O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 27, 2017 11:22 am

Consequentemente, não teria raiva, nojo de mim mesmo depois.
Não teria uma problemática psicológica e espiritual para resolver.
Quando bebemos, não só os espíritos viciados nos fluidos do álcool se ligam a nós, mas também os espíritos que gostam de brigas, de bancaria, de promiscuidade, sexo casual, prostituição passam a nos acompanhar.
Por isso é tão comum ver alguém, sob o efeito do álcool, fazer alguma baixaria, corromper-se, vulgarizar-se e depois ficar com vergonha, pois em seu estado normal, sem os efeitos da bebida alcoólica, não faria nada do que fez.
Quando alguém bebe, perde o bom senso, perde o freio moral.
Fica agressivo, exibido ou se deixa levar pela animação do momento.
Rompe os laços com a educação e os bons princípios.
Eu digo isso com conhecimento de causa.
Sei o quanto é constrangedor, vergonhoso se olhar no espelho, e para as outras pessoas, no dia seguinte, e lembrar do que fez.
E, se houver reincidências, a pessoa começa a perder a vergonha e cria dependência no álcool e estreita ligações com espíritos que se aproveitam dela.
Daí, então, é um passo para a perdição, para a desvalorização.
A reincidência também vai fazer com que os outros a desvalorizem e a vejam como pessoa não confiável, fraca e que vive dando vexame.
Viver a vida, aproveitar a vida, enchendo a cara, é desvalorizar-se.
Educar-se, em todos os sentidos, a começar pela postura, pelo seu posicionamento de dizer não ao que não é bom, é evolução.
Não precisamos de bebida alcoólica para sermos felizes nem para ficarmos alegres.
Ele fixou-se nela e tocou sua alma através de seu olhar.
- Por que precisamos beber?
Não houve resposta.
- Qualquer quantidade de bebida alcoólica altera nosso estado psicológico e atrai espíritos inferiores.
Rute abaixou a cabeça e Hélder falou:
- Nunca vi meus pais beberem.
Na minha casa, não tem bebida alcoólica.
Infelizmente, eu experimentei e... Não foi bom.
Não quero viver perturbado, como meses atrás, sofrendo, psicologicamente, com sensações estranhas e perturbadoras por causa de espíritos que eu via, sentia e ouvia.
Ofereceu uma pausa.
Depois continuou:
- Comecei a estudar e educar minha mediunidade e, ontem, ao seu lado, eu fiquei muito perturbado, novamente.
Senti uma coisa muito ruim.
Subitamente, perguntou:
- Seu pai bebia?
Ela o encarou e respondeu:
- Sim. Bebia sim.
- A bebida alcoólica agrava situações no lar.
Provoca a intolerância, a agressividade, sentimento de desvalorização de si e dos outros.
E tudo de ruim.
Você já viu esse filme, que eu sei.
Eu senti o seu pai ao seu lado ontem.
Por isso acho bom que faça um tratamento de assistência espiritual e pare, definitivamente, de beber qualquer coisa que tenha álcool.
Em seguida, perguntou:
- Seu irmão bebe?
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 27, 2017 11:23 am

- Não. Nem ele nem minha mãe.
Porque viam meu pai beber e...
Para eles foi uma lição.
- Maravilha! Pena você não ter aprendido com eles.
Mas, ainda é tempo.
O silêncio imperou por longo tempo.
Rute ficou de cabeça baixa reflectindo sobre o que ele havia dito.
Estava envergonhada pela lição.
Chateada consigo mesma, pois, com tanto conhecimento sobre a espiritualidade, deveria ter usado tudo o que aprendeu e se vigiado mais.
Hélder suspirou fundo, novamente, e pediu:
- Depois de tudo o que eu falei, gostaria ainda de propor algo.
- O quê? - perguntou com voz fraca, cabeça pouco erguida e com os cabelos escondendo seu rosto.
- Que tentemos nos dar uma nova chance.
- Como assim, Hélder?
- Eu estava a fim de terminar tudo entre nós.
Veja... Eu conheci mulheres fáceis, sem valor, que bebiam, fumavam, desvalorizavam-se com comportamento, vestimenta, trejeitos e outras formas e...
Não quero alguém assim do meu lado.
Não quero alguém que minta para mim e...
Você me disse ontem que iria sair com suas amigas, mas a verdade é que tinham homens lá com vocês. Não é mesmo?
- Sim. Tinha sim.
Mas eu não sabia.
Aliás, eram amigos da Luciana e que nos encontraram lá por acaso.
Não estava previsto para eles irem.
- Não precisa explicar.
Não quero saber o que aconteceu ontem.
Hoje em dia, tem essa tal Lei para as mulheres e... - riu.
Você é formada em Direito...
Sei que homem não pode proibir mulher de fazer nada e isso é justo... - sorriu, tentando deixar o clima menos tenso.
Veja bem, não estou proibindo você de fazer nada.
Nem de sair com suas amigas.
Só quero pedir que, se for sair, que seja um encontro num shopping, restaurante, café...
Sei lá! Vá! Pode ir.
Mas, se for para bares ou baladas, eu não vou querer ficar com você.
Porque eu sei exactamente o que existe nesses lugares e o que pode acontecer, principalmente, depois do primeiro copo de bebida alcoólica.
Tocou em seu queixo e o ergueu.
Passando-lhe a mão no rosto pálido, tirou uma mecha de cabelo dos olhos e a fez encará-lo.
Invadindo sua alma com o olhar, falou de modo terno:
- Amo você, Rute.
Não vou suportar vê-la, novamente, daquele jeito, igual a ontem.
Ela não suportou.
Deixou que lágrimas corressem em seu rosto e, quando foi virar a face, ele se aproximou e a abraçou.
- Me perdoa? - pediu com a voz abafada em seu peito.
- Claro. Quero que também perdoe a minha franqueza.
Eu disse tudo isso porque acredito que é correto, em um relacionamento, a gente expressar uma opinião para que um conheça o outro e saiba o que vai tolerar ou não.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 27, 2017 11:23 am

Breve pausa e ainda disse:
- Por isso, ainda peço que nunca me traia, porque eu não vou te trair.
Não minta, porque não vou mentir.
Não beba, porque não vou beber nem tolerar mulher que bebe.
Vou respeitá-la e preciso que me respeite.
Vamos ouvir, conversar e nos conhecer sempre.
Estou propondo isso porque foi o que vi em relacionamentos duradouros que deram certo.
Para fazer isso, é preciso saber que quer ficar junto, ter consciência das responsabilidades e, verdadeiramente, amar o outro.
Ela sorriu, mas ainda estava envergonhada.
- Amo você, Rute.
- Também te amo.
Ele beijou sua cabeça.
Afastou-a de si e a encarou, quando segurou seu rosto com ambas as mãos, dizendo:
- Eu quero que dê certo entre nós. Quero muito.
- Eu também. Estou com muita vergonha do que fiz.
Prometo que isso nunca mais vai voltar a acontecer.
Nunca mais vou beber.
Nunca mais vai me ver assim.
É o velho ditado:
quem não aprende com amor, aprende com a dor.
- Não fique com vergonha. Fique com a lição.
Esse sentimento ruim vai passar, mas não se esqueça dele.
Nem se esqueça do porquê ele surgiu.
Hélder a puxou para si e a beijou com carinho.
Naquele dia, ficaram, ali, na sala da dona Leila.
Ela a acolheu num abraço enquanto ficaram no sofá assistindo à televisão.
Não conversaram muito.
Dona Leila não estava nada feliz com o comportamento da filha e isso podia ser visto em seu semblante.
Não teve tempo de conversar com ela e esperou Hélder ir embora para fazê-lo.
Assim que Rute foi para seu quarto se aprontar para dormir, a mãe chegou.
- Posso entrar?
- Oi, mãe. Entra.
A mulher deu alguns passos, olhou em volta, e perguntou:
- O que aconteceu para você fazer isso, Rute?
- Mãe... Na verdade era para eu sair com minhas amigas.
A Luciana, a Cleide e a Hilda.
Como já fiz algumas vezes.
Mas, lá no barzinho, apareceram três amigos da Lu.
Juntaram as mesas.
Costumo beber um pouco e parar, mas...
Os rapazes pediram bebidas mais fortes e eu misturei.
- Filha, não tem essa de beber pouco ou de bebida mais forte ou mais fraca.
Já disse isso para você.
Toda bebida atrai espíritos que vão ficar, ali, te incentivando ou incentivando outra pessoa a pôr mais bebida em seu copo e deixá-la mais animada para beber mais.
O espírito fica fazendo isso até conseguir.
Ele tem todo o tempo do mundo.
Dona Leila pareceu adivinhar o que tinha acontecido.
- Beber é se permitir entrar em um mundo de irresponsabilidade, em minha opinião.
Lembra-se da frase: Orai e Vigiai?
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 27, 2017 11:23 am

A filha acenou positivamente com a cabeça e a senhora comentou:
- Quando alguém bebe não se vigia mentalmente.
A pessoa vive um estado de idiota e não se freia no que fala, pensa ou faz.
Muitas, hoje em dia, deixam-se flutuar na leviandade, nas más paixões e nos prazeres profanos, prazeres que ofendem a si mesmas.
Ofendem e maltratam a própria consciência, depois que se dão conta do que fizeram.
É como se a pessoa se deixasse voltar a um estado primitivo, levar-se por instintos que anulam a razão e a moral.
Bebida alcoólica, geralmente, em bares e baladas, terminam com envolvimento sexual sem respeito ou responsabilidade.
Eu sei. Não pense que é porque estou com sessenta anos que não sei como está o mundo.
Cada dia o número de mulheres e adolescentes que ingerem álcool aumenta mais e mais.
Falam que isso não é correto, mas ninguém explica porquê.
Breve pausa.
- O porquê está no desregramento moral, no vexame emocional, na falta de educação, na falta de princípios, na vulgaridade e no vício.
Bebida alcoólica só atrai catástrofe e degeneração de seus órgãos.
Quantas mortes criminosas, chamadas de acidentes de trânsito, ocorrem por causa da bebida?
Quantas brigas e crimes ocorrem por conta do álcool?
Quantos comportamentos levianos que atraem dores morais e doenças existem todos os dias porque a pessoa se sentiu animada para se entregar àquele acto por ingerir álcool?
Em todas as classes sociais, encontramos vítimas do álcool.
Famílias inteiras são destruídas por causa dele.
Profissionais competentes se degradam por conta da bebida.
Temos como exemplo as pessoas públicas.
Presidentes de países, homens do governo, atores e actrizes, atletas e outros que se fizeram vítimas do álcool e prejudicaram suas vidas, carreiras e reputações.
Nós mesmos tivemos essa dor, quando seu pai bebia e nos maltratava ou quando caía na cama embriagado e não dava uma única palavra.
Quanta dor, não foi mesmo?
A filha estava sentada e de cabeça baixa.
De seus lindos olhos, lágrimas quentes escorriam descendo pela face pálida.
Não dizia nada e só ouvia a mãe falar de modo firme:
- Embriaguez pode se tornar um vício infeliz.
Eu já te disse isso.
Já perguntei para muitas pessoas por que elas bebiam e, até hoje, não encontrei alguém que me desse uma resposta razoavelmente racional.
E com isso eu só posso deduzir que elas estavam sob influência espiritual muito negativa.
O único motivo de se ingerir álcool é desejar o acesso a influências vis, baixas de todos os tipos.
A influência espiritual faz uma pessoa beber álcool para se tornar leviana, desrespeitosa, agressiva, exibida ou qualquer outra coisa.
Nunca faz uma pessoa ser gentil, amável, educada ou ter qualquer outra qualidade.
Quando bebe, é o momento em que a pessoa relaxa todo o cuidado que tem com ela mesma.
Bebida nunca trouxe felicidade a ninguém.
Só dor, vergonha e desgraça.
- Tá bom, mãe. Chega - reclamou em tom baixo, envergonhado.
- Não chega não! - foi firme.
Sou sua mãe e tenho vivência o suficiente para chamar sua atenção, independente da sua idade, enquanto morar sob o meu tecto.
E... Quer saber? Mesmo que não morasse.
Deus confiou você aos meus cuidados e eu preciso zelar por você ou não cumprirei bem minha missão.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 27, 2017 11:23 am

Longa pausa.
- Nunca mais quero ver você como vi nessa madrugada. Entendeu?
- Entendi sim. Desculpa.
Não vai mais acontecer.
Eu prometo - disse levantando, levemente, o olhar envergonhado.
- E eu vou cobrar. Que vexame, Rute!
Outro dia, você estava reclamando sobre o facto de não existirem mais rapazes bons, educados e que queriam um compromisso sério.
Agora, que encontrou alguém que preenche os requisitos, sai com as amigas, bebe, enche a cara e mostra tudo de bom que faz quando embriagada! - ironizou.
- Ai, mãe... Por favor.
Algumas batidas à porta e Yuri entrou, perguntando:
- Interrompo alguma coisa?
- Não - respondeu a senhora firme e zangada.
Virando-se, foi à direcção da porta e voltou-se para dizer antes de sair:
- Pense muito sobre tudo o que aconteceu.
Ao ver a mãe sair, Yuri indagou:
- E aí? Melhorou?
- Estou melhor - suspirou fundo, parecendo relaxar um pouco mais.
O irmão sentou-se na cama ao seu lado e quis saber:
- Conversou com o Hélder?
- Conversamos. Ai, Yuri...
Que coisa feia. Estou me sentindo tão mal!
- Ainda bem! - ele exclamou e sorriu.
- Como assim?!
- Pior seria se você tivesse achado legal ter bebido todas!
Por ter vomitado no carro do namorado. Por...
- Não vomitei no carro dele! - enervou-se.
- Fala sério! Foi quase!...
- Não enche, vai.
Estou falando sério.
- Eu também.
Um momento e Yuri satirizou:
- Eu, que sou homem, em casa, dormindo e você...
- ...batendo pernas.
- Batendo pernas, nada!
Batendo os canecos por aí!
- Cretino! -reagiu e riu.
Pegou um travesseiro e bateu no irmão que deu o ombro.
- Agora, vem cá.
Deixe-me perguntar uma coisa.
Ela olhou e ele indagou:
- Aprendeu?
- Ai! Lógico que aprendi.
- Tomara. Porque, se não aprendeu, vai acontecer de novo.
Sabe, Rute, tem coisa que se repete na nossa vida até a gente aprender.
- Me lembrei da Roxana.
Era para ser só eu e minhas colegas.
Ainda estou engasgada. Passando mal.
Com uma dor nos sentimentos.
Encarou o irmão.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 28, 2017 10:08 am

Ele ficou prestando atenção e Rute contou:
- Estávamos, lá no barzinho, e apareceram três carinhas amigos da Lu.
Juntaram as mesas.
Ficamos conversando, brincando.
E, no meio disso tudo, eles pediram bebidas mais fortes.
Um deles não deixava meu copo vazio e...
O cara começou a me dar uma empurradinha com o ombro quando achava algo engraçado e a pôr a mão em mim quando ia contar qualquer coisa e...
Depois de um tempo, quando todo o mundo estava bem embriagado, o cara passou a mão em mim... - chorou.
- Ai que raiva!!! - exclamou indignada.
- Ficou só nisso? - perguntou Yuri, friamente.
- Ficou sim. Foi só isso, mas...
Não é só! Entende?
Eu estava de saia e ele passou a mão na minha coxa e subiu!...
Me senti vulgar!
Uma qualquer! Um lixo!
E... E eu não sabia o que fazer!
Eu não sabia o que dizer e... - chorou.
O irmão passou a mão em suas costas para tranquilizá-la.
- Vou te falar como homem, tá?
Ela secou o rosto, encarou e Yuri disse:
- Quando bebemos, nós relaxamos o lado moral.
Daí a influência espiritual começa acontecer.
Você deve ter feito algum gesto, falado alguma coisa que fez o cara entender que você se tratava como uma qualquer.
Não bastasse o espírito que te influenciou a beber mais e mais, outro espírito inferior, feminino, talvez, e bem vulgar, inspirou-a a não reagir ou não ter postura e posicionamento quando o cara te deu uma empurradinha com o ombro ou colocou a mão em você.
Enquanto isso, outro espírito deveria estar junto dele para incentivá-lo a ser mais provocante.
E a força da atracção da leviandade.
Você deu alguma insinuação, alguma permissão, algum sinal que ele entendeu como leviandade de sua parte.
- Mas eu não!... - ela não terminou porque o irmão a interrompeu.
- Eu sei. Não queria. Não tava a fim.
Mas não se posicionou! E ele foi em frente!
Homem que não tem carácter, principalmente quando embriagado, age por instinto.
- Não sou vagabunda!
- Eu sei. Mas os espíritos envolvidos com bebidas alcoólicas e todo tipo de leviandade, querem que seja.
Não dá para separar.
Uma coisa puxa a outra.
- Eu não comentei nada com o Hélder.
- Ele não quis saber? - o irmão perguntou.
- Não. Mas foi como se ele entendesse que algo estranho aconteceu.
- Sabe o que é legal?
Não esperou por resposta.
- Para muitas mulheres isso seria algo muito simples.
Um cara passar a mão na coxa seria algo sem importância.
Mas, para os seus princípios, isso não é correto.
Por isso se incomodou.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 28, 2017 10:08 am

Para quem tem princípios morais elevados, para quem não é leviana, isso não é correto.
Essa sua indignação mostra que você é uma pessoa de valor.
- Pode ser, mas não melhora essa coisa ruim que estou sentindo.
- Vai passar. Só procure não esquecer a ponto de deixar acontecer de novo.
Uma coisa é você querer sair com um cara e se permitir a um carinho.
Outra, é ser usada, leviana e deixar qualquer um passar a mão.
Não é esse o seu caso.
Rute pensou um pouco e lamentou:
- Justo eu... Toda cheia de querer ser!
Critiquei a Roxana. Falei um monte.
Que ela deveria se vigiar mais.
Tenho um monte de conhecimento sobre Lei Maria da Penha e...
Não fiz nada. Não tomei uma atitude. Que droga!
- Foi um aprendizado.
Agora sabe que não podemos criticar ninguém.
Não sabemos o que faríamos no lugar da pessoa.
- Ouvi tanta coisa do Hélder.
- Ele brigou com você?
- Não. Falou coisa boa, mas que me deixou tão envergonhada.
Esperou um pouco, sorriu e disse:
- Sabe, eu senti que ele está comigo porque gosta de mim.
Porque quer coisa séria - sorriu novamente.
- Então, se gosta mesmo dele, respeite-o. Converse sempre.
Explique e procure entender.
Não grite! - ressaltou e riu.
Homem odeia grito e jeito estridente de falar - riu novamente.
- Já vai puxar a brasa para a sardinha masculina! - riu junto.
Yuri se levantou, curvou-se e a beijou na cabeça.
- Já está tarde.
Vou tomar um banho e dormir.
Quero dar uma corridinha no calçadão amanhã.
- Vem cá!
Esperou que ele olhasse e perguntou:
- Você e a Roxana estão bem?
- Pra dizer a verdade... Não sei.
- Você conseguiu perdoá-la?
- Acho que sim.
- Como acha que sim?
- Decidi dar uma chance.
Retomamos o noivado, mas não está como antes.
- Vocês desmarcaram o casamento?
- Não.
- Yuri! Falta pouco!
Os meses vão passar rápido!
- É. Eu sei - disse e respirou fundo, ficando com o semblante bem sério.
- Então não perdoou?
- Está acontecendo algo estranho que ainda estou procurando entender.
Eu não estou mais pensando no que a Roxana fez.
Aliás, eu não estou mais pensando na Roxana.
Isso está bem difícil para mim.
Não nos envolvemos e...
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 28, 2017 10:08 am

- Como assim?! - surpreendeu-se a irmã.
- Não estou animado com esse noivado, muito menos com o casamento.
- Você arrumou outra?
- Não! Jamais eu conseguiria trair.
Não é meu perfil. É que...
Tem alguém que não sai da minha cabeça.
A irmã pensou um pouco, enquanto se olharam por minutos.
- Sofia? - ela perguntou em tom cuidadoso, demorado.
- É - não a encarou. Fugiu do olhar.
- Eu percebi. E percebi que ela também...
- Também o quê? - ficou ansioso.
- Acho que ficou interessada em você também.
Queria que você passasse lá no apartamento dela para me pegar e subisse para comer alguma coisa.
E pareceu decepcionada quando eu disse que você e a Roxana voltaram.
- Tem certeza?
- Olha, Yuri...
Ela sumiu desde quando vocês retomaram o noivado.
Não veio mais aqui e quase não dá notícias.
- O dia em que a Roxana esteve aqui eu vi que ela não gostou.
Foi para a cozinha com a mãe e ficaram lá conversando.
Quando decidiu ir embora, até queria levá-la, mas eu e a Roxana estávamos nos acertando ainda e... - falou baixo, a irmã quase não ouviu:
- Me deu uma coisa vê-la ir embora.
- Ah... Por isso ela não sabia que vocês tinham voltado.
Ela foi embora antes.
- E ela e o George? - o irmão se interessou.
- Não estão mais juntos.
Acabou tudo e faz tempo.
O cara, safado, deu um golpe nela que está com dívidas até o pescoço.
Até sugeri um advogado que conheço.
Mas nem sei como anda o caso.
Faz tempo que não converso com a Sofia.
- Será que?...
- Quê?...
- Ficaria mal se eu ligasse para ela? - ele se interessou.
- Ficaria sim, Yuri.
- Por quê? Por causa da Roxana?
- Exactamente. Não é correto.
- Eu quero ligar como amigo.
- Será?
Não houve resposta e Rute aconselhou:
- Olha, se não está se sentindo bem com a Roxana, dê um tempo. Seja sincero.
- Eu sempre sou sincero.
- Então use essa qualidade agora, mais do que nunca.
- Por quê?
- Porque se você estiver com a Sofia e surgir um lance...
Uma chance de se aproximar... se rolar alguma coisa...
Vai ser muita cachorrada com as duas.
Yuri sorriu simplesmente e disse:
- Legal. Valeu!
Aproximando-se, beijou a cabeça da irmã novamente e recomendou antes de sair do quarto:
- Vê se não enche a cara de novo, hein!
- Vai embora daqui!
Ele riu e se foi.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 28, 2017 10:08 am

Capítulo 16 - Pensamentos não vigiados, adoecem.

O dia amanheceu lindamente ensolarado.
A luz, aquela hora da manhã, atravessava as frestas da janela do quarto de Yuri, quando seu telefone celular tocou.
O rapaz se moveu e pegou o aparelho.
Sem olhar no visor, atendeu com voz rouca:
- Pronto!
- Yuri?
Reconheceu a voz e respondeu:
- Oi, Roxana. Tudo bem?
- Tudo. Te acordei?
- Acordou. Acho que perdi a hora.
Eu ia mesmo levantar cedo para...
- Ah... Desculpa se o acordei.
É que o dia está maravilhoso e eu pensei da gente pegar uma praia. O que acha?
Ele olhou o relógio com os olhos espremidos. Eram 7h.
- Estou acabando de acordar - respondeu.
- Eu passo aí.
Tudo bem pra você?
Ele se sentou. Remexeu-se e concordou:
- Tudo bem. Vou tomar café.
Aí a gente sai.
- Que bom! - ficou feliz.
Daqui a pouco estou aí. Te amo!
Beijos!
- Beijo.
- Você não disse que me ama!... - exclamou, com jeito mimado e riu.
Yuri sentiu um choque correr em seu corpo.
Não queria dizer que a amava.
Não era verdadeiro.
Mas não gostaria de começar uma conversa daquela por telefone.
- Te amo - falou sem ânimo. - Beijo.
- Beijo! Até mais! - disse Roxana, desligando.
Uma onda de contrariedade o dominou.
Yuri se levantou.
Não conseguia pensar em outra coisa a não ser em como falar com Roxana sobre não poder continuar com aquele noivado.
Ficou inquieto e ansioso.
Foi para o banheiro, tomou uma ducha rápida para acordar e depois se dirigiu à cozinha.
Viu que ninguém havia se levantado.
Fez um suco de laranja e comeu uma maçã.
Voltou para o quarto, escovou os dentes e lavou o rosto novamente.
Um toque de buzina em frente a sua casa e soube que Roxana estava a sua espera.
Pegou as chaves, o celular e certo valor em dinheiro.
Bateu a porta ao sair de casa.
No carro, cumprimentou-a com suave beijo nos lábios.
- Oi, amor! Bom dia! - Roxana exclamou.
Estava bem alegre.
- Bom dia - respondeu sem ânimo, suspirando fundo.
- Vamos até o Arpoador?
- Tão longe assim?
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 28, 2017 10:09 am

- Como tão longe?
Precisamos passear. Nos divertir.
Variar um pouco.
Aliás... - reparou-o e deteve as palavras.
Por que está de agasalho e ténis?
Deveria estar de calção! Vamos à praia.
- Não estou a fim. Só vamos à praia.
- Mas, Yuri... Por quê?
- Não estou a fim, Roxana.
Isso não basta para você?
Mais séria, sentindo que alguma coisa estava diferente, ela perguntou:
- Por que está me chamando de Roxana?
Sempre me chama de Ro.
O rapaz respirou fundo.
Não queria mais alongar aquela situação e respondeu:
- Porque preciso ser sincero com você.
Não está dando mais.
Não consigo mais levar em frente o nosso relacionamento e...
Sinto muito.
- Como assim? Sente muito?
- Não deu, Roxana. Não deu.
- Você não me perdoou, não foi?
- Acredito que perdoei sim.
Não tenho qualquer mágoa contra você.
Só que não estou mais a fim de levar em frente esse noivado.
- Faltam seis meses para nos casarmos!
Olhou-a na alma, através dos olhos, e admitiu:
- Estou sendo sincero.
Não posso mais me enganar nem enganar você.
Roxana começou a chorar.
- Por favor, não fique assim - tentou consolar, mesmo sabendo que seria inútil.
- Desce do carro - ela pediu entre lágrimas.
- Vamos entrar.
Não pode ir embora desse jeito.
- Por favor...
Desce do carro - pediu, educada, novamente.
Yuri respirou fundo e obedeceu.
No instante em que chegou a calçada, Roxana ligou o veículo e se foi.
O rapaz entrou em sua casa.
Sentou-se na sala.
Mas, logo, decidiu ir à cozinha.
Fez um café e tomou, vagarosamente.
Não deixava de pensar em Roxana, porém suas ideias rapidamente se voltavam para Sofia.
Pegou o celular e ficou algum tempo pensando se deveria ligar ou não.
Consultou o relógio: 9h.
Ligou.
- Alô! Sofia?
- Oi... Yuri? - ela respondeu, perguntando.
Não havia olhado no visor do aparelho para saber quem era, mas foi capaz de reconhecer a voz.
- Sou eu. Acordei você?
- Não. Já estava acordada.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 28, 2017 10:09 am

- E aí? Anda sumida...
O que tem feito?
O silêncio foi longo.
- Sofia? Ainda está aí? - ele insistiu.
-Estou te ouvindo...
- Você está bem? Pode falar?
- Não tenho muito o que falar.
Estou desanimada e...
- Quer conversar um pouco? - o rapaz propôs.
- Não quero te dar trabalho - respondeu com voz baixa.
- Vou até aí. Posso?
Ela pensou um pouco e respondeu:
- Vem.
- Até daqui a pouco.
- Até.
Desligaram.
Imediatamente, ele foi até seu quarto, pegou as chaves do carro e saiu.
Em pouco tempo, estava em frente ao prédio onde Sofia morava.
Anunciou-se na portaria e subiu.
No andar...
- Oi. Entra - ela pediu, abrindo a porta.
Yuri entrou.
Sentiu um nervosismo, uma ansiedade invadir-lhe o corpo e a alma.
Não sabia se por medo ou insegurança.
Olhou ao redor e ficou com a chave do carro entre as mãos, mexendo como exibição de leve agitação.
Seguiu Sofia até a sala.
Ela usava uma calça de moletom bem folgada e uma blusa igualmente larga que, às vezes, deixava um ombro à mostra.
Sofia sentou-se no sofá sobre uma das pernas.
Estava abatida, bem pálida.
Um inchaço nos olhos mostrava que tinha chorado.
- Sente-se aí, Yuri. Fique à vontade.
Ele aceitou o convite e se acomodou a menos de um metro, quase de frente para ela e comentou:
- Estive pensando muito em você.
Não tive mais notícias suas e... Como está?
- Péssima - chorou.
Secou o rosto com as mãos.
- Não resolveu o problema com sua sócia e seu noivo?
- Não. E o George não é mais meu noivo.
Um instante e, entre o choro, balbuciou:
- Eu só faço besteira... Perdi tudo...
- Como assim?! Do que você está falando?
- Eu só me envolvo com quem não presta - lamentou chorosa.
Secou o rosto na blusa, tentou se recompor e contou:
- O único jeito de eu arrumar tudo, pagar as dívidas em meu nome, seria vendendo este apartamento.
- E então? - perguntou diante da longa pausa.
- Assim que descobri tudo sobre o golpe que aqueles dois me deram, sabe?
Ele balançou a cabeça insinuando que sim.
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Ave sem Ninho

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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 28, 2017 10:09 am

Ela continuou:
- Você veio até aqui, me deu a maior força...
Bem, naquela mesma época eu encontrei o Gustavo, um amigo do tempo da faculdade.
Havíamos perdido o contacto.
Depois que terminamos o curso ele foi morar no exterior.
Um dia nos encontramos, por acaso, na rua.
Depois daquele dia, nos encontramos novamente.
Almoçamos juntos e eu estava até interessada em um trabalho que ele pudesse me passar.
Afinal, precisava de dinheiro.
Desenvolvi um projecto para ele e deu certo.
Enquanto trabalhava nisso, acabei comentando o que tinha acontecido.
Falei que a Vânia, safada, me deu um golpe e o George também... - chorou.
- Calma, não fica assim - pediu, mudando de sofá e ficando ao seu lado.
- Ai, Yuri... - chorou e se inclinou em seu ombro.
O rapaz afagou suas costas e tirou seus cabelos do rosto.
- Calma. Respira fundo e conta.
O que aconteceu?
Ela fez o que ele pediu e se afastou do abraço.
- Aconteceu que o Gustavo ficou interessado em comprar este apartamento.
Vendendo-o, eu teria dinheiro para pagar tudo o que devo, ou melhor, todas as dívidas que aqueles dois fizeram em meu nome e ainda sobraria uma boa grana até para comprar um apartamento menor.
- Sei.
- Com meu nome comprometido em dívidas, eu não poderia vender este apartamento.
O Gustavo sugeriu pagar todas as minhas dívidas.
Tudo! E eu venderia este apartamento para ele.
O restante do dinheiro ele me daria depois.
- Espere aí! Deixe-me ver se entendi.
Ele pagou tudo o que você devia.
Você passou este apartamento para o nome dele sem receber o restante do valor?
Sofia respondeu, silenciosamente, com longa crise de choro.
Inconformado, o rapaz a esperou se recompor e insistiu:
- Você não fez isso. Fez?!
- Fiz... - murmurou e chorou.
- Sofia! O que deu em você?!
- Não sei. Quando volto a pensar no que aconteceu...
- E o tal Gustavo?
Foi atrás dele? Cobrou?
- Ele viajou para os Estados Unidos.
Eu soube que mora lá e só estava no Brasil por pouco tempo...
Tempo suficiente para me enganar.
O pior é que, antes de viajar, ele vendeu o apartamento.
Só me resta um mês para sair daqui.
Yuri se levantou.
Passou a mão pelo rosto, depois, pelos cabelos.
Virou-se para ela, que não o encarava, e não sabia o que dizer.
Irritou-se.
Indignado ao entender o que havia acontecido, ele foi até a cozinha, pegou um copo com água, adoçou e levou até a sala.
Sofia ainda chorava.
Com as mãos trémulas, ela pegou o copo oferecido e tomou alguns goles, agradecendo:
- Obrigada.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 28, 2017 10:09 am

Sentando-se, novamente, quase à sua frente, ele perguntou:
- Por que não consultou alguém?
Por que não pediu a opinião de um de seus irmãos ou me consultou?
- Não sei. Não sou burra ou idiota, mas não sei explicar o que me deu.
Ele me enganou! Veio com uma conversa tão...
- Vocês se envolveram? - foi directo.
- Não. Quer dizer...
A gente começou a ficar e... Não rolou nada.
Só carinho e beijo.
- Sei. Mas foi o suficiente para fazê-la acreditar que era um cara respeitável, que gostava de você.
O bastante para enganar.
- Eu fui tão burra! Tão imbecil!
Até na documentação, a venda foi pela metade do preço que este imóvel vale.
Ele conseguiu me convencer, inclusive nisso.
Hoje, quando paro para pensar...
Como eu pude?!...
Olhou-o nos olhos.
Sentia raiva e dor. Angústia e medo.
- Perdi tudo, Yuri! Minha vida acabou.
Estou sem emprego, sem ter onde morar...
Só tenho um mês para sair daqui. Estou acabada!
- As dívidas estão pagas, pelo que entendi?
- Sim. Estão, mas...
É tão duro ser enganada.
Passei por trouxa.
Saber que alguém está se divertindo com a tua cara, em algum lugar, é muito cruel.
Estou pensando em tanta coisa.
- O quê?
- Queria matar o Gustavo.
Queria... - não completou. - Olha!
Olha para tudo aqui! - falava com a voz embargada pelo choro.
- Deveria ter conversado com alguém.
- Fui orgulhosa.
Queria resolver sozinha essa situação.
Se eu me meti na enrascada, eu mesma poderia resolver tudo sozinha. Mas não.
Piorei ainda mais minha vida.
- Sofia, nem sempre nos restabelecemos rapidamente depois de um episódio difícil.
Quando estamos emocionalmente fragilizados, precisamos tomar cuidado para não nos envolvermos em situações bem complexas e piores do que a circunstância complicada que nos deixou fragilizado.
Entende isso?
Breve pausa e comentou no mesmo tom tranquilo.
- Você já estava vivendo um período difícil.
Problemas com sua sócia e seu noivo.
Talvez, não esperasse ser traída por essas duas criaturas.
Levou um choque. Ficou fragilizada.
Não havia se recuperado do golpe.
Pelo que eu soube, também se afastou de Deus, do caminho religioso que tanto nos deixa centrado, que nos liga ao Alto, aos amigos espirituais que nos querem bem.
- Por que está me dizendo isso agora?
Já não basta minha dor?
Precisa me deixar mais triste?
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 28, 2017 10:09 am

- Não quero deixá-la mais triste.
Quero lembrar que ainda está fragilizada, por isso deve tomar cuidado com novas decisões, com novos desejos.
Querer matar o Gustavo é vibrar no negativo.
E ser tão destrutiva quanto ele.
Talvez, agora, minhas palavras não façam tanto sentido, porque você está com raiva.
E a raiva, como dizem, é beber veneno querendo que o outro morra.
A raiva destrói nossa paz.
Silêncio.
Yuri sabia que não adiantaria falar muito.
Ele estava repleto de razão.
Jamais devemos permitir que alguém destrua, em nós, a nossa paz, a nossa alegria de viver.
Não vale a pena.
Aquele que fere, magoa, rouba, destrói, de alguma forma, não merece nossa raiva ou nossa mágoa.
Merece de nós a compaixão.
Porque o ingrato é portador de um grande distúrbio e um profundo transtorno que é a insensibilidade, a ausência de sentimentos bons para com o próximo.
E um dia, com toda a certeza, o que fez vai se voltar contra ele porque a própria consciência vai cobrá-lo.
Como nos ensinou Jesus:
Não passará um Jota, nem um Til sem que a Terra passe.
Vá, diante do altar, deixe ali sua oferenda e reconcilie primeiro com teu irmão.
Quando temos débitos com nossos irmãos, nossa consciência não deixa nossas orações chegarem ao Pai com pureza.
Por essa razão, devemos ter compaixão e perdoar.
Não sabemos o quanto precisamos ser perdoados.
Ainda abatida, Sofia falou sem ânimo:
- Entendo e sei de tudo isso que está falando, mas não consigo mudar o que sinto.
- Nesse caso, é preciso que ouça várias vezes e de diferentes formas tudo isso que estou dizendo.
Só assim essa energia de raiva e mágoa vai ficar mais branda, mais leve.
E é por isso que aconselho ir ao Centro Espírita.
Ouvir palestras doutrinárias.
Reflectir sobre os temas evangélicos.
Ligar-se a Deus e pedir uma forma de perdoar.
Pedir que Ele a ajude a tirar essa mágoa do coração.
O Pai sempre nos ajuda. Acredite.
Ir a Casa Espírita vai ajudar incrivelmente.
Diante do silêncio, perguntou:
- O que acha?
- Minha vontade é de deitar. Pensar em nada.
Meus pensamentos estão acelerados. Parecem doentes.
- E estão. Os pensamentos também adoecem.
Envolvido por seu mentor, Yuri disse:
- Sabe, Sofia, muitas pessoas vão para a academia cuidar do corpo.
Procuram médicos para ter exames preventivos em dia.
Procuram nutricionistas para fazerem uma boa alimentação.
Alguns, louvavelmente, já têm entendimento e ou evolução suficiente e são 1. veganismos 2, vegetarianos... Isso é óptimo.
Tudo isso é necessário para se ter um corpo saudável.
Mas, é pena, ainda, ver que muitos não entendem que a verdadeira saúde está também no espírito, principalmente.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 28, 2017 10:10 am

Está na paz que vem dos nossos pensamentos.
Quando pensamos bem, agimos bem, falamos bem, escolhemos ler e escutar o que é bom, estamos em paz.
Estamos bem. Quando não, perturbamos os outros e não nos perturbamos, seja com o que for que fizermos, estamos melhor ainda.
E a verdade é que não devemos perturbar os outros nem com os nossos pensamentos.
Por isso eu aconselho que mude os seus.
Você sempre se mostrou ser uma pessoa forte.
Cuidou de se estabilizar, da alimentação, da aparência, do corpo, mas não deu manutenção aos pensamentos positivos na sua ligação com Deus.
Não cuidou de seu relacionamento com você mesma, que é a sua paz interior.
Acabou abandonando a si para dar assistência aos outros.
Podemos auxiliar os outros, mas necessitamos continuar dando assistência a nós mesmos.
Um momento e ainda disse:
- Sei que cada um tem o seu tempo para sair da angústia, da dor na alma.
Mas sei também que é possível acelerarmos esse tempo.
- Preciso encontrar uma solução agora para o que vivo.
Tenho um mês para sair daqui. Estou sem emprego...
- Você tem uma família.
Já pensou em procurá-los?
- Já, mas... É estranho ter que voltar para casa.
- Estranho, é o nome que está dando ao orgulho ferido, não é?
Ela só o observou e não respondeu sua pergunta, mas tentou dizer:
- A única coisa que não sai do meu pensamento é...- calou-se.
Abaixou a face triste e chorou.
Murmurou em seguida:
- Quero morrer, Yuri.
Ele pensou um pouco e convidou:
- Quer sair, Sofia? Vamos! Levanta.
Vamos dar uma volta.
O dia está lindo e uma caminhada vai fazer bem.
- Não. Não quero.
Estou me sentindo fraca. Sem ânimo.
- Quer que a leve para a casa de seus pais?
Ficar com a sua família vai te fazer bem.
Sofia ficou pensativa.
Na espiritualidade, seu mentor a incentivava aceitar a proposta.
- É na família que, muitas vezes, nós nos acolhemos e multiplicamos forças.
São os braços que devem sempre estar abertos e prontos para amar e compreender.
Por essa razão é tão importante o fortalecimento, a fé, o amor e a união familiar.
Família é uma bênção que Deus criou.
Ficar junto aos seus é o melhor remédio nesse momento.
- Acho que vou me trocar.
Sofia foi para o quarto. Demorou um pouco.
Yuri a esperou enquanto apreciava a linda vista da sacada.
Entendeu que Sofia estava apegada demais a tudo aquilo.
Seu tesouro ainda era material e ela não admitia isso.
Quando nosso tesouro é material, corremos o risco de vivenciar grande dor.
Quando nosso tesouro é vida e paz, caminhamos com segurança rumo a um destino: o da felicidade.
Yuri respirou fundo, fechou as portas de vidro e voltou para a sala.
Não demorou e Sofia chegou com uma bolsa onde havia algumas roupas.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 28, 2017 10:10 am

O rapaz se alegrou.
Entendeu que ela ficaria na casa dos pais e estaria mais segura.
Protegida de si mesma.
* * *
Algum tempo depois, Sofia e Yuri chegaram à residência de Ágata e Bernardo.
Ela reconheceu o carro de seu irmão Alex, estacionado em frente à casa dos pais.
Não gostaria que estivessem ali.
Aliás, não desejava ver ninguém.
Não queria conversar.
Muito menos responder perguntas.
Yuri desceu. Contornou o veículo, pegou a bolsa e estendeu a mão ajudando-a a sair.
A passos lentos, caminhou até o portão e entrou.
Percebendo a movimentação, após escutar o ranger do portão, Ágata foi receber a filha.
- Ah! Que surpresa boa!
- Oi, mãe - cumprimentou com simplicidade.
Logo disse:
- Mãe, o Yuri veio me trazer e...
- É o irmão da Rute!
Claro que conheço! - recepcionou alegremente.
- Olá, dona Ágata.
Tudo bem com a senhora?
- Tudo bem, filho. E você?
- Vou bem. Graças a Deus.
- Sua irmã está aqui.
Acabou de chegar.
Yuri ficou surpreso, mas não disse nada.
Havia deixado Rute dormindo quando saiu.
A casa estava bem alegre, enquanto a preparação do almoço era anunciada pelo cheiro gostoso que abria o apetite.
Hélder logo foi recebê-los e cumprimentá-los.
Beijou a irmã.
Reparou em seu rosto sem brilho, sem sorriso e abatido.
-Tudo bem? - perguntou baixinho, quase ao seu ouvido, quando a abraçou.
Os olhos dela ficaram empoçados em lágrimas, mas controlou a respiração para não chorar.
Ágata foi chamada para resolver uma situação na cozinha e não reparou.
Sofia se afastou do irmão e ele foi à direcção de Yuri para cumprimentá-lo.
Desconfiado, Hélder perguntou:
- E aí, Yuri?
Tudo bem com ela?
- Ela não está muito bem não.
Achei melhor trazê-la para cá.
Sem dizer nada, Sofia foi para o quarto da irmã onde a encontrou arrumando uma documentação na escrivaninha.
Ao vê-la, Valéria alegrou-se.
Alargou o sorriso.
Largou o que estava fazendo e a abraçou.
Muito abalada, nesse instante, Sofia começou a chorar.
- Hei! O que foi? - perguntou, fazendo-a sentar na cama.
Acomodando-se ao lado de Sofia, a irmã reparou sua aparência.
O cabelo estava crescido e sem corte.
Rosto pálido. Mãos finas, com unhas sem fazer.
Abatida. Estava magra e sem muito se arrumar.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 28, 2017 10:10 am

A outra secou o rosto e murmurou:
- Aconteceu tanta coisa em tão pouco tempo...
- O que aconteceu?
Por que está assim? - quis saber Valéria.
- Eu não gostaria de falar sobre isso agora.
Só quero me deitar - disse, sem ânimo.
- Claro. Deita aí - levantou-se e a ajudou a se deitar.
- Quer uma colcha ou...
- Um lençol, por favor - pediu, apesar de estar um dia morno.
Valéria a cobriu e observou quando a irmã deitou de lado apertando, de modo tenso, a ponta do travesseiro onde repousou a cabeça.
Sentou-se do seu lado e a afagou por alguns instantes.
Vendo que Sofia não estava a fim de conversar, deixou o quarto e foi para a sala.
Lá, encontrou Yuri, entrosado em conversa com seus irmãos.
Depois de se cumprimentarem, ela o afastou um pouco dos demais e perguntou:
- O que aconteceu com a Sofia?
- Liguei para ela hoje cedo e percebi que não estava bem.
Fui até lá e tive certeza.
Conversamos um pouco e achei melhor trazê-la para cá.
- Mas o que houve?
Mais problemas com o George?
- Não só com ele.
Pensou um pouco e decidiu:
- Será melhor que ela conte a você.
Pouco antes de o almoço ser servido, Ágata se preocupou com Sofia.
Fez de tudo para que a filha se juntasse aos demais à mesa, mas não adiantou.
Ninguém conseguiu tirá-la do quarto.
A senhora questionou Yuri sobre o que estava acontecendo, mas, como amigo fiel, achou melhor que todos soubessem pela própria Sofia.
* * *
Por sugestão de Bernardo, decidiram deixá-la sozinha e quieta como escolheu.
Sofia não aceitou comer nada.
Só tomou um suco de frutas que a irmã levou.
Seu desânimo era tamanho que nem os sobrinhos a alegraram.
* * *
No início da noite, quando as visitas se foram, Bernardo foi até o quarto para conversar com a filha.
- E então, Sofia?
Como você está?
Ela se remexeu e precisou de muita força para se sentar.
Nitidamente abatida, não tinha ânimo para conversar.
Forçando-se, respondeu:
- Parece que tudo o que vou fazer é difícil, até falar.
Sentiu os olhos aquecerem pelo surgimento de lágrimas e comentou:
- Estou passando por uma situação bem complicada, pai.
- O que está acontecendo? - perguntou o senhor com voz terna.
Bem calmo, aproximou-se mais para ouvi-la.
- Sabe os problemas que tive com a Vânia e com o George, não?
- Sei o que me contou.
- O único jeito para eu deixar meu nome limpo e poder começar de novo seria vender meu apartamento.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 28, 2017 10:10 am

Eu precisaria encontrar alguém que aceitasse saudar, primeiro, as minhas dívidas para, depois, negociar o imóvel.
Daí que eu acreditei ter encontrado a pessoa certa, que confiasse em me dar o dinheiro para eu pagar o que devia e depois vender o apartamento.
Essa pessoa me confiaria uma quantia bem significativa.
Era um grande voto de confiança.
Só que essa pessoa também precisaria que eu confiasse nela.
Ela não teria todo o dinheiro para me pagar, no primeiro momento.
Disse-me que conseguiria o restante depois de dois meses.
Então, eu peguei o valor para saudar tudo o que eu devia e passei o apartamento para o nome dela sem receber o restante.
O tempo foi passando e...
Essa pessoa sumiu.
Chorou.
- Procurei por ela e soube que foi embora do país.
Antes, vendeu o apartamento para outro.
E esse outro nem foi olhar o imóvel. É um negociador.
Agora tenho um mês para deixar o apartamento, pai.
Perdi tudo... Tudo o que conquistei.
Tudo pelo que tanto lutei... Perdi tudo.
- Mas não perdeu a vida.
- Mas, pai...
- Sofia, preste atenção.
Não gosto de fazer isso, mas...
Neste caso vou me dar como exemplo.
Quando aconteceu aquele acidente comigo e o tractor caiu sobre mim, fiquei condenado a esta cadeira de rodas.
Foi o momento mais difícil da minha vida.
Sua mãe conta como correu para a igreja e pediu para que eu ficasse vivo, mesmo com o diagnóstico de que ficaria paraplégico.
Quando voltei do coma, demorou um pouco para eu entender o que estava acontecendo.
Meus pensamentos, minhas ideias não estavam coordenados.
Tinha dias em que acordava e nem sabia onde estava.
Assim que me dei conta de tudo o que aconteceu e olhei para mim sem existir da cintura para baixo, quis também que a outra parte morresse.
No primeiro instante, perguntei a Deus porque não morri por inteiro.
No segundo instante, olhei para a sua mãe e vi, naquela mulher chorando, uma força, uma determinação, uma vontade de vida.
Seja essa vida de que forma fosse.
Ela queria que eu vivesse.
Tínhamos vocês cinco! - enfatizou.
Sabe o que é isso para um homem que sempre trabalhou duro, debaixo de sol ou de chuva?
Sempre trabalhei duro para dar condições suficientemente boas para vocês e sua mãe.
Mas, a partir daquele momento, era dependente.
Condenado a uma cadeira de rodas.
O que é que eu poderia dar?
A granja que tínhamos não era o suficiente para manter bem todos nós.
Uma mísera aposentadoria, foi o que me sobrou.
O que fazer com essa mísera aposentadoria, uma mulher e cinco filhos menores? - olhou-a firme.
Deveria investir ali e confinar vocês àquela cidadezinha no interior do Rio de Janeiro? - Breve pausa.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 28, 2017 10:11 am

- É lógico que a primeira vontade que dá é a de covardia.
Fugir de tudo. Vontade de morrer...
Nova pausa.
- Pura covardia!
Morrer e deixar vocês e sua mãe à mercê de uma mísera aposentadoria, seria pura covardia.
Ficar entregue à depressão, ao coitadismo era pura covardia.
Sofia o encarava e Bernardo invadia sua alma ao olhá-la.
- Foi fácil? Não. Não foi.
Para um homem activo e independente, não poderia acontecer coisa pior do que se confinar a uma cadeira de rodas.
Eu estava morto, totalmente morto, da cintura para baixo.
Mas, o resto de mim estava vivo para alguma coisa e por alguma razão.
Eu orei. Orei muito para que Deus me desse forças para descobrir que razão era aquela.
Eu precisava de um motivo para viver e percebi que esse motivo eram vocês.
Ofereceu breve instante e continuou:
- Pensei que nem sua mãe me quisesse mais com o passar do tempo.
Provavelmente, ela quisesse o homem que eu já não era mais.
Porém, eu tinha vocês a quem deveria amar, proteger, cuidar, educar, apoiar, ensinar e o que mais fosse necessário e possível eu fazer nas minhas novas condições.
Se eu não tinha um futuro, decidi dar a vocês um e melhor do que o meu.
Por isso vendemos o sítio, a granja.
Mudamos de cidade.
Peguei o dinheiro e compramos esta casa.
Fui estudar assim que coloquei cada um de vocês na escola.
Contabilidade foi o que decidi fazer.
Lembro o quanto foi difícil com sol ou com chuva ir para o curso profissionalizante e depender de alguém para empurrar esta cadeira de rodas.
Passar por alguns degraus ou mesmo subir escadas.
Antigamente, ninguém pensava tanto em inclusão social nem em acessibilidade.
Lá na escola, por bênção de Deus, tinha um sujeito que todos chamavam de Gigante.
Já sabe por que, né? - sorriu.
Era um sujeito rude, invocado.
Mas um rapazinho, franzino e muito simples, da minha sala o procurou e pediu ajuda.
O Gigante chegou perto de mim e perguntou meu nome.
Eu disse. Ele me levantou, pegou-me nos braços e subiu dois lances de escada, pois minha sala era no primeiro andar.
Enquanto o rapaz franzino carregava a cadeira de rodas.
Eu agradecia a eles todas às vezes por isso.
Sentia-me envergonhado, triste, mas aquela era minha realidade e eu tinha de ser muito grato, gentil e educado com eles.
Talvez, para trabalhar meu orgulho. Não sei.
Por três meses, foram assim todos os dias.
Falaram com o director, mas o homem não deu muita importância.
Cadeirante, pessoas com necessidades especiais não eram bem vistas.
- Mas o senhor não desistiu.
O senhor foi forte. Eu lembro disso.
- Não desisti.
Contei com a ajuda desses novos amigos, que carregaram a mim, a cadeira e meu material.
Três meses depois, observando que o director não se importava, os alunos fizeram um protesto, uma passeata dentro da escola.
Só então houve uma mobilização e trocaram uma sala do térreo com a nossa, que era no primeiro andar.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 28, 2017 10:11 am

Depois alguém, que tinha um pai marceneiro, trouxe uma rampa de madeira que era encaixada no degrau de entrada pelo segurança e isso facilitou minha entrada da rua ao térreo.
À medida que fui insistindo, com ânimo, perseverança, alegria, bom humor, amigos e simpatizantes apareciam.
As dificuldades diminuíam, os desafios ficavam menores.
Mas eu insisti enfrentá-los.
Pensei que o estava fazendo por vocês, mas vi, depois, que era por mim mesmo.
No meio do curso, um garoto... - riu.
Que tinha idade para ser meu filho.
Um menino muito alegre, espirituoso me arrumou emprego na empresa de contabilidade que, também precisou mudar uma sala para o térreo a fim de criar acessibilidade para mim.
Os caminhos foram se abrindo.
As coisas foram se ajeitando.
Sua mãe cuidava de vocês, da casa e das galinhas - riu.
Lembra que, quando viemos morar aqui, ela trocou garrafas por aqueles pintinhos, que viraram galinhas para vender e vender ovos?
Sofia sorriu e afirmou:
- Lembro sim.
- O tempo foi passando e não precisamos mais das galinhas.
Eu e sua mãe não nos separamos, como eu imaginei. Ao contrário.
Encontrei um jeito de ser o melhor homem para ela, em todos os sentidos que não só no sexo.
E não tem nada melhor do que uma mulher satisfeita porque é bem amada, porque se sente querida, porque recebe carinho e atenção.
Hoje, os casamentos se desfazem por causa do egoísmo.
Os casais não querem mais se doar um para o outro.
Acham que um carinho não é importante, naquele momento, e deixam para depois.
E perdem o momento.
Sua mãe nunca vai reclamar por falta de carinho nem atenção nem ajuda em todos os sentidos.
Porque ficar confinado a uma cadeira de rodas, tornou-me o cara mais criativo e de boa vontade do mundo.
Sabe por quê?
Ela pendeu a cabeça negativamente e o pai respondeu:
- Porque eu tomo iniciativa.
Tomo iniciativa e fico buscando um jeito, mesmo que simples, de surpreender e agradar à mulher que amo.
Tomo a iniciativa de um carinho, de dar atenção, dar amor...
É uma forma de retribuir todos os cuidados que ela tem por mim.
Do almoço que prepara, do bolo que faz, da casa arrumada...
Sempre estou atento a ela.
Quero saber o que está acontecendo e se posso ajudar.
Estou presente. Posso estar condenado a esta cadeira de rodas, mas não estou sem iniciativa.
Minhas pernas estão mortas, mas minha mente não.
Longa pausa para deixá-la reflectir.
Depois comentou:
- Certa vez o Alex pareceu insatisfeito com o casamento.
Ele veio conversar comigo e perguntei:
Qual é a sua contribuição na sua casa?
Qual é a contribuição para a felicidade do seu casamento?
Qual é a sua contribuição para a satisfação de sua mulher?
Ele não soube responder.
Então eu disse que se ele não tivesse iniciativa, diálogo, se não procurasse entender a sua companheira, não pensasse que outra seria diferente da actual, porque não seria.
superar a dificuldade existente, agora, é o seu desafio para uma vida feliz.
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Ave sem Ninho

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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 29, 2017 12:01 pm

Acho que o Alex pensou muito a respeito.
Viu suas falhas e conversou muito com a mulher.
Sorriu. - fico muito feliz quando vejo os dois se dando tão bem.
E sabe porque deu certo, Sofia?
Sabe por que a minha vida e a do seu irmão deram certo?
- Por que vocês tentaram?
- Não. Não tentamos. Saímos fazendo.
Eu encontrei amigos que me carregaram, literalmente, no colo para me ajudarem porque eu não desisti e saí fazendo.
Você tem a mim e a sua mãe para te ajudar.
Pelo amor de Deus, filha!
Saia fazendo alguma coisa!
Não fique condenada a essa cama, a esse estado depressivo, não! - enfatizava ao falar dando-lhe ânimo.
Tome uma iniciativa e faça algo por você mesma.
Se a cabeça está ruim, faça o corpo carregá-la!
Gaste essa energia pesada, inútil, prejudicial andando, falando, fazendo algo.
- Pai... Eu não paro de pensar em tudo o que aconteceu!
- Lógico que não pára.
Sabe por quê?
- Não.
- Porque não deixou que acontecesse algo novo e diferente para ocupar o lugar desses pensamentos ruins.
É só por isso que os acontecimentos ruins preenchem todo o espaço na sua mente.
- Meu corpo não reage.
Sinto um peso. Uma indisposição.
Muita vontade de chorar.
- Todo o peso dos pensamentos, das tensões mentais desaguaram no seu corpo.
Vai sentir o coração bater forte e achar que está enfartando, dores por partes do corpo que nem imaginava, fibromialgias...
Sei lá mais o quê!
Tudo isso, filha, é produzido por sua mente, por razão de seus pensamentos que ficam vibrando na mesma sintonia ruim.
Talvez, tenha que trabalhar, em si, o orgulho e a vaidade.
Talvez tenha que reconhecer em você a capacidade de recomeçar.
Tenho certeza de que pode e vai superar isso.
Deus não coloca fardos pesados em ombros leves.
O quanto antes parar de se queixar por tudo o que aconteceu, melhor para você.
O quanto antes, criar esperança e começar a ter iniciativa e tomar atitudes, melhor para você.
Para isso é necessário, muitas vezes, forçar-se, insistir, teimar.
Só assim vai sair desse estado.
Lágrimas corriam no rosto pálido de Sofia.
- Será que fiquei presa ao materialismo?
Será que sou orgulhosa e vaidosa?
- Se está tão intensamente abalada é porque está com o orgulho ferido.
E se o orgulho está ferido, e porque tem orgulho.
Não é errado estar satisfeito com o que se tem.
Não é errado ser rico e ter posses.
É complicado quando a pessoa se apega demais ao que possui e acredita que sua vida está naquilo que perdeu e foi embora.
Tudo o que vai embora e for para ser seu, volta. Acredite.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 29, 2017 12:01 pm

Por isso é bom cultivarmos outro tipo de riqueza, independente da riqueza que temos. - Ela o olhou, sem entender.
Falo de outra riqueza, filha.
Rico não é aquele que tem tudo o que sonhou para si.
Rico e aquele que tem o que dar de si para os outros. - Deixou-a reflectir.
Depois lembrou:
- Antes de tudo isso acontecer, você doava de si para a oficina de reciclagem e aqueles cursos de artesanatos que ministrava.
Aquilo era doar de si.
Depois deixou de fazer essa doação.
Quantas pessoas você alegrou e tirou da depressão ou devolveu uma vida activa, alegre.
Essa é a verdadeira caridade.
A doação em dinheiro, não sei se você continuou dando.
Mas doar de si, negou-se.
Ficou presa ao que tinha.
Às lojas, a problemas da vida dos outros..
Até eu me sinto culpado, porque eu disse para ir falar com seu irmão, mas...
Pedi para falar com ele, não para se esquecer de você mesma.
Você se abandonou.
Apesar de todas as boas intenções, acabou por abandonar sua ligação com Jesus.
Sabe aquela passagem em que o Mestre diz que, quando alguém estiver com fome, com frio, com sede e estiver na prisão e nós irmos visitar, é a ele que estamos dando de comer, agasalho, água e visita?
Lembra disso?
- Lembro - falou tão somente.
- Cortou sua ligação com Jesus, quando deixou de doar sua mais rica riqueza!
Seu maior bem por meio de um trabalho caridoso, sem dinheiro.
O Mestre não quer dinheiro.
Ele quer você empenhada em algum trabalho. - Breve instante.
Volte a ter ligação com Deus e com Jesus.
Comece com uma prece.
Peça perdão pelos sentimentos inferiores.
Peça perdão por Tê-los abandonado.
Peça que ajude a encontrar um jeito de afastar esses pensamentos ruins.
Tome a iniciativa e faça alguma coisa por você mesma.
Comece indo à Casa Espírita e a ouvir palestras evangélicas.
Isso vai fazer muito bem.
Olharam e viram Ágata e Valéria abrindo a porta e trazendo um colchão.
- Vamos pôr este colchão aqui no chão.
Amanhã a gente traz a cama e monta.
Sofia acreditou que estava dando trabalho, mas não disse nada.
Animadas, Ágata e Valéria arrumaram tudo.
Elas não fizeram qualquer comentário a respeito de sua estada ali.
Sabia que Bernardo já havia falado o suficiente por aquele dia.
- O Yuri é um rapaz tão educado!
Falante... - comentou Ágata.
- Gostei desse moço! - concordou Bernardo.
- A criação ajuda a reforçar características boas da personalidade se os pais souberem educar bem o filho - tornou Ágata.
Ele é igual à irmã.
Gosto muito da Rute também.
Os dois são pessoas bem agradáveis, gentis.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 29, 2017 12:02 pm

- São mesmo - ressaltou Bernardo.
Continuaram conversando por mais um pouco.
Depois de ver as duas filhas acomodadas, os pais deram boa noite e foram deitar.

2 - Nota da médium: Veganismo é uma opção de vida por questões éticas, relacionadas ao respeito dos direitos animais.
Ele renuncia qualquer produto de origem animal.
Além disso, o vegano não usa ou consome aves, peixes, leite, ovos, gelatina.
Não usa roupas de seda, lã, peles couro ou outras que tenham origem animal.
Não frequenta circos, touradas, rodeios, zoológico ou qualquer espectáculo que inclua animais.
Não compra animais de estimação.
Entre outras opções.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 29, 2017 12:02 pm

Capítulo 17 - O passado bate à porta

Valéria sentiu-se bem por ter a irmã ali.
Não queria vê-la triste e depressiva como estava.
Acreditava que aquele estado iria passar.
Não achou conveniente conversar a respeito do que acontecia.
Não naquela hora. A não ser que ela quisesse e tocasse no assunto.
Imaginou se tratar dos problemas financeiros que já sabia.
- Está bem acomodada, Sofia?
- Sim. Estou - balbuciou.
Você bem que podia me deixar dormir no chão.
Não quero atrapalhar.
- Não atrapalha em nada. Deixa disso.
Logo perguntou:
- Quer alguma coisa? Um chá?... - tornou Valéria, desejando que a irmã se sentisse melhor.
- Não. Obrigada.
- Você não comeu nada hoje.
O toque do celular de Sofia chamou a atenção.
Valéria se levantou rapidamente.
Pegou o aparelho sobre a escrivaninha, olhou o visor, mas não disse nada.
Entregou-o e falou sussurrando:
- Vou ao banheiro. Já volto.
Na verdade, queria que a irmã ficasse à vontade para conversar.
- Alô? - atendeu Sofia.
- Oi! Tudo bem?
- Oi, Yuri. Tudo bem. E você?
- Estou bem.
Fiquei em dúvida se poderia ligar.
Achei que estava tarde.
- Não. Não está tarde.
Fez bem ter ligado.
- Passei um dia bem legal aí com seus irmãos.
Espero não ter incomodado.
Apareci de repente.
Acabei ficando para o almoço.
O que sua mãe não vai pensar?
- Não incomodou em nada.
Meus pais gostaram de você.
Eles gostam de ter gente em casa.
- E você? Como está?
Longo silêncio.
- Do mesmo jeito.
- Estou preocupado com você, Sofia.
- Conversei um pouco com meu pai.
Contei tudo o que aconteceu.
Ele falou coisas que me deram ânimo.
Mas... Assim que virou as costas, voltei a me sentir como antes.
- É aquilo que te falei.
Precisa ouvir mais vezes o que é bom para você e de diferentes formas.
Vai ser necessário fazer algumas coisas novas para começar a tirar as coisas ruins que te magoam.
Tudo ainda é bem recente.
Digamos que esse estado é normal.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 29, 2017 12:02 pm

Mas precisa reagir.
- É. Eu sei.
- Tem planos para amanhã? - ele quis saber.
Ela pensou um pouco e respondeu:
- Não exactamente.
Quero dar um tempo por aqui.
Preciso conversar direito com minha mãe.
Quase não nos falamos hoje.
- É justo.
Uma pausa e a chamou para que prestasse atenção:
- Sofia?
- Oi.
- Faça uma prece.
- Tá.
- Deveria ir ao Centro Espírita.
Iniciar uma assistência espiritual.
- Vou voltar sim. Verdade.
Sei que vai me fazer bem.
Um momento e o chamou:
- Yuri?
- Fala!
- Obrigada.
- Ora... O que é isso?
- Nessa condição é muito bom ter alguém para ajudar.
É bom ter um amigo.
Você nem imagina como eu estava hoje pela manhã quando me telefonou.
Obrigada, mesmo.
- Não precisa agradecer. Não fiz nada.
Agora deita e descansa.
Faça uma prece.
Ore. Se ligue a Deus.
- Tá bom. Vou fazer.
- Qualquer coisa, se precisar conversar, pode me ligar.
- Ligo sim.
- Durma com Deus.
- Durma com Deus você também, Yuri.
- Obrigado. Tchau.
- Tchau.
Desligaram.
Sofia colocou o celular no criado mudo e se ajeitou na cama.
Sentia-se enfraquecida ao extremo.
Desatenta, não fez prece a Deus.
Não entregou a Ele a sua alma.
Adormeceu logo.
Antes de sua irmã retornar.
* * *
Em seu quarto, Yuri sentia-se inquieto.
Apagou a luz e ficou sob a penumbra de um abajur de iluminação bem fraca.
Sentado na cama, orou.
Elevou-se em pensamento e desejo.
Deitou-se e dormiu.
Em poucos instantes, abriu os olhos da alma e sorriu para o espírito Pedro, seu mentor, que correspondeu e o cumprimentou.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

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