O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 22, 2017 12:35 pm

A irmã ouvia atenta e seriamente, e ele perguntou:
- Lembra da última vez que estive aqui?
- Sim. Lembro.
- Eu fiquei inquieto e quis ir embora porque vi, perto de você, um homem.
Era alto e magro.
Usava um terno escuro, preto, de uns duzentos anos atrás, eu acho.
Ele se concentrava em você.
E ontem... ou melhor, esta madrugada, eu vi o senhor Valnei.
Estava triste, em pé, ao lado do caixão, olhando para ele mesmo! - alterou-se.
Depois ficou olhando para os filhos e para a dona Leila.
Ele lamentava e dizia que estava sozinho, que tinha jogado a vida fora.
Falava outras coisas também, mas...
Estou ficando louco, Sofia!
Eu precisava falar isso com alguém!
Estou ficando cada vez pior!
Os remédios não adiantam.
Só me deixam abobado, assonorentado!
- É mediunidade!
- Isso é besteira! Eu nunca tive isso!
Nunca fui assim!
E ainda não acredito em quem diz que vê gente morta!
Mais calma, invadiu seus olhos e disse:
- É mediunidade, Hélder.
Ela pode se manifestar em qualquer idade.
O que precisa fazer agora é educá-la.
Se não o fizer, então sim, poderá entrar em desequilíbrio.
- Não sei... Não acredito nisso.
Só eu vejo! Ninguém mais vê!
- Quem for médium igual a você e estiver no mesmo nível de evolução espiritual, vai ver também. Lógico!
- Não conheço ninguém assim e...
- Você bebe? Lógico que bebe e... - respondeu sem lhe dar uma chance.
Diga uma coisa:
como é quando ingere bebida alcoólica?
O irmão respirou fundo.
Passou as mãos, novamente, pelo rosto e pelos cabelos.
Levantou-se, caminhou alguns passos e voltou para o mesmo lugar.
Estava bem nervoso.
Sentou-se e contou:
- Quando eu bebo eu me sinto bem.
Sinto como se estivesse anestesiado.
Só que vejo pessoas que são simpáticas e conversam comigo.
Só que elas não existem! Ninguém mais vê.
- Não são pessoas encarnadas. São espíritos.
E são simpáticos com você porque querem que continue bebendo para aproveitar os fluidos do álcool.
Esses espíritos te vampirizam.
Sugam suas energias e querem que você beba mais e mais.
O irmão ficou olhando para ela sem dizer nada por longo tempo.
- Sei que nunca acreditou. Desde pequeno.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 22, 2017 12:35 pm

Quando o pai ou mesmo eu falávamos sobre Espiritismo você ria, zombava...
Que pena! Nunca teve uma religião.
Não acreditou em nada.
Isso faz muita falta e grande diferença.
- Eu quero que isso passe. Quero que acabe.
Quando não vejo direito, tenho imagens que aparecem na minha cabeça.
Elas se repetem e se repetem...
Parece que vou ficar louco.
Não consigo me concentrar.
Nem estou trabalhando direito.
- É mediunidade.
Nenhum remédio farmacológico vai tirar isso de você.
Para não viver incomodado, precisa educar esse dom e ter o domínio sobre ela.
Isso exige estudo e empenho.
Eu indico o estudo da Doutrina Espírita.
- Ouço vozes também.
Ouço, na maioria das vezes, vozes dentro da minha cabeça.
- Isso também é mediúnico.
Ser médium é viver entre dois mundos.
Captar o que existe no mundo dos espíritos e no plano físico.
- Mas eu não acredito nisso! - zangou-se e se alterou.
- É pena, porque vai ter de começar a acreditar.
Sofia se levantou e foi para perto de seu irmão.
Sentou ao seu lado e colocou-lhe a mão no ombro dizendo com voz terna, suave, que lhe era peculiar:
- Hélder, você só rejeita a ideia de mediunidade e de espíritos por falta de conhecimento.
Vejo que é um homem sensato.
Se ler e estudar um pouco, vai começar a entender que pode controlar esse atributo.
Muitos médicos psiquiatras espíritas relatam que existem uma quantidade enorme de médiuns internados em centros de recuperação psiquiátricas, hospícios e lugares de confinações cujas famílias acreditam que têm problemas mentais.
Lógico que certas doenças existem sim e precisam ser tratadas e, às vezes, as pessoas necessitam de isolamento.
Outras tomam remédios para isso ou para aquilo quando, na verdade, o problema também é mediúnico.
- Será? - perguntou mais calmo.
- Lógico.
- Eu preciso de um alívio, Sofia.
Estou em desespero, já faz algum tempo.
Pensei em... Pensei em acabar com tudo e...
Penso em morrer, em suicídio... - falou baixinho.
- Não! Pelo amor de Deus. Isso não é solução.
Suicídio é o início de grande treva interior!
É tudo de ruim!
Desespero, dor, sofrimento que não tem fim.
É um passo para um abismo difícil de retornar.
- O que eu faço?
- Aceita.
- Como assim? - perguntou, angustiado, ao encará-la.
- Quer ir comigo ao centro espírita amanhã?
Quero que conheça a dona Francisca.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 22, 2017 12:35 pm

É uma pessoa incrível e adorável! - sorriu com jeito meigo ao pegar em sua mão.
Ele olhou para o chão por alguns instantes.
Hélder era um rapaz sensato e inteligente, mas relutava aceitar a espiritualidade.
Aos trinta e quatro anos, era gerente bancário.
Bonito. Cabelos sempre curtos, barba escanhoada.
Pele branca, cabelos pretos e brilhosos, iguais aos de Sofia.
Seus olhos verdes se destacavam pela cor dos cabelos.
Não era muito alto.
Tinha um porte atlético considerável.
Praticava muito exercício e gostava de andar bem arrumado.
Erguendo o olhar, encarou-a e, com um tom de voz grave e angustiado, perguntou:
- Amanhã a que horas?
- Logo após o expediente.
Eu passo lá na agência bancária e te pego.
Ele pensou um pouco e decidiu:
- Está bem. Vamos sim.
- Ai!!! Que bom!!! - expressou-se feliz e o abraçou.
O irmão correspondeu, mas havia um travo de amargura em seu coração.
Ainda não estava convencido daquilo tudo.
Acreditava ser doente.
- Será que não é esquizofrenia?
- Não! Lógico que não!
- E se for?
- Pare com isso, Hélder!
Lógico que não é!
Sofia começou a falar sobre mediunidade, espiritualidade e tudo o que sabia.
Ele ficou atento àquele assunto, que começou a lhe fazer sentido.
Conversaram bastante e ela o orientou o quanto pôde no que sabia.
* * *
No início da noite do dia que se seguiu, Sofia estava satisfeita em levar o irmão, pela primeira vez, ao centro espírita.
Estava muito alegre.
Apresentou-o a todos que pôde antes de irem para a sala de orientação, conversar com dona Francisca.
Entraram.
A senhora a abraçou, beijou e comentou:
- Você sumiu, Sofia.
Está fazendo falta.
A turma de artesanato está sentindo muito a sua falta.
A Sara assumiu, na sua ausência, mas... - sorriu.
Tem coisa que uma pessoa sabe conduzir melhor que outras.
- Eu sei - disse sem jeito, parecendo constrangida.
Eu liguei para a Sara e conversei com ela.
Estou com problemas e está sendo difícil conciliar tudo - justificou.
- Sinto por você, Sofia - falou dona Francisca com jeito simples e sorriu.
Em seus olhos havia uma expressão de lamento que a outra não conseguiu entender.
Em seguida, antes de Sofia apresentar seu irmão, a mulher olhou para Hélder, abriu um largo sorriso e falou entusiasmada:
- Ora! Ora! É você quem eu esperava!
Seja bem-vindo, rapaz! - foi ao seu encontro.
Abraçou-o e beijou-o.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 22, 2017 12:36 pm

Meio sem jeito, ele correspondeu ao sorrir e disse:
- Prazer conhecê-la.
- O prazer é todo meu! Todo meu!
Venha. Sente-se - pediu, apontando as cadeiras frente à mesa, que ocupou em seguida.
Está preocupado com o que vê e sente. Não é mesmo?
Pensa que está louco, mas não está não - disse antes que alguém abrisse a boca.
O que você tem é mediúnico.
Hélder olhou para sua irmã e ofereceu um leve sorriso.
Só então dona Francisca perguntou:
- Qual é o seu nome?
Quando sentiu o que ele pensava, a mulher sorriu e brincou:
- Médium não é adivinho!
Sei o que vejo e o que sinto, mas ainda não adivinho nomes - riu.
- Meu nome é Hélder - respondeu mais descontraído.
Olhando para Sofia, pediu muito educadamente:
- Posso ficar a sós com seu irmão?
- Eu não disse que ele é meu irmão - riu ao brincar.
- Cara de um, focinho do outro!
Todos riram, e Sofia se retirou.
O rapaz se sentiu nervoso.
Não sabia o que fazer.
Acomodada frente a ele, com uma mesa que os separava, dona Francisca estendeu as mãos ao rapaz e acolheu as dele.
Apertou-as com suavidade.
Sorriu generosa e pediu:
- Conte-me o que está acontecendo.
Uma ansiedade tomou conta dos sentimentos de Hélder.
Ela podia sentir o suave tremor de suas mãos que aumentava ou diminuía de intensidade conforme os relatos.
No final, a senhora perguntou:
- E você está tomando os remédios que o médico passou?
- Estou sim.
- Realizou os exames que ele pediu?
- Não. Ainda não.
Estou com medo de ser esquizofrénico - lágrimas brotaram em seus olhos, mas não rolaram.
Estava desesperado.
Sabia, conhecia as consequências tristes dessa doença.
Ela procurou por algo que ele não lhe tinha contado e revelou:
- Hélder, o mentor do trabalho que realizo aqui está ali, em pé, e me diz que você o está vendo.
Isso é verdade?
- É! Eu... - gaguejou.
Isso é loucura, dona Francisca!
Ela riu gostoso, descontraidamente, e sorriu para ele ao dizer:
- Não me sinto louca, menino.
E estou vendo o mentor tanto quanto você.
E digo mais, têm outros aqui que você não está vendo como eu.
Isso não é loucura, Hélder. É mediunidade.
Alguns têm, outros não. E existem graus diferentes.
Mas não é loucura.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 22, 2017 12:36 pm

O que precisa é educar essa mediunidade.
Tenho certeza de que os exames que o médico pediu sobre a esquizofrenia ou qualquer tipo de doença não vão dar em nada.
O que eu acredito é que você desenvolveu um quadro de Ansiedade, que é um transtorno emocional, por causa da bebida, por não entender o que se passa com você, por não educar esse atributo, esse dom e não trabalhar com ele.
Se bem que não é nada bom exercer tarefas mediúnicas sem antes estudar, compreender e educar a mediunidade.
Quando fizer isso, esses sintomas de Ansiedade, que me descreve, como tremores, dor no peito, uma agitação ou faniquito... - sorriu.
Ah... Isso vai sumir. Você vai ver.
Vamos ajudá-lo com isso.
Nós temos um médico, o Doutor Durval, que frequenta a nossa casa.
É um óptimo médium e médico.
Eu diria que precisa conversar com ele a respeito do que está tomando.
Hoje em dia, principalmente, vemos muitas pessoas sofrendo com transtornos emocionais e psicológicos por causa da mediunidade e também por falta de autoconhecimento.
Um psicólogo espírita pode também ajudá-lo.
Junto a isso tudo, a evangelização, o conhecimento espírita devem acontecer.
- Por causa disso que sinto, talvez, eu tenha feito coisas que não foram boas.
O que fazer com isso?
- Agora, nada.
Mas é bom não fazer mais.
Beber, revoltar-se, desvalorizar-se...
Pare com tudo isso. Será um óptimo começo.
Primeiro precisa se educar, mediunicamente falando.
Os espíritos, ou mesmo as manifestações mediúnicas, não podem atrapalhar sua vida.
Ao contrário.
Todo dom, todo talento que temos necessita de aprimoramento para nos ajudar e, depois, auxiliar outras pessoas.
Com o tempo, vai conhecer outros médiuns famosos ou não, que também trilharam caminhos de dúvidas e insegurança, mas depois compreenderam o que se passava com eles.
Educando seus talentos passará a viver melhor.
- Isso é possível? - perguntou temeroso.
- Lógico, meu filho! Lógico que é!
Ele pensou um pouco e disse:
- Estou preocupado com minha irmã, a Sofia.
Não sei o porquê.
A Valéria, minha outra irmã, está em situação mais problemática.
Mas a Sofia... parece que está pior.
Não entendo isso. Não sei explicar.
- Uma coisa você precisa aprender, Hélder, tem coisas que não nos são reveladas com perfeição.
Como eu disse, médium não é adivinho.
Só sabemos o que nos é informado.
Tem gente que acha que médium sabe tudo.
Domina tudo o que vê, sente e sabe compreender o que todos os espíritos falam.
Não é bem assim, meu querido.
Cada um tem um tipo de mediunidade e, dentro desse tipo, precisa trabalhar-se para buscar compreender o que lhe é revelado.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 23, 2017 11:18 am

O seu trabalho, como médium, por exemplo, não é com psicofonia, psicografia, pelo menos é o que eu vejo hoje.
Seu trabalho é semelhante ao meu:
orientar pessoas e encaminhá-las.
Mas, para isso, precisa estudar, ter conhecimento.
Não pode um cego guiar outro.
- Entendo.
Ela sorriu amavelmente e propôs:
- O ideal agora é cuidar e orientar você antes de qualquer coisa.
- Certo - sorriu mais aliviado.
Levantando-se, chamou-o:
- Agora, venha. Vamos lá.
Eu quero apresentar você ao Doutor Durval.
Vai gostar de conhecê-lo.
Ele vai dar orientações sobre sua saúde e como deve proceder com os exames e medicações.
Hélder, mais tranquilo, aceitou o convite e a acompanhou.
* * *
Naquela mesma noite, chegando ao seu apartamento, Sofia percebeu que George estava lá pelo facto de a porta do hall do elevador principal estar aberta.
Deparando-se com ele na sala, cumprimentou-o com um beijo e contou onde esteve.
Na primeira oportunidade, o noivo reclamou:
- Cada dia um compromisso.
Não temos mais tempo algum para nós.
- Domingo passado, eu o convidei para ir almoçar na casa dos meus pais, mas você não quis.
- Não dá pra ficar socado lá, né? - insatisfeito, respirou fundo e comentou:
Já vou indo, mas...
Antes queria falar com você sobre aquele empréstimo no banco.
Pode ser minha fiadora?
- Por que o empréstimo não é feito directo, sem fiador?
Eu mesma já fiz isso.
- Tá regulando, Sofia?!
Antes que ela respondesse, argumentou:
- A conta é nova. Sabe como é.
Mas, se não quiser, deixa.
- Não. Não estou regulando.
Só quero entender.
- Então vamos lá na quinta-feira. Vou agendar.
- Tá - sentiu o peito apertar naquele instante.
Não teria como negar isso ao próprio noivo.
George ficou feliz.
Abriu um sorriso e se aproximou fazendo-lhe um afago.
Beijou-a com amor.
Quando ela o envolveu acreditando poder estender o carinho, ele se afastou.
Não demorou, despediu-se e se foi.
Uma angústia tomou conta de Sofia.
Não sabia o que era.
Seus pensamentos estavam confusos.
Não conseguia organizá-los.
No plano espiritual, Vicente se aproximou, influenciando-a:
- Isso mesmo. Não pense no que deve ou não fazer. Seja impulsiva.
Acredite nas pessoas.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 23, 2017 11:18 am

Afinal, por que não confiar em seu noivo?
A melhor coisa a fazer é não ter o controle da própria vida - riu de modo sarcástico.
Tássio, o mentor de Sofia, tentava animar sua protegida, mas ela começava a se entregar a pensamentos cómodos e fracos.
"Essa vida é uma droga.
Tem hora que as coisas não saem como eu quero.
O George não entende isso!"
Sofia pensava.
- "Quanto ao empréstimo para ele... Coitado, né?
É difícil a gente querer fazer uma coisa e não ter dinheiro para isso.
Ah... Tem hora que estou tão cansada...
Sinto-me sem forças.
Gostaria de dormir e acordar com tudo arrumado.
Acho que não vou ter forças para arcar com tudo.
As lojas, com tanta coisa acontecendo...
Nem estou indo à loja que inaugurou.
Ainda bem que tenho a Vânia."
- Isso. Confie em todos - dizia Vicente ao seu lado sem ser percebido.
Aproximando-se, começou a passar-lhe a mão na cabeça, como se fosse um carinho, imantando-a com energias pesadas.
- Reaja, Sofia! - pedia-lhe Tássio sem ser percebido pelo espírito Vicente.
Eleve os pensamentos em prece.
Vamos lá! Ore!
Faça a prece que o próprio Jesus ensinou.
Pelos pensamentos de Sofia passou um fio de vontade de orar, mas ela não deu importância e se entregou ao comodismo.
Ligou a televisão e colocou um filme.
Enquanto isso, Vicente permaneceu ao seu lado, vampirizando suas energias, deixando-a fraca e indisposta.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 23, 2017 11:18 am

Capítulo 10 - A dor da decepção

Conforme o tempo passava, Sofia se sentia cada vez mais desmotivada, desanimada para tudo.
Nem conversar com Rute, sua nova melhor amiga, queria.
Alguns dias, por estar esmorecida, nem ia trabalhar.
Deixava muitas soluções nas mãos de Vânia, sua sócia.
Acompanhava os acontecimentos, mas se descuidava das finanças.
Até que, algum tempo depois, deparou-se com documentos de cobrança.
- O que é isso?! - falou sozinha.
Não acreditava no que estava lendo.
Meu nome, no protesto?!...
Entrou em contacto com a empresa de cobrança, com o departamento de crédito, e não acreditava no que diziam.
Confusa, sem saber o que fazer nem em quem confiar, procurou por Rute, afinal, a amiga era formada em direito e saberia orientar.
- Eu fui fiadora do George.
Ele precisou de um empréstimo bancário e...
- Mas aqui apareceu protesto do banco e de compras não pagas feitas para a sua loja.
Não é só do George não.
- Não acredito.
Nunca recebi cobrança.
Nunca devi nada para ninguém!
- É coisa antiga, Sofia.
Se não recebeu cobrança nenhuma alguém extraviou as correspondências que foram para a sua casa e também as que foram para a sua loja.
Sofia ficou pensando, ainda incrédula com o que ouvia.
- Não é possível!
Isso está acontecendo!
Não é verdade! - ficou inconformada.
Encarou a amiga, com olhos de súplicas, e perguntou:
- E agora? O que eu faço, Rute?
- Você tem economias?
Tem como pagar?
- Nesse valor? Não. Nada.
Arrisquei um grande investimento na montagem dessa loja nova e...
Como se não bastasse, minha empresa de arquitectura e decorações de interiores também não está bem.
Não me dediquei como deveria nos últimos tempos e perdi alguns clientes.
Tive problemas com prazos...
Não me preocupei.
Pensei que as lojas dariam uma boa renda.
- Precisamos dar uma olhada.
Fazer um inventário na sua empresa e nas lojas.
Tem advogados ou contadores que trabalham para você na empresa, não tem?
- Tem. Quer dizer...
Quem cuida disso é a Vânia - respondeu atordoada.
Parecia nem saber do que a outra estava falando.
- Sinto muito em te dizer, mas a Vânia não é uma pessoa confiável neste momento.
Assim como o George.
Eles não te avisaram sobre o que estava acontecendo.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 23, 2017 11:18 am

Sofia ficou pensativa por alguns instantes e lembrou:
- O George tem toda liberdade no meu apartamento.
Ele tem ido lá todos os dias e...
Agora começo a lembrar que todas as correspondências que chegaram, nos últimos tempos, eu encontrei sobre a mesa da sala e não na soleira como era de costume.
Ele deve ter pegado e... tirado as cartas de cobrança.
- E, na empresa, sua sócia deve ter feito o mesmo.
- Será?!... - questionou incrédula, decepcionada.
Querendo não acreditar naquilo tudo.
Tentando disfarçar para que a outra não percebesse, abaixou a cabeça por sentir seu rosto esfriar.
Um torpor a dominou.
Um mal-estar se instalou em seus sentimentos.
Não sabia o que dizer nem por onde começar.
Em voz baixa, murmurou:
- Meu Deus... São dívidas com valores muito altos.
Vou acabar perdendo meu carro, meu apartamento...
O que eu faço, Rute?
- Tenta negociar.
- Como?! De que jeito vou trabalhar e arrumar dinheiro?
Minhas lojas estão fechando!
Os negócios estão falindo!
- Calma, Sofia.
- Não tem como eu ficar calma.
E não suportando a dose alta de adrenalina correndo em seu corpo, comentou:
- Estou me sentindo mal.
A amiga demorou a entender que Sofia se referia a um mal-estar físico.
Elas estavam no quarto de Rute, sentadas sobre a cama, quando Sofia apoiou a mão e foi se deitando.
- Sofia! Sofia, o que foi?!
- Não sei... - sussurrou.
Rute se levantou e correu para chamar sua mãe, contando que Sofia passava mal.
Dona Leila entrou às pressas, no quarto, seguida de Yuri.
Ajeitaram Sofia sobre a cama e, quando pensaram que era o momento de levá-la ao médico, ela começou a recobrar os sentidos.
A senhora foi até a cozinha e trouxe, rapidamente, um copo com água adoçada.
Sofia abriu os olhos.
Observou a sua volta, parecendo não saber onde estava.
Sentia-se enjoada, trémula e confusa.
Yuri, sentado ao seu lado, pediu:
- Calma. Você está aqui em casa.
- Onde? - murmurou confusa, olhando-o como se não o conhecesse.
- Está na nossa casa, filha.
Está segura aqui com a gente - disse dona Leila com a voz suave para confortá-la.
Toma. Beba isso.
É água com açúcar - ofereceu-lhe o copo assim que a viu sentar.
Segurando o copo com ambas as mãos, Sofia bebeu um pouco da água, vagarosamente.
Em seguida, olhou para a amiga e perguntou ao se lembrar:
- Está acontecendo mesmo? - falou com a voz fraca.
Rute pendeu com a cabeça positivamente.
Sofia quis colocar os pés no chão.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 23, 2017 11:18 am

Yuri se levantou e a ajudou, dizendo:
- Já ia levá-la ao hospital.
- Não... Estou ficando melhor.
Preciso ir ao banheiro.
- Ali. Venha - indicou a amiga, conduzindo-a.
Na ausência de Sofia, Rute acabou contando exactamente tudo o que estava acontecendo na vida profissional da outra.
Razão pela qual a emoção forte a fez passar mal.
- Tá de brincadeira?! - exclamou o irmão.
- Não. Não estou.
- Coitadinha - murmurou a senhora.
- O que dá para ser feito? - Yuri perguntou.
- Negociar as dívidas é um bom começo.
Será preciso estudar bem o caso.
Foi um golpe e tanto.
- E o que pode ser feito em relação ao noivo e à sócia? - tornou ele.
- Nada. Foi de livre e espontânea vontade que Sofia fez empréstimo, foi fiadora, assinou documentos e fez negociações.
Se ela não prestou atenção no que fazia, ou não se interessou em acompanhar o que estava sendo feito... Problema dela.
Não examinei direito toda a documentação, mas, pelo que vejo, ela está ferrada.
Sofia chegou ao quarto, novamente, e dona Leila pediu:
- Vamos lá para a cozinha.
Vou preparar um chá e um lanche...
- Não, dona Leila.
Preciso ir embora.
- Ainda está abalada, menina!
Não pode ir assim.
Sofia pareceu não ouvir e foi pegando sua bolsa e os papéis.
Rute olhou para o irmão e disse baixinho:
- Ela não deve dirigir assim.
Eu vou dirigindo o carro dela e você o meu para me trazer de volta.
- Pode ser. Tudo bem - ele concordou.
- Não. Ela vai ficar aqui com a gente.
Não pode ir desse jeito - exigiu a senhora.
- Obrigada, dona Leila.
Mas quero ir embora.
Não estou bem para ficar aqui.
Tenho coisas bem importantes para resolver.
Preciso ligar para o George.
Ele vai ter de me explicar isso.
Com a Vânia, eu falo amanhã.
Insistiram, mas Sofia não aceitou ficar.
* * *
Pouco depois, no apartamento de Sofia...
- Tem certeza que dá para ficar sozinha? - perguntou Rute, preocupada com ela.
- Tenho sim. Obrigada a vocês dois.
- Qualquer coisa, liga para a gente - disse Yuri, igualmente preocupado.
- Obrigada.
Os irmãos se foram.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 23, 2017 11:19 am

No caminho para casa, Rute se inquietava e pensava em voz alta:
- Estou com vontade de telefonar para o Hélder.
- E dizer o quê? - perguntou o irmão, enquanto dirigia.
- Dizer que a Sofia não está bem.
- Você não sabe se ela quer contar o que houve.
Melhor não dizer nada.
Após chegarem a casa, em seu quarto, Rute decidiu telefonar para Hélder.
- Oi! E aí? Tudo bem?
- Tudo. E você? - ele perguntou.
- Estou bem.
Mesmo tendo um pouquinho de entendimento, a partida de alguém, principalmente de alguém tão próximo como um pai, é algo que abala muito.
- Na última vez em que conversamos, você me disse que seus pais se separaram.
Vocês mantinham contacto?
- Mantínhamos sim.
Não tanto quanto eu gostaria, mas... - expressou um riso no tom da voz e ele escutou.
Meu pai era muito resistente, digamos assim.
Mas... Conta aí!
E você, Hélder, o que anda fazendo?
- Eu... Bem, eu estou fazendo algo que nunca pensei em fazer na minha vida - riu, com discrição, mas ela pôde escutar.
- O quê?
- Estou frequentando uma casa espírita.
Você é espírita, não é?
- Sim. Sou sim. - animou-se.
Interessou-se pelo assunto.
- Ai, que legal! Por que você diz que é algo que nunca pensou em fazer?
- Sei lá... Não sei explicar.
Eu não acreditava, talvez.
Achava perda de tempo.
Mas... Estava enganado.
- E o que o fez mudar de ideia? - ela perguntou.
- Alguns acontecimentos que não dão para falar por telefone.
Qualquer hora te conto.
Foi uma experiência bastante interessante e preocupante, no começo.
Coisa que não dá para falar com todo o mundo.
Acho que você vai se interessar em saber.
- Está me deixando curiosa - riu.
Sou extremamente curiosa.
Em um súbito impulso, ele perguntou como se as palavras saltassem de sua boca:
- Quer sair na sexta-feira?
- Quero! - outro impulso inesperado.
Rute se surpreendeu. Ela não era assim.
- Você ainda trabalha no mesmo lugar que minha irmã trabalhava, não é?
Posso pegá-la lá na empresa?
- Sim. Estou lá.
E... Pode. Pode me pegar lá sim - confirmou e riu, tapando o celular para ele não ouvir.
Ela encolheu os ombros e ficou com um sorriso engraçado no rosto.
Parecia ter feito alguma peraltice.
Estava admirada de si mesma.
- Então, combinado.
Quando eu estiver saindo do banco, ligo.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 23, 2017 11:19 am

Em poucos minutos estarei lá.
- Certo.
- Mas me conta, o que tem feito de bom nos últimos dias? - Hélder quis saber.
- Eu? Bem...
Conversaram bastante.
Depois desligaram.
A sós com seus pensamentos, Rute ficou preocupada.
Havia telefonado para Hélder para falar sobre Sofia, mas nem tocou no nome da amiga.
No meio da conversa, mudou de ideia.
Acreditou ter feito a coisa certa.
Em vez de ajudar Sofia, poderia atrapalhar.
Mas ficou inquieta.
Será que ela tinha sido muito rápida em aceitar o convite que ele fez?
O que Hélder poderia pensar a seu respeito?
Ela se achou tão fácil.
Deveria esperar até sexta-feira para saber.
Ele parecia um cara legal.
Engraçado, conheciam-se há tantos anos e nunca teve olhos para ele.
* * *
Aquela semana foi muito tumultuada para Sofia.
Stressou-se com o noivo e com a sócia.
Fazia algum tempo que estavam discutindo, acaloradamente, sem chegar à conclusão alguma.
- Não quero saber!
Não tem justificativa para o que você fez, George!
Você deveria ter me contado!
- Pensei em pagar e resolver o problema antes de você saber.
Aí não ficaria assim, desse jeito!
- E meu nome!!! Meu património está em risco!!!
Você abusou da minha confiança, da liberdade que tinha na minha casa para subtrair daqui as correspondências para eu não saber das cobranças!
Isso é muita traição!!!
- Olha aqui, Sofia!
Eu vou pagar, tá! Vou pagar!
Quando ele ia se virando para ir embora, ela pediu, parecendo calma:
- Entregue as chaves do meu apartamento.
- Como?
- Você ouviu.
Entregue as chaves do meu apartamento.
- Por causa de dinheiro vai jogar fora tudo o que existe entre nós?
- E o que existe entre nós, George?
Você é egoísta! Só pensa em si mesmo!
Se eu não for firme, você usa e abusa de mim, das minhas coisas.
Sempre deixa o lixo para eu limpar, como agora.
São detalhes, sabe...
De verdade, mesmo, eu nunca estou inclusa nas suas alegrias, nas suas diversões.
Quando passeamos, vamos para os lugares que te agradam.
Quando comemos ou bebemos tem que ser o que você quer.
Quando existem despesas, a maioria delas fica por minha conta.
Isso não mudou e não vai mudar.
Cada dia que passa, você me respeita menos.
Será cada vez pior, se ficarmos juntos.
- Não vou levar isso a sério.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 23, 2017 11:19 am

Está nervosa e não sabe o que está falando.
Apesar de dizer isso, ele pegou as chaves em seu bolso e as jogou sobre o console no hall de entrada.
Virou-se e se foi.
Sofia voltou para a sala.
Estava confusa. Pensamentos conflituantes.
Magoada. Sentia-se injustiçada.
Foi até a sacada e olhou para a praia e para o mar.
Enquanto um vento suave soprava seus cabelos, viu que a paisagem, de que tanto gostava, havia perdido a cor, o brilho e a beleza.
Nada, ali, era maravilhoso agora.
Respirou fundo e juntou o que pareceu suas últimas forças para ir falar com sua sócia.
* * *
Como em outros dias, foi difícil encontrar Vânia à disposição para uma conversa.
Mas se deparou com ela em uma das lojas.
Num acesso de fúria, Sofia invadiu a sala da gerência na loja que abriram e discutiram muito, sem se importar com alguns clientes que poderiam vê-la através da estreita parte de vidro.
- Darei um jeito nisso!
Até parece que você não conhece como é o mundo dos negócios!
- Para onde foi o dinheiro que entrou?
O que você andou fazendo? - exigiu Sofia.
- Trabalhando sozinha!
Foi isso o que eu fiz enquanto você cuidava da vidinha pobre e barata de seus irmãos!
Nunca estava presente!
Não participava de nada!
Não pegou novos projectos de decoração porque estava muito ocupada!
Ora!!! Onde você estava, Sofia?!
Como combinamos, deveria ter cuidado dos projectos de decoração de interiores!
Os poucos que pegou declinaram!
Clientes sumiram! O que me diz disso?
- Digo que fui honesta!
Sempre fui honesta com você!
Vânia pegou a bolsa, lançou a alça no ombro e sorriu ao dizer:
- Sabe o que você faz com essa sua honestidade? - riu, virou as costas e se foi.
Sofia sentiu-se mal.
Quis chorar, mas segurou as lágrimas.
Respirou fundo e também foi embora.
Saiu sem rumo.
Dirigiu, aleatoriamente, pelas ruas da cidade.
Estava confusa e não prestava atenção ao que fazia.
O espírito Vicente castigava seus pensamentos com ideias e concepções que emitiam forças destrutivas.
Tássio, seu mentor, concentrava-se na atenção de sua protegida e alertou-a, emitindo-lhe energias que chegaram como um choque, assustando Sofia que se desviou, subitamente, de um pedestre, também distraído, que atravessava a rua.
Na manobra, ela bateu o carro sem ferir ninguém.
Resolvido, parcialmente, o problema, foi para o seu apartamento, seu refugio.
* * *
Ninguém pareceu sentir falta de Sofia nos dias que se seguiram.
Nem mesmo sua mãe ou seus irmãos telefonaram.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 23, 2017 11:19 am

George ou Vânia não deram notícias nem satisfações.
Não saiu de casa.
Era difícil fazer qualquer coisa.
Até mesmo levantar-se da cama.
Tudo exigia grande esforço e sacrifício.
Pensou em ligar para sua mãe, mas não queria levar qualquer problema para eles.
Já bastavam as preocupações com sua irmã.
Também não estava disposta para conversar com alguém de sua família.
Desanimada, triste, sentia a alma machucada.
Sem saber o que fazer, ligou para Rute.
Era sexta-feira e a amiga, empolgada com o encontro com Hélder, não deu atenção ao celular que ficou jogado, tocando inaudível, no fundo da bolsa.
Não encontrava o telefone de dona Francisca.
Havia anotado em algum lugar, mas não passou para o celular.
Lembrou-se da mãe de Rute.
Dona Leila seria boa conselheira.
Ligou.
O telefone chamou muito e, quando ia desistindo, foi atendida:
- Pronto! - exclamou a voz ofegante de quem que havia corrido.
- Yuri?
- Oi, Sofia! Tudo bem?
Sem responder sua pergunta, ela indagou com voz fraca:
- Sua mãe está?
- Cheguei aqui agora. Espera um pouco.
Estou andando pela casa à procura de alguém...
Mãe?! Rute?!
Ouviu-se um latido após ele chamar.
- Não é com você Thor! Fica na sua.
Um momento e voltou a falar com ela:
- Não tem ninguém em casa.
Diante do longo silêncio, ele perguntou:
- Tudo bem com você?
- Não... Não sei. Estou tão estranha.
- O que está sentindo?
- Uma coisa ruim. Uma fraqueza.
Chorou em silêncio.
Não queria que ele notasse.
Ele percebeu, mas não disse nada a respeito e perguntou:
- Quer conversar um pouco?
- Não. Tudo bem. Obrigada, eu...
Ligo outra hora para falar com a Rute.
- Sofia! - chamou antes de ela desligar.
Quando percebeu sua atenção, quis saber:
Resolveu seu problema com a empresa?
- Não. Eu...
Yuri, estou tão mal...
- Eu vou até aí.
- Não. Não precisa.
- Há quanto tempo está assim? - ele indagou.
- Sentindo-me mal assim?...
Desde aquele dia, aí, na sua casa.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 23, 2017 11:20 am

- Vou até aí para a gente conversar melhor.
- Não precisa - falou com a voz fraca, sussurrando.
Ao mesmo tempo, desejando que ele fosse.
- Olha, cheguei agora e vou tomar um banho bem rápido.
Estava correndo e estou suado.
Não vou demorar. Aguenta aí, que já chego.
Tchau.
- Tá bom. Eu espero.
Desligaram.
Yuri havia tido um dia cansativo e ainda tinha corrido.
Estava quente e precisava de um banho.
Ficou preocupado.
Não entendeu por que razão tomou a iniciativa de ter querido ir até a casa de Sofia.
Mas foi Pedro, seu mentor, quem o inspirou a essa atitude sem pensar muito.
Depois de um banho rápido, ele se trocou.
Pegou as chaves do carro e não perdeu tempo.
* * *
Ao se anunciar na portaria, logo Yuri subiu.
Sofia tinha pedido que o deixasse subir sem precisar ser avisada.
Recebido à porta do apartamento, o rapaz a observou de cima abaixo.
Fixou-se em seu rosto, pálido e sem a expressão alegre e a vivacidade que antes, naturalmente, via-se.
Com o semblante sem animação, Sofia tentou sorrir, porém seu sorriso estava sem vida.
Sem ânimo, até sua voz parecia enfraquecer ao dizer:
- Oi. Entra - pediu, simplesmente, virando as costas e indo directo para outro cómodo.
Ele fechou e trancou a porta.
Em seguida, foi atrás dela.
Na sala, Yuri a acompanhou com o olhar.
Vendo-a se sentar, aproximou-se e a beijou na face fria.
- Como está? - perguntou e se sentou ao lado, virando-se de frente para ela.
Sofia encolheu as pernas e sentou-se de lado para ele, sobrepondo o braço no encosto do sofá, onde recostou também a cabeça.
Vestia calça de moletom fino e largo, uma camiseta branca bem folgada, de gola larga e estampa suave, deixando o top preto aparecer no ombro.
Cabelos desarrumados naturalmente.
Não estava feio, mas, talvez, nem os tivesse penteado naquele dia.
Contorcendo o rosto, quis chorar, porém segurou as emoções ao responder:
- Não sei o que tenho.
Meus pensamentos estão confusos, estranhos...
- Como assim? - ele quis saber.
- Estou desmotivada, sem ânimo.
Não consigo me organizar.
Faz três dias que não saio de casa e...
Sabe que ninguém, ninguém ligou para mim! - ressaltou.
Esfregou as mãos pequenas, finas e pálidas no rosto abatido e lábios sem cor.
Passou em seguida, pelos cabelos, tentando colocá-los para trás e eles voltaram.
Depois contou:
- Andei olhando documentos, analisando despesas.
Resumindo, fazendo contas e...
Hoje recebi um aviso de que minha conta bancária está bloqueada.
Minha sócia me deu um golpe dos grandes.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 23, 2017 11:20 am

O George aprontou também com meu nome, cartão e sei lá mais o quê.
Financeiramente, estou no fundo do poço.
Sentimentalmente, psicologicamente, estou muito além do fundo do poço.
Talvez, debaixo de muita terra.
- Você disse que está três dias sem sair de casa? - de tudo o que ela disse, só isso importou a ele.
- É.
- Comeu alguma coisa?
- Comi...
- O quê?
- Não estou com muita fome - respondeu, sem encará-lo.
- Não foi isso o que te perguntei.
Diante do silêncio, novamente, quis saber:
- O que andou comendo?
- Uma fruta e biscoito integral.
Olhou em seus olhos, que antes não queria encarar, e comentou:
- Sinto-me tão cansada.
- Do quê?
- Da vida... De tudo...
Não aguentou mais e chorou.
- Acho que perdi tudo...
Tudo pelo que sempre lutei para conseguir.
Tudo o que tinha orgulho de ter conseguido com tanto trabalho, empenho, talento... - Chorou.
Pegou a ponta da camiseta e passou no rosto molhado.
Yuri respeitou o silêncio que se fez e esperou que se recompusesse.
Em certo momento, passou a mão em seu braço, fazendo-lhe um carinho.
Na espiritualidade, Vicente e Lucídia os observavam sem perceber a presença de Pedro e Tássio.
- Ora! Ora! Ora! - exclamou Vicente, rodeando o sofá onde o casal se encontrava.
Chegou aquele que faltava.
Foram os dois, juntos, que fizeram o que fizeram para atrapalhar minha vida.
Agora é minha vez!
Vou acabar com vocês dois!
Vou destruí-los!
Ou melhor, vocês vão se destruir!
Aproximando-se do ouvido de Sofia, como se fosse pelo meio que ela pudesse percebê-lo, Vicente disse:
- Você é fraca! Incapaz!
Incompetente! Perdeu tudo!
Tudo! Nada valeu a pena.
Nunca mais vai ser a mesma, Sofia.
Nunca mais vai conseguir subir.
Terá de viver às custas do papai - riu, sarcasticamente.
Do pobre papai aleijado e aposentado...
Vai lá dar mais trabalho para ele, vai!
Acabe com o resto da vida miserável que ele tem!
Deixe-o desgostoso!...
Com voz fraca e rouca, ela disse:
- Como é que eu posso contar isso para a minha família?
Sempre fui do tipo que resolveu os problemas sozinha.
Nunca aceitei opinião deles, sabia?
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 23, 2017 11:20 am

Ergueu a cabeça, correu o olhar de um canto ao outro da sala e pediu:
- Olhe para tudo isso.
Quanta coisa bonita, cara, não é mesmo?
Joguei tudo fora. Foi tão difícil...
Cada detalhe, cada... - calou-se.
Recostou, novamente, a cabeça no braço que estava no encosto do sofá.
- Acho bom você comer alguma coisa. Está fraca.
Muito de seu desânimo pode vir disso.
O que tem aqui para comer?
- Não quero comer nada.
O rapaz sorriu e tentou brincar:
- Mas eu quero! O dia hoje foi longo.
Estou em pé desde às cinco da manhã.
Almocei meio-dia e já são... - consultou o relógio e informou:
- Oito da noite!
Minha taxa de glicose abaixou e acho que a sua também.
Vendo que ela não deu importância, Yuri se levantou e pediu, estendendo-lhe a mão:
- Vem. Vamos lá para a cozinha procurar alguma coisa pra gente comer.
Se não tiver, vamos encomendar.
- Acho que não tem nada em casa.
- Então vou encomendar uma pizza. Você topa?
- Encomenda para você.
- Assim não dá, Sofia - foi firme.
O que pretende? Se matar e me matar de fome?
Ela não respondeu. Pareceu nem ouvir.
- Onde estão aqueles panfletos da pizzaria?
Pensou um pouco e decidiu:
- Vou fazer melhor.
Você vai me dar licença para eu revirar sua cozinha.
Vou ver o que encontro.
A moça não deu importância.
Ele a deixou sozinha e foi para a cozinha.
Demorou algum tempo e voltou.
- Achei pão de forma preto, atum, ralei cenoura e misturei com ricota.
Deu um bom lanche. Vamos lá, vai.
Vem comer alguma coisa... - pediu em tom generoso.
Estendendo a mão, puxou-a com delicadeza.
Foi com grande sacrifício que Sofia se levantou.
Suas pernas tremiam.
Pareciam que não suportariam seu peso.
Sentia o rosto esfriar e uma sensação de tontura e desmaio.
Na cozinha, ocupou uma das banquetas perto da bancada, onde dois pratos com lanches os aguardavam.
Ao lado, copos vazios e uma caixa de suco de fruta à base de soja.
- Tem alface lavada na geladeira - ela disse.
- Não encontrei.
Quando o viu indo à direcção da geladeira, ela orientou:
- Na parte debaixo. Na gaveta.
O rapaz procurou e trouxe o recipiente até a bancada.
Abriu os lanches e distribuiu as folhas.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 23, 2017 11:20 am

Colocou suco até a metade dos copos e pediu, com jeito simples e leve sorriso:
- Vai, come. Fiz com muito carinho.
Sofia tinha de fazer grande esforço somente para pegar o lanche.
Deu uma mordida, que ficou mastigando por muito tempo.
O alimento parecia seco demais para ser engolido.
Bebeu alguns goles de suco para ajudar e não quis comer mais.
Tomou o suco e deixou o lanche no prato.
- Que foi? Tá tão ruim assim?
- Não. Sou eu que estou ruim.
- Vai. Só mais uma mordida.
Ela insistiu e, novamente, a mesma dificuldade para engolir.
Em seguida, afastou o prato com o lanche de perto de si e disse:
- Se não reparar...
Preciso ir para a sala.
Yuri deu a última mordida, bebeu o resto do suco e pediu:
- Espere. Vou com você.
Levantou-se. Guardou a caixa de suco na geladeira e colocou os pratos na pia.
Olhou para o prato que ela deixou e disse:
- Dá dó jogar esse lanche fora, hein!
Apanhou uma faca, cortou a parte mordida e guardou o resto em um saco plástico e colocou na geladeira.
Sem se importar, pegou a parte cortada, jogou na própria boca e comeu.
Ela só observou.
Yuri colocou os pratos e os copos na cuba da pia e os lavou com rapidez, deixando-os escorrer.
Em seguida, foi ao seu lado, sobrepôs a mão em suas costas e pediu:
- Vamos lá - sorriu.
Um desânimo dominava Sofia que não podia fazer nada contra aquela força estranha que a puxava para baixo.
Seus membros doíam.
Era uma dor muscular, como se estivesse gripada.
Sentou-se alguns segundos no sofá e, quando o rapaz se acomodou ao seu lado, ela pediu ao se levantar:
- Yuri, com licença...
Sem dizer mais nada, foi à direcção ao seu quarto, deixando-o sozinho.
A longa espera fez com que ele desconfiasse que Sofia não passava bem.
Levantando-se, seguiu por um corredor que dava nos quartos e entrou chamando seu nome:
- Sofia! Estou entrando.
Tudo bem? Posso entrar?
Nenhuma resposta.
Empurrou a porta entreaberta da suíte e a viu sobre a cama, deitada e encolhida.
Aproximou-se, sentou-se e passou a mão em suas costas, perguntando:
- E aí?
- Desculpe... Não sei o que tenho...
Estou me sentindo mal...
Olha como estão minhas mãos - mostrou.
As mãos finas e pequenas tremiam.
Pálidas e gélidas, pareciam sem vida.
- Não é melhor ir ao médico?
- Não sei.
- Vamos lá. Troque-se...
Ou vai assim mesmo.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 23, 2017 11:20 am

Eu a levo - levantou-se, esperando sua reacção.
- Meu corpo inteiro treme - ela disse.
Sinto vontade de chorar. Dá um desespero...
Estou com dor no peito. Dor de cabeça...
- Não entendo nada disso.
Melhor consultar um médico.
Pode ser sua pressão que abaixou.
Não tem se alimentado direito, não é mesmo?
- Acha que devo ir?
- Claro. Principalmente, por causa da dor no peito. Vamos.
Eu a levo.
- Vou me trocar.
- Isso. Vou te esperar lá na sala - saiu do quarto, encostou a porta e foi para o outro cómodo esperá-la.
Não demorou e Yuri levou Sofia ao hospital de seu convénio.
Durante a consulta no pronto-atendimento, ouviu da médica:
- Seus exames estão normais.
Pressão arterial correta.
Electrocardiograma óptimo...
Batimentos cardíacos um pouco acelerados para um estado de repouso, mas, puramente, normal.
Muito provavelmente, seja de fundo emocional.
Um momento e perguntou:
- Você tem passado por algum tipo de stresse, Sofia?
- Um pouco - disse com voz fraca.
- Um pouco, nada! - interferiu Yuri, bem firme.
A sócia deu-lhe um golpe e o noivo sujou seu nome.
Sofia olhou para ele, mas não disse nada.
Não se importou com seu comentário.
A médica balançou a cabeça entendendo a situação e envergou a boca como uma expressão de lamento.
Depois comentou:
- Esses sintomas estão me parecendo de fundo emocional.
Um estado depressivo. Certo?
Isso costuma ser normal, se não perdurar muito tempo.
É lógico que, quando somos lesados, ficamos abalados.
Sensíveis a tudo.
Vontade de chorar sem motivo específico e até dor no peito que, através dos exames clínicos, sabemos que não se trata de problemas cardíacos.
Esmorecimento, dores nas articulações, desânimo, medos, tremores e tudo mais o que me descreve podem ser sintomas depressivos.
Isso é, puramente, emocional.
A mente é que faz tudo isso com você.
São sintomas psicossomáticos terríveis e involuntários, mas passam à medida que se recuperar emocionalmente.
Costumo dizer que é uma ferida na alma.
E como toda ferida, ela pode ser curada.
O tempo para isso depende de cada um.
- E o que eu posso tomar para aliviar isso o que sinto? É tão horrível.
- Não vou receitar nada.
Com seu breve relato, em uma rápida consulta, não posso afirmar se você tem Ansiedade ou Depressão, os transtornos psicológicos mais comuns hoje em dia.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 23, 2017 11:21 am

Não tem como diagnosticar exactamente o que é.
O remédio para a Depressão é um veneno para a Ansiedade e vice-versa.
Eu aconselharia você descansar um pouco.
Procurar reagir, fazer caminhadas e procurar ficar junto de pessoas queridas, mantendo uma vida saudável.
Sem brigas, intrigas...
Isso deve fazer muito bem.
Caso essas sensações fiquem insuportáveis, aconselho que procure um médico psiquiatra.
- Psiquiatra? - surpreendeu-se ela.
- Sim. Um psiquiatra e junto um psicólogo.
Ou... Se não quiser procurar um psiquiatra, procure um psicólogo.
Ele vai ajudá-la a trabalhar com os pensamentos e assim terá chance de sair mais rapidamente desse estado.
Na verdade, nem sempre o remédio químico ajuda.
Ele só alivia, em alguns casos, e não trata a causa, que é emocional.
Aliás, esses remédios viciam.
Breve pausa e explicou:
- Se a causa desse estado é emocional, então você precisa trabalhar com o lado emocional, pensar e agir diferente a fim de se ajudar.
Isso vai aliviar e exterminar essa dor na alma.
Vai curar essa ferida.
Mais um momento, a médica fez uma anotação e carimbou a prescrição dizendo:
- Para sua queixa de dor de cabeça, receitei esse remédio - estendeu a receita.
Deve tomar um comprimido a cada seis horas até passar.
Não sentindo dores, suspenda.
Sofia pegou a receita, levantou-se e agradeceu:
- Obrigada, doutora.
- Não por isso. Qualquer coisa, volte.
- Pode deixar.
Yuri conduziu Sofia para que saíssem da sala.
Já no corredor, ela reclamou:
- A médica não me passou nada para esse tremor. Isso é tão horrível.
- Ela tem razão, Sofia.
Não se sabe exactamente o que você tem.
Transtornos psicológicos, problemas emocionais têm sintomas bem parecidos.
Conforme o que a doutora disse, o remédio para uma coisa e veneno para outra, ou seja, o remédio errado vai piorar muito mais o que você está sentindo.
Ela não disse nada.
Ele esperou um momento e sugeriu:
- Quer que eu a leve para a casa de seus pais?
Lá, podem cuidar melhor de você.
A médica falou sobre ficar com pessoas queridas...
- Não quero perturbá-los.
- Isso é orgulho, Sofia!
- Não. Acho que é ter consciência de que aqueles dois não precisam de mais trabalho e preocupação.
- Você quem sabe.
Deu um tempo e, enquanto caminhavam para sair do hospital, perguntou:
- Quer ir para a minha casa?
Quem sabe conversar um pouco com minha mãe, com a Rute...
- Obrigada. Mas quero ir para o meu apartamento.
- Tudo bem. Vamos.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 24, 2017 10:58 am

Após comprarem o remédio, ele a levou para o seu apartamento.
Entrou, certificou-se de que ela estaria bem e conversou um pouquinho.
- Vou tomar um banho agora. Estou tão esmorecida.
- Isso mesmo. Toma um banho e deita.
O remédio que tomou já vai fazer efeito.
- Por favor, não conte nada disso para ninguém, tá?
- Claro que não. Pode confiar.
- Obrigada, Yuri.
Estavam no hall do elevador.
Ele a abraçou e ela recostou-se em seu peito.
Era tão bom ter alguém, ali, que lhe desse atenção, carinho e conforto naquele momento tão difícil.
Seus tremores sumiram e as dores amainaram.
Que força seria aquela?
De um carinho? De uma amizade?
De uma energia desconhecida fortalecida por algum sentimento de outros tempos?
Não sabia dizer.
Por sua vez, enquanto ele a afagava com ternura, estranhou o sentimento forte que se expandiu em seu coração.
Beijou-lhe o alto da cabeça e roçou sua barba pouco crescida em alguns fios de seus cabelos.
Não queria se afastar.
Estava sendo um abraço bom, gostoso e reconfortante.
Mas precisava ir embora, mesmo com o desejo de ficar.
Afastarem-se.
Yuri se curvou.
Deu-lhe um beijo no rosto e afagou, mais uma vez, seus braços e, sorrindo disse:
- Me liga.
- Me liga quando você chegar a sua casa.
- Está bem...
- Vai com Deus.
- Fica com Ele.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 24, 2017 10:59 am

Capítulo 11 - O auxílio a Sofia

Quando Yuri chegou a sua casa, sua mãe estava preocupada e o aguardava ansiosa.
- Filho! O que aconteceu?!
Ligo e você não atende.
Olha que horas são!
Nem para telefonar e dizer onde está!
- Oh, mãe, desculpa. - Consultou o celular, que estava desligado.
Fui acompanhar um amigo ao hospital e desliguei o celular.
Esqueci de ligá-lo depois.
- O que ele tinha? Quem é?
- Enxaqueca.
Um momento e respondeu:
- A senhora não conhece.
Fizemos amizade no último congresso e... - Preferiu mentir.
Não queria falar que era Sofia.
Havia prometido não dizer nada a ninguém.
Para distrair dona Leila, perguntou:
- A Rute já chegou?
- Não. Mas ela telefonou.
Foi para um barzinho.
Breve pausa e comentou:
- Não gosto disso.
Com tanto crime, assalto, roubo...
Não gosto de saber que essa menina está na rua.
- Estou cansado.
Vou tomar um banho e dormir.
Aproximando-se da senhora, disse ao beijá-la no rosto:
- Boa noite. Dorme com Deus.
- Você não vai comer alguma coisa?
- Já comi um lanche. Obrigado.
Vê se a senhora vai dormir.
Esperar a Rute não vai adiantar nada. Boa noite!
- Deus te abençoe, Yuri.
O rapaz foi para o quarto.
Tomou um banho, escovou os dentes e sentou na cama.
Pegou o celular e procurou pelo número de Sofia.
Ligou.
- Sofia? Sou eu, Yuri.
- Oi.
- Te acordei? Como você está?
- Não. Não acordou.
Estou sem sono.
Estou do mesmo jeito.
- Já experimentou fazer uma prece?
Ela ficou em silêncio e Yuri disse:
- Uma oração vai ajudar muito.
- Entendi que não é um caso de problema físico.
É mental. É na alma.
Nem sei o que dizer em uma prece.
- Como assim? - ficou sem entender.
A prece é uma conversa com Deus.
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Ave sem Ninho

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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 24, 2017 10:59 am

Peça que te guie e ajude a se recuperar desse estado.
Faça uma prece pronta, prestando atenção em cada palavra.
- Você não imagina como é...
Sinto uma coisa muito ruim.
É horrível!
- Sei exactamente o que é isso sim.
Mas não pode só pensar nisso.
Para sair desse estado, é preciso fazer algo diferente.
Se só pensar nele, continuará nele.
Não sei se deu para entender.
- Acho que sim - falou desanimada.
- Então vai lá.
Tome um copo de água fresca e sinta como se tomasse um banho por dentro.
Sente-se e ore. Faça isso.
- Vou fazer.
- Promete? - ele insistiu.
- Está bem.
- Depois deita e descansa.
Amanhã estará nova.
Mais refeita e sabendo qual decisão tomar e o que fazer.
- Tá bom. Obrigada - falava com desânimo.
- Olha, qualquer coisa, me liga.
Vamos conversando. Tá?
- Tá bom. Obrigada, Yuri.
- Fica com Deus.
- Você também.
- Tchau.
- Tchau.
Algo incomodou Yuri.
Não gostou do que sentiu ao conversar com Sofia.
Ficou inquieto e não sabia a razão.
Apagou a luz principal e sentou-se na cama, ficando sob a claridade fraca do abajur da cómoda ao lado da cama.
Fechando os olhos, orou.
Durante a prece, dilatou de si uma luz.
Bênçãos sublimes se somaram a ele, expandindo-se.
Lucídia, que o acompanhava a pedido de Vicente, não suportou a energia radiosa e se afastou.
Assustada, foi à procura de seu companheiro.
Terminada a prece, Yuri se deitou e dormiu.
Não demorou e seu mentor Pedro o recebeu no momento em que se emancipou do corpo físico, algo que sempre acontece a todos durante o sono.
Desperto e com nova consciência, sorriu ao espírito amigo e o cumprimentou.
- Embora não tenha plena consciência quando acordado, aqui e agora, sabe o suficiente para manter-se equilibrado - disse o espírito Pedro após fraternal abraço.
- Agora estou mais próximo de Sofia.
Não foi bem esse o nosso planeamento para esse reencarne.
Porém, não posso negar que estou satisfeito por me aproximar dela.
- É bem difícil cumprirmos o planeamento reencarnatório, meu amigo. Sabe disso.
Muitos não aguentam e se desviam.
Além disso, dependemos, algumas vezes, do livre arbítrio de outras pessoas.
Observou-o por um instante e achou melhor comentar:
- A pobre Roxana não conseguiu cumprir o que planeou para sua evolução pessoal.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 24, 2017 10:59 am

E era quem se dizia mais preparada.
- Estou tão magoado com isso.
É tão difícil se sentir um idiota, enganado.
Um tom de tristeza emanou dos sentimentos de Yuri, algo bem mais forte e perceptivo no plano espiritual.
Sobrepondo a mão em seu ombro, o mentor amigo considerou:
- Trabalhe seu orgulho e sua vaidade, Yuri.
Mágoa é sinal de orgulho ferido.
Jogue isso fora e perdoe a fraqueza humana.
- Quer dizer com isso que devo perdoar e ficar com ela?
- Não foi isso o que eu disse.
- Os planos eram de ficarmos juntos, harmonizando o passado, mas...
Se bem que...
Ainda há tempo, não é? - perguntou, mas havia um lamento em sua questão.
- Cabe a você decidir, Yuri.
Uma vez quebrada a aliança de confiança, a parte ferida, enganada, não é obrigada a nada.
Você volta para ela, se quiser.
E hoje, existe uma bifurcação na sua vida, em seus caminhos.
Pelo que a Roxana fez, você tem o direito de escolha.
- Não sei o que fazer e ainda estou preocupado com a Sofia.
Meus sentimentos por ela estão despertando.
- Sabe que não se aproximaria de Sofia se ainda estivesse ligado à Roxana, não sabe? - indagou Pedro.
- Sei. Sei sim.
Pedro sorriu ao vê-lo reflexivo.
Depois contou:
- Tássio me procurou.
Conversamos muito sobre isso e ele pediu sua ajuda.
- Ajuda? Sim! Claro! - animou-se.
- Então vamos até o apartamento de Sofia.
- Só uma coisa, Pedro.
- Diga.
- Você me disse para jogar fora a mágoa e o orgulho e perdoar a fraqueza humana.
Isso significa ficar com a Roxana?
Reatar o noivado?
- Responderei a isso depois.
Agora vamos. Quero mostrar algo.
* * *
Pedro e Yuri foram para o apartamento de Sofia.
Encontraram-na deitada em sua cama, entre o sono e a vigília.
Demorou um pouco e dormiu, mas não se desprendeu no corpo físico. Ficou ali.
O espírito Vicente, ao seu lado, não perdia tempo implantando-lhe ideias de fracasso e ruína pessoal.
Isso a deixava em um estado aflitivo, provocando um sonho perturbador.
Yuri ficou impressionado.
Sentiu algo estranho despertar em si.
Queria protegê-la.
Defendê-la do que fosse.
Num impulso, aproximou-se e, como se ela pudesse ouvi-lo, pediu:
- Reage, Sofia!
Isso tudo o que ele diz é mentira!
Não acredite nessa tristeza! Está errado!
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 24, 2017 10:59 am

- Ela não pode ouvi-lo - disse Tássio, aproximando-se.
- Eu sei, mas...
Por que isso? - Yuri perguntou, inconformado.
- Invigilância dela - tornou o mentor da encarnada.
- Ninguém entra neste estado porque quer! - tornou o rapaz.
- Lógico que não.
O estado depressivo é um grito de alerta.
É um sinalizador do seu inconsciente mostrando o que você foi capaz de fazer com você mesmo.
Aquele que entra nesse estado é porque quer mudar a forma como vive.
Porque a forma como vive, hoje, não traz evolução, crescimento.
Aquele que quer evoluir, mudar, precisa de movimento.
Quando a pessoa está bem, alegre e satisfeita, não procura mudar.
E aí que a vida fica sempre como está.
O espírito Pedro se aproximou de Yuri e contou:
- Ela desperdiçou muitas energias subtis.
Gastou suprimentos psíquicos com problemas e dificuldades alheias.
Nos últimos tempos, George comprometeu-se com emoções de baixa classe, em outras palavras, com uma vida sexual promíscua.
O envolvimento com fontes dessa ordem sempre leva ao parceiro, despreparado ou desprotegido, significativas energias destrutivas, que desorganizam centros de força e centros psíquicos.
- Ela não sabe sobre o que ele faz? - Yuri indagou.
- Não. Quando desconfiou, Vicente causou-lhe uma distracção e ela não deu importância ao impulso interior.
Não se vigiou. Não orou.
Não ligou para as inspirações recebidas.
George se contaminou com larvas ou bacilos psíquicos, oriundos das experiências sexuais variadas.
Ele também se envolveu com entidades grosseiras e rudes que se afinaram com ele devido aos seus gostos, predilecções e prazeres inferiores que lhes dão ideias e desejos ínfimos.
Não pense você que vírus, bacilos, larvas e outros são transmitidos só fisicamente.
Preservativos e vacinas podem, ou não, proteger o físico, mas o espírito, o corpo espiritual não protegem.
Breve pausa e prosseguiu:
- No seu envolvimento com Sofia, George a contaminou com energias densas, que geraram desequilíbrio energético e psíquico.
- Energia sexual é energia viva.
Tão viva que é capaz de conceber vidas - disse Pedro.
Aproximando-se de seu pupilo, auxiliou-o com magnetismo, que lhe é peculiar, facilitando a visão.
Veja os centros de força de Sofia.
Estão impregnados com uma energia tão densa que parece uma massa escura.
Veja o estômago e por que ela não se alimenta.
Aguçando a visão do corpo espiritual, Yuri percebeu, nas regiões gástricas, a saturação de uma substância muito escura, acinzentada, quase preta.
- Essas energias, de força destruidora, ainda se encontram em nível externo.
Quando ela começa a se alimentar, esses fluidos tóxicos são manipulados pelo obsessor e ela sente um repúdio aos alimentos, ao mesmo tempo, uma sensação semelhante à saciedade.
O tratamento de assistência espiritual, ao qual se propôs na casa espírita por meio de passes magnéticos, foi o que impediu que seu estado piorasse.
No entanto, Sofia se afastou do tratamento e isso a prejudicou - explicou Pedro.
- Vicente e Lucídia trouxeram esses três desencarnados de aspecto horrível, necessitados de energias corpóreas, para sugar o magnetismo de minha pupila.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

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