Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 09, 2017 8:43 pm

O nobre patrício estacou surpreso, ruborizado e exclamou:
— Que é isto?
Que fez o rapaz para ser assim castigado?
Tu, Próculus, bem sabes que nenhum escravo pode ser punido sem minha ordem.
Ao timbre daquela voz veemente e sonora ao mesmo tempo, todos recuaram estarrecidos.
O patrício correu para Gundiear sempre encolhido, e, pousando-lhe a mão nos cabelos emaranhados, perguntou compassivo:
— Que fizeste? fala sem receio...
O rapaz ergueu os olhos, atónito, mas, incapacitado de falar, tombou desfalecido no lajedo e, ao descruzar os braços, deixou à mostra, sobre o peito, a corrente com o camafeu.
— Ladrão! roubou! vejam — exclamaram simultaneamente a criada e o feitor, apontando a jóia.
Fábius teve para o pequeno ensanguentado um olhar de profunda compaixão.
— Deveriam ter-me comunicado o delito e aguardar minha decisão.
Próculus, vai transmitir o teu cargo a Grácus, já que me não convém feitores que mandem mais do que eu; e quanto a ti, Rufila, para outra vez não leves denúncias aos feitores antes de ouvir tua senhora.
E vocês, que aí estão, levem o rapaz e digam a Scopelânius que mande dar-lhe um banho e uma boa cama, enquanto eu vou cuidar do resto. Rufila, a patroa já voltou?
— Sim senhor — adiantou Próculus —, a senhora aqui esteve, quis saber o que havia e não sustou o castigo...
Isso, disse-o com expressão desconsolada, já acovardado com a sentença da sua destituição.
Diante daquela informação, o moço patrício corou e empalideceu sucessivamente.
Tomou o camafeu que um escravo lhe apresentava e, retirando-se bruscamente, galgou apressado os aposentos de Virgília.
Ao atravessar a alcova, atirou à mesa o malsinado objecto e rompeu no terraço para debruçar-se à balaustrada sem fitar a esposa reclinada no diva.
Ela ergueu-se inquieta.
Se o marido assim procedia, é que estava contrariado.
Era evidente, conhecia-lhe o génio.
— Fábius, vem cá...
E ele, mudo, imóvel!
Ficou vermelha, fitou-o agastada e surpresa.
Disse-lhe então Marcus Fábius, calmo, mas sem lhe voltar o rosto:
— De passagem pelo pátio, tive ocasião de ver o bárbaro castigo infligido ao pequeno Gundicar e lá me disseram que a “senhora” também a ele assistira e não sobrestara a iníqua execução...
Que juízo poderei fazer do teu coração?
Tu, jovem, sensível; tu que és mãe deverias, a meu ver, abominar toda e qualquer crueldade; no entanto, assistes ao suplício de uma criatura imbele e sem defesa, contemplas uma criança lanhada, sangrada por haver furtado um reles objecto provindo de um indigno tirano, e segues tranquilamente o teu caminho, sem nada dizeres, sem nada impedires!
Confesso, jamais esperava de ti um tal procedimento...
Virgília assentou-se no diva, olhos brilhantes, rosto esfogueado, e disse:
— Detesto esse rapaz e penso, simplesmente, que ele mereceu o castigo, pois o que me pertence não pode ser furtado, seja o que for e qual for a sua origem e natureza.
Marcus Fábius voltou e caminhou para ela.
— Pois tu não te envergonhas de odiar um ser tão desgraçado, sem família, sem posição, sem liberdade?
Amado e acarinhado entre os seus, tanto quanto os nossos filhinhos entre nós, os asares da guerra o fizeram prisioneiro e, só por isso, há-de ser tratado pior que um animal?
Eu por mim sempre considerei uma indignidade o odiar e desprezar criaturas sujeitas ao meu domínio.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 09, 2017 8:43 pm

Desprezo e ódio devemos reservá-los para os da nossa condição.
Certo, essa criança fez jus a castigo, que podia ser, por exemplo, prendê-lo a pão e água, ou dar-lhe serviço dobrado, mas nunca surrá-lo assim, a ponto de lhe fazer do corpo uma chaga viva!
E agora, Virgília, vais buscar o bálsamo e algum cordial refrigerante, a fim de pensares, tu mesma, em pessoa, as chagas daquele pobre infeliz.
Ela percebeu-lhe a intenção:
reparar o seu ato desumano, tanto que, um tique de teimosia e despeito lhe transpareceu no semblante.
— Rufila! — chamou, sem arredar pé.
A criada apareceu.
— Vai buscar ataduras, o pote de bálsamo e aquela ânfora que está no armário, e depois vai cuidar das feridas de Gundicar.
Enquanto a serva juntava os aprestos, Fábius manteve-se calado; depois, arrebatando-lhe as ataduras e os remédios, disse-lhe:
— Acompanha-me, eu mesmo vou pensar o ferido.
Saiu rapidamente.
Virgília ficou surpreendida e como que hesitante, mas logo saltou da cadeira e foi alcançar o marido a caminho.
Segurou-o pelo braço e disse:
— Como é isso? queres rebaixar-me perante os fâmulos avocando a ti o que só compete a uma mulher, ou melhor, a uma escrava?
Ele encarou-a com serenidade e firmeza:
— Devo fazê-lo, uma vez que te recusas e não quero constranger-te.
Deixa-me, contudo, dizer-te que os actos caritativos não são, não podem, não devem ser exclusivamente atribuídos aos escravos.
As mãos mais aristocráticas podem e devem pensar feridas.
Permitir que as façam a chicote no corpo de uma criança é o que pode e deve considerar-se próprio de escravos.
Carrancuda, lábios frementes, ela arrancou das mãos do marido as ataduras e afastou-se ligeira, acompanhada de Rufila igualmente afobada.
Precedida por Grácus, o novo feitor, encaminhou-se ao alojamento dos escravos e penetrou num quartinho muito limpo e arejado, cuja janela abria para a horta.
Gundicar ali estava estendido na enxerga, de olhos cerrados, imóvel.
Junto dele uma preta se ocupava em molhar numa bacia os panos ensanguentados.
Ao avistar a senhora, veio humildemente beijar-lhe a fímbria do manto.
— Como vai o rapaz? — aproximou-se um tanto indecisa.
— Ele nem se mexe, minha senhora.
Rufila retirou as cobertas e Virgília deu um grito abafado ao contemplar aquele corpo crivado de chagas, farrapos de peles soltas e placas arroxeadas.
— Ah! está bem castigado e com certeza nunca mais cairá noutra — disse Rufila, dirigindo-se a Virgília.
— Mas, a senhora está muito nervosa, deixe tudo a meu cuidado.
Vamos Hela, corre a buscar mais ataduras e água bem quente.
A patrícia afastou-se e assentou-se junto de uma mesinha, em atitude meditativa.
Arfava-lhe o seio, tinha vontade de chorar...
Por causa daquele mísero rapaz, Fábius se agastara, disse-lhe frases amargas e ela ali estava.
Pois bem: haveria de guardar-lhe, acrescido talvez, o mesmo incoercível rancor.
Nem jamais esqueceria tão detestável episódio.
Gemidos abafados do pequeno, que se estorcia ao mais leve contacto, despertaram-lhe novamente a atenção.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 09, 2017 8:44 pm

Intimamente, lastimava a sina daquele desgraçado, sem poder explicar-se o porquê daquela inelutável, instintiva aversão.
Levantou-se, encheu uma taça da poção sedativa e aproximou-se.
O semblante desfigurado e sofredor do jovem seviciado iluminou-se de ténue sorriso e seus olhos fixaram os de Virgília com aquele misto de admiração e ódio que lhe eram habituais.
— Bebe — disse, inclinando-se e apresentando-lhe a taça, que logo esvaziou com avidez.
Agora, trata de dormir: logo mais hás-de ter vinho e frutas.
Tirou da cintura um lio de rosas, entregou-lho e retirou-se fazendo um benévolo aceno de mão.
Da parte de fora, Próculus estava à sua espera e rojou-se-lhe aos pés suplicando obtivesse o seu perdão.
Disse-lhe que sim, que o faria, mas que evitasse, por enquanto, aparecer ao patrão irritado.
Um pequenote a correr, esbaforido, anunciou:
— O nobre Cáius Lucílius acaba de chegar e espera-te para o almoço.
Dirigiu-se para o átrium, onde dois homens passeavam conversando.
Trocadas as saudações, passaram-se ao triclínio, onde ela tomou lugar à mesa, enquanto os dois homens se estendiam nos divas.
Virgília guardava obstinado silêncio e Marcus Fábius mostrava-se apreensivo.
Cáius, que os observava de soslaio, disse, enfim, com um sorriso de comicidade:
— Amigos, estou a farejar por aqui algo do que me aguarda, se algum dia tiver a fortuna de me casar.
Há neste ambiente rufos e arrufos, uma coisa assim parecida a céu conjugal pejado de nuvens...
Será que não possa eu representar o génio da paz para vos reconciliar?
Sei de antemão que tu, Virgília, estás inocente e que o bárbaro Fábius quer encarnar o papel de tirano.
— Pois eu desejo, Cáius, que, quando tiveres uma esposa, seja-te ela uma doce medianeira entre ti e as rudes realidades da vida, de maneira que te poupe qualquer dissabor, para que os porventura aflorantes no santuário doméstico só a ti sejam devidos.
— Que mais desejas saber? — disse Virgília corando. — Fábius te dá a entender bem claramente quem é o responsável único pelo nosso desentendimento, e que eu só procuro causar-lhes dissabores...
Fábius deitou-lhe um olhar repreensivo e expôs sucintamente os acontecimentos daquela manhã.
Cáius, que tudo ouvira a chupar uma asa de caça, respondeu displicente:
— Acho que te incomodas muito por coisas de somenos, pois a mim me parece justo que batessem no brutinho até confessar o delito.
Com escravos não há proceder de outro modo.
Meu pai, sabes, é muito bom para os seus:
dá-lhes bom e farto alimento, trabalho moderado, mas não deixa de os castigar sempre que merecem.
Não corre um ano que não sucumbam cinco ou seis sob a vergasta, mas, nem por isso, papai se aborrece...
Morrem uns, compram-se outros; é o que ele diz e... faz.
Quanto a vovó, o caso é outro:
não se conforma absolutamente, e sempre que haja um flagício lá vai com os seus bálsamos e cataplasmas em socorro dos “pobrezinhos”, que é como os qualifica.
Cá por mim, penso que não vale a pena castigar tais brutos para ter de os socorrer logo após.
— Não te posso dar razão — redarguiu Fábius —, mas, em todo caso, a atitude de Fábia — a veneranda, confirma o meu conceito de que uma mulher nobre não pode presenciar actos tais de crueldade sem procurar impedi-los ou, pelo menos, atenuar as consequências.
— Hum! — resmungou Cáius — compreendo...
Depois, como para mudar de assunto, transmitiu ao casal um convite de Fábia e Semprônius para aquela noite.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 09, 2017 8:44 pm

Aceito o convite, prosseguiu:
— Tenho ainda um pedido a fazer-te:
quisera proporcionar a Virgília um passeio de carro, a fim de experimentar meus novos corcéis.
Quererás confiar-me a companheira da minha infância nessa aventura?
Escusado é dizer que serei prudente e iremos directos a casa, onde nos aguardarás, depois de um giro fora da cidade.
Marcus Fábius estendeu-lhe a mão e disse cordialmente:
— Agradeço-te a ideia de proporcionar esse recreio à minha mulher, sobretudo se me prometeres prudência...
Confio-te — como não? — a minha caprichosa bonequinha, mesmo para que ela desanuvie a fronte com a fresca aragem dos campos.
Daqui, vamo-nos ao terraço e lá beberemos um trago de vinho, que é mesmo uma ambrosia.
Isto, enquanto Virgília vai preparar-se. Depois, vocês partirão e eu seguirei de liteira para os receber lá em tua casa.
Horas depois, o carro de Cáius Lucílius reentrava na cidade pela porta mais próxima da casa de Semprônius.
A parelha resfolegante, coberta de espuma, atestava uma linda carreira.
Virgília, corada e risonha, parecia ter dissipado todas as mágoas e mantinha com o companheiro um diálogo animado.
Deslizando à tarde, absorvidos na palestra, não chegaram a notar Túlia e Dafné, que, embuçadas em mantos escuros, passavam de regresso à loja.
— Que mulher será aquela — murmurou a moça, premendo o braço da mãe.
— Não faças caso: aquela é Virgília, esposa de Marcus Fábius e companheira de infância de Cáius.
— Mas... a mim é que lhe competia ostentar no seu carro e não a mulher de outrem.
E que tal? Tão embevecido que nem nos viu! Veja como se riem, como se olham...
Crispava as mãos, contraía a face, parecia o demónio do ciúme.
— Vamos, anda daí — disse Túlia —, pois temos lá em casa alguém à nossa espera.
— Vai tu. Eu quero observá-los — respondeu Dafné.
Mal a mãe dobrou a esquina, ei-la a correr por uma
rua transversal; e, antecipando-se ao carro, encolheu-se num desvão da muralha.
Chamejavam-lhe os olhos como os de um felino selvagem, enquanto amarfanhava nas mãos o lenço branco, que retirara do pescoço.
Era justo no momento em que apontavam de través as cabeças dos cavalos.
Dafné não trepidou, atirou com o lenço embolado nos olhos de um deles.
Antes que Cáius pudesse perceber a ocorrência, a moça recuou e se encolheu no ângulo escuro da muralha.
Os corcéis espantados empinavam-se furiosos; o lenço prendera-se ao grampo da barbela e tremulava aos olhos de um deles, que entrou a corcovear como se houvesse enlouquecido.
Virgília deu um grito lancinante e agarrou-se instintivamente à cintura de Cáius que, rubro, num esforço inaudito dos músculos intumescidos, procurava dominar a situação perigosíssima daquele transe.
E, certo, tê-lo-ia conseguido mercê da sua força hercúlea (ainda porque o lenço, com os pinchos do cavalo, se desprendera), se por fatalidade não se houvera também partido uma das guias, o que permitiu a arrancada livre da frágil viatura na iminência de esfrangalhar-se de encontro às paredes, ou mesmo nos pedrouços das ruas e betesgas.
No peristilo da casa de Semprônius, o austero patrício, em companhia de Fábia e Marcus Fábius, palestrava esperando o retorno dos passeantes, quando enorme alarido lhes despertou atenção.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 09, 2017 8:44 pm

Imagine o espanto, quando reconheceram no carro em disparada e já um tanto desconjuntado, a figura de Cáius tentando suster numa só mão as rédeas que lhes restavam, enquanto com a outra amparava Virgília, que, encolhida e nele colada, parecia resistir milagrosamente aos violentos embates e solavancos da pileca.
À visão de um tal quadro, Fábia caiu de joelhos e, braços erguidos ao céu, obsecrou a misericórdia dos deuses.
Semprônius e Fábius, terrificados, lívidos, berravam as mais contraditórias ordens.
Houve, enfim, um verdadeiro tumulto; escravos que se projectavam à frente da equipagem, a fim de esbarrarem-na.
Um deles foi logo colhido e esmagado; outros, machucados, repelidos como plumas.
Na obstante, esse relativo movimento de parada foi como que providencial, ensejando a que um homem que até então perseguia a carruagem, correndo a bom correr, se plantasse à frente da parelha.
Ergueu o punho forte, qual massa de ferro, e descarregou-o na testa de um dos animais, que tombou logo.
Com a outra mão, grifou as narinas do outro e o carro não se mexeu mais.
Num golpe de vista, Marcus Fábius ergueu Virgília desacordada e transportou-a para o interior.
Cáius Lucílius levado ao colo, como se fora uma criança, foi conduzido ao peristilo
para cair ali nos braços do pai, que o abraçou delirante.
Mas, tanto que se desprendeu dos braços paternos, o moço correu a levantar Fábia ainda genuflexa, para cobrir-lhe a face de beijos.
Fosse, porém, a intensidade da emoção, ou fosse esgotamento oriundo do sobre-humano esforço despendido, o facto é que também ele empalideceu subitamente e tombou desfalecido numa cadeira.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 10, 2017 7:51 pm

VII - O salvador

Enquanto procuravam acudir a Cáius Lucílius fazendo chamar um médico, Semprônius buscava acercar-se daquele indivíduo que todos, transeuntes e vizinhos, aclamavam como — “o salvador”.
Ele lá estava ainda, junto do carro, a enxugar a fronte banhada de suor.
— Diga-me como se chama para que eu possa agradecer-lhe o serviço inestimável que acaba de me prestar; e depois, diga-me em quê e como poderei provar-lhe minha gratidão.
— Nobre Semprônius, chamo-me Rutuba, natural de Roma.
Se me queres fazer a vontade, dá-me serviço em tua casa e podes contar com minha absoluta fidelidade.
— Estás atendido:
a partir deste momento, podes instalar-te nesta casa e descansar até que me seja possível determinar teus encargos.
De qualquer forma, ficas sabendo, desde já, que tenciono colocar-te junto de meu filho, cuja vida galhardamente salvaste.
Sem embargo, aceita esta lembrança como penhor do meu reconhecimento.
E entregou-lhe um broche magnífico.
Trocou, a seguir, cumprimentos com alguns vizinhos pelo feliz desfecho do perigoso incidente, deu ordens concernentes aos cavalos e ao carro avariado e encaminhou-se para o quarto do filho.
Fábia, que lá o precedera, tinha lavado as mãos do rapaz, escalavradas pelas rédeas, ao mesmo tempo que um velho esculápio lhe humedecia as têmporas.
Mal o patrício entrava e Cáius se levantava com um suspiro de alívio.
— Que é isto? — perguntou, admirado.
Depois, como que recobrando subitamente a memória, saltou a pés juntos e gritou:
— Desmaiar... eu? mas é simplesmente imbecil!
E agora estou a ver que vos preguei grande susto tanto os vejo alarmados...
Com um sorriso de candura quase infantil, juntou as mãos do pai e da avó, levou-as aos lábios:
— Perdoem-me...
Aqueles diabos de cavalos ficaram loucos, mas, também, quem poderia ter tido a funesta ideia de lhes atirar à cabeça com este lenço?
— Como?! Pois houve alguém que espantasse os cavalos por maldade? — perguntou Semprônius, de olhar já inflamado.
Vou já examinar os freios e cabeções e talvez que ainda lá encontre algum frangalho.
Falarei também ao teu salvador, Rutuba, e, se lograr qualquer indício de prova, ai do miserável!...
Afastou-se apressado, mas Cáius logo o alcançou para dizer:
— Se o meu salvador ainda aí estiver, manda-o até cá.
Quisera ir contigo, mas ainda tenho a cabeça um pouco zonza.
— Pois sim. Ao demais, Rutuba ficará connosco, pois eu lhe dei um lugar em nossa casa.
Dentro em pouco, abria-se a porta e o novo serviçal perfilava-se na ombreira.
Seu olhar de lince parecia querer devassar algo no rosto do jovem e belo patrício.
Tanto que o avistou, Cáius lhe estendeu a mão e falou com aquela amenidade e franqueza que, a despeito de todos os caprichos e fantasias, lhe granjeavam afeição de todo o mundo.
— Obrigado, Rutuba; só um bravo pode arriscar a vida por quem não conhece; vamos, dá-me um abraço, já que estes serviços não há dinheiro que os pague...
Admirado, mas igualmente cativo, o plebeu aproximou-se e beijou o patrício na espádua.
— É muita honra que me concedes, ó nobre Cáius Lucílius!
E Cáius prosseguia com vivacidade:
— Meu pai disse que desejavas ficar connosco e tu ficarás desde logo ao meu serviço particular.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 10, 2017 7:52 pm

Tirou do dedo um anel cravejado de esmeraldas e deu-lho, acrescentando:
— Guarda como recordação deste momento.
O romano agradeceu e retirou-se monologando:
-— E é a um homem deste quilate que haveria de se destinar aquela besta?
Ah! é impossível possa ele amá-la por muito tempo.
E será mesmo que lhe possa ter amor, ele?
Não?... não creio.
Começará por aborrecer-se e dia virá em que a odeie...
Nesse dia estarei vingado.
*
* *
Vendo desaparecer o carro naquela carreira vertiginosa, Dafné retomou apressada o caminho de casa e, sem trocar palavra com a mãe, enfurnou-se no quarto.
O primeiro ímpeto de raiva lhe passara e, agora, toda se engolfava num turbilhão de pensamentos tumultuosos.
Acreditava-se bem segura e livre de que alguém lhe tivesse visto o criminoso gesto.
E, contudo, havia duas testemunhas que ela mal poderia imaginar: a primeira, sabemo-lo já, era Rutuba que, da porta de uma tasca, vendo passar-lhe rente um vulto bem conhecido e, suspeitando quem fosse, rápido se lançou no encalço do carro e, a segunda, era Cláudius que, desembocando de uma rua transversal, chegara no momento justo em que os cavalos começavam a corcovear.
Seu olhar agudo logo distinguiu o perfil feminino a esgueirar-se da rua sombria.
Entretanto, colado ao muro, não fizera qualquer movimento para socorrer aquele a quem chamava — seu amigo!
Depois, apanhou o trapo branco que vira flutuar um instante na cabeça do animal, e certificou-se de que era um lenço de seda franjado a ouro, com um dos cantos dilacerado.
Pelos lábios lhe passou então um leve sorriso de cruel satisfação e guardou, cuidadoso, o precioso achado...
Alguém que chegara, discutia na loja e Dafné interrompeu as reflexões.
— De volta? e que pretendes mais, aqui?
Era o que dizia Túlia em tom irritadíssimo.
— Essa é boa! se aqui volto é que precisei voltar...
Onde está Dafné?
Aquela voz fez estremecer a rapariga, que logo viu entrar o ex-noivo munido de uma lanterna.
Depositou-a na mesa, aproximou-se da moça que se levantara e cujo rosto pálido ainda reflectia as emoções da criminosa aventura.
Cruzou os braços perfilados, altivo, exclamou sarcástico:
— Cáius Lucílius está são e salvo e fui eu quem o salvou...
Este broche e este anel que aqui vês, são penhores de gratidão do pai e do filho.
Agora, quero saber o que me vais dar pelo meu silêncio, isto é, para que te não denuncie...
Ela deu um grito e caiu de joelhos, mãos postas, diante do ex-noivo.
— Não me desgraces! não impeças o casamento e conta comigo de corpo e alma, em troca do teu silêncio.
Aceita a mulher de Cáius Lucílius como prémio maior que ela te pode ofertar.
Um clarão de ódio lampejou nos olhos do romano.
Recuou um passo e disse com desprezo:
— Seria um prémio ignóbil, porque te odeio, não somente, mas, porque toda mulher que se oferece perde o encanto.
Ao demais, porque haveria Cáius — ele que tão generoso se mostrou apertando-me a mão de igual a igual — de pagar com a sua dignidade o meu silêncio?
Não; jamais lhe direi coisa alguma do que se passa, da infâmia a que te arrastou teu bestial ciúme, mesmo porque, isso o levaria simplesmente a repudiar-te, quando o meu fito é que ele te odeie e te aniquile...
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 10, 2017 7:52 pm

Toma cuidado, portanto, em não me insultares, jamais, lá em casa de Semprônius, onde permanecerei de qualquer forma.
Bem assim, não penses sequer em trair Cáius Lucílius...
Se com ele chegares a casar, fica a meu cuidado o espreitar o advento oportuno da minha vingança.
Deu-lhe as costas e saiu.
Túlia entrou logo como um furacão:
— Imbecil, estúpida, azémola, que fizeste?
Que atentado é esse que assim te entrega amarrada de pés e mãos a este homem?
E caiu-lhe em cima, aos sopapos.
A moça cabriolou em fúria e travaram uma verdadeira pugna.
Terminada a chuva de taponas e impropérios, Túlia retirou-se para a loja a murmurar raiventa:
— Infame, ingrata, não fosse meu desejo de vingança...
Depois, um tanto mais calma, entrou a fazer arrumações na loja, quando ao de leve ouviu baterem na porta.
— Quem é? — perguntou já desconfiada.
— Sou eu, Cláudius — respondeu uma voz aflautada —, quero dizer a Dafné apenas duas palavras.
Atirou o manto numa cadeira, enquanto Túlia lhe apontava o cómodo interior.
— Mais uma testemunha que vem mercadejar o seu silêncio...
E eu começo a vaticinar que vais, filha ingrata, arriscar a vida nesta aventura.
Com a entrada de Cláudius, Dafné se estendera no diva, de rosto voltado à parede.
Cabelos em desordem, via-se-lhe pelo rasgão do corpete um trato da espádua alabastrina.
O rapaz esboçou um sorriso cínico.
Depois, aproximando-se, pousou a mão naquela carne desnuda.
Dafné se recompôs, mas, dando com aquele olhar ousado e ardente, estremeceu e levantou-se de um salto.
— Que queres, Cláudius?
— Apenas mostrar-te este lenço, que foi pendurado na testa de um cavalo em disparada...
Achei-o na rua e penso que te pertence, simplesmente.
Ela deu um gemido abafado e pôs as mãos na cabeça.
— Não te apavores desse jeito, minha riqueza; eu não te farei mal...
Quero, apenas, que me prometas de futuro o teu amor e uma parte do dinheiro que Cáius te possa dar para os alfinetes.
Bem vês que, assim, não embargarei a tua e tu farás a minha fortuna...
Concordas?
— Sim, farei tudo o que quiseres — respondeu lívida e contrafeita.
Sentia-se tolhida, enrodilhada qual mosca em teia de aranha.
Ainda se considerava ninguém e já se via manietada, comprometida: de um lado, o terrível Rutuba a prelibar a sua vingança; de outro o melífluo Cláudius a exigir-lhe o dinheiro e a própria honra.
— Neste caso, ficamos amiguinhos e... adeus.
O lenço eu o guardo para prevenir qualquer lacuna da sua memória.
Lançou-lhe um olhar significativo, traçou o manto e saiu.
Naquele instante, transfigurava-se-lhe o rosto na expressão de uma alegria torpe.
Diluía-se a máscara da franqueza e lealdade, que habitualmente afivelava.
Que partida iria jogar, agora, com aquele Cáius Lucílius a quem intimamente odiava, não só pela sua beleza e dotes espirituais, como pela fortuna que o felicitava?
Favorito dos deuses e das mulheres, era-lhe grato o poder corromper-lhe a esposa e possuí-la quase, por assim dizer, sob as suas vistas, no seu próprio tálamo...
— Ah! se a sorte também me entregasse Virgília! — murmurou entre dentes.
A verdade é que odiava a mulher de Marcus Fábius pela displicência com que o tratava.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 10, 2017 7:52 pm

No seu íntimo, refervia sempre que ela entretecia uma coroa e divertia-se em ajustá-la às suas melenas louras, ou ainda quando, segurando uma bandejinha de confeitos, fazia com que os comesse às colheradas, dizendo-lhe — “é para adoçar a voz”...
Precisamente por não existir como homem, no conceito daquela faceira criatura, é que lhe votava uma paixão esquisita e tenaz, misto de amor e ódio.
Na casa de Semprônius festejava-se com um banquete a salvação de Cáius Lucílius e da sua amiguinha de infância.
Ao rever a moça pela primeira vez, depois daquele seu.
desmaio, Cáius, com o arrebatamento que lhe era peculiar, abraçou-a, beijou-lhe as faces, felicitou-a por sua coragem e sangue frio.
— És uma heroína, Virgilinha!
Que mulher outra, entre cem mulheres, em circunstâncias idênticas, deixaria de embaraçar-me com os seus gritos e quiçá entravar-me os movimentos com o chilique?
Tu, entretanto, ficaste impassível, agarrada à minha cintura e me deixaste livres os braços.
Todos beberam à saúde e à coragem de Virgília.
E quando o jovem casal regressava a penates, Marcus Fábius, amoroso, abraçando a mulher, perguntou-lhe:
— Estás ainda zangadinha por te haver constrangido a seres caridosa com um imbele e vencido?
Ela corou e mergulhou o rosto no peito do marido, confessando:
— Fábia me disse que não procedi bem; que o dever da mulher é compadecer-se de todos os infortunados, socorrer todos os desgraçados.
Por isso, logo que cheguemos, irei ver Gundicar...
Perdoa a minha teimosia, pois me punge a ideia de que poderia ter morrido em desacordo contigo.
— Amanhã — acudiu Fábius beijando-lhe a sedosa cabeleira — iremos ao templo para louvar os deuses por todos os benefícios que recebemos hoje.
E enquanto marido e mulher assim se reconciliavam, Semprônius dizia ao filho quando este lhe pedia permissão para recolher-se ao dormitório:
— Querido Cáius: não duvido de que os imortais deixando-me entrever, hoje, a possibilidade de te perder, quiseram com isso abrandar meu coração:
assim, tenho resolvido consentir que esposes a mulher que elegeste.
Oxalá possas ser feliz e jamais me exprobrares esta minha condescendência.
Radiante de alegria, o rapaz agradeceu, confessando que todo o seu ideal estava satisfeito, nada mais ambicionava no mundo.
— Amanhã — acrescentou o velho patrício — irei pessoalmente a casa de Túlia para decidi-la a acabar com a loja, cujo preço lhe embolsarei, bem como a retirar-se de Herculânum.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 10, 2017 7:52 pm

VIII - Semprônius em casa de Túlia

Na manhã seguinte àquele dia memorável, achava-se Túlia sozinha na loja, quando viu aproximar-se e parar-lhe à porta uma rica liteira.
E quando viu apear-se o nobre Semprônius, iluminou-se-lhe o semblante de satisfeita ironia.
— Quanta honra para a minha modesta loja!
Que posso oferecer ao ilustre Semprônius, que seja digno da sua escolha e preferência?
Disse-o com fingida e reverente humildade, inclinando-se diante do austero ancião.
Ele fitava-a, severo e impassível como sempre, como que procurando reconhecer naquela criatura encarquilhada e emagrecida a mesma donzela de sedutora beleza com quem altercara vinte anos antes, por causa do irmão.
Pela mente nunca lhe passara a hipótese de vir um dia pedir-lhe a mão da filha, para fazer, desta, sua nora.
Ao seu olhar arguto não escapara, contudo, a fades de ironia vitoriosa que Túlia mal tentava dissimular.
Amarrou-lhe a cara e foi dizendo:
— Nada de comédias...
Apesar dos anos decorridos, nós continuamos a nos conhecermos mutuamente:
teu despeito e teu ódio não estão mortos para mim.
Qual leoa mal ferida, ela ergueu-se e, concentrando no olhar toda a ferocidade da sua alma, disse-lhe:
— Estás enganado: teu desprezo e teus esforços para desligar-me de Drúsus acabaram por me restituir a razão.
E não só isso, como também a facilidade com que ele me esqueceu...
Ao mudar-me desta cidade, encontrei a ventura na afeição de um marido e no amor de uma filha.
A perda do marido e os asares da sorte me obrigaram a voltar e abrir esta loja, em garantia do pão cotidiano.
Entretanto, acredite-me, eu odeio os patrícios e peço aos deuses me livrem de negócios com eles.
É que, de sobra, lhes conheço a soberbia, que os faz recalcar todos os sentimentos de verdade e justiça, por simples preconceitos de berço e de casta.
Mas... que tolice a minha em estar relembrando coisas passadas, que longe vão!
Aqui vens, decerto, comprar alguma coisa e, portanto, manda o que quiseres, que eu estou às tuas ordens.
O patrício tudo ouvira de má catadura e, acercando-se mais, mediu-a de alto a baixo num olhar depressivo:
— Não mintas, astuciosa e vingativa pantera; tu nunca esqueceste o teu ódio, o teu despeito por não te haveres casado com meu irmão.
Sabem os deuses quem lhe roubou a vista e quem matou Sabina.
A necessidade, dizes, obrigou-te a regressar aqui; mas eu também percebi, logo de passagem pela tua porta e vendo tua insolente alegria, que só vieras para executar o mesmíssimo plano falhado com a tua pessoa.
Insinuaste tua filha a seduzir o meu Cáius e sabes, perfeitamente, que não vim fazer compra alguma e sim dizer-te, sumariamente, que autorizo o casamento.
Agora, se de facto odiasses os patrícios e repelisses toda e qualquer ligação com eles, qual o dizes hipocritamente, já me terias interrompido a palavra com uma repulsa formal.
Mas, a verdade é que te calas e baixas o olhar, visto que aspiras, a todo o transe e com todas as energias da tua alma cúpida, a esta aliança com a família ilustre que sempre te repeliu obstinada e justamente.
É que tu, com este casamento, esperas, não apenas criar valiosas relações, mas, possivelmente, aproximares-te do meu pobre irmão.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 10, 2017 7:53 pm

Enganas-te, porém:
eu vim participar-te as minhas decisões, tão inflexíveis quanto o juramento do soberano dos deuses.
Digo-te, pois, que aceito tua filha como membro de minha família, mas a ti, nunca!
Nessa altura, a voz do patrício tornou-se mais enérgica e seu olhar vibrou, pesado de chumbo, no rosto desfigurado da plebeia.
— Tu, a quem pesa e cabe a suspeição de um duplo crime, jamais transporás a soleira da minha porta.
Quero saber, apenas, quanto queres por esta quitanda e pelo teu afastamento desta cidade.
Pagar-te-ei integral e imediatamente, mas deves renunciar desde já ao teu comércio, pronta a partires logo que mandemos buscar Dafné.
À medida que ele falava, cadavérico livor se espalhava pelo rosto de Túlia.
Tremia-lhe o corpo.
Surpresa e raiva, ao mesmo tempo, embargavam-lhe a voz.
Separar-se da filha e ser escorraçada, repelida da nova parentela; renunciar para sempre à esperança de rever Drúsus — causa motriz de todos os seus projectos; fazer de Dafné uma patrícia e mergulhar-se ela própria na obscuridade?
Teve ímpetos de estrangular Semprônius...
Contudo, diante daquele velho vigoroso, cujos traços revelavam energia e tenacidade a raiarem pelo despotismo, intimidou-se.
O patrício, que não lhe perdia o mínimo gesto, acrescentou calmamente:
— Devo prevenir-te de que os sentimentos de meu filho em relação à tua filha em nada modificarão as minhas resoluções.
Tens cinco minutos para resolver e escusado será dizer que aqui não voltarei.
Túlia tentou algo responder, mas sentiu que lhe faltava a respiração.
Levando as mãos ao rosto, saiu arrebatada.
Atrás da porta esbarrou com a filha, que ajustava à pressa o seu vestido dos dias solenes — um vestido de lã, branco, guarnecido de grega azul.
Pela sua agitação e pelo olhar, adivinhava-se que tudo ouvira.
— Cumpre-me aparecer e agradecer a Semprônius — disse baixinho, ao mesmo tempo que alisava os cabelos em desalinho.
Sim! amo muito a Cáius Lucílius para não discutir condições!
— Insensata! — retorquiu Túlia com voz mal abafada, em cólera, agarrando-a pelo braço — é a mim, não a ti que compete decidir.
— Pensas?
Desprendeu-se com um safanão e esboçou um risinho de mofa:
— Pois olha que, se bem entendi o discurso de Semprônius, é justamente a mim que cabe a decisão, pois a ti nem te quer ver.
E tem razão, porque, na verdade, que figura farias tu naquela casa aristocrática, quando nunca passaste de uma reles quitandeira?
Comigo, a coisa é outra:
estou moça e facilmente me adaptarei aos costumes da nobreza patrícia.
Ainda assim, para te provar que não sou ingrata e que não esqueço a parte que tomaste na minha fortunosa empresa, comprometo-me a dar-te novas de Drúsus.
Esgueirou-se da mãe estatelada diante de tanta insolência e irrompeu na loja.
Cabeça baixa, mãos cruzadas no peito simulando timidez e pudicícia virginais, aproximou-se de Semprônius, mas, erguendo para ele o olhar de pomba assustadiça, deu com os olhos dele frios, penetrantes, cravados nela, e um rubor — esse não fingido — purpureou-lhe as faces.
— Aproxima-te — disse-lhe Semprônius com tal ou qual bonomia —, se fores tão boa quanto és bela, terás em mim um amigo indulgente.
Agora, diz-me: estás de acordo com a separação de tua mãe e com a renúncia de toda e qualquer relação incompatível com o teu novo estado social?
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 10, 2017 7:53 pm

Foi com um gesto de graciosa humildade que ela se ajoelhou para beijar-lhe a mão, dizendo:
— Desde que o pai do meu querido Cáius me aceita como sua filha, não existe para mim outra família senão a do meu futuro marido.
Ligeiro sorriso desanuviou a fronte do austero patrício.
Para ele era muito natural que, pelo seu Cáius, tudo mais se abandonasse neste mundo.
— Vejo, filha, que grande e sincero é o teu amor...
Felicito-te, e, se assim te mantiveres, hás-de ser feliz.
Túlia rompeu como uma fúria, Semprônius interpôs-se:
— Já estamos entendidos e, quanto a ti, qual o preço que estipulas?
— Nenhum: fico com a minha loja, ninguém me pode obrigar a vendê-la.
E quanto a esta filha ingrata (num gesto incontido ergueu a mão), leva-a contigo, já, já, pois que eu a renego e abomino.
Leva-a qual víbora que é, aquece-a no teu seio, até o dia em que te morda...
Trémula e consternada, Dafné esboçou um gesto de súplica à sua mãe, pensando estivesse tudo desfeito, caso ela permanecesse em Herculanum.
Túlia, porém, desabafou com aspereza:
— Vai, miserável! em minha casa não há mais lugar para ti...
Fora, rua, já! some-te da minha vista!
Semprônius, de permeio, interveio:
— Tu te esqueces, Túlia, que há vinte anos me propuseste tu mesma, espontaneamente, abandonar os teus se eu te aceitasse por minha cunhada...
Hoje repeles, impiedosa, tua filha única, só porque ama incondicionalmente e não te consentem compartilhar dos seus privilégios.
Expulsando-a, quebras por ti mesma os laços de sangue e parentesco.
Enganas-te, porém, se pensas em aqui ficar para me contrariar, visto que, desligada de Dafné, serás para mim pessoa estranha e ficas livre para comerciar onde bem te pareça.
E quanto a ti, minha filha, tomo-te sob minha protecção, a partir deste momento.
Sem olhar para Túlia, desdobrou o manto sobre a moça, conduziu-a à liteira. Dafné obedecia-lhe tímida, muda, automaticamente.
Aquele olhar de aço, aquele semblante soberbo, aquela voz severa, infundiam-lhe medo.
*
* *
A liteira parou defronte da casa de Marcus Fábius.
Semprônius desceu com a moça pelo braço e foram logo recebidos pelo dono da casa, aliás muito surpreso.
Desculpou-se da ausência de Virgília, que saíra de visita a Metela e só regressaria mais tarde.
— Lamento não poder falar à sua mulher para pedir-lhe acolhimento, protecção e amizade para a noiva de meu filho, que aqui trago a este tecto hospitaleiro.
E contou, a traços rápidos, quanto ocorrera em casa de Túlia.
Com aquela bondade toda sua, Marcus Fábius assegurou desde logo que Dafné seria acolhida fraternalmente e manifestou desejo de que Cáius viesse visitá-la o mais breve possível, já que decerto ela deveria estar intimidada e perturbada com aquela mudança de situação.
Semprônius tudo agradeceu e após breve palestra retirou-se seguido de Marcus, que fez questão de o reconduzir à liteira.
Tanto que se viu só, livre do olhar de Semprônius, Dafné tomou fôlego e entrou a examinar curiosamente o luxuoso mobiliário do salão, a tocar e palpar estofos, tapetes e sanefas.
Um rumor de passos que se aproximavam deteve-lhe a inspecção.
Era Marcus Fábius, que regressava e gentilmente a convidava a passar-se ao terraço, onde se assentou a seu lado e procurava distraí-la, persuadindo-a de que o amor haveria de lhe suavizar as contrariedades do momento e, uma vez casada, tudo correria admiravelmente, pois Cáius, belo quão bondoso, saberia indemnizá-la de todas as afeições perdidas.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 10, 2017 7:54 pm

Que, de resto, encontraria na venerável matrona, que era Fábia, a mais indulgente e carinhosa das mães.
Em ouvindo distraidamente aquelas palavras do jovem patrício, Dafné examinava-o com a maior atenção, intimamente cotejando os dotes físicos do noivo com os do marido daquela loura Virgília, que ela por si detestava, como causadora do brutal atentado a que fora arrastada pelo ciúme e que lhe dera, ao mesmo tempo, dois senhores implacáveis.
Ninguém o dissera, porque não seria presumível, mas a verdade é que, daquele confronto, a impressão resultante foi toda favorável a Marcus Fábius!
Sim: suas formas mais delicadas, as maneiras mais discretas, aqueles olhos profundos e sonhadores e até o metal de voz melodiosa e pausada, tudo lhe pareceu mais belo que o vigor exuberante, o olhar ardente e a palavra colorida e impetuosa do noivo.
Uma nova espécie de ciúme insinuou-se-lhe na alma frívola e luxuriosa, e de si para consigo pensou despeitada: — “maldito asar! a gata ruiva arrebatou-me o melhor”...
Nesse momento, uma voz de cristal timbrou na sala vizinha e Virgília apareceu à entrada do terraço.
Fábius foi ao seu encontro:
— Querida Virgília, aqui temos Dafné, a noiva do nosso Cáius, que, por motivos que depois te direi, necessita de um asilo temporário. O próprio Semprônius no-la trouxe e pediu para ela a tua protecção e boa amizade.
Uma ruga levíssima franziu a testa da recém-chegada.
Essa ruga tudo poderia significar, menos amizade...
É que, todo o seu orgulho patrício se insurgia com a contingência de receber no seu lar, para tratar como igual, aquela criatura bolónia, que a estulta fantasia de Cáius Lucílius fora arrancar da lama e que, no entanto, a sociedade limpa não podia rejeitar, uma vez que o nobre Semprônius sancionava o casamento.
Por deferência ao velho amigo e vencida, em parte, pelo olhar terno do marido que lhe estava como que adivinhando a íntima revolta, avançou para a outra e estendeu-lhe não os braços, mas a mão, dizendo:
— Benvinda sejas, Dafné: é com prazer que te peço aqui fiques, até o dia do casamento.
— E eu espero — atalhou Fábius procurando atenuar o efeito da glacial recepção — que vocês mais se estimem, à proporção que mais se forem familiarizando.
E logo se afastou, no intuito de as deixar em liberdade. Um longo silêncio pesou sobre as duas mulheres.
Face a face, mudas, elas como que se autopsiavam reciprocamente, Dafné contemplava, um tanto despeitada, o vestuário distinto da patrícia, assim como o seu porte esbelto, as mãos cetíneas e pequeninas, dedos brancos e atilados como lírios:
e Virgília lhe pagava o exame com olhos verrumantes, a fixar-lhe as formas opulentas, o rosto belo sem dúvida, mas destituído de nobreza; aqueles olhos azuis, brilhantes e ousados, mas sem expressão qualquer de candura e bondade.
Semprônius poderia ter-se iludido com aquela aparência humilde, mas o faro feminino de Virgília, de pronto lhe revelou um temperamento frívolo, impulsivo e sensual.
E, como de propósito a confirmar o conceito, Dafné, carregando o cenho, exclamou despeitada e arrogante:
— Porque me olhas desse jeito? desagrada-te a minha presença?
De facto, não posso compreender porque Semprônius me conduziu a uma casa estranha, em vez de me levar para a sua casa.
— Estás muito enganada em supores-te em casa estranha — respondeu Virgília através de um malicioso, indefinível sorriso.
Mas, é natural que estranhos te pareçam quantos, de hoje em diante, se te_ aproximarem...
A verdade, contudo, é que foi no intuito de poupar-te uma tremenda humilhação, qual a de entrares em casa do teu noivo como criatura sem tecto e sem família, qual rebotalho das ruas, em suma, que Semprônius aqui te trouxe.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 10, 2017 7:54 pm

Se Marcus Fábius ao receber-te disse que nossa protecção te seria assegurada até o dia do consórcio, podes ficar descansada e certa de que esta casa é das que nobilitam os que a ela se acolhem como amigos.
— Mas, eu quis apenas dizer que Semprônius tem meios de me sustentar, e que é pouco lisonjeiro para a noiva de Cáius Lucílius o ter de mendigar um asilo.
Um leve rubor tingiu as faces de Virgília, ao mesmo tempo que no olhar lhe transluziu um lampejo de orgulhoso desdém.
— Permite dizer que a tua advertência só prova a tua completa ignorância das formalidades sociais que vigem para o ambiente no qual, a partir de hoje, és chamada a viver.
Para ti, entrevisto lá da loja que vens de abandonar, Cáius parece muito rico.
Tuas palavras poderiam, talvez, impressionar e convencer, por sua arrogância, alguma camponesa ou qualquer quitandeiro das tuas relações.
Mas “para nós”, Cáius não passa de um igual, e, se aqui te recebemos, é só por amizade à sua família, e jamais cogitando da sua fortuna, de que aliás não carecemos.
Devo dizer-te mais, que, se quiseres bem viver entre aristocratas, deves prender a língua e modificar essas atitudes vulgares e insolentes.
Cáius Lucílius pode, sem dúvida, dar-te um título de patrícia, mas não a educação peculiar da sua, da nossa casta.
Isto te digo para teu bem, pois em ti só quero ver a noiva do meu companheiro de infância.
Nem toda a gente, porém, estima Cáius qual o estimamos, para tolerar de bom grado as grosserias da sua mulher.
Dafné mostrava-se furiosa e consternada ao mesmo-tempo, de vez que lhe sobrava perspicácia bastante para compreender que a outra tinha razão e que ela, Dafné, acabava de dar uma patada, uma prova evidente do seu plebeísmo, da sua fatuidade, enfim.
Penoso silêncio reinou no ambiente e foi para ambas um alívio quando um escravo anunciou que a biga de Cáius Lucílius estava à porta.
— Não quero perturbar tua primeira entrevista nupcial — disse Virgília erguendo-se e desaparecendo por outra porta.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 10, 2017 7:54 pm

IX - Os noivos

Indolente, lábios frouxos, Dafné deixou-se ficar assentada, mas, quando viu entrar o noivo sorridente e acompanhado de um escravo sobraçando grande cesta, súbita reviravolta se operou em sua atitude.
Naquele coração sempre volúvel, reacendeu-se a chama de uma paixão devoradora e foi assim que, de um salto, lançou-se ao pescoço do rapaz, ao mesmo tempo que lhe colava os lábios num beijo quase brutal.
O moço patrício foi o primeiro a desenvencilhar-se daquele assalto mudo e ardente e, resvalando o olhar pelo semblante esfogueado da noiva, disse-lhe:
— Sossega, minha querida Dafné:
— todos os nossos anelos estão a termo de resolução e não tarda o momento em que te farás a companheira de toda a minha vida.
O coração transborda-me de reconhecimento ao bondoso pai, que, para me fazer feliz, a si mesmo se impôs o sacrifício do seu amor próprio!
Sabes o que ele me disse? — que tu lhe causaste boa impressão e que tua mãe te tratou com revoltante bruteza.
Mas, não te amotines, porque eu hei-de compensar-te de todos estes dissabores.
— E tua avó também me receberá de bom grado?
— Minha avó é a personificação da justiça e da bondade, não há quem a conheça que o não diga e não a estime; e eu tenho certeza que serás por ela recebida de braços abertos.
Mas, a propósito, quero que me prometas uma coisa, em testemunho do teu amor.
É claro que, lá em casa, velarei para que sejas respeitada e servida como dona; que tuas ordens sejam obedecidas, tanto quanto as minhas; mas, em relação àquela veneranda matrona, eu exijo de ti o mais profundo respeito e uma obediência absoluta.
Meu pai, que é meu pai, jamais deixou de concordar com a vovó e de seguir-lhe os conselhos, e eu por mim considero-me feliz em obedecer-lhe sempre.
Falava com entusiasmo, convictamente, enquanto de olhos baixos a noiva mal disfarçava o seu descontentamento.
— Então, pelo que vejo, continuas a ser considerado em casa de teu pai assim como um grã-bebé...
E Semprônius, que tem um génio tão altaneiro e umas atitudes tão enérgicas, não teve ainda a coragem de emancipar-se da tutela de uma velha, que pode ser muito bondosa, mas não pode ter a mesma experiência que ele tem na vida?
Pois eu, cá por mim, confesso que essa perspectiva de nada fazer à revelia da tua vovozinha afigura-se-me bem desagradável.
— É que esqueces — volveu ele já de olhar carregado — que essa velha não só é mãe de meu pai, ‘como foi quem me criou e educou, substituindo a mãe que cedo perdi.
Seu domínio outro não é, portanto, senão o que deriva de uma afeição pura, e pelo que, obediência e transigência, jamais nos foram difíceis, nem penosas.
Contudo, não me custa perdoar esse teu julgamento, considerando que não conheces Fábia.
De resto, espero não mais ouvir de teus lábios palavras tão irreverentes.
Vendo que ela baixava a cabeça, silenciosamente, beijou-lhe a fronte e disse expansivo:
— Que é isso? fita-me com esses belos olhos e vai examinar aqueles estofos e jóias que lá estão naquela cesta.
Além disso, trouxe-te também duas escravas para teu serviço particular, enquanto aqui permaneceres.
Quanto ao mais, Virgília to guiará. Sei que vocês já se falaram, Fábius mo disse.
E que tal? não te parece que Virgília é admiravelmente bela?
— Não me pode agradar mulher alguma que te pareça bela — disse, arrebatando a mão que até ali conservara entre as de Cáius, dando expansão à sua cólera —, quando se ama sinceramente a uma mulher não se lhe pergunta se ela atenta na beleza de outras mulheres!
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Em todo o caso, também me parece que Marcus Fábius é o mais belo homem que tenho visto...
— Dafné!
Corou e sorriu, ao mesmo tempo, mas um sorriso que o analista menos arguto poderia julgar contrafeito.
— Convenho em que Marcus Fábius seja mais atraente do que eu, tanto que Virgília me preteriu por ele (e pelo que aliás não lhe guardo o mínimo ressentimento); mas, aos teus olhos quero e espero parecer o mais belo dos homens.
O que eu disse de Virgília não é de molde a provocar ciúmes, pois em Herculânum há muitas mulheres formosas e não é possível colar nossos olhos de homem, mesmo casado, para que deixem de as contemplar e gabar.
Tirou da cesta um belo colar de pérolas e cingiu com ele o colo da noiva:
— Então? não sejas mazinha; olha para mim que te quero e admiro, exclusivamente.
À vista do régio presente, ela asserenou-se, deu-lhe um abraço e pôs-se com vivacidade a remexer o conteúdo da cesta.
— No seu propósito de discrição, os nossos amáveis hospedeiros até parece que se esqueceram de nós — disse Cáius, levantando-se, mas, quase no mesmo instante, Marcus Fábius levantou um reposteiro e disse a sorrir:
— Desculpem incomodá-los, mas há muito que a mesa está posta e Virgília os espera...
Ao demais, após tantas tribulações, a nossa Dafné deve sentir-se fatigada e com bom apetite.
Passaram à sala de jantar.
Virgília convidou a moça a sentar-se a seu lado, enquanto os homens ocupavam os divas.
Jamais Dafné (criada na pocilga de Túlia, cuja sórdida avareza não permitia sequer um modesto bem-estar) assistira a tão opulento repasto.
Glutona e rústica, extasiava-se a cada prato, comendo e bebendo com voracidade escandalosa para os Incomodadíssimo, Fábius ensaiava prevenir-lhe os ímpetos, tanto que a via fixar alguma iguaria.
Ela, porém, inteiramente empolgada, nada via nem atendia.
Virgília, essa, mal continha o riso e Cáius Lucílius corava a cada nova esturdície da noiva, que mastigava ruidosamente, ora besuntando os dedos, ora enxugando no vestido as mãos engorduradas, ou passando-as nos cabelos em momices de símio, sem dar tempo a que os criados lhe apresentassem guardanapos.
Quando, finalmente, terminou aquele bizarro repasto, os maliciosos olhos de Virgília notaram que Dafné tinha o mento e as faces luzidias, sujo o vestido, feições avinhadas e o cabelo em gaforinha, como se houvera saído não de um jantar, mas de uma arena de circo.
— Não queres tomar um banho e trocar de roupa? — perguntou-lhe Virgília.
— Quero, pois não: mas, que diabo de vestido hei-de mudar, se outro não tenho aqui?
Olha, dá-me um vestido como esse teu, cujo padrão e enfeites me agradam.
— Trouxe-te fazendas e as duas escravas que também trouxe vão confeccionar teus vestidos — atalhou Cáius, aflito.
— Ah! é verdade, tinha-me esquecido e vou ordenar a essas mulheres que tratem disso agora mesmo; mas, a verdade é que neste momento estou sem roupa e agora é que me lembro, preciso ir lá em casa buscar dois lindos vestidos, um verde e outro azul celeste, pintalgado de estrelinhas vermelhas, que me deu (ia dizer Rutuba, mas conteve-se a tempo e concluiu) minha mãe.
— Queres ir em casa de tua mãe? mas olha que ela correu contigo — disse Virgília estupefacta.
— Ela tem que me entregar os vestidos, queira ou não queira, olaré! mesmo porque, sabes? ela conhece a força destes pulsos...
E berrava, fechando os punhos e agitando os braços em meneios agressivos.
— Deixa-me lá ir, Virgília, preciso ir. Nem pode uma mulher do meu porte, mulher de verdade, envergar as tuas vestes de boneca...
Cáius, de um salto, manietou-lhe os braços:
— Antes de tudo, abre essas mãos, porque as esposas patrícias nunca as utilizam dessa forma...
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 10, 2017 7:55 pm

E portanto, que eu as não veja, nunca mais, nessa postura...
Depois, tu não irás a casa de tua mãe, porque sou eu quem não quer.
Comprarei, e farás quantos vestidos quiseres e precisares.
Ela negaceou, de mão nos quadris:
— Penso que não me queres tratar como tua escrava.
Resolvi lá ir em casa e irei mesmo, pois não quero perder os vestidos nem outras coisas que lá ficaram.
Cáius estava lívido, os olhos lhe fulguravam estranhamente.
— Não irás — acabou por dizer — e, se fores, podes lá ficar, porque deixarás de ser minha noiva.
Enquanto se desenrolava esta cena, Fábius e Virgília trocavam olhares admirativos.
Dafné cobriu o rosto com as mãos e disparou a soluçar.
Fosse que Cáius quisesse acabar com o incidente desagradável, ou fosse que se lhe tornasse penível o ver assim chorar a mulher amada, o certo é que se aproximou e, tomando-lhe da mão, falou com brandura:
— Acalma-te, acompanha Virgília; precisas ouvir-Ihe os conselhos e dominar esses ímpetos, considerando que aquilo que se desculpa nas mulheres do povo não se pode tolerar em nosso ambiente social, onde serias impiedosamente ridiculizada, visto que nem todos são indulgentes qual Fábius e sua mulher.
Agora, enxuga essas lágrimas, dá-me um abraço e vai trocar de vestuário, que lá está, já à tua espera e muito a teu gosto, crê.
Atirou-se ao pescoço do noivo com violência, mas, diante do seu aspecto reservado e frio, os braços lhe penderam inertes e, de cabeça baixa, lá seguiu atrás de Virgília.
Quando elas desapareceram, Cáius Lucílius deixou-se cair numa cadeira e espetou o queixo nas mãos.
Marcus Fábius teve para o amigo um olhar compassivo e, tocando-lhe no ombro, falou:
— Não te amotines assim, não desesperes por algumas estúrdias que devias ter previsto:
trata-se de uma criatura rústica, educada por uma mulher brutal e cuja educação precisamos refazer.
Descansa, tudo haveremos de conseguir.
Enquanto ela aqui ficar, procuraremos, na medida do possível, sequestrá-la a olhos estranhos e, quando vocês se casarem, já ela saberá como conduzir-se num banquete em nossos meios sociais.
Cáius suspirou mais desafogado.
— Acreditas que não venha a envergonhar-me diante dos nossos iguais? — perguntou, levantando os grandes olhos negros.
Certo, amo-a: mas, ao vê-la ainda agora de punhos fechados, confesso que desanimei, pois nunca a supus tão selvagem...
— O que se infere é que a mãe lhe batia e a obrigava a defender-se assim, a pulso; mas, agora, tratada com delicadeza e bondade, conto que há-de perder a rusticidade que tanto te impressiona.
*
* *
Uma tarde, cerca de cinco semanas após o episódio que acabámos de narrar, Virgília em visitando Metela, com esta permanecia no recanto favorito que era, por sinal, um grande salão amplamente aberto em colunatas do lado do jardim, ao qual se descia por dois degraus de cantaria, precedidos de pequeno terraço de plantas raras e ensombrado de grandes árvores.
Entre colunas, presos de canas douradas por argolões de corrediça, estendia-se o “velárium” de pesado estofo e ricamente bordado.
Suspenso esse “velárium”, o vento penetrava no salão em rajadas frescas, a saturá-lo das fragrâncias do jardim.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 10, 2017 7:55 pm

Metela, assentada junto de pequena mesa bronzeada, entretinha-se a confeccionar um trabalho feminino, ao mesmo passo que observava dois meninos de sete e oito anos, os quais, sob a guarda de uma preta velha, brincavam com um grande cão atrelado a um carrinho.
Defronte de Metela, Virgília se mantinha meio recostada a um diva, a beliscar frutas e doces ali postos na mesinha, ao alcance da mão.
Animadíssima a conversação:
— Pois é como te digo: estou gratíssima a Semprônius por me haver poupado esse honroso encargo de arvorar Dafné em patrícia, e penso que também tu o pensarias de bom grado — disse Metela casquinando.
Virgília jogou fora a romã que trincava e respondeu, franzindo os supercílios:
— Não fora a velha amizade que tenho a Semprônius e ao meu companheiro de infância, aquela sujeitinha não me ficaria lá em casa nem uma hora...
Admitindo que Cáius a conquistasse como presa de guerra proveniente de uma nação bárbara, eu não me espantaria; mas, tratando-se de uma mulher romana, ainda que plebeia, é coisa inconcebível!
É atrevidaça, cúpida e ao mesmo tempo caprichosa e tirânica.
As duas escravas que lhe deu Cáius, padecem verdadeiros martírios, não lhes dá repouso noite e dia, castigando-as pelo mínimo descuido.
— E já notaste — obtemperou Metela — como Cáius se mostra às vezes apreensivo?
Para mim, tenho que já está farto da noiva...
Contudo, também penso que não dará o braço a torcer e acabará casando por teimosia, mesmo porque, meteu-se num beco sem saída e não quererá incorrer na pecha de covardia, repudiando a rapariga depois de escorraçada da casa materna e recebida pelo próprio Semprônius em penhor de casamento.
— Não penso como você, Metela:
para mim, nunca é tarde par corrigir um erro.
O que suponho é que Cáius talvez a ame, a despeito de tudo.
— Entretanto, convenhamos:
bela, mas de uma beleza vulgar, desprovida de atractivos outros, não há que lhe augurar longo ascendente sobre o nosso bondoso Cáius, que tem na fidelidade a menor das suas virtudes.
Mas, afinal, ainda não me disseste qual a opinião de Fábia.
— Ora, tu bem sabes que Fábia a ninguém condena de primeira vista; mas a verdade é que ainda um dia destes ela me disse com tristeza:
“não quero julgar a pobrezinha que teve para educá-la uma mãe desnaturada e gostaria de apelar para o futuro, se lhe surpreendesse um olhar menos frio, mais sincero; mas, a verdade é que aquela fingida humildade, suas lisonjas e carícias hipócritas me repugnam”.
E tu compreendes Metela, que, na boca indulgente de Fábia, estes conceitos valem por uma condenação.
De resto, pensas bem: ainda temos muito que ver, o pobre Cáius vai ter pano para mangas.
Ciumenta, mas de um ciúme beduíno, a bicha odeia e maltrata a toda e qualquer mulher a quem Cáius dispensa uma palavra ou um sorriso mais afável.
Sacudindo-se na cadeira, Metela riu-se a bandeiras despregadas.
— Oh! a pantera é ciumenta, mas, não apenas do noivo...
Isto não te diria eu, se Fábius não fosse quem é...
Virgília corou e os olhos lhe coriscavam:
— Então, também notaste que essa lesma apenas mal saída do charco assedia meu marido quando o noivo está ausente?
Mas... que graça achas nisso? — ajuntou, despeitada, ao ver que a amiga continuava a rir.
— Não. Tais investidas são ridículas — disse Metela, e logo tornando-se séria —, mas o que tem graça é que o teu excelente marido não se ilude com o culto fervoroso que inspira, faz que não entende e continua a tratá-la com espírito de fraternidade, que não admite segundas intenções.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 10, 2017 7:55 pm

Ao demais, podes ficar tranquila, porque mulheres da marca Dafné jamais conquistarão teu marido.
— Tens razão, Metela, pois sempre que nos encontramos a sós, ele me fala compungido daquela selvajaria e termina por dizer que jamais pudera imaginar Cáius capaz de tal escolha.
Logo fazendo uma careta: — “tens razão; depois de mim, só eu mesma”...
— Também eu não acreditaria que uma criatura qual Dafné pudesse inspirar a um homem como Cáius outro sentimento que não piedade; mas, enfim, é bom que o casório se realize daqui a dez dias e fiques desse modo livre de uma tal prebenda. E por falar nisto: quando é que chega Drúsus com a filha?
— Dizem que nestes quatro ou cinco dias...
E não é que me ia esquecendo esta novidade?
Quem ma deu foi a própria Dafné.
Essa tagarela nada pode guardar do que ouve ou lhe dizem, e, como não tem outra confidente, conta-me todas as particularidades que o noivo lhe confia.
Foi assim que eu soube que Nero, o irmão de Cáius, também está sendo esperado.
Somente não sabem se virá só, ou em companhia de Drúsus.
— Nero, o filho do primeiro matrimónio?
Ele vem aqui? — perguntou Metela arregalando os grandes olhos.
Mas é extraordinário!
Não posso conceber que Semprônius tivesse uma tal lembrança...
Logo que ele se casou com Lívia, seu primeiro cuidado foi banir do lar os três filhos do primeiro matrimónio, enviando-os a uma das suas herdades mais longínquas e depois nunca mais procurou vê-los.
— Hum!.— murmurou Virgília mostrando-se impressionada — não se pode dizer que Semprônius andasse acertado.
Mas, também porque o pai dele haveria de obrigá-lo a renunciar à mulher amada, a fim de o casar com a tal Júlia, que ele detestava?
Materialmente, é certo que nada faltava aos filhos, aliás todos bem colocados hoje.
O mais velho, Bálbus António, fez magnífico casamento e lá se encontra nas suas terras da Umbria; Nero já está feito tribuno militar, servindo em uma legião pretoriana e, dizem, com a carreira garantida...
Pelo concernente à sua vinda agora, eis o que me contou Dafné:
— parece que Drúsus concebeu o projecto de casar Nero com a filha, possuidora de grande fortuna, pelo lado materno.
Ficando Nero desse modo pinguemente dotado, a Semprônius, liberto por sua vez de cuidados ulteriores quanto ao património desse filho, sorriu-lhe o plano e deixou-se convencer por Fábia, que deveria convidar os dois filhos exilados a assistirem ao casamento de Cáius.
Ontem, finalmente, receberam carta de Drúsus comunicando o dia da chegada e que provavelmente Nero o acompanharia.
Metela abaixou-se um instante e fixou com amoroso enlevo os dois petizes a traquinarem lá no jardim.
Seguiu-se longo silêncio.
— Não compreendo — disse enfim, como que despertando do seu enlevo — possa alguém banir do coração um filho para favorecer outro...
Coitado do Semprônius! não lhe invejo a sorte e a situação perante Nero, e, ou muito me engano, ou Fábia não andou bem suscitando e patrocinando esta visita do neto exilado.
O facto é que, privado do amor e aconchego paternos, ele bem pode sentir o espículo do ciúme e tornar-se inimigo de Cáius, que, afinal, nenhuma culpa tem no cartório.
— Ora essa!? você, Metela, vê sempre as coisas pelo lado pior:
Nero nem terá tempo de enciumar-se, envolvido no turbilhão de tantas festas...
Teremos, primeiro, o casamento de Cáius, depois o dele com Drusila..
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 10, 2017 7:55 pm

Oh! vai ser um regalo e até já estou pensando na tristeza do ponto final.
Que pena não poder casar também o meu Fàbiozinho!...
— Não te aflijas, espera um bocadinho; o meu Agripinha é mais velho oito anos e haveremos de o casar, antes, com a tua futura filha...
— Mas, isto no caso de Agripinha estar pelos autos e não se embelecar por alguma bolónia — disse Virgília sorridente.
Mas, que digo eu? talvez que a epidemia exótica não passe da família Semprônius...
Agora, por exemplo, imagina a cara de Drúsus quando souber que Dafné é a filha daquela mesma Túlia que, dizem, ele muito amou outrora.
Quem sabe se, ao reencontrá-la agora, não se lhe reacenderá o fogo da mocidade?
— Hum! não creio:
já lá se vão vinte anos e também dizem que sua mulher, Sabina, era bela como Afrodite.
As crianças em alvoroço gritaram: — aí vem papai!
As duas senhoras interromperam a conversa e foram ao encontro de Fabrícius e Marcus, já próximos do terraço.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 11, 2017 9:08 pm

X - Os dois irmãos

Era o dia aprazado para a chegada dos hóspedes que vinham de Roma.
Em casa de Semprônius reinava animação; os escravos, sob as vistas da velha mordoma, davam as últimas demãos no arranjo dos quartos destinados aos convidados.
Enflorava-se o “triclínium”, improvisavam-se mesas para a recepção de boas-vindas.
Uma hora antes, Cáius Lucílius se dirigira para o porto, acompanhado de Cláudius e levando uma liteira, um carro, animais e fâmulos destinados ao transporte da comitiva e bagagens.
Isolado no meio de toda aquela balbúrdia, só o anfitrião parecia estranho ao festivo advento.
Após desordenado passeio pelo pequeno terraço que comunicava com o seu quarto, Semprônius acabara por debruçar-se à balaustrada.
A fisionomia fechada e a prega dos lábios eram de molde a indicar que os seus pensamentos não deviam ser agradáveis.
Ele ia, finalmente, rever Nero, aquele filho exilado havia vinte e quatro anos, criado longe dele e tornado, assim, um estranho cujos traços não podia, dessarte, reconstituir.
Começava já a arrepender-se de haver facilitado aquela aproximação, cuja expectativa lhe proporcionava saudades de um passado longínquo.
E à medida que episódios e emoções há muito esquecidos lhe assomavam à retina espiritual, as rugas da fronte se tornavam fundas, e mais sombrios os reflexos do seu olhar.
Terríveis foram, na verdade, as cenas desenroladas entre ele e seu pai, violento e tirânico como ele mesmo, quando lhe impusera a renúncia da mulher amada, a fim de o casar com Júlia, filha de um companheiro de armas que morrera por lhe salvar a vida e a quem jurara fazer dela, sua nora.
Drúsus, mais novo dez anos, não passava então de menino; e com os seus catorze anos não poderia ser, conseguintemente, a vítima propiciatória.
De resto, o capricho obstinado do velho militar havia escolhido o primogénito para lhe resgatar o compromisso de honra, e foi debalde que ele se dirigiu à própria Júlia pleiteando a sua desistência em troca de vultoso dote, para que ela pudesse eleger outro marido.
Fosse porque a moça, durante a sua permanência no seio da família, se afeiçoasse a Semprônius, ou fosse que ambicionasse o brilhante partido da família, o caso é que se recusou contrariar os desejos do velho Antonius Bálbus.
Descoroçoado por fim, e vencido pelos rogos e lágrimas de Fábia, acabou capitulando, mas, rancorosa e magoadamente.
Naquele instante, ele revia esbatido em lúgubre claridade a penosa hora na qual, fremente de ódio e cólera impotentes, se havia ligado àquela mulher indesejável.
Os três filhos que lhe deu, foram-lhe abomináveis desde o berço:
fugia de os ver, sempre que possível; e quando Júlia faleceu, após nove anos de conjugal inferneira, seu primeiro pensamento voou para Lívia, a noiva que fora obrigado a preterir e que, sem embargo, lhe ficara fiel.
Já agora, dispunha de vontade própria, morrera-lhe o pai e Lívia de boamente consentiu em reatar a cadeia de um afecto só quebrada pela violência.
Uma só condição impunha: — que os filhos da rival (dois meninos de 4 e 8, e uma menina de 6 anos) se afastassem do lar, antes que ela nele ingressasse.
Semprônius concordara, sem relutar, e dera parte a Fábia da resolução tomada, isto é:
mandar os filhos para bem longe.
A nobre senhora abanara a cabeça negativa e desconsoladamente, dizendo:
— Não posso impedir que afastes as crianças, mas, a fim de lhes poupar uma existência penosa entre o pai irritado e a madrasta que lhes vota preconcebida aversão, eu as seguirei à nossa casa lá de Capua, onde reside tua tia desde que enviuvou, e, com o auxílio dela, acabarei de as criar e educar.
De uma coisa, somente, quero advertir-te: é que este ato de iniquidade para com criaturas imbeles, que não têm culpa de haver nascido de uma mulher desamada, há-de preparar-te, no futuro, remorsos e situações possivelmente dificultosas.


Última edição por Ave sem Ninho em Qua Jan 11, 2017 9:10 pm, editado 1 vez(es)
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 11, 2017 9:08 pm

Essas crianças, mais tarde, no uso da razão, hão-de ver-te não como pai, mas como algoz.
Exigir o banimento desses inocentes é ato de crueldade e cego egoísmo, que também não pode fazer a felicidade de Lívia.
Eis como Fábia se exilara com os netinhos e Lívia, altaneira e jubilosa, se instalara em casa do marido, que lhe satisfazia todas as vontades e caprichos, reconhecido à sua constância e fidelidade.
Desse amor, assim egoísta e tenaz, nasceu Cáius Lucílius.
Esse advento foi acolhido alviçareiramente como um favor dos deuses.
E Semprônius sempre tão indiferente no que tocava aos filhos do primeiro matrimónio, deixou-se embevecer e cativar pelo seu caçula, cumulando-o de carinhos e cuidados, que mal se poderiam presumir num homem da sua tempera, austero e violento.
Todavia, aquela maternidade serôdia fora bastante para que Lívia jamais gozasse saúde. Um ano após o parto, seus males se agravaram de tal forma que Semprônius teve de escrever a Fábia pedindo-lhe que viesse cuidar do neto e dirigir a casa.
A velha matrona não tivera como fugir ao apelo e regressou ao lar do filho, deixando os três banidos aos cuidados de uma sua irmã.
Depois, quando pela primeira vez viu o último netinho e ele pacificamente lhe estendeu os bracinhos a sorrir-lhe como se fossem velhos conhecidos, deixou-se escravizar por uma afeição profunda, irresistível.
Lívia ainda penou catorze meses, para finar-se com quatro anos de casada, deixando o marido desolado e aturdido.
Valeu-lhe, nesse transe, o ascendente materno e pouco a pouco, lentamente, o amor do filho adorado o revocou à vida, para viver por ele e para ele.
E o filho cresceu belo como um deus, inteligente e afectuoso, mas, igualmente, obstinado e violento qual o pai, que, tanto quanto Fábia, procurava adivinhar, para satisfazer, os seus menores caprichos.
Destarte, os filhos do primeiro matrimónio ficaram mais desamparados do que nunca.
Provendo-os farta e materialmente de tudo que pudessem necessitar, Semprônius não mais os quisera rever, e a aversão que outrora inspiraram se transformara em completa indiferença.
Assim que, quando soube que sua filha Semprónia fugira com um liberto de seu pai, mal completara os quinze anos e levando todas as jóias que pudera arrepanhar, apenas se mostrou ofendido do seu orgulho.
Fora de si, acabou proibindo quaisquer diligências para capturar a fugitiva, e que jamais lhe pronunciassem o nome diante dele.
A irmã de Fábia, espírito bondoso mas tímido, enfermara de paixão e Drúsus acabou interessando-se pelo futuro dos dois sobrinhos.
Nero devia-lhe o cargo que ocupava no exército e quanto a Antonius Bálbus, carácter melancólico e orgulhoso, tratara de colocar-se por si mesmo, mantendo-se afastado dos parentes.
Todas estas peripécias redemoinhavam agora no cérebro de Semprônius, enquanto algo de remorso lhe picava o embotado coração.
Parecia-lhe que o vaticínio de sua mãe se havia realizado.
Aquele filho que agora, depois de 24 anos, lhe entrava no lar, não era mais uma criança; era um homem de 28 anos, que se reconhecia alheio ao coração paterno, que talvez o odiasse, tanto que jamais procurava vê-lo, nem ter com ele qualquer entendimento.
Foi só então, nesse momento, que lhe ocorreu à memória o facto de haver Nero se ausentado de Roma para a casa do irmão, enquanto lá estivera Cáius Lucílius.
Mera coincidência ou demonstração de hostilidade, quem o poderia dizer?
O velho patrício mostrava-se muitíssimo apreensivo.
Que dificultosa posição lhe estava agora reservada, em face daqueles dois filhos com iguais direitos de afeição, mas que impossível lhe fora tratar do mesmo modo.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 11, 2017 9:08 pm

E, se em atenção a Nero demonstrasse maior indiferença por Cáius, que haveria este de pensar?
Suspirou, passando a mão na testa, como se quisesse afugentar aqueles maus pensamentos, quando um leve toque no braço lhe fez voltar-se e deparar Fábia.
Assentaram-se.
— Porque estás tão acabrunhado — perguntou fixando-o com aquele olhar profundo e calmo —, é o casamento de Cáius que assim te preocupa?
— Não, minha mãe: de qualquer forma, penso que sempre haverá meios de dominar Dafné.
Outro é o pensamento que agora me obsidia:
é o meu procedimento, o meu arrependimento, assim uma espécie de remorso, ao ter de enfrentar...
— Nero, o exilado, não é assim? — concluiu Fábia com amargura.
Assim é, filho, que uma acção má traz consigo a punição.
Agora é preciso, pelo menos, procurar reparar o mal da melhor forma possível e receber o rapaz com o carinho e a amizade a que ele tem direito.
Nero, em criança, era taciturno, tímido e muito vingativo;
enciumava-se por qualquer agrado feito aos irmãos, considerava os meus afagos seu exclusivo privilégio.
Sei que nunca me perdoou a nossa separação, e conquanto dissimulasse o seu ressentimento, na intimidade, bem o adivinhei na maneira por que se me esquivava, quando da minha última estada em Roma.
Eis porque fiquei satisfeita quando soube que resolveu esta viagem.
Trata, por conseguinte, de lhe não despertar ciúmes e melindres, mostrando qualquer predilecção por Cáius.
— Mas, eu não posso, não sei aparentar o que não sinto, só para lhe ser agradável — respondeu mal humorado.
De resto, que lhe tem faltado?
Minha assistência e meus cuidados?
E saberia ele apreciá-los?
A verdade é que sempre o provi de tudo o que precisava e desde que entrou para o exército lhe arbitrei uma mesada, que lhe permite destacar-se entre os colegas.
Agora, só há esperar que o seu casamento com alguma mulher bonita e moça lhe faça esquecer as velhas mágoas.
A matrona levantou a cabeça:
— Sei que esse projecto te sorri, tanto quanto ao próprio Drúsus; entretanto, não lhe auguro êxito, visto que Drusila ama a Cládius e Nero não ama a “ninguém”.
Mas, deixemos isto de parte, agora, pois outra coisa aqui me trouxe:
é que recebi ontem, à noite, a resposta de Antonius, que, não só repele, como repele acrimoniosamente o teu convite.
Não só recusa toda e qualquer oportunidade para avistar-se contigo, como declara não ter pai, tanto que desiste de heranças para só considerar parentes os da família de sua mulher.
Fulo de raiva, Semprônius ergueu-se empertigado na ponta dos pés:
— Atrevido! cachorro! pois teve esse topete?
A velha Fábia abanou com a cabeça em sinal de reproche.
— Não te exaltes, sejamos razoáveis, pois a verdade é que apenas estás recolhendo o fruto do que plantaste.
Antonius sempre se revelou um menino genioso e rancoroso em excesso.
Hoje, tem trinta anos, já é pai também, e senhor dos seus actos.
Certo, é lamentável que tenha um coração tão duro; mas, por outro lado, nunca chegou a ter connosco maior intimidade, também não teremos de lastimar a sua ausência.
Semprônius tudo ouvira de cenho carregado e, retomando a cadeira, disse com amargura:
— Os três rebentos de Júlia em nada se parecem com Cáius:
pérfidos, arrelientos e agressivos, qual sua mãe, jamais poderiam conquistar minha afeição.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 11, 2017 9:08 pm

Quem não verá em Semprónia, a fugir com um escravo liberto, o “fac simile” da mulher sem pundonor, que, sabendo-se preterida por outra, ainda assim, me recusou a liberdade?
— Não pretendo inocentar Júlia — volveu Fábia —, mas, os filhos não tinham culpa e a própria Lívia não deixa de ter grande quinhão de responsabilidade nos distúrbios e desgostos que agora te apoquentam.
A rival falecera e os inocentinhos faziam jus ao lar, por se beneficiarem do teu amor.
Talvez Semprónia não procedesse tão mal se tivesse nosso amparo e vigilância constantes.
Minha irmã, sabes, era boa, porém tímida; e a educação dos próprios filhos não serviu senão para evidenciá-la incapaz de rectificar e dirigir tais caracteres.
Entretanto, estou a pensar que os hóspedes estão a rebentar por aí e quero ainda lançar uma vista de olhos nos arranjos da casa.
Enquanto mãe e filho assim conversavam, Cáius e Cláudius passeavam ao longo do cais, aguardando a galera já entrevista ao largo.
Absortos em si mesmos, os dois rapazes pouco falavam.
Todos os pensamentos do primeiro convergiam para a pessoa daquele irmão desconhecido, cuja existência só presumia de outiva.
O nome de Nero chegava-lhe aos ouvidos rara e vagamente, sempre, e só poucos dias antes o pai lhe dissera que o irmão viria às bodas.
Na infância, é certo que se admirava, por vezes, de não ver o irmão compartilhar dos seus folguedos; mas isso eram impressões de criança, efémeras.
Passaram... Agora, porém, esperava-o com impaciência e alegria.
E, para isso, ali trouxera um dos seus mais belos corcéis soberbamente e ajaezado, a fim de lho ofertar em testemunho de boas-vindas.
Ele não poderia imaginar, por instantes sequer, acostumado a só recolher afectos de todo o mundo, que o irmão deixasse de o estimar, ainda mais recebendo um tão lindo presente...
Chegou, finalmente, o navio.
Lançada a prancha, logo Drúsus, apoiado ao braço da filha e seguido de um jovem oficial, desceu ao cais.
Depois de trocar com o tio e a prima cordiais saudações de boas-vindas, da parte de Semprônius e de Fábia, Cáius voltou-se e, enquanto Drusilia corando trocava com Cláudius um furtivo aperto de mão, aproximou-se do irmão que estacara a distância, pálido, olhos baixos e mão apoiada ao copo da espada.
Envolveu-o num grande olhar curioso e franco...
Cáius Semprônius Nero, o filho tanto tempo banida do lar paterno, era um rapaz de mediana estatura, esbelto e bem apessoado.
O rosto fresco e regular enquadrava-se em cabeleira castanha, animado por dois olhos vivos, da mesma cor.
Essa aparência agradável era, ao demais, realçada pela farda militar.
Contudo, aquela expressão taciturna e o olhar suspeitoso, que às vezes lhe alteravam a fisionomia, deixavam presumir paixões violentas e habilmente dissimuladas.
Cáius, ao demais, não atentou senão no exterior quando estendeu a mão e falou em tom cordial:
— Aceita nossas boas-vindas.
Por mim, ignoro o motivo que te reteve tão longo tempo afastado de nós; mas uma vez que aqui estás, finalmente, espero me estimes quanto desejo estimar-te.
Nosso pai te cumprimenta e me incumbiu dizer-te que muito se rejubila com a tua presença.
— Sim?! — respondeu Nero esboçando um sorriso indefinível.
E com olhos percucientes fixou o semblante franco e leal, do irmão.
Com aquela resposta equívoca, Cáius Lucílius ficou por momentos interdito, mas não teve tempo de formular qualquer pergunta, chamado que foi por Drúsus, a fim de lhe apresentar outra personagem, que se conservava discretamente distanciada.
— Querido Cáius, trouxe comigo este rapaz, que desejo recomendar à tua benevolência, bem como à de Semprônius.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 11, 2017 9:09 pm

Apolônius é um artista de talento, ao qual já devo inestimáveis trabalhos.
Ele tem aqui um parente, a quem desejava visitar e eu aproveitei o ensejo para encarregá-lo de esculpir os bustos de tua avó, o teu e o de tua futura mulher.
Cáius cumprimentou, cortês, e, ajudando o tio e a prima a tomarem a liteira, volveu-se para Nero:
— Apolônius irá no carro de Cláudius e, quanto a ti, pensei que havias de preferir fazer-me companhia a cavalo.
E designava-lhe dois magníficos corcéis, que os escravos mantinham pelas rédeas.
— Este cavalo preto chama-se “Águia” e fui eu mesmo que o amansei:
peço-te que o aceites como lembrança de chegada.
Quanto a égua branca, é a minha montaria predilecta e tem o nome da minha noiva — “Dafné”.
Era a maior distinção que lhe poderia conceder.
Nero agradeceu friamente e montou: a comitiva se pôs em marcha.
Despreocupado e alegre, Cáius fazia caracolar sua montada, trocando ora uma saudação com os transeuntes, ora uma frase com Cláudius e o escultor.
Nero ia silencioso, a olhar o irmão de soslaio, ao mesmo tempo que profundo vinco lhe franzia a testa.
Era, então, aquele o irmão causador do exílio “deles”, o único com direito ao amor do pai e da avó e a quem todo o mundo cantava loas por sua elegância, inteligência e destreza em todos os jogos?
Era ele, sim, quem lhe envenenara o coração desde que lhe ouvira o nome...
E quanto mais atentava naquela figura distinta e ao mesmo tempo exuberante de força e alegria; naquela cabeça digna de um escopro genial; naqueles olhos fascinantes, mais seu olhar se carregava de ódio, mais se lhe apertava o coração.
Cáius acabara, finalmente, por notar a preocupação e o ar enigmático do irmão, mas, sempre bondoso e jovial; desde que o não molestassem, encostou a montaria e falou em tom amistoso e natural:
— Nero, meu irmão, desanuvia a fronte, já que vens ao nosso lar onde te aguardam o pai, a vovó e corações amigos.
Lá teremos diversões e prazeres...
Noto que estás aborrecido...
Porque? Saudades de alguém?
Amado e mimado de todo mundo, Cáius só havia, até então, experimentado uma contrariedade na vida, que fora a oposição paterna aos seus projectos de casamento como Dafné.
Na sua inexperiência do mundo, não podia suspeitar da natureza dos pensamentos que torturavam o irmão.
Nero fitou-o como que surpreso e abanou a cabeça:
— Que ideia a tua!
Não tenho amores, a ninguém amo, e, falando em tese, nem mesmo sei o que seja amor, visto que também jamais fui amado de alguém.
— Ninguém te amou, jamais? — repetiu Cáius, ao mesmo tempo que esboçava um momo de incredulidade.
E nosso pai? e nossa avó?
— Nosso pai — respondeu com um leve sorriso, mas num tom de voz cuja acerba vibração timbrara desagradavelmente os tímpanos do irmão... — pois tu acreditas nisso?
Ou dize-lo só por delicadeza?
Mas... não: eu bem vejo, pelo teu olhar, que és sincero...
Todavia, não te amofines, meu irmão, o tempo tudo te revelará. Agora, diz-me:
— qual o dia fixado para o casamento, se tua noiva é bela, quais as vossas relações e se tendes por aqui bons gladiadores...
— Tudo encontrarás, aqui nada te há-de faltar:
nosso circo está luxuosamente instalado e eu mesmo tenho um tigre, um leopardo e um leão, que o pai ultimamente me comprou.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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