Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 22, 2017 9:22 pm

— Sim e não.
Tu encontrarás os pedaços espalhados sobre as lousas do terraço; eu o arranquei — prosseguiu ela em voz surda —, porque Mena me acusou, em presença de Keniamun, de me haver vendido a ti por esse colar e pelas tuas riquezas.
Então, para provar o apreço que dou às tuas prendas, fiz em pedaços o colar, e repito, directamente a ti, que prefiro ter uma víbora enroscada no pescoço em vez das tuas pérolas e safiras.
Hartatef meneou a cabeça.
— Mena é um tolo, e tu erras em dar valor a suas tagarelices e estragar por isso um tão precioso objecto.
De resto, tem conserto o colar, e eu possuo outros não menos belos, que usarás quando houver abrandado a tua cólera; tu os usarás — insistiu, ao ver que Neith movia negativamente a cabeça —, porque toda mulher deseja ser bela e para ser bela é necessário alindar-se; tu te enfeitarás, pois, para te achares formosa, tu própria, quando não para o esposo que abominas.
— Para quando marcaste o casamento? — interrompeu bruscamente ela.
— Daqui a três luas, a partir de hoje, meu palácio estará em condições de te receber.
— Está bem, mas, até essa data nefasta, eu te rogo me poupes da tua presença; quero repousar e fruir os derradeiros dias da minha liberdade.
Não te canses em vir ver-me e em remeter presentes:
eu não quero coisa alguma de ti.
— Tu serás razoável, Neith:
não se pode ser noiva durante três luas, sem ver o futuro marido.
Não te importunarei, mas, virei aqui, enviar-te-ei flores e presentes, para que não me acusem de avarento.
O mundo não saberá — continuou imperturbavelmente Hartatef — quanto me custas caro (o resgate da múmia de meu sogro não é nenhuma bagatela), mas, deves ser bastante equânime, para me permitir o prazer de avistar minha linda noiva.
Neith voltou-lhe costas, sem dar resposta, e saiu.

(9) ‘‘Uma lei, de que fala Heródoto, autorizava o egípcio a obter empréstimos, dando em penhor a múmia do progenitor.
O credor ficava dono do túmulo sem direito de remoção.
Se o devedor não satisfazia a dívida, ficava privado de sepultura, e os filhos, herdeiros do débito, incidiam na mesma penalidade, caso não saldassem o penhor.
A importância e honra que os egípcios davam à sepultura levavam os devedores aos maiores sacrifícios para não incorrerem nessa espécie de maldição eterna.
(Martin, Les Civilisations Primitives en Orient, ed. Didier, Paris, 1861, pág. 505.)
(10) 10 TALENTOS DA BABILÔNIA - Os “talentos” de que fala a Bíblia, desde o seu livro inicial, “Génese", com escalas por Crónicas, Juízes, Zacarias, Esdras, Ester até o Novo Testamento, Evangelho de Mateus, e bem assim os do Egipto, Babilónia e Grécia, mais ou menos contemporâneos, variavam na sua expressão quantitativa, pois, não tendo valor monetário específico, oscilavam no peso do respectivo metal.
O Dicionário da Bíblia, de W. W. Rand, vocáb. - Talento, menciona que o ático comum equivalia a 82 esterlinos; o judeu correspondendo a 3.000 ciclos e estes a 50 centavos cada, orçava por 1.500 pesos americanos (?).
Heródoto, nos Nove Livros da História, indicando as subdivisões equivalentes, dá, no livro I, ao talento-de-ouro, ático, o peso aproximado de 26 quilos, e no livro III, ao talento babilónico, o valor aproximado de 1.200 cruzeiros cada um.
Essa cifra (12.000 cruzeiros), para a época, devia ser enorme.
(11) JOGO DA MORA - Por incrível que pareça, esse jogo é o mesmo de nossos dias, típico, por assim dizer, dos Italianos.
Os parceiros estiram um determinado número de dedos, e ganha o que tiver acertado com o total exacto dos dedos enristados.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 22, 2017 9:22 pm

IV - NA PESQUISA DA VERDADE

Sem mais pensar no “que se dirá”, Keniamun deixara imediatamente o palácio de Pair.
Ódio surdo, violento desejo de vingança lhe intumescia todo o ser; mas, antes de qualquer empreendimento, era indispensável conhecer a verdade sobre as razões que tinham determinado a súbita decisão de Neith.
Que espécie de deslealdade cometera Mena que a união de sua irmã com Hartatef pudesse remediar?
Desejava vivamente isso descobrir; mas, como consegui-lo?
De repente, uma ideia lhe acudiu (e por que tal não lhe ocorrera antes?).
“Ela” deve saber tudo, e por dinheiro trairia os segredos do próprio deus Osíris.
Com íntimo sorriso de satisfação, destacou de suas vestes um alamar de ouro incrustado e fê-lo deslizar no cinto; dirigiu-se açodadamente para as bordas do Nilo, onde alugou um barco, com ordem de conduzi-lo a um arrabalde distante, situado próximo do quarteirão dos estrangeiros, nas imediações do qual residia a pessoa com quem ia falar.
Quando o barco chegou, Keniamun saltou lestamente, e, tendo ordenado ao remador aguardar seu regresso, internou-se em estreita rua debruada de pequenos jardins cercados de muros em ruína e de casas estragadas.
Após alguns minutos de marcha, penetrou em um pátio, ao término do qual se elevava grande construção de muros fendidos.
Gritos e cânticos, um caos de timbres rústicos e dissonantes saíam do interior.
Sem dar atenção a esse vozear suspeito, Keniamun entrou por um vestíbulo de colunas carunchosas em longa e vasta sala iluminada (embora houvesse sol pleno) por tochas fixadas nas paredes, e cuja espessa fumarada já havia recoberto o tecto com uma camada de fuligem.
Em torno de mesas, várias em tamanho e rodeadas de bancos e escabelos de madeira, aglomerava-se verdadeira multidão de soldados, marítimos, obreiros e outra gentalha, comendo e bebendo em grosseiros pratos e copos de louça e de madeira.
Mulheres vestidas de ouropéis fanados abancavam-se entre os homens, e algumas, de rostos afogueados, pareciam ébrias e cantavam a goelas soltas.
No centro da sala, duas bailarinas, magras e meio despidas, dançavam aos acordes de um alaúde, enquanto duas outras, acocoradas no solo, acompanhavam a música, batendo palmas.
Bem no fundo, sobre um estrado de dois degraus, enfileiravam-se muitos e diversos aparadores sobrecarregados das mais variadas provisões, além de duas mesas cobertas de ânforas e de copos.
Entre essas duas mesas, sentada numa poltrona, conservava-se a dona do estabelecimento, supervisionando, com enérgicos olhares, seus turbulentos visitantes e os escravos que circulavam no meio dos grupos, servindo a cerveja, o vinho e as frutas pedidas.
Era um mulherão, de amplíssimas espáduas, pernas e braços robustos, com um pescoço taurino. Seu rosto, regular, afectava um ar de bonomia, desmentindo dois olhos grandes, negros, sorrateiros, penetrantes, encimados de sobrancelhas densas e ligadas; nariz em bico de águia, maxilares proeminentes, boca rasgada, dentes brancos e agudos, davam-lhe a semelhança de um animal carnívoro.
Estava vestida com uma saia de listras vistosas, fechada na altura dos rins por um cinto de cobre; um colar de missangas ornava-lhe o torso, e das orelhas pendiam argolas de exageradas proporções, causando admiração suportassem as orelhas tal peso.
Empunhava um curto bastão com o qual batia rudemente nos escravos que lhe parecessem muito lentos, para lhes estimular a agilidade.
À presença de um oficial, desagradável agitação pareceu manifestar-se entre os frequentadores do bordel:
os gritos e as cantorias cessaram, e muitos soldados deslizaram à semelhança de enguias para os recantos mais sombrios; mas, fingindo não se aperceber da sensação da sua entrada, Keniamun caminhou directo para o estrado.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 22, 2017 9:22 pm

— Bom dia, Hanofer — cumprimentou ele. Desejava falar-te por alguns instantes, sem testemunhas. Podes atender-me sem demora?
— Sem dúvida, meu senhor, estou às tuas ordens — acedeu a estalajadeira, saudando, obsequiosa.
Tu, Beki, cuida para que tudo marche bem durante a minha ausência — gritou então a uma velha mulher, que lavava copos numa selha.
Em seguida, abriu uma porta ao fundo e conduziu o oficial, através de galeria aberta, a um pavilhão bastante bem conservado, à sombra de sicómoros.
— Que tens a dizer-me, nobre Keniamun? — começou ela, oferecendo uma cadeira ao visitante.
Aqui estamos ao abrigo de orelhas indiscretas.
Mas, por que vieste pela entrada comum, e não pela outra, e na hora que conheces?
— Não queria encontrar outros, e necessitava falar-te sem tardança — contestou ele, sentando-se e fazendo gesto de recusa do copo com vinho que lhe era oferecido.
Não te tomarei muito tempo, e se puderes satisfazer minha curiosidade, quanto ao motivo pelo qual Hartatef forçou Pair a lhe conceder Neith em casamento, eu te oferecerei este alamar que estás vendo.
Apesar de quarentona, um clarão ciumento fulgurou nos olhos de Hanofer.
— Será possível que ele insista na louca ideia de desposar Neith, que o detesta? — explodiu ela, rubra de cólera.
Não estarás enganado, Keniamun?
— A certeza é tão certa, que hoje mesmo foi celebrado publicamente o noivado.
O estranho, porém, é que ainda pela manhã Neith o recusara energicamente, e que, segundo confessou em prantos, foi para salvar a honra da sua família que consentiu no casamento.
Pergunto: que relação poderá existir entre Hartatef e a honra da família de Pair?
Eis o que desejava saber, e quem melhor do que tu, minha boa Hanofer, poderá estar informada, pela notória influência que exerces sobre Hartatef? — concluiu, rindo, o oficial.
Enquanto ele falava, a mulher examinara e avaliara o peso do alamar, na mão, e seu olhar espelhara a cupidez mesclada a infernal maldade.
— Vou explicar-te o enigma — disse ela, com um gargalhar rude e grosseiro.
O nobre Mena, para atender suas loucas despesas, deu em penhor a múmia do pai, e para o resgate vendeu a pequena a Hartatef, esse asno albardado, que decerto prometeu dar os “dez talentos babilónicos” que Mena precisa para saldar a dívida.
Que outro lhe emprestaria tal soma?
Keniamun empalidecera durante a revelação.
— Pobre Neith! — murmurou.
Agora compreendo o teu sacrifício.
Não te posso resgatar, mas vingar-te-ei.
E se Hartatef tiver teu corpo, a mim pertencerá teu coração.
Ergueu-se, despedindo-se:
Agradecido, e até à vista, Hanofer.
Guarda essa prenda em lembrança do serviço que me prestaste.
— Eu o fiz de boa-vontade.
E por que te ocultar o ato dessa gente bastante baixa, que, não satisfeita de penhorar o corpo de um parente próximo, vende uma criança sem defesa?
Talvez que, tornado público esse conchavo, se desfaça por si mesmo — rematou ela, com sorrateiro olhar.
As últimas palavras da artificiosa megera caíram em terreno fértil, emprestando mais nítida forma aos íntimos desejos de Keniamun.
Sob uma aparência doce, alegre e amável, ele escondia um carácter ambicioso e vingativo ao excesso.
Sua pobreza jamais lhe parecera obstáculo para desposar Neith, apesar da rivalidade do argentário Hartatef.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 22, 2017 9:22 pm

Ter sido posto à margem, qual móvel inútil, depois de encorajado nos seus projectos, ferira-o mortalmente.
Assim, vingar-se e tornar público em toda a Tebas a desonra de Mena era seu único desejo.
Mas, por onde começar a feri-lo mais dolorosamente?
Seu espírito, subtil e intrigante, bem depressa traçou-lhe o caminho a seguir para consecução do seu intuito.
Sabia, desde alguns meses, estar Mena fazendo assídua corte a uma jovem viúva, muito rica, com a qual pretendia casar.
Frequentando com certa assiduidade esse lar, Keniamun era muito benquisto ali, graças aos seus talentos mundanos e galanteria; conhecia bem a viu vinha, mimada e caprichosa, e não ignorava que a formosa Roant era fútil, ciumenta e, sem embargo de rica, muito económica.
Bastava abrir-lhe os olhos para os gostos dissipadores de Mena e para os amores com Nefert (a filha de Tuaá), para destruir as probabilidades de êxito acariciadas por Mena com relação à viuvinha.
E, se a fizesse conhecedora da história da múmia dada em penhor, podia contar que a novidade entraria no conhecimento de toda a Tebas, sem que tal o comprometesse, se pedisse segredo a Roant.
Satisfeitíssimo com a ideia, e decidido a agir sem perda de tempo, Keniamun retomou a embarcação; e porque a residência da viúva estivesse situada à beira-rio, não distante do palácio real, ordenou ao marujo conduzi-lo para ali, certo de a encontrar, por saber que Roant estava indisposta, mal que a impedira de comparecer ao festim em casa de Pair.
Como previra, foi recebido, e um escravo o guiou para o terraço, sombreado de árvores e ornado de plantas raras, onde se encontrava a dona da casa.
Roant era uma formosa e jovem mulher de 22 primaveras aproximadamente, alta, esbelta, muito morena, mas de tez pálida e amarelada, de cabelos admiráveis, grandes olhos vivos e espirituais, boca purpurina como se fosse de coral, formando um conjunto de formosura excitante.
Naquela ocasião, porém, o seu todo mostrava fadiga e preocupação.
Uma compressa de água aromatizada lhe circundava a fronte.
— Que bons ventos te conduzem, Keniamun? Eu pensava estares no festim de Pair — disse, soerguendo-se no leito de repouso e estendendo-lhe a mão.
Senta-te e sê bem-vindo; tua palestra divertida e interessante me distrairá, afastando o espírito malfazejo que me obsidia e me faz doente.
Mas, que vejo?
Estás pálido e triste. Que tens?
Houve contrariedades nos teus serviços?
— Não, boa e amável Roant, minhas obrigações não me dão cuidados; mas, tens razão, estou triste; os ruídos de uma festa são-me odiosos, e não sabendo onde levar os dissabores do meu coração, vim aqui, onde sempre fui cumulado de bondade, na esperança de que a palestra com uma criatura de espírito e de sentimento, qual tu és, Roant, constitua o melhor remédio para dar calma e equilíbrio aos meus pensamentos.
— Fizeste bem em vir, e ficas autorizado a contar sempre com a minha amizade — disse a bela viúva, com amável sorrir.
Mas, para que eu te ajude eficazmente a conquistar a desejada calma, confia-me o teu pesar, Keniamun, diz-me o que te aflige, e eu prometo ser discreta e jamais abusar da tua confiança.
— Eu te conheço assaz, Roant, para dispensar semelhante promessa — respondeu ele, com profundo suspiro.
Mas, poderás compreender-me, tu, que és tão altiva, tão bela, aos pés de quem suspiram os homens mais ilustres de Tebas?
Poderás compartir os sofrimentos de um desditoso amor, de um coração ulcerado e desdenhado?
Roant corou fortemente.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 22, 2017 9:23 pm

— Tu te enganas, Keniamun; compreendo perfeitamente teus sentimentos; meu coração também está atormentado, e eu sei que confidenciar desgostos traz alívio.
Fala, pois, francamente; é o ouvido da amizade, de uma confidente que te escuta.
Entretanto, admiro-me de que te refiras a amor desdenhado:
sei que amas Neith, e ela parecia bem acolher teu afecto.
Terá acaso traído perfidamente teu amor?
— “Ela”, não! Essa nobre e pura criança não compreende o mal — respondeu o oficial, com ar sombrio.
Neith ama-me e é incapaz de uma baixa traição; mas, outros que não se incomodam em praticar vilezas, actos que não se poderiam esperar de homens da casta privilegiada, para salvarem-se de um descrédito, venderam a inocente criança.
Roant atirou para o chão a pele de pantera que lhe cobria os pés, e sentou-se.
Na sua fisionomia reflectiam-se curiosidade e inquietude.
— Rogo-te, Keniamun, dizer tudo sem restrições.
De que indignidades falas tu, e quem as praticou?
Essas coisas convém sejam reveladas.
— Uma vez que te solidarizas tanto com o meu desgosto — disse ele, fingindo-se despercebido da agitação da sua interlocutora —, não tenho mais razão de ocultar a verdade.
O pai de Mena e Neith, falecido há pouco tempo, legou a ambos colossal fortuna; mas, Pair, seu irmão mais moço, sempre foi dissipador incorrigível, de modo que, nomeado tutor de Neith, e muito ligado ao sobrinho, a quem jamais contrariou em seus maus pendores, não se priva de coisa alguma, e transformou-se num dos maiores libertinos e perdulários de Tebas.
Não existe no bairro dos estrangeiros nenhum bordel, nenhuma casa mal afamada onde esses dois homens não hajam desperdiçado somas loucas, no jogo e no deboche.
Já omito a escandalosa ligação de Mena com Nefert, a filha de Tuaá.
O que lhe custa essa desavergonhada criatura, que devoraria o Egipto se tal estivesse ao seu alcance, é incalculável.
Compreendes que semelhantes excessos terminaram por solapar a sólida fortuna do finado Mena.
Para enfrentar embaraços e manter o fausto da casa, Mena encontrou apenas o recurso de fazer penhor da múmia do pai a um usurário por enorme quantia, e, para saldar essa dívida vergonhosa, imaginou um expediente não menos engenhoso.
Durante a narrativa, lívido palor invadira o rosto da viúva; seus olhos cintilavam e as mãos tremiam nervosamente.
Fingindo, porém, não haver reparado nessas exteriorizações da cólera que viera provocar, Keniamun recomeçou:
— Neith inspirou decerto a Hartatef uma paixão tenacíssima e profunda para que esse avaro se decidisse ao inopinado sacrifício de resgatar a múmia do velho Mena.
Os detalhes da ignóbil transacção eu os desconheço.
Sempre repelido pela jovem, que o execra, Hartatef dirigiu-se a Mena, e este vendeu a irmã pelo preço do resgate da múmia.
Colocada na terrível alternativa de aceitar o ajuste ou desonrar-se com toda a família, a desditosa criança teve de ceder, e foram solenizados os esponsais, no intuito de impedir um recuo por parte da noiva.
Era de ver Neith no festim! Seu tristonho desespero contrastava estranhamente com o bom humor dos dois patifes, que, para pagamento de libertinagens, sacrificaram a parenta.
Mena, principalmente, alvorotava-me o coração:
transbordava de triunfo e de insolência, e vangloriava-se soberbamente de que celebraria brevemente seu consórcio com uma das mais belas mulheres de Tebas, louca de amor por ele e que insiste para abreviar esse venturoso dia.
Bem desejaria saber a quem ele fazia alusão, mas, infelizmente...
Uma exclamação de Roant, que saltara de onde estava, faces afogueadas, punhos crispados, interrompeu o narrador.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 23, 2017 8:36 pm

— Esse mentiroso insolente — gritou ela, fora de si — alude a mim, na atrevida gabolice!
Não te oculto, Keniamun, que ele me agradou, e eu encorajei suas assiduidades; mas, não tendo minha palavra ainda, já me desconsidera assim ante todos!
Além disto, sabia eu acaso que se tratava de um sacrílego, que penhorou a múmia do pai e vendeu a pobre irmã?
Com a exímia naturalidade que faria inveja a um actor nosso contemporâneo, Keniamun simulou estar petrificado de surpresa.
— Tu, Roant!
Era de ti que ousava falar tão imprudentemente! — exclamou ele, erguendo-se e pegando as mãos da jovem mulher.
Perdoa-me haver contado isso e ter causado tanta aflição; juro que ignorava tudo, e nem mesmo haver desconfiado que tão delicada e espiritual mulher, qual tu és, pudesse amar um homem estúpido, brutal e depravado do nível de Mena.
Ainda uma vez, perdoa-me por haver cedido à minha mágoa e dizer-te coisas tão pungentes.
Mas, podia adivinhar?
— Falas em perdão, quando acabas de me prestar assinalado serviço? — interrompeu Roant, sentando-se de novo, ainda trémula.
Não olvidarei jamais que me abriste os olhos a respeito desse homem desonesto, que se gaba das minhas benevolências, sem ter de mim qualquer resposta decisiva, e cuja vida privada é um tecido de horrores!
Oh! Qual teria sido o meu futuro!
Reconheço agora que um espírito impuro me obscureceu, e pergunto como pude amar Mena, e por ele repelir duramente homens de mérito, qual, entre outros, o vosso chefe Chnumhotep!...
— Tu repeliste Chnumhotep? Então erraste, minha boa Roant — disse Keniamun.
Releva-me a fraqueza; mas, a nossa elevada conversação de hoje foge às regras comuns.
Nosso chefe é homem leal e bom, estimado de todos; nosso Faraó Hatasu o protege, e, recentemente, ainda lhe fez a dádiva de soberba vinha.
É um partido digno de ti, e creio ser muito fácil reparar o erro que cometeste sob a influência de um espírito impuro.
Chnumhotep ama-te apaixonadamente, eu o sei, e o verdadeiro amor jamais é rancoroso.
Autoriza-me, pois, a dizer-lhe que estás indisposta de saúde, e que o avistarias com satisfação; ele virá, e terá por grande honraria conduzir ao seu solitário palácio tão bela e virtuosa consorte.
— Tens razão, Keniamun, devo casar-me para pôr um paradeiro aos ditos escandalosos que as gabolices de Mena vão suscitar em tomo de mim.
Diz a Chnumhotep que será bem acolhido, vindo visitar-me.
Mas, apenas Isso, entendes?
— Que juízo fazes de mim?
Seria incapaz de te comprometer!
— Muito bem! Se o teu chefe ainda me ama, eu o aceitarei por esposo, e organizarei um festim, no qual se tomará público esse noivado, sob o nariz de Mena.
Será minha desforra ao banquete de hoje.
— Eis uma soberba ideia, digna de mulher de espírito — exclamou Keniamun, rindo desabaladamente.
Mas, para ser completa a ideal vingança, é mister acolher Mena de modo igual ao de até aqui, não trair tua cólera, e, quando, com a sua presunção habitual, ele esperar ser proclamado teu noivo, tu pronunciarás o nome de Chnumhotep.
Depois de animada conversação, no decorrer da qual o casamento de Neith, os actos de Mena, dignos de forca, e os assuntos do chefe dos guardas foram tratados a fundo, os dois novos amigos separaram-se, e Keniamun reentrou em casa plenamente satisfeito com os resultados da sua tarde.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 23, 2017 8:36 pm

Faltava ainda prevenir seu chefe do aspecto favorável que seus amores tomavam; mas, teria isso de ser adiado para o dia seguinte, pois Chnumhotep estava de serviço em palácio, onde lhe cabia comandar a guarda de vigilância nocturna aos aposentos de Hatasu.
Ao alvorecer, ergueu-se Keniamun e foi ao palácio, a uma das alas onde ficavam situadas as casernas, havendo no primeiro andar aposentos reservados aos oficiais e ao chefe, que não permaneciam constantemente ali.
Chnumhotep, ainda moço, dormia sempre em palácio, repousando da vigília, e quando Keniamun foi levado ao seu aposento encontrou o chefe instalado à mesa, em face de copioso desjejum.
Era homem de 34 de idade, grande, delgado e musculoso; seus traços, acentuados, denotavam energia, seu olhar de águia, seus movimentos bruscos e precisos revelavam o indivíduo acostumado ao comando.
Avistando o jovem oficial, ergueu-se e perguntou, benevolamente:
— Aconteceu algo imprevisto, para que me venhas procurar tão matinalmente?
Keniamun saudou o chefe, acrescentando:
— Desejo falar-te a sós, Chnumhotep, mas, a notícia que te trago não concerne ao serviço, e será, segundo espero, muito agradável aos teus ouvidos: trata-se da nobre Roant.
Súbito rubor invadiu as faces bronzeadas do chefe das guardas.
Com um gesto, ordenou ao escravo retirar-se, e, conduzindo Keniamun à mesa, fê-lo sentar-se.
— Tala — convidou, alcançando-lhe um copo cheio de vinho.
— Passei a tarde de ontem em casa da nobre viúva, e, no decurso da conversação provocada por um grande desgosto que tive, Roant falou em ti, lamentando que evites a sua residência, e autorizou dizer-te que está enferma e seria sensível prazer a tua visita.
Compreendes o que significa e pressagia semelhante convite — concluiu Keniamun, com interpretativo sorriso.
— És, em verdade, mensageiro de boa notícia, e eu a retribuirei, podes ficar certo disso! — exclamou Chnumhotep, olhos brilhantes de contentamento.
Mas, não me fales tão misteriosamente.
Que relação pode existir entre o teu desgosto e a rápida mudança de Roant em meu favor?
Ela parecia completamente subjugada por esse asno Mena, que Rá confunda!
Eu contava receber o anúncio do seu casamento, e tu vens trazer-me a vida e a esperança.
Que circunstância desenganou a jovem senhora? Vamos!
Sê franco, e eu te juro, sob palavra de honra, guardar segredo.
— Se me asseguras tua palavra de honra de não divulgar a ninguém o que vais ouvir, direi tudo quanto se passou, antes e durante a minha conversação com Roant.
E Keniamun narrou sucintamente, sem omissões, a história do noivado de Neith, da múmia empenhada, e, por fim, a visita à formosa viúva.
— Tu compreendes — terminou ele — que, ao saber tais coisas, se achou curada da sua propensão para Mena, e convencida de que só um espírito impuro pôde obscurecê-la ao ponto de preferi-lo a um homem estimável e leal qual tu és.
Se, pois — acrescentou ela —, o nobre Chnumhotep ainda me ama, eu seria feliz em reparar meus erros para com ele, aceitando-o para esposo; porém, diz-lhe apenas que me dará prazer, vindo visitar-me.
— Hoje mesmo irei a sua casa, e espero que não me faça aguardar por muito tempo a felicidade — disse Chnumhotep, radioso.
— Mas, quem teria pensado que Mena fosse um tal canalha!
Puh!... — fez ele, cuspindo vigorosamente.
Eis um que não se poderá considerar roubado, quando os deuses decidirem reviva no corpo de um suíno.
A ti, Keniamun, agradecido, ainda uma vez.
Conto bem depressa dar-te provas de que a minha gratidão não é uma palavra vã.
Por agora, bebe comigo um copo de vinho, à saúde da mais formosa mulher de Tebas.
Quando, meia hora mais tarde, Keniamun deixou a caserna, um sorriso maldoso e satisfeito pairava em seus lábios.
— Ah! nobre Mena, murmurou —, eu premiarei tua insolência, e mais de uma vez recordarás esse festim no qual me trataste com tão desprezante desdém!
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 23, 2017 8:36 pm

V - NEITH NO TEMPLO DE HATOR

Era noite ainda, mas o clarão pálido da luz e a fresca viração soprada do rio anunciavam a proximidade da manhã, quando uma liteira fechada, conduzida por quatro negros, deixou o palácio de Pair e rumou, através de ruas quietas e solitárias da Capital, ao templo de Hator.
Na liteira estavam Neith e uma velha serva que a acompanhava sempre.
A jovem, pálida e sombria, tinha os olhos húmidos e fixos no vácuo, parecendo nada ver em tudo que a rodeava.
Quebrantada por sua luta íntima, ia haurir força e consolação aos pés da possante deusa, protectora do amor e da felicidade conjugal, a cujo culto se havia particularmente dedicado desde a infância.
Chegada ante as vastas construções do templo, às quais as sombras da noite emprestavam dimensões mais colossais, a liteira parou.
Velho guardião, que estava sentado junto à porta, aproximou-se com presteza, mas, reconhecendo a jovem, visitante assídua do templo, fez respeitosa reverência.
— Venho orar; deixa-me entrar imediatamente, Chamus — pediu ela, estendendo-lhe um “anel de prata”.
O velho, muito contente, precedeu-a até à entrada do templo no qual ela ingressou, juntamente com a fiel companheira.
Na galeria confinante ao santuário, Neith deteve-se.
Erguendo o véu, ajoelhou e, elevando os braços para a imagem da deusa, implorou, em fervorosa prece.
Toda a amargura que, desde três dias, estava acumulada em seu seio desbordou nesse momento; soluços convulsivos sacudiram-lhe o peito e torrente de lágrimas Inundou-lhe as faces.
Absorta em sua oração e tristes pensamentos, Neith não suspeitou que um homem, escondido pelas sombras da galeria, observava-a com interesse e compaixão.
Essa personagem, cuja vestimenta branca e cabeça raspada caracterizavam um sacerdote, apoiava os braços, cruzados a uma coluna, e seus olhos não se desviavam da jovem, iluminada pelo clarão vacilante de uma lâmpada suspensa ao tecto.
— Quem poderá ser? — interrogou a si mesmo o padre.
Tão jovem, tão bela e tão desesperada! Talvez haja perdido um ente amado e eu a possa consolar.
Lentamente, sem ruído, o sacerdote aproximou-se da jovem egipciana e, dentro em pouco, estava por detrás dela, de pé.
Pôde-se então ver que era moço, de alto talhe, feições admiravelmente belas, rosto pálido, olhos aveludados, boca finamente modelada, exprimindo no todo profunda melancolia.
Permaneceu primeiramente imóvel, contemplando, num misto de curiosidade e admiração, a linda criatura ajoelhada junto dele.
Depois, curvando-se para a frente, de leve tocou-lhe a espádua.
Neith estremeceu e voltou o olhar.
Por um instante fixou, como que fascinada, o calmo e suave rosto que se curvara para ela, e depois murmurou:
— És tu um desses celestes mensageiros de Hator, que a deusa me envia, tocada pelo meu desespero?
— Sou um dos simples servidores da potente deusa, ligado a este templo, um mortal igual a ti, jovem — respondeu o padre em voz melodiosa e velada.
Ao ver o teu pranto, aproximei-me para te perguntar se é possível aliviar teu desgosto.
Neith ouviu avidamente, escrutando com o olhar cada traço desse semblante que lhe parecia estranhamente conhecido.
Onde havia ela visto esses olhos profundos e sonhadores, escutado esse timbre harmonioso que fazia vibrar cada fibra de sua alma?
A memória emudecia; mas, potente e desconhecida sensação fazia refluir todo o sangue ao coração, inspirando-lhe pelo jovem sacerdote uma confiança, uma necessidade de se expandir jamais por ela experimentada.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 23, 2017 8:36 pm

Sob o impulso de tal sentimento, exclamou, estendendo-lhe os braços:
— Servidor de Hator, sim, eu te confiarei tudo que me oprime o coração, e teu conselho me esclarecerá.
Antes, porém, ouve quem eu sou.
Neith é meu nome.
Sou filha de Mena, o conselheiro do Faraó Tutmés I, que o acompanhou em todas as suas campanhas e que dava ordens no campo e nas tendas do rei. Desde sua morte, vivo, com um irmão, sob o tecto de meu tio Pair, do qual talvez hajas ouvido falar, pois ele é chefe das equipagens do palácio.
Em sintéticas palavras, Neith expôs sua vida passada, a história da múmia empenhada e o sacrifício dela exigido para salvação da honra da família. E terminou:
— Pela memória de meu pai, devo esposar esse homem detestado, mas, terei minha desforra.
Seus olhos cintilavam.
O moço sacerdote ouvira Neith com sofreado interesse.
— Grande é a provação que os deuses te impõem, nobre filha de Mena — falou ele com gravidade.
— Devo dizer-te, porém, que o sacrifício só é aceito pelos Imortais quando oferecido completo.
O ódio não deve ser mesclado a esse ato sagrado, que é o matrimónio.
Com a força da fé, entusiástica e persuasiva, expôs à jovem a grandeza que existe no sacrifício por outrem, a calma, a satisfação que se haure no exercício de uma rígida virtude.
Mas, Neith não pensava, nesse momento, em Keniamun, nem no futuro marido; ela apenas via o jovem padre que lhe falava, escutando somente a sua voz vibrante e harmoniosa; o sentido de suas palavras deslizava-lhe nos ouvidos sem deixar traços; enlevada pelo presente instante, o passado e o porvir haviam esmaecido para ela.
Sempre entretidos no falar, ambos se aproximaram da porta de saída, e um raio de sol, que veio como que brincar na soleira, fez estremecer o moço sacerdote.
— Rá se ergue; devo dizer as primeiras orações da manhã.
Tu, nobre Neith, regressa ao teu lar, ora e cumpre o teu dever.
A divindade te fortalecerá.
Até à vista.
Saudando-a com um aceno de mão, desapareceu na sombra.
Neith baixou o véu e chamou a velha serva.
Como que em sonho, subiu para a liteira.
Faces escaldantes, coração batendo desordenado, todas as suas faculdades mentais concentravam-se neste pensamento:
— Onde vi eu este homem estranho e sedutor; onde e quando tornarei a vê-lo? Oh! se ele me amasse! — exclamou, involuntariamente.
Intenso calor subiu-lhe à fronte, e olhou para a serva com um olhar de vergonha e sobressalto; mas, a boa velha nada compreendera, nem se apercebera de coisa alguma.
De resto, quanto sua senhorazinha adorada fizesse era perfeito aos olhos da excelente Beki, e acima de toda crítica.
De regresso ao palácio, Neith afastou todos e foi para o leito.
Queria sonhar plenamente.
E, desse dia em diante, um novo viver começou para a jovem: sua raiva para com Hartatef e assim o amor a Keniamun estavam, uma e outro, encobertos.
Indiferente a tudo quanto a rodeava, absorvia-se em quimeras sem fim, vivendo num mundo de fantasia, cujo centro e objecto único era o moço sacerdote do templo de Hator.
Nem por isso, em sua ingenuidade, Neith se apercebera de que violento afecto lhe subjugara o coração, e, de boa-fé, continuava a deplorar a fatalidade que a separava de Keniamun.
Satati a observava desconfiadamente, sem poder atinar com a causa dessa inusitada mudança, dessa amável indiferença que viera substituir os caprichos, os acessos de cólera da versátil Neith.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 23, 2017 8:37 pm

Certa manhã, quando se ausentara Satati, para fazer uma dessas deslouváveis visitas, onde colhia os mexericos da cidade, a liteira de Roant chegou ao palácio de Pair.
Desde dias antes, a jovem viúva estava noiva de Chnumhotep, graças à engenhosa intervenção de Keniamun.
O chefe das guardas não perdera tempo:
carregando uma corbelha das mais lindas flores, fora informar-se da saúde de Roant, e agradavelmente recebido.
A viuvinha dedicara-se, nessa primeira visita, a fazer a comparação entre Mena e o seu superior militar, e, contra toda a expectativa, o resultado pendera para o lado do chefe das guardas.
Os traços característicos, o garbo marcial, o olhar fogoso e enérgico de Chnumhotep a ela pareceram infinitamente superiores à beleza efeminada e aos olhos arrogantes e não menos sorrateiros de Mena.
Por outro lado, a fortuna do jovem comandante igualava-se à sua, e a hierarquia assegurava brilhante posição na corte.
— Decididamente, eu estava louca e cega — pensava Roant, dirigindo ao seu adorador um sorriso dos mais encorajadores.
Graças a tão boas disposições da parte de ambos, uma explicação decisiva não tardou, e o chefe das guardas chegou ao ápice dos seus votos de amor.
Depois do beijo de noiva, Roant confessou ao futuro esposo que Mena muito a atormentara com os seus caprichos e ciúmes, desconfiado da rivalidade do seu chefe, e que, não ousando dirigir-se a ele, a fizera vítima da sua raiva, perseguindo-a com suspeitas e pretensões.
Além disso, comprometera-a com gabolices.
Para punir todas essas acções más, desejava ela, por sua vez, fazer-lhe afronta pública, deixando-o na ilusão de que ela o amava, e somente no banquete declarar o nome do escolhido do seu coração.
Assim, rogou ao noivo guardar segredo absoluto até a data da festa.
O bom Chnumhotep, sinceramente enamorado, aquiesceu a tudo, e esse testemunho de adoração, a condescendência aos seus propósitos, contrastando tão agradavelmente com o pesado jugo do amor de Mena, encheram de sincero agradecimento o coração de Roant para com o futuro esposo.
Em sua felicidade, ela teve a maior e afectuosa piedade por Neith, a infortunada vítima da rapacidade do irmão e de Pair, e resolveu ligar-se a ela, no intuito de facilitar à jovem avistar Keniamun e trocar palavras de afecto com o homem do qual a separavam tão indignamente.
Em consequência de tais projectos, Roant fora pessoalmente à casa de Pair convidar a família para o primeiro festim que celebrava depois da morte do primeiro marido.
Para adormecer definitivamente qualquer desconfiança por parte de Mena e fortalecer suas esperanças, ela enviara-lhe, nessa manhã, tabuinhas que apresentavam um convite assim redigido:
“Tendo-me decidido realizar a festa de há tanto desejada por meus amigos, abandono o luto, para renascer em uma vida nova.
Não faltarás, eu o espero, a essa reunião, e conto que estarás a meu lado.”
Como se a sorte quisesse favorecer seus intuitos, encontrou Neith sozinha em casa.
Satati saíra em visita e Mena e Pair para as suas obrigações oficiais.
Pela primeira vez, as duas moças, que mui pouco se conheciam, puderam palestrar sem embaraços, e as preliminares da viúva conquistaram prontamente a simpatia de Neith, que, sentindo-se isolada no seu actual estado de alma, desejava ter uma confidente amiga.
A convivência dos seus tornara-se odiosa, desde quando se convencera de que fora por eles torpemente sacrificada à sua rapacidade egoísta, e de que, por outro lado, a prudente e astuciosa Satati a isolara de adquirir a amizade de jovens da sua idade.
A esposa de Pair não pensara na inopinada visita de Roant, e muito menos previra que estreita amizade resultaria de tal encontro.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 23, 2017 8:37 pm

Após uma hora de conversação, cada vez mais animada e cordial, Roant convidou a jovem ir passar com ela a tarde do segundo dia, e Neith, que considerava a viúva futura cunhada, e ansiava por fugir à convivência de Satati, aceitou, com satisfação; e despediram-se com um beijo fraternal.
A hora convencionada, Neith compareceu ao palácio de Roant, onde foi acolhida a braços abertos.
Depois de ligeira merenda, as duas novéis amigas encaminharam-se ao jardim, e instalaram-se em pequeno pavilhão de frente para o Nilo.
Maciços de rosas e acácias envolviam a frágil construção, mantendo agradável penumbra e espargindo o delicioso aroma das flores abertas às frescas emanações do rio.
— Aqui podemos repousar e palestrar sem reservas — disse Roant, atraindo Neith para um leito de repouso recoberto de almofadas.
Vamos, ergue a cabeça e atira para longe as tristes quimeras, Neith.
Sofro ao ver uma criatura jovem, bela, digna de ventura, qual tu és, sob o peso de aflita tristeza.
Abre-me teu coração, pobre criança.
Para facilitar tuas confidências, dir-te-ei que conheço as verdadeiras razões do teu casamento e do teu generoso sacrifício.
— Tu sabes, de que modo?
Quem te disse? — interrogou, com as faces purpúreas.
— Como e por quem não me é permitido revelar, mas, podes ficar tranquila, porque o teu segredo também me é sagrado, e o que te disse foi para abrir a possibilidade de te consolar, e de te fazer examinar os bons aspectos do inevitável acontecimento.
Primeiramente, tu te tornas uma das mulheres mais ricas de Tebas; invejar-te-ão o luxo; todas aquelas que pretenderam Hartatef mirrarão de despeito.
Tais triunfos têm encantos que apreciarás, quando conheceres melhor a sociedade.
Além disso, teu marido ausentar-se-á muitas vezes, não raro por semanas inteiras, o que te proporcionará grande liberdade.
E, então, quem te proibirá de visitar tuas amigas, e, em casa dessas amigas, encontrar o teu preferido?
Sei que amas Keniamun, o que me parece muito natural, pois é um homem atraente e perfeitamente digno da tua afeição.
Neith ouvia enrubescida e emocionada; profunda ruga fizera-se entre os supercílios.
— Mas — balbuciou ela, em voz incerta —, que diria Hartatef, se tal viesse a saber? Eu não lhe jurei amor e fidelidade, é certo; o constante temor de ser surpreendida qual um ladrão é, porém, vergonhoso!
E, depois, que direito posso ter de amar Keniamun, se ele não pode ser meu esposo?
A viúva teve uma expansão de riso.
— Ainda és “muito” ingénua, infantil, Neith.
Depois de casada, mudarás de opinião, e tenho certeza de que inúmeras vezes virás visitar-me, mantendo, sem escrúpulo, palestras com Keniamun.
De resto, dir-te-ei que só se “deve” amor e fidelidade àquele escolhido livremente; um homem que “te compra” só merece teu desprezo.
Mas, deixemos isso agora, e diz-me: és capaz de guardar um segredo de amiga?
— Sim, decerto!
Quem julgas que sou?
Se me confiares alguma coisa, juro calar, principalmente ante os meus, porque não os estimo.
— É melhor assim, e muito a propósito, pois concerne ao teu irmão — disse Roant, abraçando ternamente a jovem.
Ouve então: estou noiva de Chnumhotep, mas, antes da festa próxima, ninguém deve saber de tal noivado.
Neith teve brusco movimento de surpresa.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 23, 2017 8:37 pm

— Que dizes!
Não é Mena o teu escolhido?
Compreendo agora por que deve ele ignorar a novidade — ajuntou Neith, com irónico sorriso.
— Sim, eu quero fazer-lhe pagar suas arrogâncias e todas as mortificações que me fez sofrer com os seus caprichos e seu ciúme. Não me parece maldade que lhe inflija esta áspera lição.
— Terei cuidado e serei muda qual um túmulo; ele colhe o que semeou, o indigno que fez dos meus esponsais o dia mais horrível da minha existência!...
E o formoso olhar de Neith teve uma expressão de satisfação rancorosa e cruel, que ninguém julgaria possível em seu infantil semblante.
Alegre exclamação de Roant interrompeu a palestra:
— Repara que hóspedes agradáveis os deuses nos trazem:
Chnumhotep e Keniamun!
Ergueu-se para saudar os recém-vindos, e em seguida animada conversação estabeleceu-se, para a qual Neith escassamente contribuiu.
Ora ruborizando, ora empalidecendo, ela baixava o olhar e mostrava estar pouco à vontade.
Roant, que a observava, levantou-se e fez sinal ao noivo para que a acompanhasse.
— Desejo tua opinião, Chnumhotep, a respeito de detalhes na sala do festim.
Vem! E vós, meus caros, enquanto isso, fazei um passeio no jardim. Keniamun, tu serás responsável se a minha amiguinha entediar-se!
Saudando-os amistosamente, ausentou-se com o chefe das guardas, e Keniamun não esperou repetição do convite; pegando Neith pela mão, levou-a para o jardim.
Ali, a sós, sob as sombras de uma aleia copada, o oficial enlaçou com o braço o talhe esbelto da jovem e lhe imprimiu nos lábios apaixonado beijo.
— Neith, minha bem-amada, tua palidez e tua tristeza dizem, mais do que palavras, quanto sofres com a nossa separação.
Apesar de tudo, sou ditoso por saber que não foi infidelidade do coração, e sim abnegado sacrifício o móvel da tua conduta; eu te amo tanto quanto te admiro, e não renunciarei a ti, apesar mesmo do teu matrimónio com Hartatef.
Ele me roubou tua mão com uma vil intriga, mas, o teu coração me ficou.
Repete que me amas, Neith; não recuses esse bálsamo ao meu ulcerado coração.
A jovem baixou a cabeça.
É que entre ambos viera erigir-se o pálido e belo semblante, de olhos sonhadores, do moço sacerdote de Hator.
Mas, repelindo a tentadora visão, ela disse rapidamente:
— Sem dúvida, todos os meus sentimentos te pertencem. Que outro poderia eu amar?
Esforçando-se por ser alegre e despreocupada, Neith prosseguiu o passeio.
Ela própria não se compreendia, e terminou convencendo-se de que o seu estranho estado de alma era proveniente do amor contrariado, e que a companhia de Keniamun restabelecer-lhe-ia o equilíbrio.
Abandonou-se, pois, sem restrições, ao encanto da conversação; escutou, com certa satisfação de amor próprio, os protestos apaixonados e os projectos de futuro do jovem oficial; o pensamento de pagar com infidelidades a perfídia de Hartatef não lhe pareceu tão repelente, e, quando reencontraram Roant, Neith havia recuperado sua alacridade e as saudáveis cores.
Afinal, chegou o dia da festa em casa de Roant, e desde muito cedo Mena cuidou da sua “toilette” com especial meticulosidade.
Não lhe passou pela mente qualquer remota suposição de que a viúva houvesse mudado de planos a seu respeito.
Nessa presunção, acreditou-se irresistível, e havia mesmo, até então, hesitado em ligar-se definitivamente a ela, na esperança de deparar melhor partido.
A beleza e a riqueza de Roant haviam-no agora decidido, e vestia-se com todo o luxo exigível ao herói da festa.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 23, 2017 8:37 pm

Por um momento, tivera ideia de se fazer amuado e faltar ao festim, punindo assim a viúva por ter ido inutilmente por duas vezes procurá-la em casa.
Da primeira vez, disseram-lhe que ela fora à cidade para compras; da segunda, que ela fora à cidade dos mortos, para oferecer sacrifícios sobre a sepultura do finado marido.
(Que teria dito ele, se soubesse que, ao ser assim despedido, a sua pretendida noiva escarnecia dele, tendo ao lado Chnumhotep?)
Mena, porém, não podia prever semelhante traição, e, tranquilizado pela lembrança das tabuinhas, do convite pessoalmente feito aos seus e das afabilidades da viúva para Neith, renunciou a qualquer rusga e enviou mesmo flores e perfumes a Roant.
Antes de subir para as liteiras, a família apareceu aos poucos.
Primeiro, Satati; depois, Mena.
Ela exibia o soberbo colar doado por Hartatef em troca dos bons ofícios, e escutou, com agradável sorrir, as felicitações exageradas que Mena lhe dirigiu por sua beleza.
Neith veio em último, e, ao deparar com o irmão, ricamente trajado e com a fisionomia regozijada de orgulhosa satisfação, apertou os lábios e encobriu, por trás do leque, um sorriso pleno de mordaz ironia.
— Tu não terás a cabeça tão erguida, ao regresso, penhorador de múmia! — pensou ela, com alegria malsã, enquanto Mena entrava sozinho para uma liteira dourada e enfeitada de flores, de estilo para os noivos.
Quando a família de Pair fez entrada na grande sala, considerável número de convidados ali estava reunido.
Avistando Chnumhotep por detrás da cadeira de Roant, de pé, conversando animadamente com a viúva, Mena franziu os supercílios; mas, o sedutor sorriso com que ela acompanhou o movimento de lhe estender a mão, a alegria que pareceu irradiar ao vê-lo, restabeleceram nele o bom humor.
A guirlanda de purpúreas flores que ornava a fronte da viuvinha bem depressa passaria para a dele, Mena, e, com a mulher, o esplêndido palácio, as terras, as vinhas, os rebanhos e os escravos passariam também à sua propriedade.
Por sua fisionomia triunfante, muitos dos convidados acreditaram ser ele o preferido, e por isso o felicitaram, a meia voz, parabéns aceitos com uma jactância que não permitia dúvidas a respeito da sua vitória.
Efectivamente, julgava-se ele no ápice dos seus desejos:
a Irmã casada com o rico Hartatef; ele, o esposo de Roant.
Que deslumbrante futuro de luxo, de prazeres, de prodigalidades desenfreadas!
Enquanto Mena se entregava a esses amenos projectos, Roant colocara seu braço no de Neith e a distanciara de Hartatef, que, frio, reservado e arrogante qual se mostrava sempre, mantivera-se, até então, junto da noiva.
— Tu não estás descontente, não é verdade? por te haver privado da companhia do teu futuro — disse a rir.
Estou incumbida de te entregar sem demora esta rosa enviada por Keniamun, que desejaria vê-la em teus cabelos durante o banquete.
— Ao lado dos diamantes de Hartatef, isso seria muito cómico — objectou Neith com zombeteiro sorriso, prendendo a flor entre os pingentes do rico diadema.
Quanto és boa, Roant!
Apesar de tudo, deploro que não venhas ser minha irmã.
— Não lamentes coisa alguma, porque nem sempre os laços consanguíneos criam a verdadeira afeição, e tu bem o experimentaste.
Eu sou e serei tua Irmã pelo coração, e disto eu te darei provas.
Por agora, quero prevenir-te de que farás, ainda hoje, conhecimento com um Irmão meu, que viveu, como sabes, em Mênfis.
Desde há algumas semanas retornou a Tebas, mas, raras vezes sal.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 23, 2017 8:38 pm

Não pode, entretanto, recusar assistir à festa deste dia, e eu desejo situá-lo a teu lado.
Tu és tão jovial, tão espiritual!
Trata de distrair e alegrar um pouco esse pobre Roma.
Com certeza, com toda a certeza!
Farei todo o possível, principalmente porque isso me dispensará de olhar para a face taciturna de Hartatef — exclamou Neith.
— Mas, por que teu irmão é triste? Está enfermo?
— Não. É muito infeliz no lar!
Sua mulher tem um carácter verdadeiramente infernal — respondeu Roant, suspirando.
É ciumenta; suspeita-o sempre e espiona-o de maneira revoltante.
Sem embargo do seu excelente carácter, Roma está fatigado, moído por essas cenas e escândalos perpétuos, e se Noferura estivesse presente eu não me arriscaria a fazê-lo sentar-se junto do mais lindo rosto de Tebas.
Felizmente, a maldosa mulher está adoentada e não pôde sair.
Mas... silêncio; ei-lo.
Neith voltou o rosto para a direcção designada, e seu coração cessou de pulsar:
no homem vestido de branco que se encaminhava para ela, acabava de reconhecer o ideal dos seus sonhos, o moço sacerdote de Hator.
Ele era, pois, o irmão de sua amiga, o esposo dessa Noferura, cujo repugnante retrato acabara de escutar.
Uma tempestade de pensamentos tumultuosos turbilhonou no espírito de Neith; ouvia apenas as palavras de Roant, fazendo a apresentação do recém-vindo, e algumas frases pronunciadas pelo padre, que deixou de aludir sequer ao primeiro encontro de ambos no templo.
O anúncio do repasto que estava à mesa veio interromper todas as conversações, e a multidão dos convivas encaminhou-se para a sala da festa, onde Mena logo se achegou àquela que considerava sua noiva.
Sem mesmo solicitar delicada permissão, instalou-se junto dela, e viu, com desagradável pasmo, Chnumhotep assenhorear-se da cadeira ao outro lado de Roant.
Sombreou-se-lhe o rosto, mas, a fatuidade fez desaparecer o espanto.
— É em atenção a mim que ela assim distingue o meu chefe, e para que não me guarde rancor pela minha vitória — pensou ele, mergulhando nas delícias da refeição.
Keniamun, sentado defronte a Neith, observava com surpresa seu aspecto preocupado e distraído.
Ele não imaginava que Neith fazia os maiores esforços por parecer calma, e que os mais estranhos sentimentos, entre os quais predominava uma repugnância ciumenta contra a abominável Noferura, tornavam-na desinteressada por todo o ambiente.
— Ela terá tido alguma cena desagradável com esse demónio do Hartatef — pensou ele por fim.
Depois, concentrou a atenção para a cena que se devia dar de um momento para outro.
A animação da festa atingira seu cúmulo, quando Roant elevou sua taça e pronunciou estas palavras:
— Meus caros convidados e amigos, aproveito esta reunião para vos dar conhecimento de uma circunstância que enche minha alma de alegria e põe fim ao luto que, durante mais de vinte e quatro meses, cobria de sombras esta casa.
Tendo rendido ao meu esposo, tornado Osíris, todas as reverências merecidas; tendo honrado sua memória perante a posteridade, por dádivas e sacrifícios dignos de sua classe e méritos, que, espero, rejubilarão sua alma na mansão dos Imortais, decidi casar segunda vez, e, por este sinal, eu vos aponto o esposo de minha escolha.
Ergueu-se e retirou da cabeça a guirlanda.
Mena já se preparava, com amável sorriso, para inclinar a fronte e levantar a taça, quando Roant, voltando-lhe costas subitamente, pousou as flores sobre a fronte de Chnumhotep, que igualmente se ergueu e pegou-lhe a mão.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 23, 2017 8:38 pm

— Eis aqui — acrescentou ela — aquele que amo, e vos apresento por meu futuro consorte.
Em seu nome e no meu, a todos convido, caros amigos aqui reunidos, para, dentro de três semanas, festejarem nosso matrimónio.
O silêncio e a estupefacção seguiram-se às palavras de Roant.
Todos haviam pensado em outro nome, e aqueles convivas que tinham visto Mena chegar triunfalmente com o cortejo de noivado estavam confiantes nas suas suposições.
Apesar disso, sendo Chnumhotep muito mais estimado na sociedade do que o rival repelido, a vitória excitou geral satisfação, e aclamações, mescladas de parabéns, ecoaram em honra dos futuros nubentes.
Com alegria malsã, Neith e Keniamun estudavam o semblante desconcertado e aparvalhado de Mena, que, boca aberta, olhos parados, parecia duvidar dos seus próprios ouvidos.
— Ah! birbante estúpido e brutal, saldei agora os teus ultrajes do dia de noivado de Neith! — pensou Keniamun, permutando com a jovem um olhar de sanha satisfeita.
Mena, entretanto, estava longe de possuir o sangue-frio e o tato que lhe teriam poupado a metade dos olhares zombeteiros e dos colóquios acerados das más-línguas.
Tão logo recebeu o senso de falar e agir, ergueu-se, entornou a taça e repeliu a cadeira com tal violência, que ela rolou com estrépito até ao meio da sala, e, voltando costas a todos, saiu, descorado de fúria.
Irritado com tal procedimento, o chefe das guardas quis precipitar-se sobre Mena, mas, Roant, pegando-lhe o braço, disse, em voz bastante alta para que o próprio Mena ouvisse:
— Rogo-te, Chnumhotep, deixa-o partir e meditar na cruel lição que lhe acabo de dar, e que lhe ensinará, talvez, a ser mais prudente no futuro e menos enfatuado de si mesmo.
Quanto a ti, creio que és bastante feliz para que te vingues de um imbecil.
Uma explosão de risadas acolheu essas palavras.
Chnumhotep sentou-se de novo, bem humorado, enquanto Mena se retirava, espumando de raiva, na liteira ornada de flores.
A festa retomou seu curso com alegria maior ainda.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 23, 2017 8:38 pm

VI - O PRÍNCIPE HITENO

À margem do Nilo, na parte onde terminavam então os extremos terrenos e construções do templo de Amon, erguia-se, sobre uma escarpa artificial, pequeno palácio rodeado de vastos jardins.
A despeito de suas dimensões assaz restritas, era uma esplêndida habitação, instalada com todo o luxo da época.
Do lado da rua, dois grandes mastros, com as pontas recobertas de cobre e ornadas de bandeirolas, anunciavam aos transeuntes que se tratava da morada de um grão-senhor; do lado do rio, vasto terraço ocupava uma parte da fachada.
Este terraço, construído bem à borda do talude, comunicava com o rio por uma escada de pedra, da qual os últimos degraus mergulhavam na água e ao pé da qual estava amarrada elegante e pequena barca de proa dourada; ao alto da escada, duas esfinges de granito rosa semelhavam sentinelas vigilando a descida.
Provido de uma balaustrada, estava adornado de plantas raras e arbustos de grandes dimensões, plantados em selhas de terra e de madeira, formando pequenos bosquetes sombreados e odorantes.
À hora em que o calor do dia começa a ceder a um agradável frescor, à sombra de um desses bosquetes, um homem, moço de vinte e quatro a vinte e cinco de idade, estava estirado num leito de repouso, em posição preguiçosa e descuidada.
Ao alcance da mão, havia pequena mesa de alabastro, com pés de bronze trabalhado, sobre a qual estavam uma ânfora com vinho, uma taça e um cesto cheio de frutas.
Dois escravos, acocorados nos extremos do leito de repouso, abanavam seu senhor com grandes leques de plumas.
Era um belo rapaz, franzino e de talhe médio; seu rosto, magro e alongado, era mais claro do que o comum nos egípcios, porém animado por grandes olhos penetrantes, encimados por sobrecenhos negros e espessos; a boca, de cantos descidos, exprimia orgulho e dureza, e em seu olhar passava por vezes (quando não se julgava observado) alguma coisa de falso, de taciturno e de sorrateiro, que alterava a harmonia deste semblante airoso.
Vestia apenas um largo avental de estofo fenício, bordado de ouro na frente e cobrindo os quadris.
Sobre o torso nu via-se um quádruplo colar formado de placas de ouro esmaltadas, e um “claft” (espécie de capuz egípcio) listrado de branco e púrpura, ornando-lhe a fronte de uma faixa de pedrarias, recobria-lhe a cabeça.
O personagem que acabamos de descrever era Sargon, príncipe hiteno, feito prisioneiro ainda menino pelo rei Tutmés I, quando da vitoriosa campanha empreendida nas margens do Eufrates(12).
O rei, seu pai, fora morto durante a batalha, porém alguns membros da família haviam caído vivos nas mãos do vencedor, e entre eles Sargon, contando então dois lustros de idade, aproximadamente.
Com milhares de outros prisioneiros, o menino fora levado para Tebas, mas, a bondade de Hatasu o havia destacado da turba e dado posição condigna da sua origem real.
A jovem princesa exercia, contudo, por sua energia e espírito precoce, a maior influência sobre o genitor, e usara dessa ascendência para fazer dar ao pequeno príncipe uma educação real, e para aligeirar a sorte de muitos prisioneiros hitenos, dos quais alguns foram colocados na sua casa palaciana.
A constante proteção da rainha, dada a Sargon, jamais fora desmentida: estabelecera, de sua própria bolsa, uma dotação de príncipe e doara-lhe o palácio onde residia.
Por outro lado, subvencionava largamente, dos seus recursos particulares, os prazeres e mesmo as fantasias do moço, que desfrutava na corte excepcional posição.
Sem exercer, é certo, nenhum cargo oficial, aparecia em todas as festas no séquito da rainha, e era admitido a prestar serviços de honra que a etiqueta reservava aos príncipes e aliados da casa real, isso apesar do surdo descontentamento despertado por essas distinções, revoltantes e arbitrárias aos olhos dos egípcios, para os quais um prisioneiro cessava de ser um homem, qualquer que fosse sua categoria anterior.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 23, 2017 8:38 pm

Sentia ele a inimizade secreta despertada pela sua situação privilegiada, ou conservava no fundo do coração ódio e rancor contra o povo vitorioso e destruidor da sua raça?
A verdade é que Sargon não parecia feliz:
sombrio, pouco sociável, não cultivando intimidade com os grandes egípcios, vivia retirado, indiferente, em seu palácio, entretido em ler ou caçar, ou ainda engolfado em sonhos, durante horas, no terraço, o retiro favorito.
Nesse dia, estava ele estirado, por mais de uma hora, com o olhar fixo no rio, contemplando, com intercalado interesse ou indiferença, as centenas de embarcações de toda espécie que se movimentavam em todos os rumos.
Era verdadeiramente um quadro de animação, variado, bem digno de reter os olhares:
por entre as pesadas barcas, ajoujadas de todos os produtos do Alto-Egipto, ou encimadas de gaiolas de madeira, nas quais baila e mugia o gado, avançando lentamente, elegantes e ligeiras embarcações cruzavam em todos os sentidos, entretendo incessante comunicação entre as duas metades da cidade.
Pequeno barco, movido por um remador que se distinguia do conjunto, dirigindo-se rapidamente para o terraço, atraiu logo a atenção de Sargon, que soergueu o busto para distinguir melhor, pondo a mão acima dos olhos para atenuar o excesso de luz:
um homem fardado, tendo à cabeça um capacete, estava sentado no banco do barco.
— Olha! É Keniamun, o jovial e amável rapaz — murmurou ele, com um sorriso.
Mas, por que virá em grande uniforme?
Precisamente nesse minuto, o barco acosta, o moço oficial salta para os degraus e, em rápidos passos, chega ao terraço.
— Venho em incumbência, príncipe Sargon — disse, inclinando-se —, anunciar-te que, dentro de uma hora, a nossa gloriosa rainha (a quem os deuses concedam glória e saúde!) virá repousar neste terraço da fadiga da sua excursão.
Mandou-me prevenir-te.
Ao anúncio do recado real, o príncipe erguera-se, para ouvi-lo de pé.
— Grande é o meu júbilo por haver a imortal filha de Rá(13) resolvido honrar meu humilde tecto com a sua presença — disse o príncipe, inclinando-se por sua vez.
E onde está a rainha?
— Inspecciona neste momento as construções do seu futuro túmulo, e acaba de visitar as oficinas onde estão sendo esculpidas as esfinges destinadas á avenida que precederá “menou”. (14)
— Agradecido pela boa notícia, Keniamun, e também pela tua visita, ainda que não seja espontânea — acrescentou o príncipe apertando a mão do oficial.
Tu Ine negligencias, mas, vindo que foste, sê mil vezes bem-vindo.
Senta-te, e conversemos até a chegada da rainha.
Permite-me apenas dar algumas ordens.
Bateu palmas e chamou: Chnum!
Um velho escravo apareceu pressuroso.
— Faz levar este vinho e estas frutas, e prepara outros refrigerantes.
Junto dos arbustos floridos, estende esteiras e põe a cadeira real; servos devem estar atentos ao primeiro chamado.
Depois, sentando-se junto do visitante, continuou falando alegremente:
— Conversemos, enquanto isso.
Conta-me as novidades e os mexericos da cidade.
Sei que estás perfeitamente informado de tudo que ocorre, enquanto eu estou desterrado.
De há muito não tenho saído de casa, e minha indisposição nem me permitiu assistir à festa do Nilo.
— Oh! Novidades não faltam! — disse Keniamun, que se libertara do capacete e da espada.
Não sei, no entanto, o que te distrairá, porque frequentas poucas pessoas, e ninguém te interessa, no que, aliás, erras, pois assim te privas de horas bem alegres e divertidas.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 23, 2017 8:38 pm

— Tens razão, mas, que queres tu?
Sinto-me pouco à vontade entre todos esses que são amigos e compatriotas teus, enquanto “eu” sou para eles um estrangeiro.
Apesar de tudo, conta sempre; conheço meio mundo e gosto de estar ao corrente dos acontecimentos.
Mena afinal se fez noivo de Roant?
É verdade que Hartatef desposa a pequena Neith, sobre a qual creio alimentavas projectos iguais?
— Com relação a Roant, há uma soberba história:
anteontem, contratou casamento com Chnumhotep, e Mena recebeu nisso uma lição que tão cedo não se esquecerá.
No que concerne a Neith, é tudo verdade.
Oh! Sargon, se quisesses, poderias tirar do meu coração um peso imenso, e talvez salvar nossa felicidade, porque Neith corresponde ao meu amor.
Malicioso sorriso enrugou os lábios do jovem hiteno.
— Bah! De novo um amor fatal oprime teu coração?
Tu és incorrigível, Keniamun.
Pode alguém afligir-se por uma bagatela?
Segue meu exemplo:
ama as mulheres como se ama flores, frutos, vinhos; usa-as, sem te prenderes a elas, a esses entes pérfidos e versáteis.
Não posso compreender que, por sua causa, alguém perca o sono e o apetite.
— Expressas-te assim, Sargon, porque o verdadeiro amor ainda não tocou o teu coração.
Mas, a tua hora chegará também!
— É possível, embora pouco provável.
E agora, para que te possa ser útil, preciso estar bem informado. Narra, pois, a começar pelo episódio de Roant.
— Devo principiar pela história do noivado de Neith, do qual o de Roant foi desdobramento — ponderou Keniamun, inclinando-se para o príncipe.
E, sucintamente, expôs os acontecimentos relativos aos dois noivados, sem mesmo omitir o episódio da múmia empenhada.
— Desejas então que exerça influência junto de Hatasu, para deslocar Hartatef e ficares senhor da situação? — interrogou Sargon, sorrindo.
— Queria unicamente que informasses a rainha de estar Neith sendo forçada a desposar um homem que lhe é antipático.
Nossa soberana sempre demonstrou grande bondade a Neith, e por isso a libertará talvez de odioso laço, forjado por uma transacção vergonhosa.
— Eli te prometo fazer todo o possível para inteirá-la da verdade.
Hartatef é homem assaz desagradável, e seria lástima que Neith caísse em suas mãos.
Essa pequena inspira-me interesse, e isso por uma razão muito extraordinária, a de parecença com o meu finado irmão, Naromath.
— Tinhas um irmão, com o qual Neith se parece? — perguntou Keniamun, em cuja alma, astuciosa e intrigante, estranho pensamento havia surgido.
— Sim, um irmão que morreu durante o regresso do vosso exército.
Era filho de outra mãe, mas, recordo-me dele perfeitamente, e, além disso, tenho o seu busto estatuário.
Notei por acaso a semelhança de Neith com ele, no templo, há vinte meses mais ou menos, e essa parecença impressionou-me: exactamente o mesmo perfil, os mesmos traços, apenas mais finos e delicados.
Gritos que soavam na região do rio atraíram a atenção dos dois interlocutores, e puseram fim à palestra.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 23, 2017 8:39 pm

Keniamun reafivelou a espada e pôs o capacete, enquanto Sargon fazia rápida inspecção nos preparativos determinados.
Em frente da descida, as lajes estavam recobertas de elegantes esteiras trançadas, ao centro das quais fora colocada uma cadeira, com espaldar em cobre lavrado, ao alto de um estrado de madeira pintada de vermelho; sobre pequena mesa, igualmente de cobre, viam-se um açafate cheio dos mais belos frutos, um púcaro de ouro e um copo do mesmo metal admiravelmente cinzelado e incrustado de pedrarias.
Tendo constatado a perfeita ordem de tudo, o príncipe, seguido de Keniamun, desceu a escadaria e se deteve no último degrau, aguardando a real visita.
Na confusão de embarcações que juncavam o Nilo fora aberto obliquamente um improvisado canal, e neste, voando no dorso das águas, avançava extenso barco impulsionado por oito remeiros.
A proa, bastante elevada, terminava por duas serpentes esculpidas, encimadas de um abutre de asas estendidas.
Sobre um banco, recoberto com pele de leão, estava sentada Hatasu, que correspondia com ligeiro aceno de mão às aclamações dos súbditos; por trás, de pé, dois oficiais, de machadinha ao ombro; à frente, Semnut; duas mulheres sentadas no fundo do barco.
Um instante mais tarde, a embarcação encostou, e Hatasu desceu, respondendo com benevolente sorriso à saudação do príncipe.
Semnut e as mulheres seguiram a soberana ao terraço, enquanto Keniamun e os outros oficiais se postavam nos degraus.
— Venho reprimendar-te, Sargon, por teu excessivo gosto de retiro — disse Hatasu, após haver-se instalado na cadeira que lhe fora reservada.
Raramente és visto nas grandes festas e cerimónias públicas.
Por que foges da sociedade?
A alacridade e as distracções são apanágio da juventude; aos velhos e aos reis incumbem as preocupações e o labor incessante.
— Tens razão.
Não são preocupações e trabalhos que me impedem de fruir a vida; por teu favor, minha soberana e benfeitora, sou o homem mais livre do Egipto, e colho sem haver semeado; sinto-me, porém, mais feliz quando em devaneios neste terraço.
Mas, divina filha de Rá, posso pretender que aceites um refrigerante das mãos do teu servidor?
— Dá-me um pouco de vinho e uma destas apetitosas frutas que tentam os olhos e o paladar.
Também eu amo este terraço, e a vista que daqui se descortina, a animação febril e ruidosa que reina sobre o rio sagrado, é a imagem da minha vida agitada pelas responsabilidades do governo.
Além disto, a cidade dos mortos e a aleia das esfinges que precede o meu futuro túmulo lembram-me a calma das moradas subterrâneas onde repousarei em Osíris, findos os labores da existência.
Ela aceitou o copo que Sargon, ajoelhado, lhe apresentara, e nele umedeceu os lábios, sempre fixando o rio, com distraído e pensativo olhar.
— Eis ali algumas das minhas boas egipcianas que gostam de fruir a frescura — disse Hatasu, após momentos de silêncio, designando com a mão uma ornamentada barca onde havia duas mulheres.
— Posso, minha real senhora, identificar as duas passeantes — interveio Semnut.
— É a embarcação de Pair, e conduz sem dúvida Neith e Satati.
— Vêm muito a propósito — disse a rainha.
Desde há alguns dias tenciono chamar Satati, a quem tenho algo a dizer, e só os afazeres mo têm impedido.
Vou fazê-lo em seguida.
Mandem alguém fazer aproximar o seu barco.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 23, 2017 8:39 pm

Um dos oficiais tomou imediatamente o barquinho de Sargon, e, com algumas vigorosas remadas, aproximou-se da barca de Pair.
Satati já havia notado a embarcação real junto da escadaria, e, sem que pudesse explicar o motivo, a ordem de aproximar-se causou-lhe vago mal-estar.
— Avizinha-te, Neith — chamou a rainha, saudando com a mão as duas que se prosternavam —, e senta-te aí aos meus pés.
Mas, que vejo!
Estás pálida e emagrecida, e pareces triste demais para uma noiva feliz.
Que te falta, pequena?
E a rainha deslizou a mão pelos negros e lustrosos cabelos da jovem, que enrubescera e baixara o olhar.
Hatasu não insistiu, e encetou conversação com Semnut e Sargon; mas, ao termo de quinze minutos, ergueu-se, e, aproximando-se da balaustrada, chamou Neith e disse-lhe bondosamente:
— Aqui estamos a sós; diz-me, com franqueza, minha filha, se foi de pleno agrado a escolha que fizeste, de Hartatef, para esposo. Tu o amas?
Neith ergueu para a rainha uns olhos obscurecidos pelas lágrimas e o rosto tomado de ardente rubor.
Oh! se ela pudesse confiar tudo à sua real protectora, cujo olhar, habitualmente frio e altanado, descia para ela com tanta Indulgente bondade!
Mas, podia ela confessar a imunda conduta dos seus, atrair para a cabeça de Pair e Mena a desonra e a desgraça?
— Minha família o deseja, e sem dúvida isso será para meu bem — balbuciou, em voz abafada.
Hatasu contemplou-a com um longo e perquiridor olhar. Depois, voltando-se, ordenou:
— Segue-me, Satati, tenho de falar-te, e tu também, Semnut.
A ti, Sargon, confio Neith:
procura distraí-la o melhor que possas.
Hatasu deixou o terraço, e, através de salas desertas, caminhou para um pequeno recinto interior, formando jardim, onde se sentou num banco, entregando-se a pensamentos decerto desagradáveis, porque funda ruga se formou em sua fronte. Após um silêncio, que pareceu eterno para Satati, a rainha ergueu a cabeça e, olhando firme e profundamente a interlocutora, disse:
— Como se explica que tu e Pair tenham ousado noivar Neith com Hartatef, sem que eu para Isso desse autorização formal?
Sabes que essa criança vos foi confiada em momento bem duro e difícil para mim; mas, não esqueçais que eu resolvo, por mim mesma, tudo quanto lhe diz respeito, e que ela não é um ser dependente de vós, a quem possais influenciar talvez para satisfazer vossos egoísticos desígnios.
— Minha real senhora, nós cogitamos apenas do bem de Neith, e a prometemos a um homem do qual Semnut pode certificar as excelentes qualidades — tartamudeou Satati, de olhos baixos.
— Satati e Pair falaram-me de tal projecto, e é certo que aprecio Hartatef, activo e inteligente funcionário, de Inatacável reputação.
Além disso, é Imensamente rico, de ilustre origem, não me parecendo, portanto, indigno de tão alta aliança — disse Semnut calmamente.
— Tudo isso é verdade, e eu não desejaria ofender um nobre egípcio e fiel súbdito, opondo-me a esse casamento; mas, era dever de Satati apresentar-me antes a pequena para que eu a interrogasse previamente.
Neith está abatida, empalideceu nestes últimos tempos, e quando a interpelei sobre se estava satisfeita com a escolha, ela me deu resposta evasiva e perturbada.
Eu quero que tenha vagar de reflectir e de desfrutar ainda a sua liberdade de criança.
Direi, eu própria, a Hartatef que o matrimónio não será celebrado antes de doze luas.
Estás ouvindo minha deliberação, Satati, e prestarás atenção para que tudo esteja de acordo com a minha vontade.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 24, 2017 9:48 pm

Receberás uma quantia para o enxoval de Neith.
Tu, Semnut, irás procurar-me amanhã cedo, para receber minhas ordens concernentes ao dote que lhe concederei, de meus haveres particulares.
Agora, podeis retirar-vos, e aguardar que vos reencontre lá fora.
Ficando a sós no terraço, por isso que os oficiais poetados na escadaria não os podiam ver, Sargon e Neith permaneceram por instantes silenciosos, examinando-se reciprocamente.
Eles se conheciam de algum tempo, é certo, e tinham-se avistado muitas vezes, mas, quase sempre, no templo ou nas reuniões oficiais, onde não haviam prestado atenção um ao outro, e em casa de Pair o jovem hiteno não aparecia mais de uma ou duas vezes por ano, isto porque Pair e Mena lhe eram antipáticos.
Pela primeira vez, Sargon olhou a jovem com verdadeiro interesse, e achou que era sedutora.
Estivera ele cego a ponto de não notar melhor aquela penetrante beleza, formas esbeltas, quase etéreas, radioso sorriso?
Nenhuma das filhas de Tebas jamais lhe causara tão estranha impressão; seu coração batia mais célere, e, procurando persuadir a jovem de provar as frutas ali expostas, ele, enquanto falava, absorvia-se na contemplação dos leves e graciosos movimentos, nos traços mutáveis de Neith.
— Não, muito agradecida.
Precisamente antes de sair, eu me servi de frutas, de modo que não tenho apetite — disse Neith, cujos negros olhos esquadrinhavam curiosamente a sala contígua ao terraço.
— Mostra-me antes o teu palácio, porque de há muito desejava percorrê-lo.
Dizem que aqui tens acumuladas tão belas coisas!
— Com prazer, embora temeroso de que fique desencantada.
Vem; tu própria julgarás.
Pegando-lhe a mão, ele a conduziu ao interior.
Mostrou-lhe soberba colecção de armas, vasos raros, jóias diversas, e, por último, um pequeno símio, que se divertia fazendo as mais estranhas cabriolas em um recinto cheio de arbustos odorantes.
— Oh! que belas flores — exclamou Neith, avistando uma cesta cheia de rosas e de outras flores raras.
— Queres tecer uma guirlanda para ornar teus cabelos? — perguntou Sargon, aproximando galantemente uma cadeira.
— Oh! sem dúvida, se o permites — agradeceu Neith, que recobrara seu brilhante humor.
E passou a entretecer a guirlanda para a qual o príncipe escolhia as flores, deixando-se cada vez mais subjugar pelo fascínio estranho que a jovem exercia sobre ele.
— Por que me olhas com tanta atenção? — interrogou bruscamente a moça, que, erguendo a cabeça, encontrara o ardente olhar de Sargon.
— É que constato, com surpresa sempre crescente, a tua pasmosa semelhança com o meu irmão, Naromath!
— Onde está o teu irmão?
Jamais ouvi falar nele — respondeu a jovem, admirada.
Sargon suspirou tristemente.
— Morreu. Perigosamente ferido no decurso de uma grande batalha, caiu vivo em poder dos egípcios.
Impressionado sem dúvida pela sua bravura, Tutmés I mandou cuidá-lo e o tratou com esguardo, e, quando alguns meses depois foi tomada de assalto a cidade aonde meu pai me enviara, juntamente com minha mãe, a rainha Hatasu obteve fosse eu colocado junto dele, sob a guarda de Semnut, que velava igualmente por mim.
Pouco depois, durante o sítio de nossa derradeira praça forte, meu irmão caiu enfermo, acometido de febre maligna, segundo se disse, e morreu.
Muito chorei por ele.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 24, 2017 9:48 pm

— E é com esse irmão que me achas parecida? — indagou Neith, curiosamente.
— Sim, e se desejas convencer-te pelos teus próprios olhos, vem ao meu aposento, onde tenho um busto dele, mandado esculturar por Semnut, pouco antes do desenlace mortal.
Neith colocou vivamente a guirlanda sobre a cabeça, e, desembaraçando-se do cesto, seguiu Sargon a pequeno gabinete contíguo ao quarto de dormir.
Lá, rodeado de arbustos em flor, estava, encimando um pedestal de granito, a estátua, quase de tamanho natural, de um jovem sentado, com a machadinha na mão, coberto com um capacete pontudo, de estranho formato.
O rosto de Neith era realmente a reprodução, em miniatura, dos traços da estátua.
— Que belo era teu Irmão, e que bondade se desenha no seu semblante! — exclamou Neith, entusiasmada.
Creio que lhe teria amor, se vivesse ele ainda; desejaria abraçá-lo, a esse grande e nobre guerreiro — acrescentou, tentando erguer-se na ponta dos pezinhos, sem atingir, porém, seu propósito, por alcançar apenas os joelhos da escultura.
— Espera, eu te vou ajudar — disse Sargon, a rir.
E suspendeu a jovem, aproximando-a da cabeça da estátua.
Rindo ela também, com esse riso sadio e argentino que lhe era peculiar, Neith apoiou as mãos nas espáduas do guerreiro e pousou os carminados lábios na boca de alabastro.
Nem um, nem outro dos dois reparou que a guarda-porta de lã, que mascarava a entrada de longo e escuro corredor, fora erguida e Hatasu surgira no pórtico, à vista da estranha cena, deteve-se, e indefinível expressão de amor e de melancolia velou por instantes seus traços severos e arrogantes.
— Que fazeis aqui? — indagou, dominando-se imediatamente.
Ao som metálico da voz, Sargon voltou-se bruscamente, com visível constrangimento, e repôs Neith no chão.
— Neith — respondeu ele — quis por força abraçar o busto de Naromath, que lhe agradou ao ponto de confessar que lhe consagraria amor, se vivo fosse.
E porque não pudesse alcançar a altura da boca, eu a ergui.
Um sorriso grave e benevolente iluminou a fisionomia da rainha, e seu olhar concentrou-se com força, por alguns segundos, no rosto da escultura.
Depois, atraindo para si a jovem, beijou-a na fronte. Feliz e confusa de tal honraria, Neith deixou-se cair de joelhos e premiu os lábios na mão da sua protectora, que a fez levantar-se com bondoso gesto.
— Teu coração foi bem inspirado, minha filha; ama e admira sempre aquele de quem o acaso te deu os traços, pois foi um herói tão bravo quanto generoso.
Mas, voltemos para junto do meu séquito, porque não posso demorar-me mais tempo.
O rei, enfermo, exige meus cuidados.
Seguida do casal de jovens, voltou ao terraço, e, após benevolentes despedidas, reembarcou.
Quando os visitantes desapareceram na bruma, Satati suspirou, visivelmente aliviada, e disse que também precisava voltar a casa, onde haveria inquietação pela prolongada ausência.
Despedindo-se de Sargon, Neith retirou dos cabelos a guirlanda, e pediu fosse colocada sobre a fronte de Naromath, pedido que o príncipe, risonho, prometeu cumprir.
Mas, ao ficar sozinho, deixou-se cair no leito de repouso, abandonando-se a um caudal de pensamentos tumultuosos.
A lembrança de Neith não o deixara; a sedutora imagem reverberava-se ante seu espírito, fascinando-o cada vez mais, tornando-se aumentativamente desejada. Uma súbita resolução raiou em seu violento coração.
— Eu não a cederei a Hartatef, nem a Keniamun.
É a mim que deve pertencer — murmurou de olhos cintilantes — e Hatasu não ma negará, porque mais de uma vez disse que desejava a minha felicidade.
Apenas, preciso inventar alguma coisa para aniquilar Hartatef ou torná-la impossível para ele, e isso por intermédio de Keniamun, que imaginará estar trabalhando em seu próprio benefício.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 24, 2017 9:48 pm

Amanhã mandarei em sua procura.
Quanto à múmia empenhada, silenciarei para com a rainha, até que chegue a oportunidade de desmascarar Mena e Pair.
Na manhã seguinte, Sargon enviou tabuinhas a Keniamun, convidando-o a vir falar-lhe, sem demora, sobre o assunto que havia sido tratado entre ambos; mas, o oficial, estando de serviço, somente no outro dia ao da visita real pôde apresentar-se no palácio do príncipe hiteno.
Sargon recebeu-o com simulada benevolência, porque, interiormente, já detestava Keniamun, homem que ousava amar Neith e se considerava retribuído.
Surdo ciúme estrincava o coração do príncipe.
Quando o oficial se instalou e os servos saíram do recinto, Sargon, inclinado para o visitante, disse:
— Anteontem mesmo, pude cumprir minha promessa de falar a Hatasu; mas, com grande pesar meu, respondeu-me ser impossível, sem razão plausível, ofender um alto funcionário, um homem geralmente acatado, opondo-se a esse matrimónio.
Neith não confessou coisa alguma da violência exercida sobre ela, embora a rainha a tenha interrogado directamente.
Vergonha, piedade, ou temor? Ela silenciou, e Sua Majestade terá concluído disso que a história da múmia bem pode ser calúnia forjicada pelos inimigos de Mena e de Hartatef, e este, querendo sacrificar uma fortuna para resgatar a honra de um antepassado, revela-se perfeitamente louvável e generoso.
“Somente provas irrecusáveis de qualquer deslealdade, acrescentou ela, poderão decidir-me a recusar-lhe Neith.
Assim, pois, meu caro Keniamun, se desejas atingir teus fins — terminou Sargon, com afectada indiferença — é indispensável descobrires no passado ou na vida privada actual de Hartatef alguma vilania, ou então imagina algo que o esmague e arruíne no conceito da rainha.
— Eu te agradeço, príncipe, o grande serviço que nos prestaste, e que já produziu seus frutos, conforme o prova certa notícia que me deu Chnumhotep esta manhã.
Ontem, à tarde, Hartatef foi chamado pela rainha, que lhe disse ter resolvido uma espera de doze luas para realização do casamento.
Graças à tua generosa proteção, temos ganho tempo, e não duvido de que encontrarei qualquer circunstância comprometedora para Hartatef, pois o seu papel na penhora da múmia me parece suspeito, e não é em vão que ele mantém relações com Smenkara, o mais rapace dos usurários de Tebas, e com a respectiva mulher, Hanofer, chacal de saias, de quem é amante.
— Eu te auguro pleno êxito, e rogo me conserves ao corrente das tuas descobertas. Hartatef me é antipático, por seu estúpido orgulho, e é verdadeiramente extraordinário que tão soberbo e rico personagem entretenha relações com um usurário e uma alcoviteira.
Após a retirada do oficial, Sargon reclinou-se no leito de repouso e murmurou, com satisfeito sorriso:
— Tudo marcha às maravilhas.
Bem pronto, Hartatef, terei pago a insolência de me fazeres sentir que, a teus olhos, sou apenas um prisioneiro injustamente arrancado à escravidão!
E agora irei, qualquer dia, visitar Pair.

(12) Foi nesta campanha que Hatasu conheceu Naromath, de cujos secretos amores nasceu Neith.
(13) Segundo o “direito divino” da época, o Faraó era descendente do deus-sol (Ba).
(14) Neste arruinado túmulo, certo excursionista viu as Inscrições referentes à rainha Hatshepsut, cuja múmia supõe seja uma das que ali se encontram ainda.
(Olbued, Diário de un viaje a Egtpto, Paris, 1928, págs. 129-30.)
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 24, 2017 9:48 pm

VII - ABRACRO

Reentrando em casa, Keniamun enclausurou-se, proibindo a quem quer que fosse perturbá-lo.
Pensou seriamente no que lhe havia dito Sargon:
era preciso destruir Hartatef, e isso o mais depressa possível, porque o desejo de desposar Neith havia aumentado consideravelmente no coração do oficial, desde quando soubera da parecença da jovem com o falecido príncipe Naromath.
Qual um clarão, tombara em sua alma astuciosa a suspeita de que talvez um secreto laço ligasse Neith à sua real protectora.
Se tal suposição fosse verdadeira, aquele que desposasse Neith poderia atingir o pináculo das honrarias e riquezas, perspectiva deveras tentadora para um homem pobre e ávido de gozos.
Mas, como desembaraçar-se de Hartatef, prontamente, de maneira decisiva?
Absorvido, rosto congestionado, percorria o aposento a passos impacientes, quando, inopinadamente, bateu na testa e em seus olhos fulgurou um raio de esperança e de triunfo:
— Por que não me ocorreu desde logo lembrar-me de Abracro? — murmurou ele.
— Essa poderosa maga ajudar-me-á com um remédio ou conselho.
Transbordante de impaciência, Keniamun resolveu não adiar de uma hora sequer sua visita à célebre feiticeira, ledora de “buena-dicha” e deitadora de sorte, que residia, nos confins de Tebas, num prédio isolado, mas de grande frequência por parte de mulheres curiosas do porvir, de maridos ciumentos e namorados aflitos.
Tendo reunido em elegante caixeta alguns objectos de valor, o oficial fez atrelar seu carro e seguiu, acompanhado de velho e fiel escravo, ao bairro distante onde morava Abracro.
Antes de imergir no dédalo de ruas sujas e estreitas que conduziam à habitação da feiticeira, Keniamun desceu, recomendou ao servo que o aguardasse ali e prosseguiu o caminho pedestremente.
Depois de vinte minutos de marcha, atingiu pequena praça deserta, circundada de casas estragadas.
De um dos lados, havia extenso muro, alto, por trás do qual se divisavam palmeiras, acácias e sicómoros de grande jardim; pequena porta, com um disco de metal que servia para chamar, dava acesso ao interior.
Keniamun pegou o martelinho que encimava o círculo metálico e deu com ele discreto golpe.
Conhecia os usos da casa, pois não era a primeira vez que recorria aos préstimos de Abracro.
A derradeira vibração do bronze não se extinguira ainda, e a porta era aberta.
O visitante penetrou em sombria aleia que levava a pequena construção quase escondida na espessa folhagem.
— Bom dia, Hapi; tua patroa está visível? — indagou Keniamun, dando um “anel de prata” ao anão corcunda que fechava cuidadosamente a porta.
— Sim, meu senhor, apenas terás de aguardar um pouco, porque ela está atendendo a outro consulente; mas, segue-me; eu te avisarei quando lhe possas falar.
E conduziu o oficial a pequeno gabinete próximo da entrada, retirando-se logo.
Keniamun, ficando só, reflectiu ainda uma vez sobre a conversa que ia ter e quanto à melhor maneira de obter o que desejava.
Conseguiria atrair à sua causa a estranha e mal afamada mulher, cujo espírito astuto e inventivo tanto conhecia?
Apesar do renome que adquirira em Tebas, nada de positivo se sabia a respeito da origem de Abracro, que surgira na Capital pouco depois do retorno triunfal de Tutmés I da sua campanha nas margens do Eufrates, e pessoas bem informadas suspeitavam fosse ela uma prisioneira hitena, liberada graças à proteção de Hatasu, cuja predilecção por todos esses míseros vencidos constituía inesgotável origem para a Indignação dos bravos patriotas egípcios.
Narrava-se, por facto verdadeiro, que uma predição maravilhosa, feita por Abracro à jovem rainha, trouxera-Ihe a dádiva do prédio onde morava e mais a honraria de ser ainda, de tempos em tempos, chamada ao palácio.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 24, 2017 9:49 pm

A clientela da feiticeira era enorme, devido aos dons de talento que acumulava, pois, além de predizer o futuro, deitar sortes e compor filtros infalíveis, possuía misteriosos conhecimentos de medicina, com os quais operava milagres em casos nos quais a ciência oficial se declarava Impotente.
As reflexões de Keniamun foram interrompidas pelo gebo Hapi, que veio anunciar estar Abracro à sua disposição, e, um instante mais tarde, o corcunda ergueu uma cortina de couro para franquear ao oficial o ingresso no santuário da feiticeira.
Era um grande aposento, quase escuro, pois uma lâmpada fumarenta postada no meio do recinto, numa pétrea mesa, espalhava baça e tremeluzente claridade.
Próxima de tal mesa de granito, estava sentada velhusca mulher, vestindo túnica branca, cabeça coberta com um capacete de listras multicoloridas, por debaixo do qual algumas encanecidas mechas de cabelo pendiam na testa.
O rosto, magro e anguloso, era de palidez amarelenta e em seus olhos, pardos e penetrantes, reluzia um misto de manha, crueldade e presunção refreada.
Sobre os joelhos da adivinhadora, dormia, roncando ruidosamente, um gato preto, parecendo de ébano; um segundo bichano, ruivo, estava instalado no espaldar da cadeira.
— Saúdo-te, sábia Abracro! — disse Keniamun, aproximando-se vivamente — e peço aceites estas bagatelas que te trouxe em oferta de boas-vindas.
A mulher, indicando-lhe com a mão uma cadeira, e abrindo a caixeta, examinou com perito olhar o pesado bracelete, o frasco incrustado, cheio de preciosa essência, e o amuleto ornado com um rubi suspenso em fina corrente de ouro. Satisfeito sorriso alegrou-lhe o rosto.
— Agradecida, rapaz; tua atenção me deleita, porque de há muito desejava um amuleto igual a este.
Mas, diz o que te traz aqui:
sê franco e não temas coisa alguma.
Qualquer que seja tua aflição, a velha Abracro saberá remediá-la.
Keniamun narrou sucintamente o assunto que o levara ali, e prometeu farta retribuição, se ela encontrasse um meio de desconsiderar Hartatef e separá-lo de Neith.
Ao nome de Hartatef, a velha, que escutara atentamente, teve um risinho seco.
— Sabes tu, Keniamun, quem era o visitante que te antecedeu? Hartatef, que exigia um filtro, para fazer-se amar por Neith.
— E tu lho deste? — exclamou Keniamun, como que saltando da cadeira.
— Não, porque não tenho o seu sangue e o da pequena para misturar.
Mas, depois falaremos nisso.
Senta-te de novo, e escuta.
Tenho queixas contra Hartatef, que, apesar da sua riqueza, é avarento e só se deixa rapinar pela miserável amásia, Hanofer, essa velha presunçosa, feroz no ciúme, que o espiona, e que lhe tomou um colar a mim destinado.
Rouba-me clientes, ousando vangloriar-se de que conhece melhor do que eu o futuro e os segredos da Natureza.
Eu lhes revidarei, a ambos, e o perdido a minhas mãos retornará — acrescentou, crispando os punhos.
Agora, antes de te dar meus conselhos, deixa-me, Keniamun, predizer o porvir, porque as linhas da tua fronte pressagiam uma existência movimentada e interessante.
Ainda que fervilhando interiormente de impaciência, o jovem oficial apressou-se em aquiescer, com gratidão.
Abracro, então, acendeu carvões sobre uma trípode, que colocou em cima da mesa.
Depois, retirou de escondido nicho, oculto por uma cortina, um copo cheio de turvo líquido e uma lata com certo pó, do qual deitou muitas pitadas no fogo.
Em seguida, bebeu no copo e fez Keniamun beber também alguns goles.
Pegou-lhe a mão e imobilizou-se.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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