Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 01, 2017 10:32 am

— E você?! — perguntou assustada.
— Eu não disse nada.
Só fiquei olhando assombrada, claro.
— Você viu alguma coisa?
— Nada! Aí, né, a Bia perguntou — contava sempre imitando a voz da sobrinha:
"Você tá triste, mamãe? Fala, fala comigo."
Então eu não me aguentei e perguntei com quem ela estava falando.
— E aí?
— Ela fez uma carinha feia e disse que eu tinha espantado a mãe dela.
— Já ouvi dizer que as crianças são bem sensíveis.
Algumas conseguem ver coisas que nós não conseguimos.
Então o clima de mistério foi interrompido por dona Júlia, que chegou no quarto dizendo:
—Lena, o Vagner está aí.
Imediatamente Helena pareceu se transformar.
Com um ar de insatisfação e semblante preocupado, ela não disse nada.
Levantou-se e saiu do quarto, indo até a sala onde o namorado estava.
— Oi, Vagner — disse friamente, beijando-lhe rápido.
— E aí, tudo bem?
— Tudo.
— Puxa, que calor, hein?
— É mesmo. A temperatura deve estar passando dos trinta e cinco.
— Como eu queria estar na beira de uma praia, tomando uma geladinha, comendo camarão... — desejou, sentando-se muito à vontade no sofá, deixando o corpo bem largado.
Helena nada comentou, acomodando-se em outra poltrona enquanto ele continuava:
—Se eu tivesse dinheiro, a esta hora eu estaria longe.
—Ontem você foi ver aquele emprego lá? — perguntou bem firme.
O rapaz demorou um pouco para responder, titubeou, mas acabou contando:
— Olha, Lena, não me pareceu grande coisa, sabe.
— Você nem foi ver?! — espantou-se, quase incrédula.
—Vou encontrar coisa melhor, você vai ver.
Esticando-se no sofá, ele aproximou-se da namorada e tentou
tocar seu rosto, momento em que Helena fugiu ao contacto, levantou-se e reclamou:
— Eu não vejo perspectiva para o nosso futuro, Vagner.
Você sem trabalhar e, quando arruma alguma coisa, não dura nem seis meses.
— Emprego está difícil para todo mundo — defendeu-se Vagner, gesticulando como se nada pudesse fazer.
— Eu sei, mas quando se tem uma profissão, uma especialização, fica mais fácil, não acha?
— Olha, Lena, o que surgir eu faço.
É só aparecer. Eu trabalho em qualquer coisa.
— Qualquer coisa?! — indagou, quase irritada.
E logo passou a perguntar rapidamente:
— Você acha mesmo que pode trabalhar em qualquer coisa?
Você conseguiria trabalhar em contabilidade?
Teria condições de assumir, hoje, um cargo de metalúrgico?
Um programador de computador?
Ou, então, um especialista em mecânica de elevadores?
Engenheiro? Administrador? Advogado? Mecânico de auto?
— Ei! Calma lá!
— Você não pode ter nenhuma dessas profissões.
Então não diga que pode trabalhar em qualquer coisa.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 01, 2017 10:32 am

As pessoas que fazem de tudo, que se submetem a isso, é porque não se especializaram em nada.
Por exemplo, eu, no próximo mês, deixarei de ser operadora para ser programadora de computadores, sabe por quê?
Por que eu me esforcei, estudei, me matei para aprender e, quando surgiu a vaga, a oportunidade lá na companhia, eu estava pronta, preparada.
Agora, andando pela sala, ela falava em um tom baixo, mas bem nervosa:
— Eu já cansei de falar:
faça um curso, faça uma faculdade, se não quer ser graduado, porque são quatro anos ou mais para se formar, faça uma faculdade tecnológica de dois anos.
Tá legal que não é a mesma coisa, mas você terá um campo de trabalho específico e será mais fácil.
— Você gosta de mim ou quer um homem que tenha um diploma nas mãos? — perguntou irritado, quase grosseiro.
— Eu quero o melhor para você.
E, pela minha experiência, o melhor é que alguém se especialize, se profissionalize.
Sabe qual é a primeira coisa que me perguntam quando eu digo que tenho um namorado?
"Que profissão ele tem?"
— Tá bem! Eu entro num curso e pago com o quê? Hã?
— Se você arrumasse um emprego simples e parasse nele, conseguiria pagar até uma faculdade, pois tenho certeza de que iria aparecer ajuda de alguma forma.
Sua irmã poderia lhe dar uma força, sua família...
— Você é que pensa!
—Até eu o ajudo, por que não o faria?
Vou contar um caso que até acho que já contei:
Lá na faculdade, onde estudei, havia um cara que era faxineiro.
Todo mundo o incentivava para que estudasse, pois nem o ensino fundamental completo ele tinha.
Daí que esse moço fez um supletivo, depois passou no vestibular.
Eu terminei a faculdade, saí de lá e, há uns seis meses, aconteceu uma palestra empresarial lá no anfiteatro da faculdade.
O assunto em questão era de muita importância para a minha área e eu fui assistir.
Quando cheguei, qual não foi a minha surpresa quando vi aquele moço, que era faxineiro, barbeado, bem arrumado e muito atento ao evento.
Não resisti e fui até ele perguntar como ele estava e quais eram as novidades.
Sabe, ele estava terminando o curso de Mestrado e já dava aula ali mesmo e em outras universidades.
Vagner respirava fundo, envergava os lábios para baixo e olhava para o lado, exibindo-se insatisfeito com o assunto.
Mas Helena não se importou e continuou:
— Sabe o que aprendi?
Que quando realmente queremos nós realizamos, fazemos.
Moveremos céus e terras, mas conseguiremos.
Agora, se você só reclamar da vida, do governo, dos empresários e ficar parado de braços cruzados, nada vai acontecer.
Pode ter certeza de que ninguém bate na porta da gente dizendo:
"Olha, eu tenho uma vaga para gerente ou director lá na minha empresa, você quer?"
— O que deu em você hoje, hein?!
— Há algum tempo estou engasgada com tudo isso e decidi falar com você a respeito.
Está sendo difícil...
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 01, 2017 10:33 am

— Lena, a gente se ama.
Tudo vai dar certo.
— Quando? Acabei de fazer vinte e cinco anos, você tem vinte e sete, namoramos há muito tempo.
O que vamos fazer das nossas vidas?
Vamos namorar a vida inteira?
— Podemos nos casar, se é isso o que você quer — respondeu meio estúpido.
— Casar?! Você enlouqueceu?! — perguntou firme.
Casar e viver do quê?
Vou trabalhar e sustentar você e a casa, sozinha?
Vamos morar onde? Viver de aluguel?
Ou vamos nos sujeitar a morar na casa dos meus pais ou da sua mãe com a sua irmã?
— Eu vou arrumar alguma coisa.
É questão de tempo! Calma!
— Tempo?! — alarmou-se.
Já tivemos tempo demais.
Já tive calma demais.
O silêncio reinou absoluto.
Helena, agora sentada à beira do sofá, abaixou a cabeça, deixando que seus longos cabelos cobrissem seu rosto, enquanto cruzava as mãos na frente do corpo.
Após alguns minutos, aproveitando que Vagner não se manifestava, ela desfechou com um só golpe, parecendo bem decidida, e, apesar de sua voz delicada, foi firme:
— Estou cansada, Vagner.
Quero dar um tempo entre nós.
Ele pareceu não acreditar.
E ela voltou a afirmar:
— Não dá mais.
Vagner agora se transformou.
Seu olhar tinha um brilho de raiva e contrariedade.
Seu rosto se cobriu por um rubor intenso, e, com voz grave, áspera, quase ameaçadora, falou em tom baixo:
—Eu não vou me afastar de você!
Eu a amo muito, Helena.
Se você me deixar...
Surpresa por desconhecer aquele lado de sua personalidade, Helena levantou vagarosamente o olhar, experimentando um choque.
Sentiu que teria de ser firme, categórica, e por isso forçou-se a dizer:
— Não podemos continuar namorando, Vagner.
Acabou. Não quero mais ficar com você.
— Existe outro, não é? — perguntou com voz cortante e orgulho ferido.
— Não. Não existe ninguém.
— Então foi sua mãe que encheu sua cabeça?
—Você acha que eu não sou capaz de tomar uma decisão dessa sozinha?
Pensa que sou ingénua, que não tenho opinião?
— Penso que você me ama e por amor fazemos tudo.
— Não! Nem tudo.
Mais firme, ela respondeu:
— Para que duas pessoas fiquem juntas, não basta só o amor.
Junto com o amor é preciso vir a verdade, a lealdade, a sinceridade, a confiança e, principalmente, a responsabilidade.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 01, 2017 10:33 am

— Quando foi que eu menti para você? — irritou-se.
Quando eu não fui leal e a traí?
Quando não fui sincero e dei motivo para que desconfiasse de mim?
— Você não foi leal quando me disse que ia ver um emprego e eu arrumava dinheiro para se vestir, para ir até a empresa e, depois, você acabava não indo.
E isso não foi só uma vez.
Você mentiu para mim, não foi sincero e por isso, e muito mais, não posso confiar em você.
A essa altura dos acontecimentos, Helena não conseguia conter as lágrimas teimosas que corriam longas em sua face.
Mesmo assim, agora com voz mais branda, ela pediu:
— Vamos terminar por aqui antes que a gente se magoe muito.
— Você está jogando na minha cara o dinheiro que me emprestou?
— Não. Estou falando das vezes que me enganou, que não foi responsável.
Vagner ficou nervoso e, com o dedo em riste apontado para Helena, falou em tom alto e grave:
— Se você pensa que tudo vai ficar assim, está muito enganada.
Ninguém faz isso comigo não, viu?!
— O que está acontecendo aqui?! — perguntou dona Júlia, firme, exibindo autoridade.
Você está na minha casa, Vagner, lembre-se disso.
O rapaz sentiu-se aquecer, agitando-se de um lado para outro, e, com olhar colérico para a dona da casa, encarou-a e ameaçou com voz quase feroz:
— Olha aqui! Isso não vai ficar assim não, entendeu?
Apontando para a porta da rua, a mulher quase gritou:
— Fora daqui, Vagner!
Virando-se, ele saiu a passos firmes, batendo a porta principal após passar por ela.
Voltando-se para a filha, dona Júlia, entendendo o que havia acontecido, comoveu-se ao vê-la nervosa e chorando.
—Filha, não fique assim.
Sentando-se ao seu lado, afagou-lhe com carinho, confortando-a ao puxá-la para que recostasse em seu peito.
Soluços repetidos entrecortaram a fala de Helena, quando disse:
— Terminei tudo, mãe.
— Não fique assim. Calma.
Ele não era mesmo um bom rapaz para você.
Estou surpresa com sua decisão, pensei que fosse se demorar mais para fazer isso. Mas estou feliz.
— Há algum tempo me sinto cansada dessa situação.
— Ainda bem que você enxergou isso a tempo, filha.
Eu estava com tanto medo.
Uma vida a dois não se sustenta só de amor.
Ambos têm de assumir responsabilidades — comentava a mulher experiente enquanto acarinhava a filha.
Agora você está nervosa, triste porque tudo isso acabou de acontecer.
Pegando no rosto de Helena com carinho, ela o ergueu, secou as lágrimas e, sorrindo, sugeriu:
— Vá, tome um banho frio, do jeito que você gosta.
Pode até demorar que eu não ligo.
Depois de rir para animá-la, prosseguiu:
— Aproveite que está muito calor, se arrume e, depois do almoço, pegue a Sueli e vão dar uma volta no shopping, como vocês gostam de fazer.
Você é bonita, filha.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 01, 2017 10:33 am

É inteligente, delicada, responsável.
Não vale a pena ficar sofrendo por alguém que não pensa em você, que não se esforça para lhe dar segurança, protecção.
Você jamais poderia confiar nele.
Mas agora tudo acabou.
E, animando-a, propôs:
— Tome um banho e ponha uma roupa bem bonita, vai!
— Eu me esqueci da Sueli...
— Quando vocês começaram a discutir, nós demos uma espiadinha, né — revelou a senhora com um jeito maroto para alegrar a filha.
Então, quando vimos o que estava acontecendo, saímos de fininho.
Fui terminar o almoço e a Su está lá no quarto brincando com a Bia.
— Ainda bem que o papai não está em casa.
— A oficina hoje deve estar bem cheia.
Daqui a pouco ele e o Mauro chegam. Ainda é cedo.
Nesse instante, a porta abriu, e Carla entrou eufórica.
— Gente!!! O que aconteceu?!
Sem esperar por uma resposta, contou esbaforida:
— Encontrei o Vagner lá embaixo, na rua, com uma cara igual a do capeta.
Nem olhou pra mim! Quando pensei em falar, ele disse bem áspero:
"Fala pra sua irmã que eu não vou ficar mendigando por ela, não!
Mas ela vai me pagar!"
— Nós terminamos — revelou Helena.
— E você está chorando por isso?! — perguntou Carla com seu jeito eufórico, entusiasmado.
Deveria é soltar fogos!
Aquele lá não merece nem uma gota de lágrima sua.
— Bem, vamos esquecer tudo isso — aconselhou dona Júlia.
Vai, Lena, toma um banho, tira esse vermelho do rosto e... vida nova, minha filha!
Virando-se para Carla, exigiu:
— E quanto a você, mocinha, onde estava até agora?
Saiu cedo e nem falou aonde ia!
— Credo, mãe!!! Ainda não são nem dez horas!
Fui na casa da Cristina.
Na terça-feira nós vamos fazer umas fotos.
— Carla! Já disse, não quero saber disso.
Tira essas fantasias da cabeça.
Não viva de ilusão.
Arrume um emprego, tenha uma profissão...
— Mãe, a senhora não entende! — continuou animada.
Ser modelo, manequim, artista, é uma profissão!
— E uma profissão que, se der certo, quando a idade chegar, você estará desempregada. Minha filha...
— Que nada, mãe!
A senhora vai ver como é legal ter uma filha famosa — respondeu, indo para o quarto sem dar nenhuma chance para que a mãe dissesse algo.
— Meu Deus!
Quando essa minha filha vai criar juízo?
* * *
Gilda havia chamado amigos íntimos, alguns membros da directoria da empresa, para oferecer um almoço em volta da piscina.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 02, 2017 11:25 am

Isabel, sua irmã, sempre ponderada, não tirava os olhos da filha Vera, que se insinuava com extrema liberdade, exibindo-se para o primo Eduardo.
O rapaz nem parecia notá-la, a princípio, mas com o decorrer do tempo sentiu-se saturado com tanto oferecimento.
Na primeira oportunidade, Isabel atraiu Vera para um canto e a repreendeu:
—Não me faça passar mais vergonha, Vera! — exigiu, falando com os dentes cerrados.
—Qual é, mãe?
— Você só falta se atirar em cima do Edu.
Isso está ficando ridículo! Deixa de ser oferecida.
— Se ele deixasse, bem que eu me atiraria — falou zombando.
—Vera!!!
A aproximação de Gilda interrompeu a repreensão, e a moça, aproveitando a ocasião, saiu de perto da mãe.
—Veja só — observou Gilda —, um dia desse, com esse sol radiante...
E pensar que minha neta está socada lá naquela casa.
Deve estar empoleirada lá naquele quarto.
—Você não a convidou? — indagou Isabel.
— Lógico que sim!
Pedi que a menina ficasse aqui até o feriado, mas o Mauro não deixou.
Será que ele acha que eu vou arrancar algum pedaço da minha neta? — considerou arrogante e com deboche.
— Quando os filhos são pequenos, os pais costumam fazer isso, Gilda.
Principalmente na situação dele, que está viúvo há tão pouco tempo — reconheceu a irmã.
— Não se esqueça de que a mulher dele era minha filha e que a filha dele é minha neta.
Na verdade, a Bianca foi tudo o que restou da Lara.
Minha filha morreu por culpa desse amaldiçoado casamento.
Gilda falava com amargura na voz, enquanto trazia o olhar perdido ao longe como se imaginasse alguma situação.
— Não diga que foi uma união amaldiçoada.
Eles viveram bem, e o acidente não se deu por culpa do casamento ou do Mauro — considerou Isabel bem sensata.
— Assim seria com a Erika se eu não tivesse interferido.
— Você falou com ela sobre o João Carlos?
— É lógico que não, Isabel.
— E como você interferiu?
— Verifique se ele está trabalhando lá no clube.
— O que você fez, Gilda?! — espantou-se a irmã.
— Dinheiro compra tudo, meu bem.
O rapaz não está mais trabalhando lá, e isso é o que me interessa.
Eu conheço bem os directores daquele clube e tenho certeza de que lá ele não põe os pés.
A irmã se viu contrariada.
Isabel não podia concordar com a opinião de Gilda, que era dona de uma personalidade fria, cruel e vingativa.
—Gilda, por favor! — tornou indignada.
Não posso acreditar que você fez isso.
Gilda, oferecendo um sorriso cínico com o canto dos lábios, alçou a cabeça com imponência e orgulho quando Isabel comentou decepcionada:
— Você me assusta, Gilda.
— Olha aqui, queridinha — defendeu-se com ironia —, jamais vou aceitar um namoro desse nível.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 02, 2017 11:25 am

Além de ser pobre, olha só a cor da criatura.
— Pelo amor de Deus, Gilda! — assombrou-se Isabel.
Não posso acreditar no que estou ouvindo.
Se o rapaz fosse um mau carácter, um vagabundo... mas não.
Ele tem uma profissão, tem uma faculdade, é trabalhador, simpático, educado, bonito...
— Então pode levá-lo para a sua casa.
Na minha ele não entra.
— Se a Erika souber...
— Só vai saber se você ou a Marisa contar.
Falando com deboche, encerrou:
— E quer saber, Isabel, toma conta da Verinha que eu tomo conta da minha filha.
Natália, directora financeira da empresa e muito amiga da família, sorridente e elegante com seu traje de banho, trazendo na cabeça um bonito chapéu onde um lenço esvoaçava delicado, aproximou-se delas, inibindo qualquer réplica de Isabel.
—Ei! Vocês duas estão se escondendo de todos? — perguntou, brincando sorridente.
Há tempo eu as observo aqui nesse cantinho.
—Estamos só contemplando, meu bem.
Só contemplando, - respondeu Gilda, demonstrando alegria na voz e moldando
um sorriso cínico no rosto.
Magoada, Isabel pediu licença e se afastou, indo à procura do marido e da filha, pois estava descontente e decidiu chamá-los para irem embora sem que alguém percebesse.
Sem dar importância ao afastamento de Isabel, Natália perguntou:
— Pensei que iria ver sua netinha aqui hoje, Gilda.
— Ela não veio.
Aliás, o Mauro não a deixa vir aqui sem estar acompanhada daquela desmilinguida da Helena.
Bem que eu queria que a Bianca ficasse aqui todo final de semana, mas...
Quem sabe essa menina me dê o gosto e as realizações que as minhas filhas não deram.
— Seria bom acostumá-la aqui, se quiser tê-la perto quando crescer.
Mesmo que tenha que engolir a Helena junto, só até a menina pegar o gostinho e se acostumar.
Sim, porque o Adalberto me contou que a Bianca não gosta de ficar muito tempo longe da Helena, não é?
— É verdade. Mas sabe que você me deu uma boa ideia? — disse sorrindo.
Mesmo que eu tenha que engolir a Helena.
Com licença, Natália — pediu, saindo à procura do marido.
Gilda, ao falar com Adalberto, insistia em ter a neta ali.
— Mas eu dei folga ao Lauro.
Estamos sem motorista hoje.
E eu não vou sair daqui para ir buscar ninguém.
Não posso deixar os convidados.
— Como você dispensa o motorista justo hoje?
Estamos com a casa cheia, podemos precisar dele para alguma outra coisa.
— Não se esqueça de que essa ideia de receber visita hoje foi sua, e na última hora — sussurrou o marido.
Adalberto a deixou sozinha, e, imediatamente, Gilda foi em direcção ao filho, que estava a poucos metros.
—Edu, será que daria para você ir buscar a Bia?
Diga para a Helena vir junto, para trazerem roupa de banho.
Aliás, elas Podem dormir aqui e amanhã a Bia poderá brincar o dia inteiro nessa piscina que vai ser só dela.
—Puxa, mãe — reclamou o rapaz, insatisfeito —, eu não estava a fim de sair. Estou tão sossegado.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 02, 2017 11:25 am

Enlaçando seu braço, ela o conduziu com carinho, retirando-o do local com jeito delicado, tentando convencê-lo:
—Preciso muito da minha neta perto de mim. Sabe, ela me traz tanto conforto, tanta paz de espírito...
E como se a Lara estivesse perto de mim.
Eduardo sempre cedia às propostas de sua mãe e, mesmo contrariado, decidiu satisfazer seu pedido e se retirou para trocar de roupa e ir buscar a sobrinha.
Ao chegar na sala de sua casa, Eduardo cruzou com sua irmã, que descia rapidamente as escadas, exibindo na fisionomia uma certa revolta.
— Onde está a dona Gilda?! — inquiriu Erika, quase gritando.
— Calma. Onde é o incêndio? — perguntou o irmão com tranquilidade.
— Vai ser lá mesmo, naquela piscina, se a mãe estiver nela — respondeu com raiva.
O irmão a segurou pelo braço impedindo-a de sair e, com serenidade, quis saber:
— Vem cá. Diga primeiro o que aconteceu.
— O João Carlos foi despedido. Até aí tudo bem!
Mas você sabia que foi a mãe quem armou isso?
Aaaah! Eu vou acabar com aquela festa.
Eduardo novamente a segurou com delicadeza, pedindo:
— Hei, hei! Calma, vem cá.
Vamos conversar primeiro.
— Não dá para conversar!
Não tem o que conversar!
— Erika, deixe de ser impulsiva!
Não é assim que se resolvem problemas desse tipo.
Se você for lá fora agora, arrumar uma briga, só vai enfurecer mais a mãe.
É por isso que ela reage sempre agressiva com você.
Estou cansado de ver brigas aqui em casa e elas nunca trouxeram solução alguma. Para que isso?
— Você não entende, Edu!
— Entendo, sim.
Entendo que você é parecida com a mãe, por isso não a atura.
— E você é o queridinho dela, o predilecto!
Por isso tem todas as regalias e ela não o pressiona.
Não implica com você.
— Pára de falar assim — disse firme, mas sem gritar.
Acontece que eu não encaro a dona Gilda, não me defronto com ela porque não gosto de briga.
Agora, você não. Sempre quer se mostrar poderosa, tal como ela. Por que não age como eu?
Faço de tudo para contornar uma situação, não ligo para o que ela fala e, no fim, ela sempre concorda comigo.
— Não é bem isso não — falou Erika, agora mais calma, porém irritada, andando de um lado para outro.
É num desabafo, quase chorando, argumentou:
— A mãe o tem como seu protegido.
Eduardo se aproximou, procurou abraçá-la e falou de maneira compreensiva:
— Nós vamos discutir os gostos dela ou os seus?
— Como assim?
— Não podemos negar que a mãe sempre quer me agradar.
Nós brigaríamos se eu tentasse dizer o contrário.
Mas isso não é importante.
Quero saber se você gosta de mim.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 02, 2017 11:25 am

— Claro, seu idiota! — falou chorando e brincando agora.
— Se me acha um idiota é porque ainda me ama — disse rindo.
Erika fingiu lhe dar um empurrão de brincadeira, sorrindo enquanto chorava, e, num gesto rápido, abraçou-o bem forte escondendo o rosto em seu peito.
— Calma. Tudo vai ficar melhor — disse, acariciando-lhe os cabelos curtinhos e bem alinhados.
— O que a mãe fez com o João Carlos não pode passar em branco.
— Você está de cabeça quente agora.
Quando estamos assim, não tomamos boas decisões, posso garantir.
Erika se afastou do abraço, enxugou o rosto com as mãos e pediu:
— Ajude-me, Edu.
Não sei o que fazer.
— Ê lógico que vou ajudá-la.
Nunca a deixei na mão.
Mas nem pense em ir lá fora e armar uma briga.
A dona Gilda vai ficar uma fera pela vergonha que vai passar com os convidados e, na primeira chance, irá descontar de alguma forma.
Procure ficar tranquila.
Depois ele a convidou:
— Olha, estou indo na casa do Mauro para trazer a Bia. Vem comigo?
Erika parou, pensou um pouco e iluminou o rosto com um largo sorriso ao pedir:
— Então me dá uma carona?
Quero ficar na casa do João Carlos, você me deixa lá?
— Claro! Vamos.
— Vou me arrumar — disse a moça, subindo as escadas correndo.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 02, 2017 11:26 am

5 - DIFÍCIL DECISÃO

No caminho, com o irmão ao volante, Erika não parou de falar.
Ainda indignada com o comportamento de sua mãe, ela apresentava queixas revoltantes e de modo frenético, enquanto Eduardo pouco falava, pois compreendia o desabafo da irmã e ouvia participativo.
Já bem perto da casa de João Carlos, Erika indicou um lugar para que o irmão estacionasse o carro e mostrou:
— É ali.
— Já conhece a família dele? — perguntou surpreso.
— Conheço a mãe dele, dona Ermínia.
E um doce de pessoa.
O pai dele já morreu, e a irmã, bem, estamos sempre nos desencontrando.
Só a conheço por fotos.
— Então o negócio está mais adiantado do que eu imaginava! — admirou sorridente.
Erika sorriu com brandura e indagou com voz afável:
—Você não é racista, não é, Edu?
— Nunca. Abomino esses pensamentos e não gosto nem de piadas desse tipo.
— Que bom — comentou tranquila.
Felizmente não herdamos a personalidade mesquinha e preconceituosa da dona Gilda. Graças a Deus!
—Nunca me importei com a cor da pele, com a nacionalidade, a naturalidade...
Pouco me importa se alguém é japonês, baiano, branco, nordestino...
E toda pessoa que se refere a alguém com apontamentos pejorativos de qualquer espécie, tentando denegrir ou humilhar o outro por sua raça ou naturalidade, é alguém em que não podemos confiar. Acredite.
— Então você não confia na mãe?
— Não — respondeu firme e de imediato.
— Edu! Estou surpresa!
— Não. Não confio na mãe.
Penso que, se fosse comigo, ela também iria querer me humilhar, me denegrir, me subjugar e muito mais.
Porém a dona Gilda é minha mãe, e eu não posso ficar digladiando com ela.
Prefiro viver em paz.
— O mais importante em uma pessoa é o carácter, a educação, a responsabilidade, não seus atributos físicos, sua classe social...
— Concordo com você.
A propósito, você está gostando mesmo desse rapaz, não é?
—Estou sim — sorriu. — Nós nos damos tão bem.
—É bom quando encontramos uma pessoa confiável, desinteressada.
Nunca tive essa sorte — reclamou Eduardo, suspirando fundo.
—Pretendente é o que não falta para você.
— Imagine! — exclamou rindo.
São todas astuciosas, interesseiras.
Chegam a ser sórdidas ao tentarem o famoso golpe do baú.
Que ridículo! Não se valorizam ou sequer têm amor-próprio.
— Não podemos negar que você é um rapaz bonito, inteligente.
É fácil se apaixonar por você.
Seus olhos podem hipnotizar qualquer moça já na primeira troca de olhar.
— E minha posição social hipnotiza qualquer conta corrente, qualquer carteira — completou, rindo gostosamente, quase gargalhando.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 02, 2017 11:26 am

Erika o observou com ternura e com um brilho carinhoso no olhar.
E o consolou:
—Você vai encontrar uma pessoa realmente sincera em quem vai poder confiar. Tenho certeza.
Depois, ela o beijou emocionada e se despediu:
—Tchau.
Após deixar a irmã, Eduardo foi buscar a sobrinha conforme o planejado.
Na casa de Helena, a mãe, dona Júlia, conversava com o marido, contando tudo o que havia acontecido.
—Então, Jairo, foi isso.
A Helena está em pedaços.
— Posso dizer que, para mim, isso foi uma surpresa e um alívio.
Eu já esperava que minha filha, inteligente como é, percebesse que esse moço só estava se aproveitando.
Ele não é um mau rapaz.
É atencioso, educado, mas... muito folgado.
Não queria nada com nada.
— Foi isso o que eu disse a ela.
A Helena é nova, tem chance de encontrar um moço responsável.
Agora, mudando de assunto, estou preocupada é com a Carla.
— O que foi dessa vez? — indagou sorrindo, pois ele sabia que esta filha era espirituosa e um tanto levada.
— Ela enfiou na cabeça que vai ser modelo, manequim, sei lá mais o quê.
— Carla é bem bonita para isso — reconheceu o pai, todo orgulhoso.
—Jairo! Não alimente esse sonho. Essa menina...
—Aliás — interrompeu, como se quisesse provocar a esposa, falando com um sorriso maroto —, se não fosse pela altura, a Helena também poderia seguir essa carreira.
Afinal, minhas duas filhas são muito bonitas, elegantes...
—Jairo! — reclamou Júlia, contrariada.
—Estou brincando — avisou, rindo descontraidamente.
Mas não se preocupe, Júlia.
Isso é coisa da idade.
Toda menina tem um sonho.
Isso passa. Ela vai desistir.
A campainha tocou, e dona Júlia se levantou para atender.
Com satisfação, entrou acompanhada de Eduardo, que parecia estar um tanto sem jeito.
Após cumprimentar o dono da casa, o rapaz se acomodou no sofá e explicou o motivo de sua visita.
—Espero que o Mauro entenda e deixe a Bianca ir.
Também seria muito bom se a Helena fosse junto.
A Bia é bem apegada a ela e se sentiria mais à vontade.
Parece que ela não gosta de ficar sozinha lá em casa.
Dona Júlia e o marido se entreolharam, lembrando o estado sensível em que Helena se encontrava.
Até pensaram que sair um pouco pudesse fazer bem à filha, mas não poderiam forçá-la a isso.
— Bem, Eduardo, vou falar com o Mauro, ou você mesmo quer pedir?
Ele está lá no quarto dos fundos, arrumando algumas coisas.
— Não, por favor — pediu educadamente —, diga a senhora mesmo. Será melhor.
Após pedir licença, a dona da casa foi falar com o filho que, a princípio, resistia à ideia.
— Mauro, não podemos enclausurar a Bianca aqui em casa, filho.
Ela precisa brincar, se divertir.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 02, 2017 11:26 am

Aqui não tem outra criança nem muito espaço no quintal.
A garagem está com os três carros.
Ela está limitada só aos corredores laterais.
— Lá também não tem criança, mãe.
— Mas tem espaço e é um lugar diferente, bonito.
A Helena contou que, da última vez, a dona Gilda mandou chamar a filha da vizinha que mora no condomínio.
É uma menina da mesma idade da Bia.
Disse que até a babá da garota foi junto.
Elas brincaram bastante e se deram muito bem.
— Aquela mulher não merece estar com a minha filha.
— As coisas não são assim, Mauro.
Não acredito que a dona Gilda vá fazer algo para prejudicar a neta.
Ela quer bem essa menina, faz tudo para agradá-la.
Isso não podemos negar.
Mauro ficou pensativo, e dona Júlia completou:
— A Bianca é a única coisa que a Lara deixou para a família.
Temos que admitir que a sua presença pode e vai diminuir a dor dos pais.
Tenho certeza de que eles sofrem, meu filho.
— Será que a Helena irá com ela?
Se a Lena for, eu deixo.
— Será muito bom para sua irmã.
O Eduardo falou que eles estão recebendo alguns amigos.
E um almoço em torno da piscina.
Isso significa gente alegre.
Além do mais, tem a Erika, que se dá muito bem com a Lena.
Creio que será bom elas conversarem.
— Mas no começo a senhora falou que ela quer que a Bia durma lá?
—E se quiserem dormir não há nada de mais.
A Helena vai estar junto.
Mauro estava sisudo, com o sobrecenho enrugado.
Por fim decidiu:
—Está bem, vai.
Em seu quarto, Helena se mantinha deitada em silêncio enquanto Sueli e Carla, bem alegres, ouviam música e experimentavam roupas com planos de saírem mais tarde.
— Ah, não, mãe! — reclamou Helena quando soube do convite.
— Vai, filha. Será bom para você — pedia com generosidade.
— Mãe, eu não quero ver ninguém.
Só quero ficar quieta aqui.
Pode ser? — comentou, desanimada e tristonha, com certa melancolia na voz.
A amiga e a irmã procuraram animá-la, mas Helena resistia.
Sabendo poder conquistá-la por seu coração bondoso, dona Júlia, muito esperta, fez uma expressão triste e, com voz mansa, falou:
—É uma pena. Coitadinha da Bia.
Tá lá fora, naquele quintalzinho minúsculo, andando naquele triciclo pra lá e pra cá.
Num fim de semana lindo desse, ela vai ter que se contentar com esse tipo de diversão e a televisão. Nada mais.
Helena ficou comovida com os argumentos, e Carla, com perspicácia, entendendo o que sua mãe pretendia, ainda completou:
— Coitadinha mesmo.
Se ela fosse apegada a mim, bem que eu iria, nem que tivesse que me sacrificar um pouco.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 02, 2017 11:26 am

Mas ela só gosta de sair com a Lena.
Pobre menina — falou com piedade bem convincente.
Já não tem mãe, não tem com quem brincar, não tem...
— Tá bom! Chega! Eu vou.
Sueli e Carla não resistiram e gritaram juntas enquanto pulavam pelo quarto.
—Psssiiu...! Meninas! — exclamou dona Júlia, sussurrando.
O moço está aí na sala e vai escutar.
Helena se levantou.
Foi séria e sem entusiasmo até o armário e começou a escolher uma roupa.
Dona Júlia, toda sorridente, anunciou:
— Vou lá arrumar a Bia.
Tenho que pegar um biquíni pra ela, toalha, pijama...
— Espera aí, mãe!
Eu não vou dormir lá.
Para quê o pijama?
— Filha — falou com jeitinho —, seria bom, porque aí, amanhã, a Bia aproveita o dia inteiro.
— Ah, não, mãe. De jeito nenhum.
— Helena, deixa de ser boba — incentivou a amiga.
— Se for pra dormir, eu não vou.
— Tudo bem, tá certo — disse dona Júlia.
Quase saindo do quarto, completou:
— Vou pegar só a roupinha para trocar depois da piscina e o biquíni.
Helena começou a escovar os cabelos, que ainda estavam húmidos, não dando atenção aos comentários que a colega e sua irmã faziam.
Pegou suas coisas e se despediu ao sair.
Chegando na sala, cumprimentou Eduardo, que conversava com seu Jairo e Mauro, e perguntou:
— Cade a Bia?
— Olha eu, tia! — respondeu com sua vozinha doce e branda, pedindo em seguida:
Vamos?
Eduardo se levantou e, olhando para Helena, que trazia uma pequena bolsa, tipo mochila, perguntou:
— Você está levando um biquíni, não é?
— Não. Não estou a fim de dar nenhum mergulho hoje.
Obrigada. Vou mesmo só por causa da Bia.
— Seria bom você levar — aconselhou com simplicidade, justificando em seguida:
— Todos estão na piscina, e creio que você não vai ficar à vontade com esse jeans.
Vai lá, pega um short, algo leve.
Helena fez um gesto enfadado enquanto dona Júlia insistia:
— E mesmo, filha.
Não vai ficar bem você assim.
— Se bem que ela pode pegar alguma roupa da Erika.
Tenho certeza de que minha irmã não vai se importar.
—Não. Eu vou pegar alguma coisa — decidiu descontente, indo para o quarto.
Ao vê-la saindo, Eduardo perguntou:
— Você vai dormir lá, não é?
— Ah, não. Você me traz de volta hoje mesmo.
— Não vai aproveitar nada, veja que horas são...
— É o suficiente — decidiu, saindo em seguida.
Dona Júlia encolheu os ombros e sorriu sem jeito, percebendo que os modos de Helena não eram gentis.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 02, 2017 11:27 am

Observador, Eduardo perguntou curioso:
— O que a Helena tem? Está tão... diferente.
— Ela acabou com o namoro hoje — anunciou seu Jairo sem rodeios.
— Ah, entendo — afirmou o rapaz.
— Tio, você vai comigo na piscina? — perguntou Bianca, animada.
— Vou, claro que vou — respondeu Eduardo, abaixando-se junto à pequena.
— Eu não sei nadar, tio.
— Eu ensino. Pode deixar.
— Tome cuidado, hein, Bia! — recomendou o pai.
— Pode deixar, Mauro.
Eu mesmo cuido dela, e a piscina nem é tão funda, você sabe.
Dona Júlia sorriu e lembrou:
— Eu nem me preocupo quando a Lena está com a Bia.
Vocês já repararam o cuidado e o ciúme que ela tem dessa menina?
— É mesmo — admitiu Eduardo.
Eu já reparei isso.
Ela tem o maior ciúme da Bia, quase não larga da menina.
— Sempre foi assim — lembrou seu Jairo.
— Fico até satisfeito com isso — falou Mauro.
Helena chegou, dizendo:
— Pronto. Podemos ir.
A caminho da casa de Gilda, somente Bianca falava, enquanto Helena permaneceu por todo o trajecto praticamente muda.
Já na luxuosa residência, Eduardo conduziu-as até o andar de cima e falou:
—Troquem-se aqui, no quarto da Erika.
Se precisar de alguma coisa, é só chamar.
Estarei ali — disse, apontando para outra porta.
Vou me trocar e já descemos.
—Obrigada, Eduardo.
Logo mais, próximo à piscina, onde todos se encontravam bem animados, Helena sentiu-se deslocada.
Havia um grupo de pessoas com as quais não estava acostumada, e cada um que se apresentava a deixava mais constrangida.
Gilda, porém, pediu para que servissem a convidada e a neta, mas Bianca, que encontrou quem brincasse com ela na água, não quis saber de almoçar.
Helena, talvez por um certo acanhamento, disse não estar com fome.
—Vocês demoraram, Helena.
Pensei que não viessem.
É pena, pois vão aproveitar só a metade do dia hoje. Se bem que amanhã...
— Não pretendo dormir aqui, dona Gilda.
— Não! Por quê?
— Prefiro ir embora.
Sei que a senhora entende...
— Voltará com a Bia amanhã, claro?
— Ainda não sei.
Eu... — tentou dizer, mas foi interrompida.
—Não vá fazer isso comigo, Helena.
Estou doente pela minha neta. Por favor.
A moça ofereceu meio sorriso e considerou:
—Vou pensar.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 02, 2017 11:27 am

—Venha, vou pegar uma bebida para você — chamou, pegando-a com delicadeza pelo braço para conduzi-la.
—Não. Obrigada, mas não bebo.
—Ora! — exclamou sorrindo, surpresa.
Só um pouquinho. Não há mal algum.
Vejo que você não está comendo nada também.
Um drinque vai abrir seu apetite.
—Não, não mesmo, dona Gilda. Obrigada.
— Então aceita um refrigerante? — perguntou Eduardo, se aproximando.
— Pode ser. Um refrigerante eu aceito — respondeu sorrindo de maneira cortês.
O moço saiu e voltou em seguida com um copo na mão, oferecendo-o à jovem, que agradeceu com um leve aceno de cabeça e um novo sorriso no rosto quase triste.
—Bem, menina, fique à vontade, viu?
Vou ali ver a Bia — disse Gilda, sempre alegre.
Eduardo, por sua vez, tentando animar a convidada, perguntou:
— Não quer entrar um pouco na água? Está óptima.
— Não, obrigada. Prefiro ficar à sombra desse guarda-sol.
— Você parece tão séria hoje. Está tudo bem?
— Estou chateada com algumas coisas. Mas vai passar.
— Não seria melhor falar sobre o assunto?
Talvez isso a ajude.
Sou todo ouvidos — disse solícito e sorridente, parecendo sincero.
Helena, intimamente envergonhada, pois nunca imaginou Eduardo como seu confidente, ofereceu um sorriso tímido, abaixou o olhar e revelou:
— Hoje cedo terminei o namoro com o Vagner.
Foi difícil... ele não queria aceitar e... — ela não disse mais nada, pois sua voz revelava um embargo que a constrangia.
— Veja, Helena, você tem que olhar para cima.
Pensar no que será melhor para o seu futuro.
—Eu sei, e foi por isso que tomei essa decisão.
Sabe, creio que já dei todas as oportunidades para o Vagner. Já se passou tempo demais.
Ele não quer entender isso.
Que oportunidades? — interessou-se Eduardo por estar a fim de fazê-la falar um pouco.
E Helena, agora mais à vontade, não percebeu que começou a desabafar com o rapaz, passando a contar tudo o que aconteceu.
Decorrido algum tempo, a uma distância considerável, Gilda e sua amiga Marisa conversavam animadas, até que a colega observou:
— Gilda, até que a Helena é bem bonita, não é?
Rosto jovial, simpática...
— Mas olha que biquininho fulera, hein!
Será que a moça compra suas roupas no camelo da Vinte e Cinco de Março? — comentou com desdém e ironia.
Marisa deu uma gargalhada, alçando a cabeça para trás.
— Gilda, você é de matar!
Deixa de reparar no biquíni da moça, que aliás não é tão ruim assim.
Quem vê você falar pensa que está velho, rasgado... — comentou ainda rindo.
— Estou falando é porque não tem marca.
E, cá pra nós — continuou sussurrando —, será que ela não pode comprar uma coisinha melhor não, hein? — riu com maldade.
— Se bem que, com o corpinho que ela tem, qualquer peça cai lindamente.
Parece até uma dessas menininhas.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 02, 2017 11:27 am

E outra, creio que os homens não vão olhar para o biquíni, não.
Veja só o seu filho.
Acha que ele prestou atenção no que ela está usando?
— O que tem meu filho?! — perguntou, agora mais séria.
— O Edu não tira os olhos dela.
Creio que nem está ouvindo o que a Helena está contando.
— Ora, Marisa!
— Veja só! Ou você está ficando cega, Gilda?
Veja como o Eduardo está todo interessado.
Chega a estar vidrado, parecendo até que está babando.
— Já basta um daquela família ter se intrometido na minha.
Isso... — interrompendo a frase, logo observou:
— Olha lá, Marisa, veja como o meu santo é forte.
A Geisa, filha da Natália, já encostou perto deles.
Posso ficar descansada agora. A Geisa é fogo.
Mudando de assunto, você reparou como a minha neta está miúda, magrinha igual a...?
Nem parece que já tem cinco anos — prosseguiu Gilda, sempre procurando com o que implicar.
A aproximação de Geisa impediu que Helena continuasse com seu desabafo.
A filha de Natália, com olhar conquistador e pose provocante, colocou-se em frente de Eduardo, dando as costas para Helena, e perguntou:
—Esqueceu-se de mim? — indagou, trazendo na voz um tom dengoso e o olhar sedutor.
Foi então que, com um sorriso forçado para não ser indelicado, Eduardo apontou sua convidada:
—Essa é Helena.
Somos os padrinhos da Bianca.
Você a conhece?
Geisa se virou, afirmando:
—A Gilda já nos apresentou — disse, olhando para Helena de cima a baixo.
Vejo que está um pouco deslocada, não é?
Quando Helena ia se preparando para responder, procurando algo amável para dizer, Eduardo falou em sua defesa:
— Fui eu quem monopolizou a Helena.
Nossa conversa estava muito agradável.
Não havia motivo para nos envolvermos com os demais.
— Entendo — argumentou com ar de desdém.
Mas falavam do quê? Posso saber?
— Conversávamos sobre faculdade, cursos complementares.
Coisas que, creio, não vão interessar muito a você, Geisa — respondeu, sorrindo ironicamente.
Helena surpreendeu-se e ficou constrangida diante daquilo.
Eduardo, sustentando ainda o sorriso irónico, mostrava-se verdadeiramente insatisfeito com a presença de Geisa.
Ele a conhecia bem e tinha seus motivos para não querer nenhuma intromissão em sua conversa.
Geisa o fitou firme, com olhar colérico, e se virou, deixando-os a sós.
— Eduardo, eu... — balbuciou Helena, perdendo as palavras.
— Tudo bem, Helena.
Desculpe-me pela grosseria, mas isso foi necessário.
Você não sabe quem é essa aí.
Gilda, preocupada com a recepção e os convidados, não percebeu a ausência da filha Erika, que, naquele mesmo momento, estava na casa do namorado, João Carlos.
Na casa do rapaz...
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 02, 2017 11:27 am

Huuum!!! Está maravilhoso, dona Ermínia — dizia Erika a simpática senhora, mãe de João Carlos.
Nunca experimentei Um Pavê igual a esse.
Adoro doce. E esse está uma delícia.
— Pois quando você for embora, filha, lembra de levar um pouquinho — avisou a senhora.
— Ah! Vou lembrar mesmo! — disse a moça com a graciosidade que lhe era peculiar.
Um barulho fez-se na sala, chamando a atenção de todos.
Era Juliana que chegara atrasada para a refeição.
Juliana, a irmã de João Carlos, era uma moça alta, de pele negra aveludada, que tinha um corpo exuberantemente formoso.
Trazia sempre um lindo sorriso alvo a iluminar seu belo rosto, aprazivelmente sereno.
Ela chegou à copa, espiou como quem brincasse e, com sua voz bonita, firme e macia, falou graciosamente:
— Acho que, pra variar, cheguei meio atrasadinha, né?
— Como sempre, né, filha? — disse sua mãe, sorrindo.
— Juliana — anunciou João Carlos, levantando-se empolgado —, essa é a Erika.
A irmã aproximou-se e, muito amistosa e sorridente, cumprimentou a jovem com beijos, dizendo ao afastar-se um pouco e olhá-la com atenção:
— Erika, você é muito mais bonita do que o João Carlos falou!
E, olhando para o irmão, completou, espremendo seus olhos expressivos:
— Como você é mentiroso, hein!
— Pare com isso antes que a Erika acredite — pediu, rindo com gosto.
— Mas é para acreditar.
Ela tem que saber, desde já, que eu sempre digo a verdade.
Você disse que ela era meio bonitinha.
Toma jeito, rapaz! Você nunca valoriza o que tem.
O irmão a empurrou, brincando, ao dizer:
— Fica quieta, senta e come.
— Não, filha — alertou sua mãe.
Vá se lavar, vai.
Você acabou de chegar da rua agora.
— Certo, certo, dona Ermínia.
A senhora falou, está falado — brincou a filha.
Logo depois, enquanto fazia sua refeição, Juliana mantinha uma agradável conversa com Erika, que, aliás, se simpatizou rapidamente com ela.
— Até que enfim nos conhecemos, não é?
Mas não repare nas minhas brincadeiras, adoro provocar meu irmão — argumentava Juliana, descontraída.
— Imagine, gosto de brincadeiras.
Mas puxa! Foi difícil nos conhecermos!
— Também, menina — lembrou a irmã de João Carlos —, nos últimos tempos não estou tendo folga nem nos domingos.
— Ainda bem, né, filha?
— Ainda bem mesmo.
— Você é decoradora, não é? — perguntou Erika, interessada.
— Eu tento! — riu gostosamente.
Formei-me em arquitectura quando descobri que gostava bem mais de decoração.
Aliás, não fui só eu.
Uma colega de faculdade, amiga mesmo, também se sentiu inclinada para decoração depois de formada.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 02, 2017 11:27 am

Então nós duas montamos em sociedade um pequeno estúdio que, graças a Deus, vem crescendo a cada dia.
— Eu sou curiosa — revelou Erika —, não repare.
Com o que você trabalha exactamente?
— A maior parte de nossa clientela é formada por lojistas de shoppings.
Normalmente esses são trabalhos rápidos e práticos.
Eles sempre aparecem nas temporadas.
—Como assim? — tornou Erika.
—No final do verão preparamos a loja para o clima outono-inverno, no fim do inverno preparamos para a primavera-verão, e assim por diante.
É trabalho certo.
Quanto ao tipo de decoração, tudo depende.
Primeiro temos que ver quanto o cliente quer investir, depois estudamos o que ele deseja com o tipo de mercadoria que oferece, se é uma loja de roupa social, esportiva, feminina, masculina... tudo depende.
Uau! Que barato! — exclamou com moderação.
Ah! Mas não cuidamos só disso não.
Temos também as decorações residenciais.
Estas são bem mais trabalhosas, detalhadas.
Precisamos estudar muito bem o que o cliente quer.
Sabe, precisamos até analisar a personalidade das pessoas da casa para fazermos um bom projecto.
Pois não vai adiantar nada ele nos agradar e ser inconveniente aos moradores, que certamente não darão boas referências nossas.
— Nossa, eu não imaginava que fosse assim.
— Mas isso é muito gostoso.
Adoro meu trabalho.
Já chamei o João Carlos para trabalhar comigo, mas...
— Não! Esse tipo de coisa não me agrada.
Não me vejo examinando cor de mármore combinando com louça, tecido combinando com vime...
Definitivamente isso não é para mim — afirmou o irmão.
— Mas bem que você poderia me ajudar nesse período de férias, né?
— Acho que o período de férias acabou — disse, interrompendo-a.
Estou analisando a proposta de montar uma academia com um colega.
Já está quase tudo certo.
— Óptimo!
— Só que eu ainda vou precisar contar com você — disse João Carlos esfregando o indicador e o polegar simbolizando dinheiro com o gesto que fazia.
— Tudo depende de quanto vou lucrar — respondeu Juliana com um largo sorriso no rosto, enquanto piscava para Erika.
—Você faria isso comigo?!
Sou o seu irmãozinho, lembra?
A conversa alongou-se, e todos se divertiam descontraidamente.
Mas, minutos depois, Erika sentiu necessidade de revelar:
—Foi minha mãe quem prejudicou o emprego do João Carlos lá no clube.
Ela conhece muita gente da directoria e...
—Como você soube? — perguntou o namorado.
— Através da Alda, aquela moça que trabalha na secretaria.
Ela acabou ficando com raiva da minha mãe que não a tratou bem quando esteve lá e, por isso, só de raiva, hoje ela ligou e me contou tudo.
Pediu para eu não dizer o nome dela, mas...
— Entre nós não haverá problemas — afirmou Juliana com convicção.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 02, 2017 11:28 am

Mas, sabe, foi bom isso ter acontecido.
Eu estava achando o João Carlos muito acomodado lá naquele clube.
Essas mudanças bruscas geralmente nos fazem acordar.
Não vamos reclamar, pois creio que novos horizontes vão se abrir para ele agora.
A academia é um deles.
— Acho que isso é verdade — concordou o rapaz.
A propósito, Erika, não vá brigar com sua mãe por causa disso, certo?
— Mas ela foi longe demais.
— Filha — atalhou dona Ermínia —, sua mãe pode ter errado, mas foi pensando no seu bem.
Mesmo que ela não tenha agido de modo correto, já está feito e não se pode mudar.
Não brigue com sua mãe.
Um dia, seja hoje ou daqui muitos anos, ela vai saber que errou e dará um jeitinho de consertar.
Não vale a pena você ficar irritada e cometer outro erro por causa do erro dela.
Deixe só sua mãe com coisas para consertar, entende?
Erika imediatamente sentiu-se mais tranquila e compreensiva com os conceitos simples e profundos de dona Ermínia.
Seu coração agora não estava mais com tanta raiva como antes.
Ela encontrara conforto, compreensão e amizade sincera em conversas simples que muitas vezes lhe faltavam em casa, com os seus.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 02, 2017 11:28 am

6 - O PESADELO DE BIANCA

Começava a escurecer, e todos os convidados de Gilda e Adalberto já haviam ido embora.
Helena pretendia fazer o mesmo, entretanto Gilda havia conquistado a neta dizendo que o dia seguinte seria melhor do que aquele, porque toda aquela casa estaria à disposição somente dela.
Conversando com a sobrinha na grande sala de estar, a tia tentava convencê-la:
—Bianca, amanhã voltamos.
Emburrada, fazendo manha ao falar, a menina dizia:
— Ah, tia Lena, só hoje, vai. Vamos ficar aqui, só hoje.
— Amanhã cedinho o tio Eduardo vai nos buscar e...
— Mas hoje de noite eu posso ficar brincando aqui.
Lá em casa não tem sala de brincar e aqui tem.
— Ora, Helena! — exclamou Gilda com certa elegância mesclada de imponência.
A Bianca está dizendo a verdade.
Deixa a menina brincar.
Se forem embora, ela vai chegar lá na sua casa, vai jantar e dormir.
Isso é o de sempre. Que coisa mais sem graça.
Aqui, ao menos hoje, poderá se distrair, jogar, brincar, ver coisas diferentes.
Sem contar que amanhã essa casa inteirinha será toda dela.
—Não posso deixá-la, o Mauro me recomenda sempre...
—"O Mauro, o Mauro..." — falou irritada.
Se ao menos ele conseguisse dar à filha metade do que ela tem aqui, talvez pudesse recomendar algo, mas...
Em seguida, insistiu:
— Não estou pedindo para que ela fique sozinha.
Fique você também.
Eduardo, que acompanhava a conversa sentado em um confortável sofá, lembrou:
- Bem que eu disse para trazer roupas.
— Mas as roupas da Erika hão de servir.
Que não seja esse o problema — resolvia Gilda.
— Ah. tia Lena! — falava a garotinha com jeito mimoso e olhar suplicante.
Vamos ficar, vai.
Helena suspirou fundo.
Não sabia o que fazer.
Não queria passar a noite ali, mas, pela sobrinha que tanto amava, decidiu:
—Está bem. Vou telefonar lá para casa e...
Antes que ela terminasse, Bianca saiu correndo e gritando de alegria, enquanto Gilda chamava a empregada, recomendando:
—Sónia, prepare o quarto de hóspedes para Helena e minha neta.
Virando-se em direcção à moça, orientou sorridente:
— Suba com ela, Helena.
Veja se ficará tudo a seu gosto, querida.
Helena pediu licença e subiu junto com Sónia.
Gilda, estampando um sorriso de triunfo, acomodou-se elegantemente em frente ao filho, concluindo com certa arrogância embutida na voz:
—Sempre consigo o que eu quero.
Viu só? Helena acabou ficando.
Eduardo apenas a olhou e deu-lhe um suave sorriso forçado.
Na verdade, ele pouco se importava com as palavras de sua mãe.
Seus pensamentos estavam presos em análises e comparações.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 03, 2017 11:07 am

Algo acontecia com ele, pois começou a notar mais Helena, uma moça simples, educada e que sabia se comportar.
Aquela havia sido a primeira vez que conversava por mais tempo com a moça, e não pôde deixar de perceber seu jeito recatado, cauteloso e meigo.
Helena era inteligente, gentil, além de ser bem bonita.
Eduardo estava acostumado a ser assediado por garotas com um certo comportamento dengoso, gestos e sorrisos treinados, que queriam sempre agradar a qualquer custo.
Helena era diferente.
Simples, objectiva, tranquila e natural.
Espontânea, não fazia nenhum gesto ou olhar para agradá-lo.
— Não acha, meu filho? — perguntou Gilda repentinamente.
— O quê? — perguntou após alguns segundos.
— Estou falando com você há um tempão!
Onde você estava, Edu?
— Com a cabeça nos negócios, mãe.
Fala, o que é?
— Eu estava falando dessa aí — disse gesticulando para a escada, referindo-se a Helena.
Que moça sem sal e sem açúcar.
Você não acha? Além de desconfiada.
Será que ela pensa que vou engolir a minha neta?
Você viu?
Ela não tira os olhos da menina.
O filho não disse nada.
Nesse momento a porta se abriu suavemente e Erika entrou sorridente.
— Por onde a senhorita andou, mocinha? — perguntou Gilda, implicante.
— Estou cansada.
Estou feliz e não quero que estrague a minha alegria — respondeu com um largo sorriso.
— Isso é jeito de falar comigo?!
Erika fez-se de surda e subiu rapidamente sem dar a chance para um duelo de palavras.
Notando certa movimentação no quarto de hóspedes, foi imediatamente ver o que era.
— Que surpresa boa!
Adorei a ideia — disse satisfeita ao saber que Helena ficaria ali.
— Só a Bianca mesmo para me fazer passar uma noite fora de casa.
— Óptimo! Poderemos conversar bastante.
Onde ela está?
— Na brinquedoteca que sua mãe montou.
— É bom que se divirta.
Agora vem aqui no meu quarto, vamos encontrar uma roupa da hora, bem leve, e vamos conversar.
Tenho tantas novidades...!
***
Já era madrugada e todos dormiam quando os gritos de Bianca acordaram Helena, que, assustada, se sentou rapidamente na cama da sobrinha tentando acordá-la.
Gilda, que também acordou com o choro da neta, correu até o quarto onde elas estavam:
- O que foi?!
O que está acontecendo?
Helena embalava a sobrinha no colo enquanto secava suas lágrimas, explicando à garota:
—Foi só um sonho, meu bem.
Não fique assim.
Erika, Eduardo e Adalberto também foram ver o que havia acontecido.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 03, 2017 11:07 am

Virando-se para todos, Helena explicou:
—A Bianca teve um sonho ruim. Foi isso.
Gilda sentou-se na cama e, como se exigisse, foi tirando a menina do colo de Helena.
—Não, não... — reclamou a garotinha, recusando-se a ir com a avó.
A mamãe falou pra eu não ficar com você.
A surpresa foi geral, e Helena tentou justificar:
— Ela ainda está confusa com o sonho.
Não se preocupe, dona Gilda.
— Eu não sonhei, eu vi a mamãe — respondeu Bianca, chorando.
— Oh, minha queridinha — agradava a avó com um carinho em seu rosto.
Você só sonhou, viu?
— Eu vi a mamãe!
Ela falou que foi você.
— Eu o quê, meu bem? — tornou Gilda.
—Ela morreu porque você mentiu.
A culpa foi sua.
Não vou mais ficar perto de você.
Todos se entreolharam sem entender, e Gilda, com uma reacção enérgica, levantou-se abruptamente bem nervosa:
Ora, Bia! O que é isso?
Não diga mentiras. Isso é feio.
Eu não estou mentindo — respondeu irritada.
Calma, Bia. Você só sonhou.
Não fale assim ou então a vovó ficará triste — pediu Helena mais cautelosa.
O que a senhora andou aprontando, hein, dona Gilda?
Perguntou Erika com certo deboche, aproximando-se da sobrinha para acariciá-la.
- Não me venha você com suas ironias, Erika! — exigiu Gilda quase gritando.
Ao perceber a discussão que poderia se iniciar, Adalberto saiu sorrateiramente sem dizer nada.
Eduardo, com uma expressão interrogativa no semblante, deu alguns passos em direcção a sua mãe, olhou-a bem nos olhos e falou firme:
—Não vá começar uma discussão agora, por favor.
— A Bianca está inventando isso e a Erika vem com sua agressividade barata! — indignou-se Gilda, nervosa.
— Eu também acabei de sonhar com a Lara, mãe — afirmou o rapaz.
Ela caminhava no corredor aí fora e me dizia que precisava falar com a filha.
A Lara estava vestida com farrapos e parecia muito maltratada.
— Não me venha com isso você também, Eduardo — disse Gilda com os olhos arregalados, afastando-se enquanto esfregava as mãos nervosas.
— Gente, isso foi só um sonho — argumentou Helena.
Não vamos dar importância a uma coisa dessas.
— Vejo que a única pessoa de bom senso aqui é você, Helena — objectou Gilda, tentando disfarçar sua irritação.
Abaixando-se ligeiramente, beijou Bianca:
— Boa-noite, meu bem. Vamos todos dormir.
É o melhor a fazer — e se retirou.
Erika, que estava de joelhos diante de Helena e Bianca, olhou para o irmão e perguntou:
—Que sonho estranho, hein?
Será que foi sonho mesmo?
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 03, 2017 11:07 am

Com uma expressão realmente impressionada, Eduardo se aproximou, olhou para Bianca e afirmou:
— Foi tão nítido, tão real...
— A mamãe tava triste, num tava, tio?
Ele ficou calado sem saber o que dizer.
Então Helena consolou a sobrinha com seu jeito amoroso:
— Mas foi só um sonho.
A sua mamãe está bem.
Ela está no céu com os anjinhos.
Agora é melhor você dormir ou não vai aproveitar nada quando o dia clarear.
Erika e Eduardo se retiraram.
Ajeitando a menina e, após alguns minutos, certificando-se de que ela dormia, Helena saiu da suíte, pois percebeu que os dois irmãos conversavam no quarto ao lado do seu.
—Posso entrar? — perguntou baixinho.
— Entra aí! — pediu Erika quase sussurrando para não atrair a atenção de sua mãe.
O Eduardo está impressionado até agora.
Ele não quis falar perto da Bia, mas...
— Eu vi a Lara nitidamente — disse o rapaz, interrompendo a irmã.
Ela estava com as roupas rasgadas, pareciam sujas.
Estava muito abatida, olhos fundos, meio roxos... — exibindo um rosto contrariado, continuou:
— Foi um sonho tão real.
Eu estava saindo do meu quarto quando a vi e perguntei o que fazia aqui.
Lara parou e, sem me olhar, falou que precisava falar com a Bianca.
Ela disse:
"Edu, preciso falar com a Bia.
Não quero que ela fique aqui.
Foi por culpa dela que eu morri.
Não quero minha filha nessa casa".
Daí eu perguntei:
"Por culpa de quem?"
E Lara respondeu ainda sem me olhar: "Da mãe".
Todos ficaram em silêncio absoluto.
Os olhos de Helena estavam arregalados, tamanha a surpresa.
— Seria só um sonho? — tornou Eduardo.
Não entendo, mas foi muito estranho a Bia ter acordado e dito exactamente o que a Lara havia falado para mim minutos antes.
— Se não fosse madrugada, eu iria embora agora mesmo.
Estou tão impressionada que até me arrepio — confessou Helena.
— O que será que isso quer dizer? — intrigou-se Erika.
Um aviso?
— Aviso de quê, Erika?
Você acha que a mãe pode fazer algum mal à Bianca?
Acha que ela fez algo contra a Lara, sua própria filha? — perguntou o irmão em tom cauteloso e prudente.
Vamos tomar cuidado com o que estamos falando.
Helena sentiu vontade de contar sobre o presente de Bianca que encontrara no quarto da menina, pois isso era uma prova de que Lara não havia ido buscá-lo, conforme alegou antes de sair de casa no dia de seu acidente, mas achou melhor se calar.
Decidiu então só contar que, quando esteve na casa de seu irmão alguns dias depois do enterro, viu a sobrinha conversando "sozinha" e ao interrogá-la, Bianca disse que falava com a mãe.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 03, 2017 11:07 am

— Achei aquilo muito estranho, mas penso que é coisa de criança.
Nem contei para o Mauro.
— Nem deve — falou Eduardo, levantando-se.
Seja como for, isso me impressiona muito.
Mas é melhor irmos dormir. Amanhã conversamos.
***
Na manhã seguinte, Bianca parecia ter se esquecido do sonho e brincava normalmente.
Helena, no entanto, sentia-se incomodada com o ocorrido, principalmente depois do relato tão impressionado do rapaz.
No final da tarde, Eduardo foi levá-las para casa.
Bianca, no banco de trás do veículo, brincava com algo que havia ganhado da avó enquanto Eduardo e Helena conversavam.
— Ainda bem que amanhã é feriado — comentou o rapaz.
— Eu também adoro os feriados.
Não há quem não goste.
Com intenção de se aproximar mais da moça, ele perguntou com jeito cauteloso:
— Você vai sair amanhã?
— Não. Quero ficar em casa.
Estou cansada, preocupada...
— Preocupada com o namoro que terminou?
Helena viu-se surpresa com a pergunta e titubeou para responder:
— E... estou meio... magoada, talvez.
— Gostava muito dele?
— Acho que me acostumei com ele.
Penso que seja isso.
— Então não tem pelo que se arrepender ou se magoar.
—Não me arrependo por ter terminado tudo.
Deveria ter feito isso há mais tempo.
Só não gosto de magoar as pessoas, sinto-me magoada também.
—Ele ficou muito chateado, não foi?
—Pelo jeito, ficou.
Quando terminei tudo, vi no Vagner um lado que eu ainda não conhecia.
Ele se mostrou agressivo, revoltado.
Após alguns segundos, pediu com jeitinho:
— Eu gostaria de não falar mais nesse assunto, você se importa?
— Não. Por favor, me desculpe.
Ela sorriu, e o rapaz não se conteve, perguntando:
—Quer sair amanhã?
Dar uma volta, quem sabe.
Surpresa com o convite, ela respondeu convicta, mas sorrindo gentilmente:
—Não, Eduardo, obrigada.
Prefiro ficar em casa. Obrigada.
— Então vamos lá em casa novamente, o dia estará óptimo para uma piscina. O que acha?
— Dois dias foram o bastante. Agradeço.
Ao chegarem, Eduardo resolveu entrar, acompanhando Helena e pegando a sobrinha no colo.
— Oi, filha! — cumprimentou dona Júlia.
Pensei que viessem mais cedo.
— O dia estava muito bom para uma piscina, dona Júlia — respondeu o rapaz.
Por isso não viemos mais cedo.
Mauro chegou na sala e pegou a filha dos braços de Eduardo.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 03, 2017 11:08 am

Abraçando-a e beijando-a com carinho, apertou-a contra o peito expressando um vivo sentimento.
Helena reparou algo diferente, mas nada comentou.
—O Mauro teve um sonho com a Bia essa noite — contou dona Júlia com simplicidade.
Acordou todo desesperado.
Queria telefonar, ir buscar a menina.
Aí falamos que ela estava se divertindo e ele iria estragar seu passeio.
Se houvesse algo errado, a Lena ligaria.
Quando Eduardo tomou fôlego para contar sobre seu sonho e o da sobrinha, Helena, bem próxima ao rapaz, segurou em seu braço com delicadeza e discrição, sorriu e desconversou:
—Ela se divertiu tanto, não é mesmo, Eduardo?
Ele, a princípio, ficou confuso; logo, porém, entendeu e confirmou:
— Foi sim.
— Vou preparar algo para vocês — disse dona Júlia.
— Não se preocupe com isso, dona Júlia.
Já estou indo — decidiu o moço, aproximando-se para se despedir.
Agradeço, mas preciso ir.
Após se despedirem, Helena o acompanhou até o portão.
Já na calçada, segura de que ninguém iria ouvi-los, ela revelou:
— Desculpe-me por aquilo, Eduardo.
E que ando notando meu irmão muito impressionado ultimamente.
— E se eu contasse sobre o sonho ele não iria mais deixar a Bia ir lá em casa, certo?
— Exactamente. Talvez tudo não passe de um sonho.
Não vamos dar tanta importância.
— Você tem razão.
Agora, olhando-a como se a contemplasse, Eduardo prendeu seus lindos olhos azuis no rosto sereno da moça e falou de modo tranquilo:
— Estou sentindo você muito tensa, preocupada.
Quer sair e espairecer um pouco?
— Já espaireci demais nesses últimos dois dias — respondeu, sorrindo com jeitinho.
— Lá em casa você estava preocupada com a Bia, com um e outro que ficavam reparando, comentando...
— Nisso você tem razão.
Não estou acostumada com tanta gente.
Ele riu gostosamente e concordou:
—Principalmente com gente daquele tipo, não é?
Helena, um tanto sem graça, somente sorriu.
Ele, muito educadamente, voltou a insistir:
— Vamos, vai lá e pegue sua bolsa.
Daremos só uma volta. Podemos...
— Agradeço, Eduardo — interrompeu-o.
Mas vai ter que ficar para outro dia.
Ele encolheu os ombros e se despediu:
—Então... até amanhã.
— Espere, não combinamos que a Bia iria a sua casa amanhã.
Eu não quero ir novamente a sua casa.
Perdoe-me a sinceridade, mas...
— Hei! Não estou combinando nada para a Bia.
Muito menos para irmos à minha casa.
Pensei em vir buscá-la para sairmos.
—Por favor. Deixa para outro dia.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

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