Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 04, 2017 9:26 pm

Romance de Uma Rainha
(La reine Hatasou)
Wera Krijanowskaia

Pelo Espírito J. W. Rochester

ÍNDICE DO VOLUME SEGUNDO

Terceira parte: Neith em poder do feiticeiro

I - Antigos conhecidos
II - As pesquisas
III - A conjura
IV - Neith e Horemseb
V - O futuro
VI - Derradeiros dias de poderio
VII - A morte de Sargon
VIII - Derradeiras vítimas
IX – Hartatef

Quarta parte: As vítimas se agrupam
I - O bruxo em poder das sombras vingativas
II - O julgamento
III - Últimas horas do condenado
IV - O bruxo revive em Mena
V - A festa do Nilo
VI - O vampiro
Epílogo
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 04, 2017 9:27 pm

Terceira Parte - Neith em poder do Feiticeiro

I
- ANTIGOS CONHECIDOS
As lágrimas da mulher atraem o fogo celeste sobre aqueles que as causarem.
(VEDAS)

Desgraçado de quem ri dos sofrimentos das mulheres; Deus rirá das suas preces.
(MANU)

A alguma distância de Tebas, por entre vinhedos e vastos jardins, erguia-se pequena e elegante habitação, escondida dos olhares curiosos por espessa verdura de sicómoros, palmeiras e acácias que a rodeavam.
Neste atraente retiro, vivia Neftis, juntamente com Ísis, moça aparentada de Antef, que a ela muito se afeiçoara e que partilhava prazerosamente tal solitude.
Neftis, com efeito, vivia muito retirada, evitando, tanto quanto possível, atrair atenção, e recebendo raros visitantes, entre os quais o príncipe Tutmés, o mais frequente, dado pelos maldizentes por seu amante.
Para tornar compreensíveis essa mudança de posição e diversos acontecimentos subsequentes, é mister retroceder de alguns meses e retomar a narrativa desde o dia seguinte ao da fuga de Tutmés da fortaleza de Bouto.
Após a fugida de Antef, Mentchu tombara gravemente enferma, mas seu estado não a salvaguardou da cruel lei egípcia, que estendia a toda a família a punição do culpado, sem atender a idade ou sexo.
A esposa do comandante desertor foi assim aprisionada, e bem assim Neftis, que, corroída de remorsos, não a quis abandonar.
Quando veio de Tebas a ordem de cessar procedimentos e não prosseguir o processo sobre a fuga de Tutmés, as duas mulheres foram postas em liberdade, o Grande Sacerdote do templo de Ouazit se interessou pela sorte de ambas, e, quando afinal Mentchu se restabeleceu, facilitada lhe foi a volta a Tebas, sob a protecção de um velho padre.
Antes do regresso, tiveram uma entrevista secreta com Antef, que, não procurado, nem perseguido, apesar disso não se animava a aparecer abertamente, por omitir o rescrito real qualquer disposição especial a seu respeito.
Enquanto isso, a reconciliação de Hatasu com Tutmés propiciava aos três nova esperança, e, a conselho de Neftis, Antef decidiu ocultar-se na casa do velho parente, que vivia solitário num prédio isolado, e ali aguardar o momento favorável para obter da rainha graça completa.
Com terror natural, Neftis soube, logo à chegada, que Horemseb estava na Capital, e uma casualidade a informou, alguns dias depois, de que Hapzefaá, o homem da confiança, fazia secretas e activas diligências para reencontrá-la.
Estaria perdida, se descoberta, sem sombra de dúvida para ela, e, temerosa, pensou, sem detença, em colocar-se imediatamente sob a salvaguarda do seu poderoso cúmplice, ao qual mandou suplicar, em expressões compreensíveis apenas por ele, mencionando seu regresso e solicitando uma entrevista secreta para fazê-lo ciente do perigo que a ambos ameaçava.
Tutmés, reconhecido e generoso por índole, e também desejando, tanto quanto Neftis, não fosse divulgado o segredo do perfume enfeitiçador que de tanto lhe servira, foi ocultamente à casa de Mentchu, e, assegurando a Neftis guardar inalterável lembrança do quanto Antef por ele fizera durante o exílio, prometeu aproveitaria o primeiro ensejo favorável para obter mercê da rainha.
Em novo encontro com Neftis, fez-lhe doação da bela casa de campo, situada não distante da Capital, e bem assim de vultosa soma que tornava a jovem mulher independente e rica, circunstância que à própria Mentchu deu a ideia de que ela fosse amante do príncipe.
Sem citar o nome de Horemseb, Neftis explicou a Tutmés haver adquirido o segredo do perfume-feitiço durante a sua misteriosa desaparição, que durara um ano, e que indispensável lhe era permanecer oculta por certo período, sob pena de ser tudo descoberto.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 04, 2017 9:27 pm

Implorou, pois, que a ajudasse a conservar-se assim escondida, coisa bem difícil depois que perdera o seguro asilo proporcionado pela fortaleza de Bouto.
Apesar de todas essas reticências, Tutmés, dotado de subtileza e penetração bem acima da sua idade, compreendeu imediatamente que o primitivo e misterioso possuidor do perfume-feitiço devia ser o príncipe Horemseb, que tirava do odor encantado o domínio extraordinário que exercia sobre as mulheres e do qual tagarelava toda a cidade.
Longe de conceder qualquer gravidade à sua conclusão, o inconstante e negligente moço nela encontrou motivo para rir intimamente, e, durante alguns dias, o pensamento de que somente ele conhecia a verdade sobre os acontecimentos de Tebas divertiu-o imensamente.
Depois, esqueceu o episódio, no turbilhão de todos os prazeres dos quais parecia Insaciável.
Com efeito, após a reconciliação com Hatasu, o jovem príncipe sentia-se feliz e só cogitava de ressarcir-se do tédio que o consumira durante o exílio.
A rainha não lhe embaraçava os gostos e lhe proporcionara recursos para divertir-se regiamente, tratando-o com inalterável bondade.
Invencível, mas estranho e por vezes molesto afecto a impelia para esse irmão, do qual observava, com interesse, o rápido desenvolvimento físico e intelectual.
A rainha possuía muita perspicácia para deixar de perceber nele uma alma parenta da sua própria, e o esboço de um grande rei, cujo espírito instável parecia talhado com mil facetas, e não raro, na intimidade, divertia-se, pedindo-lhe opinião sobre vários assuntos políticos, administrativos e privados, verificando sempre que as respostas de Tutmés denotavam segurança de vistas admirável, astúcia cautelosa algumas vezes, crueza mascarada de displicente generosidade, que assombravam a rainha.
Sua argúcia fazia-lhe compreender que essa brilhante personalidade, dotada de tão rara destreza de espírito, de sedutor encanto e de natural eloquência, própria para dominar e encher de entusiasmo as turbas, constituía para ela perigoso rival.
Por isso, recusou sempre aquiescer a um único desejo do príncipe:
ser enviado à frente de uma frota, a longínqua expedição, por isso que considerava imprudência concentrar as vistas e a admiração do povo sobre um jovem herói, regressando vitorioso e trazendo copiosos despojos.
Ela conhecia o povo egípcio, sua vaidade e avidez de riquezas fáceis, obtidas pelas conquistas, e tal auréola de triunfador considerava supérfluo e arriscado dá-la a Tutmés.
Além disso, havia razões de ordem política:
Hatasu detestava a guerra.
Favorita do progenitor, acompanhara Tutmés I na sua campanha longínqua às bordas do Eufrates, e, meio inacessível embora a qualquer sensibilidade exagerada, as cenas de morte e de carnagem que testemunhara causaram-lhe funda impressão na alma, que mal saíra da infância.
É o amor que lhe inspirara Naromath reforçou ainda mais esse sentimento de repulsa íntima pela guerra e suas consequências, pois viu morrer miseravelmente, degradado e prisioneiro, o homem querido, sobre cuja fronte ela quisera colocar todas as coroas; impotente, assistira ao saque, à pilhagem das cidades, à destruição do povo, à morte ou escravidão de tudo quanto fora caro ao coração do belo hiteno.
Por isso, ela, ao assumir o poder, evitara a guerra, tanto quanto possível, pois desejava um reinado pacífico, cogitando de melhorar a situação do povo, com a protecção à agricultura e às artes; pondo fim às murmurações dos padres, com a restauração dos numerosos templos danificados pelos Hyksos, afagando a vaidade dos egípcios com expedições brilhantes, pacíficas, a outros países.
Com esse intuito, preparava, demoradamente e com especial cuidado, uma flotilha que devia rumar a Pouna, conduzindo, além dos guerreiros e dignitários, uma comissão de sábios e artistas.
Aliás, as inclinações bélicas de Tutmés visavam, no momento, mais uma distracção apenas; ele, repitamo-lo, considerava-se inteiramente ditoso:
herdeiro do trono, cumulado de honrarias, tendo à sua disposição o ouro e os prazeres que almejasse; até mesmo sua vaidade de adolescente estava satisfeita, porque a rainha o fazia seu representante em várias cerimónias, proporcionando-lhe assim ser posto em destaque, sem os ónus dos serviços do Estado.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 04, 2017 9:27 pm

Com profundo desgosto, embora secreto, os padres e os descontentes na alta nobreza compreenderam que a enérgica e astuciosa soberana havia habilmente arrancado a eles a poderosa arma que pensavam empregar por alavanca na derrubada de Hatasu.
Por enquanto, deviam curvar a cerviz sob a potente mão do Faraó, e aguardar pacientemente que a idade e a saturação dos prazeres lhes reconduzisse a alma do príncipe, para então nele reacenderem o fogo da ambição e da avidez de mando.
A estranha formosura de Neftis havia, desde o início, agradado muito a Tutmés; mas, apesar do devotamento de que ela lhe dera provas, não encorajara assiduidades:
dir-se-ia que secreto pesar atormentava-a, sempre sombria, gélida, misantropa, vivendo num mundo interior.
O volúvel jovem nenhum esforço fez para aliviar a misteriosa melancolia de Neftis, e voltou as atenções para Ísis, a partícipe da solidão daquela.
Ísis, parenta de Antef, era, além de órfã, malquista da família, por motivos dos quais não lhe cabia culpa alguma.
O pai, distinto oficial e irmão da mãe de Antef, noivara com uma parenta, mas, havendo trazido da guerra uma jovem prisioneira de rara formosura, rompeu os antigos compromissos, e desposou aquela a quem todos passaram, desde então, a chamar uma escrava.
Toda a parentela voltou costas, com desprezo, ao imbecil que elevara às honras de esposa uma criatura que, sem empecilho qualquer, podia ser sua concubina?
Quanto a ela, acusaram-na abertamente de feiticeira e de haver, por meio de algum filtro amoroso, monopolizado o coração do marido.
Em consequência de todas essas cizânias, o militar obteve transferência para Mênfis, onde sua felicidade decorreria sem nuvens, se a morte não lhe houvesse roubado, em tenra idade, a maior parte dos filhos, restando-lhe apenas duas meninas:
Senimutis, a primogénita, e Ísis, sete anos mais moça, que haviam herdado a beleza peregrina da genitora, a tez alva, cabelos louros e olhos de azul tão profundo quanto o do céu.
Cruel epidemia, que assolou Mênfis, fez órfãs as duas meninas, sendo acolhidas, no grau de filhas, pela viúva de um escrivão da Corte, senhora que, ao completar Senimutis dezasseis primaveras, a fez noiva de Rui, filho único do seu findo matrimónio, esponsais que não se consumaram em casamento, porque a noiva, dias antes do consórcio, desapareceu inexplicavelmente, e jamais se soube seu paradeiro, e o jovem Rui, voluntariamente ou não, pereceu afogado ao banhar-se no Nilo.
A esse desgosto, a pobre mãe, coração cruciado, não resistiu e se finou pouco depois.
Com a morte de sua protectora, Ísis ficou amparada por Antef, nomeado seu tutor, mas, porque Tachot, a irmã deste, e, por esta instigada, Mentchu a olhassem mal, denegrindo-lhe a origem em todas as oportunidades, afeiçoou-se ela a Neftis, e, quando esta se instalou na nova residência, Ísis para ali também foi, constituindo ímã do jovem herdeiro do trono à isolada mansão.
À data da retomada da nossa narrativa, Neftis, Ísis e Tutmés encontravam-se reunidos num terraço sombreado por árvores.
Afundada na sua poltrona de espaldar, pálida e silenciosa como de hábito, a dona da casa ouviu distraidamente as notícias e histórias de toda espécie que o príncipe narrava, enquanto se servia das frutas que Ísis, descascando-as, oferecia, rindo dos comentários cáusticos com que ele adubava os casos.
- Encontraram afinal o corpo de Neith? - interrogou Neftis, de súbito.
- Não; continua desaparecido, apesar de pescadores e mergulhadores haverem sondado o Nilo desde há seis dias? contestou Tutmés.
A rainha, que consagrava grande afecto a essa inditosa moça, prometeu um “talento de Babilónia” a quem a encontrasse, infrutiferamente, até agora.
- Não sabes os detalhes desse triste acontecimento, príncipe? - indagou Ísis.
Recordo-me de que, certa vez, num passeio, encontramos a nobre Neith, de regresso do palácio real.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 04, 2017 9:27 pm

Estava muito bela, mas parecia entristecida e enferma.
- Sim, estava doente desde alguns meses, motivo que a Impediu de assistir à mor parte das festas dadas por Horemseb; mas, a respeito da sua morte, ninguém sabe algo de positivo.
Despedindo os familiares, ficou sozinha no terraço, e, pela manhã, viu-se sobre o último degrau da escadaria o seu véu e uma rosa vermelha:
escorregou ou voluntariamente se precipitou no rio?
Quem o sabe?
O temor pelo regresso do marido, que uma vez a apunhalara, tê-la-ia impulsionado ao suicídio?
Salvo se, à semelhança de tantas outras apaixonadas pelo enfeitiçador de Mênfis, só conseguiu afogar a sua paixão no Nilo? concluiu Tutmés, com riso subtil.
A menção da rosa rubra, achada com o véu, após a desaparição de Neith, Neftis teve um estremecimento; mas, à alusão final do príncipe, empalideceu e sinistro clarão iluminou seus esverdeados olhos.
Quase imediatamente, ergueu-se e desceu ao jardim, deixando Ísis e Tutmés entretidos na palestra, e, em rápidos passos, rumou para um bosquete isolado no término do jardim, onde se deixou cair sobre um banco, escondendo a cabeça entre os braços cruzados.
Mil sentimentos tumultuosos oprimiam-na, tornando-lhe quase difícil a respiração.
A notícia do desaparecimento de Neith despertara-lhe vaga suspeita, agora transformada em certeza, ante o achado da flor purpurina:
a formosa esposa de Sargon não morrera e sim fora raptada, com aquela habilidade demoníaca que jamais deixava traços do crime, e sumida por detrás das sólidas muradas daquele palácio, do qual as vítimas só por milagre podiam regressar.
Ela própria, Neftis, não fora tida por afogada nas águas do Nilo?
Mas, qual razão levara Horemseb a consumar tão perigoso rapto, em vez de contentar-se com as vítimas vulgares da burguesia ou de secundária nobreza?
Ousaria torturar, associar às hórridas orgias, ou destinar a algum terrível fim a favorita do Faraó, uma das principais mulheres do Egipto?
Acaso Neith lhe havia agradado a ponto de levá-lo a tudo arriscar para possuí-la?
Era bastante bela, ilustre bastante para incendiar mesmo o brônzeo coração do fascinador.
A este último pensamento, selvagem ciúme desgarrou-lhe o peito, e surdo gemido veio-lhe do íntimo.
Nesse instante, braços acariciadores envolveram-lhe os ombros, e a voz de Ísis ciciou, com afectuosa tristeza:
? Neftis, querida, que te falta?
Vejo tuas mãos escaldantes e teu rosto com a palidez da morte!
Estás enferma? Que secreto desgosto corrói tua existência, o que tenho em suspeita, de há muito, e sem ousar interrogar-te?
- Adivinhaste, com acerto: terrível mistério pesa sobre minha vida.
Mas, por que deixaste o príncipe?
Tive necessidade de buscar alguns minutos de isolamento.
? Tutmés foi embora? respondeu Ísis.
E tu não podias dizer-me qual o teu pesar?
Eu te amo qual a uma querida irmã, e juro fazer-me digna da tua confiança.
Neftis meneou vivamente a cabeça.
- Não; não. Isto que me mata não te posso revelar, embora saiba que me amas sinceramente, e é em retribuição a esse afecto que te vou dar um conselho:
se eu morrer ou sumir, não aceites, nunca, rosas vermelhas, de perfume estonteante que oprime a respiração e transforma o corpo num braseiro ardente.
Não o esqueças: queima, queima, destrói a flor maldita.
És bela, e a fatalidade poderia arrastar-te ao abismo onde perecerias sem remissão.
- Que dizes?! - exclamou Ísis, num grito, empalidecendo.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 04, 2017 9:28 pm

Que trágica reminiscência acordas na minha memória?
Uma rosa rubra, de odor sufocante, fazia as delícias de minha Irmã antes da sua Incompreensível desaparição.
De quem houvera ela tal flor?
Ignoro, pois já se passou um lustro depois disso, e eu então contava nove anos de idade; mas, recordo que Rui teve ciúmes, por essa rosa, cujo perfume também aspirava, e muito interrogava minha irmã a respeito da flor.
Depois, Senimutis escondeu-a num pequenino saco, que trazia ao pescoço; mas, à noite, eu a vi, mais de uma vez, abrir o saquinho, beijar a rosa, aspirando-a, e chorar.
Um dia, enquanto me encontrava em visita a amigas, desapareceu, e não foi encontrada.
Parou de falar, sufocada pelas lágrimas. Depois de algum silêncio, acrescentou, com súbita energia:
- Está morta, sem dúvida, a minha pobre Senimutis, tão boa, tão afectuosa, e a sua perda também ceifou as vidas- de Rui e de minha segunda mãe; mas, eu, estou viva, e, se algum dia descobrir que criminosa mão desencadeou sobre nós todas essas desgraças, vingarei as três mortes, mesmo que haja de perecer no desempenho da tarefa.
O teu conselho, Neftis, deixa entrever saberes algo a respeito:
diz, então, eu te suplico.
- No momento, não sei, nem te posso dizer coisa alguma - respondeu Neftis.
Mas, quem sabe?
Talvez bem depressa nos aliemos, e satisfarei a tua curiosidade.
Silenciosamente, reentraram em casa, dirigindo-se cada uma para seus aposentos.
Por longo tempo Neftis divagou, encolhida numa cadeira, junto da janela, e, pelas rugas que se sucediam na fronte e pelos fulgores que, rápidos, acendiam seus olhos, percebia-se que alguma resolução muito séria estava sazonando no seu espírito.
Afinal, endireitou-se e, com ambas as mãos, alisou para as costas os fartos e dourados cabelos.
- Monstro insaciável de sofrimentos e de jovens vidas destruídas, é feitiço ou amor que emudece a minha boca?? monologou ela.
Ainda não tive coragem para te trair; mas, toma sentido, Horemseb!
Se poupares a vida de Neith e ousares conceder-lhe um raio de teu amor entorpecente, não haverá piedade para contigo: denunciar-te-ei ao ódio de todo o Egipto, destruir-te-ei e infligir-te-ei todas as torturas que tu causas aos outros.
E a verdade, eu a saberei, introduzindo-me em teu palácio.
Seus olhos verdes cintilavam, e uma dura crueldade contraía os lábios, descobrindo-lhe os dentes alvos e pontiagudos, dando ideia, nesse momento, de uma pantera prestes a saltar sobre a presa.
Sobrava razão a Horemseb para procurar com tenacidade, e temer, esse demónio destruidor que lhe conhecia os segredos.
Cabe dizer aqui algumas palavras, com referência a uma personagem da nossa narrativa, e um tanto olvidada nos precedentes últimos capítulos: Hartatef.
Agraciado, por intercessão dos padres, retomara, em Tebas, sua antiga hierarquia, reintegrado que fora nas honras e dignidades, e se instalara no belo palácio que outrora fizera construir para seu lar, recomeçando os antigos hábitos sociais; o tenaz e apaixonado amor por Neith não se extinguira, mas, destituído de qualquer esperança, dissimulava esse sentimento.
Compreende-se que o desejo de rever a jovem mulher era dos mais violentos, porém, a indisposição e o viver retirado da cobiçada Neith, além dos imperativos dos seus próprios encargos, ajudavam a criar sempre empecilhos, de modo que somente no ensejo da festa de despedida de Horemseb a tão desejada ocasião se apresentou, enfim.
Revendo Neith, tão estranhamente transformada, embora mais bela do que nunca, paixão, raiva e desespero rugiram-lhe no coração.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 04, 2017 9:28 pm

Observou, a distância, os movimentos da moça, e se colocou à passagem, quando Horemseb a acompanhou à liteira.
E porque o ciúme dá multiplicada perspicácia, sob as pálpebras semi-descidas do príncipe, Hartatef surpreendeu um olhar que lhe atingiu fundo o coração, qual punhalada, de modo que, ao ter notícia do desaparecimento de Neith, inafastável desconfiança fez-lhe estabelecer uma relação entre Horemseb e o misterioso acontecimento.
Inspirado pela ciumenta paixão, Hartatef quase adivinhava a realidade; não admitia a morte, e sim o rapto de Neith, consumado pelo enfeitiçador de Mênfis.
É certo que nenhum indício directo confirmava tal suposição, por isso que Neith e o príncipe se haviam avistado duas ou três vezes, e Horemseb ausentara-se de Tebas um mês antes da fatídica ocorrência.
Assim, atacar abertamente um aparentado da família real, por simples suspeita, era atitude perigosa.
Hartatef era demasiado prudente para arriscar, segunda vez, sua situação social numa aventura temerária; mas, a íntima convicção permaneceu inabalável, e resolveu pesquisar, sem alarde, e sondar, a qualquer preço, o mistério do palácio de Mênfis, e, verificada que fosse a presença de Neith ali, denunciar a verdade à rainha.
Com a paciência perseverante que lhe era peculiar, Hartatef iniciou a indagação, sem se aperceber de que, ele mesmo, era o objecto de activa e oculta vigilância, por parte de Keniamun.
Este, não acreditando igualmente na morte de Neith, admitia a probabilidade de haver sido ela raptada pelo antigo adorador, cuja violenta paixão era de todos conhecida, por isso que o considerava capaz de, por vontade ou à força, ter-se apoderado de Neith, e escondido a jovem, sob o impulso de selvagem ciúme e pelo desejo de subtraí-la ao marido.
Keniamun, porém, estava bem distante de pensar que a vigilância exercida sobre o rival de Sargon deveria conduzi-lo a outra pista, de diferente gravidade e completamente imprevisível.
Ignorando todos estes acontecimentos, Sargon, coração partilhado pela esperança e pelo receio, estava a caminho de Tebas.
Os vinte e quatro meses pesadamente escoados desde a sua condenação, haviam modificado multo o príncipe, moral e fisicamente; crescido e magro, seu corpo, meio débil e efeminado, bronzeara ao sol do exílio; severa ruga, gerada de amarguras, dava expressão inteiramente nova à sua fisionomia.
Apesar de todas as atenções, que secretas ordens lhe proporcionavam, serviços leves que lhe poupavam desumanos tratamentos e indescritíveis privações infligidas aos outros condenados, mais de uma vez acreditou sucumbiria sob o fardo daquela existência desprovida de tudo quanto lhe era antes habitual; mas, a vontade de sobre existir, a esperança, enraizada no coração pela promessa de Neith, sustentaram-no, dando-lhe a coragem para esperar que a bondade de Hatasu o retirasse daquele penar.
E a libertação chegara mais depressa do que o previsto, e na correspondência que trouxera o acto de mercê, para ele e outros infortunados, também viera um recado de Semnut, avisando-o de que, por assentimento de Neith, uma barca tripulada por serviçais seus, e aprovisionada de tudo necessário, aguardá-lo-ia num determinado ponto.
Como que transfigurado pela alegria e pela esperança, Sargon empreendera imediatamente o regresso; mas, a reacção fora demasiado forte, e perigosa enfermidade o colheu, pondo-lhe, durante semanas, a vida em risco.
Os cuidados de idoso sacerdote e a força vital da juventude triunfaram, entretanto, do mal, e, restabelecido, reencetou a viagem.
No local pré-indicado por Semnut, encontrou os serviçais e a barca que o aguardavam, e foi com indizível sensação de bem-estar que vestiu as roupas da sua classe, e reentrou no conforto de que fora privado por tanto tempo.
Impaciente, ordenara viajar noite e dia, permitindo fazer apenas as indispensáveis paradas, para as provisões de água fresca e alimentos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 04, 2017 9:28 pm

O avanço era rápido, pois a grande barca, tripulada por doze remadores que se revezavam de duas em duas horas, fazia o menor número de paradas possível.
Estendido sobre almofadas, abrigado em pequena cabina assentada sobre o costado, Sargon devaneava horas inteiras, tentando prever e positivar, na imaginação, como seria o novo primeiro encontro com a esposa, de que modo o receberia, e como combinar o futuro da vida conjugal; a exaltação, que o sustentara no período de desdita, cedera com o término dos sofrimentos; não mais duvidava de que Neith manteria a promessa, feita sob a Invocação de Hator, e de que o acolheria no grau de marido, o que decerto estava confirmado pelo envio da barca.
Apenas em um ponto não lhe restava Ilusão: o Impulso generoso da esposa era fruto do remorso e do pesar despertados pela desgraça que o alcançara, mas, esse bom sentimento já tivera tempo de arrefecer, e o mais que podia razoavelmente esperar era ser tolerado.
A este pensamento, um fluxo de sangue coloriu as faces emagrecidas do príncipe, e acerba onda de desespero, impotência e orgulho ferido constringiu-lhe e pareceu rasgar o coração.
Por vezes, revoltando-se, projectava forçar Neith a partilhar do seu amor; mas, regressando logo a ideias mais sãs, propunha-se conquistá-la pela paciência e pelo afecto, e, então, insensivelmente, sonhos de radioso porvir faziam-no olvidar todas as tempestades do passado.
Anoitecera, quando se avizinhou de Mênfis.
Próximo da cidade, uma barca de extremo esplendor, iluminada por farol vermelho e trazendo à proa uma esfinge dourada, com olhos purpurinos, atraiu a atenção de Sargon.
- Nosso glorioso Faraó Hatasu estará por acaso em Mênfis? - perguntou, voltando-se rapidamente.
Antes, porém, que qualquer dos tripulantes respondesse, a embarcação que parecia voar sobre as águas, apropinquou-se da de Sargon, e este viu, com surpresa, que, sob um dossel de púrpura e ouro, repousava, em coxins, um moço, admiravelmente formoso e faiscante de jóias, cujo rosto, impassível qual o de uma estátua, mostrava, vivos, apenas dois grandes olhos negros, coruscantes, de expressão arrogante e sinistra.
Esse olhar, plúmbeo e estranho, perpassou com gélida indiferença sobre Sargon, e as duas embarcações distanciaram-se, em seguida, uma da outra.
- Quem será? - interrogou, tentando reprimir a desagradável impressão que lhe produzira o excursionista.
- É o príncipe Horemseb, senhor - disse um dos remadores - e é bem lamentável que o encontrássemos:
tem "mau-olhado" e traz desgraça a quem o encontra.
Não ria, senhor, pois, o que digo todos o sabem.
Talvez o nobre Horemseb conheça quanto seu olhar é funesto; vive muito retirado e sai somente à noite.
Quando recentemente esteve em Tebas, todos os infortúnios sobrevieram.
- De que género? - indagou o príncipe.
- Mortes de diferentes maneiras.
As mulheres são principalmente sujeitas ao "mau-olhado":
tomam-se de insensato amor por ele, e depois suicidam-se.
Foi o que aconteceu a muitas filhas das mais nobres famílias.
E o remador enumerou os nomes de algumas das vítimas do fascinador.
Sem compreender o porquê, súbita angústia invadiu o coração de Sargon: esse estranho homem perturbador estivera em Tebas, e Neith devia tê-lo visto.
Resistira ela à fatal influência destruidora de tantas risonhas existências?
Tão moça, abandonada a si mesma, ligada a um esposo não amado, ficava bem exposta a sucumbir.
Esse pensamento, explodindo no cérebro superexcitado do hiteno, bem depressa tomou proporções de ideia fixa, de modo que não podia separar a imagem de Neith da figura de Horemseb:
raiva e ciúme contra este envolveram-lhe a alma, e lamentou não possuir asas para chegar mais depressa.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 04, 2017 9:29 pm

O Sol mergulhara no horizonte, quando a barca do exilado chegou ao almejado término.
De pé, à proa, sondava, avidamente, com o olhar, a escuridão, até que lobrigou os contornos maciços do seu palácio, a escadaria e os colossos de granito que faziam sentinela à entrada do terraço.
O coração do jovem príncipe latejava tumultuosamente: as lembranças do passado e as apreensões do porvir abalroavam-se.
E quando a embarcação acostou, ele, de um salto, atingiu os degraus, antes mesmo da amarração do barco, absorvido por um único pensamento, dominante sobre todos os outros: ver Neith!
Quase a correr, atravessou o deserto terraço, depois câmaras escuras e silenciosas, detendo-se, afinal, surpreso:
que significava aquela quietude, aquele abandono em que estava mergulhado todo o edifício?
Neith estaria ausente ou enferma?
Coração confrangido, recomeçou a andar, orientando-se na treva, sem atinar com o motivo da ausência dos servos que habitualmente populavam o agora deserto palácio.
Por fim, saiu num aposento interior, iluminado por archotes, e divisou numerosos escravos que, grupados em torno de uma fonte, palestravam ruidosamente.
- Que significa a negligência que encontrei? - inquiriu, com irritado tom de voz.
Conversais, enquanto a casa, deserta, permanece às escuras e à mercê do primeiro invasor, sem que estejam os vigias nos seus postos?
Chamem Apopi, imediatamente!
A voz do senhor, os escravos calaram, assustados, ao mesmo tempo que um alentado homem, rechonchudo e musculoso, aparecia na porta do recinto.
Crendo ter ouvido o sonoro timbre, da voz de Sargon, e apercebendo-o, prosternou-se, braços cruzados.
- Perdoa-me, senhor, por não te haver preparado recepção digna de ti, pois contávamos com a tua chegada depois de amanhã.
Além disso, o luto que domina teu palácio dispersou os servos desolados.
- Explica-te, Apopi: de que luto falas tu? Chorais? - perguntou o príncipe, empalidecendo.
Onde está Neith, minha esposa?
Nenhum luto deve impedir-vos de servi-la com zelo.
Antes que o intendente pudesse responder, Beki, a velha nutriz, se precipitou no aposento, gemendo lastimosa, vestes rasgadas, cabelos em desordem, cobertos de cinza e lodo.
Avançou para Sargon, e, abraçando-lhe os joelhos, exclamou, desesperada:
- Oh! senhor, é em hora de desventura que regressas; aquela que buscas, Neith, a jóia do teu coração, o sol deste palácio, morreu!
Grito rouco eclodiu do íntimo do príncipe, que comprimiu a fronte com as mãos crispadas.
O golpe fora demasiado rude para o seu depauperado organismo; cambaleou, e teria caído, não fora a intervenção dos fâmulos, que o ampararam.
Sob ordens de Apopi, conduziram-no ao aposento preparado para ele, e, rapidamente, tudo se iluminou e adquiriu movimento e animação.
O desacordado foi posto no leito, e Beki prodigalizou-lhe os primeiros socorros, com fricções nas têmporas e nas mãos, entremeando-as com soluços e lamentações.
Mais de uma hora assim escoou; Sargon permanecia em decúbito dorsal, mudo, olhos fechados, insensível, aparentemente.
Em verdade, porém, não estava desmaiado:
a concentração febril de todo o seu ser, fixada sobre um pensamento único, tornava o corpo inerte, e era:
- Neith morreu!
O futuro que sonhara fruir junto dela, e fora seu sustentáculo até então, desmoronava-se entre suas mãos; a realidade, horrenda e imprevista, esmagava, retorcia-lhe a alma em indizível dor física.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 04, 2017 9:29 pm

Pouco a pouco, no entanto, a reflexão fez-se luz no caos do desespero: de que se finara a jovem criatura, plena de juventude, de força e de saúde?
Sem que pudesse tal explicar, ao lado da imagem de Neith, que lhe espelhava o porvir, subitamente surgiu a sombra negra do enfeitiçador de Mênfis, o destruidor de mulheres.
Como impelido por molas, Sargon ergueu-se, e, pegando o braço da velha, ajoelhada junto do leito e ainda segurando um frasco de essência, perguntou, com febril aflição:
- Quando morreu, como aconteceu tal desgraça?
Conta-me tudo.
- Ah! senhor - soluçou Beki - o mais terrível é ignorarmos de que modo sucumbiu.
É verdade que a nobre Neith estava doente desde algum tempo, e que não ia a parte alguma, mas, ninguém previa semelhante desenlace.
Exactamente há oito dias, vários médicos, enviados pelo Faraó, visitaram a minha senhorazinha; à noite, veio o padre de Hator, Roma, irmão da nobre Roant, e, quando este se retirou, Neith despediu-nos, dizendo querer ficar ainda no terraço, o que ninguém estranhou, pois a noite estava linda e repetidas vezes Neith demorava-se a sonhar à luz da Lua, e ia deitar-se ao amanhecer.
De manhã, verificamos, com estranheza, que havia desaparecido.
Sobre o último degrau da escadaria apenas o seu véu e uma rosa vermelha.
Segundo toda a evidência, caíra ao Nilo, mas, o corpo não foi encontrado, embora vasculhado o rio em todos os sentidos, e prometido, pela nossa gloriosa rainha, um "talento de Babilónia" de prémio a quem descobrisse os despojos da nobre senhora.
Sargon escutara, pálido e ofegante; às últimas palavras de Beki, saltou do leito, e, agitando os punhos contraídos, bradou, olhos incendidos:
- Ah! tudo confirma as minhas desconfianças; Neith não morreu, está desaparecida, porém saberei onde reavê-la, pelas inspirações do meu coração.
Diz, mulher, o príncipe Horemseb vinha muitas vezes aqui? - acrescentou, voltando-se para a nutriz, que o olhava aparvalhada.
- Oh! não, senhor, veio somente uma vez convidar Neith para a festa de despedida antes do seu regresso, e à qual devia comparecer a rainha, que os deuses conservem e cubram de glória!
Minha senhorazinha foi, mas a nobre esposa de Chnumhotep a trouxe de volta muito doente:
perdeu os sentidos, e não mais se restabeleceu até morrer.
Esta resposta parecia destruir pela base a suspeita do príncipe, mas, este, inabalável na sua convicção íntima, viu em tudo isso uma coisa única:
a dificuldade em seguir a pista de Horemseb, pois descobri-lo para desmascaramento implicava quase sacrificar a vida.
Em dias subsequentes, Sargon teve uma entrevista com Semnut, depois com a rainha, que o acolheu com a maior benevolência.
Falaram sobre Neith, mas não soube outros detalhes além dos que já eram do seu conhecimento; o amor da jovem pelo sacerdote Roma não foi assunto, nem por parte de Semnut, nem por parte de Hatasu.
Uma vez tudo terminado, para que acrescer tal chaga no coração do desventurado Sargon, tão cruelmente amargurado?
Repartido entre o desespero e a raiva, excitada pela suposição do rapto de Neith, o príncipe manteve-se alguns dias recluso no palácio, mas, depois, acudiu-lhe o desejo de ver Roant e falar com ela da que lhe fora melhor amiga.
A esposa de Chnumhotep achava-se em companhia do irmão, quando ali chegou Sargon.
Mostrando-se bastante compadecida, ela o acolheu muito amigavelmente, mas, na alma de Roma, a presença do príncipe desencadeou uma tormenta de sentimentos diferentes.
Honesto, puro e generoso até ao imo do ser, o jovem sacerdote experimentava ciúme, piedade e remorso ante aquele homem que, ignorando estar em presença de quem lhe havia roubado o coração da mulher amada, apertava, sem reserva mental, a mão do rival feliz, do causador dos seus sofrimentos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 04, 2017 9:29 pm

Influenciado por esse misto de vergonha e hostilidade, Roma sentou-se afastado, para não partilhar da conversação, e simulou estar absorvido na leitura de um papiro.
A palestra, como era de supor, versou exclusiva sobre Neith.
- Não compreendo coisa alguma do misterioso desgosto que a consumia, do qual me falas, de igual modo que ouvi da rainha e da nutriz - disse afinal Sargon, com sombria expressão.
Ignoro se esse pesar tem qualquer relação com o estranho desaparecimento; mas, de uma coisa estou certo:
Neith não morreu, é a voz do coração quem mo diz, a voz que jamais se equivoca; ela foi arrebatada, e eu a descobrirei, pacientemente, alerta, procurando até achar a pista e desmascarar o infame raptor.
Apenas quero que me digas, Roant, se veio a Tebas um homem cujo olhar fatal atinge mortalmente o coração das mulheres por ele fixadas, e se Neith privou com esse enfeitiçador.
Como se fosse atingido por um raio, Roma estremeceu violentamente ao ouvir tais palavras, e levou a mão à fronte, de súbito inundada de suor.
Recordou-se das expressões de Neith, no derradeiro encontro de ambos:
- Salva-me de mim mesma, Roma; teu puro amor expelirá o outro... porque este é labareda que não aquece, mas devora, destrói e assassina!?
Tais palavras bem podiam ter alvo além de Sargon.
Fora ele tão cego, a ponto de pensar apenas no hiteno?
Roant, lívida, dominando-se a custo, respondeu, num gesto negativo:
- Não te entregues a conjecturas sem fundamento algum; Neith mal conheceu Horemseb, e nunca pronunciou o nome do príncipe, que vive em Mênfis, num retiro absoluto, consagrando-se à Ciência, ao estudo; jamais distinguiu ou incitou mulher, porque um voto o prende e força a permanecer liberto.
Sargon riu, seca e estridentemente.
- Todas essas histórias nada provam.
Sabes do que se trama por detrás dos muros desse enigmático palácio?
Encontrei esse homem, ao passar por Mênfis, e a magnificência extravagante da embarcação e da sua personalidade é mais do que singular para um sábio, consagrado a retiro e estudo.
Esse homem semeia o infortúnio e a morte pelo caminho: numerosas vítimas deram disso prova em Tebas; qualquer coisa se abalou em mim, à vista daquela face insolente, como que petrificada no orgulho e no menosprezo pelo Universo.
Tal sentimento maligno não era aparentemente sem motivo.
Roant escutara, cada vez mais perturbada; com ansioso olhar, viu o semblante do jovem assírio crispado por selvagem ódio, e disse:
- Guarda-te, Sargon, de atacar Horemseb, baseado em vagas suposições; não esqueças de que esse homem poderoso é membro da família real, e que arriscarás, por segunda vez, vida e liberdade, em vão, provavelmente.
- Sei quanto a fortuna e a posição do vencido e prisioneiro são coisas frágeis, e vinte e quatro meses de humilhação e tortura desgostaram-me da vida - respondeu ele, com amargor.
Sem embargo, seguirei teu conselho, Roant, e serei cauteloso, porque não quero morrer antes de vingado.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 04, 2017 9:29 pm

II - AS PESQUISAS

Já mencionamos que, trabalhado por secreta dúvida, Keniamun espionava activamente Hartatef, esperançoso de, por essa vigilância, descobrir a generosa amiga, que suspeitava haver sido raptada pelo antigo noivo.
Apesar disso, cerca de dois meses eram decorridos desde a desaparição da jovem, sem que houvesse descoberto a menor pista.
Começava a perder a coragem, quando, certa manhã, soube que Hartatef havia partido, só, para viagem de fins desconhecidos.
A notícia era grave, pois suspeitou que o raptor ia visitar secretamente a sua prisioneira.
Era, portanto, necessário surpreendê-lo, no próprio local do delito.
E, recordando-se de que uma vez Hanofer, a mulher de Smenkara, lhe prestara serviço, informando-o de segredos de Hartatef, foi visitá-la, e, mediante dádiva condizente, a megera narrou-lhe, sem escrúpulo, que o seu amigo viajara para Mênfis, a fim de ajudar parentes no andamento de complicado assunto de família.
Era claro que Hanofer não desconfiava da verdade, e Keniamun bem se absteve de elucidá-la.
— Ah! miserável — pensou ele — arrastaste a tua vítima para tão longe, na esperança de que ninguém ali a procurasse, mas, espera!
Se tal ousaste, perderás o disfarce.
Sem perda de tempo, foi a Chnumhotep solicitar uma licença para negócios de família, e, obtida, rumou para Mênfis, onde, chegado, disfarçou-se, instalando-se em local que permitia vigiar a residência de Hartatef.
Bem depressa constatou que este saía à noite, sumindo-se por longas horas, e isso com habilidade, de modo que, por três vezes consecutivas, lhe perdeu as pegadas.
Afinal, certa noite, o oficial conseguiu segui-lo.
Em escura ruela, viu Hartatef cobrir a cabeça com enorme cabeleira postiça, envolver-se até ao nariz em seu escuro manto, e dirigir-se, após, ao Nilo, onde pulou para uma pequena embarcação.
Temeroso de mais uma vez perder a pista, Keniamun cortou a amarra de pequeno barco de pescador, e, remando vigorosamente, seguiu Hartatef, mantendo sempre a conveniente distância para não ser percebido.
Atravessaram assim a cidade, rodearam em seguida o imenso muro que circundava a morada de Horemseb, e, não distante da escadaria das esfinges, Hartatef acostou, escondeu a barquinha nos vimes, depois do que desapareceu na sombra dos arbustos que cresciam ao longo da murada.
A centenas de passos de distância, Keniamun também desembarcou, e, andando o mais silente possível, aproximou-se quanto pôde do local onde presumiu devia encontrar-se Hartatef.
Não demorou muito, e, do seu esconderijo, viu a barca maravilhosa sair do respectivo ancoradouro, e nela instalar-se o príncipe para fazer o passeio nocturno nas águas do Nilo.
Logo que a embarcação se distanciou, apareceu o vulto de Hartatef, encaminhando-se para a escadaria em cujos degraus se percebia vagamente a silhueta de um escravo acocorado.
O que ocorreu depois, Keniamun não pôde ver:
ouviu o indistinto murmúrio da voz profunda de Hartatef, interrompido bruscamente por grunhidos roucos e ferozes, e, afinal, o sapatear típico de luta corporal.
Instantes após, o egípcio pulou por cima de uma das esfinges e correu para o seu barco, à altura do qual deslizara o oficial na intenção de tudo presenciar.
— Chacal! murmurou Hartatef, desprendendo a corda de amarra.
Apesar de tudo, saberei se escondes Neith por detrás desses muros tão bem sentinelados.
Não é em vão que amas a noite e o mistério, animal impuro, feiticeiro maldito!
Ergueu o punho crispado, num gesto de ameaça, e saltou para a embarcação.
Keniamun imitou-o sem demora, por isso que, na escadaria, haviam aparecido muitos homens, com archotes, aprestando-se, sem dúvida, para a ronda em torno do muro.
Rapidamente atingiu a margem oposta do rio, e, sem açodamento, regressou a casa.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 04, 2017 9:30 pm

O moço oficial estava aturdido com as palavras que ouvira e derribavam todas as suas suposições:
Hartatef não fora o raptor, pois a procurava nos domínios de Horemseb, o que era tão inesperado quanto inconcebível.
Keniamun, conhecendo a astúcia e prática de Hartatef, estava seguro de que este não perseguiria fantasmas, e de que só por indícios bem fundados afrontaria o risco de penetrar, a qualquer preço, no inabordável e misterioso palácio.
Mas, que acaso o conduzira àquela pista, se é que um louco ciúme não o impelia para falso roteiro?
Em vão o oficial torturou o cérebro para estabelecer relação entre o príncipe e o desaparecimento de Neith:
não encontrou o fio condutor.
Frequentara Horemseb, quando da sua estada em Tebas, e não lhe notara que se interessasse pela moça, não lhe ouvira louvores à beleza de Neith.
Quanto a esta, esquiva a todas as festas da época, quase não frequentava a sociedade.
Keniamun recordava-se de que o estado doentio da jovem datava da chegada do príncipe, mas também coincidia com o perdão concedido pela rainha a Sargon.
A silenciosa tristeza, a surda agitação que devorava Neith, o fulgor estranho e febril de seus olhos lhe haviam, então, inspirado inquietude, mas porque a jovem não pronunciara jamais o nome do príncipe, de cuja presença mais fugira do que se aproximara, não podia compreender houvesse entre ambos um vínculo secreto.
Duas vezes apenas ele os vira juntos: no festim de Chnumhotep e na festa de despedida do príncipe, e numa e noutra, este, indiscutivelmente, distinguira Neith.
Era, porém, natural que tão formosa mulher atraísse atenção, e, além disso, em toda parte se homenageava a protegida da rainha.
Keniamun nunca se detivera nessas circunstâncias, mas, sob a influência das suposições ora despertadas, rememorou de súbito dois incidentes, os quais a sua superexcitada imaginação interpretava, agora, de maneira nova.
Encontrara o príncipe quando este, saindo dos aposentos privados, ordenara a um servo mandasse aproximar a liteira de Neith.
Impressionado pela lividez e ar de perturbação, indagou sobre o que ocorrera.
— A esposa do príncipe Sargon está sentindo-se mal, e vou levá-la à liteira — respondeu Horemseb, distraidamente.
Agora, Keniamun perguntava a si mesmo se a extrema preocupação do príncipe poderia ser provocada naturalmente pelo acidente sofrido por uma jovem senhora, completamente estranha, convidada por mera polidez.
O segundo incidente ocorrera cerca de meia hora depois.
A poucos passos de Horemseb, o príncipe Tutmés indagara qual fora a causa da súbita indisposição da favorita de sua irmã Hatasu.
— A nobre Neith desmaiou ao regressar de um passeio no jardim.
Pareceu-me enferma de alma e de corpo.
É verdade — ajuntou Horemseb, com escrutador olhar e baixando a voz — que a expectativa do retorno do marido tem reagido tão desfavoravelmente sobre a sua saúde?
O hiteno deve ser bem horrendo para que ela tanto tema o seu regresso.
— De modo algum!
Sargon é um belo rapaz, com o defeito de ter a mão demasiado impulsiva.
Boqueja-se que a bela Neith tem um fatal e irrealizável amor por um homem casado, segundo alguns, e por alguém muito abaixo do nível social dela, segundo outros — disse Tutmés, a rir.
Horemseb voltou bruscamente a cabeça e pegou um copo de vinho, e Keniamun notou que a mão estava trémula, imperceptivelmente, e que sombrio olhar, pleno de cólera e ameaça, se mostrara através das pálpebras semifechadas do enfeitiçador.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 04, 2017 9:30 pm

Chegado a esse ponto das suas reflexões, o militar esbarrou em outra nova e inextricável dificuldade:
se Horemseb amava Neith e era correspondido, qual a necessidade de rapto, de todo esse perigoso enigma? Hatasu, que tão ostensivamente protegia a filha de Mena, teria achado plausível razão para anular o matrimónio com Sargon, ligando sua favorita a um príncipe da casa reinante.
Tudo isso era incompreensível, e podia-se perder o siso em tal dédalo.
Keniamun teve uma noite de insónia, mas, quando a aurora filtrou os primeiros raios de Sol no minguado espaço que ocupava, o espírito subtil e inventivo do oficial havia obtido a solução que o acalmou:
convencera-se de que, embora Neith vivesse, impossível era chegar até ela, porque a elevada hierarquia de Horemseb tornava-o inatacável, no momento.
Decerto o ciumento e fero Hartatef não se deteria ante essa consideração, nada empecilharia a tenacidade na busca da mulher amada, e, se a descobrisse, o escândalo seria enorme.
Mas, longos meses se escoariam, sem dúvida, antes de tal descobrimento, e Keniamun, crivado de dívidas, não poderia esperar tanto, sob pena de ser devorado pelos credores.
Não existia, porém, um homem em condições de tirá-lo de embaraços, e olhá-lo agradecido?
Essa criatura era Sargon, o qual, restituído à posse de Imensa riqueza, vivia solitário, e desesperado, pranteando Neith, que considerava morta.
Que daria ele a quem lhe levasse nova esperança, um fio condutor, a ele que já abrigava uma desconfiança?
Tendo decidido definitivamente lançar Sargon na trilha de Hartatef e do enfeitiçador, Keniamun tranquilizou-se, readquiriu o bom humor, e, nesse mesmo dia, embarcou para Tebas.
Entristecido e desencorajado, por não haverem suas indagações produzido qualquer resultado, Sargon retomara o viver mais solitário do que nunca; revoltado e cheio de aversão contra homens e deuses, arrastava seus dias na apatia, ou fatigando o cérebro na busca de meio de alcançar o raptor de Neith, pois, tanto agora quanto anteriormente, não acreditava na morte da jovem.
A visita de Keniamun causou-lhe medíocre satisfação, e ouviu, com a indiferença de homem fatigado, a loquacidade alegre do visitante.
Este não mostrou reparar na fria recepção, e interrompendo o banal assunto em foco, disse, com interesse:
— Vejo que tens a alma enferma, Sargon; a morte de tua esposa acabrunha-te, e isso seria efectivamente um terrível golpe, se tal morte estivesse suficientemente comprovada; mas, eu não a aceito, e vim confiar-te uma descoberta que fiz, e quiçá te proporcione um fio condutor para encontrar Neith.
Sargon, que se estirara displicentemente sobre um leito de repouso, retesou o busto, olhos flamejantes.
— Ah! também tu não a julgas morta.
Mas, depressa, depressa, fala; que sabes tu?
— Calma! Sei pouco, mas, constitui um indício.
Lembras-te de Hartatef, o antigo noivo de Neith?
— Louco, cego que fui — interrompeu o príncipe, golpeando a fronte.
É ele? O miserável caro pagará a audácia!
— Sossega-te, Sargon; tu te precipitas muito, e tomas rumo errado; quis apenas relembrar que esse homem, tenaz e enérgico, amou Neith, ama ainda, e, tal qual nós, não acredita na sua morte.
Não foi o raptor de tua esposa.
— Se não foi ele, quem pôde praticar o rapto? — disse o príncipe, desencorajado, pois contava já conhecer o inimigo.
— Não; Hartatef não foi, mas nos ajudará a encontrar Neith, que ele procura na casa de um homem que, sem ele, nunca seria por nós suspeitado.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 04, 2017 9:30 pm

E narrou quanto havia surpreendido em Mênfis; Sargon escutava, pálido, lábios contraídos.
Quando Keniamun findou, disse, com a voz concentrada:
— Estou persuadido de que o ciúme bem inspirou Hartatef; a mim também a voz do coração soprou o nome desse homem nefasto.
Sua figura (eu o encontrei próximo de Mênfis) perturbou-me o repouso, e eu ignorava, então, o desaparecimento de Neith.
Quando seu olhar se cruzou com o meu, raiva cega invadiu-me a alma.
Mas, como chegar até esse miserável, cuja hierarquia o torna inatacável?
Oh! se eu tivesse qualquer prova!
— Deixa-me dizer-te, Sargon, que antes de tudo, é mister armar-se de paciência; em semelhantes assuntos, o acaso, muitas vezes, é o melhor guia.
Mas, certamente, sepultando-te neste palácio não é meio de obteres um indício.
Sem que ele o suspeite, temos em Hartatef um aliado astuto e intrépido, que precisamos seguir de perto; mas, tu próprio, deves ir a toda parte, ver e ouvir o que se passa, pois ninguém adivinha onde e de que modo se pode cair sobre um rastro sério.
A minha aventura com ele o prova.
Assim, deverás visitar Tuaá, muitas vezes, mulher que tem parentes e amizades, em Mênfis, que a procuram.
Agora, precisamente, um de seus primos está aqui.
Tais relações são indispensáveis a ti.
— Tens razão: irei à casa de Tuaá; esta inactividade me enerva, e não serve para coisa alguma.
Tu, Keniamun, sê meu aliado; nós dois venceremos, eu o espero firmemente.
O oficial suspirou.
— Receio não te ser tão útil quanto o desejara e de acordo com a minha amizade por Neith; meus assuntos são tão deploráveis, que não sei mesmo se poderei permanecer em Tebas.
— Tens dificuldades de dinheiro?
Dívidas? — perguntou vivamente o príncipe.
E vendo que Keniamun fazia gesto de confirmação, acrescentou, pegando-lhe as mãos:
— Não penses mais nessas bagatelas; sinto-me feliz por desembaraçar de tão mesquinha preocupação um amigo, que me presta um inapreciável serviço.
Amanhã, enviar-te-ei um “talento de Babilónia”.
Bastará isso?
O oficial se fez de rogado, para depois agradecer, contente, pois a soma era o triplo do que necessitava.
Uma hora mais tarde, os dois moços despediram-se grandes amigos, e Keniamun prometeu voltar, no depois de amanhã, para levá-lo à casa de Tuaá.
A reunião na residência da viúva não era numerosa; quando Sargon e seu companheiro chegaram, Nefert e alguns moços, admiradores assíduos, jogavam bola no jardim; Tuaá, velhas amizades e o primo de Mênfis agrupavam-se em redor de mesa lauta.
A estes convivas juntaram-se os recém-vindos.
Tuaá acolheu Sargon com grandes demonstrações de alegria, fazendo-o sentar-se a seu lado e procurou tirá-lo do taciturno mutismo.
Keniamun, jovial e conversador de sempre, dirigiu habilmente a palestra e alcançou que versasse sobre Horemseb, informando-se, do residente em Mênfis, de alguma possível novidade a respeito do príncipe enfeitiçador.
O interrogado, um velho padre, melancólico e rabugento, respondeu, a visível contragosto:
— Que se pode saber de um homem que vive misteriosamente, e sai apenas à noite?
É de desejar que tal existência, tão cuidadosamente escondida, seja agradável aos Imortais e não receie o olhar dos vivos.
Tuaá clamou contra a opinião suspeita do parente, a quem classificou de resmungador, e, em seguida, espraiou-se sobre a formosura e encanto fascinador do príncipe, que lhe causara indelével impressão desde a primeira vista.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 05, 2017 8:10 pm

Enlevada com as recordações, narrou pormenorizadamente seu nocturno passeio em companhia de Neftis e o encontro com Horemseb, que atirara uma flor àquela.
Sargon e o oficial prestaram atenção, sendo que este se lembrava de ter ouvido antes esses detalhes, pormenores que agora se revestiam de outro interesse, aliás.
— E que faz agora a moça distinguida com a lisonjeira dádiva? Guarda-a? — perguntou com aparente despreocupação.
— Em verdade!
Não pensei em perguntar.
Mas, meus amigos, a história desta moça tomou-se tão estranha, que eu não resisto a narrá-la.
E notando a curiosidade dos convivas, vivamente excitada, Tuaá prosseguiu, animadamente:
— Devo lembrar que, à data do encontro, Neftis era noiva de Antef, o antigo comandante de Bouto, e dispunha-se a seguir para ali, com a tia, a fim de celebrar o casamento, quando, subitamente, desapareceu, algumas semanas depois da minha partida.
Acreditou-se ter-se afogado no Nilo, porque, regressando, à noite, da casa de uma das amigas, sumiu da embarcação que a conduzia.
O escravo, cego, que a acompanhava, diz ter ouvido como que barulho de remadas, mas, é admissível fosse Neftis raptada sem proferir uma interjeição qualquer?
O certo é que continuou desaparecida, e sua desolada irmã, Noferura, o noivo e todos choraram sua morte.
Pode-se calcular o assombro geral quando, repentinamente, reapareceu.
Onde passou durante quase um ano?
Ninguém o sabe, pois o que ela narra sobre tal ausência é evidente patranha.
Minha convicção é que esse mistério encobre tristes coisas, por isso que a felicidade não transforma assim as pessoas.
Imaginai que Neftis, outrora alegre e risonha, tendo a frescura das rosas, actualmente está irreconhecível:
tem a palidez da cera, olhos febricitantes e estranhos, não ri nunca, fala escassamente, esquiva-se de todos, e parece viver tão-somente para as suas quimeras.
Oh! às vezes creio que o encontro com o príncipe Horemseb traz desgraça, e que o belo rapaz tem “mau-olhado”.
Voltemos, porém, a Neftis.
Depois da reaparição, seguiu para Bouto, no propósito de desposar Antef.
Uma viúva, sua parenta, Mentchu, acompanhou-a por mera conveniência; mas, imagine-se que, desde a chegada, Antef enlouqueceu de amor pela viúva, a qual, em formosura, não vale as sandálias de Neftis, e com ela casou, pois a antiga noiva desfez o compromisso assumido.
Foi isso pura generosidade, ou (Tuaá baixa a voz e sorri com ar significativo) terá ela agradado a outro?
O positivo é que, na actualidade, Neftis habita não longe de Tebas, bela casa, doação de Tutmés, que a visita assiduamente.
Fui vê-la uma vez com Nefert, porque soube de Antef que ela estaria aqui, mas, tornada estranha, pouco sociável, tanto que não me retribuiu a visita.
Enquanto os assistentes riam e discutiam o que acabavam de ouvir, Sargon e Keniamun permutaram um compreensivo olhar.
É que a ambos acudira a reminiscência da rosa rubra presa ao véu de Neith, encontrada no dia seguinte ao da desaparição.
— Com efeito!
Vivemos num tempo cheio de aventuras que, outrora, não ocorreriam num largo ciclo de tempo — disse um moço, escriba real.
Vou contar-te, Tuaá, uma história à qual nada falta de picante.
Tu, e muitos de vós, meus amigos, conhecestes, ao menos de nome, Tatmut, a viúva do astrólogo do templo de Amon.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 05, 2017 8:10 pm

Sua filha única, Chonsu, é linda, e a progenitora fazia grandes projectos com relação a essa filha, contando matrimoniá-la com Bock-en-Ptah, que a rainha nomeou chefe dos pintores que trabalham no seu túmulo em construção.
Tudo estava quase concluído, as famílias de acordo, quando a noiva mudou de preferência e se apaixonou doidamente... adivinhai de quem?
De um escravo, de um impuro amonita.
Paixão tenaz, contra a qual são inúteis castigos, persuasão, orações.
Tatmut tudo envidou para que o escândalo não transpirasse; eu, porém, o soube por intermédio da irmã de Bock-en-Ptah, furiosa que está com a ofensa feita ao irmão.
-Essa história suscitou ainda maiores comentários do que a precedente, mas, a entrada de Nefert e dos acompanhantes do jogo distraiu a atenção, e mudou o tema da palestra.
Saindo da casa de Tuaá, Sargon propôs a Keniamun levá-lo no seu carro, e, para maior liberdade, despediu o condutor.
Durante o trajecto, e após discutirem os incidentes da tarde, disse o príncipe, animadamente:
— Devo avistar Neftis, porque tudo indica existir correlação entre o seu desaparecimento e estranha mudança e o miserável nigromante, que semeia morte e loucura em seu caminho.
Talvez por ela apreendamos alguma coisa.
A melhor maneira de chegarmos à sua casa, seria o intermédio de Antef. Consegue isso, se o conheces.
— Creio que sim.
Antes de ir para Bouto, servimos ambos no mesmo destacamento, no qual, aliás, foi reintegrado, depois do seu regresso, situação que não lhe deve ter agradado, tendo em vista o posto anteriormente exercido.
Fui muito ligado ao pobre rapaz, e, se depender dele aproximarmo-nos da ex-noiva, ele o fará.
Fica tranquilo, Sargon.
Amanhã, avistar-me-ei com ele.
Dando cumprimento à promessa, Keniamun foi, no dia seguinte, à morada do antigo comandante de Bouto, que encontrou bem alterado.
Embora restituído à fria calma e destreza enérgica que lhe eram características, estava triste e visivelmente ferido no seu orgulho, por haver sido rebaixado do posto que deixara, quando já esperava atingir o primeiro degrau de brilhante carreira.
Os dois jovens sentaram-se à mesa, saboreando um bom vinho.
Keniamun sabia inspirar confiança, e Antef transbordava de amargor, pois toda a família, Semnut inclusive, não lhe poupava censuras, nem perdoava a louca imprudência que poderia tê-lo atirado aos trabalhos forçados; o ministro negava-se a dar-lhe qualquer emprego, e a sua reintegração fora de iniciativa e ordem directas da rainha.
Sob o império de tais sentimentos, Antef usou de desacostumada franqueza.
— Não posso compreender — disse Keniamun — qual o espírito impuro que se apossou de ti; sei que não és volúvel, de teu natural, mas, no entanto, abandonaste muito depressa a noiva, que amavas desde havia tanto tempo, por um novo amor, que te levou mesmo ao esquecimento dos teus deveres.
Antef apoiou a fronte nas mãos.
— Eu próprio não posso compreender o que, então, se passou em mim — ciciou ele em voz abafada —, estava enfeitiçado, pois teria renunciado à vida antes de privar-me de Mentchu.
Actualmente, não posso atinar como havê-la amado, nem ela compreende a transitória paixão que teve por mim.
Desse tempo de insânia, guardo apenas vaga reminiscência, e só me ficou o sentimento do que sofri horrorosamente: meu sangue parecia transmudado em fogo, minha cabeça dir-se-ia prestes a eclodir, e um aroma, suave quanto atordoador, perseguia-me por toda parte.
Sabes que bebo sempre moderadamente, e, dadas as minhas responsabilidades, mais sóbrio eu me fizera.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 05, 2017 8:10 pm

Pois bem: a sede então me devorava, e no dia do meu desastrado matrimónio bebi, dizem, desmesuradamente.
Nessa mesma noite Tutmés fugiu, o que constitui estranha coincidência.
Ah! o malefício foi bem calculado, e não é menos estranho que Mentchu experimentasse idênticas sensações, embora me confessasse que, malgrado a paixão por mim, não se sentia satisfeita, pois, nos sonhos, via sempre um homem, belo, de grandes olhos sombrios, curvar-se sobre ela e sufocá-la com ardente hálito.
E mais estranho ainda é que, segundo ela, o desconhecido dos seus sonhos é o príncipe Horemseb.
Quando, certa vez, o encontrou, nas águas do Nilo, a impressão teve a violência de fazê-la perder os sentidos, sem embargo de jamais haver visto o príncipe, nem ouvido pronunciar seu nome.
— Sempre esse homem, ligado a algum mistério malfazejo, a algum malefício impossível de identificar — pensou Keniamun.
Decididamente, começo a crer que Horemseb farejou a boa vida.
Tendo obtido de Antef a promessa de fazer a apresentação desejada a Neftis, caso fosse possível vencer a relutância da jovem em permitir novos conhecidos, Keniamun despediu-se.
Alguns dias mais tarde, o oficial recebeu tabuinhas escritas por Antef, anunciando estar tudo combinado e fixando a data em que ele e o amigo podiam ir à casa de Neftis, que acedera contrariada, pois o consentimento fora obtido pelas rogativas de Ísis, empenhada em conhecer o príncipe hiteno.
Desde o reencontro com Sargon, Roma vivia mais arredio ainda, dedicando-se exclusivamente aos serviços do templo.
A desconfiança, oriunda das palavras do hiteno, haviam-lhe envenenado o sossego; não mais conseguia prantear Neith por morta, e, à ideia de que ela fora arrebatada e sofria talvez, longe dele, ficava desesperado; a hipótese de que ela amasse Horemseb fervilhava-lhe o sangue.
Nos momentos de calma, tentava persuadir-se de que aquela trama, inverosímil, não passava de criação do enfermo cérebro de Sargon; logo depois, aprofundava-se, avidamente, nas circunstâncias que haviam precedido a desaparição da bem-amada, e nelas descobria mil indícios da verdade das asserções do jovem príncipe.
Sob o império de tão penosa preocupação, Roma insulava-se de todos, evitando mesmo os parentes.
Por isso, grande surpresa foi, ao reentrar no templo, encontrar alguém que o aguardava:
era um velho amigo da família, o venerável Penbesa, pastóforo do templo de Amon, e que não avistava desde havia muitas semanas.
O aspecto do ancião era profundamente aflito, de modo que Roma, no momento, olvidou seu próprio desgosto, para indagar, com verdadeiro interesse, do que assim angustiava o encanecido padre.
— É uma desgraça de família que me traz a ti, Roma; venho rogar-te ajuda e conselho — disse Penbesa.
Trata-se de Chonsu, a filha do meu finado filho; algum ciumento ter-lhe-ia atirado terrível malefício, ou espírito impuro, de poder extraordinário, dominando a infortunada criança?
Obstinadamente, tomou-se de amor por um de nossos escravos, da imunda raça dos amonitas, e nenhuma persuasão, nenhum remédio produz efeito,' pois ela não pode passar sem avistar esse rapaz.
Vendo-nos intransigente na recusa a semelhante matrimónio, quer, evidentemente, morrer, e seu estado piora, de dia para dia.
— É mister afastar esse homem que a empolga e excita, sem dúvida.
— Difícil se torna qualquer compreensão:
Neftali tem dezoito de idade, é tímido, dócil, governável com um simples olhar.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 05, 2017 8:10 pm

Entretanto, também ele foi atingido por igual loucura:
em vão o castigamos a pancadas, com prisão; ele tudo arrosta para encontrá-la, e o mais extraordinário é que muitas mulheres da casa estão cativadas por ele.
Vim, pois, suplicar-te, Roma, vás a nossa casa falar a Chonsu, e vê se consegues repelir o espírito mau que a consome; tu, o sacerdote da grande deusa que dirige os corações dos mortais; tu, cuja rígida virtude se impôs a todos, talvez tenhas a força que nos falece — terminou Penbesa, com desolação.
Muito a contragosto, Roma aquiesceu, embora convencido de que não conseguiria persuadir a jovem louca; prometeu atender, porque lhe faltou coragem para negar tão simples auxílio ao velho amigo.
No dia imediato, compareceu ao lar de Tatmut, a nora do pastóforo.
A pobre mãe, desfeita em lágrimas, detalhou a triste aventura.
Interessado por alguns pormenores verdadeiramente estranhos, o jovem sacerdote pediu fosse levado junto à doente e que o deixassem a sós com ela.
Tatmut obedeceu, açodadamente, e, chegados ao aposento, fez sinal a duas escravas vigilantes para que se retirassem, e saiu também.
Roma ficou junto da porta, e dali observou, atento, a adolescente, acocorada num almofadão, não parecendo ter-se apercebido da presença de alguém:
era uma quase menina, de doze a treze de idade, frágil e emaciada; o fino rosto e a lassidão do corpo denotavam completo esgotamento; fechados os olhos, a cabeça mal apoiada sobre o estofado de uma cadeira posta por detrás; rubor febril tingia-lhe as faces, pesado respirar, entrecortado, saía-lhe dos lábios entreabertos e descorados.
Profundo suspiro de comiseração arfou o peito do sacerdote:
aquela vítima, involuntariamente, recordava-lhe Neith, também presa desse mesmo aspecto exausto e arque jante, com um mal misterioso na alma.
Roma levou uma cadeira para junto de Chonsu, sentou-se e lhe pôs uma das mãos na fronte.
Imediatamente a adolescente abriu os olhos e tomou posição.
— Vim conversar contigo — disse, curvando-se, amigável.
Mas, no mesmo instante, estremeceu, e a palavra se lhe parou nos lábios.
É que do agitado peito da enferma se evolava em ondas um suave aroma, agradabilíssimo de respirar sempre, mas, simultaneamente, acre, atordoador, que apertava o coração e derramava fogo nas veias.
A respiração se lhe embaraçou, um arrepio escaldante percorreu-lhe o corpo e uma nuvem ígnea ascendeu-lhe ao cérebro.
Saltando da cadeira, correu para a janela, desviou a cortina e absorveu ávido o ar fresco do jardim, e, após, avistando uma bacia cheia de água, banhou o rosto e as mãos.
Refazendo-se, ainda que lívido e trémulo, apoiou-se à parede:
identificara o perfume fatal, que outrora lhe dominara a razão e o sossego, acorrentando-o a uma vergonhosa paixão.
Tal aroma não mais o sentira em parte alguma, desde a morte de Noferura:
que acaso o ressuscitara ali?
— Que te acontece, venerável padre? — perguntou Chonsu, que, espantada, olhos desmesuradamente abertos, acompanhara o inusitado procedimento de Roma.
— Diz-me, filha, de onde houveste esse perfume que exalas?
— Suave e raro, não é verdade?
Veio-me da pobre amiga Moéris, que se afogou nas águas do Nilo:
sua mãe doou-me, em lembrança, seu cofre de jóias, e nele encontrei muitos saquinhos iguais a este.
Ergueu-se e tirou do seio um saquinho, preso a leve corrente, o qual, aproximando-se, estendeu a Roma.
— Dá-me também o cofrezinho de Moéris, o qual te devolverei mais tarde.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 05, 2017 8:11 pm

Recebendo-o, nele encerrou o saquinho, colocando tudo no parapeito da janela aberta, depois do que, reavizinhando-se de Chonsu, a fez sentar-se e lhe disse, bondosamente:
— Agora falemos do que me trouxe aqui, do amor desarrazoado que sentes por um serviçal, homem impuro, tão abaixo do teu nível.
Diz-me desde quando começou essa paixão, do momento em que tiveste a ideia de desposar Neftali:
sê franca, cara menina, pois desejo o teu bem, e, com a ajuda de Hator, eu te restituirei a saúde e a felicidade.
A adolescente parecia mais tranquila; ergueu o olhar receoso para o sacerdote, mas, sem dúvida, a bela e calma fisionomia deste inspirou-lhe confiança, porque respondeu sem hesitar:
— Não sei, eu mesma, como aconteceu isso.
Conheço Neftali desde a infância, brincamos juntos, sempre me serviu e sempre o estimei, de modo diferente de agora.
Quando recebi o cofrezinho de Moéris, eu lho mostrei e bem assim as jóias, e o perfume agradou-lhe a ponto de não mais poder separar-se dele.
Então lhe fiz presente de um saquinho e eu também passei a trazer um comigo.
Depois disso, não podemos passar um dia sem nos avistarmos, e, quando não está junto de mim, sinto-me morrer.
A seguir, fiquei doente, desde há tempo; não posso esquecer Moéris, e, quando durmo, vejo sempre o belo príncipe Horemseb, que ela amou e por quem se atirou ao Nilo.
Depois de haver feito muitas perguntas e palestrado um pouco, Roma deixou Chonsu e foi ao encontro de Tatmut e Penbesa, que o esperavam ansiosos e a quem tranquilizou, recomendando banhassem muito bem a doente, a vestissem com roupas completamente novas e a levassem por algumas semanas para longe de Tebas.
Em seguida, foi ter com Neftali, de quem tomou o saquinho do perfume e a quem recomendou fosse feito igual tratamento.
Afinal, despediu-se.
Às instantes interrogações do velho pastóforo, respondeu apenas que julgava ter sido inspirado pela grande deusa para destruir o malefício.
Regressando a casa, Roma sentou-se ao ar livre, ligou ao rosto um pano húmido, de modo a proteger as narinas e a boca, abriu a caixeta que trouxera e dela retirou os saquinhos, em número de quatro.
Curioso de saber que continham, rasgou o tecido com uma faca, e apenas encontrou murcha rosa vermelha, não desfolhada, cujas pétalas, amolgadas e ligeiramente viscosas, pareciam embebidas de um suco incolor que umedecia as paredes do saquinho.
Nos outros três, idêntico conteúdo.
Roma, apoiando-se nos cotovelos, meditou demoradamente.
Por qual acaso as estranhas flores tinham chegado ao poder da Insensata moça, cujo fatal amor por Horemseb a arrastara ao suicídio?
Erguendo-se bruscamente, rumou ao aposento, para buscar o escrínio de marfim no qual conservava as derradeiras lembranças de Neith, o véu e a rosa presa nele.
Desprendendo o pano que lhe defendia o olfacto, abriu o escrínio e começou a retirar o véu; mas, tão logo foi desfazendo as finas dobras do transparente tecido, estremeceu:
não havia dúvida, o olor suave, porém, atordoador que se evolou, era igual ao dos saquinhos; a rubra flor, húmida e emurchecida, era irmã das conservadas pela jovem vítima de inexplicável sortilégio.
Premente de amargura e de indignação, o sacerdote descaiu numa cadeira.
Que ligação existia entre essas rosas malditas e o desaparecimento de Neith, a demente paixão de Chonsu e o suicídio da filha do escriba real?
Quem fora o doador das flores funestas?
Após meditação, guardou o véu e os saquinhos no escrínio de marfim, que encerrou em móvel bem fechado.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 05, 2017 8:11 pm

— É mister guardar estas provas do crime e haurir informações com as famílias das outras vítimas — monologou ele.
Claro está que as desgraçadas não se podem separar do veneno até o final.
Quem sabe, se, na busca das rosas, encontrarei talvez um traço do malfeitor, remetente dessas mensagens de fatalidade e morte?
Mais depressa do que pudera prever, teve Roma oportunidade de novas descobertas.
Desde alguns dias, ouvira falar, no templo, de uma ocorrência inexplicável, verificada na cidade-morta e referente a dois embalsamadores.
No seu estado de espírito, não dera maior atenção a essas histórias cochichadas misteriosamente, mas, de pronto, o caso repercutiu.
O indiscreto permaneceu Incógnito, porém, toda a cidade soube que dois embalsamadores se haviam apaixonado de múmias de mulheres nas quais trabalhavam, recusando, obstinados, separarem-se delas e restituí-las às famílias á quem pertenciam.
Perturbação e terror espalharam-se no povo, e enorme afluência de gente intransitou a cidade-morta, sendo necessário isolar o quarteirão dos embalsamadores para impedir a invasão pela turba.
Houvera, através dos tempos, alguns escândalos naquele local, mas, tais casos, extremamente raros e cruelmente punidos, diferiam do actual, que alvorotava e espavoria a população, Narrava-se que os dois homens, como que cravados aos cadáveres, já em termos de sepultamento, nem sequer cogitavam de comer e beber, e, armados, ambos ameaçavam matar quem lhes tentasse arrebatar as múmias.
Semelhante aberração mental era atribuída à Influência de espíritos impuros, que, indubitavelmente, haviam tomado posse dos corpos das mulheres, mortas, uma e outra, por suicídio.
As murmurações que transbordavam na capital não permitiram ficasse Roma alheio a elas, principalmente porque os detalhes, ouvidos de Ranseneb, excitaram de imediato todo o seu interesse:
a causa de todo o alvoroço era serem as múmias de duas moças que se haviam suicidado por amor a Horemseb.
— Ah! — pensou ele — o maldito aroma deve ter desempenhado algum papel na tragédia.
Alguma jóia ou adorno enviados pela família, para ornar as mortas, não estaria impregnado?
Sem mesmo regressar a casa, o sacerdote atravessou o rio e rumou para a cidade-morta.
Por toda parte, agrupamentos de curiosos, mantidos a distância por soldados e policiais.
Suas vestes de padre e as tabuinhas com a assinatura de Ranseneb deram-lhe livre ingresso.
Falou inicialmente com um dos funcionários, segundo o qual, de uma nova tentativa para afastar os dois furiosos, resultara sair ferido gravemente um dos servos do templo.
Contemporizava-se ainda, antes de usar de medidas extremas, porque os dois possessos haviam sido, até então, exemplares trabalhadores, além de mestres em sua arte.
A seu pedido, o funcionário conduziu o sacerdote de Hator à sala dos últimos retoques nas múmias, onde se viam numerosos bancos de pedra sobre os quais eram estendidos os cadáveres para o enfaixamento em tiras.
No momento, os bancos estavam vazios, excepto os dois ocupados pelas múmias enfeitiçadas, junto das quais se acocoravam os seus adoradores.
Todos haviam sido afastados pelos padres, temerosos de contágio da bizarra loucura.
Roma deteve-se, não distante da porta, e examinou atentamente todas as minúcias da cena:
um dos embalsamadores era idoso, e seu olhar habitualmente discreto e plácido, ardia como em febre, e os olhos, injectados de sangue, mostravam vigiar o audacioso que ousasse vir desalojá-lo; empunhava a faca que ferira o servo do templo.
O segundo enfeitiçado era um belo rapaz, pálido e visivelmente exausto.
Pendido para a múmia, meio enfaixada de tiras, ele a fixava com adoração típica de demência, e parecia, na ocasião, não ver, nem ouvir.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 05, 2017 8:11 pm

Sobre o peito de uma das mortas ostentava-se um colar de amuletos, e, próximo de ambas, cofrezinhos abertos, visivelmente cheios de jóias, colocados sobre banquetas.
Não mais duvidando da verdade de suas suspeitas, o jovem aproximou-se do moço embalsamador, e, tocando-o na espádua, disse, suavemente:
— Não temas coisa alguma, Nebenhari, não quero arrebatar a que amas, e sim apenas vê-la.
— E crês que a deixarão comigo? — indagou, olhando ansiosamente o sacerdote.
— É possível que os parentes se deixem vencer pelo teu amor.
Sempre falando, Roma esquadrinhara a caixeta de onde o aroma venenoso se evolava abundante, e, no fundo, sob as jóias, descobriu duas húmidas rosas, envoltas num pedaço de fino tecido.
Com o asco que sentiria se tocasse em víboras, repeliu o achado, e, voltando-se para o embalsamador, disse:
— Para que a família te conceda a múmia, precisa convencer-se do teu desinteresse, pelo que levarei estas jóias para restituí-las.
Sem aguardar resposta aquiescente, retirou o colar de amuletos e o meteu na caixinha, levando-a e confiando-a ao funcionário que o esperava.
— Os desgraçados estão sob o império de terrível malefício, que julgo haver descoberto — disse Roma.
Manda trazer-me um pano bem encharcado de água, e ordena aos servos que encham vários baldes na sala contígua.
Feito isso, que dois me acompanhem.
Reaproximando-se de Nebenhari, que recaíra na contemplação, envolveu-lhe bruscamente a fronte com o pano molhado.
Antes que pudesse oferecer resistência, os servos arrastaram-no para o pátio, onde, desembaraçado do pano, lhe inundaram a cabeça com a água dos baldes.
— Que significa isto, que me fazeis? — gritou Nebenhari, meio sufocado e enceguecido pelas cargas de água que o encharcavam, atirando-se a um banco, logo que lho permitiram.
— Significa que era indispensável que te refrigerasses um pouco.
Agora, vós outros, enxugai-o, dêem-lhe vestimenta nova e conduzi-o para o seu alojamento para que se alimente e descanse.
Com espanto de todos, o rapaz deixou-se levar, sem qualquer objecção.
Parecendo esfalfado e como que ébrio, seguiu docilmente seus condutores.
Animados por esse primeiro êxito, Roma e os servos regressaram para o segundo embalsamador.
Um grande jacto de água que lhe atiraram de improviso sobre a cabeça atordoou-o suficientemente para que o pudesse agarrar e desarmar.
Levado para ar livre e amplamente refrigerado também, o velho desmaiou.
Depois de recomendar que dessem os idênticos cuidados prescritos para Nebenhari, Roma voltou para junto do guardião dos embalsamadores, o qual, maravilhado de tão pronto êxito, o felicitou e lhe agradeceu.
— Consente o menos possível que se toque nas múmias enfeitiçadas e faz sepultá-las com a maior brevidade.
Quanto a estas caixetas, eu as levarei, se tal me autorizas, para restituí-las, pessoalmente, aos parentes das mortas.
— Antecipas meu desejo, nobre Roma.
Compreendo que esses objectos estão igualmente contaminados, e estou certo de que os restituirás purificados pelas tuas preces.
A repercussão dessa estrondosa cura, de tão incrível enfeitiçamento, foi total na cidade, e a cura de Chonsu igualmente se tornou pública; mas, porque Roma silenciara absolutamente quanto aos meios pelos quais penetrara no segredo do sortilégio, atribuíram o êxito à sua rígida virtude e exemplar piedade.
Em poucos dias, o jovem sacerdote tomou-se personagem célebre, venerado e alvo de supersticiosa admiração pelo povo, e de distinção e honraria para os da sua casta.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 05, 2017 8:11 pm

O herói de tão súbita nomeada não teve alegria alguma, e quase a ignorava, buscando a solitude mais do que nunca; o desejo de penetrar no mistério das rosas funestas absorvia-o cada vez mais.
A cada uma das flores que descobria ligava-se o nome do príncipe Horemseb; todas essas criaturas moças, que nefasto amor havia vitimada, possuíam-na...
Mas, que acaso doara a Noferura uma rosa daquelas, e com a força da qual ela o fascinara?
Onde a escondera então?
Jamais lhe notara portadora de um dos agora conhecidos saquinhos...
Instantaneamente, porém, lhe acudiu à recordação um colar de placas esmaltadas que Noferura usava sempre, desde o seu regresso de Mênfis, em lembrança da irmã, jóia que Neftis lhe reclamara após a reaparição, e que não aparecera, possivelmente roubada ou perdida no fundo do Nilo.
Chegado a esse ponto das reflexões, estremeceu:
Noferura caíra no rio no momento em que passava a barca de Horemseb, e os remeiros lhe haviam descrito a estranha agitação da jovem mulher, e atribuído a súbita loucura ao "mau-olhado” do príncipe.
Podia ser mera coincidência; mas, porque perdera o equilíbrio justamente ao ver o homem misterioso para o qual convergiam todas as ramificações do bruxedo?
E esse colar suspeito pertencera a Neftis, cuja desaparição e regresso estavam acobertados por insondável mistério.
Nisso também, talvez, se escondesse algum elo com Horemseb, Roma o sentia instintivamente, mas faltava o fio condutor a esse dédalo, e quanto a obter um, esclarecimento da cunhada, a gélida estátua animada por sinistro fogo, ele de tal não cogitava.
Por isso, entregou-se à procura de novos indícios.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 05, 2017 8:12 pm

III - A CONJURA

Sargon e Keniamun se haviam tornado hóspedes assíduos da casa de Neftis.
Prudentemente, para não a espantar, observavam atentamente a jovem mulher, que, silenciosa, sombria, indiferente, os tolerava, sem encorajar novas visitas.
As vezes, eles se encontravam com Tutmés, que, igualmente, visitava Neftis com frequência, mas, Keniamun depressa se convenceu de que, apesar das aparências de íntimas relações, não existiam laços de amor; Tutmés não era cioso de Neftis, nem esta representava algo para ele, indiscutivelmente.
Que elo, então, poderia haver entre o poderoso herdeiro do trono e a desvalida filha de um mercador?
Teria sido uma ligação passageira a causa de haver o príncipe tão ricamente a recompensado?
A hipótese era admissível, e em parte indiferente ao oficial, pois, qualquer que fosse a origem da sólida riqueza de Neftis, esta a possuía, circunstância que inspirara a Keniamun uma variante nova no seu plano primitivo.
Desejoso de casar e de garantir, por um conveniente matrimónio, um futuro rico e tranquilo, acudira-lhe a Ideia de desposar Neftis.
A mulher agradava-lhe e o passado misterioso devia fazê-la aspirar a casamento honroso; mas, contra toda a expectativa, mostrou-se ela indiferente e acolheu as inequívocas assiduidades do rapaz com reservas quase Irónicas.
Estimulado no amor próprio, o oficial redobrou as atenções, e, às pesquisas das pegadas de Neith, se associou o propósito de saber se não era também, no caso, o bruxo de Mênfis que lhe barrava o caminho.
Por duas vezes, constatara que, ao nome de Horemseb, pronunciado inopinadamente na presença dela, um súbito lampejo alterara os olhos ternos de Neftis, e, à menção da vida dissoluta que o príncipe mantivera em Tebas, indefinível expressão de raiva e de sofrimento revelara-se no seu rosto pálido e impassível.
Sobre tal ciumenta conjectura, Keniamun arquitectou um plano de prova decisiva:
se alguma coisa podia levar Neftis a trair-se e deixar transparecer uma parte do íntimo segredo, era decerto esse sentimento omnipotente — o ciúme — que cega as criaturas e desencadeia todas as paixões.
A ocasião almejada fez-se esperar um pouco; mas, numa tarde em que Sargon e ele eram os únicos visitantes, achou propício o momento para desfechar o golpe definitivo.
Ísis, que se tomara de grande amizade pelo assírio, talvez mesmo de secreto amor, e que multo gostava de palestrar com ele discretamente, convidou-o para ver uma rara flor desabrochada no jardim.
Keniamun, presumindo que não regressassem sem demora, resolveu aproveitar o bom momento.
A conversação arrastava-se e Neftis, no seu mutismo, não se dava ao trabalho de mantê-la.
Assim, decorrido longo silêncio, Keniamun curvou-se bruscamente para ela, e disse, pegando-lhe a mão:
— Neftis, por que sempre tão pálida, tão sombria?
Por que mostras só indiferença àquele cujo coração está cheio de fiel afecto por ti?
Estremeceu, e seus grandes olhos esverdeados fixaram o oficial, com ironia não disfarçada.
— Creio que não serás tu, Keniamun, volúvel e galante borboleta, o penetrado de tão belos sentimentos de fidelidade.
Aliás, seria em pura perda: meu coração morreu para o amor, desde quando tive de renunciar a Antef, pois, semelhantes sacrifícios petrificam as mais ardentes almas.
— Tua resposta é áspera, porém, não a tenho por definitiva — respondeu, com bonomia.
Sabes que da pedra se tira fogo, quando se sabe atritá-la, e não se deve confiar no próprio coração.
Conheci um homem que parecia invulnerável, pelo qual as mulheres morriam sem lhe alcançar o brônzeo peito.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 05, 2017 8:12 pm

Pois bem: o amor venceu-o igual a qualquer outro, e disso me convenci por uma pequena aventura que me aconteceu em Mênfis, ao tempo de minha recente viagem ali.
Como que absorvido pelas recordações, silenciou, e ingeriu um gole de vinho; sua fisionomia espelhava franca jovialidade, inocente malícia, de modo a excluir a ideia do ardil.
A citação de Mênfis, sombreou-se o semblante de Neftis, e, com um gesto nervoso, aproximou um copo de cristal, que encheu, dizendo, com alterada voz:
— Isso promete ser interessante: conta, Keniamun.
Quem é esse homem que conheces?
— Guardarás segredo?
Trata-se de uma grande personagem — respondeu, sempre jovial.
A um gesto afirmativo da interlocutora, prosseguiu:
— Pois bem: confesso-te que o príncipe Horemseb, por tudo quanto dele se diz, sempre me despertou viva curiosidade.
Achando-me em Mênfis, passei muitas vezes próximo do muro que circunda sua habitação, e a vista desses misteriosos jardins, desse palácio perdido entre sombras, aguçou mais a minha curiosidade.
Resolvi ali penetrar, a todo custo, e certa noite, não sem esforço, confesso, subi pelo muro.
— E conseguiste sair de lá vivo? — interrompeu Neftis, em voz rouca.
Estava lívida e os lábios tremiam-lhe nervosamente.
— Pelos deuses Ra e Osíris, não se trata de um antro de bandidos! — respondeu, simulando não reparar na emoção.
Demais, não me aventurei até muito longe, e tudo estava deserto; mas, a sorte levou-me directo ao fim.
Em uma aleia, ao termo da qual cintilava a água de grande lago ou tanque, vi um banco e nele sentado um casal.
No homem, reconheci imediatamente o nosso invulnerável herói; a mulher não identifiquei, não a pude ver porque enlaçara os braços em volta do pescoço do príncipe e ocultava o rosto no peito deste.
Notei apenas que era delicada e tinha cabelos escuros.
Como que para dissipar minhas derradeiras dúvidas, ele se fez ouvir, e nas palavras pronunciadas vibrava tão intensa paixão que...
Interrompeu-se, pasmo, ele mesmo, do efeito da ousada mentira.
Neftis pulara, emitindo rouquenho grito, enquanto o copo, desprendendo-se-lhe dos dedos, se espatifava com estrépito no chão.
Seus olhos verdes pareciam vomitar chamas; o semblante, tornado violáceo, crispara-se na exteriorização de selvagem paixão; o peito arfava: a personificação do ciúme devorante, prestes a destruir e a matar.
— Ah! ele pode amar! — explodiu ela, em tom sofreado.
E, recaindo sobre a cadeira, cobriu o rosto com as mãos.
Refeito do seu primeiro receio e espanto, Keniamun aproximou-se, vivamente: conseguira muito além da expectativa, e disso queria tirar toda a vantagem.
— Cara Neftis, teria eu Involuntariamente te feito sofrer?
Tua perturbação faz-me suspeitar tenhas estado por detrás desse muro enfeitiçado e ali sido vítima de grave ofensa.
Diz-me tudo, em tal caso; acredita-me teu dedicado, capaz de te vingar, mesmo de Horemseb!
Neftis ergueu a cabeça.
— Se me ofendeu? — disse, num rir desesperado.
Ele me torturou, destruiu, arrancou o coração, e, todavia, aniquilei-me, tudo tenho sofrido em silêncio, porque acreditava ser ele incapaz de amar, pensei que a bebida mágica por ele usada lhe havia paralisado a alma; mas, sabendo agora, Horemseb, que teu olhar gélido pode incendiar-se de amor; tua boca, fria e zombeteira, preme-se em beijos apaixonados de mulher, não mais terei piedade de ti, e denunciar-te-ei, aniquilarei, arrancarei a bruxaria que te ganha corações, e farei pagares todos os meus sofrimentos!
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