O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Página 6 de 10 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 24, 2017 11:00 am

Um actua nos centros cerebrais, razão da confusão mental que ela sente, do estado depressivo e outras sensações emocionais desagradáveis.
Os outros, vampirizam as energias do corpo físico.
Por isso a fraqueza, o desânimo, a desmotivação.
A falta de prece, a falta de iniciativa, de esforço para melhorar o nível mental, melhorar a fé, aumentar a esperança é o que a está deixando afinada com esses irmãos de mentes enfermiças.
- Em outras palavras, isso acontece porque Sofia não oferece resistência e se entrega ao desânimo, acomodando-se à carga de vibrações e energias pesadas e inúteis.
É isso? - perguntou Yuri.
- Resumidamente, é isso - respondeu Tássio.
Tudo começa em nível de pensamento, que oferece força de atracção para tudo o que vê por aqui.
O próprio ambiente doméstico está saturado de energias pesarosas.
Apesar da graciosidade externa, é possível vermos as energias pesarosas presentes.
O lar deve ser um santuário que abrilhantamos com nossos pensamentos, práticas, sentimentos.
A nossa vida mental diz o que existe em nosso lar.
Quando pronunciamos palavrões, por exemplo, é essa a carga vibratória de substâncias repulsivas que implantamos, criamos ou atraímos para onde moramos ou para perto de nós.
- Falta de prece, ausência de Evangelho no Lar, atitudes que desarmonizam como o que se escuta de música, ao que se assiste na televisão atraem energias indesejáveis e espíritos malfazejos, inferiores e cruéis.
A elevação pessoal não é sorte, é conquista.
Tudo conta. Sofia é equilibrada na área sexual, no que se refere aos desejos e emoções.
Se não fosse isso, seria bem difícil ajudá-la - tornou Pedro.
- E é por isso que estamos aqui - disse Tássio.
Precisamos de você Yuri.
Uma vez que já se aproximou de Sofia, acredito que poderá auxiliá-la muito.
- Por que Vicente e Lucídia querem tanto o nosso mal?
Por que esse ódio? - perguntou Yuri.
- O esquecimento do passado é uma bênção, até mesmo em desdobramento ou emancipação da alma enquanto se dorme, como é o seu caso.
Se não se lembra, é porque precisa ser assim.
- Será necessário orientá-la, clarear suas ideias.
Lembrá-la de princípios e, muitas vezes, será bom somente estar junto - tornou o mentor.
- Mas essa aproximação pode...
Yuri olhou para seu mentor e perguntou:
- Estou confuso.
Não sei se terminei definitivamente com a Roxana.
E quanto a eu trabalhar o perdão e o meu orgulho?
Eu não deveria ficar com ela?
- Isso é livre-arbítrio, Yuri.
Perdoar não significa estar junto, mas pode ser também.
Em caso de traição, o outro fica livre.
Em nenhum planeamento reencarnatório é proposto traição, vingança ou qualquer outra coisa que complique ainda mais a situação evolutiva dos envolvidos.
Ela se desviou.
Você pode perdoar e ficar com ela.
Ou pode perdoar e deixá-la livre.
De qualquer forma a consciência de Roxana vai acusá-la.
Não precisa ser você o torturador algoz de acusação, tornando-se carrasco no lugar de vítima.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70168
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 24, 2017 11:00 am

Jogar fora é esquecer as ofensas.
Lembrando que ninguém é obrigado a se torturar, viver com alguém e suportar uma situação desagradável com as lembranças de um ocorrido.
- E se eu me aproximar de Sofia e nossos sentimentos despertarem?
Não era para ficarmos juntos nesta vida.
- Hoje é diferente.
Tanto George quanto Roxana não cumpriram o planeamento para esta reencarnação.
Você e Sofia estão livres - Pedro sorriu, mas Yuri não viu.
Abaixou a cabeça.
Nesse instante, Sofia começou a se revolver na cama.
Agitada, despertou num susto.
O ar parecia faltar em seus pulmões quando se sentou em desespero.
Yuri olhou para Vicente, que não podia percebê-lo, e Pedro avisou:
- Cuidado com o sentimento de raiva.
Procure entender que é um irmão infeliz.
Yuri se aproximou de Sofia.
Afagou-lhe a cabeça e a envolveu como se pudesse abraçá-la.
Beijou-lhe o rosto e acariciou-a com ternura.
O desespero a dominou.
Com as mãos trémulas, acendeu a luz de um abajur e pegou o celular.
Não demorou um instante e Yuri perguntou:
- O que é isso?!
O que estou sentindo?!
- Sua consciência, activada pelas necessidades do seu corpo físico, atrai-o de volta.
Em outras palavras, o celular dele tocava.
Seus órgãos auditivos ouviam e accionavam a alma de volta ao corpo.
Em uma fracção de segundo, com total esquecimento do que havia acontecido, Yuri acordou, atordoado, com o toque do aparelho.
Tacteou a cómoda, pegou o telefone e atendeu sem olhar para saber quem era.
- Pronto! - disse com voz grave e rouca.
- Yuri...
- Eu.
- É a Sofia.
Ele se sentou, acendeu a luz e disse:
- Fala, Sofia. Tudo bem?
- Não. Estou me sentindo muito mal.
Desculpe-me ligar.
É que estou desesperada e... - chorou.
- Fez bem em ter ligado.
Quer conversar? O que está sentindo?
- Tive um sonho confuso, estranho em mim.
Vi alguém me agarrando.
Não sei identificar quem era.
Senti uma impressão suja, feia e que colocava sua testa pregada a minha.
Eu senti medo... Um pânico... - chorou.
- Calma. Está tudo bem.
Foi só um sonho.
Breve pausa e perguntou:
- Sofia, quer que eu vá até aí?
- Não.
- Agora são... - olhou o relógio - Cinco horas.
Já está clareando. Dá um tempinho que eu chego.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70168
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 24, 2017 11:00 am

- Não. Não precisa.
Não quero te incomodar.
- Estou me trocando.
Daqui a pouco estou aí.
Tchau - foi firme, mas com certa gentileza na entonação da voz.
Ela ficou quieta.
Gostou de saber que ele iria para seu apartamento.
Não queria ficar sozinha.
Passado um tempo, Yuri se anunciou na portaria do edifício onde Sofia morava e ela permitiu que subisse.
- Oi. Entra - pediu ao abrir a porta e atendê-lo.
- Oi - beijou-a no rosto quando entrou.
Só então percebeu o que tinha feito.
Como foi que se convidou para ir até ali?
Afinal, Sofia era quase uma estranha.
Amiga de sua irmã, mas não tinha liberdade para fazer aquilo.
Porém, naquela altura, não poderia voltar atrás.
Como desfazer isso?
Yuri se sentiu sem jeito.
Deslocado, na verdade.
Aquilo não era hora para ir a casa de alguém.
Mas ele queria vê-la.
Guardou as chaves do carro no bolso da frente do jeans e colocou ambas as mãos nos bolsos de trás, enquanto a seguia para a sala.
Sofia, vestida com um agasalho leve e uma camiseta de uma numeração bem acima da sua, com estampa de várias florezinhas, sentou sobre as pernas dobradas, no sofá, e ele acomodou-se ao seu lado.
- Acho que não precisava ter se dado ao trabalho de vir até aqui.
- Fiquei preocupado com você.
Acho que seus pensamentos não estão bons nem equilibrados.
- Não. Não estão mesmo.
Para dizer a verdade, acho que minha fé, ou o que sobrou dela, foi o que me trouxe até aqui, nesse estágio, se não... - abaixou a cabeça.
Não queria encará-lo.
Depois confessou:
- Comecei a ter ideias destrutivas.
- Sabe que essas ideias não são suas.
- Aprendi, no Espiritismo, sobre a intervenção dos espíritos em nossos pensamentos.
Ele sorriu e quis brincar ao dizer:
- Que bom! Pelo menos isso você aprendeu.
Sofia sorriu com simplicidade e perguntou:
- Por que diz isso?
- Porque deixou que tudo isso acontecesse com você.
- Não deixei não - defendeu-se ela.
- Sempre permitimos que as coisas aconteçam com a gente.
- Não sei se concordo, totalmente, com isso, Yuri.
Acredita que eu quis ser enganada pelo meu noivo?
Que quis que minha sócia me passasse para trás?...
- Lógico que não quis.
Eu não disse que queria.
Eu disse que permitiu - explicou em tom brando, generoso, quase sorrindo.
Vicente se aproximou de Sofia, envolveu-a e usou-a para agredi-lo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70168
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 24, 2017 11:00 am

Ela, invigilante, deixou-se usar e por isso perguntou:
- E você, também permitiu que sua noiva fizesse o que fez com você?
Ponderado, respondeu com tranquilidade:
- Acredito que sim, também.
Ela balançou a cabeça, negativamente, e questionou:
- Como é possível pensar assim?
Você não permitiu nada!
Assim como eu!
- Em situações como as que ocorreram com a gente, por exemplo, quando eu não me manifesto, quando não tenho uma opinião ou não declaro as razões que justificam minha opinião a respeito de uma coisa ou situação, eu permito sim.
Ela ficou olhando-o e Yuri explicou melhor:
- Nunca pensei que eu precisasse chegar para a Roxana e dizer que não ia gostar de saber que ela saiu com as amigas sem me dizer nada.
Principalmente, com aquele tipo de amiga.
Acreditei que ela me contasse tudo, sem que eu precisasse perguntar.
Nunca pensei que tivesse de dizer para não se agarrar, trocar beijos com outro cara enquanto tivesse um compromisso comigo.
- Qual é, Yuri!
Será que precisamos dizer para o companheiro, namorado ou marido para não nos trair?!
- Dizer desse jeito não.
Mas podemos manifestar nossa opinião sobre não tolerar algumas coisas.
Eu, por exemplo, nunca cheguei para minha noiva e disse:
conheço o jeito de suas amigas e não aprovo.
Elas abandonam seus maridos, namorados e saem, passam a noite na balada fazendo... sabe-se lá o quê.
Enchem a cara...
Eu não gostaria de saber que você estava junto com elas.
Também nunca disse que não iria tolerar uma traição.
Pensou um pouco e disse:
- Às vezes, penso que deveria levar em consideração que ela é bem ingénua e estava embriagada.
Perdeu a compostura e não sabia direito o que fazia.
- Acha mesmo que precisava falar sobre isso antes de acontecer?
- Isso seria um bom reforço.
Seria a manifestação da minha opinião.
- Então eu também errei quando não disse para o meu noivo que ele não deveria me enganar?
- Não. Você não errou.
Você foi ingénua. Confiou demais.
A prova disso foi que demorou muito tempo para descobrir que as dívidas não foram pagas.
O mesmo aconteceu em relação a sua sócia.
Não acompanhou como deveria tudo o que ela fazia.
Resumindo, permitiu que eles fizessem o que fizeram.
Sofia abaixou a cabeça.
Uma nuvem de tristeza pairou em seu semblante.
- Esses pensamentos não saem da minha cabeça.
Não sei o que fazer.
Examinando, por cima, minha vida...
Tudo o que eu consegui, acabou.
Isso me arrasa... me destrói.
- Sabe, Sofia, não vou dizer que fiquei bem ou que não me importei com o que a Roxana fez de forma impensada.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70168
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 24, 2017 11:00 am

Eu confiava nela totalmente.
Fiquei bem pra baixo mesmo.
Precisei usar tudo o que aprendi na vida, no Espiritismo, e, principalmente, o que aprendi com minha mãe para me levantar.
A dona Leila sempre foi uma mulher forte.
Eu tinha onze anos, quando meus pais se separaram, e lembro muito bem de tudo o que ele fez com ela e tudo o que ela fez por nós.
O que aconteceu comigo é bem recente e ainda tenho lembranças e ideias ruins.
Sou humano. Mas, por outro lado, para fugir da tristeza e da amargura, passei a me concentrar mais no serviço.
Ser mais atento e mais expressivo no que se refere ao que eu quero e gosto.
O que não quero e não gosto não admito mais.
Sofri e ainda sofro, mas agora me posiciono mais.
Isso é ter opinião.
Talvez, isso me faltasse ainda.
Ela o olhava nos olhos.
Diante de tanta atenção, ele continuou:
- E por que estou falando isso?
Porque é o que eu acho que você pode fazer para se recuperar, se recompor.
Você confiou, totalmente, no George e na sua sócia?
Confiou. Foi correto? Não.
Vai fazer isso de novo?
Acho que não, né? - sorriu.
Então procure fazer crescer sua força interior, sua vontade de se erguer e reverter tudo isso.
Use tudo o que aprendeu na Doutrina Espírita.
Tudo o que aprendeu com as pessoas mais fortes que admira, como seu pai e sua mãe, por exemplo.
Essas pessoas servem de incentivo e motivação.
Proponha-se a uma vida nova.
A uma admirável vida nova!
Resgate-se! Resgate sua vida! - enfatizou.
Você é capaz. E inteligente.
Use isso! - exclamou sussurrando.
Sofia ouviu e não se pronunciou por algum tempo.
Depois disse:
- Já pensei nisso.
Mas, agora, parece que não tenho forças.
- É o momento de começar a se forçar.
Comece o quanto antes.
- Não é só começar uma vida nova.
Preciso arrumar o que está estragado.
- Então vai. Planeie alguma coisa - ele sorriu e a fitou.
- Começo por onde? - perguntou, como se implorasse.
- Pelo mais próximo. Comece por você.
Não podemos mudar e melhorar o que acontece à nossa volta se não mudarmos a nós mesmos, se não melhorarmos a nós mesmos.
Por isso, se quer começar a fazer algo, comece a fazer por você.
- Não encontro ânimo nem para sair da cama.
Ele olhou para a janela e viu a claridade gostosa que entrava pelas vidraças.
Com um tom afável na voz grave, convidou:
- Já está bem claro.
O sol está nascendo. Vamos dar uma volta?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70168
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 24, 2017 11:01 am

- Agora?!
- É. Agora. Vamos?
- Deixe-me...
- Não mude nada. Vá assim mesmo.
Nem precisa pôr um ténis.
Vamos descalços.
Faz tempo que não ando descalço.
Vou deixar meu ténis aqui.
Levantou-se, estendeu a mão e sorriu:
- Vem.
- Não. Antes vou trocar essa blusa.
Ele sorriu e concordou.
Sofia foi para o quarto e retornou rapidamente.
Ainda abatida, aceitou:
- Vamos.
Yuri enrolou as pernas da calça jeans e acompanhou Sofia.
Caminharam pela areia da praia.
Molharam os pés na água do mar.
Ficaram longo tempo em silêncio.
Em determinado momento, ele segurou suavemente em seu braço e a fez parar.
Sentando-se, convidou-a para sentar-se ao seu lado e ficaram olhando a linha do horizonte, onde o céu se encontrava com o mar.
O sol, um pouco mais alto, pairava entre as nuvens e resplandecia seus raios luminosos embelezando, maravilhosamente, o céu e o mar com uma cor dourada, incrivelmente, linda.
Um sentimento incomum envolvia aqueles dois corações.
Era a solidão. Sentiam-se sós.
Algo faltava em suas vidas, embora estivessem um ao lado do outro.
Uma nota de tristeza, profundamente fria, ecoava na melodia das lembranças dos lamentáveis acontecimentos recentes na vida de ambos.
Não eram pessoas que se iludiam.
Desejavam ou, talvez, até sonhassem com a paz interior, agraciada de trabalho honesto e felicidade.
Observavam o mar e perceberam que estava um pouco mais agitado do que quando chegaram.
As ondas, com cristas espumosas douradas com o amarelo do sol, estendiam-se até a areia.
O cheiro gostoso de mar inebriava os sentidos.
O murmurinho era calmante ao coração.
À medida que o toque suave do vento acariciava suas peles, quase frias, seus pensamentos se perdiam e vagavam longe, buscando organização e esperança.
Longo tempo se passou, até que um profundo suspiro de Sofia chamou a atenção do rapaz.
- Tudo bem? - Yuri perguntou.
- Tudo - murmurou e o encarou.
Seus olhares se tocaram por longos minutos até que ela abaixou a cabeça e disse:
- É melhor irmos.
Já tomei muito do seu tempo.
Yuri se levantou.
Bateu a mão na roupa para tirar o excesso de areia e estendeu a outra para Sofia, que aceitou e se levantou.
Ela também retirou a areia da roupa e, lado a lado, seguiram até o calçadão.
Enquanto caminhavam, ele exclamou:
- Ah! Lembrei de uma coisa! - animou-se.
- Do quê?
- Sempre estou para eu perguntar isso e acabo me esquecendo - sorriu.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70168
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 24, 2017 11:01 am

Alguma vez você estava, aqui, correndo ou caminhando e parou, lá perto dos equipamentos de ginástica, e esqueceu seu celular?
- É... Isso aconteceu sim.
- Fui eu!
Fui eu quem te chamou para pegar o celular.
- Sério?! - sorriu.
- Quando você foi a minha casa pela primeira vez com a Rute, eu sabia que a conhecia de algum lugar.
Mas não disse nada porque achei que seria ridículo usar essa fala tão gasta - riu.
Fiquei pensando por longo tempo, até que lembrei.
- Bom fisionomista.
Lembro do ocorrido, mas não fui capaz de te reconhecer.
Caminharam um pouco mais e ele perguntou:
- O que vai fazer hoje?
- Sinceramente, não sei.
- Quer ir a minha casa?
- Não. Não estou disposta - falava sempre no mesmo tom.
Sem empolgação, sem sorriso.
- Então comece cuidando do lado espiritual, Sofia.
- Eu estava fazendo assistência espiritual com passes no centro que frequento, mas parei.
- Volte. Não se descuide.
- Vou voltar. Na próxima semana, eu vou voltar.
- Por que não vai hoje?
Não tem actividade hoje lá?
- Tem, mas...
- Então vá! Só o facto de estarmos na casa espírita, nós já somos assistidos.
- Sei disso.
Seguiram até que ela lembrou de contar:
- Esqueci de te dizer que bati meu carro.
- Sério?!
- Um pedestre desatento saiu para a rua passando por entre dois carros.
Para desviar do sujeito bati em um outro veículo estacionado.
Foi perto da Avenida Brasil.
- Você tem seguro? - ele quis saber.
- Tenho. Ainda tenho - sorriu, forçadamente.
- Já mandou o carro para a oficina?
- Já agendei para a segunda-feira.
Entraram no prédio onde ela morava e foram para o apartamento.
Yuri pediu para ir ao banheiro enquanto Sofia decidiu fazer um suco de laranja.
Colocou algumas das frutas sobre a pia e pegou o espremedor.
Cortou-as e já tinha começado a espremer quando ele chegou à cozinha.
- Estou fazendo um suco para nós.
- Não tinha que se preocupar comigo.
Só quero um pouco de água.
- Os copos estão ali, naquele armário - apontou.
- Já descobri ontem.
Revirei sua cozinha - riu.
Pegou dois copos.
Foi até o filtro e se serviu de água.
Ela despejou o suco em uma jarra e se sentaram à bancada.
- Está se sentindo melhor? - o rapaz perguntou.
- Melhor do que ontem, sim.
Mas não estou no meu normal.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70168
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 24, 2017 11:01 am

- Eu sei o que é isso. Vai passar.
Invadindo seus olhos, agradeceu com voz afável:
- Obrigada, Yuri.
Tem feito tanto por mim...
- Por nada. Não tem o que agradecer.
Ficaram em silêncio enquanto bebiam o suco.
Levantando-se, vagarosamente, ele decidiu:
- Agora preciso ir.
Abre a porta para mim?
- Claro.
Quando o elevador chegou ao décimo sétimo andar, Yuri se curvou e a beijou no rosto.
Passou, suavemente a mão pelos seus cabelos e pelo rosto.
Olharam-se de modo diferente e puderam sentir uma atracção nunca experimentada antes.
Sofia não suportou e fugiu ao olhar.
Ele a beijou, novamente, no rosto e a abraçou, levemente, depois disse:
- Se cuida, tá?
- Pode deixar. Obrigada por tudo.
- Vê se me liga! - disse, quando o elevador ia fechando a porta.
- Tá bom. Me liga também!... - respondeu, mas achou que ele não ouviu.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70168
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 24, 2017 11:01 am

Capítulo 12 - O despertar de Valéria

Por causa da tempestade, durante a madrugada, tudo se encontrava húmido ou bem molhado.
O céu ainda estava escuro naquela manhã de sábado e Ágata, preguiçosamente, decidiu ficar um pouco mais na cama.
Ela olhou para o lado e viu que o marido já tinha se levantado.
O vento amainou o suficiente para Bernardo ficar na varanda.
Ele adorava olhar a chuva, escutar os gotejos tamborilando descompassados onde quer que caíssem.
Cheio de ideias e sabendo que a esposa ainda se achava na cama, decidiu lhe fazer um agrado.
Foi para a cozinha e começou a preparar um desjejum para a mulher.
Enquanto o café passava, arranjou sobre a bandeja, xícara e copo contendo suco de caixinha.
Cortou um papaia ao meio e sobrepôs em um pires.
Pegou alguns biscoitos, frios, pão e margarina e arrumou como pôde.
Despejou o café pronto em uma pequena garrafa térmica e ficou olhando como estava.
Rodou a cadeira até o quarto de Hélder, acordou o filho e pediu:
- Preciso de um favor.
Dá para vir até aqui? - falou de um modo preocupado.
- Claro, pai. O que é? - perguntou apreensivo e o seguiu.
Ficou interessado em saber do que se tratava.
Ainda assonorentado, quando viu o pai através da porta da sala aberta.
Foi até a varanda, olhou para a chuva fina, que começou a cair novamente, e perguntou:
- O que foi?
Bernardo sorriu largamente e perguntou:
- Tá vendo aquela rosa vermelha ali?
Hélder ficou desconfiado.
Imediatamente entendeu o que o pai queria.
Ele costumava fazer coisas desse tipo.
Então deduziu:
- O senhor me acordou a essa hora para eu sair, na chuva, para pegar uma rosa pro senhor dar pra mãe?! - indagou um tanto contrariado.
Mas o pai o desarmou com o tom de voz:
- Já que está aqui em pé...
Não custa nada, vai! - riu.
Pega logo e não reclama - brincou.
Não adiantava negar.
Descalço, Hélder correu até o jardim, pisou o gramado molhado e chegou até a roseira.
Colheu a flor indicada e voltou entregando-a ao pai.
- Aeeehhh, filhão!... Obrigado!
Alargou o sorriso, pegou a rosa com cuidado e tirou alguns espinhos.
- Algo mais? - perguntou Hélder, sorrindo agora.
- Só uma coisinha...
O filho secou os pés e o seguiu.
Bernardo rodou a cadeira até a cozinha, pegou a bandeja, deitou a flor em cima e pediu:
- Abra a porta do meu quarto e fecha depois.
Olhou para o filho, sorriu e disse:
- Vê se aprende a fazer isso, viu?
Mulher gosta de ser lembrada.
Mulher gosta de carinho, atenção e cuidado.
São coisas tão simples de se fazer...
Esse é o combustível para alimentar a chama de um casamento feliz.
O filho riu.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70168
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 24, 2017 11:01 am

Fez o que o pai pediu e voltou para seu quarto.
Pensativo, Hélder começou admirar a forma carinhosa e atenciosa com que o pai tratava sua mãe.
Bernardo sempre foi daquele jeito, desde que se lembrava.
Fazia agrados e delicadezas, mesmo sem ter uma data especial.
Uma vez, quando o viu fazer certo mimo, perguntou ao pai o que estavam festejando e o homem respondeu:
Comemoramos estarmos um ao lado do outro.
Nunca os viu brigar e também jamais ouviu falar de um casal que conversasse tanto.
A mãe era uma mulher que gostava de diálogos e o pai ouvia.
Não recordava de grito ou manifestos de insatisfação de modo abrupto.
Enfrentavam dificuldades, sim e, diga-se de passagem, muitas.
Porém eram equilibrados.
Hélder apreciava ver sua mãe pensando em preparar ou arrumar algo para seu pai e de vê-lo fazer o mesmo.
Ágata tinha uma caixa cheia de bilhetes e cartões que recebeu do marido durante todos aqueles anos juntos.
Seu pai era o tipo de homem que, apesar de tantos anos junto com a esposa, ainda deixava bilhetinhos apaixonados para a mulher e sempre comprava cartões de amor para ela.
Muitas vezes, para comprar esses cartões, precisava da ajuda dos filhos.
E eles colaboravam.
Pensando nisso, Hélder sorriu.
Lembrou-se de comentários, em família, em que soube que Alex, seu irmão, fazia o mesmo com sua mulher Ivone.
Aprendeu aquilo com o pai.
Alex e Ivone viviam tão bem.
Tinham um casal de filhos lindos.
Como seus pais, sempre viviam de mãos dadas e sempre tinham discretas trocas de carinhos e beijinhos.
Enquanto reflectia sobre aquilo, questionou-se:
"Seria possível, um dia, ter alguém para fazer o mesmo? Difícil!
As mulheres de hoje são diferentes.
Agitadas demais e eu quero uma vida calma e harmoniosa.
Igual a dos meus pais.
Mas... Quem sabe?
Se eu encontrasse a pessoa certa, que não grite nem brigue por pouca coisa...
Alguém que não aceitasse a opinião alheia e que quisesse dividir tudo comigo...
Mas também, para isso, é necessário procurar no lugar certo.
Em baladas, barezinhos é pouco provável que encontre esse tipo de companheira consciente" - foi no que acreditou.
Ele não sabia que a união perfeita não existe.
O que existe são uniões que se aperfeiçoam.
A união equilibrada não depende de um, mas de dois.
Quando as pessoas querem evoluir, elas se unem ou se casam.
E se querem evoluir mais ainda, elas preservam essa união e a levam adiante com respeito, carinho e compreensão.
Enfrentando todos os desafios juntas.
Voltou para a cama, mesmo sabendo que havia perdido o sono.
Pegou o celular e olhou as horas.
Em um dia chuvoso e um pouquinho frio como aquele, o que fazer?
Não tinha ideia.
Mexeu no celular.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70168
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 25, 2017 11:12 am

Consultou notícias e até informações sobre o tempo.
Uma ideia lhe surgiu rápida e animadamente:
- Vou sacanear a Rute! - disse em voz alta, fazendo expressão de molecagem.
Ligou.
Pensou em brincar como faziam entre os irmãos.
Eles tinham essa mania.
Alguns toques e perguntou:
- Acordei você?
- Não.
- Ah! Que pena!
Amanhã vou ligar mais cedo.
Ela riu gostoso e ele quis saber:
- Como vai? Tudo bem?
- Tudo. E você?
- Acordei agora.
Já fiz a minha boa acção do dia... - riu.
Ela se interessou em qual era a boa acção e ele contou sobre a rosa que foi buscar no jardim para seu pai dar a sua mãe.
- Ai! Que lindo!!!
Jura que ele faz isso?
- Há muitos anos.
- Amei! Ela deve ser uma mulher muito especial para ser merecedora de tanto afecto.
- É sim.
Um momento e perguntou:
- E então!... O que vai fazer hoje com esse tempo?
- Não tenho a menor ideia. E você?
- Também não - ele confessou.
Em seguida, perguntou:
- Assistiu ao filme que indiquei?
- Não. Não tive tempo.
Talvez para não se sentir culpada por não ter assistido à indicação do amigo, Rute quis saber:
- Leu o livro que te emprestei?
- Li sim. É óptimo!
Muito bom mesmo.
Pensei que, em romances espíritas, iria só encontrar desencontros - riu do trocadilho.
Um sofrendo desencarnado e o outro aqui.
Rute ficou desapontada consigo mesmo.
Pensou que ele não tivesse lido.
Contudo, interagiu com o que ele falava.
- É porque você não conhece.
Em romance tem muita coisa boa.
Gosto de obras que trazem ensinamentos.
Sem saber o que dizer, Hélder perguntou subitamente:
- Quer vir aqui em casa hoje?
Ela se surpreendeu com o convite.
O que iria fazer lá?
Curiosa, quis saber:
- Para quê?
- Assistir ao filme que te falei.
Quer? - insistiu na pergunta.
Ela sorriu. Gostou do convite.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70168
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 25, 2017 11:12 am

- À tarde? - indagou.
- Óptimo. A tarde.
- Tudo bem. Vou sim.
- Legal! Então vou te buscar às 14h.
- Pode ser às 15.
- Óptimo! Eu passo aí.
- Fico te esperando.
Despediram-se.
Ambos ficaram muito satisfeitos com o programa.
* * *
Enquanto isso Ágata, que acabava de tomar seu café no quarto, beijava Bernardo pela amostra de carinho.
- Estava uma delícia seu café. Obrigada.
- Por nada - pegou sua mão, fez um carinho e beijou.
- Com esse tempo e você saiu na chuva para pegar a rosa?
O marido sorriu ao responder:
- Uma parte de mim saiu.
Ela achou graça.
O marido sempre brincava.
Queria adivinhar o que ele tentava dizer com aquilo.
- Uma parte sua saiu?
Como assim? - ela perguntou, sorrindo.
- Sim. Na verdade, metade de mim saiu.
Aquela metade que doei para o Hélder.
A esposa riu e ele completou:
- Tenho esse direito.
- O Hélder está mudando.
Graças a Deus! - exclamou a mãe, unindo as mãos como em prece.
- Para mudar é preciso querer.
Ainda bem que quis.
Ele me disse que está frequentando o centro aonde a Sofia vai.
Decidiu estudar a Doutrina Espírita.
Não sei o que aconteceu.
Foi uma mudança repentina.
Óptima mudança, por sinal.
Ele nunca acreditou nisso.
Para dizer a verdade, eu estava muito preocupado com o Hélder nos últimos tempos.
Chegava tarde e cheirando à bebida.
Estava com um comportamento estranho.
- Ele precisa encontrar uma boa moça e casar.
Assentar a cabeça.
Assumir responsabilidades não deixa a pessoa à toa e fazendo besteiras.
- Você já percebeu que ele saiu com alguém.
- Percebi sim - ela disse.
- E a Valéria?... Não dá notícias...
- Tornei a ligar para ela e nada. Não atende.
- O que a Sofia tem falado? - Bernardo quis saber.
- A Sofia também está estranha. Está sumida...
Não veio almoçar essa semana.
Mesmo quando eu não ligo, ela vem.
Deve estar com algum problema.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70168
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 25, 2017 11:12 am

- Mas, pelo menos, a Sofia atende ao telefone.
Vou telefonar para ela mais tarde.
O pai fez a ligação, porém não a encontrou em casa.
* * *
Mais tarde...
Sofia procurou George a fim de buscar soluções para as dívidas que ele assumiu e comprometeu seu nome.
A conversa começou a ficar acalorada.
- Você tem que dar um jeito, George!
Confiei em você!
- O que quer que eu faça?
Que roube um banco?! Eu também não tenho, tá!
O investimento deu errado... Também perdi muito!
Aproximou-se dela.
Quando tentou lhe fazer um carinho, Sofia afastou a face.
- Ei! Qual é?!
- Não há mais nada entre nós.
Não percebe isso?! Você me enganou.
Não me respeitou e não parece nem um pouco sentido por isso.
- O que queria?
Quer me ver chorando e reclamando? Ora!!!
Dá um tempo!
- A única coisa que quero é que pague a dívida e limpe meu nome!
Venda o seu apartamento!
- Vender meu apartamento?!!!
Tá de brincadeira, né?!
- Você é um canalha!
Como pude me enganar tanto?!
- Não sou obrigado a ficar ouvindo isso de você, Sofia!!!
Dá o fora da minha casa, vai! Some!!!
Sofia tomou um susto.
Não esperava por aquela reacção.
Atordoada, não disse mais nada.
Virou-se e se foi.
Estava sem carro.
O seu havia ficado na oficina para consertar.
Tinha ido até ali de táxi, mas não chamou outro para ir embora.
Saiu andando, pela calçada, mesmo sob a garoa fininha que caía.
Por causa dos pensamentos confusos, não prestava atenção ao que acontecia a sua volta.
Nem percebeu quando a garoa parou.
Caminhou um pouco e chegou à avenida principal onde virou e quase trombou com alguém que, distraído, pediu:
- Desculpa.
- Desculpe-me, você - ela retribuiu.
- Sofia?
Ela olhou de modo mais directo e reconheceu:
- Gustavo? - era o amigo da época de faculdade.
- Quanto tempo, Sofia!
- É mesmo. Quanto tempo.
Acho que não nos vemos há uns...
Dez anos? - ela perguntou.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70168
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 25, 2017 11:12 am

- Por aí. Fui fazer curso nos Estados Unidos.
Morei lá um tempo.
Voltei, morei em São Paulo e agora estou no Rio.
E você, como está?
- Bem. Não fui para nenhum lugar.
- Lembro que você e a Vânia... Vânia, não é?
- Sim. Minha sócia.
- Vocês entraram numa de montar uma empresa. Deu certo?
- A princípio deu.
Gustavo olhou para o relógio e convidou:
- Vamos almoçar.
Tenho tempo e ali tem um bom restaurante.
Precisamos comemorar esse reencontro.
O espírito Vicente, que sempre a acompanhava, incentivou:
- Não tem nada a perder.
Vá se distrair um pouco.
Uma dúvida pairou nos sentimentos de Sofia.
Não estava disposta nem a almoçar.
Queria ir para seu apartamento.
Estava chateada com o que aconteceu entre ela e George.
- Vá para casa e ore. Descanse.
Não precisa de companhia desse tipo - seu mentor orientou.
Mas ela não atendeu a esse impulso.
- Está bem. Vamos, sim.
Estou precisando me distrair um pouco.
No restaurante, conversaram bastante.
Pelo menos, o suficiente para que Sofia se esquecesse um pouco de seus problemas.
Gustavo era alegre e extrovertido.
Sabia encantar as pessoas.
Após a refeição e um bom bate-papo, ele decidiu:
- Agora preciso ir.
Você está sem carro?
- Vou pegar um táxi.
- Não. Nem brinca.
Eu a levo. Vai para casa?
- Não. Pretendo ir a casa de uma amiga.
- Então eu a levo.
Antes, porém, preciso do número de seu telefone.
Não quero perder mais o contacto com minha amiga - sorriu e sobrepôs a mão à dela que estava sobre a mesa.
Ela sorriu e forneceu seus contactos.
* * *
Passado um tempo, Sofia chegava à casa da amiga.
Gustavo a deixou em frente ao portão e se foi.
Recebida por dona Leila, a senhora a fez entrar e respondeu a sua pergunta:
- Ela me disse que iria para a casa de seus pais.
O seu irmão a convidou.
Até pensei que você estaria lá.
- Então deixa, dona Leila.
Eu falo com a Rute outra hora.
- Não. Entra! Faço questão.
Vamos conversar um pouquinho.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70168
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 25, 2017 11:13 am

Na sala, Sofia se acomodou no sofá e a mulher indagou:
- Como andam as coisas?
- Preocupantes. Fui conversar com o George e acabamos brigando.
Terminei tudo com ele.
- Lamento, Sofia.
- Eu ainda mais.
É tão difícil a gente confiar em alguém e ser enganada.
- Você está indo ao centro espírita?
- Às vezes.
Tudo está acontecendo ao mesmo tempo.
Nem sempre dá para ir e... - tentou encontrar desculpas, mas sabia que lhe faltava iniciativa.
- Sabe, Sofia, os espíritos não podem fazer muita coisa por nós, principalmente não podem nos carregar no colo.
Quando você se eleva a Deus, por meio de pensamentos e preces, os benfeitores espirituais ficam mais presentes em sua vida.
Eles concedem energias, bênçãos para que você se fortaleça e tome a melhor decisão.
Sofia respirou fundo.
Sabia do que a senhora falava.
Ela respirou fundo e um vulto atraiu sua atenção.
- Oi! Tudo bem? - perguntou Yuri, sorrindo ao se aproximar.
- Oi. Tudo. E você?
Ele a cumprimentou com um beijo no rosto e ela correspondeu.
O rapaz se sentou em outra poltrona.
Ficou feliz com a visita inesperada.
Observou-a e percebeu que Sofia ainda trazia, no semblante, um vulto de tristeza, uma falta de alegria e um pesar muito grande.
Estava abatida e a ausência de sorriso a deixava com uma aparência bastante séria.
A senhora se levantou e disse:
- Vou preparar um suco para nós!
- Não precisa se incomodar, dona Leila.
- Não é incómodo nenhum - afirmou, saindo do recinto.
A sós com Yuri, Sofia comentou:
- Pensei muito no que conversamos outro dia.
No momento, não estou conseguindo começar uma vida nova, pois ainda estou presa na velha.
Ele compreendeu e disse:
- É que você está presa nas soluções que precisa encontrar.
- É isso. Hoje, antes do almoço, fui conversar com o George.
Discutimos. Brigamos.
Saí da casa dele bastante decepcionada.
- Conversou com sua sócia também?
- Foi a mesma coisa.
A Vânia me deu um golpe e...
As lojas estão fechando.
- Para que se sinta aliviada, seria bom se começasse a pagar as dívidas ou, ao menos, negociá-las com os bancos, financeiras e o que for.
- Só existe um jeito de eu pagar o que devo, Yuri.
Ele a fitou firme e Sofia falou, sentindo um nó na garganta:
- O jeito é vender meu apartamento.
- Se fizer isso dá para pagar tudo o que deve?
- E ainda sobraria.
Mas, nada paga o preço da traição.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70168
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 25, 2017 11:13 am

Dona Leila chegou à sala com uma bandeja.
Serviu suco e uma porção de salgadinho.
- Acho que você vai gostar, Sofia.
É suco de carambola.
- Adoro. Obrigada.
- O Yuri gosta muito.
- Na verdade, não tem suco de que eu não goste - ele afirmou e riu.
Nesse instante, a campainha tocou.
A senhora, que havia acabado de se sentar, levantou-se para atender.
E houve certa demora.
Ao retornar, podia ser visto uma feição preocupada no rosto da senhora e, logo atrás dela, alguém que a seguia devagar.
- Yuri.
O filho a olhou e a mãe anunciou:
- A Roxana está aqui e quer falar com você.
O rapaz respirou fundo e fechou o semblante.
Roxana era uma moça bonita.
Alta e de corpo bem feito.
Cabelos longos e aloirados.
Ela se aproximou e cumprimentou:
- Oi, Yuri. Como está?
- Bem - mal a olhou e curvou-se, colocando o copo sobre a mesinha central.
- Roxana, esta é uma amiga da família, Sofia.
Sofia, esta é a Roxana - apresentou dona Leila, sem saber como se referir a ex-noiva do filho.
Cumprimentaram-se e a senhora pediu:
- Sofia, importa-se de continuarmos o nosso bate-papo lá na cozinha?
- Claro que não! - Levantou-se e pegou seu copo, seguindo a dona da casa.
No outro cómodo, dona Leila pediu que Sofia se sentasse.
Atenciosa, levou mais um copo para a sala, para Roxana se servir de suco.
Voltou.
Apreensiva, sentou-se à mesa em frente à Sofia e confessou:
- Eu achei que ela iria procurá-lo novamente, mas não pensei que seria tão rápido.
- Ele ainda está muito magoado pelo que ela fez, não está?
- Está. O Yuri se decepcionou muito.
Afinal, qual noivo não ficaria magoado quando, faltando alguns meses para o casamento, visse fotos de sua noiva se beijando com outro sujeito?
- É difícil mesmo.
Ela deve ter vindo pedir perdão.
Se ele amá-la, vai perdoar.
- Ele pode perdoar, mas...
Será que fica com ela?
Breve pausa e considerou:
- São duas coisas diferentes, Sofia.
A Roxana sempre foi uma boa menina.
Eu acredito nela.
Acredito que a bebida foi a culpada pelo que fez.
Sempre falei para os meus filhos:
quer ver o lado desequilibrado de alguém?
Deixe-o beber à vontade!
Em algum momento, a pessoa vai se revelar.
- E aquele que não bebe?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70168
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 25, 2017 11:13 am

- Geralmente, quem não bebe, é porque já aprendeu o caminho das pedras e passou por ele.
Conhece a si mesmo muito bem e gosta do mundo real.
- Não gosto de lembrar disso, dona Leila, mas...
Quando eu estava na faculdade, sempre saía com a turma e acabava tomando uma cerveja ou chope.
Depois, passava mal.
Ficava péssima no dia seguinte.
Nem eu me aguentava.
Nessa época, arranjei um namorado - sorriu, levemente, ao se lembrar da pessoa.
Gostava muito dele.
Nós saímos com a turma e eu passei mal perto dele.
Que vexame! O rapaz me deu o fora, claro.
Era um carinha do bem. - Breve pausa.
Foi bem difícil para mim.
Fiquei tão decepcionada comigo mesma.
Então, nunca mais bebi.
Decidi levar uma vida mais saudável.
Tornei-me vegetariana e não me arrependo disso.
Selecciono o que como e bebo.
- Você tirou uma lição boa da experiência ruim. Isso é evolução.
É triste quando fazemos algo errado e não aprendemos e tornamos a repetir o que nos fez mal.
Nesse momento, Thor, o cachorro da família, chegou abanando o rabo para Sofia.
Ela o acariciou e dona Leila se levantou e disse:
- Está na hora de ele ganhar uma cenoura.
- Ele gosta de cenoura? - achou graça.
- Adora!
A senhora descascou o legume, cortou em pedaços e falou para Sofia:
- Toma! Dê para ele - fez isso por saber que o animal era extremamente dócil.
Sofia adorou a experiência.
Nunca tinha tido um cachorro tão grande comendo em sua mão.
Enquanto elas conversavam, no outro cómodo Roxana, com lágrimas correndo na face, pedia:
- Preciso do seu perdão, Yuri!
Como eu já disse: não sei o que aconteceu.
Amo você!
Breve pausa, em que a voz embargada a interrompia e prosseguiu:
- O cara se aproveitou de mim. Eu tinha bebido.
- Não tinha bebido antes de ir para lá, Roxana.
Por que não me falou?
Por que me enganou?
- Eu não te enganei!
- E que nome você dá ao que fez?! - ele perguntou em tom calmo e firme, olhando-a fixamente.
- Você nunca errou?
Nunca fez algo sem querer? - perguntou chorando.
- Em termos de traição, não.
Pelo menos nesta vida, eu nunca traí ninguém.
- E não é capaz de perdoar?
Justo você que aceita e concorda tanto com o que ensina Jesus e o Espiritismo sobre o perdão?
Ele ficou pensativo e respondeu:
- Não sei como viver com a lembrança do que eu vi.
Como é que será, para mim, ficar ao lado de alguém que se agarrou e se beijou com outro cara quando faltava pouco para se casar comigo?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70168
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 25, 2017 11:13 am

Será que foi só essa vez?
Será que depois não saíram dali para outros lugares e outras coisas?
Sim, porque é isso o que, geralmente, acontece nas baladas.
Pessoas saem com pessoas, envolvem-se, relacionam-se, transam e nunca mais se vêem.
- Não! Não! Não! Nada disso!
Por favor. Nunca aconteceu nada.
E não aconteceu nada mais do que você viu! - Breve pausa.
Secou o rosto e se recompôs.
Mudou de poltrona e foi para perto dele.
Vamos tentar. Você vai ver.
Vai poder me perdoar.
Vai até ter orgulho de você por saber que pode perdoar.
Se tivesse se enganado como eu, gostaria de ser perdoado, não gostaria?
Não ouviu resposta.
- Eu amo você, Yuri!
Por favor, me perdoa.
* * *
Longe dali, na casa de Bernardo, todos assistiam ao filme que Hélder propôs.
Flávio se juntou a eles e passaram uma tarde bem agradável, regada a pipoca e refrigerante.
- Muito legal! Bom mesmo! - Rute exclamou ao término do filme.
--Também gostei! - concordou Hélder.
- Legal! De uns tempos pra cá, você está ficando mais selectivo.
Você não era assim não - disse Flávio ao irmão.
- Quando seleccionamos e escolhemos coisas boas, evoluímos - tornou Rute.
- Então eu sou muito evoluído!
E faz tempo! - anunciou Bernardo rindo.
Olha quem eu seleccionei para ficar ao meu lado pelo resto da vida! - pegou a mão da esposa, que estava sentada ao seu lado, e beijou.
Rute sorriu. Admirou a cena.
Fazia tempo que não via um casal, com tantos anos de casados, trocar carinho.
- Como vocês dois conseguem ter um casamento feliz e sem desgastes depois de tantos anos? - ela perguntou em tom satisfeito.
Bernardo não pensou muito e respondeu:
- Quando nós éramos jovens, a vida não era fácil.
Tudo que conseguíamos era com muito sacrifício.
Nossos pais, que vinham de tempos mais difíceis do que os nossos, nos ensinaram a conservar as coisas.
Mas acidentes aconteciam e, quando algo quebrava, não era como hoje em dia, que o povo joga fora.
No nosso tempo, éramos obrigados a consertar.
Casamento é assim.
Para ser harmonioso e duradouro, temos de viver de adaptações, reparos, ajustes.
Sempre temperado de carinho e atenção.
No casamento, é assim:
a gente tem que conservar e consertar.
A sábia explicação deixou os filhos e a visitante pensativos.
* * *
Longe dali, Valéria pensava na família.
Sua vida com Everton não estava sendo tão fácil.
Acreditou que ele mudaria, que a trataria melhor.
Quando saiu do serviço, achou que o companheiro não teria mais ciúme, pois entendia que o mau humor, que, muitas vezes, era seguido de agressões emocionais ou físicas, não ocorreria mais.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70168
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 25, 2017 11:14 am

Porém, enganou-se.
Everton, que bebia dizendo ser esse um hábito social, aumentou a ingestão de álcool.
Isso dava força a sua covardia e o fazia mais agressivo.
Havia proibido Valéria de sair de casa.
Deixava-a sem dinheiro e guardou seus documentos.
No dia anterior, chegou tarde.
Discutiram por assunto insignificante e ele a feriu fisicamente.
Naquele sábado, logo cedo, Everton a agrediu, novamente, depois de uma briga.
Saiu, em seguida, sem dizer aonde ia.
Ela ficou machucada, sofrida e cuidando de tudo.
O medo a impedia de qualquer atitude.
Era Valéria quem precisava deixar o apartamento sempre limpo e muito bem arrumado ou o companheiro a agrediria emocional ou fisicamente, pois gostava de tudo, perfeitamente, asseado.
Tudo bem cuidado.
Valéria, extremamente triste, amedrontada, desequilibrada emocionalmente, tinha dificuldades até para raciocinar.
Não sabia o que fazer.
Arrependeu-se de estar com ele, porém não via saída para voltar atrás.
Todos de sua família haviam avisado, falado muito, mas ela não acreditou.
Pensou que seu amor o faria uma pessoa melhor.
Chorou enquanto arrumava um armário.
Pegou sua carteira, que estava sem os documentos, virou as repartições e encontrou fotos de seus pais, irmãos e sobrinhos.
Como voltar para eles?
Como recuperar sua vida?
Como se resgatar daquela situação?
Antes trabalhava. Tinha seu dinheiro.
Auxiliava com algumas despesas em casa.
Agora, não tinha nada.
Everton havia rasgado e jogado fora algumas de suas melhores roupas.
Vestia-se com peças extremamente simples.
Até sua beleza parecia ter sido destruída pelo companheiro.
Havia perdido o brilho, a jovialidade.
Sua pele, antes brilhosa, encontrava-se opaca.
Seus cabelos maltratados, sem corte, sem brilho, sem vida.
Virou outra repartição da carteira e encontrou um folhetinho com uma prece.
Imediatamente, lembrou-se do motorista de táxi que lhe deu aquilo e a reconheceu após seguidas corridas.
O homem tinha dito que ela não estava tão sorridente como em outros dias.
Achava-a muito triste.
Pediu até para fazer uma oração ou ler aquele folheto.
Aquele foi o período em que Everton entrou em sua vida.
Antes disso, realmente, sorria mais.
Era mais alegre, disposta e sem problemas.
Não sofria maus-tratos nem agressões físicas ou psicológicas.
Seu pai nunca havia lhe batido. Sua mãe, sim.
Mas foi um tapa no bumbum depois que ela e os irmãos aprontaram alguma coisa.
Não sabia o que era sofrer daquele jeito.
Tremendo, sentiu uma onda de pânico.
Lágrimas correram por sua face pálida e machucada.
Secou-as com as mãos e tornou a pegar o folheto com a mensagem de Francisco Cândido Xavier.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70168
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 25, 2017 11:14 am

Nunca orou.
Não sabia como iniciar uma prece.
Não havia feito isso sozinha antes.
Embora seus pais sempre insistissem para que rezasse, para que acreditasse em algo mais.
Não. Ela não acreditava naquilo.
O Everton lhe tirou tudo.
Olhou para a mensagem em suas mãos e começou a ler.
Lágrimas correram, mais ainda, em seu rosto.
Terminado, fechou os olhos e foi como se ouvisse a voz de seu pai em seus pensamentos.
Como se ele fizesse uma prece com ela.
Em pranto, pediu, fervorosamente, a Deus que a tirasse daquela vida, daquela situação.
Estava com vergonha de procurar alguém de sua família para pedir ajuda.
Principalmente, agora, que não tinha nada.
Nem mesmo um trabalho.
Sentia-se sem forças, com muito medo e rogou auxílio como se implorasse.
Cessou a prece e secou os olhos com as mãos.
Respirou fundo e continuou com o que fazia até que o interfone tocou.
Atendeu e lhe pediram para receber uma encomenda na portaria do prédio.
Valéria sentiu medo.
Everton havia lhe proibido de atender ao interfone.
Fazia tempo que não saia para nada.
Ele sempre trancava a porta.
Nesse instante, lembrou-se que tinha uma chave reserva.
Se ele soubesse que essa chave existia, ela não saberia qual o resultado.
Valéria olhou-se no espelho.
Observou o roxo em torno do olho direito e o corte no lábio inferior, resultado das agressões de Everton.
Por sorte, as marcas, em seu corpo, poderiam ser cobertas com vestimentas.
Colocou os óculos escuros, deixou os cabelos soltos e caídos na frente do rosto e foi pegar o pacote na portaria.
Quando lá chegou, o funcionário a recebeu com alegria.
- Boa tarde, dona Valéria!
Quanto tempo não vejo a senhora!
- Boa tarde, senhor Lucas.
- Tudo bem com a senhora?
Aquela pergunta provocou-lhe grande dor nos sentimentos.
Gostaria de responder: não.
Não estava bem. Nada bem.
Mas não teve coragem.
Abaixou a cabeça, perguntando em vez de responder:
- Tem uma encomenda para mim?
- Na verdade é para o senhor Everton.
Está aqui - entregou--lhe o pacote.
Ela pegou o embrulho, assinou o recibo e se virou.
- Dona Valéria!
Voltou-se sem encará-lo.
- Pois não.
- Desculpe a minha intromissão, mas...
A senhora tem a idade da minha filha e...
Se fosse a Angelina, minha filha, eu não gostaria de vê-la assim.
Um momento de silêncio e, vendo-a parada e cabisbaixa, ainda disse:
- Faz um tempinho, sua irmã esteve aqui e deixou um cartão comigo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70168
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 25, 2017 11:14 am

Eu não queria ligar para ela, não, mas pensei muito em fazer isso.
Aqui a gente fica sabendo das coisas e...
A mulher que morou antes, com ele, não foi tratada diferente não.
Só que ela teve força e tomou uma atitude.
- O que ela fez? - indagou com voz fraca.
- Foi embora - respondeu com simplicidade e piedade no tom da voz.
A senhora é instruída. É advogada.
Tem profissão. Não precisa se sujeitar a isso.
Sabe, tem coisa que não tem jeito.
Não adianta só rezar.
A gente tem que ter uma opinião e tomar uma atitude.
- Obrigada, senhor Lucas - agradeceu e se virou.
O homem não entendeu.
A princípio, o porteiro ficou constrangido.
Não deveria se meter na vida dos moradores.
Aquilo poderia lhe causar problemas.
Mas aconteceu algo que ele não podia prever. Não tão rápido.
Pouco tempo depois, Valéria, vestida com outra roupa, calçada com sapato e óculos escuros e uma sacola de plástico onde se podia ver outras peças de roupa, passou pela portaria, parou por um momento e disse:
- Obrigada, senhor Lucas.
O senhor me ajudou muito.
- Em quê?
- Ajudou-me a tomar uma atitude. Deu-me força.
- Vá com Deus!
Boa sorte! - sorriu satisfeito.
- Obrigada.
Fica com Deus também.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70168
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 25, 2017 11:14 am

Capítulo 13 - Lei Maria da Penha

Sentindo a adrenalina fermentar em seu corpo, Valéria experimentou uma sensação nervosa, seguida de tremor e muita ansiedade ao ganhar a rua e ir directo para um ponto onde entrou no primeiro lotação que passou.
Havia pegado algumas moedas encontradas em uma gaveta.
O suficiente para pagar a passagem da condução que a levou até o terminal.
Ainda teve de fazer uma boa caminhada até chegar ao prédio do apartamento onde a irmã morava.
Sofia não estava e precisou esperar.
Quando escureceu, ela chegou.
Extremamente surpresa, ficou contente em ver Valéria.
Abraçaram-se forte.
Sem palavras, afastaram-se por um momento.
Valéria tirou os óculos para vê-la melhor.
Lágrimas escorreram na face de ambas.
Entrelaçaram-se num abraço e entraram no edifício.
Sofia abriu a porta do apartamento e pediu:
- Entre e fique à vontade.
Constrangida, a irmã deu alguns passos e olhou ao redor.
Pensou que deveria ter ficado ali, desde a última vez.
Foi para a sala, enquanto Sofia se dirigiu para a cozinha retornando com dois copos de água em pequena bandeja.
- Obrigada - aceitou e se sentou.
Sofia ocupou a cadeira em frente à irmã.
Tomou alguns goles de água e perguntou:
- Como você está?
- Nada bem.
Como pode ver... - não terminou a frase e chorou em silêncio.
Secou o rosto, depois desabafou:
- Não aguento mais.
Fiz uma prece pedindo ajuda, pedindo luz...
Desci à portaria para pegar uma encomenda e encontrei o senhor Lucas.
Ele conversou comigo e contou que você deixou um cartão com ele.
Achei que essa conversa foi uma luz, um sinal e decidi vir para cá. - Longa pausa.
- Perdi tudo.
Não tenho nem meus documentos.
Só me restaram estas roupas do corpo e as poucas peças que estão, ali, naquela sacola pequena - olhou para a cadeira da mesa da sala de jantar onde estava a sacola.
- Por que deixou isso acontecer, Valéria? - perguntou num murmúrio.
- Não sei explicar.
Só sei que estou com medo.
Muito medo - chorou.
Sofia se sentou ao seu lado e a abraçou com força, confortando-a.
- Valéria... Tudo vai ser diferente agora, se você quiser.
Afastando-se um pouco, olhou-a nos olhos e afirmou:
- Quero mudar.
Quero sair dessa vida, mas não sei como nem por onde começar.
Só sei que sinto medo.
- Você vai superar esse medo.
Só que, para isso, precisa fazer alguma coisa.
Esse medo não vai passar, se não enfrentá-lo.
- Enfrentar, quem? O medo?!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70168
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 25, 2017 11:14 am

- Enfrentar tudo, minha irmã!
Quando enfrentamos situações, tomamos atitudes, vencemos o medo e ele deixa de existir.
- Por onde devo começar? - indagou Valéria, encarando-a.
- Indo à delegacia e prestando queixa do safado.
Ela estremeceu.
Não sabia se estava preparada para enfrentar essa situação.
- Mas... - titubeou.
- Não tem mas, Valéria!
Tem que ser feito.
Você é advogada e sabe disso!
- Não sou especialista em violência doméstica e violência à mulher.
- Mas sabe onde procurar ajuda e vai fazer isso!
É por receio, por medo, por covardia que muitas mulheres, agredidas, não tomam uma atitude e deixam seus agressores impunes.
Sofia ofereceu uma pausa para que a irmã pensasse.
Depois perguntou:
- Tudo bem que não é especialista em violência doméstica, mas deve ter alguma noção.
O que aconselharia para um caso de agressão à mulher?
- Ir à delegacia da mulher e instaurar inquérito policial.
Dizer que pretende dar continuidade ao processo.
- Você precisa de um advogado ou pode se representar?
- Não. No primeiro instante não preciso de advogado.
Mas o auxílio de um é interessante e...
Caso a vítima não tenha condições financeiras, terá direito a um advogado da assistência jurídica.
É só ir ao fórum e pedir informações a respeito e lhe será apresentado um advogado do Estado.
Se a vítima solicitar à Polícia Militar, pelo número 190, no momento da agressão e o agressor for preso em flagrante, ele será conduzido por policiais ao Distrito Policial.
A vítima, então, dirige-se à delegacia e diz que quer instaurar um inquérito.
Depois, ela pode ir ao fórum e pedir informações a respeito de um advogado do Estado também.
- Mas você não ligou para o 190.
Então, como fica seu caso?
O Everton ainda pode ser preso em flagrante?
- Ontem ele brigou comigo e me bateu... - chorou.
Hoje cedo, novamente.
Por causa de uma camisa, ele me bateu e foi violento.
Entre soluços, explicou:
- Foi agressivo sexualmente...
Estou com machucados íntimos, nas partes sexuais e nos seios também... - chorou.
Sofia ficou revoltada, mas se conteve e Valéria prosseguiu:
- Depois, ele saiu de casa e me trancou.
Eu tinha uma outra chave escondida, que mandei fazer quando ainda trabalhava.
Mas ele não se lembra disso.
Valéria fazia breves pausas enquanto falava.
Ainda estava abalada.
- Ele me deu ordens de não atender o interfone nem a porta.
Tirou os aparelhos telefónicos lá do apartamento, meu celular e trancou em um cofre.
Isso começou a me dar um desespero...
Então comecei a ter ideia de fugir, sair dali.
Eu não queria mais apanhar.
Cada dia estava pior.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70168
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 25, 2017 11:15 am

Aí... quando o interfone tocou, decidi atender.
Fazia duas semanas que eu não via a luz do sol senão fosse pela janela.
Tive um impulso e decidi atender o interfone quando tocou... - repetiu.
Criei coragem e fui até a portaria, talvez, para medir minhas forças.
O porteiro conversou um pouco comigo e, quando me senti covarde ele começou a dizer coisas que me deu força.
Falou de você...
Eu respirei fundo e decidi fugir dali.
Não queria mais aquela vida.
Aquela miserável condição.
Não era justo eu viver em cárcere privado, sendo agredida, humilhada, maltratada... - chorou compulsivamente, enquanto a irmã a afagava de modo piedoso.
Silêncio.
Após o intervalo, Sofia perguntou:
- Então o Everton pode ser preso em flagrante?
- Eu precisaria ir à delegacia agora para ver as medidas que constam na Lei Maria da Penha.
Preso em flagrante ou não, cada circunstância vai definir se a autoridade policial, no caso o delegado ou delegada, poderá mantê-lo preso até que o juiz decida.
- Vamos até a delegacia agora! - decidiu Sofia firme, parecendo reunir suas últimas forças também.
Embora estivesse auxiliando a irmã, ela ainda se sentia desanimada.
As irmãs saíram do apartamento e se dirigiram para a Delegacia da Mulher mais próxima.
Estava bem cheia.
Ainda assim, esperaram e foram atendidas.
Valéria prestou queixa.
A delegada ouviu-a atentamente e a encaminhou para exame de corpo de delito realizado por uma médica do IML - Instituto Médico Legal - já que Valéria solicitou, uma vez que existiam agressões em partes íntimas e ela disse se sentir constrangida se o exame fosse realizado por um médico.
Everton não foi preso em flagrante.
Quando chegou a seu apartamento, soube que a polícia o procurou.
Constatou que Valéria havia ido embora.
Deduziu que ela tomou coragem e prestou queixa das agressões sofridas.
Por ter conhecimento, ele fugiu do flagrante, mas não das consequências jurídicas e morais que começaria a experimentar.
* * *
Ao saber do ocorrido, Rute não se conteve e as procurou.
Era noite de segunda-feira e, no apartamento de Sofia, Valéria contou tudo à amiga.
- Foi um final de semana muito intenso.
Ainda estou bastante estremecida, psicologicamente abalada.
Com muito medo. Um medo terrível, até inexplicável.
- Eu creio que todo o stresse que viveu com ele gerou uma Síndrome do Pânico - opinou Rute.
- É verdade. stresse pós-traumático dispara Ansiedade, Síndrome do Pânico, Depressão e outros transtornos psicológicos - concluiu a irmã.
O melhor é procurar um médico psiquiatra e também fazer psicoterapia com um bom psicólogo para juntar tudo isso no processo.
Afinal, se ela ficou assim, foi por culpa dele.
Na sua vez, Rute aconselhou:
- Sua irmã tem razão, Valéria.
Agora que começou a movimentar sua vida, não pare.
Volte ao mercado de trabalho.
Actualize-se e retome tudo o que fazia e mais o que puder.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70168
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 25, 2017 11:15 am

A principal atitude você já tomou, que foi denunciar aquele infeliz.
O silêncio faz o número de vítimas aumentarem e as formas de violência doméstica e familiar contra as mulheres continuarem, pois os agressores confiam no medo de suas vítimas.
O medo que a vítima sente os protege.
Devemos pegar o exemplo de Maria da Penha, a bio farmacêutica que tanto lutou para que fosse feito justiça em seu caso.
Por não conhecer a história, Sofia perguntou:
- Só ouvi falar da Lei Maria da Penha e alguns dos direitos que ela nos garante, mas...
Não me lembro bem de como tudo aconteceu com essa que sabemos ser uma grande guerreira.
Você sabe contar?
Rute sorriu.
Apreciava lembrar dessa batalhadora e contou:
- Maria da Penha, cearense e bio farmacêutica, com título de Mestre em Parasitologia, foi casada com um economista e professor universitário, seu agressor.
Essa mulher mudou a vida de muitas mulheres.
Salvou, salva e salvará muita gente.
Ela fez de sua tragédia uma trajectória de vida, de auxílio e de caridade.
O começo de tudo ocorreu em Fortaleza, no Ceará.
Era mês de maio de 1983.
Ela, o marido e as três pequenas filhas chegaram à noite a casa onde moravam.
Enquanto o marido foi assistir à televisão, ela colocou as filhas para dormir.
Depois, Maria da Penha foi tomar banho e se deitou.
De repente, acordou com o tiro que atingiu suas costas.
Ela conta que, nesse instante, pensou:
"Acho que meu marido me matou".
Em seguida, desmaiou.
Os vizinhos foram atraídos pelo barulho do tiro e, quando chegaram, encontraram o marido na sala, todo rasgado, com uma corda enrolada ao pescoço, representando um drama de forma a pôr inveja em qualquer actor profissional de teatro.
Ele disse que houve uma tentativa de assalto à residência.
Ela ficou consciente novamente e, enquanto esperava a ambulância para ser socorrida, sabia que toda a representação do marido era uma farsa.
Ele sempre foi um homem que agredia a ela e as crianças.
Grosseiro, rude, exigente dentro de casa.
Ela tinha certeza de que foi ele quem tentou matá-la.
Somente mais tarde as investigações provam que o marido foi o autor do disparo que deixou Maria da Penha paraplégica e presa a uma cadeira de rodas pelo resto da vida, mesmo depois de muita dor física e emocional, várias cirurgias e meses de hospital.
Infelizmente, o conjunto de acções violentas, físicas e psicológicas não acabou ali.
Ela recebeu alta e foi para casa onde o marido a confinou.
Inicia-se uma série de agressões e torturas.
Ela sofreu um segundo atentado.
No banheiro da residência onde morava com o marido que, novamente, tenta matá-la electrocutada.
Eles lutam. Ela grita e a empregada escuta e aparece inibindo o homicídio.
Maria da Penha recorre à família que a ajuda e, só então, consegue uma autorização judicial para deixar a casa onde mora com o marido e levar as três filhas.
No ano seguinte, 1984, começou o que seria uma longa jornada por justiça.
Enfatizou:
- Por justiça, gente!
Vê se pode! - protestou.
- O marido, único suspeito pelos crimes, alega inocência e é liberado!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70168
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 6 de 10 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum