Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 24, 2017 9:49 pm

Decorridos alguns minutos de silêncio, interrompido apenas pelo crepitar dos carvões acesos, a velha, que se curvara para o tripé, retesou o corpo, que parecia frio e rígido, tendo os olhos desmedidamente abertos, parados, sem qualquer expressão.
Com um gesto maquinai, pegou tabuinhas, e nelas escreveu com extraordinária celeridade.
O ruído destas, ao caírem no solo, fez cessar o torpor.
Apanhando-as, leu o que escrevera, e, depois, meneando a cabeça, disse com visível estranheza:
— Coisas bem singulares foram aqui reveladas.
Em primeiro lugar, conseguiremos destruir Hartatef; apesar disso, não desposarás a mulher que amas; aquele que deixaste, antes de vires aqui, será seu marido.
Tu te verás, em seguida, complicado em formidável intriga sangrenta, com muitas vítimas, da qual será eixo um poderoso sobre cuja fronte se reflecte a sombra da “uraeus”(16), e tu próprio serás o propulsor da roda que deve arrasar esse gigante.
Se permaneceres inquebrantavelmente fiel ao nosso grande Faraó Hatasu, escaparás a todos os perigos, e terminarás casando com uma linda e rica mulher.
Penosa impressão comprimiu o coração de Keniamun.
O pensamento de que procurariam atraí-lo ao partido do exilado Tutmés cruzou-lhe pela mente, qual relâmpago.
Mas, seria crível que Sargon desposaria Neith?
— Eu te agradeço, boa Abracro, mas tu deves ver que a minha fidelidade à nossa gloriosa rainha terminará com a minha vida.
E, agora, dize de que modo destruirei Hartatef e quanto te ficarei devendo, depois de ter isso conseguido.
— Não te estabeleço preço, porque és generoso, e tu me pagarás segundo os meus serviços.
Agora, ouve:
já te disse que ele me pediu um filtro de amor, e que ele não possui as substâncias necessárias para fabricar o filtro.
Mas, existe um sangue que pode substituir o de Neith:
é o do carneiro sagrado do templo de Amon.
Se Hartatef, com a própria mão, matar o animal sagrado, arrancar-lhe o coração e trouxer um vaso cheio desse sangue, terá o amor de Neith.
— Ele jamais praticará tão espantoso sacrilégio — balbuciou Keniamun, sacudido por um arrepio de supersticioso temor.
— A mim cabe impeli-lo a arriscar-se.
Tu deves vigiá-lo, dar o alarme no momento decisivo e surpreendê-lo em flagrante.
— Isso é fácil, porque tenho um primo entre os sacerdotes guardiães do carneiro sagrado.
Diz-me somente a hora, e velarei para que seja apanhado.
— Advertir-te-ei, quando for tempo.
Não empreendas, no entanto, coisa alguma antes de tal, e promete-me ainda isto:
não darás o alarme antes de o crime estar consumado; tu me trarás o coração do carneiro.
Nessa ocasião, três ligeiras pancadas foram dadas na porta.
— Tens de deixar-me, Keniamun, porque um novo visitante me reclama — disse precipitadamente Abracro.
Tranquiliza-te, porém, porque não negligenciarei os teus interesses.
Até breve.
Quando o jovem oficial saiu, expressão de júbilo e de vitória iluminou o semblante da velha:
— Enfim! — murmurou ela — terei o coração do carneiro sagrado, nascido nos rebanhos de Tutmés e por ele doado ao templo de Amon.
Agora, tenho certeza: Hatasu vencerá, ele cairá!
Com o coração impando de satisfação e de brilhantes esperanças, Keniamun retomou o carro.
O efeito da predição de Abracro empalidecera ante a radiosa possibilidade de destruir Hartatef, e isso de modo tão radical, que mesmo o seu rancor e vingança não seriam jamais de temer.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 24, 2017 9:49 pm

A possibilidade de um casamento entre Sargon e Neith ele a repeliu, considerando-a fantasia vã, porque nunca o príncipe demonstrara ter pela jovem o menor interesse.
Além disso, Neith o amava, e era o principal.
O calor começava a tornar-se asfixiante, e Keniamun, que, na sua impaciência, se esquecera do almoço, sentiu então o estômago revoltar-se contra o desacostumado jejum.
Chicoteou os cavalos, no intuito de chegar mais depressa, porém, à vista de uma grande e bela casa, pintada de azul e vermelho, fez que mudasse subitamente de intenção:
— Vou pedir almoço à formosa Noferura — murmurou ele.
Devo-lhe uma visita, e bem assim a Roma, e ela é tão prestativa para os oficiais de Hatasu!...
(um frívolo e cínico sorriso passou por seus lábios).
Esse dever de polidez dar-me-á opípara refeição e alegre palestra.
Parou o carro e desceu, recomendando ao escravo voltar para casa, sem o esperar, e dirigiu-se ao prédio.
Como se o estivesse aguardando, a dona da casa estava visível, e a serva guiou-o a um terraço sombreado, circundado de moitas odorantes e de grandes árvores, que mantinham no ambiente agradável frescor.
Junto de apropriada mesa, em cima da qual estavam dispersos os utensílios para trabalhos femininos, achava-se uma jovem de dezanove primaveras aproximadamente, reclinada num leito de repouso, deixando-se abanar por uma preta.
Era bela, alta e esbelta, tipo algo semítico; mas, apesar da regularidade dos traços, do brilho dos olhos e do transparente viço da tez polida, o semblante de Noferura carecia inteiramente de encanto; uma expressão dura e sensual espelhava-se-lhe na boca, e o ar entediado e descontente, e a sua pose descuidada, não contribuíam para produzir agradável impressão.
Percebendo Keniamun, ergueu-se, estirou sem modos os braços pejados de pulseiras, e, despedindo a preta, atraiu o oficiai para seu lado.
— Sê bem-vindo, Keniamun; os deuses te trazem para distrair um pouco o meu abandono e o meu tédio — disse ela, pondo a mão no ombro do militar.
Keniamun depôs os lábios nessa mão, e mergulhou ardente olhar nos olhos da jovem mulher.
— Tu, galante Noferura, tu, a bela das belas, tu serias abandonada?
Eu e muitos outros, tu o sabes, aspiramos a um sorriso dos teus lábios, e não pediríamos mais do que alegrar tuas horas de solitude.
— Adulador! — respondeu ela encostando-se com ar satisfeito.
Mas, vejo que estás encalorado.
Queres um copo de vinho para te refrigerares?
— Não recuso um copo de vinho de tuas mãos, e até mesmo...
— Compreendo — interrompeu, rindo —, tens fome e sede, e algo de substancial não te repugnará.
Bateu palmas e ordenou à escrava que acorreu fazer servir o necessário.
Pouco depois, o oficial sentava-se à mesa, ante copioso almoço, bastante aumentado de uma palestra, cada vez mais picante e animada.
Noferura estava do melhor humor; seus negros olhos cintilavam, e, velando para que o copo do visitante não ficasse vazio, deixou-se persuadir de partilhar várias vezes desse copo com ele.
— Feliz Roma!
Que vida de delícias os deuses lhe concederam — suspirou Keniamun, quando os serviçais retiravam os restos da refeição.
Mas, por que não se vê teu marido? Ainda não regressou do templo?
— Ele voltará para o repasto da noite; mas, para mim, esse regresso equivale ao de uma perfeita múmia entrando em casa — respondeu desdenhosamente.
É o homem mais apático e mais tedioso que a Terra criou, e não constitui deleite o ser sua mulher.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 24, 2017 9:49 pm

Todo o meu sangue se revolta, quando penso nele e o comparo aos demais homens, a Chnumhotep, por exemplo:
cada gesto, cada olhar do chefe das guardas provam o amor que vota a Roant, enquanto Roma, que dorme em pleno dia, não compreende nada dos sentimentos passionais, nem teve jamais olhos para sua mulher.
Posso falar-lhe de amor quanto quiser, porque ele nem parece entender.
— Então, deves escutar palavras de afecto de outros — disse Keniamun, com atrevido olhar.
Deixa-me falar e tu verás como o sei fazer, e como estou disposto.
— Fala; eu amo o som da tua voz — respondeu Noferura, com olhar e sorriso provocantes.
Somente não te olvides de que sou casada e de que devo sempre algum respeito a esse ingrato Roma.
— A ti cabe interromper-me caso avance para longe demais, pois sabes quanto é difícil apagar a chama depois de acesa — murmurou o oficial, enlaçando-lhe o talhe e pousando-lhe na boca um ardente beijo.
A jovem não resistiu mais e retribuiu o beijo.
— Tu és um agradável hóspede, Keniamun.
Vem visitar-me mais vezes, pela manhã, e conversaremos à maneira de hoje.
Roma jamais regressa antes...
Interrompeu-se bruscamente, desprendendo-se dos braços de Keniamun num salto, faces incendidas.
O oficial também se endireitou embaraçado, porque, ao fundo da aleia, acabava de surgir a alta figura do jovem sacerdote de Hator, vestido de branco.
Caminhava de cabeça baixa e como que perdido nos seus pensamentos.
Teria ele visto a cena interrompida com a sua aparição?
Esta pergunta agitava igualmente a ambas as personagens da aventara.
Mas, Noferura não hesitou por muito tempo:
correu ao encontro do marido, atirou-se impetuosamente ao seu pescoço, cobrindo-o de beijos.
— Por Osíris!
Eis a mulher decidida.
Se não estivesse bem desperto, seria burlado eu próprio — pensou Keniamun, maravilhado.
Com gesto calmo, mas irresistível, Roma desembaraçou-se dos braços da mulher e aproximou-se do militar, a quem saudou com benevolência.
Encontrando o olhar límpido e leal do moço sacerdote, Keniamun foi invadido por um sentimento de vergonha interior, e quis despedir-se; Roma, porém, reteve-o e o convidou tão cordialmente para o jantar da noite, que o oficial não pôde recusar.
Bem depressa, os dois homens encetaram animada e interessante conversação, por isso que Roma era óptima palestra quando queria, e Keniamun o era sempre, por natureza e hábito.
Discorrendo alegremente quanto às novidades da corte e da cidade, Keniamun observava os donos da casa, à socapa, e convenceu-se bem depressa de que o jovem sacerdote tinha para a esposa uma frieza a custo dissimulada.
Aos seus olhares incendidos, às carícias que ela tentava, ele opunha uma indiferença gélida, quase de repulsão, e somente quando ela se ausentava do terraço parecia ele respirar à vontade.
Quanto a Noferura, experimentava indescritível agitação:
faces afogueadas, dentes cravados no lábio inferior, ela fixava com paixão não disfarçada o belo rosto do marido, e, à indiferença de Roma, excitava-se a um ponto que dificilmente podia dominar em presença de estranhos.
Keniamun havia muitas vezes ouvido Roant elogiar o excelente carácter do irmão, sua bondade, sua indulgência.
Que lhe havia feito, pois, a jovem esposa para que ele mostrasse por ela essa indiferença, tocando as raias da aversão?
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 24, 2017 9:50 pm

Ela o amava apaixonadamente, era visível, e o favor concedido a ele, Keniamun, ou a outros, constituía quiçá uma consolação de suas decepções conjugais.
Roma teria surpreendido a cena daquele dia?
Teria visto a mulher nos braços de Keniamun?
Este sentia-se contrafeito, e intimamente jurou não prosseguir naquela aventura, pois, além de não faltarem em Tebas mulheres bonitas, tinha no momento de regular e supervisionar assuntos muito mais graves.
Terminada a refeição, ergueu-se para despedir-se.
— Até breve, Keniamun; à hora do repasto nocturno estou sempre em casa.
Vem, pois, se “me” pretendes ver, e conversaremos — disse Roma, com um fino sorriso.
Às faces do oficial subiu um fluxo de sangue.
Tão logo o casal ficou a sós, Noferura saltou da cadeira, arrancou o colar, e, enfiando as duas mãos na espessa cabeleira, gritou com a voz estrangulada pela raiva:
— Homem miserável e indigno, marido sem coração, como ousas tratar-me com tanta e revoltante gelidez em presença de um estranho, desse Keniamun, que espalhará em toda a cidade o quanto sou desprezada em meu próprio lar, e coberta de ultrajes por aquele que tem o dever de amar-me?
Soluços convulsivos impediram-na de continuar; deixou-se cair na cadeira, chorando e sapateando.
Sem dúvida o moço sacerdote estava habituado às cenas desse género, pois não mostrou aperceber-se do estado da mulher.
Levantou-se, sem responder palavra, reajustou sua longa vestimenta branca, e, apanhando de sobre a mesa um rolo de papiros, rumou para a porta de saída.
À vista de tal atitude, Noferura atirou-se a ele, qual ave de rapina, e agarrou-lhe um dos braços.
— Roma, não te retires, ouve-me, eu não posso suportar a tua indiferença! — implorou deslizando até enlaçar-lhe os joelhos.
Sou tua mulher, amo-te, e “tu deves” corresponder ao meu amor.
Tu ensinas esse dever ao povo, não tens o direito de o repelir de ti mesmo.
Vivo rubor cobriu o rosto do padre.
Com gesto brusco e de iniludível desgosto, desembaraçou-se dos braços da mulher, recuando alguns passos.
— Quantas vezes já te disse, Noferura, que tuas odiosas cenas não servem para nada?
Não creio no amor de uma esposa que posso sempre encontrar nos braços de outro homem, como aconteceu hoje com esse oficial.
Não guardo rancor contra Keniamun, porque é a mulher quem ergue a barreira entre ela e o homem, e os teus sentimentos não são de amor, e sim brutal paixão que te é inspirada por todo ser masculino, seja quem for, tenha o nome que tiver.
Vamos! Levanta-te e cessa de chorar — acrescentou mais bondoso.
Trata de suportar o inevitável, com um pouco de dignidade.
Sabes que foste tu própria quem me repeliu, pela tua conduta indigna, tuas traições contínuas; não mais te estimo, nem posso reviver um sentimento de amor completamente extinto.
Eu te lamento por seres tão má e tão cheia de paixões impuras; suporto-te junto de mim, concedendo-te a posição de dona da casa, custeio largamente tuas roupas e teus prazeres...
Contenta-te com isso e não me tires meu último repouso, ou então serei obrigado a retirar-me totalmente para o templo.
Notando que Noferura se levantara banhada em pranto, apoiando-se vacilante a uma coluna, ele se aproximou, e disse, com. sincera compaixão:
— Corrige-te, Noferura, e talvez eu possa vencer a repulsa causada pelo teu procedimento.
Ele lhe estendeu a mão, mas a mulher a repeliu, com violência, presa de novo acesso de fúria, e saiu.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 24, 2017 9:50 pm

Roma sentou-se junto da mesa, pousando nela os braços, e abismou-se em sombrios pensamentos.
— Oh! Por que os deuses cruéis me ligaram a semelhante criatura? — murmurou amargamente.
Por que vi eu tão tarde Neith, a pura e nobre criança?
Ela teria feito a minha felicidade.
Não suspeitando coisa alguma da armadilha que lhe estava sendo preparada, Hartatef pensava, mais do que nunca, em buscar o filtro que deveria afinal submeter o coração rebelde da noiva.
O pensamento de que Neith amava um outro esporeava seu ciúme; a indiferença da jovem para com ele, bonito e rico, feria seu orgulho, e o adiamento do matrimónio, imposto por Hatasu, enchia-o de cólera e de um impreciso temor do porvir, apesar de estar senhor da situação, uma vez que a múmia ainda não fora resgatada, e Pair e Mena continuavam por isso sob sua absoluta dependência.
Cinco ou seis dias depois das últimas ocorrências já referidas, toda a família de Pair estava reunida no jardim, após a refeição da tarde, refeição da qual Hartatef participara.
Satati e o marido passeavam, palestrando, pelo jardim, enquanto Mena e seus primos jogavam a péla.
Hartatef estava apoiado a uma coluna do terraço e observava Neith, com olhar sombrio, a qual, sentada no último degrau, brincava distraidamente com um cãozinho, parecendo ter esquecido a presença do noivo.
De facto, os pensamentos da moça estavam para longe.
Pensava em Roma, cuja lembrança a perseguia.
Ao lembrar que Noferura tornava-o desgraçado, revoltava-se.
Com febril ciúme, ela deseja conhecer essa mulher que tão pouco aproveitava da felicidade que lhe coubera.
Já tivera ímpetos de fazer mil perguntas a Roant, mas, quando se encontravam juntas, invencível pudor fechava-lhe a boca.
Absorvida por essa luta recôndita, a jovem tornara-se apática; a presença de Hartatef deixava-a indiferente; a de Keniamun incomodava-a, e para ele não mais encontrava palavras de amor; até mesmo o adiamento do matrimónio muito pouco a rejubilara:
o homem que desejaria para esposo era casado!
Desde que este não lhe podia pertencer, que importava o resto?
Nesse momento, um servo, esbaforido, chegou ao terraço para anunciar que a liteira do príncipe Sargon havia chegado à porta do palácio.
Todos permutaram um olhar de surpresa.
O príncipe hiteno era visita rara, aparecia apenas em ocasiões excepcionais.
Assim, a sua presença inesperada determinava compreensível estupefacção.
Sem embargo, o protegido da rainha devia ser acolhido com as maiores considerações, a despeito dos íntimos sentimentos que nutrissem a seu respeito.
Mena foi o primeiro a atirar para o lado sua bola e correr para casa, seguido de Pair.
Hartatef não se moveu.
A seus olhos, Sargon continuava sendo o escravo prisioneiro, subtraído à sua sorte por um capricho de mulher, enquanto ele, Hartatef, considerava-se nobre e ilustre, bem distanciado do homem sem pátria e sem liberdade que ousava ainda cobrir-se com o título de príncipe.
Neith e Satati mal haviam tido tempo de reajustar um pouco a vestimenta, quando Sargon apareceu, acompanhado de Pair e Mena.
Saudou as senhoras com a maior afabilidade, mas, à imperceptível saudação de Hartatef, o sangue subiu-lhe às faces.
Com faiscante olhar, mediu de alto a baixo o orgulhoso egípcio.
Depois, voltando-se bruscamente, pegou a mão de Neith, a quem conduziu para o jardim, onde todos tomaram assento em pequeno bosque guarnecido de cadeiras.
Animada conversação foi estabelecida.
Com espanto e mal-estar progressivos, Neith reparou que o fervoroso olhar do príncipe não a deixava, e que ele não escondia a ardente admiração de que ela era alvo, nem o desejo de lhe ser agradável.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 24, 2017 9:50 pm

Intenso rubor carminou-lhe as faces, e, não sabendo de que modo encobrir a preocupação, Neith recostou-se na cadeira, queixando-se de calor, e, com um gesto, chamou uma escrava para abaná-la.
Sargon levantou-se, e, tomando o leque da mão da serva, curvando-se no espaldar da cadeira da jovem, começou ele próprio a abaná-la, acompanhando a pequena tarefa de olhares e mesmo de palavras cujo sentido não deixaram dúvidas.
Uma sensação de incómodo constrangimento invadiu os donos da casa, ante aquela atitude, sendo que Hartatef dificilmente dominava a raiva, tanto assim que, sem dizer palavra, nem mesmo de despedida, abandonou o palácio.
Neith pensou sufocar.
O olhar incendido de Sargon parecia que a queimava.
Essa paixão aberta, que a envolvia qual eflúvio de fogo, inspirava-lhe temor e aversão, e ela não compreendia nada daquele súbito amor.
Não se contendo mais, respiração opressa, afastou bruscamente a mão e o leque, e, alegando que o calor lhe causara repentina indisposição, saltou da cadeira, faces vermelhas, e disse ter necessidade de sair dali.
Evitando o olhar de Sargon, saudou-o e fugiu.
Pouco depois, o jovem hiteno despediu-se, convidando Pair e Mena a lhe retribuírem a visita.
Fervendo de raiva, sobrancelhas franzidas, veias do pescoço intumescidas à grossura de cordas, Hartatef deixara o palácio de Pair.
— Isto precisa ter um fim — rosnou entre dentes.
— A qualquer preço que seja, Abracro deve encontrar o filtro que me tornará amado por Neith, e, se além do filtro, destruir esse miserável escravo hiteno, eu lhe pagarei em ouro o peso do cadáver dele.
Tipo imundo e impuro, que ousas, sob os olhos de um nobre egípcio, vir cortejar-lhe a noiva, resgatarás com a vida tal atrevimento!
Era noite fechada quando Hartatef se apresentou à casa de Abracro.
A feiticeira recebeu-o com demonstrações de grande alegria, e disse estar aprestando-se para mandar chamá-lo por haver encontrado o meio por ele desejado.
No entanto, inteirado da parte que lhe incumbia, ele estremeceu de supersticioso horror e de medo.
Matar o carneiro sagrado do templo de Amon era não só um sacrilégio punido com a maior severidade pelas leis, mas também um crime que nem mesmo a morte resgatava, e, acima de tudo, um acto dificílimo de realizar, porque o animal sagrado estava no âmbito do templo, e, durante todo o dia, padres e servidores o circundavam.
— Que queres tu?
A felicidade não se conquista facilmente, e o coração de Neith vale um perigo, que não é tão grande assim, se agires com ardil e cautela — insinuou Abracro, notando a hesitação.
Deves apressar-te, pois li nos astros que um potente e imprevisto rival impedirá o caminho e te vencerá, caso não te antecipes, ganhando o amor de Neith.
Tais palavras, que lhe pareciam confirmar a súbita rivalidade de Sargon, aguçara o ciúme de Hartatef a tal ponto, que lhe obscureceram a razão e a prudência, e fizeram que bruscamente se decidisse a tentar a aventura.
Satisfeitíssima, Abracro bateu-lhe no ombro.
— Em boa hora! E não duvido de que tua ardileza e bravura te darão a vitória.
Age de noite, porque o animal é vigiado a essas horas por alguns guardiães meio adormecidos, e, para que não despertem muito a propósito, toma este frasco.
Algumas gotas do seu conteúdo, derramadas no chão, produzem emanações entorpecentes tão fortes, que tu mesmo precisas deveras apressar-te em fazer a tarefa com rapidez, e fugir.
Tem cuidado de te preparar um refúgio, e, uma vez fora do âmbito do templo, quem provará seres tu o matador?
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 24, 2017 9:50 pm

Em seguida, acertaram ainda alguns detalhes, fixando para daí a dois dias a execução do crime.
Depois, separaram-se.
E, logo que Hartatef partiu, Abracro expediu Hapi para levar tabuinhas a Keniamun, instruindo-o do que acabava de ser combinado.
O oficial esfregou as mãos, e porque fosse demasiado tarde para ir ao templo, cujas portas já deviam estar fechadas, escreveu ao primo Quagabu, convidando-o a procurá-lo sem demora, e recomendou ao escravo levar o papiro ao destino, tão logo amanhecesse.
No dia seguinte, o padre veio falar a Keniamun.
Era moço, magro e pálido, testa curta e olhar vesgo; algo de sonso, de falso e mau, dir-se-ia, emanava da sua personalidade.
— Queres fazer tua fortuna, Quagabu, e ganhar cada ano um saco de “anéis de ouro’’ igual a este aqui? — perguntou Keniamun a queima-roupa, depois de haverem ambos saboreado um copo de vinho e afastado os servos.
Os olhos do primo fixaram-se com avidez selvagem no saco cheio de ouro.
— Que é necessário fazer? — indagou o padre, simplesmente, mas em voz rouca.
— Ajudar-me a destruir um homem que me embaraça e impede meu casamento com uma jovem imensamente rica.
E o oficial expôs, de modo abreviado, o assunto, sem nomear o rival.
Para desapontamento e raiva de Keniamun, o padre e primo franziu a testa, e, após reflexão, declarou ser muito arriscada a tarefa para imiscuir-se.
Confundido e ansioso, Keniamun ensaiou persuadi-lo, aumentando a recompensa, porém nada conseguiu, até que, no calor da argumentação, pronunciou o nome de Hartatef.
— É a Hartatef que tu desejas perder? — perguntou Quagabu, como que electrizado.
Tu devias ter dito isso desde logo.
Eu te ajudarei, fica tranquilo, e ninguém pode fazê-lo melhor do que eu, porque sou um dos guardiães do carneiro sagrado, e tomarei cuidado para que o miserável seja colhido.
— Tens algum débito a saldar com ele? — indagou o oficial, admirado.
Um fulgor venenoso jorrou dos olhos do padre.
— Sim, um assunto particular cujos detalhes não interessam a ninguém.
Basta saberes que te ajudarei a punir o insolente.
Na conversação que se seguiu, Quagabu instruiu o primo relativamente à disposição interna do templo, ao lugar onde se achava o animal sagrado e ao ponto de onde se devia espreitar Hartatef, que sem dúvida tomara informações antes de tentar a aventura, e escolheria o percurso mais fácil e directo para penetrar no recinto sagrado.
Quase à mesma hora em que Quagabu e seu primo tramavam a perda de Hartatef, este, cheio de esperança de vencer, tinha ido à casa do seu confidente e fiel instrumento, Smenkara, para lhe confiar o seu projecto e pedir conselhos.
Os dois homens estavam sozinhos em um aposento isolado, porque Hanofer permanecia em seu posto no albergue, supervisionando o turbulento público da sua baiuca.
Smenkara, o temido usurário de Tebas, era um corpulento homem, quinquagenário, de aspecto enganador e sensual.
Trazia por único vestuário um avental de linho e sandálias de palha trançada.
Sentado intencionalmente entre a porta e a janela abertas, expunha à corrente de ar refrescante o crânio calvo e seus enormes membros.
A tez era de um bistre quase negro, contra a qual contrastavam estranhamente dois pequenos olhos de um cinzento-azulado, brilhantes de astúcia.
Na ocasião, estava ocupado em traçar a carvão uma espécie de plano sobre a mesa de madeira branca, próximo da qual Hartatef tomara assento.
— Repito-te: tentas um louco sacrilégio, que te perderá — disse, com ar preocupado e descontente.
Não terás tempo de conquistar o coração dessa leviana jovem quando for tua esposa?
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 24, 2017 9:50 pm

— E esperar que esse miserável escravo assírio ma furte, sob as minhas vistas! — murmurou Hartatef, dentes cerrados.
Não tentes dissuadir-me, Smenkara:
quero ser amado imediatamente; mas, agradeço teu conselho.
O caminho por essa porta encoberta é tão curto que suprime a metade do risco.
Que ventura teres conservado esta chave!
— Guardo sempre as coisas úteis.
Se esse velhaco Quagabu soubesse para que serve esta chave, que ele me deu pensando que eu queria realmente furtar um pouco do estrume do carneiro sagrado, e graças à qual fiz evadir a linda cantora, r ia noiva, que tanto te agradou!... ha! ha! ha!
É muito melhor, de resto, que Quagabu ignore quem lhe roubou a sua beldade, e também teu projecto de agora...
Ele poderia representar um mau jeito.
— Desde que nada sabe, é inútil preocupar-me com ele — disse Hartatef, levantando-se.
Volto para casa, para repousar e estar lépido esta noite.
— Até à vista — respondeu Smenkara, reconduzindo-o.
E um último conselho:
se por acaso falhares o golpe e tiveres de fugir, vem aqui, porque tenho esconderijos impenetráveis, onde estarás abrigado até que possas aparecer.
— Muito agradecido, embora espere poder prescindir dessa tua ajuda.
A noite chegara, uma dessas noites negras, sem luar, dentro das quais dificilmente se percebe o que ocorre a dois passos de distância.
A imensa Capital estava mergulhada no silêncio do sono.
Ninguém divisou Hartatef quando, envolto em escuro manto, cabeça protegida por um capuz, deixou o palácio por uma saída disfarçada, e caminhou rapidamente em direcção ao templo de Amon.
A morada do grande deus protector de Tebas ocupava terrenos imensos, encerrando em seu âmbito templos, jardins, dependências para alojamento dos padres, cantoras do deus e inumeráveis servidores.
Em rua deserta, que costeava parte do conjunto, Hartatef deteve-se, tirou do cinto uma chave, abriu a porta dissimulada na muralha e desapareceu no interior.
Imediatamente, um homem, acocorado em uma cavidade do lado oposto da rua, saiu da sombra e veio colocar-se junto da pequena porta.
Era Keniamun que, havia duas horas, espreitava aquele local.
Espichou avidamente a cabeça para escutar melhor, mas, tudo permanecia calmo e silencioso.
Um tempo, que lhe pareceu eterno, decorreu, quando, subitamente, soaram gritos agudos e um abafado rumor de tumulto, de passos e de vozes.
No mesmo instante, a pequena porta foi aberta e um homem por ela se precipitou para rua, em pulos que lembravam um cervo no bosque.
Mas, Keniamun velava, e, precedendo Hartatef, aplicou a este um cambapé que o fez cair, atracando-se com ele, em luta silenciosa e desesperada.
A iminência do perigo, porém, redobrou as forças de Hartatef, e já vozes rumorosas se avizinhavam e archotes emitiam luz próxima, quando ele, por sobre-humano esforço, conseguiu desvencilhar-se dos braços do adversário, e, deixando-lhe nas mãos o manto ao qual este se aferrara, endireitou-se e desapareceu, qual duende, na curva de uma ruela.
Quase simultaneamente, homens, empunhando archotes, invadiram a rua: eram padres e servidores do templo, os quais rodearam Keniamun, que, ofegante da luta, relatou passar casualmente no local quando ouviu gritos e notou um homem fugindo do interior do templo.
Por julgar que se tratava de um ladrão, procurou prendê-lo, e, com indizível pasmo, à luz embora escassa das tochas, reconhecera Hartatef, que conseguira libertar-se e fugir, deixando-lhe nas mãos apenas o manto.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 24, 2017 9:51 pm

Gritos de cólera e de indignação; servos correram pela cidade para dar alarme e tentar a prisão do culpado; outros pesquisaram o terreno, onde foi encontrada uma faca ensanguentada, de cabo ricamente lavrado, enquanto um jovem sacerdote narrava a Keniamun ter sido cometido horrível crime no templo, convidando o oficial a prestar seu depoimento ante o Sumo Sacerdote.
Quando Keniamun e seus acompanhantes penetraram na saia que servia de estábulo ao carneiro de Amon, o recinto estava cheio de gente.
O Grande Sacerdote, rodeado de profetas e anciães, achava-se de pé, junto do animal sagrado, que jazia degolado sobre as lajes, peito aberto, coração arrancado.
Dolorosamente agitados, todos escutavam a narração de Quagabu, um dos guardiães do carneiro.
Havia feito a ronda nocturna, acompanhado de um velho servidor, e ambos viram distintamente Hartatef fugir do local do crime, sem poderem alcançá-lo, porém.
O depoimento de Keniamun, corroborante, foi igualmente reduzido a termo por um dos escribas, e quando o oficial deixou o templo, atroante pelos clamores e gritos de desespero, satisfeito sorriso pairava-lhe nos lábios, pois o rival detestado estava definitivamente destruído e nenhum obstáculo lhe embaraçava a estrada que o levava a Neith e à fortuna.
Rápido, qual cervo perseguido pela matilha, Hartatef dirigira sua disparada para a casa de Smenkara, ali penetrara por uma abertura do seu conhecimento; mas, exausto de forças, atirou-se à cadeira mais próxima que encontrou.
O usurário e sua mulher estavam despertos, discutindo, e os rostos inflamados e arranhados atestavam que a altercação chegara a vias de facto.
À vista do seu protector, assim tão transtornado e esvaído, acalmaram imediatamente, e um simples olhar bastou a Smenkara para compreender que tudo estava perdido.
Pegando um braço de Hartatef, murmurou:
— Depressa; segue-me.
É preciso esconder-te em lugar seguro.
Amparando o recém-vindo, que mal se sustinha nas pernas trémulas, e precedido por Hanofer, que empunhava uma lâmpada, Smenkara seguiu através de numerosos corredores para uma vasta câmara isolada e escura, que servia de guarda-móveis e onde estavam empilhados os mais diversos objectos.
Num ângulo, via-se enorme caixa repleta de utensílios de jardinagem; mas, apesar de aparentemente muito pesada, Smenkara sem muito esforço a removeu:
depois, levantou um alçapão e descobriu pequena escada de pedra tocando o solo.
Desceram os três, atravessaram mais um corredor abobadado, confinante com uma adega assaz espaçosa.
Quando Smenkara acendeu uma tocha fixada no muro, pôde ver-se que o misterioso refúgio estava mobiliado com uma cama recoberta com peles de carneiro, mesa, alguns escabelos e uma espécie de bufete de prateleiras, sobre as quais havia louça e uma ânfora.
Enquanto Smenkara enchia de vinho um copo de grés, e antes de o apresentar a Hartatef, Hanofer tomou assento em um escabelo, pousou a lâmpada na mesa e disse a este, num misto de piedade e de ironia motejadora:
— Por enquanto, estás fora de perigo, mas, nunca me passou pela ideia que este retiro, que concedemos aos que têm desentendimentos com as leis, e pagam bem, viesse servir de asilo ao ilustre e poderoso Hartatef.
Aconteceu, todavia, e admiro a justiça dos deuses que puniram teu desvairado amor por essa Neith, e tua ingratidão e infidelidade para comigo.
Se me houvesses confiado tudo, em vez de tramar, por detrás de mim, com este imbecil Smenkara, eu teria ajudado teu projecto, sem que cometesses um crime inaudito.
Hartatef não respondeu.
Pegando o copo que lhe era oferecido por Smenkara, esvaziou-o com avidez, depois enxugou a fronte inundada de suor, e disse, com enrouquecida voz:
— Creio ter sido identificado por Quagabu e também por esse miserável Keniamun, o qual, encontrando-se tão a propósito junto da pequena porta, deixa supor que ali não estava por acaso.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 24, 2017 9:51 pm

Mas, antes que se determine e se ocupe a minha casa, para devassa, espero que tu, Smenkara, me prestes um serviço pelo qual serás recompensado.
Corre sem demora até lá, entra pela entrada secreta, que conheces e da qual a chave é esta.
Penetra na saleta contígua ao quarto de dormir e do grande cofre de madeira odorífera, encostado à parede, à direita, retira uma caixeta cinzelada e dois sacos.
Leva contigo teu escravo Anúbis, porque os sacos são pesados, e traz-me tudo aqui.
Smenkara, que escutara atento, prometeu cumprir fielmente a incumbência, e saiu sem mais detença, acompanhado da mulher, que correra a despertar Anúbis, enquanto aquele se munia de um manto escuro e punha ao cinto comprida e larga faca de dois gumes.
Ficando só, Hartatef pousou os cotovelos na mesa.
Sua alma, voluntariosa e soberba, sofria neste momento mil torturas.
Não podia duvidar:
fora vítima de uma conjura habilmente articulada e caíra feito louco na armadilha, destruindo seu porvir e perdendo Neith para todo o sempre.
Mas, quem haveria tramado e conduzido a intriga?
Sargon ou Keniamun?
As reflexões foram interrompidas pelo regresso de Hanofer, que trazia uma ave assada, um cestinho cheio de apetitosos pãezinhos e uma coberta ricamente bordada.
Tendo-se libertado do que trouxera, sem que Hartatef mostrasse haver prestado atenção, ela o abraçou com os robustos braços e lhe deu na face sonoro beijo.
Apesar da raiva interior que o excruciava, ele sofreu silencioso as carícias, pois não ousava repelir e irritar a brutal e apaixonada mulher, a cuja mercê virtualmente estava.
Apenas se esticou e pegou maquinalmente um dos pãezinhos.
— Sim, meu rapaz, come e repara tuas forças e teu ânimo — disse ela.
Nem tudo está perdido ainda; estás salvo e em abrigo; quando o primeiro furor e a sanha da perseguição abrandarem, nós deliberaremos para te fazer partir.
Com o tempo, creio eu, com dádivas, poder-se-á obter o perdão do templo, além do que tens poderosos amigos e Semnut te protege, ele, cujos conselhos têm tanto valor para Hatasu.
— Hatasu não se imiscuirá nesse assunto, porque luta ela própria contra os padres — respondeu ele, com ressentimento e amargura.
— Naturalmente isso não será amanhã; é preciso ter paciência, e por que não a terás, tu, uma vez que me tens, meu querido?... — disse ela ainda, com risinho chocarreiro.
Não sou tão bela quanto Neith, mas, meu amor é mais sólido e se mantém bom em todas as circunstâncias da vida; viveremos aqui, à semelhança de dois enamorados; eu te protegerei, e, à noite, irás comigo respirar as brisas do Nilo.
Não desesperes, pois.
E, agora, adeus, dorme e repousa, porque tens necessidade disso.
Saiu e fechou cuidadosamente a porta.
A notícia do insólito crime perpetrado no templo correra em Tebas com incrível rapidez.
Os primeiros clarões do sol nascente douravam apenas as curvas do horizonte, e já o Grande Sacerdote, abatido, vestes despedaçadas, estava fazendo seu relato à rainha, que, pasma e revoltada, dera as mais severas ordens e prometera avultada recompensa a quem aprisionasse o culpado.
Do palácio, a nova voara, qual seta, de bairro em bairro, despertando nos grandes lares e nas choupanas um assombro misturado de indignação; surdo movimento de alvoroço reinava nas ruas, e compacta massa popular congestionava as vizinhanças do templo de Amon, atroando os ares de clamores e vociferações.
Entretanto, os mais interessados, Neith e Satati, ainda não tinham conhecimento dos factos.
Pair e Mena, ausentes desde cedo para os deveres profissionais, não haviam regressado, e Satati, algo indisposta, dormia ainda.
Neith terminara sua alimentação matinal, e sonhava preguiçosamente no terraço, quando a nutriz lhe apareceu, atarantada, anunciando que Keniamun pedia para lhe falar imediatamente, pois trazia uma notícia da mais alta importância.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 25, 2017 8:57 pm

Neith ergueu-se, pálida e tremente.
Que teria ocorrido para que o oficial viesse procurá-la assim?
Deu ordem para fazer entrar o visitante, e mal teve tempo de envolver-se em longo véu, quando apareceu Keniamun.
Distanciando com imperioso gesto a nutriz e uma segunda escrava, o jovem oficial correu para Neith, olhos fulgentes, e, pegando-lhe as duas mãos, falou, vibrante:
— Estás livre, minha adorada; nenhum obstáculo se opõe agora à nossa união, se teu amor permanece fiel a mim!
— Que dizes tu!?
E Hartatef? — balbuciou Neith.
— Ele não pode mais ser teu esposo, ainda que não estivesse desaparecido.
Escuta o que se passou.
E rapidamente referiu os acontecimentos no templo de Amon.
— Tu compreendes — rematou ele — que semelhante criminoso não mais pode estender-te a mão; mas, eu lutarei com esperanças novas de te conquistar.
Tu o permites?
Neith havia escutado a narração duvidando do testemunho dos seus ouvidos; mas, a alegria transbordante do rosto agradável do oficial, o amor que espelhava nos olhos, deram-lhe a prova de que não era um sonho.
Com a rapidez do pensamento, reflectiu que, não podendo Roma ser seu marido, ela, desposando Keniamun, preferido entre todos e que a amava apaixonadamente, criava para si um futuro tranquilo, ao mesmo tempo que se desembaraçava de Satati, de Pair e de Mena, que ela detestava, desde quando soubera da ignóbil transacção na qual a fizeram vítima.
O resultado do raciocínio foi apoiar a linda fronte no ombro de Keniamun, ao dizer afectuosamente:
— Sim, meu bom Keniamun, eu te repito, de livre vontade, que serei tua esposa, se a rainha mo permitir.
E porque não te seja fácil uma aproximação com ela, eu mesma suplicarei a sua autorização.
Ela é boa para mim quanto o próprio Hator; não recusará, e viveremos ditosos, apesar da infame conduta de Mena que dissipou minha fortuna.
Soube, de Semnut, que a rainha me dota, e que terras, vinhas e grandes rebanhos me estão destinados.
Assim, na primeira oportunidade, implorarei de Sua Majestade autorizar a nossa união.
Um clarão de júbilo jorrou dos olhos de Keniamun.
Atraindo Neith a seu braços, ele lhe deu um longo beijo.
Enfim, chegava ao cimo dos seus anelos, e diante do seu espírito desdobrava-se um porvir de riqueza, de gozos e de grandeza.
— E, agora, adeus, minha querida; as obrigações chamam-me — disse, erguendo-se vivamente.
Eu já devia estar em palácio, mas, antes de tudo, quis ver-te.
Ficando só, Neith passeou no terraço, presa de febril agitação; agora, imenso alívio parecia haver descarregado seu coração de um peso de montanha.
Hartatef estava apagado de sua vida; o insolente e cruel moço fora destruído, tornado pó, em consequência do seu próprio crime.
Mas, que causa poderia tê-lo arrastado a cometer esse sacrilégio inconcebível?
Ela não compreendia esse mistério.
Depois, pensou em seu noivado com Keniamun, e uma sensação de calma, uma doce quietude invadira-lhe a alma.
Certo, ele não exercia sobre ela o fascínio estranho, não lhe dava a felicidade embriagadora que experimentava na presença de Roma, mas, sentia-se bem perto dele, e o jovem oficial assemelhava-se como que a um refúgio, um, muro que a resguardaria do olhar incendido e sinistro do príncipe assírio.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 25, 2017 8:57 pm

A lembrança de Sargon e da paixão fogosa que lera em seus olhos era uma perseguição comparável a pesadelo; ela não o abominava cegamente, tanto quanto a Hartatef, porém, o príncipe infundia-lhe medo, seu amor devia ser terrível, e pareceu que, no caso, ela não teria armas para combatê-lo como havia combatido Hartatef.
A chegada de Satati veio interromper as reflexões da jovem.
Pálida e abatida, ela descaiu numa cadeira e, em expressões entrecortadas, narrou o atentado sangrento contra o carneiro sagrado.
— Estamos perdidos — concluiu ela, retorcendo as mãos —, porque Hartatef ainda não fez o resgate da múmia de teu pai.
Neith empalideceu, mas, reagindo por um esforço de vontade, respondeu:
— Não desesperes; sei, por Semnut, que a rainha me destina um dote considerável.
Trata de conseguir uma audiência, e eu suplicarei a Hatasu que me permita desposar Keniamun.
Logo que entremos na posse da fortuna, pagarei, e tudo estará terminado!
Satati meneou tristemente a cabeça.
— Teu marido não permitirá jamais fundir assim teus haveres; além de que, duvido muito que Hatasu queira conceder tua mão a um oficial principiante da sua guarda, sem fortuna e sem hierarquia.
Ela desejará unir-te a algum poderoso e ilustre personagem, e quiçá mesmo o príncipe Sargon pretenda meter-se na lista...
Seus olhares de anteontem fazem pensar nisso.
— Ah! também notaste que me devorava com os olhos? — exclamou Neith, com opressão na voz.
Oh! possa Hator guardar-me contra ele.
Esse assírio me infunde medo, seu amor me gela!
— Não te sobressaltes inutilmente assim; as nossas suposições podem ser erróneas, e esse selvagem, que jamais mostrou interesse por alguém, talvez haja obedecido ao impulso de um capricho transitório.
Mas, eis aqui Pair e teu irmão. Que nos trarão eles?
Os dois homens mostravam estar inquietos e perturbados.
— Venho da casa de Smenkara — começou dizendo Pair.
O maroto mostrou-se bastante tratável; mas, não compreendo a estranha condição que nos impôs:
enquanto Neith se conservar solteira, calarei e esperarei.
No dia em que casar, reclamarei a soma devida.
Sem prestar atenção ao espanto das duas mulheres, Mena exclamou:
— Eu acho a condição muito cómoda; é evidente que, por uma cláusula tão simples, para salvaguardar nossa honra, ela não se casará.
Mas, esse Hartatef foi um canalha!
Em lugar de liquidar sem tardança um assunto tão sagrado, que é o resgate de um morto, ele adiou, sob o pretexto de reunir capitais, e depois se enreda em sacrílega morte!
— Foi apanhado? perguntou Satati.
— Não; continua incontrolável, e daria minha mão ao corte, se Smenkara e sua megera não pudessem dizer onde ele se acha, embora em vão lhe hajam varejado a casa, desde a adega subterrânea às águas-furtadas.
— Talvez se suicidasse, para fugir à sorte horrenda que o espera — aventou Neith, com inseguro timbre de voz.
— Não sejas tola — chacoteou Mena.
Ele confia na proteção de Semnut.
Mas, a propósito: no momento em que deixei o palácio, ali chegou Sargon e pediu a Semnut lhe obtivesse imediata e secreta audiência da rainha.
Fiquei curioso por saber o assunto que...
A chegada de uma escrava, que veio trazer a Satati tabuinhas vindas do palácio real por um expresso, interrompeu a frase.
A mensagem era de Semnut, determinando laconicamente que, a uma determinada hora, estavam Satati e Neith chamadas a comparecer ante a rainha.

(16) URAEUS - Serpente naja, temido ofídio venenosíssimo, usado, em reprodução em ouro sobre a frente do diadema real, como sendo símbolo sagrado do temor ou respeito que devem ter os súbditos do seu soberano.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 25, 2017 8:57 pm

VIII - SARGON NO PALACIO DA RAINHA

A solicitação de Sargon, rogando ser recebido para lhe dirigir um pedido da mais alta importância, surpreendeu vivamente a rainha.
Jamais, até então, o sombrio e silencioso príncipe lhe havia pedido coisa alguma, nem manifestado ambição ou interesse em qualquer negócio.
Nunca lhe fora necessário perdoar uma dessas leviandades que os nobres egípcios cultivavam com frequência...
Que poderia ele desejar?...
Deu ordem para que o levassem à sua presença, imediatamente, decidida a aceder ao pedido, se fosse humanamente possível, porque, além do motivo íntimo que a fazia proteger todos os hitenos, ela estimava Sargon e queria que ele encontrasse às margens do Nilo as venturas que perdera nas vizinhas bordas do Eufrates.
Apesar da confiança que lhe Inspirava a benevolência jamais desmentida da rainha, o coração de Sargon batia violentamente quando um oficial das guardas afastou a pesada cortina, bordada de azul e ouro, que vedava o gabinete de trabalho onde estava Hatasu.
Era um recinto de média extensão, com uma face para o terraço; as paredes eram recobertas de tapeçarias e as lajes também tinham tapeçarias e esteiras multicoloridas.
Diante da entrada do terraço, viam-se elegante mesa de cedro, com gavetas, e uma poltrona de espaldar colocada em cima de grande estrado dourado.
Curvada sobre a mesa, atopetada de tabuinhas e rolos, a rainha lia um papiro aberto; mas, ao leve ruído dos passos do jovem hiteno, voltou o busto, e com um gesto mandou que se aproximasse.
Sargon prosternou-se, beijando o chão.
Ergue-te e senta-te.
Hatasu designou-lhe um tamborete de marfim colocado próximo, e junto do qual um grande lebreiro se estirava, fazendo soar o tríplice colar de ouro que tinha ao pescoço.
Poderosa soberana, permite-me rogar de joelhos uma graça da qual depende a felicidade da minha vida — murmurou.
— Eu te ouvirei de igual modo, sentado nesse tamborete — disse a rainha, com encorajador sorriso, pleno de benevolência.
Deixa-te estar, e dize que posso fazer para o mais modesto dos meus súbditos!
Sabes que almejo fazer-te venturoso; mas, és tão estranho, Sargon!
Parece que nem as honrarias, nem as mulheres te tentam.
Súbito rubor coloriu as faces pálidas do príncipe.
— Minha soberana e generosa protectora, tua potente mão garantiu o infortunado prisioneiro contra a humilhação e a miséria; tua vontade pode também conceder a felicidade completa, dando-me a mulher que amo de toda a minha alma.
Dá-me Neith para esposa.
Desde a tarde de tua visita, sua imagem invadiu meu coração, e não posso viver sem a visão do rosto encantador que reflecte os traços do meu pobre irmão Naromath.
O beijo que deu na estátua enfeitiçou minha alma.
Neith está livre; o crime de Hartatef rompeu o seu compromisso.
Ao tom daquela voz vibrante de paixão recalcada e à vista daquele olhar cintilante que espelhavam os tumultuosos sentimentos do jovem hiteno, uma expressão de surpresa e contentamento desenhou-se no semblante da rainha.
— Amas Neith, e desejas desposá-la?
Muito bem!
Eu a concedo de boa-vontade ao irmão de Naromath.
Apenas, reveste-te de paciência, pois é mister deixar a ela o tempo de acalmar-se e esquecer o noivo que acaba de perder.
Olhos faiscantes, Sargon deixou o tamborete e veio de novo ajoelhar-se junto da poltrona.
— Rainha, Neith não necessita olvidar um homem que ela sempre execrou e o qual forçaram-na a aceitar, para salvar a honra dos seus.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 25, 2017 8:57 pm

— Que dizes tu?
Forçaram Neith? — exclamou bruscamente Hatasu, com as faces invadidas por um fluxo de sangue.
Fala, quero saber tudo! — concluiu Imperiosamente.
Inundado de satisfação íntima, Sargon desdobrou um quadro fiel da vida dissipada e imoral de Pair e de Mena, das prodigalidades desenfreadas que os haviam levado a contrair dívidas colossais, dando em penhor a múmia do velho Mena, e, finalizando, descreveu a vergonhosa transacção concluída com Hartatef, da qual o preço fora Neith, contra a vontade desta.
— Que abominação! — gritou a rainha, tremente de cólera.
Meu pobre Mena, esse nobre e fiel servidor, distinguido já por meu finado pai, tendo agora seus restos entregues por esses infames a um usurário!
E Satati, a odiosa criatura, ousa silenciar sobre semelhante crime, e atormentar Neith, a abnegada criança que silenciosamente se sacrificou!
Oh! a que mãos fui confiar minha...
Interrompeu-se, e prosseguiu depois de curto silêncio:
— Tu, porém, Sargon, concedendo-te sua mão, juras-me que a amarás fielmente, que a protegerás durante toda a tua vida, e que a farás ditosa?
Bem, teu olhar é mais eloquente do que uma promessa; recebe também meu compromisso:
Neith será tua esposa, e ainda hoje eu lhe comunicarei minha decisão.
E tu, prepara o teu palácio para amanhã, porque, à tarde, irei pessoalmente levar tua noiva, e, ante a imagem daquele de quem ela possui os traços, e ao qual jurei proteger-te, juntarei as mãos de ambos.
Fremente de ventura, Sargon curvou o corpo e quis beijar o degrau do estrado sobre o qual assentava a cadeira real; mas, Hatasu estendeu-lhe a mão:
— Estamos sós — acrescentou, com melancólico sorrir, enquanto o príncipe premia os escaldantes lábios nos afilados dedos da soberana.
Sozinha, Hatasu apoiou os braços e a fronte nas mãos, supercílios contraídos, e assim ficou por minutos.
Depois, pegando uma das bolinhas de ouro que enchiam pequena caixa sobre a mesa, atirou-a para dentro de um vaso de prata que encimava cinzelada base, ao seu lado.
Ao som vibrante e prolongado que retiniu em seguida, o camarista de serviço acudiu sem demora.
— Façam chamar Semnut imediatamente — ordenou ela.
Quinze minutes depois, o homem da sua confiança apareceu, e, obedecendo à ordem, instalou-se no tamborete de marfim.
E, nessa posição, ouviu, com progressivo pasmo, a narrativa que a rainha lhe fez, de acordo com as revelações de Sargon.
— Fui avisado dos comentários a respeito dos desperdícios de Pair e do sobrinho; jamais pensei, porém, que pudessem descer tão baixo — disse Semnut, meneando a cabeça.
E Hartatef, esse desvairado criminoso, chafurdar-se em semelhante transacção!
— Sim, é indigno, e os deuses o puniram, deixando-o praticar esse atentado para o qual, aliás, não encontro explicação plausível — concluiu Hatasu, pensativa.
— Minha real senhora, permite a teu escravo alvitrar uma ideia, e pune-me, caso te desagrade — começou Semnut, depois de um minuto de meditação.
Parece-me que a imensa fortuna de Hartatef, e bem assim o soberbo palácio que terminara de construir reverterão, de direito, para a noiva, e devem ser acrescidos ao dote que destinas brevemente à nobre Neith.
— Teu conselho é sempre sábio, fiel Semnut, e vem a propósito porque vou casar Neith com o príncipe Sargon.
Sem embargo, é de equidade que o templo de Amon receba uma Indemnização pela ofensa feita ao deus, e, em tal intenção, determino seja o terço de todos os bens de Hartatef ofertado ao templo, e o resto juntarás ao dote.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 25, 2017 8:57 pm

Além disso, Semnut, manda chamar amanhã cedo o usurário, e resgata, do meu tesouro, a múmia de Mena, cujo Ka (perispírito entre os egípcios) deve sentir-se extremamente aflito pelo ultraje perpetrado contra o seu envoltório mortal.
Tu farás sentir ao sórdido agiota que, embora a lei autorize tais transacções, eu desaprovo esse modo de desmoralização e de ajuda ao custeio de loucuras, a expensas do que há de mais sagrado.
Diz-lhe que, salvo tornar-se mais comedido, eu o farei procurar nova profissão nos estaleiros da Etiópia.
Agora, meu fiel, podes ir, e providencia para que Satati e Neith estejam aqui após a refeição da tarde.
A hora indicada, as duas mulheres apresentaram-se em palácio, Satati, vagamente inquieta, e Neith, jubilosa por haver tão depressa encontrado oportunidade de fazer sua rogativa à rainha.
Uma das damas de serviço recebeu-as na antecâmara real, e pediu à esposa de Pair aguardasse ali, enquanto conduzia Neith ao quarto de dormir de Hatasu.
A rainha estava só, reclinada num leito de repouso, parecendo inteiramente absorta em pensamentos desagradáveis; mas, ao avistar Neith, sorriu e fez sinal para aproximar-se, e, quando a jovem, contente e ruborizada, ajoelhou junto do leito, tirou-lhe o gorro da cabeça e, com acariciante movimento, alisou-lhe os belos e bem cuidados cabelos, dizendo, bondosa:
— Por que não me confessaste, louquinha, que desposavas Hartatef contra a vontade?
Vamos! Não tremas, nem baixes a cabeça; eu te perdoo a falta de franqueza; não foi para ralhar que te chamei, e sim para te anunciar uma grande felicidade.
Hoje, o príncipe Sargon veio pedir-me consentimento para te fazer sua esposa; eu lhe concedi tua mão.
— Sargon! — exclamou Neith, enroxando-se de emoção e assombro.
— Sim. Agrada-te ou inspira-te repugnância? — indagou Hatasu, surpreendida.
— Não. Eu mal o conheço; mas, tal pensamento me assusta — balbuciou a moça toda fremente.
— Isso não é nada — disse a rainha com álacre sorriso.
Esse susto passará depressa, e embora não o ames ainda, virás a amá-lo, porque é bom, belo, culto e te ama apaixonadamente.
Tu ainda não sabes o que é amor, Neith, e por isso te alarmas.
Tu não tens denominação para esse sentimento, nem criaste a imagem do que será teu porvir.
Pois bem, eu te digo: será Sargon o homem que te fará feliz; será seu braço um escudo, seu coração teu escravo.
Isentos de preocupações, vivereis no belo palácio de Hartatef, que anexei ao teu dote, juntamente com uma parte dos seus haveres.
Assim se realiza um desejo que sempre alimentei em minha alma.
Neith inclinou a fronte, coração contraído, cabeça pesada, com um vago terror oprimindo-a, fazendo faltar-lhe coragem para pôr objecções à vontade da grande soberana, que ela amava e temia ao mesmo tempo, e dizer:
“Não quero o homem que escolheste; prefiro um obscuro soldado, que teus olhos jamais notaram por entre a multidão que te rodeia.”
— Teu desejo, minha rainha e benfeitora, é sagrado para mim; eu te obedeço e desposarei Sargon — murmurou ela.
— Não terás motivo para lamentar teu gesto — respondeu Hatasu, com um clarão radioso emergindo dos negros olhos.
(Absorvida pelos pensamentos íntimos, passara despercebida ao seu reparo a luta recôndita de Neith.)
Amanhã, minha filha, eu pessoalmente te conduzirei ao palácio do teu futuro marido, e, para festejar o noivado, faço-te presente de uma vestimenta e de um adorno usados por mim.
Possam esses objectos, que receberás hoje ainda, trazer venturas!
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 25, 2017 8:58 pm

Alegria e orgulho arrebataram momentaneamente as apreensões no coração versátil de Neith, e, com os olhos brilhando, agradeceu à rainha, a qual, não menos satisfeita, a beijou na fronte, em despedida.
Penetrando, à sua vez, na câmara real, Satati prosternou-se e beijou o chão com respeito e humildade.
Depois, ao ver que nenhum sinal de benevolência lhe indicava levantar-se, permaneceu ajoelhada, enquanto um colorido amarelo terroso invadia seu rosto bistre.
Um simples olhar à rainha, que caminhava vivamente de um ao outro lado do aposento, deu-lhe a convicção de que uma tempestade avizinhava-se.
Sobrancelhas franzidas e cruzadas sobre uma ruga na testa pálida, as finas narinas fremindo, a boca exprimindo a dureza glacial que a caracterizava nos momentos de cólera, tal era o aspecto da rainha.
— Serva infiel e ingrata — disse Hatasu em voz irritada, detendo-se bruscamente — que ousaste fazer?
Violentaste e vendeste ao miserável Hartatef a criança que te confiei, e isso para cobrir as infâmias de dois homens sem brio nem honra, que não recuaram ante o sacrilégio de penhorar o corpo do seu parente!
Que são Pair e Mena para Neith?
Servos que devem beijar as pegadas dos seus passos e respeitar por ordens cada um dos seus caprichos.
Esqueceste que te paguei para cuidar dela, e não para traficar com ela, como se negocia uma escrava?
Ou, na tua criminosa petulância, supuseste que a verdade jamais chegaria aos meus ouvidos, e que por isso nunca te pedisse contas da tua conduta!
Responde!...
E treme ante a minha justa cólera!
Sacudida qual folha enrodilhada pela ventania, Satati recaiu prosternada, e como que pregada ao solo pelo olhar que a fulminava.
Depois, arrastou-se para junto da rainha, que se mantinha de pé, olhos coruscantes, e ergueu para ela os braços súplices:
— Filha de Rá, tão grande e poderosa quanto ele, sei o que teu sopro é bastante para me destruir, qual o vento do deserto açoitando o arbusto; sei que teu olhar pode reduzir-me a cinzas...
Sou culpada, mas, em lembrança do passado, da hora em que me confiaste a criança, do amor e dos cuidados maternais que dediquei a Neith desde a nascença, sê clemente, perdoa-me essa falta, a única, e deixa-me dizer a razão dos acontecimentos.
Apercebendo-se de que o olhar da rainha estava abrandado, prosseguiu, mais corajosamente:
— Pair e Mena Ignoram a origem de Neith, e, sem me consultar, dispuseram dela, como se fosse verdadeira parenta.
Quando soube a verdade, a vergonha e o receio de atrair o desprezo sobre a fronte de meu marido e de meus filhos reduziram-me ao silêncio.
Por outro lado, influiu o pensamento de que Hartatef, belo, rico, nobre e apaixonado, daria, no final das contas, a felicidade a Neith.
Hatasu não respondeu.
Um rio de reminiscências doces e pungentes viera desaguar em sua memória.
O apelo ao passado, que Satati evocara, havia subitamente despertado nela todos os sentimentos sopitados do único tempo em que havia fruído os direitos do coração, do sonho de amor, embriagante e fugitivo, que passara qual tempestade sobre sua orgulhosa alma.
Neith, a viva imagem daquele que deixara indelével cunho no coração da jovem soberana, parecia-lhe a personificação desse oásis de calma e de ventura, no qual esquecera a ambição, durante o qual a áspera luta com seus irmãos e clero, pela coroa e pelo poder, não tinha lacerado sua alma.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 25, 2017 8:58 pm

Ela reviveu a hora em que confiara a filha a essa mulher lívida e prosternada...
E sua cólera fundiu-se.
— Levanta-te, Satati; por esta vez, estás perdoada.
Hoje é dia de júbilo para mim, porque trouxe a realização de um secreto anelo, ao qual já havia renunciado.
Sargon vai desposar Neith, e tal alegria me predispõe à clemência.
Em memória de Mena, cuja sombra aflita esvoaça sem dúvida em torno do seu ultrajado corpo, quero, por esta vez, salvar-vos da ruína.
Semnut, com recursos do meu tesouro, resgatará a múmia do meu fiel servidor e saldará as dívidas de Pair e de Mena.
Estes deverão mencionar seus débitos; mas, não devem contar, de ora em diante, com a minha indulgência, e sim corrigirem-se muito seriamente, pois não desejo que os grandes do meu serviço dêem exemplo de excessos de toda ordem e de desprezo pelos antepassados.
Se alguma indignidade nova chegar ao meu conhecimento, Pair será destituído do cargo e exilado de Tebas, com toda a família.
Quanto a Mena, vou mandá-lo comandar algum destacamento estacionado em fortaleza distante, nas minas de pedras azuis, para que a solidão lhe dê juízo.
Transmite-lhes isto.
Satati de novo se prosternou, balbuciando palavras de gratidão; seu corpo tremia nervosamente.
— Ergue-te e sossega — disse Hatasu abrandada.
Agora escuta:
amanhã conduzirei Neith à casa do seu futuro consorte.
Tu a trarás à hora da refeição da tarde, e para isso eu lhe faço dádiva de uma vestimenta de bisso bordada de fios de ouro e pérolas, a qual farás lhe seja entregue imediatamente por intermédio da encarregada do meu guarda-roupa, já informada do caso.
Dá-me agora essa caixeta que está próxima do meu leito.
Satati cumpriu a ordem, e Hatasu, abrindo o cofrezinho, retirou um colar de incalculável valor, trabalhado em estilo diferente do das jóias egípcias.
Era uma grande fita de ouro incrustada de rubis e ornada em baixo de ampla franja de pérolas.
A rainha contemplou por instantes a jóia, e, depois, guardando-a de novo, entregou a caixeta a Satati.
— Entrega isto a Neith, e possa ela sentir-se tão feliz quanto eu ao usá-la pela primeira vez!
No dia imediato, a maior animação reinava desde cedo no palácio do príncipe Sargon.
Este, alegre e bem disposto, como jamais fora visto, superintendia pessoalmente os aprestos da festa.
Por toda parte, eram pregadas tapeçarias, estendiam-se esteiras, pendiam-se guirlandas e bandeirolas; no terraço, e bem assim na sala contígua, preparavam-se refrigerantes em preciosas baixelas.
A chegada de Keniamun veio afastar Sargon da sua azáfama.
— Agradecido por teres vindo — disse, saudando o oficial e levando-o para o quarto de dormir.
— Recebi as tabuinhas ao regressar do serviço, e vim correndo, curioso de saber o que tens a dizer-me.
Mas, que festa vai celebrar-se em tua casa, para que tudo esteja assim tumultuado?
— Vais saber, e espero que, apesar da comunicação, não fiques meu inimigo — disse Sargon, erguendo a tapeçaria da entrada do aposento e aproximando Keniamun de vasta mesa sobrecarregada de objectos preciosos.
Olha! Tudo isso te pertence.
O militar recuou surpreso, e o olhar passou, com assombro, pelos pratos, copos, ânforas de ouro e prata, caixeta repleta de jóias e grande bacia cheia, até os bordos, de anéis de ouro.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 25, 2017 8:58 pm

— Tu te divertes comigo, príncipe Sargon — conseguiu dizer afinal.
— Como poderia eu merecer semelhante dádiva da tua parte?
O que vejo aqui representa uma fortuna!
— Oh! tu a terás merecido pelo penoso desgosto que te vou anunciar, e também porque sei que as tuas finanças estão em ruína, e tu desejas casar...
Pois bem!
O que está nesta mesa aplainará as coisas, e mulheres belas não faltam em Tebas.
Apenas, deverás renunciar a Neith.
Eu estou apaixonado por ela, com uma paixão jamais conhecida por mim e que me devora.
Por isso, supliquei a Hatasu que ma concedesse por esposa, e a rainha aquiesceu, e ainda hoje a própria soberana virá trazer-me a noiva.
É para recebê-las que se enfeita o meu palácio.
Keniamun ouviu atónito:
Neith de novo perdida, e com ela o futuro de grandeza e de riqueza que sonhara.
A mesa representava compensação ridícula, comparada a tal fracasso.
Um vermelho, em tom de cobre, lhe invadiu o rosto, e a raiva interior foi tanta, que esqueceu toda a reserva e habitual prudência.
Tu te equivocas, príncipe Sargon — disse em voz sofreada —, e não te posso vender o coração que me pertence, pelo preço que essa mesa representa.
Ontem, pela manhã, Neith assegurou-me seu amor, prometeu ser minha esposa, e deu-me o beijo de noivado.
Se, a teu juízo, uma ordem real supre tudo isso, roga à rainha, uma vez que deu ordem a Neith para casar contigo, que também dê ordem a Neith para que te ame.
Acrescentarei ainda que é covardia trair um homem na boa-fé, e furtar-lhe a mulher que o ama.
Voltou-se arrebatadamente, e saiu, sem prestar ouvido a Sargon, que, rubro de raiva, procurou detê-lo.
No primeiro momento, o príncipe foi presa de intensa cólera; mas, ao reflectir que o oficial lamentaria mais tarde a violência da atitude que assumira, acalmou-se-lhe a raiva.
Ordenou fossem levados à casa do rival os tesouros que lhe doara, e, quando algumas horas mais tarde, o cortejo real, conduzindo Neith, chegou ao palácio, Sargon olvidara de todo a existência do oficial.
Anuviado era o semblante de Hatasu; a saúde do rei seu esposo inspirava-lhe novos temores, e, dominada por graves pensamentos, não prestou atenção à palidez da noiva e ao aspecto de descoroçoada resignação.
Apesar disso, a rainha testemunhou a Sargon amabilíssima benevolência, aceitou os refrigerantes, bebendo à saúde dos noivos, e uniu as mãos de ambos, lembrando ao príncipe que ele era, ante os deuses e ela, o responsável pela felicidade da jovem.
Depois, falando a Neith, disse que, pela obediência e fiel amor, devia fazer a maior ventura do marido.
E, tendo ainda conversado com todos e concedido a cada um palavras de favor, Hatasu regressou à corte, ordenando, porém, a Satati permanecesse junto de Neith e procurasse facilitar aos noivos oportunidade de uma palestra a sós, a fim de travarem melhor conhecimento mútuo.
Depois da retirada da rainha, Sargon, que fervia de impaciência para ficar a sós com a futura esposa, propôs a Neith mostrar-lhe o jardim, e, obtido assentimento, pegou-lhe a mão e a conduziu.
De início, passearam, conversando calmamente, e Neith, que em tudo reparava atenta, não percebeu o rubor intenso que subia ao rosto de Sargon, e bem assim o ardor devorante do olhar que a fixava.
Inopinadamente, ele enlaçou o talhe flexível de Neith, e, comprimindo-a de encontro a si, com ímpeto demasiado, cobriu-lhe de sôfregos beijos as faces e as mãos.
O ataque fora tão insólito, que a moça, tomada de imprevisto, não resistiu.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 25, 2017 8:58 pm

Muda, como que petrificada, ela pensou asfixiar-se de desgosto e de susto, tolhida a respiração, sentindo a semelhança de um ferro em brasa a queimar-lhe os lábios, parecendo-lhe que os dois olhos, faiscantes de selvagem paixão, mergulhados nos seus, eram de animal bravio.
Com débil grito, tentou, em vão, libertar-se do cinturão de ferro que a afivelava a esse peito ofegante; mas, de súbito, a presença de espírito lhe veio, seu delicado corpo se inteiriçou, qual barra de aço, e, repelindo Sargon, desenvencilhou-se com tal energia, que ele recuou alguns passos, desequilibrado, enquanto ela teria caído ao solo, se não houvesse providencialmente esbarrado numa árvore, à qual se apoiou, lábios frementes, mãos estendidas, como para revidar um segundo assalto.
— Que significa isto, Neith?
Detestas-me? — inquiriu Sargon, com palidez rival da sua alva túnica, ferido no orgulho, com o corpo sacudido por nervosos estremecimentos.
Neith passou a mão sobre a fronte banhada de gélido suor.
— Eu te abominarei mais do que execrei Hartatef, se ousares tentar tocar-me de modo igual ao de há pouco — respondeu com a voz reprimida.
Tua paixão desenfreada gela e causa horror.
Desejo suportar tua afeição e desposar-te, mas, deves tratar-me com doçura e reserva, porque mesmo o miserável Hartatef assim o fazia, compreendendo que a mulher não se toma de assalte.
E tu que me pediste à rainha, sem sequer prevenir-me, contenta-te com a minha submissão à ordem da soberana, sem nenhum direito a semelhantes violências.
Sabias que amo outro homem, e, sem escrúpulo, passaste por cima dessa circunstância.
Contenta-te, pois, com a promessa da rainha, que pode mandar-me casar com o príncipe Sargon, porém, jamais que o ame.
E uma vez que fatal destino me separa daquele que meu coração preferiu, pouco importa com quem haja de casar.
Por ti experimento apenas indiferença, e, se não queres que te abomine, guarda-te bem de me atemorizar com excessos de um sentimento ao qual não correspondo.
Cabeça em fogo, respiração arquejante, olhos injectados de sangue, Sargon fixava a jovem, que, cada vez mais calma e mais fremente de orgulho e firme resolução, mostrava-lhe a conduta da futura esposa para com ele.
— Neith, tu me pagarás esta hora! — vociferou, com entonação rouca — e velarei para que teu amor se extinga por falta de objectivo:
destruirei Keniamun, esse verme do chão que ousa intrometer-se no meu caminho.
Quero que me ames, e tu me amarás, apesar de tudo, porque só eu tenho direito a esse sentimento.
Parou sufocado, boca espumando.
Palor cadavérico substituíra o vermelho das faces.
Neith olhava, num misto de horror e compaixão, os traços descompostos do mancebo.
Aproximando-se, pousou-lhe a mão sobre o braço:
— Torna a ti, Sargon.
Não guardo rancor por haveres forçado que eu fosse tua noiva; aceito teu amor, tua proteção, e quero ser uma esposa submissa e devotada.
Apenas não exijas um sentimento que não te posso dar; contenta-te com a minha amizade e sê bom para mim.
Não odeies nem persigas Keniamun, porque é para mim um simples amigo, e nada perco renunciando a ele.
O homem que amo com as forças todas da minha alma está separado de mim por um abismo intransponível, que tu, nem criatura alguma no mundo, jamais saberá quem seja.
Acalma-te, pois, e, se me amas verdadeiramente, sê bom, e não me amedrontes mais, conforme o fizeste há pouco.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 25, 2017 8:59 pm

Sua voz foi ficando alterada, e, apoiando a cabeça no ombro do príncipe, prorrompeu em pranto.
Sargon estremeceu, e, dir-se-ia, despertou de um sonho.
A despeito do abalo moral que vinha de sofrer e atingia o ápice na desolante revelação de Neith, declarando amar um desconhecido; as lágrimas da mulher amada, o contacto da sua cabeleira suavemente perfumada, reagiram sobre o homem, qual um calmante.
Com hesitante gesto, passou o braço em torno da jovem e lhe pousou na fronte os lábios frios e trémulos.
Em seguida, endireitando-se, disse, em voz surda:
— Voltemos ao terraço; os nossos hóspedes esperam-nos.
Neith enxugou os olhos e lhe estendeu a mão.
E, quando reapareceram aos convidados reunidos, ambos haviam reconquistado bastante calma para não despertar atenção.
Sargon procurou os grupos masculinos, dispensando à noiva a atenção protocolar, e, somente quando ela rumou para a liteira, de regresso a casa, teve atitude mais afectuosa, abraçando-a.
Seus olhos, então, emitiram centelhas devorantes que pareciam envolver em chamas a jovem.
Neith, sob a acção de tal olhar, empalideceu; mas, forçando um sorriso, retribuiu o beijo do noivo.
Nenhuma palavra foi proferida por ambas as mulheres em seu retorno.
Ao chegarem, porém, Satati disse, em voz baixa:
— Depois de te despires, afasta as servas, porque desejo falar contigo.
Neith fez sinal de assentimento e, meia hora depois, ambas de novo se encontraram a sós, no dormitório de Neith.
Sentando-se junto à jovem que, em seu comprido e alvo vestuário de noite, se prostrava, pálida e desfigurada, em uma poltrona, Satati pegou-lhe a mão.
— Em primeiro lugar, deixa-me anunciar-te uma boa notícia: todos os nossos apuros financeiros estão solucionados.
A rainha, em lembrança de teu pai, resgatou a múmia e regularizou as dívidas de Pair e de teu irmão.
Sob esse ponto de vista, estamos salvos, mas, outra coisa me inquieta:
as tuas relações com o assírio, cuja paixão violenta pode tornar-se fatal a ti.
Sê prudente, Neith, não lhe mostres tão abertamente tua indiferença, pois ele não é igual a Hartatef, que, apesar dos defeitos, se mostrava indulgente contigo, e te considerava qual uma criança, e por isso não se ofendia por nenhum dos teus caprichos...
argon fará pagar caro teus maus tratos; seu amor desdenhado pode transformar-se em ódio, e, então, esse homem será implacável contigo.
Evita, pois, minha filha, irritá-lo, e, deixa que te diga, temo que o hajas melindrado irremediavelmente.
Quando voltou do jardim, tinha uma expressão estranha, e surpreendi seu olhar fixando-te com rancoroso ódio, que me assustou.
Confessa-me o que ocorreu entre vós.
Malgrado a desconfiança e a inimizade secreta que experimentava por Satati, Neith sentiu que dessa vez ela tinha razão nos conselhos, visivelmente ditados por uma boa intenção.
— Tens razão, Satati — respondeu, suspirando —, mas, receio que teu bom conselho chegue muito tarde.
E narrou a cena desenrolada entre ela e o príncipe no terraço.
— Eis o que é lamentável e difícil de reparar — disse Satati, preocupadamente.
Mas, e não o esqueças jamais: se sobrevier outra cena grave com o príncipe, avisa-me imediatamente, a fim de que eu a comunique a Hatasu.
A rainha te ama e vela por ti, tanto quanto a própria deusa Hator, e nenhum perigo poderá atingir-te se ela o souber; o seu socorro potente seguir-te-á aonde fores, porque secreto laço vos prende.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 25, 2017 8:59 pm

Pensa nisto, Neith, e não traias este segredo.
Depois da retirada dos convivas, Sargon reentrara em casa violentamente agitado.
Arrancando as jóias que o adornavam, afastou os escravos, e, qual tigre enjaulado, caminhou pelo quarto de dormir.
Que terrível desgosto terminara aquela tarde, que esperara fosse uma das mais belas da sua existência!
Tivera a mão da mulher amada, mas, não o seu afecto, e ele, o altaneiro, o desdenhoso que sempre zombara do amor das mulheres, ali estava, por sua vez, desdenhado, repelido por essa moça adorada com insensata paixão.
À lembrança da dureza com que lhe proibira aproximar-se dela, dando curso pleno aos seus sentimentos para com ele; à recordação da repulsa com que se desprendera de seus braços e repelira os beijos, uma tempestade de desespero, de raiva impotente e de sede de vingança desencadeava-se na alma do jovem hiteno.
Esses férvidos sentimentos, trabalhando-o intimamente, provocavam roucos soluços, enquanto mil fantásticos projectos revoluteavam no seu pensamento superexcitado; não admitia ser tolerado, e sim ser correspondido no mesmo grau do seu amor.
Por fim, quebrantado pela tortura moral e pelo esgotamento físico, Sargon atirou-se para o leito e adormeceu num sono pesado e febril.
Ignorando tudo quanto ocorria no exterior, excepção feita de raras notícias que seus guardiães lhe transmitiam, Hartatef continuava vivendo no homizio subterrâneo, que só abandonava à noite, para respirar um pouco da aura fresca das margens do Nilo.
O desencorajamento e a fadiga haviam-se apossado do pobre homem; todos os seus sentimentos estavam amortecidos, e a atmosfera pesada e malsã na qual vivia actuava-lhe de modo desastroso sobre os nervos e a saúde.
Sabia, por informação de Hanofer, que o procuravam encarniçadamente; mas, não lhe disseram que a múmia do velho Mena fora resgatada, nem que Neith contratara casar com Sargon.
Ao saber do chamado à presença de Semnut, Smenkara aterrorizou-se quase a perder os sentidos, e, ao encaminhar-se para a audiência, recordou e ruminou a lembrança da longa série de crimes e acções ilegais acumulados em seu viver, e perguntava a ele próprio, com angústia, qual das infâmias praticadas teria quiçá transpirado e atraído a atenção do poderoso ministro de Hatasu.
Ciente de que se tratava do resgate da múmia, acalmou-se; mas, as severas e ameaçadoras palavras de Semnut, que lhe disse estar ele, Smenkara, sob as vistas da punição, e que, ao primeiro delito, seria enviado ao degredo, deixaram-lhe um peso sobre o coração e uma indefinida inquietude quanto ao futuro.
Certa noite, aproximadamente quinze dias depois, Hanofer e seu marido, tendo terminado de fazer contas dos labores, dispunham-se a dormir, quando reiteradas batidas soaram na porta do domicílio particular.
Espantado e inquieto, Smenkara correu a verificar do que se tratava, a ver quem ousava apresentar-se em hora tão imprópria.
— Abre, ou algo de mau pode acontecer-te por isso — respondeu uma voz imperiosa, ao mesmo tempo que novo golpe soou na porta.
Intimidado, o usurário abriu e deu passagem a um homem de elevada estatura, e tão impenetravelmente envolto numa capa escura, de capuz, que impossível se tornava distinguir algo da fisionomia ou do traje.
Ao constatar que o visitante estava só, Smenkara readquiriu a calma.
— Que me queres tu?
E quem és, para ousares perturbar-me a semelhante hora?
O incógnito, que havia cuidadosamente fechado a porta, voltou-se, e, desembaraçando-se da capa, descobriu um comprido hábito branco e a raspada cabeça de padre.
— Ranseneb! — exclamou Smenkara, recuando, boca escancarada, como se estivesse ante um fantasma.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 25, 2017 8:59 pm

Depois, ajoelhando, beijou o chão, dizendo em seguida:
— Que os deuses bendigam e protejam cada um dos teus passos, grande servidor de Amon, e diz o que te conduz ao meu humilde tecto.
— Ergue-te — disse o sacerdote — e leva-me para um recinto onde eu possa falar, sem risco de ser espionado.
O usurário levantou-se e conduziu Ranseneb à sala contígua, onde Hanofer o acolheu com as maiores demonstrações de humildade e respeito.
— Guia-me aonde está Hartatef, que, eu o sei, se esconde aqui; preciso falar-lhe — disse o padre sem preâmbulo.
Inseguro e assustado, o casal quis negar; mas, Ranseneb prosseguiu, dominando a ambos com acerado olhar.
— Não mintam; Hartatef foi visto; ele, todas as noites, vai respirar nas bordas do Nilo, sob as escoras da velha escada abandonada do bairro estrangeiro; foi observado e seguido.
E nada teria sido tão fácil quanto prendê-lo, lá ou aqui, fazendo cercar vossa baiuca pelos guardas do templo; nós não queremos, porém, a morte de Hartatef.
Leva-me imediatamente à sua presença; e depois aguarda, aqui, que eu haja terminado de lhe falar.
Sem retrucar mais nada, Smenkara e a mulher guiaram Ranseneb ao esconderijo e ajudaram-no a descer a escada de pedra.
— Dá-me a lâmpada e volta para aguardares meu regresso, ou que te chame — disse o padre.
— Senhor, ele está armado e pode crer-se perdido.
Deixai que o previna.
— Seja! Precede-me e diz-lhe que uma pessoa vem falar-lhe — consentiu o sacerdote.
Ao ver seu cúmplice chegar com a luz e ouvindo-o anunciar a vinda de um visitante, Hartatef ergueu-se, sobressaltado, do seu grabato; mas, apercebendo Ranseneb, empalideceu e pegou nervosamente o cabo de uma faca que trazia presa ao cinto.
— Tranquiliza-te; não venho na qualidade de inimigo — disse o padre, sentando-se e fazendo sinal ao agiota para retirar-se — pois não é difícil compreender que conhecer o teu refúgio equivale à tua prisão.
Mas, nestes últimos tempos, soubemos de muitas coisas, e, por isso, o templo não tem necessidade da tua morte, e sim dos teus serviços.
Uma expressão de pasmo incrédulo esboçou-se no emagrecido semblante de Hartatef.
— Em que pode um miserável da minha espécie servir ao mais potente dos deuses, que tão loucamente ofendeu?
— É certo que teu crime seria inaudito, se houvesse germinado em tua alma; mas, nós temos razões para crer que a tua insana paixão por uma bela mulher foi explorada para te forçar a um delito, cuja meta inconfessável era muito diferente daquela a que visavas: o coração versátil de uma adolescente.
Não foi por instigação de Abracro que agiste?
— Sim; prometera-me um filtro infalível — balbuciou Hartatef, enrubescendo até à testa.
O padre sorriu.
— Abracro é uma hitena.
Que valem para ela os deuses do Egipto?
Ela é devotada à rainha, que protege esses impuros, e, versada na magia, quis destruir o animal sagrado, oferta de Tutmés, tirado dos seus rebanhos, e também com isso destruir as probabilidades de Tutmés ascender ao trono.
Com esses intuitos, ela projectou sobre ti um malefício, um “mau-olhado” que obscureceu teu raciocínio; mas, os deuses viram a verdade, e te perdoam.
Já foste bastante punido, perdendo a tua hierarquia social e os haveres, dos quais a rainha ofertou ao templo uma parcela ínfima.
O restante de tuas riquezas, e bem assim o teu novo palácio, ela, a conselho de Semnut, acresceu ao dote de Neith, essa misteriosa filha de Mena, que Hatasu protege e adora, e que acaba de fazer noiva de Sargon, o vencido hiteno, por ela tratado e honorificado no estalão de príncipe egípcio.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Qual um bravio animal ferido, Hartatef saltou quase na ponta dos pés, emitindo um grito rouco, enquanto se apoiava vacilante à parede.
Seus olhos pareciam apagados, e o corpo, flexível e nervoso, tremia como se estivesse sob o jugo de violenta febre maligna.
Neith noiva de Sargon!
E as suas próprias riquezas atiradas às mãos do rival, em quem notara a fulminante paixão por aquela que ele, Hartatef, considerava supremo bem!...
Que catástrofe!
Seus punhos crispados diziam do infernal ciúme e da raiva que lhe calcinavam o coração qual ferro em brasa.
O padre havia observado, com olhar satisfeito, a luta moral do desgraçado; compreendia que o amor ferido forjava-lhe ali um instrumento dócil.
E esperava em silêncio.
Por fim, Hartatef voltou para junto da mesa.
—Nada mais tenho para dar a Amon e à vingança, além da minha vida.
Podem dispor dela — disse ele, passando a mão nos cabelos esparsos.
— Está bem. Senta-te neste escabelo, porque teu estado de saúde é anormal.
Vou dizer-te, em breves palavras, a situação e as ordens que o Sumo Sacerdote te transmite por meu intermédio.
Sabes que o nosso Faraó Hatasu, apesar do espírito com o qual Rá a enriqueceu, está possuída de uma influência impura, ofendendo aos deuses na pessoa dos seus servidores.
A construção do túmulo, contrariando todas as regras sagradas, é reprovável; essa reprodução de monumentos de um povo inferior e vencido constitui uma afronta aos deuses, aos sacerdotes e ao povo do Egipto.
Não contente com isso, e ajudada pelos conselhos do homem que do nada ela elevou ao pináculo das honrarias, ainda acresce acintes.
É assim que entrega o tratamento de Tutmés a Tiglat, o hiteno, retirando aos médicos da casta dos sacerdotes um privilégio que, até aqui, ninguém jamais ousou disputar-lhes.
Ela quererá agora prolongar os dias do marido, que repeliu e detestou desde quando teve de o desposar, porém que é dócil instrumento em suas mãos e serve de escudo contra Tutmés III, que estende ávidas mãos para a herança a que tem direito.
Apesar de tudo, o Faraó morrerá bem depressa, seus dias estão contados, e é nosso dever garantir os direitos desse filho de rei, o qual, por parte de seu avô, o marido da velha Isis, pertence à nossa casta e ao qual inculcamos os sentimentos de piedade mais convenientes a um soberano.
Mas, a rainha prevê tudo isso:
exilou-o em Bouto, e desde que Tutmés veio a Tebas, por ocasião da festa do Nilo (ela o soube), é guardado tão severamente que impossível se torna qualquer aproximação.
A guarnição foi duplicada, escravos estúpidos, funcionários obscuros foram colocados no seu serviço, e Antef, o comandante da fortaleza, é um moço aparentado de Semnut, ladino, vigilante e devotado a Hatasu em corpo e alma.
Nenhum de nós, ou pessoas conhecidas, pode apropinquar-se do príncipe; mas, um servidor instruído, inteligente e hábil, poderá deslizar até junto dele e transmitir-lhe mensagens indispensáveis.
Foi a ti que escolhemos para essa missão.
Bem disfarçado, tu serás posto, na qualidade de escriba, no templo de Ouazit, em Bouto, e ninguém te procurará entre os servidores do deus; Antef não te conhece, e, sem levantar suspeitas, poderás servir de nosso enviado e de intermediário do príncipe.
Servirei fielmente Tutmés, e não recuarei ante nada que ajude a destruir Hatasu, que me roubou a noiva e o património para doá-los ao meu rival — tartamudeou Hartatef, com indizível ríctus de raiva que lhe contraiu a fisionomia.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 25, 2017 9:00 pm

Diz-me somente, sacerdote de Amon, quando e como devo partir, e qual mensagem devo transmitir ao príncipe.
— Comparece amanhã à noite no local onde eras visto, e ali estará um barco tripulado por dois homens, um dos quais, escriba do templo, dir-te-á:
Amon, e tu responderás: Ouazit, e os seguirás.
Conduzir-te-ão a lugar seguro, onde passarás pelas purificações indispensáveis para que possas penetrar em recinto santo.
Depois partirás munido de todas as instruções necessárias.
— Serei pontual e farei remeter um disfarce por Smenkara.
— A propósito: tens confiança no onzenário e na mulher?
Pode contar-se com eles, pagando bem? — interrogou Ranseneb, que se erguera para partir.
— Respondo por ambos.
— Então, faz-lhes compreender que podem angariar boas gratificações, prestando serviços a Amon.
Eles devem sondar sutilmente a opinião da populaça a respeito da construção do túmulo estrangeiro, sobre Semnut, e com referência à situação do pequeno Tutmés após a morte prevista do pai reinante.
Eles devem espalhar, discretamente, o boato de que a rainha desafia os deuses, despreza os conselhos dos sacerdotes, e quer desfazer-se dos dois irmãos para dominar sozinha.
Enfim, não devem perder de vista homens empreendedores, que tenham influência sobre seus semelhantes, a fim de poderem, na ocasião oportuna, pô-los à frente de uma sedição.
— Assim será feito.
O padre saudou com aceno de mão e saiu.
A destruição de todas as suas esperanças fora um terrível golpe para Keniamun.
No primeiro momento, a ira chegara ao auge, e queria tirar sangrenta vingança de Sargon.
Para pensar em tal, à vontade, pedira e obtivera de Chnumhotep licença por alguns dias, e partira para uma pequena propriedade que possuía nos arredores de Tebas.
Mas, à medida que no silêncio e na solitude lhe reveio o sangue-frio, compreendeu que lutar com o príncipe era tão difícil quanto perigoso; que, pobre e dependente de uns e outros, devia curvar a cerviz, e suportar a injustiça, salvo correr o risco de represálias que podiam destruí-lo.
Fazendo coração endurecido, tomou a resolução de esconder a mágoa sofrida; riscar do coração o amor de Neith, porém manter com ela relações de amizade que lhe seriam úteis.
Reentrando em casa, encontrou os ricos presentes que Sargon havia remetido, a despeito da recusa, e, recalcando o desejo de atirar todos aqueles objectos na face do insolente doador, escreveu algumas palavras de agradecimento.
“Guardo a preciosa dádiva — escrevia ele — no grau de lembrança da tua benevolência e por prova de que desculpas as expressões irritadas saídas do meu coração ferido, e jamais por indemnização pela mulher que amo e que me tomaste.
A reflexão fez-me compreender que um pobre oficial, qual eu sou, não pode rivalizar com um ilustre príncipe, e que tens mais direito de possuir Neith, que foi criada, por sua beleza, para ornar um palácio.”
O portador de tal missiva trouxe, para seu espanto, uma resposta do príncipe assim redigida:
“Ainda uma vez Keniamun, confesso que errei em te arrebatar a mulher cujo coração julgas possuir; mas, a paixão faz egoístas.
Vem visitar-me; tenho imperiosa necessidade de te falar.”
Muito intrigado, Keniamun foi no dia seguinte à casa de Sargon, que o recebeu no terraço, seu retiro predilecto.
O jovem hiteno havia emagrecido e estava pálido; seus olhos brilhavam com fulgor febril.
Recebeu Keniamun cordialmente.
E quando o instalou numa cadeira de marfim a seu lado e lhe serviu um copo de vinho, disse, fixando o oficial, com profundo e estranho olhar:
— Quero anunciar-te, Keniamun, uma coisa que adoçará teu pesar e calmará o ciúme inspirado pela minha felicidade.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 25, 2017 9:00 pm

Tu te acreditas amado por Neith, não é verdade?
— Sim; ela mesma mo disse, prometendo desposar-me na manhã do dia em que foste pedi-la à rainha.
— Oh! duplicidade feminina, podem acaso os deuses sondá-la? — disse Sargon, com um riso breve e estridente.
Deixa-me dizer-te, Keniamun, que te equívocas.
Na tarde do nosso noivado, Neith declarou-me não sentir por ti outro sentimento que a amizade, e que lhe é indiferente desposar um outro, “visto que — acrescentou ela — amo de todas as forças da minha alma um homem ao qual não posso pertencer e do qual ninguém jamais saberá o nome.
Não é, pois, Keniamun que me impede de te amar, Sargon!”
O jovem oficial ficou de boca aberta, emudecido de espanto.
Dois pensamentos turbilhonavam em seu cérebro:
Neith não o amava, e Sargon, o noivo, confidenciava-lhe isso...
Por quê? E tinha razão de admirar-se: o sombrio e vingativo assírio não teria decerto confiado ao seu rival o ultraje sofrido, o desprezo do seu amor demonstrado por Neith, se um selvagem desejo de conhecer o mortal preferido pela jovem não houvesse absorvido a sua alma.
Mas, para satisfazer a esse anseio, tinha necessidade de Keniamun, por isso que, taciturno e desconfiado, havia evitado quanto possível a convivência da sociedade, onde se sentia malvisto e desdenhosamente tolerado entre os orgulhosos vencedores e destruidores da sua raça, e que só respeitavam no prisioneiro sem postos, sem pátria, o protegido da rainha.
Tal reserva tornara-o estranho ao movimento da Capital, e da própria Neith ele não sabia nada, ignorando os lugares que frequentava, com quem convivia, e quem lhe poderia merecer a preferência.
Keniamun, que era acolhido em todas as rodas, que conhecia toda a gente, devia ajudá-lo a descobrir esse rival incógnito.
Excitado pela descoberta de haver sido ele também enganado, espicaçado pelo ciúme, o oficial descobriria a verdade, e, então, Sargon encontraria sem demora a oportunidade de destruir silenciosamente o indesejável homem que lhe murava o caminho da felicidade.
Seu amor por Neith aumentara estranhamente depois da penosa cena, durante a qual fora repelido tão cruamente, embora esse amor estivesse mesclado e envenenado de surda raiva, de ardente sede de vingança.
Possuí-la, mesmo contra a vontade dela, e fazê-la pagar, por meio de cruéis humilhações, o que lhe fizera, tal era o pensamento único de Sargon.
Esmaecida a primeira impressão de espanto, Keniamun reflectira, e rapidamente passara em revista todos os mancebos que Neith poderia ter encontrado.
Nenhum, estava certíssimo, era perigoso a seu julgar; mas, subitamente, um novo pensamento o iluminou.
Sem dúvida, alguma explicação houvera entre ambos, e Sargon exigira de Neith a renúncia do amor de Keniamun, e a jovem, ante a fúria e o tigrino ciúme do príncipe, recorrera a esse estratagema, para subtrair o homem amado às perseguições, e talvez ao assassínio.
Um olhar sobre o rosto sombrio de Sargon, a expressão cruel do olhar, o tremor nervoso que trabalhava seus lábios, confirmaram a suposição, que se guardou muito bem de externar.
Erguendo-se, fez pequeno giro no terraço, e veio depois postar-se ante Sargon:
— Devo crer, pois que ouviste da própria boca de Neith, que ela não tem amor por mim...
Pois bem (e franziu os sobrecenhos), eu encontrarei aquele que tão misteriosamente deslizou para o seu coração e saberei que espécie de abismo os separa, salvo se, por uma coqueteria feminina, quis fazer-se mais desejada por ti.
— Teria sido um mau cálculo, porque não sou homem que espere por uma noiva, enquanto ela sonha com um desconhecido.
Mas, deixemos isso. Tenho necessidade de acalmar-me e de distrair-me, e, nessa intenção, peço me conduzas à casa de Tuaá, cuja filha, dizem, é encantadora, e onde se reúne numerosa sociedade.
— Oh! Tuaá sentir-se-á feliz em te acolher em sua casa, e, se isso te convém, eu te apresentarei lá, dentro em pouco.
Tuaá e Nefert dão uma de suas ruidosas festas, e terás a melhor oportunidade de fazer conhecimento com elas e de te divertires.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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