O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

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O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 16, 2017 10:46 am

O resgate de uma vida
Eliana Machado Coelho

Pelo espírito Schellida

Índice
Capítulo 1 - Um casal exemplar
Capítulo 2 - Duas amigas
Capítulo 3 - A submissão de Valéria.
Capítulo 4 - A preocupação dos pais.
Capítulo 5 - Rute e Sofia: novas amigas.
Capítulo 6 - Uma conversa produtiva.
Capítulo 7 - O retorno de Valéria.
Capítulo 8 - A sabedoria de dona Leila.
Capítulo 9 - A mediunidade de Hélder.
Capítulo 10 - A dor da decepção
Capítulo 11 - O auxílio a Sofia
Capítulo 12 - O despertar de Valéria.
Capítulo 13 - Lei Maria da Penha
Capítulo 14 - Não basta oração, atitudes são necessárias.
Capítulo 15 - Sob efeito do álcool
Capítulo 16 - Pensamentos não vigiados, adoecem
Capítulo 17 - O passado bate à porta.
Capítulo 18 - Qual é o sentido da vida?
Capítulo 19 - União
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Ave sem Ninho

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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 16, 2017 10:46 am

Capítulo 1 - Um casal exemplar

04 de fevereiro. Manhã de segunda-feira.
Dia nublado e chuvoso. Véspera do feriado de carnaval.
Sofia olhava através das vidraças largas das portas, que davam para a sacada de seu apartamento.
Tinha uma vista muito privilegiada do Rio de Janeiro.
Via o mar agitado, revolvendo a espuma branca até as areias da praia, esticando-a bem perto da mureta.
A temperatura estava amena naquela hora.
Nem frio nem calor na cidade em que, normalmente, nessa época do ano, ficava abrasadora, com os termómetros em torno de 35° C.
Sofia pensava no quanto aquele lugar era bonito até mesmo nos dias nublados.
Ela adorava a Cidade Maravilhosa, onde já morava há vinte anos, desde os doze, quando chegou ali com seus pais e irmãos vindos do interior, de um município gracioso chamado Rio das Flores.
Dos cinco filhos de Ágata e Bernardo, era a terceira.
Exactamente a do meio.
Esperta e vivaz se adaptou rápido.
Fez amizades. Estudou e trabalhou sempre cheia de bom ânimo e perseverança.
Uma moça chamativa. Diferente.
Pouca estatura, pele clara, cabelos pretos e brilhosos, curtos e repicados, arrumados graciosamente.
Seus olhos castanhos escuros eram expressivos e vivos ao encarar alguém.
Lábios grossos e bem torneados, geralmente com batom que os destacavam e ressaltavam mais ainda seus dentes largos e muito alvos no belo sorriso.
Corpo esbelto.
Era cuidadosa com sua saúde.
Vegetariana. Não ingeria nada alcoólico nem fumava.
Ao completar vinte e cinco anos, após terminar o curso universitário, viu-se independente e decidiu ir morar sozinha, a contragosto de seus pais.
Arquitecta e decoradora de interiores, montou uma empresa junto com uma amiga.
No início foi difícil, mas Sofia era destemida.
Enfrentava os desafios e sempre criava ânimo para conseguir algo mais.
Agora, nessa fase da vida, ganhava muito bem.
Havia cerca de seis meses que comprou aquele belo apartamento no bairro nobre da cidade, onde sempre sonhou.
Pagou uma fortuna. Acabou com suas economias.
Precisou vender um terreno e seu outro apartamento, mas deu certo. Conseguiu.
Assim que o decorou conforme desejava, mudou-se.
Entretanto experimentou um vazio inexplicável.
Pensou que, ao ver seu sonho realizado, ela se sentiria a pessoa mais feliz do mundo. Porém, não.
Aquela aquisição foi um grande investimento e estava totalmente quitado.
Quando o comprou tinha em mente que, em caso de qualquer imprevisto ou que não gostasse ou ainda tivesse outra ideia, alugaria e teria um excelente rendimento.
O valor dos imóveis, naquela região da cidade, só crescia.
Só que um imprevisto aconteceu.
George, engenheiro civil, namorava Sofia há cerca de dois anos.
Ele convidou-a para que morassem juntos.
Apesar de ter gostado da proposta, surgiu uma dúvida em suas emoções.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 16, 2017 10:46 am

Um temor que não conseguia explicar.
Não bastasse aquela insatisfação, aquele vazio desde quando se mudou para aquele belo apartamento, agora experimentava uma incerteza, uma indecisão incompreensível.
Abrindo as portas de vidro, deu alguns passos e chegou ao peitoril da sacada.
Inclinou-se. Olhou para o lado de onde poderia, normalmente, contemplar o resto da cidade e deparou-se com uma paisagem nublada.
Nuvens espessas encobriam o monumento natural, pois a neblina se estendia na direcção da Avenida Niemeyer e perdia-se toda a visibilidade do morro.
Ela olhou para baixo e observou o fluxo de veículos na avenida Delfim Moreira e na avenida Vieira Souto.
Viu as pessoas que corriam ou caminhavam pelo calçadão, apesar do mau tempo.
Pensou na irmã que não gostava de chuva nem de trovões.
Sorriu.
Lembrou-se de quando era criança e ouvia seu pai dizer:
"Devemos respeitar a natureza e não temê-la, muito menos desafiá-la.
O medo existe tão somente em razão da ignorância.
Ele, o medo, não nos deixa buscar a verdade que nos fará superar os obstáculos e as limitações que nos escravizam.
Enquanto que o desrespeito nos exibe também como ignorantes, provocadores de tragédias difíceis de reparação.
O correto é se libertar da ignorância.
Assim viveremos em harmonia e paz.
Não tema nem reclame do tempo.
Aceite e respeite."
Era isso o que Bernardo dizia aos filhos e estava certo.
O correto na vida é respeitar as leis naturais que ordenam o Universo, a começar pela Natureza.
Quando estiver sol, sorria e agradeça.
Quando chover, sorria e agradeça. Não reclame.
São bênçãos de Deus que se fazem necessárias para a vida e para a evolução.
Reclamações geram um vício pernicioso, criador e mantedor de energias ruins.
O vento fez alguns borrifos de chuva salpicarem em seu rosto e Sofia entrou.
Ao observar que molharia a sala, tirou os chinelos e ficou descalça.
Sentou-se no sofá e achou que era cedo demais para ir até a casa de seus pais.
Havia sido convidada para almoçar.
Pegando o telefone, ligou para George, mesmo imaginando que o namorado estivesse dormindo.
- Acordei você? - riu ao ser atendida e ao perguntar.
- Não. Já estava acordado - ele respondeu com a voz rouca.
- Ah! Que pena!. - era assim que ela costumava brincar.
- E aí? O que vai fazer hoje?
- Preciso levar meu carro na auto-eléctrica.
Quero saber o que são aquelas luzes acesas no painel.
Não posso deixar para depois.
- Vou almoçar na casa dos meus pais.
Quer vir comigo?
Ele pensou um pouco e respondeu:
- Preciso dar uma passadinha lá na casa da minha mãe.
Ela está reclamando.
Disse que já faz um mês que não me vê.
- Tudo bem. Então à noite a gente se vê.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 16, 2017 10:47 am

- Não fica zangada comigo?
George quis saber e riu ao perguntar.
- Lógico que fico! - foi verdadeira, apesar de bem-humorada.
- Não posso fazer nada.
Você tem obrigações com sua família, mas à noite a gente sai. Tudo bem?
- Certo. Vamos a algum lugar?
- Lógico, George.
E é você quem vai escolher.
Ele riu. Gostava daquela forma extrovertida, sincera e espirituosa de Sofia brincar.
- Sabe, estou morrendo de vontade de ir caminhar na chuva - ela disse.
Olhei daqui de cima e vi algumas pessoas correndo, caminhando.
Deu uma vontade de ir até o Posto 11.
Ficaram conversando por mais algum tempo e ela acabou não indo caminhar.
* * *
Em outro bairro, Ágata, mãe de Sofia, bebericava no copo o mate frio enquanto olhava a chuva.
Sorriu ao ouvir o ronronar do trovão ao longe.
Lembrou-se de quando moravam no interior e experimentou uma ponta de saudade da vida no campo à medida que escutava o gotejar dos pingos de chuva na vidraça da janela da sala de estar.
Para ela, a cidade do Rio de Janeiro era verdadeiramente surpreendente.
Repleta de novidades.
Ainda não se sentia totalmente acostumada, embora já morasse ali há cerca de duas décadas, convencida pelo marido de que precisariam ir para um lugar melhor, mais promissor a fim de criar, ensinar, educar e orientar seus cinco filhos.
Mudaram-se repletos de perspectivas e um enorme temor.
Alex, o filho mais velho, tinha dezasseis anos, Hélder quatorze, Sofia doze, Valéria oito e Flávio seis.
Outro ronronar de trovão e ela sorriu.
Todas às vezes que chovia ficava na expectativa para ouvir o marido Bernardo dizer: Adoro chuva.
Quando moravam no interior, todas às vezes que, nas tardes quentes e ensolaradas, no céu reuniam aquelas nuvens brancas e fofas, com aquele acinzentado nas bordas, ela esperava o marido contemplar o céu, olhar para as montanhas, observar um pouquinho e dizer, sempre no mesmo tom:
vai chover. Adoro Chuva.
Não demorava e as nuvens fofas se uniam encobrindo o azul do céu.
Um vento quente soprava e, junto com ele, logo vinham os primeiros pingos grossos da tempestade de verão.
De repente, os rosnados dos trovões, os flashes dos raios e os estouros das descargas eléctricas que assustavam quando caíam bem próximas.
Em dias assim, sempre que estavam em casa, o marido gostava de ir para a varanda na frente da casa.
Isso quando a chuva não era soprada forte do sul.
Se assim fosse, a varanda era lavada e ninguém conseguia ficar lá, a não ser que quisesse se molhar.
Em outros dias, quando a chuva era normal, Bernardo aproveitava e deitava na rede que se esticava da parede até a coluna que sustentava as vigas onde o telhado se estendia de comprido com largo beiral do lado de fora da casa.
Das telhas vermelhas, as águas se derramavam como uma cortina, escorrendo até o chão.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 16, 2017 10:47 am

Ágata nunca perguntou o que pensava ou sentia.
Apreciava vê-lo ali, como um observador incansável, tranquilo, olhando a chuva enquanto se embalava suavemente na rede morosa.
Quantas e quantas vezes ele fez aquilo com um dos filhos pequenos estirado sobre o peito.
O barulho da chuva, o balançar lento da rede, o espalmar suave de sua mão carinhosa nas costinhas dos filhos só poderia trazer paz, confiança e tranquilidade aos pequenos.
Ágata sempre se sentiu confiante ao lado de Bernardo, que lhe ensinou muita coisa, principalmente a ser forte.
Sua vida sempre foi pacata.
Casou-se aos vinte e quatro anos de idade.
Quando completaram dezoito anos de casados, em uma tarde chuvosa do mês de janeiro, um tractor de esteira, que estava elevado para ser consertado, escorregou e caiu sobre Bernardo.
- Está nas mãos de Deus.
Não podemos dar esperanças.
Foram as palavras dolorosas ouvidas de um médico que não sabia como informar à família que, dentro de seus limites humanos, não poderia fazer mais nada por aquele homem ferido.
Ágata se viu desesperada.
Ele era tudo em sua vida e na vida dos filhos.
Bernardo era espírita e sempre lia os livros de Francisco Cândido Xavier para ela e para os filhos.
Embora Ágata, por sua vez, gostasse de ir à igreja de Santa Tereza Dávila, igreja da matriz na cidade de Rio das Flores onde Alberto Santos Dumont e sua irmã Sofia foram baptizados.
Nome no qual se inspirou para dar a sua primeira filha.
A igreja de estilo neogótico, com uma alta e bela torre pontiaguda, muito chamativa, tinha seu interior singelo, aconchegante e de abençoado sossego.
Foi em uma festa junina realizada por essa igreja que ela e o marido se conheceram.
Jovem, ela e as amigas ficavam observando os rapazes de longe e, entre risos e gracejos, as meninas logo repararam que Bernardo não tirava os olhos de Ágata.
Não demorou e, pelo correio elegante, que é um bilhetinho enviado por um colaborador da festa, o belo rapaz mandou um recadinho admirando a graciosidade de Ágata, fazendo-lhe elogios em versos harmoniosos e de bom gosto.
Em seguida, ele lhe ofereceu uma música anunciada nos alto-falantes da festa.
E ela mandou agradecer.
Após alguns bilhetinhos lisonjeiros, veio o pedido para se encontrarem na porta da igreja a fim de conversarem um pouco e se conhecerem.
Ágata, incentivada pelas amigas, aceitou.
Em meio as músicas típicas juninas, as luzes e os fogos de artifícios do evento, além do radialista, que falava constantemente nos alto-falantes, encontraram-se.
Quase não disseram nada um ao outro, pois os amigos de ambos, a certa distância, ficaram observando-os e deixando-os constrangidos.
Nos anos que se seguiram o casal ria muito daquele primeiro encontro e, sempre que surgia oportunidade, relembravam essa história entre os filhos e amigos.
E foi para essa igreja de Santa Tereza DÁvila, onde se casaram, que, dezoito anos depois, Ágata correu e, de joelhos aos pés do altar, orou, ardentemente, pela vida do esposo, logo após o acidente.
Com todas as forças de seu coração, pediu a Deus que Bernardo se recuperasse e continuasse ao seu lado e dos filhos.
Com o passar dos dias, o marido foi transferido para um hospital na cidade do Rio de Janeiro, onde seu estado de saúde ficou estável, embora preocupante.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 16, 2017 10:47 am

Ao sair do coma, Bernardo não se recordava muito bem dos últimos acontecimentos.
Dias se passaram para que o homem se lembrasse até do próprio nome.
A notícia mais triste foi de que ele precisaria de uma cadeira de rodas pelo resto da vida.
Para Bernardo, em vez de revolta, essa notícia gerou reflexão, apesar da tristeza.
Ágata, embora angustiada, agradeceu a Deus pelo companheiro permanecer ao seu lado e dos filhos e prometeu-lhe cumprir o juramento que fez no altar.
Retornando para casa, enquanto recuperava-se, o marido conversou muito com sua mulher ponderando a situação e a fez entender que, ali, em uma cidade do interior do Rio de Janeiro, o futuro para ele, naquele estado, era pouco promissor.
Além disso, precisavam pensar nos filhos.
O futuro dos meninos era algo bem importante.
Alex, o filho mais velho, estava quase terminando o colegial, o que corresponde ao Ensino Médio actualmente, e precisava pensar em fazer um bom curso universitário.
Agata, pessoa simples, nunca havia se imaginado vivendo no município do Rio de Janeiro.
Pensar naquela metrópole, às vezes assustava-a.
Hoje admitia ter feito isso por causa do marido que sempre cuidou e se preocupou com o bem-estar de todos, desejando um futuro melhor.
Ele acreditava que a cidade de Rio das Flores, por ser pequena, teria pouco para oferecer, e não poderia proporcionar muito a todos.
Embora tivessem alguns parentes ali, não poderiam ficar dependentes.
Eram donos de um sítio produtor de ovos com alguns poucos empregados e era Ágata quem tomava conta do negócio, enquanto o marido trabalhava pela região como mecânico de tractor, mas, agora, estava aposentado por invalidez.
Portuguesa, a família de Bernardo chegou à região por volta do século XIX, durante o Ciclo do Café, quando o lugar ainda era uma vila, a Freguesia de Santa Tereza de Valença, uma região rica pelas lavouras de café.
Teve sua estação ferroviária inaugurada em 1882, a Estrada de Ferro Rio das Flores.
Com o tempo, a Vila Freguesia de Santa Tereza de Valença, como outras regiões no Brasil, sofreu com a crise económica do Ciclo do Café e, logo em seguida, com a libertação dos escravos.
O êxodo rural foi inevitável.
E do café para a agro-pecuária foi somente um passo.
Em 1929, a Vila passou a ser município.
Nessa época, boa parte da família de Bernardo voltou para Portugal.
Só ficou seu pai e um irmão cuidando de uma fazenda dividida ao meio, tornando um sítio para cada um.
Ágata se lembrava muito de ouvir seu pai contar que foi em 1943, três anos antes de ela nascer, que o município passou a se chamar Rio das Flores, nome oriundo da estação ferroviária.
Após essa retrospectiva, a saudade gotejou em seus pensamentos.
Recordou o momento em que chegou com os filhos e com o marido para residirem definitivamente ali.
Bernardo passou a frequentar uma pequena casa espírita bem próxima de onde moravam.
Ela, apesar de ir à igreja católica, também o acompanhava ao centro.
Ágata suspirou fundo.
O barulho do ranger da porta lhe chamou a atenção.
Virou-se.
Abaixou o olhar, que antes vislumbrava o céu através da janela, e sorriu para Bernardo que, com os óculos na ponta do nariz, abaixava o queixo, olhando por cima das lentes para vê-la melhor.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 16, 2017 10:47 am

Ele girou as rodas de sua cadeira e foi à direcção de Ágata.
Encurtando o caminho, indo até ele, a mulher o beijou de relance nos lábios e entregou-lhe, nas mãos, o copo com chá mate frio.
Ele aceitou e sorriu.
Sem demora, comentou:
- Está chovendo. Adoro chuva - e ficou olhando a água caindo através da janela.
- Vai querer ficar lá fora, na área, olhando a chuva?
- Agora não.
Tô sentindo cheiro de bolo! - riu.
O riso da mulher ecoou cristalino.
Então, enquanto empurrava a cadeira, disse:
- Vamos pra cozinha salvar um pedaço pra você, pois os meninos ainda não levantaram e se chegarem até o bolo antes de você.
- Em plena segunda-feira e estão dormindo até essa hora?! - brincou ele.
- É segunda-feira de carnaval!
É feriado e ninguém trabalha hoje.
- Não. O carnaval é amanhã, terça-feira.
Hoje é dia de pegar no batente! - riu e brincou.
A mulher continuou rindo.
Gostava de vê-lo brincar daquele jeito.
Chegando à cozinha, ela posicionou a cadeira de rodas no lugar à mesa, que sempre ficava reservado ao marido, e se virou para preparar um café.
Pegou a jarra de vidro, colocou água e preparou a cafeteira.
- Faça um café fraco, meu bem.
Por favor - ele pediu com jeitinho.
- Pode deixar.
Um momento e ela falou:
- O Alex ligou cedo.
Disse que mais tarde passa aqui.
- Ele vem para o almoço?
- Não disse nada.
Mas acho que vem - disse Ágata, acomodando-se à mesa frente ao marido.
- Cade o bolo? - ele perguntou de um jeito engraçado.
- Deixa o café ficar pronto.
Ágata estendeu as mãos sobre a mesa e balançou as pontas dos dedos em direcção ao marido, como se pedisse para pegar as suas.
Bernardo apanhou-as, apertando-as de um jeito a exibir carinho e a esposa comentou:
- Eu estava lembrando de quando a gente veio para cá.
Às vezes, ainda sinto saudade da minha casa antiga, dos bichos no quintal, do sítio, da granja.
- As mudanças são necessárias e, muitas vezes, para isso, é preciso deixar um lugar, mudar de vida, desapegar.
Falando em mudar.
E a Sofia? - referiu-se à filha.
- Também disse que vai dar uma passadinha aqui.
- Vou conversar com ela - falou em tom de preocupação.
O barulho de água borbulhando no final da evaporação, provocada pela cafeteira, indicou que o café estava pronto.
Ágata soltou das mãos de Bernardo, levantou-se, lavou a garrafa térmica, que estava com café das primeiras horas do dia, e colocou o outro fresquinho.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 16, 2017 10:48 am

Apanhou as xícaras, pratos e talheres e ajeitou tudo na mesa, colocando entre eles o bolo que havia preparado.
Bernardo pegou a faca e cortou um pedaço, servindo-se.
Nesse instante, Valéria, a outra filha do casal, ainda de pijama, chegou à cozinha.
- Bom dia - disse sem animação.
- Bom dia! - cumprimentou o pai, observando-a.
- Bom dia, filha!
Dormiu bem? - indagou a mãe.
- É. Dormi. - respondeu visivelmente mal-humorada, puxando uma cadeira e se sentando.
Colocando os cotovelos sobre a mesa, esfregou o rosto com as mãos, de um jeito forte, como se quisesse amassá-lo.
- Quer um suco, Valéria? - perguntou a mãe, sempre prestativa e querendo agradar.
- É. Pode ser - tornou com a voz rouca e preguiçosa, torcendo o rosto e envergando a boca ao dar um suspiro.
- Como andam as coisas no serviço, filha? - quis saber o pai.
- A mesma droga de sempre.
Muito serviço, pouco dinheiro e pouca folga.
- Valéria, agradeça a Deus por estar empregada.
Não fale desse jeito - orientou Ágata de forma simples enquanto pegava algumas laranjas e colocava no balcão ao lado da pia para espremê-las.
- É que tá uma droga, mesmo!
Ali só tem gente invejosa e fofoqueira!
- Nós atraímos para junto de nós sempre as companhias que se afinam connosco - disse o pai.
- Lá vem o senhor com o mesmo papo - resmungou e calou-se.
A mãe colocou o copo de suco a sua frente e também a xícara com pires e os talheres para que se servisse.
Após beber o suco, Valéria cortou um pedaço de bolo e se serviu.
Estava puro desânimo e emburrada.
Nos últimos tempos, enervava-se por qualquer motivo.
Via defeito em tudo e parecia, de alguma forma, querer reclamar ou brigar, seja pelo que fosse.
Não demorou muito e Flávio chegou à cozinha.
- Bom dia! - cumprimentou mais animado do que a irmã.
- Bom dia! - pai e mãe responderam juntos no mesmo tom.
- Quer que te faça um suco, filho?
- Não, mãe. Obrigado.
Vou tomar um café com leite. Tem pão?
- Tem. E tem o queijo que você gosta - tornou a senhora.
Virando-se para a irmã, perguntou com simplicidade:
- E aí? Achou o fone?
- Não. Você vai ter que me dar outro! Novinho!
- Mas não fui eu que peguei.
Você deve ter perdido e...
- Fone de ouvido? - indagou o pai, interrompendo-os.
- É! O Flávio perdeu o meu!
- Perdi nada!
Nem vi esses fones.
- Eu achei um, ali, no sofá.
Estava enfiado no vão entre o assento e o braço.
Coloquei lá em cima da mesa da sala.
Não sabia de quem era.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 16, 2017 10:48 am

- Tá vendo?!
Você deve ter deixado lá e ficou me culpando! - defendeu-se o irmão.
- Vá se danar!
- Olha!!! O que é isso, Valéria?!
Veja como fala! - zangou-se Ágata de imediato.
- E a senhora ainda fica protegendo ele! - exclamou Valéria, levantando-se irritada e arrastando a cadeira com jeito bruto, virando-se, saiu do recinto.
Havia bebido poucos goles de suco deixando todo o restante do desjejum sem tocar.
O pai a seguiu com olhar reprovador, mas não disse nada.
- Eu, hein! - reclamou Flávio de boca cheia.
- Não sei o que deu nessa menina.
Vive nervosinha - disse a mãe.
- É falta de umas boas chineladas - comentou Flávio que depois riu.
- Não fale assim, filho.
A Valéria deve estar com algum problema para ficar irritada desse jeito.
- Então ela sempre está com problemas, mãe.
Porque sempre está irritada.
Mais alguns minutos e Bernardo acabou de tomar o último gole de café que havia na xícara.
Colocou o último pedaço de bolo na boca e, enquanto mastigava, manobrou a cadeira de rodas para se afastar da mesa e sair da cozinha.
Ágata o observou com o canto dos olhos e nada perguntou.
Sabia o que ele iria fazer.
Seguindo pelo corredor, o pai parou frente à porta do quarto da filha e deu três batidas rápidas, perguntando a seguir:
- Posso entrar?
- Pode - respondeu a voz com um tom de contrariedade.
Ele entrou e observou a filha sentada na cama tentando desmanchar o emaranhado que havia no fio dos fones de ouvido que, antes, pegou sobre a mesa da sala.
Correndo o olhar pelo quarto, o senhor não deixou de observar as portas dos armários abertas e as prateleiras com roupas postas de qualquer jeito.
Gavetas abertas, exibiam peças enroladas e fora do lugar, como se estivessem reviradas.
Sobre a cama, onde Valéria estava sentada, mais roupas jogadas.
- E então?.
- E então, o quê? - ela perguntou sem encará-lo.
- O que foi aquilo lá na cozinha, agora há pouco?
- Tô de saco cheio! Foi isso!
- Por quê? - indagou o pai em tom tranquilo.
- Ah!. Sei lá.
Vendo-a com uma irritação que chegava a ser percebida pelos movimentos frenéticos das mãos ao mexer nos fios, ele pediu:
- Deixe-me tentar.
- Toma - e entregou-lhe de modo abrupto.
Enquanto procurava ver uma forma de desmanchar o emaranhado, Bernardo perguntou:
- Por que está irritada, nervosa desse jeito?
Você não era assim.
- Não sei. Parece que tudo me irrita.
- Não são as pessoas ou as situações que nos irritam.
Somos nós que nos permitimos irritar com as situações e as pessoas.
Ninguém pode fazer connosco aquilo que não deixamos.
- Ah, pai.
Não é bem assim não.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 16, 2017 10:48 am

- Eu já disse várias vezes a você, Valéria.
Procure viver diferente.
Cultive a paz.
Nós sofremos as consequências dos sentimentos que abrigamos no coração.
Tudo o que fazemos e sentimos repercute em nossa vida.
O pai observou e pediu:
- Olhe a sua volta. Olhe para você.
Olhe para o seu quarto.
Tudo isso representa o que você tem por dentro.
Pensamentos e atitudes incorrectos, inadequados com seu nível de elevação geram bagunça por dentro e por fora também.
Como se diz, assim como é por dentro é por fora.
Você sabe disso.
- O senhor está reclamando da bagunça do meu armário?
- Não tenho nada com isso.
Essa bagunça incomoda a você mesma.
Ela representa você.
A filha nada respondeu nos primeiros minutos e o senhor não disse mais nada.
Sabia que, se muito falasse, não seria ouvido.
Valéria precisaria pensar, reflectir no que ele havia dito.
Alguns minutos e ela tornou mais calma.
Na verdade, desanimada.
- Sabe o que é?.
Não tenho muito ânimo para fazer as coisas nos últimos tempos.
- As pessoas de êxito, que obtêm resultados felizes ou satisfatórios, realizam o que é preciso sem esperar pelo ânimo.
Elas, normalmente, saem fazendo as coisas.
Muitas vezes, se esperarmos pelo ânimo, nunca realizaremos nada.
Breve pausa e estendeu-lhe a mão com os fios dos fones de ouvido totalmente desembaraçados, dizendo:
- Toma, filha.
Valéria ergueu o olhar, estendeu o braço e pegou-os.
- É que não sei o que me dá.
Tem hora que tem tanta coisa para fazer.
Acho que deixar as coisas em ordem não tem fim.
O trabalho não acaba nunca.
- Você tem razão. Trabalho não acaba nunca.
Porém, quando deixamos as tarefas acumularem, tudo fica ainda pior.
Sabe, filha, você tem que reflectir sobre o que é que precisa ser melhorado, dentro de você, para que seu exterior tenha o mesmo reflexo agradável.
- Como assim?
- Talvez você venha fazendo ou deixou acontecer algo que não está de acordo com os seus princípios.
É bem provável que isso a incomode moral ou espiritualmente.
Daí que não se sente bem e se irrita, descontando em outras coisas ou nas pessoas, inclusive nas pessoas que te amam.
- Eu não desconto em ninguém - falou em tom moderado, parecendo envergonhada.
- Desconta nas pessoas quando briga com seus irmãos ou com sua mãe ou comigo.
Desconta nas coisas quando precisa dar atenção a algo e nega. Não faz.
É o caso do seu quarto desarrumado, do seu serviço que tanto reclama, dos colegas com quem não se dá bem.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 16, 2017 10:48 am

Breve pausa e comentou:
- Hoje eu reparei que sua mãe estava bem disposta de manhã, como sempre está.
Ela se prontificou para fazer um suco, levantou-se da mesa e deixou de tomar café junto comigo para espremer laranja e você ficou com aquele mau humor, de cara feia.
Nem mesmo agradeceu quando ela lhe deu o suco, colocou xícara e pires, talheres e prato para que comesse o bolo.
Sua mãe merecia, pelo menos, que dissesse: obrigada, mãe.
Não tinha que se preocupar porque, de verdade, ela não tinha de se preocupar mesmo.
Você e seus irmãos são bem grandinhos e podem se virar muito bem com as refeições.
Até eu, que sou cadeirante, sei me virar.
- E o que faço para melhorar?
- Comece arrumando o mais próximo.
Comece pelo começo.
Cuidando de você, de sua aparência, da sua alimentação, das suas palavras.
Quando queremos mudar, devemos ir fundo.
Comece arrumando e corrigindo os próprios pensamentos e a linguagem.
Eles saem de você.
O pai parou, reflectiu um pouquinho, sorriu, generosamente, e ainda disse:
- Comece respirando fundo e pensando antes de responder de forma ofensiva às pessoas mais próximas de você.
Melhore, não só as palavras, mas também a maneira de falar.
O senhor ofereceu um tempo para que Valéria assimilasse a ideia, depois completou:
- Sabe filha, já vi muita gente dizendo:
Ah! Minha família não me entende!
Meus irmãos não falam comigo!
Ninguém colabora comigo.
Daí eu pergunto:
Será que essa pessoa, em alguns momentos, não deixou de entender e ouvir sua família?
Com certeza essa pessoa se distanciou.
Não colaborou não ajudou e agora só recebe de volta o que ofereceu.
O mesmo acontece com os amigos que nos rodeiam.
É comum nós nos afastarmos dos outros ou oferecer atitudes, palavras e comentários não agradáveis que fazem com que os outros se afastem de nós e, depois, nos queixamos da distância que mantêm de nós.
Precisamos, antes, observar se não é nossa atitude que, de alguma forma, agride, desagrada, maltrata, magoa os outros.
Consequentemente, a resposta que obtemos nos deixa tristes, irritados e insatisfeitos.
O pai conversava com volume baixo na voz macia.
Falava de uma forma generosa, pois sabia que o modo brando de verbalizar é sempre agradável, passando pelos órgãos auditivos sem agredi-los, indo directo à consciência e à razão, gerando bons pensamentos e equilibrando a reflexão.
Valéria deu um suspiro e meio sorriso e o pai desfechou:
- Pense nisso.
Comece amimando tudo o que estiver mais próximo.
Comece por você. Por dentro.
Toda limpeza e arrumação são melhores quando feitas de cima para baixo, de dentro para fora.
Vendo-a, ainda em silêncio, ele esboçou um sorriso e a deixou sozinha.
Bernardo tinha toda razão.
O nosso interior é simbolizado em nosso exterior pelas coisas que fazemos ou não, pelo que acumulamos a nossa volta, escolhemos para ouvir, comer, cheirar.
Tudo nos representa.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 16, 2017 10:48 am

Capítulo 2 - Duas amigas

Alguns meses antes.
Valéria, formada em Direito, trabalhava em uma grande empresa, no departamento jurídico, havia alguns anos.
Era dona de muita perspicácia para lidar com tudo naquela organização.
Conhecia tudo e todos e era benquista.
Muito amiga de Rute. Viviam sempre juntas.
Certo dia, logo após voltarem do almoço, Valéria estava sentada a sua mesa e a amiga se aproximou comentando:
- O Dr. Honório vai se aposentar.
Estou cuidando da documentação dele.
Agora é para valer.
- Cá para nós, já não era sem tempo.
Ele já poderia curtir uma aposentadoria, viajando e passeando com a esposa.
Conhecendo lugares.
Tem que aposentar para curtir a vida enquanto tem saúde física, mental, disposição e ânimo.
Ele até que poderia só prestar algumas consultorias, mas. - opinou Valéria.
- Concordo. - Rute pensou um pouquinho e perguntou:
- Quem será que vai ficar no lugar dele, hein?
- O Dr. Alberto, claro - tornou a outra em tom de ironia ao levantar as sobrancelhas para se expressar.
- É bem provável que sim. Mas, quem será que vai nos coordenar no lugar do Dr. Alberto, se ele for para a directoria?
Valéria não conseguiu segurar o sorriso, por mais que tentasse, quando começou a avaliar, mentalmente, um por um de sua seção.
Ela era a mais antiga ali.
Desde seu período de estágio, que conquistou superando outros candidatos, foi muito prestativa e eficiente em tudo o que fazia.
Ao término da faculdade de Direito, estava empregada.
Sempre um passo a frente.
Fosse em qual tarefa fosse.
Eram comuns os elogios por suas realizações bem feitas.
Orgulhava-se disso.
Uma ponta de ansiedade, mista a um sabor de alegria, varou-lhe o peito e se exibiu no sorriso largo.
- Você bem que merece a promoção - disse Rute, sorrindo junto.
- Bom demais para ser verdade.
- Ora, por que não?!
E sem aguardar por uma resposta, prosseguiu:
- Sem dúvidas você é a mais competente aqui na seção.
Tem anos de empresa. Conhece tudo.
Será você, Valéria! - sorriu satisfeita.
- Não gosto de pensar em coisas que não aconteceram.
Não gosto de criar expectativas.
Se não der certo, fico decepcionada.
Além disso, tem o Everton.
Ele está aqui quase o mesmo tempo que eu e conhece tudo também.
- O Everton não é tão competente quanto você! - foi directa.
Ora! Não queira comparar-se ao sujeito!
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 16, 2017 10:49 am

Valéria se virou com discrição e correu o olhar para a mesa do colega, que ficava em outra sala de divisórias de vidro com persianas.
- Ai! Não quero ficar animada, Rute.
Deixe-me trabalhar.
Tenho que preparar essa petição para semana passada - riu de si mesma.
- Saindo daqui hoje, vamos àquele barzinho lá na Tijuca?
- Acho que vou, mas vou sair daqui tarde.
Jurei que hoje não saio daqui antes de terminar essa petição! - Rute interrompeu a colega, brincando.
Ela a conhecia bem e sabia o quanto a outra era dedicada.
Rindo, a amiga deu as costas e foi falando pausadamente, antes de sair da sala:
- Valéria, Valéria!
Acabe com o serviço ou o serviço acaba com você!
A outra sorriu e voltou ao que estava fazendo.
* * *
Antes do final do expediente, Valéria se serviu de um café e foi até as janelas da copa de onde podia observar a rua.
Estava um calor impressionante.
Tinha ouvido, no noticiário, que a temperatura, naquele dia, havia passado dos 43° Celsius, quase 44°.
Embora ajudasse, o ar condicionado parecia não dar conta do calor.
Mesmo assim, Valéria não abria mão do café expresso, enquanto a maioria optava por água, sucos ou chá gelado.
Olhando através da vidraça, observava o vaivém de algumas poucas pessoas que se atreviam a andar sob o sol que ainda brilhava firme e forte.
Ela estava acostumada ao calor.
Adorava o sol e, sempre que podia, com os devidos cuidados, apreciava se deitar na esteira sobre a areia da praia.
Valéria era uma moça bem bonita e chamativa.
Cabelos castanhos claros, compridos e que ficavam mais claros pelas luzes artificiais.
Viviam escovados, com movimentos soltos nas ondas largas que chamavam a atenção com o balançar natural.
Lábios finos, bem delicados com a cor suave de um batom discreto.
Olhos verdes, expressivos nos longos cílios curvos.
Magra, corpo bem torneado, a custa de exercícios na academia ou corrida no calçadão da praia, quando podia, além de uma alimentação saudável, que fazia questão de manter.
Gostava de se bronzear, porém era cautelosa e tomava os melhores cuidados com sua pele.
- O que será que tem de tão importante lá em baixo na rua?
- Ai! Que susto, Everton! - exclamou Valéria levando a mão ao peito. Logo sorriu.
- Desculpe-me.
Não quis assustá-la - tornou ele que achou graça, mas não deu importância.
Indo até o refrigerador, o rapaz o abriu e pegou uma jarra com suco e levou até a pia.
Pegando um copo no armário, serviu-se e guardou a jarra no mesmo lugar.
Ao procurar por Valéria com o olhar, viu-a sentada à mesa rodeando a xícara de café, perdendo o olhar em ponto algum.
Sobre a geladeira, Everton pegou um pote de vidro em que havia alguns biscoitos e o colocou sobre a mesa.
Puxando uma cadeira, sentou-se e, abrindo o pote, ofereceu biscoitos a Valéria:
- Aceita?
- Não. Obrigada.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 16, 2017 10:49 am

O rapaz começou a se servir.
Não se contendo, ela perguntou:
- Você sabia que o Dr. Honório vai se aposentar?
- Não - negou, mesmo sabendo a verdade.
Vai mesmo? Ele já disse isso antes. Lembra?
- Lembro, sim. Mas agora parece que é para valer.
A Rute está cuidando da documentação. Em pouco tempo.
Breve pausa e comentou:
- Admiro tanto o Dr. Honório!
Uma lucidez e disponibilidade impressionantes!
- Certamente o Dr. Alberto vai sair da nossa seção para assumir o cargo na directoria.
Você não acha? - Everton perguntou.
- Não sei. Penso que sim.
Ele é o mais preparado - Valéria opinou.
- E para nos coordenar?. - ele perguntou de modo astucioso, com certa malícia.
- Pode ser qualquer um de nós.
Todos somos competentes. Ou, talvez, venha gente de fora.
- Não! Não fariam isso com a gente! - ele se expressou surpreso, até pareceu indignado.
Seria um absurdo se fizessem isso.
- Precisamos nos preparar para tudo.
Não acha? - tornou ela, sorrindo.
Everton ficou pensativo.
Sabia que, pela capacidade, Valéria certamente era a mais indicada para assumir a chefia da seção.
Entretanto, naquele momento, começou a passar por suas ideias a possibilidade de ele ser o indicado. Por que não?
No minuto seguinte, o rapaz, aparentemente, mudou de opinião:
- É verdade. Acho que você tem razão.
Tudo pode acontecer.
Vamos nos preparar e aguardar.
Observando-a bem, comentou, mudando o clima da conversa:
- Você está muito bonita e elegante.
Fica bem de bege.
- Obrigada - ela sorriu ao agradecer, embora soubesse que seu tailleur não fosse da cor bege, e sim da cor marfim, mas não iria corrigi-lo.
Seria indelicado. Ela era muito sensata.
Sabia que homens não são muito atentos a detalhes específicos como os de cores, por exemplo.
Valéria se levantou e colocou a xícara com o pires na pia.
Nesse momento, Everton perguntou:
- O que vai fazer hoje, depois do expediente?
- Combinei com a Rute de irmos a um barzinho, lá na Tijuca.
Está tão calor.
- Eu ia te convidar para isso.
Quer ir a um barzinho? Sei lá, jogar conversa fora.
Valéria pensou um pouco, depois decidiu:
- Por que não vem com a gente?
- Posso mesmo?! - sorriu satisfeito.
- Claro! Vamos sim!
- Quando estiver pronta é só me chamar - alegrou-se ele, levantando-se.
- Está bem! - virou-se e foi para sua sala.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 16, 2017 10:49 am

* * *
No início daquela noite quente de sexta-feira, Rute, Valéria e Everton se reuniram em uma mesa que ficava na calçada larga no bairro da Tijuca.
Era uma rua bem movimentada com aquele tipo de comércio.
No fundo do bar, um conjunto tocava música ao vivo, tipo bossa nova, que podia ser ouvida lá fora, em volume baixo e agradável aos clientes.
Everton havia pedido ao garçom de avental preto que trouxesse um calço para a mesa que estava balançando.
Não podiam mais trocar de mesa.
O lugar estava cheio.
O rapaz, bem simpático e educado, atendeu ao pedido, depois trouxe os três chopes com uma porção de azeitonas verdes.
- Eu quero uma porção de fritas! - Ligeira, Rute pediu antes que o moço se afastasse novamente.
Everton ergueu o copo e propôs um brinde:
- À sexta-feira!!!
- Uhull! A sexta-feira!!! - concordou Rute ao tinir dos copos batendo.
Valéria só encostou o copo e sorriu.
Estava mentalmente cansada.
Na verdade, preferiria ter ido embora para casa.
O dia tinha sido bem movimentado.
O assunto sobre serviço foi inevitável até que Rute olhou de relance para alguém, que passava perto, e chamou:
- Luciana!
A moça olhou e ficou animada ao sorrir.
Aproximando-se, cumprimentou com beijos no rosto e disse:
- Nossa! Tá tão cheio hoje.
Não tem nenhuma mesa nem lá dentro.
Rute olhou para Everton e em seguida para Valéria que, com o olhar e o discreto balançar de ombros, concordaram que a outra ficasse ali com eles.
- Senta aí com a gente - Rute convidou.
- Estou com aquelas duas ali - apontou. - Amigas minhas.
- Pedimos mais uma cadeira para o garçom.
Não tem problema - propôs Everton.
Luciana se animou e sorriu, chamando as amigas para se juntarem a eles.
Já ajeitadas à mesa, o garçom os serviu novamente e uma conversa entre Luciana e Rute se iniciou paralelamente.
Havia muitas novidades, pois as amigas não se viam havia algum tempo.
Aproveitando a oportunidade, Everton se aproximou mais de Valéria e começou a conversar.
- Terminou o que precisava no serviço?
- Terminei - ela sorriu largamente.
E já fechei os memorandos também.
- Tem serviço simples que acaba se complicando, não é mesmo?
- Verdade.
- Sabe, fiquei pensando muito sobre a saída do Dr. Alberto - tornou ele.
- Eu não. Nem lembrei mais disso - ela confessou.
- Quem será que vai ocupar o lugar dele? - ele perguntou como se não a tivesse ouvido.
- Você é um candidato - ela sorriu mais ainda.
- Ora. O que é isso?
E a conversa seguiu.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 17, 2017 10:56 am

Já passava da uma hora da manhã quando saíram do bar e Rute ofereceu:
- Eu te levo, Valéria.
- Não! De jeito algum.
Pode deixar que eu a levo - afirmou Everton convicto.
- Já que estão a fim de dar carona, podem me levar em casa - brincou Luciana.
- Gente! Não briguem por minha causa.
Vou de táxi - afirmou Valéria, brincando.
- De jeito algum! - tornou o rapaz, tocando-a nas costas para conduzi-la para que saíssem.
E foi feito dessa forma.
Everton levou Valéria em casa e Rute, as outras amigas.
* * *
Na semana que se iniciou, as amigas conversaram e Valéria contou:
- Ele me deixou em casa. Rolou um carinho. Um beijo.
No sábado à tarde, ele me ligou e ontem pegamos um cinema.
- Como assim?!
Tão rápido?! - admirou-se Rute.
- Nem sei explicar.
Estamos nos conhecendo.
Sabe como é, né?
A partir de então, um romance se iniciou entre Valéria e Everton.
Com o passar do tempo, Valéria se viu muito ligada a ele, mas a amiga contestava.
- Não acha que está muito dependente do Everton, não?
Nunca mais saímos.
Você sempre precisa conversar com ele sobre o que vai fazer ou não.
Valéria não gostou, mas procurou ver o lado da amiga e justificou:
- É que a gente está namorando firme.
Gosto de falar pra ele o que vou fazer.
- Já conhece a família dele?
- Ainda não.
- Levou o Everton a sua casa?
- Não. Ele acha que não é o momento.
- Ai, Valéria. Qual é?
Desculpe-me por ser tão sincera, mas eu posso falar porque sou sua amiga.
Que namoro firme é esse que um não conhece a família do outro?
A outra ficou pensativa, depois confessou:
- Sabe, Rute, isso às vezes me incomoda.
Estamos sempre juntos, mas quando o assunto é conhecer a família.
Mas acho que no começo é assim mesmo.
- Não sei não.
Sabemos muito pouco sobre o Everton.
Valéria ficou calada.
Isso a incomodava em demasia.
* **
Algum tempo depois, e para a surpresa de todos, Everton foi indicado a assumir a chefia da secção, cargo que todos esperavam fosse ocupado por Valéria que, aparentemente, não se incomodou e disse já esperar por tal resultado, pois o julgava capaz.
Por intermédio de outros conhecidos, Rute ficou sabendo que Everton havia manipulado, de algum modo, para que Valéria não fosse a indicada.
Segundo os comentários, ele passou a dizer que todos os trabalhos apresentados por ela passavam antes por suas mãos, por isso a advogada exibia tanta eficiência.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 17, 2017 10:57 am

Apesar de ver seu rosto marcado por uma expressão preocupante, Rute se surpreendeu por Valéria não acreditar, quando tentou avisar a amiga.
- Mentira!
- Pode ser, mas é o que se comenta.
- Não basta ser gente mesquinha e ignorante!
São mesmo invejosos, que não querem ver a felicidade de ninguém.
- Só comentei o que eu soube.
Não me inclua nesse pacote! - defendeu-se Rute.
Magoada, Valéria não disse mais nada.
Entretanto passou a adoptar um comportamento diferente:
quieto, sério e calado.
Quando conversava, era sobre serviço.
Até com sua melhor amiga passou a ser mais reservada.
Aos poucos, afastou-se até de Rute.
Entre Valéria e Everton havia um relacionamento restrito, em que outros não participavam.
Ele não conhecia a família da moça.
Ela, por sua vez, não sabia muito sobre os familiares dele.
Valéria passou a ser misteriosa e, quando saía com Everton, nunca dizia a ninguém onde iam ou onde estiveram.
Por mais que a mãe perguntasse, ela dissimulava.
Falava que saía com as amigas, mudava de assunto ou se irritava encerrando a conversa a fim de não dar satisfações sobre o que fazia.
Com o tempo, esse isolamento começou a interferir em sua personalidade e, consequentemente, em seu serviço, que passou a não ter a mesma qualidade de antes.
Talvez, pela falta de comunicação com os colegas, misto a sua vibração de contrariedade.
O relacionamento com Everton continuava restrito. Só os dois.
Com o passar dos dias, Valéria começou a fazer as primeiras cobranças quanto a ser apresentada à família do rapaz e ele a sua.
- Sabe o que é?.
Não conheço sua mãe nem sua família e...
- Conhece meu irmão.
- Não é o suficiente, Everton!
Somos sempre só nós dois!
Nem sempre estamos em público.
Vivemos socados aqui neste apartamento.
Chamo você para ir a minha casa e não quer.
Peço pra sair um pouco e nada.
Puxa vida! Estou cansada.
- É que me sinto tão exausto, amor - comentou com jeito meigo, afagando-lhe o rosto e enlaçando-lhe uma mecha de cabelo atrás da orelha.
Vivo stressado, cansado mentalmente, desde que assumi o novo cargo.
Você sabe, não me dão sossego lá na empresa.
Às vezes, acho que o Dr. Alberto está de marcação pra cima de mim.
Um momento e falou:
- Quando saio dali, não quero saber de mais nada.
E quando estou com você, sinto uma coisa tão boa que não quero mais ninguém para me atrapalhar.
Por isso não gosto de sair.
Não quero ir pro interior ver minha família.
- Mas, e a minha? É tão perto!
Quando vai aceitar ir a minha casa?
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 17, 2017 10:57 am

- Nas férias. Deixe-me tirar umas férias - e beijou-a na testa, com carinho, puxando-a para si.
Valéria se deixava conduzir.
Entretanto, quando estava sozinha, analisando a situação, observava sempre as mesmas desculpas e não via como poderia convencer Everton a um compromisso mais aparente perante os outros.
Na empresa, não queria comentar sobre o namoro pelo facto de ele ser seu chefe.
Ela não sabia o que fazer.
Gostava de Everton, mas sabia que o jeito que ele tinha para encarar o namoro não era normal.
* * *
Certa manhã, Valéria acordou com o celular tocando.
Olhou o relógio: 5h30min.
Pegou o aparelho e viu, no visor, que se tratava de Everton.
Para ele telefonar aquela hora, algo bem sério tinha acontecido.
Preocupada, atendeu ligeira:
- Oi, amor. Tudo bem?
- Não. Nada bem - ele murmurou.
- O que foi? O que aconteceu?
- Meu pai faleceu.
Valéria não sabia o que dizer.
Não estava preparada para aquela situação.
Como frase decorada, disse:
- Sinto muito. Como você está?
- Preocupado com minha mãe.
Preciso ir para Três Rios - referiu-se à cidade onde sua família morava.
Meu irmão foi quem ligou do hospital.
Não vou trabalhar. Depois, de lá, ligo pro Dr. Alberto e conto tudo.
- Quer que eu vá com você?
Posso fazer uma mala em dois minutos.
- Valéria, você sabe que não vai dar.
Como vai se justificar no serviço ou em casa?
Só estou avisando para saber por que eu vou faltar.
- Está certo. Tudo bem.
- Eu telefono quando chegar.
A gente vai se falando.
- Tudo bem. Boa viagem.
- Obrigado. Beijo. Te amo.
- Beijo. Também amo você.
Despediram-se.
Valéria desligou, mas não conseguia pegar no sono.
Levantou-se. Estava um calor incrível aquela hora da manhã.
Tomou um banho demorado e se trocou.
Não parava de pensar no assunto, embora nem tenha conversado tanto com ele.
Após o desjejum, foi para a empresa.
Nas primeiras horas do início do expediente, Rute soube do motivo da ausência de Everton e procurou a amiga para conversar.
- E aí? Tudo bem?
- Tudo. E você?
- Tudo. Eu soube da morte do pai do Everton.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 17, 2017 10:57 am

- É, menina. Você viu?
Ele me ligou, cedinho, avisando.
- Coitado. Sabe dizer se o homem estava doente?
Nesse instante, Valéria se deu conta de que não sabia qual era a causa da morte.
Não havia perguntado e ele não comentou.
- Rute do céu!
Eu acordei tão assustada com o celular tocando que até esqueci de perguntar sobre o que foi que o pai dele morreu! - sobressaltou-se com o que fez.
- É assim mesmo. Te pegou de surpresa.
E o Everton, como está?
- Na verdade, ele pareceu bem conformado.
Estava preocupado com a mãe. Como ela estava.
- Preparado ou não para a morte de alguém, as pessoas que ficam sempre sofrem.
- É verdade - concordou Valéria.
- Vem almoçar comigo hoje? - convidou Rute, sorrindo para a outra.
Sem pensar muito, Valéria concordou.
Há tempos não almoçava com a amiga.
- Vou sim.
- Passo aqui.
Até mais - saiu de perto, sem olhar para trás.
- Até mais - ficou satisfeita.
* * *
Durante o almoço.
- Liguei para o Everton.
- Ah!. E aí? - quis saber Rute, curiosa.
- Ele já havia chegado.
Então perguntei do que o pai dele morreu.
Tive que pedir desculpas, pois estava meio dormindo quando conversamos às cinco e meia da manhã.
- E do que o homem morreu?
- Diabete, pressão alta.
Disseram que a diabete estava com o nível muito elevado.
Por mais que a mulher dele pegasse no pé, ele abusava.
Até que entrou em coma por conta da diabete alta e não aguentou.
- Essa doença é silenciosa e perigosa demais.
- Por isso é sempre importante manter os exames de sangue de rotina em dia. Nunca se sabe.
- É mesmo.
Depois de algum tempo, Rute perguntou:
- E vocês dois? Como estão?
Lentamente, o sorriso suave que Valéria esboçava foi se desfazendo à medida que ela ficava mais reflexiva na pergunta feita pela outra.
Embora considerasse muito Rute, fazia algum tempo que não conversavam a respeito de assuntos tão pessoais, íntimos.
Nos últimos tempos, Valéria se sentia angustiada e nem sabia explicar direito a razão.
Pensou um pouco, enquanto tomava um gole de água.
Secou os lábios com o guardanapo que sobrepôs novamente à mesa, soltou leve suspiro e respondeu:
- As vezes, é difícil de falar sobre como estamos.
Nós nos damos bem. Mas tem hora que.
Acho que vivemos muito isolados das outras pessoas.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 17, 2017 10:57 am

Sempre somos só nós dois.
Não saímos com amigos.
Um não conhece a família do outro.
No serviço, então. - calou-se, não terminou o que ia falar.
Rute fez uma expressão interessante ao erguer as sobrancelhas.
Remexeu-se na cadeira, secou os lábios com delicadeza e considerou, usando sua fala habitual:
- Olha, Valéria, sou sua amiga e é por isso que eu tenho que falar.
Esperou que a outra a encarasse e prosseguiu com suavidade na voz:
- Eu vejo isso mesmo que falou e mais.
Você era uma pessoa comunicativa, animada, sempre presente.
Quando começou a namorar o Everton, continuou assim.
Mas, depois que ele foi promovido, você mudou muito.
Mas mudou muito mesmo! - enfatizou.
Você se isolou, se separou dos outros.
Passou a ter outro comportamento.
Se não for sobre serviço, quase não conversa com ninguém.
Esse seu comportamento ajudou, colaborou para que o relacionamento de vocês dois fosse fechado, blindado.
É lógico que não precisamos ter muita gente envolvida no nosso compromisso pessoal, mas viver isolada, como vocês fazem, não é legal.
Pode ser bem prejudicial.
Precisamos de amigos, de colegas.
Não podemos evitar a convivência social.
Não podemos nos isolar.
- Nem sei explicar como isso foi acontecendo, Rute.
- Quando estamos apaixonadas, ficamos cegas.
Não sabemos mesmo como deixamos acontecer o que nos desagrada ou incomoda.
Na verdade, achamos que vai passar, que, com o tempo, o outro vai mudar de comportamento.
- Você tem razão - concordou Valéria abaixando o olhar.
- Sabe aquela tal história que vemos se repetindo e se repetindo, né?
E exemplificou:
- Quando a mulher conhece um homem que bebe, fuma e vive no bar arrumando encrenca, ela se apaixona por ele e acredita, de verdade, que ele vai mudar.
Acredita que aqueles vícios não vão piorar, que não vão se agravar e pensa que, por sua influência, com o tempo, o homem vai ser diferente:
vai deixar de beber, de fumar, de frequentar o bar, de falar palavrões e tudo mais.
Só que isso não acontece.
E é bem provável que piore.
O vício da bebida, do fumo e da frequência no bar, assim como os outros, só pode e vai piorar à medida que os problemas e as dificuldades forem surgindo, principalmente, na vida a dois.
Naquele momento, Rute teve um pressentimento estranho que se cravou como uma dor em seu peito.
Bebeu um gole de água, secou os lábios e dobrou o guardanapo.
Olhou para a amiga e sobrepôs à mão a da outra, que estava estirada suavemente sobre a mesa.
Com isso, Rute a fez olhar e Valéria falou:
- Não temos problemas entre nós, Rute.
O Everton só gosta que vivamos sem a interferência dos outros.
- Amiga! Pense!
Por que não podem namorar e ter amigos ao mesmo tempo?
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Ave sem Ninho

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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 17, 2017 10:58 am

Trabalham juntos e têm amigos em comum.
- Ele quer evitar que o pessoal, lá do trabalho, saiba.
Ele é meu chefe e.
- Mas todo o mundo, lá na empresa, sabe que vocês dois namoram.
Ele quer evitar que saibam o quê?
Breve pausa e falou:
- O que impede de um conhecer a família do outro?
A amiga não respondeu e Rute prosseguiu:
- Sabemos que ele não é casado, que não tem ninguém.
Por que, então, esse isolamento?
Não é para ele ir para a sua casa e ficar sentado, namorando no sofá.
É estranho, no mínimo.
Mais uma vez o silêncio como resposta e Rute questionou:
- E você? Por que aceita isso?
- Adoro o Everton. Gosto muito dele.
Rute deu um suspiro, envergou a boca para baixo e desviou o olhar para um canto.
Depois disse:
- Quando ama, mulher é um bicho besta.
Acaba se entregando de corpo e alma a um relacionamento e ainda vira pantufa.
- Pantufa?!
- Sim, pantufa!
Vendo uma interrogação na expressão da amiga, explicou:
- Pantufa são aqueles sapatos de inverno, bem quentes, normalmente, para andar dentro de casa e à noite.
Em geral, são de pelúcia e tem a aparência de bichinhos como coelho, gato, urso.
São bem fofinhos! - sorriu. - Criança adora.
Lá, no sul, a gente usa pantufa quando está muito frio, depois guarda e só pega de novo quando precisa.
Os homens não saem com elas na rua por nada desse mundo e as esconde, normalmente, de todos.
Então, para alguns homens, namorada é como pantufa:
só usa quando precisa e esconde de todo mundo para ninguém saber que ele tem.
Valéria ofereceu um sorriso forçado e justificou:
- Mas nós estamos nos acertando.
- Porque você não força um pouquinho a barra?
Afinal, já estão juntos há?. Quanto tempo, mesmo?
- Vai fazer dois anos - respondeu timidamente.
- É tempo mais do que suficiente. Não acha?
Não dá para entender a razão de um relacionamento escondido.
Valéria não sabia o que dizer.
Chegou a se arrepender de ter dado a oportunidade daquele assunto.
Diante do silêncio, inesperadamente, ela propôs:
- Podemos ir?
Preciso dar uma passadinha no shopping para trocar uma meia fina que comprei.
O tamanho está errado.
- Claro. Vamos sim.
Rute concordou e entendeu que a amiga estava insatisfeita com sua opinião sobre o assunto.
* * *
Saindo dali, dirigiram-se até o shopping que ficava bem perto.
Valéria foi até a loja de que precisava.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 17, 2017 10:58 am

Fez a troca da peça que queria e, antes de irem, Rute pediu:
- Vamos até a livraria comigo?
Quero dar uma olhada nos lançamentos.
- Claro. Vamos lá - concordou.
Na grande livraria, percorreram corredores e olharam estantes.
Rute se deteve um pouco mais na seção de livros espiritualistas e tomou, em suas mãos, um que lhe chamou a atenção, em especial, pela capa.
Ela o observou bem.
Leu o resumo do romance, abriu e deu uma boa olhada.
Ao ver a amiga com o exemplar literário nas mãos, Valéria perguntou ao sorrir:
- Você ainda acredita nisso?
Rute retribuiu o sorriso e contrapôs:
- E você, ainda não acredita?
- Não mesmo.
- Então, o que acha que somos?
Uma experiência vinda do nada?
- Não sei o que somos, Rute.
Mas daí, acreditar em reencarnação e mais um monte de baboseiras.
É muito pra mim. Meu pai e alguns, lá em casa, crêem nisso. Eu não.
- Prefiro acreditar em reencarnação e mais um monte de baboseira a não acreditar em nada.
Pelo menos, com isso, vivo feliz.
E não tem nada melhor do que viver feliz! - riu gostoso.
Pegou o exemplar, brincou ao bater de leve na cabeça da amiga ao dizer:
- Uma hora isso vai entrar de vez na sua cabeça! - e pegou o livro dirigindo-se para o caixa.
- Não acredito que vai comprar isso! - brincou.
Tinha muita liberdade para isso.
- Esse já é meu!
Riram ecoando um som melodioso e agradavelmente cristalino.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 17, 2017 10:58 am

Capítulo 3 - A submissão de Valéria

Por conta da conversa que tiveram no restaurante, Valéria se aproximou mais de Rute que, por sua vez, achou melhor não dar tantas opiniões na vida da amiga ou ela poderia se afastar novamente.
Everton exercia grande influência sobre a namorada e, por mais que Valéria tentasse, não conseguia mudá-lo.
- Por que você resiste à ideia de ir a minha casa? - Valéria questionava.
- Já conversamos sobre isso um milhão de vezes.
Por que insiste nisso? - irritava-se ele.
Com jeito meigo, ela perguntou:
- Não pode fazer isso só para me agradar?
- Pra te agradar?
Veja se cresce, Valéria! - respondeu ele enquanto mexia em alguma coisa no armário de seu apartamento.
- Não temos nada para esconder de ninguém, meu amor - ela falou de um jeito carinhoso ao se aproximar e fazer um afago em suas costas.
Virando-se rápido, Everton a pegou pelos braços e a chacoalhou com firmeza, olhando-a nos olhos.
Com semblante sisudo, testa franzida, voz baixa e firme, falou com os dentes cerrados:
- Escuta aqui, já estou cheio dessa conversa de eu ter de ir a sua casa, de sairmos com amigos ou coisa assim. Entendeu?!!!
Após longo olhar faiscante, soltou-a dando-lhe um leve empurrão e virou as costas.
Valéria levou um grande susto.
Tomou fôlego e paralisou alguns segundos, de boca aberta.
Piscou demoradamente e suspirou ao mesmo tempo em que esfregava, levemente, os braços onde ele apertou.
Não conseguia organizar os pensamentos. Estava confusa.
O que foi aquilo? Uma agressão?
Questionou-se sem formular exactamente uma resposta.
Seus olhos ficaram marejados e ela procurou um lugar para se sentar.
Mas, ao olhar para a mesa, viu sua bolsa e pensou em ir embora.
Alguns passos até uma cadeira e Everton correu atrás dela, alcançando-a.
Segurando-a pelos ombros, beijou-lhe o pescoço e a fez virar, pedindo:
- Desculpe-me. Por favor.
Não quis ser rude com você.
Aos trinta anos de idade, ele era um rapaz bonito.
Alto, forte, pele morena clara.
Olhos castanhos claros, meio esverdeados.
Voz cativante e sorriso bonito.
Ao fazer um carinho em seu rosto, puxou-a para si, agasalhando-a no peito.
- Não queria falar desse jeito com você.
Desculpa. Foi um momento de.
Sabe, estou cheio de problemas, preocupações.
Nem consigo pensar direito.
Sorrindo, mas parecendo ainda confusa, ela disse, considerando-se culpada por uma falha que nunca cometeu:
- E eu ainda te enchendo com probleminhas tão bestas, não é?
- É. Não vamos dar tanta importância a isso, não é mesmo?!
Olhando-a nos olhos e segurando, carinhosamente, seu rosto fino entre as mãos, declarou:
- Eu te amo tanto! Tanto!.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 17, 2017 10:58 am

Beijaram-se.
Valéria ficou satisfeita e soube entender.
* * *
Com o passar dos dias, estavam em um restaurante requintado.
O lugar era muito elegante e, da mesa onde estavam, podiam ver o mar, o céu azul pontilhado de nuvens que pareciam ter sido pintadas à mão.
Estavam no meio da refeição quando Everton comentou:
- Tenho visto você e a Rute muito juntas ultimamente.
- Sempre fomos amigas e nos damos muito bem.
- Seu melhor amigo sou eu.
Não se esqueça disso.
Ela sorriu lindamente.
Entendeu que Everton gostava tanto dela que era capaz de sentir ciúme até da sua melhor amiga.
Não sabia distinguir amor de possessividade.
Valéria não compreendia que ciúme nunca esteve relacionado com amor.
Naquela noite, chegando ao apartamento dele, o rapaz puxou uma cadeira onde colocou uma pasta.
Tirou o paletó e o ajeitou no encosto.
Virando-se para Valéria, que colocava sua bolsa em outro lugar, pediu:
- E então, promete se afastar um pouco da Rute?
- Mas Everton. - surpreendeu-se.
Não vejo motivo para eu fazer isso.
Ele se aproximou, envolveu-a em seus braços e beijou-lhe a testa.
De um modo carinhoso, disse:
- Seu motivo sou eu.
- Como assim? - perguntou, erguendo a cabeça e procurando olhá-lo enquanto era balançada, lentamente, de um lado para outro como se estivessem dançando.
Everton enrolou a mão em grande mecha comprida dos cabelos de Valéria e, vagarosamente, foi puxando-a para trás e para baixo.
- O que você está fazendo?
Pára - pediu tímida e assustadamente.
Nesse momento, ele a apertou contra o peito e afirmou:
- Sou louco por você, Valéria.
Não quero te dividir com ninguém.
- Você está me machucando.
- Não estou machucando.
É uma forma de carinho.
É como demonstrar o meu amor.
Ela tentou se afastar e ele a segurou mais forte e, puxando-lhe os cabelos para trás, fez com que erguesse a face e a beijou.
Soltando seus cabelos, começou a acariciá-la como se aquilo fosse uma forma de carinho.
* * *
Na semana que se seguiu, Rute estava sentada ao lado da amiga e ambas riam de algum episódio engraçado ocorrido na copa da empresa.
- Precisei sair de perto, menina. Não aguentei.
Ainda bem que a copeira chegou - contava Rute, rindo.
- Que mancada - comentou Valéria rindo junto.
Justo perto do Dr. Alberto.
- A piada nem foi tão engraçada assim, mas quando ele cuspiu o café para rir. Foi o máximo.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 17, 2017 10:58 am

Em seguida, olhando o relógio, Rute falou em tom engraçado:
- Deixe-me ir lá terminar aquele processo, senão.
E olhou de relance para a sala de Everton e concluiu baixinho:
- Hoje seu chefe tá com uma cara, hein!
Valéria olhou ligeira em direcção à sala do namorado e confirmou o que a outra disse, tentando justificar:
- É que ele está cheio de problemas pra resolver. Coitado.
Todo o mundo tá cobrando e. - calou-se.
Não terminou o que iria dizer.
- Ai, Valéria. Seja sensata, vai!
Quando o Dr. Alberto estava na chefia dessa secção, enfrentava os mesmos problemas, as mesmas pressões. nem por isso ficava mal-humorado ou descontava na gente.
- Cada um tem seu jeito, Rute - contrapôs insatisfeita, observando novamente a sala pelo canto dos olhos.
- Vem almoçar comigo hoje?
- Não. Hoje não dá.
Talvez amanhã.
- Legal. Tô indo.
* * *
No final do expediente, Everton chamou Valéria até sua sala.
Conversaram a respeito do trabalho e depois ele perguntou:
- Sobre o que você e a Rute tanto riam?
- Sobre um episódio engraçado que aconteceu lá na copa.
O pessoal estava tomando café e o Dr. Bento contou uma piada. Então.
- Não quero saber - expressou-se com um tom rude, muito áspero na voz grave e calma.
Já não disse para se afastar dela?
Valéria sentiu-se mal.
Não gostou do jeito dele.
Não sabia o que dizer.
Por isso, pegou os documentos de que precisava, bateu-os na mesa, alinhando os papéis, e se virou.
Quando ia saindo, Everton chamou:
- Valéria!
Ao vê-la virar, disse:
- Precisamos conversar.
Vamos lá para casa hoje.
- Minha mãe está reclamando que eu não paro na minha casa.
Vou para casa hoje.
Em pé, exibindo raiva, espalmando as mãos sobre a mesa, falou em tom grave:
- Eu disse que você vai lá para casa.
Então, você vai lá para casa hoje!
- Não - disse somente e se virou, indo para sua mesa.
Ao pegar sua bolsa e se arrumar para ir embora, Valéria sentia-se angustiada.
Um tremor, um mal-estar a dominava.
O que seria isso?
Alguma emoção pelo clima ruim entre ela e Everton?
Por que ele precisava falar daquele jeito rude com ela?
Isso a magoava tanto, provocando um sentimento atormentado.
Gostava muito dele e desejava que fosse diferente.
- Valéria - chamou a voz de Everton as suas costas.
- Ai, que susto! - virou-se.
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