava o Espírito de Cáius, a suplicar-lhe amparo, tendo em vista fraquezas e quedas pretéritas.
Nesse grupo viam-se Cláudius, Túlia, Tibério, Dafné e muitos outros.
O fogo divino da caridade, o desejo de reparar passados erros, melhorando os seus semelhantes, repletou de luz a alma ardente e generosa do que fora Cáius Lucílius.
— Sim! quero perdoar a todos vós os sofrimentos que me infligiram, elevando bem alto a flama da Verdade, comprimindo ao peito a cruz — símbolo de eternidade e redenção — quero ensinar a todos o bem, abrir-lhes os olhos para as faltas cometidas, mostrar o caminho da perfeição.
Pela palavra, pela pena e pelos actos, hei-de provar-vos a existência do além-túmulo e convencer-vos da imortalidade da alma; trabalharei sem descanso para desbravar e aclarar a vossa trilha.
Todos os que se achegarem a Rochester, encontrarão nele um auxílio, um conselheiro infatigável, sejam amigos ou inimigos.
Quanto a ti, Dafné, preciso dizer-te algumas palavras em particular: — todas as tuas encarnações não têm sido mais que uma trama de ignomínias, de sensualidade, de porfiadas teimosias.
Encarnando sucessivamente Radamés, Dafné, Court, sempre te revelaste ingrata, desleal, perjura para comigo; e, contudo, a afeição que me inspiraste não se esgotou ainda.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 20, 2017 11:22 pm

Considero-te, pois, contrapeso da bagagem de perfídia, ingratidão e ódio que me incumbe carregar por toda a parte.
Sabes que os Espíritos elevados, que foram juízes da tua última encarnação, houveram por bem impor-te uma vida de miséria e humilhações...
Eu tive pena de ti, retirei-te do charco, ofereci-me para ser o teu fiador e, graças a isto, obtive condições de vida que, se me fores fiel, far-te-ão progredir sem tantos sofrimentos..
Toma, pois, mais sentido agora: se ainda uma vez traíres minha confiança e complicares a tarefa, abandonar-te-ei definitivamente aos teus inimigos e, portanto, a uma justa expiação que, por sua maior dureza, possa vencer tuas más paixões.
Assumindo a responsabilidade do teu progresso e convicto de que só o sofrimento e a desdita poder-te-ão domar, velarei por ti e, tenaz quanto o tens sido na ingratidão e na maldade, hei-de o ser na exação das tuas provas expiatórias, não te pouparei lágrimas nem dores morais que te purifiquem.
“Reflecte, portanto, enquanto é tempo.
Se te sentes fraca, desiste desta encarnação e vai preparar-te melhor para outra, que os teus juízes hão-de apontar-te.”
O Espírito de Dafné agitou-se inquieto:
— Juro-te amor, fidelidade e obediência em tudo — murmurou, mas sem deixar de pensar, com a rapidez de um relâmpago, que sempre fora preferível poder esquivar-se, no momento, para ter vida folgada sob a égide de um protector cuja eficiência e bondade houvera já experimentado tantas vezes.
Nos tempos propiciatórios ao advento do Espiritismo, seria mesmo da maior conveniência ligar-se à fortuna, tornar-se assim uma espécie de alfenim privilegiado de um Espírito poderoso qual Rochester, por sua energia e desenvolvimento intelectual, e cujo trabalho poderia mesmo produzir aquele metal fascinante que ela, Dafné, em todas as etapas terrenas se habituara a esbanjar.
E, ainda que fraquejasse e viesse a trair a confiança de Rochester, não lhe tinha ele já perdoado cem vezes os mais torpes perjúrios? Poderia contar com a sua indefectível indulgência...
Como todo espírito atrasado e covarde, Dafné era incapaz de sondar uma alma qual a do seu protector, para lhe avaliar os limites da paciência e, no ardor das suas conjecturas, não se precatava de que a inteligência superior estava a ler-lhe o pensamento.
— Estás enganada e desta feita terás de liquidar contas com o hoteleiro, — respondeu-lhe Cáius, ou Rochester (como queiramos chamar-lhe).
Se me traíres, terei a punir mais que uma ofensa pessoal. Encarreguei-me de velar por tua evolução e hei-de reconduzir-te, regenerada, à presença dos teus juízes.
Definitivamente convicto de seres um dos tais alunos a quem não aproveitam métodos de brandura, não vacilarei em tornar-me o ríspido mentor que reclamas.
E depois de trocar com Semprônius um derradeiro pensamento simpático, elevou-se, desapareceu no espaço...
*
* *
Mais de meio século se computara na Terra após a reunião astral que acabámos de descrever.
Encarnados achavam-se já quase todos aqueles Espíritos convocados ao testemunho de solidariedade, consequente às resoluções já tomadas.
Chegara também para Cáius Lucílius a hora de cumprir sua missão de trabalho e abnegação.
Seguido de uma plêiade de amigos devotados, mas também de inimigos indefessos, baixou ele das regiões infinitas, morada dos libertos, a fim de iniciar a pesada tarefa na espessa atmosfera terrena.
Densos, avermelhados fluidos sulcados de fagulhas eléctricas envolveram-no como que num globo ígneo: era o material planetário destinado a religá-lo aos seus médiuns e ao ambiente material em que deveria operar.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 20, 2017 11:23 pm

A seu lado flutuava um Espírito, cuja diafaneidade luminosa atestava a mais alta hierarquia moral.
— Não é verdade, sábio e valoroso mestre, que me hás-de amparar na pesada tarefa?
Bem sei que faltas e quedas me cumpre voluntariamente resgatar; e no entanto, à última hora, sinto-me acovardado, hesitante, temeroso.
Encoraja-me, mestre!
Terei a paciência de conservar-me fiel arauto da verdade entre homens presunçosos, pérfidos, galvanizados na incredulidade por força dos gozos materiais?
Oh! se eu pudesse ser poeta, escrever com caracteres de fogo os dramas do passado, esclarecer os encarnados sobre a vida de além-túmulo...
Então, penso, nada macularia a limpidez da minha obra...
Ligado, porém, aos homens, envolvido em suas lutas, interesses e ignomínias, não me deixarei assomar e apaixonar pelos pendores do meu espírito arrebatado, ao ponto de odiar e castigar como já me há sucedido?
Agora, padre Amenófis, eu penso muitas vezes que, quando eu encarnava a personalidade de Mernéphta, tu me dizias constantemente que todo homem que atrofia e rebaixa, mediante uma existência materialista, o princípio divino que o distingue, pode ser equiparado ao animal.
Não vemos, na época actual, milhares de criaturas que, pervertidas no ateísmo, cegadas por um orgulho ridículo, ávidas de fortuna e gozos, levam existência instintiva de irracionais?
A esses, como conquistá-los?
Como encontrar a pista de suas almas?
Tu mesmo, tu, valoroso centurião que não há muito foste Allan Kardec; tu que na última encarnação te devotaste à fundação de uma doutrina que esclarece e consola a humanidade, quantos dissabores não amargas te?
— Não te importes, meu catecúmeno de antanho; — a tarefa que ora empreendes é pesada, mas também assaz nobre e bela para lhe devotares todas as energias do teu espírito resoluto e operoso.
Trabalhar na grande obra da regeneração da humanidade demonstrando-lhe, com provas inconcussas, a imortalidade e responsabilidade do ser pensante, é missão digna de todo espírito generoso.
Pensa nisso, meu amigo, e encontrarás energias para dominar os teus ímpetos violentos, e a tua palavra tocará e abrandará os corações endurecidos na carne.
Precisarei assegurar-te o meu concurso?
Não. Todavia, esperam-te muitas decepções, muitas deserções que, seja dito, não deverão desanimar-te, pois toda obra que se processa no meio humano é frágil e sujeita a mil vicissitudes.
Que importa?
O eterno e o verdadeiro acabam sempre por triunfar.
Vê a minha obra terrestre, na qual operei com toda a prudência e discernimento possíveis, por dar-lhe bases sólidas, entrosadas na verdade.
Pois bem: desde que desencarnei — e muito pouco tempo há —, quantos negadores, detractores e acusadores não têm surgido, que pretendem refazer, emendar, melhorar e até trocar os princípios dessa obra?
Desanimo ou me entristeço com isso?
Não! Não, porque, naqueles pontos em que, porventura e malgrado minha boa vontade houver errado como homem, a verdade ressaltará, a todo tempo, e o que é verdadeiro e eterno permanecerá inexpugnável, superior a todos os ataques.
Vai, pois, amigo, vai trabalhar também, sem precipitações nem desfalecimentos, vai continuar e complementar a minha obra.
À proporção que discorria, uma luz mais a mais intensa, reflexo de resoluções generosas, banhava o perispírito de Cáius Lucílius.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 20, 2017 11:23 pm

— Sim, como sempre, tens razão: — trabalharei, farei por dominar-me, beneficiar a Humanidade, continuar a tua obra; votar-me-ei a propagar a tua doutrina em toda a sua genuinidade, com todas as forças de minha alma e recursos de inteligência; combaterei sem tréguas pelos postulados de verdade que proclamaste, e o Criador de todas as coisas há-de amparar-me e bendizer os meus esforços e mágoas.
Um jacto de fogo jorrou dos dois Espíritos e cintou-os num abraço cordial.
Depois, o Espírito de Kardec ascendeu aos paramos infinitos.
Sempre animado daquele generoso entusiasmo que acabara de experimentar, Cáius Lucílius (Rochester) continuava, com os seus companheiros, a aproximar-se da Terra.
Bem depressa divisou uma grande cidade cujas ruas e casas estavam cobertas por um lençol de neve.
Lançou, então, no espaço, filetes luminosos que o atraíam e ligavam mais a criaturas que mal podiam suspeitar da sua presença invisível.
Parou, por fim, diante de vasto, edifício em cuja portada se via uma águia de bronze, de asas abertas, a valer por símbolo de protecção aos que ali se abrigavam para o estudo e desenvolvimento do progresso.
Lançando em torno um olhar melancólico, o visitante espiritual penetrou um salão parcamente iluminado.
Em linha de leitos paralelos, dormiam jovens criaturas inteiramente despreocupadas.
Era véspera de Ano-Novo, os asilados procuravam ler a sorte, tão curiosa sempre para os mortais, justamente porque a desconhecem.
O lugar diante do espelho estava, naquele momento, ocupado por uma rapariga nova, rosada, de traços infantis, cujos cabelos castanhos lhe caíam ondeantes sobre as espáduas nuas.
Os olhos grandes, azuis, de estranho brilho, irradiavam esperança, um ingénuo optimismo da humanidade e da vida.
Mas, no mesmo instante, um jacto de fogo lhe penetrou o corpo, flechando-lhe o coração.
Ela estremeceu, seu olhar nublou-se e, pálida, comprimiu o seio com as mãos.
O pressentimento das provas que aquele favor do céu havia de acarretar, fê-la dar um profundo suspiro.
O Espírito acabava de ligar-se ao seu médium e dar-lhe, simultaneamente, a intuição do despeito, do ódio e do ciúme que o seu trabalho haveria de suscitar entre os homens.
Enleada, constringida pelo anel de fogo, a moça levantou-se mal disposta e atirou-se na cama.
Rochester projectou sobre ela uma torrente de fluidos e logo o seu torpor se transformou em sono reparador.
“Descansa, filha, até ao momento em que devamos abrir a luta pela verdade.
Assim me seja possível tornar-te calma, corajosa, indulgente, visto que a vida actual é um campo de batalha cujas consequências só na morte se podem avaliar...
Isto murmurou, enquanto se alçava ao espaço, obsecrando em prece ardente:
“Deus todo poderoso, ampara-me, sustenta-me na tarefa que me impus.”

ROCHESTER

§.§.§- O-canto-da-ave
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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