Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

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Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 31, 2017 11:46 am

Sem Regras para Amar
Eliana Machado Coelho

Pelo espírito Schellida

INDICE

1 - A tragédia da vida
2 - Dúvidas amargas
3 - Preconceitos revelados
4 - As visões de Bianca
5 - Difícil decisão
6 - O pesadelo de Bianca
7 - A volta de Migue
8 - As exigências de Gilda
9 - Lições de auto-estima
10 - Fantasias perigosas
11 - A realidade da vida
12 - Assumindo os sentimentos
13 - A influência de Nélio
14 - As maldades de Gilda
15 - Desarmonia entre irmãos
16 - Momentos de angústia
17 - Regras da vida
18 - O poder de uma prece
19 - Acusações injustas
20 - A implacável perseguição
21 - A verdadeira Suzi
22 - Nas malhas da traição
23 - O império da mentira
24 - O desespero de Eduardo
25 - Erika vai embora
26 - O auxílio providencial de Lara
27 - Descendência negra
28 - Tramas cruéis
29 - A verdade sempre aparece
30 - A decadência da mentira
31 - O futuro dos preconceituosos
32 - Encontrando o passado
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Ave sem Ninho

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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 31, 2017 11:47 am

1 - A TRAGÉDIA DA VIDA

Aquela manhã trazia uma brisa fresca, e a densa neblina pairava sobre a paisagem com suas graciosas flores anunciavam o início da primavera.
Era bem cedo, mas na casa de dona Júlia todos se reuniam animados ao redor da mesa farta e posta com muito carinho para o desjejum.
O perfume do café fresco enchia o ar quando se misturava ao aroma do bolo quase quente que era servido.
— Abençoada seja minha esposa! — anunciava seu Jairo com um largo sorriso no rosto, quando viu a aproximação mulher.
São poucos que aqui em São Paulo são servidos ia mesa de casa com café fresco, fartura e carinho.
Ao pegar a mão da esposa, ele contemplou seu sorriso depois a beijou no rosto quando a puxou para perto de si.
Dona Júlia sentiu-se lisonjeada e até orgulhosa, mas não tinha o que dizer.
Era uma pessoa simples, esposa e mãe muito dedicada e prestimosa, porém de personalidade firme, e fazia ara manter a família reunida e em harmonia.
- Vejam só o papai!
Exibindo-se como eterno apaixonado! - exclamou Carla, a filha mais nova do casal, com ar de brincadeira, completou:
— E sem perder o jeito galanteador, hein!
- Isso mesmo, Jairo — disse Amélia, mãe de dona Júlia.
- Dê valor ao que sua mulher faz.
Existem aqueles que os de casa só quando eles não são feitos
— Ah, vó, de mim a senhora não pode falar — afirmou Helena, filha do meio do casal.
Eu sempre dei valor a tudo que minha mãe faz — completou com jeito mimoso.
Nesse instante dona Júlia, irónica, tossiu forçosamente como se pigarreasse, atraindo a atenção de todos.
— Oh, mãe! Vai dizer que eu não valorizo a senhora? — tornou Helena com jeitinho.
— Eu não disse nada, Lena, somente tossi! — revidou a mãe em tom de brincadeira.
— Como vamos fazer? — indagou Carla, atalhando o assunto.
Iremos primeiro para a casa do Mauro ou vamos directo para o sítio? — perguntou, referindo-se ao outro irmão.
— Não sei por que a Lara e o Mauro vão fazer o aniversário da minha bisneta lá naquele sítio.
Isso complica a vida da gente.
Não gosto de viajar muito; já me basta ter vindo para cá — reclamou dona Amélia.
— Mãe, essa festa foi um presente da outra avó.
Não podemos reclamar — lembrou dona Júlia.
— Além disso, não é tão longe assim.
— E eles não poderiam alugar um buffet e fazer essa festa aqui perto? — tornou dona Amélia.
E lógico que a exibida da Gilda tinha que complicar e fazer tudo lá longe.
— Mãe, deixa isso para lá.
Nós temos que...
O toque do telefone interrompeu o assunto, e Helena rapidamente se levantou para atender:
—Deve ser para mim.
Após os primeiros segundos de conversa, Helena exclamou meio aflita:
—Quando isso aconteceu, Mauro?!
Todos silenciaram atentos para ouvir quando Helena replicou:
—Ela está bem? — e completou:
— Calma, vou passar para o papai, ele deve saber onde fica.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 31, 2017 11:47 am

Iremos agora mesmo.
E enquanto seu Jairo atendia o filho, ela se voltou para todos e avisou sem rodeios:
A Lara bateu o carro e está no hospital.
É melhor eu e o papai irmos até lá.
— Eu irei com vocês — avisou dona Júlia ao se levantar ligeira.
— Eu também! — quase gritou Carla, afoita.
— Carla, minha filha, é melhor você ficar aqui com a vovó.
E, virando-se para a outra filha, dona Júlia perguntou:
— E a Bianca, com quem está?
— Com a empregada.
— Então, Carla, fique aqui, vou ver se mando trazer a Bianca para cá, está bem?
— Carla — avisou a irmã — se o Vagner ligar, você conta o que aconteceu.
Diga que eu telefono para ele depois.
Ah! E vê se não pendura no telefone, nós vamos ligar.
Agora vou me trocar — resolveu Helena, saindo às pressas.
***
Algum tempo depois, Mauro recebia seus pais e a irmã no hospital.
Estava nervoso, quase desesperado.
Após abraçá-los, secou as lágrimas e contou:
- A Lara saiu bem cedo e foi até a escola pegar o presente de aniversário da Bianca que ela havia escondido lá.
Disse que voltaria antes de ela acordar para irmos ao sítio.
Mas aconteceu o acidente.
Do hospital me ligaram e...
— Mas por que esse presente estava lá no serviço dela? — perguntou dona Júlia.
— A Bia estava ansiosa para saber o que ia ganhar, e a Lara quis fazer uma brincadeira e achou melhor escondê-lo lá, onde a Bia não iria procurar, já que ela havia vasculhado toda a casa.
A Lara me disse que, na pressa para ir embora, se esqueceu de trazê-lo quando fechou a escola.
Mauro se calou quando percebeu a aproximação do médico.
Indo em sua direcção, ansioso, perguntou:
—Doutor, e minha esposa?
—Sinto muito, senhor Mauro.
Ela não resistiu aos ferimentos.
Mauro sentiu-se gelar.
Aturdido de súbito pela trágica notícia, quase cambaleou ao virar-se para seus parentes.
Dona Júlia logo o abraçou, e ambos choravam quando seu Jairo, com lágrimas empoçadas nos olhos, se lembrou e comentou com Helena:
— Filha, temos que avisar a família da Lara.
— Pai, a dona Gilda está lá no sítio desde ontem.
— Meu Deus, eu nem sei o que fazer.
— Vou telefonar e ver se há alguém em casa.
Caminhando lentamente até o telefone, Helena sentia-se atordoada.
Como dar tal notícia?
E, mesmo sem saber o que falar, ligou:
—Pronto! — atendeu na casa dos pais de Lara.
— Aqui é Helena, irmã do Mauro; por gentileza, quem está falando?
— É o Eduardo, Helena — identificou-se o irmão de Lara com simplicidade.
Tudo bem?
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 31, 2017 11:48 am

—Nem tudo, Eduardo.
Eu gostaria de saber da sua mãe.
— Desde ontem meus pais estão lá no sítio preparando tudo para o aniversário da Bianca.
Aliás, eu estava indo para lá agora mesmo; quase você não me pega em casa.
Mas o que aconteceu?
— Sabe, Eduardo — gaguejou —, eu, o Mauro e meus pais estamos aqui no hospital.
- O que aconteceu?! — ele inquietou-se, preocupado.
— Houve um acidente com a Lara.
—Onde vocês estão? — perguntou aflito.
Ela está bem?
Helena ficou em silêncio por alguns instantes e, como não havia forma de dizer aquilo de maneira diferente, avisou:
— O acidente foi muito sério.
A Lara estava sozinha e...
— Como ela está? — exigiu.
—O médico acabou de dizer que ela não resistiu aos ferimentos.
O rapaz emudeceu.
Então ela insistiu:
—Eduardo?! Você está me ouvindo?
Com voz abafada e trémula, ele perguntou parecendo mais calmo:
—Onde vocês estão?
Helena passou o endereço e logo voltou para junto de seus pais, onde ficaram aguardando a chegada de Eduardo, que se fez presente em poucos minutos.
Uma névoa triste pairava sobre todos quando o irmão de Lara os cumprimentou com modos nervosos.
Diante de Mauro, perguntou:
—O que houve?
Até agora não estou acreditando.
Mauro, em pranto, contou novamente o que ocorrera, e Eduardo, confuso, comentou:
—Eu não sei como vou contar isso aos meus pais.
Nunca estamos preparados para essa tragédia da vida.
—E sua irmã, a Erika, está com eles? — perguntou Helena.
—Sim, está. Estou pensando em telefonar para o sítio e dizer que a Lara está no hospital, que sofreu um acidente.
Somente depois que estiverem aqui... — perdeu as palavras.
Observando sua difícil decisão, dona Júlia interferiu:
— Faça isso mesmo, Eduardo.
Será melhor sua mãe saber só quando estiver aqui.
— E a Bianca? — lembrou o avô, apreensivo.
Quem vai contar?
Todos se entreolharam e permaneceram em absoluto silêncio.
—Gente! E o Miguel? — perguntou Helena, lembrando-se do outro irmão que estava na Europa.
Mais uma pergunta ficou sem resposta imediata, pois um funcionário do hospital se aproximou e chamou Mauro para as devidas providências, enquanto Eduardo, tentando ser firme, saiu de perto de todos para telefonar aos seus pais.
***
Poucos dias após o enterro, todos ainda estavam abalados, incrédulos e sofrendo muito com a fatalidade.
Miguel, o irmão mais velho de Helena, foi avisado, mas não pôde voltar ao Brasil.
Na casa de dona Júlia, o filho Mauro e a neta Bianca eram acolhidos com imenso carinho.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 31, 2017 11:48 am

A pequena menina, apesar de seus cinco anos de idade, sentiu imensamente a separação e, agarrada à tia Helena, não queria sair do quarto, pouco falava e procurava se esconder, não querendo olhar para ninguém.
Carla tentava animar a sobrinha chamando-a para sair, prometendo-lhe comprar brinquedos e sorvetes, mas nada parecia convencer a pequena.
—Deixa, Carla — pediu Helena, que estava sentada na cama onde Bianca se encolhia —, não a force.
—Mas ela não pode ficar assim.
— Claro que pode.
Bianca é pequena, mas entende muito bem e tem sentimentos — tornou Helena com brandura.
— Eu achei errado a dona Gilda levá-la para ver a mãe no caixão.
Senti uma coisa!
Tive vontade de tirar a Bia dos braços dela — reclamava Carla, indignada com o ocorrido.
Quem ela pensa que é?!
Dona da verdade?
Mulherzinha arrogante e orgulhosa que...
— Carla! Por favor, né! — repreendeu Helena, indicando para Bianca como quem diz que aquilo era impróprio para ser comentado perto da menina.
— Ora, Lena, é verdade.
A Bianca ficou assim depois daquilo.
Lembra que, assim que a dona Gilda a colocou no chão, ela saiu correndo, agarrou-se em você e não a largou mais?
Nesse instante dona Júlia abriu a porta do quarto e avisou:
—O Eduardo está aí.
Ele veio dizer que a dona Gilda teve algumas crises nervosas e não vem passando muito bem.
Hoje ela está melhor e pede que a Bianca vá lá um pouquinho para visitá-la.
—Aaah! Não...!
Ela não merece!
—Calma, Carla!
Não reaja assim, minha filha — repreendeu a mãe com veemência.
A dona Gilda pode ser o que for, mas é avó assim como eu e tem o direito de ver a menina.
Ela acaba de perder a filha, e a única coisa que lhe restou da Lara, nesse mundo, foi a neta.
— É! Mas quando ela não queria o casamento da Lara com o Mauro ela aprontou poucas e boas — lembrou Carla, falando com modos hostis — e quando não conseguiu separá-los disse que a filha tinha morrido naquele dia.
A senhora lembra?!
— Depois elas se reconciliaram.
Foi uma discussão entre mãe e filha, e isso não se leva em consideração.
— Como não se deve levar em consideração?!
Essa mulher nos odeia, sempre nos detestou.
É uma criatura monstruosa, maquiavélica, que só pensa em seu rico dinheirinho.
A dona Gilda sempre achou que pode comprar tudo.
Acho que só agora ela se vê no prejuízo porque não pôde comprar a vida da filha.
Ela é daquelas que, se pudesse, iria fazer negócios até com Deus.
— Carla!!! — repreendeu dona Júlia num grito.
— É verdade! Ou vocês abrem os olhos ou ela vai querer nos tomar a Bianca.
Vai querer comprar a menina com tudo o que tiver a seu alcance, com coisas que nós não podemos dar — respondeu revoltada.
— Carla, por favor! — exclamou a irmã com firmeza, insatisfeita com a discussão.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 31, 2017 11:48 am

Com esse tipo de pensamento você está agindo igual à dona Gilda.
Pare, por favor. Respeite pelo menos a Bia!
— Parem vocês duas! — ordenou dona Júlia.
Agora não é hora para isso.
O problema é o seguinte:
o Eduardo está aí e quer levar a Bianca para ver a avó.
O Mauro falou que, se a Bia quiser ir, ela pode, desde que ele a traga de volta antes do anoitecer.
Mas ele quer que uma de vocês duas vá junto.
Virando-se para Helena, pediu:
— Lena, traga a Bia para ela ver o tio, vamos ver o que ela decide.
Enquanto Helena, carinhosamente, pegava a sobrinha no colo, Carla resmungava, contrariada com a situação:
— Esse carinha é outro!
Saiu tal qual a mãe.
Escutem o que estou falando:
se não colocarem um freio agora, essa gente vai tripudiar sobre nós.
Sem dar atenção ao que a irmã falava, Helena, com Bianca no colo, foi até a sala onde o cunhado de seu irmão aguardava.
Agarrada a Helena, a garotinha escondia o rosto no ombro da tia.
—Oi, Eduardo, tudo bem? — cumprimentou a jovem.
—É... quase tudo.
Procurando ver o rosto da menina, ele a tocou nas costinhas e pediu:
— Vem com o tio, Bia.
—Olha o padrinho, Bia.
Dá um beijo nele.
— Oi, Bianca. Vamos lá na casa da vovó, vamos?
Ela quer vê-la e quer que vá buscar seus presentes. Vamos com o tio?
— É por isso que ela não me chama de madrinha nem a você de padrinho.
Olha como ensina a nos tratar — reclamou Helena.
— Ah, Helena, isso não é importante — tornou ele, tranquilo.
— Somos padrinhos dela, não somos?
Para mim é importante sim, Eduardo.
Ele não deu atenção e tentou pegar Bianca do colo de Helena, mas a garota reclamou ao se debater um pouco, momento em que ele se deu por vencido.
Respirando fundo, o rapaz explicou:
—O problema é o seguinte:
minha mãe está muito abatida; está sendo um golpe muito duro.
Ela quer ver a Bianca, e eu penso que isso vai ajudá-la.
Você quer vir comigo?
Helena olhou para Mauro e para sua mãe como se pedisse a opinião deles.
Diante da falta de expressão de ambos, que indicava que a decisão ficava por sua conta, voltou-se para Eduardo, explicando:
—Meu namorado vai chegar logo mais e...
Interrompendo-a com educação, ele gentilmente pediu:
—Por favor, Helena.
Eu creio que o Vagner vai entender.
É uma questão de compaixão.
Além disso, não vamos demorar tanto.
- Então me deixe trocar essa roupa.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 31, 2017 11:48 am

- Não! Você está bem, não precisa.
Não há ninguém lá em casa além de nós, e eu a trago de volta.
Não se preocupe com isso.
—... a bolsa, pelo menos.
Após chegarem na luxuosa residência, Helena teve que levar Bianca até a suíte onde a avó estava deitada.
Ao ver o avô, o senhor Adalberto, Bianca, ainda um tanto receosa, estendeu-lhe os frágeis bracinhos, indo para seu colo.
Dona Gilda, que estava largada sobre a cama, pareceu reagi! e se ergueu, sentando-se para abraçar a pequena garotinha.
Helena acreditou ser melhor deixá-los à vontade, já que sua presença havia passado quase despercebida, e voltou para a sala de estar, no andar inferior.
Agora, parada em pé quase no centro do requintado ambiente, passou a admirar a rica mansão.
Quando Erika, a filha mais nova de dona Gilda, soube dc presença de Helena, foi ao seu encontro.
—Oi, Lena!
Abraçando a amiga com carinho, Helena não sabia o que dizer.
Ambas se sentaram, e Erika desabafou:
— Parece que vivo um pesadelo.
Hoje cedo, depois de um sono muito pesado, acordei e...
Sabe, pensei que isso tudo não tinha acontecido.
Não acreditei que fosse verdade e tive até o impulso de pegar o telefone para ligar pra ela... — sua voz embargou, mas logo a jovem prosseguiu:
— Demorei a voltar à realidade e lembrar, entender o que havia acontecido.
— Nem sei o que lhe dizer, Erika.
Eu também me sinto atordoada. Puxa!
Eu e a Lara sempre fomos muito amigas.
No sábado à noite nós conversamos e... — Helena se calou por não querer falar sobre um pequeno detalhe da conversa que tivera com Lara e que a incomodava.
A colega não percebeu, e ela prosseguiu:
— Eu também não acredito.
Imagino quanto sua mãe está sofrendo.
— O que a dona Gilda tem é peso na consciência — desabafou a moça, como se estivesse revoltada.
—Não fale assim, Erika. É sua mãe.
— É melhor ficar quieta mesmo, antes que...
Após uma breve pausa, prosseguiu:
— Diz como o Mauro está.
— Ele e a Bianca estão lá em casa, como você sabe.
Parece que não querem voltar para a casa deles.
— Que mundo cruel.
Esses dois lutaram tanto para ficar juntos.
Enfrentaram até a colérica dona Gilda, que tentou mover céus e terras para separá-los e...
Eduardo aproximou-se com os olhos vermelhos e, voltando-se para Helena, pediu:
—Lena, vamos lá em cima.
A Bianca quer você.
Rapidamente, Helena se levantou e subiu as escadas às pressas em direcção ao quarto onde estava a menina.
Ao entrar, Bianca se agarrou a ela novamente, rejeitando ficar com a avó.
— Bia, não faça isso — pediu a tia com jeitinho.
Vamos, fique com a vovó mais um pouquinho.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 31, 2017 11:49 am

— Deixe, Helena — pediu Gilda. — Não a force.
Criança não gosta de gente triste ou amarga.
— Ela ainda está ressentida, dona Gilda.
Todos estamos.
Gilda suspirou profundamente, acomodou-se entre os travesseiros e lençóis acetinados que revestiam seu confortável leito, deixando que seu olhar ficasse perdido no tecto do quarto.
Ela parecia não querer conversar e, percebendo isso, Eduardo propôs:
— Helena, eu a levo quando quiser.
A Bia não está satisfeita, é bom não forçá-la.
— Espere, Eduardo — pediu Gilda, levantando-se vagarosamente.
Vamos até ali, no outro quarto.
Quero dar os presentes da minha neta.
Já no outro recinto, sempre agarrada à tia, a garotinha nem olhou o que lhe foi oferecido.
Gilda, parecendo compreensiva, entendeu e disse:
Não faz mal.
Criança é assim mesmo.
Sempre honesta com os próprios sentimentos.
Virando-se para a menina, ainda completou:
— Não tem problema, meu bem.
A vovó vai pedir para o tio Eduardo levar para você brincar lá na sua casa.
E ainda prometo uma coisa:
vou montar, aqui em casa, uma brinquedoteca só para você.
Assim, a qualquer hora que vier visitar a vovó, tudo, tudo o que você quiser, você terá.
Beijando a cabecinha da pequena, Gilda se despediu:
Nesse instante, Helena sentiu-se esquentar ao lembrar-se das palavras da irmã quando ela disse que Gilda iria querer "comprar a menina com tudo o que tiver ao seu alcance".
Virando-se para Helena, Gilda agradeceu:
— Obrigada, viu, meu bem. Obrigada mesmo por você vir junto com ela, mas não se preocupe, pois não vamos incomodá-la muito; você não terá que vir sempre aqui cada vez que quisermos ver nossa neta.
Daqui algum tempo, tenho certeza, minha Bianca vai estar disposta e virá sozinha.
Aí será só mandar o motorista ir pegá-la.
Helena deu um sorriso forçado e não disse nada.
Seu coração estava apertado, e um sentimento de insegurança passou a incomodar.
* * *
O caminho de volta foi feito em silêncio, e, ao chegar em casa, Helena logo viu que Vagner estava no portão a sua espera.
Ela desceu do carro, agradeceu Eduardo e, após cumprimentar o namorado, entraram.
Bem mais tarde, conversando a sós com Vagner, tentou desabafar:
— No sábado, quando conversei com a Lara, eu a senti tão estranha, ela disse algo sobre...
— Oh, Lena, dá pra parar de falar desse assunto? — pediu com certa rispidez, interrompendo-a bruscamente.
—Credo, Vagner! Que horror!
—Estou sendo sincero. Não aguento mais falar sobre morte.
A mulher já se foi, deixe-a descansar em paz.
Não é esse o correto?
Surpresa, Helena ficou perplexa.
Aquela forma gélida de pensar revelava em seu namorado uma criatura insensível.
No tempo oportuno ela haveria de censurá-lo; no momento, era melhor se calar.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 31, 2017 11:49 am

2 - DÚVIDAS AMARGAS

Com o passar dos dias, Helena estava no serviço onde trabalhava como operadora de computador.
Seus colegas compreenderam sua quietude, entretanto uma amiga mais próxima a procurou para tentar elevar seu ânimo, após observar sua tristeza.
—E em casa, como todos estão? — perguntou Sueli.
Helena ergueu o olhar tristonho e desabafou:
—Sabe, Sueli, eu sei que tudo está muito recente, mas...
—Seu irmão ainda está morando com vocês?
— Está sim. A Bianca também não quer voltar pra casa.
Ela está tão abatida, só come quando está comigo, dorme na minha cama e toda encolhida.
Mal posso me mexer.
— Coitadinha. Ela deve estar sofrendo tanto!
Logo nessa idade, perder a mãe assim no momento que tanto se precisa de atenção, de carinho...
—Perder a mãe é difícil em qualquer idade, Sueli.
—Eu imagino. Mas a Bia é muito novinha, não entende nada da vida.
Sabe, eu gosto tanto dela... — admitiu, extremamente sensibilizada.
Acho que vou lá para tentar conversar com ela um pouco, sair e levá-la pra passear, quem sabe...?
Gostaria que tentasse.
Está sendo difícil não ter ânimo e tentar alegrar uma criança.
Toda ajuda é bem-vinda.
- E você, Lena? O que tem?
Brigou com o Vagner?
— Sinto uma angústia.
Meu coração está tão apertado, dolorido.
— Você sabe qual é o motivo? — tornou Sueli.
Com o olhar cintilante, transparecendo profundo sentimento de dor, Helena desabafou:
— Você sabe que a Lara era dona de uma escola de educação infantil, do maternal ao pré-primário, que o pai dela montou antes da Bianca nascer.
— Sei. Lembro que você me contou que seu irmão não queria aceitar a ajuda do pai da Lara, mas acabou concordando.
— Ele não queria porque a dona Gilda sempre foi contra o casamento deles.
Ela queria que a filha se casasse com alguém do seu meio social.
— Mas não. A Lara foi se apaixonar por alguém que trabalha na redacção de uma revista.
Que mulher ridícula!!! — reclamou Sueli, que já sabia de toda aquela história.
Preconceito ridículo!!!
—Só que, depois que a Bianca nasceu, a dona Gilda quebrou o orgulho e se aproximou da filha novamente.
Meu irmão não gostou, mas decidiu que não seria ele quem iria estragar a reconciliação das duas.
— Essa dona Gilda sempre foi um osso duro de roer.
— Você nem imagina.
— Sei pelo que você me conta.
—Ela é uma mulher que, garantida por sua posição social, por seu status, pensa e diz tudo o que quer sem se importar com o sentimento de ninguém.
Ela é terrível.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 31, 2017 11:49 am

Após alguns segundos, Helena prosseguiu:
— Mas não era isso o que eu queria dizer.
Acontece que meu irmão contou que a Lara, no dia do acidente, tinha ido até a escola buscar o presente de aniversário da Bianca, pois minha sobrinha estava ansiosa pelo brinquedo e o procurou por toda a casa.
Disse o Mauro que a Lara, querendo fazer surpresa, guardou-o lá na escola e, naquela manhã, quando foi buscá-lo, aconteceu o acidente.
—Disso eu sei.
Onde você quer chegar? — interessou-se Sueli.
—Acontece que, quando ficou decidido que o Mauro e a Bia ficariam lá em casa, eu fui lá na casa deles buscar algumas roupas, entre outras coisas, e você não imagina como fiquei quando encontrei, no quarto da Bianca, bem escondido no maleiro, o seu presente de aniversário com um cartãozinho, muito carinhoso, com a letra da Lara.
Sueli arregalou seus olhos puxados, ficando com uma expressão interrogativa.
— Isso não é tudo.
O cartão, apesar de muito carinhoso, é um pouco melancólico, quase como uma despedida.
— Que estranho!!! Você acha que a Lara se suicidou?!
— Não acredito que ela tomasse uma atitude tão insana quanto essa e, principalmente, no dia do aniversário da filha.
Só que é muito estranho ela ter ido buscar algo que, certamente, sabia que estava em sua casa.
Ela mentiu, com certeza.
Não creio que tivesse esquecido onde guardou o presente da filha.
— Você contou isso ao seu irmão?
— Não. De jeito nenhum.
— O que você acha que a Lara tentou esconder?
— Sábado à noite, quando nos falamos por um longo tempo ao telefone, a Lara estava estranha.
Há algum tempo eu vinha percebendo que ela estava diferente, triste, melancólica, pensativa.
Sempre fomos muito amigas e ela me contava tudo.
Porém, dias antes, talvez um mês, a Lara parecia estar escondendo algo de mim.
Não dei importância, até porque todos temos o direito à privacidade.
Mas no sábado ela me fez algumas perguntas estranhas.
— Estranhas como?
— Ela me perguntou se eu achava que meu irmão tinha coragem de traí-la, se ele podia ser uma pessoa completamente diferente do que se apresentava.
Depois quis saber se eu havia percebido nele alguma atitude desequilibrada, psicologicamente falando.
A princípio eu ri, mas depois, quando me interessei pelo assunto, a Lara desconversou.
Será que ela desconfiava do Mauro?
E, se desconfiasse, o que isso teria a ver com a mentira que contou sobre ir buscar o presente da filha?
— Não sei, não faço a mínima ideia.
Só sei de uma coisa: isso está acabando comigo.
Sinto uma amargura que nem sei explicar.
Além disso, sou muito apegada a Bianca e temo que a dona Gilda tente afastá-la de nós.
— Não acredite nisso, Lena.
— Tenho meus pressentimentos.
Essa mulher é capaz de querer comprar a Bia com coisas que não podemos dar.
Ao longo do tempo, percebemos que a Lara começou a se aproximar muito da mãe, talvez por estar sentindo falta do luxo.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 31, 2017 11:49 am

Eles vivem em um mundo completamente diferente do nosso, cravado de riqueza, luxo, de tudo do bom e do melhor.
— Se você está com medo de perder a menina para valores materiais, esqueça.
Criança gosta de carinho e amor, e isso não se compra.
— Tenho lá minhas dúvidas.
— Tudo é muito recente, Lena.
Aguarde. Dê um tempo.
— Além disso, Sueli, voltei a ter novamente aqueles sonhos estranhos.
— Com aquele homem bonito?
— No sonho, ele aparece sempre quando estou naquela praça.
Parece ser uma cidade europeia, com neblina densa, as roupas são pesadas...
É um sonho tão real — disse com olhos brilhantes.
— Não viva na ilusão.
Veja se não vai querer brigar com o Vagner por causa de um sonho.
— Se o homem desse sonho for minha cara-metade, estou condenada a ser infeliz, pois ele deve estar morto.
Agora, falando em Vagner, ele anda tão diferente.
— Não falei que você ia começar a implicar com ele — disse sorrindo.
As amigas continuaram a conversa um pouco mais, mas logo voltaram para seus afazeres.
Mesmo após ter desabafado, Helena ainda sentia-se triste pelo segredo que guardava.
Após alguns dias, mesmo sentindo o amargo sabor da perda, Adalberto, pai de Lara, precisou retomar seu cargo de presidente na empresa metalúrgica da qual era sócio majoritário.
Mascarando a dor, de seu lugar de destaque na mesa de reunião, ele falava aos assessores, directores e conselheiros da empresa.
— Hoje vendemos para mais de quarenta países um m/x de produtos, de peças para corte de mármores e granitos, acessórios de todas as espécies, produtos laminados de diversos materiais que vão do aço ao carbono e microligados.
Diante das possíveis crises do mercado financeiro, sempre há uma preocupação muito grande em manter nosso nível de produtividade e conquistar novos clientes.
— No ano passado tivemos uma venda de quinze mil e seiscentas toneladas de peças.
E neste ano, até a presente data, já vendemos mais de vinte mil toneladas — lembrou Eduardo, que era um dos directores presentes e satisfeitos.
— O salto ainda é pequeno, meus caros! — tornou Adalberto com ênfase, chamando a atenção novamente para si.
Temos capacidade de produzir e vender muito mais.
Hoje temos o mercado estrangeiro de braços abertos para os nossos produtos.
— Bem lembrado, Adalberto — opinou outro director.
Podemos dizer que o domínio mercadológico da nossa empresa ultrapassa quarenta países.
Sem contar que temos grupos de executivos nos representando em países que passaram por guerras e estão sendo reconstruídos, e certamente teremos contractos com esses clientes em breve.
— Isso mesmo! — exclamou Adalberto.
A construção civil, principalmente nos países do Oriente Médio, vai garantir as vendas de peças em geral, ferramentas manuais, pás e principalmente peças para tractores, e é aí que a nossa margem de lucro se eleva.
— A estratégia é simples — acrescentou Eduardo.
Investir em peças pesadas para a agricultura e a construção civil a fim de mantermos as exportações eficientes mediante os pedidos e negociar bem com os principais países do Mercado Comum Europeu, como Alemanha, Espanha e Portugal.
Em outras palavras, tratar bem os clientes, pois eles sempre têm razão.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 31, 2017 11:49 am

— Perdoem a minha insistência — interrompeu um gerente que participava da reunião —, mas não podemos esquecer de voltar nosso foco ao treinamento do pessoal e à segurança.
— Não estamos nos esquecendo disso, meu caro! — considerou Adalberto, parecendo insatisfeito com a proposta, talvez inconveniente.
ó creio que devemos marcar outra reunião para estabelecermos algumas bases, a fim de cuidarmos desses aspectos.
E, sem oferecer trégua, quis encerrar:
— Se ninguém tiver mais comentários sobre o processo das nossas estratégias, podemos encerrar a reunião.
E não nos resta mais nada, a não ser nos darmos os parabéns pelo sucesso alcançado até agora — concluiu sorridente.
A equipe se levantou e, após breves aplausos, um a um foi saindo depois de ligeiro aperto de mão ao presidente.
A sós com o pai, Eduardo largou-se na confortável cadeira, afrouxou a gravata e questionou:
— Não achou estranho não terem comentado nada sobre a morte de Lara?
— Antes de chegar, por telefone mesmo, pedi à Paula que ninguém tocasse nesse assunto.
Já recebi visitas e condolências suficientes.
Não quero ficar relembrando.
Eduardo pareceu ter tomado um choque com aquela resposta.
Suas emoções pareciam ter brotado de tal forma que questionou indignado, quase inquirindo:
—Isso é certo, pai?
—Preservar a minha paz interior, é! — respondeu arrogante, sem nenhuma gentileza; e, após reunir alguns papéis, retirou-se sem olhar para o filho.
Eduardo se sentiu mal, algo o incomodou.
Foi então que dúvidas nunca surgidas antes passaram a latejar em sua cabeça.
"Será que devemos esquecer alguém que se foi?", pensava.
"A morte é o fim?
Será que há vida além do túmulo?"
Nesse instante a secretária entrou na sala de reuniões e, discreta, tentou voltar para não tirá-lo do que percebeu ser uma profunda reflexão.
— Paula!? — chamou, percebendo sua presença.
— Pois não? — retornou a moça educadamente.
— Algum recado para mim? Alguém ligou?
— A Geisa. Mas, conforme me pediu, eu disse que estava em reunião.
— Óptimo. Para ela, sempre estarei em reunião — concluiu com convicção.
Levantando-se, Eduardo arrumou a gravata, alinhou os cabelos rapidamente com os dedos e ia pegando o paletó quando Paula, um pouco constrangida, perguntou recatada:
— E a dona Gilda, como está?
— Minha mãe é forte — respondeu chateado.
Ela é uma mulher equilibrada e decidida.
Dificilmente algo a abala por muito tempo.
Após alguns instantes de reflexão, com olhar distante, revelou:
— Às vezes gostaria de ter um pouco de sua frieza, de sua força.
Mudando rapidamente o assunto, ele pediu:
— Paula, por favor, leve esses documentos para minha sala.
Vou almoçar agora e... mais tarde eu os examino.
— Sim, certo — respondeu prontamente.
A partir de então, Eduardo passou a se ver às voltas com questões até então nunca pensadas; afinal, sua educação familiar só abrangia o mundo social dos negócios.
Era um rapaz privilegiado pela natureza, que o avultou com uma beleza nobre e uma superioridade evidentemente espontânea, mas, apesar disso, possuía uma boa índole e um bom coração.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 31, 2017 11:50 am

Muito cobiçado pelas moças, era alto, cabelos lisos, castanhos bem claros, que emolduravam o rosto alvo, de traços finos e bem delineados, e sempre com a barba bem-feita, onde um belo par de olhos azuis ressaltava como contas rutilantes cercados por longos cílios curvos.
Sua educação requintada, forjada na riqueza, o fez adoptar um estilo clássico, porém jovial, de se portar e viver.
Ele não conhecia um outro mundo menos glamouroso.
Entretanto, essa mesma educação negou-lhe alguns conhecimentos.
Ele só teve foco para ideias materialistas que inibiram suas reflexões com relação à eternidade, à fé e ao futuro do ser no além da vida.
Por conta disso tudo, Eduardo encontrava-se agora amargurado com a prova da perda irremediável da irmã que tanto amava, chocara-se com as considerações do pai, que se negava a falar sobre a morte de Lara, e com sua mãe, mulher orgulhosa e arrogante, que parecia recuperar-se facilmente de qualquer golpe, até mesmo daquele.
Confuso, o rapaz não buscou resposta para suas questões íntimas, deixando-se corroer por pensamentos cruéis e causticantes.
Porém, o sábio destino haveria de forçá-lo a situações que pudessem oferecer a oportunidade de questionar e aprender.
* * *
Decorridos vários meses dos últimos acontecimentos, na casa de dona Júlia e de seu Jairo, Helena procurava conversar com seu irmão, que, a cada dia, parecia mais deprimido.
— Mauro, sei que você e Lara eram muito apegados, que essa separação brusca trouxe muita dor, mas você não pode ficar assim abatido, desanimado.
Ultimamente eu o vejo agir de modo automático, com frieza e sem dar importância às coisas.
Pálido, muito abatido, Mauro se mostrava sem forças até para se explicar.
— Dia e noite eu penso nela.
Quase não durmo.
Lágrimas começaram a rolar em seu rosto e, após secá-las com as mãos, prosseguiu:
— Em meus pensamentos eu vejo a sua imagem, ouço a sua voz e... sei que Lara sente a minha falta.
Imagino que sofre muito.
— Será? — ponderou Helena.
Será mesmo que ela não está bem ou está descansando em um lugar bom como achamos que deveria ser após a morte?
De repente, a sua amargura, a sua tristeza a está deixando infeliz.
Acredito que a morte é um descanso para aqueles que cumpriram sua missão, mas esse descanso eterno pode ser abalado pela tristeza daqueles que aqui ficaram e não esquecem dos que se foram.
Se Deus a levou, é porque você pode seguir seu caminho sozinho.
—Não consigo.
Não tenho forças para continuar.
—Mauro, você precisa reagir!
Pense na Bianca, ela precisa de você.
Encarando a irmã com olhos húmidos e voz rouca, ele disse:
—Não sei o que fazer.
Nem coragem para voltar à minha casa eu tive.
Às vezes penso em vender tudo, até a escola.
Mas não sei se a Lara gostaria.
Por que isso aconteceu, Helena? Por quê?
Ela não sabia responder.
Lembrou-se do presente da sobrinha que havia encontrado e que certamente Lara mentira quando disse que iria buscá-lo, mas não ousou contar.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 31, 2017 11:50 am

Também não falaria sobre a conversa que tivera com Lara, na qual ela apresentara algumas dúvidas estranhas a respeito do comportamento do marido.
Helena confiou tais revelações somente à sua mãe, dona Júlia, e esta sabiamente lhe pediu que não comentasse nada e que, bem discretamente, colocasse o brinquedo no meio de outros presentes que Bianca havia ganhado, sem dizer nada a respeito dele.
Preocupada com o irmão e tentando ajudá-lo, Helena lembrou:
—Mauro, na próxima semana terminam suas férias, foram mais de dois meses.
Lembre-se de que o seu chefe é um homem consciencioso, que entendeu bem sua situação, seus pesares, mas toda empresa precisa de um funcionário, não de um problema a mais.
Creio que lá na redacção você tem que voltar a ser o que sempre foi, prestativo, dinâmico, com ampla visão sobre os fatos...
—Nem tenho vontade de voltar a trabalhar, sabia?
—Quer ficar aqui enfiado nesse quarto o tempo todo?
E o momento de reagir.
Pense na Bianca, que precisa muito de você, da sua atenção.
—Minha filha está bem.
—Está bem?! — repetiu com tom de censura na voz.
Ora, Mauro! Ela não quer ir à escola, está triste, deprimida, chora quando o vê nesse estado.
E você vem me dizer que ela está bem?
—O que quer que eu faça?
—Dê-lhe atenção, amor... sua presença é muito importante.
Ou você não pensa nisso?
Já basta ter perdido a mãe.
Sua ausência é uma tortura ainda maior.
Nesse instante, dona Júlia entrou no quarto interrompendo a conversa sem perceber e avisou:
— Helena, telefone. E o Vagner. Levantando-se, a jovem arrematou:
— Pense nisso tudo, Mauro.
E para o seu bem.
—O que foi, Helena? — perguntou dona Júlia com simplicidade.
—Nada, mãe.
Vem, deixe-o pensar.
Helena foi até a sala e, depois de atender a ligação que durou um tempo considerável, ficou pensativa por alguns instantes, até que sua mãe tirou-a de suas reflexões.
—E o Vagner, Lena? Já arrumou um emprego?
Com a voz fraca, sentindo-se envergonhada, a moça respondeu:
— As coisas estão difíceis, mãe.
Encontrar um bom emprego não é fácil.
— Principalmente para ele que não tem uma especialização, não é?
Helena ficou em silêncio, não tinha argumentos para defender o namorado.
Logo dona Júlia considerou:
—Filha, entendo que um bom emprego não está fácil, mas, não sei se você reparou — disse agora com jeitinho —, o Vagner não se esforça, não se empenha, não tem iniciativa.
Vejo você trabalhando no mesmo lugar há mais de seis anos e, depois que terminou a faculdade, não pára de fazer curso de informática, actualização nisso e naquilo.
E ele? Vocês estão namorando faz tempo, não é?
—Eu sei, mãe — admitiu, aborrecida.
—Sei que você sabe, Helena.
Mas vejo que não se mexe, não cobra do Vagner uma atitude, uma melhora de vida.
Até quando pretendem ficar aí só namorando?
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 31, 2017 11:50 am

Até quando ele vai viver de "bico"? ... sendo vendedor ali numa loja de sapato numa hora, na outra é repositor em um mercado, depois se torna ajudante de feirante...
Não que essas não sejam profissões dignas, mas ele não chega a ficar seis meses empregado!
Será que a culpa é sempre do patrão? Você quer saber de uma coisa?
O Vagner pode fazer faculdade, pós-graduação, mestrado, doutorado e, mesmo assim, não vai parar em emprego nenhum.
Penso que isso é do génio dele, da personalidade dele, não parar em emprego.
Por que será que algumas pessoas simples, que não têm nada na vida, de repente se destacam e conseguem tantas coisas? — sem esperar pela resposta, completou:
— Porque aproveitam a oportunidade, possuem um génio bom, uma personalidade tranquila, são interessadas em aprender, têm iniciativa para ajudar, não são exigentes, mandonas ou briguentas.
Os patrões não gostam de gente metida a besta, e é por isso que muitos conseguem permanecer no emprego, porque são pessoas flexíveis, fáceis de lidar.
Enquanto outras, com curso superior e tudo, não param no serviço, não arrumam qualificação.
Sabe por quê? Umas pessoas porque acham que sabem tudo, outras porque são arrogantes, pensam que podem dizer tudo a todos, não sendo ponderadas nem flexíveis, mas mandonas, irritadas, exigentes, ou então sendo criaturas desinteressadas, sem ânimo e sem iniciativa. Ninguém suporta conviver com gente assim, por isso os patrões mandam embora mesmo.
Após uma pequena pausa, vendo que a filha permanecia calada, a mãe perguntou:
—Voltemos ao Vagner.
Como ele pretende se casar com você?
Sim, porque se estão namorando é porque pensam em um futuro juntos, devem pensar em casamento, claro.
Ou vocês vão namorar pelo resto da vida?
—Claro que não, né, mãe! Afinal de contas...
Interrompendo-a, dona Júlia completou:
— Afinal de contas você trabalha e pode sustentá-lo muito bem.
Acho que é isso que ele pensa.
Se vivêssemos anos atrás, eu diria que ele é um caça-dotes.
— Ora, mãe! — disse, levantando-se do sofá insatisfeita com o assunto.
— Filha! Estou falando isso para o seu bem!
Estou alertando para que você cobre do Vagner uma posição, uma atitude.
— Que atitude, mãe?
— Não se faça de desentendida, Helena!
Ou ele a deixa para que você não perca seu tempo com esse namoro e tenha liberdade de conhecer alguém que a ame e seja responsável, ou ele que procure se estabilizar profissionalmente, financeiramente.
Se o Vagner gostasse mesmo de você, estaria fazendo de tudo para progredir na vida.
— Eu gosto do Vagner, mãe.
—Será, filha? Será que não se acostumou a ele? Helena enxugava o rosto com as mãos, escondendo-o entre os belos e longos cabelos, enquanto a mãe continuava alertando:
— Você acabou de fazer vinte e cinco anos, filha.
Quando é que vai pensar em você mesma?
Quando tiver trinta e cinco ou quarenta?
Quando não tiver mais tanta oportunidade de conhecer um rapaz jovem, animado, trabalhador e que goste de você?
Pense, Helena.
Você está perdendo sua juventude com uma pessoa que não a valoriza, que não a ama de verdade.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 01, 2017 10:30 am

— Chega, mãe. Tá bom.
— Só quero saber uma coisa — perguntou, sempre mantendo um tom baixo na voz firme —, quem é que paga as contas quando saem, quando vão ao cinema, a um barzinho...?
O som da campainha interrompeu a conversa, e dona Júlia foi atender.
Helena se sentiu aliviada, retirando-se para o banheiro a fim de ir lavar o rosto.
Dona Júlia, com muito prazer, recebeu Sueli, amiga da filha, fazendo-a entrar e colocando-a bem à vontade.
— A Helena já vem, Sueli.
Mas, me diga, por que está tão sumida?
Há tempos não vem aqui em casa.
— Sabe o que é, dona Júlia, minha mãe não esteve bem nos últimos tempos e eu tive que ir visitá-la nos fins de semana.
— Ela mora na cidade de Casa Branca, não é? — lembrou a anfitriã.
— Sim, mas não é no centro da cidade.
Meus pais moram em um sítio, um pouco afastado.
Qualquer dia faço questão de que a senhora vá visitá-la; minha mãe vai adorar.
Ela já conhece a Helena.
Tenho certeza de que a dona Kioko vai ficar recomendando:
"Se precisar, pode puxar as orelhas da Sueli.
Pode dar broncas como se fosse sua filha" — disse arremedando com um jeito engraçado e descontraído.
— Ah! Se ela me der essa permissão, você estará perdida — afirmou em tom de brincadeira.
Adoro a senhora, dona Júlia.
Quando estou aqui me sinto como se fosse da família.
Nem lembro que tenho olhos puxados — falou, abraçando-a com meiguice ao brincar.
— Você é da nossa família, Sueli — argumentou, retribuindo o carinho.
Mas não espere que eu vá a Casa Branca; traga sua mãe aqui quando ela vier a São Paulo.
— Vou me lembrar.
— E seu irmão, Sueli? Como está?
— Estudando feito um louco!
E seu último ano de faculdade, sabe como é...
O Felipe sempre foi muito dedicado, bem diferente de mim.
A senhora viu quanto penei na faculdade, se não fosse a Helena...
Sabe, meu irmão não está dormindo nem quatro horas por noite.
Admiro a disposição que ele tem.
Acredite, o Felipe nem reclama de ter que levantar cedo.
— Queria que o Vagner fosse assim.
Não sei como uma moça como a Helena se dispõe a namorar um rapaz como ele.
Sueli ficou em silêncio, pois sabia do que se tratava, e dona Júlia desabafou:
— Agora há pouco eu dei uma chamada na Helena.
Onde já se viu? Esse rapaz não quer saber de nada com nada!
Não fica nem seis meses no mesmo emprego.
Então, se acontece isso em todo lugar em que trabalha, o problema não é na empresa, é com ele. Você não acha?
— Para dizer a verdade, dona Júlia, eu já andei dando uns toques à Helena.
Acho que o Vagner não tem futuro, e ela com ele também não terá.
Mas ela não reage e acaba ficando chateada com o que a gente fala.
Tenho medo de insistir nesse assunto e acabar perdendo a amizade.
— Você acha que o Vagner tem muita influência sobre ela?
— Eu acho que sim.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 01, 2017 10:30 am

— Nem sei mais o que faço, viu Sueli — reclamou, desalentada.
Acho que, de hoje em diante, a Helena vai ter que me ouvir todos os dias.
Se esse moço não se decidir na vida, a Helena vai ter que tomar uma atitude.
Estampando no rosto um semblante preocupado, dona Júlia se calou no mesmo instante em que a filha chegou e cumprimentou a amiga.
— Vou fazer um suco para vocês.
— Não, dona Júlia.
Não se dê ao trabalho — pediu Sueli.
— Vim chamar a Helena para ir comigo ao shopping.
Virando-se para a amiga, esclareceu:
Quero que me ajude a escolher uma roupa para aquele casamento do colega do Felipe.
Helena parecia triste enquanto o vermelho em torno dos olhos continuava nítido.
Sem exibir alegria, com voz fraca, avisou timidamente:
—O Vagner vem aqui mais tarde e...
Com uma energia nada desprezível, dona Júlia sentiu um brando de calor aquecer-lhe e, imediatamente, interrompeu a filha, dizendo firme, mas sem ser agressiva:
— Helena, minha filha, por acaso o Vagner vai levá-la a algum lugar, a algum passeio que valha a pena?
Porque, se for a mesmice de sempre, eu aconselho que vá ao shopping com a Sueli. Tenho certeza de que será mais proveitoso.
— Puxa, mãe!
A senhora não vê que está me magoando? — respondeu com voz embargada, começando a chorar novamente.
—Eu estou alertando você, minha filha.
Vai se arrumar logo e saia para passear com sua amiga.
Não se prenda por quem não vale a pena.
Com cautela a amiga interferiu na conversa, argumentando:
— Olha, Lena, eu não queria me intrometer, mas, veja, sua mãe tem certa razão.
É hora de você olhar para cima, pensar mais em você.
— Achei que fosse minha amiga, Sueli — disse com certa melancolia.
— E sou! Só quero o seu bem!
Olha, vamos sair, esfriar a cabeça e depois, se quiser, podemos conversar sobre isso.
— Helena, estamos falando para o seu bem — tornou a mãe.
Esse moço não a merece.
— Está bem, mãe.
Deixe-me pensar e decidir sozinha — respondeu ainda magoada.
— Vamos, Lena.
Pegue sua bolsa e vamos logo — chamou a amiga.
—Vem aqui no quarto — pediu Helena, tristonha.
Dona Júlia, com toda razão, preocupava-se com o futuro da filha e, consequentemente, com seu namoro com um rapaz que não se importava em progredir.
Ela sabia que a acomodação de Vagner poderia durar enquanto Helena fosse tolerante.
Por isso, decidida, a mãe não iria descansar até que aquela situação se resolvesse.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 01, 2017 10:30 am

3 - PRECONCEITOS REVELADOS

Na semana que se seguiu, Gilda, acompanhada de sua irmã, Isabel, e de sua melhor amiga, Marisa, apareceu de surpresa na empresa da qual era sócia com o marido.
Exuberantes e ricamente trajadas, elas chegaram ao andar onde ficava a presidência.
Aproveitando a ausência da secretária, adentraram na sala que pertencia a Adalberto sem se fazerem anunciar.
Mas não havia ninguém.
— Gilda, não é melhor esperarmos a Paula chegar? — aconselhou a irmã.
— O que é isso, minha filha?! — retrucou arrogante e imponente enquanto ria.
Mesmo que eu não seja uma executiva dessa companhia, sou sócia do Adalberto e tenho direito a metade de tudo o que é dele.
Se bem que, para muitos aqui, eu não passo de uma mera figura decorativa.
Entretanto, cada conta, cada acção, cada título que pertence ao meu marido, também me pertence.
— Até o valoroso tapete dessa sala, não é Gilda? — brincou Marisa com risos de ironia.
No confortável ambiente executivo ricamente decorado, Gilda caminhou alguns passos, puxou a poltrona que ficava à mesa da presidência e se acomodou bem à vontade, girando-se suavemente de um lado para outro.
—Onde será que está o Adalberto? — reclamou a esposa exigente, sempre trazendo um tom irónico em seu jeito de falar.
—De certo, em alguma reunião — opinou Isabel, sua
irmã.
Gilda não deu importância e, de súbito, começou a mexer nas pastas sobre a mesa e a olhar nas gavetas.
— O que você está procurando, minha amiga?
Pode encontrar coisas que não deseja! — alertou Marisa, sempre sorrindo mecanicamente para se fazer agradável.
— Meu bem, não é sempre que podemos entrar na toca do lobo sem que ele esteja.
E, quando temos oportunidade para isso, o melhor a fazer é conhecer tudo direitinho.
— O que você quer não deve estar aí! — retrucou Marisa com certa zombaria.
Imagine se o Adalberto vai "guardar o ouro onde o ladrão pode encontrar com facilidade".
— Nunca se sabe, queridinha.
Além do mais, o meu marido não é tão inteligente assim; sem contar que ele nunca sabe quando eu vou aparecer aqui — tornou Gilda.
— Você teme perder o Adalberto para outra, Gilda? — questionou Marisa.
— Imagine se vou ter medo de perdê-lo! — afirmou, depois gargalhou.
Para mim seria um favor.
Agora, o que eu não admito é perder a fortuna dele! — exclamou com sarcasmo gargalhando a seguir, levando as companheiras também ao riso.
Mas logo prosseguiu:
— Pense bem, um marido como o meu qualquer uma pode arrumar, mas o património que temos...!
— Eu ficaria desesperada se perdesse o meu marido — revelou Isabel um pouco mais séria e com um olhar de censura para a irmã.
— Pensará assim, irmãzinha, até saber que o Pedro lhe arrumou aqueles lindos pares, você sabe do quê, bem no alto da cabeça.
Os homens hoje em dia acham que é moda trair.
Eles querem se auto-afirmar, principalmente quando estão ficando coroas; só pensam em arrumar menininhas para se exibirem, mostrarem aos colegas que estão em forma.
— Ai! Que assunto terrível, Gilda! — reclamou Isabel, insatisfeita.
Vamos parar?
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 01, 2017 10:31 am

E a realidade, minha filha.
E eu não gosto de me iludir.
Nesse instante Eduardo entrou na sala e ficou surpreso com a visita.
—Ora, ora! Quanta honra! — exclamou o rapaz que, beijando uma a uma, as cumprimentou educada e gentilmente
—Olá, tia! Oi, Marisa!
—Esse seu filho, Gilda, sempre elegante, bonito e gentil — considerou a amiga.
Ah!!! Se eu tivesse uma filha...!
— O Edu nasceu do amor das entranhas da minha alma!
Sou loucamente apaixonada por esse meu filho!
— ... que certamente deve dar um trabalho! — tornou Marisa, sorridente.
— Que nada — defendeu a tia.
O Edu é sensato, ponderado e não se envolve em encrencas.
— E! Mas bem que as encrenquinhas vivem telefonando lá para casa.
Se eu fosse anotar o nome de todas elas, não caberia num caderno de cem folhas.
— Não exagera, mãe — reclamou o moço, sorrindo.
Também não é assim.
Só quem liga são colegas lá do clube...
— Ah, é?! Então devem ser do seu fã-clube, meu amor, porque lá só tem mulher — avisou Gilda alegremente.
— E em meio a tantas não há nenhuma que preencha o vazio de seu coração? — perguntou Marisa com certa malícia e, voltando-se para Gilda, indagou:
— Quem será essa privilegiada ou coitada, dependendo da sua mãe.
— Ela ainda não existe, Marisa — respondeu o rapaz sorrindo, agora para ser amável.
— Também, quando surgir, coitadinha, nem quero ver — brincou a tia.
A Gilda vai massacrar essa moça.
— Massacrar eu não digo, Isabel.
Mas vou ser bem exigente sim!
Agora, aproximando-se do filho, Gilda o abraçou, o beijou e disse:
— Esse meu filho querido vale ouro, e a moça que o quiser terá que pagar o preço da onça*, e pode ter certeza de que vou cobrar em dólar!
— Ih, mãe! Não exagera! — pediu, afastando-se do abraço.
— Exagero, sim.
— A Verinha é quem parece ser louca por você, não é Edu? — perguntou Marisa, indiscreta.
- Eu já disse para a minha filha — comentou Isabel, mãe da moça em questão:
— Vocês são primos, e isso não é bom.
Além do mais, a Vera é uma criatura muito difícil, tenho que admitir.
— Você é boba, Isabel.
Isso é besteira.
Eu adoraria ver meu filho com a minha sobrinha.
A Verinha é das minhas!
— Hei, hei, hei!!! — alertou o rapaz quase sério.
Não planeiem nada para a minha vida.
Só tenho vinte e sete anos e muito para aproveitar.
— Acho que já está na hora de arrumar um netinho para a Gilda — propôs Marisa com ironia.
— Vamos mudar de assunto? — pediu Eduardo, não suportando mais aquela conversa.
Mãe, se você veio aqui para ver o pai, esqueça.
Ele foi a um almoço com um cliente, nem deve voltar.
—Cliente?! Sei...! — disse Gilda.
Conheço esses almoços. Eduardo pendeu negativamente com a cabeça e sorriu, não
concordando com sua mãe.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 01, 2017 10:31 am

Então perguntou:
—Em que posso ajudá-la?
Aproximando-se novamente, enquanto lhe beijava o rosto se despedindo, Gilda respondeu:
— A mim, em nada, meu amor.
Eu tenho talão de cheques e cartões. Tchauzinho!
— Credo, Gilda! Que horror! — censurou Isabel, que também foi se despedir.
Após a saída delas, Eduardo ficou sozinho na sala.
Sentando-se na cadeira de seu pai, pensativo, esboçou um suave sorriso no rosto pela cena que acabara de acontecer.
"Por que será que minha mãe é assim tão...", pensava, mas foi interrompido pelo vulto que percebeu presente.
—Oi!
Recompondo-se, ele se ajeitou, sorriu e retribuiu o cumprimento:
—Olá, Geisa! Como vai?
Após se aproximar e o beijar, a moça respondeu:
— Melhor agora.
Mas me diga uma coisa, Eduardo:
por que você está me evitando?
Perdoe-me por ser tão directa, mas isso está me incomodando.
— Não estou evitando ninguém.
— Não minta — falou sorrindo.
Está se esquecendo de que minha mãe é a Natália, directora dessa empresa também e que acompanha todas as reuniões?
—Nem todas, meu bem — respondeu quase insatisfeito.
—A sua mãe, excelente executiva e grande mulher de negócios, acompanha as reuniões onde entram assuntos da contabilidade, números.
— Ela me disse que não houve reunião nenhuma ontem no horário que eu liguei e a Paula me informou que você não podia atender porque estava em uma — falou a jovem que caminhava lentamente pela sala, exibindo gestos forçosamente delicados, além do tom quase debochado na voz.
— Eu estava em uma videoconferência.
Era isso — replicou, irritado.
— Faça de conta que eu acredito, tá?
— O que faz aqui, Geisa?
— Vim ver você. Já que "Maomé não vai até a montanha...".
Passei em sua sala e imaginei que pudesse estar aqui.
— Mas infelizmente, Geisa, já estou saindo.
Tenho que trabalhar — avisou, levantando e se preparando para sair.
— Eduardo, não fuja! — pediu, se aproximando.
— Eu não tenho do que fugir.
Só tenho que ir trabalhar.
Preciso despachar alguns contractos ainda hoje, há muitos para ler.
— Vamos sair hoje? — convidou com jeito dengoso.
— Hoje não dá. Agora, com licença, Geisa, eu...
— Na sexta — insistiu.
— Olha...
Contrariado, ele perdeu as palavras e finalizou:
-Vou ver. Eu ligo.
Agora me desculpe, eu preciso mesmo ir. Tchau.
—Ei! Eu não ganho nem um beijinho?
Ele voltou, beijou-lhe o rosto e saiu em seguida.
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Ave sem Ninho

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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 01, 2017 10:31 am

A moça ficou a sós por alguns minutos até que Natália, sua mãe, entrou.
Natália era uma mulher independente e inteligente que se trajava sempre com muita classe.
Com um corpo escultural, mantinha no rosto um sorriso constante que exibia jovialidade, parecendo mais irmã de Geisa, filha que criou sozinha, pois sempre fora auto-suficiente.
Dona de um temperamento possessivo que procurava mascarar com ponderação e gestos gentis, almejava sempre o melhor para si e para a filha sem se importar com os obstáculos a vencer.
Ao ver Geisa sozinha, logo questionou após beijá-la:
—Por que está aqui?
— Eu estava conversando com o Eduardo, mas ele precisou ir.
— Não podemos espantar a presa quando estamos caçando, minha filha — disse, rindo, como se debochasse da moça enquanto a circulava.
Logo completou:
— Não se fala xô! quando se quer pegar aves.
— E o que você quer que eu faça?! — irritou-se a moça, sentando-se em uma cadeira em frente à mesa.
Natália curvou-se e, próximo a seu ouvido, cochichou baixinho:
—Se correr atrás de um homem, ele foge.
Encontre um motivo para chamar a atenção dele.
Levantando-se, completou com outro tom de voz:
— Faça com que ele se interesse por você.
Nunca se ofereça.
Andando alguns passos negligentes, avisou:
— Todo homem gosta de se sentir no poder, gosta de conquistar, de proteger.
Eles sempre querem ser dominantes.
E aí que você tem que ser inteligente.
Mostre-se frágil, encontre um jeito de atrair a atenção do Eduardo.
—Tá na cara que ele não gosta de mim! — exasperou-se.
— Quem falou que ele precisa gostar de você, bobinha? — riu.
— Já que é assim tão simples como você diz, por que você mesma não encontra um cara que a proteja, que a domine e que cubra seus cheques e pague as facturas, hein?
Os olhos de Natália brilharam.
Ela suspirou fundo, sorriu largamente, olhou para a filha e respondeu:
— Sabe que você teve uma óptima ideia?
Só que vou precisar muito de você!
Virando-se, Natália saiu andando como se desfilasse, sem se despedir da filha.
***
Antes que o dia terminasse, Gilda estava em sua luxuosa residência, andando de um lado para outro da sala de estar, inconformada com o que acabara de acontecer.
Sua amiga Marisa, sentada confortavelmente no sofá, assistia à cena, sustentando sempre um sorriso.
— Onde já se viu?!!!
Quem ele pensa que é para não deixar a Bianca vir pra cá comigo?! — vociferava irritada.
Saí daqui, fui até aquele fim de mundo para ouvir um não! Nunca vou aceitar um não. Quando quero uma coisa...
Erika, a filha mais nova de Gilda, que acabava de chegar, interessou-se pelo que a mãe dizia:
— O que a senhora não vai aceitar, dona Gilda? — perguntou com certa ironia.
— O comportamento do seu cunhado.
Você imagina que o Mauro teve a petulância de não deixar minha neta vir para cá e ficar comigo hoje? — contou em tom exclamativo, voz firme e arrogante.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 01, 2017 10:31 am

— Se bem, Gilda — interferiu Marisa —, que você queria que a menina ficasse aqui até domingo.
— E daí?! O que a Bianca vai ficar fazendo lá naquela casa pobre, sem graça, que está precisando é de uma boa reforma e pintura, se não de uma demolição?!
— Ele é o pai, dona Gilda — lembrou a filha que sempre a tratava com certo desprezo.
O Mauro tem todo o direito de lhe dizer um não.
Além do mais, a Bia não está acostumada a ficar muito tempo aqui.
Vejo que ela só aceita vir com a Helena e, mesmo assim, não aguenta ficar muito tempo.
— E o que você quer?
Que eu fique de braços cruzados vendo a minha neta se acostumar àquela pobreza?
Não! Isso vai ter que mudar.
A Bianca, quando tomar o gostinho, não vai sair daqui de casa — falava como se delirasse, imaginando como seria o futuro.
Levantando o queixo, perguntou:
— Quem não gostaria de viver nessa casa linda e maravilhosa, com esse grande jardim, essa bela piscina, onde se tem todo conforto e segurança?
— Eu! — respondeu a filha impertinente que parecia sentir prazer em irritar a mãe.
Gilda sentiu-se enfurecer.
Ela se calou com os olhos arregalados e fixos em Erika, que, com certo deboche, desabafava:
— Apesar de tanto luxo e conforto, essa casa é fria.
O carinho e a atenção que recebi aqui terminaram quando minhas babás e enfermeiras se foram.
— Ora! Cale a boca, menina!
Você não sabe o que está falando.
— Ah! Sei sim, mãe! Dinheiro nunca aqueceu meu coração nos momentos em que fiquei triste, insegura...
— Mas aqueceu sua barriguinha, viu, meu bem?
Nunca deixou você passar fome, frio ou qualquer necessidade.
Passados alguns segundos, perguntou ainda irritada:
— E me diz uma coisa: quando é que você se sentiu insegura, hein?
— Quando você estava nas clínicas de estética, nos spas, nas reuniões sociais com suas amigas...
— Suma daqui, Erika! Desapareça!
— Posso garantir que vou fazer isso, sim.
É insuportável ficar perto de alguém como você.
Virando as costas, a moça saiu pisando firme sem olhar para trás.
— Você viu, Marisa?
Viu como ela é? Saiu tal qual o pai.
Eu deveria ter tido só o Eduardo.
Deveria ter abortado o resto.
Aaaah!!! Que ódio!!!! — exclamou, enfurecida.
— Isso é crise de adolescência. Não se preocupe.
— Crise de adolescência?!!!
Isso é safadeza, isso sim!
A Erika já tem vinte e um anos; tava na hora dessa menina se ajeitar na vida e parar de me dar trabalho.
— Quem sabe o namorado não dá um jeito — argumentou Marisa, rindo.
— E ela lá quer saber de namorar?
Marisa deixou escapar uma expressão estranha, apertando os lábios como se quisesse segurar o riso.
— O que é que você está escondendo?
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 01, 2017 10:32 am

— Bem, é que todo mundo, lá no clube, está comentando sobre o namoro da Erika com o João Carlos.
— O quê?!!! — quase gritou Gilda.
O João Carlos, aquele negrão, professor que fica lá na musculação?!
— Ele mesmo! Mas, minha amiga, temos que admitir uma coisa:
o homem é lindo!
Ah... que sorriso, que músculos.
Como ele é sarado — afirmou de um jeito manso, suspirando.
Isso não podemos negar.
— Não posso acreditar.
Ah! Que ódio! E eu sou a última a saber!
Mas não tem nada não — dizia, enquanto caminhava de um lado para outro, enfurecida —, vou acabar com isso logo, logo.
Imagine só se isso vai continuar. Não mesmo!
A minha filha já namorou e dispensou óptimos partidos do nosso meio.
Ela não vai acabar com um pé-rapado daqueles, que ainda por cima...
— Veja lá, hein? Eu não contei nada.
— Deixe de ser boba, Marisa.
Quando foi que traí você?
— Mas isso deve ser um namoro bobo, Gilda.
Talvez até para desafiá-la.
Você vai ver como passará logo.
—Isso nunca deveria ter acontecido.
Eu mato a Erika!
Nem posso sonhar com esse namoro indo adiante — esbracejava irada, andando nervosamente de um lado para outro.
Uma menina linda como a minha filha com um negro!
Agora, parecendo querer irritar propositadamente a amiga, Marisa debochou:
—Já pensou nos seus netinhos?
Gilda parou, arregalou os olhos assustados e, com a feição transtornada, comentou devagar, quase sussurrando, e com drama na voz:
—Eu, Gilda Araújo Brandão, rica, de olhos azuis, loira, linda e maravilhosa, apresentando à sociedade paulistana os meus netinhos... todos moreninhos e de cabelinhos...
Não! — disse, agora aumentando o tom de voz.
Não vai dar para negar que eles têm um pezinho lá na África, vai?!
Depois de alguns segundos, exibindo certo espanto, reforçou:
— Não, isso não vai acontecer.
Nem que eu tenha que cometer um crime!
Mas a Erika não vai me fazer passar por essa vergonha!
Gilda tinha uma personalidade dominadora, sempre às voltas com ideias de forçar as pessoas a agirem conforme sua vontade.
Repleta de preconceitos, gostava de criar regras, beneficiando-se, ressaltando-se para ser admirada, invejada.
Sim, era isso que Gilda queria ser.
Possuía uma anormalidade de carácter, pois não sofria de nenhum tipo de desequilíbrio, já que era por vontade própria, por maldade da alma, que possuía tanto preconceito e insensibilidade.
Negava-se sempre a ter qualquer espécie de reflexão na qual pudesse pensar em ter, no mínimo, compaixão.
Na verdade, Gilda era uma mulher infeliz, que não se satisfazia com os simples prazeres da vida e não sabia amar, compreender, nem mesmo tolerar.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 01, 2017 10:32 am

Pelo filho Eduardo, a quem dizia adorar, na realidade sentia um apego excessivo, dominador, que estava longe de ser comparado a amor.
Mas também havia um motivo para isso; afinal, era uma mulher que acreditava ser importante dizer a verdade, que falava fria e agressivamente tudo o que, para ela, estava correto, sem se importar com os sentimentos, com os desejos e opiniões daqueles que a rodeavam.
É uma pessoa, para fazer isso, jamais poderia estar de bem consigo mesma.
Seu objectivo na vida era a elegância, estar em evidência nas colunas sociais e ser ressaltada pelo valor da sua fortuna, do seu luxo, do seu status e de sua beleza.
Certamente seu amor verdadeiro havia se atrofiado em algum lugar do passado, onde talvez tenha preferido trocar pelas jóias caras, cravadas de pedras preciosas e raras, sem felicidade e bem-querer.
Adorava seus bens pessoais:
perfumes caros, roupas finas de grifes internacionais.
Sempre se corroendo de raiva por aquilo que não conseguia dominar; entretanto, sempre tentava, até por meios ilícitos, obter o controle de uma situação de acordo com seus interesses ou suas vontades.
Gilda jamais se deixava vencer, invadindo a privacidade alheia e interferindo no destino dos outros.
Só que ela não sabia que sua personalidade impulsiva e forte iria lhe trazer uma onda de negatividade e tristezas futuras, porque deste mundo só levamos connosco, quando partimos, as vibrações que recebemos, as amizades que conquistamos e o amor que cultivamos, nada mais.

* onça: medida de peso inglesa designada normalmente para pesar ouro; equivale a 28,349 gramas ( Nota da Autora Espiritual).
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 01, 2017 10:32 am

4 - As VISÕES DE BIANCA

Seria um fim de semana longo pelo feriado que cairia na segunda-feira.
Na casa de dona Júlia todos, sem planos para viagens, ficariam por lá mesmo.
Sueli, sempre animada, procurava trazer a alegria ao rosto de sua amiga, que, ultimamente, não parecia muito feliz.
Elas conversavam no quarto, e a amiga dizia:
— Vai, Helena! Vê se põe um sorriso nesse rosto!
— Não enche, Sueli.
— O que foi desta vez? E o Vagner?
— Não.
Depois de algum tempo, Helena comentou:
— Sonhei com aquele homem de novo.
É tão estranho, parece que o conheço.
—Huuuumm! — brincou a colega.
—No sonho, ele me deu um beijo.
Disse algumas coisas, como me alertando para ser mais firme, mais decidida.
—Sério?
—Disse também que não consegue viver sem mim.
Que ficaremos juntos.
—Tem certeza de que não o conhece?
—Tenho. Ele é muito bonito, tem uma fala mansa, um jeito...
Mas sabe, Sueli, há momentos em que eu tenho um certo medo dele.
Sinto uma coisa, entende?
É tão real, tão vivo...
Quando acordo, penso que vou encontrá-lo.
Brincando, a colega falou rindo:
- Podemos dizer que você se apaixonou pelo homem dos seus sonhos.
— Ele pede para eu não fraquejar.
Para não ter piedade.
— Como assim, piedade?
— Ainda estou pensando nisso.
Mas acho que sei o que é — considerou com um olhar perdido, significando profunda reflexão.
Diante do silêncio, a amiga falou, mudando de assunto:
— Sabe, estou achando o Mauro um pouco melhor.
— Aparentemente, sim.
Mas meu irmão ainda não é o mesmo.
Tem algo errado com ele.
— Nós conversamos.
É verdade que ele colocou a casa à venda?
— É sim. Ele não quer voltar a morar lá por nada desse mundo.
Ah! Sabe, Sueli, aconteceu uma coisa tão esquisita!
— O quê? — Sueli ficou curiosa.
— Em uma das vezes que fui até a casa do Mauro, levei a Bianca comigo e, sabe — relatava Helena com certa emoção —, estávamos lá na cozinha, eu tirava algumas coisas da geladeira para desligá-la, e a Bia, de repente, falou assim:
"Já vou, mamãe!" — contou, imitando a voz da sobrinha.
Ela saiu correndo e eu fui atrás, lógico, e na ponta do pés, claro.
Quando ela chegou lá no quarto em que dormia, e eu de longe olhando, a Bia disse baixinho:
"Oi, mamãe! Eu estava com saudade".
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