Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 27, 2017 7:48 pm

— Ah! Se pudesse vê-lo — balbuciou.
Mas, empalidecendo, disse hesitante: Sargon!...
Era a primeira vez que, depois da noite de núpcias, proferia o nome do marido.
— Calma-te!
Sargon vive, porém jamais poderá fazer-te mal.
Tu saberás os pormenores mais tarde.
Por enquanto, pensa apenas em coisas agradáveis — disse Roant pegando-lhe a mão.
Tenho boa notícia para te anunciar:
a rainha virá visitar-te brevemente.
Ela é tão boa para contigo quanto Hator, verdadeiramente, e, com semelhante protectora, não se deve temer coisa alguma.
Eu te proporcionarei também uma entrevista com Roma.
Fica tranquila...
E Roant contou todos os sofrimentos que o irmão havia suportado, tudo quanto comprovava grande amor, e notou que, ao mencionar a rainha, como que uma sombra passava pela fronte da convalescente, e, mais do que tudo, que o amoroso tema era o assunto principal para distraí-la seguramente.
Desde esse dia, a convalescença de Neith progrediu rapidamente, e as forças lhe voltavam a olhos vistos.
Amparada por Satati e Roant, reiniciara o caminhar, e, desde a manhã, era conduzida no leito de repouso ao ar livre.
Em uma tarde, quando, depois de intensa canícula, sobreveio agradável frescor, Neith estava no terraço, próximo do rio, no sítio exacto onde Keniamun viera outrora anunciar ao príncipe hiteno a visita da soberana.
Também agora ela aguardava, nesse dia, a visita de Hatasu, e, ao pensamento deste encontro, um sentimento de vergonha, de temor e de remorso contraía-lhe o coração.
A rainha, sem dúvida, pediria contas da sua conduta, exigiria o nome do seu amado, por isso que, decerto, Sargon, para justificar-se, teria dito das razões do ato violento praticado.
E quanto mais nisso pensava, mais se lhe obscurecia o olhar.
Grande mudança se operara na alma de Neith, durante a prolongada enfermidade; os sofrimentos haviam sazonado, desenvolvido sua mentalidade infantil, e a criança se fizera mulher.
Relembrando a terrível noite de noivado, o descomposto semblante de Sargon, que a ferira, espumando e cego de raiva, uma voz recôndita ciciava-lhe ter gravemente pecado contra o desditoso mancebo, que a amava com todas as forças da alma.
Na sua cólera Impotente, ela atirara à face do esposo um insulto e uma abominável mentira.
Sentia-se maculada, ela própria, e, a tal lembrança, afogueado rubor coloriu-lhe o rosto.
Sua alma pertencia ao belo sacerdote, era verdade, mas, o resto fora uma invenção vil, causadora de tão deploráveis consequências.
Que acontecera a Sargon? Ninguém, inclusive a palradora Roant, lhe dissera uma palavra a respeito.
Ela conhecia suficientemente as leis, para bem avaliar qual duro destino o aguardava.
Talvez a rainha lhe dissesse a verdade.
Com um suspiro, Neith passou a mão pela fronte, e procurou afastar os tristes pensamentos, para se concentrar na lembrança de Roma e no seu amor; mas, também nisso não encontrou encanto sem mistura.
Desejava, a toda hora, inebriar-se com a sua voz, com seus olhares amorosos, e, no entanto, ainda não viera uma vez sequer.
Roant transmitia-lhe, é certo, ternos recados e flores; mas, constituíam fugaces alegrias; com amargura, lembrava-se de que Roma não era livre, de que era casado, e somente à semelhança de dois ladrões podiam permutar amor.
Para o seu natural, franco e orgulhoso, a situação falsa transformava-se em tortura, e dor aguda trespassava-lhe o coração, cada vez que pensava no jovem padre de Hator.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 27, 2017 7:48 pm

A entrada de Satati, seguida de Pair e dos dois filhos, deu fim aos devaneios solitários.
Com indiferença afadigada, acompanhou com o olhar os preparativos que se faziam no terraço, supervisionados por Pair, e deixou-se envolver em amplo véu transparente, cobriu os pés com uma pele de leopardo, e olhou a poltrona de cobre lavrado que fora posta junto do seu leito de repouso e que devia ser ocupada pela rainha.
A voz de Pair anunciando que uma embarcação, provavelmente a da soberana, se aproximava, veio interromper uma discussão entre Assa e Beba, e toda a família, precedida de Satati, correu para a escada de desembarque, excepto Neith, que, ainda impossibilitada de andar, continuou onde estava.
Um barco, muito simples, tripulado por duas mulheres e alguns homens, atracou.
A rainha saltou lestamente nos degraus e subiu, seguida de Semnut, da sua comitiva e de dois oficiais.
Com algumas palavras benevolentes, proibiu a Pair e aos seus fizessem as saudações de etiqueta, por não vir ali em carácter oficial.
Desde quando pisou o solo, seus olhos brilhantes procuraram Neith, e, ao se aperceber de que esta tentava erguer-se, determinou, imperiosamente:
Não te levantes, ordeno!
E vós outros — falou, dirigindo-se aos demais circunstantes — retirai-vos para os aposentos próximos.
Tu, Satati, vigia para que nenhum ouvido indiscreto fique à escuta.
Compreenderam todos que a rainha tencionava interrogar a sós a esposa de Sargon, e quase instantaneamente saíram do terraço, sem ruído.
Quando o pesado reposteiro desceu à saída de Pair, o último a retirar-se, 'Hatasu aproximou-se vivamente, e atraindo, com os braços, sobre si a trémula Neith, beijou-lhe os pálidos lábios.
— Enfim, pobre filha, te revejo quase restabelecida, e restituída à vida, depois do terrível perigo a que estiveste exposta — disse afectuosamente, enquanto a jovem, desfeita em pranto, pousava os lábios na real mão.
Não, não quero ver lágrimas — prosseguiu, sentando-se e afagando-lhe a fronte.
Não estou aqui para te censurar e sim para falar contigo de coração aberto.
Aquieta-te, pois, e responde-me com a verdade.
Meu coração está aflito, Neith, porque gravíssima acusação pesa sobre ti; mas, seja o que for que hajas feito, confessa-me.
Não tens mãe, Neith.
Pois bem: pensa que sou tua mãe, e diz-me tudo, sem restrições, porque sabes que para contigo encontrarei indulgência e justificativa.
És muito inexperiente.
E talvez por minha culpa não tenha conquistado mais da tua confiança, nem compreendido os diversos sentimentos que agitaram o teu coração de criança que és.
— Ah! Tua bondade comigo sempre foi sem limites — murmurou Neith, com olhar de gratidão.
Eu é que estive sempre em falta.
Mas... pergunta, minha real benfeitora, e desvendar-te-ei o fundo da minha alma.
A rainha apertou a mão que retinha entre as suas.
— Sabes tu o que é feito do desgraçado insensato que, em hora nefasta, te feriu?
Está preso, e sua condenação à morte é iminente, porque a lei assim pune mesmo um egípcio assassino, e é triplicemente severa para o estrangeiro, para o infortunado prisioneiro que tinha por sustentáculo a minha proteção e que ousou ferir uma nobre filha do Egipto.
Mas, é verdade, Neith, o que me respondeu para justificar o inaudito crime, e o que também respondeu aos juízes:
que sua mulher, desaparecida durante a festa e vinda não se sabe de onde, declarou abertamente ter saído dos braços de um homem ao qual pertencia de corpo e alma?
Lívida qual espectro, olhos imensamente dilatados, Neith escutara.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 27, 2017 7:48 pm

Às últimas palavras da rainha, um fluxo de sangue lhe avermelhou o rosto, que escondeu com as mãos.
— Não, não; isso não é verdade, não me creias assim tão impura, divina filha de Rá, e não me desprezes pela abominável mentira que disse a Sargon, no intuito de feri-lo.
— Sempre julguei assim.
Confessa-me, pobre criança, o motivo de tal mentira — disse a rainha com a mesma bondade.
Em voz baixa e entrecortada, Neith narrou à protectora a história dos seus ingénuos amores com Keniamun, depois com Roma; a fatalidade que a separava do jovem sacerdote de Hator, casado com a perversa Noferura, e por fim a sua terna mas inocente entrevista no dia das núpcias.
— Não compreendo, eu própria — disse, finalizando a narrativa —, como pude chegar a proferir falsidade tão ultrajante para mim; mas, alguma coisa no olhar e no tom de voz de Sargon me revoltou, e, então, na minha cólera cega, atirei-lhe em rosto a ofensa, e tive o merecido por haver tão imprudentemente açulado o seu furor.
— Sim, minha filha, Sargon acreditou ser atingido nos direitos mais sagrados, e, em tais momentos, todo homem que ama é mais terrível do que um tigre faminto, errante no deserto.
Que a dura lição te sirva para o futuro.
És bela, e já despertaste amor em mais de um coração; sê prudente, pois, e não jogues com a paixão de um homem, usando palavras tão desarrazoadas, que destruíram teu desditoso marido, o qual, mesmo conseguindo salvar-lhe a vida, será condenado às minas e aos estaleiros; e isto basta para compreenderes o erro afrontoso que cometeste com Sargon.
— Oh! Não desejava isso — murmurou Neith, trémula.
Temerosa de complicações com o estado da convalescente, depois de tais emoções, a rainha enxugou-lhe as lágrimas, e disse, em tom encorajador:
— Tranquiliza-te, minha filha, se me amas e confias na tua rainha, para reparação da tua imprudência.
Grande alegria foi para mim saber que és pura e inocente, e Sargon paga a violência e louca cegueira.
Agora vou dizer-te o que poderá calmar teus remorsos.
A tua confissão diminui a culpa de Sargon, e providenciarei para que seja enviado às minas; lá dispensar-lhe-ão condescendência, e, com o tempo, eu o indultarei e lhe restituirei os bens.
Então, Neith, será chegado o momento em que poderás reparar o terrível mal causado a esse inditoso homem, quando lhe acicataste a justa cólera.
Pensa nisso, e busca mudar em amizade o amor que te inspira o moço de Hator; ele é casado, e um amor manchado por um duplo adultério não pode trazer ventura.
Sei que é áspera a luta para vencer o coração, mas, crê, o sentimento do dever cumprido é também felicidade e nos assegura a bênção dos deuses.
Faces inundadas de pranto, Neith beijou, fervorosa, as mãos da rainha.
— Farei tudo para que fiques contente comigo.
Apenas, perdoa-me.
— Tudo está perdoado e esquecido, tranquiliza-te; não quero que chores mais.
E vais ter uma surpresa: sabes o que te trouxe de palácio?
Meu cão branco, que nunca deixavas de acariciar.
Faço-te presente dele.
— Com o colar? — perguntou impensadamente Neith, cujos olhos brilharam de imediato.
Depois, reflectindo, enrubesceu.
— Com o colar, é claro.
Dentro em pouco, Semnut trará o animalzinho — respondeu Hatasu, que sorrira à ingénua indagação.
E agora, adeus!
Preciso regressar ao palácio.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 27, 2017 7:48 pm

Neith ergueu para ela suplicante olhar.
— Eu... eu desejava fazer-te uma rogativa.
— Pala, minha filha.
Que posso fazer por ti? — disse, sentando-se novamente.
— Quisera ficar sozinha neste palácio, que me pertence por tua generosidade — disse, com hesitação.
A família que traficou comigo e deu em penhor a múmia de meu pai é-me desagradável; demonstraram tão pouco afecto e respeito pela memória do defunto, tanta indiferença pela minha felicidade, que nem Pair, nem Mena, nem mesmo Satati me inspiram confiança.
Sem eles sentir-me-ei mais livre, e minha saúde melhorará de dia para dia; quero eu própria gerir meus haveres.
Tu conheces, grande rainha, as prodigalidades dos meus parentes...
Se ficar à sua mercê, poderiam arruinar-me novamente.
Hatasu baixou a fronte e levantou-se.
— Teu desejo é justo e sábio, Neith, e será satisfeito imediatamente.
Beijou a fronte da jovem e saiu do terraço.
Ao fundo da sala contígua, estavam reunidos o séquito e os donos da casa, aguardando as ordens da soberana.
— Voltai para o terraço, menos Pair a quem preciso falar — determinou ela.
Tu, Semnut, leva a Neith o presente que lhe trouxe. Mas, onde está o animal?
— Ei-lo — respondeu um dos oficiais, tirando de sob a capa um encantador galgo branco de focinho afilado, cujo pescoço flexível estava ornado de uma coleira de ouro, de duas voltas, incrustada de pedrarias multicores.
A rainha sentou-se numa cadeira de marfim, e, vendo-se a sós com o chefe das equipagens, perguntou, fixando-o com ares escrutadores:
— Quem se incumbe, desde a ausência de Sargon da administração dos seus domínios, rebanhos, vinho dos, etc.?
— Eu, grande filha de Rá, encarreguei-me da gestão desses bens.
— Lamento, Pair, não poder deixá-la em tuas mãos.
És o mais próximo parente de Neith, mas... (severo olhar desceu ao semblante empalidecido do perdulário) não tenho a menor confiança em ti e em Mena.
Sob a tutela de dois penhorantes de múmia, qual sois, ela estaria em risco de perder quanto possui.
Vais, pois, entregar tudo nas mãos de Semnut, que escolherá um intendente para administrar os haveres de Neith.
E porque u mm saúde não mais exige cuidados particulares, tu e os teus podeis deixar o palácio de Sargon.
Vossas próprias riquezas necessitam da tua assistência e da de Satati.
Que os deuses abençoem, pois, o regresso ao teu lar.
Quanto a Neith, é meu desejo que se acostume a responder e a zelar pelos seus interesses.
Sem prestar a menor atenção à palidez e a silenciosa estupefacção de Pair, voltou costas e saiu.
O furor de Mena, ao ter conhecimento da ordem da rainha, não teve limite; Satati contentou-se em dizer, com expressão venenosa:
Era de prever.
Quem semeia seu dinheiro na casa das mulheres perdidas colhe desprezo e desconfianças.
Nenhum deles suspeitou que Neith fosse a causadora da expulsão.
Apesar disso, quando, dois dias depois, fizeram a mudança, as despedidas com a convalescente foram gélidas, e até mesmo Satati se mostrou reservada nas visitas a Neith. Esta respirou, aliviada, quando se viu só afinal.
As energias voltavam rapidamente Roant mantinha-lhe fiel convivência, e, certa tarde, trouxe um visitante, cuja presença constituía fluido vital para jovem.
Quando Roma a apertou de encontro ao peito, murmurou em voz velada:
— Neith! Enfim, enfim te revejo!
A alegria trouxe ao rosto de Neith todo o seu frescor, aos olhos todo o viço da saúde.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 27, 2017 7:48 pm

XI - NOVIDADES EM CASA DE TUAÁ

O luto do Egipto havia chegado a seu termo.
Acompanhada de todo o clero, rodeada das maiores honrarias religiosas, a múmia de Tutmés II fora trasladada para o túmulo construído por Hatasu e depositada na câmara sepulcral, cavada na rocha, onde deviam repousar um dia os despojos mortais da esposa e irmã do rei.
No dia seguinte ao da grave cerimónia, a rainha tinha vindo, cercada de inusitada pompa, ao templo de Amon-Rá para sacrificar aos deuses.
Depois, regressando a palácio, aparecera a uma janela, paramentada com todos os ornamentos realengos, e falara ao povo que, em massa compacta, ocupava a praça e ruas adjacentes.
Em breves palavras, porém dignas e enérgicas, a rainha declarara que, apesar da amargura causada pelo decesso do real esposo; sem embargo do duplo fardo que suportava sobre os ombros, dirigindo sozinha o Governo que partilhara com o finado monarca; esperava firmemente ver o Egipto prosperar sob seu reinado, em glória e riqueza, e desejava conduzir o povo à vitória, seguindo o exemplo de seu divino progenitor, o grande Tutmés I.
Aclamações frenéticas acolheram esse discurso, e, mesmo depois de se haver a rainha recolhido aos seus aposentos, os gritos, votos de ventura e clamores de júbilo ainda atroavam os ares, qual furacão de entusiasmos.
Afinal, a barulhenta e tumultuariamente agitada massa popular escoou pelas ruas da antiga Capital.
À noite desse dia cheio de emoções, uma pequena sociedade se encontrava reunida na casa de Tuaá Não se tratava de uma daquelas festas brilhantes e frequentadíssimas, à custa das quais a viúva se tornara celebrizada em Tebas; o tempo fora escasso para os preparativos, porque poucos dias antes havia ela regressado do Mênfis, onde se demorara seis semanas, tratando de uma sucessão.
Quanto a Nefert, preenchera o tedioso prazo do luto nacional, que impedia qualquer festa ou divertimento, em visita a uma parenta domiciliada em Heliópolis.
Logo que se sentiram algo refeitas das fadigas da viagem, mãe e filha, ávidas de notícias e mexericos da corte e da cidade, convidaram alguns íntimos.
Uma dezena de homens e mulheres, entre as quais se contavam Mena, Noferura e Keniamun, estava reunida no terraço, ornamentado de flores.
Vasta mesa atulhada de carnes frias, vinhos e frutas fora posta ao centro dos convivas, que se serviram à larga.
Os escravos haviam sido afastados, para que as conversações fossem inteiramente à vontade.
No extremo da mesa sentava-se Tuaá, vestindo de amarelo franjado do púrpura, cabelos tingidos e atafulhados de jóias, faces pintadas, falando, estridente e em requebros, com um velho militar, comandante da guarnição de Tebas, que a lenda acusava de haver sido o primeiro a fazer cair em tentação a virtuosa Tuaá, então jovem e formosa mulher, pouco enamorada de um rico e vilão marido.
Do lado oposto, junto de Mena, Nefert retorcia-se preguiçosamente no espaldar da cadeira, mastigando um bolo, e dando medíocre atenção, quer às olhadelas, quer aos olhares fogosos do vizinho.
Era uma bela criatura, formas voluptuosas e admiráveis, à qual o contraste da tez bistre, com cabelos fortemente avermelhados, dava um tom muito original.
Trajava uma sala tufada, verde e branca, e uma espécie de camisa de mangas curtas, de tecido transparente, merecedor do nome de "fios de ar”, não lhe escondendo nada dos encantos; pescoço, braços e tornozelos atestados de jóias.
Haviam sido tratados a fundo o discurso de Hatasu e os funerais do rei; tinha-se pairado da riqueza do barco funerário, do esplendor das cerimónias religiosas e da afluência enorme de padres à consagração do novo túmulo.
— O desfile foi verdadeiramente sem fim — comentou uma das mulheres —, como nunca pensei ver.
E os padres tanto trovejaram contra o monumento, sem dúvida um pouco estranho!
E agora acudiram em massa para benzê-lo e nele sepultar Tutmés II.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 28, 2017 10:23 pm

— Se isso te admira, Herneka, és bem ingénua — disse a rir um moço, oficial —, porque prova que o querer e o poder são “dois” e, uma vez que cederam, ocultaram o fracasso sofrido e mostraram um excesso de zelo.
Oh! Hatasu é mulher que sabe querer e, o que é mais, impor as suas decisões.
Suponho que Tutmés III esperará algum tempo antes de trocar o exílio de Bouto pela metade do trono!
— Também creio — intercalou Nefert.
O Grande Sacerdote de Amon parece haver arrefecido depois que a rainha lhe concedeu o favor do beija-pé.
— E não se deve deixar de fazer uso de tal honraria, sempre que se ofereça ocasião para tal — agregou a sorrir o comandante de Tebas.
— Sempre a rainha é tão bondosa quanto enérgica e fiel àqueles a quem protege; ela salvou a vida de Sargon, apesar de tudo, e mandaram-no apenas aos estaleiros — disse Keniamun.
— Sim, para isso também o pezinho contribuiu — comentou, maligno, o velho oficial.
O hiteno salvou a vida, apesar do crime, inominável para um estrangeiro, e foi condenado não aos estaleiros, e sim às minas, de onde regressará indultado e mais glorioso do que nunca, pode jurar-se.
Amanhã, com outros sentenciados, partirá para a Etiópia; a coluna já devia estar em caminho, mas, para que os oficiais e soldados da escolta pudessem assistir aos funerais, foi adiada a partida.
— Eis um caso extraordinário, cujo fundo verdadeiro desejaria conhecer — exclamou Tuaá.
Pobre Sargon!
Eu o lamento, apesar de tudo; era um belo rapaz, e tão delicado...
E ter de Ir para os estaleiros...
É horrível! Mas, que motivos tê-lo-iam levado ao crime?
Sabemos todos que não se mata a mulher, horas depois do casamento, por qualquer bagatela.
— Estou convencida de que houve infidelidade no caso, e que a bela protegida do nosso Faraó não 6 tão inocente quanto se mostra — chacoteou Noferura.
Tais descobertas tornam os homens como que danados.
— Noferura o sabe por experiência — intercalou maldosamente Keniamun.
Para mim, creio firmemente, houve apenas entre ambos um mal-entendido.
— Hum! Terrível mal-entendido — disse Tuaá, meneando a cabeça.
Vamos, Mena, fala, elucida-nos sobre a realidade. Deves saber a verdade sobre tua irmã.
O Interpelado empertigou-se com gravidade.
— É mistério impenetrável, conhecido exclusivamente pela rainha e pelo Grande Sacerdote de Amon...
E... quanto às minhas conjecturas, não me considero com direito de divulgá-las.
— Deixa-o, mãe, pois bem sabes que Mena adora o mistério, e, para discrição, não tem rival.
Recorda como guardou o segredo de Chnumhotep, antes do noivado de Roant — disse displicentemente Nefert, fitando, com ironia motejadora, o rosto subitamente corado do oficial.
Olhos girando nas órbitas, lábios trémulos de raiva, porque as gargalhadas provocadas pelo remoque de Nefert o exasperaram, Mena preparava enérgica resposta, quando Tuaá, desejosa de evitar incidentes, disse, com autoridade:
— Basta de falar neste caso e nas demais histórias de Tebas.
Deixai, meus amigos, contar-vos, a meu turno, uma coisa assaz interessante, que ouvi cm Mênfis e que concerne ao príncipe Horemseb, parente da família real e que conheceis, ao menos de nome.
— Horemseb, o filho da bela Anaitis? perguntou o velho comandante.
Que faz ele em Mênfis?
Há bem mais de um lustro que não aparece na corte, e está completamente esquecido.
Já em sua última estada, papagueava-se de diversas bizarrias do seu carácter.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 28, 2017 10:24 pm

Deve orçar por vinte e sete de idade.
— Oh! É um homem de todo extraordinário, e sua vida um mistério que interessa toda a gente em Mênfis — exclamou Tuaá, com animação.
Quero exactamente repetir o que ouvi, a esse propósito.
Há quase um decénio, começou, após a morte do genitor, a adquirir todos os terrenos e jardins circunvizinhos de seu palácio, principalmente à margem do Nilo.
Segundo se diz, tão imenso espaço foi transformado em um único jardim, provido de dois lagos; tanto quanto pode o olhar abranger, percebe-se como que uma floresta de palmeiras, sicómoros, uma verdadeira confusão de verdura.
O todo é cercado por um muro muito alto, com duas saídas conhecidas, sendo uma para a cidade e outra para o rio, servida esta por escada ladeada de esfinges.
Ao lado da escada, existe uma espécie de abrigo de pedra que comunica também com o interior e onde se acha uma barca à qual vou referir-me dentro em pouco.
Durante o dia, absoluto silêncio parece reinar na habitação, lembrando uma fortaleza adormecida, e o próprio Horemseb não aparece.
Outrora, era visto pelo menos três ou quatro vezes por ano, na ocasião das grandes festas religiosas, ou para oferecer sacrifícios sobre a sepultura do pai; mas, desde há ano e meio, negligenciou mesmo estes deveres, e só à noite pode ser avistado, quando passeia no Nilo, em uma embarcação, verdadeira maravilha, e de tal riqueza, que excede a da usada no transporte de Hatasu.
Imaginai, meus amigos, um barco muito grande, inteiramente dourado, com os rebordos guarnecidos de uma faixa de marfim Incrustada de pedrarias, fazendo o efeito de precioso colar posto em redor; a proa representa uma esfinge alada, que parece fundida em ouro e prata maciça, e cuja cabeça é provavelmente oca, porque as órbitas dos olhos aparentam emitir clarões vermelhos, provavelmente de lanternas.
Dois grandes faróis vão acesos atrás da embarcação.
No interior, o navio é forrado de preciosos estofos e, sob um pálio, Horemseb em pessoa se reclina sobre almofadas, e seu olhar trespassa qual flama aqueles que cruzam com a sua barca, movida por oito remadores, surdos-mudos, segundo se diz.
— Tu narras como se houvesses visto tudo Isso exclamou Noferura, que escutara de olhos cintilantes.
— Sem dúvida que vi a barca e o “mágico", conforme é designado em Mênfis — confirmou Tuaá, com satisfação.
E confesso também que não foi sem alguma dificuldade.
Então, narra tudo com pormenores — exigiram várias vozes, porque todos haviam acompanhado curiosamente a descrição da viúva, aliás lisonjeada pelo Interesse que despertara.
— Visto assim o desejardes, meus amigos, vou relatar, com os detalhes, o quanto observei e ouvi — aquiesceu Tuaá, sorrindo.
Para isso, porém, tenho do começar de um pouco mais longe.
Sabeis todos que tive de partir inopinadamente para Mênfis, onde a morte de um irmão e as formalidades da consequente herança reclamavam a minha presença.
Foi um processo complicado, no qual tive de lutar contra a má vontade de vários primos, e, nos primeiros tempos, esses embaraços absorveram-me totalmente a atenção, a boa Noferura dera-me uma carta de recomendação a um seu parente, sob cujo tecto reside a irmã, Neftis, mais nova, e o excelente homem foi para mim grande esteio e valioso conselheiro.
Por seu intermédio, fiz conhecimento com alto funcionário, o nobre Psametich, cuja proteção me ajudou a tudo liquidar rapidamente, e com a família do qual me liguei a ponto de ser ali recebida qual próxima parenta.
Certa tarde, cerca de oito dias antes do meu regresso, Psametich e sua consorte convidaram-me a um passeio pelo Nilo, o que aceitei com prazer.
Ao passar junto de um muro imenso, por detrás do qual havia uma floresta de verdura, perguntei que era tal sítio.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 28, 2017 10:24 pm

— “Por detrás desse muro está o palácio do príncipe Horemseb, o “mágico” de Mênfis, conforme o povo o baptizou — respondeu o interrogado, sorrindo.
Essa escada ornada de esfinges, que vês, é uma das saídas da encantada habitação, e só se abre quando Horemseb faz nocturno passeio no rio, e somente então pode ser visto o homem a respeito do qual correm tantas e estranhas histórias.
— “Pedi ao meu amigo narrasse o que sabia, pois, embora tivesse eu própria ouvido algo de misterioso com referência ao príncipe, julgava existir nisso exageros criados pelos mexeriqueiros.
— “É indubitável que se inventam muitas coisas, e se leva à conta de Horemseb tudo quanto acontece de inexplicável em Mênfis, e cuja existência ele mesmo ignora — observou Psametich —, mas o género estranho da vida do príncipe dá lugar a todos esses boatos.
É fora de dúvida existir na habitação um silêncio suspeito durante o dia, e que à noite (dizem) ali se ouvem cantorias e como que um abafado ruído de festas.
O velho Hapzefaá, o homem-procurador do príncipe, vem fazer compras acompanhado de escravos mudos, que só respondem emitindo sons ininteligíveis; compra escravos, sem limite, de preferência surdos-mudos e bem assim meninas de dez e onze de idade, metendo toda essa gente no palácio, sem que jamais reapareça, nem se saiba o que foi feito de qualquer dos seus componentes.
Dessa circunstância têm sido deduzidas enormidades, e, quando, há algum tempo, desapareceu um célebre cantor e harpista, e depois um ourives afamado, e mais um escultor assaz conhecido, e que, apesar dos esforços das autoridades, nenhum traço deles foi encontrado, o rumor público decidiu que haviam desaparecido na casa de Horemseb.
Mas, porque nenhum indício veemente corroborava tais suspeitas, os casos ficaram limitados a suposições apenas.
No ano transacto, sobreveio um fato verdadeiramente estranho e propício a desconfianças: uma escrava, moça, nascida de prisioneira de guerra, devia ser vendida por seu senhor, vítima de aperturas pecuniárias, e Hapzefaá, discreto quanto um túmulo, a adquirira, não constando depois mais nada a seu respeito.
No entanto, por acaso, cujos pormenores desconheço, a dita escrava conseguiu fugir do palácio, e retornou à casa dos antigos senhores.
É fácil conjecturar de que modo foi ela interrogada; com enorme espanto de todos, porém, declarou nunca ter avistado o homem de quem tratavam.
Narrou que, juntamente com muitas outras companheiras, habitava uma construção situada em enorme pátio fechado; que um homem, vestido de branco, costumava vir ensiná-las a cantar e a tocar harpa, e, a algumas, a dançar.
Muitas vezes, à noite, preferencialmente nas de luar, as dançarinas eram vestidas de tecidos ligeiros, enfeitadas de colares e de diademas de ouro, e assim bailavam com jovens, também faustosamente trajados, sobre um tabuleiro de relvas, em redor de tripés, dos quais se evolavam aromas encantadores, ou às bordas de um lago iluminado por tochas, enquanto as cantoras, para execução da sua parte, eram colocadas nas árvores, ocultas pela folhagem.
Mas, com que fim tinham lugar tais cânticos e danças, ignorava.
Do supremo senhor do palácio jamais aperceberam a sombra sequer, e falavam apenas ao velho de branco, que as instruía; os escravos que as serviam eram surdos-mudos.
Calcula-se o interesse despertado pela narrativa; mas, no dia imediato ao da volta ao antigo domicílio, a moça escrava foi encontrada morta.
Qual a causa? Nunca se soube.
“Podeis figurar-vos, meus amigos, a impressão que me produziu a narração de Psametich.
Fervendo de curiosidade, deliberei fazer o impossível para avistar esse homem extraordinário, embora Psametich buscasse dissuadir-me de meus propósitos, por ele classificados de loucura, assegurando-me que Horemseb traz desgraça, e que eu não encontraria remadores que se arriscassem ao “mau-olhado”.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 28, 2017 10:24 pm

Eu estava, porém, resolvida e devotada ao desejo de ir avante.
Quando falei a Neftis, esta fortaleceu meu projecto, e até prometeu acompanhar-me.
Resolvemos então agir em segredo, para evitar falatórios e empecilhos.
Contratei um barco e dois possantes remeiros, sem medo de coisa alguma, os quais asseguraram que, sendo lua cheia, quase certo se tornava encontrar o príncipe, o qual, em plenilúnio, jamais faltava ao seu passeio.
Anoitecendo, embarcamos, Neftis e eu, e seguimos.
Tua irmã, minha cara Noferura, estava cheia de jovialidade, e alindada a encantar.
“Toma cuidado! — disse eu.
Se agradares ao “mágico”, estarás perdida!
“Riu loucamente, dizendo nada temer, e que propositadamente se havia enfeitado assim, para despertar a atenção do príncipe, dando com isso mais facilidade para examiná-lo.
O argumento era valioso, e prosseguimos nosso rumo, alegres, embora com expectativa impaciente.
Súbito, um dos remadores curvou-se e disse:
“Olhai, nobre senhora, ei-lo!
“Ao mesmo tempo, ele e o companheiro agacharam-se, e, abrigados pelas bordas da embarcação, estenderam os dedos indicador e mínimo, no conhecido gesto para neutralizar o “mau-olhado”.
Eu teria achado graça nisso, se não me encontrasse empolgada, pois a misteriosa barca aproximava-se celeremente.
Já os olhos avermelhados da esfinge coloravam as águas de um tom sanguíneo e faziam cintilar as pedrarias do colar que lhe ornamentava o pescoço, e pouco depois o barco do príncipe nos alcançou, raspando quase as bordas do nosso...
Toda a minha alma se concentrou nos olhos, tal o estranho e maravilhoso do que vi.
Sem embargo, minha atenção recaiu no personagem, estirado imóvel sobre almofadas.
Eu já o avistara, em Tebas, havia dois lustros, quando aqui estivera com o genitor, mas, decerto não o reconheceria:
o adolescente, magro e um tanto débil, transmudara-se num homem de beleza surpreendente, de formas admiráveis, extremidades finas, longas, porém atléticas, rosto soberbo, embora de beleza sinistra, olhar coruscante, que dava arrepios.
Vestia curto avental bordado a pedrarias, e trazia gorro ornado na frente de um diadema.
Colar e braceletes, que não tive tempo de minuciar, chispavam no pescoço e nos braços.
Era mudo qual uma estátua, e apenas seus terríveis olhos pareciam viver; mas, eis que de repente um estranho sorriso lhe entreabriu a boca, deixando ver, por entre carminados lábios, dentes rivais de pérolas.
Depois, retirou do cinto uma rosa que estava presa, e a arremessou aos joelhos de Neftis, que, pálida, olhos desmedidamente abertos, no dobrava, totalmente embevecida, a ponto de esquecer-se de apanhar a flor.
Um minuto mais, e a barca havia passado, e ganhado distância, com a rapidez do clarão Só então Neftis tornou a si, exclamando triunfal:
“Olha, Tuaá!
Horemseb atirou-me uma rosa vermelha, mas diferente de todas as nossas rosas, e maravilhosa quanto o é tudo que dele vem.
Que perfume exala! Que será isto? Está toda molhada!
“Curvei-me para a rosa, cujo aroma era em verdade sufocante; não me agradando, porém, os odores agressivos, e devido também à minha emoção, aquele cheiro fez-me mal, e durante muitos dias sofri atordoamento», dores na cabeça e no peito, e senti como que fogo no sangue.”
— Talvez fosse o “mau-olhado” e não a emanação da rosa que assim agitou o teu sangue.
És tão sensível à beleza, Tuaá — intercalou malicioso o comandante.
A viúva aplicou-lhe vigoroso tapa nas costas.
— Estás envelhecendo, Neitotep, e o ciúme contra tudo que é jovem e formoso recende de cada uma de tuas palavras.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 28, 2017 10:24 pm

O mais provável é que o delicado de minha natureza a torne tão impressionável.
Neftis, que cheirava assiduamente a flor, não se queixava de coisa alguma, quando dias depois me despedi, e até me confessou conservar a rosa em lembrança de Horemseb.
Houve risos e discussões ainda por algum tempo a propósito das extravagâncias do “mágico” de Mênfis, e agradecimentos à dona da casa pela interessante história.
Depois, a conversação tomou novos horizontes, até que um novo visitante fez esquecer o primitivo tema.
Algumas horas antes da reunião em casa de Tuaá, Neith e Roant estavam reunidas no aposento particular de Neith, em animada palestra.
A esposa de Sargon parecia completamente restabelecida.
Nessa ocasião, porém, uma vermelhidão febril cobria-lhe as faces e profunda ruga se formara entre as sobrancelhas, além da visível expressão de cólera e de obstinação que brilhava em seus olhos.
— Roma tem ideias muito bizarras, e não compreendo que se aventure a pedir semelhante coisa — disse ela, com os lábios tremendo nervosamente.
É como se exigisse de ti perdão a Mena por haveres amado a Chnumhotep.
Roant passou o braço em torno da cintura de Neith, e, atraindo-a a si, abraçou-a.
Vamos! Calma-te e falemos razoavelmente.
Tua comparação inicialmente não vale nada, porque, escolhendo Chnumhotep, não feri o amor próprio de Mena:
sua liberdade e posição não sofreram.
Sargon está destruído, e o coração generoso e honesto de Roma sofre mil remorsos; a sorte do desgraçado pesa sobre ele como se, pessoalmente, houvesse cometido o crime; sua consciência censura-lhe sem cessar o ter sido causa da terrível ferida, da ruína e do cativeiro de Sargon.
Ontem ainda me disse:
— Os deuses punem sempre, quando nos desviamos do caminho dos deveres.
Se eu permanecesse firme, e houvesse ocultado de Neith o meu culposo amor, não teria ela corrido esse perigo mortal, e o infortunado Sargon evitaria sua terrível sorte.
— Pobre Roma, erroneamente ele se atormenta; eu sou a culpada única; ele não tem mácula pelo meu amor — disse Neith.
Entretanto, admiro-me de que tanto lamente Sargon e se lastime de me haver dado o seu afecto.
Ele chama a isto amar-me? — acrescentou, com imediato despeito.
Eu não previ que Sargon me ferisse na sua raiva; o que lhe disse foi para desembaraçar-me dele, e poupar a Roma um justificado ciúme.
Agora posso estar convencida de que o meu amor é muito maior do que o dele por mim.
— Não; és injusta.
Que te solicita ele?
Ir ver por alguns instantes o inditoso condenado, dizer-lhe algumas palavras de consolação, para apagar de seu coração o horrível e falso pensamento de que pertences a outro.
Amanhã, os condenados partem para os trabalhos forçados, e bem poucos de lá voltarão vivos.
Podes ter coração bastante duro para recusar algumas expressões afectivas ao infortunado que aceitaste para esposo?
Vamos! Sê bondosa, acede à súplica de Roma.
Irei contigo, e depois seguirás para minha casa, onde passaremos u tarde juntas, e com alguém mais que venha agradecer-te calorosamente haver aliviado seu coração de um remorso.
Neith descansou a fronte no ombro da amiga e rompeu em pranto.
— Está bem: irei! — murmurou ela, enfim. Mas, como chegaremos até junto dele?
É permitido ver os condenados?
— Não te inquietes por isso:
hoje há licença, a quantos o desejem, de dizer adeus aos condenados.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 28, 2017 10:24 pm

Por outro lado, Chnumhotep, que está no conhecimento do segredo, deu-me recomendação para o chefe das prisões, o qual é seu amigo, e nos guiará sem dificuldade, sem indagações, deixando-nos a sós.
Protege-te com espesso véu, e eu farei o mesmo; iremos na minha liteira até ao canto, e, de lá, andando até à prisão, incógnitas.
Duas horas mais tarde, ambas, trajando com simplicidade e protegidas por longos véus, apresentaram-se à portaria da prisão privativa dos deportados e a entrada da qual soldados etíopes montavam guarda.
Chamado por um destes, o oficial de serviço velo informar sido que pretendiam as visitantes.
Rápido olhar demonstrou-lhe tratar-se de pessoas de distinção, o, quando Roant lhe deu a ler as tabuinhas escritas que trazia e endereçadas ao comando da prisão, ele as saudou com deferência, e saiu prestamente.
Depois de uma espera que pareceu interminável a ambas, o oficial regressou, convidando-as a segui-lo.
— Vossa solicitação é atendida — disse ele, olhando-as curiosamente.
Atravessado pequeno pátio inicial, cheio de soldados, depois um corredor deserto, estreito e escuro, desembocaram em outro pátio, vasto e rodeado de muros elevadíssimos.
Nesta espécie de tapada, cerca de duzentas criaturas estavam dispersas em grupos, vendo-se homens de correntes presas ao tornozelo ou algemados em pares, sentados ou deitados no chão, tendo em redor mulheres e crianças, membros da família deportada por inteiro.
Tal massa de seres humanos, macilentos, quase nus, espelhava no rosto a expressão de triste desespero ou de apatia vizinha do embrutecimento.
Sentinelas vigilantes, providas de bastões ou relhos, circulavam por entre os grupos, batendo naqueles condenados que lhes pareciam merecer corrigenda, até mesmo nas crianças, quando estas gritavam.
Trémulas e perturbadas, Roant e sua amiga procuraram, com o olhar, Sargon no meio dessa turma de desgraçados, porém, o oficial beirou um dos muros no qual abriam várias portas baixas, e, próximo da última, parou.
Manobrando o ferrolho exterior, deu entrada às duas mulheres em uma célula meio aberta no tecto.
Bem ao fundo, via-se um montão de palha, à guisa de leito, e, ao lado oposto, sobre grande pedra, servindo de assento, um homem, no qual dificilmente se reconheceria o elegante e aprumado príncipe Sargon.
Uma corrente, ligada à parede, estava fixada a um dos pés; um pedaço de tecido grosseiro cingia-lhe os rins; meio voltado de costas para a entrada, pousava a cabeça contra a pedra nua, e não parecia ver nem ouvir.
Petrificada, mãos convulsivamente premidas contra o seio, Neith arrimou-se a Roant, enquanto o oficial se aproximava do prisioneiro.
— Há quem te queira ver, Sargon — avisou, tocando-lhe levemente no ombro.
E voltando-se para Roant:
Deixo-vos com o prisioneiro, nobres senhoras; fico, porém, ao alcance de qualquer chamado, caso necessiteis de mim.
Sargon voltara o rosto e fixava com o olhar sombrio as duas mulheres veladas.
Estava indizivelmente transformado:
faces encovadas; olhos, fundos nas órbitas, fuzilavam semelhantes a carvões acesos; indefinível expressão de amargura, de raiva e de irrisão de si mesmo contraía-lhe a boca.
— Quem sois e que pretendeis de mim? — perguntou brusco.
Neith tirou o véu, e, avançando para ele, mãos postas, disse, com angústia e lágrimas na voz:
— Sargon, perdoa todo o mal que te causei.
Avistando a esposa e ouvindo-lhe a voz, o infortunado homem deu um salto, e quis atirar-se sobre ela; mas, retesado pela corrente, teria tombado, se não houvesse ido de encontro à parede.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 28, 2017 10:25 pm

— Que vieste fazer aqui, traidora?
Rejubilar-te com o meu infortúnio? — rugiu, por entre um rir seco o desesperado.
Achaste um momento para sair dos braços do teu amante e distrair os olhos com a minha impotência e escarnecer de minha humilhação?
Oh! Não estares ao alcance das minhas mãos, criatura depravada, lodo da minha vida e da minha honra, para afogar-te qual serpente venenosa! — concluiu numa raiva súbita, lábios espumando e punhos crispados.
Neith recuou, mãos estendidas; seus lábios, trementes, recusavam-se à fala.
Roant aproximou-se, corajosa.
— Enganas-te, Sargon, supondo que Neith velo zombar de tua desgraça:
o pesar e o remorso guiaram na aqui; o desejo de confessar a verdade e calmar teu justo ressentimento.
— Sim, Sargon — exclamou ela, interrompendo a amiga — vim dizer-te a verdade:
não me deves desprezar, porque não maculei tua honra, não te traí, como te disse então.
Menti indignamente: tua arrogância, tuas duras palavras tornaram-me colérica, e quis ferir-te e distanciar-te de mim, mas, jamais desci tão baixo.
Acredita, Sargon, e perdoa a fatal ira que te arruinou.
Agora compreendo minha terrível falta...
O pranto impediu-a de prosseguir.
O príncipe escutara fremente, olhos concentrados nela, e ante aquele rosto lavado de lágrimas, em face daquele olhar ansioso e cheio de mudas súplicas, reacendeu o apaixonado amor que ela lhe inspirara e um excesso de desgraça adormentara.
— Neith, dizes a verdade? — perguntou em voz quebrantada. Não fui torpemente atraiçoado?
— Não, não!
Por que viria eu ao teu cárcere para mentir?
Foi o remorso que me impeliu a dizer-te a verdade, eu to juro por Hator, pelos juízes de Amenti.
Tal vibração de sinceridade vibrava na voz da esposa, que as dúvidas de Sargon se desvaneceram.
Indizível arrependimento de haver destruído loucamente sua própria vida invadiu-o então, e, recaindo pesadamente sobre a pedra, premiu novamente a cabeça de encontro à parede, enquanto convulsivos soluços lhe sacudiam o corpo.
Por instantes Neith contemplou-o, fremindo qual folha agitada pela brisa.
Que fora feito, em breves semanas, do airoso príncipe hiteno?
Arruinado, degradado, acorrentado, condenado a trabalhos forçados, sob os quais sucumbiam mesmo os mais robustos, voltaria ele vivo?
Merecera tudo isso, em troca do apaixonado amor que votara a ela?
Intolerável remorso segredava a Neith haver pecado horrivelmente em sua leviana cólera, excitando o ciúme e as paixões desse homem até à perdição.
É certo que tal não desejara.
Uma onda de compaixão e de pesar invadiu o impressionável coração da jovem mulher, e, esquecendo o perigo de um inesperado ímpeto de raiva do prisioneiro, precipitou-se para ele, ajoelhou e lhe pousou as pequeninas mãos nos braços.
— Sargon, Sargon, perdoa, e não desesperes do futuro.
O favor de Hatasu é tão imenso quanto o seu poder; ela salvou-te a vida, e disse-me que atenuará tua sorte e, na primeira oportunidade, te indultará, restituindo-te fortuna e posição.
Tem coragem e espera da bondade dos deuses e da rainha...
E quando retornares, então, procurarei reparar todo o mal que te fiz.
A estas palavras, que erguiam aos olhos do prisioneiro um porvir de ventura e amor, rancor e cólera fundiram-se.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 28, 2017 10:25 pm

— Neith! — murmurou, dobrando-se para a esposa, e apertando-lhe febrilmente as mãozinhas — juras esperar-me fiel, e que me retomarás para esposo, se eu voltar algum dia?
Sim, juro — prometeu Neith, com exaltação.
Que Hator, ouvindo meu compromisso, me castigue, se eu faltar a ele.
Um clarão de radiosa alegria jorrou dos olhos de Sargon e iluminou seu emagrecido rosto.
— Que os deuses te bendigam mil vezes por estas palavras, minha adorada Neith.
Tua promessa será meu esteio no trabalho das minas, a brisa de refrigério sob os raios escaldantes do sol do deserto...
Com a lembrança desta hora, terei força, coragem, esperança e resignação.
Com impulso de amor e reconhecimento, atraiu Neith de encontro ao peito e lhe deu apaixonado beijo.
Desta vez, a jovem recebeu sem aversão as carícias; afectuosa piedade trabalhava seu coração, e, sob a influência de tal sentimento, correspondeu-lhe ao beijo, beijo que — ai dele! — pagava por bem alto custo.
Nesse momento, o oficial entreabriu a porta, mas, à vista do estranho grupo, e reconhecendo Neith, retirou-se rapidamente.
Vexada e descontente com a interrupção, Roant aproximou-se vivamente de Neith, fê-la erguer-se e lhe repôs o véu.
Trocadas expressões afectuosas de despedidas, retiraram-se ambas.
O encarcerado ficou a sós, porém não mais cheio de desespero e revolta contra os homens e os Imortais; ventura infinita transbordava em sua alma; a esperança, a enganadora namorada do homem, fez esquecer o presente e lhe encheu a masmorra de radioso quadro de futuro.
Silenciosamente, as duas amigas retomaram a liteira, absorvida cada uma nos seus pensamentos.
Mas, porque as emoções experimentadas excediam as possibilidades de resistência do seu organismo, Neith, ao chegar em casa de Roant, perdeu os sentidos.
Com ternura maternal, Roant dispensou mil cuidados à, convalescente, e, quando tornou a si, fê-la deitar, e só a deixou quando a viu entregue a reparador e tranquilo sono.
Dirigindo-se ao terraço, para repouso ao ar livre, encontrou o irmão, que ali a aguardava.
— E então?... — inquiriu, sentando-se junto da irmã.
Roant narrou com minúcias os esforços despendidos para convencer a amiga de que devia ir ao cárcere de Sargon, e depois as ocorrências da entrevista deste com a esposa.
Ao ouvir quanto à promessa de Neith, sombreou-se a fisionomia do moço sacerdote.
Ergueu-se e caminhou agitado:
ciúme, cólera, pesar lutavam nele, e esse combate de sentimentos no coração espelhava-se-lhe no expressivo rosto.
Mas, bem depressa a alma generosa e pura de Roma triunfou sobre os maus impulsos, e censurou-se por invejar ao desventurado rival uma esperança talvez jamais realizável... e felicitou-se por haver aliviado a sua aflição moral.
— Posso ver Neith? — indagou, voltando para a irmã.
— Está dormindo; porém, não importa, vem!
Um momento depois, Roma curvava-se sobre o leito onde Neith, estendida, dormia profundamente.
E, como se houvesse sentido o fluido do amoroso olhar pousado sobre ela, a jovem estremeceu, e reabriu as pálpebras.
Encontrando o aveludado, carinhoso e apaixonado olhar, que possuía o dom de extinguir todas as tempestades de sua alma, Neith sorriu e ergueu as duas mãos ao jovem sacerdote.
— Fiz o que desejavas, Roma!
— Agiste muito bem — respondeu ele, com força.
— Sabes também (e seus lábios tremeram) que, por assim dizer, renunciei a ti, prometendo receber meu marido, se, indultado por Hatasu, recuperar haveres e hierarquia?
O brilhante olhar de Roma imergiu no de Neith, pleno de amor e convicção:
— Não, Neith, nada nos fará renunciar um ao outro, porque nosso amor, isento de qualquer mácula, é agradável aos deuses e independente dos nossos deveres.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 28, 2017 10:25 pm

Tu permanecerás alegria dos meus olhos, o ser no qual concentro toda a felicidade de minha alma.
Eu, enquanto viver, serei o teu amigo afectuoso, indulgente, fiel, teu conselheiro, teu sustentáculo nas horas aflitas.
Esse laço de afeição desinteressada os direitos de Sargon não poderão cortar.
Quanto à tua promessa, só me cabe repetir:
agiste muito bem.
O matrimónio é coisa sagrada, e teu dever manda reparares, na medida de tuas forças, o terrível mal causado a teu esposo.
A mim, que fui involuntária causa da desgraça, incumbe o dever de te amparar nas boas e generosas resoluções.
Com lágrimas nos olhos, Neith passou o braço pelo pescoço do jovem e comprimiu a fronte contra o seu peito.
Tu, sim, és generoso e bom qual um deus; enquanto me amares e servires de guia, serei feliz e cheia de coragem.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 28, 2017 10:25 pm

XII - EM BOUTO

Em uma planície baixa e pantanosa, bastante distanciada de outros centros habitados e dificilmente acessível por motivo dos maus caminhos, estava situada a cidade de Bouto, região de exílio para as personagens incómodas, de refúgio para os desejosos de fugir à notoriedade, e, ao tempo, residência do jovem irmão da rainha Hatasu.
À época de nossa narrativa, a cidade era pouco extensa, cercada de muro e fosso, com aspecto de praça forte.
Ao centro, sobre montículo artificial, elevava-se um palacete, construído de madeira e tijolos.
Os dois pavimentos da habitação, pintada de vermelho berrante, destacavam-se vigorosamente acima da verdura de grande jardim que a rodeava.
Vasto pátio estava cheio de soldados, grupados em torno de um poço, observando os escravos que circulavam em todas as direcções.
Havia sentinelas postadas em todas as saídas, nas escadas e até nas portas de uma vasta sala, ao centro da qual dois homens estavam sentados junto de opípara mesa, servida por numerosos escravos, solícitos em reencher os copos sempre que esvaziados.
Um dos convivas era jovem, de talhe médio, e cuja fisionomia revelava franqueza e energia; mas, seus olhos pardos, calmos e profundos, desferiam por vezes olhadela perscrutadora e cautelosa, demonstrando que, sob a máscara hipócrita, se ocultava muita subtileza, astúcia e ambição.
Tal personagem era Antef, o comandante de Bouto, o fiel instrumento de Semnut, que guindava com desabrida vigilância o precioso e perigoso prisioneiro que lhe estava confiado.
Trazia um simples colar de ouro; larga faca enfiada no cinto, e, sobre tamborete ao alcance da mão, jaziam seu boné, a capa e pequena machadinha com cabo de marfim.
Comendo com excelente apetite, observava disfarçadamente o jovem príncipe banido, que lhe ficava fronteiro, cujo olhar, inteligente e belo, estava sombreado como que por uma nuvem de tempestade.
Profunda ruga marcava-lhe o entre supercílios, e surda irritação se lhe podia divisar nos olhos.
Visivelmente preocupado, cotovelos apoiados na mesa, não se servia dos alimentos postos à sua frente, limitando-se a beber continuadas porções de vinho.
Súbito, empurrou os pratos que lhe estavam próximos, e ergueu-se.
— Manda preparar as montarias, Antef; quero respirar um pouco de ar e distrair-me com um longo passeio — disse em tom breve.
Antef, que lhe imitara o gesto imediatamente, inclinou-se, respeitoso.
— Príncipe, lamento não poder obedecer-te, porque ordem superior, oriunda de Tebas, proíbe-me sair dos muros de Bouto.
Tudo quanto te possa agradar ou divertir, dentro dos limites da cidade, porei sem demora à tua disposição; para além disso, porém, nada posso.
Lamento despertar tua cólera, mas, diante de uma ordem real, compreenderás que um subalterno da minha condição tem de obedecer, sob pena de arriscar doidamente a própria cabeça.
Sombreou-se o semblante de Tutmés; fuzilaram seus olhos.
Dominando com esforço a raiva e o tremor dos lábios, disse, desdenhoso:
— Que Rá me preserve arriscar tua cabeça, tão preciosa para a minha divina irmã e para o miserável escravo que ela tirou do lodo para dele fazer seu conselheiro.
Preparem minha liteira, para eu ir ao templo ordenou a um escravo.
Depois, voltando costas a Antef, penetrou num aposento contíguo.
Sufocava, e, ficando a sós, entregou-se a um desvairado acesso de fúria, sapateando e rangendo os dentes.
-— Sorte maldita — disse a si mesmo, atirando-se numa cadeira —, saber que o trono está vago, e apodrecer aqui, prisioneiro, enquanto uma simples “mulher” empunha o ceptro!
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 28, 2017 10:25 pm

Mas, espera! (e crispou os punhos fechados)
Quando subir ao poder, eu te arrasarei Hatasu, a ti e aos teus fiéis servidores, como se faz com as víboras!
A entrada de velho escravo etíope, que lhe trazia uma capa e o gorro, fez que se refizesse de atitude.
Silencioso, vestiu-se e desceu ao pátio, onde o aguardava Antef, em uniforme de serviço, e uma liteira aberta, sustentada aos ombros de seis vigorosos homens.
Quando o príncipe tomou lugar, o oficial sentou-se a seu lado, e o pequeno cortejo andou, rodeado e seguido de um destacamento de soldados, precedendo-o batedores que abriam caminho à liteira, visto que a turba aumentava a todo instante.
A população da pequena cidade abandonava o trabalho para olhar curiosamente o banido príncipe.
Sombrio e mudo, Tutmés não descerrou a boca em todo o trajecto, e apenas o nervoso tremor dos lábios comprovava que o íntimo vendaval continuava desencadeado nele.
Quando chegaram ao templo, o Sumo Sacerdote, avisado por um dos batedores, recebeu, acompanhado de alguns profetas, o ilustre visitante, à entrada.
— Sede bem-vindo na casa do deus — disse, cumprimentando-o.
— Eu te saúdo, venerável padre — respondeu Tutmés, saltando da liteira.
Quero sacrificar ao deus, e espero (voltou-se para Antef, medindo-o com olhar de irónico desprezo) que a ordem suprema, vinda de Tebas, não ordene levares aos teus soberanos as preces que eu, aqui, enderece aos Imortais.
Ligeiro rubor coloriu as faces do comandante de Bouto.
— Tenho apenas um soberano — respondeu —, o Faraó Rá-Ma-Ka, que os deuses conservem e cubram de glória!
E se a ordem recebida a teu respeito não prescreve sejam ditas ao alcance de meus ouvidos, exige que a tua pessoa, mesmo no templo, fique sob minha vista.
E, com imperturbável calma, seguiu Tutmés e os padres até uma sala que precedia o santuário, onde lhe era vedado penetrar, e aí se encostou a uma coluna.
Estava seguríssimo de que o prisioneiro não fugiria, por isso que soldados haviam cercado o templo e impedido todas as saídas.
Quando ficou, enfim, fora das vistas do seu guardião, Tutmés sentou-se na mais próxima cadeira, e comprimiu o peito com ambas as mãos.
A ira insensata que lhe fervia no coração tirava-lhe toda presença de espírito e domínio sobre si mesmo.
Por um momento, o Sumo Sacerdote o contemplou, com interesse e compaixão.
Era um homem já idoso, de aspecto ascético, olhar penetrante e espiritual.
Passando a mão sobre a espádua do jovem, disse, em voz baixa e persuasiva:
— Coragem, meu filho; paciência, perseverança e império sobre ti mesmo, são três grandes virtudes indispensáveis aos reis.
Ocupa o teu infortúnio actual em adquiri-las.
De resto, não tens motivo para desesperar; amigos devotados velam por teus interesses e trabalham activamente para a reconquista do lugar que te cabe; os astros te predizem um glorioso reinado...
És adolescente ainda, pleno de saúde e de energias; olha o teu porvir confiante, e segue com submissão o caminho que te está traçado pelos Imortais!
Tutmés suspirou fundamente.
— Cada uma de tuas palavras, venerável padre, respira sabedoria e verdade; mas, a paciência e a submissão são tão difíceis de adquirir!...
— Quanto mais custoso, mais louvável e meritório contestou o padre com um sorriso.
E agora ergue n cabeça, meu filho, porque vais ouvir notícias do Tebas.
O mensageiro que nos anunciou a morte do Faraó teu irmão, e que havia retornado com a tua mensagem para Ranseneb, regressou esta noite.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 28, 2017 10:26 pm

Vieste, pois, muito a propósito hoje:
quero apresentar-te esse homem que uma estranha fatalidade ligou ao nosso partido e que te será fiel servidor, porque detesta a rainha e é seu inimigo pessoal.
— Por que motivo? — perguntou Tutmés, com interesse.
— Dar-te-ei pormenores em outra ocasião.
Em resumo: é um homem de grande nobreza, chamado Hartatef, que ocupava elevado posto.
Impelido por abominável trama a inaudito crime, deveria morrer, porém, "nós” o ocultamos e salvamos.
E porque a rainha lhe haja tomado a noiva e os haveres, para transferi-los ao rival, ele a odeia mortalmente, e por isso nos serve com uma actividade e uma destreza acima de todo o louvor.
Escriba do templo, circula livremente entre Tebas e Bouto, faz compras e conduz mensagens sem despertar suspeitas dos espiões reais.
— Chama, eu te peço, esse homem, pelo qual tão vivo interesse me inspiraste.
O Sumo Sacerdote abriu uma porta encoberta na parede, e disse algumas palavras a meia voz.
Logo em seguida, foi de novo aberta a porta, e um homem de alto talhe entrou e se deteve, depois de saudar.
Trazia as vestes de escriba e, na cabeça, grossa e enorme cabeleira que lhe escondia a testa; sua tez era quase negra, qual a de um etíope, e seus olhos, pequenos, acerados, brilhavam com sombrio fulgor.
— Aproxima-te, Ameni — disse o padre em voz baixa — e repete ao príncipe o que viste e ouviste em Tebas.
O recém-vindo inclinou-se, e sucintamente, ainda que sem omitir detalhes importantes, narrou todos os acontecimentos sobrevindos, as providências adoptadas pela soberana, os funerais do Faraó, a consagração do novo monumento funerário, e por fim o discurso de Hatasu feito ao povo, quando de regresso da solene procissão ao templo.
— Vede só, esta boa Hatasu! Quer carregar sozinha sobre os ombros o duplo peso do governo — disse Tutmés, com risinho motejador.
Tratarei, o mais depressa possível, de repartir com ela o fardo muito pesado para a sua frágil constituição. Por Osíris e Rá!
É verdadeiramente um milagre para os deuses e um mistério para os homens que esse Faraó de saias, que não reconhece no mundo outra vontade além da sua, dobre a altiva nobreza do Egipto, sob a direcção de um miserável aldeão da laia de Semnut, e curve ao seu poderio a possante classe dos padres, levando-os a consagrar um monumento que desaprovaram e que constitui verdadeiro escárnio a todas as leis sagradas.
O Sumo Sacerdote enrubesceu fortemente, suas sobrancelhas franziram.
— É verdade que a rainha governa e manda com uma audácia e orgulho extraordinários, e por muitas razões, e no interesse mesmo da tua causa, o clero teve de ceder momentaneamente e consagrar o ímpio monumento, que é ultraje aos deuses, qual o é qualquer inovação.
Os padres dobraram-se, como dizes, porém, sem aprovar, nem esquecer o que é repreensível.
E fica sabendo, meu filho, que um trono só é sólido quando sustentado pelos servidores dos deuses, e que o orgulho e a falta de consideração para com esses representantes da divindade destroem um rei mais do que uma batalha perdida.
— Se algum dia chegar ao trono, recordarei tuas palavras — exclamou Tutmés, com o olhar brilhando.
Aos deuses e aos seus servidores renderei as honras a que têm jus; partilharei com eles os frutos de cada vitória, e, quanto mais me engrandecer e tornar poderoso, mais valiosos serão os monumentos que erguerei para imortalizar a minha glória e o meu agradecimento aos Imortais.
— Eles te ouvem, e darão ao teu reinado glória imperecível.
Um deus me inspira e me confirma o que predizem os astros: Tutmés III, Tutmés — o Grande, eclipsará todos os Faraós que reinaram no Egipto.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 28, 2017 10:26 pm

Durante muito tempo, até aos confins da velhice, a dupla coroa cingirá tua fronte: conduzirás teus soldados de vitória em vitória, e o mundo conquistado porá tesouros a teus pés e os reis sob tuas sandálias.
Exaltação profética parecia haver empolgado o sacerdote.
Mãos estendidas para o príncipe, rosto incendido, o olhar extático, parecia mergulhar nas profundezas ignotas do porvir.
Com emoção e temor supersticioso, Tutmés havia escutado essas palavras pronunciadas em voz vibrante e convencida, e calmo contentamento, inquebrantável fé em futuro de grandeza e poderio transbordou seu jovem coração.
Nesse momento sentia-se forte, paciente, tolerante.
— Possam tuas palavras confirmar-se, e tudo que prometi ser centuplicado — disse com olhar faiscante e estendendo ambas as mãos ao sacerdote.
Agora, adeus!
Não quero permanecer demasiado tempo aqui; mas, regresso calmo e consolado.
Tu, Ameni, continua servindo-me com zelo e prudência; saberei, logo que conquiste o posto que me é devido, vingar os ultrajes que sofreste e restituir-te a mulher tua amada.
— Velarei e trabalharei por ti, príncipe, igual a um cão fiel, eu o juro pela minha sede de vingança! respondeu o escriba, com uma curvatura.
Quando Tutmés subiu à liteira, Antef assinalou, surpreso, a expressão de contentamento, de orgulho e de triunfo, espelhada na fisionomia do exilado.
Em vão deu tratos ao intelecto para adivinhar as causas de tal mudança, até mesmo se os padres lhe haviam transmitido alguns detalhes dos funerais do Faraó, quanto ao triunfo retumbante de Hatasu e sua vitória sobre os padres na questão do túmulo, no que teria ele bem precários motivos para satisfação.
Reentrando em casa, Tutmés reteve o seu guardião, e, sob pretexto de palestrar, divertiu-se em criticar, de maneira mordaz, a rainha, sua predilecção pelos estrangeiros, suas ímpias inovações, enfim, a escolha de seus conselheiros e servidores, os quais em vez de serem, de acordo com o costume, membros da primeira nobreza do Egipto, recrutavam-se entre a gente da mais baixa origem.
Antef compreendeu perfeitamente que o príncipe procurava feri-lo, denegrindo sua humilde origem e seu parentesco com Semnut.
Apesar disso, suportou esses ataques sem pestanejar, não se desviando, por um instante sequer, da respeitosa reserva que julgava dever ao ilustre banido.
Constatando que suas perversidades produziam tão escasso efeito no ânimo do governador de Bouto, e não conseguiam fazê-lo perder a calma, Tutmés calou e dirigiu um olhar perquiridor e pensativo ao rosto pálido, porém impassível, do moço oficial.
— Em verdade — pensou o príncipe — este rapaz é mais hábil do que eu julgava; contraria-me o menos possível; nunca me faz sentir que o senhor aqui é ele; e não responde aos meus ataques.
Será que, no recesso da alma, crê consigam os padres colocar-me no trono, e teme que eu, atingindo o poder, lhe faça pagar caro as insolências passadas?
De facto, se assim acontecesse, o pobre comandante de Bouto ficaria em difícil situação ante seu Faraó.
De natural cáustico e chasqueador, Tutmés achou extremamente cómica esta última hipótese, de tal modo, que desatou em gargalhadas, que aumentaram ao ver o ar embasbacado do seu companheiro.
De repente, ergueu-se e assestou vigorosa e amigável palmada nas costas de Antef.
— Tu és, de fato, um rapaz notável — disse, ainda rindo — e sabes sair, com admiração minha, da difícil missão que te incumbe.
Verdade! Quisera ter tua santa calma, porque compreendo que tua posição entre mim e minha divina irmã é pouco invejável.
— Se compreendes isso, príncipe, por que não me mostras a generosidade que deve ser o apanágio de rol para um soldado fiel à sua senha? — respondeu Antef, com leve tom de censura.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 28, 2017 10:26 pm

— Tens razão, e errei fazendo-te vítima do meu mau humor — contestou o príncipe com um trejeito.
Mas, se desejasses compreender que eu estouro de tédio; se ao menos me aproximasses alguma jovem para distrair-me, a vida seria mais suportável.
Não amas nenhuma, tu?
— Amo e sou amado, príncipe — disse Antef, sorrindo.
Tenho em Mênfis uma noiva que espero desposar no ano vindouro.
— É bela e de boa família e rica?
— Chama-se Neftis, tem catorze de idade, e é, para meu gosto, de admirável formosura.
Vive em Mênfis, na casa de um parente materno, muito rico e sem filhos; mas a sua beleza vale mais do que a riqueza — acrescentou, com orgulho.
— Tudo isso é muito belo, Antef, e almejo sejas feliz dentro em breve nos braços da tua Neftis; mas, “eu” não tenho proveito algum, suspirou.
Eu te rogo:
consegue-me uma jovem bela; é o meio único de me conservar o bom humor.
Antef riu.
— Tenho uma ideia, que tratarei de pôr em execução...
Dará resultado? Não sei!
— Silêncio, silêncio, Antef.
Uma pequena aventura de amor, conhecida de nós dois, não a saberá o trono do Faraó Hatasu, que os deuses conservem e cubram de glória! — exclamou Tutmés, a rir.
E agora vamos ao jardim; jogaremos a bola — acrescentou, encaminhando-se para a escada, alegre e descuidado qual um escolar em férias!
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 28, 2017 10:26 pm

Segunda Parte - O Bruxo de Mênfis

I
- A ROSA VERMELHA
A alma é uma luz velada.
Quando a descuidam, esmaece e se extingue; mas, alimentada com o santo óleo do amor, ilumina qual lâmpada imortal.

HERMES

Era noite.
A calma e o silêncio invadiam pouco a pouco as ruas de Mênfis; o ruído e o movimento que desde o alvorecer enchiam a cidade imensa, qual o zumbido de uma colmeia, extinguia-se; a segunda Capital do Egipto mergulhava no sono para haurir as forças indispensáveis à febril actividade que deveria renascer com os primeiros raios de Rá, saindo vitorioso da escuridão.
A Lua iluminava com suave luz as edificações originais da cidade antiga, os enormes templos, as casas multicoloridas, derramando-se na superfície polida do Nilo e sobre as barcas retardadas que o sulcavam.
Em grande e belo prédio, situado numa das mais animadas ruas, tudo parecia silencioso; senhores e servos repousavam fatigados, e apenas em pequena dependência do segundo pavimento ainda cintilava débil luz.
Esse aposento, do qual a janela abria para um pátio plantado de palmeiras e sicómoros, era mobiliado com simplicidade, segundo permitia julgar a luz de pequena lâmpada alimentada a óleo, posta na mesa próxima do leito.
Sobre um tamborete junto da janela, sentava-se uma jovem, de esplêndida beleza, imersa em profundo devaneio.
O prédio onde ora penetramos pertencia a Hor, homem rico e estimado, possuidor de vastos vinhedos, cujo produto comerciava.
A jovem sonhadora era sua sobrinha Neftis, a irmã de Noferura, mais moça do que esta, e vivia sob o tecto do tio, desde a morte dos progenitores.
A mãe de Neftis fora irmã caçula de Hor, nascida de uma prisioneira de guerra, que o pai de Noferura desposara em segundas núpcias.
Por isso, decerto, Neftis não se parecia com a irmã paterna, tipo da beleza egípcia, tez bistre e olhos negros.
Mais baixa do que Noferura, mais delicada e elegante de formas, Neftis era de brancura fosca, semelhante à cor do marfim; espessos cabelos, de ruivo dourado, a envolviam no momento, qual um chale ondulado, dando ao seu rosto regular e fino uma originalidade toda particular; olhos grandes, verde-escuros, fosforescentes qual os dois felinos; apática e indiferente nos cursos habituais da existência, seu olhar se tornava cauteloso e feroz, qual o do tigre, quando as paixões ou a cólera despertavam nela.
A quimera, que nesse instante lhe afastava o sono, devia ser penosa, porque febril rubor lhe tomara as faces e uma respiração custosa e refreada movia seu peito e braços, estes enlaçados em torno dos joelhos, a tremerem nervosamente.
De repente, levantou-se, atirou para trás os cachos macios e lustrosos da ampla cabeleira, e, erguendo as mãos, murmurou angustiada:
— Que fazer?
Deuses imortais, que fazer?
Não posso mais suportar este sofrimento que me devora.
Oh! Se uma vez ao menos pudesse vê-lo, seria feliz e recobraria o sossego — disse, cobrindo o rosto com as mãos, e prorrompendo em convulsivo pranto.
Noite e dia, sua imagem me persegue, seu olhar me atrai e queima, qual chama devorante; em meu sono, creio divisá-lo, curvando-se sobre mim, e, se plena de alegria quero prendê-lo, desperto, e, compreendendo ter sonhado, meu coração parece estalar!
Apoiou a fronte na parede.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 29, 2017 9:42 pm

Depois, de súbito, correu para pequena mesa, que lhe servia decerto para arranjos da “toilette”, pois era provida de espelho metálico, pente, potinhos de pomada e alguns frascos de ónix e alabastro.
Empurrando de roldão esses objectos todos, pegou uma caixinha, abriu-a, e de sob diferentes jóias retirou um colar de placas quadradas e esmaltadas de vermelho e azul, presas por anéis umas às outras.
A central, ornada de pingentes, foi aberta com a pressão dos dedos e mostrou uma cavidade na qual havia fanada rosa, que exalava ainda um odor fortíssimo.
Neftis acocorou-se perto do leito, ao qual apoiou as costas, e, olhar voltado para o objecto, aspirou avidamente o cheiro suave e entorpecente que se evolava da murcha flor, que bem depressa saturou o ambiente do aposento.
A termo de breve instante, as mãos tombaram sobre os joelhos e a fronte abateu para o beirai do leito.
Parecia aturdida, mas, as faces queimavam e algo de estranho lhe sacudia o corpo.
Esse torpor durou pouco, e a vítima, recuperando-se de pronto, fechou o medalhão, que foi reposto na caixinha, e caminhou agitadamente no aposento.
— Nunca poderei casar com Antef, esse “ninguém”, perdido entre a multidão das mediocridades iguais a ele — sussurrou a si mesma a jovem.
Horemseb! Horemseb!
Belo qual Osíris, misterioso e esplêndido qual um deus, é a ti somente que amo, a ti que desejo rever, a ti desejo pertencer!
Mas, onde encontrar-te, se és visível apenas à noite?
Não sei; mas, “terá de ser”, eu o quero.
Parou, apertando com as mãos a fronte latejante, olhos fosforescentes na sombra, qual os de uma pantera.
Enroscada sobre si própria, lembrava, nessa posição, pela graça ondulante dos seus membros e fulvos reflexos da cabeleira, aquela princesa do deserto, quando, retesando os músculos de aço, prepara o salto à presa.
Subitamente, estremeceu e abafado grito de júbilo saiu-lhe dos lábios:
— Achei! Enfim, enfim, eu te encontrarei, Horemseb!
Louca que fui, por não haver pensado isto desde logo.
Radiosa e um tanto acalmada, a moça deitou-se, e dormiu um pesado e inquieto sono.
No dia seguinte, apenas nascido o Sol, Neftis despertou, vestiu-se açodadamente e desceu à sala onde sua tia, Setat, esposa de Hor, estava atarefada na distribuição das tarefas quotidianas às mulheres escravas.
— Minha boa tia — disse a jovem abraçando-a —, caso não vejas nisto inconveniente, queria passar algumas horas em casa da velha Asnath.
De há muito ela me pede ensinar a suas empregadas a maneira de tecer que tu adoptas, e tu mesma tens vários objectos para lhe enviar.
— É verdade; quero mandar-lhe uma peça de estofo, vinho e dois patos, porque a minha pobre e velha prima não ganha muito com o tráfico dos animais que servem aos sacrifícios da gente pobre — respondeu a bondosa Setat.
Fizeste-me recordar, a propósito, que depois de amanhã é aniversário da morte do marido, e ela será feliz em sacrificar um pato verdadeiro.
Aprovo teu passeio; apenas não sei se o poderás fazer hoje, pois Hor está engarrafando vinho, e talvez não possa dispensar um escravo para te acompanhar e carregar as coisas.
— Oh! tia, não é mister distrair um dos homens para isso. Levarei Anúbis.
Não te inquietes, caso volte um pouco tarde, porque vou passar o dia com Asnath, mas, à tardinha, visitarei Nekebet, e ela sempre me prende por muito tempo.
— Bem, bem; vai, e diverte-te com Anúbis; nada tens a temer, disse a tia a sorrir.
Lépida e contente, Neftis correu ao local da criadagem, e, ali, em pequeno hangar, alcançou um jovem escravo, ocupado em moer grão em pequeno moinho movido manualmente.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 29, 2017 9:42 pm

O trabalho era lento e não irrepreensível, porque o executante era cego e só pelo tato orientava o seu labor.
Reconhecendo o pisar de Neftis, Anúbis levantou-se com a fisionomia radiante.
Era um jovem núbio, com aproximados quatro lustros de idade, flexível e bem proporcionado, cujos olhos negros traiam a cegueira apenas pela sua absoluta falta de expressão.
Cego de nascença, fora educado juntamente com Neftis e Noferura, e, após a morte dos seus pais, Hor, cedendo aos rogos da sobrinha, havia acolhido no lar o jovem escravo, pouco útil, aliás, sendo aproveitado mais pela protectora, em pequenas tarefas, inclusive na casa, que o cego percorria com a segurança de um vidente.
Anúbis adorava a sua antiga companheira de brinquedos, consagrando-lhe um devotamento de cão fiel e obedecendo-lhe também cegamente.
A notícia de que ia deixar o tedioso trabalho, para acompanhá-la à metrópole, encheu de contentamento o jovem rapaz.
Duas horas mais tarde, ambos deixaram a casa.
Anúbis carregando pequeno saco de pano, uma ânfora cheia de vinho e dois patos às costas, aos quais haviam sido ligados os bicos para impedir o grasnar.
Neftis, que ia à frente, carregava um cestinho com frutos secos e um frasco de óleo cheiroso, e guiava Anúbis com o auxílio de um cordel amarrado ao braço.
Bem depressa atingiram o Nilo, contrataram um barco, para o dia todo, e, tendo pago o ajustado preço, instalaram-se com as provisões.
Neftis tomou conta do leme e Anúbis dos remos, fazendo avançar com rapidez a embarcação.
— O tempo está convidando a fazer um passeio antes de atracar — disse a jovem.
E logo depois o barco deslizava à vista do muro do palácio do príncipe Horemseb.
Coração acelerado, faces afogueadas, Neftis fixou a encantada habitação onde residia, frio, invisível e indiferente a tudo, o bruxo de Mênfis, o herói de mil histórias fantásticas, de milhar de lendas.
Palácio e jardim jaziam em silêncio; o mais leve ruído não se elevava por detrás da maciça muralha; tudo parecia adormecido, mesmo as esfinges de pedra, da escada, em cujos derradeiros degraus batiam as maretas do Nilo.
— Felizes aqueles que te podem ver, servir, ainda que sendo o último dos escravos — murmurou Neftis, com profundo suspiro.
O dia pareceu interminável à jovem.
A alegria e as mil afabilidades da pobre Asnath, ou a garrulice da amiga, nada pôde distraí-la; seu pensamento estava fixo num ponto único; a esperança de rever Horemseb.
Já era noite quando reembarcou em companhia de Anúbis, e de novo o leme guiou o barco para o rumo do palácio.
Chegado à vista da escadaria das esfinges, mandou cessar as remadas.
— Temos de parar.
Longa fila de embarcações carregadas interceptam a passagem do rio, e poderíamos soçobrar ou enredar-nos — disse ela.
O ceguinho meneou a cabeça em sinal de assentimento.
Suspendeu os remos, e aguardou tranquilamente a ordem de recomeçar a viagem.
Febrilmente agitada, Neftis fixou a escadaria.
Se Horemseb fizesse nessa noite seu passeio, devia sair ou entrar por ali, ou, na pior das conjecturas, não distante desse posto de observação escolhido pela aturdida jovem.
O acaso favoreceu seus projectos, e, dez minutos decorridos, do abrigo de pedra saiu a barca maravilhosa, ornamentada e iluminada conforme costumava ser, e atracou aos degraus.
Quase no mesmo minuto, a porta enquadrada no muro abriu, numerosos homens, empunhando archotes, surgiram e enfileiraram-se na escadaria, e, depois, um personagem, sozinho, desceu e instalou-se sob o dossel.
A distância em que se achava, a moça não podia distinguir as feições desse homem; mas, à luz dos archotes, percebeu que era alto, delgado, vestido de branco, e que jóias falseavam em seu pescoço, braços e testa.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 29, 2017 9:42 pm

Palpitante, mal respirando, curvou-se para diante, olhar obstinadamente cravado na deslumbrante embarcação que, dir-se-ia, voava nas águas.
Já distinguia, à luz vermelha dos faróis, o rosto impassível do príncipe, quando o incendido olhar deste pousou nela.
Novamente estranho sorriso entreabriu os lábios de Horemseb, e, erguendo a mão, pareceu fazer leve sinal a um homem, de pé pouco atrás.
Imediatamente, o barco mudou a direcção, para o do ceguinho.
Sem demora, tocaram-se as bordas, e o de Horemseb parou.
O coração de Neftis cessou de palpitar.
Horemseb erguera o busto e se inclinara para ela, estendendo-lhe a mão, enquanto lhe fundia nos olhos um olhar profundo e incendiário.
Como que fascinada, a jovem pousou a sua naquela mão fina, porém gélida, que a reteve, puxando-a.
Incapaz de raciocinar, de emitir um grito, hipnotizada pelo flâmeo olhar do príncipe e pelo aroma entorpecente que se evolava dele, Neftis abandonou-se à atracção.
Como em sonho, sentiu que dois braços a suspendiam e colocavam aos pés do feiticeiro senhor, sobre os joelhos do qual sua cabeça descaiu pesadamente.
— Neftis! Neftis!
Vamos esbarrar alguma embarcação; estou ouvindo ruído de remos! gritou Anúbis, inquieto.
Mas, já a barca misteriosa retomava seu caminho e desaparecia, com a rapidez de flecha, no abrigo de pedra, cujos amplos batentes fecharam.
Não recebendo resposta, Anúbis chamou segunda vez; depois tacteou para tocar nas vestes da senhora, que supunha adormecida.
Constatando que não havia mais ninguém no barco, deu desesperado grito, e, pegando os remos, impeliu a embarcação às tontas, gritando sempre, obcecado pela necessidade de informar os senhores da inexplicável desgraça.
Os clamores do cego e os ziguezagues estrambóticos do barco atraíram a atenção dos pescadores, alguns dos quais abordaram-no.
Escutando-lhe a narrativa incoerente, da qual apenas entenderam o nome do seu senhor, levaram-no à casa de Hor, a quem o desaparecimento da sobrinha mergulhou num compreensível desespero.
Em vão, ele e Setat interrogaram Anúbis: o pobre cego pôde apenas repetir que lhe parecera aperceber a passagem de outra embarcação junto da sua, e que, ao procurar Neftis, esta havia desaparecido.
Perderam-se em conjecturas: era inadmissível que a jovem deixasse de gritar ou resistir se audacioso rapto fosse tentado; igualmente, se houvesse caído ao rio, o barco aludido teria tentado um socorro perceptível a Anúbis.
Mas, coisa alguma, nenhum indício que servisse de pista à verdade.
Todas as pesquisas e providências tentadas por Hor e sua esposa foram infrutíferas, e a desaparição de Neftis ficou sob impenetrável véu.
Imensamente aflitos, Hor e Setat enviaram mensagem a Antef e a Noferura, comunicando-lhes a triste nova, e também no intuito de pedir à sobrinha viesse passar algum tempo em Mênfis, para lhes dar consolo.
Noferura não teve dificuldade em obter de Roma a permissão para visitar os parentes e passar um mês com eles.
O moço sacerdote sentia-se feliz em desembaraçar-se da mulher, dos ciúmes e cenas, e até da presença, mais odiosa cada dia.
A perda da irmã foi um rude golpe para ela, pois a amava sinceramente; perdia com ela a sua melhor amiga, a confidente, a quem contava, sem restrições, todos os desenganos e desgostos.
Apesar dos instintos frívolos e Inconsequentes, Noferura sentia-se profundamente isolada e desditosa.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 29, 2017 9:43 pm

A admirável beleza de Roma inspirava-lhe tenaz e violenta paixão, esporeada mais ainda com a frieza do sacerdote.
Suas primeiras infidelidades tinham tido por alvo despertar o ciúme do marido, e, obtendo resultado inteiramente contrário a tal desígnio, sentia-se tolerada a custo; vendo o esposo cada vez mais indiferente e desgostoso, fugindo dela e da casa, procurou distrair-se com aventuras amorosas e a atordoar seu mal-aventurado amor em festas e distracções de todo género.
Roant, que sempre desaprovara o matrimónio do irmão, nada era para Noferura, que a invejava, na riqueza e na hierarquia, e, mais que tudo, no amor de Chnumhotep.
Triste, com o coração cheio de saudade da irmã, assim tão misteriosamente morta, Noferura retornou a Tebas, ao seu deserto lar.
Conforme costume, Roma estava ausente.
Embora houvesse anunciado seu regresso, ele não a esperara, e foi com surda revolta que a jovem mulher penetrou em seu aposento e assistiu à desembalagem do que trouxera.
Entre as coisas, encontrou a caixinha com as jóias de Neftis e que Setat lhe havia doado, à véspera da partida, para recordação da morta.
De posse da caixinha, passou ao quarto de dormir e examinou o conteúdo.
Olhos lacrimosos, retirou anéis, amuletos, fivelas e outros objectos miúdos, com os quais Neftis se enfeitava; em seguida vieram alguns braceletes, um fio de pérolas e, afinal, um colar formado de placas esmaltadas, do qual se evolava um forte mas suave perfume.
— Ei-lo! — exclamou ela, com surpresa.
É este colar que exala o incomparável odor que me feriu o olfacto desde quando abri a caixinha.
De onde Neftis teria obtido este extraordinário perfume?
Lembra o da rosa e de outra flor que não posso precisar...
E cheirou avidamente o tentador aroma...
— Guardarei tudo isto para restituir à minha irmã, se algum dia reaparecer, o que posso esperar, de vez que não foi encontrado o seu corpo.
Mas, este colar vou usá-lo, em recordação dela, e não usarei outro; lembro-me de que pertenceu à minha boa madrasta, e o perfume que irradia é tão agradável!...
E acolchetou o colar no pescoço, repondo na caixinha todas as outras jóias, que fechou e guardou num móvel.
Em seguida, foi para o terraço e estirou-se num leito de repouso, por sentir-se fatigada e presa de sonolência.
Por sua ordem, uma preta velha postou ao alcance de sua mão uma bebida refrigerante, retirando-se.
Noferura fechou os olhos; qualquer coisa de estranho se passava com ela; um calor escaldante parecia percorrer-lhe as veias, despertando-lhe pensamentos amorosos...
Mas, não era em Roma que eles se firmavam.
A original narrativa de Tuaá turbilhonava em seu cérebro, e parecia-lhe divisar a maravilhosa barca do feiticeiro de Mênfis deslizar ao seu encontro, e um homem, cujo semblante era incerto, mas cujo olhar a queimava e atraía simultaneamente, curvava-se para ela.
Um sentimento de amor selvagem e impetuoso impelia-a puni esse desconhecido; ela estendia-lhe os braços, para trazê-lo a si, mas, permanecia inatingível...
E, exausta, anelante, a pobre mulher experimentava dor aguda no coração, suspendendo a respiração, e depois parecia despenhar-se num sorvedouro em chamas.
Noferura repousava assim por mais de uma hora, quando Roma regressou.
Tendo sido informado pelos serviçais de que a mulher voltara de Mênfis, encaminhou-se ao terraço.
Ao ver que dormia, deteve-se próximo, e, apoiando-se a uma coluna, contemplou com ressentimento essa consorte que só lhe inspirava desprezo e repugnância, e que, qual inamovível obstáculo, lhe obstruía o caminho à felicidade, separando-o de Neith, a quem adorava.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 29, 2017 9:43 pm

Entretanto, o mal-estar visível de Noferura terminou por lhe atrair a atenção:
o rosto purpureado, a respiração opressa e como que com interrupções, os sobressaltos nervosos que lhe sacudiam o corpo, fizeram-no julgar estivesse ela enferma.
E, entendido em medicina, qual o eram todos os padres, aproximou-se, curvando-se sobre a mulher.
Um odor suave e entorpecente lhe perpassou pelo rosto, mas, a isso não prestou atenção, preocupado apenas com o estado de saúde da esposa.
Olhava ainda Noferura, quando experimentou ligeiro atordoamento, e um fluxo de sangue lhe subiu à cabeça, fazendo que lhe pulsasse violentamente o coração.
— Quanto é bela! — pensou — e quanto sou eu louco em a menosprezar.
Quase inconsciente, curvou-se mais ainda e colou os lábios à entreaberta boca da mulher adormecida.
Esta, reabriu os olhos, e, com um débil grito, abraçou o marido.
Dessa vez, não a repeliu, conforme fazia sempre, e, com a mente aturdida, suportou todas as carícias apaixonadas que Noferura lhe prodigalizou.
E, de súbito, abraçou-a por sua vez, retribuiu os beijos, proferindo palavras de amor.
Tudo estava olvidado; a imagem de Neith esmaecera, invencível atracção impelia-o para essa esposa que ele havia abominado; torrentes de lavas ígneas dir-se-ia correndo em suas veias, e, sem o avaliar, aspirava ávido o perfume delicioso e enfeitiçante que se evolava da mulher, e que o imergia num bem-estar desconhecido.
Desde esse dia, um estado estranho, incompreensível, se apossou do casal.
Selvagem paixão, impetuosa, insaciável, devorava Roma, e tais sentimentos, em antítese à natureza calma, casta e harmoniosa do jovem sacerdote, mostravam reagir sobre a saúde.
Era presa de atordoamentos, dores agudas no peito e uma inquietude que não lhe permitia um momento de tranquilidade, mesmo durante seus serviços no templo.
A imagem de Noferura perseguia-o por toda parte, e com o aroma indefinível que a identificava; apenas em seus braços, quando a abraçava, embriagando-se com o odor que a envolvia, encontrava relativa calma, e um novo transporte de amor fazia esquecer tudo, distanciando momentaneamente a impaciência e a angústia que o devoravam longe dela.
Noferura não compreendia tão inesperada reviravolta nas atitudes do marido; mas, apesar da satisfação que experimentava, por vê-lo enfim partilhar de sua paixão, não fruía essa felicidade completa, sonhada...
Um desencantamento, um vácuo, sentimentos contraditórios, incompreensíveis para ela, perseguiam-na até quando nos braços do esposo.
E quando, ausente ele, se estendia fatigada no leito de repouso, caprichosos sonhos atormentavam-na, a figura imprecisa de um homem incógnito dobrava-se para ela e os seus olhos brilhantes, lembrando duas flamas, diminuíam-lhe a respiração...
E despertava quebrantada, palpitante de desejos que não sabia denominar.
Sob a impressão desses desencontrados sentimentos e império da mútua paixão, ambos se haviam tornado sedentários, e tal retraimento excessivo causou geral reparo.
Roant não compreendia a situação; a ansiedade e o ciúme de Neith, por não mais ver o seu amado, excediam todos os limites.
— Dizem que foi tomado de louco amor pela mulher, e que, para não a deixar, se ausentou de toda parte.
Acreditas isso, Roant? — perguntou à amiga, com angústia na voz e lágrimas nos olhos.
Roant meneou a cabeça, meio a rir e meio inquieta.
— Seria autêntico milagre se, depois de meio decénio de matrimónio, ele se prendesse ao amor dessa parva desonesta.
Acalma-te, porém. Amanhã, cedo, irei à sua casa e tirarei a limpo o misterioso assunto, e de tudo serás informada.
Fiel à promessa, a esposa de Chnumhotep dirigiu-se à residência do irmão, e o encontrou no jardim em companhia de Noferura, e, pelo olhar, pelo modo de enlaçar o busto da mulher, caminhando lado a lado, não lhe restou dúvida quanto aos sentimentos de Roma.
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