Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Página 4 de 8 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 13, 2017 9:09 pm

— Bom dia, Nero!
E logo, estacando — Como estás bem disposto hoje!
Bem se vê que estás, graças aos nossos deuses, completamente restabelecido...
Mas, então, porque não voltas lá para casa?
Papai tem perguntado muitas vezes por ti...
— Deveras? pois olha que muito me admira esse favor, em pensar que ainda vivo...
E logo em tom sarcástico:
— Mas, se tem assim tantas saudades, porque me visitou apenas duas vezes, a última há três semanas?
— Porque tem andado muito preocupado com os seus negócios, pois tu não ignoras que ele acabou de comprar, perto de Salerno uma grande propriedade vinícola.
Por esse motivo, viajou duas vezes e ainda estes últimos dias houve de receber os nossos intendentes, bem como o de Capua, onde foste criado, e que sofreu grande incêndio e graves prejuízos.
Mas, tudo isso é o de menos.
O que eu quero — disse travando-lhe do braço e fitando-o com olhos percucientes — é fazer-te uma pergunta muito séria:
— quero que me expliques a razão da tua malquerença a mim e ao nosso pai.
Desculpa, mas não posso classificar de outro modo o sentimento que te inspira tão duras palavras e a acrimonia com que me tratas.
A consciência não me acusa de merecer esse tratamento, mesmo porque te acolhi fraternalmente, de coração e braço3 abertos.
E quanto a nosso pai, não devo ocultar, eu que tanto o prezo, o desgosto que me causam a tua atitude e os teus conceitos.
Diz-me, pois, cem franqueza:
tens dele qualquer ofensa?
Nero encostou-se a um plátano, cruzou os braços.
Todos os maus sentimentos que trazia recalcados no coração emergiram naquele instante para desbordar, quais lavas candentes, no só intuito de amargurar o coração daquele irmão privilegiado e fortunoso, que ainda tinha a ousadia de lhe pedir contas do seu ódio.
Aprouve-lhe, então, enxovalhar todos aqueles a quem o outro estremecia, pintar aquele pai que o maltratava, como se ele fora um tirano brutal; pai e marido desnaturado; aquela mãe, que Cáius mal conhecera, mas cuja memória este adorava, como se fosse uma criatura tigrina, ciumenta e vingativa; enfim, Fábia, egoísta, ambiciosa, abandonando três pobres crianças imbeles, para aliciar posição, cómoda e vantajosa, de senhora absoluta do solar de Semprônius.
— Tua pergunta bem prova que tudo ignoras — respondeu com voz soturna e olhar vulpino —, pois ouve lá:
esse pai indulgente que tanto estremeces, só foi indulgente contigo...
Senão, veja:
— casou-se com uma mulher boa, quanto bela, mas a quem detestava e da qual, sem embargo, houve três filhos aos quais também veio a odiar, só porque uma outra amante, muito querida, assim o exigia.
Enfim, minha mãe morreu na flor da idade...
Como? de quê?
Ninguém o sabe; mas foi talvez do mal que vitima quantos se tornam indesejáveis.
Fosse, porém, como fosse, o caso é que, três meses depois, o pai esposava a mulher que fora o ideal da sua juventude e soubera esperar, paciente, o aniquilamento da sua rival.
E o resultado é que fomos enjeitados sem dó nem piedade, pois aquela doce e meiga criatura preferia pisar um víbora, que encarar os filhos do primeiro matrimónio.
E esse pai exemplar, esse exemplar de indulgência nos baniu para um sítio onde nunca pôs os pés!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 13, 2017 9:09 pm

Antonius tinha então 8 anos, Semprónia 6 e eu 4; a princípio Fábia nos fez companhia, mas a enfermidade de tua mãe requeria uma governante e Fábia se apressou a regressar.
Ficámos entregues aos cuidados de uma velha parenta, que, tão estúpida quanto perversa, cuidava de tudo menos de nós.
Chegámos a apanhar pancada até dos próprios escravos seguros de impunidade.
Lívia morreu, ficaste sendo o tesouro exclusivo da família; os desejos dela foram religiosamente cumpridos, já que a todos só deves gratidão pelos mimos que de todos tens recebido.
Fábia permaneceu a teu lado, preferindo, como era de prever, governar a casa de Semprônius a habitar uma herdade isolada, a fim de amparar os míseros e inocentes réprobos.
Assim, crescemos nós esquecidos, desmembrados da família e tão bem tratados que a minha pobre irmã acabou por evadir-se na companhia de um antigo escravo, aliás bom homem.
Entretanto, esse pai amoroso, esse pai indulgente não teve para a filha fugitiva uma palavra — não direi de lástima — mas de cólera e maldição, limitando-se a riscar-lhe o nome do quadro da família!
E foi quando nos transferiu para Roma, entregues a Drúsus, com esta recomendação:
“tudo que dependa da minha bolsa para lhes assegurar uma posição independente, fica ao teu dispor, sem restrições...”
Não lhe ocorreu que as crianças precisam algo mais que um punhado de ouro, dado com desprezo.
O resto, tu o conheces para avaliar as circunstâncias em que me vês, aqui, na terra do meu berço, ao cabo de vinte quatro anos.
À proporção que discorria, o outro ia fazendo-se lívido, a fronte camarinhada de suores frios.
Mudo, sem uma contracção facial, sem um gesto de impaciência, Cáius Lucílius ouvia o tremendo libelo bolsado a quantos lhe eram caros na vida.
Quando Nero calou, ele cruzou os braços e fitou-o com olhos severos e lampejantes:
— Foi bom que ouvisse, da tua boca, os ultrajes que sofreste, mas, deixa também dizer-te que, tão profundamente ofendido qual te mostras, não deverias jamais franquear os umbrais da casa paterna, varrendo para sempre da memória e dos lábios o nome de nosso pai:
uma vez, porém, que aqui te encontras; que o abraçaste e reclinaste a cabeça no colo de nossa avó; que a um e outro beijaste as mãos, ficas sendo o último dos covardes quando procuras aviltá-los, para diminuí-los no meu conceito.
Acusas o pai de assassínio, mas, porque, caluniador hipócrita, não lho dizes face a face?
É que, bem sabes, ele haveria de te responder com a verdade, isto é, que tua mãe morreu de morte natural, porque ninguém espera nove anos para se desfazer de uma criatura indesejável.
Entretanto, diga-se:
se essa suposta vítima fosse uma víbora do teu quilate, é claro que não poderia mesmo ser amada.
Por mim, guardo fidelidade à memória de minha mãe e continuo a amar, como dantes, nosso pai e nossa avó, disposto a defendê-los de tudo e de todos.
E a ti digo-te: se alguém em tudo isto tem culpas, o maior culpado sou eu, a quem eles tanto estremecem...
A mim, podes odiar-me; mas... olha lá:
se algum dia ousares difamar esses dois entes caros, que já não podem defender-se por si mesmos, é a mim que hás-de ter pela frente, ainda que o sangue tenha de correr entre nós.
Deu-lhe as costas e saiu por uma porta que dava para o pátio, onde o aguardava a liteira.
Nero ficou por um momento indeciso, estupefacto...
Nesse mesmo dia, à tarde, comunicou a Fábius o seu propósito de regressar, no dia seguinte, ao lar paterno.
— Há muito que abuso da tua hospitalidade — disse —, e, como tenciono deixar Herculânum dentro destes quinze dias, as conveniências determinam que assim proceda.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 13, 2017 9:10 pm

— Tua presença só nos deu prazer, conquanto a preferíssemos determinada por outro motivo; mas, porque tanta pressa em nos deixar?
Tua licença, ao que suponho, ainda permite seis semanas de folga!
— Sinto muito ter de deixá-los, mas espero revê-los em Roma, quando lá forem, como projectam.
Em casa de Semprônius, serei sempre um supérfluo e acredito que ninguém perceberá a minha ausência.
E agora lastimo ter vindo, tanto mais quanto, abortou o plano de casar-me com Drusila.
Prefiro ficar solteiro, mas, compreende, essa recusa não deixou de me criar uma posição esquerda no seio da família.
Para me desforrar de tantos aborrecimentos, resolvi aproveitar uma excelente oportunidade para regressar a Roma.
— Compreendo perfeitamente os teus escrúpulos e contrariedades, mas, de que oportunidade queres falar?
— É que eu soube que o questor Hatérius Rúfus está em Pompeia de visita a uma filha e tenciona regressar a Roma, por mar.
Conheço muito o questor, cujo segundo filho é meu colega e comanda uma coorte da legião a que pertenço.
Como também prefiro a viagem por mar, tratei de pedir a Hatérius um lugar na sua galera e acabo de receber uma resposta assaz gentil, pois não só acede ao meu pedido como convida a todos da família, bem como a Agripa e a ti mesmo, a passarem o dia em casa da filha e honrarem o seu bota-fora.
De resto, reservava-se ele o direito de vir em pessoa, com antecedência de alguns dias, ratificar o convite e delinear o programa da festa.
*
* *
No dia seguinte, Nero regressou a penates, mais misantropo, mais taciturno que nunca, isolando-se quanto possível de tudo e de todos.
Cáius Lucílius, por sua vez, também o evitava, encerrando-se numa fria discrição.
Alguns dias assim transcorreram, até que certa manhã se encontraram a sós, no triclínio de estio. à hora do almoço.
Semprônius estava ausente e Cláudius e Apolônius permaneciam em Stabile, desde a véspera.
Almoçaram calados e, só depois que os escravos se retiraram, o oficial voltou-se para o irmão e disse-lhe com mal disfarçado sorriso:
— Rejubila-te, meu caro, pois dentro de doze dias ficarás livre da minha presença.
Cáius Lucílius que, no momento, levava aos lábios uma taça de vinho, pousou-a na mesa e respondeu, encarando-o com firmeza:
— Acho que é a melhor coisa que podes fazer, fugindo de uma parentela odiosa e criminosa, como a nossa.
E a não ser que se tratasse de uma reconciliação para mim impossível, com um pai acusado de uxoricídio, a separação é o que se impõe como mais lógico e natural.
Nero afastou-se encolhendo os ombros, mas, depois de alguns passos, mudou de parecer, voltou à mesa e disse:
— Ia-me esquecendo dizer-te que parto liberto de compromissos com Drusila, pois não quero sequestrar nenhum dos sacerdotes e sacerdotisas que aqui oficiam ao “deus doméstico de Semprônius”...
Cáius ergueu-se rápido e, agarrando-lhe no braço, murmurou vermelho, fitando-o com olhar de fogo:
— Pois vou dizer-te o verdadeiro motivo da tua desistência: — é que erigiste tu mesmo um altar no qual depositas os mais ardentes votos à tua divindade...
Sacerdote de Virgília, convence-te, contudo, e toma cuidado ou antes — desengana-te, porque a mulher de Fábius nunca amará outro homem que não o marido.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 13, 2017 9:11 pm

Nero recuou como se fosse ferido em pleno peito.
O rosto se lhe cobriu sucessivamente de um vermelho bronzeado e de um livor macilento.
Não esperava aquele choque.
Cáius fitou-o de alto a baixo, desdenhoso, e prosseguiu:
— Como vês, a tua generosidade não me ilude:
não é com o intuito de me reservar unanimidade de afectos que deixas de esposar Drusila, e sim devido à tua paixão insensata por Virgília.
Queimaste-te todo ao afiar das asas da “dourada borboleta”, mas acreditavas-me cego e querias ocultar teus sentimentos.
Deu-lhe as costas e saiu.
*
* *
Oito dias depois desse atrito, Metela e Virgília encontravam-se no terraço ligado ao quarto desta última. Falavam justamente da próxima partida do oficial.
— Por ti, regozijo-me com esse facto — acabou por dizer Metela —; devo confessar que, mau grado à simpatia que à primeira vista me suscitou, ele começa a inspirar-me agora a mais profunda aversão.
Evita todo mundo, isola-se do irmão, que também me parece esquivo, dá às palavras um tom mordente sempre que se refere ao pai, espalha, em suma, todo um anélito de ódio escaldante.
Mas, o pior de tudo é o olhar estranho com que te observa e acompanha os teus mínimos gestos.
Eu chego a pensar que ele seja capaz de praticar qualquer loucura.
— É verdade: — também lhe noto a expressão insólita dos olhos, sempre que nos encaramos, bem como a súbita palidez quando me vê abraçar Fábius.
Sua partida é um alívio para todos.
Mas, como tudo isso vai entrar nos eixos logo que ele se vá, tratemos de o esquecer desde já e falemos de coisas mais agradáveis, ou seja da festança em casa de Hatérius Rúfus.
Festas como essa, desejaria eu tê-las em barda.
Olha só: — primeiro, passeio matinal de carro pela cidade; a seguir, representação no anfiteatro; depois, jantar em despedida e festa nocturna a bordo da galera.
Finalmente, como apoteose, a partida de Nero!
E ria-se, gostosamente, a esfregar as mãos.
— Então, Metela, nem mesmo este programa de arromba te faz rir?
Será mesmo terror “neroniano” o que te faz assim macambúzia?
— Não é só isso — respondeu Metela, cujo belo semblante traduzia, no momento, real inquietação —, é que há dias tive um sonho pavoroso:
vi o Vesúvio a vomitar chamas que se elevavam às nuvens e vi, depois, desaparecer a cidade num báratro de fogo...
Estava eu não sei onde como espectadora impotente, terrificada, contemplando o cataclismo...
A turba em delírio engolfava-se, fundia-se, desaparecia nos escombros da cidade e, ainda que confusamente, lembra-me ter visto no meio dessa turba Drúsus, Dafné e vários outros amigos nossos...
A impressão do sonho foi tão forte que despertei com um grito e trémula, como se delirasse em febre...
Agripa levantou-se sobressaltado e tratou de ministrar-me um calmante.
Entretanto, vim a saber depois, pelas escravas, que uma velha sibila, que mora no mesmo quarteirão, predissera grandes desgraças para a nossa cidade, tanto que, muitas famílias mais precavidas estão-se retirando.
Pedi a Agripa que me atendesse, que também nos fôssemos, mas, espírito forte, riu-se nas minhas bochechas e acabou sentenciando que era uma vergonha fugir de Herculânum levado pela palrice de uma velha mentecapta, ou de um simples sonho com que os deuses quiseram, talvez, experimentar minha coragem.
Virgília até então prazenteira, também se tornara apreensiva.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 13, 2017 9:11 pm

— Tens razão — disse ela —, precisamos sair de Herculânum e convencer nossos maridos que também eles precisam ceder alguma coisa a prol da nossa tranquilidade.
Mas, antes da festa, certo, nada conseguiremos.
Que Nero se vá, portanto, de uma vez para sempre, e depois hão-de atender-nos...
*
* *
Afinal, chegou o grande dia.
Manhã cedinho e já todo o mundo estava em actividade na casa de Semprônius.
Cada qual do seu lado, melhor se predispunha para gozar a festa de Hatérius Rúfus, depois do espectáculo no anfiteatro.
Festa de arromba, que o povo aguardava pressuroso.
Cáius Lucílius estava bem humorado, conquanto Dafné se recusasse, adoentada desde a véspera, e preferisse ficar em casa.
Verdade é que a mulher não lhe merecia uma confiança absoluta, mas a presença da Fábia, que também ficava para fazer companhia a Drúsus, era de molde a tranquilizá-lo.
Lá no seu quarto, Nero, sempre taciturno e apreensivo, dava os últimos retoques ao seu vestuário.
Sua bagagem fora expedida de véspera para bordo da galera do questor.
Contudo, antes de abandonar, talvez para sempre, a casa que o vira nascer, queria fazer uma última visita a Marcus Fábius, mesmo porque, presumia, àquela hora matinal, havia de o encontrar sozinho.
Opresso e agitado por mil pensamentos de ciúme e amargura, tomou do capacete, saiu e reclinou-se na sua liteira.
Marcus Fábius já estava vestido para a festa; passeava no pátio e dispensou ao tribuno a cordial acolhida do costume.
— Caro Marcus — disse-lhe o oficial, ao mesmo tempo que lhe apertava a mão —, quereria falar-te em particular, para uma confidencia que desejaria delegar a outrem, se possível, e nesse intuito tenho procrastinado de hora para hora... Todavia, um dever de gratidão impõe-me abrir-te os olhos a tempo de poderes conjurar o infortúnio que te ameaça...
Caminhando, chegaram a um quarto isolado.
Marcus ofereceu-lhe uma cadeira e assentando-se, por sua vez, falou, algo surpreso:
— Que queres dizer com esse exórdio tão sibilino?
Peço-te que me não apoquentes com abusões velados e sim me digas, franca e abertamente, o que sabes ou pensas saber.
— Neste caso, também me cumpre pedir tenhas calma e não te precipites, ao vaticinar que a tua ventura conjugal periclita, se não puseres cobro a umas tantas entrevistas de tua mulher com meu irmão, pois eles se amam em segredo e tu, decerto, nunca poderias suspeitar tal coisa.
O belo e nobre semblante de Fábius irradiou a mais absoluta incredulidade:
— Nero, meu amigo, tu te deixas iludir por falsas aparências:
Virgília ama-me sincera, profundamente, de todo o seu coração e, se me preferiu a Cáius, como me enganaria agora com o mesmo Cáius?
— Parece impossível, será talvez inadmissível, mas a questão é que tenho provas do que afirmo.
A paixão de Cáius por tua mulher nunca se extinguiu e o fascínio que ele exerce sobre as mulheres é de todos bem sabido.
Na véspera daquele dia em que deixei esta casa, estavas tu ausente e eu os vi com estes olhos, assentados sob a latada do jardim, em colóquio e atitudes mais que suspeitas. Ela parecia inquiri-lo com muito empenho; ele respondia com veemência, que denotava algo mais que amizade.
Marcus Fábius sorriu serenamente:
— Sei tudo: — essa entrevista passou-se com autorização minha, ou melhor — fui eu quem a suscitou, pois via que Cáius andava tristonho, acabrunhado, e pedi a Virgília que tentasse consolá-lo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 13, 2017 9:11 pm

— Mas, pediste, também, que chorasse com ele; que se lhe reclinasse ao ombro; que o abraçasse e só se arrancasse dos seus braços quando ouvisse teu carro parar à porta? — insistiu Nero mentirosamente, já despeitado e levado pelo desejo de atiçar o ciúme.
E era tal a firmeza, a convicção com que falava, que Marcus Fábius não deixou de empalidecer ligeiramente.
— Ao demais — continuou Nero —, para desvanecer os teus últimos escrúpulos, vou confiar-te um segredo, ainda que tivesse jurado guardá-lo: — é que alguém, cujo nome não posso declinar, ouviu da própria Dafné, que, no dia do malogrado desastre, viu passar o carro e Cáius ia tão absorto no aconchego da companheira, que nem deu pela sua presença.
Tomada de ciúmes, cortou caminho na pista e, afinal, viu que eles se beijavam ao atravessar um trecho de rua mais deserto.
E foi aí que ela perdeu a cabeça e, servindo-se do lenço, espantou a parelha.
Marcus Fábius ergueu a fronte já enrugada e com voz titubeante murmurou:
— Agradeço-te a revelação.
— Pobre amigo, bem avalio o teu pesar: mas, diz-me, que pretendes fazer ao biltre?
— Não sei: vou observar por mim mesmo e resolver, em consciência, como deva proceder.
Por agora, o que preciso é coordenar ideias, e tu vais perdoar-me a ausência, até que nos encontremos mais logo, lá no anfiteatro.
O sicofanta não esperou nada mais, retomou a liteira, partiu.
Pérfido e ralado de ciúmes, regozijava-se intimamente de haver semeado suspeitas e dissídios tendentes não só a separar Cáius de Virgília como a arrefecer as relações do até então ditoso casal.
Estava vingado no seu amor próprio e no seu ódio fraternal.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 13, 2017 9:12 pm

XV - Os últimos momentos de Herculânum

Em casa de Semprônius, enquanto se atrelavam os carros, toda a família se reunia para o almoço das despedidas.
Somente Cáius demorava-se em comparecer.
É que se conservava junto de Dafné, que, por causa da sua alegada enfermidade, se mantinha na cama e procurava prodigalizar ao marido os mais ternos adeuses.
— Meu querido, luz de meus olhos — repetia cingindo-o pelo pescoço e procurando retê-lo —, não te esqueças da tua Dafné quando as outras por lá te fitarem embevecidas...
oh! às vezes eu chego a desejar que fosses menos sedutor, meu Cáius...
— Não posso comungar nesse desejo — respondeu ele, ao mesmo tempo que procurava desenvencilhar-se.
E risonho — mas, não te amofines, acalma-te, para que amanhã de manhã eu venha encontrar-te alegre e bem disposta.
Terminado o repasto, Nero, que parecia contristado, despediu-se enternecidamente da avó e do tio e a comitiva logo se moveu.
No carro de Semprônius ia Drusila; Cláudius acompanhava Nero e atrás seguiam Cáius e Rutuba, que deveria guardar as equipagens durante a função do anfiteatro.
Achava-se já o séquito a boa distância da cidade e o carro de Cáius levava grande dianteira, quando Rutuba, inclinando-se para o jovem patrício, bateu-lhe de leve no ombro e disse:
— Patrão, preciso falar-te de uma traição abominável, a consumar-se agora em tua casa e na tua ausência.
Não é a toa que o escultor pretextou urgência de trabalho e que tua mulher deu parte de doente...
Eles têm entrevista marcada e isso eu o sei porque conheço Dafné muito mais do que podes imaginar.
Se quiseres regressar neste instante, tenho a certeza de que os vais apanhar com a boca na botija...
Cáius estremeceu, o rosto se lhe fez rubro de lacre.
Esbarrou os cavalos e deu volta rápida ao carro.
Percebendo a manobra, Semprônius gritou:
— Que é isso?
— Volto a buscar um objecto esquecido e chegarei a tempo de nos reunirmos no anfiteatro, pois bem sabes que sei correr e gosto de o fazer.
O velho patrício fez um sinal de assentimento e o rapaz fustigou os animais, ao mesmo passo que se voltava e dizia a Rutuba com voz surda:
— Diz-me: como conheceste Dafné e como lhe surpreendeste a falsícia?
— Perdoa-me, patrão, o silêncio até hoje mantido a esse respeito.
O temor da tua cólera selava-me os lábios, mas, também deveria mostrar gratidão pelos benefícios que me proporcionaste e, assim, jamais deixei de velar pela tua honra.
Conheci Túlia em Roma, ao tempo em que ela dirigia uma tasca, de sociedade com um antigo companheiro do marido.
Dafné me agradou e noivámos, mas, faltavam-me os recursos
para começar a vida.
Após dois anos de noivado, morre-me um tio deixando-me o legado de uma granja e um parreiral.
Ausentei-me para tomar posse da herança e, quando voltei, disposto a casar, mãe e filha tinham desaparecido sem deixar traços.
Muito tempo procurei-as em vão, até que um dia, um soldado amigo, frequentador da taverna, contou-me que, de guarnição em Herculânum, aqui encontrara, com grande surpresa, as fugitivas, estabelecidas com uma perfumaria.
Vim até cá e ouvi dizer que Dafné te amava e era quase tua noiva. Que fazer?
Desisti. Como rivalizar eu, pobre, obscuro plebeu, com um patrício rico e poderoso?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 13, 2017 9:12 pm

Depois, quando te conheci, convenci-me logo da paixão de Dafné.
Justifiquei-a, sim, mas não abdiquei do meu ódio e tratei de ficar por aqui, no propósito de vigiá-la.
Vinha procurando emprego, quando, certo dia, sentado à porta de uma tasca, vi passar uma mulher toda envolta em manto escuro e com ares de quem procurava esconder-se.
Acompanhei-a, e vi que se acocorava numa esquina.
Pelo andar e pelos modos, pareceu-me reconhecer Dafné e detive-me a espreitá-la, até que ela se levantou e atirou com o lenço à frente dos cavalos.
A nobre Virgília era-me estranha, mas, a ti conhecia-te muito bem e não me foi difícil compreender o procedimento de Dafné.
O resto, sabes como foi.
É certo que poderia ter-te aberto logo os olhos, mas, eu não ignorava que amavas a essa mulher e, por outro lado, também não te conhecia como agora conheço.
Mais tarde, tendo conhecido melhor o temperamento impulsivo e sensual de Dafné, tratei de espioná-la, para que não fosse trair o meu benfeitor.
Cáius Lucílius estava branco, da cor da própria toga, as mãos crispadas mal seguravam as rédeas.
— Cachorra! chegou a tua última hora... — disse quase imperceptível.
Toma as rédeas, Rutuba, o calor está sufocante, a cabeça anda-me à roda...
— Patrão, é melhor deixarmos o carro nas portas da cidade e penetrarmos sem estrépito, pelo jardim, para que ninguém se precate com o nosso regresso...
Cáius Lucílius aprovou com um sinal de cabeça e, quando chegaram às portas da cidade, ali deixaram o carro entregue ao administrador de um albergue.
Procurando esconder o rosto nas dobras da toga, o moço patrício seguiu, acompanhado de Rutuba, por um caminho afastado do solar paterno.
Todas as torturas infernais lhe borbulhavam na alma; parecia-lhe ter sobre o peito uma montanha de bronze, e que jamais chegaria.
Finalmente, pararam defronte do portãozinho que dava para uma ruela isolada, beirando o muro do jardim.
Rutuba tirou do bolso uma chave, abriu o portãozinho, entraram.
Depois, atravessaram quais sombras o jardim deserto.
Ao avistar o terraço de Dafné, o rapaz deteve-se um instante, tirou da cintura um punhal sírio de lâmina recurva — arma que jamais abandonava — e examinou-lhe cuidadosamente a ponta afiada.
“Não falha” — murmurou entre dentes...
Contudo, ao avizinhar-se da janela toda ornada de trepadeiras que ensombravam e refrescavam a alcova nupcial, não deixou de comprimir o peito com as mãos, encostando-se à parede, vacilante.
Rutuba ia desfazendo a trama da ramagem fechada e sondava, cauto, o interior da morada.
De repente, um sorriso irónico se lhe despregou dos lábios:
— Olha — disse no ouvido do patrício — convence-te por ti mesmo da verdade...
Ele ergueu-se no bico dos pés, trémulo, e lançou na alcova bem conhecida um olhar de fogo.
O que lhe fora dado contemplar era de molde a romper todos os liames que ainda o prendiam à indigna mulher.
Ficou petrificado por um instante, mas logo resoluto e lépido, com a destreza de um felino selvagem, galgou a janela e, antes que os traidores pudessem percebê-lo, caiu a fundo sobre o escultor, enterrou-lhe nas costas o punhal até ao cabo.
Apolônius deu um grito, abriu os braços, rolou por terra banhado em sangue.
Rutuba, que seguira o amo, também de faca em punho no intuito de o secundar, se fosse preciso, deteve-se um minuto e fixou Dafné com sarcasmo, enquanto ela fitava o marido aterrorizada.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 13, 2017 9:12 pm

O rosto de Cáius tomara uma expressão indefinível:
dos olhos lhe chispavam chamas que pareciam querer reduzir a cinzas o corpo da jovem; os dentes, alvejantes através de uns lábios arroxeados, brilhavam e riam por dar-lhe uma fâcies de inaudita ferocidade.
— Perdão! perdão! — gritou a pérfida criatura rojando-se-lhe aos pés, agarrando-se-lhe às pernas, contorcendo as mãos.
Deu-lhe um repelão violento que a fez rolar por terra...
Depois, agarrou-a pelos cabelos, arrastou-a até junto da janela...
— Às feras! infame, vou jogar-te às feras...
Rutuba ajudou a erguê-la, ao mesmo tempo que lhe tapava a boca para não fazer alarido.
Num abrir e fechar de olhos, estavam no jardim deserto e, ora carregada, ora arrastada, chegaram ao pátio que servia de arena e de onde, espaçados, lhes chegavam surdos rugidos.
Abriram a porta, a condenada deu um grito angustiado, o grito de todo o moribundo, e ainda tentou resistir.
Como tantas outras criaturas, ela não temia o pecado, o vício, a traição; mas temia a morte, pressentindo nela o termo da impunidade.
De rosto congesto, de olhar parado, o rapaz desarticulou-lhe as mãos que se agarravam à sua túnica e, derrubando-a, arrastou-a pelos cabelos até junto das jaulas.
Louca de pavor e desespero, ela se contorcia a seus pés, implorando misericórdia.
O rugido das feras arrepiadas, que faziam estremecer as jaulas, como que despertaram Cáius do seu delírio.
— Misericórdia? — repeliu-a com a ponta do pé, num sorriso selvagem...
Perdão para ti? miserável criatura que tirei da lama para esposar legitimamente; víbora que me mordeste, que me exploraste e tentaste até assassinar!
Falsos, teu amor e teus carinhos!
Aqui, porém, não podes mentir, não podes iludir!
Eu vi, vi com os próprios olhos o estigma da minha honra, que só com a morte podes lavar.
Morre, pois, criatura abominável, para que ninguém mais sofra da tua peçonha...
Não! nunca! para ti não há, não pode haver misericórdia nem perdão!
Calou-se, encostou-se ao muro, sentia-se entontecido e tomado de súbita fraqueza, tremiam-lhe as pernas.
Dafné continuava a rolar no lajedo, suplicando agora a Rutuba que a salvasse.
A esse tempo, ouviu-se um rumor abafado, semelhante a um trovão subterrâneo.
A terra teve como que um calafrio e súbito crepúsculo envolveu, empanou a claridade solar!
Cáius perfilou-se, trémulo também.
— Vamos, patrão — disse Rutuba —, é um tremor de terra...
Deixemo-la aos tigres, é o que ela merece.
Abriu as jaulas e atirou com Dafné, que a ele procurava agarrar-se, para o outro lado do pátio.
Depois, puxando Cáius, ferrolhou a porta e seguiram correndo para casa.
Ouviam-se, já então, surgir de todos os lados clamores e brados de angústia.
O povo precipitava-se em ondas pelas ruas, a gritar: — o Vesúvio! Fogo!
No terraço, de onde se avistava a montanha flamívoma, Cáius deteve-se fascinado ante a beleza terrivelmente grandiosa do panorama!
Uma pirâmide de fumo, gigantesca, golfava do ápice da montanha, ora esbranquiçada, ora negra, sulcada de relâmpagos e serpentinas de fogo!
Alta, elevando-se às nuvens, aquela massa espessa espraiava-se num zimbório imenso, como que abrangendo e ensombrando toda a terra.
O solo continuava a roncar, a sacudir a montanha e as frágeis construções humanas, que oscilavam em seus fundamentos.
Um grito atrás dele, arrancou-o daquela estática contemplação.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 13, 2017 9:12 pm

— Tu aqui?! mas... como? — pois não foste a Pompeia?
Era Fábia que, pálida, aterrada, acabava de aparecer no terraço.
— Foge, foge quanto antes, meu filho!
A cidade está condenada a perecer... é o sonho de Metela que se realiza, os deuses irritados vão destruir, soterrar tudo!
— Depressa, patrão, não há tempo a perder: mandei selar Dafné, Furacão e mais dois dos melhores cavalos.
Se partirmos imediatamente pela estrada de Roma, talvez ainda possamos escapar ao flagelo.
— Vamos, vovó — disse Cáius arrastando-a para o interior.
Fábia, entretanto, desprendeu-se-lhe das mãos:
— Deixa-me ficar, meu filho, pois eu só poderia servir-te de estorvo, mal me aguentaria nos teus corcéis calorosos.
Minha idade já não tem preço e eu te peço, salva antes a Drúsus, o pobre cego...
Os deuses saberão poupar-me, se assim lhes aprouver.
Vai, vai com a minha bênção...
— Sem ti, não, nunca!
Então me julgas capaz de abandonar assim, covardemente, exposta a uma morte horrível aquela que me criou e acalentou em seus braços?
Olha, espera um momento, vou buscar o tio...
Lesto qual veado, percorreu toda a casa sem encontrar Drúsus.
As múltiplas emoções daquela manhã festiva e fatídica lhe fizeram esquecer que estava justamente na hora que o cego costumava tomar o seu banho.
Novos e mais fortes abalos sacudiram a casa, deslocando móveis e derrubando estátuas...
— Vamos, patrão, do contrário ficaremos perdidos...
Era Rutuba que, já no átrium, assim falava.
Cáius avançou para a avó e, tomando-a nos braços hercúleos, conduziu-a até o pátio, apesar dos protestos que ela fazia, a fim de não dificultar a empresa.
Sem perda de um minuto, cavalgou “Furacão”, que, de orelhas retesadas e cauda ao vento, resfolegava impaciente.
Colocou Fábia à sua frente e, acompanhado de Rutuba e mais dois escravos, partiram.
Fora, outra dificuldade os aguardava:
é que as ruas estreitas estavam atravancadas de viaturas, peões e cavaleiros que se esbarravam e comprimiam em fuga desordenada, procurando ganhar o porto e fugir por mar.
Foi quase a passo que conseguiram atravessar a massa, em tumulto gritantemente espantoso.
Contudo, dominado todo aquele pandemónio, o vulcão trombejava e do cume esbraseado continuava expelindo um turbilhão de chamas e de fumo.
Detonações ininterruptas, já uma atmosfera sulfurosa, irrespirável, se fazia sentir, ao mesmo tempo que uma cinza tenuíssima e vesicante começava a difundir-se, cegando homens e animais.
Quando, depois de grandes penas, atingiram uma porta da cidade, a veneranda patrícia jazia inanimada nos braços do neto.
Também não havia como deter-se para prestar-lhe qualquer socorro.
Pela última vez, Cáius Lucílius voltou-se e deitou um olhar lacrimoso à cidade do seu berço, já envolvida num véu pardacento.
Afrouxou as rédeas e os fogosos corcéis arrancaram, espantadiços, a devorarem o espaço numa carreira louca.
*
* *
À proporção que essa pequena comitiva se afastava da cidade maldita, o tumulto e a desordem campeavam pelas ruas.
Os habitantes em fuga, muitos deles nem olhavam para trás no afã de salvarem mulher e filhos; outros ainda tentavam salvar parte de seus tesouros e varavam a turba carregados de sacos, bolsas, baixelas preciosas.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 13, 2017 9:13 pm

Entre essa multidão espavorida, uma mulher envolta num manto negro procurava abrir passagem em direcção à casa de Semprônius...
Ora parando, ora procurando defender-se das pedras candentes que começavam a chover; ofegante, aflita, ela como que procurava ouvir melhor os rumores subterrâneos, através dos ribombos da cratera, que, qual enorme caldeira em ebulição, lançava ao céu a sua escória esbraseada.
Era Túlia...
Desde que se reconciliara com a filha, não deixara jamais de inteirar-se do que ocorria em casa de Semprônius.
Não ignorava que Cáius, o pai e outros membros da família, deviam achar-se em Pompeia e que em casa só ficaram sua filha, Drúsus e Fábia.
Quando se deu o primeiro abalo sísmico, estava ela num quarteirão distante, em casa de um fornecedor de artigos do seu comércio.
Levada por um sentimento que oscilava entre o amor materno e a velha paixão por Drúsus, ocorreu-lhe o pensamento de salvar a filha e conhecer o destino do cego.
Na casa de Semprônius reinava, igualmente, a maior confusão, agravada, ao demais, pela ausência do seu chefe.
Com grande dificuldade, o velho mordomo organizava um serviço de salvação:
carregavam-se alguns muares de objectos mais preciosos, arrepanhados a trouxe-mouxe e alguns escravos sob as vistas do feitor tentaram ganhar o porto.
Outros servos, como se o cataclismo os forrasse de toda e qualquer disciplina, haviam debandado, só cuidando da própria salvação e carregando quanto lhes vinha às mãos.
Drúsus, ao deixar o banheiro, perambulava seminu pelos compartimentos ermos e devastados.
De começo, na faina de salvação, ninguém atentara nele; depois, acabaram por esquecer de todo o pobre cego, que ouvia o ruído insólito dos elementos e o clamor do povo procurando, em vão, orientar-se e encontrar alguém que o conduzisse para fora de casa.
Em vão chamava e ninguém lhe respondia!
Túlia, que acabava de atravessar o átrium correndo, ao dirigir-se para os aposentos da filha, quase esbarrou com o cego, que, braços abertos, caminhava na direcção dos passos que ouvira.
Diante do que via, estacou estarrecida, contemplou por instantes, ansiosamente, aquele rosto pálido e angustiado.
O coração batia-lhe com violência; esqueceu a filha e um só pensamento lhe avassalou o cérebro — salvar o homem que fora, que era ainda a sua paixão única na vida.
— Drúsus! — exclamou segurando-lhe no braço — vem comigo, eu te levarei fora da cidade...
— Quem és tu? de onde vens? essa voz não me é estranha...
— Dir-te-ei depois: agora o que importa é fugir, a cidade está condenada a desaparecer, o Vesúvio não cessa de vomitar fogo e lava.
Assim falando, arrastava o cego para a porta, mas, uma vez fora, arriscando os primeiros passos, logo recuou espavorida, porque já uma espécie de pasta comburente lhe fustigava o rosto.
Abrigaram-se no peristilo. O dia fizera-se noite, torrentes d’água e cinza inundavam as ruas, um bafio de fornalha tornava o ar irrespirável.
— Impossível sair — murmurou, reconduzindo-o ao interior e chegando-lhe uma cadeira.
— Não posso mais, falta-me o ar...
Trémula, fora de si, ajoelhou-se diante dele e resguardou-lhe o rosto nas dobras do manto.
— Drúsus, meu Drúsus, foi a mão dos deuses que me trouxe a teus pés!
Criminosa sim, mas, sofredora sempre...
Desdenhada, esquecida, nunca pude esquecer-te, jamais deixei de te amar.
— Mas, quem és tu que assim me falas?
Conheço-te a voz, mas não sei, não posso recordar teu nome...
Tacteava-lhe os cabelos, em ânsias...
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 13, 2017 9:13 pm

— Pois não sabes? sou Túlia, a criminosa que, por vingar-se do teu abandono, te cegou e matou a mulher que amavas...
Oh! Drúsus, possas tu nesta hora de tremenda expiação, perdoar os meus crimes...
Diz uma palavra só e morrerei a teus pés!
— Túlia? És Túlia? — gritou, tentando afastá-la.
Logo, porém, como que repeso, atraiu-a ao peito e prosseguiu:
— Culpada... sim... criminosa mesmo, eu te perdoo, Túlia, porque também tenho de que me culpar e arrepender:
despertei, alimentei as tuas esperanças para destruí-las até ao crime...
Puniste-me cruelmente a traição, certo, mas não é a mim que compete julgar-te, máxime, no momento em que ambos vamos sucumbir.
Morramos juntos, morramos em paz...
Trémula, soluçante, desfeita em lágrimas, ela estreitou-o nos braços e conchegou-lhe a cabeça ao peito.
— Ai, sufoco, não posso mais... — tombou desfalecido.
Uma torrente de lava irrompia na sala, enchendo-a de gases asfixiantes.
Túlia, já meio inconsciente, cobriu a cabeça com o manto e conchegou-se estreitamente ao corpo inerte do companheiro.
A mulher vingativa e criminosa que o “acaso” reunira, “in extremis”, ao homem a quem amara apaixonadamente, mal poderia imaginar que ali, bem perto, a filha experimentava uma agonia porventura mais horrorosa.
Uma vez só com os dois tigres que Rutuba soltara, Dafné teve, antes de tudo, um acesso de cólera e terror, a raiar pela demência.
Tudo esquecendo, rebolcava-se na terra, a dar gritos furiosos entremeados de exortações aos deuses infernais e súplicas ao marido, jurando-lhe eterna fidelidade se a livrasse das feras, que, de resto, não pareciam dar pela sua presença.
Compreendendo, talvez, o perigo que igualmente as ameaçava, não se lhes dava aproveitar da presa humana que ali se lhes oferecia.
Por fim, exausta, rouca, a moça encolheu-se no centro do pátio...
Cabeleira em grenhas. mãos crispadas sobre o peito, fixava de olhos gázeos aquele par de sentinelas que, pêlo arrepiado e cauda balouçante, rondava a muralha como se procurasse uma brecha de saída.
A muralha compacta, entretanto, não lhes oferecia uma frincha, sequer, onde pudessem fixar as garras; e a porta estava solidamente ferrolhada.
Em vão se empinavam nas patas traseiras e rugiam surdamente a cada novo estremeção do solo.
Acabaram por deitar-se, fixando na moça as suas pupilas esverdeadas.
O cérebro superexcitado da desgraçada apenas dificilmente funcionava; no tropel dos seus terrores, veio-lhe à mente que os seus desregramentos haviam esgotado a paciência dos deuses imortais, que o próprio Plutão revolvia o solo com o seu tridente e desencadeava na superfície todos os males do seu orco.
Tentou, então, balbuciar uma prece, mas os lábios como que se recusavam obedecer.
A escuridão aumentava a cada instante, o céu fuliginoso zebrava-se de relâmpagos e coriscos, as detonações vulcânicas pareciam abalar o mundo em seus alicerces.
Os tigres começaram a rastejar na sua direcção...
Fechou os olhos à espera da primeira dentada que lhe dilacerasse as carnes...
Mas, os terríveis felinos não queriam mesmo devorá-la...
A tremerem também eles, arrepiados, encostaram-se a ela como se procurassem socorro junto do ser humano!
No momento augusto em que os elementos da Natureza desencadeados em fúria a todos ameaçavam destruir, já não haveria barreiras entre o homem e o bruto; eles já não seriam adversários, mas semelhantes, posto que, em graus diversos de purificação.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 13, 2017 9:13 pm

O mesmo princípio eterno que os animava, unia-os em face do perigo comum, num mesmo sentimento de temor e fraqueza.
Dafné ficou imóvel entre os dois animais, a ouvir-lhes a respiração forte e estertorante.
Um dos tigres descansara nos seus joelhos a grande e pesada cabeça, enquanto uma camada de cinza ia cobrindo pouco a pouco aquele estranho grupo assim formado:
uma mulher guardada por duas feras!
Depois, tudo desapareceu sob um lençol pardacento, que, durante vinte séculos, haveria de fossilizar a mal-aventurada “urbs” num sarcófago de pedra...
À porta do anfiteatro, Semprônius e os seus encontraram-se com Virgília, Metela, e seus maridos.
— Como é isso, Agripa?
Resolveste trazer os pequenos? Por mim, acho muito cedo para os habituar a estes prazeres do circo.
— De pleno acordo: não tencionava mesmo trazê-los, mas, que queres? — e fazendo uma careta — não há como atender às mulheres...
Esqueces, de certo, que minha Metela teve um sonho, nem mais nem menos que a destruição da nossa Herculânum?
Pois o seu temor agora é de feição a levar consigo os filhos a toda a parte.
Assim, não houve remédio senão trazê-los e, quanto ao mais, já lhe prometi passarmos alguns meses lá em nossa casa dos arredores de Nápoles, cujo contrato de arrendamento expirou, e onde pretendo fazer remodelações de vulto para novo contrato.
Semprônius pôs-se a rir...
— Vejo que és realmente um bom marido e compreendes a vantagem das transigências oportunas; mas tu, Metela, sempre pensei que fosses mais corajosa...
Como podes, na verdade, tu, sensata e ponderada sempre, deixar-te impressionar totalmente por um simples sonho?
— Que queres, meu amigo? não está em mim, não posso dominar este vago pressentimento que me persegue quanto acabrunha.
Se não passar de uma ilusão, tanto melhor, porque de bom grado saberei suportar os remoques de Agripa...
Isto, dizia-o já galgando a escada que levava aos camarotes das senhoras.
Os homens ficaram conversando em baixo, até que tomassem também os seus lugares, contíguos ao do anfitrião Hatérius Rúfus.
O espectáculo corria no meio da maior animação, cada qual mais atento aos jogos da arena, quando Metela tocou o braço da filha do questor, que lhe ficara ao lado:
— Pompónia, veja “aquilo” lá no cimo do Vesúvio...
É extraordinário, eu nunca vi semelhante coisa!
A outra levantou os olhos e fixou, admirada, a nuvem brancacenta, esfriada de coriscos e relâmpagos, a crescer, a subir sempre sob a forma de uma fronde gigantesca.
Houve um momento em que o crepitar de algo semelhante a uma caldeira em ebulição chegou a dominar a grita do anfiteatro.
— Que coisa pavorosa! — disse Pompónia empalidecendo — talvez fosse melhor sairmos imediatamente e embarcar sem mais demora...
Vou mandar buscar as crianças, pois parece que lá a bordo sempre estaremos mais seguras...
— Era o que ia propor — respondeu Metela levantando-se.
Virgília, Drusila, vamos, que é sempre melhor prevenir que remediar.
Sobressaltadas e comovidas, desceram e mandaram um serviçal do circo chamar os maridos, que, empolgados e distraídos com as peripécias do espectáculo, nada viam nem ouviam.
Nada obstante, não tardaram a chegar, risonhos, mas igualmente contrariados.
Hatérius Rúfus tomou a palavra:
— Pelas barbas de Júpiter, minha senhora! que ideia foi essa de nos chamarem no melhor da festa?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 13, 2017 9:13 pm

Estás maluca, Pompónia? Como embarcarmos sem jantar?
E a nossa festa tão bem organizada?
E tu me julgas capaz de carregar com os amigos assim, de barriga vazia, ao demais sem saber porquê nem para quê?
Ora essa! tanto alarme por um pouco de fumaça...
Sou capaz de apostar a cabeça em como todo este pavor é...
Não pôde concluir, violento abalo fizera oscilar as paredes do circo, subterrâneo rumor seguido de fortíssimos estouros dominou tudo. Houve uma expectação geral, um minuto de silêncio fúnebre e logo gritos lancinantes, uma algazarra infernal e o estrupido de milhares de pés, uma avalanche de gente em debandada a comprimir-se, a precipitar-se, a esmagar-se...
Marcus Fábius advertiu:
— Vamos lá para o camarote imperial, que está desocupado, até que passe a onda, mesmo porque, se aqui permanecermos, seremos dispersos ou esmagados.
As mulheres no centro...
Todos aprovaram, formaram cadeia e já com dificuldade pôde o grupo, assim constituído em bloco, atingir a galeria onde, aliás, já encontraram outras pessoas não menos precavidas do tumulto e correrias.
Enquanto esperavam ansiosos, a montanha colmada de fogo e o céu cada vez mais fuliginoso se lhes deparavam.
Marcus Fábius, que se mostrara melancólico desde pela manhã, virou-se para a mulher e disse:
— Ao sairmos daqui, tu seguirás com Semprônius e Nero para a galera, enquanto eu vou a Herculânum a ver se consigo salvar nosso filhinho.
Conto poder regressar a tempo de embarcar contigo, mas, se o não puder fazer, irei direito a Nápoles, onde nos encontraremos.
A moça suspirou, visivelmente desfigurada.
— Não, não vás; se o nosso tesouro puder salvar-se, a ama e Fábia lá estarão para guardá-lo; mas, se ainda assim teimares, quero ir contigo para morrermos juntos sobre o berço do nosso filhinho...
Sozinho não irás, não quero, não consinto.
Agarrou-se nervosamente à toga do marido e cravou nele o lindo olhar azul, mareado de lágrimas.
Naqueles olhos translúcidos havia tanta angústia, uma expressão de amor tão eloquente que o patrício inflou o peito e desabafou num grande suspiro de alívio.
Depois, tudo esquecendo, o momento e as circunstâncias, apertou-a de encontro ao coração.
— Virgília, minha querida, minha adorada esposa, nem sabes como essas palavras me calam bem...
Oh! perdoa a indigna suspeita que desde esta manhã me vem ensombrando o espírito...
Mas, acabo de ler nos teus olhos que não amas, que não podes amar outro homem...
— Mas, que outro homem? — balbuciou ela com espanto e ingenuidade tais, que dissiparam as últimas dúvidas do jovem patrício.
Novo abalo, mais violento que o primeiro, interrompeu o colóquio.
— Vamos — disse Semprônius —, ou ficaremos aqui sob os escombros.
Saíram. Impossível encontrar os carros e liteiras já levados de roldão, sabe Deus para onde.
Tanto quanto permitiam as circunstâncias, a pequena comitiva encaminhou-se a pé, na direcção do porto.
A grande mole humana se tinha escoado, mas, se os fugitivos por um lado logravam vingar caminho mais desembaraçado, por outro haviam perdido um tempo precioso, visto que uma cinza espessa e comburente começava a cegá-los e oprimi-los, dificultando a respiração.
Pedras candentes, de todos os tamanhos, choviam a granel ferindo uns, matando outros, aumentando em todos a confusão e o terror.
Hatérius e sua família caminhavam na frente, seguidos de Agripa e sua mulher, com os filhos ao colo; atrás deles, Cláudius amparava Drusila meio desacordada e finalmente Virgília, colada ao braço do marido.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 13, 2017 9:14 pm

Ao lado, silenciosos, cabisbaixos, Nero e Semprônius pareciam sonâmbulos.
Semprônius detinha-se frequentemente, com risco de se transviar na multidão, dentro da qual, via-se, ou antes — adivinhava-se, quereria lobrigar Cáius Lucílius.
Essa preocupação alheava-o de tudo e de todos.
Tinham feito, assim, mais de meio percurso, quando outro abalo mais violento que os anteriores fez tremer a terra e tombar muita gente, sobretudo mulheres.
E, como se aquela vibração subterrânea fosse mais intensificar a actividade vulcânica, imensa nuvem negra golfou da cratera e espalhou por todo o ambiente uma verdadeira chuva de pedras rubras.
Virgília, atingida, também tombara.
Nero e Fábius apressaram-se a levantá-la e procuraram estugar o passo, quando uma pedra, zunindo, bateu na fronte do segundo, que tombou fulminado, sem um gemido.
A moça atirou-se ao corpo inerte do marido, esforçando-se por levantá-lo, mas, tanto que o viu imóvel, de olhos arregalados, a golfar sangue das narinas e da boca, deu um grito lancinante e tombou sobre o cadáver.
Nero inclinou-se para o casal infortunado...
— “Nada mais lhe resta” — murmurou, trémulo, e, tomando nos braços a moça, acelerou mais os passos.
O coração pulsava-lhe com violência...
Enfim, ali a tinha entre os braços, tal como tantas vezes desejara, a “dourada borboleta"!
A cabeça adorada repousava-lhe no ombro e aqueles cabelos perfumados acarinhavam-lhe o rosto...
Ao demais, ela agora estava livre...
Apesar do perigo mortal que os ameaçava de todos os lados, o rapaz estreitou mais fortemente o precioso fardo, enquanto nos olhos lhe fulguravam centelhas de esperanças num futuro radioso.
Finalmente, chegaram à orla do_ mar, já coalhado de embarcações superlotadas de fugitivos.
Não longe da praia, balouçava-se a galera do questor, toda empavesada de bandeirolas e de guirlandas floridas para a festa nocturna programada.
Dois escaleres cruzavam ao longo da praia, evitando aproximar-se, para não serem invadidos pela turba em fuga dementada.
Os que a nado, ainda assim, tentavam fazê-lo, eram repelidos a golpes de remo.
Num homem que, de pé, na proa do escaler tentava reconhecer os fugitivos, o questor deparou o seu criado de confiança, que, desde pela manhã, seguira para bordo.
— Créstus! — gritou acenando — por aqui, depressa!
Num instante os escaleres encostaram e Créstus precipitou-se para o amo, beijando-lhe a toga:
— Abençoados os deuses que me permitem rever-te! Não foi em vão que cruzamos neste local...
Mas, vamos, porque parece que o mundo está para acabar.
— Esperemos para que te possa ainda provar minha gratidão por tua providência e por essas lágrimas na hora do perigo.
Agora, trata de acomodar o melhor possível estas mulheres e as crianças.
Todos embarcaram, excepto Semprônius, que declarou ficar em terra, a fim de procurar Cáius que, ao seu ver, devia estar por ali perdido entre a multidão.
Hatérius e Agripa agarraram-no então, pelos pulsos, e, quase à força, obrigaram-no a embarcar.
Dentro em pouco, abordaram a galera; as mulheres recolheram-se logo aos camarotes, onde Metela, desfigurada e sempre silenciosa, procurou socorrer Virgília, que continuava desacordada.
Drusila, com o rosto escondido nas mãos em concha, estava como que estuporada e Pompónia, essa, enchia o ambiente de gritos e lamentações, porque só o filho mais velho, de 13 anos, ali estava, enquanto os dois mais moços lá ficaram em Pompeia.
E o fim horrível que os aguardava, era de retalhar seu coração de mãe.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 14, 2017 10:05 pm

Os homens permaneciam no convés, a contemplar horrorizados o panorama do litoral e da cidade, envolto em névoa avermelhada, da qual emergia o Vesúvio qual tocha gigantesca.
Quando Hatérius ordenou largassem o pano, Semprônius segurou-lhe no braço e suplicou esperasse até que Cáius aparecesse.
É que agora, imaginava, o filho deveria achar-se nalguma daquelas embarcações que por ali singravam em todas as direcções.
— Meu pobre amigo — respondeu-lhe o questor —, se houvera de aceder ao teu desejo, sucumbiríamos todos, sem probabilidades de salvar teu filho.
Segundo disseste, ele teria regressado a Herculânum e a catástrofe com certeza o surpreendeu em caminho, pelo que, presumo, terá fugido noutro rumo.
Atravessar o bulcão de fogo e cinza que envolve Pompeia seria uma loucura e, por outro lado, repara a agitação do mar...
Precisamos não perder tempo, se quisermos salvar os inocentes aqui abrigados.
O velho patrício baixou a cabeça e desceu com os demais à câmara interna da embarcação.
Ao penetrar no seu camarote, Agripa tomou as mãos da esposa, comovidíssimo:
— Tudo arrasado, tudo destruído! De Herculânum e Pompeia não ficará pedra sobre pedra...
Ela encarou o marido com os olhos húmidos de lágrimas:
— Nunca me considerei tão rica como neste momento ao ver-te aqui, são e salvo, ao lado dos nossos filhinhos; entretanto, choro por Virgília que, coitada, talvez lhe fosse melhor não despertar do seu desmaio.
— Tens razão: tanto ela como o pobre Semprônius são dignos de lástima.
Enfebrecido, exasperado, ele — Semprônius — deixara-se abater numa cadeira, indiferente a quanto se passava ao derredor.
Nem ouvira os gritos de Pompónia, que Hatérius e o genro acabaram levando para outro compartimento.
Agripa procurava confortá-lo, mas, um só pensamento lhe absorvia todo o ser — Cáius, o seu tesouro, a alegria, o consolo único da sua velhice solitária estava perdido, morto talvez como Fábius, o guapo e também jovem patrício geralmente estimado...
E Fábia, sua velha mãe, confidente e gula de todos os tempos, também ela deveria ter perecido, tragada na voragem dos elementos...
Nada, nada mais lhe restava no mundo!
Comprimiu o peito, suspirou profundamente, ao mesmo tempo que reparou no perfil de Nero, o qual, nervoso e carrancudo, apoiava-se na parede.
Ali estava o filho repudiado, o exilado, e era esse que o destino impiedoso lhe reservara para o fim da sua vida...
Oh! Némesis, terrível é o teu gládio — murmurou, mergulhando o rosto nas mãos.
Inditoso Semprônius!
Não compreendeu que o destino, arrebatando-lhe o filho dilecto, proporcionava-lhe ensejo de abrir o coração ulcerado ao filho aborrecido.
Não soube aproveitar a ocasião para atrair aquela alma enegrecida e galvanizada pelo ciúme...
E essa hora que poderia prevenir mais de uma desgraça futura, resvalou para a eternidade, apenas cavando entre pai e filho um abismo mais profundo.
Voltando a si, consciente do seu infortúnio, Virgília debulhou-se em lágrimas.
Metela não cessava de lhe proporcionar consolações, mas, há dores que só o tempo pode aliviar.
Enxuto o pranto, ela olhou em torno e seus olhos fatigados só divisaram Semprônius, assentado com a cabeça apoiada, ou antes, enforquilhada nas mãos.
Notou as lágrimas que lhe escorriam de entre os dedos, e, à visão daquela criatura que ela conhecera desde a infância e se habituara a ver sempre altiva, a ponto de considerá-la inacessível, invulnerável a todo desespero — Virgília se possuiu da mais viva compaixão.
Esquecendo por momentos a própria desgraça, ajoelhou-se junto dele e, acariciando-lhe a face com as pequeninas mãos febris, murmurou soluçante:
— Pobre amigo, pois tu podes chorar?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 14, 2017 10:05 pm

Misturemos, então, nosso pranto, de vez que ambos perdemos o que de mais caro tínhamos no mundo.
O velho patrício levantou-se.
Quem poderia chorar com ele? Percebendo os anelados cabelos de Virgília, veio-lhe à mente a menina que tantas vezes lhe saltitara nos joelhos, a infantil camaradinha de Cáius, que, só ela, lhe dominava os ímpetos, com meiguices de boneca.
Depois, lembrou-se que também ela perdera tudo na hecatombe.
Silencioso, estreitou-a nos braços, enquanto uma torrente de lágrimas lhe desafogava o coração.
De olhos enxutos e lábios trémulos, Nero observava o quadro comovente, a remoer-se todo de ciúmes, ao considerar aquelas lágrimas vertidas em memória de Cáius Lucílius.
Decididamente, ele era um ser inútil...
Que dúvidas mais poderia alimentar?
Aquela mulher estranha dava consolações ao pai, que a cingia e afagava como filha, enquanto que ele, o único filho sobrevivente, nem sequer fora notado.
Teve a intuição de que a sua aproximação seria penosa para Semprônius, e tanto que o pensou, baixou a cabeça, desanimado, e galgou bruscamente o convés.
Uma noite escura, sem estrelas, amortalhava a terra.
Apenas o Vesúvio flamante, ao longe, se esbatia no mar com tonalidades avermelhadas de incêndio.
Apoiou-se na amurada e, de cenho carregado e fixo nas trevas que o envolviam, passou a imaginá-las menos densas que o seu próprio futuro...
Que lhe reservaria ainda o destino, à sua existência milagrosamente poupada naquele transe lúgubre?
Com que fim deixava-se embalar, ali assim, no bojo daquele esquife que, de velas enfunadas, voava sobre as ondas como um Alcíone?

FIM DA PRIMEIRA PARTE
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 14, 2017 10:05 pm

SEGUNDA PARTE - JÚPITER E JESUS

I
- O eremita

Em arrancada vertiginosa, Cáius Lucílius e os que o seguiam afastaram-se da zona flagelada, mas, a escuridão crescente, por um lado, e a chuva de fogo e cinza, por outro lado, fizeram-nos perder a estrada real, de sorte que, em pleno campo rústico, não sabiam ao certo onde se encontravam e a direcção que seguiam.
Duas vezes tentaram orientar-se, até que, impossibilitados de ir além, fizeram alto.
O jovem patrício sentia-se mal: agulhadas finas como que lhe perfuravam o cérebro; começava a ver tudo vermelho, ao mesmo tempo que se banhava de frio suor.
— Não posso mais, anda-me tudo à roda — disse, sofreando o animal, que, sob a carga dupla, tremia das pernas e, coberto de espuma, sangrava pelas narinas.
Vou apear-me aqui e descansar um pouco...
Você, Rutuba, toma a vovó a seu cargo e segue com os outros.
Não podemos desistir de encontrar um abrigo onde prestar à pobre velha os socorros que ela está requerendo.
Os vossos cavalos estão menos exaustos e ainda poderão atingir qualquer cidade ou vila.
Logo que consigas acomodar vovó, vem buscar-me aqui, ou então nos encontraremos em Roma, visto que para lá seguirei, tanto que me sinta melhorado.
— Mas, fique com um escravo ao menos, patrão...
O senhor está visivelmente doente e quer ficar aqui sozinho?
— Ora, Rutuba, uma mulher sempre tem necessidade de escolta e eu... bem sabes, tenho aqui o meu punhal e uma bolsa...
Faz como digo e não percas tempo, mesmo porque, isto é mais fadiga que doença.
Embora contrariado, Rutuba teve de obedecer e bem depressa o tropel da cavalgada perdia-se a distância.
Uma vez só, Cáius Lucílius deitou-se na relva e examinou o local: era uma região montanhosa.
A rota pouco batida, na qual desaparecera a comitiva, desdobrava-se em declive e embrenhava-se em cerrada floresta; mas, à esquerda, havia uma trilha pedregosa, que ascendia aos cimos rochosos, também colmados de espessa mataria.
Depois de modorrar cerca de uma hora, levantou-se e, já tomado de uma sede ardente, resolveu seguir aquela trilha, na esperança de encontrar alguma fonte ou cabana de pastor, onde mitigar a sede.
Penosamente, lá se foi tropeçando naquele carreiro, não muito íngreme mas bastante sinuoso, que se afundava na montanha.
Quanto tempo assim caminhou, nem ele mesmo poderia sabê-lo; mas o certo é que, de súbito, ouviu o borbulhar de uma cascata, ao mesmo tempo que um pálido raio de lua lhe deixava entrever uma fonte, que, jorrando de um penedo, formava natural piscina.
Ajoelhou-se e tentou, com as mãos em concha, captar a linfa cristalina; mas, no mesmo instante tonteou, viu tudo negro e tombou, desfalecido, no tapete de musgo que circundava a pequena bacia.
Longas, silentes, pesadas horas transcorreram, até que o dealbar da aurora começasse a atingir a barra do horizonte.
Ouviram-se passos.
No alto da montanha surgiu, descendo, uma silhueta humana.
Aproximou-se da fonte...
Era um homem alto, envolto num hábito cinzento.
De idade assaz avançada, denotava-se-lhe, não obstante, ainda relativa louçania e vigor.
Dorso algo abaulado, rosto rendado de profundas rugas, tinha no entanto a espelhar-se-lhe nos olhos castanhos um misto de bondade, doçura e melancolia infinitas.
A barba espessa e prateada morria-lhe na cintura e dava-lhe ao conjunto da personalidade uma sugestão de veneranda majestade.


Última edição por Ave sem Ninho em Sab Jan 14, 2017 10:06 pm, editado 1 vez(es)
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 14, 2017 10:05 pm

Ao perceber um vulto ali caído, inerte, parou um tanto surpreso e logo, precipitando-se, inclinou-se e procurou examiná-lo.
— Um patrício! — exclamou — como e porquê viria aqui parar?
Tomou um pouco d’água, molhou-lhe as têmporas e o rosto, friccionou-lhe depois as mãos enregeladas...
Um quarto de hora mais e o rapaz, abrindo os olhos, espantado, circunvagou-os no ambiente e murmurou:
— Onde estou?
O ancião ajudou-o a levantar-se e perguntou com vivacidade:
— Quem és e por que obra do acaso aqui te encontras, neste estado e neste ermo?
O rapaz passou a mão pela testa como quem queria associar ideias.
— Saí de Herculânum, minha cidade natal, em fuga precipitada, diante da erupção do Vesúvio, que ameaçava destruí-la.
Foi o acaso que me trouxe a estas paragens.
Estou exausto, porém, tudo me anda à roda, mal posso caminhar.
Se me puderes dar qualquer abrigo onde me reconforte, o bastante para prosseguir, ser-te-ei imensamente grato.
— Se vens de Herculânum, podes gabar-te de uma façanha admirável...
Encosta-te a mim, filho; vamos até minha casa, que fica perto, pois bem vejo que precisas de repouso absoluto.
Não foi sem grande custo que, amparando o forasteiro vacilante, o conduziu ao seu tugúrio, distante uma centena de passos.
Ali, diante de uma fenda meio coberta pela folhagem de uma trepadeira rústica, o velho se deteve e fez entrar o companheiro numa gruta espaçosa, tendo por todo mobiliário uma mesa de tábuas e troncos, que serviam de cadeiras.
A um canto, um leito de folhas secas, forrado de peles de carneiro.
Deitado nele o jovem cambaleante, o anacoreta correu a uma espécie de nicho cavado ao fundo e retirou uma coberta de lã, um copo e uma bilha de vinho.
— Costumo reservar para os meus doentes uns tantos regalos que não concedo a mim mesmo —, disse, sorrindo naturalmente, satisfeito.
Por mim, vivo apenas para a oração e pela oração; de nada mais preciso...
Entretanto, sempre que me é dada a alegria de receber um hóspede, gosto de reconfortá-lo com uma boa pinga.
Assim falando, estendera a coberta e já lhe apresentava o copo e um naco de pão.
O rapaz bebeu com avidez mas, sem tocar no pão, recaiu no leito, em profundo e agitado sono.
Tremor geral sacudia-lhe todo o corpo e, de súbito, como que arrancado ao seu torpor, despertou em delírio já febrilmente.
Acreditava-se diante do Vesúvio, atingido das lavas candentes a requeimarem-lhe as carnes.
E rolava no leito de folhas estalidantes, gemendo a chamar por Fábia e pelo pai.
O eremita em oração, assentado numa pedra à porta da gruta, reentrou precipite e pôs-se a ouvir com interesse o que dizia o enfermo, que, face congesta e olhar cintilante, parecia apostrofar um ser invisível.
O delírio de Cáius mudara de objectivo: estava agora como que revendo Dafné e o quadro que precedera a tragédia; procurava o punhal que deveria cravar no coração do torpe Apolônius.
— Pobre criatura!
Tão moço e já traído na vida... a não ser que tudo isto seja o delírio da febre... — murmurou o velho, ao mesmo tempo que lhe impunha as mãos na fronte.
Em breve, pareceu acalmar-se, fechou os olhos.
Alguns dias transcorreram sem melhoras sensíveis no estado do enfermo.
O velho eremita não cessava de intervir carinhoso e solícito, já orando à cabeceira do doente, já lhe impondo as mãos quando o delírio se exacerbava.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 14, 2017 10:06 pm

Uma noite, o mal se agravou subitamente: ardendo em febre, olhos cavos de pálpebras roxeadas, o rapaz jazia imóvel e só pela respiração estentórica, sibilante, poderia dizer-se que ainda lhe restavam resquícios de vida.
Aflito e conturbado, o solitário retirou-se para o fundo da gruta.
Na cavidade já entrevista, estreita abertura fechada por uma cortina de couro e inteiramente velada pela sombra esbatida das anfratuosidades da rocha, conduzia a uma segunda cripta, menor que a outra.
Ao centro dessa cripta, mal aclarada por lâmpadas pendentes da abóbada, abria-se uma grande e funda bacia cheia d’água; mais ao fundo, entalhado na pedra, um altar com uma cruz, e, nesta, a imagem em tamanho natural, de um homem crucificado.
Essa imagem que, como obra de arte deixava muito a desejar, não deixava, contudo, de revelar grande inspiração: — a cabeça cingida por uma coroa de espinhos era admirável; e a expressão de angústia, tocada de suavidade divina, era de molde a honrar um grande escultor.
O eremita acercou-se daquele estranho altar e ajoelhando-se estendeu as mãos súplices:
— “Bom e divino mestre, tu que me ensinaste a conhecer o verdadeiro e único Deus, pai de todas as criaturas, atende à minha súplica, inspira-me o remédio para o enfermo que a mim encaminhaste.
Para ti que convertias gentios e saravas leprosos, não há pagãos impuros nem incuráveis; todos te são igualmente caros ao coração, e, onde quer que exista um sofredor, aí estarás para o aliviar...”
Calou-se em êxtase por algum tempo, e, quando finalmente se levantou, tinha estampada no rosto uma serenidade indefinível.
Aproximou-se, então, de uma pia ao pé do altar, encheu nela uma pequena taça de prata; ajoelhou-se, tornou a orar, e, estendendo as mãos acima da taça, disse em tom grave e solene:
“Senhor Jesus, filho do Deus vivo, invoco sobre esta água a virtude da tua graça, recordando-me do teu baptismo no Jordão; satura, Senhor, esta água, daquele fluido renovador de que és a única fonte para a cura do corpo, pois que, puro, purificas quanto tocas.”
Depois de prosternar-se e beijar as bordas da pia, encheu daquela água um bilha e voltou para junto do enfermo.
Humedeceu-lhe os lábios ressequidos, molhou panos e aplicou-lhos à fronte.
Isto feito, retornou ao seu lugar no tronco de árvore e continuou a orar silencioso.
De repente, o doente ergueu-se, arregalando os olhos:
— Veja! — exclamou apontando para o fundo da gruta — é o Sol que desponta a inundar-nos de sua luz dourada!
Ah! é Júpiter mesmo que baixa das arcadas celestes, sustentado em nuvens diamantinas.
Sua claridade cega-me!
Entretanto, misericordioso e doce é o seu olhar!
Calou-se e recaiu exausto...
O velho se prosternara com a face rente ao solo, e, quando se ergueu e debruçou-se sobre o enfermo, notou, emocionado, que ele estava profundamente adormecido.
— Grande é a tua misericórdia, Senhor!
Renovou a compressa, murmurou:
— Pobrezinho... dorme, recupera as energias do teu corpo exausto.
*
* *
Alto ia o dia quando Cáius acordou.
A febre desaparecera de todo, uma palidez de mármore sucedera ao rubor ardente das faces, mas a extrema fraqueza subsistia.
Em percebendo o eremita à sua cabeceira, disse:
— Quisera, mas não posso levantar-me.
_— Não há necessidade de te apressares, filho; necessitas de longo repouso, pois acabas de vencer perigosa enfermidade, e antes de uma semana não poderás reconstituir-te inteiramente.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 14, 2017 10:06 pm

Agora, bebe isto c não te esfalfes a falar.
Apresentou-lhe uma bebida refrigerante, chegou-lhe as cobertas e logo as pupilas do enfermo se fecharam num sono profundo, reparador.
Apesar dos cuidados do ermitão, a convalescença prosseguia com extrema vagareza.
Querendo distraí-lo, em conversa, certo dia, João (assim se chamava) perguntou-lhe quem era e de que família.
O rapaz deu o nome e chegou a contar até os pormenores da sua fuga.
— Ah! — exclamou o velho — pertences, então, a uma ilustre e rica família.
Conheci teu avô quando comandante de uma legião nas Gálias e por sinal que era um nobre e valoroso soldado, posto que severíssimo, implacável mesmo, em questões de disciplina.
Se não estás muito cansado agora, diz-me:
que é feito dele e o que faz actualmente?
Vejamos:
não baixes tanto a cabeça, não te acabrunhes dessa maneira...
Compreendo a tua apreensão pela sorte de Semprônius, teu pai, mas, devendo ele encontrar-se numa festa a bordo, é muito provável que tenha podido escapar à catástrofe.
Cáius acedeu aos desejos do seu benfeitor e mais de uma vez trataram desse assunto.
Contudo, a maior parte do tempo passava-o deitado, melancólico e inteiramente absorto nos seus pensamentos pungentes.
Além da natural angústia pela sorte do pai e dos amigos que o acompanharam a Pompeia, a lembrança da esposa o perseguia com insistência atroz.
Às vezes, era como se tivesse diante de si a mulher amada, com as carnes sangrentas, retalhadas pelas feras.
E a vingança selvagem já lhe não lisonjeava o espírito ensombrado.
Ninguém poderia conhecer do seu acto, mas, não obstante, sentia-se oprimido e quereria agora, como nunca, reclinar-se ao colo da avó para chorar livremente.
Entanto, não tinha uma lágrima que o aliviasse!
Por vezes, no silêncio da noite era o grito desesperado, eram as súplicas de Dafné que lhe feriam os ouvidos, sem que soubesse como evitá-las.
Nessa luta íntima, tentou orar a Júpiter, mas a súplica resultava inútil, porque a verdade é que não sabia orar, não tivera jamais ocasião de se acercar da divindade por meio de uma prece.
Sempre ditoso, desde o berço, estimado e lisonjeado por todo mundo, um só dever sagrado lhe decorrera até ali, que era agradecer aos imortais os dotes com que o cumularam.
Era a primeira vez na sua vida que se via e sentia só, abandonado, infeliz e torturado, em consciência.
Neste caso, sua invocação tornava-se antes um murmúrio, uma rebelião surda, que mais envenenava do que acalmava o espírito.
A voz pacífica, o semblante sereno do anacoreta lhe ciavam, intercorrentemente, algum alívio e, também por isso, não cansava de o observar, enquanto o velho lhe preparava as refeições ou o chá da manhã e da noite.
E foi assim que acabou por notar a visita semanal de um jovem campónio, que trazia sempre um cesto de provisões.
Notou, também, que juntos não deixavam os dois de se sumirem lá no fundo da gruta, onde, aliás, o velho, mesmo só, não deixava de recolher-se todos os dias, lá permanecendo longas horas.
Muito tempo levou a conjecturar o que poderia significar aquele retiro misterioso, até que suspeitou da existência de uma segunda caverna e resolveu certificar-se.
À tarde, quando assentados defronte da gruta admiravam o pôr do Sol, desabafou:
— Bom amigo, não me julgueis ousado e indiscreto, mas, estou desconfiado que não comungas da minha fé...
Será que pertences a essa seita cristã de que tanto se fala no império?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 14, 2017 10:06 pm

O velho inclinou a cabeça:
— Sim, de facto sou cristão e um dos primeiros cristãos, por isso que assisti aos últimos momentos do Divino Mestre, de quem sou hoje indigno discípulo.
Conformando-me com os seus ensinamentos, aqui vivo longe das tentações do mundo, orando, cuidando dos enfermos, procurando aliviar quantos sofrem, na medida de minhas forças.
Nada, absolutamente nada, pode perturbar as minhas sagradas recordações, e por isso me considero e sou verdadeiramente feliz.
— Pois também eu me considero feliz de poder, finalmente, inteirar-me da verdade sobre a vossa seita, que, dizem, tem por fundador um mágico, e mais: que o vosso culto misterioso comporta cerimónias licenciosas, quanto odiosas.
Eu, contudo, sempre considerei tais coisas incompatíveis com a paciência, a indulgência e a fé inquebrantável com que os cristãos preferem suportar todos os martírios, antes que abjurar.
Que me dizes?
Paternalmente bondoso, como és, tua palavra vale, para mim, pela própria verdade sem restrições.
— Os que nos detratam e acusam de tal modo, não conhecem nossa doutrina e muito menos o nosso divino Redentor, tão grande e tão puro, que, mesmo aqueles o viram não o compreenderam.
Não o digo no propósito de converter-te, meu filho, se bem que crer e deprecar a Jesus representa a maior de todas as graças.
— Oh! meu bom amigo, conta-me então o que sabes desse homem singular que soube inspirar a seus discípulos uma tal fé que desafia todas as torturas e a própria morte...
Sim, porque, devo dizê-lo, também já tenho Com ele aqui sonhado... Mas, é verdade que ele predicou o perdão das ofensas e a humildade, que prescreveu fazermos o bem pelo mal, aos inimigos?
Peço-te, pai João, conta-me como o conheceste, o que te disse ele, e juro guardar de tudo o mais absoluto segredo.
— Pois bem:
estou a ler no teu olhar honestidade e generosidade e consinto em confiar-te o meu passado.
Dir-te-ei como conheci Jesus e me tornei cristão.
É uma narrativa comovente, que encerra grandes ensinamentos e, para ouvi-la e aproveitá-la, precisas restabelecer-te, no mínimo fisicamente.
Trata, portanto, de recuperar forças e depois ouvirás quanto desejas saber.
Não haveria como deixar de conformar-se com a decisão e o velho o ajudou a erguer-se e retomar o leito.
Outros dias se escoaram sem alterações apreciáveis.
É verdade que Cáius readquiria forças, graças à alimentação substanciosa que o eremita lhe proporcionava; mas seu estado de alma permanecia mais anuviado que nunca.
A recordação das últimas horas de Herculânum acuava-lhe a consciência; e se as noites lhe eram de insónia cruel a revirar-se na cama, os dias passava-os também encolhido, apático, refractário ao ar livre da montanha.
O bom ermitão que, naquelas poucas semanas, se afeiçoara sinceramente ao seu hóspede tão belo quanto reconhecido aos seus menores cuidados, acompanhava ansioso as peripécias da sua luta íntima, até que uma noite, depois de lhe haver servido uma tijela de excelente caldo, disse, ao mesmo tempo que lhe corria a mão pelos cabelos crespos:
— Meu filho, estou a ver com tristeza que a saúde física não se restaura, porque tens a alma enferma...
Que desgosto, porém, poderá oprimir, assim tanto, um coração moço, a ponto de não poderes dormir?
O rapaz nada respondeu, mas deixou pender a cabeça no peito do ancião, que o cingiu fortemente.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 14, 2017 10:06 pm

— Teu silêncio, filho, me revela melhor que as palavras o ascendente de qualquer falta a pungir-te a consciência, mas, se te repugna descobrir ao teu velho amigo as úlceras da tua alma, acompanha-me, vamo-nos ali onde costumo encontrar alívio para o meu espírito conturbado.
Vamos; eu pedirei contigo, a fim de que o génio do mal, que te arrastou para a senda do pecado e ainda se rejubila com os teus sofrimentos, te deixe de uma vez.
Aquele que te vou mostrar, disse: Vinde a mim os pecadores, os desgraçados, eu os aliviarei!
Como que subjugado por íntima, incoercível necessidade de oração e arrependimento, Cáius seguiu o eremita ao misterioso santuário; contudo, admirado e ofegante, ei-lo que se detém à entrada...
A penumbra que enchia o ambiente, a luz oscilante das lâmpadas aclarando no fundo a cruz, com o seu mártir, reagiram vitoriosamente na alma sensível e apaixonada do rapaz.
Ali estava, então, o Deus dos humildes e desgraçados!
E aquele Deus não impava num trono a empunhar raios, como Júpiter!
Nem os seus servos diziam:
o mais caro à divindade é o que lhe oferece mais ricos sacrifícios...
Mas, ao contrário, aquele Deus procurava os pobres, os decaídos da sorte!
O velho ajoelhou-se diante do altar e disse:
— Oremos para que possas ter paz...
Já possuído de veneração e um certo temor, Cáius Lucílius ajoelhou-se também e teve o seu olhar logo atraído, irresistivelmente, para o rosto da imagem, que parecia inclinar-se para ele e dizer com infinita doçura:
— “compreendo o teu sofrimento; vem a mim, eu te aliviarei.”
— Filho — diz o eremita aproximando-se —, esse, que aí vês representado, conheceu a fundo o coração humano; dirige-te a ele e ele te compreendera...
Sua clemência era apenas infinita e, quando cercado dos inimigos que acabavam de crucificá-lo, ainda exorou perdão para eles, como quem sabia que a morte não passa de libertação das penas terrestres, e que o sofrimento ó a pedra de toque da paciência, da fé e do amor adquiridos.
Condenar e punir é sempre mais fácil que perdoar e corrigir.
Profundamente conturbado, o jovem patrício uniu as mãos, sem poder explicar-se a insólita atracção desse Deus desconhecido, ao qual acabava de orar.
O homem carnal e cego mal poderia presumir que seu espírito acabava de reconhecer o guia divino da pátria eterna, exultante de o haver reencontrado.
Muda, porém fervorosa invocação lhe borbulhou do coração em ânsias de paz interior; as faces pálidas se coloriram, os olhos brilharam de exaltamento e parecia-lhe que toda a luz das lâmpadas se concentrava no semblante do Crucificado, a cercá-lo de um halo aurifulgente, ao mesmo passo que do madeiro se exalava uma onda de calor benéfico, que todo o penetrava e aliviava.
De novo lhe voltou a esperança de rever o pai e todos os que lhe eram caros, enquanto que a imagem e o fim sangrento de Dafné como que se diluíam na retina do seu espírito...
Mas, em compensação, passou a julgar-se a si mesmo, viu num relance as próprias faltas, a sua cegueira ultriz, e humilhou-se intimamente...
Calmo, então, de uma calma que há muito não fruía, virou-se para o companheiro que, braços estendidos, parecia mergulhado em beatífico êxtase:
— Meu pai, grande é o poder do teu Deus!
Sinto-me aliviado, tenho como que arrancado do coração um peso enorme; deixa-me dizer-te, aqui mesmo, o que ignoras da minha vida, para que me digas, à face deste Deus misericordioso, o que cumpre fazer para afastar a sombra vingadora de uma vítima.
— Fala, filho — disse o solitário estendendo-lhe os braços —, não há faltas imperdoáveis diante de um sincero arrependimento que nos conduz à penitência.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 14, 2017 10:07 pm

O rapaz assentou-se-lhe aos pés e num discurso rápido, sintético e colorido, fotografou Fábia, Semprônius e a sua existência despreocupada, clara, venturosa, até ao dia do seu encontro com Dafné; fez-lhe ver como, por excesso de amor por ele, sua avó e seu pai tão austero e altaneiro, haviam anuído ao casamento e recebido de braços abertos aquela plebeia sem educação e sem fortuna; depois, em crescente agitação, descreveu todas as torturas morais que lhe infligira a ingrata criatura, que ele generosamente arrancara do lodo e da miséria e, tanto que esposada, entrou a odiar a todos que lhe eram caros, para culminar na ignomínia da traição...
De olhos brilhantes, ruborizado, desenrolou ao velho anacoreta o painel das últimas cenas que precederam a fuga desordenada e finalmente como, advertido por um servo de confiança, pudera, com os próprios olhos, certificar-se do seu vilipendio e como, numa espécie de alucinação, matara o traidor e dera a mulher em pasto às feras.
— Agora, meu pai, o seu fantasma me persegue sem tréguas, vejo-a a cada passo, tenho-a diante de mim a rebolcar-se no chão e os gritos de angústia, as súplicas desesperadas reboam-me aos ouvidos, são mesmo de enlouquecer.
Diz-me, pai, o que devo, o que posso, o que preciso fazer...
Assim terminou, deixando pender a cabeça febricitante nos joelhos do confessor.
— Não sou, não posso ser juiz, meu filho:
grande era, decerto, a tentação para o teu espírito de moço, ultrajado e traído.
Dificilmente poderias eximir-te de castigar a mulher perversa e condenável a face de todas as leis humanas; contudo, o divino Mestre, que expirou na cruz para resgate das nossas faltas, disse em nome do Pai celestial que o julgamento só a ele pertencia...
A verdade é que a justiça daquele que rege o Universo é bem mais temerosa do que a tua mesquinha vingança, que não foi além do aniquilamento de um corpo, de vez que Ele é o senhor das almas, isto é, do pensamento indestrutível, que sobrevive ao corpo e permanece como factor de todos os teu3 males.
Lembra-te de que a vingança liga os inimigos entre si, tanto quanto os desliga o benefício que se lhes faça.
Sempre que pensares com rancor nessa pérfida criatura, que também te odeia pelo fim horrível que lhe deste, os maus sentimentos de ambos se encadearão mais fortemente do que se foram amistosos; mas, quando o ódio da tua vítima esbarrar no teu perdão e na tua prece u seu favor, ela se sentirá aliviada, envergonhar-se-á de si mesma e acabará por te deixar.
Ora, portanto, meu filho, e o dispensador da graça e do perdão te concederá o repouso em te afastando dos inimigos invisíveis, bem mais temerosos do que os visíveis.
Em sua passagem pela Terra, um dia, predicando ao povo, o Mestre afirmou que todo aquele que saiba orar maneja a mais forte das alavancas dadas à criatura humana, porque a Fé transporta montanhas.
— Tudo o que dizes dos ensinos do teu Deus só lhe prova uma sabedoria profunda.
Acabo de experimentar o seu poder e já agora, mais que nunca, desejo conhecê-lo.
Quererás, hoje mesmo, confiar-me o que sabes da sua vida e feitos? — terminou por dizer Cáius Lucílius com olhos de fulguração entusiástica, que raiavam por exaltação.
— Com muito prazer e mesmo, porque, o momento se me afigura azado para te revelar minha conversão ao Cristianismo, visto estares acalmado pelas nossas preces.
Como, porém as emoções desta hora feliz te abateram as energias físicas, vamos tomar, antes, algum alimento.
Passaram à primeira gruta e logo se serviu cada qual da sua tijela de leite e um naco de pão.
Depois, assim falou o velho eremita:
— Trata-se de um passado que vai bem longe e antes que o retrace importa, para maior clareza, falar-te da minha pessoa.
Meu pai foi soldado e, com tal, frequentemente se ausentava do lar.
Minha mãe, com meus irmãos, habitava a casa de meu avô, rico e sábio filósofo, de sorte que tive uma juventude relativamente feliz e despreocupada de maiores cuidados.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 14, 2017 10:07 pm

Inteligente e vivo, meu avô muito se interessava pela minha educação e tal era a facilidade da minha compreensão, que ele chegou a afagar o projecto de me fazer um sábio.
Meu pai, porém, pensava de outra maneira e cedo tive de abraçar a carreira das armas.
Fiz meu primeiro estágio em Massília, nas Gálias, sob o comando de teu avô e dali fui destacado para Jerusalém, na Judeia, província então governada por Pôncio Pilatos.
Preciso é dizer-te que o cargo de governador da Judeia não era isento de perigos e dificuldades, máxime, para um homem orgulhoso e violento qual Pilatos, visto tratar-se de um povo turbulento e fanático como seja o povo judeu.
A mais leve das faltas, o menor descuido administrativo, eles, os judeus, denunciavam directamente ao Imperador, muito embora não deixassem jamais de conspirar e sonhar a restauração da sua soberania política.
Compreendes que, em tal país e com tal gente, era preciso, ter argúcia e olho vivo.
Pois bem:
a Providência divina aprouve decorresse dessa contingência, para mim, o ensejo de conhecer o Salvador e se operasse a minha conversão.
Já te disse que eu era mais instruído que os meus camaradas.
Sobretudo, tinha grande facilidade em aprender línguas, circunstância que de muito me facilitava o serviço e as minhas relações com os nativos dos países que percorria.
Em Jerusalém, ocupava um cómodo na casa de um galileu, honesto e pobre homem carregado de numerosa família.
Uma das filhas, bela rapariga, agradara-me extremamente.
Considera que eu estava, então, na flor dos anos e tinha a cabeça povoada de mundanas ilusões.
(Disse-o como que emocionado à revocação daquelas reminiscências.)
O fato é que, para melhor me entender com Abigail, tratei de aprender mais rapidamente o seu dialecto, que não era o puro hebraico, mas, o geralmente linguarado pelo povo.
Foi em casa daquela boe. gente que ouvi pela primeira vez falar de Jesus.
Eles o tinham visto por ocasião do seu regresso a Jerusalém e testemunharam de vista a cura miraculosa de vários doentes, ao mesmo tempo que referiam às suas prédicas, possuídos de entusiástica veneração.
Interessei-me, desde logo, por aquela personalidade extraordinária, até que um dia fui chamado por meu comandante, que me disse:
“Quirílius Cornélius, vou confiar-te um trabalho secreto, que o teu conhecimento da língua popular tornará mais fácil:
parece que há mais de dois anos um homem de Nazaré, chamado Jesus, anda a percorrer em todos os sentidos a Galileia e as províncias limítrofes, pregando uma nova doutrina, curando enfermos e fazendo outros milagres.
Nada disso me interessa nem me preocuparia, se não houvesse recebido do Sumo Pontífice um aviso secreto, que denuncia nesse homem propósitos políticos, por isso que se inculca descendente de antigos monarcas e pretende ser aclamado rei de Israel. Torna-se, pois, indispensável averiguar a legitimidade destes boatos.
Procura disfarçar-te da melhor maneira e penetrar nessas assembleias, e não te será difícil encontrares o profeta entre a multidão, que, dizem, o segue por toda a parte.
Quando estiveres de tudo bem inteirado, far-me-ás um relatório.”
Satisfeito com aquele mandato que me vinha ensejar a satisfação da minha curiosidade, entrei em casa e logo, ali mesmo, soube que o profeta de Nazaré não estava longe da cidade.
A meu pedido, um irmão de Abigail prestou-se a conduzir-me ao sítio indicado.
Tratei de me disfarçar quanto pude e partimos tarde, a fim de aproveitar o frescor da noite.
Seguindo informações dos transeuntes, atingimos finalmente uma colina em cuja encosta se grupava, pitorescamente, uma turba considerável.
Assentados uns, outros de pé e alguns ajoelhados, todos pareciam possuídos de mística exaltação.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - HERCULÂNUM / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 4 de 8 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum