Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 31, 2017 8:49 pm

O príncipe começou por fazer o giro do tanque, retirando os panos que fechavam as aberturas da construção; depois veio para junto do sábio, que tirara do cofre um pacote de plantas secas, rosas e outras flores igualmente ressecadas, as quais amontoou nos dois tripés, deitando nestes o óleo odorante contido no vidro, e pôs fogo ao conjunto.
As plantas secas, encharcadas de óleo, queimavam crepitando e expandiram odor aromático de tal modo sufocante, que alguém, desambientado de tal atmosfera, teria caído asfixiado.
O sábio e seu discípulo não demonstraram, porém, qualquer alteração nesse ambiente irrespirável, e Horemseb ajudou activamente o mestre a alimentar as chamas, pondo nos tripés mais plantas secas e mais do óleo trazido no par de ânforas.
Quando afinal o fogo se extinguiu, restava no fundo dos queimadores um resíduo de cinzas de óleo, formando enegrecida massa gordurosa.
Tadar, então, tirou do cinto uma patena de marfim, com a qual extraiu os detritos ainda quentes, colocando-os no vaso de alabastro que Horemseb segurava. Quando foram esvaziados os dois tripés, apagou-se a tocha e ambos se avizinharam do tanque, ao centro do qual a luz do dia, já plena, permitia distinguir bizarra planta que ali desabrochava. O tanque, de larga abertura, porém pouco profundo, estava cheio de água com transparência de cristal; ao fundo, uma ampla e redonda cesta de vime, atestada de terra, por cima da qual se elevavam, tímidas, algumas raízes de coloração sanguínea, e delas se projectavam duas grossas hastes, uma das quais, de branco-leitoso e como que polvilhada de prata, subia, vigorosa e recta, cerca de cinquenta centímetros acima do nível da água; o segundo talo, de rosa-pálido, coberto de uma lanugem avermelhada, enrolava-se em espiral de serpente em volta da outra, e, a partir do lugar onde a planta atingia a superfície líquida, saíam folhas de um verde-escuro, estendendo-se sobre a água, lembrando, pela sua forma, a do nenúfar, embora maiores; ao cimo das hastes, viam-se ainda folhas e inúmeros botões que recobriam quase totalmente duas flores de todo desabrochadas e de tamanho pouco comum.
A flor pertencente à haste branca, largamente aberta, tinha pétalas oblongas, espessas e como que cheias de humidade, de alvura notável e parecendo salpicada de prata; a corola ali se formava numa espécie de fruto, do feitio de coração, lembrando um tomate, transparente, e com o colorido vermelho-sanguíneo.
A segunda flor, meio fechada qual uma tulipa, porém dez vezes maior, pendia para a água, como que forçada pelo seu próprio peso; suas pétalas, de azul-pálido, eram delgadas e transparentes, mas tatuadas de veios azuis que pareciam semeados de gotinhas de orvalho; longos estames rosados, qual a haste, vergavam em cacho fora da flor.
Libertando-se das sandálias e da túnica, Tadar desceu os dois degraus que facilitavam o acesso ao tanque, e, ajoelhando na água, pegou com ambas as mãos a negra massa que Horemseb lhe alcançava no vaso raso, e recobriu zelosamente as raízes até à altura dos talos.
Quando terminou a recobertura, devidamente acamada com o auxílio das mãos, voltou à galeria, retomou as vestimentas e regressou com o príncipe à primitiva câmara.
— Os botões vão entreabrir bem depressa; dentro de duas noites, no máximo, é mister cortar as flores — disse o velho, sentando-se.
Pensaste nisso, Horemseb?
— Sim, mestre. A moça que nos deve servir está preparada; mas, para a próxima vez, escolherei entre as escravas, porque receio que afinal se torne muito notada a desaparição de jovens que têm parentela.
Demais, a origem não influi, desde que o sangue provenha de uma virgem.
— Sem dúvida — respondeu Tadar, que, levantando-se, apanhou de sobre o aparador um par de ânforas lavradas, porém de formato diferente, enchendo uma com incolor e transparente líquido, e a outra com um licor avermelhado. Fechou-as cuidadosamente e as deu ao príncipe.
— Eis aqui as bebidas, meu filho.
Na terceira noite a partir de hoje, ela deve estar adormecida sobre o meu leito de flores.
O resto tu o sabes.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 31, 2017 8:49 pm

— Sim, mestre, nesse lapso de tempo deverá esvaziar o conteúdo desta ânfora.
Serás obedecido.
— A mulher que destinas ao sacrifício é a da pele alva, olhos esverdeados e cabelos tifónicos?
Eu a vi passeando no grande jardim, nas horas do teu repouso.
— Sim, mestre: é ela.
— Bem formosa criatura! Teu coração e tuas mãos deixarão de tremer no momento decisivo? — perguntou o velho, com sinistro sorrir e fitando seu acerado olhar nos olhos límpidos e claros de Horemseb.
Este fez um encolher de ombros.
— Não receio coisa alguma; o meu sangue é mais frio do que a água do tanque, e somente pelos olhos sei fruir o amor.
Na hora precisa, tudo será expedito.
Agora, mestre, até depois. Vou repousar.
E, apoderando-se das duas ânforas, saiu, dirigindo-se lentamente ao palácio, sem se aperceber de que um vulto, escondido nos arbustos, lhe havia espreitado a retirada do pavilhão e seguia os passos, qual sombra, e só se deteve quando Horemseb atingiu o terraço e desapareceu no interior da casa.
O espião, que deslizara sob o arvoredo com a agilidade de serpente, era um rapazelho aparentando quinze de idade, magro e assinalado por esse selo de senilidade precoce que caracterizava os servidores de Horemseb.
Nesse momento, os traços fatigados estereotipavam sombria agitação e o olhar com que acompanhou a alta e elegante esbeltez do príncipe brilhava com ira selvagem e mortal. Logo que se assegurou da entrada do senhor, o adolescente escravo se insinuou com precaução no rumo de outra parte dos jardins, e ocultou-se nos arbustos, observando atentamente a ala do palácio que lhe ficava defronte.
Permanecia nesse posto desde uma hora antes, quando uma porta abriu para dar passagem a Chamus, o chefe dos eunucos, seguido de Neftis, com a qual trocou algumas palavras, voltando para o interior, enquanto ela descia os degraus e encaminhava seus passos lentos para a aleia arborizada que terminava ao fundo do jardim.
Cabeça abaixada, tristonho desespero espelhado na fisionomia, Neftis andava ao acaso; sombrios pensamentos agitavam-na e, sob o excesso de sofrimentos morais e físicos que a abatiam, sua razão se revoltava, maldizendo o dia em que a rosa fatal tombara em seus joelhos, na barca de Tuaá, pois, desde essa hora nefasta, jamais conhecera repouso, e o porvir se lhe antevia sombrio, fazendo descrer das venturas sonhadas.
Um som rouco e ininteligível, que ressoou mui próximo, interrompeu suas meditações.
Imediatamente, sentiu que algo lhe puxava a extremidade da roupa, e reparando tratar-se de um rapazinho, ajoelhado, com um dedo sobre os lábios, como que a pedir silêncio, em atitude súplice, sorriu-lhe benévola e, com expressão indulgente, indagou:
— Que desejas, pobre criança? Diz sem temor.
Intraduzível contracção de ódio, amargura e desespero plicou o rosto amortecido do adolescente; moveu a cabeça, e, com eloquente gesto, mostrou os caracteres que desenhou célere na areia com uma varinha.
Com indizível espanto, Neftis leu:
— Sou mudo, porque me cortaram a língua, tal como fazem a todos que o servem.
Se não desejas morrer, de igual modo que morreu minha irmã, e todas que pereceram antes de ti, foge!
— Tu sonhas! — murmurou ela, recuando, pálida e tremente.
Como sabes tu, isso?
O rapazinho apagou rapidamente as letras traçadas, e escreveu de novo:
— Eu o odeio e espiono; contar-te nossa história demoraria muito.
Há trinta e seis meses caímos aqui, eu e minha irmã, bela e inocente qual tu és; separaram-nos e mutilaram-me.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 31, 2017 8:50 pm

Certa vez, muitas semanas depois, consegui rastejar até junto dela, e então me confessou amar o monstro a ponto de que morrer por ele lhe parecia venturoso, e que, após haver ingerido uma bebida que ele lhe oferecera, tal paixão aumentava mais ainda.
Foge, se não queres desaparecer, como aconteceu a minha irmã.
Ignoras que o bruxo não deixa viver nenhuma de suas vítimas?
Neftis emitiu um sufocado grito, e, arrancando da cintura uma rosa rubra que Horemseb lhe doara, atirou-a para longe, horrorizada.
O mudo apanhou a flor e a lançou raivosamente a um canto do palácio; depois, nivelou a areia com ambas as mãos, e, remergulhando no bosquete de onde surgira, desapareceu com o silêncio de um fantasma.
Cambaleante, com o crânio em fogo, a jovem arrastou-se até um banco de relva e ali se deixou cair. Luz intensa se fizera em seu espírito:
— Sim — murmurou —, cada vez que tomo a infernal bebida, julgo sucumbir à insensata paixão: daria minha vida por um seu sinal de afecto, para sentir, uma vez que fosse, seus lábios sobre os meus.
Mas... nada; ele ri dos meus sofrimentos, e quando estiver farto de me ver, matar-me-á.
Devo fugir; porém, de que modo? Depois, separar-me dele não é pior do que a morte?
Espalmou as mãos no rosto e chorou amargamente.
Não saberia dizer quanto tempo assim permaneceu, empolgada em sua dor, quando um som agudo e prolongado a fez estremecer: era o toque de regressar, e sob o impulso do hábito, ergueu-se e retomou o caminho para o palácio. Mas, reentrando na prisão, deixou-se cair exausta no leito de repouso.
Terrível luta se desencadeara no íntimo:
a razão dizia à infeliz que estava em perigo de morte; que abusavam odiosamente de sua debilidade feminina; que devia buscar um meio de fugir; mas, a todos esses justos raciocínios o coração respondia:
— Não; antes morrer do que abandoná-lo.
É que o terrível e enfeitiçante veneno, que lhe circulava no sangue, ligava-a ao bruxo encantador.
Por momentos, Neftis acreditava sucumbir ao peso das duas correntes de ideias.
O peito arfante, cálido suor humedecendo a fronte, dolorosa opressão garrotava-lhe o coração.
— Não: hoje recusarei o copo, quando me for apresentado — balbuciou ela.
E, completamente exaurida, adormeceu, num sono pesado e febril.
O ruído dos passos de Horemseb e a claridade das tochas tiraram-na do entorpecimento.
Vacilante, levantou-se e seguiu o príncipe; mas, quando sentada “vis-à-vis” com ele, quando seu olhar se firmou naquele belo rosto sorridente, naqueles olhos que reflectiam a suave serenidade do céu, toda a sua aversão se evaporou, a surda revolta fundiu-se em adoração tácita.
Terminada a refeição, o velho escravo, único a quem era permitido pegar no vidro da misteriosa bebida, trouxe os dois copos e o par de frascos cinzelados.
Ao vê-los, Neftis rememorou os anteriores raciocínios, e, com suplicante gesto, repeliu a porção que o príncipe lhe dava. Este, com indisfarçável espanto, deixou ver um brilho de ameaça no olhar; mas, dominando-se prestamente, ordenou, por um gesto, a retirada dos serviçais, e disse ao velho escravo:
— Vai, e manda preparar a minha barca, enquanto escuto os cânticos.
Depois virás buscar os copos.
Ficando a sós com a jovem, aproximou-se, enlaçou-a pela cintura, e, curvando-se quase a unir as faces, ciciou:
— Desenruga tua linda fronte, enxuga as lágrimas, minha bem-amada; bem depressa teu incendido coração reaverá a calma, nossas bocas unir-se-ão nesse beijo que desejas, e adormecerás ditosa.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 31, 2017 8:50 pm

Trémula, subjugada por esse primeiro testemunho de ternura, a jovem mal percebeu o sorriso estranho e sinistro que pairava nos lábios de Horemseb quando, por segunda vez, pegou o copo e o avizinhou da boca.
Fascinada pelo olhar, qual o pássaro o é pela serpente, Neftis não mais resistiu, e bebeu docilmente o conteúdo enfeitiçado do copo.
Relâmpago de júbilo perpassou nos olhos do príncipe, que, retirando o braço do busto da jovem, sorveu com delícia o conteúdo do seu copo, saindo em seguida, acompanhado de Neftis, com destino ao pavilhão precedentemente descrito.
Desta vez, o tabuleiro de relva estava iluminado por tochas e fogo de resinas, a cuja luz avermelhada as dançarinas formavam grupo:; e giros graciosos.
A jovem, porém, não viu coisa alguma de tal espectáculo fantástico: acocorada ao pé do leito de repouso, empolgava-se em tumultuosas cogitações.
Nunca sofrerá tanto fisicamente.
Sentia-se num braseiro, fogo liquido corria em suas veias, um formigar doloroso percorria-lhe o corpo, e, por instantes, a respiração lhe faltava.
Apesar de tal, os pensamentos que a haviam trabalhado durante o dia voltavam, momentâneos, à mente obscurecida; compreendia agora que os sofrimentos eram consequência da amaldiçoada bebida; o aviso do adolescente escravo retornava à memória, e a apreensão de desconhecida morte causava-lhe desfalecimento.
A representação foi curta, e Horemseb bem depressa levantou-se, e, estendendo uma rosa a Neftis, disse-lhe, com amistoso sorriso:
— Até breve, muito breve, e pensa na minha promessa.
Neftis não respondeu; mas, emudecida por instintivo sentimento, aproveitou a confusão momentânea, resultante da retirada do príncipe, para afundar em um cerrado mato ao fundo do qual se encolheu silente.
Ouviu a voz de Chamus, chamando-a; depois, tudo recaiu em silêncio.
Evidentemente, seguro de que não poderia ela fugir, renunciou a procurá-la na ocasião.
A friagem da noite refrigerou-a e lhe deu alívio; o pensamento tornou-se mais lúcido e concentrou de novo nos acontecimentos daquele dia.
Apesar do firme propósito, ela bebera, e no amanhã cederia decerto outra vez, e recairia nessas dores infernais, que parecia terem alívio apenas nos braços de Horemseb...
Mas, a esse ancoradouro chegaria ela algum dia?
Inopinado pensamento lhe acudiu:
e se ela pudesse beber o líquido da ânfora azul, usado pelo príncipe, que se mostrava sempre calmo, isento de paixão e de sofrimento...
Oh! talvez encontrasse também o repouso!
Mas, como buscar a bebida libertadora?
— Devo tentar — murmurou, abandonando o esconderijo.
Trata-se apenas de encontrar seu aposento e de corromper o velho Hapu.
Ah! quiçá a rosa maldita que me deu sirva para alguma coisa.
Caso contrário, estrangularei o velho.
Com ágil celeridade de gazela, correu para o palácio, e, margeando-o com precaução, veio passar próximo de um terraço iluminado, em cujos degraus de acesso estava sentado o adolescente escravo que lhe dera o matinal conselho de fuga.
— Hator, graças te sejam dadas pela tua visível protecção — vibrou Neftis em pensamento, apropinquando-se vivamente.
É este o seu apartamento, e tu o observas?
O rapazinho fez sinal de assentimento.
— E Hapu está lá?
Em resposta, moveu a cabeça em gesto afirmativo, e com a mão indicou que ela devia dirigir-se para a direita.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 31, 2017 8:51 pm

Sem perder um segundo de tempo, Neftis precipitou-se no interior, rumou pela direita e achou-se num pequeno gabinete, que precedia o dormitório, visível através de uma porta cujo reposteiro estava erguido.
À luz de várias lâmpadas, percebeu o velho escravo agachado próximo do limiar, cochilando.
Não distante dele, sobre pequeno aparador, os dois frascos cinzelados e os copos.
Um suspiro de desafogo Inflou o peito da jovem.
Tirando a rosa da cintura, aproximou-se, deslizando qual um felino sobre a espessa esteira, e colocou a flor sob as narinas do velho.
Este aspirou muitas vezes o aroma atordoante, e, depois, despertou em sobressalto; seu terno olhar vacilava estranhamente; as amplas narinas dilatavam-se, e uma expressão bravia e bestial retesava-lhe os fanados traços.
Arrebatando a rosa das mãos de Neftis, ele a apertou de encontro ao nariz, voltou-se, deu alguns passos como se estivesse ébrio, apoiando-se à parede.
Ela correu ao móvel, e, pegando o frasco azul bebeu o conteúdo até a derradeira gota.
À medida que deglutia a misteriosa bebida, delicioso frescor se espalhava no abrasado corpo. Depois, presa de subitânea debilidade, caiu sem sentidos.
Este desfalecimento foi curto, porém.
Ao termo de quinze minutos, reabriu os olhos, e levantou-se, calma; um sentimento de beatitude havia substituído as dores morais e físicas que a devoravam o fogo que lhe esbraseava o cérebro estava extinto:
friamente, lucidamente ela avaliava a situação, relembrando, com precisão, cada detalhe do passado, e compreendia estar duplamente perdida, se Horemseb descobrisse a autoria do ato que acabava de praticar.
Para evitar horrível morte, devia fugir nessa mesma noite.
O pensamento de abandonar o príncipe não a deteve mais, a insana paixão por ele perdera a força, e a iminência do perigo aguçava-lhe a energia e as faculdades.
Todas estas reflexões, longas de descrever, tiveram a duração de sessenta segundos.
Fria e resoluta, Neftis, voltando-se, examinou o aposento com brilhante olhar: estava só, pois o velho escravo desaparecera.
Então, pegando o frasco vermelho, que no futuro, quiçá, lhe poderia ser útil, pôs à cintura um punhal que divisara junto do leito do príncipe, e envolveu-se em amplo capote escuro, atirado sobre uma cadeira, cujo capuz desceu para a cabeça, e fugiu para o jardim.
O plano estava traçado:
Horemseb passeava no Nilo, e, ao regressar, devia abrir a porta de comunicação com a escadaria das esfinges...
Por ali empreenderia a fuga.
O acaso foi-lhe propício.
Orientou-se assaz rapidamente, e, ao chegar junto da porta, encontrou-a entreaberta.
Chamus, o chefe dos eunucos, aguardava pessoalmente o retorno do senhor: de pé, no último degrau, sondava as trevas que amortalhavam as águas.
Aproveitando a inesperada ajuda, Neftis escapuliu, e, com a agilidade de um felino, contornou a esfinge, a passos máximos, e encolheu-se nas moitas que margeavam o muro. Um momento depois, ouviu o eunuco ressubir a escadaria, e só então prosseguiu na marcha de fuga, rastejando com precaução...
Mas, ainda não estava longe, quando estremeceu de repente e se acocorou, cabelos eriçados, na sombra da muralha.
Um clarão vermelho surgira no Nilo, e desses dois olhos sanguinolentos tão conhecidos dela, e que anunciavam a aproximação rápida da barca maravilhosa, na qual fixou o olhar e onde viu o príncipe sentado sob o dossel, com o seu belo rosto impassível.
Olhando-o, amargo e pungente sentimento contraiu o coração da moça; o sangue rebelde não mais obscurecia seu raciocínio; o encantamento terrível fora roto.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 31, 2017 8:51 pm

E, no entanto, sentia que esquecer esse homem era bem difícil.
— Oh! Horemseb! — balbuciou, com os lábios trémulos — necessitas acaso de venenos e feitiços para te fazeres amado?
Quando a barca se distanciou, a jovem reergueu-se e rumou para a cidade, com a rapidez de corça, ansiosa para atingir a casa do tio, ali encontrar Anúbis, e dele colher notícias da casa, e, se possível, ainda nessa mesma noite, embarcar para Tebas, sem ser avistada por ninguém.
Os confidentes do príncipe procurá-la-iam, no intuito de reaver o frasco e matá-la, disso não tinha a menor dúvida em seu espírito.
Ignorando a morte de Noferura, era no domicílio desta que contava refugiar-se.
O Sol irrompia quando chegou à residência de Hor.
Conhecendo bem o interior do prédio, dirigiu-se a uma porta oculta que dava acesso ao segundo pátio, e, na ruela que conduzia a esta saída, a mesma providencial ajuda que a protegera na fugida, fez-lhe encontrar Anúbis.
Reconhecendo a voz da sua querida senhora, que julgava morta, o moço escravo quase perdeu o juízo.
Foi com muito custo que Neftis lhe impôs silêncio, e lhe arrancou a notícia de que Setat havia falecido, e de estar o tio em viagem por alguns dias.
Por seu turno, o cego compreendeu que Neftis queria deixar Mênfis despercebidamente, e declarou a firme resolução de acompanhá-la, ainda que ao fim do mundo, informando que, se fossem imediatamente ao embarcadouro, poderiam conseguir lugar em um barco, carregado de trigo, cujo patrão era de sua amizade e seguia para Tebas.
Uma hora mais tarde, a fugitiva e o ceguinho estavam instalados a bordo de uma dessas alentadas embarcações que descem o Nilo carregadas de géneros.
O frasco delator e as jóias que a jovem trazia ao fugir estavam bem guardados em grosso saco, preso aos ombros de Anúbis.
Mênfis havia muito desaparecera no horizonte, quando o rapaz lembrou-se de comunicar à senhora a morte de Noferura.
Embora ferida no coração por essa segunda mensagem fúnebre, Neftis em nada alterou o seu plano de fuga, pois Roma continuava sendo seu cunhado, e, portanto, sua casa um asilo seguro e conveniente.
O resto ver-se-ia a seu tempo.
Mas, quebrantada pela dupla perda que lhe fora comunicada, Neftis apoiou-se a um dos sacos de trigo e chorou amargamente.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 31, 2017 8:52 pm

V - O BEIJO MORTAL

Regressando do passeio, Horemseb ficou muito surpreendido por não encontrar o velho escravo acocorado à entrada do dormitório, conforme estava habituado.
Que significava semelhante negligência por parte de Hapu, o mais exacto dos servidores, o único que tolerava no seu serviço íntimo?
Sobrancelhas franzidas, percorreu com o olhar o aposento; mas, subitamente, estremeceu, e, com arregalados olhos, viu a preciosa ânfora azul caída no chão.
Pegando-a, agitadamente, verificou estar vazia, e uma outra mirada ao aparador mostrou haver desaparecido o frasco vermelho.
Com uma surda exclamação de raiva, regougou:
— Ah! miserável cão, ousaste tocar nos segredos do teu senhor!
Eu te farei pagar com mil mortes a traição!
Empunhando a lâmpada, esquadrinhou os aposentos contíguos, depois o terraço: tudo deserto e silencioso.
Premindo de cólera, precipitou-se para o jardim, e ia dirigir-se ao pavilhão vizinho e apitar, chamando o chefe dos eunucos, quando, ao primeiro passo na aleia, esbarrou em algo estendido no solo e que por pouco lhe teria dado uma queda.
Abaixou-se, para identificar o obstáculo, e, com um novo assombro, reconheceu o velho Hapu estirado, com a face na terra e a mão direita convulsiva mente comprimida contra o rosto.
Agarrando o ancião pelo cinto de pano, Horemseb o arrastou para o terraço, trazendo depois a lâmpada para alumiar o Imobilizado corpo.
Ao dobrar-se, para examinar melhor, um forte aroma, bastante seu conhecido, feriu-lhe o olfacto, e, com grande esforço, desviou a mão do etíope, que parecia retorcida para o rosto crispado, e na qual se via uma rosa quase esmagada, cujas pétalas, murchas e estraçalhadas, se dispersavam sob os dedos.
— Ah! Que significa este novo mistério? — murmurou Horemseb, endireitando-se, inquieto.
De que modo semelhante rosa veio ter às mãos deste homem?
Teria sido no desígnio de iludir a sua comprovada fidelidade que lhe deram a flor?
Aproveitando então o aturdimento produzido nos seus sentidos, fracos e desacostumados a este perfume, um malfeitor teria esvaziado o vidro azul e furtado o vermelho.
É mister acordar Hapu, a fim de saber o que ocorreu — prosseguiu, sacudindo o escravo, que continuava inerte.
Por todas as divindades nefastas!
Creio que o velho bruto aspirou demasiado veneno do perfume e que a senil carcaça sucumbiu em consequência — engrolou o príncipe, dirigindo-se apressadamente à galeria posterior ao dormitório e na qual numerosos servos velavam, agachados próximo dos tripés espargidores de perfumes.
À ordem do príncipe, levantaram-se e seguiram-no ao terraço.
— Transportem-no, seguindo-me, à casa do sábio — ordenou Horemseb, apontando Hapu, ainda estirado e sem movimento.
Minutos depois, os vigorosos carregadores depuseram o inanimado corpo do etíope na primeira câmara do pavilhão de Tadar.
Depois, despedidos pelo patrão, regressaram ao palácio.
Nesse momento da saída, o sábio apareceu no limiar do gabinete contíguo.
— Que acaso te conduz tão inopinadamente, meu filho? — Indagou ele.
— Perdoa perturbar-te, mestre, mas, um Incidente suspeito ocorreu durante a minha excursão no Nilo.
E Horemseb relatou sucintamente o acontecimento, e terminou por pedir a Tadar que fizesse, se possível, tornar a si o velho escravo, a fim de saber quem lhe dera a flor e provavelmente roubara a ânfora.
Escutando-o, o sábio examinava detidamente Hapu.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 31, 2017 8:52 pm

— Deve ter sido uma mulher a autora do audacioso furto, e indispensável se torna impedir que nos aborreça — disse, meneando a cabeça.
Não te surpreendas, meu filho, do que acabo de te dizer.
Por duas vezes, li nos astros que penosas lutas nos esperam, e que, por uma traição feminina, perigo de morte ameaçar-nos-á a ambos.
O acontecido agora bem pode ser o primeiro passo para consumação do presságio celeste.
Horemseb empalideceu ligeiramente, mas, sem responder, ajudou o assírio a reanimar o escravo.
Por muito tempo foram vãos os esforços; nem as compressas de água fria, nem as essências com as quais friccionaram a testa e as têmporas do inanimado produziram efeito.
O príncipe começava a tremer impaciente, quando, enfim, Hapu suspirou, reabriu os olhos e sentou-se por movimento próprio.
Mas, o olhar era inexpressivo e aparvalhado; braços e pernas tremelicantes.
Tadar, então, apanhou pequeno copo no qual derramou um pouco de leite, retirado de grande jarra de três asas posta num tripé feito de madeira, e adicionou algumas gotas de incolor essência, e deu a beber ao preto a mistura, o que este fez com avidez.
Quase instantaneamente, o olhar se normalizou e a memória lhe voltou, pois, reconhecendo o senhor, deu um grito lúgubre, e atirando-se ao solo, o rosto na terra, gemeu:
— Perdoa-me, senhor; tem pena de mim.
— Confessa, sem ocultar nada, o que aconteceu, e talvez eu tenha misericórdia — respondeu, severo, o príncipe.
Mas, guarda-te de dissimular ou esconder a verdade — acrescentou, com olhar sombrio.
— Tudo, tudo quanto sei será dito — bradou o velho escravo, retorcendo-se de terror.
Eu te esperava, senhor, e, receio, estava cochilando, quando extraordinária sensação fez-me reabrir os olhos:
o aroma de mil rosas envolvia-me sufocante, e fogo parecia derramado no meu sangue.
Todo enleado percebi então a mulher ruiva (com a qual fazes a refeição da noite), de pé, junto de mim, mantendo sob minhas narinas uma flor, que agarrei, erguendo-me sem demora.
Não sabia o que desejava, mas, uma vez levantado, senti uma terrível tonteira e uma tremura em todo o corpo, que me obrigou a encostar-me à parede.
Vi, então, a jovem tifónica precipitar-se para a ânfora azul e beber o conteúdo, caindo, ela, quase imediatamente.
Eu, ao ver praticado um crime que me cumpria ter impedido, pensei unicamente em te avisar, senhor, ou pedir socorro.
Não me recordo do local para onde corri, respirando sempre a flor maldita, que parecia colada ao meu nariz, e sentindo como que uma tempestade em redor da minha cabeça...
Depois, perdi a noção das coisas.
Eis tudo quanto sei, senhor, os deuses Imortais são testemunhas disso — concluiu o velho, chorando amargamente.
Horemseb escutara crispando os punhos.
— Considero-te Inocente de culpa, Hapu, e perdoo — disse ao cabo de um Instante.
Mas, a essa mulher é preciso apanhar e encarcerá-la.
Feito isto, voltarei a falar contigo, Tadar.
E tu, Hapu, segue-me.
Quase a correr, o príncipe voltou ao palácio, e foi directo ao aposento de Neftis, que encontrou deserto.
Desesperado de fúria, fez chamar Hapzefaá e Chamus, maltratou brutalmente o chefe dos eunucos e ordenou as mais minuciosas pesquisas.
Acompanhados de escravos, empunhando archotes, percorreram primeiramente todo o edifício, depois os jardins, sondando, fossando cada recanto.
Tudo infrutífero:
Neftis não era encontrada. Horemseb, que, lívido, espumando de ira, supervisionara e dirigira pessoalmente as buscas, não teve mais dúvidas:
a jovem lograra evadir-se, levando consigo a preciosa e denunciadora ânfora.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 31, 2017 8:52 pm

O Sol surgia quando o príncipe retornou, enfim, à presença do sábio, e, esgotado de raiva e fadiga, deixou cair o corpo numa cadeira.
— A miserável fugiu.
Que fazer agora, Tadar?
É preciso cortar as flores sagradas, e a vítima preparada desapareceu! — disse, passando a mão pela testa inundada de suor.
— É fatal contratempo — contestou o sábio, com expressão sombria.
Mas, não sendo possível adiar a operação, por ser indispensável regar com sangue virginal os botões da flor, escolherás entre as escravas, cantoras ou dançarinas, alguma inocente criatura a quem farás ingerir a bebida que vou preparar.
Agora, meu filho, vai e dorme algumas horas, pois estás esgotado.
— Tudo será feito segundo teus desejos, mestre.
Antes do Sol posto, voltarei para receber tuas instruções finais.
De retorno aos aposentos, o príncipe mandou vir Chamus, que não se fez esperar.
A despeito das numerosas contusões que lhe marcavam o pescoço e o rosto quadrangular, o homem de confiança prosternou-se ante o senhor, com todas as exterioridades de adoração e respeito.
Horemseb, que caminhava pelo aposento, braços cruzados, parou à frente dele, e disse, em voz velada:
— Foste culpado hoje de inominável negligência, mas, em atenção a teus longos e fiéis serviços, quero conservar confiança em ti.
Antes do escurecer, trarás aqui uma jovem escrava, à tua escolha, desde que seja bela, virgem e maior de quinze de idade.
Além desta incumbência, à hora da refeição desta noite, distanciarás todos os servos, e vigiarás para que, até amanhecer o dia, ninguém ponha pés nos jardins.
— Senhor, espero que fiques satisfeito — respondeu o eunuco, obsequiosamente.
Comprei, ontem de manhã, uma jovem de escassas quinze primaveras, tão bela quanto a própria Hator, filha de uma núbia e de um egípcio, conforme assegurou o vendedor.
— Está bem; sei que és conhecedor, e recompensarei teu zelo.
O dia estava avançado quando Horemseb despertou, lépido e bem disposto.
Banhou-se, vestiu com apuro, e rumou logo para a morada do sábio; mas, antes de penetrar no pavilhão, foi à pirâmide de pedra, já descrita anteriormente, que se erguia, circundada de altas árvores e de tufos, na parte solitária do jardim situado por detrás do pequeno lago.
Não longe da pirâmide, havia uma cabana de bambu, na qual dois vigorosos pretos, de ar abobalhado, estavam solidamente presos a correntes e que, avistando o senhor, se prosternaram, rosto no chão.
Horemseb soltou-lhes as cadeias e, seguido por ambos, penetrou na pirâmide, logo iluminada pela luz de muitos archotes acesos pelos dois negros e distribuídos por vários prendedores de ferro fixados nas paredes.
Via-se então que, tanto no interior quanto externamente, a misteriosa construção era recoberta de lajes de granito, e que, no cimo do cone, havia uma abertura redonda servindo de chaminé ou de conduto de ar.
Ao centro da sala, sobre dois degraus de pedra, estava instalado colossal ídolo de bronze, representando um homem, sentado, mãos nos joelhos, a cabeça coberta com um boné pontudo e provido de chifres de touro.
Entre as duas pernas da estátua, abria uma estreita portinhola de bronze, dando acesso a uma espécie de forno, onde os ditos escravos começaram a introduzir ladrilhos, rodeando-os de madeiras, resina, palha e outras matérias de fácil combustão.
Deixando-os entregues à sua tarefa, Horemseb saiu, fechando a entrada por uma grade que, dando passagem ao ar, lhes impedia qualquer tentativa de fuga.
Depois, seguiu para o pavilhão.
— Vejo, pelo teu aspecto satisfeito, estar tudo arranjado — disse Tadar, sorrindo.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 31, 2017 8:53 pm

— Sim, mestre, e vim apenas perguntar como, isto é, em que doses devo dar a bebida que me enviaste.
— Três copos bastarão, mas, igualmente, dar-lhe-ás aquele ramo — respondeu o sábio, apontando um vaso sobre a mesa, no qual vicejavam numerosas rosas rubras.
— Então, até logo, mestre. Prepara-te.
Antes que Rá ressurja das trevas, trarei a vítima.
Permutando com o velho amigável saudação, o príncipe apanhou as flores e saiu.
Chegado ao terraço vizinho ao seu apartamento, apoiou os cotovelos à balaustrada, colocando as rosas no parapeito, e imergiu em profundo devaneio.
Quem o contemplasse assim, sério e calmo, olhar límpido e tranquilo, como que perdido na admiração da Natureza, teria (certo) suposto que a alma, pura e entusiasta, daquele belo moço se elevava, pelo pensamento, a um melhor mundo, bem acima das misérias e das torpitudes terrestres.
Quem poderia suspeitar que aquele sereno sonhador era um criminoso enrijecido, que se apresentava, com a maior quietude, para perpetrar odioso delito, e que só inspirava amor para matar a vítima?
Ligeiro rumor arrancou o príncipe do devaneio.
Atentando para o lado de onde procedera o ruído, avistou Chamus, por detrás do qual estava um vulto feminino, velado.
— Senhor, eis aqui a jovem de quem te falei — anunciou o eunuco, que, empurrando a moça, ao mesmo tempo que tirava o véu, acrescentou:
— Anda para a frente!
Trémula e perturbada, a jovem fez a devida reverência, e, depois, permaneceu de pé, braços cruzados, olhos ansiosamente fixos no príncipe, o formidável senhor do qual seu destino dependia.
Era uma deslumbrante criatura, dessas que o Oriente produz às vezes, desabrochante flor humana, na primeira plenitude da formosura.
Flexível e esbelta, quase aérea de formas, mas admirável; rosto alongado, de colorido tão transparente que parecia querer mostrar a circulação do sangue sob a pele bronzeada; espessa cabeleira negra presa por frágil argola de ouro a cair-lhe pelas espáduas; grandes olhos aveludados, doces e medrosos quais os de uma gazela, franjados de cílios longos que faziam sombra nas faces.
Mesmo o gelado olhar de Horemseb iluminou-se num clarão de surpresa admirativa, à vista de tão adorável adolescente; mas, nenhuma fibra de seu coração se contraiu de piedade, pensamento algum de pesar para com aquela vida juvenil, que tencionava destruir, lhe perpassou pelo obscurecido cérebro.
— Estou satisfeito, Chamus — disse, despedindo o eunuco de modo benévolo e curvando-se para a linda escrava, a quem dirigiu escrutadora mirada.
A moça, ante esse olhar perquiridor, ajoelhou, fixando-o num misto de adoração e medo.
— Ergue-te, criança, e não tremas assim; teu senhor te estima — disse, com um sorriso e estendendo-lhe uma das mãos, que ela beijou com unção.
Novo sorriso errou pelos lábios de Horemseb, a quem tal adoração apaixonada divertia, sem que o atingisse jamais, porque tal era o seu feitio.
E, sem remorso, nem pesar, fundiu um olhar fascinador nos olhos cândidos da moça escrava.
Sentando-se num banco, fez aceno para que tomasse lugar num tamborete, deu-lhe o traiçoeiro ramo de rosas que estava no parapeito, e encetou amistosa conversação com a indefesa vítima, perguntando-a sobre antecedentes, nome, parentela, etc.
A pequena escrava, perturbada, intimidada, respondia de início, hesitante, mas, a pouco e pouco, desembaraçou-se e fez ingénuo relato dos acontecimentos da sua curta existência, até o momento ditoso em que Chamus a fizera vestir aquela alva e linda túnica, bordada de ouro, e adornar-se com aquele rico colar e com belo diadema, tudo para conduzi-la à presença do senhor desconhecido, que ela havia temido tanto e encontrava o mais formoso e o melhor dos homens.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 31, 2017 8:53 pm

Algumas horas decorreram.
Kama (tal era o nome da escrava) cada vez mais se animava, à medida que sorvia o odor das rosas que tinha nas mãos; suas faces estavam purpúreas e os olhos cintilavam, quando, afinal, Horemseb se levantou para passar à sala das refeições.
Desta vez, ninguém o acompanhava: a extensa galeria, e assim a sala, estava deserta e silenciosa.
Sentando-se à mesa, provida de riquíssima baixela, colocou a jovem defronte dele e a serviu de diferentes gulodices, estimulando-a, com benevolência, a comer e beber.
A ingénua e simples criatura julgava estar, antes, sob o império de um sonho; mas, embora admitida pela primeira vez na vida a semelhante festim, o apetite lhe faltou, em antítese a uma sede ardente que a devorava e lhe fez esvaziar, avidamente, um copo oferecido por Horemseb.
Este, com atenta observação, assinalava a flama vermelha que enrubescia o rosto da escrava, e bem assim o tremor nervoso que agitava seus delicados membros.
Depois, quando ela readquiriu um pouco de calma, de novo, servindo-se da ânfora cinzelada, encheu um segundo copo, que foi esvaziado pela vítima, com um sorriso de ventura.
Afinal, tomada por subitânea embriaguez, atirou-se aos pés de Horemseb, abraçando-lhe os joelhos e premiu o rosto de encontro à mão húmida e fria do príncipe.
Com um gesto acariciador, este lhe brincou com os espessos caracóis do cabelo negro e a fez sentar-se junto dele, ciciando-lhe aos ouvidos palavras de amor, e lhe propinou a terceira dose do veneno.
A escrava pareceu aturdida por momentos; logo depois, fremente, procurou abraçar Horemseb, mas este já se havia erguido.
— Espera-me aqui; voltarei para te buscar — disse ele, a sorrir, dirigindo-se ao jardim.
A jovem quis segui-lo, porém as pernas tremelicantes recusaram andar, e ela recaiu sentada, braços estendidos e olhos paradamente fixos na porta por onde o príncipe desaparecera.
Este rumou apressadamente para um grande bosquete de rosas, situado por detrás do grande lago e ao centro do qual se erguia o pequeno pavilhão oculto pelas folhagens.
A Lua recém-surgira, inundando com a sua luz mágica as aleias, os sombrios maciços de árvores, e fazendo resplender a superfície polida da água, tornada a semelhança de um espelho argênteo.
O interior do pavilhão oferecia aspecto feérico:
lâmpadas, industriosamente escondidas por arbustos, alumiavam, suaves, o pequeno recinto, literalmente coberto das mais raras flores, inclusive alcatifando o chão; ramos floridos, colocados em grandes vasos, formavam como que uma abóbada odorante por cima de um leito de repouso, feito de cedro e marfim, e cujos coxins, de púrpura, sumiam-se quase sob um lençol de rosas e de flores de lis.
A cabeceira do traiçoeiro leito, estava um tamborete de marfim.
Horemseb examinou todos esses preparativos com meticuloso e vivaz olhar, e após, retirando do bolso pequeno frasco de vidro azul com ranhuras amarelas, aspergiu com o conteúdo o leito florido, atirando depois o vidro para um recanto.
Feito isso, saiu, fechando cuidadosamente a porta, retomou o caminho do palácio e já se achava bastante próximo quando soluços ruidosos o fizeram parar, e apercebeu Kama, fora de si, cabeleira esparsa, vestimenta em desordem, buscando-o, evidentemente, a correr em todas as direcções.
Avistando o príncipe, deu selvagem grito e atirou-se insensatamente a ele, que a abraçou, apertando-a ao peito e passando-lhe a gélida mão no incendido rosto, tentando extinguir, por doces palavras, o convulsivo soluçar.
Embalando-a assim, ao som da sua sonora e melodiosa voz, enlaçou-a pela cintura, amparando-a a caminhar, e a conduziu pouco a pouco, para o pavilhão, onde a deitou sobre o colchão de flores, ficando ele sentado no tamborete ao lado.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 31, 2017 8:53 pm

A moça nenhuma resistência opôs; braços rodeando o pescoço do príncipe, cabeça encostada ao ombro, ela parecia imersa num torpor de paixão extática.
Apenas os olhos, voltados para os lábios de Horemseb, falavam ardente linguagem.
Então, ele se curvou para colar a fria boca à de Kama, num beijo longo, sufocante, mortal, em que foram fundidos todos os sofrimentos da inocente vítima, e no qual também pareceu extinguir-se a sua vida, porque, quase instantaneamente, um tremor lhe agitou o frágil corpo, embaciaram-se-lhe os olhos, enrijaram-se as pequeninas mãos e a cabeça recaiu inerte, afundando no lençol de flores.
Horemseb endireitou-se, lívido qual um cadáver; abundante suor perolava-lhe a testa e seu robusto corpo tremia como se estivesse acometido de febre.
A passo vacilante, deixou o pavilhão, e, com olhar inexpressivo, foi para um banco, sob uma árvore, e nele se deixou cair, apertando a cabeça de encontro à fria casca do tronco.
Mais de uma hora passou em absoluto silêncio.
Gradativamente, a friagem da noite espaireceu o torpor, a prostração produzida sobre o próprio treinado organismo do príncipe pela acção sufocante dos aromas deletérios que olfactara.
Recompondo-se, alisou fortemente os cabelos com as mãos, depois do que retirou do cinto pequeno frasco de gargalo pontudo, fechado por um tampo de ouro preso por curta correntezinha a uma pequena asa, e cujo conteúdo cheirou repetidas vezes, aplicando também a dita essência em fricções na testa e têmporas.
Com isso, todo o seu vigor pareceu retornar.
Levantou-se, fez ligeira caminhada na aleia, estirou braços e pernas, e depois, em passadas vivas e lentas, subiu de novo ao pavilhão.
À claridade discreta das lâmpadas, a escrava estava em decúbito no leito de repouso, imobilizada; um ditoso sorriso parecia condensado nos lábios lívidos; palor cadavérico Invadira o sedutor semblante.
Horemseb contemplou-a por breves minutos, com estranha expressão, misto de admirarão e crueldade; mas, refreando imediatamente qualquer impulso mais imperativo, ergueu o corpo da jovem, levando-o nos braços para fora, e rumou para a morada do sábio.
Cheio de impaciência e evidentemente accionado por excitação fanática, Tadar aguardava-o na primeira câmara.
Mudara a vestimenta costumeira: trazia agora um avental de tecido preto, que lhe descia às rótulas, bordado de bizarros desenhos; sobre o peito nu, suspenso por elos de ouro, um largo peitoral, também de ouro, com o desenho de alada mulher, despida, de boné pontudo na cabeça, sustendo os selos com ambas as mãos, e tendo em derredor, grupadas, multas figuras horrendas, com cabeças e caudas de animais.
Um boné preto, cónico, ornado com dois chifres dourados, completavam a indumentária do velho sábio.
Sem trocar palavra, os dois passaram ao aposento do tanque e do qual todas as cortinas estavam suspensas.
A luz lunar penetrava em ondas pelo tecto aberto, clareando fantasticamente a bizarra planta que ali florescia e bem assim a plataforma onde estavam postos um altar de alabastro, baixo e quadrado, e uma pequena mesa, em cima da qual se viam um prato cheio de terra, dois vasos esmaltados de diversos matizes, um par de copos e uma faca de reluzente lâmina.
Horemseb depositou o corpo da escrava sobre o altar sacrificatório, afastando-se depois alguns passos para permanecer de pé, mãos unidas ao peito, a direita sobre a esquerda.
O temor e o recolhimento estavam espelhados no seu semblante.
Tadar abriu as vestes da moça, e, armando-se com a faca, ergueu o braço e encetou, em voz baixa, mas vibrante e cadenciada, uma conjuração, evocando Astarté e determinando aos demónios submeterem à sua vontade as forças da Natureza. Terminado o esconjuro, desceu a lâmina, enterrando-a no peito da desfalecida vítima.
Viu-se então horrível espectáculo; um estremeção sacudiu o corpo de Kama, abriu os olhos, velados, mas transbordantes de espanto, um gemido abafado saiu-lhe da boca entreaberta...
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 31, 2017 8:54 pm

Depois, tudo cessou.
Tadar retirou a faca, e uma caudal de sangue rubro jorrou borbulhante do ferimento.
O sábio encheu alternativamente os dois copos, que ele e Horemseb haviam aproximado, e beberam deliciados...
Uma terceira porção de sangue, enchendo novamente um dos copos, foi espargida sobre os rebentos da estranha planta, que pareceu estremecer e colorir-se de púrpura debaixo da sangrenta rega.
A seguir, Tadar amassou com sangue a terra preparada, recobrindo as raízes, cortou as duas flores desabrochadas e as encerrou meticulosamente nos vasos esmaltados, acompanhando todos os movimentos com esconjuros ritmados, ora a meia voz, ora alta, e gestos místicos.
Terminada esta primeira parte do sacrifício, pegou o cadáver e, ajudado por Horemseb, saiu, recuando, do pavilhão.
Após atravessar o lago, parou, fez voltear três vezes o corpo, e a passo acelerado caminhou para a pirâmide, precedido do príncipe, que abriu lestamente a grade de entrada.
O colosso, aquecido desde horas antes, expandia calor sufocante, e sua vizinhança devia ser mais do que desagradável aos dois infelizes pretos, que, agachados junto da saída, sorviam avidamente o ar que vinha de fora.
À chegada do senhor, ambos correram para cada um dos lados do deus e pegaram as longas correntes presas às mãos do mesmo.
Nesse ínterim, entrava também Tadar, que, entoando um cântico estranho, selvagem, subiu uma escadinha portátil postada ante a entrada e que o colocava quase à altura dos joelhos da estátua sobre os quais atirou o corpo que conduzira. Tão logo os dois escravos entesaram as correntes, o estômago de bronze abriu lentamente, deixando sair um feixe de labaredas, e o ligeiro fardo encurvou-se e desapareceu no abismo incandescente, e a abertura fechou.
O sábio, então, desceu, permutou um abraço com Horemseb, felicitando-o por haver bebido o elixir da vida.
Depois, regressou ao pavilhão, enquanto o príncipe se entregava à tarefa de repor tudo em ordem.
A lousa de pedra que fechava a entrada da pirâmide foi recolocada, e os dois pretos novamente acorrentados na respectiva choça.
Mudos, providos apenas da nutrição indispensável, cada oito dias, trazida por servos, igualmente mutilados, os infelizes não poderiam trair qualquer indício desses horríficos mistérios.
Estranhas e silenciosas sentinelas velavam junto do cruel Moloc, que, sorrateiro, se havia deslizado e estabelecido em Mênfis, esse centro de elevada ciência e da civilização elegante e requintada do Egipto.
Dois dias mais tarde, Horemseb veio encontrar o mestre, à tarde, e, após curta palestra referente ao sacrifício da antevéspera, disse:
— Tenho de te falar de várias coisas importantes, Tadar.
Em primeiro lugar:
decorridos os oito meses de abstinência com a qual me preparei para receber o elixir da longa vida e da eterna juventude, tu me autorizas a fruir de novo os prazeres materiais?
— Sim, meu filho, durante três meses tens liberdade de gozar todas as alegrias que a vida oferece a um homem robusto e são, da tua hierarquia e idade; mas, recorda-te de que, se desejas ver o futuro, de verás submeter-te a uma nova abnegação de dez meses, porque somente em face de uma alma impassível se desvenda o desconhecido, somente um corpo de têmpera e purgado pelo jejum se torna apto a sentir e contemplar o invisível.
— Obedecerei; submeto-me a tudo, pois quero conhecer o destino que os Imortais me reservam — respondeu Horemseb, com resolução sombria.
Adquirindo a vida eterna, não veremos ciclos infinitos desenrolarem-se ante nossos olhos?
Quiçá, ao extinguir-se a derradeira dinastia dos Faraós, quando os destinos do mundo estejam prestes da sua meta, viveremos ainda e sempre; nós, invulneráveis às misérias dos mortais, salvos dos quarenta e dois(17) terríveis juízes que pesam os corações dos homens...
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 31, 2017 8:54 pm

Porvir esplêndido!
Que é que não mereça ser sacrificado para te conhecer, para saber o que seremos, como viveremos, quando, então, milhares de gerações terão adormecido no sepulcro?
Animara-se ao falar:
exaltação extática iluminava-lhe o rosto.
Tadar escutara-o, com orgulhoso sorriso nos lábios.
Olhos cintilantes, inclinou-se e disse, em voz entrecortada:
— Sim, quanto dizes cumprir-se-á; viveremos eternamente, e o futuro erguerá para os nossos olhos suas dobras misteriosas.
Durante minhas mais recentes orações e experiências, Moloc, em pessoa, apareceu-me e revelou que, tocado pelas nossas preces e incessantes sacrifícios, concordava em ser nosso guia.
Horemseb recuou, descorado e estremecido.
— Viste o deus?
Qual é o seu aspecto?
— Sua estatura é de proporções estarrecentes; um manto esverdeado, sulcado de flamas, flutua em seu redor; suas asas negras e imensas alçam-se para o céu qual enxame; o olhar é coberto por um véu, mas a voz tem a semelhança de um vento de tempestade, mesclado com o crepitar de braseiro.
Essa terrível divindade prometeu-me auxílio.
— Feliz és tu, Tadar, grande pelo saber e pelo mérito, se um tal deus te favorece.
Quanto a mim, permanecerei teu fiel discípulo, e não falirei, nem a ti nem à divindade.
E agora, mestre, ouve-me ainda, e diz-me se aprovas o que tenciono fazer.
Quero ir a Tebas e ali passar o tempo de liberdade que me concedes.
Tenho duas razões para esta viagem: uma é o dever imperioso de saudar Hatasu e de lhe oferecer os votos de feliz ascensão, e que, para um príncipe da sua casa, já chegam com atraso; o outro é que, segundo indagações feitas por Hapzefaá, pode ter-se certeza de que a miserável Neftis está refugiada na Capital.
Minha permanência dará ensejo de fazer, sem causar reparo, as diligências para captura dessa mulher, reaver a ânfora furtada, e fechar-lhe a boca para sempre.
— Teu projecto é razoável, meu filho, e eu o aprovo.
— Escusado dizer que, durante minha ausência, serás aqui o senhor obedecido tal qual eu o sou.
Agora, a derradeira questão:
sei, por intermédio do fiel Hapzefaá, que muitos boatos de suspeita circulam a meu respeito; que os padres de Mênfis me acusam de irreligioso, sendo que tais malévolas suspeitas da parte destes poderiam levantar desconfianças na corte e acarretar consequências mais desagradáveis ainda.
Para opor um dique a esses falatórios e contentar a casta sacerdotal, pretendo, antes da minha viagem, tomar parte em uma grande procissão religiosa, depois sacrificar solenemente no túmulo de meu pai.
Ofenderei Moloc com semelhante acto?
Cínico e gélido sorriso pairou nos lábios do velho sábio.
— Não temas nada, meu filho:
a fé, a prece, impulso da alma, é que estabelecem o elo entre o homem e a divindade, e nunca as fórmulas exteriores.
Vela, pois, tranquilo, pela nossa segurança.
Moloc vê o teu fiel coração, e ele, e assim todos os deuses, prescrevem o respeito pelos mortos.
— Tu me libertas de todo escrúpulo.
Ainda esta noite, expedirei um mensageiro a Tebas, para que preparem o meu palácio.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 31, 2017 8:54 pm

(17) 42 JUIZES - Após a morte, o Espírito seguia para o mundo inferior, para submeter-se, no Amenti, a Julgamento, sob a presidência de Osíris, o Espírito do Bem, rodeado de quarenta e dois Espíritos dessa "outra Terra", um para cada pecado capital, ornados com penas de avestruz, emblemas da Verdade e da Justiça.
A sombra, duplo (Ka) ou Espírito começava por dar as razões pelas quais rogava ser acolhido por Osíris, mencionando todos os pecados não cometidos por ele, suplicante, no decurso da vida corporal.
O Julgamento se fazia, pesando a sinceridade das declarações e preces do Espírito.
Num dos pratos da balança era colocado o coração do Ka, e no outro, servindo de peso compensador de equilíbrio uma pena de avestruz.
Se o resultado fosse favorável, o Espírito seguia para as campinas de Ba, o deus-sol; se desfavorável, o condenado era expedido para o Inferno, região dividida em 75 distritos, guardados por demónios providos de gládios, onde sofria torturas inauditas (Le-tourneau, La Kvolutlon Keligleuse, ed. Vigot, Paris, 1898, páginas 313 e seguintes, narrando o curioso júri e suas consequentes penalidades.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 01, 2017 8:14 pm

VI - OS PROJECTOS DE NEFTIS

Após viagem bastante longa e sofrivelmente tediosa, embora isenta de qualquer ocorrência incómoda, Neftis desembarcou em Tebas, dirigindo-se, em companhia do dedicado Anúbis, à residência do cunhado.
Durante horas de inacção forçada, a jovem readquirira a calma e reflectira no passado e no futuro.
A lembrança de Horemseb ainda lhe enchia a sensibilidade; mas, não mais o amava com insensata paixão, e compreendia agora que ele tivera para com ela apenas uma crueldade cínica, que a excitara para rir dos seus sofrimentos, divertindo-se com o seu coração de mulher, tal qual o gato brinca com um rato...
No entanto, quando o desgosto e a raiva lhe inspiravam a ideia de denunciar o príncipe e os crimes inauditos que se cometiam no palácio, o coração fraquejava, e percebia que, apesar de tudo, aquele homem dominava-a ainda, e jamais teria coragem de arruiná-lo.
Não, jamais alguém devia conhecer o segredo da sua misteriosa desaparição, e para Horemseb devia sumir-se, também para sempre, por isso que, conhecendo-o suficientemente, sabia estar condenada se ele a encontrasse.
E sem que de tal se apercebesse, profunda transformação, moral e física, se operara nela, depois da misteriosa fuga:
expansiva e apaixonada por natureza, superexcitada pela acção do veneno às raias da loucura, dir-se-ia que toda essa vivacidade, toda essa exaltação de sentimento se extinguira sob súbito gelo que lhe invadira o ser.
Estava calma, fria; seu espírito, aguçado e como que subtilizado, dominava todos os impulsos do coração, que, entorpecido, indiferente, parecia bater mais lento; o sangue não a escaldava, conforme acontecia outrora, nem lhe coloria as faces, tornadas pálidas, de tonalidade mate semelhante à da cera; estranho fulgor brilhava nos olhos; a boca, antes risonha e gárrula, se havia contraído numa expressão sombria, dura e amarga.
Mal se poderá imaginar a estupefacção de Roma ao ver chegar, viva, em sua casa, essa Neftis, tida por morta desde havia quase um ano; mas, porque as obrigações do templo o chamassem, entregou a instalação dos recém-vindos aos cuidados da sua velha despenseira, aconselhando repouso à jovem, e transferindo as explicações para depois do jantar.
Efectivamente, terminada a refeição, o jovem sacerdote conduziu a cunhada para o terraço e solicitou-lhe explicar o mistério da desaparição e o do regresso, e, enfim, onde e de que maneira vivera durante tal interregno.
— Poderia mentir, satisfazer tua curiosidade, legítima, com uma fábula — falou Neftis, depois de algum silêncio — e assim vou proceder com relação às demais pessoas; mas, a ti, dirigirei apenas uma rogativa: não me perguntes nada, Roma, pois coisa alguma poderei dizer-te sobre este episódio da minha vida.
Juro-te, porém, que mereço sempre a tua estima, e que comigo nenhuma desonra entrou em teu lar.
— Isso me basta, e eu te agradeço a franqueza — disse o moço sacerdote, com um sorriso.
Neftis apertou-lhe a mão, e transferiu o assunto da conversa para a falecida irmã, causas da morte e pormenores que ignorava.
À menção de Noferura, sombreou-se o semblante do padre, e o breve relato que fez das circunstâncias referentes à morte da mulher ressentiam-se tão visivelmente de penosa repulsa, que Neftis notou isso.
— A razão que a levou a precipitar-se no rio, tão inopinadamente, permanece segredo — concluiu Roma.
Os remadores julgam que repentina loucura a invadira, e isso em consequência de um aziago encontro que ocorreu com a barca do feiticeiro de Mênfis, que traz desgraça a quem o avista.
— O feiticeiro de Mênfis! — repetiu Neftis, empalidecendo repentinamente.
— Isto é, o nobre príncipe Horemseb, que o povo estúpido tem, não se sabe por que, na conta de nigromante.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 01, 2017 8:14 pm

Mas... que tens tu?
— Nada. Apenas notei que falavas de Noferura, com evidente má vontade, e isso me fere, tanto que desejo saber os motivos de tal atitude.
— Por minha vez, serei franco — respondeu Roma, depois de breve hesitação.
O carácter de tua irmã era violento e apaixonado em excesso, e sua conduta deu-me tais aborrecimentos que eu não a pude amar de acordo com as suas exigências.
Ela, então, se permitiu ter comigo um procedimento ignóbil e criminoso, usando um malefício que fora buscar em Mênfis, onde estivera, em seguida ao teu desaparecimento, a pretexto de consolar Hor e Setat. Desde o retorno dessa viagem, comecei a sentir por ela um amor que não tinha nada de humano:
fogo circulava em minhas veias, meus sofrimentos eram indescritíveis, e somente junto dela encontrava relativo repouso.
Mais tarde, recordo que, durante todo o tempo da minha loucura amorosa, era eu perseguido pelo aroma sufocante de uma flor que Noferura parecia exalar, e que, logo que tal odor me faltava, eu me sentia como que privado de ar.
Certamente teria sucumbido de esfalfamento ou perdido a razão, se os deuses não se apiedassem de mim.
Quando ela foi para junto de Setat moribunda, eu a acompanhei, a fim de não nos separarmos um dia que fosse...
Desde o momento de sua morte, o encantamento cessou, e basta a sua lembrança para inspirar-me uma repulsão indominável.
Pálida, sobrancelhas franzidas, Neftis ouvira a narrativa, da qual o sentido oculto ela compreendia bem melhor do que o narrador.
— Eu te compreendo, e lamento haver evocado essas recordações desagradáveis — disse afinal.
Sabes, porém, se Noferura trouxe de Mênfis o meu cofrezinho de jóias?
Eu guardava nele algumas lembranças de minha mãe, e seria ditosa em reavê-lo.
— Imediatamente virá às tuas mãos, pois mandei que o guardassem.
E, alguns minutos mais tarde, a encarregada do guarda-roupa trouxe o cofrezinho, que Neftis remexeu, retirando dele um anel que pôs num dos dedos. Depois, displicente, indagou:
— Não sabes se minha irmã trouxe ou guardou entre as jóias um precioso colar de placas esmaltadas, presas por anéis e escaravelhos?
Era da maior estimação para mim, presente de núpcias dado à minha falecida mãe.
Placas esmaltadas a azul e vermelho?
Sim, lembro:
Noferura usava-o sempre, desde o regresso de Mênfis, por lembrança de ti, segundo me disse, e o conservava no momento do acidente.
Mas, depois disso, não mais tornei a ver a jóia: roubaram-na, ou caiu nas águas do Nilo, desprendido durante os movimentos da retirada do corpo?
Ignoro; estava perturbado demais para cogitar disso, e só agora tu me fizeste recordar essa jóia.
Deploro sinceramente, cara Neftis, tenhas sido despojada de tal prenda, mas, espero que me dês alegria de aceitar alguns adornos de uso de tua irmã, em ressarcimento da que per deste.
Neftis agradeceu, e tendo sabido o que desejava quanto ao colar, mudou de assunto, falando do futuro, de Antef, o noivo que continuava fiel à memória da desaparecida e que provavelmente quereria reclamar seus direitos, de vez que ela estava viva...
A este propósito, Roma achava que o mais sensato era transferir-se ela para Bouto, e ali celebrar o matrimónio.
— Para uma jovem, na tua falsa posição, é duplamente necessário colocar-se sob a protecção de um esposo.
O mistério destes últimos meses não te trouxe ventura, isso está escrito em teu semblante...
Mas, se não tens de te ruborizar desse passado, olvida-o nos novos deveres de esposa, e crê que só uma sincera amizade me inspira este conselho que te dou.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 01, 2017 8:15 pm

— Não tenho dúvida, Roma, e sei que Implante generoso para não me acolheres de má vontade em teu tecto.
Além disso, o meu próprio bom senso diz que tens razão; mas, tão grave resolução deve ser meditada; dá-me alguns dias para reflectir.
— Sem dúvida, tu decidirás quando e como quiseres.
És para mim uma irmã, Neftis, e, com este título, teu lugar está marcado em minha casa.
Agora, permite que te deixe, porque tenho de ir à casa de Penbesa, um velho pastor do templo de Amon e meu amigo, que está enfermo e a quem prometi visitar.
Ficando a sós, Neftis voltou ao seu aposento, onde se estirou num leito de repouso, entregando-se a sérios pensamentos.
Roma tinha razão: era preciso regularizar sua posição e erguer uma barreira entre ela e o passado, a respeito do qual não podia nem desejava desvendar o mistério.
Também sob o aspecto de sua segurança, Bouto era asilo bem recomendável, pois, lá, Horemseb não a procuraria decerto, e, quanto a Antef, ela o desposaria, se a tal se resolvesse...
Não possuía ela um recurso seguro de lhe reavivar o amor, caso houvesse diminuído, e de vencer escrúpulos, caso ele os tivesse? Nesse ponto de suas reflexões, a imagem do jovem oficial desenhou-se em seu espírito.
Ele lhe agradara muito outrora: airoso, espiritual, rico, e seguro de brilhante futuro, pois era sobrinho de Semnut, Antef parecera-lhe sempre um óptimo partido, e de bom grado prometera desposá-lo.
A nomeação do moço oficial para comandar a guarnição de Bouto retardara a realização do consórcio; mas, impressionante carta de Antef, decidira Setat a conduzir a sobrinha até Bouto, quando a fatal aventura com Tuaá veio tudo transmudar.
Mas, nesse instante, o pensamento de matrimoniar-se com Antef inspirou a Neftis uma quase repulsa; a figura do antigo noivo pareceu-lhe tão apagada, seu exterior tão vulgar, o porvir em comum tão árido e tão mesquinho!
Entre ela e Antef projectavam-se o vulto pálido, os sombreados olhos de Horemseb, aquele olhar fascinador do bruxo, que podia gelar as almas com o desdém, mas também cativar, quando, sorridente, pródigo em carícias, prometer infinita felicidade.
— Ah! Horemseb — ciciou ela para consigo própria, com profundo suspiro — que fatalidade me força a amar-te ainda, cruel de quem devo fugir?
Porque, junto de ti, vela a morte, e nenhuma piedade detém o punhal na tua mão.
E na reminiscência surgiu a imagem do rapaz que a prevenira da sorte que a aguardava, e, depois, pareceu-lhe regressar às sombreadas aleias do jardim onde se desenrolavam as poéticas e fantásticas danças, ao palor da Lua, e também as espantosas peripécias das orgias, a cavaleiro das quais se entronizava o nigromante, qual um deus.
Muitas vezes assistira, acocorada por detrás do trono, a esses espantosos mistérios, e à sua recordação, agora, um arrepio percorria-lhe o corpo.
Não: era necessário repelir toda a evocação do passado e tentar reaver a paz no amor de Antef.
Repentinamente, infernal ideia sulcou-lhe o cérebro, fazendo-a estremecer e avermelhar o rosto: por que não lhe ocorrera, desde antes, que Tutmés, o pretendente ao trono, residia em Bouto, sob a vigilância de Antef, o antigo noivo?
Sem dúvida, Tutmés, banido e prisioneiro, interessava mediocremente; mas, se subisse ao trono, que não daria a quem o ajudasse para tal evento?
E por que não seria ela, Neftis, tal colaborador?
Não possuía um bruxedo ultra poderoso ao qual Hatasu estaria subjugada tal qual o mais humilde aguadeiro?
Se conseguisse propiciar a evasão do jovem rei, munindo-o de uma rosa encantada para dominar o coração da rainha, Tutmés recusaria alguma coisa a quem lhe houvesse prestado semelhante serviço?
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 01, 2017 8:15 pm

Uma vez escolhido esse caminho, Neftis começou a ruminar o plano, sazonando-o e elastecendo-o:
pensamentos mais e mais ambiciosos derramavam-se na imaginação...
Não poderia, ela própria, fazer-se amar por Tutmés, e, ao seu lado, sentar-se no trono do Alto e Baixo-Egipto?
Hatasu era mortal, e, pelo carácter e pela aversão que lhe votavam os padres, poderia perder a vida ao mesmo tempo que a coroa.
Neftis, então, tomaria o seu lugar, e esse mesmo Horemseb, que havia motejado dos seus sofrimentos, prosternar-se-ia e beijaria o chão diante dela.
As faces de Neftis abrasavam, seus olhos esverdeados pareciam expelir chamas; ela já se via rainha, adorada do Faraó, que o enfeitiçamento tornava escravo das suas mais leves vontades, e, a seus pés, dobrava-se o mago de Mênfis, trémulo ante a sua cólera e a sua vingança.
Mas, a imagem do príncipe possuía o condão de absorver e desbotar qualquer outro sentimento.
Empalidecendo de súbito, Neftis contraiu as mãos de encontro ao peito.
— Ventura, porvir, sossego, tudo, Horemseb, me furtaste; meu cérebro está lúcido, meu sangue já não ferve, e, no entanto, meu rebelde coração não quer esquecer-te...
O mando supremo, o amor do Faraó, as lisonjas do Egipto, tudo eu trocaria por um beijo dos teus lábios, para ver teu olhar, na embriaguez do amor, mergulhar no meu!
E cobriu o rosto com as mãos, de novo se abismando nos seus pensamentos; mas, de pronto, ergueu-se, atirou para as costas a farta e cuidada cabeleira ruiva, e murmurou, em decidido tom:
— Basta de louco sonhar! Horemseb é incapaz de amar igual aos outros homens; seu coração está ressequido e vazio; ele não deve ser empecilho para que eu atinja meus desígnios.
A caminho de Bouto, e, lá, os deuses me inspirarão!
No dia imediato, conversando com o cunhado, Neftis declarou-lhe haver reflectido e deliberado seguir para Bouto, mas, antes, desejava visitar uma jovem parenta que habitava em Tebas e a quem queria pedir a acompanhasse.
— Mentchu é viúva — acrescentou —, e porque o marido era primo de Antef, isto me dá o direito de a visitar.
Se, conforme espero, ela aquiescer, será um grande auxílio, pois não me conviria chegar sozinha, ignorando se o meu antigo noivo me guardou fidelidade, e também se, até o dia do casamento, poderia alojar-me no palácio, de onde provavelmente as mulheres são excluídas.
Em companhia de uma viúva, sua parenta, minha situação será decente, e tudo se poderá realizar sem precipitações inoportunas.
— Aprovo totalmente tua resolução, minha cara Neftis.
Minha liteira e meu pessoal estão ao teu dispor quando quiseres realizar a visita e, na época de tua partida, obterei de Semnut uma licença para penetrares em Bouto, que é considerada fortaleza.
A visita de Neftis à parenta colheu o esperado êxito:
Mentchu, moça e formosa, contando vinte e três primaveras, recebeu-a de braços abertos, e, sem hesitações, declarou estar disposta a acompanhá-la.
Alegre, frívola e ávida de prazeres, a jovem viúva entediava-se, porque, embora decorrido o lapso de tempo de luto, diversas complicações de família impediam-na de aparecer em público, conforme desejava, de modo que a perspectiva de uma viagem lhe pareceu oportuna distracção concedida pelos deuses.
Ficou assentada a partida, tão depressa Roma obtivesse a permissão de entrada na cidade, e Mentchu, preocupada com os preparativos da viagem, não cogitou de aprofundar a veracidade do que Neftis lhe impingiu sobre a nebulosa desaparição.
Acreditou nas palavras da parenta.
A intervenção de Roma obteve igualmente êxito, e ao término de dois dias anunciou, satisfeito, à cunhada que o poderoso conselheiro de Hatasu acolhera benévolo a solicitação e expedira o salvo-conduto.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 01, 2017 8:15 pm

Mais ainda: por feliz coincidência, a viagem ia ser feita em companhia de alto dignitário e sua escolta.
— O escriba real, Hornecht, que encontrei hoje, saindo de palácio — narrou o padre —, segue depois de amanhã em visita de inspecção, tomada de contas dos recebedores de impostos; escalará em Bouto, e prometeu levar-vos, sãs e salvas, até junto de Antef.
Fareis a viagem com toda a comodidade.
Tudo assim combinado, Neftis teve apenas de cuidar da bagagem.
Com habitual generosidade, Roma havia abastecido largamente de todas as provisões a cunhada (que à sua casa chegara com a roupa do corpo), inclusive um belo enxoval.
Na sua caixinha de valores, novamente acrescida de adornos que haviam pertencido a Noferura, levava, cuidadosamente acolchoada, a pequena ânfora vermelha furtada ao enfeitiçador, e por ela considerada agora a base de sua futura fortuna.
No intervalo desses dias, teve oportunidade de fazer estranhas descobertas quanto às propriedades do precioso líquido:
durante o dia, seu odor era fraco; à noite, a exalação aumentava a ponto de se tornar sufocante.
Constatara igualmente que, derramado sobre uma rosa, o deletério perfume conservava sua força irradiante mesmo de dia, e ocasionava cefaleias e aturdimento, se aspirado; e, mais ainda, que, banhando imediatamente o rosto e as mãos em água fria, o efeito do veneno se atenuava.
Na data aprazada, as duas encetaram a viagem.
Mentchu estava esfuziante de alegria, não cessando de tagarelar sobre Antef, de anunciar o seu contentamento, a surpresa, ao ver chegar, viva e formosa, a noiva que fora chorada, como se perdida para sempre; depois, conversava e ria, com Hornecht, quando o galante escriba real, viúvo, de média idade, se aproximava do carro de quatro rodas, tolda de couro, que conduzia as belas protegidas.
Neftis partilhava escassamente de tal animação.
Preocupada e silenciosa, concentrava-se completamente no amadurecimento e pormenorização do plano que arquitectara, fazendo da jovem viúva mero instrumento para desembaraçar-se de Antef (pois desejava poder agir livremente junto de Tutmés), e, ao mesmo tempo, para experimentar em ambos a dose e os efeitos do enfeitiçamento.
Nesse intuito, comprara um colar de madeira perfumada e um escaravelho de prata, oco.
O colar foi imerso durante muitas horas em óleo temperado com algumas gotas de elixir, e o escaravelho recheado de pétalas igualmente saturadas do perfume.
O resultado pareceu-lhe satisfatório.
Quanto a Tutmés, resolvera não lhe provocar amor, pois era conveniente que ele alcançasse antes situação de destaque.
Quando Hatasu morresse ou fosse destronada, então sim, conviria atraí-lo e desposá-lo, caso ela própria, a esse tempo, não houvesse preferido seguir uma ideia que a tomara.
Com o coração cheio de uma inapagável imagem, todo pensamento de amor e de pertencer a outro homem lhe parecia odioso; mas, se o Faraó ordenasse a Horemseb desposá-la, o príncipe não ousaria recusar, e muito menos arriscar-se em matar a mulher protegida pelo rei.
Neftis estava persuadida de que Tutmés, agradecido pelo que lhe teria aproximado da liberdade e do trono, daria deferimento a essa pretensão.
Relativamente ã felicidade problemática, resultante de tal matrimónio, não se preocupava:
poder dar a Horemseb o nome de — esposo, ter sobre ele direitos inatacáveis, eis o apogeu dos seus desejos.
O que sobreviesse, pouco importava, satisfeitos que fossem o seu ciúme e seu orgulho.
Aproximava-se o término da jornada, quando Mentchu, cuja loquacidade não esmorecia, e que se impacientava com o silêncio e as divagações mentais da companheira, perguntou, pegando-lhe a mão:
— Que tens, Neftis?
Por que estás triste?
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 01, 2017 8:15 pm

Não te rejubilas em rever Antef?
Lembro-me de que, quando o meu pobre Ptahotep se ausentou para a guerra, eu contei as horas até seu retorno, e esses momentos pareceram-me infindáveis, e quase adoeci de alegria ao revê-lo.
— Ptahotep era teu esposo, e assegurada estava a sua afeição por ti, ao passo que eu vou ao encontro de um noivo que, há doze meses, me considera morta.
Admiras-te de que eu tema esse primeiro encontro, que talvez me demonstre estar esquecida?
— Podes recear isso? — exclamou a inconsequente Mentchu.
Tu és tão bela, tão diferente das outras, com a tua tez lisa, teus olhos glaucos brilhantes e teus cabelos de ouro!
Não; não. Estou certa de que, ao primeiro olhar sobre ti, o amor de Antef se reacenderá mais ardente do que nunca, e terá um pensamento apenas: abreviar a vossa união!...
Interrompeu-se bruscamente, golpeando a fronte com as mãos e repetindo a exclamação:
— Ah! louca, oh! estúpida que sou...
Que fui fazer?
— Sou uma cabeça sem miolos; esqueci em casa um pacote que Tachot, a irmã de Antef, me incumbiu de lho entregar.
Contém um colar com amuletos.
— Se é apenas isso não te preocupes — respondeu Neftis, a sorrir.
Tenho um lindíssimo colar, ornado de amuletos de madeira cheirosa, comprado há pouco tempo, porque me encantou o raro e admirável perfume que dele se desprende.
Eu to darei, e Antef ganhará com a troca, e eu nada perderei, porque meu será depois das núpcias.
Quanto a Tachot, quem lho dirá? Até que se reencontrem, o fútil incidente estará esquecido.
— Agradecida, muito obrigada!
És verdadeiramente boa e salvas-me de grande embaraço.
Ao anoitecer, chegaram a Bouto e fizeram-se conduzir à residência de Antef, o qual julgou cair para trás ao reconhecer Neftis.
Cheio de sincera e plena alegria, o jovem aceitou, sem as aprofundar, as explicações de Neftis sobre o desaparecimento, declarou que o casamento devia celebrar-se dentro do menor prazo possível, e alojou a ambas no seu apartamento, contentando-se ele com um leito provisório na antecâmara do príncipe, a quem informou da sua inesperada felicidade.
Antes de acomodar-se para dormir, Neftis desembrulhou o colar envenenado e o entregou à viuvinha, evitando cuidadosamente aspirar o perfume deletério.
Mentchu, ao contrário, sorveu o odor, sem desconfiança, e ficou encantada.
— Ah! Que admirável perfume!
Nunca respirei algo semelhante, nem vi jamais uma tal jóia, e confesso-me pesarosa por ter de entregá-la a Antef...
Estranho sorrir aflorou aos lábios de Neftis, que pensou:
— Os deuses são-me propícios.
Por este modo, eu o prenderei mais seguramente a ela.
E em voz alta:
Se, de facto, esse colar tanto te apraz, aceita-o por dádiva da minha parte, cara Mentchu, e desculpa-te depois com Antef do teu involuntário esquecimento.
Dou-te o colar, apenas com uma condição: a de que o usarás frequentemente.
— Agradecida — disse Mentchu, satisfeita, chocalhando o colar nas mãos.
Aceito, e, para executar conscienciosamente a tua cláusula, começarei a usá-lo desde amanhã, todos os dias.
No dia seguinte, Neftis achou ocasião de dizer, divertindo-se com isso:
— Repara, Antef, no colar de Mentchu.
Ele te estava destinado: mas, essa formosa traidora, não satisfeita de esquecer o presente que Tachot te enviava, confiscou esse colar que eu lhe dera para remediar o esquecimento.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 01, 2017 8:16 pm

Exala um perfume delicioso, desconhecido, porém.
Poderias dizer-me de que madeiras são feitos esses amuletos?
— Eis um lindo procedimento, furtar assim um objecto que me era destinado! — comentou o oficial a rir.
Mas, vejamos o infiel perfume que a Mentchu inspirou tal rapacidade.
Inclinou-se para a viúva, que, faces avermelhadas, parecia nervosa e excitada, e sorveu por várias vezes, curiosamente, o aroma evolado dos amuletos presos ao pescoço de Mentchu.
Neftis, que o observava, viu que o rosto se purpureava subitamente e que o olhar deslizava, com expressão demudada, para as espáduas desnudas, e bem assim para as faces enrubescidas de Mentchu.
Em seguida, ele aproximou uma cadeira do local, e, sentando-se, entabulou palestra tão animada, que pareceu esquecido de Neftis.
Alguns dias decorreram, durante os quais houve incoerente mudança nos modos e mesmo no carácter do moço comandante de Bouto:
inesperada e cega paixão parecia impeli-lo para Mentchu.
A presença da noiva se lhe tornara penosa, e buscava em vão dissimular os atuais sentimentos; à fria impassibilidade do seu feitio, sucedera febril e nervosa irritação; negligenciava seu ilustre prisioneiro, servindo-se de mil pretextos para ausentar-se e reunir-se à viúva, a qual também o procurava muito avidamente.
Certa manhã, ao vê-los absorvidos de novo em interminável conversação, Neftis retirou-se discreta (ela sabia que tal momento seria aproveitado para abraços), e encaminhou-se ao jardim onde passeava o príncipe Tutmés, ao qual fora apresentada e com quem palestrara muitas vezes.
Num banco de pedra, à sombra de enorme sicómoro, o jovem banido estava sentado, sombrio e pensativo, mas, ao avistar a jovem, desenrugou os sobrecenhos e um sorriso iluminou-lhe o semblante.
Tutmés era muito sensível à beleza feminina; as paixões começavam a despertar em seu coração, e a presença da formosa mulher era suficiente, no momento, para desviá-lo dos ambiciosos sonhos e fazer olvidar momentaneamente o exílio.
— Bom dia, bela Neftis — disse ele, correspondendo por acolhedora inclinação da fronte ao respeitoso saudar da recém-vinda.
Senta-te perto de mim; vem distrair o pobre prisioneiro, que teu noivo vigila como se fosse um criminoso.
Fala-me de Tebas, onde reinam alegria e vida.
Atraiu-a para o banco, e, fixando-a com olhar cintilante e animoso, acrescentou:
— O amor deve-te uma grande compensação, pelo que tu lhe sacrificas, trocando a Capital por Bouto.
De minha parte, estou assaz satisfeito, e quisera apressar o teu casamento, porque a presença de tão bela e jovem esposa tomaria muito tempo a Antef, libertando-me de sua presença, que se me torna odiosa, por ver nele um carcereiro.
Neftis suspirou, baixando a fronte.
— Duvido, príncipe, que eu venha a ser algum dia a esposa de Antef, pois, durante minha longa ausência, seu coração esfriou no amor por mim, e a formosura da jovem parenta subjugou-o.
— Impossível.
Antef sempre me falou em ti com tanto afecto!
Sua alegria, reencontrando-te, foi tão sincera, que, a meu ver, tu te equívocas e fazes suposições erróneas.
Antef é honesto e espiritual, e preenche com admirável tato as suas difíceis funções para comigo, e, apesar dos irrestritos poderes que lhe deram os meus inimigos, sabe conciliar as obrigações com a deferência que me é devida.
Eu o creio incapaz de uma contradição.
— Conheço o mérito de Antef, e por isso mesmo deploro o havê-lo perdido.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 01, 2017 8:16 pm

O futuro provará, príncipe, que tenho razão.
De resto, eu o estimo suficientemente para não criar embaraços à sua felicidade, e, sem ciúme, cederei meus direitos a Mentchu.
Interrompeu-se, ao aperceber Antef que para eles se dirigia, parecendo superexcitado, com o olhar, habitualmente tão claro e tão impassível, perturbado e indeciso.
— Perdoa, príncipe, ter demorado em vir receber tuas ordens — disse.
Desejas talvez passear ou ir ao templo?
Não, não tive desejo algum, porque tua bela noiva fez-me companhia — respondeu alegremente — e, embora sejas bom companheiro, confesso que a prefiro para guardião da minha pessoa.
Espero, Antef, que não sejas ciumento, e que autorizes tua noiva e futura mulher a distrair-me algumas vezes com as suas narrativas de Tebas, de Mênfis, desse mundo, enfim, do qual estou separado.
— Sentir-me-ei feliz sempre que Neftis possa amenizar a tua solitude, e jamais ousaria ter ciúmes de ti, príncipe! — respondeu Antef, num riso contrafeito, evitando o escrutador olhar da moça.
Zombeteiro e satisfeito sorriso esboçou-se nos lábios de Neftis, enquanto, em pensamento, dizia a si própria, rejubilada:
— A metade da tarefa está realizada; Antef não embaraçará meus projectos.
Novamente, muitos dias decorreram.
O moço comandante empedernia-se cada vez mais em sua louca e cega paixão, partilhada por Mentchu, parecendo indiferente a tudo, esmorecendo a vigilância ao seu perigoso prisioneiro, e fugindo à presença da noiva.
Neftis conduzia-se com a maior discrição, evitando importunar os dois enamorados.
Em compensação, procurava todas as ocasiões de reencontrar Tutmés, que não deixava mais o jardim, no intento de a rever, pois cada vez mais se tornava mmi afeiçoado.
Numa tarde, estavam ambos, conforme de costume, sentados sob o sicómoro, mas a conversação rareava, por isso que sombria preocupação plicava a fronte do exilado e profunda tristeza velava-lhe o olhar, de hábito brilhante e vivaz.
Na véspera, no templo, soubera da morte da avó, e o desaparecimento daquela que o amara sem restrições, sem segunda intenção, pesava fundamente em sua alma e lhe tolhia o fluxo da palavra.
Neftis, em silêncio, observou tal atitude durante algum tempo, mas, depois, inclinando-se para ele, lhe tocou ligeiramente no braço:
— Ergue a cabeça, príncipe Tutmés, e não deixes que o desânimo ensombre tua alma, nem o desgosto entibie a tua energia.
Readquire esperanças e jovialidade, filho de Rá; o deus potente, do qual és instrumento, saberá arrancar-te ao exílio indigno, e — quem sabe? — estás mais próximo do trono do que a esperança mais audaciosa não te fez sonhar?
O jovem ergueu o busto, e, pálido, dirigiu desconfiado e perquiridor olhar aos olhos faiscantes de Neftis, mas, a sua inata perspicácia deu-lhe imediata convicção de que a moça falava sinceramente.
— Vejo que me estimas; porém, engodar-me de vã esperança seria loucura.
Minha irmã Hatasu é demasiado ambiciosa para dividir o trono por segunda vez.
Enquanto ela viver, agonizarei miseravelmente aqui.
E que oportunidade podes ter para arrancar o ceptro àquela férrea mão?
Neftis inclinou-se, aproximando-se ao ouvido do príncipe, e disse, em tom baixo e vibrante:
— Uma força que dobra o mais orgulhoso e doma até a ambição:
o amor impera mesmo sobre os reis!
Hatasu está a isso submetida, qual acontece a todos os mortais; ela te dará lugar a seu lado no trono dos Faraós.
Lívido palor invadiu bruscamente o adolescente rosto de Tutmés; entreabertos os lábios, seus dilatados olhos olhavam a interlocutora com incrédulo espanto.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 01, 2017 8:16 pm

— Divagas, Neftis, e não te compreendo — pronunciou afinal com insegura voz.
Como poderia Hatasu sentir por mim um amor que dominasse sua ambição?
Essa mulher, de espírito e coração viris, é inacessível ao amor.
Além disso, já transpôs a primeira juventude e de há muito, primogénita, me detesta por pretendente e filho ilegítimo de nosso pai.
Não; não; ela jamais terá amor por mim.
— Falas a verdade — disse Neftis, depois de amplo sorriso — e eu, tal qual tu, não ousaria esperar coisa alguma, contando apenas com os meios comuns, se não possuísse o poder de te fazer amado pela rainha.
— E qual é esse meio? — murmurou Tutmés, com a voz afogada pela emoção.
— Eu te darei um feitiço, o qual, se puderes fazer chegar às mãos de tua irmã, inspirar-lhe-á afeição tão profunda, que não poderá mais viver sem ti, e fará com que teu poder sobre ela seja absoluto.
— Realiza isso, Neftis, e não te arrependerás jamais, porque serei grato durante toda a minha vida! — disse o príncipe, olhos brilhando e premindo as mãos da jovem mulher.
E agora revela-me em que consiste o encantamento que possuis.
— É um perfume — segredou Neftis, curvando-se de novo para Tutmés.
Segundo creio, impregnar com ele um papiro que enviarias à rainha bastaria para que te mandasse chamar.
O moço príncipe meneou a cabeça, depois de reflectir:
— Não; esse meio não serve, pois me parece bastante perigoso entregar aos azares do acaso objecto tão precioso.
Quem sabe as desordens que causaria, em que mãos poderia cair, antes de chegar às da rainha?
Antes de tentar algo, preciso estar livre, Neftis, isto é, fugir para Tebas onde o Sumo Sacerdote de Amon e o principal profeta do templo, Ranseneb, me asilarão e ensejarão a possibilidade de aproximar-me de minha irmã, facilitando que eu próprio lhe faça entrega do sortilégio.
— Mas, o mistério do bruxedo deve ser ignorado dos padres — disse ela, inquieta.
— Tranquiliza-te.
Supões que transmitiria semelhante segredo aos sacerdotes, para ficar depois escravizado a eles? Nunca!
Pretendo utilizá-los unicamente para seguro asilo em Tebas e para chegar ao palácio.
Mas, para isso, preciso estar em liberdade.
Sim, é necessário que o estejas — acrescentou energicamente Neftis — e creio que a ocasião de fuga se apresentará muito em breve.
Tens visto que Antef, absorvido com os amores, relaxou consideravelmente a vigilância.
O dia do festim de noivado deve ser o escolhido para a evasão.
Cuidaremos mais tarde dos meios; mas, desde já, deves expedir mensagem ao templo de Amon, para prevenir tua chegada.
O casamento só se fará em data posterior à da resposta.
Deixa a meu cuidado manobrar as coisas até o momento propício.
— É óptima ideia; vou imediatamente comunicar-me com o templo, de onde veio um mensageiro anteontem.
Deveria regressar dentro de alguns dias, mas vou fazê-lo voltar hoje mesmo com a mensagem para Ranseneb, e ele mesmo me dirá quando trará resposta.
Enquanto isso, tomaremos nossas providências.
Vem encontrar-me, aqui, amanhã, cedo, porque ainda tenho muito que te perguntar.
Ficando a sós no banco onde acabava de tecer os fios de futuros eventos, dos quais nem ela própria avaliava sequer a importância, Neftis deu surto a pensamentos sonhadores de brilhante porvir.
A imagem de Horemseb, tornado seu esposo, espelhava-se em seu espírito.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 01, 2017 8:16 pm

Ignorava estar sendo instrumento inconsciente de um desses acasos que mudam o destino de um império, e que, seguindo apenas seus mesquinhos e personalíssimos interesses, ia imprimir ao governo do Egipto um movimento de consequências bem graves.
Mas... as criaturas humanas são cegas, e, felizmente para ela, Neftis não previu coisa alguma do futuro.
Coração inflado de novas esperanças, julgando sentir já o hálito da liberdade e a embriaguez do poder, Tutmés foi ao templo.
O mensageiro fiel, de quem falara a Neftis, era Hartatef.
O príncipe teve com ele e com o Sumo Sacerdote curta conferência, no decurso da qual ficou decidido que o pseudo-escriba retornaria na mesma noite, e estaria de regresso dentro de doze dias, ficando o restante para ser resolvido de acordo com as notícias e os conselhos trazidos de Tebas.
No dia imediato, pela manhã, Tutmés comunicou à confidente as resoluções que assentara, e na sua impaciência rogou que lhe explicasse como deveria empregar o sortilégio para conseguir e conservar domínio sobre Hatasu.
— Dar-te-ei um frasquinho — respondeu ela, sorrindo — e quando tenhas certeza de te aproximares da rainha, derramarás sobre uma rosa rubra algumas gotas do perfume, dando-lhe depois a flor.
Por outro lado, dar-te-ei um colar ornado de amuletos, o qual deverás ter ao pescoço quando lhe falares, colocando-se de modo que o aroma exalado do colar lhe fira o olfacto.
Tal perfume é fortíssimo, e sofrerás um tanto com seus efeitos, mas, banhando repetidamente o rosto e as mãos em água fria, terás alívio.
Enfim, quem deseja vencer deve ter paciência, e espero que, depois de tua ascese ao poder, ajudes por tua vez a minha felicidade.
Podes ficar tranquila.
Quanto desejares, riquezas, honrarias, ou mesmo um esposo escolhido entre os maiorais do reino, eu te darei, sob palavra de Faraó — concluiu, a rir.
Para que o mensageiro de Tutmés tivesse tempo de regressar de Tebas, Neftis deixou escoarem muitos dias sem parecer notar os sofrimentos e a luta íntima que trabalhavam a alma de seu antigo noivo.
Incapaz de dominar o insano amor, sem perder a compreensão da sua conduta desonesta para com Neftis, Antef estava como que em estado febril; o fogo que lhe circulava nas veias obscurecia seu raciocínio, e o combate recôndito que sustentava desmoralizava-o definitivamente; estava cego e surdo para tudo quanto ocorria em redor, e por isso deixara a Tutmés amplo vagar para o preparo da fuga.
Afinal, certa manhã, Neftis aproveitou um momento em que ele estava sozinho no terraço, e veio sentar-se junto dele.
Evitando olhá-la e tremendo nervosamente, ele pretendeu erguer e esquivar-se, mas a moça lhe pegou a mão e o reteve.
— Fica, Antef, e deixa-me esclarecer o que tu não tens a sinceridade de mo confessar.
Julgas-me tão cega, a ponto de não ver que amas Mentchu, e que és amado por ela?
Teu honesto coração sofre por faltares às obrigações que julgas ter para comigo, e essa tortura tácita te devora.
Mas, meu bom Antef, tenho por ti uma afeição muito verdadeira, e não desejo outra coisa além da tua felicidade, e sou eu quem te vem dizer:
desposa Mentchu, sê ditoso; eu permanecerei algum tempo junto de vós; sem ciúme, partilharei da vossa felicidade, e espero que me concedais em vosso lar os direitos e a amizade de uma irmã.
Antef escutara, corando e empalidecendo alternadamente.
Às derradeiras palavras, pegou-lhe as mãos, e as levou febrilmente aos lábios.
— Neftis, tua doce generosidade mais me humilha ante meus próprios olhos; mas, dizes a verdade; amo a Mentchu com insensata paixão, não posso viver sem ela; invencível força acorrenta-me à sua presença, e, desde que a deixo, uma inquietude e um sofrimento me assaltam de maneira insuportável, e somente reavistando-a experimento relativa calma.
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