O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 21, 2017 1:02 pm

Vez e outra, ia até o quarto para ver se a irmã que, após o banho, não quis voltar à sala.
Valéria preferiu descansar no quarto.
- Vamos fazer uma sopinha para ela? - sugeriu Rute.
- Vamos sim.
Eu estava pensando nisso - concordou Sofia.
Enquanto as duas foram para a cozinha, o rapaz continuou na sala, sozinho.
- Acho melhor fazer uma sopa de aveia.
O que me diz, Rute?
- É a melhor.
Ela está com a boca machucada.
Enquanto preparava a sopa, Sofia comentou:
- Eu sabia que ia dar nisso.
Vou fazer de tudo para que amanhã ela vá à delegacia prestar queixa contra aquele safado.
- Se ela não quiser, você não poderá fazer nada. Sabe disso.
- É. Sei.
Um momento e lembrou:
Coitado do seu irmão.
Nós o largamos, sozinho, lá na sala.
- O Yuri não está muito bem nos últimos tempos.
Até fiquei admirada por ele querer comer pizza e dizer que estava com fome.
Ficou tão abalado que nem está comendo direito.
- Por quê? O que ele tem? Está doente?
- Pior. Não está se alimentando bem.
Desanimado para ir trabalhar...
Está bem pra baixo.
- O que foi? - insistiu Sofia.
- Noivo há três anos com uma moça, que é um amor de pessoa.
Casa pronta e sendo mobiliada.
Casamento marcado. Tudo certo. Até que...
Eles estavam lá em casa em uma bela sexta-feira, pois era aniversário da minha mãe e, daí que, depois do bolo ele a levou para casa e voltou.
Foi dormir. Disse que precisava ver uma obra no dia seguinte.
Apesar de ser sábado, havia prometido ir lá resolver algo que não tinha dado para solucionar no dia anterior.
Ele é engenheiro e tem uma empresa de construção civil.
No sábado tudo bem.
Ele encontrou com ela à noite e... sei lá.
Tudo normal.
No domingo, o Yuri entra na internet e vê, postada em uma página da rede social de um amigo, a foto, bem nítida, da Roxana se beijando com outro cara em uma balada na sexta-feira à noite, ou madrugada de sábado.
- Como assim?!!! - exclamou, sussurrando admirada.
- Ele ligou para o amigo.
E o amigo disse que não sabia como contar para ele.
Depois do papo, o amigo enviou uma série de fotos da noiva do Yuri com o cara com quem ela passou a noite na balada.
Abraços, beijos, danças...
E, menina. Você nem imagina.
- Meu Deus! E aí?
- Ele procurou a Roxana.
Primeiro ela negou.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 21, 2017 1:02 pm

Disse que deveria ser alguém muito parecida.
Mas não tinha como negar. Era ela nas fotos.
Além disso, as amigas dela também apareciam nitidamente.
Depois de tanto negar, chorou.
Assumiu que foi à balada e culpou as amigas.
Contou que as meninas insistiram muito para ela ir, tanto que acabou topando.
Lá, bebeu todas e nem sabe dizer o que fez.
Acabou ficando com um cara desconhecido que nem sabe o nome nem onde encontrar.
Disse que nem viu o amigo do Yuri.
Pediu desculpas, perdão, mas o noivado foi pro ralo.
Faz um mês que meu irmão não é o mesmo.
Não come nem trabalha direito.
Emagreceu a olhos vistos.
- Será que tem volta?
- Ele nem quer ouvir falar o nome dela.
Pediu que eu fosse a casa que ele fez para morarem e tirasse tudo o que ela colocou.
- Ela se mostrava uma pessoa atrevida, inconsequente ou...
- Que nada! Não mesmo.
Uma excelente pessoa. Vivia lá em nossa casa.
Moça de família. Não deu para entender.
Conversei com a Roxana quando fui levar as coisas e ela me disse que não sabe explicar o que aconteceu.
Disse que a bebida foi para mais, perdeu a noção do bom senso e afirmou que ama muito o meu irmão, que sempre o respeitou.
Está em deprê como ele.
- Nossa! Ela deveria ter-se vigiado melhor, não é? - acreditou Sofia.
- Também acho.
Agora será difícil voltar atrás.
Se você visse as fotos.
Beijos e amassos daqueles comprometedores! - ressaltou.
Não posso tirar a razão do meu irmão. Ele está certo.
Uma mulher que se preserva não ia aceitar sair com as amigas sem avisar o noivo e ainda encher a cara e se dispor a ficar com outro cara.
- Ele sabia que ela ia a baladas?
- Não. Nem em sonho.
Isso significa que pode ter ocorrido outras vezes sem que ele soubesse, não é mesmo?
- É. Ele tem o direito de pensar isso - opinou Sofia.
Nesse instante, a sopa ficou pronta e ela disse:
- Vou levar a sopa para a Valéria.
Se a pizza chegar, você pega?
- Pode deixar.
* * *
Enquanto comiam a pizza, Sofia, sentada frente a Yuri, perguntou para puxar algum assunto:
- Então você tem uma construtora?
- Tenho. E você é arquitecta? - indagou no mesmo tom.
- Sou. Voltada para decorações de interiores.
- Ela tem lojas de móveis e decoração - informou Rute.
- É um mercado muito bom - ele considerou.
Yuri ofereceu breve pausa e perguntou:
- O que pretende fazer para ajudar sua irmã?
- Quero convencê-la a prestar queixa e ir ao médico.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 21, 2017 1:02 pm

Fazer uso dos direitos que tem.
Não entendo nada de lei, mas...
- Perdoe a minha sinceridade, mas a Valéria não deveria ter deixado a coisa ter chegado aonde chegou - opinou Rute bem directa.
- Não sei o que leva uma mulher a se submeter a homens desse tipo.
Homens que agridem física e emocionalmente, são criminosos e covardes.
Perigosos, eu diria, pois suas práticas tendem sempre a serem mais intensas, mais fortes, podendo chegar ao homicídio.
Muitas mulheres já foram parar no cemitério por culpa de homens covardes assim.
É, normalmente, tudo começa com algum constrangimento.
Poucas pessoas têm conhecimento sobre o facto de que a agressão psicológica é também crime.
As mulheres têm seus direitos perante a lei e precisam usá-los.
É o momento de perder o medo.
Criar coragem e se libertar dessa dor, desse sofrimento.
Hoje em dia, dá para buscar ajuda.
É necessário conhecer seus direitos e tomar atitudes para sair do transtorno de ser maltratada.
- Nada melhor do que uma advogada para nos esclarecer - disse Yuri olhando para a irmã.
Em seguida, pediu:
- Fale um pouco sobre a Lei Maria da Penha.
- Não sou advogada ainda.
Sou formada em direito, mas ainda não prestei exame na O.A.B. para ser aprovada e me tornar uma advogada de facto.
Mas... Falando em Lei Maria da Penha, ou melhor, falando de violência doméstica e familiar contra a mulher, encontramos, nessa Lei, definições de como essa violência pode se manifestar, entre elas está incluída a violência psicológica.
- O que podemos entender por violência psicológica? - perguntou Sofia, com simplicidade.
- Entende-se por violência psicológica qualquer conduta que cause dano emocional e diminuição da auto-estima ou que a prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise a degradar ou controlar as suas acções, comportamento, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância, perseguição, insulto, chantagem, ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que cause a mulher prejuízo à sua saúde psicológica e à autodeterminação.
- Está afiada, hein! - brincou o irmão com certa admiração.
- Estou estudando isso para quando a Valéria precisar - respondeu sorrindo.
Sabe, gente, muita coisa está atrasada neste país.
Nossas Leis ainda estão no berço!
Sabiam que, somente em 1994, o Brasil assumiu o compromisso para prevenir, punir e erradicar a violência contra a mulher?
Não esperou por resposta.
- Foi quando assinou o documento da Convenção Inter-americana.
Documento este que define as formas que essa violência pode assumir e como pode se manifestar.
Mas, somente em 2006, a Lei Maria da Penha entrou em vigor, esclarecendo que a violência contra a mulher é muito mais abrangente.
Não são somente as dores físicas que machucam.
Essa Lei é mais ampla e esclarecedora.
A violência deve ser entendida de diversas formas como:
constrangimento, dano, morte, limitação, coacção sexual, moral, psicológico, económico, político ou perda patrimonial.
Podendo ocorrer em espaço público ou privado, ou seja, não só em casa, mas no trabalho, em uma loja...
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 21, 2017 1:03 pm

Um momento e Rute contou:
- Eu vi uma acção movida por uma mulher contra uma concessionária de automóveis.
Ela foi até lá para comprar um carro.
Estava sendo bem atendida por um vendedor.
Quando olhava determinado veículo, outro promotor de vendas se aproximou e disse algo do tipo:
"Esse carro mulher não sabe dirigir.
Esse veículo é possante.
É para homens! Além disso, é caro!"
Depois esse vendedor riu, zombando da cliente.
- Que idiota! - protestou Yuri.
- Idiota mesmo! - concordou Sofia.
- Ela, esperta, moveu uma bela acção.
Foi constrangida por ser mulher, mas não foi boba.
O sujeito mereceu!
Ele e a concessionária foram punidos.
A mulher recebeu uma boa indemnização.
Tão boa que o carro possante e caro foi comprado por ela com o que recebeu - riu.
Ela ainda disse, depois, que nem estava interessada naquele carro, que estava olhando só por olhar.
- Com essa história percebemos a grande diferença entre reclamar por seus direitos e exigir seus direitos - considerou Yuri.
- Se todas as pessoas tomassem atitudes, quando se sentissem prejudicadas, e as Leis dessem a cada um o direito que lhes cabe de forma mais rápida, acabariam as injustiças e as pessoas seriam mais educadas umas com as outras - disse Sofia.
Os outros reflectiram um pouco.
Depois, ela pediu:
- Rute, amanhã você pode vir aqui para conversarmos com ela?
- Claro. Venho sim.
Vamos refrescar a cabecinha da minha amiga.
- Pode vir também, Yuri.
Vai nos dar muita força.
De repente, sua opinião terá um peso maior por ser homem e...
- Sofia! Veja o que está falando!
Só porque ele é homem...
Você está me desqualificando como mulher?!
Estou me sentindo constrangida! - brincou e riu.
- Não! Eu quis dizer...
Ora! Você entendeu - sorriu.
- Estou brincando.
Logo o assunto mudou:
- Esse apartamento é muito bonito - o rapaz elogiou.
Foi você quem decorou?
- Fui eu sim. Obrigada.
- O estilo decorativo de Sofia é bem agradável. Leve.
Você precisa conhecer a empresa e a loja que ela tem - disse a amiga.
- Adoro ir lá!
Passaram uma noite agradável, apesar da preocupação com Valéria.
Yuri e Rute se sentiram muito à vontade.
Conversaram muito, esquecendo os problemas e descontraindo bastante.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 21, 2017 1:03 pm

Capítulo 8 - A sabedoria de dona Leila

No início da noite do dia seguinte, Rute e Yuri chegaram ao apartamento de Sofia.
Ela os recebeu com visível contentamento e pediu que se acomodassem.
- E a Valéria? - perguntou à amiga.
- Já vem. Conversei bastante com ela hoje, mas não consegui convencê-la a ir ao médico nem prestar queixa.
Não sei o que fazer.
Nem fui trabalhar.
Eu tinha tanta coisa importante hoje - comentou Sofia com uma nota de lamento no tom de voz.
- Ainda bem que sua sócia cuida de tudo para você - considerou Rute.
- Mas acho que não deveria deixar assuntos seus nas mãos da sócia.
Por experiência, eu te diria para não fazer isso - comentou Yuri.
- Mas tem hora que não dá para conciliar.
Não gosto que as coisas funcionem assim.
- Eu gosto de acompanhar o serviço de perto.
Principalmente, assuntos de minha responsabilidade com clientes ou que se referem a dinheiro, pagamento.
Também gosto de lidar directamente com clientes, principalmente os mais exigentes - tornou o rapaz.
- Nessa área, o que não faltam são clientes exigentes.
Porém, pagam bem - disse Sofia.
Meu noivo também é engenheiro e trabalha na construção civil.
Ele sorriu e respondeu com simplicidade:
- Que bom - pareceu não ter apreciado alguma coisa.
Nesse momento, Valéria surgiu.
Tímida, forçando uma postura com a cabeça para que os cabelos cobrissem o rosto, chegou devagar e os cumprimentou:
- Oi - mas não se direccionou a ninguém.
- E aí, Valéria?
Como você está? - perguntou Rute indo para junto da amiga.
- Melhor do que ontem.
- Sua irmã nos contou que não quis ir ao médico nem dar queixa - tornou a amiga.
- Não. Não quero.
- Sabe que, se não fizer isso, o Everton continuará...
Valéria a interrompeu ao perguntar:
- Ele foi trabalhar hoje?
- Com a maior cara de pau!
Como se nada tivesse acontecido.
Breve instante e comentou:
- Olha, você tem seus direitos e precisa fazer alguma coisa.
Imagino que seja difícil, mas é necessário!
Ele precisa ser punido!
Cão bravo deve ficar de focinheira!
Você é advogada. Conhece leis.
Sabe que hoje em dia as mulheres agredidas física ou psicologicamente estão perdendo o medo de buscarem ajuda.
Existe até o serviço do número 180, específico contra a violência da mulher, que oferece orientação.
Valéria não dizia nada.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 21, 2017 1:03 pm

Rute tomou a mão da amiga entre as suas e orientou:
- Precisa ir à Delegacia da Mulher, apresentar sua queixa contra a violência física e psicológica que vem sofrendo.
Solicitar, no Boletim de Ocorrência, que deseja dar continuidade ao processo com o objectivo de instaurar um inquérito policial.
Sabe que, para isso, não é necessário que tenha um advogado.
Porém, sempre é importante ter a orientação de um.
Quando não se tem condições financeiras, a mulher tem direito a um advogado da assistência judiciária.
É só ir ao Fórum local e pedir informações para que um advogado do Estado preste a ela todo o serviço jurídico.
- Ainda é tempo, Valéria. Vamos à delegacia.
Suas lesões são visíveis.
Olhe-se no espelho! - reforçou a irmã.
- É verdade.
Prestando queixa, a delegada vai pedir que você faça um Exame de Corpo de Delito no I.M .L.
Se as lesões forem em partes íntimas, você deve dizer à delegada que quer que o Exame de Corpo de Delito seja realizado por uma médica do I.M .L.
Por vergonha, muitas mulheres não mencionam as lesões em partes delicadas ao prestarem queixa e não sabem sobre seus direitos de solicitarem uma médica para realizar o exame.
A delegada não precisa ver nada.
Ela só vai encaminhar a vítima.
- Não adianta vocês insistirem.
Eu não vou - disse Valéria convicta.
- Não é possível!!! - Sofia se alterou.
Estava esgotada.
- Você nem parece minha irmã!
O que vai ganhar protegendo um safado, canalha e covarde como o Everton?!!
- E o que vou ganhar se denunciá-lo?! - reagiu.
- Você nem parece que tem estudo!
Nem parece advogada!
Que tipo de pessoa você é?!
- Não estou entendendo o que você quer!
O problema é meu!
Não quero fazer nada!
Não vou fazer nada! - levantou-se correndo e foi para o quarto.
- Valéria! Valéria! - Rute chamou, mas a amiga não atendeu seu chamado.
Levantando-se, disse ao ir à direcção do quarto:
- Vou falar com ela.
- É melhor que tente fazer alguma coisa.
Estou cansada disso tudo - murmurou Sofia, que se levantou e esfregou o rosto com as mãos.
Ela andou de um lado para o outro na sala.
Parou frente às portas de vidro, que davam para a sacada, e ficou olhando através das vidraças.
- Sofia - ela olhou para Yuri que disse indo à sua direcção: - entendo que você e minha irmã estão tentando de tudo para esclarecer a Valéria e fazê-la tomar uma atitude.
Mas ela não quer. Não está preparada.
- Por quê?! - perguntou zangada, mas com um tom de lamento, de angústia na voz.
- Porque, talvez, seja uma pessoa imatura.
Não quer crescer nem ser independente.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 21, 2017 1:03 pm

Por isso não consegue pôr um basta na situação.
Prefere ser subjugada a ter de assumir uma nova vida sozinha.
Prefere ser subjugada a ser independente.
O que Valéria sente por esse cara não é amor.
Ela está com medo de ficar sozinha.
Está com medo de assumir que errou ao se envolver com um cafajeste como esse.
Vendo-a atenta a suas palavras, afirmou:
- E digo mais. Ela vai voltar para ele.
- Ah, não!!! Não vai não!!!
De jeito nenhum! - ficou furiosa.
- E você não vai poder fazer nada.
Olhando-o nos olhos, Sofia acreditou:
- Ela não vai voltar para ele.
Yuri não disse mais nada. Não adiantaria.
Pouco depois, Rute voltou à sala.
Ela não conseguiu convencer Valéria a tomar uma atitude.
Conversaram um pouco mais a respeito do assunto, porém não chegaram a nenhuma conclusão.
* * *
George chegou assim que Yuri e Rute se foram.
Ele e a noiva conversaram a respeito de Valéria e ela pôde perceber que o rapaz não estava nenhum pouco satisfeito com a presença de sua irmã ali.
Sofia ficou magoada com algumas colocações de George a respeito de Valéria.
Achou que ele foi indelicado e insensível, mas não disse nada.
* * *
As semanas que se seguiram ocuparam, demasiadamente, Sofia com os problemas de Valéria.
Por causa da irmã, ela deixou de ir ao centro espírita e de colaborar na oficina de artesanato.
Faltou também nos dias de passes magnéticos e assistência espiritual a qual se propôs.
No trabalho, precisou deixar muitas tarefas a cargo de sua sócia e também se ausentou de outros compromissos.
A pedido de Valéria, ela não contou aos pais ou à família que a irmã estava em seu apartamento.
Um bom tempo depois, Sofia chegou ao seu apartamento e não encontrou a irmã.
Achou estranho.
Procurou-a por todos os cómodos.
Nenhum sinal ou qualquer bilhete.
Interfonou ao porteiro e perguntou se ele sabia de alguma coisa.
A resposta do funcionário foi tudo o que não queria ouvir:
- Um homem parou um carro aqui em frente.
Desceu e pediu para mim, chamar a dona Valéria.
Assim que eu liguei, ela desceu rapidinho trazendo umas duas sacolas, dessas de plástico, nas mãos.
O rapaz beijou ela, abraçou, abriu a porta do carro e ela entrou.
Não demorou e foram embora.
Ela não me disse nada nem deixou recado para a senhora.
Sofia ficou confusa.
Não acreditava no que havia acontecido.
Não sabia o que pensar.
Tanto falou e orientou a irmã...
Mas ela não lhe deu atenção.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 21, 2017 1:03 pm

Lembrou-se do que Yuri havia dito, que Valéria voltaria para Everton, porém jamais acreditou nessa possibilidade.
Agradeceu ao porteiro e telefonou para Rute e combinaram de se encontrar.
* * *
Algum tempo depois, na casa de Rute, as amigas conversavam.
- Não dá para acreditar!
O que a Valéria quer da vida, gente?!
Por que ficar com alguém como o Everton?
Ela é jovem, bonita.
Tem estudo, profissão, educação... - perguntava Rute mesmo sabendo não ter uma explicação lógica.
- Você não imagina como estou.
Ela fugiu de casa sem falar nada!
Como é difícil ver a própria irmã vivendo isso que ela vive!
Por que é que se sujeita a isso?!
Estou inconformada!
Se alguém me contasse, eu não acreditaria!
Tenho vontade de, eu mesma, dar uns tapas na Valéria pra ver se ela acorda! - pensou por um momento e pediu a opinião:
- E se eu fosse fazer uma denúncia na Delegacia da Mulher?
- Em caso de violência física aparente ou que seja testemunha, você pode denunciar, mas...
No caso dela, você não presenciou nada.
A Valéria poderá alegar, diante da delegada, que caiu, bateu o rosto na porta ou sei lá o quê.
E ela é bem capaz de fazer isso para proteger aquele infeliz.
Diante disso, sua denúncia não servirá para nada.
- Liguei para o serviço 180 e me informaram que mulheres, em situação de violência, é preciso ir à delegacia.
- Em vista do que já foi no passado, hoje podemos dizer que existem muitas coisas boas para apoiar a mulher que é vítima de violência.
Mas as nossas Leis e a Assistência Pública ainda estão fracas no quesito de formas de violência.
Às vezes, a vítima não tem coragem.
Precisa de apoio, assistência psicológica, social e muita informação, pois se sente tão abalada emocionalmente que não consegue se desenvencilhar ou se afastar do agressor.
Fica, por muito tempo, ligada a ele.
Por isso o número de feminicídio vem aumentando.
- Feminicídio? O que é isso? - perguntou Sofia.
- Feminicídio é o homicídio de uma mulher por um conflito de género, ou seja, só pelo facto de ela ser mulher.
Por exemplo... - pensou. - Se uma mãe, pai, irmão e outros agridem e matam uma adolescente por ela ser do sexo feminino, pois se fosse do sexo masculino não haveria essa morte, é um feminicídio.
Essa morte pode ocorrer por essa adolescente, por exemplo, ser mais fraca, mais submissa e ela é assim por ser mulher.
- Espere aí...
Eu pensei que violência contra a mulher fosse somente o caso de um homem contra uma mulher.
- Não. Suponhamos que uma mãe tem quatro filhos homens e uma mulher.
Ela, a mãe, deixa os meninos saírem, divertirem-se, irem à escola, trata-os bem etc.
Mas, em contrapartida, com a filha, ela, a mãe, age bem diferente.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 21, 2017 1:04 pm

Obriga a menina a serviços domésticos difíceis, tarefas árduas.
Não permite que vá à escola, que brinque.
Pratica agressões físicas.
Ridiculariza a filha perto ou longe de alguém.
Constrange, limita ou faz qualquer outra coisa do género que configure violência física ou emocional.
Essa mulher, mesmo sendo a mãe, praticou acto de violência contra a mulher.
E pode ter agravante se ela permitir que os irmãos façam o mesmo.
Isso é bem particular, ou seja, cada caso é um caso.
Aliás, ela não precisa ter outros filhos para que configure violência contra a mulher para com a filha.
Há enquadramento pelo facto de a menina ser mais frágil, submissa e que, se fosse um menino, ela não faria aquilo.
- Entendi.
- Hoje a ONU - Organização das Nações Unidas - admite que existam, no mundo, mais de 193 países, se considerarmos o Vaticano e os Territórios Palestinos como estados soberanos.
Infelizmente, Sofia, entre quase duzentos países existentes no mundo, o nosso está entre os dez, no ranking mundial, que mais pratica crime de violência contra as mulheres.
Isso é um absurdo!
Nossos governantes não dão a atenção merecida aos casos, aos números.
Os estudos mostram que, até os nove anos de idade, os pais são os maiores agressores.
As vítimas, a partir dos sessenta anos, comumente são agredidas pelos filhos ou cuidadores.
Entre vinte e cinquenta e nove anos, os agressores costumam ser os parceiros e cônjuges.
As violações dos direitos das mulheres são inúmeras.
Você não tem ideia.
As vítimas se calam, principalmente, por ignorância, falta de orientação sobre o que fazer, coragem e apoio.
Na infância ou adolescência, muitas meninas passam por constrangimentos e são ridicularizadas nas escolas por parte de professores e conhecidos e, tanto elas quanto os pais, não conhecem seus direitos.
Rute respirou fundo e contou:
- Quando eu tinha doze anos, tive uma professora que me dizia:
"você é muito sem graça. Que corpo feio.
Toda cumprida e desengonçada".
Na hora eu sorria. Não sabia o que fazer.
Queria ser simpática.
Fui criada para respeitar os mais velhos.
Mas, quando estava sozinha, eu chorava, sofria.
Aquilo doía muito.
Não queria ir à escola e minha mãe não sabia porquê.
Hoje, se eu tivesse uma filha, eu iria orientá-la para não se deixar constranger nem ridicularizar.
Iria estar ao lado dela para que confiasse em mim.
Em um caso como esse meu, eu a levaria directo à delegacia da mulher e prestaria uma queixa contra a infeliz professora.
Pessoa inescrupulosa e mal-amada.
Indigna desse título.
Sofri muito por isso, Sofia. Ninguém tem ideia.
A violência psicológica é tão forte, tão dolorosa quanto a física.
Todas as mulheres deveriam conhecer sobre a violação dos direitos das mulheres. Todas!
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 21, 2017 1:04 pm

Violência moral é outra coisa que muitos desconhecem e é entendida como qualquer conduta que configure calúnia, difamação ou injúria.
- Eu não sei muito bem o que é violência moral - confessou Sofia.
- São aqueles casos quando um colega ou uma colega diz que você saiu com um, dormiu com outro.
Tem determinadas práticas, principalmente, a respeito de sua conduta ou de sua vida sexual.
Se a mulher vitimada de calúnia, difamação ou injúria conhecesse a Lei Maria da Penha e tomasse uma atitude prestando queixa na delegacia da mulher contra a colega ou o colega que a agrediu, muita coisa mudaria.
Só que muitas não conhecem seus direitos.
Não tem coragem por não se sentirem seguras e decidem sofrer caladas.
- Talvez tenham medo de ser demitidas da empresa por tomar uma atitude desse tipo contra um colega - supôs Sofia.
- É aí que precisamos de uma tomada de consciência.
Fazendo isso, ela estará dentro da Lei e a empresa deve estar do lado dela para, até, excluir de seu quadro de funcionário alguém que calunia, difama ou injuria.
Caso a vítima seja repreendida ou demitida, cabe advogado e acção contra a empresa. Lembre-se disso.
Sofia pensava sobre o que a amiga dizia até ouvir uma voz simpática:
- Que tal um suco? - perguntou a mãe de Rute com doçura na voz.
- Eu aceito, dona Leila.
Está tão quente hoje - disse Sofia.
- Está mesmo. Que tal virem para a copa?
Nessa hora da tarde, lá é mais fresquinho - convidou a senhora.
Elas aceitaram.
Não demorou e estavam acomodadas em torno da mesa e a senhora serviu-lhes suco bem gelado.
Em seguida, sentou-se ao lado da filha, frente à Sofia.
Já sabendo sobre o que as duas conversavam, perguntou:
- Seus pais sabem de tudo isso, Sofia?
- Não. Minha irmã pediu que eu não contasse.
- Entendo. É muito triste para os pais saberem que o filho sofre.
Dói tanto!
- Imagino. Pensei em dizer que ela foi lá para o meu apartamento.
Mas depois achei melhor não falar nada.
Se eles quisessem vê-la, iriam fazer um monte de perguntas e isso a fizesse ir embora, eu não saberia o que fazer.
Fiquei pensando muito no que o Yuri disse sobre ela ser imatura, que não queria crescer nem ser independente e por isso não põe um fim na situação.
Em vez de se libertar, Valéria prefere ser subjugada, pois está com medo de ficar sozinha.
Concordo com ele e, por causa dessa insegurança e imaturidade que vejo em minha irmã, tive medo de arrasar meus pais, caso eles a vissem daquele jeito e, depois, soubessem que ela voltou para o cafajeste.
- É uma situação tão difícil que a gente nem sabe se deve opinar.
Além do que, de que vai adiantar uma opinião se a menina não quer ser ajudada?
Dona Leila ofereceu breve pausa e orientou:
- Você precisa se cuidar, Sofia.
Fique forte, firme para quando sua irmã precisar.
- A senhora tem razão.
Por conta dessa história com a Valéria, acabei adiando muita coisa em minha vida e me ausentando de outras.
Eu e o George estamos discutindo muito.
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Ave sem Ninho

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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 21, 2017 1:04 pm

- Você é noiva, não é? - perguntou a senhora.
- Sim. Sou - sorriu docemente.
- Vai se casar logo?
- Bem, eu... - Sofia não se sentiu bem com a pergunta.
Ficou envergonhada para contar que ela e George pensavam em morar juntos por um tempo antes de se casarem.
Não sabia, não entendia a razão desse constrangimento.
Muito provavelmente, seria a manifestação de um desejo inconsciente de se casar de facto.
Ela era uma mulher moderna, sem preconceitos, porém, naquele instante, sentiu sua modernidade fraquejar.
Sorriu lindamente espargindo uma luz invisível em sua face simpática.
Encolheu os ombros com jeitinho meigo e respondeu:
- Já estamos pensando nisso sim.
Mas não temos uma data.
- Faço votos que seja uma união de muito amor e sinceridade.
Não há coisa melhor, em uma união, do que a sinceridade, a franqueza.
Deixe isso bem claro entre você e seu noivo.
Sabe, filha, quando duas pessoas se unem, geralmente, pouco falam sobre fidelidade, sobre o que gosta e o que não gosta e isso deve ser uma coisa a ficar bem clara.
Nunca se traiam.
O sinónimo de traição é destruição.
Destruição de si e do outro.
- Concordo com minha mãe.
Você viu meu irmão? - perguntou Rute atenta.
- Reconheço que meu filho sempre foi um bom rapaz.
Experimentou seu período de baladas, amigos quando jovem, mas depois parou.
Amadureceu e saiu dessa fase.
Mas tem homens que não amadurecem nunca.
Querem continuar com uma vida de farra e sem responsabilidade mesmo depois de casado.
O Yuri sempre se dedicou aos estudos.
É muito responsável com seu trabalho.
Sempre foi atencioso com a família.
Encontrou uma moça de família.
Namoraram dois anos e noivaram mais um.
Ele mesmo construiu a casa com que sempre sonhou. Fez tudo direitinho.
- Nossa! Você tinha de ver que casa!
Que graça! Tudo muito bem planeado.
A casa é um doce, sabe?
Tem até piscina e área de churrasqueira - contou Rute.
Sofia sorriu e argumentou em tom de brincadeira e sem pensar no que dizia:
- Minha irmã poderia ter conhecido um rapaz assim - riu.
- Eu cheguei a apresentá-los, viu? - riu a amiga.
Foi antes de ele conhecer a Roxana.
- E daí?
- Nada. Nenhum dos dois se interessou.
Fiquei frustrada - riram. - Quem sabe agora?
Ele está livre e ela também.
Talvez as dificuldades os unam.
- Meninas... Não forcem as coisas - repreendeu dona Leila, oferecendo um sorriso.
Normalmente as pessoas se atraem umas pelas outras de acordo com a necessidade de evolução, para experimentarem o que precisam.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 21, 2017 1:04 pm

- E se uma pessoa, ao lado de uma outra, experimenta o que não precisava?
Será que isso existe?
Como o caso do Yuri.
Será que ele precisava ou merecia ser enganado? - perguntou Rute.
A senhora pensou um pouco, depois, com cautela, respondeu:
- Ninguém vem, neste mundo, para enganar, trair, passar a perna, roubar, matar...
Todos estamos aqui para evoluir, para superar nossas más tendências.
Mas, se alguém sofrer algo que não merecia, que não precisava experimentar por culpa do outro que caiu em tentação por não saber conter suas imperfeições, essa pessoa, vitimada pelos erros do outro, terá um crédito.
Lembram da questão de O Livro dos Espíritos que fala sobre os flagelos?
Sofia e Rute penderam com a cabeça positivamente e a senhora prosseguiu:
- Ali diz que, diante de grandes flagelos pode haver uma vítima que seja um homem de bem, alguém que não merecia a situação difícil.
Quando isso ocorre e a pessoa suporta a situação sem queixas, ela progride e terá sua recompensa.
Eu acredito que isso se transfira para outras situações, para os flagelos da alma.
As situações difíceis, apesar da dor, podem servir de prova para uma pessoa de bem exercitar a sua inteligência, mostrar a sua paciência e resignação, além de desenvolver o sentimento de abnegação, ou seja, de renúncia e desprendimento.
Ofereceu uma pausa e explicou sua visão:
- A situação do meu filho é a seguinte:
ele agiu de boa fé, agiu sempre correctamente com a noiva.
Não podemos julgá-la.
Não estávamos no lugar dela para saber o que, de facto, aconteceu.
- Ai, mãe!...
As fotos mostram a Roxana se agarrando, rindo e se beijando com outro cara!
Não precisamos saber de mais nada!
- Eu sei, filha.
Mas ela sempre foi uma boa moça. Não se vigiou.
Cedeu às tentações de suas más tendências. Mentiu.
Bebeu muito e perdeu a noção do que estava fazendo.
Ela errou? Sim, errou.
Mas não devemos ficar massacrando a Roxana.
- Tá querendo dizer que o Yuri errou por terminar o noivado?!
Ah, mãe! Por favor!
- Não! Ele está certo.
Se ele não tivesse feito isso, eu mesma iria conversar com ele, pois, se o perdão dele for fácil, ela talvez possa fazer o mesmo depois de casada.
Outro erro, que o Yuri poderia cometer, seria o de perdoar e, depois, ficar jogando na cara tudo o que ela fez.
Isso também seria errado.
Mas não era disso o que eu estava falando.
Quero dar o Yuri como exemplo no seguinte:
se ele não precisasse passar por isso, se ele não merecesse essa angústia e usar essa situação para agir com mais inteligência, ele vai progredir.
Vai ser um homem melhor.
Vai encontrar uma pessoa melhor.
- Nesse caso, o que a senhora chama de agir com inteligência? - indagou Sofia.
- Agir com inteligência seria ele ficar na dele e aguardar.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 21, 2017 1:05 pm

Focar sua energia no que realmente importa e não dar atenção ao que ela fez.
Ignorar tudo. Não é porque aconteceu isso que ele deve sair por aí aprontando todas.
Encher a cara, sair bagunçando com a mulherada que se propõe a envolvimento casual, de pouco valor.
Desistir de se empenhar no que faz, decaindo com a qualidade de seu trabalho.
Isso seria agir sem inteligência.
Ele está triste e depressivo? É lógico que está!
Ele é uma pessoa normal.
Mas não pode parar toda a sua vida produtiva por causa da sentimental.
Ele precisa ter fé e esperança.
Se isso aconteceu é bem possível que coisa melhor o aguarde.
Rute não conseguia entender o ponto de vista da senhora e replicou:
- Minha mãe fala como se a Roxana fosse uma coitadinha, ingénua.
Não gosto quando ela fala assim.
Principalmente perto do meu irmão.
Dá a impressão que ela quer que o Yuri volte para a noiva.
- O que você queria que eu falasse para o Yuri, Rute? - perguntou séria e firme.
Que a Roxana errou!
Que é safada! Sem vergonha!
Que ele é um idiota e deveria fazer alguma coisa para limpar a sua honra como era feito em séculos passados?
Daí seu irmão, com a cabeça cheia de meus maus conselhos, sairia daqui, mataria a ex-noiva.
Ela iria para o cemitério e seu irmão para a cadeia!
É isso o que eu deveria fazer? - perguntou enérgica.
Por causa de opiniões como essas, em momentos acalorados, muitos crimes aconteceram e vidas se acabaram.
- Sua mãe tem razão, Rute.
Determinadas opiniões, em momentos como esse, fazem com que os envolvidos tomem decisões erradas e precipitadas, difíceis de serem corrigidas depois.
- Meu filho vai encontrar a pessoa certa.
Alguém que o mereça.
- Cada dia parece mais difícil encontrar a pessoa certa.
Alguém honesto, fiel, amigo, parceiro... - comentou Rute.
Acho que homens assim, à moda antiga, entraram em extinção - riu.
Pessoa para se ter um compromisso sério, que pense em casamento, então...
Acabou faz tempo.
- Não. Não acabou - acreditou a senhora.
Hoje, sem dúvida, está mais difícil sim.
Isso aconteceu por causa de homens e mulheres que se propuseram a uma vida sem compromisso, sem tanta responsabilidade, sem tanta fidelidade.
É difícil um se preocupar com o outro.
Algumas uniões, hoje em dia, ocorrem sem tanta atenção para a vida a dois.
Muitos já se casam pensando:
"Se não der certo, a gente se separa".
Essa frase não deveria ser pronunciada, muito menos pensada por aqueles que estão prontos para se casarem.
Como dizem: a palavra tem poder! - dona Leila sorriu e Sofia correspondeu.
Lembrou-se de ouvir seu pai dizer isso muitas vezes.
A senhora esperou e continuou:
- Se as pessoas soubessem como é difícil se separar, divorciar-se de alguém...
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 21, 2017 1:05 pm

Em separações ou divórcio, sempre existe uma grande dor na alma, tristeza na consciência, seja em que caso for.
Quando se tem filhos, então...
É mil vezes pior.
Divórcio sempre provoca um estrago enorme na vida dos filhos.
Coisa difícil de ser superada.
Fico assustada quando vejo pai ou mãe divorciado, dizendo:
"meu filho é maduro. Ele entendeu a separação".
Talvez a pessoa diga o que ela está tentando acreditar.
Ela sabe que o filho não entende e está muito magoado.
Que não era isso o que o filho queria.
- A senhora é contra o divórcio, dona Leila?
- Não sou contra nem a favor.
O divórcio deve existir.
Não podemos nos castigar vivendo ao lado de uma pessoa que nos maltrata de alguma forma.
O que não acho certo é o facto de algumas pessoas não tentarem um pouco mais, não procurarem uma ajuda de psicólogo maduro.
Eu costumo dizer que casamento é evolução.
Sofia sorriu e perguntou:
- Como assim? Evolução?
- Primeiro que, para se casar com alguém, é preciso conhecer e aceitar a pessoa como ela é.
Não pense que ela vai mudar, da noite para o dia, só porque se casou, porque ela não vai.
Segundo, depois de casados, existem as fases de mudança e adaptação que ocorrem logo após a lua de mel.
É o período em que, no dia a dia, as pessoas se revelam e se descobrem. Se conhecem.
Em pouco tempo, as solicitações que, antes, eram carregadas de palavrinhas doces, deixam de ter os enfeites do namoro.
Um começa a ser mais directo e verdadeiro com o outro e o outro se melindra ou dá o troco e começam as agressividades, as ofensas...
Os casais sobreviventes são aqueles compostos de pessoas não egoístas.
- Como assim? - tornou Sofia bem interessada.
- A pessoa egoísta, quando entra em um casamento, pensa só na sua própria felicidade.
Quando faz algo, acha que vai deixar o outro feliz também, mas isso nem sempre é verdade.
A pessoa egoísta quer que tudo seja fácil para ela.
É exigente, controladora, quer tudo feito a seu modo.
Um casamento feliz não pode ter egoísmo.
O que for feito tem que ser bom para os dois.
Os dois devem se empenhar para que tudo, em casa, funcione de modo fácil e prazeroso para ambos.
Se somente um não for egoísta e ficar se prestando a servir o outro, o casamento também não vai funcionar.
Não se pode precisar em quanto tempo, mas, com os anos, aquele que vive cedendo, produzindo, trabalhando, arrumando, compreendendo, acarinhando, mimando e fazendo de tudo para viver com equilíbrio, cansa.
Não é justo que somente um leve o casamento nas costas.
- Verdade. Tenho a mesma opinião que a senhora - concordou Sofia.
- Muitos casamentos vão à falência por causa do egoísmo.
Foi o caso do meu.
Sofri muito com o divórcio e meus filhos mais do que eu.
Meu ex-marido era um egoísta. Hoje eu sei disso.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 21, 2017 1:05 pm

Antes eu achava que era assim mesmo, que as atitudes dele eram normais.
Pena eu ter demorado tanto para entender.
Seria bom se tivesse visto isso antes de me casar.
Quando percebi algumas atitudes comodistas, quando ele cuidava só de seus interesses e não ligava para mim, pensei que fosse mudar ou, então, que eu conseguisse dar conta, que não me importaria.
Eu trabalhava quando me casei.
Nós dois trabalhávamos. Morávamos no Paraná.
Quando chegava a minha casa, eu lavava, passava a ferro, cozinhava e limpava tudo.
Quando ele chegava tomava banho, largava roupa suja pendurada atrás da porta do banheiro.
Jantava e não tirava nem o prato sujo de cima da mesa para pôr na pia.
Ia para a sala assistir à T V e beliscava alguma coisinha, algum doce e deixava as migalhas no chão ou no sofá.
Quando eu ia dormir, era tarde.
Eu tomava banho e estava tão cansada que, às vezes, nem jantava.
Ainda tinha de estar lindinha e disposta na cama.
Com o tempo, eu não aguentava.
Depois da jornada dupla, não dava para estar disposta.
Sofia e Rute riram ao mesmo tempo e dona Leila continuou:
- Depois vieram os filhos.
Eu saí do emprego.
Quem já cuidou de crianças e de casa, sabe o trabalho que é.
Nem de noite a gente pára.
E meu marido nunca me ajudou.
Era um egoísta perfeito, pois reclamava quando algo não estava bom para ele, mesmo me vendo sobrecarregada.
Por não saber como era cuidar de casa e de duas crianças, ele não imaginava como eu estava cansada, quebrada.
Eu não tinha folga nunca.
Ele reclamava que eu não fazia mais seu prato predilecto, que era lasanha caseira.
Reclamava quando o almoço atrasava aos domingos.
Brigava por qualquer coisa.
Ele só via o que eu não fazia.
Mas não via tudo o que ele mesmo deixava de fazer.
Entende?
Sofia pendeu com a cabeça positivamente e a mulher continuou:
- Mudamos para o Rio de Janeiro por causa do serviço dele.
Mas tudo continuou a mesma coisa.
Não consigo me esquecer do dia em que cheguei aqui com aquele monte de coisa para pôr no lugar e sem a ajuda de ninguém.
Por mais que me esforçasse, não conseguia ser rápida e, sem a ajuda dele, demorou quase um mês para colocar tudo no lugar.
Ele não via o que eu fazia.
O Yuri tinha onze anos e a Rute nove quando eu entrei em depressão, pânico ou sei lá o quê.
Eu me sentia tão cansada, tão esgotada que nem sei explicar o que experimentava.
Só sei que era uma coisa horrível.
Pensei que nunca fosse passar.
Mas, graças a Deus, passou.
Hoje em dia, as doenças emocionais são mais conhecidas. Antigamente não.
Para mim, naquela época, tudo estava bem difícil.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 22, 2017 12:33 pm

Egoísta, o Valnei, meu ex-marido, não me dava a menor atenção.
Dizia que eu estava com frescura.
Comecei a frequentar uma casa espírita e comecei a me sentir melhor daquele estado cruelmente paralisante e aflitivo.
Aconselhada por uma senhora que tinha muitos anos de Doutrina Espírita, comecei a estudar e fazer cursos doutrinários.
Senti-me melhor ainda.
Sempre orava pedindo ao Pai que me desse força e uma luz para eu sair daquele estado.
Um dia de manhã, sem mais nem menos, acordei diferente.
Lembro como se fosse hoje.
Sentei na cama e fiz uma prece.
De repente eu me perguntei:
o que mais me incomoda na minha vida?
Diante da pausa, Sofia perguntou curiosa e interessada:
- E qual foi a resposta?
- A resposta foi:
o que mais me incomoda é eu não fazer algo por mim.
Silêncio.
- Olhei ao meu redor e vi que fazia tudo pelo meu marido, pelos meus filhos, pela casa, mas nada por mim.
Se o Valnei era um egoísta, eu era acomodada.
De certa forma, era culpa minha.
Com toda certeza era. Decidi voltar a trabalhar.
E, em menos de dois meses, eu estava de volta à vida.
Só que tentei fazer diferente.
Entendendo que, no casamento, um precisava fazer o outro evoluir, comecei a sentar e, pacientemente, conversar com o Valnei a respeito da sobrecarga de serviço que eu tinha.
Mostrava que ele também era pai e precisava ajudar a cuidar das crianças.
Falei que ele morava nesta casa e era justo que auxiliasse nos trabalhos domésticos.
Dona Leila riu.
- Nunca tinha visto esse homem tão zangado, tão revoltado.
Tentei, muitas outras vezes, conversar de novo, explicar, mostrar, mas não tive sucesso.
Então, comecei deixar de cuidar de algumas coisas dele, como:
não lavar seus ténis, não limpar seus sapatos, não tirar a toalha molhada dele do banheiro, não fazer seu prato...
Longo silêncio. Dona Leila pareceu reviver, na memória, aqueles dias difíceis.
Foi então que Rute se pronunciou:
- Meu pai nunca foi amoroso ou atencioso quanto deveria.
Não me lembro de ele nos ajudar com uma lição da escola ou nos levar a um passeio.
Apesar disso, era nosso pai e gostávamos dele.
Só que não nos sentíamos amados.
Sempre houve uma lacuna.
- Eu sabia disso e falava também sobre esse assunto com ele.
Mas não adiantava.
Fiz de tudo para que o Valnei entendesse que precisávamos viver como família e não eu como empregada.
Porém ele não entendia. Não queria colaborar.
Até que entendi o porquê.
Um dia, quando cheguei do serviço, o Yuri sentou no sofá, ao meu lado e me abraçou de um modo diferente.
Sabe como é.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 22, 2017 12:33 pm

Mãe conhece filho - deu um suspiro longo e insatisfeito por causa da lembrança desagradável.
Passei a mão nos cabelos dele, beijei a testa e perguntei o que tinha acontecido.
Ele me olhou nos olhos e disse que, naquela tarde, uma mulher ligou para cá e disse que era amante do Valnei e que queria falar comigo.
Nova pausa.
Perdi o chão.
Fiquei incrédula e tentei controlar o desespero.
Principalmente porque vi meu filho chorando.
Abracei o Yuri e pedi calma.
Eu não sabia o que dizer a ele.
Nem sabia o que fazer. Fui pro meu quarto.
Tentei organizar os pensamentos confusos e comecei a lembrar que meu marido estava mesmo diferente nos últimos tempos.
Fiquei atordoada e tive de esperar até à noite.
Quando ele chegou, fui tirar satisfações.
A princípio ele negou. Depois confessou tudo.
Fiquei arrasada, acabada, destruída como mulher.
Mandei que ele fosse embora de casa.
Brigamos. Ele me bateu.
Bateu nas crianças e foi embora.
Telefonei para o meu irmão que me orientou para ir à delegacia prestar queixa, pois ele estava longe e não poderia fazer nada.
Meu irmão morava no Paraná.
- Se houvesse a Lei Maria da Penha, minha mãe poderia ter feito muito mais.
Ele agrediu-a e aos filhos. Causou danos emocionais.
A traição diminuiu sua auto-estima, prejudicou seu desenvolvimento.
Um bom advogado poderia fazer muita coisa. Ressarcimento, sei lá.
O que ele fez configurou humilhação, exploração por tantos anos de trabalhos domésticos.
Principalmente o prejuízo à saúde psicológica.
- Deixa isso para lá, filha.
- Mas a senhora sofreu muito, mãe.
A humilhação que experimentou acabou com a senhora.
- Não acabou. Estou aqui firme e forte.
Breve pausa e disse:
- Para finalizar, o Valnei se foi.
Depois quis me tirar a casa. Foi uma luta!
Eu e os meus filhos conseguimos ficar, lógico.
Ele alegou que eu era jovem e produtiva e não me pagou pensão.
Somente aos filhos. Foi tão triste...
Eu via o sofrimento nos olhos dos meninos.
Decidi me dedicar só para eles.
Embora eu trabalhasse, todo tempo que tinha livre era para eles - sorriu.
Cuidamos das feridas e nos recuperamos.
Nem sempre o pai pagava a pensão, mas eu nunca transferi esse problema para os meninos.
Hoje estão aí! - sorriu satisfeita e sobrepôs a mão ao braço da filha, afagando com carinho.
- Parece que não houve chance de reconciliação.
Tive a impressão que seu ex-marido não quis cooperar.
Caso ele quisesse ficar com a senhora e seus filhos, a senhora o aceitaria?
Ou acha que traição não merece perdão?
A mulher não pensou muito para responder.
Parecia até estar pronta para aquela pergunta.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 22, 2017 12:33 pm

Sorrindo, suavemente, considerou:
- Cada caso é um caso, Sofia.
Quando uma pessoa prejudica a outra, independente da forma, seja agressão física, emocional, moral ou patrimonial, automaticamente, a culpa se instala em sua consciência ou inconsciência para, um dia, se manifestar em forma de grande arrependimento e débitos a serem ajustados.
- Mesmo que essa culpa não se manifeste no primeiro momento, não é mesmo? - concordou Sofia complementando.
- Sim. Exactamente.
Um dia, nesta ou em outra existência, a consciência, por meio dos mecanismos psíquicos, vai manifestar, com algum tipo de desequilíbrio, podendo ser físico, emocional ou espiritual, os actos inconsequentes, as trapaças, o egoísmo, o orgulho, a ambição desmedida que a fizeram tirar vantagem ou lesar alguém com agressões, constrangimentos, humilhações, subtracções da paz e outras tantas atitudes inferiores. Em um relacionamento, se a pessoa que errou demonstrar-se arrependida, quer e decide, verdadeiramente, mudar de atitude, refazer sua vida e refazer a vida daqueles a quem prejudicou, ela merece uma chance.
Deverá se empenhar em uma nova vida repleta de atitudes, pensamentos, palavras e acções elevadas e nobres.
Enquanto que, aquele que foi ferido, precisa renunciar ao orgulho ferido e perdoar.
Juntos, terão a oportunidade abençoada de um recomeço sincero, verdadeiro, limpo, fiel, com amor, compreensão e amizade.
E que nunca, a pessoa ferida, pense em vingança ou vai se rebaixar em um nível inferior a dos erros do outro.
Dentro de uma nova vida, um recomeço mais transparente e sem egoísmo é necessário.
Cada um deve pensar em como levar paz ao outro.
E isso vai acontecer com amor.
Muitas vezes, será preciso renunciar ao egoísmo, ao descaso, ao comodismo.
Um momento e dona Leila ainda disse:
- Sabe, Sofia, se o meu ex-marido tivesse disposto a se reformar, em todos os sentidos, parar com tudo o que fazia de errado, ser um homem digno, recto, limpo, honesto, pai e marido amoroso e dedicado, sim, eu lhe perdoaria.
Trabalharia meu orgulho.
Renunciaria meu orgulho ferido de mulher enganada para entender que ele, assim como eu, é uma criatura falha e humana, mas disposto a se refazer, a se reerguer.
Entenderia que aquilo tudo que aconteceu entre nós foi para me tirar da posição cómoda da ingenuidade.
Nova pausa.
- No momento em que tudo aquilo aconteceu, eu me chamava de idiota, tola, imbecil.
Como eu não tinha percebido?
Mas, depois, mais madura, vi que eu era simplesmente ingénua.
Vi que aquilo tudo serviu para eu ficar esperta, em muitos outros aspectos da vida.
Confiar, mas preparada para arcar sozinha e seguir sozinha, se e quando preciso for.
Descobri que quem nunca falhará comigo é Deus e Jesus, pois foi Neles que encontrei força para seguir e vencer.
Por isso digo, em outras circunstâncias, eu perdoaria sim, mas que ele nunca mais me traísse, que nunca mais fosse egoísta, indiferente ou agressivo.
Essa é a minha opinião.
- Como diz a frase:
"confiar plenamente em uma pessoa pode gerar dois resultados:
um amigo para sempre ou uma lição para toda a vida" . - disse Rute.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

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Sofia sorriu e comentou:
- Estou querendo saber sua opinião, porque vejo muita gente falar de forma aleatória sobre perdoar ou não, mas nunca ouvi uma pessoa madura e bem consciente opinar sobre isso.
Rute riu e brincou:
- Ela está perguntando isso porque vai casar e...
- Quem vai se casar?!!
- Ai! Que susto, Yuri!!! - mãe e irmã gritaram ao mesmo tempo.
Sofia só colocou a mão no peito e deu um suspiro ruidoso, depois sorriu.
- Esse menino parece um fantasma! - exclamou a mãe.
Ele sorriu. Não se importou com o que falavam e foi à direcção beijar a mãe e a irmã.
Depois cumprimentou Sofia e pediu:
- Desculpe-me por assustá-la.
Não sabia que iria...
- Não foi nada.
- Acho que se assustou muito mais pelo grito dessas duas - riu.
- Vai se lavar que vou preparar alguma coisa pra você comer - disse a senhora, levantando-se.
- Não, mãe. Não precisa. Obrigado.
Estou sem fome - disse saindo da copa.
Ao vê-lo ir, a mulher comentou:
- Coitado do meu filho.
Viu como ele está magro, abatido?
- Não está assim não, né mãe?
A senhora está exagerando.
- Não o conheci antes.
Acho que está abatido sim, mas disfarça bem.
Isso é a dor na alma.
Não existe nenhum comprimido para isso? - comentou Sofia, olhando em direcção a que o rapaz foi.
- Quem sabe a gente apresenta o Yuri para Valéria, novamente, e?... - Rute riu como quem faz uma molecagem.
Vamos dar um jeito de aproximar esses dois.
- Quem sabe - sussurrou Sofia, mas sem tanto ânimo.
Dessa vez a brincadeira não tinha sido tão engraçada.
Não sabia explicar.
- Meninas! - repreendeu a senhora com leveza no tom risonho da voz.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 22, 2017 12:33 pm

Capítulo 9 - A mediunidade de Hélder

Meses se passaram e cada vez menos notícias de Valéria.
Era domingo de Páscoa.
Os filhos se reuniam para o almoço à casa de Bernardo e Ágata.
Em conversa à mesa, o pai perguntava à Sofia:
- Você sabia que a Valéria saiu do emprego?!
- Eu soube, pai.
Mas não há nada que possamos fazer - respondeu a filha fugindo-lhe ao olhar.
Atento à conversa, Alex, o filho mais velho, contou:
- Liguei para ela semana passada. Falamos pouco.
Ela não sustenta uma conversa por muito tempo.
- Também tentei falar com a Valéria.
Mas nem atendeu meus telefonemas tampouco retornou os recados - disse Ivone, esposa de Alex.
- Ela fez o mesmo comigo - disse Flávio.
- Devemos admitir que a vida é dela, pessoal - considerou Hélder.
- A Valéria tem uma família que a ama e se preocupa com ela.
Não está desamparada - disse Ágata em tom de mãe que quer acolher e ajudar.
- Mas quem disse que ela quer amparo, mãe? - perguntou Hélder como se estivesse insatisfeito com aquele assunto.
Não bastasse essa manifestação, opinou ainda:
- A vida é dela! Se quebrar a cara, aí sim, a gente ajuda.
- Não é assim, Hélder.
Eu entendo a sua mãe.
Vejo que a dona Ágata não quer que a filha sofra - disse Ivone.
- Mas não podemos arrastar a Valéria pelos cabelos e trancá-la aqui dentro de casa.
Podemos? - questionou Hélder.
- Não. Não podemos.
Mas temos o direito de orientá-la! - tornou Ivone firme, no mesmo tom.
- Hei, pessoal! Estamos almoçando.
Não vamos começar a discutir - interferiu Alex entendendo que o diálogo poderia partir para uma conversa mais acalorada.
- É que a mãe não entende.
Vocês não estão aqui em casa para ver que todos os dias...
Todos os santos dias, a conversa é a mesma! - Hélder exclamou, parecendo impaciente.
Estou cheio disso!
Todos devem entender que a Valéria está na vida que escolheu e ponto final!
Se um dia ela quiser ajuda, aí sim, nós nos proporemos a ajudá-la. Certo?
Quando Ivone suspirou fundo, demonstrando que iria tecer algum comentário, Alex tocou em seu braço, sinalizando para que não dissesse mais nada e a esposa se conteve.
Silêncio total.
Momento em que cada um, sentado em sua cadeira à mesa, sentia o clima pesado, resultado de dúvida, anseios e contrariedades.
Com ambos os punhos fechados, Hélder socou levemente a mesa, afastou a cadeira e exclamou com voz baixa e grave:
- Droga! - Levantando-se, saiu do recinto sem pedir licença.
Sensata, Sofia pediu licença e foi à procura do irmão.
Ágata, amorosa e sensível, entristeceu-se.
O marido, sempre presente e solidário, sobrepôs a mão a sua, inclinou-se e a puxou para si, beijando-lhe o alto da cabeça.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 22, 2017 12:34 pm

Nesse momento, Flávio começou a contar algo engraçado que aconteceu em seu trabalho a fim de que se distraíssem e ficassem mais animados.
* * *
Frente ao quarto do irmão, Sofia parou, bateu à porta e se anunciou:
- Sou eu! Posso entrar?
- Entra.
Ela adentrou. Observou o quarto.
Foi directo à cama do irmão e se sentou.
Olhando-o, perguntou em tom singular:
- O que está acontecendo?
- Com quem?
Comigo? - respondeu, questionando em tom meio agressivo.
- Sim, lógico. Com você.
Nos últimos tempos está diferente.
Vive irritado.
Nunca foi de discutir com os outros, principalmente com a mãe.
- Eu não discuti com ela.
- Não foi o que pareceu.
Com expressão insatisfeita e jeito rude desabafou:
- Tô cheio! Tô cansado desta vida!
- O que está acontecendo, Hélder? - a irmã tornou a indagar impondo jeito doce e ternura na voz calma, quase sussurrando.
Ainda evitando seus olhos, o irmão comentou:
- Estou com alguns problemas.
Nada que possam me ajudar.
- Financeiro?
- Não. E você não vai poder fazer nada.
Então...
Longa pausa e falou mais calmo:
- Olha, Sofia, o problema é o seguinte:
já tenho as minhas próprias dificuldades.
Isso já está sendo muito.
Como se não bastasse, a mãe, o Alex e agora a Ivone não param de falar da Valéria. Caramba!
O assunto é sempre o mesmo e sabemos que não haverá solução até que a Valéria queira.
Sofia pensou em contar que a irmã passou alguns dias em seu apartamento, mas temeu qualquer reacção de Hélder e nada disse.
- Deixem que falem.
Ignore - ela aconselhou.
- Você diz isso porque não mora aqui.
Estou até evitando ficar muito tempo aqui dentro de casa.
O assunto é sempre o mesmo.
A mãe já notou e andou reclamando disso também.
Prefiro ficar na rua a...
- Cuidado - ela alertou.
No lar, encontramos conforto e segurança.
Não vai achar isso na rua.
- Você chama de conforto alguém ficar falando a mesma coisa, o tempo todo, na sua orelha? - ele perguntou, encontrando os olhos da irmã.
Não houve resposta.
O celular de Sofia tocou e ela falou:
- Só um instante.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 22, 2017 12:34 pm

Sentada ao seu lado, pegou o aparelho e atendeu:
- Oi, Rute! Tudo bem?
- Quase tudo.
Aconteceu algo que... - calou-se e ouviu-se uma respiração abafada.
Aquela fala incompleta, com aquele tom de voz, fez Sofia sentir seu coração apertado.
Pensou em Valéria, mas não disse nada.
Até que Rute contou:
- Meu pai... Meu pai morreu.
Pela surpresa, Sofia se levantou e perguntou em tom de lamento:
- Como foi isso? E sua mãe?
- Foi agora há pouco.
Minha mãe ainda não sabe.
Ele passou mal e foi levado para o hospital Salgado Filho.
Tinha problemas renais e...
Não sei o que faço, Sofia.
Nem sei por onde começar.
- Calma - pediu a amiga.
Onde você está?
- Na minha casa.
- Avisou o Yuri?
- Não. O celular só cai na caixa postal.
Não posso deixar um recado desse, não é?
- Não. Claro que não.
Fique calma. Eu estou indo para aí.
Ao ver a irmã desligar, Hélder se interessou:
- O que foi?
- O pai da minha amiga acabou de falecer.
A mãe não está em casa e o irmão não atende o celular.
Estou indo pra lá. Quer vir comigo?
- Mas eu nem a conheço!
- Conhece sim.
É a Rute, aquela amiga da Valéria.
- Ah! Sei!
Ela sumiu faz tempo.
- Vamos?
- Vamos sim - ele concordou.
* * *
Passaram na casa de Rute e de lá todos foram para o hospital.
Hélder, que já havia ajudado um amigo em situação semelhante, começou a conduzir as primeiras providências, acompanhado por Rute e Sofia.
Do hospital, o corpo seguiria para o velório em um cemitério.
Enquanto isso, eles voltaram para casa.
Precisariam avisar os parentes.
Sofia foi para a cozinha preparar um chá para a amiga, que ficou sentada no sofá da sala.
Rute estava pálida e de cabeça baixa.
Seus cabelos compridos, castanhos e com ondas largas estavam soltos, cobrindo a lateral de sua face que trazia uma expressão de incredulidade.
De repente, ela rompeu o silêncio em uma crise de choro.
Hélder sentou-se ao seu lado e afagou suas costas, sem dizer nada.
Não havia palavras adequadas para aquele momento.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 22, 2017 12:34 pm

O silêncio era o melhor conforto.
Alguns instantes e Sofia chegou com uma xícara de chá sobre uma bandeja e ofereceu à amiga.
Mais recomposta, Rute aceitou, mas ficou olhando para a bebida na xícara em suas mãos.
Nesse momento, Yuri chegou.
Abriu a porta principal da sala e entrou.
Observou em volta e sentiu um clima estranho no ar.
Cauteloso e surpreso com a cena inesperada, colocou as chaves do carro sobre a mesa e foi em direcção de todos.
Com expressão leve, disse:
- Olá...
E aí? Tudo bem?
- Oi, Yuri.
Quase tudo bem - disse Sofia, fixando seu olhar ao dele.
Em seguida, apresentou:
- Este é meu irmão Hélder.
- Olá! Prazer.
Tudo bem? - disse Yuri ao apertarem as mãos quando Hélder se levantou e correspondeu ao cumprimento.
Fitando a irmã, quis saber, pois estava preocupado com o que via:
- E a mãe?
- Foi para a casa do tio e até agora não voltou - respondeu Rute.
O pai... O pai morreu - chorou.
O rapaz respirou fundo, abaixou a cabeça e deu um passo em direcção à Rute, que se levantou.
Abraçaram-se com força envolvidos pelos mesmos sentimentos, pelas mesmas emoções.
Ao seu ouvido, o irmão murmurou enquanto afagava seus cabelos:
- Tá tudo bem. Tá tudo bem...
Não fica assim não.
Ela chorou mais um pouco em seu ombro.
Depois se afastou e se sentou novamente.
O irmão acomodou-se em outro sofá.
Ficando quase de frente para ela, perguntou:
- Quando foi?
Quem foi que avisou?
- Hoje à tarde.
Depois do almoço, a mãe foi para a casa do tio.
Não demorou muito e ligaram do hospital.
O pai telefonou para o resgate e pediu ajuda.
Disse que estava passando mal.
Yuri deu um novo suspiro profundo e pronunciou em tom de lamento:
- Ele, sempre tão orgulhoso e egoísta, nem mesmo, nesse momento, quis pedir ajuda para nós.
Aguardou um minuto e indagou:
- E como estão as coisas?
Precisamos ir para o hospital.
Quais as providências que precisamos tomar?
- O Hélder fez tudo.
Deu até cheques dele para as despesas.
Precisamos acertar com ele e...
Foi interrompida.
- Depois podem cuidar disso - disse Hélder.
Precisamos avisar sua mãe e o resto da família.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 22, 2017 12:34 pm

- Por que não ligou para a mãe, Rute? - indagou o irmão.
- Não sei. Não quis...
Eu não sabia o que fazer e queria avisar você primeiro.
- Deveria ter ligado para ela, pois...
Um barulho de carro e um falatório frente ao portão anunciaram a chegada de dona Leila.
O filho parou de falar e foi espiar através da cortina.
Risos e um gritinho de boa noite foram ouvidos pouco antes de a senhora entrar.
A mulher passou pela porta e, lentamente, fechou o sorriso ao ver todos, ali, bem sérios.
Ponderada e cautelosa, cumprimentou a todos e ficou olhando para a filha, que estava com o rosto vermelho.
Não resistindo, perguntou:
- O que aconteceu por aqui?
Yuri foi ao seu encontro e contou sem muito rodeio:
- Foi o pai, mãe. O pai faleceu.
A senhora abaixou o olhar e procurou se sentar, e ele a conduziu.
Via-se nítida tristeza em seu rosto, que trazia as primeiras marcas do tempo.
Cada um de um lado, os filhos se sentaram ao lado dela, que tomou as mãos de ambos.
Rute recostou-se em um ombro e Yuri no outro.
Silêncio.
Ela cerrou os olhos e murmurou uma prece:
- Deus, nosso Pai.
Cuide com todo amor e bondade do Valnei.
Envolva-o com misericórdia, Senhor.
Permita que os benfeitores espirituais o conduzam ao aprendizado de paz santificante que desperta o ser para os mais nobres sentimentos e entendimentos.
Acenda, em seu coração, a claridade de um entendimento novo para que saiba vencer os obstáculos em Teu nome.
Ensine-o a viver com mansuetude e prudência, convertendo o egoísmo em doação, a vaidade em entendimento, o orgulho em humildade, o ódio em amor.
Que ele possa aspirar a um clima de paz e vivê-la plenamente... - a emoção a fez calar e o silêncio foi absoluto.
Dona Leila respirou fundo, beijou a cabeça de cada um dos filhos ao seu lado e forçou um sorriso em meio às lágrimas, comentando com voz embargada:
- Tenho muito o que agradecer ao Valnei.
Ele possibilitou a vida das mais lindas e belas criaturas de meu mundo: meus filhos...
Sou grata por isso.
Rute se abraçou ainda mais à mãe e chorou.
Yuri envolveu-as em um abraço, unindo os três.
Carinhosa, a mulher afagou os filhos assim que pôde.
Passado um momento, explicaram-lhe sobre o velório.
Decidiram ligar para alguns parentes e conhecidos.
Depois, tomaram um banho e foram para o cemitério.
Poucas pessoas foram ao velório e ao enterro.
Avisada pela filha, Ágata decidiu ir.
Afinal, Rute era a melhor amiga de suas filhas. Conhecia-a bem.
Na segunda-feira de manhã, após o enterro, era hora do almoço quando chegaram a casa de dona Leila.
Visto que todos estavam bem,
Sofia se despediu e foi para o seu apartamento.
Hélder tinha saído do velório de madrugada, precisava trabalhar e não podia ficar ali mais tempo.
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Re: O resgate de uma vida - SCHELLIDA / ELIANA MACHADO COELHO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 22, 2017 12:35 pm

* * *
Era início de noite quando o irmão chegou ao apartamento de Sofia sem avisar.
- Oi, Hélder!
Entra - ela pediu satisfeita ao vê-lo, mas surpresa.
E aí, tudo bem?
Passando pela porta com jeito aflitivo, não respondeu ao cumprimento e foi bem directo:
- Preciso muito falar com você.
- O que foi? - ela se preocupou.
Fechou a porta e o seguiu até à sala.
Sentaram-se no sofá e ele contou:
- Ontem, quase não aguentei.
Eu vi o homem!
- Que homem?
Do que você está falando, Hélder?!
- Acho que estou doente. Muito doente!
- Calma. Organize os pensamentos.
Fale devagar. Que homem você viu?
- Não é sempre que acontece.
Mas... Eu tenho visões. Vejo coisas.
- Vê coisas?!...
Que tipo de coisas?
- Sei lá... Muitas.
Mas não é sempre.
- Como assim? - ela tornou, tentando ficar calma.
Nunca o tinha visto tão alterado.
- Esquizofrenia! Sabe o que é?
É uma doença mental.
Quem a tem, sofre com distúrbios, alucinações.
Eu fui a um médico psiquiatra e ele me passou remédios e...
- Espera! Espera aí! - interrompeu-o.
Que visões são essas?
O irmão esfregou as mãos no rosto e passou-as pelos cabelos num gesto aflitivo.
Suspirou fundo e olhou para cima.
Via-se um nervosismo muito intenso em seu semblante.
Uma inquietação o dominava.
Percebendo-o aflito, Sofia pediu parecendo calma, embora sentisse o coração bater na garganta:
- Fale devagar. Conte o que vê.
Ele suspirou fundo e encarou-a.
Com um travo na voz, contou:
- Eu vejo coisas que ninguém mais vê.
Às vezes, vejo cores que envolvem pessoas.
Essas cores podem ser desde uma névoa esbranquiçada até cores vibrantes ou mesmo escuras.
Vejo luzes. Algumas são miúdas, piscam ou correm uma atrás da outra.
Às vezes, essas luzes são fortes, chegam a me cegar.
E... Eu... vejo pessoas, coisas.
São tão nítidas que parecem que posso tocá-las.
Outras são vistas com imagens fracas, transparentes.
Tem dia que estou bom e não vejo nada.
Existem coisas que vejo e começo a ter sentimentos de medo ou pavor.
E há momentos de tranquilidade e paz, só que esses, nos últimos tempos, estão mais raros.
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