Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Página 4 de 9 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 26, 2017 8:52 pm

IX - NÚPCIAS E LUTO NO EGIPTO

Multas semanas decorreram.
A época fixada pela rainha para o casamento de Neith e Sargon aproximava-se, mas, esse detalhe particular desaparecia na expectativa ansiosa e na subterrânea inquietude excitadas em todo o Egipto pela perspectiva de graves ocorrências .políticas que se preparavam.
A saúde de Tutmés II piorava cada dia e próximo estava o momento em que o débil Faraó, dominado e subjugado por sua real e enérgica esposa, deixaria vago o lugar que ocupava no trono.
Todos pressentiam que a ambiciosa e altiva mulher, em cujas mãos firmes estavam as rédeas do Estado, não desejaria, por segunda vez, partilhar o poder; mas, também se sabia que o jovem exilado Tutmés era sustentado por um grande partido, que se arregimentava entre o clero e os grandes egípcios, sendo que os padres não podiam perdoar a independência de espírito de Hatasu, e os segundos o haver a rainha colocado acima deles um homem, Semnut, saído do anonimato, do nada.
Em compensação, a rainha era muito querida pela gente humilde, à qual a sua administração, sábia e pacífica, assegurava tranquilidade e favorecia o comércio.
Além disso, a sua origem, de filha legítima de mãe que tinha estirpe realenga (e assim o esposo), de honrarias divinas, envolviam-na em uma auréola que constituía poderosa égide.
Contudo, as revoluções, as intrigas palacianas e as lutas fratricidas não eram ignoradas no país, e mais de um coração se confrangia de temores ante o pensamento de cruentos sucessos que poderiam surgir em futuro próximo.
No partido de Tutmés imperavam ódios, porque Hatasu tomava medidas de precaução demonstrativas de perfeito sangue-frio e resolução, as quais tornavam quase impossível qualquer tentativa de apossar-se da pessoa do pretendente, indispensável para provocar uma rebelião, quando da morte de Tutmés II.
A guarnição de Bouto fora duplicada; as tropas etíopes que a compunham estavam sob as ordens de oficiais fiéis; o comandante da praça, Antef, homem vigilante e hábil, velava sobre o príncipe com o cuidado que se dispensa a um prisioneiro; sentinelas guardavam todas as saídas do palácio, e uma escolta numerosa e bem armada acompanhava Tutmés ao passeio permitido.
Somente no templo, onde ia exercer culto aos deuses, podiam os padres, no santuário (no qual à escolta era vedado penetrar), transmitir-lhe notícias de Tebas, conselhos e consolações.
Enquanto esses graves acontecimentos absorviam a atenção da rainha e de todo o Egipto, os dois noivos continuavam vivendo em situação cada vez mais falsa e contrafeita, e a proximidade do casamento despertava no coração de Neith uma ansiedade misturada de desespero.
Sargon, é certo, não lhe dava novo motivo para queixas da violência de sua paixão.
Ao contrário, evitava Isso quanto possível; mas, em tal exagerada reserva, Neith percebia uma recalcada raiva, um áspero desejo de humilhá-la, pela negligência e pelas dissipações a que se entregava ostensivamente.
O outrora taciturno e misantropo jovem transformara-se em assíduo frequentador da casa de Tuaá, cortejando Nefert, a quem inundava de jóias, despendendo ouro a mancheias, e comparecia aos maus sítios de Tebas, de onde, por mais de uma vez, o conduziram inteiramente ébrio.
Ê que ele tentava afogar, em todos os excessos, a fogosa paixão que lhe subjugava o ser, embora inutilmente, porque a imagem da noiva, em toda a auréola da sua pura e senhoril formosura, perseguia-o nos desmandos das orgias e na entorpecência do álcool.
Alternativas de fúria desesperada e de morna apatia reagiam nocivamente em sua saúde e carácter.
Neith estava informada da conduta repreensível do noivo; todavia, jamais lhe esboçava qualquer reprimenda, e acolhia-o, nas raras visitas, com uma calma e indulgente bondade, ignorando que tal benevolência ainda mais irritava Sargon, porque a interpretava no grau de humilhante indiferença.
Certo dia em que Neith se achava em casa de Roant, esta já esposa de Chnumhotep, ali chegou Keniamun.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 26, 2017 8:53 pm

Fixando com interesse e curiosidade a jovem, que raras vezes avistara depois do noivado com o príncipe, constatou que Neith mudara muito naquelas semanas decorridas.
A palidez do rosto emagrecido fazia realçar mais o tamanho dos olhos; mas, a expressão de resignada tristeza espelhada no semblante aveludava-o, emprestando um novo encanto aos seus traços móbiles.
Notando o olhar atento do oficial, Roant suspeitou desejasse ele palestrar a sós com a jovem, e retirou-se, a pretexto de ordens a dar.
Pela primeira vez, depois que lhe comunicara o crime de Hartatef, Keniamun achava-se a sós com a noiva de Sargon.
Curvando-se vivamente para ela, pegou-lhe a mão e disse emocionado:
— É verdade o que me disse o príncipe, amares um desconhecido, e que deixei de ser o teu preferido?
A jovem enrubesceu, e, elidindo a primeira interrogação, contestou, erguendo para ele um húmido olhar:
— Isto não é verdade; tu és muito para mim, Keniamun; um amigo, um irmão, que me inspira tanta simpatia quanto confiança.
De boa-vontade eu teria sido tua esposa; mas, os deuses sem dúvida se opuseram à nossa união, pois, por segunda vez, separaram-nos.
Sê meu amigo; estou tão isolada!
Desconfio dos meus parentes; minha sorte está na vontade de outrem.
Sargon é-me odioso, seu amor inspira-me terror e, eu o pressinto, será fatal para mim.
Sua voz tremeu, e algumas cálidas lágrimas desceram-lhe pelas faces.
Apesar do egoísmo e da vaidade que endureciam o coração de Keniamun, sentiu afectuosa compaixão por essa pobre criança, aparentemente cumulada de todos os favores terrestres, e, em realidade, tão desditosa, vítima de mil intrigas. Sentando-se junto dela, ele a atraiu a si.
— Minha pobre Neith, conta sempre comigo, com devotada amizade.
Não duvido de que ames alguém, mas, por isso, não guardarei ressentimento, porque ninguém é soberano do seu próprio coração, e tua sorte é bem cruel, porque ser esposa de Sargon é pouco invejável.
Deixa-me também agradecer-te a corajosa confissão que fizeste a esse homem, para afastar de mim seu ódio e seu ciúme; aprecio teu sacrifício, e não o esquecerei nunca.
Se tiveres necessidade de um conselho, de um defensor, chama-me e serei por ti de corpo e alma.
Sem responder, Neith apoiou a fronte no ombro do oficial, e pranto copioso jorrou de seus olhos.
Afinal, ela se refez e lhe apertou a mão.
— Agradecida, Keniamun.
Se eu temer um perigo, chamarei por ti.
Agora, deixa-me fazer-te um pedido:
aceita uma lembrança que trouxe para que Roant a fizesse chegar ao teu poder, recordação de mim.
Os deuses conduziram-te aqui, para que eu tivesse a alegria de fazer directamente a entrega.
Ergueu-se e apanhou de sobre um móvel delicada caixinha, ricamente lavrada, na qual se encontravam numerosas jóias de elevado preço.
— Aceita isto, e também o que Roant te enviará de minha parte.
Recebi tantas coisas preciosas da rainha, e também dos haveres de Hartatef, que te desejaria doar uma parte.
Outra rogativa:
jura-me que, se te encontrares algum dia em embaraços, será a mim que recorrerás.
Serei ditosa em acudir a um amigo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 26, 2017 8:53 pm

— Neith — disse Keniamun, seriamente emocionado e atingido pela generosidade da moça — como agradecer-te?
Tu me doas riquezas, mas posso eu aceitá-las?
— De uma irmã e amiga tudo podes aceitar.
Bem desejaria, casando contigo, livrar-te para sempre das mesquinhas preocupações de dinheiro, porque, eu sei, não és rico, e difícil se torna viver preso às exigências da tua condição.
Deixa-me repartir contigo um pouco deste ouro que possuo em tanta abundância.
Olhos umedecidos, o oficial pegou as duas mãos de Neith e as beijou.
— Agradecido, Neith; aceito as tuas dádivas, e, se necessário, o teu auxílio amigo.
Eu perdi em ti a melhor e mais bela das mulheres; estou convencido, porém, de que conservarás para mim um lugar no teu coração, e serei feliz com isso.
Não me recuses o que te vou pedir; deixa que te abrace uma derradeira vez, como se fosse um adeus ao passado, um selo do nosso pacto de amizade.
Sem hesitar, a jovem colocou a mão sobre a espádua do oficial e lhe ofereceu os purpurinos lábios.
Agitado pelos mais diversos sentimentos, Keniamun a estreitou em seus braços e lhe imprimiu na boca um beijo.
Depois, voltando-se bruscamente, quis retirar-se.
— Keniamun! Tu esqueces a caixeta — gritou Neith.
Ele atendeu precipitadamente, e, apoderando-se do pequeno tesouro, sem mais se voltar, correu para fora da casa.
Ficando sozinha, Neith reclinou-se num leito de repouso e cobriu o rosto com as mãos.
Por que — pensava ela com amargor — o destino, que lhe recusava Roma, também lhe arrancava Keniamun, que a amava tão sinceramente e até lhe perdoava o amor a outro homem, contentando-se apenas com a sua amizade, feliz com um cantinho em seu coração?
Ele também a abraçara, e ela não sentira o medo mesclado de horror que lhe causara o beijo escaldante de Sargon, o olhar coruscante como se fosse de fogo.
Depois, o pensamento voou para o homem que adorava e pertencia a essa Noferura, que não o fazia venturoso.
Ódio, ciúme e desespero invadiram o coração apaixonado de Neith, e com tal violência, que ela desatou em soluços, dizendo quase em voz alta:
— Roma! Roma!
Porque te vi eu?
Um suspiro abafado atingiu seu ouvido nesse instante, e a fez estremecer.
Ergueu o busto e emitiu um grito: a dois passos, apoiado a uma coluneta, estava, de pé, o jovem sacerdote de Hator.
Talvez devido à canícula, não vestia o comprido hábito branco, e sim o traje costumeiro dos nobres egípcios:
túnica branca, curta, um colar de duplas voltas e o gorro.
Imóvel, qual bela estátua, ele fixava Neith com estranho olhar sem parecer apercebido da agitação da moça, que, surpreendida de improviso, tremia de pejo e de receio de haver traído o segredo do coração ante o próprio que ela amava.
Parecia-lhe que Roma deveria ler o recôndito de sua alma e rir talvez da jovem que lhe suspirava o nome tão imprudentemente.
A esta nova suposição, todo o sangue lhe afluiu ao rosto; ergueu-se como de um salto, e, passando qual flecha por diante de Roma, precipitou-se para o jardim, no intuito de refugiar-se ali, até que o sacerdote se retirasse, e também porque, nesse momento, a figura do homem amado se lhe tornara odiosa.
Mas, antes que pudesse atingir a sombra espessa dos sicómoros, sentiu que alguém lhe pegava um braço e a detinha.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 26, 2017 8:53 pm

— Por que me foges, Neith?
Acalma-te — disse Roma, fixando-a num fulgente olhar.
A emoção da jovem fora, porém, demasiado forte para os nervos superexcitados pelos desgostos dos últimos tempos, e ainda pela recente entrevista com o oficial; a cabeça tonteou, os ouvidos zumbiram e pareceu que tombava rodopiando em um sorvedouro escuro.
Quando reabriu os olhos, estava deitada num banco de pedra encoberto à sombra de um caniçal, com a cabeça no peito do sacerdote, cuja respiração agitada ela percebia.
Constatando que recuperara os sentidos, fê-la sentar-se, ajudando-a com um braço a equilibrar-se.
— Neith — disse ele com bondade —, tu estás enferma, tua agitação, sem motivo, o prova; precisas acalmar-te, olhar mais tranquilamente o futuro, que te reserva felicidade.
Disseste que Hartatef te era abominável, e os deuses te livraram dele, e te deram para esposo um homem moço, belo, que te ama e saberá fazer-te venturosa.
Por que essas lágrimas?
Elas provam que existe uma dissonância em tua alma, e que não amas nenhum desses seres a quem podes desposar legitimamente.
Mas, acredita-me, Neith, desejar o que não é possível obter não dá felicidade; só o cumprimento dos teus deveres preencherá o vácuo de tua alma.
Não olhes à direita e à esquerda; trata de retribuir o afecto do teu esposo, e a paz voltará ao teu espírito; o teu viver de casada dar-te-á novas alegrias, júbilos sagrados, quando fores mãe, e sobre o pequeno ser que os Imortais te confiarão concentrarás todos os teus pensamentos, e sorrirás então dos teus devaneios infantis.
Neith levantou-se, com as faces escarlates.
— Não fales mais assim, Roma — interrompeu ela com vivacidade.
O que dizes respira a plácida virtude, a severa sabedoria da divindade a quem serves; mas, tu não entendes nada dos sentimentos apaixonados da alma.
Tu me falas de deveres...
Acaso o coração cogita de deveres, quando está subjugado pela imagem de um ser único?
Meu coração não é o vácuo que imaginas, ele está cheio pelo homem que amo unicamente e...
Uma onda de sangue subiu às faces do moço sacerdote, e o seu sereno olhar teve uma rápida e viva flama, ao contemplar os traços transfigurados de Neith, a qual estava longe de supor quanto se tornara irresistível, na perturbação apaixonada que lhe arrebatara o ser e quase arrancara a confissão do seu amor.
— Neith! Neith! — sussurrou o moço, em voz vacilante, pegando ambas as mãos da jovem.
Não digas mais, porque dirias demasiado, e o lamentarias.
Não tenho direito de conhecer os mistérios do teu coração; sei que o estado em que te encontras faz esquecer a quem falas, e mais tarde fugirias de mim, qual o fizeste há pouco.
Como que despertando em sobressalto, a moça interrompeu-se, mas, não procurou fugir.
Invencível sentimento de vergonha e desespero lhe prendia os pés ao chão: as palavras de Roma deram-lhe a convicção de que, preso à esposa, ele a fizera calar em tempo a confissão de amor, para evitar a humilhante resposta
“Não te posso amar!”
Se Neith houvesse visto o olhar cheio de dor e de paixão que ele lhe fixara sobre a cabeça abaixada, sentiria lenitivo; mas, curvada, sem ousar erguer os olhos, nada viu.
Procurando falar mais próximo, o sacerdote murmurou:
— Neith, compreendo tudo quanto oprime teu coração, e ninguém mais ardentemente do que o padre do templo de Hator rogará aos deuses pelo teu repouso e ventura.
Neith não se moveu, nem falou.
E, ao ouvir o ruído dos passos de Roma, que se distanciava, deixou-se cair sobre o banco e desatou em pranto.
— Pelos deuses Rá e Hator, que fazes aqui sozinha a chorar? — perguntou instantes depois a voz argentina de Roant.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 26, 2017 8:53 pm

Pensei que estavas com Keniamun, mas, ao perceber que se ausentara, vim procurar-te, e encontrei Roma que fugia com singular semblante deste bosquezinho onde venho encontrar-te em soluços...
Tiveste alguma rusga com ele?
Neith, soerguendo-se, enlaçou o pescoço da amiga, que se curvou para ela, e chorou ainda mais.
— Vamos, sossega, e confessa o que aconteceu — disse Roant — atraindo-a carinhosamente ao seio.
Sabes que te amo como se fosses minha irmã caçula e que tudo quanto me disseres será sepultado em meu coração.
Sê franca, sem restrições. Tiveste algum desentendimento com Keniamun, ou meu irmão te ofendeu?
Noto que mudou muito desde há algum tempo, e, de teu lado, que evitas falar a seu respeito, e agora me pareceu transtornado. Que há entre ambos?
— Oh! Roant, que me importa Keniamun?
Quanto a teu irmão, é um homem tão puro, tão bom, que, longe de ofender, sofre com os aflitos.
Sua agitação foi causada por minha terrível imprudência.
Só me faltou confessar-lhe o que tenho ocultado mesmo a ti: amo Roma apaixonadamente!
E ele, tão virtuoso e tão severo, estava sem dúvida perturbado com a minha falta de compostura.
Mas, deixa-me dizer tudo.
E narrou rapidamente o acontecido.
O formoso semblante de Roant pareceu por instantes petrificado de espanto; a consequência, porém, foi que, em uma franca e cordial risada, deu dois grandes beijos nas faces de Neith.
— Tu amas o meu bravo Roma!
Eis que te fazes ainda mais querida do meu coração.
Tranquiliza-te, porém, minha pequena.
Não foi uma confissão tão acariciadora que o perturbou, e darei um dedo a cortar se, fugindo, ele pensou na tua dignidade conforme supões.
Em verdade, arreceou-se da própria debilidade, porque tu és muito linda para que ele fique insensível, principalmente sabendo-se amado.
Asseguro-te que meu irmão é feito da mesma pasta frágil de todos os homens, sujeito a um amor proibido e a todos os enlevos.
Só o seu olhar espelha tanta virtude!
Além do mais, a detestável esposa tem sobre ele o peso de um rochedo.
— E por que casou com ela?
— Ah! Isso foi uma loucura de juventude, o que confirma quanto acabo de te dizer.
Roma, e assim todos os homens, pode deixar-se prender a tolices irreparáveis, que deplora em seguida.
Por isso, ei-lo ligado a essa mulher, inferior a ele pelo nascimento, à qual não mais ama, e nem mesmo pode estimar, porque Noferura é de mui suspeita virtude e de carácter Insuportável.
— Mas, uma vez que ele a amou — falou Neith suspirando — diz-me, Roant, ela é muito mais bonita do que eu?
— Não, não, tu és, sem paralelo, mais formosa, e ela não tem graça.
Acalma-te, pois, porque tirarei a limpo esse assunto, e arrancarei de Roma a confissão da verdade.
Se ele estiver convencido de que te ama, eu te direi, podes ficar certa disso.
— Não posso crer que me ame — ciciou Neith.
Não quis escutar a minha confissão; chamou minha atenção para mim própria.
Tê-lo-ia feito, se partilhasse dos meus sentimentos?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 26, 2017 8:54 pm

— Para mim, isso prova somente quanto medo teve de si mesmo.
Mas, vem, minha querida.
Chnumhotep não tarda a chegar, e devo fiscalizar os preparativos do jantar.
Caminhando, Neith insistiu em dizer:
— Ah! quanto desejaria ver Noferura!
Parece de propósito que eu não a encontre nunca em tua casa.
— É verdade; sempre vos desencontrais; mas, caso o desejes, convidá-la-ei expressamente.
Uma serviçal, vindo a correr, anunciou em voz alta:
— Senhora, senhora, a nobre Noferura está aí, e pede para te falar um instante.
Roant despediu a serva e levou Neith, após si.
— Eis realizado teu desejo — disse a rir.
Mas, que pretenderá de mim, a esta hora?
Chegando próximo do terraço, encontraram Noferura que caminhava em sua direcção.
A recém-vinda exibia grande “toilette”, sobrecarregada de anéis e braceletes; um grande diadema incrustado de rubis prendia-lhe os negros cabelos; acima da testa balançava uma flor de lótus, e na mão trazia um ramalhete dessas flores.
Sem prestar atenção às saudações de Roant, os olhos brilhantes de Noferura firmaram-se curiosos em Neith, que, pálida e perturbada, contemplava a mulher do homem amado.
— Sê bem-vinda, Noferura, e, antes que nos sentemos, deixa-me apresentar-te a minha melhor amiga, Neith, a filha do nobre Mena, noiva do príncipe Sargon.
— Ah! É um feliz acaso, que agradeço aos deuses.
Desde há muito desejava conhecer a bela noiva protegida da nossa rainha.
As três mulheres instalaram-se no terraço, e Noferura encetou a explicação do assunto que a trouxera inopinadamente à casa da cunhada, originado de certa mensagem recebida de parenta residente em Mênfis.
Tratava-se de grave questão em favor da qual pedia a intervenção protectora de Chnumhotep.
Sem interferir na conversação, Neith acompanhava, com uma curiosidade ávida e ciumenta, cada movimento da rival.
A voz rumorosa de Noferura, seus gestos bruscos e seu atrevido e provocante olhar desagradaram soberanamente à jovem.
Apesar disso, reconheceu que era bastante atraente para reconquistar o amor marital, mesmo que o “tivesse perdido”.
Um ciúme rancoroso circundou o coração de Neith, infligindo-lhe o mais rude sofrimento que até então experimentava.
Roma estreitava essa mulher nos braços; esses vermelhos lábios ele os beijava apaixonadamente; a toda hora ela podia estar junto dele, ouvir-lhe a voz, fundir seu olhar nos olhos tão doces, tão fascinadores do moço sacerdote...
Por momentos, Neith fechou as pálpebras; dir-se-ia que se asfixiava.
— Não queres ficar para a refeição?
Chnumhotep não deve demorar, e tu lhe darias de viva voz o teu assunto — disse Roant.
— Não, não; teu pedido terá mais prestígio para ele.
Além disso, passei aqui de relance, porque vou à casa de Tuaá, onde há festa hoje, e nessas festas a gente se diverte sempre deliciosamente.
Uma expressão de espanto e desprezo esboçou-se nítida no semblante de Roant.
— Tu vais às festas de Tuaá, mulher tão mal afamada quanto a filha, Nefert, e que são evitadas por todas as da nossa condição social? Admiro-me de que Roma te permita tal convivência.
Noferura rugiu de cólera.
— E eu me admiro de que calunies duas mulheres tão amáveis — gritou ela com esganiçado acento e agitando as mãos com a violência que lhe era peculiar.
Tuaá é uma nobre viúva, rica e independente, que pode receber quem quiser, e somente a inveja espalha que suas festas e sua convivência são mal afamadas.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 26, 2017 8:54 pm

Quanto a Nefert, evitam-na por ciúme de sua beleza, com a qual bem poucas das nossas podem rivalizar.
Mas, as mulheres que não têm a temer o paralelo, frequentam-lhe a casa com prazer.
— Principalmente se elas não se arreceiam da sua reputação, e pouco se inquietam com a opinião do marido — intercalou Roant, em tom mordaz.
— Roma não tem de me proibir, e não lhe peço licença para sair — respondeu Noferura, com os olhos faiscantes.
Digo-te francamente que estou farta do seu ciúme, das suas suspeitas perpétuas; não posso ficar trancada eternamente em casa para ouvir censuras e suportar cenas de zelos ferozes.
Amo Roma e aprecio o amor profundo que me dedica, mas, em tudo é mister haver limite, e o amor deve tê-los.
E agora, adeus. Tuaá me espera.
Branca até nos lábios, sacudida por estremecimentos nervosos, Neith escutara a explosão final de Noferura, que, ao despedir-se, firmou olhos perscrutadores e admirados no aspecto desfigurado da jovem. Logo que a cunhada saiu, Roant, num tom meio indulgente, meio risonho, exclamou:
— Minha pobre Neith, não te impressiones assim com as mentiras espalhadas por esta imprudente.
Há muito tempo que Roma não se importa com ela.
Essa mulher o desonra, faz ciumadas, e...
A chegada de Chnumhotep interrompeu a conversação, e, apesar dos rogos do casal, Neith despediu-se Imediatamente.
Sufocava. Um sentimento desconhecido, porém atroz, atenazava-lhe o coração, e ela ansiava por estar sozinha, para dar livre expansão aos pensamentos tumultuosos.
Ante seu espírito turbilhonava Roma, falando de amor a Noferura, e uma fúria dominava-a a tal ponto que, se o moço sacerdote lhe houvesse chegado ao alcance da mão, tê-lo-Ia morto a sangue-frio.
Nessa noite a triste jovem não dormiu um minuto sequer.
— Essa pobre Neith parece-se bem pouco a uma noiva ditosa — disse o chefe das guardas, dirigindo-se ao quarto para desembaraçar-se das armas.
Pelo menos, Roant, tu apresentavas outra fisionomia, dois dias antes do nosso casamento.
Hoje, notadamente, Neith estava de todo alquebrada.
— Sim, e eu me espanto de que a rainha, que a ama tanto, seja cega ao horror que esta união infunde a Neith — respondeu Roant, pegando as armas das mãos do marido para pô-las sobre um móvel.
— Hum! isso não me admira tanto, a mim, porque vejo as ocupações da rainha e os cuidados que a assoberbam — comentou ele em voz baixa.
O Faraó está nas últimas, com as horas contadas, o que é bastante para o momento, sem permitir reparar em eventualidades futuras.
— Acreditas que os padres conseguirão levar ao trono o pequeno Tutmés?
O chefe das guardas fez um movimento de ombros.
— É difícil de dizer.
Sabes que o clero é uma potência, mas, em todo o caso, a eles cabe o jogo mais difícil do que o por ocasião da morte de Tutmés I, quando forçaram Hatasu a casar com o irmão, se bem que o próprio rei a declarou herdeira da coroa.
Desta vez, porém, eles não têm o pretendente ao seu alcance, pois o príncipe está bem guardado em Bouto, e Hatasu adoptou medidas para abafar qualquer revolta ostensiva.
Existe um exército em Tebas, e provavelmente ninguém tugirá.
É compreensível que, no meio de tantas preocupações, a soberana não preste a devida atenção aos caprichos de Neith.
— Neith não tem tristeza de caprichos.
Ah! Chnumhotep, se eu pudesse confiar na tua absoluta discrição!...
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 26, 2017 8:54 pm

Se me juras manter tumular segredo, eu te revelarei alguma coisa bem comovedora.
Intrigado com a agitação da esposa, Chnumhotep fez as mais completas promessas, e jurou discrição de sepulcro fechado.
Completamente tranquila, então, Roant transmitiu ao marido a confissão da jovem, confissão que a abafava.
O bom Chnumhotep deplorou sinceramente o mal-aventurado amor da moça, e o não menos desastrado consórcio de Roma; mas, os seus pensamentos não foram muito para além.
A fome era realidade, e ele ansiava sentar-se à mesa do almoço.
Roant, a seu turno, era trabalhada por um único pensamento:
remediar, de qualquer modo, a desdita de sua amiga, distanciar, o mais possível, aquele ciúme que iria destruir o seu repouso.
Feliz, amada, frívola, jamais contrariada, não admitia que se houvesse de renunciar à felicidade, e achava que todos os meios de atingir a meta de seus desejos eram permitidos e escusáveis.
Assim pensando, não conseguiu conciliar o sono, nessa noite, e o resultado de suas reflexões foi que, se Roma correspondesse ao amor de Neith, o que era mais do que provável, tudo poderia arranjar-se felizmente.
A dificuldade inicial era arrancar a verdade a esse hipócrita, e depois fazê-lo confessar seus sentimentos à própria Neith, calmante para os ciúmes da jovem.
Em seguida, ela, a irmã, a amiga, velaria por essa felicidade e lhes proporcionaria encontros, o que compensaria a esposa de Sargon dos tédios de sua união forçada, sem excitar suspeitas ao príncipe.
A título de preliminares de tão grandes projectos, escreveu, logo ao amanhecer, um recado a Roma, convidando-o afectuosamente a vir vê-la, tão depressa terminasse os afazeres matinais no templo, por isso que tinha assunto da mais alta importância para lhe falar.
Jamais teve Roant tanto açodamento na saída do esposo, quanto naquele dia, porque desejava estar a sós com o irmão.
E quando este chegou, instalaram-se imediatamente no aposento de vestir; mas, ao pensamento de que podiam ser escutados pelos ouvidos indiscretos que os rodeavam, levou para o terraço o irmão, sombrio e absorto, que a seguiu indiferente.
Apenas se haviam sentado, um jardineiro que passava despertou novos temores em Roant.
— Não, aqui não poderemos conversar! — exclamou, saltando da cadeira.
E, pegando a mão do sacerdote, foram para um pavilhão, isolado, seu retiro favorito.
— Trata de conspiração contra Hatasu, o assunto que me vais confiar? — inquiriu Roma, de modo irónico.
Sem responder à pergunta, a irmã apoiou os cotovelos na mesa de pedra, e examinou, com escrutador olhar, o semblante pálido, anuviado e abatido de Roma.
— Ah! Ah! também tu estás pálido, tristonho e desencorajado?
— Espero que o teu chamado não tenha sido para examinar a frescura da minha tez — disse o irmão, irritado.
Vamos ao que importa: que tens a dizer-me?
Que tu és tolo, mas “tolo” de fazer pena — respondeu Roant em tom de comiseração.
Indefinível surpresa revelou-se rápida na expressiva fisionomia do padre; depois, enrubesceu fortemente.
— Tua opinião não é lisonjeira, e pergunto a mim mesmo se valeu sacrificar a minha manhã para ouvir de ti coisa tão banal.
Talvez me digas:
em que fiz jus a esta expansão de admiração fraternal?
— Sem dúvida! Não é ser tolo impedir a confissão que te ia fazer Neith?
Por que agiste assim?
Foi por não corresponderes ao seu amor, ou por que tiveste medo de ti mesmo?
Roma ergueu-se bruscamente, com os olhos fulgurando.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 26, 2017 8:54 pm

— Que me dizes? Teria ela a imprudência de te confiar sua loucura?
— Loucura! Naturalmente é loucura amar um néscio, sem coração, igual a ti.
A pobre criança é duplamente humilhada por sua imprudência, porque, pela tua maneira de falar, ela supõe haver merecido teu desprezo, tua censura por sua falta de dignidade...
Que sei eu!
E tu tratas assim «essa inditosa adolescente, tão linda e tão desventurada! Verdadeiramente, Roma, creio que estás cego...
Não, não tentes fugir, antes de me responderes claramente — exclamou Roant, agarrando o braço do irmão que se havia voltado, com perturbação e enrubescido.
Energicamente ela o fez sentar-se de novo, e, tomando-lhe a cabeça entre as mãos, imergiu seu sorridente e astuto olhar nos olhos perturbados do Irmão.
Depois, abraçando-o, acrescentou:
— Vamos, sê franco; tu sabes quanto te amo, meu irmão!
— Ah! Roant, que me pedes tu? — suspirou o jovem padre.
— E a que conduzirá a confissão do meu desvario?
É verdade que amo Neith, desde quando, pela primeira vez, meu olhar mergulhou nos seus olhos límpidos; noite e dia, sua radiosa Imagem me persegue; o ciúme, o desejo de ser amado por ela me devoram; mas, eu, casado, ela, pela vontade da rainha, deverá em breves dias ser esposa de Sargon.
Posso eu, se homem honesto, sacerdote de Hator, encorajar sentimentos proibidos e, pela confissão do meu amor, arrebatá-la completamente a seus deveres?
Não é melhor deixar que acredite na minha reprovação aos seus sentimentos, que não representa coisa alguma para mim, e que, ferida no amor próprio e no orgulho, me esqueça e se torne esposa amante e feliz com o homem que os deuses lhe destinaram?
Emocionada, vencida, Roant, escutando o irmão, seguira a luta íntima entre o dever e a paixão que se espelhava no belo semblante do irmão.
— Neith tem razão; tu és melhor do que todos os outros homens — murmurou ela, encostando a face no rosto do irmão.
Mas, Roma, tua virtude torna-se dura e cruel para a minha pobre amiga.
O consórcio que a espera gela-a de terror e só lhe inspira repulsa, porque o amor de Sargon é Impetuoso e destruidor, qual o de um espírito impuro.
O afecto de Neith por ti e o ciúme arrebatam-lhe o pouco de seu repouso, e tem multa necessidade de ser consolada e fortalecida.
Não será teu dever calmar esses sentimentos tempestuosos, destruir o seu ciúme, assegurando-lhe que a amas e estimas?
Que melhor palavra lhe saberá restituir a paz, e guiá-la na estrada dos deveres?
Corando e empalidecendo, respiração penosa, o moço sacerdote escutara os especiosos argumentos da irmã.
— Tu me tentas, Roant, e me propões o Impossível.
Eu não tenho ocasião alguma de avistar Neith sem testemunhas.
— Previ tudo, e, se obedeceres a meu conselho, tu verás Neith no dia do casamento, durante a festa.
Conheço perfeitamente a disposição do palácio de Sargon que, deves lembrar, já foi propriedade de Semnut, antes que a rainha o doasse ao príncipe.
Muito bem. No término do jardim que margeia o Nilo há um pavilhão isolado, acessível pelo lado do rio por uma escada.
Quando for noite, tu virás em barco, rumo desse pavilhão, sob o disfarce de pescador ou de operário.
Eu trarei Neith e tereis um colóquio de meia hora.
Tu a acalmarás com a confissão do teu amor, e lhe farás compreender que se contente com essa certeza e viva para os seus futuros deveres.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 26, 2017 8:54 pm

— Não, não; é uma insânia! — replicou.
Mas, Roant era engenhosa.
Pouco a pouco, demoliu os escrúpulos e as objecções de irmão, excitando habilidosamente todos os seus sentimentos.
E, por derradeiro argumento, descreveu a tortura moral experimentada por Neith na ocasião em que Noferura se gabou do amor desenfreado de Roma e das cenas de ciúme que ele lhe fazia.
— Noferura ousou isso? — explodiu o padre, erguendo-se, faces afogueadas.
Ela teve o desplante de afirmar que a amo, quando sofro com desgosto, sob meu tecto, a presença dessa desonesta que me trai?
Tens razão, Roant, devo reabilitar-me perante Neith de semelhante acusação; não quero que suponha seja ela, a pura e nobre criança, preferida por essa criatura degradada.
Prepara tudo, Roant.
Na noite das núpcias eu estarei no pavilhão.
— Felicito-te pela sábia resolução — disse a jovem senhora com alegria.
Mas, deves fazer ainda uma coisa: proibir Noferura de frequentar a casa de Tuaá e Nefert, pois ela encontrará ali um belo campo para as infidelidades, e, em qualquer caso, “tua mulher” deve evitar as reuniões mal afamadas.
— Eu a proibirei — respondeu distraidamente —, não hoje, porém, porque vou regressar ao templo e ali permanecerei até depois de amanhã.
A certeza de ser amado, e a impossibilidade de impedir que a mulher adorada caia em poder de Sargon perturbam minha alma.
O consórcio de Sargon e Neith foi celebrado quase com as pompas de um matrimónio da casta realenga.
Todos os príncipes, dignitários e grandes senhores de Tebas reuniram-se no palácio dos nubentes, e a própria rainha compareceu, apesar das preocupações e da repugnância de separar-se do Faraó moribundo.
De resto, Hatasu não deixava transparecer vestígios de íntima inquietude, e, com a graça habitual, saudou os assistentes, felicitou o jovem casal, tomou lugar na poltrona elevada que fora especialmente posta para ela na mesa do festim.
Apenas, não reparou na palidez e no abatimento de Neith, nem na extraordinária agitação de Sargon, cujo olhar fogoso não se desprendia da esposa, que, olhos baixos, parecia não se aperceber da presença dele.
Uma expressão cada vez mais dura e amarga contraía os lábios do príncipe; profundo suspiro estufou a túnica de púrpura fenícia que vestia e fez tinir ligeiramente os cordões de pedrarias que lhe ornavam o pescoço.
Dominando-se a custo, ergueu a taça para beber à saúde e ao reinado glorioso da real protectora.
Terminado o banquete, Hatasu regressou ao palácio com o séquito, no qual figuravam Semnut e Chnumhotep; mas, a ausência da soberana deu novo surto à alegria dos convidados, libertos da etiqueta que sua presença impunha.
A animação foi sempre crescente, e os copos sempre cheios começavam a escaldar os cérebros.
A multidão palradora, animada, álacre, dispersou-se pelas salas, pelo vasto terraço e pelos jardins.
Sargon, rodeado pelos convivas, teve forçosamente de cumprir com amabilidade os deveres de dono da casa; Satati ocupava-se com as senhoras, disfarçando, com a sua polida animação, a tristeza apática de Neith.
A noite descera rapidamente, sem crepúsculo, como sói acontecer nesse país, e tudo era iluminado com tigelinhas, tochas e alcatrão aceso em vasos, que evolava sua claridade avermelhada sobre a espessa verdura dos bosquetes.
Roant, que espreitava o momento com impaciência, achou oportunidade, conversando com a noiva, de conduzi-la por uma aleia mais escura.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 26, 2017 8:55 pm

— Depressa, segue-me — ciciou ela — dirigindo-se quase a correr para o pavilhão.
Embora altamente intrigada por essa carreira misteriosa, Neith acompanhou-a, perguntando aonde a conduzia.
Bem depressa chegaram à pequena casa, que era constituída apenas por uma câmara e terraço comunicando para o Nilo, e que fora assim feita por Semnut para refúgio onde pudesse trabalhar tranquilamente.
— Espera um instante aqui! — disse Roant penetrando no pavilhão.
A pequena sala estava mobiliada com algumas cadeiras e mesa, e era iluminada fracamente por uma tocha fixa à parede.
Não havia ninguém ali, mas, logo que Roant chegou ao terraço, um homem, em vestimenta de pescador, destacou-se da sombra.
— És tu, Roma? — indagou ela.
— Sim.
— Então, vem; trouxe Neith.
— Onde estás, Roant?
Tenho medo aqui — dizia Neith nesse mesmo instante.
Sem responder, levou a amiga para o interior do pavilhão, murmurando-lhe:
Permanece aqui, até que eu te venha buscar.
E, voltando costas, saiu a correr.
Atónita, Neith circunvagou um olhar assustado em torno de si; mas, ao avistar Roma, que reconheceu imediatamente sob o disfarce, emitiu abafado grito e cobriu o rosto com as mãos.
— Não te atemorizes de mim, minha bem-amada.
Vim aqui te dizer que és para mim muito mais do que a própria vida — falou ele, abraçando-a amorosamente.
Duvidando do testemunho dos sentidos, Neith ergueu os olhos, e, encontrando os apaixonados que buscavam os seus, inaudita felicidade invadiu-lhe a alma; abraçou-se ao pescoço do jovem, e uniram os lábios num grande, amoroso beijo.
— Oh! Agora posso tudo suportar — murmurou ela.
Sei que me amas, não me desprezas, nem me condenas por meu amor, e que Noferura nada significa em teu viver.
— Neith, eu não te amo bastante como devia amar, pois estou aqui contra a voz do dever e da consciência — disse com um misto de ventura e de amargor na voz.
Também o Destino que me puniu rudemente, porque me foste dada por ele e por ele mesmo roubada no mesmo Instante, além de condenar-me a todas as torturas do ciúme, sabendo que estás entregue ao amor legítimo de Sargon.
— Não te atormentes por isso — respondeu Neith, toda radiosa.
Suportarei Sargon, mas, ele não terá a mínima parcela do meu coração, porque pensarei sempre em ti, e nos encontraremos em casa de Roant e no templo.
Tu me confortarás com as tuas palavras de amor e me fortalecerás com os teus conselhos; em todos os perigos poderei chamar por ti em meu socorro; não terei mais ciúmes — terminou ela, abraçando-se ao jovem.
Roma contemplou-a com adoração.
Que linda estava nas vestes de noiva!
As jóias de que estava repleta fulgiam na débil claridade, emitindo prismas multicores, e o resplendor dos seus negros olhos rivalizavam com o das pedrarias.
— Tu não terás ciúmes, criança egoísta, e eu? — disse ele, com um suspiro.
— É verdade; e como suportarei arrancar-me de teus braços para sofrer o amor de Sargon? — exclamou, com a súbita exaltação do desespero.
Mata-me, Roma; depois desta hora de ventura, não é preferível a morte a viver com um homem que me é odioso?
E assim não sofrerás mais.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 26, 2017 8:55 pm

As lágrimas impediram-na de prosseguir.
— Nunca! Deves viver, Neith, porque a tua é a minha vida, minha salvação, minha esperança.
E quem sabe se os deuses terão piedade de nós e nos unirão um dia?
Esperando, sustentar-nos-emos reciprocamente.
Nesse minuto, lúgubre clamor fez-se ouvir, vindo do palácio, espalhando-se pelo rio, em gritos agudos.
— Que será isso? — disse o padre voltando-se, inquieto.
E falava ainda, quando Roant irrompeu no pavilhão, lívida e trémula.
— Um enviado de Chnumhotep veio trazer a notícia da morte do Faraó.
Toda a festa terminou; o luto cobre o Egipto.
Apressa-te em regressar ao templo, Roma, e tu, Neith, vem, para que não notem a tua ausência; os convidados vão retirar-se.
Roma deu um derradeiro beijo em Neith e retornou para o barco.
As duas jovens mulheres rumaram, correndo, para o palácio, onde a confusão substituíra a alegria dos convivas; com lamentações e gritos, senhores e escravos arrancavam as vestes, punham terra na testa e batiam no peito, deplorando altamente o decesso do Faraó.
Quando Neith, um tanto ofegante, se reuniu ao marido, este, de pé, em sala próxima à de saída, despedia-se dos convidados, que se dispersavam rapidamente.
Com expressão sombria e suspeitosa, olhou de alto a baixo a esposa, cujo rosto, agora carminado, parecia mostrar-se iluminado por íntima felicidade, e mudara totalmente de expressão.
Logo depois, os nubentes ficaram a sós, e, alguns instantes, permaneceram de pé, silenciosos e perturbados.
— O luto nacional perturbou nossa festa, triste presságio para o futuro — disse afinal Sargon.
Os convidados fugiram, escravos e servos estão desorientados...
Deixa-me conduzir-te à câmara nupcial; ambos temos necessidade de repouso após a azáfama do dia.
Aproximando-se, pegou a mão da esposa; mas, notando que ela estremecia e recuava, um clarão pareceu jorrar de seus olhos, e a voz se lhe fez soturna:
— Não receies que te importune com demonstrações muito cálidas; o amor repelido não se humilhará diante de ti.
Não quiseste meu amor indulgente, escravo da tua beleza...
Pois bem; sentirás toda a severidade do marido, e, nessa condição, vigiarei para que a tua paixão por um outro não venha tocar de perto a minha honra.
Neith levantou a cabeça com altivez.
Satisfação e desafio estavam fundidos no olhar e vibravam em sua voz, quando replicou, bruscamente:
— Tanto melhor; tua raiva é preferível ao teu amor.
Mas, bem tarde te propões a vigiar pelos meus sentimentos e pelos meus actos...
Olha! Minha boca, minhas faces ardem ainda dos beijos daquele a quem unicamente amo; palpito ainda de felicidade...
Mas, o segredo que nos envolve é tão insondável quanto o meu amor, e jamais alguém saberá o nome daquele a quem pertenço de corpo e alma!
O príncipe ouvira como que petrificado.
Cambaleante, recuou um passo, e um grito enrouquecido lhe saiu do peito.
—'Traidora!... — sibilou ele numa voz irreconhecível, olhos injectados de sangue.
Horas depois de haveres jurado fidelidade ante os deuses, manchas minha honra? Morre!!!
Uma lâmina brilhou em suas mãos e fundiu no peito de Neith, que, emitindo um grito, estendeu os braços e dobrou de joelhos, inundada de sangue, tombando em seguida.
Como que despertando, Sargon deixou cair o punhal, e recuou com assombro:
— Que fiz? Matei-a! — murmurou, passando a mão pela fronte porejada de gélido suor.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 26, 2017 8:55 pm

Oh! Neith, por que minha mão devia ferir-te?
E incapaz de raciocinar, de chamar alguém, atirou-se numa cadeira.
E sua prostração tornou-se absoluta, porque não ouviu o caminhar rápido dos que se aproximavam, nem o duplo grito que ressoou quase imediato.
Mena e Keniamun chegavam ao limiar, contemplando, como que aparvalhados, a desposada estendida imóvel no chão, num lago de sangue.
Os dois rapazes haviam-se retardado, tratando de assunto de serviço com Pair, e iam apanhar suas armas e capas quando ouviram o grito de Neith.
Refeitos do choque, precipitaram-se para a jovem, levantaram-na, auscultando-a ansiosamente, para saber se ainda vivia.
— Respira ainda! — disse Keniamun, servindo-se da “echarpe” que rodeava a cintura da moça para bandagem da ferida.
— É preciso chamar Satati, que não deve ter ido embora, porque desejava despedir-se de Neith — gritou Mena.
Depressa! Chamem a nobre senhora e Pair — acrescentou, percebendo junto da porta os olhares espantadiços de um grupo de escravos, que aumentava progressivamente.
Ao mesmo tempo, seu olhar incidiu sobre Sargon, sempre mergulhado em completo torpor.
Imediatamente seu olhar se contraiu, exprimindo um misto de furor e selvagem satisfação:
— Ah! Estás aí, miserável assassino — gritou, precipitando-se para o príncipe a quem safanou, como se o quisesse partir.
O insólito ataque pareceu despertar o agredido.
— Ela me traiu e eu a matei! — balbuciou ele, ensaiando soltar-se das mãos de Mena.
Este, porém, mais musculoso, o manteve seguro.
— Traidor que és, acreditas que te permitiram desposar uma nobre filha do Egipto, para caluniá-la primeiro e depois assassiná-la?
Prestarás contas à rainha deste crime e da tua ingratidão.
Eis o que se ganha em fazer de um escravo um grande senhor!
E vós outros, trazei cordas; é preciso evitar que este chacal fuja antes que a rainha decida sobre a sorte do culpado.
Enquanto amarravam Sargon, Satati apareceu, pálida e tremente, seguida de Pair, cujo olhar, pouco espiritual, exprimia uma alteração quase cómica.
— Deixem-no livre, porque não fugirá — disse ela, ao ver o tratamento infligido ao príncipe.
— Cuida de Neith, porque eu responderei pelo que estou fazendo — respondeu rudemente Mena.
Crês que, ao ver assassinar minha irmã, faça reverência a esta serpente tríplice!
Arrastaram Sargon para um aposento distante, onde o atiraram qual fardo, ficando escravos de sentinela à porta.
Ajudado por Keniamun, Pair transportou Neith à câmara nupcial, onde foi colocada no leito, para desoprimi-la das roupas e colocação de uma compressa de água fria, enquanto se aguardava a chegada do médico.
— Meu bom Keniamun — pediu Satati, que, descorada, mãos trémulas, ajudava as servas a tirar os colares e pesados adornos de que estava sobrecarregada a jovem — corre, eu te suplico, em busca de um médico, e depois vai a palácio e procura avistar-te com Semnut, a quem comunicarás o acontecido, para que a rainha o saiba.
“É preciso que Sua Majestade tenha disto conhecimento imediato.”
Vou a correr — aquiesceu o oficial, deixando célere o aposento.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 26, 2017 8:55 pm

X - RAINHA E MÃE

Quando Keniamun chegou ao palácio real, tudo ali estava em movimento.
Um burburinho semelhante ao de uma colmeia tomava o imenso edifício; as liteiras dos conselheiros e dignitários chegaram incessantemente, por isso que ninguém queria aguardar o amanhecer para apresentar condolências e felicitações ao senhor único que agora empunhava o ceptro do poder e distribuía os benefícios.
Cada um queria demonstrar zelo e devotamento, e mesmo aqueles que não podiam aproximar-se do Faraó, sabiam que a rainha teria conhecimento de suas presenças ali, e não os esqueceria, a eles que vinham, sem restrições, trazer sua fidelidade aos pés da Soberana.
Tebas não dormia nessa noite; o povo movimentava-se em turbas pelas ruas, acotovelando-se, espremendo-se nas praças e nas imediações do palácio.
Em toda parte, ouviam-se esses gritos agudos e prolongados, cheios de estranho e dilacerante desespero que o felá actual, tanto quanto o do antigo Egipto, solta em sinal de dor.
E esses clamores diversos, unificando-se, planavam, qual um só gemido, sobre a Capital, a ela trazendo como que um eco de luto da Pátria que chorava o seu rei.
Sem embargo, não havia desordem em qualquer parte.
Alguns temerosos, outros com desconfiança e raiva interior, todos abriam passagem às patrulhas de polícia e aos destacamentos de soldados, que, comandados por oficiais, patrulhavam a cidade em todos os sentidos, dispersando os ajuntamentos muito barulhentos e mantendo severa disciplina.
Não sem custo, Keniamun introduziu-se até as antecâmaras reais, que regurgitavam de gente, e assim todo o palácio.
Um camareiro de serviço declarou-lhe ser de todo impossível falar a Semnut no momento, mas, preveni-lo-ia, desde quando terminasse a audiência que estava sendo concedida pela rainha a uma deputação de padres dos principais templos.
Hatasu, em verdade, não havia tido um momento de repouso.
A sua natureza, porém, nervosa e elástica, sustentava as energias e atravessava gloriosamente a provação.
Regressando do festim nupcial, encontrara Tutmés agonizante, e sem mesmo desembaraçar-se dos enfeites, velou e amparou o moribundo.
E quando o rei expirou, ela atendeu, com um certo sangue-frio sem dúvida, mas sem omissões, a todo o ritual exigido pelos usos e pela etiqueta:
gemera, arrancando os adornos, rompendo vestes, fronte coberta de terra, cabelos descidos sobre o rosto, pronunciando as orações de estilo e exaltando as lamentações que proclamavam as glórias e virtudes do finado esposo.
Cumpridos esses deveres, fizera chamar Semnut, depois outros conselheiros, e, ditando a todos ordens e disposições que não deixavam dúvida alguma quanto à sua calma lucidez de espírito, demonstrou a energia férrea com a qual reunia em suas mãos todos os fios condutores da máquina governamental.
Surpresos e subjugados, os dignitários retiraram-se, e mesmo aqueles, adversários, que no imo eram pelo jovem Tutmés exilados, sentiam ser difícil sacudir o jugo dessa pequenina mão, e que não arranjariam nada com a filha, que, outrora desesperada com a morte do pai adorado, se deixara vencer, casar e desapossar da dignidade suprema.
Despedindo o Conselho, na intenção de repousar um pouco, veio o anúncio de que uma deputação de padres dos principais templos de Tebas chegara a palácio, e pedia ser recebida.
A esta nova, a rainha ergueu-se qual corcel fogoso que sente o picar da espora.
Já os inimigos se apresentavam, com que intuito?
Em todo caso, eles não a apanhavam de surpresa, tal como acontecera outrora.
Um fluxo de raiva subiu-lhe ao coração, à lembrança de sua passada derrota e casamento com aquele que acabava de morrer.
Desses tumultuosos sentimentos e lembranças, porém, não deixou transparecer vestígio.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 26, 2017 8:56 pm

Calma, determinou fossem introduzidos os audientes a um salão de recepções, e bem assim chamados Semnut e outros conselheiros que a deviam acompanhar, e, por fim, que Chnumhotep montasse guarda às entradas do salão com oficiais de elite.
Graves, impassíveis, os padres acomodaram-se no salão designado.
Viam-se ali os sumos sacerdotes dos principais templos da Capital, profetas conhecidos e venerados de todos, alguns eruditos ainda moços, porém já distinguidos com a “pena de abestruz”, sinal da iniciação superior.
Ao lado do Sumo Sacerdote de Amon estava Ranseneb.
Todas as fisionomias eram graves e os olhares concentravam-se na entrada por onde devia aparecer a rainha.
Sem demora, dois oficiais ergueram o pesado reposteiro franjado, e Hatasu penetrou no recinto, seguida dos seus conselheiros.
A passo firme, dirigiu-se para o trono, de alguns degraus, e ali ficou de pé, uma das mãos apoiada no braço da poltrona.
À sua entrada, os padres prosternaram-se, emitindo um longo gemido.
A rainha inclinou-se, elevando os dois braços em sinal de dor, mas, voltando à posição anterior, mirou os audientes com olhar faiscante.
Os padres, que se haviam erguido, prosternaram-se por segunda vez, e o Sumo Sacerdote de Amon pronunciou estas palavras:
— Tendo rendido nosso tributo de dor e de pesar ao grande rei que o Egipto acaba de perder, permite, Faraó Hatasu, dispensadora da vida e da graça, saudemos a tua elevação ao trono.
Possam os deuses conceder-te saúde, glória, felicidade, e conservar-te por multo tempo no amor dos teus povos!
A rainha inclinou a cabeça em sinal de benevolência.
— Eu vos agradeço — respondeu —, nobres e Veneráveis servidores dos deuses.
Tendes algum pedido a fazer?
Falai; meus ouvidos estão abertos e meu coração cheio do desejo de vos atender.
A um sinal do Sumo Sacerdote de Amon, Ranseneb passou à frente.
— Filha de Rá — começou ele —, tua sabedoria compreendeu que um grave pedido nos trouxe.
Possam os deuses, que te deram tão grande sagacidade, iluminar teu coração e guiar tua decisão, porque justo e razoável é o que vimos dizer-te!
A alma divina de Tutmés II acaba de reentrar em Osíris; a nós outros, os vivos, cabe o dever de lhe preparar uma sepultura que deleite sua sombra, poupando-lhe toda a perturbação e descontentamento.
Vimos, pois, perguntar onde te propões depositar o corpo do Faraó.
Queres construir um “menou” digno do teu poderio, ou colocar a múmia na tumba provisória onde estão os esquifes dos teus divinos parentes?
Uma nuvem de contrariedade passou pela fronte de Hatasu, e uma espécie de relâmpago luziu em seus olhos.
Sentou-se, e disse em voz vibrante:
— Vossa proposição dá lugar a que me espante.
Ignorais tanto o que se passa no Egipto, veneráveis padres, a ponto de não saberdes que construí na cidade dos mortos um monumento soberbo destinado à sepultura de minha família?
Para lá transportarei os restos dos meus parentes; lá repousará meu divino esposo Tutmés II; lá depositareis meu corpo quando Osíris me chamar ao seu sólio.
Sofreado murmúrio correu entre os padres, e Ranseneb exclamou, erguendo os braços:
— Oh! Rainha!
Persistes em santificar esse monumento ímpio, construído contra todas as regras sagradas, aberto à curiosidade de cada um, qual um campo de feira, em vez de ser rodeado de majestade e de mistério, a exemplo do que cerca a divindade?
— Sim! — exclamou à sua vez o Sumo Sacerdote de Amon, homem violento e fanático.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 27, 2017 7:45 pm

Sim! ímpio é o pensamento de sepultar nossos reis nesse monumento, cópia das construções de um povo impuro e vencido.
Tudo que vem dos estrangeiros é odioso às divindades do Egipto e aos seus servidores, que tu ultrajas, ó Rainha, desprezando as leis sacrossantas das quais somos os intérpretes.
Não esqueças, Faraó, que é sobre os ombros dos padres que se apoiam solidamente os tronos.
Todos os soberanos, teus predecessores, os compreenderam e lhes respeitaram os direitos de servidores da divindade, que te asseguraram, por sua influência, a submissão dos súbditos.
Renuncia, pois, nós te suplicamos, Rainha — prosseguiu o irritado velho, de olhos incendidos — renuncia à escolha desse monumento que desaprovamos, que o povo contempla com temor e desconfiança; porque, se insistires, recusaremos nosso concurso, e nenhum de nós acompanhará a tal sepultura reprovada o corpo de Tutmés II.
Profundo silêncio sobreveio a esta impetuosa objurgatória.
Os padres permutaram entre si inquietos olhares, porque aquela formal declaração de guerra ultrapassava, as intenções comuns, e justamente o temor do arrebatamento do Sumo Sacerdote de Amon fizera-lhes escolher Ranseneb para orador; mas, o fogoso fanatismo do velho o arrebatara.
Quanto ao séquito da rainha, todos pareciam estátuas de assombro.
Hatasu escutara silenciosamente as audaciosas e insolentes palavras do padre, porém a sua expressiva fisionomia espelhara sentimentos tumultuosos bem contrários à calma que exteriorizava.
À final ameaça, empalidecera terrivelmente para enrubescer depois, e sua mão se crispara na cabeça de leopardo que terminava o braço da poltrona.
Mas, a cólera teve a fugaz duração de um segundo, pois os seus lábios estavam contraídos numa expressão de orgulho e teimosia, e os olhos, iluminados por esse estranho e subjugante fulgor que tornava tão difícil suportá-los, dir-se-ia, esmagavam seus interlocutores.
— Tuas palavras são duras, padre de Amon, e as ameaças soam mal aos ouvidos de um Faraó — disso ela na sua voz clara e metálica.
O momento é mal escolhido para ensaio de quebrar a minha vontade.
Reconheço vosso poder, mas não o temo; existem no Egipto muitos templos que desejam a minha proteção e padres que, servindo aos deuses, permanecem meus servidores fiéis.
A esses eu chamarei para conduzir ao lugar de repouso o corpo de Tutmés II.
Quanto às cabeças rebeldes que se levantam ameaçadoras contra a que devem adorar, tenho a força e o “direito” de abatê-las.
A vitória, em semelhante guerra, é coisa indecisa; mas, (Hatasu curvou-se e correu com olhar as filas de padres) eu não desejo a guerra.
Reconheço que os servidores dos deuses são o sustentáculo do trono, e sou a primeira a homenageá-los e a render-lhes justiça; é apoiada aos fortes ombros do clero que desejo reinar, porém senhora absoluta do povo que conduzi à vitória e à glória.
O Faraó, portador da dupla coroa do Alto e Baixo-Egipto, exige dos servidores dos seus deuses o exemplo de obediência à vontade do seu rei; mas, eu creio que, intérpretes da vontade dos Imortais, tendes o poder de tornar puro o que é impuro, de santificar o que é reprovado...
Pois! Peço o vosso apoio: santificai com a vossa bênção a construção que reprovais, e a bendição proferida por vós, em nome de Osíris, afastará dali todas as sombras.
Eu construí o “menou” de pedra, mas, vós, santificando-o, criareis sua existência eterna, e o povo, que vê pelos vossos olhos, perderá a desconfiança; ele vos aclamará e eu vos agradecerei com dádivas soberbas, e aos deuses com sacrifícios dignos deles e de mim.
Aguardo vossa resposta!...
Os padres olharam-se boquiabertos.
Não podiam deixar de render homenagem à calma e ao espírito subtil daquela jovem mulher que, domando orgulho e violência, lhes dava especiosamente um meio de reconciliação, propiciando-lhes honrosa retirada de onde haviam avançado em demasia.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 27, 2017 7:45 pm

Em realidade, os padres temiam luta aberta, cujo bom ou mau êxito era incerto, com a enérgica filha de Tutmés I, muito amada do poviléu; a concessão feita por ela lisonjeava-lhes o orgulho.
— Tuas palavras são verdades, Faraó — respondeu o Sumo Sacerdote.
Temos o poder de tomar puro o que é impuro, e tua solicitação, humilde e justa, é agradável ao nosso coração e aos ouvidos dos deuses.
Além disso, reconhecemos quão grandes somas e o trabalho imenso concentrados nessa gigantesca construção, a qual, sem nossa solidariedade, não terá valor, por isso que o povo só a respeitará depois da nossa bênção.
Seja feito segundo a tua vontade, ó Rainha:
conduziremos ao teu “menou” o corpo do teu esposo, e ali levaremos o povo e a bênção dos deuses.
Em recompensa aguardamos tua obediência e teu favor.
— Uma e outro estão assegurados: imensos serão os sacrifícios que oferecerei aos deuses sobre meu túmulo, e grandes as dádivas que recebereis da herança do meu real esposo.
Jamais, eu o espero, haverá mal-entendidos entre nós.
— Agradecemos tuas promessas, poderosa filha de Rá — disse o Sumo Sacerdote de Amon — e permite-me esperar também que em teu coração não reste cólera pelas palavras severas que me foram inspiradas pela fidelidade às velhas leis de nossos maiores, pela grandeza de nossos reis.
A rainha sorriu.
— Não guardo nenhum rancor contra o homem sábio e prudente que me viu nascer.
Até à altura do trono nenhuma ofensa tem o poder de subir.
Compreendo que, com o excesso de zelo com que defendeste os direitos dos deuses, honras o sangue de Rá que corre em minhas veias.
Em prova da graça e da amizade com a qual te distingo, aproxima-te, digno servidor de Amon-Rá:
a partir de hoje, não quero que, diante de mim, toques o chão com a tua fronte venerável, e concedo-te beijar o pé do teu Faraó.
Novo murmúrio, de orgulhosa satisfação esta vez, circulou entre os padres.
Este favor supremo, concedido a um deles em semelhante ocasião, parecia realmente comprovar o desejo da rainha de viver em boa Inteligência com a poderosa casta, e, desde então, o exilado do Bouto devia encher-se de paciência.
Cheio de alegria soberba, o Sumo Sacerdote de Amon prosternou-se e pôs os lábios no pequenino pé de Hatasu; mas, nem ele nem os companheiros viram o relâmpago de mordaz ironia, de desprezo maligno, que perpassou nos lábios da rainha.
Reingressando nos aposentos, a soberana estendeu-se num leito de repouso e despediu damas e servas, proibindo que a perturbassem.
Sentia-se exaurida.
Passados quinze minutos de profundo silêncio, ligeiro ruído fez estremecer a rainha.
Apoiando-se num cotovelo, ergueu o busto e apercebeu a velha serviçal, que, ajoelhada, se inclinava para ela, olhando-a ansiosamente.
— Que desejas, Ama?
Não me deixam uns instantes de repouso? — perguntou, descontente.
A velha cruzou os braços, e bateu violentamente a testa no solo.
— Perdoa, minha real senhora; o nobre Semnut pede para te falar imediatamente, e o disse com tal persistência, que ousei vir, apesar da tua proibição.
— Semnut? Está bem.
Acende a lâmpada na mesa e manda-o entrar, sozinho, porém — concordou Hatasu, passando a mão pela fronte húmida.
Pouco depois, Semnut entrou.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 27, 2017 7:46 pm

A fisionomia mostrava tão funda e dolorosa perturbação, que a rainha exclamou:
— Fala, Semnut! Tutmés fugiu de Bouto?
— Não, rainha.
A notícia que te trago vai ferir dolorosamente teu coração, e não implica em perigo para o teu poderio.
Em Bouto servidores fiéis velam sobre o príncipe, mas, aqui, um crime Incompreensível foi praticado:
Sargon feriu Neith com uma punhalada.
Emitindo sufocado grito, Hatasu caiu numa cadeira, mas, quase instantaneamente, saltou de pé, fremindo de cólera, mãos crispadas:
— Minha desgraçada filha!
Neith assassinada!
Ah! o miserável, escravo ingrato que assim me retribui os benefícios!
Que a sua cabeça seja entregue ao carrasco!
Antes que Rá surja das sombras, tenha ele cessado do viver, tal é a minha vontade!
Semnut ajoelhou, e ergueu a mão.
— Sei que jogo a vida, desobedecendo-te, Faraó; porém, igualmente sei que tu me maldirias se executasse tua ordem, sem te recordar que tu não podes vingar a vida da filha de Naromath, matando-lhe o irmão, esse irmão que, expirando, o confiou à tua misericórdia.
Hatasu ocultou o rosto nas mãos, e apoiou-se, cambaleante, na mesa.
Decorrido breve lapso, ergueu o rosto e estendeu a mão a Semnut.
— Levanta-te e ouve o agradecimento da tua rainha, fiel e corajoso conselheiro; tu me chamaste à realidade, e tiveste razão:
Sargon não deve morrer.
Mas, que motivo tê-lo-ia levado ao crime?
Parecia ter tanto amor a Neith!
A desgraçada criança vive ainda?
— Sei apenas o que ouvi de Keniamun, que retardou a saída de palácio.
Ignora as razões da tragédia; mas, quando deixou o palácio de Sargon, a princesa ainda estava viva.
Um médico foi mandado para lá.
— Meu espírito está em confusão, mas, eu quero vê-la, ainda esta noite, e certificar-me do seu estado.
Lastimo que Tiglat esteja enfermo e não possa ir comigo; mas, penso que Abracro possui também o segredo de estancar o sangue e fechar ferimentos.
Manda sem demora um portador de confiança procurá-la, a fim de que, feitas diligências para isso, possa estar aqui dentro de uma hora.
Enquanto isso, providencia para que a minha barca seja posta junto da escada do jardim.
Tu, Hui e Keniamun acompanhar-me-ão, e antes do amanhecer estaremos de regresso. Vai!
Hora e meia depois uma embarcação, conduzindo duas mulheres e três homens, atracava silente no desembarcadouro do palácio de Sargon.
Mal havia Keniamun pisado os degraus, rápido, e havia a rainha atingido apenas o terraço, e já Pair corria a prosternar-se para receber a soberana.
Deixa por agora as cerimónias, Pair, e conduz-me depressa junto de Neith. Vive?
— Sim, rainha.
Um médico de Amon deixou-a há pouco, depois de bandar a ferida.
O encarregado das equipagens palacianas levantou-se e precedeu respeitoso as duas mulheres até à câmara nupcial, grande aposento, rico em tapeçarias, ao fundo do qual havia um leito dourado, circundado de panos de estofos fenícios. Algumas lâmpadas alimentadas a óleos perfumados espargiam claridade fraca e vacilante.
Nos coxins do leito, Neith estava estendida, esbranquiçada e imóvel qual morta.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 27, 2017 7:46 pm

Ao vê-la, Hatasu parou, respirando opressa.
A luz de uma das lâmpadas incidia sobre o rosto da jovem, e jamais, então, a semelhança com o de Naromath havia impressionado tanto a rainha, cujo olhar ficou cravado nessa parecença que fazia ressurgir ante ela o belo hiteno, o único homem que fora amado pela soberba filha de Tutmés I, com um amor violento, apaixonado, total, quanto o eram todos os sentimentos de sua orgulhosa alma.
Dominando a emoção, fez sinal a Abracro para ocupar-se com a doente, e enquanto a feiticeira abria uma caixeta que levara e examinava a ferida, Satati aproximou-se da soberana para saudá-la; mas, Hatasu presumira demasiado da sua resistência, após as múltiplas emoções daquela noite.
A cabeça cedeu, e teria tombado, se Satati não a houvesse amparado e feito sentar-se em uma cadeira.
Abracro precipitou-se para ela, e ambas fizeram-na respirar essências aromáticas, ao mesmo tempo que lhe friccionavam as têmporas, dando-lhe depois a beber um pouco de vinho.
Dentro em pouco a rainha se refez.
— Não é nada; um tanto de debilidade produzida por esgotamento; vai passar.
Tu, Abracro, volta para junto da doente (a feiticeira obedeceu).
Foi verdadeiramente um espírito impuro que conduziu a mão desse louco — murmurou, movendo a cabeça.
Em seguida, pediu a Satati que providenciasse um tripé e carvões acesos, e impedisse a quem quer que fosse penetrar ali.
A esposa de Pair assegurou não haver perigo de tal, porque, para ocultar a presença da rainha, haviam sido afastados todos os da casa, além de estarem Pair e Semnut vigilantes à entrada.
Logo depois, veio o tripé.
Abracro derramou certo líquido especial num recipiente, no qual acrescentou folhas e algumas bagas pretas, e fez a mistura ferver nas brasas, acompanhando a ebulição com misteriosas conjurações.
Esfriado o líquido, com ele foi lavado o ferimento, sobre o qual soprou, aplicando-lhe uma bandagem untada de bálsamo pastoso, trazido igualmente na mencionada caixeta.
A enferma começou a mover-se, e, quando Abracro lhe fez massagem nas têmporas e lhe derramou por entre os lábios algumas gotas de avermelhada essência, reabriu os olhos em plena consciência.
— Minha real senhora, a doente voltou a si e tu podes fazer-lhe perguntas — anunciou a velha, dirigindo-se à rainha, que, precipite, correu para junto de Neith, beijando-a na fronte.
— Como te sentes, pobre filha, e como te aconteceu esta incompreensível desgraça?
Expressão de reconhecimento e alegria, mesclada de temor, pairou na fisionomia desfeita da moça.
— Sofro menos, depois que te vejo, minha real protectora.
Quanto és boa!
Mas, diz que me perdoas; sei que te afligi; eu te confessarei o que aconteceu; mas... perdoa-me!
E tentou trazer para junto dos lábios a mão da rainha que pegara uma das suas.
— Tudo eu te perdoo, tudo, filha querida.
Acalma-te, não te atormentes por nenhuma coisa; vive para mim; tenho necessidade de ver o teu inocente olhar nas horas penosas da minha existência — ciciou Hatasu, em voz baixa, apenas perceptível para Neith.
— Ah! Quanto eu te amo! respondeu, transportada de júbilo e gratidão.
Ela não compreendia a emoção que tornava assim tão indulgente e tão terna a sobranceira e inabordável soberana; mas, de repente, recordou as palavras de Satati, quando lhe dissera que secreto elo a ligava à rainha, e então um sentimento de quietude e confiança no porvir inundou-lhe a alma.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 27, 2017 7:46 pm

— Poderosa filha de Rá, perdoa à tua serva ousar interromper-te — veio dizer Abracro —, mas. a enferma tem imperiosa necessidade de silêncio e de repouso.
Entretanto, nada temas; tua velha Abracro responde pela sua vida.
E tu, minha soberana, estás igualmente exaurida:
bebe este vinho ao qual adicionei uma essência fortalecedora que abrandará as palpitações do teu coração e te ajudará a dormir e a recuperar as energias indispensáveis aos labores que te aguardam.
A rainha ingeriu o vinho e quase subitamente ligeiro rubor lhe coloriu as faces.
— Agradecida, Abracro.
Semnut enviar-te-á de minha parte uma porção de anéis de ouro.
E toma isto, ainda em lembrança desta hora e do serviço que me prestaste.
E retirou do pescoço uma fina corrente de ouro, à qual estava suspenso um soberbo escaravelho de ouro e esmeralda, e o estendeu à velha, cujos olhos reluziram de alegria.
Verificando que Neith dormia um sono profundo e reparador, Hatasu retirou-se do aposento, novamente integrada no sangue-frio e na elasticidade de espírito que a caracterizavam.
— Conduzi-me aonde está o culpado; quero eu mesma inquiri-lo — ordenou a Pair, que fazia sentinela, junto a Semnut, na câmara contígua.
Pair correu a distanciar previamente os escravos que montavam guarda ao príncipe, e depois guiou a soberana e seu conselheiro à pequena sala, ainda enfeitada de guirlandas de flores, no chão da qual Sargon jazia de pés e mãos amarrados. O desditoso moço não pareceu aperceber-se, nem mesmo ver a entrada das novas personagens.
A fisionomia tinha a expressão de petrificada, num trismo de ira e desespero; flocos de espuma escorriam dos cantos da boca contraída, e a túnica de púrpura, as jóias que a recamavam ainda contrastavam tristemente com as cordas que lhe prendiam mãos e pés.
— Estás pensando no teu inaudito crime?
Que fizeste do jovem ser que te confiei e dizias amar? — interrogou Hatasu, severamente.
Ao timbre daquela voz metálica, o prisioneiro pareceu despertar de um sonho, e pretendeu levantar-se, mas, impedido pelas ligaduras que lhe esmagavam as carnes, recaiu com abafado gemido.
Anuviou-se o semblante da rainha.
— Desligai-o e retirai-vos! determinou ela, bruscamente.
Com rapidez, os dois homens cortaram as cordas e saíram.
Cambaleante, como se estivesse ébrio, Sargon apoiou-se à parede.
— Agora que estamos a sós, responde, ingrato, e confessa:
que te levou a esse crime abominável, com o qual pagaste os meus benefícios?
— Sei que sou culpado, e não devo esperar nada da tua bondade — contestou Sargon em voz enrouquecida e sibilante.
Não quero mesmo desculpar-me, porque a vida me é odiosa; mas, conheces o sangue ardente que corre em minhas veias e que obscurece meu raciocínio.
Nenhum homem tolerará que, ao aproximar-se, pleno de amor, da sua noiva, seja repelido, qual ser impuro, nem ouvir da mulher amada insensatamente estas palavras:
“Chegas muito tarde, amo outro; vês!
Minhas faces, meus lábios ardem dos beijos desse outro ao qual pertenço de corpo e alma!...”
E calou, sufocado.
— Estás doido. Podes crer que aquela pura e ingénua criança seja capaz de semelhante traição? — disse a rainha em tom colérico.
— Escuta-me, antes de me julgar — recomeçou Sargon.
E narrou sucintamente a primeira cena entre ele e Neith, sua conversação com Keniamun, e tudo quanto se seguira até ao casamento.
— Convencido de que não me amava, nem ao oficial — prosseguiu o príncipe — e sim a um desconhecido, difícil de identificar, permaneci em reserva e observação.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 27, 2017 7:46 pm

Depois da tua retirada do festim de núpcias, ó Rainha, ela desapareceu.
Retido pelos meus convidados, meus olhos a procuraram em vão, enquanto o ciúme me estraçalhava a alma.
Somente à chegada da notícia da morte do Faraó, e com a dispersão dos convivas, ela reapareceu, rosto muito corado, olhos luzentes de ventura.
Impulsionado por meu legítimo zelo, disse-lhe, quando a sós, que não mais a importunaria com o meu amor, porém, velaria pela minha honra, e em resposta declarou que saíra dos braços do meu rival.
Uma nuvem de sangue obscureceu meus olhos...
Como chegou o punhal às minhas mãos?
Como feri a traidora? Não sei.
Reconheço-me culpado por haver descido mão vingadora sobre ela; mas, que homem, em tal situação, agiria de outro modo?
Esse acto foi o impulso desesperado de um coração destruído.
Amei doidamente essa mulher, à qual o acaso deu os traços de Naromath; por um sorriso seu, teria sacrificado a minha existência.
Tendo-a matado, quero morrer também; porém, se tu és justa, soberana do Egipto, tu me desculparás.
Se jamais amaste (e dizem que amaste de toda tua alma a um homem do meu povo, um desditoso prisioneiro igual a mim), deves compreender os meus sentimentos e...
A rainha escutara com espanto e emoção sempre crescentes, e, às últimas palavras, empalidecendo ao auge, curvou-se e pôs a mão sobre a boca de Sargon.
— Cala-te, insensato, e nunca repitas o que acabas de dizer, se queres viver.
Compreendo-te, e não condeno a violência do sangue que obumbrou teu cérebro e guiou teu braço; mas, repito: não creio na falta de Neith.
Irritada e imprudente, quanto o são as crianças, ela disse coisas que te ferissem o amor próprio.
É possível que ame outro, mas, não pertenceu a esse homem, tenho a certeza, e o futuro provará.
De resto, os deuses pouparam-te a consumação do crime:
Neith vive, e restabelecer-se-á.
Acalma, pois, o teu remorso.
Convencida, agora, de que em tua companhia ela estará sempre em perigo, farei anular pelos padres o consórcio, retomando assim Neith, para dá-la ao homem amado.
Tu, livre, escolherás em outra oportunidade.
Sargon deu um selvagem grito e apertou a cabeça entre as mãos.
— Manda matar-me antes, porque, enquanto existir, procurarei tirar-lhe a vida, e não a deixarei ir para os braços de um outro.
Mas, eu te suplico, Hatasu, deixa-ma, e juro, pelo que tenho de mais sagrado, pela memória de Naromath, nunca repetir o atentado.
As infernais horas que acabam de passar curaram-me: culpada que seja, por terrível que seja sua traição, deixa-ma, e não lhe farei mal algum, porque sem ela é impossível viver, meu coração se consome e perece.
Ajoelhara, erguendo para a rainha as mãos súplices.
Estranhamente emocionada, Hatasu apoiou-se a uma cadeira.
De novo, o passado ressuscitava ante o seu espírito.
Sargon, pelos traços fisionómicos, não se assemelhava ao irmão; o timbre da voz era, porém, idêntico, e na excitação do momento, o olhar mostrava alguma coisa do ardor e do encanto do herói hiteno que ela havia amado.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 27, 2017 7:47 pm

O presente, o suplicante ajoelhado, as preocupações que a abismavam, tudo esmaeceu: viu somente a sala isolada no palácio meio derruído pelo incêndio, onde o irmão, triunfante, havia estabelecido seus quartéis, e o belo e altivo jovem, ainda pálido em resultado dos ferimentos, que ajoelhara, também ele, ante ela, e, num misto de revolta e de paixão, havia murmurado:
— Manda matar-me, Hatasu, por minha audácia; eu, o prisioneiro, o vencido, desonrado, eu te amo, orgulhosa filha do conquistador, do destruidor da minha raça, ou, por piedade, dá-me uma arma para que me liberte da vida e deste fatal amor.
Emitindo um longo suspiro, a rainha passou a mão pela fronte húmida.
— Levanta-te, desventurado insano, eu te lamento, e farei quanto possa para tua felicidade, e trazer a ti o coração de Neith.
Antes, porém, é mister salvar-te a cabeça.
Tu conheces a lei:
pune com a morte todo estrangeiro que mata um egípcio, e tu atentaste contra a vida de uma nobre, tua própria esposa!
Enfim, tratarei de reparar tua loucura.
Fez leve gesto de saudação e saiu.
Ficando só, Sargon deixou-se cair numa cadeira e pendeu a cabeça entre as mãos, murmurando:
— É certo: segundo as leis do país, sou um condenado à morte, se ela não me salvar.
Oh! Neith, a que me arrastou o meu amor por ti!
Mas, que estranho mistério liga esta rainha altaneira a ti, que trazes os traços de Naromath?
Oh! (e bateu na testa) adivinho enfim: a proteção constante de Hatasu aos do nosso povo, o “menou” que construiu sob o modelo de nossos palácios, e essa estranha cena em que Naromath moribundo lhe fez jurar proteger-me, e na qual Semnut me arrastou com ele, apesar das minhas lágrimas!
Sim, compreendo agora: Neith é sua filha!
Após deixar Sargon, a rainha chamou Semnut, a quem, depois de narrar a estranha acusação do príncipe, pediu ao fiel conselheiro tomar as providências que julgasse mais eficazes para salvar o infortunado moço das consequências do criminoso desvario. Semnut meneou a cabeça, grave:
— Não é fácil, real senhora.
Conheces a lei.
Se o acontecimento for divulgado, provavelmente tratarão de prender Sargon, e então não poderás entravar o curso da acção judicial, sem suscitar novos descontentamentos, que á preferível evitar nas atuais circunstâncias.
A meu ver, é preciso ocultar o príncipe, fazê-lo evadir e mantê-lo distante, até que a repercussão do caso tenha abrandado.
A nobre Neith, se restabelecida, poderá perdoar ao marido e implorar clemência, e tudo se acomodará.
— Dedica-te imediatamente a esse assunto, meu fiel Semnut; aprovo teu conselho.
Quanto a mim, volto a palácio, para repousar um pouco.
Ao meu acordar, dir-me-ás do resultado.
Retornando aos aposentos, a rainha acomodou-se e dormiu sem demora, exausta de fadiga.
Era avançado o dia quando despertou.
Seu primeiro olhar encontrou a velha serva, que, acocorada junto da cama, espreitava cada movimento da soberana.
— Que fazes aí, Ama?
Aconteceu alguma coisa?
— Não, não poderosa filha de Rá.
Apenas, o nobre Semnut espera desde há algumas horas, em tua antecâmara, cheio de impaciência para ver erguer-se o sol do Egipto e aquecer-se aos raios da sua graça.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 27, 2017 7:47 pm

— Por que não me acordaste? — perguntou a rainha, erguendo-se com vivacidade.
Depressa, ajuda-me a vestir-me.
— Não me atreveria a perturbar-te, porque não deste ordem — respondeu a velha — e estavas tão cansada! Seria clamoroso que o Faraó não pudesse repousar, quando o último dos aguadeiros dorme quanto quer!
Hatasu sorriu.
A velha Ama, que a servia desde a nascença, embalara-a no regaço, adorava-a tanto quanto a “menina dos olhos”.
Tinha, pois, grandes regalias, e podia dizer o que ninguém mais ousara fazê-lo.
— Tu não compreendes isso, Ama.
De igual modo que os deuses protegem a sorte dos mortais, o Faraó deve velar para que os aguadeiros durmam em paz.
Bem, bem. Depressa!
Dá-me a capa e manda entrar Semnut.
— Que novas me trazes? — indagou ela, respondendo com uma inclinação de cabeça à saudação do seu conselheiro, e sentando-se junto da mesa de trabalho.
— Más, grande rainha — respondeu ele, erguendo-se.
Chegamos tarde: Sargon está preso.
— E como pôde acontecer isso? — indagou Hatasu, empalidecendo.
— Tebas não dormiu esta noite.
A notícia do assassínio foi espalhada com extraordinária celeridade.
Mena gritou-a no corpo das guardas de palácio; o médico de Amon, que fez curativo em Neith, levou a nova ao tom pio, na ocasião em que os padres regressavam da audiência, e estes não quiseram perder a oportunidade de destruir um dos assírios teus protegidos, e que são para eles espinhos no coração.
A novidade circulou qual flecha arremessada, e um jovem sacerdote de Hator, chamado Roma, demonstrando zelo fanático, alvorotou os demais, e, mal havias saído e eu me dispunha a levar Sargon, chegavam os padres, acompanhados de soldados, que o prenderam e levaram para o cárcere.
— Que fazer, agora? Não posso deixá-lo perecer — disse a rainha.
— Se queres ouvir meu conselho, ó rainha! não entraves, no momento, os trâmites da justiça; no momento decisivo, tu farás tudo para lhe salvar a vida.
Depois, aliviarás sua situação, até que tenhas ensejo de agraciá-lo.
— Seja assim!
E agora deixa-me, Semnut, e que ninguém venha aqui, até que eu chame.
Preciso estar só.
Quando o conselheiro se ausentou, Hatasu pousou os cotovelos na mesa.
— Oh! Naromath — murmurou então —, tal é o destino do inditoso cujo porvir me confiaste!
Ele perdeu-se por suas próprias mãos, e não sei se lhe posso salvar a vida.
Uma ardente lágrima deslizou-lhe na face.
Ergueu-se, agitada, e caminhou pelo aposento.
Quantas lutas e cuidados lhe dava esse dia, que tão ansiosamente desejara, dia em que se Instalaria sozinha no trono que lhe parecera demasiado estreito, quando teve de partilhá-lo com Tutmés II!
Já poupara a vida desse homem vacilante e preguiçoso, que, escravo de sua vontade, havia deixado o poder na mão potente e ao espírito viril da esposa e irmã.
Nesse instante, lamentava a ausência do amparo e garantia que representava para ela o fraco Faraó...
Reinava sozinha, é certo, mas também sozinha teria de combater o exilado de Bouto e os descontentes do Reino, e esse pequeno Tutmés seria não apenas um adversário digno dela (e o sabia desde a última entrevista), porque, à sua sombra, se levantava, qual um só homem, a casta poderosa do clero do Egipto, que desejava ver no trono o discípulo, instrumento da sua vontade, da vontade desses padres que ela vencera, nesse dia precisamente, e que, porém, não cessariam de sapar subterraneamente seu poderio, e espiar avidamente cada oportunidade de alcançar e ferir a rainha, quando menos nos protegidos dela, a este último pensamento, cálido rubor subiu-lhe às faces.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 27, 2017 7:47 pm

Ela, a soberana legítima, filha da divina Aamés, dobrar-se ante o bastardo, ceder a esses homens insolentes! Nunca!
Hatasu era dotada de um carácter e de uma têmpera daqueles a quem o perigo aguça e aos quais as dificuldades parecem dar novas energias.
Com um sorriso de desafio, ela ergueu orgulhosa a fronte:
— Tenho o ceptro — disse falando a si mesma — e a minha vontade será tua lei, Egipto!
Sargon viverá, Tutmés ficará em Bouto, e sereis vós, padres altaneiros, que vos curvareis sob a minha sandália!
Mais de um mês escoara depois da noite trágica da morte de Tutmés II.
Durante muitos dias ainda, a vida de Neith pareceu estar por um fio; mas, fosse pela omnipotência dos conjuros de Abracro, fosse porque a natureza jovem teve forças para resistir à morte, a verdade é que o perigo foi diminuindo, e a convalescença teve início, embora, pelo depauperamento da enferma, prometesse prolongar-se por muito mais tempo.
Para não irritar os padres, um médico do templo de Amon continuava a tratar de Neith, e somente à noite, sob o maior segredo, Abracro vinha examinar a ferida e repetir as conjurações.
Satati cuidava da sobrinha com grande devotamento, enviando, três vezes por dia, notícias à rainha, que, indisposta de saúde e muito sobrecarregada de afazeres, não podia sair do palácio.
Roant igualmente acorrera à cabeceira da amiga e ajudava a esposa de Pair nas vigílias.
A pobre senhora estava torturada de remorsos, e não se perdoava o haver proporcionado a entrevista do Roma e Neith, de tão dramáticas consequências, isso porque Chnumhotep soubera, por intermédio de um padre, parente por parte materna, do motivo do atentado de Sargon, e reprovara vivamente a esposa pela leviandade com a qual induzira em tentação o irmão e a jovem amiga, causando o aniquilamento do príncipe, que definhava na prisão, e cujo processo prosseguia com encarniçada pressa.
Descrever os sentimentos de Roma durante essas penosas semanas seria difícil.
Mais amargamente do que a irmã, ele se censurava haver cedido à tentação de atrair, no próprio dia do consórcio com outro, a ingénua criança a seus braços, e, também, pela confissão do seu amor, exaltado os seus sentimentos a ponto de levá-la à leviandade que quase pagara com a vida.
O Sumo Sacerdote de Hator, que fizera parte da deputação, havia, regressando, dado a notícia do assassínio de Neith.
Por um Instante, Roma sentira-se como que esmagado; depois, concentrada raiva, uma acerba repugnância contra Sargon empolgara-lhe o ser.
Tinha consciência de haver respeitado os direitos do marido, limitando-se a amar Neith com afecto resignado e puro, tendo apenas o coração da jovem, bem do qual podia ela dispor...
E, no entanto, esse bruto, em seus ciúmes, havia apunhalado a esposa, poucas horas depois do matrimónio.
Seu coração gelava, tudo nele se revoltava ao pensamento de que Neith poderia permanecer sob a autoridade desse homem que, apesar do crime inaudito, a rainha protegeria sem dúvida.
Não mostrava a soberana inexplicável fraqueza para com esses estrangeiros?
Não havia ela, a despeito das murmurações dos nobres, elevado esse prisioneiro hiteno à hierarquia de príncipe?
Ela cumulara-o de riqueza e de honrarias, e lhe dera por esposa uma das mais nobres filhas do Egipto.
Assim, se a vida de Neith devia correr perpétuo perigo, mister se fazia assegurar-se da de Sargon, antes que a mão real o subtraísse à justiça.
Movido por esses sentimentos, Roma havia desenvolvido energia e habilidade inusitadas; excitado e amotinado os padres; demonstrado que, depois da derrota relativamente ao túmulo, era indispensável provar a Hatasu que seus protegidos não pairavam acima da lei, que a justiça dos padres castigaria a insolência do favorito que se atrevera atentar contra a vida de uma nobre egípcia.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 27, 2017 7:47 pm

Tais esforços não resultaram vãos.
Sargon foi imediatamente detido e encerrado na prisão.
Mas, o processo prosseguiu, e antes da condenação era esperado, dizia-se, o depoimento de Neith, sem o qual impossível se tornava julgar nitidamente a situação.
Roma, cujo nervosismo cedera, não mais se imiscuía no assunto, porém supunha, com razão, que as dilações eram resultado da influência da rainha; o zelo dos padres também se ralentava, e, desde a distinção que lhe acordara Hatasu, o Sumo Sacerdote de Amon se tornara mais conciliador e tépido no fanatismo pelos deuses e pelo jovem exilado Tutmés.
Neith ignorava tudo quanto ocorria. Embora em plena convalescença, a fraqueza era extrema; permanecia acamada durante horas, sem pronunciar palavra, e o médico proibira perguntas e perturbações sob qualquer pretexto.
Depois do triste acontecimento, Pair e toda a família haviam-se instalado na vivenda de Sargon.
Mena, principalmente, influíra para tal resolução, e presidiu à mudança com presteza e carinho notáveis; persuadira Pair de que estava na obrigação de administrar os domínios acéfalos e ajudar Satati na direcção do lar, até que as vigílias junto da enferma tomassem menos tempo.
Diante de todos, Mena perorava com habilidade sobre a estima que votava à irmã e sobre o devotamento de toda a família, que, sem hesitar, abandonava seu lar próprio para viver ao lado da doente, velar e zelar pelo seu conforto.
Sem cuidados, o amável rapaz aboletara-se no apartamento de Sargon, vago desde a detenção deste, e havia revistado cofres e caixetas, apoderando-se de jóias e objectos preciosos, que Satati não tivera tempo de acautelar debaixo de chave.
Com suave firmeza, a nobre mulher colocara ferrolhos e fechaduras em tudo, resguardando prudentemente para Neith os tesouros acumulados por seu marido, que eram muitos, porque Sargon, poupado e taciturno, mais letrado do que vivedor, pouco despendia do muito que lhe doava Hatasu.
Satati, que ainda recordava, com estremecimentos, a terrível cena que tivera com a rainha, queria prevenir uma pilhagem que lhe podia acarretar nova reprimenda.
Por isso, pôs limites à rapacidade ávida do sobrinho.
Mena teve de contentar-se com os sobejos a que pôde deitar mão, porém, ainda assim, sentia-se muito bem na actual residência, e, no íntimo da alma, bendizia o ciúme do hiteno, porque contava reabastecer-se solidamente com os rendimentos dos domínios administrados por Pair.
A presença de Roant era desagradável a Mena, e fazia má cara para a jovem mulher, ostensivamente.
De há muito, porém, a esquecera, e mesmo, na sua pretensão estúpida, alegrava-se de estar liberto, podendo, por isso, candidatar-se, com o tempo, mais vantajosamente.
Tal era a situação no momento em que retomamos a narrativa.
Certa manhã, enquanto Satati (a quem coubera a noite de vigília) repousava, Roant rendera aquela junto de Neith, que dormia sono profundo e reparador.
Com pena e afeição, contemplava o rosto emagrecido da amiga, espantando os insectos que podiam perturbá-la.
Afinal, Neith abriu os olhos e estendeu a mão a Roant.
— Minha boa Roant, como poderei agradecer o teu devotamento?
Dentro em breve, espero, não terás necessidade de velar junto de mim; sinto-me tão bem, tão forte, que tenho vontade de levantar-me.
— Adia esse desejo por mais quinze dias, no mínimo — disse Roant, a rir.
E para te distraíres, enquanto esperas, cheira estas rosas que te envia Roma.
Ele te suplica que te cuides, e estou convicta de que, pelas suas incessantes orações, os deuses, importunados, concederam-te a vida, que, em verdade, parecia presa a um fio de cabelo.
Faces purpureadas, Neith pegou o ramo de rosas e o oprimiu nos lábios e na fronte.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72096
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha I / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 4 de 9 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum