Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 01, 2017 8:17 pm

Talvez que, com o teu perdão e unido a Mentchu, recupere a saúde do corpo e da alma.
Terei necessidade de te assegurar que serás sempre para mim uma irmã querida, e que minha casa é também tua, até que um marido, mais digno do que eu, te conduza para seu lar?
Nesse momento, chegou Mentchu; mas, reparando na animada palestra, deteve-se, pálida de ciúme e de cólera.
Ao vê-la, Neftis ergueu-se, e disse, alegremente:
— Acalma teu injusto enfado, e deixa-me colocar tua mão na mão do nosso bom Antef.
Tudo está explicado; tu és a noiva, e em breve sua esposa. Jura-me apenas, Mentchu, que o farás feliz.
Com uma exclamação de júbilo e de agradecimento, a viúva abraçou Neftis.
Depois, falaram do porvir.
Os dois pobres enfeitiçados acreditavam-se sinceramente os mais venturosos dos mortais.
Com o concurso de um padre versado nesses graves assuntos, foi escolhido um dia propício para celebração do casamento, e disto se cuidou activamente, quanto aos indispensáveis preparativos.
Três dias antes do matrimónio, chegou Hartatef, com a mensagem de Ranseneb.
O profeta do templo de Amon exprimia tanta curiosidade quanto surpresa com relação aos projectos do príncipe, assegurando, porém, que tudo estaria pronto para recebê-lo, sugerindo que a evasão se fizesse sob o disfarce de escriba, em companhia de Hartatef, munido este de instruções detalhadas para segurança do fugitivo.
Febril impaciência devorava o jovem banido; o chão parecia queimar sob seus pés, porque Neftis já lhe dera o colar, ornado com um escaravelho de prata, e o precioso vidrinho que lhe devia subordinar a vontade de Hatasu.
Apesar disso, deu prova de domínio sobre si mesmo e de dissimulação, que foram de bom augúrio para o seu futuro papel de rei.
Com a maior e franca jovialidade, tomou parte nos preparativos da festa, e exigiu que o festim fosse feito em sua residência, e também constituiu um dia de gala para os soldados e servos.
Enfim, parecia tão divertido, estar tão longe de qualquer pensamento suspeito, que mesmo um homem bem mais perspicaz do que Antef, em sua actual situação, ter-se-ia equivocado.
Chegou afinal o tão desejado dia.
Tutmés, aparentando mais alegria do que nunca, ofereceu à desposada um valioso bracelete e ao noivo uma preciosa espada, e presidiu, ele próprio, ao festim.
O vinho foi servido à farta, animando, de instante a instante, a alegria dos convivas.
Antef, particularmente, estava em embriaguez quase total, porque Neftis achara meio de derramar no vinho algumas gotas do elixir encantado.
Quando terminou o banquete, ninguém fez reparo na desaparição de Tutmés.
Enquanto prosseguiam os risos e festejos, por Isso que eram os noivos acompanhados à residência nupcial, o príncipe, envolto num manto escuro, deslizava para fora do palácio e chegava, sem embaraços, a sombria ruela, onde Hartatef o aguardava, com dois muares e uma vestimenta de escriba, para disfarce.
Vertiginosamente, Tutmés despiu as ricas vestes e as substituiu pela simples túnica, enfiando na cabeça a enorme peruca, e montou no animal.
As roupas que despiu foram amarradas e sumidas num fosso cheio de água.
Seguindo a trote curto, os dois homens chegaram às portas da cidade, que transpuseram sem óbices, por isso que sabiam a “palavra de passe”.
A uma certa distância de Bouto, na habitação de um pastor do templo, trocaram de animais, cavalgando então dois soberbos corcéis sírios, dirigindo-se a galope rumo da Capital.
Em consequência do copioso festim, com superabundante distribuição de vinhos, o sono foi prolongado no palácio de Bouto, e o dia havia avançado em horas quando Antef saiu do seu apartamento, sentindo-se como que alquebrado, cabeça pesada.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 01, 2017 8:17 pm

Queria, entretanto, procurar o príncipe, para agradecer os favores recebidos.
Neftis reteve-o em caminho, felicitando-o e palestrando alegremente com ele.
Embora convencida de que seu aliado estava bem distante, e que esse avanço tornava inútil qualquer perseguição eficaz, apesar disso, todo o tempo que retardasse a descoberta da fuga lhe pareceu precioso.
À porta da câmara do príncipe, o seu servo, tremente, declarou que Tutmés não havia aparecido durante toda a noite.
A notícia era assaz grave e suficiente para dissipar mesmo o efeito do veneno, e, por isso, subitaneamente desembriagado, com a lividez de um morto, o oficial precipitou-se para o interior do aposento: estava deserto.
Depois de haver revistado todo o palácio, Antef correu ao templo, na esperança, frágil embora, de ali reencontrar o prisioneiro; mas, responderam-lhe, com espanto, que o príncipe não fora lá, e ofereceram, sem hesitar, fizesse Antef incursões inclusive no santuário.
Com a morte na alma, retornou ao domicílio.
Não podia iludir-se: Tutmés fugira.
Sem atender às ansiosas perguntas da esposa e de Neftis, atirou-se a uma cadeira, murmurando soturnamente:
— Joguei minha cabeça e perdi.
Um sentimento de piedade para o homem que a amara tão fielmente, e que ela sacrificara a frio egoísmo, constringiu o coração de Neftis.
No íntimo, jurou que o faria perdoar por Tutmés, se este subisse ao poder.
Aproximando-se, disse, energicamente:
— Em lugar de lamúrias, deves pensar na tua segurança, Antef.
Dirige-te ao deserto, ou busca infiltrar-te em alguma caravana, mas protege-te contra a primeira cólera de Hatasu.
Semnut é poderoso e pode obter teu perdão; no momento, porém, deves desaparecer, levando quanto possuas em ouro e jóias.
Não te inquietes por Mentchu, porque eu velarei por ela, e não a abandonarei em caso algum.
Antef compreendeu a oportunidade do conselho, e, após bem tristes despedidas à jovem esposa, saiu da cidade, tendo ficado decidido que Neftis e sua companheira regressariam a Tebas, combinando-se também a maneira de obter notícias a respeito dele.
Sem embargo da impaciência de Neftis em abandonar Bouto, foi retida por grave enfermidade de Mentchu, que, esgotada e superexcitada pelo venenoso perfume, atingida em pleno coração pela desgraça do marido, foi presa de violenta febre.
Muitas semanas decorreram, antes que recobrasse forças suficientes para empreender a viagem a Tebas.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 01, 2017 8:17 pm

VII - HATASU SOB A AÇAO DO FEITIÇO

Serena e calma era a noite.
Na sombra azul do céu cintilava tal multidão de estrelas, que semelhava um dossel tecido em fios de prata.
Através das ruas desertas e silenciosas de Tebas adormecida uma liteira, carregada por quatro vigorosos homens, dirigia-se celeremente rumo do templo de Hator, em cuja entrada se detiveram, sob as maciças colunas pintadas, que projectavam sombras profundas.
Um vulto feminino, envolto em extenso véu, desceu da liteira, e, seguida de uma preta velha, subiu os degraus e penetrou no templo, no limiar do qual um padre, empunhando archote, recebeu-a respeitoso, iluminando-lhe o caminho.
A nocturna visitante não suspeitou que um ser humano, oculto na sombra de uma das colunas junto da qual acabava de passar, a observara, com fuzilante olhar, desde quando descera da liteira.
Esse alguém, protegido por escuro manto, de capuz, tinha na mão um objecto escondido zelosamente nas dobras da vestimenta, sem desviar os olhos da entrada do templo.
Devia ter esperado muito; a impaciência fazia-lhe tremer a mão e arfar o peito, quando, afinal, a luz da tocha reapareceu e projectou débil ralo de claridade avermelhada nas lajes do peristilo e na sombra do talhe esbelto da mulher velada.
No instante em que a desconhecida passava rapidamente junto da coluna, o homem escondido à sua sombra fez-se ver e surgiu de modo tão inesperado ante a visitante, que esta recuou involuntariamente, fixando, com surpresa, os contornos indecisos de um semblante iluminado por dois olhos fosforescentes, lembrando os de um felino, sob a proteção do capuz; mas, antes que ela pudesse dar-se conta da situação, sentiu que lhe pegavam a mão, nela depondo um objecto húmido e frio, ao mesmo tempo que um vulto de homem reimergia na penumbra, desaparecendo.
— Que significa isto? exclamou a mulher, voltando-se e chamando o padre, que se detivera no umbral.
O sacerdote atendeu prestamente, e então Hatasu, porque era ela, viu que tinha na mão uma virente haste de roseira em cuja extremidade vicejava uma flor purpurina, recém-desabrochada, e um botão de rosa prestes a abrir também.
— Quem ousou seguir-te, rainha, e ingressar no recinto sagrado? - exclamou por sua vez o padre.
Vou dar alarme imediato e fazer apanhar o ímpio.
A rainha fez rápido gesto negativo.
— Detém-te, Setnecht.
Proíbo-te fazer ruído por uma futilidade, e perseguir um pobre lunático, que, sem dúvida, me tomou por outra pessoa.
Subiu à liteira, e, a sorrir, respirou várias vezes a flor, cujo perfume forte e acariciador lhe pareceu dos mais deliciosos de quantos houvera conhecido.
Afogueada, cabeça pesando, reentrou no palácio, e, chegada aos aposentos, examinou ainda a rosa tão misteriosamente oferecida.
Relembrando o devorante olhar que por instantes se fixara sobre ela, não teve dúvidas de que o ofertante se equivocara.
— Homenagem de flores à rainha ou à mulher? — murmurou para si própria.
Desdenhoso sorriso aflorou-lhe aos lábios, ao pensar que ninguém no Egipto ousaria erguer os olhos para vê-la simples — mulher —, a ela, a orgulhosa Faraó Hatasu, que, desprezando as fraquezas do sexo, sustentava, audaz, simultaneamente o ceptro, a espada e a postiça barba do rei!
Sem embargo, respirou a rosa repetidas vezes, dando-a depois a Ama, para que a colocasse numa floreira próxima.
Em seguida, deitou-se e adormeceu; mas, a respiração perturbada, os estremecimentos nervosos que lhe agitavam o corpo, a inquietude com que se voltava ora para um ora para outro lado do leito, demonstravam que o sono estava bem longe de ser o de repouso.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 01, 2017 8:17 pm

Efectivamente, sonhos, pesados e enervantes quanto o são os pesadelos, povoavam-lhe o cérebro; parecia-lhe ver Tutmés, o jovem irmão e rival, pretendendo estrangulá-la sob uma avalanche de rosas cujo odor sufocante lhe tolhia a respiração.
Depois, apercebia-se de que não era mais o exilado de Bouto, e sim um jovem desconhecido que se dobrava sobre ela, trespassando-a com olhar terrivelmente agudo, a ponto de lhe dar a sensação de um dardo atravessando o peito.
Afinal, tudo se fundiu, e divisou Naromath, vacilante em esbranquiçada nuvem, estendendo-lhe os braços, na vã tentativa de aproximar-se.
Hatasu despertou tarde, invadida de forte mal-estar, a cabeça pesada e dolorida, faces incendidas, recôndito sofrimento a torturá-la, e a impaciência e cólera durante o serviço da sua “toilette” espantaram e atemorizaram as fâmulas.
No Conselho que presidiu a seguir, ouviu distraída os relatórios dos dignitários, repreendendo severamente pequenas omissões, e, assim, nessa plenitude de irritação, e de indeterminada angústia, regressou aos aposentos.
Casualmente, o olhar incidiu na rosa, que ainda permanecia na jarrinha.
Pegando a flor, novamente a cheirou, mas o aroma diminuíra sensivelmente, embora as pétalas conservassem pleno frescor.
Depois, presa de súbita impaciência, murmurou:
— Estúpida flor!
Foi decerto o teu forte odor que me produziu dor de cabeça; mas, creio loucura guardar a dádiva suspeita de um audacioso admirador.
E, com um brusco movimento, atirou a flor pela janela aberta.
E a rosa ficou suspensa num tufo espesso de jasmins, enquanto a rainha se recostou inquieta, descontente de tudo e pensando em Naromath.
Depois da refeição da tarde, recebeu uma notícia que lhe dissipou como que por encanto qualquer quimera sentimental:
lívido, trémulo, Semnut veio anunciar-lhe a fuga de Tutmés.
Embora fora de si, pela cólera, Hatasu, ante o perigo que ameaçava o seu poderio dominou quaisquer outros sentimentos, para determinar, com calma, enérgicas providências.
Muitos dias escoaram em febris actividades, mas Tutmés continuava eclipsado.
As medidas de precaução, no entanto, eram de tal ordem, que uma sedição, tentada nesse ambiente, não oferecia qualquer probabilidade de êxito.
Aproximadamente oito dias depois da visita ao templo de Hator, a rainha, exausta moral e fisicamente pelos labores, inquietudes e emoções da semana, refugiara-se para o terraço privativo.
E, afastando os serviçais, estendera-se num leito de repouso, afundando-se em silencioso pensar.
Era uma vasta balaustrada, ornada em redor de maciços de arbustos odoríferos, plantados em amplas selhas; alguns degraus, ao cimo dos quais vigiavam dois leões de granito, conduziam ao jardim.
Duas palmeiras, ao término da escada, projectavam a sombra de seus verdes leques vegetais sobre as lajes de granito róseo, e, por entre os bosquetes, cintilava a superfície lisa de grande tanque.
A Lua surgira havia pouco, iluminando com brilhante mas suave claridade todo o local, pleno de calma profunda e misteriosa.
Apenas o coração humano não correspondia à quietude da Natureza.
A senhora desse soberbo palácio, desse encantado jardim, estava enceguecida pelas galas que a rodeavam; a grande voz da divindade, que, por suas criações, lhe predicava a calma, a contemplação das perfeições e a das fragilidades humanas, não lhe atingia a alma intumescida pelo orgulho, sombreada pela ambição.
Pensamentos amargos e tempestuosos agitavam o espírito de Hatasu; repreendia-se por haver confiado a guarda de Tutmés a estranhas mãos, deixando ensejos aos inimigos, os padres e os descontentes, de exasperar o coração do adolescente, despertando nele precoces ambições, que servissem para torná-lo dócil instrumento de criminosas intrigas.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 01, 2017 8:17 pm

Não (pensava a rainha), junto de mim deveria eu tê-lo guardado para lhe plasmar a alma juvenil segundo a minha vontade.
Onde se ocultava o perigoso fugitivo, que, de um instante para outro, poderia surgir onde menos o esperassem, e arvorar o estandarte da revolta?
Ideias ainda mais penosas, mais mescladas de esperanças e temores, faziam bater com violência o coração de um adolescente, de pequeno talhe, escondido no outro extremo do terraço, entre os maciços artificiais, e cujos olhos flamejantes não se desfixavam do rosto da soberana.
O silencioso companheiro de Hatasu era Tutmés, vindo para tentar conseguir algo, sob o efeito do perfume enfeitiçante.
Agora, ao pensamento de que o sortilégio não produzisse efeito, gélido suor humedeceu-lhe a fronte, porque, nesse caso, teria arriscado e perdido a liberdade, e quiçá a própria vida.
Os padres, na ignorância do segredo, haviam tachado de insano o projecto de aproximação, e tentado mesmo impedi-lo; mas, pela primeira vez, o jovem abutre mostrava bico e unhas, afirmando imutável a resolução de triunfar com a irmã e obter a liberdade irrestrita, ou morrer imediatamente, pois preferia a morte á existência de prisioneiro ou fugitivo.
Um dedicado ao templo lhe havia facilitado a entrada em palácio, indicando-lhe também o terraço onde preferencialmente a rainha costumava fruir as brisas do anoitecer, e através do qual poderia igualmente chegar aos apartamentos da soberana.
Tutmés estivera cerca de meia hora oculto entre os arbustos, quando a rainha apareceu no terraço.
Depois de agitado andar ao longo do local, estirou-se no leito de repouso.
Largo intervalo decorreu, e o jovem não se decidia ainda a dar o passo decisivo.
Olhava a irmã, com agitação progressiva; o odor forte e deletério do encantado colar que trazia ao pescoço subia-lhe ao cérebro, intensificando o latejar das têmporas e oprimindo-lhe a respiração; mil suposições sobre o que deveria sobrevir turbilhonavam em sua mente superexcitada...
Mas, de súbito lhe veio o pensamento de que, se o perfume enfeitiçante despertasse em Hatasu amor por ele, a rainha poderia desposá-lo; mas, embora tal solução lhe solvesse todas as dificuldades, estranho sentimento comprimiu o coração do adolescente, um fluxo de sangue lhe subiu às faces, e, pela primeira vez, examinou e quis descobrir a mulher nessa irmã, na ambiciosa soberana que sempre olhara apenas sob o aspecto de rival.
O acaso favoreceu-lhe a contemplação, pois a claridade era perfeita e a admirável transparência atmosférica permitia-lhe distinguir cada incrustação do móvel de repouso, as esculturas da pequena mesa de sândalo sobre a qual estavam um copo feito de ouro e um leque de penas brilhantes.
E o olhar de Tutmés deslizou desses objectos para fixar ardentemente a mulher imobilizada sobre os coxins de púrpura pontilhada de ouro.
Ligeira e ajustada túnica de linho vestia a rainha, amoldando-se ao corpo e fazendo ressaltar as formas esbeltas e elegantes, que ainda não haviam perdido em nada a elasticidade e a graça da primeira juventude.
O braço, que lhe despontava da curta manga vigorosamente e se destacava sobre a alvura da vestimenta, era de admirável contorno e terminava por pequenina mão, fina, dedos afilados, parecendo incrível que tal mãozinha, quase infantil, soubesse tão áspera, tão rudemente suster o ceptro, dirigir e governar um grande império; a espessa cabeleira, liberta de qualquer penteado ou adorno, espargia-se nos coxins, envolvendo, qual negro véu, seu semblante e perfil de puros e regulares traços.
Assim estendida, com o fino nariz, boca severa e enérgica, pálpebras descidas e franjadas de longos cílios recurvados para o alto, parecia sósia de uma estátua.
— Sim, ainda é bastante bela para fazer pulsar um coração — pensou involuntariamente Tutmés.
Mas, o aroma enfeitiçante agiria sobre essa natureza, da qual ele conhecia a têmpera?
Mudar-lhe-ia o curso dos pensamentos que se agitavam sob aquela fronte pálida, as decisões talvez sinistras pressagiadas nos supercílios subitamente contraídos?
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 02, 2017 8:13 pm

Ao peso desta preocupação e do mal-estar que o enervava, o jovem esqueceu o lugar onde estava, suspirou profundamente, e o brusco movimento que executou, para levar a mão à fronte, fez tilintar os braceletes de encontro aos elos do colar.
A esse som metálico, a rainha soergueu-se rápida, seu perscrutador olhar investigou tudo em redor, e, com indizível estupefacção, viu pequeno e esbelto corpo de adolescente surgir do fundo do terraço, e avançar para ela, célere e silencioso qual uma sombra.
E, antes que pudesse coordenar o pensamento ou emitir um grito, o jovem ajoelhara, abraçando-lhe os joelhos e dizendo em baixa e emocionada voz:
— Não chames alguém, Hatasu; sou eu!
— Tutmés! Insensato!
Ousas penetrar aqui? — murmurou a rainha, atónita e recaindo no leito.
— Sim, sou eu; mas, não venho na qualidade de rebelde, e sim na de suplicante, que se entrega ao teu arbítrio.
Por piedade, mata-me, se a minha vida constitui obstáculo, ou, então, deixa-me viver junto de ti, na condição fraterna de teu súbdito, príncipe da tua família; mas, não me exiles mais para esse charco onde perco a razão, à força de tédio e desespero; lembra-te de que somos filhos do mesmo pai, não me repilas mais.
Ele se curvou, como que para ler na fisionomia da irmã, e pegando-lhe ambas as mãos a atraiu a si.
A rainha não respondeu.
Como que invadida por depressão inédita, apoiou-se nos cotovelos.
O efeito enervante do veneno perfumado, que respirou então, agiu, aturdindo-a e dificultando-lhe a respiração.
Apesar disso, porque o aroma deletério perdesse eficiência ao contacto do ar ambiente, ou porque o natural dominador da rainha e o hábito de sofrear sentimentos lhe servissem de preservativo, a verdade é que apenas lhe veio um pensamento de piedade, de indulgência maternal por esse adolescente, que, a despeito de tudo, era seu irmão.
Como se as palavras ouvidas a houvessem invocado, a imagem do pai surgiu ao seu espírito, e então recordou certa noite, no decurso da qual o genitor, pouco antes de morrer, lhe levara ao aposento um franzino meninote, de aproximados sete anos de idade, e dissera com tristeza:
— Tenho pressentimento de que meu fim está próximo.
Promete-me, Hatasu, que, por amor de minha memória, protegerás esta criança, e que esta súplica que te dirijo servirá de escudo ao orfãozinho, quando eu me for.
Agitada, olhos plenos de lágrimas, pousou então as mãos na fronte do pequeno e respondeu:
— Que nefasto espírito te inspira esses tristonhos pensamentos?
Viverás, pai querido, para glória de teus povos; mas, se minha promessa te causa alguma alegria, juro-te velar por esta criança.
Depois, erguendo o menino, ela o abraçou, enquanto um sorriso de satisfação iluminava o pálido semblante de Tutmés I.
Agora, não era a sombra do velho rei a relembrar tal promessa feita pela filha e sucessora?
Esse adolescente era passível de censura por haver a casta sacerdotal feito dele um instrumento de perturbação, destinado a humilhar a orgulhosa independência de espírito da rainha, que lhe desprezava a supremacia?
Nesse momento, não lhe oferecia a sorte inopinada ocasião de reparar uma falta que ela própria deplorava alguns minutos antes?
A rainha, suspirando, ergueu-se e desceu o olhar para o semblante infantil de Tutmés, que, ainda ajoelhado, lábios ansiosamente entreabertos, olhos lacrimosos, a olhava, sem lhe compreender o longo silêncio.
Novamente, lânguido sentimento de afeição e de pesar, uma necessidade de ternura invadiram-lhe a alma.
Inclinando-se, cingiu com as mãos a fronte do adolescente e a beijou.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 02, 2017 8:14 pm

— Tu vens, súplice, apelando para a memória do nosso divino e glorioso pai.
Não foi vã a invocação, e eu te dou o beijo fraternal, porque é mais doce amar do que maltratar.
Age agora de modo que jamais tenha de lamentar este momento.
Não te dou o trono, porque devo reinar sozinha, mas concedo-te os direitos e honrarias devidos ao meu irmão, e um dia (Hatasu sorriu com tristeza) a coroa que ambicionas te caberá, por direito, pois não tenho herdeiros. (18)
A estas palavras, a esse ósculo tão francamente dado, tumultuoso sentimento de vexame e humilhação turbilhonou a alma jovem, honesta e orgulhosa, de Tutmés; à lembrança do recurso traiçoeiro que empregara para captar uma afeição que não merecia, e da qual os padres queriam abusar para destruir aquela mulher que lhe dava o beijo fraternal, ardente rubor tingiu-lhe as faces.
— Sou um traidor para contigo! (quase gritou, sob o impulso de tais sentimentos e do enervamento que lhe produzira o envenenador aroma).
Mas, ainda teve forças para reter essa confissão, embora elas lhe faltassem para conter as lágrimas que emanaram subitamente dos seus olhos, inundando as mãos da rainha e contra as quais premiu as incendidas faces.
Hatasu, emocionada por esse acesso de desespero, que atribuiu à reacção aos temores e apreensões sofridos pelo jovem, levantou-lhe a fronte, enxugou as lágrimas que ainda perolavam o rosto do irmão, e disse, a sorrir:
— Calma-te.
O passado está extinto e esquecido, e o futuro Tutmés III não deve ser choramingas.
Senta-te nesse tamborete, e conversemos um pouco a respeito da nova existência que vais viver.
Tua hierarquia e tua idade descortinam largo e radioso porvir.
Frui esse futuro alegremente, mas, dentro dos limites razoáveis, com as despreocupações e prazeres que são apanágio da juventude.
Bem depressa virão os cuidados e árduos labores do governo, pois é bem pesada a grande coroa dos soberanos do Nilo.
E ainda uma coisa, Tutmés: não escutes, nem acolhas cegamente as insinuações dos padres.
Um futuro rei deve aprender a julgar por si mesmo, e a ler na alma dos homens.
Os servidores dos templos ensinaram-te a detestar-me, no grau de inimiga, e agora eles nos separaram, fazendo de ti arma contra a minha vida e autoridade.
Para quê? Para que a criança inexperiente, que colocariam no trono, fosse seu escravo, o instrumento do seu poderio, que desejariam elevar acima da vontade real, de vez que se dizem representantes, mandatários dos deuses que reinam sobre o Universo.
Seja! Que o povo assim os considere; mas, os soberanos do Egipto são filhos de Amon-Rá, o sangue do deus lhes circula nas veias, e não necessitam de Intermediários entre o Faraó e seu Imortal Pai.
Os imensos templos, os sumptuosos túmulos que construímos são homenagens aos deuses, monumentos destinados a perpetuar nossos nomes, nossa glória, a grandeza de nossos actos; essas construções gigantescas, na elevação das quais fundimos somas incalculáveis, tomadas à totalidade dos povos vencidos, o clero, insaciável e intrigante, desejaria fazer delas um pedestal, e, autorizando-se com o nome da divindade, colocar-se acima do rei.
Nenhum soberano, digno deste título, admitirá isso, porque só um Sol brilha no céu, e a vontade do Faraó deve reger o império.
Animara-se a rainha, à proporção que falara; o desmesurado orgulho que lhe enchia a alma transbordava nos olhos flamejantes, na curva dos lábios, na máscula vibração da voz metálica.
Tutmés escutava, violentamente agitado: tal ensoberbecida convicção de pairar acima da Humanidade, tal arrogância real, encontrava eco em sua alma altaneira e ambiciosa, sentindo que Hatasu dizia a verdade, ao afirmar que ele era instrumento nas mãos dos padres, e, pela primeira vez, surda revolta bramiu-lhe recôndita contra aqueles que sempre lhe repetiam que a eles deveria todo o poderio a alcançar no futuro.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 02, 2017 8:14 pm

Arquitectava ainda uma resposta, conciliante de seus pensamentos com a prudência a guardar, quando a rainha, com a mobilidade habitual do seu espírito, o dispensou de tal, perguntando-lhe, bruscamente:
— De que modo conseguiste fugir?
Foi Antef quem te ajudou?
— Não; e sobre a memória de nosso divino pai, juro que Antef é teu servidor fiel; aproveitei a oportunidade festiva do seu casamento para evadir-me.
— Com quem e onde te escondeste aqui?
O inquérito apurou que dois servidores do templo, servindo-se da palavra de passe, franquearam uma das portas da fortificação.
— Sim, eu me disfarcei de escriba, e fui ocultado no templo de Amon.
Mas, Hatasu, tu não punirás ninguém por isso — balbuciou Tutmés, intimidado pelo trespassante e perquiridor olhar da soberana.
— Tranquiliza-te, não punirei pessoa alguma, pois que já te perdoei.
Foram os padres que te aconselharam também a vir aqui?
— Não, isso foi resolução minha.
Indefinível sorriso perpassou pelos lábios de Hatasu.
— Foste bem inspirado em não seguir conselhos deles, na espreita de momento favorável para atacar-me abertamente.
Mas, basta, por hoje. Segue-me, vou dar ordens para tua instalação provisória.
Ergueu-se e levou Tutmés para seus aposentos, onde mandou que a aguardasse.
Passando a outra dependência, fez soar três vezes um disco sonoro.
Sem demora, foi erguido o reposteiro da porta, e o oficial de serviço apareceu: era Keniamun.
— Transmite ao chefe do palácio ordem de reunir, na sala pequena de recepções, o comandante das guardas, oficiais e funcionários de serviço esta noite, e bem assim meus escribas particulares, e ainda o astrólogo Rameri, a quem incumbi de ler hoje, nas estrelas, a vontade dos Imortais.
Apressa-te, porque dentro de meia hora quero estar na sua presença.
Caso Semnut não se haja retirado, diz-lhe que venha falar-me imediatamente.
O oficial correu a executar as ordens recebidas, e, antes da premarcada meia hora, uma verdadeira multidão de oficiais, padres e funcionários de todas as categorias e idades se acotovelava na designada sala, feericamente iluminada por lâmpadas e archotes.
Todos estavam ansiosos, sem nada compreender daquela convocação nocturna; mas, as conjecturas transformaram-se em absoluto assombro, quando apareceu Hatasu, guiando pela mão o jovem Tutmés.
Sabia-se, em Tebas, que o exilado fugira de Bouto, e aguardavam-se acontecimentos terríveis e sangrentos a propósito, e jamais aquela cordialidade absolutamente incompreensível.
A rainha, que vestira sobre o traje branco uma túnica de linho finíssimo e purpurina, cingindo a fronte com diadema de ouro, subiu ao estrado, permanecendo de pé junto do trono.
O príncipe ficara no penúltimo degrau.
Então, designando-o à assembleia, a rainha declarou que, inspirada por Amon-Rá, se reconciliara com o irmão, concedendo-lhe os direitos e as honrarias devidas ao herdeiro presuntivo do trono.
Aclamações, gritos e bênçãos responderam a comunicação, na sua maioria sinceras, porque tal miraculosa reconciliação afastava a inquietante perspectiva da guerra civil.
Em seguida, a rainha ordenou que, para o dia seguinte, fossem convocados os conselheiros, os escribas reais dos domínios e os guardiães dos tesouros, para regularização das condições e domicílio do príncipe.
O encarregado dos apartamentos recebeu ordem de alojar Tutmés, provisoriamente, e o chefe das guardas a de lhe formar uma pequena escolta de segurança nocturna.
Depois, Hatasu de todos se despediu bondosamente, e cada um voltou à sua tarefa.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 02, 2017 8:14 pm

(18) NAO TENHO HERDEIROS - Apesar do muito que nos merece o rutilante Espírito de Rochester, esta particularidade esbarra em afirmativa contrária, feita por Arthur Weigall, "antigo inspector das antiguidades do governo egípcio".
A página 108 da sua História do Egipto Antigo, afirma que, pouco depois do matrimónio com Tutmés II, houve Hatasu uma primeira filha, a quem deu o nome de Nefrourê, e mais tarde, depois de animosidade surgida no casal, reconciliado, uma segunda filha, que recebeu o nome de Hatshepsut-Meritrê.
Do próprio Tutmés II, segundo dito autor, ficou um filho bastardo, havido com uma criatura sem qualquer hierarquia social.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 02, 2017 8:14 pm

VIII - O ENFEITIÇADOR EM TEBAS

A notícia da reconciliação da rainha com Tutmés produziu em todo o Egipto profunda sensação.
Todos os partidários da ordem e da tranquilidade rejubilaram-se sinceramente; os descontentes e ambiciosos calaram, na expectativa de que tal pacificação não seria duradoura.
A população de Tebas tomou, no grave acontecimento político, parte muito activa, não só pelas discussões, mas também pelo que constataram com os olhos, de vez que a rainha foi ao templo de Amon-Rá, acompanhada de Tutmés, e depois à cidade morta, onde ambos ofereceram sacrifícios sobre o túmulo do genitor.
Às duas solenidades, celebradas com excepcionais imponências, assistiram não só os habitantes da Capital, mas também as populações circunvizinhas, tendo a soberana recebido aclamações superiores a quantas até então lhe haviam sido tributadas.
Não se extinguira ainda a emoção causada pela reconciliação da família real, quando uma notícia, não menos inesperada, veio excitar a curiosidade de todos: o príncipe Horemseb (dizia-se) viria a Tebas saudar a real parenta e soberana, e apresentar-lhe os preitos de reverência pela sua ascensão ao trono.
A longa ausência do príncipe, seu misterioso e retirado viver haviam gerado muitos comentários estranhos, de modo que, ao anúncio da chegada, a atenção geral se fixou imediatamente no vasto palácio, deserto e silencioso havia muito, do príncipe, próximo da residência do Faraó.
Como que por encantamento, a imensa habitação se animara, e, sob as ordens de Hapzefaá, um exército de serviçais trabalhava para limpar e pôr em ordem todas as coisas; numerosos barcos, atestados de objectos preciosos, haviam chegado de Mênfis, e, segundo a grandiosidade dos preparativos, fácil se tornava avaliar que o príncipe desejava “fazer figura” na Capital.
Causou reparo o fato de haver o intendente do palácio comprado numerosos escravos, em vez de os trazer de onde viera, e a curiosidade em torno da chegada de Horemseb aumentou ainda mais.
Em uma bela tarde, aproximadamente três semanas depois dos sucessos narrados, Neith e Roant estavam reunidas no terraço da casa desta.
A esposa do chefe das guardas falava animadamente, acalentando nos braços um tenro filhinho.
Adormecida a criança, a jovem mãe retomou com entusiasmo o assunto das últimas novidades concernentes ao príncipe Horemseb.
Estava informada, pelo esposo, de que a rainha fixara a apresentação do príncipe para a mesma data da grande recepção das deputações dos povos tributários, que viriam apresentar homenagens à soberana, cerimónia que devia ser das mais sumptuárias, de modo que as cogitações de Roant se concentravam na chegada do enfeitiçador e no lugar que ela obteria no séquito real, a fim de colocar-se bem e assim apreciar o desfile do cortejo.
Preocupada com o filhinho e com os projectos para a festa, Roant não pareceu reparar no sombrio silêncio de Neith, que, com a cabeça reclinada no encosto da cadeira, olhar perdido para o alto, dir-se-ia que mal a escutava.
— Como podes tomar verdadeiro interesse pela chegada desse homem desconhecido, vaidoso e gasto?
Todo o mistério de que se rodeia é forjado apenas para chamar atenção — interrompeu Neith, subitamente, com Irritado nervosismo vibrando na voz.
Deixemos esse imbecil Horemseb, e diz-me antes quando Roma regressará de Heliópolis.
Quero vê-lo e dizer-lhe que ele, apenas ele, é culpado de tudo, pois, de há muito, estaríamos casados e ditosos, se ele não me houvesse forçado a aceitar esta fatal separação.
Agora, não ouso faltar à promessa feita, para a qual invoquei o testemunho de Hator.
Roant olhou para Neith, surpreendida.
— Roma regressará brevemente, e, decerto, não espera ouvir censuras sobre esse velho assunto.
Quanto ao príncipe, não compreendo que te irrites contra ele, salvo (e começou a rir) se é pressentimento de te apaixonares por ele, pois, dizem, todas as mulheres escravizam o coração, quando Horemseb as olha com afecto, e não será junto de ti, a mais bela filha de Tebas, que passará indiferente.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 02, 2017 8:15 pm

Longe de alegrar-se, Neith ia responder com ímpeto, quando a entrada do chefe das guardas interrompeu o diálogo.
Chnumhotep, tendo abraçado a esposa e o filho, apertou a mão de Neith, depois desembaraçou-se das armas, e, sentando-se, disse, jovialmente:
— Estavam falando em Horemseb, e tenho o prazer de anunciar a sua chegada.
Encontrei o cortejo esplêndido que o acompanhou da barca ao palácio, estando ele, na liteira, impassível e indiferente, semelhando um deus de granito.
— É ele tão formoso, quanto o dizem? — interrogou Roant, curiosa.
— Não sou juiz competente em beleza masculina, mas, apesar disso, parece-me suficientemente sedutor para inspirar temores, a mim e todos os maridos, pais e amantes de Tebas — respondeu Chnumhotep, rindo expansivamente.
Dizem-no terrivelmente perigoso, quanto cruel, e — aviso a vós! — seu coração permanece inabordável e frio aos mais divinos atractivos, contentando-se em inspirar paixões.
— Para mim, pode ele ficar gélido qual um morto, porque me interessa muito pouco, além de que o pensamento que me oprime, desde esta manhã, é suficiente preservativo contra frivolidades de amor — disse Neith, em atitude preocupada.
— Que significam estes mistérios? — exclamou Roant, impaciente.
Desde há algumas horas, vejo que tens a morte na alma, sem que digas o motivo de tal, a mim, a tua melhor amiga!
— Sargon foi agraciado — murmurou Neith, com angústia e cólera alterada na voz.
— Sargon comutado!
Desde quando?
É impossível! — disse Roant, no auge da estupefacção.
— Nada é mais verdadeiro, entretanto, e não é ele só que, por imerecida graça, fugirá a uma justa punição — interveio Chnumhotep, dirigindo compassivo e pesaroso olhar a Neith, que fechara os olhos, apoiando a fronte no ombro de Roant.
— Quais os outros?
— Ainda não sei os nomes de todos os que vão ser amnistiados, mas, ao cimo da lista, figuram Sargon, Hartatef e Antef.
— O traidor!
O sacrílego! exclamaram ambas, simultaneamente, tiradas dos preocupados pensamentos ante a insólita notícia.
— Apenas compreendo que a rainha Indultasse Sargon, mas, a Antef, que traiu!...
É principalmente estranho que ela queira ofender os padres, agraciando um blasfemo, sacrílego, qual o foi Hartatef — concluiu Roant.
— Os milagres não são raros em Tebas, desde há três semanas:
foi o próprio Sumo Sacerdote quem Impetrou e obteve a comutação de Hartatef — respondeu-lhe o esposo, em tom chocarreiro, divertido com a expressão embasbacada e incrédula do rosto de ambas.
Mas, refeitas do pasmo, assediaram-no para minuciosos pormenores da inusitada novidade, e, porque ele se fizesse rogado, prodigalizaram-lhe delicadas atenções, no intuito de demovê-lo das reservas:
Neith, meio refeita do abatimento anterior, adquirira tom de voz rival da de um comandante de tropas; Roant afagou o marido, ser vindo-lhe vinho e frutas, e depois sentou-se ao seu lado, abanando-o com um leque, para amenizar o calor durante a esperada narrativa.
Chnumhotep, após motejar um pouco do zelo e da curiosidade da mulher, disse, retomando a seriedade:
— Tendes razão, porque tudo isso é inverosímil, e, apesar disso, foi tudo combinado simplesmente, ontem, à noite, de modo inesperado.
Os detalhes que vou dar são exactíssimos e, os a que não assisti, eu os ouvi de Ranseneb, que acompanhava o Sumo Sacerdote.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 02, 2017 8:15 pm

Já sabeis que a conciliação entre a rainha e Tutmés excedeu a todas as expectativas, e não ouso pensar se foi o coração ou apenas a habilidade política que a inspirou.
Em qualquer hipótese, porém, a meu ver, a reconciliação neutralizou a influência dos padres sobre o jovem príncipe, o qual, inebriado de liberdade e prazeres, pensará somente em gozar a vida e recuperar o tempo perdido no exílio.
É justo salientar que a rainha o dotou regiamente, apresentando-o herdeiro do trono, e parece prazerosa em cumulá-lo de dádivas e honrarias.
A caçada de ontem esteve esplêndida, e a rainha, ela própria, abateu duas gazelas, com aquela espantosa segurança de mãos.
Quanto a Tutmés, chegou a irritar-se, e, quando teve ensejo de atingir um leãozinho (de regular tamanho, diga-se), seu entusiasmo e satisfação foram sem limites.
Ao regresso, pediu para substituir o oficial condutor da rainha, a fim de lhe narrar em minúcia essa grande proeza, sendo atendido.
— Encontrei, ontem, o séquito, quando eu regressava da casa de Tahoser -— interveio Neith -—, e fiquei atónita ao ver Tutmés guiando o carro da rainha.
Que linda parelha de cavalos!
As mantas vermelhas estavam de tal modo bordadas e cheias de pedrarias, que faziam inveja, e eu até lamentei que tão belas preciosidades estivessem emporcalhadas de poeira!
— Sim, Hatasu aprecia a magnificência.
Mas, retornemos à narrativa.
Entrou no palácio o bom humor; lá estavam o Sumo Sacerdote de Amon e Ranseneb, para agradecer à rainha uma carga de madeira de sândalo e numerosas ânforas de finas essências que ela enviara em dádiva ao templo.
Como era natural, falaram da caçada (e aqui começa o que ouvi do profeta, depois que deixei o palácio), e a rainha elogiou o denodo e a destreza do irmão, a quem doou soberba colecção de armas acumuladas por Tutmés I, por julgar ser ele digno de as possuir.
Tutmés expandiu a alegria, e a rainha julgou oportuno, embora a rir, aconselhá-lo a moderar essas expansões; mas, avaliai do constrangimento de todos, quando o imprudente moço declarou que não podia deixar decorrer um dia no qual a rainha espalhava tanto contentamento em torno de si -— verdadeira filha de Rá -— sem lhe impetrar uma graça em favor de alguém, de cuja desventura se gerara a felicidade dele, Tutmés.
E pronunciou o nome de Antef.
Penoso foi o silêncio que se seguiu, e Semnut, ao que se diz, mostrava no rosto a lividez de um cadáver, ao pensamento de que merecia condenação a trabalhos forçados, por haver recomendado o estúpido sobrinho.
A rainha, porém, não pareceu contrariada, e disse;
— Tua rogativa é honrosa, pois convém a um rei não esquecer aqueles que, mesmo involuntariamente, lhe prestam serviços.
Vou amnistiar Antef, e com isso desejo provar, mais uma vez, a estima e a gratidão que tenho pelo meu zeloso e fiel servidor, Semnut.
Comovidíssimo, sem dúvida, Semnut prosterna-se, e, por entre lágrimas, agradece à soberana, balbuciando depois:
— Ah! rainha, divina benfeitora, se a tua misericórdia perdoa tão grande criminoso, não poderá estender-se a outro culpado, Sargon, também perdido pelo amor, e que se consome longe dos teus olhares vivificantes e da jovem esposa, nos trabalhos forçados dos estaleiros?
— Ranseneb — prosseguiu o narrador — julga (e estou de acordo com ele) que o manhoso Semnut agradou à rainha, proporcionando-lhe tal ensejo para repatriar o seu protegido, tanto assim que, sempre a sorrir, concedeu o indulto, acrescentando desejar fazer daquele incidente oportunidade para mais ampla graça, e autorizava o Sumo Sacerdote e Semnut a organizarem a lista daqueles que poderiam ser amnistiados.
Foi então que o Sumo Sacerdote pediu por Hartatef, e, ante a natural surpresa da soberana, explicou que Hartatef, homem religioso e honesto, fora levado ao ato sacrílego pela influência de apavorante sortilégio, e que, isto constatado, os deuses perdoavam, e, pela boca de seu servidor, intercediam por ele.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 02, 2017 8:15 pm

Hatasu não fez objecção, e determinou a restituição dos respectivos bens, excepto a parte doada ao templo.
Eu soube tudo isso hoje, pela manhã, e foi sem dúvida Semnut quem te comunicou as ocorrências; mas, não te entristeças, Neith, porque dois meses, no mínimo, decorrerão antes da chegada de Sargon, e assim terás tempo de aceitar esse pensamento.
Crê, o cumprimento de um dever atrai a bênção dos Imortais; eles tudo conduzirão para bom termo.
— Agradeço-te, Chnumhotep, as benévolas palavras, mas, bem difícil se torna ser boa esposa, quando se ama outro homem — respondeu, tristonha, a jovem, e, erguendo-se, terminou:
Vou recolher-me, pois estou mal da cabeça e sentindo indisposição geral.
Até mais tarde, meus amigos.
— Cuida-te bem, e recorda que depois de amanhã realizar-se-á a cerimónia da apresentação de Horemseb — disse a alegre Roant, acompanhando a amiga e prometendo visitá-la no dia seguinte.
A noite precedente à recepção dos tributários foi melo insone para Tebas.
Devendo a cerimónia celebrar-se pela manhã, antes da grande canícula, desde a tarde da véspera um exército de servos e funcionários se encarregou de tudo preparar.
Na sala aberta diante da qual devia desfilar o cortejo, foram suspensos tapetes e esteiras, fixadas armações e bandeirolas e erguido o trono.
Nas ruas, os curiosos previdentes se assenhoreavam dos melhores postos, e, multo antes do alvorecer, compactas massas humanas congestionavam as ruas adjacentes ao palácio real; os destacamentos policiais aplicavam empurrões e golpes de bastão para manter a ordem e impedir que o povo invadisse o caminho privativo.
E quando enfim o Sol surgiu no Levante, redobrou a animação geral.
Inicialmente, chegaram as formações de soldados, cantando, empunhando ramos floridos, escalonando-se nos dois imensos pátios, circundados de colunatas, ao término dos quais estava situada a sala aberta: eram tropas de selecção, chamadas “filhos de Tebas” e os “bons filhos reais”, brilhantemente equipados e providos de lanças e machadinhas.
Em seguida, os assistentes privilegiados começaram a encher os dois recintos, ocupando os lugares que lhes estavam reservados, enquanto, no exterior, já o cortejo dos tributários se organizava, segundo as indicações dos mestres-de-cerimónias.
Finalmente, Chnumhotep, com um destacamento da Guarda Nobre, ocupou os degraus que conduziam à sala aberta, esplendidamente engalanada, e na qual já se reuniam diversos dignitários.
Esta sala, cujo acesso se podia fazer do pátio por uma dezena de degraus, abria, por um lado, para extensa galeria, conduzindo ao interior do palácio, e por ela devia chegar o pessoal da Corte.
-Os muros estavam literalmente cobertos por tapetes caros e armações de púrpura, e, junto da escadinha, duas longas hastes sustinham, projectadas para a frente, um vasto pano raiado de ouro e vermelho, e, em frente à escada, sobre alto e longo estrado de madeira dourada, as poltronas reais.
No centro do estrado, havia um dossel, apoiado em quatro colunatas esmaltadas de cores vivas e terminadas em folhas de palmeira; sobre o friso do baldaquino e ao fundo também esmaltado de rubro, via-se bordada a ouro, a “uraeus” com o disco solar sobre a cabeça.
O trono, de ouro maciço, quadrado, quase sem encosto, era ornado em ambos os lados com incrustações de lápis-lazúli representando duas hastes de lótus e de papiro ligadas, emblema simbólico do Alto e Baixo-Egipto, unidos sob um ceptro único.
No mesmo nível, fora porém do dossel, havia outra cadeira igual, destinada a Tutmés.
Tudo estava disposto, os retardatários, apressados, ocupavam seus lugares, os tributários escalavam já o primeiro pátio, quando chegou Horemseb.
Sentado em dourada liteira, o príncipe permanecia indiferente e sonhador, não parecendo notar nem os milhares de curiosos olhos que o fixavam, nem o murmúrio admirativo à formosura do seu rosto e ao esplendor do seu séquito.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 02, 2017 8:15 pm

A entrada do segundo pátio, menor, a liteira parou:
Horemseb apeou e avançou, a pé, rumo da tribuna.
Nesse instante, inúmeras fanfarras estrepitosas anunciaram a aproximação da corte; cessaram todos os mil ruídos da turba; a multidão ondulou em todos os sentidos, imobilizando-se nos pontos conquistados; todos os olhares convergiram para a galeria, ao fundo da qual se via desenrolar como que imensa fita marchetada de reflexos metálicos, encimada por uma floresta movediça de plumas e de sedas.
À frente do séquito, Hatasu caminhava rapidamente, vestindo traje branco, justo, bordado a ouro na barra, na cintura, nas mangas e gola; fina mantilha vermelha, franjada de ouro e bordados de pedrarias cobria-lhe o busto; um colar de sete voltas, de Incalculável preço, ornava-lhe o pescoço; pesados braceletes moviam-se desde os pulsos até quase os cotovelos.
Em lugar da dupla coroa, a rainha exibia um penteado de plumas de Angola sobre o qual assentava uma coroa redonda e recortada; de sob as penas, que formavam asas erguidas, saíam os negros cabelos anelados, e, coisa pouco acreditável, tão estranho penteado, difícil de ser exibido na cabeça de mulher de nossos dias, combinava perfeitamente com o rosto regular e fino de Hatasu. A alguns passos de distância, caminhava Tutmés, tendo à cabeça um boné-capacete, ornado na frente de duas “uraeus” de ouro, cujas caudas se enrolavam em espiral, e trazendo na mão uma comprida varinha dourada, com a cabeça de Hator encimando-a.
A rainha subiu o estrado a passo firme e sentou-se.
Avistada assim, na sua atitude hierática, fulgurante de jóias, na imobilidade serena que a antiga etiqueta do Egipto exigia de seus reis, semelhava um ídolo de pedra.
Em conjunto, aquela cena, emoldurada de construções imensas e estranhas, espelhando diversíssimas colorações e personalidades humanas, de modo a causar vertigens, constituía um quadro do qual solenidade alguma de nossos tempos poderia dar sequer ideia aproximada.
Desde quando Tutmés tomou lugar e os porta-abanos e os dignitários se colocaram em redor do trono, um mestre-de-cerimónias prosternou-se, anunciando que o príncipe Horemseb implorava a graça de saudar Sua Majestade e de depor a seus pés ofertas de boas-vindas.
Depois, erguendo-se, estendeu a mão, e os servos do príncipe começaram a galgar os degraus, conduzindo as dádivas, verdadeiramente deslumbrantes, que Horemseb oferecia à sua real parenta.
Em seguida, veio ele; mas, olhando-o, expressão de desagrado delineou-se no rosto imóvel da rainha, um sentimento de quase aversão elevou-se no íntimo da alma contra esse jovem, belo, que parecia ter sido criado para inspirar simpatia.
Cólera e angústia lutaram por instantes no imo de Hatasu, enquanto as faces brônzeas de Tutmés se cobriam de fugaz palidez e interno desfalecimento fazia-lhe fechar os olhos por momentos.
Sem suspeitar do mal-estar e da hostilidade provocados pela sua presença na alma dos soberanos, Horemseb prosternara-se, beijando o solo; mas, ao erguer-se, deparou com o olhar de Hatasu, frio e acerado qual um dardo, e dura severidade vibrava na voz, quando, em sumárias palavras, agradeceu as ofertas, acrescentando:
— É um pouco tardiamente que vens cumprir os deveres para com o chefe da tua família; o lugar dos príncipes é junto do trono.
Por que foges tu do mundo, vivendo uma existência inactiva e inútil?
Por que te furtas aos deveres de esposo e de pai, não tendo até hoje esposa, nem herdeiro que perpetue a tua raça?
Rubor fugace colorou as faces de Horemseb; mas, recalcando a raiva que o invadiu, àquela reprimenda pública, inclinou-se profundamente, braços cruzados, e retorquiu respeitoso:
— Divina filha de Rá, digna-te de ouvir, sem cólera, a resposta do teu mais humilde e fiel súbdito: um voto feito aos Imortais impôs-me vida de solitude o isolamento:
tu sabes que as promessas feitas aos deuses são Invioláveis, e a luta entre o ardente desejo de prosternar-me a teus pés e o temor de per jurar dilacerou minha alma, muito tempo.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 02, 2017 8:15 pm

Um signo visível da divindade afinal me autorizou a deixar o retiro, para refazer e reflorir meu espírito no espectáculo da tua grandeza, impondo-me a condição de reentrar, ao fim de algumas semanas, no meu palácio de Mênfis.
A rainha escutara com visível surpresa a misteriosa explicação.
Muitos boatos, estranhos e suspeitos, haviam chegado ao seu conhecimento, relativamente ao enfeitiçador de Mênfis, mas, nenhuma queixa fundamentada, e, por multo anormal que fosse um jovem e belo príncipe ligar-se por voto a viver solitário, uma vez que não praticava o mal contra ninguém, podia-se crê-lo indiferente a tudo.
— Longe de mim a ideia de te fazer perjuro para com os deuses — disse ela.
Age segundo a tua consciência. Serás bem-vindo à minha Corte durante o tempo em que permaneceres em Tebas.
E agora vem sentar-te no teu lugar imediato ao do príncipe meu irmão.
Tão logo Horemseb chegou à cadeira designada, dois dignitários vestidos de túnicas brancas, sobre as quais se envolvia um estofo transparente, igualmente níveo e finamente plissado, aproximaram-se de Hatasu.
O primeiro, cujo “claft” era ornado de uma “uraeus”, levava na mão direita um saco de ouro e na outra uma ventarola; o segundo uma espécie de pasta ou pequeno saco dourado.
Ambos prosternaram-se, e, em palavras pomposas, rogaram permissão, o primeiro, para fazer desfilar o cortejo, o segundo, o da pasta, para apresentar à rainha príncipes tributários da Ásia, vindos para implorar a continuação da paz e a benevolência real.
Hatasu baixou o ceptro, em sinal de assentimento, e o desfile teve início.
À frente, vieram os príncipes tributários asiáticos, alguns morenos, qual os egípcios, outros de um amarelo pálido, barbados e de pronunciado tipo semítico.
Vestiam túnica interior amarela, inteiriça até os tornozelos, formando calções colantes, de mangas justas, por cima da qual os envolviam longos chales franjados, encarnados e azuis; na fronte, faixas estreitas, brancas, caindo para as costas em duas longas pontas.
Chegados junto do trono, flectiram os joelhos para o chão, e mãos ao alto, clamaram:— Glória a ti, rainha do Egipto, sol feminino que iluminas o mundo com as tuas claridades, tal qual o disco solar; sê propícia a nós outros, dispensadora de vida e alegria, senhora de milénios, por isso que tua palavra é o destino da Terra; e digna-te de aceitar o tributo que nós, teus mais humílimos escravos, te trazemos, para recrear teus olhos e aumentar teus tesouros.
Após esta arenga, começou um desfile, verdadeiramente interminável, de todas as riquezas da Ásia e da África:
pratos de ouro e de prata repletos de lápis-lazúli, ágata, cornalina e de pedrarias diversas, ânforas de todos os tamanhos, cheias de vinhos ou óleos preciosos e odorantes.
Algumas dessas ânforas, brancas, terminando em ponta e cercadas de ouro, tamponadas com cabeças de bode ou de vaca, eram transportadas por dois homens, havendo também vasos de ouro, ornados de flores para enfeite de mesa, tecidos, armas e um carro admiravelmente cinzelado e incrustado de esmaltes multicolores.
Depois dos asiáticos, vieram os buchitas, destacáveis pela tez mais clara, ostentando blusas brancas e cintos vermelhos, casquetes enfeitados de penas, pele de pantera sobre os ombros; negros, de carapinha, com aventais mosqueados de branco e encarnado ou preto, sendo que as negras vestiam longas saias raiadas azuis, rubras ou amarelas, e lenços na cabeça.
Estes africanos traziam por tributo arcos e flechas, abanos, plumas e ovos de avestruz, dentes de elefante, andores empilhados de peles de leão e de leopardos, perfumes, ouro e prata, leões e panteras vivos, e até uma girafa.
Finalmente, ao término do desfile, vinham gado, símios, plantas raras, estas em amplas caixas de madeira trabalhada e colorida.
Quando o longo desfilar, que se estendeu por mais de duas horas, terminou enfim, a rainha, visivelmente fatigada, erguendo-se, dirigiu breves e benevolentes expressões ao Sumo Sacerdote de Amon, anunciando-lhe que remeteria consideráveis presentes ao templo.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 02, 2017 8:16 pm

Em seguida, acompanhada de Tutmés, e do seu séquito, regressou aos aposentos, ao som das fanfarras e sob aclamações frenéticas da multidão.
O povo, entusiasmado e discutindo ruidosamente sobre a magnificência da cerimónia, a riqueza dos tributos e preço incalculável dos tesouros que haviam passado sob seus olhares, escoou lentamente, embora cada um estivesse pressuroso de regresso a casa para narrar o deslumbrante espectáculo a quantos impedidos de a ele assistir.
O tempo seguinte decorreu alegre, e foi uma continuidade ininterrupta de festa para a alta sociedade de Tebas:
todos desejavam ser agradáveis a Tutmés, infatigável amigo de distracções, e ao mesmo tempo atrair o misterioso solitário de Mênfis, a respeito do qual circulavam tantos estranhos boatos e a quem todos estavam desejosos de conhecer.
Horemseb prestava-se de boa-vontade, com a melhor graça possível, a essa curiosidade geral, que ele simulava não perceber; com amável simplicidade, aceitava todos os convites, recebia em sua residência com hospitalidade principesca, e tomava parte, sem pestanejar, nos prazeres da juventude álacre, e soube — coisa difícil — granjear o bom conceito dos velhos dignitários e o dos moços estouvados da metrópole.
Quanto às mulheres, estavam fanatizadas por esse belo e ilustre mancebo, sempre amável para todas, embora sem destacar nenhuma em particular.
Apenas sobre este aspecto Horemseb não se modificara:
seu coração permanecia gélido, e não demonstrava aperceber-se das perigosas paixões que excitava no imo das moças, ardentes quanto o sol do trópico sob cujos raios, haviam nascido.
As herdeiras mais ricas e formosas demonstravam-lhe aberta preferência, e ter-lhe-ia bastado pronunciar uma palavra para obter por esposa qualquer das mais orgulhosas; mas, o príncipe, já se disse, sempre amável, permanecia frio a todas as investidas, e tudo foi em vão: mais de uma pretendente prestigiosa viu-se desdenhada, mais de uma aliança, prestes a concluir, foi desfeita.
Assim decorreram mais de três semanas.
Neith não havia comparecido a nenhuma das festas, porque indisposição grave, prolongada por extrema debilidade, retivera-a em casa, onde, por intermédio de Roant, que a visitou assiduamente, se mantivera ao corrente de todos os acontecimentos.
Afinal restabelecida, Roant arrancou-lhe a promessa de participar de um grande festim que seu esposo ofereceria em honra do príncipe, e que fora adiado para que ela, Neith, pudesse comparecer.
Aquiesceu, apesar da recôndita tristeza que a assediava; o regresso de Sargon, cada vez mais próximo, oprimia-a qual um pesadelo; esse insuportável obstáculo ia colocar-se entre ela e Roma, e a tal pensamento, o de pertencer ao homem que lhe inspirava piedade tão somente, dava-lhe calafrios.
Os tristes pensamentos faziam pálido o fino semblante da jovem egípcia, e velavam de melancolia os seus grandes e aveludados olhos.
No entanto, tudo isso não lhe negligenciou o senso da elegância, e preparou-se para a festa com magnificência e gosto que mais realçaram sua maravilhosa formosura.
Vestiu comprido e amplo vestido de pano escarlate, bordado na parte inferior com ouro e pedraria fina; cinto trabalhado com incrustações de pérolas e turquesas contornava-lhe o talhe, esbelto e flexível; um colar e braceletes, também de pedrarias preciosas, ornavam-lhe o colo e braços; pequeno “claft”, igualmente escarlate, cobria-lhe a cabeça, ornado, na frente, com admirável diadema, dádiva de Hatasu.
Não desejando fazer aparecimento sensacional, Neith foi para a residência de Roant antes do início da festa; mas, estando a amiga atarefada com a “toilette” e as derradeiras providências domésticas, encaminhou-se para um dos terraços, e, estendendo-se numa poltrona, ficou como que em sonho, fruindo a frescura aromática do jardim, sem que pudesse depois avaliar por quanto tempo assim ficara perdida na selva dos pensamentos, até que Roant irrompeu ali.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 02, 2017 8:16 pm

— Que fazes, Neith, relegada a este terraço, enquanto estou à tua procura por toda parte?
Os convivas já se estão reunindo, e Horemseb deve chegar de um momento a outro.
Estás lindíssima hoje! — acrescentou, olhando e abraçando a jovem.
Até a palidez e esse vinco de tristeza em torno dos lábios têm encantador fascínio.
Horemseb será decididamente cego, se permanecer indiferente ao contemplar-te.
Neith fez desdenhoso movimento de ombros.
— Duvido que meus encantos tenham maior império do que os de todas as belas que suspiram e sofrem aos pés do impiedoso encantador, e não o desejo de modo algum. Homem igual a ele, acostumado a agradar a todas as mulheres, deve ser tedioso e revoltante, e (um clarão de orgulho fulgurou em seus olhos) eu recuso atrelar-me ao carro triunfal desse vaidoso, que já arrasta as mais formosas jovens do Egipto.
— Neith! Neith!
Que linguagem! — exclamou Roant. Tu serás mais benévola para com as pobres criaturas que perderam o coração, quando o hajas visto.
Digo-te que é belo quanto Horus e que seu olhar fulgente envia indestrutível chama ao coração da mulher moça e sem compromissos de amor.
Preveni-te, Neith, para que não sucumbas, tu também, à fascinação.
Escarninho sorriso deslizou pelos lábios da jovem, e algo de hostil vibrava em sua voz, quando respondeu:
— Belo quanto Horus, um deus digno de amor!
Não sabes tu que se adora um deus, porém jamais se ama um deus?
Assim, estou disposta a adorar o divino Horemseb, mas não tenho receio de amá-lo, nunca.
— Neith, imprudente, não provoques esse homem estranho e misterioso: secreta voz diz-me que isso te acarretará...
Roant interrompeu-se, empalidecendo, e abafado grito fugiu-lhe da boca; seu olhar caíra sobre um homem que, braços cruzados, se encostara ao leão de granito que ornava o último degrau da escada do terraço.
Angústia e terror comprimiam-lhe o coração.
De que modo Horemseb (porque era ele) ali chegara, e desde quando ali estava?
Afeito sem dúvida à predilecção das súbitas aparições, entrara pela porta particular, enquanto era aguardado cerimoniosamente pela da fachada do prédio.
Roant teve o pressentimento de que, se ouvidas houvessem sido as palavras de Neith, teria esta de as pagar bem caro.
À exclamação da amiga, a jovem voltara-se, e, com desagradável surpresa, olhou o homem de pé no terraço.
Ela jamais o tinha visto, mas teve a intuição de tratar-se do príncipe, que aparentava indiferença, embora, sob as pálpebras semi-fechadas, seu olhar acerado e chamejante se dardejasse sobre as duas mulheres, enquanto indefinível sorriso lhe pairava nos lábios, descobrindo, por entre a púrpura cavada, o esmalte impecável dos dentes.
— Ah! príncipe, que susto nos pregaste!
Não é justo surpreender-nos assim — disse afinal Roant, dominando a emoção.
— Bem ao contrário, felicito-me por isso, porque é belo espectáculo ver reunidas duas formosas mulheres, sem que suspeitem estarem sendo admiradas — respondeu Horemseb, subindo lestamente os degraus de acesso ao terraço.
Apertou amigavelmente a mão de Roant, e depois, encaminhando-se a Neith, saudou-a respeitoso, com uma expressão de surpresa e ironia no olhar que fixou na audaciosa jovem, que afrontava e desdenhava o seu poder.
À aproximação, Neith erguera o busto, alteando desdenhosa a fronte, com a exteriorização de inabordável orgulho plissando-lhe a boca, com os lindos olhos brilhantes, velados de gélida indiferença, como que espelhando de toda a sua personalidade surda revolta e inimizade, sem qualquer disfarce.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 02, 2017 8:16 pm

— Eu te saúdo, mais bela das tebanas, e sou feliz em fazer enfim o conhecimento da nobre filha de Mena, o glorioso amigo de meu pai —- disse Horemseb, não demonstrando reparar na atitude hostil da sua interlocutora.
E deixa-me dizer-te — prosseguiu — que ouvi tuas cruéis e injustas palavras:
tu me condenas por faltas que não pratiquei.
Não teria eu o mesmo direito, Neith, de recriminar tua beleza, encantos com que os deuses te dotaram?
Aos adoradores que suspiram a teus pés podes tu amar, a todos?
Curvou-se para ela, tanto, que seu hálito escaldante soprou a face de Neith, e seu olhar pareceu atravessar a jovem.
— Eu próprio — ajuntou ainda — estou prestes a descer do meu carro de triunfo, para atrelar-me ao teu, a fim de obter um sorriso dessa pequenina boca, que é tão rebelde e tão desdenhosa.
O rosto subitamente purpureado, Neith recuou vivamente.
Suave aroma, mas sufocante, ferira-lhe o olfacto, oprimindo a respiração; os lábios fremindo nervosamente, a voz parecendo enrouquecida, quando respondeu:
— O deus não deve descer do pedestal em cujo cimo é adorado pela multidão, para se transformar em escravo junto de uma simples mortal.
Aliás, seria em vão, pois não tenho sorrisos para te dar, Horemseb, de vez que sou casada, e meu esposo, Sargon, regressará dentro de algumas semanas.
Seu braço é forte, seu punhal bastante agudo, e não permitirá que outro, além dele, se atrele ao carro de triunfo onde lhe está a esposa.
A jovem falara com agitação crescente; começava a compreender que aquele homem, por sua beleza, e por estranha influência que ela experimentava sem poder defini-la, podia exercer fatal domínio sobre corações femininos.
Como que movida pelo instinto de conservação, evocara o nome de Sargon, o marido, seu legítimo defensor, para fazer disso um broquel contra o perigoso fascinador.
Pálida e emudecida, Roant escutara o diálogo, que para seu imenso alívio foi interrompido por Chnumhotep, acompanhado de duas senhoras da parentela.
A palestra generalizou-se, então, pois passaram a uma grande sala repleta de convidados, onde Horemseb foi logo posto em assédio, enquanto Neith conversava com Keniamun.
Mas, este, chamado por um velho dignitário, ausentou-se, e a jovem sentiu-se, sem saber por que, triste e isolada em plena festa, pesada a cabeça, a imagem de Horemseb a persegui-la, com o hálito a queimar-lhe a face, e, atormentada por intenso mal-estar, esquivou-se e desceu ao jardim, onde a aura fresca a reconfortou um pouco.
Apesar disso, as pernas tremiam-lhe e respirava com dificuldade, enquanto um peso plúmbeo parecia invadir-lhe os membros.
— Ainda estou enfraquecida da doença; não devia ter vindo — murmurou para si mesma.
Deixando-se cair sobre um banco, à sombra de opulento sicómoro, apoiou a fronte de encontro ao tronco da árvore, e sonhou no seu esvaecimento.
A imagem do príncipe perseguia-a; ela, porém, repelia-a com raiva, esforçando-se por pensar em Roma, comparando seu puro e suave olhar com os olhos sombrios de Horemseb, sob o encanto dos quais dir-se-ia oculto algo de cruel e gelado.
Leve letargo surpreendera-a durante essas reflexões, e não saberia por quanto tempo durou o sono; mas, despertando em sobressalto, respirou delicioso perfume, fortíssimo embora, que a envolveu como se estivesse no meio de um roseiral.
O rosto escaldava e o coração palpitava violentamente.
Levando a mão ao peito, sentiu algo de húmido, que retirou com susto; era uma haste de rosa em botão quase a eclodir, presa ao corpinho do vestido...
— Ah! adormeci, e alguém se aproximou para me dar esta rosa.
Quanto é desagradável isto! — murmurou ela, arrancando a flor, com repulsa, e atirando-a ao chão.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 02, 2017 8:16 pm

Precipitadamente regressou à grande sala, e sentou-se junto a um grupo de senhoras.
Pouco depois, os escravos trouxeram pequenas mesas e serviram vinho, frutas e bolos, enquanto músicos e dançarinas distraíam os convivas.
Horemseb encontrou ensejo de colocar-se na mesa onde estava Neith, e encetou uma conversação da qual não pôde a jovem fugir de tomar parte.
Aparentemente alegre e animada, sustentou brilhante palestra, respondendo com espírito e finura de expressão, que excitava risos e admiração do auditório; mas, atento observador teria constatado que o rubor das faces era febril, o brilho dos olhos anormal e que, na voz, lhe passavam por instantes como que lágrimas represadas.
Efectivamente, Neith estava num estranho estado de alma: surda aversão lutava nela contra uma atracção apaixonada para o príncipe; tão logo lhe era impossível desviar os olhos do belo semblante, ela se revoltava contra a misteriosa sugestão por ele exercida sobre ela.
Então, acreditava ler no sombrio olhar de Horemseb a avidez malvada e cautelosa de um tigre em negaças; o amável sorriso lembrava o ríctus vitorioso e chasqueador de um demónio.
E ela se inteiriçava, em apelo ao seu orgulho, e um olhar frio e hostil, uma resposta arrogante e mordaz terminavam os jocosos dizeres, cortando a harmonia, qual dissonância aguda.
Neith regressou a casa seriamente indisposta; o corpo queimava, a cabeça em revoluteios, angústia pungente contorcia-lhe o peito.
Enquanto as servas a despiam, desmaiou, e já os raios do Sol douravam o horizonte quando adormeceu alfim, num sono inquieto e agitado.
O tempo que se seguiu foi penoso para a jovem senhora, porque experimentava a sensação de estar quebrada, física e moralmente; seu coração estava deserto, não mais parecendo que Roma tivesse ali um lugar; e Sargon havia sido olvidado.
Em antítese, a imagem tentadora de Horemseb flutuava incessantemente ante seu espírito, perseguindo-a até nos sonhos.
Ela própria, não mais se compreendendo, tomou a resolução de fugir a todo e qualquer encontro com esse homem perigoso, que era sem injustiça chamado enfeitiçador, e, sob pretexto de moléstia, confinou-se em seu palácio, recusou obstinadamente todos os convites.
Muitas semanas escoaram-se sem que revisse o príncipe, do qual toda Tebas continuava ocupando-se.
Hatasu veio visitá-la, uma vez, repreendendo-a carinhosamente pela reclusão, que o estado de saúde não justificava de todo, e comunicou que Sargon enfermara seriamente durante a viagem de regresso, tendo sido necessário interná-lo em uma fortaleza do percurso.
Estava, porém, fora de perigo, e dentro de seis semanas devia chegar a Tebas.
Em uma tarde, à hora em que agradável frescor substitui o sufocante calor do pleno dia, Neith estava no seu local favorito, no terraço da borda do Nilo, sentada preguiçosamente sobre macia poltrona, com os delicados pezinhos em sandálias brancas apoiados num escabelo: sonhava, desfolhando, distraída, uma flor de lótus que colhera de grande vaso da balaustrada; uma jovem serva, de pé por detrás da cadeira, abanava-a suavemente, enquanto uma segunda, acocorada a curta distância, cantava, acompanhando-se de harpa, uma ária, cadenciada e monótona, embora de extrema doçura.
A entrada de uma pretinha, que trazia uma cesta de flores, veio tirar Neith dos quiméricos pensamentos.
— Senhora, um criado ricamente vestido, mas recusando dizer quem o mandava, trouxe isto — disse ela, apresentando soberbas rosas rubras, dispostas com arte no cesto dourado.
Algo surpresa, Neith inclinou-se para as flores, mas, tão logo delicioso e penetrante aroma, já respirado, feriu-lhe o olfacto.
Fatigada e subitamente esmorecida, recuou, encostando a nuca no espaldar da cadeira; violento ardor corria-lhe nas veias e céleres batimentos assaltaram-lhe o coração, enquanto, de novo, a imagem de Horemseb se desenhou ante ela, atraindo-a invencivelmente.
Jamais, qual então, experimentara tão ardente desejo de revê-lo, e viver sem ele parecia-lhe acima de suas forças.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 02, 2017 8:17 pm

Mas, ainda a natureza enérgica, a alma recta e altiva lutaram contra os efeitos do veneno.
Passando a mão húmida pela fronte, ergueu-se.
— Sou bem louca, por deixar-me assim dominar por estas humilhantes quimeras!
Antes morrer do que amar Horemseb!
E, com um brusco movimento, sem mesmo aperceber-se do motivo que a fazia agir assim, pegou a cesta e atirou-a com violência ao rio.
Satisfeita e como que aliviada, debruçou-se na balaustrada; mas, imediatamente, estremeceu e fixou os olhos em elegante barca dourada, cuja proa visava a margem e parecia dirigir-se para a escada do terraço.
Na parte fronteira estava sentado Horemseb, de quem ela divisava perfeitamente o rosto e o cintilante olhar voltado para o ponto onde desaparecera a corbelha, deixando esparsas as rosas, que balouçavam coquetes no dorso das águas.
Pareceu a Neith que expressão de raiva e de incrível perversidade desfigurava a fisionomia do príncipe; mas, rápido, ele se curvou, apanhando uma das flores, e, de pé, exclamou, erguendo a mão:
— Salve a ti, nobre Neith!
Os deuses hoje favoreceram-me duplamente: enviam-me uma dádiva de tuas mãos, e me permitem avistar-te de boa saúde.
Autorizas-me a chegar junto de ti por alguns instantes?
Tenho algumas palavras que te dizer.
Coração fechado, ela inclinou a cabeça, fazendo com a mão sinal de assentimento, visto que não tinha razão plausível para repelir tão simples solicitação, feita por um príncipe aparentado de Hatasu.
Enquanto ordenava aos escravos trouxessem uma cadeira e servissem refrigerantes, a barca chegara, e Horemseb lestamente subira a escada.
Sem dar atenção à atitude glacial e cerimoniosa com que estava sendo recebido, o príncipe sentou-se, aceitou um copo de vinho, e, após algumas expressões sem importância, disse, a sorrir:
Vim certificar-me se verdadeiramente está enferma, segundo se diz, a mais bela mulher de Tebas, pois que não a revi depois da festa do nobre Chnumhotep.
Mas — acrescentou com ligeiro suspiro — minha permanência aqui chegou ao termo, pois retorno à solitude de Mênfis, para sempre sem dúvida; e, antes de nos separarmos, quero reunir ainda uma vez, em minha casa, os amigos de Tebas, que tanta benevolência me demonstraram.
Assim, venho solicitar a honra de te ver também, nobre Neith, embelezar minha festa com a tua presença.
Recusarás este favor àquele que parte, sem intenção de voltar?
Inclinando-se para ela, fundiu, nos olhos perturbados e inocentes da jovem, um olhar acariciador e cheio de súplicas.
— Ele vai embora!
Louvados sejam os deuses — disse Neith a si mesma, respirando mais desafogadamente.
Mas, apesar desse pensamento de alívio, dor aguda, pungente, atravessou-lhe o coração, e, à ideia de não mais rever Horemseb, como que um véu de luto pareceu cobrir o porvir da sua vida.
Partilhando sentimentos assim tão contraditórios, baixou a cabeça, e respondeu em tom inseguro:
— Agradeço a honra que me fazes com este convite, príncipe Horemseb, e esforçar-me-ei por assistir à tua festa, se minha amiga Roant a ela igualmente comparecer.
— A formosa esposa de Chnumhotep não deixará de ir a uma festa que a nossa gloriosa rainha prestigiará com a sua presença.
Assim, nada pode impedir teu comparecimento, nobre Neith, além da tua própria vontade — respondeu Horemseb, fixando com olhar de cruel satisfação a fronte inclinada da jovem que balbuciara uma promessa.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 03, 2017 8:43 pm

Instantes depois, ergueu-se e fez suas despedidas, deixando Neith como que sob o peso de uma opressão.
E, quando o barco do príncipe desapareceu, apertou a fronte escaldante, murmurando:
— Devo e quero olvidá-lo!
A festa de adeus com a qual Horemseb se despedia de Tebas primava por inigualável magnificência.
Todas as personagens de distinção, da cidade e da Corte, ali estavam reunidas em assembleia.
A rainha não faltou; mas, acometida de renitente cefaleia, que a assaltava periodicamente de certo tempo, pouco se demorou, deixando para substituí-la o jovem Tutmés, cuja inesgotável jovialidade, vivaz e afável, se mesclara à animação do festim.
Horemseb excedia-se em atenções para com os convidados, mas distinguia a Neith muito particularmente, reencontrando-a sempre no labirinto da multidão, para dizer-lhe palavras amáveis, ofertar flores ou mostrar algum objecto raro e valioso, convidando-a afinal para ligeiro passeio no jardim, que então fora iluminado feericamente.
Neith acedeu.
Sentia-se contrafeita, cabeça pesada, testa ardente, olhar incendido, meio sufocada com o aroma das flores que o príncipe lhe doara, e por isso esperançou-se de que o ar exterior lhe fizesse bem.
Silenciosamente, caminhou ao lado de Horemseb, que parecia não reparar na indisposição, falando alegremente, e que, depois de alguns giros nas Iluminadas aleias, retomou o rumo do palácio.
Mas, chegados a um terrapleno, então deserto, o príncipe se deteve, e disse, olhando Neith com atenção:
— O calor parece perturbar-te, nobre Neith.
Permite que te ofereça um refrigerante.
— Agradeço-te, e aceito — respondeu, apoiando-se à balaustrada.
Em verdade, tenho muita sede, e sinto-me exausta de calor.
— Aguarda-me um momento, aqui: mandarei servir-te.
Horemseb rumou para o interior do palácio; mas, ao decurso de alguns minutos, reapareceu, trazendo, ele próprio, um copo, que ofereceu à jovem.
Esta bebeu avidamente, porém, no mesmo instante, brusco arrepio a sacudiu, fazendo que o copo lhe resvalasse da mão, e, como que presa de vertigem, cambaleou, olhos fechados, arrimou-se a uma colunata.
Horemseb permaneceu imóvel, observando, com escarnecedora satisfação, o estranho estado da sua vítima.
Subitamente, Neith se retesou.
A púrpura das faces, sucedeu lívido palor, e, olhos desmedidamente dilatados, parecia fixar, com horror execrável, invisível objecto.
— O abismo, o abismo hiante e terrível, lá, a nossos pés — murmurou —, e esse rio de sangue!
Oh! Quem são essas mulheres ensanguentadas, com uma chaga aberta no peito e rodeadas de chamas?
Ela recuou, tremente, braços estendidos, parecendo repelir sombras visíveis para ela, e teria caído, se Horemseb não houvesse corrido a ampará-la.
— Torna a ti, Neith!
Que visão te atormenta?
Que abismo vês a teus pés? — indagou ele, empalidecendo e curvando-se para a jovem, que, prostrada em seus braços, parecia não o ver, nem ouvir.
De súbito, ela ergueu a mão, e, com estranho timbre, pronunciou:
— Renuncia a Moloc, que te encadeou e quer a tua perda, ou melhor, foge, Horemseb, antes que seja demasiado tarde:
o abismo escancarado te atrai, as vítimas para ele te impelem!
A voz extinguiu-se-lhe bruscamente, e sua cabeça descaiu pesadamente: estava desmaiada.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 03, 2017 8:43 pm

Cadavérica palidez havia invadido por instantes as faces do príncipe, e seu olhar se fixara nos trémulos lábios da jovem; mas, dominando tal emoção, ergueu Neith, e monologou:
— Estranha criatura, quem te pôde desvendar meus actos e meus segredos?
Razão demais para que me apodere de ti, não hoje, mas logo que possa, e ninguém duvidará de que tu me seguiste.
Sim, tu serás minha, bonequinha preciosa e linda, tua forma de alma interessa-me, tuas visões podem servir-me; não te deixarei jamais para o mísero escravo hiteno a quem chamas esposo!
Em sala contígua, encontrou Roant, que buscava a amiga, e que soltou um grito de susto, ao vê-la inanimada.
— A nobre Neith deve estar enferma, porque desmaiou durante pequeno passeio que fizemos no jardim; mas, tranquiliza-te, Roant, vamos fazê-la tornar a si.
Num aposento dos privativos de Horemseb, sem acesso dos convidados, a jovem em pouco reabriu os olhos, embora parecesse presa de extrema debilidade.
E em voz baixa, quebrantada, disse desejar ser imediatamente reconduzida para o seu lar.
— Vou mandar vir tua liteira, e a ele eu mesmo te conduzirei — disse o príncipe.
É uma honraria que me pertence, na qualidade de dono da casa, e que não cederei a quem quer que seja.
Neith não fez objecção.
Muda, olhos fechados, deixou-se erguer por Horemseb, mas, o ligeiro tremor que lhe vibrava pelo corpo, fez que o príncipe compreendesse estava ela na plena consciência dos acontecimentos, foi momento, ele fixou, com olhar meio cruel, meio apaixonado, o fascinante rosto da jovem.
Depois, curvando o busto, ciciou ao seu ouvido:
— Tu me amas, bela rebelada, apesar do teu orgulho e resistência.
Vou partir, mas voltarei, quando estiveres no fim da dissimulação, e confessarás o sentimento que te liga a mim para toda a vida.
Neith estremeceu, e reabriu os olhos; seu orgulho parecia quebrado, e, encontrando o olhar sombrio e também devorante do príncipe, indizível angústia o seu a reflectiu, tal qual o da vítima quando vê erguido contra si o punhal do assassino.
Pouco depois, Horemseb a colocava na liteira, onde já se encontrava Roant.
Dirigindo derradeiro olhar a Neith, que refechara os olhos, ele se inclinou respeitosamente, e, após algumas expressões de despedida, retornou ao palácio.
Sorriso de satisfação enfeitava-lhe as feições, e jamais seus convivas o conheceram mais alegre, animado e brilhante.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 03, 2017 8:43 pm

IX - FRUTOS DA ESTADA DE HOREMSEB EM TEBAS

Dois dias depois da festa que descrevemos, o príncipe havia, em solene audiência, apresentado despedidas à rainha.
Durante a noite que se seguiu a tal encontro com a sua real parenta, o feiticeiro deixou Tebas, sem evidências, e o palácio recaiu, como que por magia, no silêncio e no abandono.
O misterioso e sedutor príncipe, centro e ornamento de todas as festas onde o esplendor e os excessos haviam, durante dois meses, ocupado a Capital, regressara à solitude de Mênfis, para sepultar-se até o fim de sua vida, segundo dissera aos numerosos amigos.
Apesar disso, a estada de Horemseb em Tebas devia deixar após ele um sulco fatal, que parecia justificar os temores supersticiosos do povo de Mênfis que o acusava de “mau-olhado”.
Seu fascínio sobre as mulheres era evidente, mas, porque jamais distinguisse alguma da “sua sociedade”, não se podia, em sã consciência, acusá-lo de haver deliberadamente suscitado paixões.
Todavia, muitas moças, pertencentes às principais famílias do Egipto, haviam manifestado por ele insano amor, contra o qual nenhuma persuasão dos parentes, nenhuma tentativa de esmaecer tal paixão, recorrendo a matrimónios condizentes, nada conseguia reconduzi-las à razão.
Consumidas por estranha febre, por uma angústia que lhes impedia qualquer repouso, as infortunadas perambulavam noite e dia, possuídas do exclusivo pensamento de rever o príncipe, a custo fosse do que fosse.
Quinze dias não eram decorridos do regresso de Horemseb, e duas jovens caíram enfermas.
No delírio de ardente febre, julgavam ver o príncipe, curvado sobre elas, e lhe pediam concedesse-lhes um olhar de amor.
E assim sucumbiram, sem recobrar a lucidez.
Essas duas prematuras mortes pareceram abrir caminho a uma série de desgraças de pior consequência:
a filha de um dos grandes sacerdotes enforcou-se no dormitório; duas sobrinhas de um Conselheiro Real afogaram-se no Nilo; outra novel criatura apunhalou-se; duas Damas de Honor da rainha envenenaram-se no jardim do palácio do próprio Horemseb, onde haviam conseguido penetrar.
Os suicídios, a tal época, não eram comuns (tal como ocorre em nosso tempo), de modo que as mortes violentas e voluntárias de tantos jovens seres, o luto inopinado que atingiu nobres famílias, provocaram profunda agitação na Capital e despertaram surda malquerença contra o autor de tantos malefícios.
Contudo, ninguém ousava acusar Horemseb, porque — acaso era ele responsável por amores que não encorajara?
A própria rainha, cientificando-se desses acontecimentos, sentiu renascer a antipatia que experimentara no momento da apresentação do príncipe, e teve ocasião de afirmar, em voz alta certa vez, que graças eram devidas aos deuses pela jura que ele fizera de exilar-se perpetuamente e solitário no seu palácio de Mênfis, e que ela esperava jamais fosse esquecida tão solene promessa.
Tais expressões, equivalentes ao desfavor real e ao exílio, foram do conhecimento de toda a Capital, o que, de algum modo, constituiu uma satisfação aos diversos sentimentos hostis excitados contra o enfeitiçador.
Roant também observava, com progressiva inquietação, a mudança operada na personalidade de Neith, as alternativas de febre e de apatia que a devoravam, a irritabilidade nervosa, a estranha misantropia com que ela se esquivava da sociedade e da luz solar, refugiando-se avidamente na obscuridade e no silêncio.
A todas as perguntas da amiga, a jovem respondia evasivamente:
— Não é nada, e passará tão logo eu reveja Roma.
Jamais mencionava Horemseb, e, apesar disso, a voz recôndita dizia a Roant que nenhum outro era causa dos sofrimentos de Neith.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 03, 2017 8:43 pm

Revivia repetidamente na memória o fatal momento em que o príncipe surpreendera a confidencial palestra de ambas na festa que o marido oferecera, e, coração confrangido, relembrava o fulgurante e indefinível olhar dirigido à altiva jovem, quando esta, motejadora, declarara desdenhar atrelar-se ao carro triunfal do príncipe.
Horemseb teria atirado algum sortilégio a Neith?
Por vezes, Roant parecia identificar em Neith os mesmos sintomas verificados em Roma, ao tempo do encantamento por Noferura, e, por isto, escrevia ao irmão, instando para que regressasse sem tardança, esperançosa de que talvez sua presença e seu amor restituíssem o repouso àquela que amava.
Inquieta pelo estranho estado da sua favorita, Hatasu fez Neith ir a palácio, e tentou, bondosamente, a confissão dos pesares que a afligiam, prometendo satisfazer a tudo quanto desejasse, se humanamente tal fosse possível. Embora sensibilizada e agradecida, ao fundo da alma, Neith respondia apenas com lágrimas copiosas, porque seus lábios recusavam confessar a luta, com todas as forças do seu ser, contra o fatal amor por Horemseb; que invencível poder, subjugando-lhe a razão e a vontade, a arrastava para o belo e gélido homem que, divertindo-se, destruía o coração e a vida das mulheres, sem amar nenhuma.
Rubor de vergonha subia-lhe ao rosto, lembrando as acerbas e cruéis zombarias de Keniamun e de outros, a propósito do amor ridículo e desdenhado das moças loucas que só puderam encontrar na morte remédio para os seus abrasados corações.
Devia confessar que ela também havia sucumbido ao fascínio?
Sem dúvida, a poderosa protectora podia anular o seu matrimónio, e ordenar a Horemseb que a desposasse; mas, poderia a rainha mandar também que o príncipe a amasse, a ela, Neith?
Cada fibra do seu orgulhoso coração se rebelava ao simples pensamento de tal união imposta pelo Faraó, à perspectiva de encontrar o olhar irónico de Horemseb, que lhe predissera a insânia e já zombara da derrota a que fora levada.
Não! Mil vezes não! Antes viver com Sargon, a quem dera jura de esposa.
Todos esses tumultuosos pensamentos agitaram Neith, enquanto, ajoelhada aos pés de Hatasu, escutava as afectuosas palavras da sua protectora; mas, a vergonha e o orgulho chumbavam seus lábios, e foi com esforço que pôde balbuciar:
— Não posso dizer o que sinto:
uma angústia terrível avassala-me, tirando-me sono e repouso; fujo ao dia, ao sol, cujos raios me fazem mal; somente à noite ou na escuridão encontro um pouco de calma.
Desassossegada e aflita, a rainha despediu-a, e, convencida de que algum maléfico “mau-olhado” descera sobre a jovem, encaminhou a esta os melhores médicos de Tebas para tratá-la e repelir o espírito impuro causador do mal.
Havia muito, as más notícias que lhe transmitia Roant inquietavam Roma, e ele acelerava quanto possível os assuntos que o retinham em Heliópolis; mas, ao receber a última carta, abandonou tudo e seguiu para Tebas apressadamente.
A primeira visita foi para a irmã, a qual, jubilosa por esse retorno, lhe disse dos alarmes que lhe causava o estado de Neith, fazendo-o ciente também das suspeitas de tratar-se de um enfeitiçamento igual ao que a ele fora dado por Noferura, e concluiu:
— Apenas uma particularidade me faz vacilar:
Neith não manifesta preferência por ninguém, nenhum nome de homem é pronunciado por ela, e, no entanto, pressinto que algo de funesto se prepara.
Quiçá a tua influência a liberte do espírito maléfico que a acorrentou.
— Que a bondade de Hator preserve a desditosa Neith dos sofrimentos que suportei outrora — suspirou o jovem padre.
Em todo caso, vou Imediatamente ao seu encontro.
O palácio de Sargon estava deserto e silencioso.
Nenhum visitante transpunha aqueles umbrais, porque a jovem proprietária, enferma e misantropa, não recebia ninguém.
Apesar disso, os servos não opuseram qualquer dificuldade ao acesso de Roma, pois sabiam que o irmão de Roant era sempre bem recebido.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 03, 2017 8:43 pm

Além disso, por ordem de Hatasu, desde muitos dias, numerosos sacerdotes tinham vindo tratar de Neith, do “mau-olhado”, de modo que os serviçais do palácio já estavam afeitos a dar entrada a todos os padres que se apresentavam ali.
Seguindo a indicação que lhe segredara um velho doméstico de confiança, Roma dirigiu-se para uma sala comunicante com o jardim e preferida por Neith.
Erguendo o reposteiro raiado que escondia a porta, ele, com ansioso olhar, esquadrinhou o aposento: meia escuridão dominava.
Bem ao fundo, num divã, estava estendida Neith, com semblante de torpor, tendo aos pés, acocorada, a sua velha nutriz, sendo que esta mostrava, no rugado rosto e nos grandes olhos fixados na jovem senhora, a profunda angústia de que se achava possuída.
Sem embargo disso, à chegada do moço sacerdote, a serva voltou-se, e, reconhecendo-o, quis erguer-se e falar-lhe, mas um gesto expressivo do recém-vindo indicou-lhe silêncio e retirada do local.
Depois, com toda a precaução, aproximou-se do divã e curvou o busto sobre a adormecida.
Febril vermelhidão cobria as faces de Neith; custosa e irregular respiração saía de seus lábios entreabertos; bruscos estremecimentos sacudiam-lhe o corpo; suas pequeninas mãos, cruzadas sobre o peito, acusavam nervoso tremor.
Pungente pesar invadiu a alma de Roma ante esse sofrimento exteriorizado, e, com fervorosa unção, coração opresso, ergueu uma prece aos Imortais.
— Neith! — murmurou ele, pegando-lhe a mão.
A jovem despertou em sobressalto, e, com abafada exclamação, estendeu-lhe os braços.
Sentando-se na borda do leito, Roma aconchegou-a ao peito, indagando com ternura:
— Que tens, minha bem-amada?
Que mal te consome, e de onde provém a causa de tua transformação?
Sê franca, diz-me: que te oprime?
Algumas lágrimas candentes deslizaram pelas furou de Neith, e profunda angústia reflectiu-se no olhar, fixado então no querido amigo.
— Roma! Salva-me de mim própria, fica a meu lado, para que eu não role pelo abismo que me atrai; teu puro amor curar-me-á, e expelirá... o outro! — acrescentou em voz mais baixa — porque este é labareda que não aquece, e sim devora, destrói e mata.
— É o regresso de Sargon que ela teme; esse medo consome-lhe a vida — pensou.
Mas, bruscamente resoluto, disse, afagando-lhe as mãos:
— Acalma-te, Neith, repele qualquer apreensão pelo futuro.
Sei agora quanto fui culpado por deixar-te sofrer tão longamente.
Ainda hoje, irei a Semnut, solicitar-lhe audiência e, amanhã, espero, poderei ajoelhar ante a rainha, dizer-lhe do horror que Sargon te inspira, e implorar que te dê a mim para esposa.
Queres assim, Neith?
Reencontrarás junto de mim saúde e ventura?
— Sim, sim, és o único que pode ser meu esposo; sob o teu olhar, esmaece a dor que me aniquila; mas, não me deixes — ciciou, oprimindo a fronte no peito do jovem sacerdote, que a observava ansiosamente.
Apesar disso, ele não deixou perceber a inquietude, e, pelo curso da palestra, ou talvez pela oculta influência que sua voz e seu olhar exerciam sobre a enferma, conseguiu atenuar a febril agitação de Neith.
A noite era plena quando ele afinal se ergueu.
— É forçoso que nos separemos, minha querida, pois tenho de ver Semnut e apresentar-me ao Grande Sacerdote; mas, amanhã, cedo, voltarei, e combinaremos nossas deliberações, antes de avistar-me com a Rainha.
Neith mandara aprestar uma embarcação, e fez questão de acompanhar Roma à base das escadarias das esfinges, e, de pé nos degraus, acompanhou com o olhar o afastamento do seu querido.
Depois, regressou tristemente, e, despedindo todos, a aia inclusive, caminhou pelo terraço, abismada na torrente dos seus pensamentos.
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