O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 26, 2017 10:16 am

Alguns anos depois, sete se não me engano, ele vai a julgamento.
É condenado a quinze anos de prisão, só que o julgamento é anulado.
Ela continua na cadeira de rodas e ele sai rindo do tribunal - continuou Rute com certa indignação no tom da voz.
Ela não desiste. O caso vai para o segundo julgamento.
Ele é condenado a dez anos e seis meses de reclusão, mas tem vários benefícios e ganha o direito de recorrer em liberdade.
Sai novamente rindo do julgamento.
Ela ainda fica presa na cadeira de rodas.
Batalhadora, Maria da Penha não desiste.
Escreve um livro.
Aliados, simpatizantes, organizações feministas, pessoas justas e humanas se aliam a ela que, então, formalizou denúncia contra o Brasil à Comissão Inter-americana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos - O.E.A.
- Órgão Internacional responsável pelas comunicações de violações de acordos internacionais.
Enfim, o caso foi levado em nível internacional.
A O.E.A. repreendeu o governo brasileiro e deixou explícito que o marido de Maria da Penha deveria ser responsabilizado por seus crimes.
Caso isso não ocorresse, o Brasil seria declarado conivente com as violências contra mulheres.
Como tudo, aqui, é lento...
Dezanove anos e cinco meses depois que Maria da Penha foi vítima de agressões, sofreu duas tentativas de homicídios e ficou paraplégica, seu agressor foi preso.
Ela continuou presa a uma cadeira de rodas.
Ele, depois de cumprir um terço da pena, saiu da cadeia e ficou em liberdade condicional.
Ela, mesmo cumprindo prisão perpétua em uma cadeira de rodas, continuou lutando pelo direito de muitas mulheres.
Ofereceu uma pausa e prosseguiu, pois viu as amigas muito interessadas na história:
- Um conjunto de ONGs elaborou propostas.
Uma Lei eficiente, inibidora precisava ser criada para garantir a integridade das mulheres brasileiras.
A proposta se transformou em Projecto Lei.
Sancionada pela Presidência da República em 2006, a Lei Maria da Penha se dispõe a prevenir, punir, erradicar a violência contra a mulher e eliminar todas as formas de discriminação contra a mulher.
Isso inclui meninas também.
É certo que faz pouco tempo que a Lei foi criada e muita coisa ainda precisa ser ajustada.
Haja vista que, apesar de a Lei, que recebeu seu nome, ser uma "arma" contra a violência da mulher, ela, ainda não é devidamente aplicada, em alguns casos.
O que fará essa Lei ganhar força somos nós, mulheres, exigirmos, lutarmos, não nos intimidarmos, sairmos do anonimato.
Denuncie, gente! Denuncie!
Procurar por nossos direitos.
Advogados existem para isso!
- Foi por causa da dedicação e senso de justiça que a Lei, que protege as mulheres contra qualquer tipo de violência, recebeu o nome Maria da Penha - completou Valéria que também conhecia a história.
Hoje ela é líder de movimentos de defesa dos direitos das mulheres.
Como dizem, ela é vítima emblemática da violência doméstica e familiar contra a mulher.
Bem actualizada, Rute informou:
- Uma pesquisa, inédita, avaliou a violência contra mulheres e descobriu-se que o número de feminicídio que acontecem no Brasil é assustador.
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Ave sem Ninho

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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 26, 2017 10:17 am

Foram 50.000 feminicídios, ou seja, cinquenta mil mulheres mortas, por serem mulheres, nos últimos dez anos.
Isso dá cerca de 5.670 mortes por ano, quase 500 por mês, ou 1 mulher a cada hora e meia.
Ainda hoje existe a necessidade de se criar tipificação penal para o feminicídio.
Isso diminuiria o mapa dessa violência.
- Nossa! - admirou Sofia.
O número de homicídio contra mulheres é assustador mesmo.
Imagine, então, como é grande o número real de mulheres torturadas e agredidas, física e emocionalmente, e que não chega a nosso conhecimento.
- Não pense que a agressão contra a mulher vem, na maioria das vezes, por parte de estranho.
Mais de 80% das agressões, os responsáveis são os parceiros, companheiros, namorados, noivos e maridos - comentou Rute.
Após breve pausa, prosseguiu:
- Certa vez eu ouvi um comentário de um acidente de trânsito.
Dizem ter sido uma batida simples.
Só os pára-lamas ficaram amassados.
O homem que estava dirigindo desceu e quando viu que o outro veículo era conduzido por uma mulher, ficou enfurecido.
Insano! Contaram que ele gritou e xingou o quanto pôde.
Chamou a condutora do outro carro de barbeira.
Perguntou se ela tinha tirado a CNH - Carteira Nacional de Habilitação - por telefone e falou muito.
A mulher, com medo, chamou a polícia.
A esposa do homem estava junto.
Pediu calma, mas não adiantou.
Ele gritava com ela também.
Demorou, mas a viatura da Polícia Militar chegou.
Mesmo com a presença dos policiais, o sujeito continuou nervoso.
Perto dos policiais ele ainda chamou a mulher de barbeira.
Então, ela não teve dúvidas.
Pediu aos PMs que os conduzissem até a Delegacia da Mulher, pois ela queria fazer um Boletim de Ocorrência e instaurar inquérito por ter sido agredida moral, emocionalmente e não ia deixar para lá não.
Foi constrangida por ser mulher, pois, se fosse o marido dela, com quase cem quilos e um metro e noventa de altura, aquele homem não estaria falando daquele jeito.
- Isso é verdade.
Se fosse com outro homem, ele não faria aquilo - concordou Valéria.
- É. Existem vários tipos de violência contra a mulher.
Normalmente, as pessoas só pensam nas agressões físicas, no tráfico de mulheres e coisas mais graves.
Porém, vejo que isso vai mais além.
Está faltando respeito - disse Sofia.
- Sem dúvida! - ressaltou Rute.
Eu lembro o quanto minha mãe sofreu por não existirem Leis específicas quando meu pai a agredia emocionalmente.
Antes da Lei Maria da Penha, as mulheres agredidas, de qualquer forma, tinham que se submeter às agressões, pois se saíssem de casa, era constatado abandono de lar.
Ela perdia seus direitos, perdia direitos sobre os filhos, que também eram agredidos, no mínimo emocionalmente com o que viam o pai fazer com a mãe.
Eu vivi isso.
Há diversas formas de violência contra a mulher e não só agressões sociopáticas, físicas, sexuais.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 26, 2017 10:17 am

Existem formas subtis.
Essas formas subtis de violência contra a mulher incluem o assédio sexual, assédio moral, discriminação, desvalorização de seu trabalho, seja doméstico ou empresarial, desvalorização das tarefas maternais.
- Como assim?
Desvalorização dos trabalhos domésticos e maternais? - indagou Sofia.
- São aquelas atitudes rudes e machistas.
Sabe aqueles jargões famosos do tipo:
isso é serviço pra mulher.
Cuidar de casa é fácil, por isso tem que ser feito por mulher.
Ou... Tinha que ser mulher para fazer isso.
Mesmo quando o homem chega a casa e toma atitudes rudes como jogar as coisas no chão para a mulher pegar, responde mal, joga na cara da mulher que ela fica em casa e ele é quem trabalha e põe comida para dentro de casa...
Nossa! Tem tanta coisa!
Uma das quais as mulheres se esquecem é a agressão através do assédio.
Vocês sabiam que aquela cantada barata, imbecil como quando chamam a gente de gostosa, boazuda ou nos chamam para fazer alguma coisa que configure ou dê o entendimento de algo que inclui sexo, indecência ou coisa do género, a pessoa que faz isso pode ser enquadrada na Lei Maria da Penha?
Esse é um tipo de assédio vil, baixo, que nos constrange, desvaloriza.
Quando alguém do trabalho ou na escola, por exemplo, diz que a fulana sai com qualquer um, ou que saiu com ele ou com ela, ou diga qualquer coisa que deixe a moral da fulana em dúvida, isso é crime e é enquadrado na Lei Maria da Penha.
E é crime mesmo sendo dito por outra mulher.
Só não toma uma atitude quem não quer.
- Eu não sabia disso - admitiu Sofia.
- Quando o companheiro, marido ou mesmo outra mulher magoa por meio de agressões, é rude quando pergunta, pede, exige algo a uma mulher é violência e precisa acabar.
Isso ocorre em todas as classes sociais.
Estamos precisando de uma tomada de consciência para erradicar as formas subtis de fomentar a violência contra as mulheres e meninas.
São várias, incontáveis as concepções machistas, sexistas e racistas que autenticam e legitimam a indução da violência contra mulheres.
- Indução à violência? Como assim?
- Veja bem, Sofia, as pessoas não tomam muito conhecimento de seus direitos e o Brasil, hoje, infelizmente, não é só o país com alto número de analfabetismo, mas também é um país que, dolorosamente, devemos admitir, tem um alto número de ignorantes.
Quando um programa de TV lança moda feminina com roupas curtas, coladas, decotadas, ressaltando bumbum e seios, exibindo actrizes com jeito e formas sensuais, está propondo o quê?
Que quem assista se vista e tenha trejeitos como os da personagem.
Aquilo que está sendo mostrado é ficção. Pura ficção.
A cena não vai além, é limitada.
Mas, minha querida, na vida real, aquela vestimenta, aqueles trejeitos, aquele comportamento vai deixar a mulher vulnerável.
A sua sexualidade vai parecer vulgar.
Ela ficará exposta e, muitas vezes, por conta de sua ingenuidade, poderá servir de vítima a um doente desequilibrado sexual ou psicopata.
- Eu discordo, Rute.
A mulher tem o direito de usar a roupa que quiser.
- Você não está errada, Sofia.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 26, 2017 10:17 am

Mas, veja bem...
Se roupa curta e sensual fosse, de verdade, algo legal, positivo para a imagem feminina, as apresentadoras dos telejornais, as âncoras do jornalismo na TV estariam com os seios de fora e saias curtas, com vestidos de periguetes colados ao corpo.
Assista à previsão do tempo, quando a jornalista aparece por inteiro, observe se ela está com trajes assim.
Vamos combinar!
Vestidas assim, as mulheres se desvalorizam e quando alguns grupos criticam essas criações de modas machistas...
- Por que modas machistas? - tornou a outra, interrompendo-a.
- Modas machistas, sedutoras, que estão fazendo das mulheres e das meninas objecto que desclassificam as mais ingénuas, que se propõem a usar e não entendem o motivo.
- Eu não concordo, Rute.
A pessoa deve usar o que se sente bem.
- Não é isso, Sofia.
Muitos homens, safados, sem-vergonha que lideram e ditam indirectamente moda e comportamento femininos, são apoiados pelas pessoas sem conhecimento, ou seja, ignorantes, no sentido de que ignoram as intenções deles, e se submetem a isso achando que é normal, que é o certo.
Mas não é! Esse tipo de comportamento interrompe o raciocínio e o desenvolvimento humano de mulheres e meninas que só pensam em destacar sua sensualidade, sua sexualidade e acabam sendo manipuladas por um universo machista que não se pronuncia, que vive nos bastidores.
São concepções, crenças e costumes sociais machistas que fazem as mulheres e meninas se exporem.
Lá fora, no exterior, o Brasil é considerado um país de prostitutas, para muitos, só por conta das roupas das mulheres, sabia?
Por conta do carnaval e tudo o que ele oferece.
É como se as mulheres brasileiras fossem burras, ignorantes, incompetentes e só soubessem usar o corpo para conseguir algo e isso eles vêem como prostituição.
A culpa é da mídia, das músicas que fazem desse comportamento algo normal.
A culpa é do governo que não oferece instrução moral.
As mulheres e meninas sem instrução, sem base familiar, não têm referência e acabam se propondo a isso.
Por exemplo, já ouvi debates e longas discussões sobre o estupro.
Em todas, sem excepção, a questão da postura da mulher ou da menina foi destacada e salientada que ela “induziu” o homem a desejá-la.
Eu tomei um lado. Briguei e debati.
Apoiei o facto de a mulher ter liberdade para se vestir.
Depois comecei a entender algumas coisas.
Vi fotos, imagens, descrições, roupas e apareceu, comprovando que em 80% dos casos a mulher ou menina vestiam-se de forma sexualmente provocativa, vulgarizando-se.
É certo, sem dúvida, que isso não dá razão ao homem de estuprar ninguém, mas...
Vamos pensar: comportamento induz, trejeito induz, roupas induzem...
Tudo é questão de observar como ela se trata, como ela se expõe, se mexe, fala.
Na maioria dos estupros, o sujeito criminoso e agressor sabe como a menina ou a mulher é.
Conhece sua vida, seus costumes.
Sabe que ela anda com vários homens, que não se valoriza nem se respeita.
Então ele pensa: se ela se oferece, se dá uma de oferecida por aí, eu posso ser mais um.
O que eu tenho a perder?
- Ai! Pelo amor de Deus, Rute!
Ninguém merece ser estuprada! - protestou Sofia.
- Lógico que não! Concordo com você.
O estupro é um crime hediondo e eu acho que cadeia é pouco para quem o pratica.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 26, 2017 10:17 am

Sou tão radical que sou a favor de se decepar os órgãos genitais de quem estupra! - falou irritada.
- Eu concordaria com essa lei - tornou Sofia.
- Mas o caso não é esse.
O estupro é hediondo e deveria ter pena mais severa dos que as que já existem.
Nossas leis ainda são fracas para crimes como estupro, agressões a mulheres, crianças, gays, negros, moradores de ruas e outros.
Não é disso que estou falando.
Estou falando da falta de orientação das mulheres.
Sabe, em um júri popular, em julgamento de estuprador, é comum, muito comum, na escolha de jurados, escolherem mulheres maduras, de aparência sensata, mãe ou avó, mulheres de postura firme, sérias para serem juradas.
Sabe por quê? - Sofia balançou a cabeça negativamente.
Valéria deu um leve e tímido sorriso.
Já sabia.
Rute respondeu:
- Porque mulheres com postura moral sóbria, dita equilibrada, sabem reconhecer e classificar uma outra que não se valoriza, que se expõe de modo vulgar física, verbal e moralmente.
Diante de determinadas provas, existe uma grande chance de essa jurada entender que a vítima de estupro, “pediu”, “incentivou” o seu agressor.
- Ai! Que absurdo! - protestou Sofia mais uma vez.
- Só estou contando os factos.
Eu também quis falar disso para voltar a repetir que a culpa é dos meios de comunicação, que não incentivam as pessoas a aprenderem a ler, escrever, estudar, mas incentivam a terem trejeitos vulgares, antes mesmo de saber escolher.
Antes mesmo de deixarem de ser ignorantes e entenderem o que está por trás disso tudo.
Sabe, no Canadá, em Toronto, depois de analisar uma série de crimes de estupros, em uma Universidade, declararam o seguinte:
que as mulheres deveriam evitar se trajarem bem vulgar para não serem estupradas.
Eles acreditam que existe cumplicidade entre as vítimas e os criminosos por causa das roupas que elas usam.
Estou falando do Canadá, país de primeiro mundo.
Às vezes, entendo que essa opinião acontece aqui, não só com o estupro, mas também com a desvalorização da mulher.
Hoje em dia, vejo menina de nove ou dez anos ou até menos que usam vestimentas sedutoras, andam de forma sedutora, maquiadas de forma sedutora, fazem caras e bocas para seduzirem.
Meu Deus! Onde vamos parar!
Elas estão perdendo a infância.
Estão deixando de ser meninas inocentes.
Quando isso acontece, psicologicamente, elas desenvolvem a libido muito cedo.
Como é que vai ser quando forem adultas?
Haverá uma lacuna no desenvolvimento emocional, psicológico.
Ofereceu uma trégua para que a outra reflectisse, depois argumentou:
- Não estou querendo dar razão para os homens que estupram. Longe disso!
Mas vemos, hoje, mulheres se desclassificando muito, aceitando xingamentos.
Precisaria de uma que tivesse coragem para processar os vagabundos que nos ofendem com músicas.
Não sou obrigada a ouvir tanto nome baixo.
É disso que estou falando.
Não vai adiantar Lei Maria da Penha se as mulheres continuarem pacíficas, se desvalorizando, a começar por aceitar a imposição sexista, imposição de objecto sexual e sensual, imposta por homens, produtores que querem ver o circo pegar fogo!
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 26, 2017 10:18 am

Alguns pensam assim:
"Já que elas têm os seus direitos, vão ter que ter deveres ou aceitar nossas propostas inconscientes de submissão.
Mostrar o bumbum, os seios e servir de objecto para a nossa admiração."
Mulheres que querem defender seus direitos de andar vestidas de periguete acham que estão manipulando, mas, na verdade, elas é que estão sendo manipuladas.
- Eu entendo o que a Rute quer dizer - comentou Valéria.
Nós não estamos cumprindo com nossos deveres quando não temos conhecimento das leis que nos protegem. Quando não tomamos providência contra as humilhações e agressões que sofremos.
Quando nos vulgarizamos e nos submetemos às concepções machistas, enrustidas no que temos como distracção na mídia, a respeito da nossa sensualidade e que nos "obriga" a nos expormos.
Devemos lembrar de nos respeitarmos.
Temos que nos vestir de modo elegante e não vulgar.
Um dia, meu pai me disse que o nosso exterior era o reflexo do nosso interior.
Então é bom tomar cuidado com o que exteriorizamos.
Se estamos na praia é normal e adequado utilizarmos pouca roupa.
Existe lugar adequado para tudo.
No entanto, no dia a dia, na cidade, no trabalho, na balada acho bom tomarmos cuidado para não exteriorizarmos algo que dê incentivo a alguém desequilibrado.
Ainda mais se o sujeito estiver sob o efeito de álcool ou drogas.
Nunca sabemos onde eles estão ou quem são.
Quem não acredita nisso ou quer pagar para ver... Pode se expor.
- Concordo totalmente com você, Valéria! - expressou-se Rute.
- Ah... Eu acho que cada um tem o direito de se vestir como quiser - opinou Sofia.
Vocês não me convenceram.
- O problema que essas roupas vulgares são ditadas por homens!
E muita gente não vê isso! Por exemplo...
Rute pensou um pouco e prosseguiu:
- Já assistiu àqueles programas de comédia nacional na TV ou mesmo em filmes em que colocam uma mulher bonita de corpo bem feito, com peitos de fora, roupa curta e justa, fazendo cara de tonta e falando com argumentações de burra?
Esse tipo de roupa em mulher bonita é para atrair a atenção dos homens e aumentar a audiência.
E, na minha opinião, denigre a imagem da mulher bonita.
É o mesmo que dizer:
mulher bonita só serve para ser sensual, só serve para o sexo.
Ela é burra e tem que ficar de boca fechada.
Preste atenção! - protestou.
Daí a pouco aquela roupa vira moda.
Aquele comportamento, gesto e fala, viram moda e uma grande maioria adopta, inclusive o jargão.
- Ainda assim, acredito que não podemos dar razão a um homem assediar, sexualmente, uma mulher ou estuprá-la por causa da roupa que ela está usando - disse Sofia.
- Não se trata de dar razão ao homem que desrespeita ou estupra.
Lógico que não!
Rute pensou um pouco e tentou explicar:
- Vejamos. Nos meios de comunicação, nos telejornais, principalmente, alertam muito para que, quando formos ao banco depositar ou sacar dinheiro, nós nos precavermos.
Devemos tomar cuidado para não sermos vítimas de assaltos, roubos e até latrocínio, que é o roubo seguido de morte.
Então, o que nós fazemos?
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 26, 2017 10:18 am

Procuramos ser precavidos.
Não saímos do caixa contando dinheiro.
Procuramos guardar as notas.
Olhamos para os lados para saber se estamos sendo seguidos e, se isso acontecer, devemos procurar a ajuda do segurança ou da polícia.
Se estivermos fora do banco e desconfiarmos de sermos seguidos, devemos entrar em um estabelecimento que tenha segurança ou chamarmos a polícia.
As pessoas que mais se expõem, que saem contando dinheiro, colocam as notas em um bolso de fácil acesso, são as que têm mais chances de serem assaltadas por criminosos, que são criaturas desequilibradas, imorais, impiedosas e tudo de ruim.
Podemos comparar isso às vestimentas e ao comportamento das meninas e mulheres de hoje em dia.
Aquelas que mais se expõem, que mais exibem a sensualidade, que mais querem provocar são as que correm maior risco, têm mais chances de atrair criaturas desequilibradas, imorais, indecentes e capazes de estuprar.
Silêncio.
- Se for dado grande quantidade em dinheiro para uma mulher que costuma se vestir de periguete, ela guarda, esconde, não vai sair do banco abanando as notas, certo?
Por que ela esconde as notas?
Para não ser roubada, atacada, lesada por alguém desequilibrado.
Sim, porque quem rouba é um desequilibrado e ela sabe disso.
Por que, então, ela não faz o mesmo com o próprio corpo, se sabe que existem desequilibrados na área sexual?
Novo silêncio.
- E essa a pergunta que paira na mente daqueles que dizem que, algumas vítimas de estupro, incentivam o acto do agressor desequilibrado.
Lembremos que todo estuprador é um desequilibrado, impiedoso e imoral.
- Breve pausa para que a amiga reflectisse e acrescentou:
- Lembrando também que a atracção espiritual é grande e proporcional aquilo que se cultiva.
Espíritos sensuais, imorais, levianos, que se comprazem com a sensualidade são atraídos de acordo com seus gostos.
Bem como, espíritos que se comprazem com a violência sexual, com a banalidade das relações afectivas, se aproximam.
- Ai, Rute! Daqui a pouco você vai querer que andemos coberta da cabeça aos pés, com burca e tudo mais - Sofia disse.
Por que os homens podem andar sem camisa, com as calças arriadas e aparecendo a cueca e nós não podemos usar uma blusa mais leve?
- Não é nada disso.
Estou vendo que você não entendeu.
Vivemos em um mundo imperfeito.
Lugar de provas e expiações.
Assim sendo, temos, neste planeta, que conviver com criaturas desequilibradas, pervertidas, sem evolução, capazes de roubar, matar, agredir e ferir sem remorso. Basta assistirmos aos noticiários.
Em vista disso, precisamos nos precaver.
Assim como devemos guardar a carteira e o dinheiro, para não sermos lesados, devemos preservar nosso corpo da sensualidade pública, para não sermos lesadas também.
Você não sabe que tipo de homem está provocando, por isso devemos estar atentas.
- Ofereceu breve pausa.
- Eu uso roupa decotada e mais ou menos curta.
Uso shorts, mas não agarrado, delineando apertadamente meu corpo ou até me machucando para mostrar minha sensualidade.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 26, 2017 10:18 am

Não preciso expor meu corpo para ser sensual.
Até porque tenho coisa melhor para mostrar.
Vejo que você também usa decotes, mas nunca a vi se expondo de forma...
Você entende.
Tudo é questão de bom senso.
Acho que é isso que está faltando para muitas pessoas.
Além do que, para as pessoas mais ingénuas, o problema maior é a patologia da normose.
Normose é algo errado que é tido como certo por causa do uso sem senso crítico.
É o errado aceito como normal.
Por exemplo, uma pessoa começa a ouvir músicas com palavrões e daqui a pouco isso se torna normal.
O palavrão é ofensivo e tem que ser usado, por essa pessoa, para tudo o que quer se expressar.
Então, ela perde o senso crítico e saí por ai ofendendo as pessoas, não se comportando, educadamente, com os outros, seja no relacionamento, no serviço, nas ruas...
Ela quer que todos respeitem seus gostos, mas ela não respeita a ninguém.
O palavrão é aceito, por ela, como normal, é a normose, só que isso vai trazer consequências.
Tudo, exactamente tudo, o que fazemos traz consequências.
O mesmo acontece com as roupas.
Onde é que vamos parar se as mulheres não se respeitarem, não se frearem?
Vão sair nuas na rua?
Não houve resposta.
- Sabe o que eu acho que está faltando?
Está faltando a própria pessoa se respeitar.
Quando alguém usa palavrões, grita ou briga para expressar suas opiniões, ninguém a respeita.
Essa pessoa nunca é ouvida, muito menos respeitada.
Quando alguém usa vestimentas inapropriadas, para alguns momentos, também não se expõe com respeito e será tratada de forma tão vulgar quanto se apresenta.
Pensou um pouco e mostrou outra opinião:
- Tendo uma visão espiritual da coisa, como espíritas, vamos chegar à conclusão de que em uma colónia espiritual, de nível elevado, temos certeza de que não encontraremos espíritos com aparência feminina usando trajes curtos e com seios de fora.
Roupas de periguetes não angariam moralidade nem respeito.
Assim como os espíritos com aparência masculina não vão andar sem camisa nem mostrando as cuecas com as calças baixas.
Espíritos elevados têm outras coisas para mostrarem.
Hoje, aqui, estou dizendo que está faltando conscientização, instrução, educação por parte das mulheres e de homens também.
Podemos ser pessoas lindas e elegantes sem nos vestirmos de modo leviano e vulgar.
E você sabe disso.
Sabe também que o que eu digo a respeito da espiritualidade é verdade.
Seria bom pararmos e reflectirmos um pouquinho.
- Não entendo muito sobre espiritualidade, mas raciocinando sobre a evolução humana, nós, seres humanos, viemos da época das cavernas sem roupas, com tangas e mantos para nos protegermos do frio, nada mais.
Naquela época, a boa moral não existia.
A vida era banalizada.
Estupros e mortes eram as coisas mais comuns e não havia como responsabilizar ou punir o culpado.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 26, 2017 10:18 am

Esse comportamento primitivo era normose.
O ser humano evoluiu moralmente.
Tanto que as vestimentas foram criadas.
A vida passou a ter valor.
O estupro e a morte viraram crimes.
Infelizmente, às vezes, vejo as pessoas, hoje em dia, querendo voltar à época das cavernas.
Tirando a roupa, banalizando a vida e querendo que estupro seja visto como algo conivente à vítima.
Por outro lado, alguns defendem o direito de se vestirem como querem sem dar atenção a evolução humana.
Isso que vemos actualmente é um progresso, um avanço social e moral ou um regresso da evolução espiritual? - perguntou Valéria.
Será que não são espíritos encarnados cuja evolução moral ainda é primitiva?
Não houve resposta.
Depois de pensar um pouco, Rute desfechou:
- Independente de ser homem ou mulher, a pessoa pode se vestir como ela quiser, mas precisa saber que o que ela usa vai atrair espíritos afins e isso vai surtir resultados.
Ninguém disse mais nada e Sofia não fazia qualquer expressão de satisfação.
Rute achou estranho a amiga não entender sua colocação.
Mas sabia que ela não era obrigada a concordar com o que dizia.
Sempre sofremos as consequências dos pensamentos que abrigamos, das opiniões que temos.
Tudo o que nos acontece tem origem na nossa ignorância, por falta de opinião, por falta de princípios e valores morais.
Não podiam perceber, mas, na espiritualidade, Lucídia abraçava Sofia, oferecendo opinião e sugestões em nível de pensamentos.
Mesmo quando o assunto mudou, Lucídia permaneceu junto de Sofia, afinando-se para induzi-la quando necessário.
Ela demonstrava-se insatisfeita.
Todo assunto lhe causava contrariedade e isso ficava nítido.
Um pouco mais tarde, percebendo que a amiga não estava muito a fim de conversar, Rute decidiu:
- Bem, meninas...
A conversa está boa, mas preciso ir.
Está tarde e amanhã vou levantar bem cedo.
- Está de carro? - indagou Sofia.
- Não. Vou ligar pro Yuri e pedir para me pegar.
Meu irmão está aqui perto.
- Peça para ele subir.
Vamos comer alguma coisa - foi o único momento em que a anfitriã pareceu se animar.
- Hoje não. Já é tarde.
Ele está na casa da Roxana.
Me deixou aqui antes de ir para lá.
- Eles voltaram? - perguntou em um tom surpreso e decepcionado.
- Voltaram.
Um instante e decidiu:
- Bem... Deixe-me ligar.
Rute telefonou.
Em pouco tempo, o irmão chegou e ela se foi.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 26, 2017 10:19 am

Capítulo 14 - Não basta oração, atitudes são necessárias

Toda a movimentação ocorrida nos últimos dias, por causa do retorno de Valéria, deixou Sofia um pouco mais activa.
Menos depressiva.
Quando a rotina a chamou à realidade que vivia, as dificuldades passaram a pesar muito.
Valéria estranhou ver a irmã sem ir trabalhar ou cuidar de assuntos referentes aos seus negócios, por isso perguntou:
- Não vai para a loja hoje?
- Estou sem serviço - respondeu e sorriu, timidamente.
- Como assim?
Sofia contou tudo e um desânimo a dominou ao dizer:
- Não sei o que fazer.
Não tenho ideia por onde devo começar de novo.
- Por que não vende esse apartamento e volta para a casa do pai e começa tudo de novo? - sugeriu Valéria.
- Terei muita dificuldade para vender esse imóvel por causa das dívidas que estão em meu nome.
Se eu encontrasse alguém que...
O telefone celular de Sofia tocou e ela pediu licença para a irmã a fim de atender:
- Oi, Gustavo. Tudo bem com você?
Valéria foi para o quarto, deixando-a conversar à vontade.
Remexendo em sua pequena bolsa, encontrou, novamente, o folheto com a mensagem de Francisco Cândido Xavier.
Olhou-o por um tempo e leu novamente.
Emocionou-se.
Chorou um pouco e fez breve retrospectiva de sua vida.
Como tudo havia mudado.
Começou a entender o quanto foi fraca para deixar aquilo tudo acontecer.
Não só fraca, mas também ingénua.
Como fazer agora para ganhar força?
Como se reerguer?
Não tinha nada, a não ser o apoio da irmã.
Porém, depois de tudo o que Sofia contou, percebeu que não poderia ser ela mais um fardo na vida dela.
Lembrou-se dos pais.
Eles a apoiariam e a aceitariam de volta.
Entretanto não gostaria de ser um peso na vida dos dois.
Já bastavam todas as situações difíceis que enfrentaram.
- Meu Deus... Meu Jesus me ajuda! - murmurou.
Preciso me reerguer. Preciso acordar.
Quero me libertar dessa prisão, desse medo, dessa dor.
Quero deixar de ser vítima para ser alguém com fibra, com empenho e atitude.
Me ajuda, meu Deus! Me ajuda!
Quero retomar minha vida, deixar de ser ingénua e imperfeita, deixar de ser acomodada e improdutiva.
Quero liberdade, em vez de protecção.
Liberta-me da vaidade e do orgulho.
Sim, meu Deus, entendo que foi o meu orgulho que não me deixou ver os sinais a caminho da prisão em que me deixei prender.
Lembro-me de quando meu pai me procurou orientando para eu me melhorar...
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 26, 2017 10:19 am

Quando a Sofia me alertou para o caminho difícil a que eu me entregava e eu, orgulhosa, não dei atenção.
Acreditei que só eu estava certa.
Só eu tinha razão. Quanta ilusão!
Nunca cultivei religião alguma, mas hoje vejo que não estive abandonada.
Sei que olhava por mim e esperou, pacientemente, eu cair de joelhos e rogar ajuda... - chorou.
Hoje sei que enviou um anjo para me dar esse folheto com essa mensagem...
Isso movimentou a minha fé, que foi a única coisa que me restou.
Alivia minha alma, Senhor.
Tire de mim essa angústia.
Fortalece a minha fé... - dizia chorando, entre lágrimas e soluços.
Revele sua vontade soberana e sua misericórdia para que eu tenha forças e saiba o que fazer.
Quero e vou mudar! Com suas bênçãos farei isso da melhor forma.
Ilumine minha consciência para que eu saiba vencer os obstáculos em Seu nome.
Converter o medo em coragem, o ódio em amor, a mágoa em perdão...
Seu murmúrio cessou.
Equipe espiritual, atraída pelo chamado de seu mentor, aproximou-se durante a conversa que se transformou em prece.
Benfeitores a cercaram impostando-lhe energias, fluidos curativos e recompondo-lhe as forças físicas e psicológicas.
Valéria nada viu.
Não demorou e sentiu-se melhor, sem entender.
Secou as lágrimas e experimentou a recomposição por uma prece.
Algo de que sempre se lembraria, pois se cravou em sua alma o poder de uma bênção pela súplica da fé e da esperança.
Por vaidade, acreditando que não precisaria cuidar do lado espiritual, achando desnecessário se elevar a Deus, havia se voltado ao materialismo, ao cultivo do belo, esquecendo-se de agradecer.
Evolução é Lei sagrada a qual toda criatura está sujeita.
A vida contemplativa não traz crescimento espiritual nem agrada ao Criador.
Temos deveres a serem cumpridos no caminho evolutivo e, quando não nos movimentamos e estagnamos para apreciar o que nos dá prazeres físicos e emocionais, a consciência nos cobra e, com a Lei de atracção, atraímos para nós situações que nos provocam dores morais, emocionais ou físicas a fim de que nos voltemos aos princípios para que tenhamos valores e saibamos agir com rectidão, amor verdadeiro e fé.
Embora ainda triste, Valéria estava envolvida por energias vigorosas.
Levantou-se, parecendo mais animada, quando a irmã chegou ao quarto.
Olhando para Sofia, sorriu de modo agradável e decidiu:
- Vou voltar para a casa do pai.
- Por quê? Como assim? - surpreendeu-se, mesmo sabendo que seria o melhor para ela.
- Você já tem problemas demais, Sofia.
Preciso retomar minha vida.
Lá acredito ser um bom lugar para recomeçar.
Você avisou a eles que eu estou aqui?
- Não. Você pediu que eu não dissesse nada.
Não queria que a vissem com as marcas roxas.
Fitaram-se, longamente, até que Valéria sorriu e decidiu:
- Vou me arrumar e vou pra lá.
- Se quiser ficar aqui... Será bem-vinda.
Gosto da ideia de tê-la como companhia.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 26, 2017 10:19 am

- Obrigada - sorriu delicada. - Mas quero voltar.
Acho até que você deveria fazer o mesmo.
A irmã não se manifestou, e ela pediu:
- Pode me emprestar uma grana para condução?
- Claro. Só não a levo porque meu carro ainda está no conserto.
- Eu sei. Não se preocupe.
Será bom ir de lotação.
Rodar um pouco pela cidade, vai me fazer bem.
- Não. Vai de táxi.
- Que é isso... Para mim, actualmente, táxi é muito luxo! - riu.
Valéria se encorajou.
Pegou suas coisas, despediu-se da irmã com um forte e carinhoso abraço e se foi.
* * *
O caminho até a casa de Ágata e Bernardo foi feito com tranquilidade.
O tempo gasto gerou longa reflexão.
Às vezes, Valéria sentia uma sombra de medo passar por seu rosto.
Algo como um frio estranho.
Mas nada nem ninguém iriam inibi-la de um novo recomeço.
Precisaria reunir forças do cerne de sua alma para prosseguir de onde parou.
Mas não estaria sozinha.
Sua fé seria sua fonte de energias elevadas.
Enquanto que amigos espirituais, benfeitores a serviço do Mestre, sempre a amparariam na nova jornada evolutiva.
* * *
- Valéria!!! - exclamou a mãe sob o efeito de um susto ao ver a filha parada no portão.
Sem palavras, abraçaram-se por longo tempo.
Entraram.
Bernardo chegou à sala e foi para junto da filha que se curvou e o abraçou.
Ela não conseguia parar de chorar. Nem a mãe.
Após algum tempo, recomposta, acomodada no sofá ao lado da mãe e em frente ao pai, pediu emocionada:
- Me perdoem...
- Do que, filha? - o senhor perguntou.
- De tudo o que fiz vocês sofrerem.
Perdão pela decepção, pela ausência, pela angústia...
Me perdoem - chorou.
A mãe a abraçou e a puxou para junto de si, enquanto o pai a afagou nos braços.
Observador, Bernardo perguntou sem rodeios:
- Você foi agredida?
Erguendo-se, secando o rosto com as mãos, Valéria respondeu:
- Estou machucada de corpo e alma.
Vou mover uma acção contra o Everton.
Chega de covardia da minha parte.
Um momento e disse:
- Queria que me aceitassem de volta.
Vou precisar de ajuda para recomeçar.
- Claro, filha. Nem precisa falar - afirmou a senhora.
- Eu estava no apartamento da Sofia desde a semana passada.
Ela me acolheu.
Pedi para que não comentasse nada com vocês, pois não queria que me vissem e... - emocionou-se novamente.
Ela estava disposta a uma vida nova.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 26, 2017 10:19 am

Demonstrava-se mais madura e determinada.
Recompondo-se, forçou um sorriso, que pareceu tímido, e contou:
- Faz um tempo, eu ganhei de um taxista um folhetinho com uma mensagem.
Um dia, quando eu estava muito, muito abalada, peguei esse folheto e li.
Comecei a pedir forças e a orar...
Apesar disso eu não sabia o que fazer.
Como é que a gente sabe que Deus dá forças?
Como é que se sabe que nossa prece está sendo ouvida?
Então o interfone tocou e eu tive um impulso de coragem.
Eu vivia trancada e, nesse impulso de coragem, peguei uma chave extra e desci até a portaria.
Conversei com o porteiro que me falou sobre tomar uma atitude.
Entendi que aquilo era um sinal do Alto.
Se foi um amigo espiritual, meu anjo de guarda ou mentor, como o senhor diz... Não sei.
Gosto de pensar que foi Deus.
Compreendi que minha experiência ali, naquele cativeiro, precisava terminar.
Eu tinha de assumir o controle, o domínio da minha vida e, para isso, necessitava me libertar.
Subi e peguei uma muda de roupa.
Achei algumas moedas para a condução e saí de lá.
Decidi procurar a Sofia, porque o porteiro falou dela. - Breve pausa.
Olhou para o pai que, à sua frente, segurava sua mão entre as dele e disse:
- Teve um dia em que eu estava sem ânimo.
Emburrada como a mãe diz...
Eu tinha brigado com o Flávio por causa dos fones de ouvido e...
O senhor foi lá, no meu quarto, e me disse uma coisa que... - ofereceu pequena pausa pela emoção.
- Naquele momento eu não dei atenção, mas depois...
Nos últimos dias, aquilo tudo fez todo o sentido.
O senhor me falou que o meu exterior era o reflexo de meu interior.
Embora eu estivesse sempre bem arrumada, limpa, cabelos sempre lindos - sorriu.
Seus cabelos sempre foram motivo de orgulho.
- Muitas coisas a minha volta estavam desarrumadas.
Desmotivada, eu sempre deixava tudo para depois e, de verdade, pai, a gente não tem ânimo para fazer até começar, como o senhor falou.
Ainda me disse algo que está martelando até hoje na minha cabeça, sobre...
As pessoas de êxito que obtêm resultados felizes ou satisfatórios realizam o que é preciso sem esperar para ter ânimo.
Disse que elas saem fazendo as coisas.
Se nós esperarmos pelo ânimo para fazer algo, nunca faremos nada.
Um momento e confessou:
- Nunca tive ânimo para orar, para ir à igreja ou ao Centro Espírita e fiquei esperando o ânimo aparecer.
Porém, pai, Deus, Jesus, os amigos espirituais ou meu anjo protector não precisaram esperar pelo ânimo para me ajudar, para me dar força, para me inspirar e me socorrer. Não.
Eles, meio que saíram fazendo.
No momento em que orei, pedi, eles me inspiraram, clarearam minha mente e eu tomei uma atitude.
Que lição eu aprendi.
Nunca mais quero deixar para depois aquilo que devo fazer agora.
Não posso deixar de rogar a Deus e agradecer.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 26, 2017 10:19 am

É trabalhoso? Sim. Claro.
Terei o trabalho de ir ao Centro Espírita ou a igreja.
Terei trabalho de parar duas ou três vezes ao dia para me elevar, orar e me voltar a Deus.
Mas, como o senhor disse também, quando deixamos as tarefas acumularem, fica pior.
Oração, prece, é um trabalho, porque trabalho é atitude, é acção.
Trabalho é o exercício físico, mental ou intelectual para se fazer ou conseguir alguma coisa.
É o esforço, a luta ou o cuidado ao se fazer uma obra.
Trabalho é a própria obra que se compõe ou se faz.
Trabalho é a tarefa a se cumprir ou tarefa cumprida.
É uma ocupação. Eu preciso me trabalhar na prece.
Exercitar minha mente e meu espírito para conquistar uma ligação com Deus.
Ocupar minha mente com aquilo que é digno, fraterno, fiel, moral.
Isso exige esforço? Sim.
Tudo o que tem valor exige esforço, disciplina e dedicação.
É necessário se esforçar, se trabalhar para mudar, para ser melhor.
Um momento e prosseguiu:
- Um exemplo disso é que, quando queremos comprar algo, adquirir um carro, por exemplo, nós trabalhamos, nos esforçamos para guardar algum dinheiro ou pagarmos o financiamento.
Depois ficamos felizes e nos realizamos com a aquisição.
Ligar-se a Deus, se ligar a Jesus também exige trabalho, exige esforço.
A recompensa disso é a aquisição de paz. Serenidade.
E não tem recompensa maior do que sabermos que fizemos o melhor, temos fé e total confiança em Deus.
Recolheu as mãos, secou o rosto, sorriu e falou:
- Precisarei de um tempinho para me recompor.
Quero ser mais actuante e menos passiva.
Quero liberdade dentro dos bons princípios.
Quero trabalho. Orientar aqueles que enfrentam dificuldades, assim como enfrentei.
Mas, antes preciso começar pelo mais próximo.
Começar por mim. Começar me ligando a Deus.
Me ligando a princípios elevados para eu ter valores elevados.
Devemos ter princípios. Quem não tem princípios não tem valores.
Suspirou fundo e sorriu.
Depois, perguntou:
- Quando é que o senhor vai ao Centro Espírita?
Gostaria de acompanhá-lo.
- Amanhã.
- Posso ir junto?
- Claro, filha. Claro - abraçou-a com carinho e muita emoção.
* * *
Normalmente, em determinada fase da vida, o ser humano se apega a muitas fantasias e ilusões.
Quando se decepciona, frustra-se, sente em sua alma um vazio, resultado dos conflitos íntimos do que fez ou do que deixou de fazer.
Porém, à medida que o tempo passa e a pessoa amadurece, ela ganha entendimento e percebe que o ocorrido serviu de instrumento para a sua evolução, desde que não se proponha mais a insistir no que tanto a fez sofrer.
A maturidade traz respeito a si e, então, que a criatura não se permite mais se colocar em situação de sofrimento.
É aí que Deus abre Seus braços paternos recolhendo-nos, mesmo quando estamos cansados, com as mãos chagadas e os pés feridos.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 26, 2017 10:20 am

Acolhendo-nos na condição de filho pródigo, farta-nos com a ceia de uma vida nova, indicando bons princípios para que possamos aumentar nossos valores.
A insegurança psicológica, a frustração termina quando nasce a fé.
A fé é alcançada nos momentos de elevação, de prece em que rogamos forças, aumentamos nossa luz interior e nos trabalhamos, fazendo com que a esperança na paz e na alegria verdadeira seja nosso ideal.
A oração é a forma como cada um de nós, falamos de nós mesmos para Deus, nosso Pai Criador.
Ele escuta, compreende e espera que, em nós, nasçam virtudes a nos fortalecer e guiar pelos caminhos da estrada evolutiva, a fim de lutarmos contra nossas próprias imperfeições,
superando nossas más inclinações vindas, muitas vezes, de vidas passadas ou do orgulho e da vaidade da vida presente.
Algo necessário de ser derrotado e superado por nós mesmos.
Assim, e somente assim, encontraremos a paz e a felicidade verdadeiras.
Aquele que busca paz e felicidade sem esforço e sem trabalhar a si mesmo, corre o risco de encontrar, tão somente, a falsa e temporária alegria.
Depois vê-se no vazio da solidão e da dor.
É na fraternidade e na caridade que encontramos trabalho e auxílio para qualificar nosso carácter e nossa moral.
* * *
Cada um está na experiência de que precisa para se aperfeiçoar, para qualificar seu carácter e sua moral.
Devemos aproveitar o movimento da vida para evoluir.
Reclamações, melindres e coitadismo estagnam o ser e atrofiam a evolução, consequentemente, distancia-nos da paz.
Momentaneamente, podemos não compreender o objectivo de uma situação difícil.
Entretanto, devemos acreditar que toda experiência faz parte da dinâmica da evolução e é necessária.
Sem ela, muito provavelmente, nós ficaríamos acomodados.
Em todo momento, acredite que Deus está contigo, principalmente no instante de prece, pois Ele está.
Assim, toda problemática que acreditamos viver, será mais suave e encontraremos as soluções necessárias. Se o trabalho dignifica, o trabalho na prece traz mais dignidade ainda.
* * *
Com o correr dos dias, Valéria se empenhou em aprender e se cuidar.
Passou a frequentar a Casa Espírita junto com seu pai e se propôs aos cursos para entender melhor o Espiritismo.
Foi um belo e glorioso recomeço.
Enquanto isso, Sofia se entregava às malhas da ilusão.
Ao mesmo tempo, Hélder enxergava possibilidades de mudança e de uma vida melhor.
Ele e Rute começaram a namorar.
Saíam, passeavam e se propunham aos estudos no Centro Espírita.
- Já fiz esse curso, mas estou refazendo por sua causa, viu? - Rute brincou como se reclamasse.
Olha o que eu faço por você!
- A verdade é que não consegue ficar sem minha companhia e decidiu fazer o curso para ficar comigo!
Ela riu e o beijou.
Estavam se dando muito bem.
Dialogavam bastante e se compreendiam.
Eram muito sinceros.
- Hélder - ele olhou e ela disse - sei que temos um compromisso, mas...
Você acharia ruim se eu saísse com minhas amigas?
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 27, 2017 11:20 am

- Claro que não.
Pensou um pouco e argumentou:
- Bom...
Depende de onde você vai.
- Vamos juntas a um barzinho.
Tudo bem pra você?
A proposta o pegou de surpresa e, sem opinião formada, só pensou em dizer que concordava.
- Sim. Tudo bem.
Mas algo não lhe agradou.
Não sabia dizer o que era.
- Então, na sexta-feira, vou sair com a Luciana e mais duas outras amigas.
- Tudo bem. Vai lá.
Você quer que eu vá te pegar para te levar para casa? - perguntou ainda sentindo algo inquietante.
- Não. Não precisa.
A Lu vai de carro e me dará uma carona.
- Quando você voltar, mesmo que seja tarde, me liga para eu não ficar preocupado.
Pode ser? - pediu a fim de tentar ficar tranquilo.
- Claro. Ligo sim. Pode deixar.
Estavam passeando em um shopping e passaram em uma livraria.
Hélder lembrou-se da irmã que iniciava seus conhecimentos na Doutrina Espírita e decidiu:
- Vou comprar este livro para a Valéria.
Rute sorriu. Pegou o exemplar nas mãos.
Leu o verso do romance e comentou:
- Não acredito que a Valéria esteja se interessando pelo outro lado da vida.
Ela era tão incrédula!
Que bom que isso aconteceu.
Agora ela vai abrir seus próprios horizontes.
- Foi o orgulho e a vaidade que não deixaram a mim e a Valéria buscarmos ensinamentos da Doutrina Espírita antes, embora meu pai, principalmente, tenha nos dado muitos ensinamentos e base.
Quando acreditamos que somos fortes, poderosos e que nada ou ninguém vai nos abalar, é o auge do orgulho e da vaidade.
Então, só nos resta um caminho, que é para baixo, para o fundo.
De alguma forma, acredito que nos sabotamos e decaímos.
Atraímos situações difíceis e só nos resta pedir socorro a Deus, a Jesus.
A Doutrina Espírita possui embasamento para responder, se não todas, a maioria das nossas perguntas.
A mais comum delas é: por que passamos por uma situação difícil?
- E por que você acha que passamos por uma situação difícil?
- Para reflectir.
Porém nós não conseguimos reflectir enquanto tivermos, desesperadamente focados no problema.
Primeiro é preciso nos tranquilizarmos.
Mas não conseguimos nos sossegar com facilidade, pura e simplesmente.
É por meio de uma busca que podemos fazer isso.
E quando buscamos Jesus.
Quando buscamos o Pai Criador e rogamos por uma luz, por auxílio é que obtemos paz e entendemos o caminho a ser seguido.
E para começar a buscar auxílio em Jesus, em Deus é necessário nos despojarmos, nos libertarmos das nossas mazelas, do orgulho e da vaidade.
Quando fazemos isso, vemos o quanto somos pequenos e necessitados. Foi o que aconteceu comigo.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 27, 2017 11:21 am

Foi o que aconteceu com a Valéria.
Eu, por exemplo, só levava a vida.
Tinha um emprego bom.
Não acreditava nas pessoas.
Achava que o sofrimento existia porque alguém não se conformava com sua situação.
Um belo dia, me peguei preocupado com minha irmã.
Algo me incomodava muito.
Passei a sentir coisas...
Uma espécie de premonição.
Não entendi o que estava acontecendo.
Comecei a ouvir sem ter ninguém ao meu lado.
Era como se alguém falasse comigo dentro de meus pensamentos.
Como se eu ouvisse vozes.
Depois parava. Desaparecia.
Passei a ver vultos ou imagens... Era estranho.
Também, às vezes, achava que via dentro da minha cabeça por algum tempo, depois, sumia.
De repente, começava de novo. - Sorriu.
Achei que estivesse ficando louco.
Tomei remédio para esquizofrenia - riu.
Fui ao médico psiquiatra que nem olhou na minha cara e prescreveu o medicamento antes de esperar meus exames ficarem prontos.
Que pena muitos médicos não terem mais informações além das académicas.
Um momento e prosseguiu:
- Não me conformava.
Na época, foi bem difícil.
Achei que estava louco.
Queria morrer. Pensei em me matar...
Meu orgulho e vaidade me impediram de procurar ajuda e orientação antes daquele pânico todo.
Você não tem ideia de como foi difícil procurar a Sofia e contar tudo para ela.
Era algo simples, muito simples, mas para quem é orgulhoso e vaidoso procurar orientação é algo medonho.
Hoje tudo está esclarecido e...
Estou tão bem - sorriu e a abraçou, beijando-lhe o alto da cabeça.
- Graças a Deus! - Rute exclamou baixinho.
- Então!... Vamos levar esse ou aquele outro livro ali para a Valéria?
Ela leu o resumo do outro, observou bem e decidiu:
- Este! - sorriu, lindamente, ao levantar o que já segurava.
Compraram o livro e se foram.
* * *
Rute sentia-se feliz por viver essa nova fase em sua vida.
Chegou a acreditar que homens dignos e respeitáveis haviam sido extintos.
Que não encontraria nunca um companheiro bom e amigo fiel.
Hélder surgiu em sua vida e, até ali, parecia ser uma pessoa de carácter e responsabilidade.
Educado, atencioso, e ela procurava corresponder.
* * *
A sexta-feira chegou.
Conforme avisou ao namorado, Rute se encontrou com as amigas em um barzinho.
Luciana estava animada e em companhia de duas outras colegas.
Algum tempo bebendo cerveja e petiscando e Luciana reconheceu três amigos que frequentavam o mesmo lugar.
Os rapazes cumprimentaram a todas e decidiram juntar as mesas.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 27, 2017 11:21 am

A princípio Rute não gostou.
Não foi isso o que planeou.
Aliás havia dito a Hélder que sairia só com as amigas.
Agora não se sentia bem por haver rapazes ali.
Não queria reclamar com as moças ou ser indelicada.
Um dos rapazes, Caio, sentou-se ao seu lado.
Simpático, parecia educado e sempre sorria ao lhe dar atenção.
Rute não deu importância quando Caio enchia seu copo de cerveja cada vez que ela bebia.
Aliás, era ele quem sempre brincava e propunha um brinde a coisas ou acontecimentos singulares.
Não demorou para Caio e os outros rapazes pedirem bebidas alcoólicas destiladas.
Passaram, então, da cerveja fermentada à bebida etílica destilada, cujo efeito de entorpecimento e embriaguez é mais rápido.
Muitas pessoas consomem álcool com o intuito de criar coragem e soltar o freio moral, romper laços com a educação e agredir, directa ou indirectamente, os outros.
Na primeira fase, a pessoa fica excitada, no sentido de querer aparecer, destacar-se.
Ainda consciente de seus actos, é capaz de dizer e fazer coisas que, no estado sóbrio, não faria.
Por essa razão, naquela mesa, todos começaram a ficar animados, inclusive Rute.
Associado aos ingredientes que proporcionam sabor, odor e cor diferente, o álcool ou etanol, quando ingerido, é metabolizado no fígado.
As moléculas de álcool, conduzidas pela corrente sanguínea, chegam ao cérebro.
Nesse órgão, estimulam a liberação de hormônios como a Serotonina - hormônio responsável pelo humor, prazer e ansiedade, conforme sua interacção, a sua concentração nos neurónios.
Por essa razão, após a ingestão de bebida alcoólica a pessoa fica desinibida e eufórica.
Quanto maior é a ingestão de álcool, maior é a alteração da química corpórea e dos efeitos físicos.
Sua acção cerebral é devastadora porque, em nível de neurotransmissores, facilita a transmissão da dopamina e é por isso que se sente prazer e se perde a capacidade de controlar a quantidade de beber álcool, pois o ser humano tende a procurar algo para aliviar as tensões e que lhe proporcione sensações de prazer.
Existe o caso em que a pessoa ingere álcool, propositadamente, com a finalidade de cometer actos indevidos, delitos.
Ao contrário do que muitos pensam, o efeito do álcool, no organismo, deprime os mecanismos cerebrais, à medida que o consumo aumenta afectando, primeiro, o pensamento, a organização das ideias, a cognição, a opinião, a sensatez e segundo, os reflexos, os movimentos, a respiração e toda a parte motora.
Em casos de muita ingestão, provoca sono e coma.
Muitas vezes, o vómito é uma forma de reacção orgânica a fim de proteger o estômago e até os demais órgãos contra os prejuízos do álcool.
Muitos também ignoram que a bebida alcoólica é um psicotrópico por ter o poder de desenvolver dependência, agir no sistema nervoso central e alterar o comportamento de quem o ingere.
Como se não bastassem, esses e outros prejuízos físicos, psicológicos, morais e emocionais, também existe a problemática espiritual.
Para cada copo de bebida alcoólica existe, no mínimo, um espírito esperando pelo usuário a fim de vampirizá-lo em função de seus efeitos.
São entidades, muitas vezes, perversas, inferiorizadas no vício do alcoolismo e que não conseguiram superar suas necessidades.
A maioria com terrível aparência perispiritual, deformados, espiritualmente doentes.
Corpos espirituais ainda enfermos, trazendo cânceres expostos no sistema digestivo, deformidades pela cirrose, situações das mais terríveis nos intestinos e vísceras, pancreatite alcoólica, alterações comportamentais, convulsões, demência, múltiplas atrofias cerebrais, atrofia de membros, arritmias desesperadoras e muitas outras deformidades e problemas causados por ulcerações e eviscerações decorrentes do álcool e que por, sua consciência comprometida, continua dando andamento às sintomatologias após o desencarne.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 27, 2017 11:21 am

São esses os tipos de companheiros espirituais que se têm quando se ingere qualquer quantidade de bebida alcoólica.
Esses espíritos passam, muitas vezes, a seguir o encarnado que ingere álcool a fim de induzi-lo a beber cada vez mais.
O encarnado, então, começa a atrair para si consequências de desajustamentos.
Entre elas, o desajustamento nos relacionamentos, desajustamentos familiares como a insatisfação, a agressividade, intolerância, o desrespeito, entre outros.
Aos poucos, aparece a falta de um bom relacionamento no trabalho, mau ou péssimo rendimento das tarefas e atribuições, atrasos, faltas, acidentes e muito mais.
Muitas criaturas passam a entrar em estado depressivo e acreditam que ninguém mais as entende.
Algumas começam a cometer desatinos, sexo excessivo ou ausência de sexo, sexo transviado, prostituição, sexo banalizado e se afundam, cada vez mais, no antro das degradações humanas, porque a ingestão de álcool desinibe a criatura que já está com baixa auto-estima e não se valoriza mais.
De um modo geral, ao longo do tempo, a maioria perde a fé em Deus, nas religiões, filosofias e, se for médium então...
Lembrando que todos somos médiuns em maior ou menor grau.
Além disso, bebidas alcoólicas e drogas podem desencadear transtornos psiquiátricos em quem tem tendência a eles.
E foi então que, logo após os primeiros efeitos, na primeira fase de alcoolização, Rute começou a se sentir mal.
Apesar disso, continuou participando, aparentemente de modo normal, da conversa.
Todos estavam bem falantes.
Vez ou outra, alguém contava uma piada ou acontecimento engraçado.
E os risos cresciam.
Caio, ao lado de Rute, às vezes, tocava seu braço sobrepondo-lhe a mão para chamar-lhe a atenção antes de dizer algo.
Ela não gostava, porém não se manifestava.
Até que, em determinado momento, o rapaz sobrepôs a mão em sua perna e a alisou.
Rute sentiu-se mal ao sentir a mão do outro sob sua saia.
Constrangida, muito confusa, não sabia o que dizer nem como agir.
Ninguém à mesa demonstrou ter percebido.
Ela se levantou, disse que iria ao banheiro.
Pegou sua bolsa e assim o fez.
Estava tonta. Atordoada.
A música em volume alto era ainda mais perturbadora, provocadora de transe pelas batidas.
Sentia seu peito apertar e um nó na garganta.
Lembrou-se do caso da noiva de seu irmão.
Do quanto Roxana havia se deixado influenciar e como uma atitude impensada tinha prejudicado sua vida.
Foi difícil Yuri perdoar-lhe e, ainda assim, o romance entre eles não estava bom como antes.
Via o irmão desanimado.
Rute sentiu-se humilhada, agredida.
Caio, que mal conhecia, não tinha sido digno.
Tratou-a como uma qualquer.
Ela não tinha dado liberdade para ele passar a mão em sua perna.
Ou tinha?
A partir de quando ele começou a servi-la com bebida, de quando não reclamou que a tocasse no braço...
Tinha sido uma aprovação para que ele prosseguisse?
Poderia tomar alguma providência.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 27, 2017 11:21 am

Conhecia tanto sobre Leis de protecção à mulher.
Sentiu-se tão humilhada.
Cade a coragem?
Estava embriagada e sabia disso.
- Droga! Eu não deveria estar aqui! - murmurou sozinha, sentindo-se muito mal com o ocorrido.
Abriu a bolsa, pegou o celular e ligou:
- Hélder! - chamou ao ser atendida.
- Oi! Tudo bem?
Estava muito tonta por causa do efeito do álcool.
Nem sabia o que dizer.
- Não estou muito legal.
Será que você pode vir me pegar?
- Pensei que já estivesse em casa.
Onde você está? - ele se preocupou.
Rute deu o endereço.
Ficou aguardando, ali no banheiro, para que desse tempo suficiente de o namorado vir pegá-la.
Após longos minutos, pegou dinheiro em sua carteira e voltou até a mesa onde os demais nem deram conta de sua ausência.
Gritou para poder se fazer entender, por causa do volume alto do som.
Entregou o dinheiro na mão de Luciana, a fim de ela pagar sua parte nas despesas.
Não ofereceu tempo para que alguém lhe fizesse perguntas.
Despediu-se de uma forma geral e se foi.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 27, 2017 11:21 am

Capítulo 15 - Sob efeito do álcool

Rute saiu do estabelecimento e caminhou pela calçada para chegar à esquina onde ficou de encontrar Hélder.
Passou em frente a outros bares e observou moças e rapazes, visivelmente, alcoolizados.
Falavam alto, riam escandalosamente.
Diziam palavrões do mais baixo nível para expressar uma simples emoção.
Ela sentiu-se tomada por um medo inominável.
Via pessoas se esfregando, vulgarizando-se, desvalorizando-se em todos os sentidos morais.
Caminhou assustada. Não sabia o porquê.
Um toque de buzina e olhou.
Reconheceu Hélder ao volante do carro.
Atravessou a rua.
Entrou no veículo e pediu, sem antes cumprimentá-lo:
- Me tira daqui, por favor.
- O que foi? Aconteceu alguma coisa?
- Não. Nada. Mas...
Vamos embora.
Hélder obedeceu, tomando o caminho da casa da namorada.
Diante do longo silêncio, o rapaz perguntou:
- O que houve para você estar assim?
- Estou me sentindo muito mal.
- O que você tem, Rute? - insistiu, bem preocupado.
- Pare o carro!
- Como?!
- Pare o carro! Estou passando mal!
Ele parou. Ela abriu a porta.
Desceu e encostou a mão em um poste próximo e vomitou.
O namorado desceu e foi para perto dela, mas não tinha o que fazer.
Alguns minutos e Rute se recompôs um pouco.
Voltou a se sentar no automóvel e Hélder ficou observando-a.
Concentrado nela, ficou insatisfeito.
Depois, entrou no veículo e continuou o destino.
* * *
Ele estacionou e desceu.
Contornou o veículo e abriu a porta para a namorada.
Estendeu--lhe a mão e a ajudou a sair.
Já na sala, ela se sentou no sofá e ele, em pé ao seu lado, perguntou:
- Você bebeu todas, não foi?
- Desculpa. Nunca me senti tão envergonhada - expressou-se, falando mole.
- Rute! Isso são horas, filha?! - preocupada, dona Leila perguntou chegando à sala, arrumando o robe que vestia.
- Ai, mãe...
Não sei o que foi - fechou os olhos sem olhar para a mulher.
Estava com os pensamentos atordoados e constrangida também.
Encostou no braço do sofá e encolheu os pés.
- Liguei para o seu celular e não atendeu.
Não liguei para você, Hélder, porque não tinha o seu número - falou olhando para ele.
Voltando-se para a filha, reclamou:
- Por que bebeu assim?
Você não é de fazer isso! - esbracejou.
Até pedi para o Yuri ir atrás de vocês, mas ele nem sabia onde.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 27, 2017 11:22 am

Virou-se para o rapaz, novamente, e se queixou:
- Por que deixou minha filha beber tanto?
- Eu não estava com ela, dona Leila - defendeu-se ele.
Ela me disse que iria sair com as amigas e só iria mulher e...
Fiquei de fora. Até porque não gosto de bares.
- E você deixou que ela fosse sozinha?!
- A Rute é maior de idade, dona Leila.
Além disso, ela já saiu sozinha antes com as amigas.
A mãe não se conformava.
Nunca tinha visto a filha daquele jeito.
- Levanta, Rute!
Vai tomar um banho frio.
Hélder a ajudou a se erguer e a conduziu até o banheiro enquanto a mãe foi pegar as roupas da filha.
Yuri acordou por causa da movimentação na casa.
Levantou para saber o que estava acontecendo e o amigo contou.
- A Rute não é disso.
Não é de beber assim.
Toma um ou dois chopes. Não mais.
- Mas seu estado, hoje, é de muitos chopes e algo mais - tornou Hélder, que não parecia nada satisfeito.
- É... Dá para perceber - concluiu o irmão.
- Não gosto disso, Yuri.
- Nem eu.
Olhando seu relógio e vendo que não adiantaria ficar ali, Hélder decidiu:
- Já vou indo. É bem tarde...
Digo, cedo. Não vou ajudar em nada.
Quando ela sair do banho, provavelmente, vai dormir. Até!...
Mais tarde, eu ligo.
- Certo. Está bem.
- Diga a sua mãe que deixei um tchau.
- Beleza!
Despediram-se e Hélder se foi.
* * *
Bem mais tarde, pouco antes do horário do almoço, Rute acordou.
Ainda sentia tontura, estômago embrulhado e uma dor de cabeça terrível.
Levantou-se. Estava com uma toalha enrolada nos cabelos umedecidos do banho que tomou de madrugada.
Tirou a toalha e soltou os cabelos pretos que lhe cobriram os ombros e parte das costas.
A cabeça pulsava.
Foi para perto de uma cómoda, a abriu e pegou um analgésico.
Tomou um comprimido com a água que havia no copo sobre o criado-mudo.
Sentou-se, novamente, e segurou a cabeça com as mãos, apoiando os cotovelos nos joelhos.
Poucas batidas à porta e a voz de Yuri pediu:
- Posso entrar?...
- Entra - permitiu com a voz rouca.
O irmão entrou.
Sentou-se ao seu lado e perguntou:
- E aí? Como está?
- Péssima... - sussurrou.
- Que vexame, hein!
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 27, 2017 11:22 am

- Cala a boca... - sussurrou, novamente.
- Cala a boca, nada!
O que deu em você?!
Não é de fazer isso.
Bom... Não que eu tenha visto - riu, para provocá-la.
- Você não está me ajudando em nada.
- Estou sim. Estou fazendo você se arrepender para não fazer isso de novo.
Rute não respondeu e o irmão contou:
- O Hélder saiu daqui decepcionado.
Já ligou três vezes.
- Ele ligou?!
- Ligou, sim.
Três vezes - repetiu.
- Droga! - ela exclamou, murmurando.
- Disse que vai passar aqui mais tarde.
- Pisei na bola, né? - Rute falou, olhando para o irmão com uma expressão de arrependimento.
- Pisou mesmo, maninha.
- Lá no barzinho aconteceu algo muito chato e...
Não costumo beber assim.
- O que aconteceu de chato? - o irmão quis saber.
Rute pensou um pouco e se calou, dissimulando:
- Agora tenho certeza de que onde tem bebida sempre tem quem dá vexame.
Lembro que vomitei quando o Hélder me trazia.
- No carro dele?! - fez cara de nojo.
- Não, né! Deu tempo de pedir para ele parar.
- Nossa! Que ideia ele não deve fazer de você, não é mesmo?
- Não enche, Yuri! - zangou-se.
Nesse momento, Thor, o cachorro da família, entrou no quarto e ficou abanando o rabo para Rute que esfregou um pouco sua cabeça fazendo-lhe um carinho.
O cão lambeu-lhe a mão.
Yuri também o agradou e chamou:
- Vem, amigão! Agora chega.
Não precisa mais lamber a boca dela.
A Rute está acordada e não vai deixar.
Vamos combinar que, da próxima vez, você lamberá enquanto eu filmo para jogar nas redes sociais da internet e...
- Some daqui, vai! - ela esbracejou e lhe jogou um travesseiro.
Yuri se desviou do travesseiro jogado e riu, enquanto o cachorro o seguia, remexendo-se e fazendo festa.
Quando ele latiu alto, Rute reclamou:
- Estou com dor de cabeça... Por favor...
- Vem, Thor!
Vamos passear! Vamos!
O cachorro entendeu e latiu mais, saindo do quarto atrás do rapaz.
* *
Rute procurou se recompor ao máximo.
Banho frio, remédio, comida, café forte e outros cuidados só davam a sensação de acordada, ou seja, mantinham-na desperta, porém com todos os efeitos da embriaguez.
Seriam necessárias de seis a oito horas para que o álcool perdesse o efeito no organismo, podendo, ainda, deixar órgãos sequelados e sob o efeito dos estragos causados.
Não há ninguém livre dos efeitos do álcool e não existe esta ou aquela bebida fraca.
Já escurecia quando Hélder chegou à casa da namorada.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 27, 2017 11:22 am

Recebido por dona Leila, que não estava risonha como de seu costume.
Sentia-se constrangida pelo ocorrido.
Ele a tratou com normalidade.
Thor também foi recebê-lo e o rapaz brincou com o cachorro antes de entrar.
Já na sala...
- Vou chamar a Rute.
Você espera aqui?
- A senhora acharia ruim se eu fosse até o quarto dela para conversarmos? - perguntou bem sério.
- Vou perguntar para ela.
Bem séria, dona Leila foi até o quarto da filha.
Bateu à porta e entrou.
Sem demora, disse:
- O Hélder está aí.
Ele quer vir aqui para conversar com você.
Rute estava arrumada e pronta para ir recebê-lo na sala.
- Conversar aqui?
Porquê aqui?
- Não sei. Ele não me pareceu com a cara boa - falou em tom zangado.
Você também, né!
- Manda o Hélder vir até aqui, mãe.
Por favor... - pediu, sentindo a adrenalina correr em seu corpo anunciando um medo incontrolável.
Estava gostando dele. Tinha certeza.
Agora, além de vergonha, tinha medo de perdê-lo.
Não era seu feitio se embriagar.
Talvez, Hélder não soubesse e não entendesse isso.
Aqueles segundos de espera foram os mais cruéis e longos.
Algumas batidas à porta e ele espiou pedindo:
- Posso entrar?
- Oi...Claro.
Entra - sorriu, constrangida e foi ao seu encontro.
- Oi.
Ele lhe deu um beijo rápido nos lábios.
Afagou seu rosto com carinho, ao mesmo tempo em que a olhou por longos segundos.
Depois indagou:
- Você está melhor?
- Bem melhor.
A cabeça ainda dói, mas não é nada.
Inquieta e ansiosa, não conseguiu esperar e perguntou:
- Minha mãe disse que você queria conversar comigo aqui.
- É...
Ele andou um pouco pelo quarto e confirmou:
- É prá gente ficar mais à vontade.
Ela pegou uma cadeira e colocou próxima de sua cama.
Solicitou que se sentasse e sentou-se na cama em frente ao rapaz.
Hélder respirou fundo, após se acomodar, e sorriu com timidez enquanto Rute ficou sofrendo com a grande expectativa.
- Fala - ela pediu com a voz fraca.
- Gostaria de conversar sobre o que aconteceu ontem, ou melhor, na madrugada de hoje.
- Hélder, por favor, me perdoe - disse com angústia na expressão.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 27, 2017 11:22 am

Olhando-o nos olhos, pareceu implorar:
- Me desculpa. Eu não...
- Espera um pouquinho - interrompeu-a com um tom educado na voz.
Deixe-me contar minha história.
Acho que você não me conhece tanto.
Assim como eu ainda não a conheço também.
Ofereceu um minuto de trégua.
Remexeu-se na cadeira e respirou, profundamente, antes de contar:
- Rute, outro dia eu disse que sempre vivi a vida e...
Nunca levei nada tão a sério. Lembra?
Ela balançou a cabeça sinalizando que sim, e ele prosseguiu:
- Então... Não faz muito tempo, eu saia com uma turma do banco e amigos de outras agências.
Ficava curtindo até tarde.
Bebia, saía com mulheres...
Eu não tinha nenhum compromisso sério com nenhuma. Sabe por quê?
- Não - murmurou.
- Porque elas, pelo menos as mulheres que conheci, não se respeitavam.
Era nos barezinhos, nas baladas...
Nenhuma se respeitava.
Algumas vezes, senti inveja do meu irmão Alex.
Ele conheceu a Ivone, minha cunhada. Você conhece?
- Sim. Claro.
- Eles se conheceram na faculdade.
Ela sempre foi pessoa decente.
Juntos, levam uma vida como a dos meus pais e possuem duas qualidades invejáveis para muitos.
Sabe quais qualidades são essas?
- Não.
- Respeito e carinho.
Ofereceu um instante e prosseguiu:
- Lógico que existe entre eles opiniões diferentes, mas o respeito faz com que não briguem, e sim, conversem.
Enquanto que o carinho complementa o entendimento.
Respeito é sinceridade, amizade, honestidade.
O carinho, eu diria, é a cereja do bolo.
Ela sorriu e Hélder correspondeu ao seu sorriso.
- Não gosto de lembrar da vida que eu levava e que me causou muita perturbação.
Embora eu tomasse cuidado para não engravidar ninguém nem me contaminar com doenças, todas as vezes que eu saia com uma mulher fácil eu me arrependia.
Tinha nojo de mim.
Foi, então, que a mediunidade me perturbou.
Perturbou porque o meio onde vivia, as companhias que tinha, os amigos com quem saía eram todos de um nível inferior e de acordo com os espíritos que os acompanhavam, lógico.
Hoje, apesar de não ter estudado tudo o que preciso, já entendi que temos, espiritualmente falando, companheiros semelhantes aos actos que praticamos.
Se você bebe, mesmo que pouco, terá ao seu lado um espírito que suga as energias que produz quando está sob o efeito do álcool.
Com toda a certeza, os espíritos favoráveis, dependentes de bebidas alcoólicas, vão querer que você beba mais e mais.
Só que a coisa não para aí.
Lembro que, muitas vezes, se eu não tivesse bebido, não teria saído e transado com uma ou com outra...
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