Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 03, 2017 11:08 am

Ele sorriu meio contrariado, aproximou-se da moça e, beijando-lhe o rosto, disse:
—Então tchau.
Helena, parada no portão, ficou pensativa e preocupada enquanto observava o carro sumir no fim da rua.
Seus pensamentos estavam confusos por perceber alguma coisa diferente no comportamento de Eduardo.
"Posso estar enganada", pensava.
"Talvez ele esteja só querendo sair comigo como amigo.
Querendo me ver mais animada..."
Em todo caso, decidiu redobrar a vigilância.
Não queria se envolver tão rapidamente com outra pessoa.
Havia terminado muito recentemente um compromisso que a deixou bastante aborrecida, desiludida mesmo.
Não queria se desgastar mais.
Pensava distraída em tudo isso quando sentiu que alguém segurava seu braço com força e brutalidade.
Um terror percorreu-lhe todo o corpo, e ela ia gritar quando reconheceu a figura de Vagner que, com rosto sisudo e parecendo insano, inquiriu:
— Então me culpa por incapacidade só para não admitir sua traição?
— Do que está falando?
O que é isso?
Larga o meu braço! — pediu movendo-se, querendo se livrar da mão que a prendia firmemente.
Vagner, porém, encostando-se nela, ameaçou:
— Não sou do tipo que aceita perder.
Acho que você não me conhece, Helena.
— Larga meu braço! — exigiu em tom baixo, porém enérgico.
Você está me machucando.
Não temos mais nada.
Quem é você para tentar me coagir?
Helena o encarou e pôde observar que em seu olhar havia um brilho frio, cruel e aterrador, o que repentinamente a fez gelar e recear qualquer atitude mais brusca.
Ele a empurrou e, com sorriso sarcástico, disse:
— Não imaginava que você fosse tão vulgar.
— Suma daqui! Nunca mais quero vê-lo.
Não temos mais nada.
—Você está pensando que estou mendigando sua atenção?
Seu amor? Estou é com raiva! — falava com os dentes cerrados.
Estou com ódio por ter sido enganado, traído. Você não presta.
Helena, aproveitando um momento de distracção, virou-se o mais rápido que conseguiu e entrou correndo.
Já dentro de casa ela se sentia mais segura, no entanto ainda estava pálida e trémula.
Decidiu não dizer nada a ninguém, pois não queria alardeá-los com seus problemas ou algo que logo passaria.
Indo para o quarto, atirou-se sobre a cama sentindo o coração oprimido, envolto por um sentimento triste e assustador.
Não resistindo ao medo que a dominava, desatou a chorar por muito tempo, até adormecer.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 03, 2017 11:08 am

7 - A VOLTA DE MIGUEL

O tempo seguia normalmente seu curso.
No serviço, Helena não se sentia muito bem.
Uma profunda angústia a dominava, reflectindo-se em suas acções.
Um telefonema inesperado deixou-a ainda mais perturbada.
— Oi, Helena.
Aqui é a Mara, irmã do Vagner, tudo bem?
— Tudo, Mara. E você?
A princípio a conversa foi cordial e somente actualizava as novidades, mas Helena pressentia que a qualquer momento seria abordada pela moça, que se fazia gentil demais até então.
—Sabe, Helena, estou telefonando não só para saber como estão todos, mas também para saber direito o que aconteceu entre você e meu irmão.
Ultimamente o Vagner não anda muito bem.
—Ele contou que nós terminamos?
— Na verdade, ele contou que você fez inúmeras exigências, que mudou muito com ele e por isso ele desconfiava que houvesse outro.
Disse que confirmou essa suspeita quando a viu no portão de sua casa com um rapaz.
— Não foi nada disso, Mara.
Quando o Vagner me viu no Portão, eu simplesmente estava acompanhando o cunhado de meu irmão que ia embora.
Helena contou em detalhes o motivo que a levou a terminar o namoro, causado principalmente pelo facto de Vagner não se preocupar em se estabilizar num emprego ou ter uma profissão.
E de como se sentiu mal com o comportamento que ele apresentou quando a segurou com tanta agressividade.
—Há tempos venho falando, Mara.
O Vagner não tem nenhuma iniciativa nem perspectiva para melhorar.
Não estuda, não se aprimora...
Além de tudo, acabei descobrindo um lado agressivo que antes não conhecia.
O que posso esperar dele?
Mara silenciou, e Helena ainda disse:
— Sempre gostei do seu irmão, mas isso não e o suficiente.
Ele não apresenta progresso, não podemos só ficar acalentando sonhos.
O que vamos fazer?
Namorar a vida inteira?
Ou casar e eu sustentar a casa?
Todas essas dúvidas, todas essas inseguranças começaram a me abalar, a me deixar preocupada, indecisa, você entende?
— Você tem razão, Lena.
Podemos dizer que demorou muito.
— O Vagner não pode falar que eu não dei chance a ele.
Muito menos que o traí.
— Isso é verdade.
Mas, Lena, o que mais me preocupa é como ele está agindo ultimamente.
— Como assim?
— Ele não come, não dorme.
Reclama o tempo todo.
Minha mãe falou que ele anda bebendo e, se antes não parava no serviço, agora nem procura.
Estamos preocupadas com ele.
Helena emudeceu, não sabia o que dizer.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 03, 2017 11:08 am

— Lena, e se você tentasse conversar com ele?
— Desculpe-me, Mara, mas não dá.
Da última vez que conversamos, ele foi muito agressivo, muito bruto mesmo.
Esse lado de sua personalidade eu não conhecia e também não quero mais ver.
Além disso, ele vem me ameaçando, dizendo que está com ódio por achar que eu o traí.
Sinto muito, mas quero distância do seu irmão.
— Desculpe-me se a incomodo, mas também não sei mais o que fazer.
Eu e minha mãe achamos que ele não está se envolvendo com boas companhias.
Estamos com medo.
Achamos que isso aconteceu por vocês terem terminado.
—Veja, Mara, milhões de pessoas terminam namoros, noivados e casamentos todos os dias e nem por isso se tornam agressivas, rudes ou marginais.
Perdoe-me a franqueza, mas não sei o que posso fazer e tenho medo de tentar qualquer aproximação para ajudá-lo.
— Tudo bem. Foi bom a gente conversar; muitas coisas se esclareceram para mim. Obrigada.
Helena ficou inquieta, sentia que algo não estava bem, mas não disse mais nada; queria que a conversa terminasse logo.
Naquela noite, ao chegar em casa, Helena presenciou seu irmão repreendendo a filha.
— Não minta mais, entendeu, Bianca?
— Eu não menti... — dizia chorando.
Imediatamente, Helena atirou sua bolsa sobre o sofá e correu em defesa da sobrinha.
—O que está acontecendo aqui? — perguntou, abaixando-se ao lado da pequenina que chorava.
Acalentando-a com carinho e virando-se para o irmão, perguntou novamente como se o repreendesse:
— Por que isso, Mauro?
Ele mostrava-se nitidamente nervoso, andando pela sala, esfregando o rosto e passando as mãos pelos cabelos, enquanto Helena o seguia com os olhos como se cobrasse sua resposta.
— Ela é minha filha.
Preciso repreendê-la quando necessário.
— Ensinar não significa torturar — retrucou a irmã.
— A Bianca mentiu.
— Não menti — insistiu a pequenina, ainda chorosa.
— O que aconteceu? — tornou Helena.
—A Bianca começou a dizer que viu a Lara.
Disse que ela chorava.
—Eu vi sim, tia.
—Tudo bem. Fique tranquila — pediu a tia enquanto acariciava-lhe com ternura.
Voltando-se para o irmão, Helena falou:
— Precisamos conversar, Mauro.
Tem um tempo agora?
—Não. Estou indo para o aeroporto pegar o Miguel.
— Ele chega hoje?! — indagou surpresa e alegre.
— Claro. Esqueceu?
— Completamente. Tive um dia...
Logo, porém, ela lembrou:
— Cade a mãe?
Ela não vai ao aeroporto com você?
— Disse que iria, mas até agora não chegou.
Precisou ir até a casa não sei de quem para conversar com a mãe de uma amiga da Carla.
—Ah! Deve ser na casa da Cristina.
Mas por que ela foi lá?
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 03, 2017 11:09 am

Mauro agora sorriu meio irónico, encarou-a com uma fisionomia estranha e, movendo a cabeça afirmativamente, avisou:
—Você vai saber assim que vir a Carla.
Helena experimentou um misto de curiosidade e preocupação, mas decidiu ser paciente. Iria aguardar.
—Acho que vou indo.
A mãe está demorando.
Fica com a Bia, tá?
Abraçando a sobrinha, Helena a beijou, deu-lhe algumas mordidinhas para fazê-la rir e brincou:
—Não! Não vou ficar com ela, não.
Mauro, agora bem mais tranquilo, sorriu satisfeito.
Pegando as chaves do carro, ele se despediu e foi buscar o irmão.
Sozinha com a sobrinha, Helena perguntou:
— Você já tomou banho?
— Ainda não, tia.
—Então vamos lá! Comprei um xampu novo; vamos usá-lo e ver como seus cabelos vão ficar cheirosos e macios.
Mais tarde, em seu quarto, Helena decidiu investigar um pouco mais sobre o que Bianca vinha afirmando ter visto nos últimos tempos.
Enquanto desembaraçava os cabelos da sobrinha, falou com jeitinho para não assustá-la ou induzi-la a dar excesso de atenção ao facto, calculando bem as palavras.
—O seu pai ficou bravo com você, Bia.
Mas não fique triste com ele, certo?
—Mas eu não menti, tia.
—Sabe, querida, não é muito comum enxergarmos as pessoas que já se foram.
E por isso que o seu pai está preocupado.
Você disse a ele que viu a sua mãe hoje?
— Eu vejo mamãe quase sempre.
— Como assim? — insistiu Helena, tentando disfarçar sua curiosidade.
— Não sei explicar, eu vejo a mamãe quase sempre.
— Onde você a vê?
— Aqui pela casa.
Mas ela fica mais perto de você e do papai.
Olha, quando você chegou, ela tava do seu lado chorando, segurando seu braço e dizendo:
"Faça alguma coisa!" — relatou a menina como se tentasse imitar o jeito de falar de sua mãe.
— E, antes que eu chegasse, o que você disse ao seu pai?
— Ele tava sentado lá no quarto.
Ela tava chorando no ombro dele e pedia ajuda.
Meu pai tava quase chorando e parecia que ele ouvia tudo o que ela falava.
— Bia — disse a tia se acomodando na frente da menina e fazendo-a olhar em seus olhos —, você está dizendo a verdade mesmo?
— Claro, tia! Eu juro que tô.
Preocupada por não ter o que dizer, talvez pela falta de conhecimento sobre a vida no plano espiritual, Helena ficou estagnada.
— Tia — chamou Bianca tirando-a da reflexão —, minha mãe sempre diz pra você que ela não se matou não.
Pra você não pensar isso dela.
— O que é isso, Bia! — exclamou Helena, perplexa.
Ninguém nunca falou isso.
Sua mãe sofreu um acidente.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 03, 2017 11:09 am

Passado o espanto, perguntou um pouco mais calma:
Foi ela quem disse isso para você?
— Pra mim, não.
Ela falou pra você ontem e outros dias também.
— Você a vê com frequência?
— Mais ou menos — respondeu meneando a mãozinha Para gesticular.
Às vezes ela some por dias.
— Ela está aqui agora? — Perguntou a tia um tanto temerosa.
Não. Agora não.
Quando ela aparece, mesmo se eu fechar os olhos continuo vendo minha mãe aqui dentro da minha cabeça e até vejo ela andando pra lá e pra cá, falando e chorando.
Eu não gosto disso, tia.
Helena sentiu-se quase aterrorizada.
Acreditava em Bianca.
De alguma maneira, sabia que a menina dizia a verdade.
Principalmente por ter falado das suas suspeitas de suicídio, algo que não havia comentado com ninguém.
Sem saber o que dizer para explicar tudo aquilo, recomendou:
—Bia, vamos rezar bastante para Deus ajudar sua mamãe, está certo?
Pediremos ao Papai do Céu que a proteja e a leve para morar com os Seus anjos.
A garotinha balançou a cabeça positivamente e não disse mais nada.
Altas vozes puderam ser ouvidas na sala, desviando a atenção de Helena.
— Quem será que chegou? — perguntou a moça, curiosa.
— Posso ligar a televisão aqui do quarto, tia?
— Pode sim — consentiu enquanto levantava e ia para a sala.
Ao olhar sua irmã, Helena se surpreendeu:
—O que é isso, Carla?! Seus cabelos...!
—Veja, Helena! — reclamava dona Júlia enfurecida.
E sua irmã ainda diz que eu não tenho pelo que reclamar, diz que é moda!
Olha só isso!!!
Carla havia tingido seus cabelos.
Trocara o loiro-escuro por um vermelho-púrpura, com algumas mechas verdes e rosas, repicando-os com um corte desalinhado.
—Carla, como pôde?! — exclamou a irmã completamente perplexa.
—O cabelo é meu, tá bom! — respondeu malcriada.
Dona Júlia, tomada por uma reacção inesperada, quase furiosa, pegou a filha pelos braços, segurou-a com firmeza e disse, olhando bem em seus olhos:
—O cabelo pode ser seu, mas você é minha filha.
E dependente, vive sob o meu tecto, além de eu e de seu pai sermos responsáveis por você.
Por isso, mocinha — completou, largando-a com um leve empurrão —, qualquer decisão que você for tomar, antes tem que nos avisar e pedir permissão! Entendeu?!
Após alguns passos hesitantes pela sala, a mulher ainda falou:
— Eu tive uma filha saudável e perfeita, não uma criatura insana e volúvel que se deixa manipular pelo modismo ou pelas ideias dos outros.
—Mas mãe...
—Cale a boca! — gritou.
Eu não terminei.
Qualquer que seja a sua opinião nesse momento, será um insulto à minha inteligência, às minhas convicções morais!
Não diga mais nada.
Carla sentou-se bruscamente no sofá e cruzou os braços com o rosto sisudo, descontente.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 03, 2017 11:09 am

— O que é isso, criatura de Deus?!!! — prosseguiu a mãe, protestando ao apontar para os cabelos da filha.
A menina me sai de manhã e chega em casa com a outra doida desse jeito aí!
E ainda não quer que eu reclame!
O que você tem na cabeça, Carla?! — gritou nervosa.
— Mãe, calma — pediu Helena, tentando apaziguar a situação.
— Que calma o quê!!!
Se ela está pensando que isso vai ficar assim, não vai mesmo.
Se eu deixar hoje, deixar amanhã, vou perder o meu direito e a minha dignidade como mãe.
Filha minha, se quiser mudar de vida, de aparência, de... seja lá o que for, ou vai fazer isso bem longe de mim, ou vai ter que passar por cima do meu cadáver.
Virando-se para Helena, ainda avisou enérgica:
— E isso serve para você também, dona Helena.
— Ah?!... Eu nem fiz nada...
— E não me responda!
Dona Júlia estava furiosa e até atordoada tentando buscar uma solução imediata para o problema.
Após dissertar longamente, lembrou-se:
— Helena!
Pegue dinheiro ali na minha carteira e vá lá na farmácia comprar uma tinta de cabelo, e de uma cor decente!
Eu mesma vou dar um jeito nisso.
— A senhora não vai tingir o meu cabelo — reagiu Carla irritada e começando a chorar.
— Isso é o que nós vamos ver!
Ou tinjo ou raspo sua cabeça.
Você é quem escolhe.
— Mãe, amanhã com mais tempo ela vai a um salão e...
— Faça o que eu mandei Helena!
Não adiantava tentar argumentar, dona Júlia estava quase fora de si.
Algum tempo depois, a mulher trancou-se no banheiro com a filha e o material necessário para mudar a cor dos cabelos.
Seu Jairo, que havia acabado de chegar, soube da novidade por Helena, que detalhou tudo.
O homem, que a princípio estava bem sério, começou a rir sem parar:
— E você nem para tirar uma só foto para eu ver, né?
— Pai!!! — riu Helena.
Do lado de fora do banheiro, eles ouviam somente a voz de dona Júlia que, indignada, não parava de falar.
— Isso é uma falta de respeito!
Não foi esse o exemplo que demos a você.
Tudo aqui em casa é dialogado, conversado muito.
Não foi essa a educação que lhe dei...
— Pai, vai lá, faça alguma coisa — pediu Helena, impaciente.
— Eu?! Ficou louca?
Se eu tentar falar com sua mãe, se eu passar perto dela agora, sairei de lá tingido também.
Quando a dona Júlia fica brava... não tem jeito.
— Se bem que a Carla abusou dessa vez.
A chegada de Miguel trouxe grande alegria a todos.
Após abraçar o pai e levantar a irmã no colo, perguntou com um sorriso radiante:
— E a mãe, a Carla, a vó, a Bia...?
— A vó decidiu ir lá para a casa da tia — avisou Mauro.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 03, 2017 11:09 am

—A Bia está lá no quarto — disse Helena.
Seu Jairo, tentando segurar o riso, contou tudo o que estava acontecendo.
Mauro ainda comentou:
— Eu sabia que a mãe não iria deixar isso passar em branco.
— Mas sua mãe agiu certo — disse o pai, agora mais sério.
— Isso pode até ser engraçado, mas não pode acontecer.
Voltando-se para Miguel, perguntou:
— Conte as novidades. Como foi a viagem?
— O voo atrasou. Eu fiquei...
***
Mesmo com a alegria contagiante de Miguel, o irmão com quem mais se dava bem, Helena sentia seu coração apertado.
Enquanto isso, na espiritualidade, Lara, que acompanhava tudo, se conservava tristonha e deprimida.
Aconteceu que, após o seu desencarne, Lara foi levada a um local apropriado ao seu refazimento.
Quando despertou em uma colónia espiritual, recebeu orientações de espíritos amigos com entendimento suficiente para esclarecer-lhe sobre sua nova situação.
Lara ficou confusa, inconformada pelo desencarne súbito, não aceitando a nova vida e desejando rever os entes queridos que ainda se encontravam no plano físico.
Recebeu incontáveis orientações e conselhos sobre quanto seria prejudicial estar junto dos seus sem ter antes uma preparação maior na espiritualidade, mas não adiantou.
Lara não queria acreditar que havia desencarnado, imaginando que tudo aquilo fosse apenas um sonho tenebroso do qual desejava despertar.
Pensando intensamente no marido que amava, lamentava não tê-lo perto para esclarecer suas dúvidas e ampará-la.
Nutria por Mauro um apego excessivo.
Bastante dependente de seu contacto, apoio e atenção, Lara não admitia estar longe dele.
E foi com um intenso desejo de tê-lo ao lado que, repentinamente, se viu abraçada ao marido, beijando-lhe a face molhada de lágrimas, algumas semanas após seu desencarne.
Qual não foi sua surpresa quando percebeu que o marido não a notava, mesmo quando o tocava na face abatida e em desespero, chamando-lhe a atenção.
Mauro não reagia à sua Presença de maneira alguma.
Era como se ela não estivesse ali.
Lara, agora bem longe do lugar reconfortante e seguro onde havia sido socorrida, estava extremamente perturbada, sem esclarecimento e equilíbrio de suas emoções e sentimentos.
Sem compreender sua nova situação, a jovem mulher estava longe de acreditar que pudesse perturbar a própria família, aqueles que ela tanto amava.
Mauro, além da dor que tentava suportar pela brusca separação, ainda tinha que enfrentar a vibração perturbada da esposa pela sua proximidade, sempre lamentosa e extremamente triste pelo que havia acontecido.
O marido, a cada dia, sentia-se mais triste e deprimido.
Algo em seus sentimentos o desesperava.
Ele não se acostumava sem Lara, que o envolvia com uma onda de vibrações inferiores, uma energia amarga.
Por ter sido alertado e até repreendido por sua irmã Helena e por sua mãe, Mauro decidiu omitir suas queixas e sentimentos, acreditando que com o tempo tudo isso passaria.
Mas não passou.
Mauro encontrava-se cada vez mais desanimado, e a saudade aumentava imensamente.
Ele passou a não ter nenhuma alegria pela vida.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 03, 2017 11:10 am

Somente Bianca ainda conseguia roubar-lhe algum sorriso e atenção.
Se bem que ele acreditava que Helena era bem mais útil à pequenina do que ele.
Sem fortalecimento espiritual, Lara criava energias inferiores, atraindo para seu campo vibratório a atenção de outros desencarnados brincalhões e zombeteiros, dispostos a perturbá-la ainda mais.
Aproximando-se, eles a observavam por algum tempo, tomavam conhecimento de sua história e, sem nenhuma piedade, a acusavam cruelmente:
—Suicida! Louca! Suicida!
— Eu não me matei! — alegava chorando.
Eu não tirei minha vida...
— Por que diz que o ama tanto? — tornavam os zombeteiros.
Você não foi fiel, não contou ao seu marido o que pensava dele.
Quem esconde, trai!
Traidora! Você o traiu.
— Nunca traí meu marido — respondia lamuriosa e exausta.
Eu só queria saber se era verdade...
Passavam por Lara inúmeros desencarnados que, prazerosamente, a queriam deprimir, espezinhá-la, oprimi-la mesmo por pura maldade por causa da falta de evolução moral e espiritual que possuíam.
Com o tempo, Lara passou a notar que a pequena Bianca, em determinadas condições, podia percebê-la.
Foi aí que, sem saber que a estava prejudicando e fazendo-a sofrer, despendia intensa energia para tentar se comunicar, exibindo-se como se estivesse viva para dizer que ainda estava com eles.
A sensibilidade de Bianca conseguia acompanhar, algumas vezes, as impressões e o estado de Lara, os quais, por não serem muito bons, deprimiam muito a garotinha que não podia entender o que estava acontecendo.
Lara estava completamente desguarnecida de energias salutares para recompor-se espiritualmente por causa da sua permanência junto aos encarnados, já que lá não era o seu lugar.
Seu estado consciencial admitia dolorosos sofrimentos, como se ainda estivesse encarnada, levando-a a experimentar todas as necessidades físicas como se ainda possuísse um corpo de carne.
Por não ter querido receber as orientações necessárias no lugar apropriado, não sabia como poderia se refazer espiritualmente e, por isso, apresentava-se com uma aparência deplorável, sofrida.
Sua roupagem perispiritual tinha aspecto esfarrapado, turvo, algo realmente feio.
Agora com uma feição pálida, cadavérica e desfigurada, pois havia perdido completamente a beleza e a exuberância que um dia possuiu quando encarnada, exibia-se magra e com um andar moribundo que demonstrava sua fraqueza, suas necessidades.
Junto aos familiares, ora ela se aproximava de um, ora de outro, e aos poucos os impregnava com suas vibrações e fluidos pesarosos graças aos pensamentos tristes, depressivos e confusos que cultivava e emanava pela falta de fé.
Os encarnados não percebiam sua presença, mas, com os dias, experimentavam uma sensação angustiosa, indefinida.
Diante de fatos corriqueiros, melindravam-se entristecidos, perdendo o ânimo com facilidade e caindo na melancolia de sentimentos que não sabiam explicar.
Principalmente Mauro, por sentir imensamente sua falta, acabava por atraí-la constantemente para junto de si com seus pensamentos.
Lara o envolvia com um abraço, agarrando-se a ele desejosa de poder ser percebida, pedindo-lhe ajuda, chegando a se lamentar de forma até agonizante.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 03, 2017 11:10 am

Em alguns momentos em que despendia muita energia, Lara sentia-se extremamente enfraquecida, principalmente quando desejava ser percebida pelos encarnados.
Exaurida de forças, era arrebatada por um cansaço semelhante ao desfalecimento.
Porém, logo se sentia um pouco mais fortalecida quando, sem saber, sugava energias salutares dos encarnados que envolvia, deixando-os desanimados, fracos e até mesmo fazendo-os se sentir enfermos.
Isso é conhecido como vampirismo.
Não era fácil para o pobre espírito Lara, tão desvalida de fé, compreender e admitir sua nova condição, aceitar os desígnios de Deus, aguardando a seu tempo que a Sabedoria Divina manifestasse Seus propósitos de amor que nos reservou.
***
Depois de um longo relato, o filho de dona Júlia, que acabava de chegar da Europa onde fora a serviço, ficou visivelmente feliz por poder abraçar sua mãe, que também estava ansiosa para revê-lo.
— Você está mais magro, Miguel! — observou dona Júlia ao se afastar do abraço.
— E porque fiquei longe da sua comida e de seus cuidados, dona Júlia.
Carla, como um protesto ao que sua mãe fizera há pouco, não foi até a sala cumprimentar o irmão.
Helena, atenta ao que acontecia, percebeu a atitude de sua irmã e, discretamente, foi a sua procura.
Entrando no quarto, observou Carla, que, deitada em sua cama, ainda chorava.
A irmã se aproximou, sentou-se ao seu lado e a tocou com carinho quando disse:
—Não fique assim, Carla.
A jovem, com um jeito rebelde, virou-se para a irmã e falou com uma voz rouca pelo choro e um olhar colérico:
— E devo ficar como?!
Diz isso porque não é com você!
Olha só como ficou agora!
Gostou?! — perguntou agressiva, referindo-se à nova cor de seus cabelos que ficaram bem escuros.
— Oh, Carla, a mãe estava nervosa.
Também, né...!
Aquilo que você fez não ficou nada bonito.
— Não vou mais sair desse quarto até meu cabelo crescer, até sair toda essa cor! — dizia revoltada.
— Agora está meio escuro, ainda.
Quando começar a lavá-los todos os dias, vai melhorar.
E com jeitinho comentou:
— Se bem que agora, Carla, está melhor do que antes.
Aquele vermelho, verde e sei lá mais o que estavam horrorosos.
— Está na moda, tá!
Eu recebi um convite para fazer umas fotos e precisava daquela cor.
— Quando uma agência publicitária, ou sei lá o que ficar exigindo que você se transforme, se altere por causa de qualquer coisinha, você deve pensar que isso é uma agressão, uma falta de respeito à sua verdadeira imagem.
Acho que, na verdade, eles não querem você, mas sim uma doida qualquer disposta a tudo para aparecer.
Dê-se um pouco mais de valor, ou daqui a pouco vão mandar você se tatuar, arrancar os dentes, colocar piercings, arrancar um braço fora... — exagerou Helena.
Sei que você está magoada, mas não posso tirar a razão da mãe.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 03, 2017 11:10 am

Eu mesma me choquei quando a vi daquele jeito.
E olha que já vi muito disso pela rua, mas nunca imaginei que minha própria irmã pudesse...
Algumas poucas batidas na porta as fizeram perceber a presença de Miguel.
—Ei! Como é?
Não vai me cumprimentar, não?
Carla sentou-se na cama, e ele acomodou-se a seu lado, abraçando-a com carinho.
Afastando-a um pouco, Miguel procurou olhá-la bem nos olhos quando perguntou:
—O que você andou aprontando, hein?
Carla contou sua versão da história enquanto o irmão a ouvia atentamente.
— Sabe, não é difícil vermos esses cabelos exageradamente diferentes pelas ruas da Europa, porém eu particularmente acho muito feio.
Você é tão bonita, Carla.
Não precisa disso para aparecer.
— Mas era uma oportunidade para fazer algumas fotos.
A mãe não podia fazer isso.
— A mãe estava nervosa e com razão.
Se ela não nos orientar, não reagir quando for preciso, verá seus filhos se desvirtuando pela vida.
Pense comigo, Carla:
nossos pais nos amam e por isso nos repreendem; se não for assim estarão falhando como pais.
A responsabilidade e as experiências que eles têm não os deixam ser negligentes.
Somente pais irresponsáveis deixam os filhos se tingirem hoje, se tatuarem amanhã, se furarem com piercings depois, só porque é moda.
Será que isso pode levar progresso a uma pessoa?
Que serventia tem?
Sabe onde isso geralmente acaba?
Nas drogas, na promiscuidade, na prostituição, no alcoolismo, com certeza.
Porque a pessoa que quer muito andar na moda acaba perdendo a noção do bom senso, do ridículo e do respeito a si mesma, pois só quer ser diferente, agressiva, estar na moda.
Você não pode investir no ridículo para se promover.
Se ceder a todos os pedidos que lhe fizerem, estará se desvalorizando, destruindo sua auto-estima.
Você não é uma qualquer para reagir covardemente e aceitar uma proposta tão vulgar, tão agressiva.
Acho que pensou só nas fotos que faria, mas e depois?
Vendo-a triste ainda, sugeriu:
— Faça o seguinte:
amanhã você procura um bom salão, corta seus cabelos de forma bem decente e pergunta como pode fazer para deixá-los com uma cor mais natural.
Vai ver como ficará bom e sem agredir você ou outra pessoa.
— E mesmo! — incentivou Helena.
Você sempre achou os cabelos da Erika, que são bem curtinhos, uma graça!
Pode cortar como os dela.
Carla, ainda tristonha, pareceu mais tranquila, aceitando a ideia.
—Viu, você pode mudar e ficar mais bonita sem tanta... tanta... — Miguel procurava palavras para completar sua ideia, mas não as encontrava.
Helena, sem conseguir segurar o riso, rematou rapidamente:
—Sem tanta tinta vermelha, verde, rosa...
Carla acabou rindo e empurrando a irmã.
Dona Júlia, chegando no quarto a fim de chamá-los para jantar, presenciou a brincadeira e sentiu seu coração mais aliviado, pois não queria magoar a filha como o fizera.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 04, 2017 11:39 am

8 - AS EXIGÊNCIAS DE GILDA

No final de semana, Miguel já estava quase totalmente inteirado sobre as novidades.
Ficara um tempo considerável na Europa, mas ficava sabendo de tudo por telefone e pelos e-mails que Helena enviava, apesar de esses meios de comunicação não causarem o mesmo impacto que se tem quando se presencia um facto de perto, observando as expressões, os olhares e os contactos directos capazes de transmitir muito mais sentimento, energia e emoção aos acontecimentos.
Helena, feliz com a chegada do irmão, levantou-se cedo, ajudou sua mãe no preparo do desjejum e decidiu:
—Vou buscar o pão, mãe.
Ao retornar, caminhava tranquila deixando seus pensamentos vagarem livres, com planos para o que iria fazer.
Pensava em comprar um computador novo e, com a ajuda de seu irmão, deixar a máquina com programas e sistemas bem actualizados.
Repentinamente foi surpreendida por um vulto que se aproximava.
Olhando rapidamente para trás, a moça assustou-se com Vagner, que a alcançou, e, segurando-a firme, falou com voz vacilante, trôpega, como se houvesse bebido.
—Você... Vem cá...
—O que é isso, Vagner?
Solta meu braço! — exigiu a jovem.
—O que está pensando? Você não vai fugir de mim.
—Você está bêbado.
Larga meu braço! — quase gritou Helena quando o viu tirar do cinto uma pequena arma de fogo, apontando para ela com a mão trémula.
—Tá vendo? Oh! Fica quietinha, viu?
Helena sentiu-se gelar.
Pensou em gritar, mas seria um risco ainda maior.
Era bem cedo e não havia ninguém ali por perto que pudesse ajudá-la.
Vagner a empurrou de encontro ao muro e começou a dizer coisas desconexas, passando a beijá-la forçadamente.
Apavorada, repudiava-o, mas não conseguia livrar-se do abraço, não tinha forças.
Helena possuía um porte físico frágil e delicado.
Porém, numa acção rápida, sem pensar muito, passou por baixo dos braços de Vagner conseguindo fugir.
Correndo como nunca, alcançou o portão de sua casa, entrando apressadamente.
Pálida e trémula, sentia seu coração acelerado como se quisesse saltar de seu peito.
Um suor frio cobriu-lhe o rosto, e, ainda ofegante, abriu a porta da sala e entrou.
Parou por alguns instantes e, sem ser percebida, correu para seu quarto.
Assustada, estampando no rosto uma feição de pavor, sentou-se em sua cama e procurou se acalmar.
Nesse instante Carla acordou e, percebendo que algo estava errado, perguntou:
— O que foi, Lena?
— Nada... — respondeu com voz trémula.
—Como nada? Parece que você viu um fantasma!
Helena nem prestou atenção ao que a irmã falava, estava amedrontada demais.
Seus pensamentos corriam céleres recordando tudo o que ocorrera em rápidos minutos que pareceram eternos.
Ela nunca havia se intimidado tanto.
Começou a sentir nojo de si mesma quando se lembrou dos beijos e, numa atitude impensada, começou a passar as costas da mão na boca como se pudesse impá-la e retirar aquela sensação repugnante que sentia.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 04, 2017 11:40 am

Copiosas lágrimas deslizaram em seu rosto quando Carla, acomodando-se a seu lado, num gesto afável, abraçou-a e, puxando-a para si, falou mansamente:
—Ei! O que aconteceu, hein?
Helena abraçou a irmã com força e, escondendo o rosto em seu peito, chorou compulsivamente enquanto Carla afagava-a com carinho, procurando acalmá-la.
Minutos se passaram até que, contendo o choro, Helena contou, com voz embargada e em meio a soluços, tudo o que havia acontecido.
— Você não pode esconder isso de ninguém, Lena!
—Não conte!
Não conte nada, entendeu?
O Vagner tem uma arma; tenho medo de que aconteça uma desgraça, você entende?
—Fala com o Mauro ou com o Miguel.
— Não!!! Por favor, Carla — primeiro gritou, depois pediu com mais calma.
Estou me sentindo mal com isso.
Você não imagina.
— Ah! Que vontade de matá-lo! — indignava-se Carla, agora andando de um lado para outro do quarto.
Como você foi namorar um cara desse tanto tempo?
— Nem eu sei.
Mas o Vagner nunca foi assim.
Ele mudou muito. Não o reconheço mais.
— Vai ver que ele é um psicopata que sempre se conteve e agora, por ter levado um fora, resolveu revelar sua índole doentia, sua obsessão.
— Parecia que tinha bebido.
Estava sujo, mal arrumado, de um jeito que nunca vi.
—Não ponha a culpa na bebida.
Ele é um safado, vagabundo, ordinário...
Carla estava revoltada e começou a desferir várias nomenclaturas, até de baixo valor moral, para classificar o rapaz pelo acto indigno.
—Se eu não tivesse prometido, juro que eu ia agora mesmo contar pro Miguel.
O Vagner precisa de uma lição.
—Não. Não faça isso, você me prometeu.
— Mas o que você vai fazer?
Como vai explicar essa cara de choro?
Cade o pão?
— Sei lá do pão! — pensando um pouco, Helena lembrou:
O que vou dizer para mãe?
Astuciosa, Carla reflectiu rápido e decidiu:
— Já estou me trocando.
Vou lá, pego o pão enquanto você entra no banheiro e toma um banho para ganhar tempo e tirar essa cara de choro.
Com sorte eu trago o pão antes que alguém venha nos procurar.
— E se a mãe vier aqui?
— Diga que teve uma dor de barriga e pediu pra eu ir buscar o pão.
Mas não saia do banheiro com essa cara, entendeu?
Com a ajuda de Carla, Helena conseguiu omitir o desagradável episódio.
Entretanto não conseguia agir normalmente, pois aquela cena se repetia em sua cabeça, tirando de seu semblante qualquer expressão de tranquilidade.
O espírito Lara, que acompanhava tudo, abraçou Helena, lamentando não poder estar ali de outra forma para ajudar.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 04, 2017 11:40 am

Porém, com isso ela impregnava a jovem com energias inferiores e vibrações ainda mais pesarosas.
Mais tarde, quando ficou a sós com a irmã, Miguel ainda queria saber sobre as novidades:
— E aí, Lena? Como estão as coisas?
— Bem — respondeu com simplicidade.
Mas o irmão pôde ver uma tristeza indefinível escondida em seu olhar e, acercando-se mais da irmã, insistiu:
—Por que está com essa carinha, hein?
Sentindo seu coração oprimido e intensa vontade de chorar, Helena ofereceu meio sorriso, tentando disfarçar, e ele tornou:
— É por causa do Vagner?
Olhando para o alto a fim de não deixar as lágrimas rolarem, ela pediu:
—Não quero falar nisso, Miguel. Por favor.
Tudo bem. Então vamos sair e dar uma volta.
Quero conversar um pouco, e aqui...
Levantando-se, Miguel estendeu-lhe a mão e a puxou para Que saíssem.
* * *
Após darem um passeio pela cidade, o irmão comentou:
—Nada mudou. Como é bom estar de volta.
Você não imagina.
Diante do silêncio dela, ele propôs:
— Vamos parar ali no shopping e tomar um suco.
Acomodados à mesa da praça de alimentação, Miguel começou a contar:
— Conheci uma garota ma-ra-vi-lho-sa! — exclamou com ênfase no adjectivo.
E com um olhar brilhante contou:
— Ela estava em um grupo de turistas brasileiros.
Sabe, quando estamos lá fora, é agradável ouvir o som do nosso idioma.
Você se atrai e, sem perceber, fica parado e olhando.
— De onde ela é? — interessou-se Helena.
— De São Paulo mesmo.
— Como se conheceram?
— Eu estava parado e olhando esse grupo quando ela e uma amiga ficaram para trás querendo tirar uma foto juntas e, quando as vi procurando alguém que pudesse fazer esse favor, aproximei-me e ofereci meus préstimos — falou brincando.
E ela não resistiu.
— Convencido! — disse sorrindo por causa do jeito como o irmão se expressou.
— Começamos a conversar, trocamos telefone, e-mail, endereço...
— Voltaram juntos?
— Não. Ela estava com uma excursão que retornará só na próxima segunda-feira.
Helena sorriu com um jeito maroto e perguntou:
— E você vai ao aeroporto recebê-la, né? Seu safado!
— Pior que não! Segunda tenho que ir à companhia.
Vou ter um dia cheio com reuniões. Bem que eu queria.
— Pensei que fosse tirar mais uma semana de folga.
— Quem dera!
Mas à noite eu telefono para ela. Pode deixar.
— E impressão minha ou você está meio apaixonado, Miguel?
O irmão deu uma risada gostosa, mas apresentou um brilho especial em seu olhar ao dizer:
— Não sei. Mas você vai conhecê-la, vai me dar razão.
Ela é gentil, educada, muito bonita...
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 04, 2017 11:40 am

— O que ela faz?
— Estuda. Está no terceiro ano de Farmácia.
Não trabalha, o pai é quem paga seus estudos.
— Filhinha de papai, é?
— O cara é banqueiro! — exclamou sussurrando e mostrando-se admirado.
Ela disse que é um banco financeiro pequeno, com carteira de clientes Pessoa Jurídica, voltado principalmente para as cooperativas de agro-pecuária.
— Huuummm!!! — admirou-se Helena com feição bem expressiva.
— Gostaria que você a conhecesse.
A Suzi é tão agradável, uma pessoa simples, gentil...
— Estou vendo que a mãe vai ganhar uma nora.
— Aos trinta anos, acho que já estou bem maduro e tenho que pensar um pouco mais no futuro.
— Ora, você sempre foi responsável, Miguel.
Não venha dizer o contrário.
— Eu não disse o contrário, só sinto que estou passando por uma fase onde penso mais sério em algumas coisas, não quero mais perder tempo.
— Está pensando em se casar?!
— Estou pensando em um compromisso sério.
Conhecer alguém com quem eu possa dividir minha vida, alguém que me compreenda, que goste de mim.
A maioria das garotas, hoje em dia, é muito liberal, são meninas fáceis, irresponsáveis, vulgares.
É difícil encontrarmos alguém responsável que se ame a ponto de não viver tão liberalmente.
Sinceramente, Helena, até hoje nunca encontrei uma garota difícil.
Logo no primeiro encontro... você entende?
— Não pode dizer isso de suas irmãs.
— Estou preocupado é com a Carla.
A mãe faz bem em ser rígida.
Ela sempre nos ensinou valores que, hoje em dia, são raros.
Você pensa que é fácil encontrar uma menina que não durma fora de casa, que não use piercings ou tatuagem, que não vai para um motel logo no primeiro encontro?
— Mas temos que admitir que se as moças de hoje estão tão liberadas assim é porque vocês, homens, aceitam isso e vivem dando em cima.
A propósito, você virou machista, é?
— Não! Não sou machista, mas admito que a natureza do homem sempre foi de dar em cima; porém, apesar de aceitar totalmente a liberação sexual feminina, acredito que todo homem, quando quer ficar com alguém, quando quer um porto seguro, vai procurar uma companheira mais recatada, mais moralista.
As mulheres querem encontrar um homem sensato, fiel, honesto, mas se elas não são nada disso como podem exigir?
— Então vocês homens querem uma menina que tenha saído do convento? — interrogou a irmã com certa contrariedade.
— Não, não. Nada disso.
Só que eu, particularmente, não creio que me sentiria bem com uma garota muito rodada, que tenha sido excessivamente liberal, que fique hoje com um, amanhã com outro, e só Deus sabe com quantos mais, porque geralmente são elas mesmas que costumam perder a conta.
— Miguel! Credo!
— Vai me dizer que é mentira?
Sou um bom observador e percebo que a cada dia as mulheres, as mais novinhas principalmente, estão se desvalorizando, se desmoralizando cada vez mais, perdendo a graça.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 04, 2017 11:40 am

É só andarmos pelas ruas e vemos que muitas delas só faltam andar nuas.
Eu acho legal, acho bonito, mas não gostaria que minha namorada, ou que minha mulher, andasse por aí exibindo o umbigo, mostrando o decote...
— Vai virar muçulmano, é?
Vai querer que sua namorada ande de burca?
— Oh! Assim também não.
Mas é tão gostoso você ver que sua mulher não está se vulgarizando.
É gostosa aquela sensação de mistério, de que é só meu, entende?
Ao ver a irmã sorrir, completou:
— Tudo o que conseguimos com facilidade não damos valor.
Isso é natural e cultural do ser humano.
— Só tive dois namorados até hoje, mas pelo que as meninas contam, se aparecer um rapaz e você quiser se preservar e der uma de difícil, o cara vai embora rapidinho.
—Isso significa que o sujeito não presta, não tem boas intenções nem valia muita coisa.
Aí é que vocês devem dar uma de difícil mesmo, se dando valor e não aceitando o primeiro estrupício que aparece.
Além do que a AIDS está por aí como um terrorista silencioso.
E tem muita gente mal-intencionada que não tem nada a perder e pouco se importa com os outros.
—Deus me livre.
—E você não imagina como a coisa aí fora está feia.
Hoje em dia precisamos tomar muito cuidado com essas coisas, o problema da AIDS é sério e pode atingir qualquer um, se não houver responsabilidade.
Após reflectir um pouco, Miguel propôs:
— Vamos mudar de assunto.
Diga-me como você está se sentindo agora que está descomprometida?
A irmã, surpresa com a súbita pergunta, sentiu imediatamente seu rosto aquecer pelo constrangimento.
Mas com um jeito doce e gentil encolheu os ombros e, com meio sorriso, admitiu:
—De certa forma me sinto bem por estar livre, mas preocupada.
—Com o quê?
—Desde o momento em que eu disse ao Vagner que tudo estava terminado entre nós, me surpreendi.
Ele revelou um lado estranho, agressivo, parece que não o conheço.
—Como assim? — perguntou bem sério e preocupado.
—É difícil explicar — dissimulou, percebendo seu descontentamento.
Logo continuou tentando amenizar:
— O Vagner reagiu muito mal, não querendo aceitar nossa separação.
Começou a falar alto comigo, a mãe teve até que interferir.
Eu o vi algumas vezes depois que terminamos.
Agora ele está muito mal vestido, barba por fazer, parece que anda bebendo, pelo que a irmã dele falou.
Se ele procurar você, me avisa.
Vou falar com ele.
Não se preocupe. Isso não vai acontecer.
É que a vejo tão acabrunhada que pensei que tivesse se arrependido por ter terminado tudo.
Não. De jeito nenhum.
Os irmãos conversaram ainda por um longo tempo como dois grandes amigos que sempre foram.
Helena sentia-se melhor, mais confiante agora.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 04, 2017 11:41 am

***
Longe dali, na casa de Gilda, ela e o marido recebiam Natália, directora financeira da empresa de Adalberto e amiga da família, que levou consigo a filha Geisa.
Conversavam animadamente em um quiosque no jardim, próximo à piscina.
A jovem Geisa, alheia ao assunto, observava ostensivamente Eduardo, que nadava.
Minutos depois, quando o rapaz saiu da água e sentou-se na beira da piscina, Geisa alegrou-se intimamente e deixou a refrescante sombra, aproximando-se dele.
— A água deve estar bem fria.
— Enganou-se. Está óptima.
Por que não experimenta?
Franzindo o rosto e sorrindo ao mesmo tempo, ela fez que não com um movimento de cabeça.
Sem lhe dar muita importância, o rapaz levantou-se e deitou-se em uma espreguiçadeira sob o sol.
Geisa, mesmo sem ser convidada, acomodou-se a seu lado em outra cadeira e perguntou:
— E aí, Eduardo, como você está?
— Óptimo. Muito bem.
— Alguma novidade?
Alguma pessoa nova em sua vida?
— Não. Nenhuma novidade — respondeu sorrindo e desconfiado.
— Então, já que está livre, por que não saímos hoje para agitar e descontrair?
Podemos nos divertir muito.
Suspirando fundo, o rapaz pensou um pouco e disse:
—Não acho que seja uma boa ideia.
—Ora! Por quê?
Conheço um lugar onde a balada é óptima.
Você vai curtir muito.
Agora, um pouco insatisfeito, ele respondeu:
— Hoje não é um bom dia, Geisa.
— Não posso aceitar uma negativa.
De jeito nenhum.
— Geisa, não quero ser desagradável. Por favor.
— Você está deprimido?
Prefere ficar em casa?
— Sim. Isso mesmo.
Prefiro ficar em casa.
— Então vou lhe fazer companhia.
Você não vai ficar deprimido não.
Sentindo-se cercado pelo assédio da moça, Eduardo fez valer sua vontade e avisou:
—Geisa, não seja tão insistente.
Você está sendo desagradável.
Naquele momento, Erika, andando rapidamente em direcção ao quiosque com o semblante contrariado, parecia furiosa.
Seu olhar soltava faíscas quando parou diante da mãe e exigiu irritada:
—Dona Gilda, quero uma explicação.
Por que cancelou o meu cartão?!
Com modos arrogantes e um sorriso cínico, Gilda a encarou e falou com deboche:
— Ora, meu bem!
Primeiro me dê bom-dia!
— Não estou brincando! O que você fez?!
— Amorzinho — falou a mãe com ironia —, fique sabendo que cancelei o seu cartão porque você é minha dependente, eu sou a titular e posso pedir o cancelamento do cartão adicional a qualquer hora.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 04, 2017 11:41 am

Tanto posso como o fiz após quitar todas as suas dívidas, é claro.
— Passei a maior vergonha quando fui abastecer o carro.
Por sorte eu tinha dinheiro suficiente na carteira.
Você ficou louca para fazer um negócio desse sem nem sequer me avisar?!
— Olha aqui, menina, fala direito comigo! — exclamou veemente.
Eu não estou louca, não.
Louca é você que não enxerga com quem anda.
— Ah! Tá pensando que vai controlar a minha vida assim como controla a de todo mundo?
Não, dona Gilda, a mim você não vai controlar não!
— Não vou admitir que filha minha dê dinheiro a pé-rapado Que não tem onde cair morto.
Não fale do que você não sabe e não conhece!
— E eu preciso conhecer?!
É só olhar, está estampado na cara.
Mas posso garantir que daqui de casa não vai sair mais nem um centavo para você enquanto tiver a pretensão de ficar com aquele lá.
— Eu vou falar com meu pai.
Você deve ser insana mesmo.
— Insana é você, Erika!
Onde já se viu uma menina de berço se dar ao trabalho de olhar para um negro e pobre ainda por cima.
Numa reacção enfurecida, Erika pegou uma cadeira que não estava sendo ocupada e atirou longe, dando um grito de raiva.
Depois, com uma ferocidade impressionante no olhar, gritou para a mãe:
— Você não vai me dominar, dona Gilda! Não vai mesmo!
Quando a jovem já estava a uma certa distância, sua mãe a avisou:
—Seu celular também está bloqueado, viu, queridinha?
Lembre-se de que ele foi presente meu, só que agora decidi que você não vai mais usá-lo.
Observando o estado da irmã, Eduardo levantou-se e foi apressadamente atrás dela.
No interior da residência, Erika, enfurecida e revoltada, em sinal de protesto, começou a passar a mão com violência por cima dos móveis, derrubando peças decorativas e caras, fazendo muito estrago e bagunça enquanto gritava e chorava.
Eduardo aproximou-se e segurou-a com força pelos braços, perguntando com firmeza:
— O que é isso?
Você enlouqueceu?!
— Solte-me, Eduardo!
Agitando-a, como se quisesse despertá-la para a realidade, ele não a largou e disse:
—Se você pretende ser alguém como dona Gilda, esse é o caminho.
Vai, continua quebrando tudo! — disse, largando-a num leve empurrão.
Depois continuou rigoroso:
— Quer que tudo aconteça conforme sua vontade?
Vai, grita! Berra! Exija!
Quebre a casa inteira.
Faça exactamente como ela faria.
—Você não entende!
— Preste atenção, Erika!
Deixe de ser uma menininha mimada e encare a realidade.
— Você diz isso porque não está no meu lugar.
— Por que está quebrando tudo? Fale?
Com olhar colérico, a irmã o encarou enquanto vociferava e chorava ao mesmo tempo:
— Vou quebrar tudo para ela sentir no bolso alguma dor.
Ela valoriza mais os seus caros objectos de arte do que a mim, que sou sua própria filha.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 04, 2017 11:41 am

— Acorda, Erika! A mãe vai substituir tudo isso.
Ela pode simplesmente trocar toda a decoração dessa casa num passe de mágica.
O que está fazendo é um favor a ela.
Sabe quem vai ser prejudicada nessa história?
A pobre da empregada que não vai poder deixar nenhum caquinho no chão.
Vai! Continua quebrando.
Não é você quem vai limpar mesmo.
Erika parecia estar fora de si.
Andando de um lado para outro, enxugava o rosto com as mãos, ainda revoltada.
— Calma, Erika — tornou o irmão com brandura.
As coisas não são assim.
Podemos resolver de outro jeito.
— Por que ela não faz isso com você?
— Porque até hoje eu não dei motivo.
A irmã o encarou com certa fúria e talvez ciúme ao dizer um tanto agressiva:
—Também você, Eduardo, com toda essa sua superioridade...!
Depois desabafou:
— Odeio a minha mãe!
Não pode haver criatura mais monstruosa, sem ética, sem princípios humanos...
Sempre com seus projectos escusos, pronta a revidar, a dar o bote.
Também inconformado com a situação e sem saber como agir, Eduardo se acomodou num sofá enquanto Erika desabafava e caminhava ofegante pela sala.
— Sabe, eu até acho que a Lara morreu por culpa da mãe.
— Do que você está falando?
—A dona Gilda nunca engoliu o casamento dela com o Mauro.
Ela não se deu por vencida e só bastou a Lara começar a frequentar novamente esta casa que a mãe, com um jeito todo especial, claro, começou a fazer a cabeça da nossa irmã.
Agora, procurando manter a calma, sentando-se em frente ao irmão, revelou:
— Eu cheguei a pegar a mãe falando com a Lara algumas vezes e... — deteve-se pensativa.
— Falando o quê? — questionou o irmão com expressão preocupada.
— Falando mal do Mauro, mas com subtileza, escondendo aquela sua perversidade camuflada entre o riso e o ar de seriedade, você sabe.
Como se quisesse relembrar, Erika espremia os olhos, vagando negligentemente o olhar pelo ambiente enquanto dizia:
— Às vezes penso que só eu enxergo a sua maldade, o seu desejo dominador, arrogante e orgulhoso escondido atrás daquela máscara sorridente.
— O que você ouviu a mãe falando para a Lara?
— Não posso afirmar direito, Edu.
Mas ela inventava coisas.
— Como o quê? — insistia desconfiado.
—Estou tentando lembrar o dia em que cheguei e vi a Lara nervosa lá no quarto da mãe.
A porta estava entreaberta e ela andava de um lado para o outro, inquieta.
Isso foi na semana em que a Lara morreu.
A mãe falava algo e eu ouvi somente algumas palavras que não consigo lembrar direito.
Ela dizia mais ou menos que o Mauro sempre lhe pareceu suspeito ou algo assim.
A Lara esfregava as mãos de modo nervoso, muito preocupada, e dizia alguma coisa sobre não poder acreditar.
Acho que ainda disse:
"Se isso for verdade, prefiro morrer".
—Você tem certeza, Erika?
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 04, 2017 11:42 am

— Absoluta.
Só não consegui ouvir com clareza o que a mãe falou.
Por que ficou preocupado?
— Houve um dia em que eu estava muito ocupado lá na empresa e a Lara me telefonou.
Não lhe dei muita atenção, mas percebi que sua voz estava diferente, talvez tivesse chorado, não sei.
Começou com um papo bobo.
Perguntou o que eu achava do Mauro e depois falou sobre pessoas que se apresentam de um jeito mas têm outra personalidade.
— Será que ela recebeu alguma informação da mãe que a deixou em dúvida sobre o carácter do Mauro?
—Mesmo que tenha sido isso, não vejo que ligação pode ter com seu acidente.
—Não vejo ligação, mas sinto que há alguma.
O irmão a olhou longamente sem dizer nada.
Erika, com seu rosto miúdo e traços finos, trazia uma palidez evidente, apesar de sua beleza, parecendo desorientada.
Eduardo sentiu-se comovido com o sofrimento da irmã; queria ajudá-la, mas ainda não sabia como.
Erika apoiou a cabeça nas mãos e os cotovelos no joelho, reflectindo.
Decidido, Eduardo a convidou:
—Vamos sair e dar uma volta?
Não aguento mais a Geisa se atirando em cima de mim.
Nem sei por que essa gente frequenta nossa casa.
—Aonde você vai?
—Não sei. Vou tomar um banho bem rápido.
Arrume-se e vem comigo, vai.
A irmã, aceitando o convite, ofereceu um sorriso doce, levantou-se e foi se arrumar.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 04, 2017 11:42 am

9 - LIÇÕES DE AUTO-ESTIMA

Erika e o irmão fizeram um passeio de carro pela cidade enquanto conversavam.
A jovem aproveitou a companhia do irmão para desabafar um pouco mais sua revolta.
Eduardo só ouvia.
Após almoçarem em um requintado restaurante, ela convidou:
—Vamos lá na casa do João Carlos?
Eu queria que você conhecesse a família dele.
Aceito o convite, ambos foram animados para o local.
Dona Ermínia, mãe do rapaz, recebeu-os com alegria, convidando-os prazerosamente para que entrassem.
A residência não tinha nenhum luxo, mas era bem ampla, organizada e com um estilo moderno na decoração de muito bom gosto.
Eduardo reparou na simplicidade harmoniosa do ambiente, onde se sentiu bem à vontade.
— Muito bonita a sua casa, dona Ermínia.
E acolhedora também — elogiou o rapaz de forma elegante e gentil.
— Oh, filho, sei que deve conhecer coisa bem melhor.
Mas obrigada pela gentileza — agradeceu a senhora meio encabulada.
— Ambiente requintado, chique, não significa que seja aconchegante.
A Erika me disse que a sua filha é decoradora, por isso imaginei que a casa fosse repleta de esculturas modernas, daquelas com ferros torcidos — disse sorrindo ao explicar gesticulando — , quadros enigmáticos...
Porém me surpreendi. Que bom gosto!
—Obrigada! — respondeu Juliana sorridente, entrando na sala.
Após as devidas apresentações, dona Ermínia perguntou:
— E o seu irmão, Juliana?
— Ele já vem.
Estávamos entrando na garagem e um amigo o chamou.
Não quis entrar, deve ser uma conversa rápida.
— Juliana — disse Eduardo —, depois de apreciar o bom gosto desta sala, você me fez pensar em rever a decoração lá da empresa e, talvez, do meu quarto também.
— Puxa! — exclamou com grande alegria estampada no olhar.
Recebo isso como um grande elogio.
— Vejo que pensou muito na iluminação — tornou o rapaz.
É disso que precisamos, é isso que agrada.
— O modernismo foge do ambiente pesado, carregado, o que deixa tudo muito triste, até as pessoas.
Se está pensando mesmo nisso, acho que vai adorar ir lá no estúdio.
Posso mostrar no computador alguns projectos que já realizamos e outros inéditos também.
Acho que é bem o que você quer.
A conversa entre eles seguiu, e Erika foi atrás do namorado enquanto dona Ermínia preparava um café.
Após um tempo considerável, Erika e João Carlos retornaram à sala onde Eduardo e Juliana conversavam animados.
Foi então que o irmão percebeu e perguntou:
—O que foi Erika?
Você está chorando?
João Carlos ofereceu um meio sorriso enquanto acomodava a namorada em um sofá e, após sentar-se a seu lado, explicou:
—Ela estava me contando sobre a reacção negativa da dona Gilda por causa do nosso namoro.
Eduardo, agora um tanto sem jeito, fez um gesto singular ao admitir:
— Minha mãe é uma pessoa difícil.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 04, 2017 11:42 am

Creio que teremos que conviver com isso.
Não sei o que fazer.
— Só se for você, Edu.
Eu não sou obrigada a me sujeitar aos caprichos deprimentes da dona Gilda.
— Talvez seja uma questão de tempo, Erika — considerou Juliana com um jeito afável em sua bela voz.
Olhando para Juliana, Erika confessou com certo ressentimento:
—Desde que me conheço por gente, a dona Gilda só dita normas e exige ser obedecida.
Ela é intolerante, amarga, preconceituosa... — falou, expressando um brilho no olhar que traduzia toda sua mágoa.
Eu me sinto envergonhada por tê-la como mãe.
Se a gente pudesse escolher...
Juliana sorriu com gosto ao dizer:
— Quem disse que não escolhemos nossos pais e nossos parceiros?
A natureza não comete erros, não!
E quando estamos lá no plano espiritual observando os nossos erros do passado imploramos por uma oportunidade abençoada de renascermos, entre essa ou aquela pessoa, a fim de nos harmonizarmos, de corrigirmos nossas falhas.
— Você acredita nisso, Juliana? — perguntou Eduardo, parecendo interessado.
— Como não acreditar?
Se Deus é bom e justo, há de nos oferecer inúmeras oportunidades para corrigirmos nossos erros do passado, que certamente ficam latejando em nossa consciência.
— Ora, Juliana, me desculpe, mas não posso crer que pedi para ser filha da dona Gilda.
Você não imagina como é! — protestou Erika.
— Pois deve ter pedido, sim, Erika.
E se está junto dela hoje é porque você está preparada, evoluída espiritualmente para isso e tem condições de se harmonizar com ela sim.
"Deus não coloca fardos pesados em ombros leves".
—E o que posso fazer?
Engolir tudo o que ela determina?
— Eu não diria engolir.
Diria que você tem que se manter neutra, tranquila, sem reacções calorosas — aconselhou João Carlos.
— Mas você não entende, João Carlos.
Ela me agride com ironias, preconceitos.
— Por quê? Ela está implicando com o seu namoro por causa da nossa cor? — perguntou Juliana muito directa e despojada de constrangimento.
—Isso também — respondeu Erika, fugindo o olhar.
O riso cristalino de Juliana, algo gostoso de ser ouvido, encheu o ambiente com sua alegria.
Eduardo, que se sentiu constrangido a princípio, contaminou-se com a alegria, rindo junto.
— Ah, Erika! Não se importe com isso — aconselhou Juliana.
A consciência tranquila nos deixa acima dessas ofensas, não é, João Carlos?
— É que você não faz ideia do que ela fala — disse Erika um tanto triste.
— Preste atenção, Erika — pediu Juliana, agora mais séria —:
para as pessoas preconceituosas com a raça, a cor da pele, a naturalidade, as deficiências físicas, a ausência de beleza ou qualquer outra coisa, tenho a dizer:
"A luz do teu corpo são os teus olhos.
Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz.
Se, porém, os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso".
Essas são palavras de Jesus, sabia?
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Ave sem Ninho

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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 04, 2017 11:42 am

— Eu não! — avisou Eduardo.
Gostei, explique melhor.
— As pessoas que só enxergam defeitos, que são preconceituosas, que só vêem a maldade, são maledicentes, ou melhor, são fofoqueiras mesmo, só reparam o que há de mal, de errado, têm, como disse Jesus, os olhos maus, e certamente, como disse o Mestre, têm o corpo tenebroso.
Vamos lembrar que temos uma alma, um espírito, e esse é o corpo que pode ser tenebroso ou não de acordo com nossas atitudes mentais e verbais.
— Eu não me ofendo com isso.
Esse tempo já foi — disse João Carlos.
— Eu também não me ofendo.
Porém, a bem da verdade, devo admitir que nem sempre foi assim.
Eu me achava horrorosa, feia mesmo, sem jeito.
Façam uma ideia:
eu usava óculos de lentes grossas e tinha os dentes tortos, todos encavalados, além de ter o rosto forrado de espinhas e ser negra — nesse momento ela riu gostoso, mas logo continuou:
— Eu só saía de casa para ir à escola, nada mais.
— E difícil acreditar, você é muito bonita, Juliana — comentou Eduardo.
—Vai vendo — prosseguiu Juliana, animada —, eu era o motivo principal de todo o tipo de chacota na escola.
Quanto chorei escondida...!
Quase me sufoquei no travesseiro.
Ninguém pode imaginar a dor moral pela ofensa.
Eu não tinha nenhuma amiga, parecia que ninguém gostava de mim.
Eu era um monstro! — exagerou sorridente.
Sabe, um dia eu disse: Vou mudar!
Virei-me para Deus e falei:
Pai do Céu, nada é impossível, eu quero ser bonita, quero ser diferente do que sou hoje.
Nunca mais serei motivo de chacota ou brincadeira de qualquer espécie.
—E daí?! — interessou-se Erika.
— Ah! Comecei pelo mais próximo: meus pensamentos!
Mudei minha maneira de pensar e de ver o mundo.
Se o mundo é ruim ou se as pessoas são más, não significa que eu tenha de me curvar a isso ou ser tão perversa quanto eles.
Então pensei:
E problema dos outros se eles não gostam de mim como eu sou.
Eu me amo e vou ser melhor.
Comecei a me observar e perguntar o que estava errado, o que eu não gostava em mim.
Primeiro descobri que eu andava curvada, como quem esconde o rosto, e, de repente, alcei a cabeça, estiquei as costas e comecei a desfilar com livros sobre a cabeça para corrigir minha postura.
— E verdade — interrompeu o irmão —, a Juliana ficava desfilando o tempo todo em casa.
Eu tirava um barato, mas não adiantava, ela insistia.
—Então logo me esforcei e parei de roer as unhas...
—... enrolou até esparadrapo nos dedos para conseguir essa façanha — tornou o irmão, muito irónico.
Todos riram, e Juliana continuou:
—Aí foi a vez do dermatologista, pois eu queria porque queria acabar com minhas espinhas.
Fora isso, comecei a vigiar meu andar, meu modo de sentar, de comer, de me apresentar, porque eu era excessivamente tímida, e também melhorei meu modo de vestir.
Então decidi que queria mudar meus dentes, que eram um tanto fora de eixo.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 04, 2017 11:43 am

—Isso foi o mais caro! — lembrou João Carlos.
—Mas consegui! Nós temos vários tios.
Eles nos presenteavam sempre, nos mimavam muito, até porque a maioria era de solteirões.
E como o aparelho era muito caro na época eu pedi a cada um deles que me desse o presente em dinheiro porque eu queria sorrir com glamour! — brincou rindo.
Enquanto acontecia tudo isso, meu cabelo crescia e, com isso, uma briga diária com pentes e cremes usados na artilharia para deixá-los melhor.
Eles riram, e ela prosseguiu.
— Mas tudo se passou muito devagar para mim.
Porém, no prazo de dois anos aproximadamente, eu era outra pessoa.
Gostava mais de mim pelo meu jeito, por saber falar, sentar, andar, me apresentar, por ter cabelos mais brilhantes e com movimento, minhas roupas eram bem melhores não em termos de luxo, mas de harmonia, simplicidade e beleza.
Por último, tirei o aparelho dos dentes.
Aí sim pude exibir minha verdadeira felicidade, sorrindo!
Veja, não precisei fazer mudanças radicais e tresloucadas para chamar a atenção para mim, agredindo os costumes sociais com imagens grotescas, fora do normal, obrigando as pessoas comuns a me aceitar ou a conviver comigo.
Eu simplesmente melhorei o que já tinha de bom.
Assim, passei a ter auto-estima, a me valorizar e a acreditar mais em mim.
Descobri que era capaz de tudo.
Tudo o que eu quisesse poderia conseguir por meios lícitos e com bom ânimo.
O complexo acabou.
Não mudei a cor da minha pele, mudei o meu interior, a minha alma e nunca mais me constrangi por nada desse mundo.
E quando alguém quer me agredir com palavras usando a minha raça, a minha cor, sinceramente não sinto nada e fico com pena dessa criatura.
— Sério? — perguntou Eduardo.
— Hoje em dia, sim.
Sinto piedade por essa pessoa, pois sei que no meu lugar, nas mesmas condições em que vivi, ela seria uma pessoa falida, fracassada, visto que essa criatura acredita poder me ofender, pensa que pode me diminuir ou me constranger quando usa para isso a minha cor, a minha raça.
Penso que quando queremos agredir, irritar ou ofender o outro usamos o que pode nos irritar, nos ofender e nos agredir.
Então vejo que essa pessoa é uma coitada, uma fracassada, extremamente infeliz, porque consegui me amar, ressaltar minhas melhores qualidades, minha capacidade.
Sou feliz com o que sou, estou realizada.
Tenho competência. E ela...?
— Por isso, Erika — argumentou o namorado —, deixa sua mãe falar, não alimente nenhuma briga.
Neutralize qualquer discussão.
— Foi isso o que disse a ela — lembrou Eduardo.
Quanto ao cartão de crédito e ao celular, isso eu mesmo posso dar jeito.
Falaremos com nosso pai, ele sempre nos apoia.
— Deixe a Erika conviver um pouco mais com a gente aqui — disse dona Ermínia com simplicidade —, ela vai mudar.
Vai ficar mais tranquila.
Você vai ver Eduardo — encerrou, acariciando a moça.
— Não se importe connosco — avisou Juliana.
Pessoas capacitadas, vitoriosas consigo mesmas e competentes não ligar para insultos, não levam ofensas para casa porque não se ofender nem sequer discutem por elas.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 04, 2017 11:43 am

— Racismo é crime! — alertou Erika.
— Infelizmente — disse Juliana —, ainda precisamos de leis civis para garantir a integridade e manter criaturas indisciplinadas e criminosas dentro de certos limites, até que evoluam como espíritos e compreendam que somos todos iguais, que Deus nos criou todos iguais, simples e ignorantes, e que, de acordo com as diversas experiências reencarnatórias, aprendemos e evoluímos, uns mais rápido que outros, tendo em vista a humildade, a fé e a falta de arrogância, de orgulho.
— Quando essas criaturas evoluírem, somente as leis de Deus serão necessárias e não mais as leis dos homens — acrescentou dona Ermínia.
"Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus", disse-nos o Senhor Jesus, que falava dos humildes e não dos tolos, como pensam alguns.
As pessoas orgulhosas, vaidosas e arrogantes ainda não podem aceitar que somos espíritos eternos, que somos todos iguais e só temos experiências de vidas diferentes de acordo com o que temos a reparar.
Elas não crêem que hoje estão em uma posição superior, material e fisicamente falando, e que na próxima vida tudo pode ser invertido.
E não acreditam no mundo invisível, onde não teremos absolutamente nada de material, nenhum título honorário, nenhuma riqueza.
Só que não importa o que elas pensam, terão de passar para esse plano espiritual que tanto desdenharam, quer queiram ou não.
A vida não acaba com a morte.
Virando-se para Erika, dona Ermínia argumentou:
— Filha, lembre-se de que os pobres de espírito serão bem-aventurados; não reaja mais contra sua mãe ou vai estar se igualando a ela.
Procure agir de maneira diferente, assim ela poderá aprender com você.
Eduardo, muito atento a todas as palavras da sábia senhora, sentiu-se invadido por um bem-estar grandioso graças àquelas explicações terem engrandecido seu interior.
Extasiado, ele respirou fundo, satisfeito, e João Carlos propôs:
—Não vamos mais falar sobre isso, certo?
—Bem, preciso ir — disse Eduardo.
Vamos, Erika?
Eu ainda queria dar uma passada lá na casa da dona Júlia para ver a Bianca.
A irmã sorriu e, sustentando um semblante desconfiado e maroto, falou:
—Não sei bem se é a nossa sobrinha que o Edu quer visitar.
Em todo caso...
Eduardo enrubesceu, mas não disse nada.
E, virando-se para o namorado, Erika convidou:
—Vamos até lá?
Assim você fica conhecendo a Bia.
— A Erika não pára de falar nessa sobrinha — avisou Juliana com expressão generosa.
Ela deve ser uma gracinha!
— Então venha connosco, Juliana! — convidou Eduardo com visível animação.
Logo revelou discretamente seus planos:
Assim, mais à noite, poderemos sair todos juntos e esticar um pouco, o que acham?
— ... mas ir assim... na casa de quem nem conheço? — considerou Juliana, indecisa.
— A dona Júlia e o seu Jairo, pais do Mauro, nosso cunhado, são pessoas finíssimas!
Eles vão adorar a visita!
Depois de um pouco mais de insistência, Juliana acabou aceitando o convite.
Assim foram todos visitar a pequena Bianca.
A conversa animada e descontraída seguiu até que chegaram ao destino.
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 04, 2017 11:43 am

Recebidos com satisfação por Helena, que já havia chegado com Miguel, foram conduzidos até a sala de estar, onde se acomodaram bem à vontade.
Miguel, muito animado, cumprimentou todos, dando ligeira atenção a Eduardo, que ficou interessado sobre alguns detalhes de sua viagem.
Bianca se apresentou, deixando-os encantados com seu jeitinho mimoso e tímido, escondendo o rostinho miúdo e rosado atrás de seus adoráveis cachinhos dourados.
Dona Júlia fez um pouco de sala, mas logo decidiu preparar algo para as visitas.
Juliana, risonha, educada e naturalmente descontraída, conquistou logo a amizade de Helena, que se sentiu muito bem a seu lado.
Mauro, um pouco calado, somente ouvia atento, esboçando um sorriso vez ou outra de acordo com o assunto.
Após a longa conversa animada, Eduardo perguntou:
— Por que não vamos todos sair para...
— Dançar?! — propôs Juliana, interrompendo-o.
— Agora mesmo!!! — concordou Miguel, animado.
Estou louco para voltar a falar minha língua, ver meu povo...
— Helena, e você? — perguntou Juliana ao observar o desânimo da nova colega.
—Não sei...
—Vai nos fazer essa desfeita?! — brincou Juliana com um largo sorriso.
Anime-se, menina! Vamos lá!
Não terá nada a perder.
—Está bem — sorriu concordando. — Eu vou.
Mauro, que não estava nem um pouco animado, recusou terminantemente.
E Carla, que mal havia saído do quarto para cumprimentar as visitas, também não quis ir.
Passados alguns minutos, Helena e Miguel estavam prontos.
Antes de eles saírem, Bianca, com seu jeitinho doce, pediu a Eduardo:
—Tio, me leva pra nadar na piscina amanhã?
Trocando olhares com Helena por saber que dependia dela para levar a sobrinha, Eduardo falou:
— Por mim, tudo bem. Posso vir buscá-la.
Precisa ver se a tia Helena está a...
— Amanhã a gente vê isso, está bem, Bianca? — decidiu Mauro para não ver a irmã embaraçada.
***
No ambiente agitado pelo embalo da música, todos se animavam na pista de dança, menos Eduardo, que preferiu fazer companhia para Helena, que não quis dançar.
Ambos, do alto do mezanino, só observavam a movimentação.
—Tem certeza de que não quer dançar, Helena?
— Prefiro ficar aqui.
Obrigada — agradeceu com seu jeito meigo.
— Como estão as coisas? — perguntou Eduardo praticamente gritando por causa do som muito alto.
— Tudo bem. — sorriu.
— Mesmo? — tornou ele, insistente.
—E... — respondeu agora com um sorriso que colocava em dúvida sua resposta.
Nem sempre as coisas estão como a gente quer.
Observando-a bem de perto, Eduardo pôde perceber uma tristeza indefinida em seu olhar brilhante.
— Quer falar? — perguntou gentilmente.
— Aqui não é um bom lugar.
O barulho, a agitação...
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Re: Sem Regras para Amar - Schellida / Eliana Machado Coelho

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