Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 11, 2017 9:09 pm

Luto com eles e apraz-me a sensação da minha superioridade, que os rende submissos ao meu olhar.
Entretanto, de tempos a esta parte, os bichos se têm tornado indolentes, talvez por excesso de alimento.
Quanto a Dafné, vais vê-la: é uma bela criatura, loura e fresca como Hebé.
Mas, na verdade, tu me confundes, oh! Nero... como se pode deixar de amar as belas mulheres?
Eu, cá por mim, confesso, elas me apaixonam, mais ainda que os cavalos.
— Mas eu não disse que não amava as mulheres e sim que não tenho preferência por mulher alguma.
E tu, com certeza, possuis muitos cavalos, não?
Se gostas tanto deles...
— Penso que sim.
Hei-de mostrar-te tudo o que tenho e havemos de dar esplêndidos passeios.
Entre outros exemplares, tenho dois magníficos cavalos que estão agora quase curados de um acidente.
Um malfeitor lembrou-se de os espantar, eles dispararam e, por um triz, não fomos vitimados eu e Virgília, amiguinha de infância que tu vais conhecer.
Presentemente, ela se encontra adoentada e não sai de casa, mas hás-de vê-la nas bodas.
Ah! Virgília é uma criatura adorável, clara, olhos azuis e cabelos de ouro!
E não obstante tão franzina, tão delicada, é uma verdadeira dourada borboleta, como lhe chamam.
Antes de me apaixonar por Dafné, estive louco por ela, mas a verdade é que recusou o meu culto e acabou preferindo Marcus Fábius — concluiu careteando:
Agora, conta-me por tua vez o que fazes lá em Roma, diz-me da vida palaciana, do serviço do Imperador...
O jovem oficial encolheu os ombros:
— Trabalho é sempre trabalho, quer sejamos escravos do destino ou do dever.
De qualquer modo, aqui, como lá, arrisca-se a vida sob o jugo de outrem e sempre é mais agradável viver em nossa casa, sem outro senhor que o nosso capricho...
Todavia, tais encargos são bons para os que não têm um lar paterno e não sabem onde pousar.
Tocado pela amargura mal disfarçada daquela resposta, Cáius Lucílius calou-se, apreensivo.
Tudo daria, no momento, para saber dos motivos de tanta mágoa e rancor concentrados em Nero.
Sabia que nunca lhe faltara coisa alguma, nem dinheiro nem gozos; mas, quanto ao seu isolamento e ao ciúme de filho excluído do lar, isso não podia conjecturar.
Continuou calado e completamente absorto, sem mesmo notar que passavam pela rua em que morava Túlia.
Esta, sempre informada do que ocorria em casa de Semprônius, sabia da chegada da comitiva e postara-se à espreita, de modo a ser vista.
Ansiosa, ofegante, esperava a passagem do cortejo, e quando, finalmente, o viu defrontar a porta, nervosa, pôs-se a tremer como varas verdes.
Mãos ao peito, olhos incendidos, nada mais enxergou que o rosto pálido, abatido e os grandes olhos ternos daquele homem que, recostado na liteira, tinha ao lado a imagem fiel da loura mulher que lhe acarretara o desprezo e o abandono.
Como se houvera sentido o fluido magnético daquele olhar persistente, o cego agitou-se nas almofadas e passou a mão na testa, como para escorraçar penosas lembranças.
Perguntou se ainda estavam longe...
Um momento e já o cortejo dobrava na esquina.
Túlia aferrolhou a porta.
Ninguém mais deveria transpô-la naquele dia.
Depois, ajoelhando-se, enterrou a face nas mãos e tentou reprimir os soluços que toda a sacudiam.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 11, 2017 9:09 pm

É que todo o passado ali lhe ressurgira de chofre.
Viu aquele mesmo Drúsus jovem, garboso, cujos olhos doces lhe falavam de um amor ardente; viu, depois, a mesma mulher a quem ela Túlia, habilmente disfarçada, havia levado a serpente que matara a rival.
Enceguecida pelo ciúme, acreditara por instantes haver lobrigado essa mesma rival junto de Drúsus, lá na liteira, esquecendo que Sabina já não existia e que a visão só poderia ser a filha.
Dafné, o casamento, tudo, tudo se evanescera no instante em que se deixara empolgar por uma paixão tumultuosa...
E era ela, aquela mulher cruel e hipócrita, que sabia como ninguém mascarar os sentimentos com aparências de humildade e beatitude!
“É mentira! o coração não envelhece nunca, o olvido não existe, as úlceras da alma jamais cicatrizam” — monologava...
Quando a comitiva parou à porta de Semprônius, o ancião já lá estava firme, à espera dos hóspedes.
Correu, ele próprio, a amparar o irmão para apeá-lo da liteira, e logo o abraçou silenciosa e demoradamente.
Depois, esquecendo Drusila, voltou-se para alguém que vira chegar e a quem estendia a mão, como que hesitando em abraçá-lo...
Nero estava desfigurado, tremiam-lhe os lábios quase imperceptivelmente..
De olhos baixos, colocou a mão sobre a do pai, que, afinal, o cingiu e beijou na testa, sem trocarem palavra.
Cáius Lucílius observara aquela cena muda, cheio de curiosidade.
Ele como que pressentia que as coisas não corriam naturalmente, mas, aquele mutismo recíproco não deixou de lhe causar grande estranheza.
Ignorava o que ambos evocavam no momento, isto é:
o pai, o frio beijo que tantos anos antes dera na fronte do pequenino ser que partia, exilado do seu lar e do seu coração; o filho, o instante em que aquele mesmo homem de semblante austero e olhar temível o alçara e depositara ao colo de Fábia, na liteira da proscrição.
Ele não sabia, então, que caminhava para o exílio e que os seus pequeninos pés não cruzariam, por muitos e longos anos, os umbrais da casa paterna, onde não havia mais lugar para ele e onde a nova senhoria preferiria encontrar reptis venenosos, antes que os filhos da que lhe fora rival.
Nesse comenos, Fábia apareceu no vestíbulo, com um sorriso que lhe diluía no rosto venerável um halo de quase juventude.
Com a delicadeza de sentimentos que lhe era peculiar, avançou de braços abertos para o moço, em cuja fisionomia ela entrevia as mais desencontradas emoções.
— Filho querido — disse —, sê mil vezes bem-vindo, e que os deuses abençoem esta hora de aproximação.
Depois, notando-lhe a respiração opressa e o tremor dos lábios, apertou-o de encontro ao peito, beijou-lhe a face e a testa cobertos de suor.
— Acalma-te, filho querido, e acredita que todos estamos desejosos de reparar o passado...
A mim, bem sabes, foste sempre tão caro quanto Cáius e teu pai também há-de estimar-te, estou certa, desde que melhor te vá conhecendo.
Aquela voz carinhosa e aquele olhar transparente de maternal afeição reagiram beneficamente no coração ulcerado do jovem Nero, que recobrou o domínio de si mesmo e acompanhou o pai ao interior da vivenda.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 11, 2017 9:09 pm

XI - As núpcias

Uma semana após a chegada de Drúsus, a residência de Marcus Fábius engalanava-se e esplendia de luzes e flores.
Muito antes da hora aprazada para a vinda do cortejo que deveria tomar a noiva e conduzi-la aos penates, já a rua burburinhava repleta de curiosos, que se premiam e afobavam chalaceando, rindo, bisbilhotando com os escravos, que se apressavam em acender as últimas lâmpadas.
No vestiário de Virgília, profusamente iluminado, Dafné permanecia assentada, de rosto afogueado, mal podendo conter-se no seu lugar.
Uma dezena de escravas ali se moviam no afã de vesti-la, sob a direcção solícita da nobre Virgília.
Dado o último retoque, ela própria ajustou à fronte da noiva a flórea capela e o véu nupcial encarnado.
Depois, recuando alguns passos, examinou o vestuário de conjunto e disse:
— Agora, estás pronta.
Contudo, tinhas tanta pressa que ainda vais esperar pelo cortejo...
Olha, vai até o terraço e procura refrescar-te, pois tens o rosto muito abrasado.
Eu também vou preparar-me.
Dafné levantou-se e, depois de mais uma vez namorar-se ao espelho, alçou a cabeça e saiu altivamente, como que ufana e convencida da sua beleza.
O terraço estava deserto, Dafné encostou-se à balaustrada e aspirava com volúpia a fragrância dos jardins; mas, tão logo caiu em si, o rosto se lhe demudou com expressão de cólera e despeito.
Seria que pensasse no noivo?
Ai dela! aquele coração volúvel, insaciável, ardia naquele momento por outro homem, cuja serenidade e fria indiferença lhe haviam potencializado todas as paixões.
Marcus Fábius jamais lhe dera a perceber que a admirava, sequer...
E, no entanto, que é o que não tentara para seduzi-lo?
Em vão esgotara todos os recursos de astúcia e galanteria...
Quebrara lanças por lhe despertar ciúmes, a jogar com a pessoa do noivo...
Tudo baldado. O nobre patrício conservava-se invariavelmente impassível, amável sempre, e sempre invulnerável...
Um rumor de passos lhe cortou aquele estranho devaneio.
Voltou-se e avistou Marcus Fábius, que, já preparado para a festa, ali se detivera algo surpreso.
— A jovem noiva já está paramentada? — disse esboçando benévolo sorriso — pois não terá de esperar muito, visto que o impaciente Cáius a esta hora deve estar apressando os amigos, a fim de lhe conduzirem a doce amada do seu coração.
Ela baixou a cabeça.
— Pois cá por mim, agora não tenho pressa de deixar esta casa, onde desejaria ficar para sempre.
Um relâmpago fuzilou nos olhos do patrício, que deu um passo atrás e se encostou à porta.
— Agradeço-te uma tão alta prova de apreço à nossa hospitalidade:
contudo, duvido muito dessa preferência, porque, de facto, onde melhor poderá julgar-se a mulher que ama do que no lar do esposo amado?
Ela calou-se.
Depois, aproximando-se de súbito, disse erguendo os olhos atrevidos e ardentes, de expressividade inconfundível.
— Preferiria um outro...
Cáius é tão violento... tão exigente...
Pensei que o amava, sim, mas agora vejo que me iludi.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 11, 2017 9:11 pm

Diante de um ataque assim directo, um profundo sentimento de ironia e compaixão se desenhou no semblante do jovem patrício, que, perfilando-se com austeridade, revidou:
— És tu mesma que me obrigas a dizer-te que o homem que te agrada, agora, não é cego nem é livre, e mais: — que ama a sua mulher com um amor tão puro e tão profundo, que não há para ele, no mundo, outra mulher.
Assim, tu investes em vão para esse homem.
Além disso, esse homem é bastante honesto para não trair um amigo, e bastante conhecedor do coração humano para não crer nos sentimentos de uma mulher pouco ciosa da própria dignidade,-a ponto de se confessar desiludida uma hora antes do seu consórcio.
Não calques aos pés, assim, a grande ventura que os deuses te concederam; procura devotar-te a teu marido, de todo o coração.
De outro modo, os deuses te punirão cruelmente.
Cáius é mais que digno do teu amor e da tua gratidão, visto que, belo quão generoso, desprezou preconceitos de casta e nascimento, e do lodo da vulgaridade te elevou até ele.
Virgília chama-me, vou deixar-te...
Uma só coisa posso e quero dizer ainda:
é que não facilites com Cáius Lucílius, porque isso te pode custar simplesmente a vida.
Deu-lhe as costas num ímpeto e saiu.
Dafné ficou aturdida.
Como? Ele tudo percebera, e, neste caso, a indiferença só podia provir da repugnância que lhe inspirava?!
A cólera lhe refervia por dentro, desejaria poder estraçalhar aquelas vestes, rolar ali naqueles lajedos.
Entretanto, uns restos de raciocínio lhe fizeram ver que, se o motivo de tais furores se divulgasse, o casamento estaria frustrado.
Dominou-se, então, pela primeira vez na vida e limitou-se a crispar os dedos, percorrendo o terraço qual fera enjaulada.
De fora, um rumor confuso e cânticos acompanhados de flautas vieram desvanecer-lhe aqueles pensamentos.
Era o cortejo que chegava.
Passando as mãos pelo rosto congesto, procurou recompor a fisionomia, e, minutos após, surgiu tímida, olhos baixos diante do noivo e dos seus amigos, entre os quais Nero, Cláudius e Apolônius.
Os dois últimos não podiam dissimular admiração pela noiva.
Quanto a Nero, estava como que fascinado pela silhueta de Virgília, que só agora conhecera e o acolhia com especial atenção.
Não lhe foi dado, porém, prolongar o êxtase, porque o seu lugar era junto da noiva.
Seguido de cânticos, música e vivas da multidão, o cortejo retomou a marcha, precedido de crianças que juncavam a estrada de flores.
Em casa de Semprônius a alegria atingira o apogeu.
Profusão de flores, de vasos, de lâmpadas policromas, e cânticos, e música, que se alternavam na portaria, nas salas, nos corredores.
Uma verdadeira colmeia em ebulição! De um lado para outro, febris, escravos que distribuíam bebidas e guloseimas, esmolas e flores.
No salão de honra, as mesas sumptuosas reverberavam, tapetadas de riquíssimas baixelas.
Vinhos capitosos servidos em taças de ouro, toda uma culinária refinada, a provocar elogios e aclamações.
Semprônius, o anfitrião, nada poupara nem esquecera, aliás contra os seus hábitos de parcimónia e frugalidade, para dar uma demonstração da sua opulência.
Nero achou jeito de assentar-se ao lado de Virgília e não se cansava de contemplar a linda criatura que, cintilante de espiritualidade, procurava palestrar com os vizinhos.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 11, 2017 9:11 pm

É que, antes mesmo de tê-la conhecido, ela lhe despertara tal ou qual interesse, como namorada que fora do irmão e superior às seduções que o caracterizavam, preterindo-o por outrem.
Sua primeira impressão fora profunda e, assim, com admiração crescente, ia acompanhando todos os gestos e frases da elegante Virgília, que, de resto, estava num dos seus dias mais felizes.
Envergando uma túnica branca com guarnições prateadas, cingia-lhe a cintura um colar de esmeraldas.
Colo e braços de nácar, ostentavam adereços idênticos e prendia-lhe a cabeleira negra um soberbo diadema à moda grega, aurifulgindo à luz intensa dos candelabros.
Cáius lhe pusera o apelido de “dourada borboleta”, e ela, pela esbelteza do talhe, quanto pela gracilidade dos gestos, bem o merecia.
“Como pudera o irmão trocar uma criatura assim adorável por aqueloutra de formas exuberantes e vulgar beleza?” — pensava Nero a mais e mais mergulhado no seu embevecimento.
Quanto a Dafné, essa, era-lhe positivamente antipática.
Virgília, no entanto, mal suspeitava da profunda e perigosa impressão que a sua pessoa produzia no ânimo daquele rapaz misantropo e taciturno, que só lhe merecia profunda e sincera compaixão.
Sabia, por Fábia, que o filho exilado de Semprônius tinha levado uma existência solitária e vazia de afectos e que ali estava, agora, na casa paterna quase como estranho, e, portanto, constrangido.
Ainda na véspera Metela lhe contara que, apresentado pelo irmão em sua casa, Nero havia lá voltado muitas vezes e passava depois o resto do dia na cidade.
E mais: que tanto a ela, como a Agripa, não passaram despercebidos o ciúme e a amargura que lhe transbordavam do coração, mercê de uma injusta predilecção por Cáius.
Chegou mesmo a lhe insinuar que procurasse distrair o rapaz dispensando-lhe carinhosa afabilidade, mesmo porque, ele era muito sensível a quaisquer demonstrações afectuosas.
Um olhar de Metela, assentada ali defronte, estava como que a lembrar-lhe aquele pedido.
Voltou-se logo para o jovem oficial, a dizer-lhe num, sedutor sorriso:
— Sempre triste e pensativo...
Metela tem razão quando afirma que é preciso pirraçar-te para que desembuches.
Pois fica sabendo que tens de te avir comigo.
Eu, cá, por mim, gosto de gracejar e rir, muito mais do que ela, tão bonza que até discute ciência e política com os homens, ajuda o marido a resolver negócios, e ainda por cima assiste às aulas que o filósofo Flamínius vai dar aos petizes.
Pois eu detesto esses assuntos magnos e grave bundos, gosto de me divertir, prefiro sempre uma carreira de biga tirada por fogosos cavalos, a todos os filósofos do mundo.
E tu gostas de circo?
Dizem que Roma é que apresenta os melhores gladiadores... oh! feliz quem, como tu, pode lá viver.
Basta ser a capital do país.
Mas, também um dia hei-de ir a Roma.
— A vida militar não faculta grandes lazeres para nos divertirmos, mas, ainda assim, posso dar-te do circo e de outros divertimentos romanos as informações que desejares — respondeu Nero que acompanhava de olhos incendidos a loquacidade da jovem interlocutora.
— Obrigada! mas, antes de tudo, vai visitar-nos, mesmo porque, o filho do nosso querido Semprônius só poderá ser considerado hóspede duplamente precioso.
O olhar transparente do rapaz logo se anuviou.
— Se me deixas entrever em teu lar um acolhimento amistoso, eu só posso atribuí-lo à benevolência devida a um forasteiro, mísero pássaro de arribação, que apenas sabe ter deixado o berço sob este tecto. Expulso do seu ninho e abandonado ao seu destino durante longos anos, o filho exilado não pode fazer jus à amizade dos amigos de seu pai, de vez que sempre foi para eles um desconhecido, um ignorado.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 11, 2017 9:11 pm

As últimas palavras foram pronunciadas em tom áspero e agressivo.
Virgília, surpreendida e ao mesmo tempo penalizada, inclinou-se para ele e murmurou:
— Que dizes, Nero?!
Porque hás-de toldar a nossa festa com palavras e conceitos tão cruéis quanto injustos?
A verdade é que, para todos os amigos de teu pai, tu serás sempre seu filho, tanto quanto Cáius.
Esses amigos poderão deplorar a circunstância de te não haverem conhecido mais cedo, mas, desde que aqui te encontras, eles não só te estendem a mão como te abrem o coração.
Fica certo de que acharás amizades sinceras entre nós e não te deixes levar por essa disposição de ânimo pessimista, que tudo obscurece e envenena.
Eu não posso admitir que Semprônius não seja teu amigo.
— Oh! mas eu não disse tal coisa — redarguiu ele com sorriso contrafeito —, meu pai é muito amável e trata-me com todas as atenções da pragmática; nem seria por falta de polidez da sua parte que me haveria de sentir melhor lá em casa de Metela, na tua ou na de Vérus, onde quer que seja, em suma, do que no recesso do lar paterno...
Não! o que daqui me afugenta é a convicção da minha superfluidade, transparente em cada olhar, em cada gesto desse pai, como a dizerem-me que ele só tem um filho e que, se a fortuna pertence a dois, o coração só pulsa por um...
Seu olhar, naquele momento, percuciente e glacial, desviou para Semprônius que, entusiástico, erguia a taça propondo um brinde aos nubentes.
Cáius Lucílius correspondeu ao olhar afectuoso do pai, fitando nele os seus grandes olhos ternos.
Ergueu-se, por sua vez, jubiloso e radiante, propôs à saúde do melhor dos pais presentes, passados e futuros.
O diálogo de Nero e Virgília, travado em surdina, ninguém o percebera.
Segundo a direcção do olhar do jovem oficial, a moça fitou por instantes o rosto expressivo e formoso do noivo.
Depois, disse com mal dissimulada admiração, como para justificar a afeição exclusivista de Semprônius:
— Cáius é tão sedutor que empolga todos os corações...
Nero inclinou-se para a frente, como que pretendendo ocultar o despeito que lhe ruborizava as faces.
— Agradeço-te, Virgília — disse com ironia acerada —, o me haveres advertido tão clara e prontamente quem é o feio ao lado daquele Apoio, para que desista de ser como ele querido, mesmo de seu pai.
Ditoso Cáius, que tem para advogar-lhe a causa, e justificar o infortúnio de um filho enjeitado, os seus dotes de beleza!
Vermelha nuvem passou pela retina de Virgília.
— És injusto e mau — disse, levando a mão ao rosto enrubescido —, mau, sim, e neste momento eu não te posso dar a merecida resposta. Vai, pois, a nossa casa depois de amanhã.
Convidarei Metela, sempre sensata e justiceira, e conversaremos então, como bons amigos, sobre essa prevenção contra teu pai.
É possível que ele não seja tão culpado como julgas, eu quero mesmo crer que ignoras muitos precedentes causais da sua atitude e acabarás por te convenceres da tua injustiça.
Quanto a Cáius é uma boníssima e afectuosa criatura, desde que o não irritem, pelo que só merece a tua afeição.
Uma pergunta inopinada interrompeu a conversação, que se generalizou e não mais lhe deu aso de reatar o assunto.
Levantaram-se as mesas e os convivas dispersaram-se em grupos pelas salas, terraços e jardins.
Tocaiando a noiva, espreitando ensejo de lhe falar à sorrelfa, tanto que o pôde, Cláudius se aproximou e disse-lhe entre amável e ansioso.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 11, 2017 9:12 pm

— Estás deslumbrante, Dafné! há muito que aguardava brecha para me aproximar e, não só exprimir-te a minha admiração, como fazer-te um pedido:
— sabes que tenho dívidas... e como Cáius já mandou lá para a tua alcova uma caixeta de moedas destinadas aos teus alfinetes, espero que deitarás uma parte desse dinheiro num lenço branco que me proponho trazer-te...
E se a isso juntares um... beijo, dar-me-ei por feliz e bem compensado.
A moça corou e respondeu:
— Bem, podes lá ir buscar o dinheiro quando quiseres...
O momento oportuno de o fazeres, ninguém melhor que tu mesmo poderá sabê-lo, uma vez que és de Cáius o maior amigo.
Cláudius inclinou-se galantemente, com ares de quem recitasse uma poesia de tomo, mas, de sob as pupilas dardejava um olhar de aço bem expressivo e de molde a convencer Dafné que tinha diante dela um senhor, com o qual seria arriscado tergiversar ou divertir-se.
— Estás enganada, bela patrícia:
à mulher e não ao homem é que compete dar as senhas...
Às vezes, é perigoso o desejo de esmagar-se alguém, e, a propósito, devo lembrar-te de que um pedaço de lenço ficou preso à barbela do animal...
Semprônius guarda ciosamente esse retalho de lenço que tu bem conheces...
Se os credores me apertarem, ver-me-ei obrigado a dar o frangalho a um tal Rutuba, que, por motivos ainda obscuros para mim, anda atrás dele como verdadeiro lebréu.
As mãos de Dafné crisparam-se de raiva.
— Dir-te-ei a hora em que poderás buscar o dinheiro.
— E quanto ao beijo? Bela és tu, bem o sabes, para que eu dele não desista...
Ela virou-lhe as costas com um olhar desdenhoso...
Sentindo necessidade de acalmar-se, encaminhou-se a um dos quartos desocupados, mas, qual não foi seu espanto, quando deu de cara com Cáius, que transmitia algumas ordens a Rutuba.
— Desejas alguma coisa, querida Dafné? — disse com desvelo.
— Estava, à tua procura — respondeu com encantador sorriso — e já que te encontro em companhia do teu salvador, dá-me licença de oferecer-lhe uma lembrança deste dia venturoso.
Destacando do braço um dos braceletes:
— Aqui tens, Rutuba, e quando possuíres uma noiva, dá-lhe esta jóia em memória do instante em que salvaste a vida de meu marido.
O jovem romano recebeu a dádiva com profunda reverência.
— Nobre senhora, só poderei testemunhar meu reconhecimento com um voto de fidelidade ao serviço de ambos.
Crede-me, velarei qual cão de fila, não só pelo amo, como por sua esposa, que eu considero o maior tesouro do seu lar.
O olhar que acompanhou tais palavras e o tom em que as pronunciou fizeram estremecer Dafné.
Cáius nada percebeu e, satisfeito com o que via e reputava uma demonstração de amor, enlaçou-a nos braços e conduziu-a ao salão.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 11, 2017 9:12 pm

XII - A queda

Transcorreram quinze dias.
No pátio das cavalariças, rodeado de amigos, Cáius Lucílius mostrava-lhes, satisfeito e orgulhoso de os possuir, os seus magníficos cavalos.
Viam-se num grupo Cláudius, Apolônius e Nero.
Este último, sempre retraído e sorumbático, mantinha-se a certa distância, não se imiscuindo na conversa, senão por apartes tendentes a provar que também entendia do assunto.
Os escravos já tinham feito desfilar os melhores e mais lindos corcéis, quando Cáius exclamou entusiasmado:
— Agora vão ver o mais belo, mas, também, o mais bravo dos meus cavalos.
É «Furacão», nome que lhe dei porque não tolera outro cavaleiro que não eu.
Isto digo, embora o tenha repassado uma única vez em que tive, por sinal, de empregar toda a minha força e habilidade, para não beijar o solo.
Quatro escravos procuravam, no momento, puxar o soberbo animal, que provocava geral admiração.
Era um potro de pêlo negro e luzidio como a asa do corvo, com reflexos azulados; as pernas finas, nervosas, pareciam obra de escultura; mas, os olhos sanguíneos e ariscos, tanto quanto a respiração ofegante, denotavam impetuosidade e rebeldia.
Alçando a cabeça inquieta, sacudindo a crina farta, relinchando forte e raspando na terra os cascos, era como se ali estivesse desafiando os cavaleiros.
Nero também se acercou do animal, afagou-o no pescoço e disse, esboçando um sorriso de ironia:
— Dizes então, Cáius, que ele não tolera outro peão?
— Sim. E disse também que só o cavalguei uma vez, convicto do risco que corri.
Todos os outros que o tentaram, até agora, têm sido cuspidos, e a um escravo, excelente picador, chegou até a escoucinhá-lo depois do tombo.
— É que era um banana — disse Nero com acrimonia...
Está-se a ver que não és militar, pois de outro modo não temerias equinas diabruras.
Com certeza, o que se dá é que não sabes dirigi-lo...
E vais consentir que to prove...
Medo? é coisa que nunca tive, nem posso ter deste teu «Furacão».
Cáius mordicou os lábios e corou ligeiramente.
— Creio ter demonstrado bastas vezes que não sou nenhum poltrão e nenhum de vocês, aqui presentes, poderá arguir-me de pusilanimidade.
O que eu tenho procurado é evitar riscos inúteis, montando um animal chucro e extraordinariamente vigoroso.
— Bem sei.... só utilizas aqueles que o pai considera inofensivos.
O que me admira é que tenhas gasto fama de um quase centauro.
Entretanto, repito:
por mais indómito que seja, deixa-me montá-lo e verás para quanto presta este meu pulso.
— Tu? — e mediu o irmão de alto a baixo — pois tu te julgas mais forte do que eu?
E o outro, já irritado:
— Volume de ossos nunca foi atestado de destreza...
— Não discutamos mais — volveu Cáius de lábios frementes —, experimentemos os ossos do que tiver maior destreza.
Montarei primeiro e irei até a casa de Marcus Fábius, de lá trazendo, como prova do percurso, um ramalhete de flores para a vovó; depois, farás tu a mesma coisa.
Mas, olha, Nero, trata de ganhar a partida, mesmo porque, de outro modo, não passarás de um simples fanfarrão...
Olá, abram vocês o portão...
Aproximou-se do animal, agarrou-lhe na crina e montou, lépido, de um salto.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 11, 2017 9:12 pm

O cavalo vergou o dorso ao peso do jovem atleta, que parecia atarrachar-se-lhe ao lombo, fez alguns corcovei-os e, já premido pelos joelhos possantes do cavaleiro, largou num trote largo, obediente à mão de ferro que o guiava.
Nero baixou a cabeça, cenho carregado, e encostado à parede manteve-se calado e alheio aos comentários provocados pelas qualidades de resistência do cavalo e pela agilidade e vigor do cavaleiro.
Apenas decorridos dez minutos, já se ouvia o tropel da montaria, que se avizinhava a todo o galope.
Cáius Lucílius, de rosto afogueado, reapareceu inteiramente senhor do seu papel e do animal que, escumante, caracolava em meneios caprichosos, para estacar finalmente a um simples esbarro de mão.
Dois escravos se precipitaram e seguraram o animal, enquanto o cavaleiro tomava pé com a mesma elegância e agilidade com que montara.
Apenas o suor que lhe camarinhava a fronte, poderia indicar o esforço despendido.
— Aqui está — exclamou alegremente, ao mesmo tempo que agitava nas mãos um «bouquet» de rosas e um lenço branco.
O «bouquet» é para vovó e o lenço é para ser restituído a Virgília, que lá te espera em companhia de Fábius.
Nero não se fez rogado, montou com destreza, mas, tanto que o animal percebeu a mudança de cavaleiro, entrou a escoucear e a pinotear furioso, relinchando.
O rosto do oficial purpurizou-se e as veias das mãos, finas e bem cuidadas, se intumesceram...
Todavia, depois de luta breve, o animal obedeceu.
Os circunstantes gruparam-se em torno de Cáius, a rir e a conversar; mas, um quarto de hora, meia hora escoou, assim, e... nada de Nero!
Um dos patrícios presentes, aventou:
— Com certeza janta por lá com Virgília, para demonstrar que um passeio no «Furacão» é pura brincadeira aperitiva.
— Pois eu antes aceito a hipótese de um acidente — exclamou o escultor.
É que, para dominar aquele animal, só uma musculatura como a tua, Cáius, que eu peço licença para fixar em mármore.
Há muito que afago a ideia de esculpir um grupo representando o centauro Cheron a ensinar equitação a Aquiles.
Os modelos, porém, me têm faltado.
Agora, se te quiseres prestar a isso, montando o «Furacão», penso que terei feito a minha fortuna e te seria infinitamente grato...
— Por mim, não haja dúvida; e se te posso ser útil, conta desde já comigo, mesmo porque, honroso me será representar Aquiles, esse herói de Homero, morto na flor dos anos, coberto de glória...
— Olha! não é Grácus, o servo de Marcus Fábius, que lá vem correndo?
— Que há? — gritou Cáius marchando ao seu encontro.
— Uma desgraça, meu senhor! seu irmão chegou ao pátio lá de casa, mas, quando quis sofrear o cavalo para cumprimentar meus amos, o raio do animal, que bufava como um touro, pinoteou de banda e deu em terra com o pobre do rapaz.
E parece que o tombo foi desastrado, porque ele deu com a cabeça num degrau da escada e, quando o colhemos, estava desacordado e coberto de sangue.
Corri a comunicar-te, e, quanto ao cavalo, aí vem de caminho, trazido por dois escravos.
— Preparem já a liteira — disse Cáius empalidecendo ligeiramente.
E voltando-se para os amigos, acrescentou:
— Vou comunicar à vovó a lamentável ocorrência e também a papai se ele cá estiver, se bem que Nero teve o que merecia:
provocou-me sem motivo, levou-me a arriscar a minha e a sua vida...
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 11, 2017 9:12 pm

Joguei a sorte; mas, notem, não é a primeira vez que ele me demonstra a sua aversão e procura magoar-me.
— Aliás, isso era de prever — comentou o escultor —, visto que Nero não possui uma força mais que medíocre.
Mas, que querem vocês se o rapaz é mesmo presunçoso?
Ao transpor o vestíbulo, defrontando Cláudius, Cáius lhe comunicou em poucas palavras o acontecido.
— Será lamentável se ele morrer desta queda, depois de uma ausência de vinte e quatro anos — resmungou o músico abanando a cabeça.
— Explica-te melhor... vamos:
não sei o que queres dizer com isso.
Ninguém obrigou Nero a cavalgar o “Furacão”.
Portanto, o que sucedeu é resultado da sua própria teimosia e prosápia.
Mas diga-me:
— papai está em casa?
— Não.
— Neste caso, incumbo-te de lhe prevenires logo que chegue e depois falaremos sobre a tua singular advertência.
Afastou-se, agastado, dirigiu-se aos aposentos da mulher.
Dafné estava no vestiário, rodeada de roupas, flores e jóias, enquanto algumas escravas pálidas e aflitas se entretinham a paramentá-la.
Duas penteavam-lhe e cinzavam-lhe os cabelos, enquanto uma terceira lhe carminava as faces e lábios já de si naturalmente coralinos.
Cáius deteve-se à porta, desagradavelmente surpreendido.
— Querida Dafné, meu irmão acaba de sofrer um desastre lamentável; caiu do cavalo e feriu-se gravemente, sendo recolhido a casa de Fábius.
Vim prevenir-te de que vou até lá e não voltarei, provavelmente, antes da noite.
Agora, diz-me: porque hás-de profanar assim os dons da natureza, trocando o róseo frescor das faces mimosas e o rubro-cereja dos teus lábios por esse reles carmim que te não faz mais bela?
Eu bem sei que isso faz parte da “toilette” patrícia; mas, uma mulher jovem e formosa bem podia deixar esses emboços às quarentonas em declínio.
— Nero morreu? — perguntou displicente, ao repelir com a mão a escrava, apontando-lhe outro frasco.
A rapariga tomou logo um pincelzinho e começou a tingir-lhe de preto as sobrancelhas.
Cáius não pôde conter um gesto de mau humor.
— Então acreditas que, se Nero tivesse morrido, eu estaria aqui a conversar contigo?
Mas, olha que essas sobrancelhas que assim fabricas são simplesmente abomináveis...
Dafné encarou-o e esboçou o mais amável dos sorrisos...
— Pois foi o escultor que, ao modelar-me o busto, disse que as sobrancelhas negras me quadravam maravilhosamente.
Bem vês, é opinião de artista...
— Pois eu me lisonjeio de ser a mim e não ao escultor que deves agradar...
Essas sobrancelhas — acrescentou sorrindo — não me satisfazem e quando aqui voltar não quero vê-las.
E agora, até logo...
Inclinou-se, beijou-lhe a espádua de jaspe, saiu.
Ela fez uma careta, espreguiçou-se indolentemente e disse: — estou fatigada, não há tempo a perder; o “senhor” foi-se e Fábia provavelmente vai com ele; Semprônius está no Fórum...
Olá! levem-me vinho e doces lá para o terraço e podem retirar-se, excepto Etra, que lá deverá ficar para me abanar.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 12, 2017 8:37 pm

As ordens foram executadas e dentro em pouco lá estava ela no terraço, a sós com a serva designada, uma núbia de fisionomia atrevida e cujos olhos vivos e redondos indicavam astúcia e duplicidade.
— Etra — disse-lhe, empunhando um colar de coral —, estou muito contente com a tua dedicação e assistência vigilante:
continua a servir-me com fidelidade e conta com a minha recompensa...
Agora, corre depressa e vai prevenir a Cláudius que eu o espero, logo que Cáius tenha realmente saído.
Depois, fica tu de guarda, de maneira que ninguém nos venha perturbar...
Compreendes?
A negra rojou-se-lhe aos pés, beijou-lhe as mãos com exclamações de alegria e, depois de haver jurado dedicação até à morte, correu à galeria onde Cláudius errava de um lado para outro, a ler um pergaminho.
Fingindo procurar qualquer objecto, a negra astuciosa passou-lhe rente e segredou que a patroa esperava-o no terraço, logo que a liteira do amo tivesse saído.
Ele inclinou-se e continuou a passear, mas, logo dez minutos depois, desceu ao jardim e se embrenhou numa aleia espessa.
Depois, insinuando-se através de moitas e tufos, atingiu uma janela e galgou-a de um salto para logo se encontrar na saleta contígua ao terraço.
Dafné lá estava, reclinada indolentemente na espreguiçadeira, e estendia-lhe as mãos, sorrindo:
— Aqui, juntinhos, meu belo músico, já que afinal sempre nos dão algumas horas de liberdade...
Cláudius assentou-se num tamborete, enlaçou-a, beijou-a na boca...
Incendida em volúpia, ela correspondeu-lhe às carícias e, alisando-lhe a loura e anelada cabeleira, murmurava:
— Amo-te...
Não podiam suspeitar houvesse alguém surpreendido Cláudius quando se esgueirava pelo jardim, e que, naquele mesmo instante, dois olhos de fogo ali mergulhavam através das cortinas.
— Pobre Cáius! — murmurava Rutuba, indignado quanto enojado — casado apenas há três semanas e já miseravelmente traído!
Ainda bem que me não iludia...
O patife aproveitou-se da sua ausência...
Mas, deixa estar, cadela! que ainda não esgotaste de todo a paciência de teu marido...
Antevejo, porém, que a hora da vingança se aproxima...
*
* *
Nero, completamente desacordado, foi recolhido em casa de Virgília, que, pessoalmente, tratou de pensar-lhe o extenso ferimento que sangrava copiosamente.
— Deuses poderosos! — clamava a todo o instante — parece que está morto...
E fixava horrorizada o semblante do ferido.
— Não — dizia-lhe o marido que amparava nas mãos a cabeça exânime —, o coração ainda pulsa e penso mesmo que ele não tardará a recuperar os sentidos.
Precisamos é humedecer-lhe os lábios e as têmporas.
Mas, estou a ver que a emoção te perturba, deixa isto a meu cargo...
— Pensei que estivesse morto, mas de vez que garantes o contrário, também faço empenho em auxiliar-te...
Graças a esses cuidados o rapaz não tardou, de fato, a abrir os olhos.
— Onde estou?
E sondava o ambiente com um olhar triste e fatigado.
— Em casa amiga — respondeu Fábius erguendo-Ihe a cabeça, enquanto Virgília lhe chegava a taça aos lábios e acrescentava, risonha:
— Bebe, descansa e tudo mais irá bem.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 12, 2017 8:37 pm

— Obrigado, Virgília...
Ah! como a gente se sente bem aqui...
Oxalá pudesse aqui ficar muito tempo... sempre...
Essas palavras, desabafou-as num profundo suspiro.
Marcus Fábius, a quem a mulher contara aquela conversação das bodas, que tão claro traduzia a recôndita mágoa do mal-aventurado rapaz, obtemperou logo com um aperto de mãos:
— Alegra-te então, meu caro, porque daqui só hás-de sair completamente restabelecido.
E agora, minha Virgília, vai-te porque é tempo de o acomodarmos melhor, até que chegue o médico, que também não pode tardar.
Uma hora depois, o ferido estava pensado e madornava febril, quando um rumor à cabeceira lhe fez entreabrir os olhos para contemplar diante de si o venerando semblante de Fábia, tendo ao lado Cáius Lucílius muito pálido e ofegante.
A boa senhora tinha os olhos mareados de lágrimas.
Violento tremor logo se apoderou do ferido:
rosto congesto, respiração opressa, falou com voz entrecortada:
— Não chore vovó, a culpa foi toda minha, a culpa é sempre minha, pois a natureza não me deu beleza nem destreza, nem vigor, nem afeições sequer, e é justo que só eu sofra as consequências do meu infortúnio.
Se eu morrer, o papai não deixará de viver mais nem pior por isso; acho mesmo que não derramará uma lágrima, desde que lhe reste o seu ídolo, são e salvo...
O meigo, profundo olhar da matrona pareceu querer sondar por um instante o semblante conturbado do neto.
Pediu a Cáius, que tudo via e ouvia consternado, se afastasse, deixando-a a sós com o irmão.
Depois, assentou-se à borda do leito e, atraindo-o a si, disse-lhe com toda a meiguice:
— Vejo que as lágrimas te sufocam:
chora, pois, meu filho querido, deixa que o pranto te lave as chagas do coração; desabafa, enfim, para que a tua palavra se expurgue do fel que trazes na alma.
Será isso um como bálsamo refrigerante para teu espírito atribulado.
O silêncio é, muitas vezes, superior às nossas forças.
Não te envergonhes dessas lágrimas que têm só a mim por testemunha, eu compreendo as tuas amarguras e ainda que o teu estado exija absoluto repouso, prefiro que desabafes, que me digas tudo o que te fez qual te revelas.
Depois, espero que também me escutes com mais paciência.
A íntima agitação que, desde a sua chegada, exacerbava os nervos do mancebo; o traumatismo da queda e a hemorragia consequente; tudo isso reunido lhe tirava no momento o domínio de si mesmo.
Então, tudo quanto de longos anos trazia recalcado, no coração, lhe desbordou dos olhos em torrentes de lágrimas.
Fábia, mãos carinhosas, enxugava aquelas lágrimas, até que os singultos se acalmaram e ele pôde, enfim, falar:
— Não sabes nem podes imaginar quanto sofri, o que tenho amargurado neste meu isolamento de longos anos:
na infância, nem um carinho, nem uma palavra de afeição!
A tia, bem sabes, nunca foi amorosa connosco, sempre absorvida com as suas orações e sacrifícios; aborrecia-nos, escorraçava-nos, e, quando nos favorecia e procurava agradar, fazia-o por pirraça a um em benefício doutro, sempre arbitrária, sempre caprichosa...
Quantas e quantas vezes lhe ouvimos dizer:
“desgraçados, dêem-se por felizes em ter ainda um pai que os sustenta, porque a verdade é que são vergônteas de um tronco odiado e, como tais, repulsivos a ele”.
Até os escravos sabiam disso e nos maltratavam impunemente.
Depois, entre colegas, como dizer dos acúleos com que me picavam quando se referiam a suas famílias e indagavam da minha, admirados do meu isolamento?
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 12, 2017 8:38 pm

Queriam saber quem eram meus pais e eu que mal pudera reconstituir-lhes os traços...
Oh! mas eu preciso, eu quero, eu devo dizer-te:
— se a despeito de tudo isso aqui estou, é porque ainda alimentava uma vaga esperança de poder conquistar a afeição paterna.
Agora, porém, vejo que fui um louco...
No coração do pai só há lugar para um filho e esse pai nem mesmo procura dissimular essa predilecção injusta e odiosa.
Tu mesma, vovó, tu também estás fascinada por esse favorito dos deuses, que sabe cativar a quantos dele se aproximam.
Por mim, sei que sou feio, desajeitado, antipático; mofino em confronto com o belo Cáius, a quem tudo parece sorrir na vida e, daí, a compreender a razão da preferência, ou antes e melhor — do meu repúdio.
Tu, com toda a bondade, procuras dissimular, atenuar a situação deplorável, tratas-me com ternura, mas, vovó, ninguém pode iludir o coração.
Eu vejo, quando Cáius nos aparece, os olhos profundos que papai lhe deita e vejo a muda adoração com que tu lhe escutas a voz...
E quanto a mim... sofro.
Que mais dizer-te?
E também para quê?
Calou-se, recaiu exausto nas almofadas.
Fábia beijou-o na testa.
Para ela, tudo aquilo era o fruto da resolução e procedimento insólito de Semprônius.
A injustiça feita aos filhos envenenara-lhes o coração, ao mesmo passo que engendrara para o filho dilecto inimigos implacáveis.
Compreendia que um abismo profundo se cavara entre os dois irmãos e o seu coração se premia de amargura.
Apertou a mão febril do neto, quis dizer-lhe alguma coisa, mas não teve tempo de o fazer, porque, ao mesmo instante, se abria a porta e Semprônius entrava.
Olhar aquilino, fixou-o no leito do filho, mas no rosto não deixou transparecer o mínimo de emoção.
Aproximou-se lesto e, inclinando-se para o paciente, disse:
— Não estivesses ferido e eu começaria por te censurar...
Como admitir que, por simples fatuidade, arriscasses a própria vida e a vida do teu irmão?
És o mais velho e sempre te supus mais ajuizado.
Um lampejo de ódio, que o pai não reparou, refulgiu no olhar do filho:
— A tua censura só podia ter cabimento se o ferido fosse Cáius Lucílius...
Mas, sendo eu a vítima, espero que te não hajas de afligir muito.
Ao demais não é esta a primeira vez que adoeço, e nós sempre devemos estar preparados para encarar a morte de um soldado.
Eu não passo de um... soldado.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 12, 2017 8:38 pm

XIII - O músico hábil

Decorridos alguns dias sobre os episódios do precedente capítulo, vamos encontrar, reunidos no terraço, Drúsus, sua filha Drusila e Cáius.
O cego cochilava num sofá, junto do qual uma escrava movia um grande espanador, para afugentar as moscas.
Drusila, jovem formosíssima, um tanto pálida, estava sentada junto da balaustrada, sustendo nos joelhos uma tijela de grãos, que se entretinha a jogar a um bando de pombos, dos quais alguns, mais atrevidos, vinham bicá-los na palma da sua mão.
Sentado a seus pés, num tamborete, estava o jovem Cláudius todo embonecado e perfumado, como sempre.
Dedilhando pequena harpa dourada, cantava uma das árias predilectas, com voz bem timbrada de melancolia.
Ao terminar, põe de lado o instrumento e, inclinando-se para a moça, disse, dando aos olhos uma expressão de ternura na qual um observador arguto teria adivinhado calculada intenção:
— Drusila, há muito que não ouço de teus lábios um madrigal...
Acaso terás banido da memória aquela noite da minha partida de Roma e a carta que me enviaste pelo mensageiro de Fábia?
Não tomes por ofensa o recordar um tempo tão ditoso para mim...
Ela corou:
— Que dizes, Cláudius?
Como poderia esquecer uma das horas mais gratas da minha vida?
Amo-te ainda, como sempre, mas, a verdade é que tanto papai como a vovó se opõem ao nosso casamento.
Aliados ao tio, querem ligar-me a Nero e por mim te confesso que não tenho ânimo para desobedecer-lhes.
É possível que de todo me não faltasse esse ânimo, se, porventura, não tivesse surpreendido uma conversa de Nero com papai.
“Meu tio”, dizia ele, “acato de bom grado o seu projecto e serei feliz em satisfazer aos seus desejos, que são também os de meu pai, acautelando a sua enorme fortuna em favor de um consanguíneo de Semprônius; entretanto, tenho o dever de lhe ser franco e dizer que não amo Drusila, apesar da sua incontestável beleza.
Preferiria que assim não fosse, mesmo porque, estimo nela os dotes morais, o amor filial que lhe dedica e que me faz persuadir que há-de ser esposa modelar.
Nada obstante, não tenho coração para vibrar esse amor decantado pelos poetas e, destarte, se Drusila se contentar com a só estima e admiração do marido, poderá ter em mim apenas um esposo indulgente e um amigo fiel e dedicado.”
— Pois bem, Cláudius — prosseguiu baixando os olhos —, essas palavras de Nero e a discreta delicadeza com que me tem tratado, levaram-me a concluir que, a ter de renunciar ao homem a quem amo, devo preferir um marido que me não exija o que jamais lhe poderia dar.
Cláudius afastou-se silencioso e apoiou a cabeça no rebordo da harpa...
Batia-lhe, violento, o coração.
Decepção e raiva ao mesmo tempo.
Pois seria lá possível que Drusila se deixasse empolgar por Nero e procurasse dissimular os seus pendores a pretexto de falsa obediência?
A mulher a quem arrebatam o homem eleito não pode falar assim com tanta calma...
Dominando-se por um esforço de vontade, respondeu em voz baixa:
— Só me cabe fazer justiça aos teus intuitos e respeitar os teus desejos, conformando-te em receberes o escolhido dos teus parentes, na esperança de que não reivindiquem, entre si, mais que um simples elo de estima respeitosa; contudo, penso que te iludes quando supões teu primo indene de uma paixão violenta.
Duvido mesmo, agora, que ele ainda queira esposar-te, ou, dado que o faça (sorriu amargamente), terão de jogar o mesmo jogo, isto é:
— tu o acolherás por seres obrigada a renunciar ao que te agrada e ele te aceitará para afogar a desvairada paixão que o empolgou inteiramente.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 12, 2017 8:38 pm

A moça ergueu os olhos, admirada, mas nenhuma emoção lhe alterava a voz melodiosa, ao perguntar:
— Mas, quem supões tu que Nero ama?
Ele, tão frio, tão reservado...
Até parece impossível!
Em todo o caso, peço que te expliques, porque o assunto é grave.
O músico sobressaltou-se: se aquela novidade fora recebida com frieza, então, era evidente que ela não amava o primo.
— Sei o que digo e porque o digo:
— ontem, como sabes, fomos eu e Cáius visitar Nero, que vai passando melhor.
Encontramo-lo no terraço dos seus amáveis hospedeiros, comodamente instalado e por eles assistido.
Ao nos despedirmos, Marcus fez questão de nos mostrar um camafeu comprado de manhã, e, enquanto passámos à sala vizinha, Virgília ficou junto do convalescente e eu vi que, a seu pedido, ela lhe chegou a bilha aos lábios, enquanto lhe sustentava a cabeça com o mais encantador dos sorrisos.
Nisto, creio que chamada pela ama, saiu deixando o véu no tamborete, perto do leito.
Nero, ao ver-se só, tomou o véu, beijou-o apaixonadamente e, logo que pressentiu passos, o deixou para recair nas almofadas, dando um longo suspiro.
De resto, observa por ti mesma a expressão com que ele acompanha os olhos de Marcus Fábius e ficarás convencida do que te digo.
— Pobre Nero! — murmurou Drusila com uma compassividade tão natural, tão isenta de ciúme, que Cláudius não teve a menor dúvida.
— A ele, bem se vê que o não ama...
E a mim, muito menos, é claro.
Em aqui chegando, ela ainda me deu mostras de amor e eu bem vi nos seus olhos que não mentia.
Mas, valha-me Plutão e todas as divindades! — quem poderia ter-me destronado em poucas semanas?
Passou em revista mental todos os rapazes que podiam com ele rivalizar e acabou concluindo displicente:
— Sim, Virgília é bem sedutora e os seus cachos, ruivos de fogo já atearam mais de um incêndio, além do que, faz as suas conquistas como quem não as percebe, a sorrir, sorrindo sempre.
Certo, também não ignoras que Cáius está louco por ela e eu penso que, ainda hoje, estima-a muito mais do que a tal Dafné, que não há-de o prender por muito tempo.
Entretanto, Virgília o preteriu por Marcus Fábius...
— Cáius amou Virgília?! — glosou Drusila já possuída de estranha emoção, enquanto o olhar arguto de Cláudius também lhe notava a palidez da face e o ligeiro tremor dos lábios.
— Ah! — murmurou para dentro, furioso — é ele?
Depressa levantei a lebre...
Pois hás-de ver, mulher volúvel, que, por fas ou por nefas, hás-de ser minha e pagarás com juro dobrado a tua leviandade.
Quanto ao afastamento de Nero, esse fica por minha conta...
Levantou-se, fingindo grande emoção:
— Desculpa, mas, preciso de solidão.
Drusila sinceramente convencida de que a sua confidencia calara no coração do jovem músico, apertou-lhe a mão.
— Pobre Cláudius — murmurou de si para si, acompanhando-o com os olhos húmidos — se não me amasses, seria mais franca contigo...
*
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 12, 2017 8:39 pm

* *
Dias após esta entrevista, visitante assíduo que se fizera do solar de Márous Fábius, vamos ali encontrar Cláudius naquele mesmo terraço, lugar predilecto de Nero.
O casal patrício estava ausente, de visita a Metela, e Cáius acompanhara-os.
O músico teimara em ficar, pretextando fazer companhia ao convalescente.
Conversavam:
— Então, como vais passando? — perguntou.
— Tão bem quanto permite a natureza do mal.
E tu e todos lá em casa como vão?
O tio, a minha cara Drusila?
— Sabendo-te livre de perigo, todos estão alegres e satisfeitos, e apenas Drusila me parece um tanto melancólica e apreensiva...
A tais palavras, o enfermo esboçou um leve sorriso.
O tolo! — considerou Cláudius — pensa que é por causa dele...
Mal podendo suspeitar-lhe a insídia, Nero passou a mão pela testa e disse, suspiroso:
— Ainda não sabes, meu amigo, que meu pai e o tio Drúsus desejam casar-me com a bela priminha e eu suponho que, na verdade, esse arranjo me convém.
Já é tempo de constituir o meu lar; esta minha vida é instável, trabalhosa e não enseja, quase nunca, a realização integral de tudo quanto almejamos.
Contudo, Drusila, amável e carinhosa, há-de ser uma esposa dedicada e fiel.
Até hoje, pelo menos, não lhe notei outras preferências, de sorte que, penso, poderei conquistar-lhe uma afeição legítima.
Tenciono também abandonar o serviço militar e adquirir aquela esplêndida herdade que confina com a de Fabrícius Agripa, pois quero conviver com as pessoas de minhas novas relações.
É um plano este que meu tio não deixará de aprovar, mesmo porque, sei que ele também deseja permanecer junto de Fábia, cujas viagens a Roma se vão tornando, pela sua idade, mais penosas e cada vez mais difíceis.
Cláudius, que tudo ouvira com particular interesse, apertou-lhe a mão e disse:
— Essa tua espontânea confissão me coloca em situação assaz embaraçosa, pois vejo que tudo ignoras e vais cometer grande imprudência, instalando-te aqui em Herculânum, depois de casado.
Contudo, o dever de amigo manda falar com franqueza e poupar ao amigo futuros desgostos.
Sempre é melhor prevenir que remediar...
Nero franziu o sobrolho e disse asperamente:
— Fala...
— Por mim, julgo que melhor farias vivendo com tua mulher lá em Roma, visto que a palidez e melancolia de Drusila mais não significam do que a consequência da louca paixão que lhe inspira teu irmão Cáius, esse Eros ao qual não há mulher que resista.
O semblante pálido do enfermo cobriu-se de vivo rubor.
— Dizes que Drusila o ama loucamente?!
Mas, como podes sabê-lo? que acaso te favoreceu para falares com essa convicção?
— Ora! pois tu não sabes que nós, os poetas e musicistas somos os eternos confidentes dos corações femininos?
Se possuímos o dom de cantar e exprimir em versos harmoniosos o que lhes vai na alma, em segredo...
Ouve lá, pois, como pude desvendar o mistério:
Há cerca de quinze dias, logo pela manhã, fui chamado aos aposentos de Drúsus, que se sentia indisposto.
Conheces a paixão do cego pela música.
Tratei de executar uma das árias que ele mais aprecia, enquanto Drusila se divertia com os seus pombos.
Logo que o pressenti adormecido, parei de cantar e comecei a conversar com Drusila, serrazinando na sua tristeza.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 12, 2017 8:39 pm

Ela começou por defender-se, mas acabou revelando o projecto de casamento contigo, acrescentando que se conformava, apenas por convicta de que eras uma criatura indiferente e incapaz de lhe exigir o que jamais te poderia conceder, para só considerares nessa união um caso de pura conveniência económica e familiar.
Em suma:
de todo o palavreado o que pude extrair, em substância, é que ela estava apaixonada por outrem.
Mas — conjecturei — quem seria o felizardo?
Procurava adivinhá-lo, quando ela própria me deu o fio da meada.
Como? simplesmente quando, de olhos baixos, meio confusa, indagou se Cáius Lucílius se apaixonara pela rústica Dafné há muito tempo.
Respondi que a meu ver aquele amor de Cáius não passava de simples capricho de rapaz doudivanas e amimalhado em excesso.
Acostumado a ver satisfeitas todas as suas vontades, a oposição de Semprônius alterou-lhe a saúde e todos acabaram por se conformar com esse casamento exótico e absurdo.
De resto, não é segredo para ninguém, o amor delirante de Fábia e Semprônius, pelo seu “ídolo”.
Frisando as palavras do seu discurso, o astucioso Cláudius observava, maldosamente satisfeito, a transformação por que passava a fisionomia do outro.
— Se visses qual vi aquele episódio do carro aos boléus, com os cavalos enfurecidos...
Cáius e Virgília periclitavam de morte, era evidente que a tipóia se espatifava...
O velho Semprônius, diante do quadro, estava como que petrificado!
Era uma estátua de mármore!
Depois, a voz entrecortada, num desespero que jamais lhe poderia atribuir, prometia uma fortuna a quem conseguisse deter a parelha desabalada.
E Fábia então? — essa caíra de joelhos, mãos súplices, lavada em pranto, obsecrando aos deuses que lhe poupassem o querido neto.
Entretanto, Cáius não tinha olhos senão para Virgília, que, para lhe não tolher os movimentos, toda se curvara e deixara enlaçar pela cintura.
Nada obstante, e ainda assim, quando as rédeas se partiram, ele alçou a jovem e sustentou-a de encontro ao coração, numa atitude de quem parecia dizer:
— “morrer assim unidos é uma ventura!”
Virgília, por sua vez, estava radiante em meio de toda a sua angústia:
seus grandes olhos cravaram-se nos do companheiro, como se ele fora, naquele momento, a âncora da salvação.
Cabelos soltos em ondas flavas, pareciam querer envolvê-lo num halo de ouro.
Foi nesse transe que se me desvaneceu toda e qualquer dúvida:
— a paixão de Cáius pela “dourada borboleta” não se extinguira, jamais, e ela, a “borboleta”, também o amava talvez mais do que supunha, o que afinal não é também lá muito lisonjeiro para a tranquilidade do nobre e confiado Marcus Fábius...
Agora, para melhor convencer-te da realidade, quero que me jures absoluto sigilo.
À proporção que o músico discorria, Nero tornava-se mais lívido e desfigurado.
A respiração opressa e o fulgor das pupilas indiciavam a tormenta que lhe açoitava o espírito.
— Juro-te que guardarei absoluto segredo...
— Ora bem — continuou Cláudius como quem se não dava por achado —, Dafné avistou Cáius com Virgília, quando regressavam daquele passeio...
Naturalmente, eles trocavam-se madrigais e certo não lhe foi difícil, a ela Dafné, compreender que o par se amava.
Possessa, então, desvairada pelo ciúme, atirou com o lenço à frente dos cavalos e foi a conta...
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 12, 2017 8:39 pm

Aqui, porém, devo voltar a Drusila:
— quando, em resposta à sua pergunta, eu lhe disse o que pensava dos amores de Cáius com Dafné (sem referir, claro, o que acabo de te revelar), a impressão causada por minhas palavras e o gesto que fez, comprimindo o coração, deram-me a chave do enigma.
Certo, nada te diria neste particular, se não fosses o primeiro a falar dos teus planos de casamento.
Pareceu-me, então, que faltaria a um dever de lealdade se calasse o que sabia.
Fez-se entre os dois um silêncio prolongado.
Nero foi o primeiro a quebrá-lo, dizendo com voz cavernosa:
— Agradeço a prova de amizade que acabas de me testemunhar; quanto a Drusila está muito enganada se pensa casar-se comigo.
Não, absolutamente!
De facto, não me faz conta a mulher que, loucamente apaixonada por outro, ainda me julga capaz de renunciar ao seu amor de esposo...
É o que te digo, e, agora, peço-te me deixes ficar sozinho, pois estou sentindo que o esforço desta longa entrevista me esgotou as forças e requer maior repouso.
Cláudius logo se despediu, amável, mas, tanto que se viu na rua, ei-lo a monologar sarcástico:
“sempre fiz um alto negócio; este pascácio do Nero não me há-de escamotear, assim de cara, o dote de Drusila.
Ela também não há-de o querer mais, e vão ver que ainda me virão pedir em casamento para essa delambida...
Agora, só me resta procurar Dafné e incutir-lhe o ciúme por Drusila, para que o “amiguinho” Cáius possa ter a sua conta na partilha”.
Os frutos dessa boa semente não haveriam de tardar.
*
* *
Certa manhã, ao regressar de um passeio de biga com Drusila, que tinha paixão por esse desporto, Cáius Lucílius encaminhava-se para o aposento de sua mulher quando uma escrava toda atarantada e chorosa lhe comunicou que a senhora tinha despachado toda a gente, a pretexto de repouso. Admirado e presumindo qualquer enfermidade da jovem esposa, ele apenas perguntou:
— Onde está ela?
— No gabinete de vestir — respondeu a escrava. Caminhou, apressado, levantou o reposteiro mas, logo ao primeiro golpe de vista, estacou surpreso! O assoalho estava juncado de quadros, vidros e preciosos utensílios quebrados! Tudo em pandarecos e no sofá, estendida, Dafné esmolambada, desgrenhada, com a cabeça enterrada nos travesseiros.
Ignorando que a mulher acabava de sofrer uma daquelas crises de raiva que ele nunca presenciara e menos pudera suspeitar, inclinou-se para o sofá:
— Que é isso? que tens? estás doente?
Mas, logo recuou, porque a moça se ergueu qual fúria de mãos crispadas, seminua, pupilas acesas a rebrilharem através dos cabelos caídos pela testa...
Positivamente horrorosa!
— Patife, infame, traidor! enquanto aqui me deixas, encarcerada, qual vil escrava, andas lá por fora a exibir as tuas amantes!
Que juízo fazes de mim? Pensas que sou alguma cega e que hei-de calar este martírio?
Oh! minha mãe querida, agora vejo que tinhas razão quando dizias que eu havia de ser desprezada e maltratada...
Louca, louca que fui em não te acreditar.
Agora, porém, não suporto mais:
sai, sai da minha frente, miserável, não quero mais ver-te...
No mesmo instante, arremessou-lhe um grande pote de creme, que o rapaz mal pôde desviar.
A esse ataque inopinado, foi-se-lhe também a calma e de um salto agarrou-a pelos pulsos.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 12, 2017 8:39 pm

— Idiota, a quem aludes?
Tinha os olhos em brasa, ao mesmo tempo que a constringia como se quisesse esmagar-lhe os ossos.
— Monstro! — urrava ela — queres massacrar-me depois de me haveres torpemente mentido?
A quem aludo?
A Drusila, tua amante, a quem passeias no teu carro enquanto aqui me deixas abandonada, certo para que toda a cidade saiba do meu opróbrio.
Larga-me, bandido; larga-me que já não posso mais...
Não conseguindo desprender-se das mãos de ferro que a constringiam, abaixou-se num gesto brusco e mordeu-lhe o braço.
O rapaz deu um grito de dor e, petrificado diante do sangue que escorria da profunda dentada, explodiu:
— Sua besta!
Lívido, a espumar de raiva, com a sinistra agarrou-a pelos cabelos e rojou-a ao solo, enquanto com a destra tirou da cinta o chicote.
Ela debatia-se em vão, rolava e uivava qual leoa mal ferida, à proporção que as lambadas lhe vincavam o tronco seminu.
Apesar da barulheira infernal, nem uma escrava ousou penetrar no quarto:
apenas a cavilosa Etra, que tudo espreitara dentre as dobras do reposteiro, correu a prevenir Fábia do que se estava passando.
A matrona não tardou a aparecer, e ao contemplar o seu querido Cáius fulo de raiva, de chicote em punho e Dafné a sangrar, deu um grito e colocou-se-lhes de permeio.
— Cáius, que é isso? — e arrebatou-lhe o chicote.
Ao timbre daquela voz, o moço estarreceu-se.
Estava descorado e vacilante como se fosse um moribundo.
Sem articular palavra, deixou-se conduzir ao quarto da avó e ali tombou numa cadeira, a tremer e a suar copiosamente.
Drusila, que conversava com a avó quando a escrava ali acorrera, retirara-se a um canto e fitava o primo, comovida quanto espantada.
— Depressa, filha — disse-lhe Fábia —, vai buscar um pouco de vinho, água e pensos, e dá ordem para que ninguém aqui penetre.
Rápida qual relâmpago, a moça voltava a breve trecho e as duas curavam, silenciosamente, a mordedura no rapaz, que, imóvel, de olhos parados, parecia nada ver nem entender.
A velha acabou por enxugar-lhe a fronte, e, toda trémula, aproximou-lhe dos lábios a taça de vinho:
— Bebe, filho do coração, reconforta-te...
Ele estremeceu e deu um profundo suspiro, deixando pender a cabeça no seio da boa senhora.
Esta, fazendo sinal à moça para que se retirasse, pousou as mãos na cabeleira anelada do neto e ficou assim, muito tempo, calada.
Ela bem sabia que, após tais crises, sempre sucedia uma reacção natural e sedativa.
Absteve-se, portanto, de intervir, até que os soluços do rapaz e o pranto que lhe borbulhavam os olhos viessem comprovar a esperada reacção.
Pouco a pouco se acalmou e levou, ele mesmo, a veneranda patrícia a sentar-se na sua poltrona, assentando-se, por sua vez, aos pés dela para dizer-lhe:
— Perdoa-me esta hora angustiosa que te proporcionei... — beijou-lhe as mãos níveas e mergulhou a fronte nos seus joelhos.
A nobre matrona compreendeu aquele olhar que continha, não apenas uma desculpa, mas a muda confissão tio seu recto juízo, quando suspeitava daquela criatura rústica, educada por uma mulher relaxada, criminosa e que, não por força da sua condição plebeia, mas do ambiente em que crescera, se tornava indigna de casar com ele.
— Pobre filho, levanta a fronte e não desanimes dessa forma. Desta feita tu não tens razão; perdeste a cabeça a ponto de bater em tua mulher, o que se não justifica num homem da tua classe.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 12, 2017 8:40 pm

Que dirá teu pai de tudo isso?
— Nada lhe digas — suplicou, lançando-lhe os grandes olhos ainda húmidos.
Irias envergonhar-me ainda mais, visto que razão lhe assistia quando se opunha ao casamento:
Ah! É que ele compreendia, melhor do que eu mesmo, a minha felicidade.
Tu não imaginas, vovó, quanto sofro desde o dia em que me casei:
essa mulher é perversa, não me ama, absolutamente, e até se compraz em espicaçar-me o ciúme...
Hoje, reconheço que o que ela queria e prezava em mim era o patriciado e a fortuna.
Entretanto, veja, eu amo-a com sinceridade e tudo tenho feito para lhe ser agradável.
Tudo, porém, se faz inútil; ela persevera na sua ingénita maldade e, ainda para cúmulo do meu desespero, odeia-te a ti, tanto quanto a meu pai.
— Não me dizes novidade, filho; todavia, uma vez casados, cumpre seres bondoso e paciente, a fim de facetar o carácter defeituoso dessa criatura, que é hoje tua mulher.
Não te assiste direito de repúdio pelo facto de se revelar tal como é e nunca deixou de ser, posto que não tivesses tido ensejo de observar e presumir.
Não quiseste admitir que, arrancando das camadas plebeias essa infeliz, cuja mãe só visava elevá-la ao nosso nível social, terias de enfrentar situações e acidentes que a tua educação não poderia conceber.
Era isso justamente — lembras-te? — o que eu temia quando aludia à diferença de nível social, que havias, então, por mero preconceito.
Casada com qualquer soldado ou taverneiro, Dafné seria uma esposa suportável: um ou outro, não teria meias medidas para lhe chegar a roupa ao pêlo e lá se arranjariam de qualquer forma, lé com lé.
Tu, porém, meu pobre filho, não podes suportar impunemente essas anomalias.
Mas, também te digo: não desesperes, ela é ainda criança e talvez se possa corrigir.
Quero crer fosse o amor que te vota o que a levou a tais extremos de ciúme e, se um dia ela chegar a compreender a improcedência de suas suspeitas, há-de envergonhar-se de as haver agasalhado.
E agora, meu filho, procura descansar, vê se consegues dormir um bocadinho, mesmo porque tens de comparecer à nossa refeição e não há necessidade que os escravos e serviçais te suponham desconsolado por haveres castigado tua mulher.
Deixa-me o encargo de acomodar as coisas de maneira a poupar-te perguntas irritantes e indiscretas.
A Semprônius nada posso nem devo ocultar, mas fá-lo-ei de modo que te não faça ele, jamais, qualquer alusão.
Cedendo à insistência carinhosa da avó, o rapaz deitou-se depois de tomar algumas gotas calmantes e logo mergulhou em sono profundo, mas agitado.
Fábia beijou-lhe a testa febril e saiu.
No átrio, encontrou Semprônius, que, por sua vez, andava procurando-a, aliás, agitadíssimo.
— Que há? Cláudius e Apolônius acabam de me contar vagamente que houve uma briga entre Cáius e Dafné...
Que mistérios são estes?
— Calma, filho — respondeu atraindo-o para o terraço, onde passou a fazer o relato minucioso dos lamentáveis acontecimentos.
Semprônius, encostado à varanda, tudo ouvia atento e de quando a quando cortava-lhe o discurso com exclamações violentas.
— Dafné tem grande culpa — acabou por dizer a matrona —, mas Cáius também se deixou arrebatar e meteu-lhe o chicote de sangrar, de sorte que, agora, lá está arrependido, envergonhado, tanto que me suplicou nada te dissesse e eu quero que te abstenhas, ao menos por hoje, de lhe tocar no assunto.
De mãos cruzadas às costas, o patrício começou a andar de um lado para outro:
— Desprezível criatura, digna filha de Túlia, que não teria ela feito para levar o meu Cáius a semelhantes extremos?
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 12, 2017 8:40 pm

Eu bem previ que essa sujeitinha não lhe faria a felicidade e sempre me opus ao casamento...
Mas, afinal, somos ambos culpados...
Parou diante de Fábia, nervoso:
— Devíamos considerar que caprichos são coisa de criança e que um rapaz de vinte e dois anos nada pode discernir em matéria de conveniências conjugais.
Aos parentes, portanto, impõe-se-lhes o dever de impedir semelhantes loucuras.
Infelizmente, minha mãe, ninguém morre de fracassos amorosos e eu estou a ver que a nossa condescendência insensata ainda nos vai acarretar profundos dissabores.
No fim do repasto, que decorreu silencioso e tristemente, Semprônius estendeu ao filho uma taça de vinho e falou-lhe com um olhar significativamente confortador:
— Bebe, filho: o vinho sempre nos alegra a alma e eu estou notando que estás um tanto melancólico.
Olha, vou mandar atrelar o carro e iremos até Pompeia, onde se representa hoje um espectáculo interessante.
Cláudius e Apolônius irão connosco e todos nos divertiremos.
Depois que os dois rapazes se afastaram para trocar de roupa e na sala só ficou Drusila, até então de olhos baixos, a chupar uma fruta, Cáius acercou-se mais do pai, e, pondo no olhar a expressão de um profundo reconhecimento, beijou-lhe a mão.
— Está bem, filho, estamos entendidos.
E atendo-lhe no ombro:
— desamarra-me essa cara de poucos amigos e tudo mais se há-de arranjar...
*
* *
Uma tarde belíssima, na qual ao calor do Sol sucedera uma viração macia e redolente, vamos encontrar Cáius Lucílius no pequeno terraço onde o vimos a palestrar com Cláudius, antes do casamento, enviar uma carta e outros mimos a Dafné. Desta vez o nosso homem está só.
Vinho e frutas sobre pequena mesa ao lado, conservavam-se intactos enquanto que profunda ruga lhe vincava a testa, ao mesmo passo que o rosto móbil reflectia angustiosa preocupação de espírito.
Há doze dias não via Dafné, que, depois do castigo exemplar, pretextara doença e se tornara retraída, invisível, recolhida aos aposentos.
Só Fábia procurara visitá-la, uma única vez, no intuito de acalmá-la e orientá-la.
Voltou, porém, indignada e a ninguém ousou contar o resultado da entrevista.
Não queria soubessem que encontrara Dafné inteiramente revoltada, a lançar contra o marido uma torrente de injúrias, num calão inconcebível, que a fizera corar.
Aquele silêncio da avó reagira penosamente no ânimo do moço patrício, que, pouco a pouco, ia compreendendo melhor e nitidamente a extensão da sua loucura em esposar aquela mulher pérfida quanto ingrata que, num tempo tão curto, já lhe tornava a existência assim amarga.
Sabia, porque ela não lho ocultara, do seu ódio a essa avó, que valia ao seu conceito por um símbolo de virtude e dignidade.
O olhar límpido e profundo da veneranda senhora penetrava e lia no coração da mulher dúplice e leviana, que era Dafné, os seus pendores quando, na ausência do esposo, procurava trocar olhares expressivos com o escultor quando este trabalhava em modelar-lhe o busto...
Certo, ela não confessava os secretos motivos dessa aversão por Fábia, cuja vigilância era embargo aos seus impulsos; mas, a verdade é que o seu génio irascível e violento não lhe permitia dissimular totalmente os desígnios que lhe trabalhavam n'alma.
Semprônius, igualmente, era-lhe antipático.
Homem brusco e altaneiro, não trepidava em dar-lhe a entender que só o acaso lhe dera um nome na sociedade; e sempre que ela praticava qualquer ato menos decoroso, ou simplesmente evocativo do seu passado ínfimo, fazia-lhe sentir, sem rodeios, que agora estava num solar patrício e não numa taverna.
Cáius Lucílius sofria cruelmente com essa hostilidade da mulher amada aos dois entes que mais estimava neste mundo.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 12, 2017 8:40 pm

Aquele pai áspero, violento, tirânico com todos, tinha sido sempre bom e terno para ele.
Amava-o, assim, de todo o coração.
E quanto à avó, espírito meigo e indulgente, venerada por todos e em cujos braços se criara, essa, tinha-a como ídolo sagrado e modelo de todas as virtudes.
Eis como, ralado de amarguras, a si mesmo perguntava se, odiando aos dois seres que ele mais estremecia e venerava no mundo, poderia Dafné amá-lo a ele.
Verdade é que ela lhe prodigalizava nomes os mais ternos, demonstrando, por vezes, uma paixão desordenada; mas, pressentia que algo de extraordinário se interpunha, algo que lhe segredava, lá dos arcanos da consciência, que, uma vez extinta a chama do amor delirante, saciado o instinto, nem um traço de afinidade poderia ligá-los no futuro.
Vieram-lhe então à mente as horas tormentosas que aquela mulher já lhe havia proporcionado nesses dois meses de casados, ora exigindo carícias exageradas em requintes de volúpia insaciada, ora torturando-o com o seu ciúme brutal, a querer como que lhe devassar o coração, autopsiar-lhe o passado, senhoreá-lo em suma, até ameaçando suicidar-se, caso ele não renunciasse ao pai e à avó.
E como se tudo isso não bastasse, ainda se mostrava escandalizada por qualquer amabilidade, um simples sorriso dirigido a outra mulher!
Incrível a versatilidade do seu génio, que passava de inopino dos arroubos mais calorosos à mais fria indiferença; que o crivava de suspeitas e acusações; que procurava exaltar nele o ciúme e chegava a exigir o abandono da casa paterna (julgada mesquinha) para se instalarem faustosamente em Roma.
Aquela luta sem tréguas, com alternativas de ardor e frieza, ultrapassava as forças do jovem atleta, que definhava a olhos vistos e, de comunicativo e jovial, tornara-se reservado e irritadiço.
Aquela prolongada contensão nervosa explodira, finalmente, na memorável manhã que o levara, louco de raiva, a descarregar a vergasta na víbora que lhe trincara o braço, depois de lhe haver envenenado o coração.
Todos estes pensamentos agitavam naquele momento o coração ulcerado de Cáius, arrancando-lhe do peito um doloroso suspiro.
Apesar de tudo, aquela alma violenta, mas generosa, se devotara a Dafné.
Sim, amava-a a despeito da sua maldade, e por isso não deixava de sofrer com aquele prolongado afastamento.
Contudo, não queria ser o primeiro a procurá-la, para não demonstrar arrependimento ou fraqueza.
De repente, entreabriu-se um reposteiro e mansamente surgiu Dafné!
Parou um instante, como que indecisa.
Trajava com simplicidade intencional um vestido branco, de lã, apertado na cinta por um cordão de ouro e trazia presa aos louros cabelos desnastrados uma flor de romeira.
Muda, contemplou com os olhos meio-repreensivos, meio-apaixonados, o belo rapaz engolfado nas suas cogitações; e depois, deslizando qual sombra até junto dele, ajoelhou-se, tomou-lhe as mãos:
— Cáius, meu amor, perdoa-me... — murmurou com voz melíflua, já entrecortada de lágrimas.
Ele estremeceu, levantou a cabeça, mas, encontrando os olhos húmidos e súplices da mulher genuflectida, sentiu que toda a cólera se esvanecia e, atraindo-a ao peito sem articular palavra, premiu-lhe os lábios num longo e terno beijo.
— O’ como me julgo feliz!
Acreditei que morreria se a tua ausência durasse mais tempo — repetia, enrolando os braços, como duas serpentes brancas, no pescoço do marido, abraçando-o com efusão.
E contudo, enquanto dos lábios lhe turturinavam essas palavras amorosas, outras lhe refluíam ao truculento coração, a dizer de si para si:
— deixa-te estar meu verdugo, que ainda hás-de pagar as chicotadas e a humilhação deste momento, tão depressa eu me descarte de Fábia e de Semprônius.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 12, 2017 8:40 pm

— Dafné, minha querida, que esta hora de reconciliação nos faça esquecer todos os contratempos passados.
Procura confiar em mim e não te deixes cegar por infundados ciúmes.
Assim, haveremos de ser felizes.
Era a palavra de perdão generoso, leal, franco, como a alma que o ditava.
Não havia restrições mentais, não havia condições possíveis.
As palavras de Fábia ainda lhe timbravam nos ouvidos:
“Só com paciência e bondade devia corrigir e nobilitar aquela criatura imperfeita e infeliz”.
Pobre Cáius, mal podia suspeitar que todo aquele arrependimento fingido era obra de Túlia.
É que, na sua estúpida obstinação de revide, Dafné, por si, teria prolongado o isolamento; mas, justamente na véspera, quando mais angustiada e raivosa se sentia, veio-lhe uma ideia súbita:
embrulhou alguns objectos de somenos, envolveu-se num manto escuro e ausentou-se de casa, depois de recomendar a Etra que vigiasse, a fim de que ninguém pudesse dar pela sua ausência.
Sem perda de um minuto, encaminhou-se à loja materna, batendo na porta já fechada.
Ao reconhecê-la, Túlia recuara surpresa, mas não a repeliu, antes procurou ouvir-lhe o depoimento, aliás feito com lágrimas de revolta e acessos de cólera.
Não ousamos indagar se foi o amor materno ou a paixão por Drúsus que actuou no ânimo de Túlia.
O facto é que ela se reconciliou com a filha, aceitou-lhe os presentes e, depois de minucioso inquérito a respeito dos hóspedes de Semprônius, fez-lhe sentir positivamente que devia reconciliar-se e até lhe insinuou como devia apresentar-se para enternecer o marido, que, ao seu ver, era trabalhado pela avó e pelo pai, no sentido de o separarem dela o mais possível.
Também não lhe foi difícil persuadir Dafné de que, conquistar o coração do marido, valia pela derrota dos seus dois supostos inimigos.
Eis porque dissemos que o moço patrício mal podia suspeitar que o arrependimento aparente da esposa era obra de Túlia.
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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 12, 2017 8:41 pm

XIV - A partida de Nero

Enquanto na casa de Semprônius se desenrolavam tais acontecimentos, Nero se restabelecia pouco a pouco, sob as vistas e cuidados carinhosos do casal Marcus Fábius, que o tratava como se fora um parente mui chegado.
Entretanto, é preciso dizer que, se a cura física progredia a ponto de já se preocupar com o regresso à casa paterna, o seu moral se agravara.
Aquelas insidiosas revelações de Cláudius haviam-lhe causado a mais viva e ao mesmo tempo dolorosa impressão — uma nova fonte de ciúme e despeito, que se lhe abria na alma já tão ulcerada.
Muita vez evocava aquela angústia do pai e da avó, diante do perigo iminente que ameaçava de morte o dilecto Cáius, enquanto que a sua desastrada queda, seguida de gravíssimo ferimento, a ninguém comovera nem impressionara, sendo até conceituados como naturais os cuidados que ali lhe eram prodigalizados por estranhos.
Crescente animosidade avultava-lhe no ânimo rancoroso, com o coração a transbordar fel por aquele irmão mais moço, de todos festejado e querido, inclusive daquela Drusila que ele imaginara esposar, acreditando-se amado.
Essa persuasão, aliás, tinha produzido nele, alma fria e revel, o efeito de um bálsamo refrigerante.
Pois quê? — haveria, possivelmente, no mundo, um ente capaz de o amar e preferir a ele só, exclusivamente?
A pérfida revelação do músico destruíra aquela benéfica ilusão, ao mesmo tempo que fulminava de morte todos os seus pruridos de vaidade e amor-próprio.
Drusila com ele se casaria, sim, mas no só intuito de abafar a paixão que Cáius lhe inspirara...
Reconhecia-se menos belo, menos inteligente, menos rico que o irmão, mas, também não via nisso um motivo para que o favorito dos deuses em tudo o desbancasse, até nas afeições a que tinha incontestável direito.
Aquela preferência de Drusila afigurava-se-lhe degradante ultraje, a latejar-lhe n’alma em comburência.
E o que mais lhe esfervilhava e envenenava o ódio fraterno era, contudo, aquele laço de recíproca afeição que surpreendera entre Cáius e Virgília.
Nunca, jamais, alguém o impressionara tanto como essa franzina criatura de traços infantis e áurea cabeleira, cujo riso cristalino e gracilidade de gestos e de trato lhe reconfortavam sempre o coração dolorido.
Mais de uma feita, surpreendera-se a pensar: “que pena estar casada...”
E no entanto, coisa singular, Marcus Fábius não lhe causava ciúmes!
A amizade sempre uniforme daquele homem, tão bom quanto belo, desarmava-o e ele chegava a duvidar que um temperamento assim fleugmático e. ponderado pudesse contentar inteiramente a gárrula e trêfega Virgília.
Então, Cáius Lucílius que ria com ela e qual ela; que a abraçava sem cerimónia e mergulhava o seu olhar ardente no azul daqueles olhos, afigurava-se-lhe um elemento suspeito e perigoso.
De ver-se, quando juntos, gracejavam e improvisavam coisas que faziam o pacífico Fábius gargalhar a bandeiras despregadas.
Oh! — dissera Cáius, certa feita:
“estas horas aqui vividas, são as melhores da minha vida...” e não obstante a presença do marido, Virgília se inclinara para o rapaz e, afagando-lhe entre os dedos um anel da negra cabeleira, disse, toda comovida:
— “noto que andas pálido e tristonho, às vezes... que tens tu, meu Cáius?”
Ele não respondera, mas, tomando-lhe as mãozinhas, beijou-as enternecidamente.
E logo Marcus Fábius advertia com aquela voz melodiosa e clara, como que alheio a tais expansões recíprocas:
“é mais uma razão para lhe darmos em dobro da nossa amizade e alegria.”
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 12, 2017 8:41 pm

É verdade que Cáius e Virgília criaram-se juntos e isso justificava entre eles a maior intimidade; mas, apesar de tudo, aos olhos de Nero, Marcus Fábius encarnava o mais bronco dos maridos, porque, cego à evidência de um amor culposo entre os dois jovens.
E posto que ele próprio, Nero, se emaranhasse a mais e mais na sua paixão por Virgília, nem por isso se julgava exonerado de abrir os olhos do marido, somente não sabendo como fazê-lo, por lhe faltarem provas completas.
Na obsessão daquele culto que o levava a espreitar ensejos de contemplar o seu ídolo, ainda que de longe, achava-se um dia no jardim, quando percebeu a moça, que, ao regressar do passeio habitual com o filhinho e a ama, assentou-se debaixo de uma latada e, tomando a criança nos braços, entretinha-se a fazê-la saltitar-lhe nos joelhos.
Ele, por sua vez, assentou-se num banco oculto por uma touceira, e, flechando o olhar através da folhagem, parecia querer magnetizar a despreocupada Virgília, que mal poderia suspeitar da sua presença ali.
Belíssimo quadro o daquela mãe aparentemente infantil, radiante de alegria, a brincar com a criancinha que, patinhando aos gritinhos, tentava agarrar-lhe os cabelos dourados!
O aparecimento de Cáius Lucílius interrompeu a cena.
Ele aproximou-se lépido, tomou a criança nos braços, beijou-a e entregou-a à serva.
— Fábius? — perguntou, assentando-se junto dela.
— Ele me disse que tinha negócios no Fórum, mas também não deve demorar por aí.
Ordenou a ama que se retirasse.
E logo que ficaram a sós, tomou a mão do rapaz, dizendo-lhe em tom afectuoso:
— “sempre abatido e tristonho, nem me pareces já o mesmo...
Diz-me: que é o que assim te acabrunha?
Não sou, porventura, a tua amiguinha da infância?
Amamos-te sinceramente e custa-nos ver-te sofrer assim...
“A mim me parece que adivinho a causa de tudo isso; mas, a verdade é que não tenho a coração de to dizer, porque receio magoar-te...”
Ele esboçou um sorriso melancólico e, inclinando-se para a jovem, pôs-se a falar-lhe no ouvido.
De pescoço espichado e lábios contraídos, Nero como que procurava captar o que julgava uma confidencia amorosa do irmão.
Debalde! O que pôde perceber, apenas, é que se tratava de assunto grave, isto porque Cáius empalidecia e corava sucessivamente, com abundância e vivacidade de gestos.
Virgília, por sua vez espelhava no semblante as mais vivas emoções e seus olhos húmidos revelavam intensa curiosidade.
Por vezes, levava a mão à testa do interlocutor e logo, num ímpeto carinhoso, reclinava a cabeça no seu ombro.
Nero mal se continha no seu esconderijo.
Não sabia onde estava que não explodisse ali mesmo, de cólera e ciúme.
Mas, não! Considerou que tinha, afinal, boas armas contra Virgília.
Em consciência, poderia dizer ao marido que, na sua ausência, a mulher recebia o amante, chorava com ele, trocavam-se confidencias e carícias.
Marcus Fábius, apesar de toda sua cordura e bonomia, não suportaria aquela afronta e haveria de lhe arrebatar as melhores esperanças...
Naquele momento a virtuosa Virgília, que mal poderia adivinhar a tenebrosa cilada que lhe armavam à paz doméstica, ouviu o rodar do carro de Marcus, que acabava de parar no portão de entrada.
Levantou-se lesta, enxugou algumas lágrimas que ainda lhe perolavam as rosadas faces e, acenando um adeus de intimidade, correu para o interior ao encontro do marido.
Nero também se esgueirou furtivo e procurou entrar em casa, esforçando-se por dominar a emoção que o agitava.
Na curva de uma aleia, deu de rosto com o irmão, que, separando-se de Virgília, resolvera dar uma volta pelo jardim.
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