Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 29, 2017 9:43 pm

A presença de Roant mostrou haver causado a ambos medíocre contentamento, e a visitante constatou, com inquietude, que o irmão patenteava mau aspecto, um olhar febril e incerto, que ela jamais lhe observara, e que suas mãos pareciam queimar de tão quentes.
Percebendo que lhe evitava o olhar e só evasivamente respondia às perguntas, Roant levou-o para falar à parte.
— Que se passa contigo, Roma?
Por que não me procuras mais?
E, principalmente, por que deixaste de ir à casa de Neith?
A pobre criança desespera-se com a tua ausência.
Podes tu assim amar e fazer sofrer?
O olhar do padre seguia avidamente os movimentos da mulher, que continuava andando para o fim da aleia; visível impaciência o dominava.
— Para que me falas de Neith! — esbravejou irritado.
Não a posso visitar, porque amo unicamente Noferura.
Só agora compreendo o que é o verdadeiro amor; fruo junto dela algo que não te posso descrever:
delícias, venturas jamais conhecidas, ao passo que Neith, por bela que seja, deixa-me indiferente e frio!
Roant ouvira muda de pasmo.
Depois a vermelhidão da cólera subiu-lhe ao rosto:
— Confesso não compreender nada de teu palavrório!
Perdeste a razão ou essa Noferura te enfeitiçou?
Se assim não é, por que não te inspirou ela esta grande paixão desde há tanto tempo?
Tua conduta para Neith é covarde e indigna, e antes de curado de tua insânia não te quero ver.
Mas, antes de nos separarmos, dar-te-ei um conselho: vai ao templo e faz que te mediquem, porque estás enfermo, ou vítima de “mau-olhado”.
Em suma:
tu e Noferura estais transformados, estranhos; tu magro, desfeito, e os olhos de ambos lembram carvões queimando, ao extremo de me fazerem medo.
Que aconteceu aos dois?
— Rogo poupares-me das tuas recriminações; estou perfeitamente bem e não careço ser curado do amor legítimo que tenho por minha esposa — respondeu com raiva — voltando costas à irmã.
Roant retirou-se muito preocupada e sem nada compreender quanto ao estado do irmão.
Encontrou Neith, que a aguardava ansiosa e que a crivou de perguntas.
Roant teve ímpetos de dissimular ou atenuar a realidade da situação; a enérgica insistência da jovem amiga, porém, bem depressa lhe arrancou a verdade integral, isto é, que indiscutivelmente violenta paixão por Noferura avassalava a alma de Roma, fazendo-o tudo esquecer.
— Isso é inconcebível, e estou segura de que existe um oculto mistério — rematou Roant com desgosto e indignação.
Ou a vil mulher o enfeitiçou, ou terrível “mau-olhado” caiu sobre ele...
Mas, passará, e então ele compreenderá o erro, e voltará mais amoroso do que nunca.
— Oh! se esse tempo jamais lhe chegar, espero que minha loucura tenha passado, sem perigo de retrocesso — respondeu Neith, que tudo escutara, pálida, olhos incendidos.
Eu te agradeço haveres dito a verdade, Roant.
Saber que uma Noferura me substituiu no coração do homem em cujo amor cegamente acreditei é amargo, porém salutar medicação (e riu com amargor).
Amar! Pude fazê-lo apenas uma vez na minha vida; mas, tornado indigno esse amor, eu o arranco do meu coração qual se fosse venenosa serpente.
Assim agirei com relação a ele, e se prezas a minha amizade não pronuncies aos meus ouvidos o nome do traidor; quero esquecer aquele que me renegou por uma criatura miserável.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 29, 2017 9:43 pm

Calou, sufocada pela emoção, e lágrimas desceram pelas faces afogueadas.
Sinceramente afligida, Roant abraçou-a, e procurou fazê-la acalmar-se, insistindo em atribuir a sortilégio a inexplicável infidelidade do irmão; mas, atingida mortalmente no seu orgulho e amor, Neith recusou admitir qualquer escusa em favor do homem que ousara traí-la e esquecê-la.
Devorada de ciúme, dominando a custo sentimentos tumultuosos, despediu-se da amiga, e, durante muitos dias, encerrou-se no palácio, ruminando projectos de vingança.
Com satisfação cruel, felicitou-se por jamais haver transposto as fronteiras da honestidade nesse amor.
Ao menos, na actual conjuntura, não tinha de enrubescer à face de si mesma, e nenhuma debilidade passada a apequenaria ante o infiel, se algum dia ele recaísse sob seu domínio.
Muitas semanas decorreram sem trazer alterações.
Roma e Noferura continuavam amando-se furiosamente; mas, porque tal amor era legítimo, a reconciliação do casal, caso simples, não despertou atenções em ninguém.
Somente Roant, conhecedora dos sentimentos recônditos do irmão e da aversão que a esposa lhe inspirava, pela conduta indigna, afligia-se, inquietava-se cada vez mais, pois o amava fraternalmente de todo o coração.
Sem embargo da ameaça de não tornar a vê-lo, voltou a visitá-lo mais vezes, e constatava, com apreensão, que terrível mudança se operava nele.
Aquele homem, tão doce, tão calmo, tão cheio de harmoniosa gravidade em cada um dos seus movimentos, tornara-se irritável, violento, brusco de gestos e palavras; um inconstante fogo incendiava-lhe o olhar, outrora tão límpido, e a sua alimentada paixão não lhe dava evidentemente nem repouso, nem ventura.
Mais notável ainda era que Noferura sofrerá idêntica transformação; deixara de ser a mulher frívola, árdega para os prazeres, exuberante de forças e insaciável de festas; nos traços do rosto, pálido e emagrecido, lia-se o mesmo esgotamento; a mesma inquietude a devorava, privando-a de todo repouso, de qualquer contentamento.
Desolada, e cada vez mais convencida de que alguma força misteriosa dominava em Roma, Roant foi procurá-lo no templo, e ali, com lágrimas nos olhos, suplicou-lhe confessasse a realidade.
Como absorto em sonho, o moço sacerdote passou a mão pela fronte.
— Tens razão, Roant.
Alguma coisa de estranho ocorre comigo: um calor dentro de mim requeima, todo o meu corpo tem o peso de chumbo, e uma ansiedade sem nome distancia-me de todos os lugares.
Só junto de Noferura estou confortado, encontro um pouco de sossego e de esquecimento.
Sei que dantes era tudo diferente, r que um bem súbito amor me assaltou.
Ocasiões há em que, orando aqui, eu próprio me admiro disso; mas, que fazer?
Sou escravo desse sentimento e forças me faltam para lutar contra ele.
— Meu pobre irmão, és vítima de um sortilégio, evidente; apela para todas as tuas energias, consulta sábios e mágicos, faz-te medicar, e talvez te libertes — exclamou Roant, desatando em pranto.
Roma assegurou à irmã seguir o conselho, e cumpriu a promessa, embora sem haurir resultado algum.
Em seu Inconformado desgosto, Roant confiou o caso à amizade de Keniamun, omitindo, é claro, o amor do irmão por Neith. Mais intrigado do que surpreso, o oficial sugeriu uma consulta a Abracro, tão perita em assuntos de sortilégios.
Plena de novas esperanças, Roant, provida de rica:; dádivas, foi à casa da feiticeira, obtendo vários pós r uma bebida, que devia ser administrada a Roma, à revelia deste.
Nulos foram os resultados, tal como ocorrera com o tratamento dos sábios, e Abracro declarou francamente não poder adivinhar qual a bruxaria empregada no caso em questão.
Durante esse tempo, Neith continuava vivendo multo retraída.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 29, 2017 9:44 pm

Sua primitiva e desenfreada indignação cedera a uma calma sombria e cheia de amargor; a vida parecia-lhe deserta e odiosa; os homens inspiravam-lhe repulsa e desconfiança.
Que deveriam ser os demais, se Roma, esse ideal que havia adorado qual a um deus, se Roma, à fidelidade do qual havia hipotecado uma existência, tão indignamente a tinha traído com a mulher que ele próprio dizia desprezar?
Abandonando-se á vulgar paixão, ele era mais desprezível do que qualquer outro, porque ela não admitia a influência de forças sobrenaturais; no seu melindrado orgulho e no seu enceguecido ciúme, não lhe concessionava escusa alguma.
Sob a tirania de tais sentimentos, Neith evitava convívio social, e mesmo na Corte raramente comparecia.
A curiosidade com que se buscara esmerilhar a misteriosa pendência entre ela e Sargon tornara-a mais arredia ainda.
Apenas Roant era acolhida com prazer e amizade; mas, porque jamais a altiva boca pronunciasse o nome do homem que a olvidara, e evitasse mesmo qualquer assunto que o lembrasse, Roant sentia-se contrafeita.
Roma fora sempre o tema principal das palestras, e agora, abordados apenas acontecimentos triviais, a conversação descaía, sobrevindo habitualmente longo silêncio de ambas as partes.
Certo dia em que Neith estava mais triste e mais isolada do que de costume, Keniamun veio procurá-la, portador de mensagem de Semnut.
Recebendo-o benevolamente, fê-lo sentar-se junto dela, oferecendo-lhe bebidas refrigerantes.
— Por que apareces tão raramente, Keniamun?
Sentes tédio comigo? — indagou a sorrir.
O oficial balançou a cabeça, respondendo:
— Tu, Neith, é que te tornaste inteiramente outra.
Muito penoso é para mim vir aqui com o pensamento de que me repeliste totalmente do teu coração, de que não te inspiro mais confiança, nem palavras de amizade.
— Enganas-te, Keniamun.
Hoje, tal qual outrora, tu me inspiras sincera afeição, e nunca precisei tanto de um amigo devotado quanto agora.
Ouve-me, sem cólera, e não me peças amor; não se pode doar uma coisa na existência da qual não se acredita, e eu descreio de amor profundo, eterno quanto a vida.
Paguei duramente a experiência de saber que esse sentimento cego tem a mesma inconstância das batidas do coração...
Amei, e acreditei correspondido o meu afecto...
Erro! Loucura! Fui torpemente traída.
Não lamentes, pois, esse sentimento traiçoeiro, que proporciona fugitiva felicidade, frágil, e da duração do qual tu não podes estar certo, nem por um dia...
Aceita mais depressa...
— Blasfemas, Neith: a traição de um não te deve fazer condenar o amor vero e profundo que inspiras a outros.
Estás livre, por isso que o crime de Sargon te desliga dele; por que não experimentas ser feliz e dar ventura?
— Equivocas-te, Keniamun, supondo-me liberta — respondeu, fazendo movimento com a cabeça.
Indissolúvel juramento liga-me a Sargon.
Na véspera da sua deportação, tive com ele uma entrevista, no decurso da qual prometi, invocando Hator, em testemunho da minha jura, retomá-lo para esposo, se voltasse do exílio.
E regressará. Em meu recente encontro, disse-me a rainha ter recebido boas notícias do príncipe, que suporta com tanta coragem quanto obediência a penalidade, e que tem sido aligeirada de todas as maneiras a sua situação, de modo que, dentro de vinte e quatro ou trinta e seis meses, no máximo, o indultará, restituindo-o à posição social e à posse dos haveres.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 29, 2017 9:44 pm

Vês, pois, que não te posso pertencer. Aceita minha afeição de amiga, de irmã, e dá-me recíproco afecto, único sem a mácula do egoísmo e do interesse.
Calou, olhos orvalhados de lágrimas, lábios nervosamente trémulos.
Tão abandonada estou, e tão sozinha — disse finalmente.
Keniamun baixara a cabeça.
Depois, erguendo-a, pegou a mão de Neith, e respondeu emocionado:
— Agradeço a tua honrosa confiança, e procurarei tornar-me digno dela.
Desde este momento, desligo do meu coração, definitivamente, todo sentimento egoístico, e serei apenas teu amigo, teu irmão, protector e defensor, se tiveres necessidade de mim.
Em troca, promete-me confiar francamente tudo quanto te afligir, e concede-me o direito de te visitar, distrair e partilhar das tuas preocupações.
— Combinado.
A confiança deve, porém, ser mútua, e, assim, devo conhecer tuas inquietações, tal qual saberás as de minha parte.
E Neith, já a sorrir, estendeu-lhe as duas mãos.
A partir dessa data, relações verdadeiramente amistosas e fraternais estabeleceram-se entre ambos.
Keniamun, pela sua jovialidade, espírito fino e cáustico, sabia distrair a jovem senhora, e, sem jamais demonstrar curiosidade indiscreta, dissipar as mais sombrias nuvens da fronte de Neith.
Esta, a seu turno, aguardava a alegria de poder surpreendê-lo com alguma dádiva, economizando ao oficial aborrecimentos oriundos da sua escassez pecuniária.
A essa época, Noferura recebeu mensagem anunciando que sua tia Setat, sempre doente, desde a desaparição de Neftis, estava em estado melindroso, e desejava vê-la, talvez por última vez, antes de morrer.
Não era possível recusar, e Roma, que não queria separar-se da mulher, resolveu acompanhá-la.
Alugaram pequeno barco e encetaram a viagem a Mênfis, feita sem descanso, para chegar mais depressa.
Era noite, quando se aproximaram da antiga cidade.
Pesadão e exaurido como se tornara, Roma se havia instalado na pequena cabina e dormia profundamente.
Noferura, porém, mais oprimida do que nunca, trabalhada interiormente por esse calor inextinguível, pelos beijos e pela insânia apaixonada do marido, fora para a frente do barco, a fim de respirar a brisa nocturna, na esperança de acalmar-se.
Cabeça apoiada nas mãos, contemplava as vastas construções dos templos e palácios de Mênfis, que já se apercebiam distintamente à claridade do luar, quando faróis vermelhos deslizando sua luz sobre as águas do rio lhe despertaram atenção.
Levantando-se, para ver melhor, divisou bem depressa grande embarcação, prodigamente ornamentada, sob o dossel da qual um homem se reclinava em coxins.
O coração começou a bater impetuoso, e a narrativa de Tuaá lhe acudiu à memória; ia ver o bruxo de Mênfis, pois a esfinge de olhos de fogo na proa não deixava dúvida a esse respeito.
As duas embarcações aproximaram-se celeremente, e quase logo ficaram paralelas.
Noferura, que se curvara ávida, emitiu um grito rouco, estendendo os braços.
No mancebo, coberto de jóias, reclinado nas almofadas, e cujo olhar, ao mesmo tempo sombrio e rutilante, parecia perder-se na contemplação do vácuo, acabava de identificar o incógnito dos sonhos, o fantasma fascinador, que se fundia entre suas mãos quando ela pretendia prendê-lo, e que Roma não conseguira substituir.
A exclamação vibrante de selvagem paixão, o desconhecido soergueu o busto, firmando-se num cotovelo, e, olhos dilatados, fixou a mulher que, de pé ainda e braços estendidos, parecia devorá-lo com o olhar flamejante.
O que se passou em Noferura nesse instante seria difícil descrever: uma nuvem ígnea como que lhe subiu ao cérebro, afogando toda a compreensão, todos os pensamentos que não fosse o de alcançar esse homem, a qualquer custo, de aprisioná-lo nos braços, antes que desaparecesse novamente.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 29, 2017 9:44 pm

Seu peito estuava, centelhas em turbilhão dançavam ante os olhos obscurecidos, o coração se lhe dilatava.
Pretenderia ela, num salto desesperado, atingir a barca de Horemseb, ou refrigerar-se nas águas?
A realidade é que pulou insensatamente, braços sempre estendidos para ele, e caiu desamparada no rio, na distância de um braço da embarcação misteriosa, a qual prosseguiu seu rumo, desaparecendo no progressivo afastamento.
Um dos remadores, aflito, atirou-se ao rio, na tentativa, bem sucedida, de agarrar o corpo de Noferura, que foi depositado à proa do barco.
Roma, despertado pelo alarido, acudiu, e, feito louco, atirou-se à esposa, procurando torná-la a si.
Uma jovem acompanhante, que dormitava no fundo do barco, chamada Acca, acorreu também, espantada, e envidou esforços no mesmo sentido.
Todos os cuidados foram, porém, infrutíferos, e inanimado chegou o corpo de Noferura à vivenda dos tios.
Enquanto, sob a fiscalização de Hor, despiam o cadáver, insistindo ainda na tentativa de o reanimar, Roma correu ao templo, onde servira durante algum tempo, para trazer um padre, excelente médico e do seu conhecimento.
Quando os dois homens penetraram no aposento onde Noferura continuava estendida e inanimada, Roma precipitou-se rápido para ela; mas, estremecendo, experimentou não o amor apaixonado que até então o avassalara e sim uma sensação de repulsa que lhe tocava a alma.
Perturbado, recuou, e seguiu com olhar quase indiferente os movimentos do amigo, que, após curto exame, constatou a morte de Noferura.
Roma recebeu a comunicação sem alterar a calma inexplicável e contrastante com a agitação precedente.
Declarando-se fatigado, e sem sequer voltar os olhos para a defunta, saiu do recinto e foi dormir profundo sono.
Quando despertou, alto estava o dia.
Sentia-se rendido de cansaço, alquebrado, como se houvesse tido grave moléstia; tranquilo, porém, alma cheia de um bem-estar desconhecido desde muitos meses antes.
Deixando o leito e sentando-se junto da janela aberta, pensou:
Que significava o molesto sonho do qual parecia estar despertando?
Que se passara com ele durante esse pesadelo?
Restavam-lhe apenas lembranças confusas, nas quais se encontroavam cenas de amor, sensações penosas, mas, tudo isso se misturava emaranhado em sua reminiscência, quando ensaiava aprofundar os actos e as causas.
Súbita, a imagem de Neith veio à tona do seu espírito...
Também ela se apagara do seu viver, durante esse sonho escuro e doloroso.
Quanto tempo, quanto tempo passara sem vê-la!
Melindrara-a sem dúvida!
O coração do moço sacerdote batia com violência:
como pudera ele desprezar e esquecer aquela pura e encantadora criança, por uma frívola mulher, que tanto o atormentara com seus caprichos, gostos vulgares, e cuja brutal paixão lhe havia outrora inspirado tanto desgosto e aversão?
Fronte inundada de suor, Roma levantou-se. Decididamente estivera enfeitiçado.
Mas... qual acaso rompera esse encantamento? A morte de Noferura?
Voltou para junto do corpo, que, envolto num pano, ia ser entregue aos embalsamadores, e mais uma vez se convenceu de que nenhum sentimento o atraía para aquela mulher...
— Liberto, enfim! — murmurou, desoprimido.
No entanto, não lhe veio à mente ter desaparecido do seu olfacto o aroma terrível evolado de Noferura, que o entorpecia e subjugava, prendendo-o a ela, e, simultaneamente, ter cessado a angústia febril, o fogo interior que o devorava.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 29, 2017 9:44 pm

Quando, por ordem de Hor, fora despido o corpo de Noferura para fricções, Acca, a serva que a acompanhava, desacolchetara o colar que a morta jamais tirava do pescoço (porque considerava valioso talismã), pois, desde o primeiro dia de uso, seu marido voltara ao seu amor, e por isso o trazia dia e noite, e o embrulhara junto com as vestes molhadas.
À convicção de que a esposa empregara um feitiço contra ele, Roma revoltava-se, tornando odiosa a sua memória, e ansioso estava para regressar a Tebas, para explicar-se com a irmã e reconciliar-se com a jovem Neith.
Assim, tendo informado Hor de que os deveres do templo o reclamavam imperiosamente, deixou Mênfis alguns dias depois, e, mal desembarcara, correra à residência de Roant, comunicando-lhe o acontecimento que o restituía à liberdade.
Foi acolhido de braços abertos pela irmã, que lhe disse palavras de piedoso pesar pela perda que ele sofrerá, mas, às primeiras palavras, foi interrompida:
— Deixa esse assunto, Roant.
Esta perda é uma graça dos deuses.
Diz-me, em vez disso, que é feito de Neith — acrescentou, com voz insegura.
A irmã olhou para ele como que embasbacada.
— Meu querido Roma, vejo, com júbilo, que os deuses escutaram as minhas preces e te livraram, ao mesmo tempo que dessa odiosa mulher, do sortilégio que projectara sobre ti.
Retornas à razão e ao verdadeiro sentimento que enche teu coração; mas, meu pobre irmão, devo dizer-te que Neith, apesar da sua juventude e do grande amor por ti, demonstrou tal revolta com a tua traição, conforme ela classifica teu proceder, que, desde há meses, não mais pronunciou teu nome.
Tendo fel na alma, desligou-se de ti, e o que se passa em seu coração é para mim impenetrável mistério.
Roma escutara a irmã bastante pálido.
— Reconheço-me culpado ante Neith, embora involuntariamente — disse, após momento de silêncio.
Estava impotente contra a força terrível que anulava meus sentidos; recordo-me a custo do que fiz durante meses, no decorrer desse horroroso sonho, do qual acordei ante o cadáver de Noferura.
Meu coração, porém, pertenceu sempre a Neith, e não posso crer que me repila, quando lhe explicar a verdade.
Agora mesmo, vou procurá-la, e, se me amou verdadeiramente algum dia, perdoará uma falta involuntária.
Roant tentou dissuadi-lo, fazendo-lhe compreender ser tarde para a explicação, e que valia mais prevenir a jovem da visita.
O irmão não atendeu a nada, e, açodadamente, rumou para o Nilo, onde alugou um barco, fazendo-se conduzir ao palácio assírio.
Violentamente agitado, saltou nos degraus, e ordenou ao barqueiro que o esperasse para voltar.
E subiu a escada.
Na porta de comunicação do terraço com o interior da vivenda, velava uma velha escrava, acocorada sobre as lajes, a qual reconheceu o sacerdote.
Interrogada sobre se a dona da casa estava sozinha e em que parte da casa, respondeu, com um largo sorriso, que Neith estava no terraço ligado ao jardim, e que Keniamun, que estivera em visita, acabava de retirar-se.
Caminhando rápido e impaciente, Roma atravessou os aposentos bem seus conhecidos, e se deteve, como que enraizado ao solo, na entrada do terraço, iluminado pela claridade avermelhada de numerosos archotes e por dois amplos tripés com alcatrão aceso, colocados nos baixos da escadaria conducente ao jardim.
No primeiro degrau, cabeça recostada de encontro à balaustrada, estava Neith, que, na sua imobilidade, lembrava admirável estátua.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 29, 2017 9:45 pm

As grandes flamas vacilantes dos tripés iluminavam-na fantasticamente, projectando rubros reflexos no vestuário branco e fazendo cintilar o colar e os braceletes maciços, e ainda a larga faixa de ouro que lhe prendia os cabelos de um negro azulado, os quais, em anéis espessos e cuidados, lhe cobriam as espáduas e os ombros e esparziam nas lajes.
Durante alguns segundos, Roma contemplou-a, mudo, enlevado:
nunca lhe parecera tão linda a mulher que adorava e que oculta força separara dele, quanto nesse momento de devaneio, com aquela expressão de sombria amargura.
Accionado pelos sentimentos que lhe transbordavam a alma, e estendendo os braços para ela, murmurou:
— Neith!
A esse som meigo, mas vibrante e tão seu conhecido, a jovem sobressaltou-se, como que impelida por invisível mola.
Por instantes, olhos dilatados fitaram-no e mediram o audacioso, como se pretendessem destruí-lo.
Mas, encontrando o olhar puro e acariciador daqueles outros olhos aveludados que a miravam súplices, o fulgor se extinguiu, a cólera cedeu, e, sacudida por um estremecimento nervoso, Neith encostou-se de novo à balaustrada.
— Que me queres tu? — perguntou em tom amargo.
Explicar a tua indigna traição?
Desculpar-te?
Para que servirá isso?
Não tenho direito algum aos teus sentimentos; sou mulher casada, minha palavra e minha vida pertencem a Sargon; és igualmente homem casado, teu amor é legítimo; volta para tua esposa, para aquela a quem votaste um tão súbito amor.
Sai de minha casa, não perturbes o repouso que reconquistei, depois de haver reconhecido meu culposo amor.
Calou, baixando o olhar; faltava-lhe a voz e sentia-se fraquear sob o olhar de Roma, que a fitava com censura.
— Oh! Neith, não esperava ouvir de teus lábios palavras assim tão ásperas.
Que poderei dizer-te para me absolver da chaga que abri em teu coração?
Não tenho desculpas para a força nefasta, para o sortilégio horrendo que me cegou e teve preso, arrastando-me qual escravo aos pés daquela que exercia em mim o bruxedo subjugante dos meus sentidos.
Privado do raciocínio, acreditei amar Noferura, a culpada mulher, cuja morte me libertou agora.
Saneada a alma, volto a ti, meu verdadeiro e único afecto, apesar do horrível pesadelo que me fez culpado e projectou uma nuvem sobre a minha sinceridade.
Pudeste, em verdade, crer que tal mulher, desestimada por mim, conseguisse tornar-se tão preciosa, ao ponto de me fazer esquecer-te, nauseantemente, por sua causa?
Silencias, Neith.
Mas, olvidaste-me de todo (e a voz tremeu), ao ponto de duvidares das minhas palavras?
Olha-me, pois!
Tenho semblante de haver fruído gozos durante meses de feliz amor?
A jovem mulher subiu o olhar e se fixou no rosto emagrecido e esgotado do moço sacerdote, que, recuando, testa abaixada, se encostava à ombreira da porta.
Sim, esses traços exibiam o sulco de sofrimentos físicos; era possível, verdade, que fatal bruxaria o empolgara, tornando-o traidor contra a vontade própria?
Neith começava a crê-lo.
Roma exercia sobre ela o poder de emergir os bons sentimentos, e sua presença destruíra todo o impulso malsão ou egoísta, graças, decerto, ao afecto profundo e leal que lhe votava.
Também nesse momento, a tristeza, o desânimo do amado homem, sua reserva, a piedade despertada pelos imerecidos sofrimentos, fundiram a couraça de gelo que revestira o altaneiro coração da jovem egípcia.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 29, 2017 9:45 pm

Caminhou vacilantes passos, e depois, num brusco ímpeto, atirou-se aos braços do contristado moço, que, exultante, a apertou carinhoso ao peito.
— Tu perdoas o passado e restituis a afeição que iluminará minha ensombrecida alma? — perguntou docemente, mergulhando seu olhar radiante e caricioso nos olhos húmidos de Neith.
Um infantil sorriso, pleno de ventura, errava nos lábios da jovem.
Passou os braços em redor do pescoço do sacerdote, e deu a resposta num beijo.
Cólera e desgosto estavam esquecidos.
Pobre Neith!
Ela se alegrava, ignorando o preço de um amor sem censura e sem sofrimento, o único que proporciona a verdadeira felicidade e enobrece o coração, porque é parcela do divino fogo que nos criou a alma.
Ignorava que o porvir lhe reservaria um inferno, também denominado amor, uma dessas subjugações fatais, que arruínam o corpo e escurecem o espírito; que ela deveria sofrer, em grau ainda mais alto, todas as torturas que Roma havia suportado.
Felizmente, o futuro é oculto aos mortais, e, por isso, nenhuma sombra toldou a felicidade daquela reconciliação.
— Agora, nada de explicações e querelas — exclamou Neith, desprendendo-se do abraço, olhar jubiloso.
Vem, meu pobre Roma, tomar algum alimento; tuas traições fizeram-te magro e abatido, qual uma sombra.
Precisas voltar a ser gordo e belo!
Deixando-se conduzir, dentro em pouco instalava-se ante opípara e delicada refeição.
Neith, havendo recuperado todo o bom humor, gracejava de modo cáustico a respeito do bruxedo de Roma, e, servindo-o, motejava tão divertidamente dele e dela própria, que o moço sacerdote ria a bom rir, sinceramente.
Mas, uma outra argentina risada fê-los voltar o rosto:
Roant estava de pé na soleira da porta.
Aplaudindo com entusiástico bater das mãos, a risonha visitante avançou para Neith, abraçando-a, e depois ao irmão também.
Em seguida, pegou de sobre a mesa um copo cheio de vinho, e, erguendo-o, num gesto de brinde triunfal:
— Bendita seja Hator!
Está feita a paz; o passado esquecido e os espíritos impuros afastados para sempre!
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 29, 2017 9:45 pm

II - AS AVENTURAS DO COLAR ENCANTADO

A Acca, a serva que acompanhara Noferura, coubera tirar as jóias e vestes da morta.
No momento da aflição, ninguém reparou nesses movimentos de despir o cadáver, nem nos objectos.
Depois que o corpo foi levado para os embalsamadores, quando a serviçal começou a pôr em ordem as vestes e adornos da sua defunta senhora, para serem enviados a Tebas, a tentação lhe veio de apropriar-se do colar, que cobiçava desde havia tempo.
Reflectiu ser difícil provar que a falecida, ao mergulhar, não houvesse perdido a dita jóia, ou mesmo durante as tentativas de salvamento; Setat, estando deitada para dormir, não tinha visto chegar o corpo da sobrinha; Hor e bem assim Roma não pensariam decerto nas minúcias das jóias.
Auto-convicta por essas reflexões, ocultou o colar entre os seus pertences, levando-o para Tebas, para onde foi reconduzida.
Acca, embora serva, não era escrava, e sim uma pobre órfã, parenta de Hanofer, a cargo da qual ficara desde a morte dos pais; mas, a megera, avarenta e invejosa da beleza da menina, procurara desembaraçar-se dela, e conseguiu colocá-la no serviço de Noferura, que, preguiçosa, linguareira e vulgar, se agradara da loquacidade de Acca, porque esta, tendo adquirido no estabelecimento comercial de Hanofer um inesgotável repertório de histórias picantes e escandalosas, contava-as com bastante espírito.
A morte de Noferura tornou Acca inútil; mas, com a habitual bondade, Roma, ao despedi-la, recompensou-a generosamente, e ainda lhe dadivou uma parte das roupas da falecida, além de diferentes objectos aos quais estavam ligadas desagradáveis recordações.
Impando de orgulho, Acca regressou à casa de Hanofer, levando, cuidadosa mente escondido entre os presentes, o colar esmaltado, da existência do qual o próprio Roma havia perdido a lembrança.
A órfã propunha-se a ajudar Hanofer nos afazeres do albergue, esperançosa de que, entre os habituais frequentadores encontrasse um pretendente: agora estava rica, e podia, sem temor, dar mostra de tal, por isso que todos os preciosos objectos haviam sido doados pelo antigo patrão.
Hanofer viu, com invejosos olhos, as riquezas da moça e prima, e só se conformou um pouco depois que, sob reprimendas e ameaças, a despojou de uma parte daquelas preciosidades, isso a título de remuneração das despesas que fizera com a mantença e educação de Acca.
Muitas semanas decorreram.
Certo dia, em que se celebrava em Tebas uma festa anual, e grande se tornava o número de fregueses a atender, Acca ataviou-se cuidadosamente, e, retirando do esconderijo, onde permanecera até então, o famoso colar, o acolchetou ao pescoço, monologando:
— Como me invejarão no dia de hoje, a começar pela velha megera!
E mirando-se vaidosa a um espelho de metal polido, que fora de Noferura, acrescentou:
Que delicioso perfume se desprende deste colar!
Nunca senti cheiro semelhante — terminou, olfactando ávida o aroma enervante que se evolava da jóia.
Faces purpureadas, olhos faiscantes, Acca deixou seu quartinho para entrar na grande sala.
No longo corredor que a precedia, encontrou Smenkara.
— Que boa carinha tens hoje, e... por todos os deuses!
Que colar trazes ao pescoço?
É uma jóia de alto valor, incrustada de legítima pedra azul, sabes disso? — falou o usurário, curvando-se para a moça, palpando e admirando o lavor e o preço do colar.
E qual é este divino perfume?
Oh! dá vontade de cheirá-lo sempre — acrescentou, brusco, olfactando ruidosamente o pescoço da rapariga.
— O delicioso perfume vem do colar, cujo valor desconheço; dele espero que faça minha fortuna — respondeu com orgulho.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 29, 2017 9:45 pm

Minha defunta senhora com ele se adornava todos os dias; mas, perecendo afogada com ele no pescoço, o nobre Roma mo presenteou.
O nariz de Smenkara parecia colado à jóia.
De súbito, seu volumoso rosto se tornou escarlate, os pequenos olhos pardos começaram a chispar estranhamente, e, enlaçando o busto de Acca, abraçou-a com ardor.
Por um instante, ela mostrou corresponder ao gesto, e, abraçando o pescoço de Smenkara, permutou alguns beijos fervorosos; mas, logo depois, desprendeu-se dos braços do homem, repelindo-o violentamente, e fugiu.
Na sala, Hanofer, entronizada no posto habitual, fiscalizava, com olhos de águia, a exactidão e solicitude dos serviços, visto que a baiuca estava à cunha.
Reparando na superfina jóia de Acca, sombreou-se-lhe o semblante, e seus olhos, fulgurando de cobiça, não mais se desviaram da moça, que circulava por entre os fregueses, em febril actividade, fixando os homens com invulgar tenacidade.
Mais de um a encarava curiosa e espantadamente, e as pobres mulheres, seminuas e enfeitadas de pechis-beques, devoravam-na com os olhos.
Bem depressa, porém, o ciúme de Hanofer tomou novo rumo, ao constatar, com pasmo e raiva, que Smenkara seguia, qual sombra, os passos de Acca, projectando nesta olhares de fogo, procurando curvar-se sobre o pescoço da moça, testemunhando, sem rebuços, uma preferência insultante, para ela, esposa.
É certo que a fidelidade de Smenkara não era irrepreensível; mas, assim, tão às escancaras, na presença da mulher, tão ao alcance dos punhos que ele respeitava, e, com razão, jamais ousara ostentar.
Hanofer franziu os sobrecenhos e atirou ao marido ameaçadora olhadela.
Este, porém, com audácia jamais ensaiada sequer, não deu atenção a esse presságio tempestuoso; qual um ébrio, via apenas Acca, e insaciável do odor que a moça desprendia, ele a acompanhava, murmurando, entre dentes:
— Por Osíris!
Esta criatura é irresistível; nunca me agradou tanto quanto hoje, e quero possuí-la!
Sem compreender o móvel da impertinência do marido, porque semelhante caso jamais ocorrera, Hanofer sufocava, e, surpreendendo outra “olhadela assassina” com a qual a moça animava os avanços do onzenário, o fio da paciência se lhe rompeu, e, qual pantera, avançou em perseguição de ambos os culpados, que haviam desaparecido da sala, disposta a infligir-lhes exemplar correctivo.
Após infrutífera procura inicial, pilhou os fugitivos num hangar escuro, que servia de depósito de cerveja e vinho.
Seus maciços punhos abateram-se com força de dois martelos sobre os traidores; mas, Smenkara, que costumeiramente se tornava dócil e obediente, mostrou, desta vez, tal ferocidade, que Hanofer ficou atónita.
A obstinação e o temor de perder toda a sua autoridade fizeram-na tentar uma batalha, e após esforços inauditos, e esfalfada ela própria, conseguiu pôr o marido fora de combate, e quis voltar-se para a moça, que também mostrava atitude belicosa,
— Não me toques, Hanofer! — gritou ela, com olhos faiscantes.
Não tenho culpa da perseguição de Smenkara.
Antes de entrar na sala, ele se atirou a mim, e eu o repeli.
É ridículo esse velho bobo, que só aversão me inspira.
Hanofer imediatamente se acalmou, e examinou a moça com esquadrinhador olhar.
— É verdade que não tencionavas dar-lhe atenção?
Neste caso, vem; eu te conduzirei a outra seção, onde servirás aos fregueses fidalgos que se reúnem ali, e talvez entre eles consigas futuro!
(E um perverso sorrir contraiu-lhe os beiços.)
Uma condição apenas:
posso contar com a tua discrição?
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 30, 2017 11:37 pm

Aos aposentos reservados vêm, às vezes, personagens que não querem ser vistos, nem identificados, e que têm o braço suficientemente poderoso para punir indiscrições!
— Por quem me tomas tu?
Serei acaso bastante maluca, para cavar a minha ruína? — respondeu desdenhosa.
Sei perfeitamente que lá se trata de assuntos vedados à publicidade, e julgo que devias contar mais com a discrição da tua parenta do que com a da velha feiticeira de Sachepris.
— Segue-me. Onde adquiriste o perfume do qual pareces ungida?
— Não estou saturada de nenhum.
É do colar, que me foi doado pelo nobre Roma, e que sua mulher trazia ao pescoço quando se afogou.
É do colar que se desprende o perfume.
— Louco! Doar tal jóia a uma criada! — regougou a megera, despeitada.
Silenciosamente, as duas mulheres atravessaram extenso corredor, depois vasto pátio, rodeado por um muro que se prolongava por detrás do albergue, e nos limites do qual havia algumas construções: galpões, estrebarias, etc., tão arruinados quanto o prédio principal.
Ao fundo, num recanto escuro, havia pequena porta, que Hanofer abriu com a chave que trazia à cintura.
Acharam-se então em amplo jardim, plantado de árvores frutíferas e de hortaliças, e depois num segundo jardim, separado do primeiro por tapume, constituído por sicómoros, acácias, palmeiras, por entre as quais se distinguiam canteiros de flores.
Em seguida, apareceu, por entre a folhagem, uma segunda casa, menor, mas de aparência elegante.
Por espaçoso terraço, ornado de arbustos, ambas penetraram em uma sala sustida por fortes colunas, pintadas de preto e amarelo, e na qual um grupo de mulheres estava reunido.
Eram todas jovens e formosas, e algumas, bailarinas evidentemente, ostentavam largas faixas de metal, colares e braceletes de missangas, tendo nas mãos compridas e largas mantilhas de tecido transparente.
Duas delas tinham tingido de vermelhão berrante os cabelos, enrolados no alto da cabeça, lembrando torres sangrentas, penteado que lhes dava aspecto selvagem e fantástico.
Deitadas em esteiras, exibiam, despudoradas, a nudez dos seus corpos flexíveis e delgados, impregnados de óleos odoríferos.
Outras, vestidas de curtas túnicas de listras, empunhando harpas de três cordas ou mandoras, estavam acocoradas conversando a meia voz.
À aparição de Hanofer, uma curvada mulher encarquilhada, dessa fealdade repugnante que não raro atinge as mulheres, e que parecia vigiar o rebanho de jovens, levantou-se de um escabelo.
— Nenhum dos nobres visitantes se apresentou ainda, senhora — disse ela, obsequiosa, e, curvando-se, em voz mais baixa:
— Somente o padre Ranseneb se encontra em uma das salinhas, à espera de alguém.
Pediu frutas e vinho.
— Está bem Sachepris.
Eis aqui Acca, que trouxe para que te ajude.
Manda-a servir os hóspedes de distinção.
Para começar, ela servirá ao padre os refrigerantes solicitados.
Vai! — continuou, dirigindo-se à moça — e tento na língua.
Um padre de Amon está aqui para ultimar uma transacção de dinheiro.
Acca limitou-se a um gesto de assentimento, pois, havia muito, não ignorava que mais de um padre ou dignitário, embora insuspeitável de frivolidade, vinha divertir-se ali, para jogo ou outros prazeres, e sabia também que ali se ultimavam vultosas transacções de dinheiro, nas quais Smenkara era intermediário.
Estava disposta a ser modelo de prudência e discrição, e a transferência determinada por Hanofer agradava-lhe, visto que, desde muito tempo, anelava trocar as tarefas do albergue pelas do elegante bordel, onde se recreava uma turma de oficiais e de nobres mancebos, indolentes e generosos, semeadores de ouro a cada carinha que lhes agradava.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 30, 2017 11:37 pm

No estado de superexcitação em que se encontrava, a moça desejava ardentemente o amor de algum homem bonito e de alta situação social.
A incerta imagem de um ideal nesse género vacilava no seu cérebro, sem que lhe conseguisse dar forma concreta: ora tomava os contornos do belo Roma, seu antigo patrão, ora os de um oficial que às vezes frequentava a casa de Hanofer.
Ambos lhe inspiravam nesse momento violenta paixão, embora sem saber a qual dos dois daria preferência, de vez que nem um nem outro correspondia fielmente ao incógnito desejado por ela.
Preocupada com esses pensamentos, cabeça incendida e pesada, arrumou em bandeja uma ave assada, uma ânfora com vinho, um copo e um cesto cheio de frutas, e dirigiu-se a certa saleta, isolada das demais, designada por Sachepris.
Nesse aposento, com saída particular, o confidente do Sumo Sacerdote de Amon estava sentado junto de pequena mesa, engolfado na leitura de tabuinhas abertas ante seus olhos.
À presença da serviçal, fechou-as, e enrolou um papiro estendido na mesa.
Correspondendo com um movimento de cabeça, benévolo, à profunda e respeitosa reverência da moça, Ranseneb pegou a ave e começou a comer, enquanto Acca, empunhando a ânfora, se colocou por detrás da cadeira, pronta para encher o copo, logo que o sacerdote tal ordenasse.
Alguns minutos escoaram em silêncio.
Ranseneb, comendo com apreciável apetite, pela segunda vez erguia o copo, quando, de repente, aspirou com força e procurou identificar algo, respirando com atenção várias vezes.
— Que suave perfume é este que estou percebendo? De onde provém?
— Venerável padre, é do meu colar — respondeu um tanto perturbada.
— Mostra-me esse colar, e dize de quem te veio ele.
— Do nobre Roma, o sacerdote de Hator, que mo deu juntamente com outros objectos pertencentes à sua defunta esposa Noferura.
Acca passou para próximo de Ranseneb, curvando o busto para que pudesse ser examinada a jóia, o que ele fez curiosamente.
— Eis um estranho aroma...
Creio que, apesar de suave, a continuação poderá produzir vertigens — murmurou o padre, continuando, sem embargo da ponderação, a aspirar avidamente, narinas dilatadas, o traidor perfume.
E, como que cedendo a irresistível atracção, pegou a moça pelo braço e avizinhou o rosto quase lhe tocando o pescoço.
Súbito, estremeceu, endireitou-se:
o crânio lustroso e as maçãs do rosto coloriram-se de ardente pui pura, e nos olhos acendeu-se flama selvática, enquanto fixava a moça, sempre dobrada sobre ele.
— Senta-te junto de mim, filha, e dá-me vinho disse com olhar e sorriso que contrastavam singularmente com o tipo sombrio e ascético de toda a sua aparência.
E porque Acca hesitasse, olhando com receio seu incendido semblante, Ranseneb abraçou-a pela cintura, puxando-a para si, e tentou beijá-la no pescoço e depois na boca.
Nesse preciso instante, a porta foi aberta ao fundo, e um homem de elevada estatura, com a vestimenta de escriba, ostentando enorme peruca, apareceu na entrada.
Deparando com a galante cena, que tinha por actor o venerável profeta do templo de Amon, Hartatef (porque era ele) duvidou do testemunho do próprio olhar.
Era mesmo o rígido e fanático Ranseneb, cuja impiedosa severidade descia tão pesadamente sobre os jovens padres, e castigava a menor das faltas, era mesmo ele quem vinha buscar aventuras com uma moça de albergue?!
Acca, que, momentaneamente, cedera ao abraço do padre e pagara o beijo, deu um grito, e, repelindo-o, fugiu pela porta oposta àquela junto da qual permanecia Hartatef.
Como que arrancado de agoniado sonho, Ranseneb passou a mão pela testa.
— Que significa isto?
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 30, 2017 11:38 pm

Insânias vieram perturbar meus velhos dias; não vi eu bastantes mulheres lindas, para que uma vulgar moça de albergue me faça perder a razão? — murmurou ele, sombrio.
Só então percebeu Hartatef, que, profundamente Inclinado, deixava ao padre tempo de recompor-se.
Um fluxo de sangue ascendeu ao rosto de Ranseneb, ao pensamento de que esse subalterno houvesse presenciado sua inexplicável loucura.
— Aproxima-te Hartatef — ordenou, dominando-se trabalhosamente. Que notícias me trazes?
O escriba aproximou-se, respeitoso, entregando-lhe tabuinhas e muitos rolos de papiros, e, com a maneira clara e sucinta que lhe era peculiar, fez detalhado relatório da viagem a Bouto.
O padre interrogou minuciosamente sobre Tutmés, Antef, relações entre estes, etc., e, emprazando-o a novo encontro, dentro de breves dias, em local designado, expôs, em detalhes, instruções secretas para excitação do povo contra a rainha, espalhando habilmente que ela, tirando a vida do irmão, e não tendo descendente varão, terminaria extinguindo completamente o glorioso sangue de Tutmés I, e ficando o Egipto sem Faraó legítimo.
E era isso o que o povo temia acima de tudo, e o que devia impeli-lo ao partido do príncipe, jovem cheio de futuro e do qual era lícito esperar numerosa linhagem.
Enquanto os dois homens assim se entregavam à discussão dos interesses do exilado e do porvir do Egipto, Acca voltara à grande sala, onde numerosos visitantes estavam reunidos.
Sentado junto de uma das mesas do terraço, no meio de muitos homens entretidos a jogar, Pair, agitado e cobiçoso, não enxergava nem ouvia outras coisas além dos vaivéns dos lucros ou perdas.
As dançarinas e cantadeiras estavam meio dispersas.
Algumas atada se entregavam a uma dança voluptuosa e provocante, no centro de um grupo de frequentadores, que riam, aplaudindo ou criticando sem rebuços o talento e as perfeições físicas das bailarinas.
Na primeira fila dos espectadores, via-se Mena, com as duas mãos enfurnadas na cintura da túnica, a perorar barulhentamente, sobre passando a todos, em graçolas equívocas e brutais, e excitando as desgraçadas criaturas para evoluções cada vez mais arriscadas.
Gasto e entediado, não sabia evidentemente a qual das mulheres presentes daria preferência, quando seu olhar divisou Acca, que reentrava no recinto.
A rapariga dispunha de óptima aparência com a vestimenta ricamente bordada: rosto corado, olhos negros coruscantes, fremir nervoso que a agitava toda, distinguiam-na vantajosamente de todas as outras.
Agradou a Mena, que, saindo rápido do grupo, se abeirou de Acca, e lhe disse, encarando-a audaz:
— Bela jovem, leva-me ao jardim um copo e uma sólida ânfora com vinho, que tu me servirás.
Aqui, o calor e o barulho me incomodam.
Acca reparou, com olhar de brasa, a esbelta e robusta estatura do oficial.
Estava cada vez mais sob a influência do enfeitiçado odor, que respirava desde muitas horas, o qual, mais entorpecente, mais excitante do que o mais forte vinho, lhe fazia fervente o sangue.
Mena recolheu esse olhar, e um sorriso fátuo passou-lhe nos lábios, ao mesmo tempo que se dirigiu, em passo displicente, a um bosque te do jardim, onde havia banco e mesa, que moitas de rosas e acácias escondiam da vista dos passeantes, local que Mena conhecia e preferia, por ser retirado e discreto, e do qual guardava mais de uma voluptuosa reminiscência.
Apenas sentara, e Acca chegou, trazendo a ânfora com o vinho, um copo e uma cesta de pastéis e outras massas.
— Eis-me aqui, às tuas ordens, senhor.
Mena olhou para ela com familiaridade audaciosa, usada em todos os tempos pelos mundanos para com as filhas do povo, que desejam lhes sirvam de transitório passatempo.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 30, 2017 11:38 pm

— Vem cá, pequena, e diz-me teu nome — começou ele, passando-lhe um braço em redor da cintura e fazendo-a sentar no banco.
Tu me agradas — acrescentou, beijando-a no pescoço.
E logo um odor suave e entorpecente lhe chegou às narinas; o sangue afluiu ao cérebro violentamente, produzindo-lhe momentâneo aturdimento.
Mas, o seu beijo pareceu ter tirado à moça toda noção de senso: qual ébria, agarrou-se ao oficial, apertando-o num amplexo quase sufocante.
É que na robusta natureza, violenta e voluptuosa, de Acca, o aroma envenenado exercia terrível efeito: nuvens de fogo obscureciam-lhe a vista, afogando raciocínio e pudor, e, nessa névoa, vacilava ante sua visão o rosto pálido de um homem, de olhar sombrio e profundo, que parecia encará-la com estranho sorriso.
Tremente em todo o corpo, ela se retesou, procurando depois fundir seu olhar nesses olhos de fascínio; mas, em vez dos traços admiráveis que haviam surgido em sua imaginação, viu a face avermelhada de Mena, de olhar inflamado.
Emitindo um grito abafado, ela se atirou para trás, meio sufocada, cabeça em chamas, parecendo estalar e multipartir-se.
Dor aguda lhe perfurava o peito; com as mãos comprimindo o lado do coração superpalpitante, caiu desmaiada sobre o banco.
Que terá esta criatura, e donde virá este delicioso perfume? — monologou Mena, curvando-se para ela, e olfactando avidamente.
Olha! É do colar que se evola o divino aroma, desta grossa placa central...
Mas, onde (por todas as divindades nefastas!) a brejeira furtou semelhante jóia? — continuou ele, tentando abrir o prendedor de colar para mais detido exame.
Não o conseguindo, usou, impaciente, um punhal para desligar os elos que prendiam o medalhão.
— Para esta bruta, o que resta do colar bastará — resmungou ele.
E, sem mais voltar os olhos para a desmaiada moça, retornou à sala, satisfez os gastos feitos, e saiu do bordel.
— Eis um achado que fiz — pensou, tirando do cinto a jóia e aspirando-lhe ávido o odor.
Farei prender esta placa a um dos meus colares, e todos me invejarão este perfume novo e tão admirável.
De resto, o jovem não cessava de cheirar o deletério aroma, sem reparar que, paulatinamente, um mal-estar lhe invadia todo o organismo; inquietude vaga oprimia-o; a cabeça pesada; ardente sede ressecava-lhe a garganta...
Por isso, abandonou o projecto de fazer um passeio nocturno, e rumou directamente para o palácio de Pair.
Atravessando uma das salas, caminho obrigatório para chegar aos seus apartamentos, encontrou Satati, que, desabituada a tão rápido regresso do sobrinho, lhe indagou surpresa:
— Já de volta, Mena?
Pair veio contigo?
Mas, que tens tu?
Teu rosto está vermelho e teus olhos têm um brilho febril; estás doente?
— Não. Sinto-me bem.
Apenas tenho espantosa sede e estou cansado.
— Então vem comigo à sala de jantar.
Terminamos a refeição, e os meninos foram dormir, mas eu te servirei refrigerantes — disse Satati, conduzindo-o a um aposento dependente dos seus cómodos.
E ordenou a uma escrava trazer vinho e carnes frias.
Sentou-se defronte e começou a servi-lo.
Mena encheu e esvaziou vários copázios de vinho, e pousou os cotovelos na mesa, com aspecto fatigado, sem tocar nos alimentos...
Satati observou tal atitude longamente.
Depois, levantou-se e lhe bateu suavemente no ombro.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 30, 2017 11:38 pm

— Decididamente, Mena, algo de extraordinário acontece contigo; estás agitado e ao mesmo tempo aturdido; não comeste coisa alguma.
Que te falta?
Mena endireitou-se, brusco.
Olhos sanguinolentos e exageradamente cintilantes, fixou a tia com expressão que a fez estremecer e recuar, e, mais veloz do que um raio de luz, a enlaçou com os braços e a atirou violentamente numa cadeira a seu lado:
— Que me falta? É que te amo.
Voltei; ignoro por que, mas, avistando-te, aclararam-se os meus sentimentos.
O assalto, tão imprevisto, deixara a esposa de Pair como que aturdida, com a cabeça apertada de encontro ao peito do rapaz.
Depois, forcejando, ela o repeliu, e tentou, em vão, libertar-se dos robustos braços que a acorrentavam.
— Larga-me! — gritou, raivosa.
Que escândalo, se uma das escravas nos visse!
Enlouqueceste?
Mena sondou o aposento com olhar sorrateiro.
— Estamos sós, escuta-me; desta vez, podes crer, sinto que meu amor é verdadeiro, e que mulher alguma te pode ser comparada.
Como se a sua resistência se houvesse esvaído de repente, Satati recaiu sobre a cadeira sentindo girar a cabeça, uma indeterminada opressão a comprimir-lhe o peito.
É que, na emoção causada pelo susto e surpresa, não se apercebera do enfeitiçado perfume exalado do sobrinho, e, inconscientemente, absorvido pelas narinas.
Indefinível estado, novo e incompreensível para essa mulher fria, egoísta e rapace, a avassalava, pouco a pouco.
Satati jamais tivera amor por Pair ou por quem que fosse, e apenas por fatuidade se deixara cortejar, pois os seus arraigados sentimentos eram a ambição e o cálculo das vantagens, e, se naquele instante pudesse raciocinar, ter-se-ia pasmado dos batimentos apaixonados e tumultuosos do seu coração, da admiração que Mena lhe inspirava e cuja beleza e olhar profundo a fascinavam.
Fatigante embriaguez a invadia lentamente; parecia-lhe flutuar numa atmosfera embalsamada; os ouvidos zumbiam; os beijos cálidos do rapaz comunicavam fogo às suas veias...
Fechou os olhos e descansou de todo a cabeça no peito dele.
Os dois enfeitiçados não se aperceberam de que largo tempo decorrera, e nem mesmo o ruído de pesados e incertos passos de alguém que se aproximava os arrancou da sua entorpecência.
Apesar de bêbedo, Pair (pois era ele o recém-chegado) parou estupefacto a pouca distância da mesa.
Tivera na jogatina uma terrível má sorte, e perdera até o colar.
Tão furioso quanto ébrio, deixara o alcouce de Smenkara uma hora depois do sobrinho.
Dirigia-se directo ao quarto de dormir, quando reparou haver luz na saleta de trabalho da esposa.
O espectáculo de Satati nos braços de Mena o deixou por segundos como que petrificado; mas, sem demora, uma Insensata fúria o avassalou, e, apanhando de cima de uma cadeira a espada de Mena, assentou um possante golpe na cabeça do sobrinho, que, soltando um grito rouco, rolou ensanguentado nas lajes do chão.
Por felicidade dele, foi da vacilante mão de um bêbedo que lhe veio o golpe, pois, da de um lúcido, seria mortal.
— Ah! traidores! — rugiu Pair, boca espumando, querendo agarrar Satati, que, bruscamente despertada do sonho de amor, buscava furtar-se ao alcance do marido, cujo furor a amedrontava.
Perseguindo-a, porém, Pair derrubou a mesa, causando enorme estrondo, inclusive pelo espatifamento dos vidros e louças, que repercutiu em todo o palácio.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 30, 2017 11:38 pm

Sem se preocupar com isso, agarrou a esposa, procurando atirá-la ao chão, e gritava, tentando retirar do cinto o punhal:
— Vais pagar o ultraje feito à minha honra; não esperarei que o carrasco ponha na tua face a marca das mulheres adúlteras, e eu próprio te cortarei a ponta do nariz. (15)
Procurou com uma das mãos apertar-lhe a garganta, brandindo o punhal com a outra, no esforço de executar a ameaça; mas, o desespero, o indescritível pavor de ser mutilada, decuplicaram as forças de Satati, que, com um selvagem grito, se desprendeu dos dedos de Pair, e fugiu para o jardim, onde a treva impediu o prosseguimento da perseguição.
De resto, o próprio excesso da raiva havia esgotado as forças do ébrio e provocado reacção:
pernas trémulas, apoiou-se pesadamente a uma coluna do terraço e passou a mão na testa húmida.
Dir-se-ia despertava de medonho pesadelo.
Depois, lentamente, retomou o caminho da sala onde Mena jazia ainda desacordado, e em torno do qual se acotovelavam alguns escravos, pálidos e ansiosos, e bem assim Assa e Beba, atraídos pelos gritos e alarido.
A presença dos filhos e dos domésticos acabou de desembriagar Pair, que, esforçando-se por aparentar calma, ordenou a remoção de Mena para o seu aposento, aquietou os filhos e respondeu evasivamente às perguntas referentes à esposa, cuja ausência parecia incompreensível, e os mandou voltar ao leito, enquanto ele ia assistir ao primeiro curativo no ferido.
Ficando a sós, os adolescentes miraram-se muito espantados.
— Que significa tudo isso, e onde pode estar nossa mãe? — perguntou Assa, inquieto.
Imediatamente, Beba, cujos olhos pesquisavam curiosamente o aposento, agachou-se, e, apanhando a desastrada placa que caíra do cinto de Mena, disse:
— Olha! Nossa mãe perdeu esta jóia.
Parece, creio eu, uma das que Hartatef lhe doou, quando do noivado de Neith.
— Não, não; eu conheço todas as suas jóias; não tem nenhuma semelhante.
Com certeza pertence a Mena — respondeu Assa.
— Que belo odor exala!
Onde Mena o terá pescado? Parece arrancado de alguma coisa.
Vou pô-lo na jarra da nossa sala de brincar, e ele pode depois procurá-la — disse Beba com risinho sonso, conduzindo o irmão para os seus aposentos.
Pair seguira os escravos que transportavam Mena, e fizera chamar um velho padre médico, que residia em sua casa, e, quando este lhe disse que o ferimento, ainda que grave, não era mortal, e que Mena não tardaria em recobrar os sentidos, retirou-se para o seu apartamento.
A presença do sobrinho era-lhe odiosa nessa ocasião.
Ele não tinha ciúmes de Satati, a qual, mesmo no pleno viço da juventude, nunca lhe inspirava apaixonado amor; temendo a mulher, cujo carácter firme e astucioso o dominava completamente, habituara-se a vê-la sempre severamente salvar as aparências, e só de maneira mui vaga suspeitava-a de alguns pecadilhos de mocidade, os quais, por difíceis de provar, não passavam para além da suspeita, com o que se conformava, não sendo também um modelo de fidelidade.
E, inopinadamente, essa mulher grave, reservada, prudente, de madura idade, rolava para um amor louco, com esse biltre estúpido, Mena, rapaz tão volúvel que teria de ser distanciado de qualquer mulher; Satati, tão calma, tão constante nos seus hábitos, comprometia-se até conceder um escandaloso encontro em sala aberta, expondo-se à risota dos escravos, tanto assim que Mena se esquivara do albergue de Hanofer para alcançá-la.
Pair suspirou profundamente, estendendo-se no leito.
A cólera desvaneceu pouco a pouco, e chegou mesmo a lamentar ter feito tanto estardalhaço.
Sem dúvida, Satati não teria desejado que ele lhe decepasse o nariz, mas... aquele escândalo em toda a Tebas!...
Felizmente, ela se eclipsara, e restava apenas o ferimento de Mena, o qual daria muito que falar.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 30, 2017 11:38 pm

Mas, também por que (por todos os espíritos impuros!) esses dois malucos se expuseram assim, quando, vivendo sob o mesmo tecto, em liberdade pelas frequentes ausências de Pair, podiam facilmente esconder o seu amor?
O superintendente das equipagens reais era de carácter brando e conciliador; nenhuma paixão sombria, nenhum orgulho supérfluo achavam guarida em sua alma; era estreito de espírito.
Perdulário por hábito, gostava de mulheres, bons manjares e jogo, sobre o qual concentrava o maior vigor dos sentimentos.
Cada vez mais preocupado, pensou nas cenas que o aguardavam.
Satati, mesmo culpada e ausente, já retomava a ascendência sobre ele, e perguntava a si próprio onde teria ido esconder-se, de vez que não voltara ao lar...
No decurso dessas cogitações, o sono o surpreendeu.
Não podendo suspeitar das reviravoltas do espírito do marido, Satati achava-se no palácio de Sargon.
Apenas liberta das mãos de Pair, atravessara o jardim qual flecha, e, passando por uma porta do pátio exterior, onde havia uma escrava vigilante, à qual ordenou segui-la, chegou, sempre a correr, às margens do Nilo.
Saltando para a primeira embarcação chegada, rumou para o palácio assírio, onde, aliás, todos já dormiam.
Conhecedora, porém, de todos os recantos, Satati penetrou sem dificuldade até a câmara de Neith.
— Salva-me! Pair quer matar-me! — gritou ela, sacudindo a jovem, que se ergueu estupefacta sobre o leito.
Quando Neith, refeita do primeiro susto, desceu da cama e chamou as serviçais, achou a tia estendida e desacordada no chão, e foram necessários longos esforços para que reabrisse os olhos.
A pobre mulher ignorava ter sido o feitiço do colar a causa de tudo, naquela incompreensível desgraça.

(15) No Código Penal da época, o crime de infidelidade conjugal era punido, no homem, com um milheiro de chicotadas; na mulher, cortando-se-lhe o nariz. (Martin, op. cit., pág. 508.)
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 30, 2017 11:39 pm

III - O PALÁCIO DO ENFEITIÇADOR

Sombrio, silencioso, semelhante a um colosso adormecido, elevava-se à borda do Nilo o palácio do príncipe Horemseb, ou melhor, o muro largo e alto que cinturava o imenso terreno, não deixando ao olhar curioso perceber outra coisa além de maciços de verdura e alguns telhados perdidos por entre as sombras.
Muitos olhares interesseiros, suspeitosos e malignos fixavam esse mudo enigma, contra o qual se quebravam, desde havia bastante tempo, a curiosidade e a malevolência dos habitantes de Mênfis, e este último sentimento começava a predominar.
Os padres ofendiam-se com a negligência indisfarçada do príncipe quanto aos deveres religiosos; no povo, os boatos mais diversos circulavam a respeito da misteriosa habitação, cujos servidores eram invisíveis, e assim o seu patrão, e apenas a elevada origem social de Horemseb se impunha aos maledicentes, forçando toda essa animosidade surda a encobrir-se qual brasa sob cinzas.
É justo dizer que a bizarra morada constituía verdadeiro contraste com o palácio de um grande egípcio, sempre cheio de vida, ruído e labor.
Aqui tudo era silêncio e solitude, e os cultivadores que levavam ao palácio do príncipe os produtos colhidos nos vastos domínios, os únicos seres que se podiam gabar de haver transposto a porta do recinto aberta para o lado da cidade, narravam existir no local vasto pátio rodeado de celeiros e alpendres onde se descarregavam as colheitas.
O velho Hapzefaá, ajudado por alguns escribas silenciosos, recebia e registrava tudo, pois os rendeiros eram despedidos sem mesmo poderem identificar onde ficava a porta de acesso ao resto da edificação.
Tal porta, dissimulada em pequena construção, servindo de escritório, abria para um segundo pátio, igualmente espaçoso, em redor do qual estavam instaladas as cozinhas, as salas destinadas à lixívia e aos outros grosseiros misteres caseiros.
Esta parte da habitação era separada, por sólido muro, dos interiores do palácio e das casas onde residiam as dançarinas e cantoras, sob a vigilância dos respectivos eunucos, e os bailarinos, coristas e outros escravos masculinos destinados ao serviço particular do senhor dos domínios.
Para condução dos alimentos, frutas, vinhos, etc., servidos na mesa principesca, e bem assim para sustento do restante da misteriosa população, os escravos tinham de transpor uma porta severamente guardada por eunucos armados, e só por estes aberta.
Silenciosos, cheios de temor, como que esmagados ao peso de dupla desdita, esses pobres seres cumpriam suas obrigações, e, em verdade, mais infortunados do que seus irmãos de servidão, pois eram mudos e grande parte também surdos.
O próprio palácio constituía uma amálgama de arquitectura egípcia e alienígena: extensas galerias, infinidade de terraços, grandes e pequenos pátios, plantados de palmeiras e outras árvores, e uma verdadeira confusão de salas de várias dimensões.
O todo estava disposto com luxo realengo:
tapetes preciosos, estofos raros ou pinturas variegadas cobriam as paredes; pesadas tapeçarias, com franjas e bordados, mascaravam todas as portas; os móveis, de ébano, incrustados de marfim e mesmo de prata maciça, eram admiráveis; mas, por sobre todo esse luxo, esses esplendores da arte e da riqueza, parecia descer alguma coisa de lúgubre e de gélido; todos esses apartamentos estavam desertos, e seu ambiente sobrecarregado de odores em excesso:
tripés e caçoilas de ouro em profusão estavam dispersas em todas as dependências, onde meninos, de onze e doze de idade, circulavam como se fossem sombras, mantendo zelosamente o fogo dos carvões e neles derramando, a intervalos determinados, diferentes perfumes.
Os inditosos meninos estavam ricamente paramentados de curtas faixas bordadas, ostentando colares e braceletes de ouro; mas, silenciosa tristeza se patenteava em seus semblantes.
Nunca se falavam, e a apatia, o mortal abatimento de seus olhares pareciam de velhos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 30, 2017 11:39 pm

Nos vastos jardins que rodeavam a mansão, o mesmo silêncio, idêntica solitude; nenhuma criatura humana passeava nas aleias sombreadas; silentes e como que temerosos de serem avistados, os jardineiros deslizavam debaixo das árvores, e um sono enfeitiçado parecia pesar sobre todas as coisas.
Entre a espessa verdura, cintilava a superfície polida e tranquila de dois lagos.
Um, muito grande, situava-se ante a fachada do palácio; uma barca dourada ali se balouçava presa a degraus de granito rosa por uma corrente de prata; o outro, menor, ficava na extremidade do parque, rodeado de grandes árvores e de cerrados arbustos que lhe faziam uma espécie de muralha vegetal.
Em pequena ilhota, no centro desse lago, havia um pavilhão, feito de tijolos, que ocupava toda essa superfície; apenas, numa face, uma construção cilíndrica, assentada sobre estacas, avançava para dentro da água.
Esta forma de torre, sem qualquer cobertura, era, em toda a circunferência, provida de compridas e estreitas janelas disfarçadas por tapeçarias.
Duas ligeiras pontes serviam de comunicação com a ilhota: uma conduzindo ao palácio e a outra, do lado oposto, confinava numa aleia estreita, ladeada de arbustos espinhosos, que terminava em sombrio e espesso maciço, ao centro do qual havia ampla construção em forma de pirâmide.
Contíguo a um dos numerosos pequenos pátios que mencionamos, plantados de árvores e flores, havia um apartamento composto de duas câmaras de média largueza, decoradas com os refinamentos do luxo que distinguiam todo o palácio.
Uma, escura, iluminada por lâmpada de óleo perfumado, servia de quarto de dormir, a outra abria, de um lado, para o jardinzinho e, do outro, para uma galeria de serviço, longa, para o interior do palácio.
Apenas a porta era fechada por uma grade de madeira dourada, com ferrolho na face externa.
Sobre um leito de repouso, de cedro, coberto de estofo azul bordado a vermelho, estava jovem mulher semi-estendida, a cabeça escondida em almofadas.
Uma alva túnica desenhava-lhe as formas esbeltas e elegantes, e opulentos cabelos ruivo-dourados, presos por uma faixa trabalhada, lhe cobriam os ombros e as espáduas com a fartura cuidada dos seus cachos.
A escuridão viera rápida e quase sem transição, mas, a mulher não demonstrara aperceber-se de tal.
Subitamente, endireitou o corpo e, juntando com as mãos a cabeleira para as costas, murmurou, com angústia:
— Ah! A que horas virá ele, hoje?
Hator, divindade potente e misericordiosa, dá-me paciência durante as mortais horas que passo longe dele!
E Neftis (porque era ela) ergueu os braços em atitude súplice para uma estatueta da deusa protectora do amor.
A pobre moça estava bem mudada desde o dia em que, na companhia da inconsequente Tuaá, tentara a grande e aventurosa loucura que a pusera no caminho do enfeitiçador:
emagrecera; suas belas cores juvenis haviam cedido a uma palidez doentia, e os grandes olhos esverdeados reluziam, exteriorizando nervosa superexcitação vizinha da demência.
Pouco depois, ergueu-se, com tristonho abatimento, boca contraída por indizível amargura, e desceu ao jardim, onde fez pequeno giro a passo lânguido.
Em seguida, como que tomada por novo pensamento, saltou para a porta da galeria, acocorou-se nas lajes e premiu a fronte contra a grade.
— Oh! Eu me queimo viva num braseiro — murmurou, ofegante.
Onde encontrarei para refrigério uma pedra tão gelada quanto o coração daquele que idolatro e permanece impiedoso ante meus sofrimentos?
Quando deixarei de anelar pelos momentos fugitivos durante oh quais me concede a triste alegria de o contemplar?
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 30, 2017 11:39 pm

Algumas ardentes lágrimas perolaram por suas faces, enquanto o olhar sondava, esquadrinhante, as sombrias profundezas da galeria que costeava sua prisão, e, de ambos os lados, parecia perder-se em longínqua distância.
Inopinadamente, intenso rubor coloriu-lhe o rosto pálido, e nervoso estremecimento agitou-lhe o corpo; numa das extremidades da galeria, surgira avermelhada claridade; escravos, empunhando tochas, apareciam e em carreira escalonavam-se de distância em distância.
— Enfim, enfim, vai ele aparecer! — suspirou a jovem egípcia, concentrando o olhar na elevada estatura de um homem que, precedido e seguido de moços portadores de tochas, se apropinquava rapidamente.
Era Horemseb. Vestia túnica branca, com franjas à moda assíria, e fechada no busto por artístico cinto; largo listrão de ouro incrustado de pedrarias retinha-lhe a espessa cabeleira negra.
Chegado junto da grade, parou, e, percebendo ali a jovem, genuflexa, do lado exterior, malicioso sorriso pairou-lhe nos lábios. Em seguida, tirou do cinto uma chave, e abriu. Com uma exclamação de júbilo a prisioneira avançou para ele, e, ajoelhando, cobriu de beijos as pontas da túnica e depois a mão, que ele lhe abandonara à carícia, fixando-a com indefinível expressão de ironia e piedade.
— Está bem, Neftis, acalma-te! — disse com indiferença.
Sei quanto minha presença te rejubila; mas, devias recordar-te de que não gosto de ser atormentado com as tuas expansões.
Vem! A refeição nos espera.
Voltou-se e prosseguiu no caminho, acompanhado de Neftis, que baixara a cabeça ante o gélido olhar de Horemseb.
A galeria conduzia a uma sala, no centro da qual elegante mesa estava opiparamente servida, para duas pessoas.
O príncipe ocupou uma cadeira dourada e sua companheira, “vis-à-vis” a ele, num escabelo, enquanto os escravos, sempre mudos, iniciaram sua tarefa, deslizando sem ruído os pés nus sobre o chão, e, como que dirigidos pela batuta de um mágico, manejavam com os alimentos e enchiam os copos, sem que uma só palavra fosse pronunciada...
O príncipe comia com apetite, mas Neftis parecia saciar-se em olhá-lo, pois mal tocou em tudo que lhes foi servido, espelhando, nesse contemplar, um amor que atingia as raias da adoração.
Terminado o repasto, o príncipe desceu ao jardim, e por uma aleia transversal, andando vagaroso, atingiu pequeno pavilhão elevado de muitos degraus e cujo Interior estava debilmente iluminado por dois amplos tripés cheios de carvões acesos, sobre os quais dois meninos derramavam incessantemente perfumes que desprendiam atordoante aroma, saturando o ambiente interior e o externo, dos bosquetes.
No fundo da pequena e delicada construção, feita de bambus e cujos tabiques de estofos podiam ser retirados facilmente, havia ampla abertura, subindo do chão ao tecto, dando acesso a vasto tabuleiro de relva rodeado de árvores.
Arbustos odorantes do lado de fora encobriam o pavilhão, deixando apenas uma abertura suficiente para permitir que uma pessoa deitada em leito de repouso, colocado junto de um tabique de verdura, divisasse comodamente o que ocorria no dito tabuleiro de relva.
Como que fatigado, o príncipe deixou-se cair sobre os coxins de púrpura do leito, e o sonhador olhar incidiu indiferente sobre Neftis, que o acompanhava, e, sentada em rasa banqueta, acompanhava-lhe cada um dos movimentos com obsidente adoração.
Horemseb permaneceu por algum tempo estirado, imerso nas suas cogitações; depois, soergueu-se um pouco e bateu palmas.
Quase simultaneamente, da sombra das árvores saiu um cadenciado canto, estranho, ora suave, ora desfalecendo num melodioso murmúrio, ora aumentando para sons agudos, selváticos, símiles aos silvos dos ventos durante os vendavais, excitando bizarramente os nervos dos audientes.
Por fim, o cantar cessou num acorde prolongado, lamentoso, que parecia repercutir e perder-se a distância.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 30, 2017 11:39 pm

O príncipe, que o escutara, olhos semifechados, como que adormecido num berço de sonho por esses sons surpreendentes, que excitavam todos os sentidos e todas as paixões, ergueu-se de todo e olhou o tabuleiro sobre o qual começava um fantástico espectáculo.
A lua surgira, iluminando com a sua prateada luz mulheres vestidas de branco, que, surgindo, uma a uma, da profunda sombra das árvores, vinham postar-se na relva.
Eram todas criaturas moças, mostrando através de túnicas transparentes esbeltas e elegantes formas; os braceletes e colares de ouro realçavam-se vigorosamente sobre a tez bronzeada.
Algumas empunhavam harpas douradas, com enfeites floridos; outras, compridos e largos véus brancos.
Acompanhadas com esses instrumentos, começaram animada e voluptuosa dança, aproximando-se ou distanciando-se do pavilhão.
Seus ágeis corpos se torciam ou turbilhonavam em desgrenhadas voltas; os níveos véus, desenrolando-se, moviam-se como se fossem nuvens esbranquiçadas por sobre a cabeça das bailarinas, as quais, nivelando-se a aparições emergidas do reino das sombras, pareciam deslizar na verdura, tocada apenas de leve pelos ligeiros pés em movimento.
Em seguida, surgiram rapazelhos, trazendo recipientes que desprendiam turbilhões de fumaça odorante, incorporando-se depois ao bailado, e, aumentados os clarões do alcatrão contido nos tripés, constituiu o todo um conjunto de giros em redor desses núcleos inflamados, cujo clarão avermelhado agrandava ainda mais o fantástico da extraordinária cena.
Então, um homem, trajado de branco, aproximou-se de Horemseb, trazendo, sobre bandeja, um par de copos e dois frascos cinzelados, um de ouro e outro de prata, que respeitosamente apresentou.
O príncipe, pegando primeiro o frasco de ouro, encheu um copo e bebeu; depois, servindo-se do segundo, o de prata, despejou o conteúdo no outro copo e o estendeu para Neftis, a qual, prostrada contra o leito de repouso, seguira com olhar apático o maravilhoso espectáculo desenrolado ante ela.
Mas, apenas o aroma penetrante do líquido lhe chegou ao olfacto, estremeceu, e, pegando o copo, o esvaziou sem tomar fôlego.
Como se houvesse ingerido fogo, seu pálido rosto coloriu, seus grandes olhos esverdeados acenderam-se de flamas devorantes, e, atirando-se para Horemseb, pegou-lhe a mão, murmurando com a voz entrecortada:
— Oh! Horemseb, concede-me um olhar de amor, uma palavra de afecto...
Não posso mais suportar esta vida...
Ama-me, tal qual eu te amo, ou deixa-me morrer a teus pés!
O jovem príncipe voltou-se, sem que qualquer emoção se espelhasse no belo rosto.
Seu olhar, sereno e sorridente, mergulhou por instantes nos olhos incendidos da vítima; enlaçando o busto de Neftis para perto, e com a outra mão, dedo em riste, apontou a cena:
— Olha! Pode-se, diante desse maravilhoso quadro, pensar em outra coisa?
O contacto do seu braço deu a ela um fremir nervoso.
— Horemseb, sou cega para tudo quanto não diga respeito a ti — murmurou ela, passando ambos os braços em torno do pescoço do príncipe e tentando beijar aquela boca sorridente, que parecia prometer venturas.
Como que metamorfoseado, Horemseb recuou, com fulgurações ameaçadoras nos olhos; uma expressão de inabordável orgulho crispou-lhe os lábios.
— Insensata! — disse, desembaraçando-se do abraço e repudiando-a rudemente.
Sempre com a tua paixão louca e impura a perturbar os momentos em que eu desejaria fazer-te partilhar do êxtase que me arrebata a alma!
Voltou-se, e com um pequeno martelo de bronze fez soar um timbre de metal.
Imediatamente, uma fila de servos irrompeu no pavilhão, e, enquanto um eunuco se apoderava de Neftis, muda e como que bestializada, outros se desvelavam junto do príncipe a quem revestiram com um manto de púrpura, colocando-lhe sobre a cabeça uma tiara inteiramente incrustada de pedrarias, e, por fim, fixaram-lhe nas espáduas, com auxílio de correias passadas sob as axilas, duas asas douradas semelhantes às das esfinges assírias.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 30, 2017 11:39 pm

Assim paramentado, Horemseb deixou o pavilhão e tomou assento num trono portátil, imitando o dos Faraós, que foi erguido e sustentado pelos ombros de oito homens.
Precedido de portadores de tochas, o bizarro cortejo marchou através do jardim.
De diferentes aleias desembocavam grupos de ambos os sexos, trazendo ânforas e copos, harpas e guirlandas de flores, e se incorporavam, em cânticos, ao séquito.
Afinal chegaram em vasta clareira de areia, ao término da qual, sob um dossel mantido sobre colunas, se erguia um altar bem alto, junto do qual ardiam perfumes em tripés igualmente elevados.
Por uma escada disposta por detrás do altar, escravos subiram, carregando Horemseb, e ali colocaram a cadeira dourada onde estava sentado, imobilizado qual um ídolo, fixando, com gélido e sombrio olhar, a turba que se ajuntava a seus pés, e entre a qual circulavam adolescentes enchendo os copos com enervante beberagem.
Imitando as danças sagradas e os cânticos mais usados nas cerimónias religiosas, os casais se aproximavam do altar, fazendo libações, e, após haverem sacrificado ao deus mortal entronizado ali, iniciavam desenfreada ronda, girando sobre si próprios, agitando as tochas ou os copos, reenchidos tão logo eram esvaziados.
Sem demora, verdadeiro frenesi pareceu assenhorear-se daquela chusma desgrenhada, ofegante, que turbilhonava qual bando de demónios, ao clarão avermelhado das tochas e do alcatrão aceso nos tripés; o odor estonteante dos perfumes, amalgamado com as emanações do vinho, com o suor dessa gente exausta, formava uma atmosfera abafadiça que não se dissipava mesmo à influência do frescor nocturno.
Nesse vapor agitavam-se seres mais miseráveis do que irracionais; as danças haviam degenerado em orgia, que a pena recusa descrever nas suas cenas odiosas...
Apenas o novo deus, entronizado no altar, parecia inacessível às brutais paixões por ele desencadeadas; impassível, mas, narinas frementes de selvagem satisfação, seguia com os olhos as peripécias da bacanal...
E quando aquela massa humana, ululante, começou a rolar pelo chão, e depois a adormecer pesadamente, apenas ele ficou a olhar do seu alto isolado, contemplando, com um sorriso de mofa e contentamento, a desordem obscena e horripilante que reinava em torno dele.
Depois, desceu do altar e caminhou lentamente para a muralha do jardim que marginava o Nilo.
Chegado junto de uma porta, puxou o trinco e a entreabriu: ante ele estava a escada das esfinges, ao fim da qual corriam as águas do rio, palhetadas de ouro e rubis pelos raios do Sol que surgia por detrás das montanhas.
Como que fascinado, encostou-se à murada e fitou o astro brilhante que, esplêndido e vitorioso, emergia das trevas, inundando a Terra com torrentes de fogo e vida.
Os raios dourados do deus protector do Egipto zombavam, espelhando-se na tiara faiscante, no manto de púrpura e nas asas douradas do pigmeu que tentava rivalizar com seu esplendor eterno...
Pobre estulto, frágil deus, perecível e cego, cuja alma obscurecida não dava passagem aos raios esclarecedores da razão e do dever!
Durante alguns minutos, Horemseb sonhou silenciosamente.
Parecia-lhe ser um deus repudiado da sua luminosa pátria, e, por segundos, um sentimento de vácuo, de desgosto, de lassitude, o invadiu; mas, os gritos longínquos de alguns bateleiros, o frémito da cidade imensa, acordando para o trabalho do dia, arrancaram-no bruscamente a esses pensamentos...
Fechou vivamente a portinhola e regressou ao palácio.
Velho escravo, que o aguardava à entrada, levou-o ao quarto de dormir, ajudando-o a despir-se. Exaurido, Horemseb deixou-se cair no leito, e adormeceu.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 30, 2017 11:40 pm

IV - HOREMSEB E O SEU FEITICEIRO

O pavilhão erguido no menor dos dois lagos do jardim de Horemseb, já descrito, tinha duas câmaras:
uma, de menores dimensões, que servia de quarto de dormir, comunicava, por estreito corredor, com a edificação circular construída sobre estacas; a segunda, assaz vasta, rodeada de altas janelas encobertas no momento por espessas cortinas abaixadas, de riscas vermelhas e brancas.
Ao centro do aposento, destacava-se grande mesa, atulhada de papiros, caixas, frascos e molhos de plantas secas.
Uma lâmpada, alimentada a óleo, iluminava fracamente essa desordem, no meio da qual alentado gato, preto como se fosse feito de ébano, estirava as patas elásticas, fixando com olhos fosforescentes o crânio calvo de um homem sentado próximo da lâmpada e mergulhado na leitura de um dos papiros.
Tal personagem, magro e médio de estatura, trajava longa vestimenta de lã branca, franjada na extremidade e presa ao corpo por um cinto bordado; seu rosto, consumido e rugoso, era pálido, apesar da tez bronzeada, e indicava férrea energia; a testa, muito ampla, denotava o vasto espírito nele contido; sob supercílios cerrados, cintilavam dois olhos pardos, sombrios, profundos, plenos de implacável dureza.
Entregue inteiramente aos seus trabalhos, desenrolou e leu diferentes papiros, e, depois, aproximando larga tira de couro, traçou sobre ela, com um ponteiro de ferro, sinais misteriosos, ao mesmo tempo que murmurava números e cifras, prova de estar procedendo a complicado cálculo.
A concentração do sábio era tal, que não percebeu absolutamente haver sido aberta a porta de entrada e que Horemseb estava parado ali.
A expressão do seu rosto não apresentava vestígios sequer daquela gélida soberba tão sua peculiar; fixava o sábio com olhar repleto de admiração e deferência, e, avizinhando-se, disse, respeitoso:
— Eu te saúdo, mestre!
O ancião voltou-se vivamente, e, avistando o visitante, benevolente sorriso adoçou a expressão severa do seu rosto.
— Sê bem-vindo, meu filho, e que os Imortais protejam cada um dos teus passos — respondeu, estendendo-lhe a mão.
Horemseb apertou essa mão, e, sentando-se ao lado do velho, indagou, com os olhos a brilhar:
— Então, mestre, como se acham tuas experiências?
Foi infrutífero teu trabalho?
O sábio esvaziou, aos goles, o leite de um copo, e, pousando-o na mesa, respondeu, satisfeito:
— Não, o Grande Ser abençoou meus esforços, e bem depressa espero conseguir manejar as ondas dos aromas na subtileza desejada.
Então, meu filho, teu ardente desejo poderá ser atingido:
conseguirei desvendar-te o futuro e o passado, este menos interessante decerto, por isso que apenas retracta sofrimentos e provações já suportados.
— Ah! Tadar, quanto anelo conhecer o futuro e assimilar inteiramente essas estranhas leis que nos regem — murmurou Horemseb enquanto fugitivo rubor lhe passou no pálido semblante.
— Curiosidade legítima e compreensível, meu filho.
O futuro é o destino de nossa alma, e, se for possível apreender a emanação que o nosso corpo astral exala no Espaço, será conhecido, por assim dizer, o peso-gravidade que decidirá de nossas acções, porque é a emanação, dominante e vencedora das outras, que rege nossos actos, gostos ou paixões.
Cada irradiação especial desenvolve sentimentos diferentes; cada homem, cada povo tem sua vibração astral à parte e, de igual modo, desde a pedra, todas as espécies de plantas e de animais.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 30, 2017 11:40 pm

É esse princípio — odor da alma — quem cria a aversão de raça e a antipatia pessoal que torna o ser viciado odioso à virtude, e esta irritante ao vício.
A que ponto esse aroma espiritual pode influir nos actos e sentimentos já verificaste, meu filho, nas culturas das flores do amor.
O aroma vivificante e excitante dá vida; o excesso produz a morte, cortando o fio vital, pois é amplamente sabido que um leito de flores é mortal.
De igual maneira que cada sentimento destila no Espaço certa claridade, cada aroma, assim entendido, é raiz de um sentimento.
O odor dá claridade e som: o som produz a música.
Cada som tem seu aroma à parte, imperceptível, sem dúvida, para o corpo espesso e para os sentidos grosseiros e não cultivados do homem, ainda sob o peso da vida material, porém cujo poder é imenso.
Em prova da verdade da minha assertiva, lembra-te de que pessoas enfermas e privadas de nutrição percebem muitas vezes odores inacessíveis às que as rodeiam; igualmente, muitos animais têm o olfacto tão desenvolvido, que podem seguir através de grandes distâncias a pista de uma pessoa ou de outro animal, guiando-se pelo cheiro que estes exalam para trás.
Toda luz tem seu aroma-irradiação e bem assim os sons musicais, e se se conseguir achar meio de aumentar o poder das vibrações aromáticas sobre os sentimentos, poder-se-á dissipar as sombras que obscurecem a vista e o cérebro, e criar suficiente claridade para vislumbrar o porvir.
Os nossos cinco sentidos são exercitados pelo homem bem constituído, mas, cada um deles é a grosseira raiz cujas ramificações, infinitas e cada vez mais subtis, se propagam por todo o ser, durante a vida, e, após a morte, continuam, extraordinariamente aguçadas, em seu corpo astral. Este corpo extraterrestre, aéreo e de indescritível flexibilidade, produz, por sua actividade, “sons” (quando pensa e se move), “luzes” diversas (quando trabalha e estuda), “aromas” quando impulsos da alma, jactos de vontade se manifestam, e, de tais aromas internos, verdadeiro produto das qualidades adquiridas pelo espírito, nascem o amor, o ódio, o ciúme, a abnegação, a paciência, o bem ou o mal.
Diz-se que o cheiro do sangue atrai os animais carnívoros; o odor reage sobre o sentido feroz do animal e lhe desenvolve a crueldade, de igual modo que, nas batalhas, o cheiro difundido do sangue excita os combatentes, tornando-os cruéis, embriagando-os qual um vinho.
Tais exemplos devem fazer-te compreender que a exalação de cada ser, unindo-se a outras da mesma espécie, pode fazer subir os sentimentos ao mais alto grau, de igual maneira que, em uma orgia, a sensualidade de uns inflama os outros.
O odor do ouro provoca sensações que se chamam — avarícia, e, se o corpo astral de um homem está saturado dessa aura, será dominado pelo dito vício.
Tu sabes, meu filho, que vivemos muitas vezes, e que isso é indispensável para purificação dos odores que nos trabalham.
Ora, o conhecimento da força, da intensidade de tais aromas, dá também a possibilidade de prejulgar as vidas futuras para uma bem extensa duração, porque é mui difícil dominar esses aromas instintivos, sem viver uma existência assaz regrada, que repila do exterior toda e qualquer vibração símile, que tornasse a luta impossível.
É, pois, lentamente que se processa a depuração, porque, desde quando, em nós, um sentimento acorda outros, produz um aroma que reage sobre nossos actos, ofusca-nos e influi em nossas paixões. Homens há que fogem do mundo para viver em desertos, alimentando-se de plantas e raízes:
são os desejosos de purificação dos aromas instintivos, e temem a tentação, isto é, as vibrações contagiosas, que, unidas às suas, os cegariam.
Mas, também existem aromas que destroem as emanações astrais, ensurdecendo-as, conforme te comprova o cheiro do líquido que mata qualquer sensualidade, e te permite ver, sem emoção, uma linda mulher devorada de amor por ti.
Convém acrescentar que tal mérito não é teu, por isso que não é produto de — depuração.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 30, 2017 11:40 pm

Se, pois, eu conseguir isolar e escrutar teus odores instintivos, então o teu porvir será desvendado, teus caminhos futuros estendidos aos teus olhos, porque os juízes do reino das sombras te impuseram existências segundo aromas-exalações de teu corpo astral até que tu os domines e se tornem puros qual o aroma dos astros, que são impossíveis e inabordáveis em sua serena gravidade, tanto quanto aqueles que os governam.
Enquanto o homem não dominar em si a luta dos aromas, enquanto ele desejar avidamente o que ele atrai de fora de si próprio e lhe excita as paixões, não será satisfeito nunca...
Esmagar, matar o mundo exterior, para fruir a beatitude íntima, tal é o resultado da vitória daqueles que não são mais tentados, que não mais se embriagam com os odores da matéria.
O espírito encarnado é, pois, o escravo do corpo, e enquanto não vencer as tentações que se mostram ante ele, as emanações da matéria, retornará a viver na Terra, sucumbindo à embriaguez e expiando em seguida seus abusos, à semelhança das consequências da orgia, que deixa o coração vazio e o corpo quebrantado.
Um aspecto final que frisar — concluiu Tadar com um sorriso.
Quanto mais o corpo astral está intimamente ligado aos aromas da matéria, mais difícil se torna a morte e a separação da sombra imperecível do envelope carnal, porque o corpo astral, que não é a alma, e sim a habitação da centelha divina, será como que parafusado à matéria em dissolução.
Por esse motivo é que os vossos padres preservam tão zelosamente os cadáveres contra a decomposição, e os embalsamam com os perfumes mais raros, esperando tornar mais agradável à alma a permanência junto do antigo envoltório.
Erro profundo, de resto, porque o necessário é queimar o cadáver; o fogo purifica tudo, é o único destrutor dos liames que unem o corpo astral à matéria grosseira.
Horemseb tudo escutara, vibrante de interesse e de emoção.
— Oh! se pudéssemos ver, mestre, aonde nos impele no futuro a vontade dos Imortais!
Se fosse possível palestrar livremente com aqueles que nos precederam no Espaço!
O sábio meneou a cabeça.
— Às vezes, mantenho conversação com alguns desses que deixaram a Terra, e vêm visitar-me.
Ai de mim! São bem cegos ainda, e por isso que podem predizer?
Contudo, seus conselhos são valiosos e me deram mais de uma ideia nova, mais de uma indicação para o meu trabalho.
— Tadar, eu te suplico, admite-me quanto antes a constatar tudo isso — exclamou Horemseb, com os olhos coruscantes.
— Paciência, meu filho; o tempo de te iniciar ainda não chegou, mas virá em breve — disse o mago, erguendo-se e apertando a mão do discípulo, como que encorajando-o.
Em seguida, aproximou-se de uma das janelas, e, levantando a cortina, olhou para fora, e acrescentou:
— Amanhece o dia; vamos para junto das flores, Horemseb.
Traz uma tocha, para alumiar; até que a claridade seja completa, teremos tempo de preparar o necessário.
Enquanto Horemseb acendia a tocha, Tadar chegou-se a um aparador de ébano polido, sobre o qual se encontravam frascos cinzelados, potes e redomas de vidro e faiança, e bem assim vasos de alabastro de boca larga.
Pegou um destes últimos, um frasco, e ainda alguns objectos miúdos, e saiu, seguido pelo príncipe.
Atravessaram o dormitório, o pequeno corredor, ao término do qual o sábio ergueu a tapagem de couro, e chegaram à construção circular.
À luz baça do dealbar do dia, confundida com a claridade avermelhada da tocha que Horemseb fixara a um gancho, pôde ver-se que o centro do pavilhão estava ocupado por um tanque cheio de água, em redor do qual corria uma galeria de chapas de cobre; à entrada do corredor, esta galeria formava uma plataforma em cima da qual havia dois tripés, um cofre de madeira e duas altas ânforas.
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