Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 10, 2017 7:51 pm

O pavilhão do sábio e a planta misteriosa tinham totalmente desaparecido.
Enfim, a vista da pirâmide, em via de demolição, convenceu definitivamente aos padres que Horemseb tentara destruí-la e apagar todo traço visível dos seus crimes, o que teria conseguido, se a chegada prematura da comissão não houvesse anulado tal projecto.
Mas, de que maneira fora ele avisado? Isso ficava por descobrir.
Quando os soldados desentulharam a entrada da pirâmide, obstruída por ladrilhos e lousas de pedra arrancados, os padres e oficiais nela penetraram, e a seus olhos se apresentou, em todo o seu grandioso horror, o colossal ídolo hiteno, a sanguinária divindade sorrateiramente surgida no coração do Egipto vitorioso, para nutrir-se, durante largo tempo, com o sangue de seus filhos.
- Ah! - gritou Amenófis, olhos cintilantes - infame sacrílego!
Era esta a verdadeira razão da tua negligência para com todos os deveres religiosos!...
Muitas vezes eu lhe recordei as obrigações que tinha de cumprir para com os verdadeiros deuses.
Compreendo agora que permanecesse surdo às minhas admoestações.
Osíris, farto de crimes, fez surgir a verdade.
- Sim, também eu desde há muito suspeitava - observou Ranseneb.
Mas, que significa o cheiro de putrefacção que enche este impuro local?
O cadáver de alguma vítima estará aqui?
Os soldados pesquisaram, alumiaram cada recanto com archotes, porém em vão.
Afinal, avistaram a porta existente acima das pernas do colosso, e abriram-na: nauseante cheiro saiu do interior.
Apesar disto, todos se inclinaram, avidamente, para olhar o que ia ser retirado das entranhas do ídolo.
Primeiramente, detritos de combustíveis e ossamentas calcinadas; depois, algo volumoso foi retirado de um montão de cinzas húmidas, o que provava haver sido o braseiro extinto bruscamente.
Era um corpo de mulher, crivado de horrorosas queimaduras, enegrecido, inchado, porém não consumido.
Quando o cadáver foi trazido para a luz plena, verificou-se que a um lado havia um ferimento hiante e que o sangue, correndo a jorro, ficara calcinado em torno das ancas, formado como que uma cintura negra; o rosto intumescido, pele fendida, estava, entretanto, menos desfigurado do que o resto, e de sobre o crânio pendiam, em alguns pontos, tufos de espesso cabelo ruivo, colados na fronte pelo sangue ou pelo suor da agonia.
Petrificados de horror, todos contemplavam esse resto humano, de membros retorcidos, face crispada, sobre a qual estava indelével uma expressão de sofrimento super-humano, quando Keniamun expeliu um grito enrouquecido, e, cambaleante, recuou violentamente.
- Que tens tu? - perguntou Ranseneb, amparando o oficial.
- É Neftis! - murmurou ele, oprimindo a cabeça entre as mãos e tentando readquirir calma.
Por momentos, reinou tumular silêncio; a revelação pesava sobre todos, consternando-os.
Súbito, um dos padres curvou-se e pegou uma das mãos do cadáver, enegrecida e crispada, cujos dedos, fechados, pareciam apertar qualquer objecto.
Com dificuldade, ele os abriu e achou espremida contra a palma, que se conservara alva e macia, uma rosa rubra, murcha e machucada.
- A prova flagrante da culpabilidade de Horemseb, conservada pela justiça celeste, na mão da própria vítima! - afirmou, solenemente, o velho.
Esta flor, idêntica às reunidas pela perseverança de Roma, afasta as derradeiras dúvidas sobre a origem dos crimes cometidos em Tebas.
Enquanto isso se passava no interior do palácio, o sussurro de um inquérito na residência misteriosa e acusações capitais trazidas contra Horemseb se haviam espalhado na cidade.
As sentinelas, postadas em todas as saídas, tinham confirmado a novidade, e, pouco a pouco, enorme multidão de curiosos, entre a qual eram vistas escassas pessoas categorizadas, aglomerou-se em redor do palácio; a agitação era febril, falava-se de crimes cometidos, de mortes constatadas, de sacrilégios inauditos...
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 10, 2017 7:51 pm

Toda a raiva suspeitosa, que, desde muito tempo, jazia na alma dos habitantes de Mênfis, começava a transbordar.
Assim, quando a comissão apareceu na saída, foi cercada de pessoas notáveis que solicitavam informações.
Os padres não fizeram dificuldade em narrar quanto haviam visto, silenciando apenas sobre a fuga de Horemseb para Sais, carregando Neith.
Enquanto Amenófis falava aos dignitários e lhes concedia permissão, inclusive às respectivas famílias, para visitar o palácio, Antef informou Ranseneb de que os escravos de Horemseb declararam não haver comido coisa alguma desde a antevéspera, e suplicavam que lhes dessem qualquer alimento.
O profeta do templo de Amon ordenou verificasse se existiam provisões no palácio, e, caso afirmativo, as distribuísse aos famintos, até que destes ficasse decidida a sorte.
Em seguida, todos os padres retornaram ao templo, para deliberar, levando o pequeno escravo, que iam submeter a um interrogatório em regra.
Depois de haver registrado o depoimento desta grave testemunha, decidiu-se que Roma, com Keniamun e um destacamento de soldados, rumariam a Sais, para prender o culpado, se ali ainda se encontrasse, e tomar-lhe Neith para ser reconduzida a Tebas, conforme ordem da rainha.
Amenófis terminava uma carta endereçada ao Grande Padre do templo, missiva que Roma devia levar para ter assegurado o concurso desse dignitário, quando acorreu, todo atarantado, um oficial enviado por Antef.
Viera rogar aos padres se dirigissem, o mais rapidamente possível, ao palácio de Horemseb, onde ocorriam funestos acontecimentos.
Em primeiro lugar, os privilegiados admitidos a visitar a misteriosa casa, que fora durante longo tempo um enigma para todos, divertiam-se em examinar em detalhe os maravilhosos apartamentos, os encantados jardins, teatro das selvagens orgias, mortes e enfeitiçamentos, distracções do príncipe.
Entre esses curiosos, contavam-se muitas moças e rapazes, imprudentemente levados ali pelos parentes.
Esses estouvados haviam retirado do vaso que servira para a correspondência de Ísis e Sargon um maço de rosas nefastas que a jovem conspiradora ali atirara para livrar-se do mortal efeito.
Ignorando o perigo, os imprudentes tinham cheirado, avidamente, o aroma deletério, e, tomados de súbita loucura, esqueceram honra e decência.
Com dificuldade, os parentes, espantados, separaram os infelizes e os afastaram; todavia, o efeito do veneno foi tão violento sobre os tenros organismos, que muitos estiveram longamente acamados, e uma das jovens enlouqueceu.
A perturbação ocasionada por este incidente ainda agitava todos, quando clamores nos pátios e casas de serviço para ali atraíram os oficiais, que viram os desgraçados escravos correr, embravecidos, batendo com a cabeça de encontro às paredes ou debruçarem-se, ansiosos, sobre os companheiros estendidos, sem movimento, junto das tigelas que tinham esvaziado.
Alguns tombavam para sempre.
Antef, fora de si, mandara chamar os padres; mas, quando chegaram, a toda pressa, puderam apenas constatar a morte de todos os infortunados que se haviam saciado com as provisões encontradas no palácio, e, entre eles, alguns soldados, que se tinham deixado tentar por uma ânfora de vinho, vinho também envenenado por Tadar, antes de sua retirada.
Mudos de horror, os padres moveram-se no meio daquela hecatombe inaudita, contemplando os homens, de todas as idades, as arrebatadoras moças estendidas em grupos, lembrando flores atingidas por uma foice.
Todos haviam servido Horemseb, recreado seus olhos com as danças, encantado o ouvido com os cânticos - estavam mortos; todas essas bocas, fechadas para sempre, não mais poderiam acusá-lo ante os juízes terrestres; mas, o número dessas novas vítimas causava estupor ao mais animoso.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 10, 2017 7:51 pm

Embora Horemseb ignorasse os derradeiros crimes cometidos pelo sábio, foi sobre sua cabeça que se acumulou a raiva excitada por essa atrocidade.
Um clamor de reprovação e de repulsa se elevou em toda a Mênfis; o nome do nigromante, maldito e apupado, tornou-se sinónimo de crime; sua personalidade, agrandada pelo terror e pelas narrativas exageradas, alcançou dimensões de um ser fantástico e horrífico, que dava morte a todos que se lhe aproximassem.
O palácio foi fechado e voltou a ser inacessível, como havia sido no tempo do seu esplendor; seu acesso proibido, sob pena de morte; seu recinto guardado por sentinelas, qual fortaleza; nas salas, vazias e quietas, instalado Antef, com uma companhia de soldados e alguns oficiais subalternos.
Neith e seu acompanhante atingiram Sais sem empecilho, e foram recebidos de braços abertos pelo velho Grande Sacerdote, parente de Horemseb.
O príncipe tivera o cuidado de não confiar ao venerável Ameni as verdadeiras causas da sua fuga de Mênfis, impingindo-lhe uma intriga de Corte, complicada com rivalidade de amor, o que lhe suscitara inimigos poderosos, obrigando-o, por prudência, a ocultar-se com a jovem que desejava desposar, até que o assunto ficasse resolvido; rogava a Ameni lhe conceder, por algum tempo, asilo e protecção.
O velho padre, não tendo dúvida alguma quanto à veracidade dessa história, e após haver consagrado e legalizado em boa forma a união do príncipe e de Neith, escondeu o jovem casal em pequena casa que possuía, fora da cidade.
Essa habitação, à qual se chegava por uma extensa aleia de plátanos e sicómoros, comunicava, pelas serventias, com vastos jardins, plantados de árvores frutíferas e de hortaliças, servidos por aleias umbrosas e comunicantes com campinas.
Temendo, apesar de tudo, ser localizado, Horemseb mantinha, noite e dia, um cavalo aparelhado, num pátio precedendo os jardins, para fuga, ao primeiro alarme.
Propunha-se enviar Neith a Tebas, para defender sua causa ante Hatasu, e ela esperava, para tal, apenas a ocasião segura e cómoda que Ameni lhe havia prometido.
Em caso de perigo, Horemseb contava refugiar-se no retiro inacessível de Spazar, e lá aguardar o indulto e reabilitação; fracassada esta, deixaria o Egipto.
Neith estava informada de todos esses projectos, e o príncipe lhe confiara os detalhes circunstanciados, tanto com relação à furna onde vivia Spazar, quanto ao meio de penetrar no palácio de Mênfis, pela porta secreta do muro exterior; ela devia ter todas as facilidades de comunicar-se com ele, em qualquer imprevista eventualidade.
Certa tarde, três dias mais ou menos depois do casamento de Horemseb, um grupo de homens, composto de um sacerdote, um escriba real, um oficial e destacamento de soldados, veio bater à porta do templo de Neith; eram Roma, Keniamun e um funcionário do Departamento da Justiça que chegavam de Mênfis para prender o criminoso príncipe e solicitar a extradição à jurisdição do templo, se ali se houvesse refugiado.
- De que é acusado o príncipe? - indagou Ameni, quando os enviados chegaram à sua presença.
- Esta carta, que te envia o Grande Sacerdote Amenófis, dará todos os esclarecimentos necessários, venerável padre - respondeu Roma, apresentando-lhe a missiva.
Apenas, porém, terminou de ler, tomado de horror, deixou-se cair numa cadeira.
- Deuses imortais!
Que tecido de crimes me revela Amenófis!
O culpado convenceu-me com mentiras, mas, vou indicar seu esconderijo, imediatamente, e vos fornecerei servidores do templo, para ensinar o caminho e auxiliar a prisão.
Embora acreditando-se em segurança, sob a protecção de Ameni, Neith e Horemseb permaneciam sombrios e entristecidos; desesperada raiva corroía o príncipe, e invencível pressentimento de próxima desgraça perseguia a jovem.
Desde o amanhecer desse dia, principalmente, inquietude e angústia aumentavam, de hora em hora, e, cedendo a uma súplica, Horemseb subira com ela à sotéia do prédio.
Apoiando os braços na amurada, Neith avidamente sondava a planície circunvizinha.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 10, 2017 7:51 pm

De repente, estremeceu e o olhar se concentrou em uma nuvem de poeira que se aproximava, e bem depressa percebeu dois carros ocupados por padres e oficiais e por um destacamento de soldados e servidores do templo.
- Olha! - gritou ela, pegando o braço do príncipe, que sonhava, de supercílios franzidos.
Endireitando-se, viu, juntamente com a jovem, a caravana deter-se na aleia dos sicómoros, dividir-se, combinada, distanciando-se alguns, no visível intuito de cercar a habitação.
- Devo fugir; é a mim que vêm prender! - murmurou Horemseb, com a lividez de um morto.
- Sim, sim; apressa-te.
Eu ficarei aqui e irei defender tua causa em Tebas - respondeu Neith, arrastando-o, tremente.
Sem perda de um instante, o príncipe apanhou suas armas e envolveu-se em escuro manto; depois, atraindo a si a jovem mulher, lhe deu incendido beijo.
- Adeus, minha bem-amada; emudece, quanto ao passado; não esqueças que é teu esposo quem vais defender, e que a rainha do Egipto é tua mãe.
Se tiveres boa notícia a comunicar-me, na casa de Spazar ou no esconderijo de meu palácio tu me encontrarás.
Mena servirá de teu mensageiro.
Neith retribuiu o abraço, com o corpo a fremir de paixão e de desespero; depois, afastando-o, exclamou:
- Foge! Cada minuto é precioso.
O príncipe lhe dirigiu derradeiro adeus com a mão, e precipitou-se para fora.
Neith caiu, alquebrada, sobre uma cadeira; mas, violentos golpes na porta de entrada arrancaram-na da prostração, e, com instantânea energia, levantou-se, pegou uma machadinha deixada sobre a mesa, e saiu correndo.
Continuavam os golpes na porta, com a intimativa:
- Em nome do Faraó e do Grande Sacerdote Ameni, abri, sob pena de morte!
Um escravo, a tremer, abriu os ferrolhos, e os soldados iam ingressar no interior da casa, quando, no estreito corredor de entrada, surgiu um vulto de mulher, vestindo de branco.
Momentaneamente surpreendidos, os homens retrocederam, e Neith apareceu no limiar, brandindo a arma e gritando, em voz vibrante:
- Para trás!
Aqui não se passa, e o primeiro que se aproximar, eu o matarei!
A jovem mulher estava soberba na sua desesperada exaltação:
olhos fulgurantes, lábios frementes de orgulho e de virilidade, semelhava um génio da guerra, aparição fantástica.
Por momento, todos recuaram; mas, destacando-se dos companheiros, Roma avançou.
? Neith, torna a ti, desditosa criança!
Ao som daquela voz melodiosa, à vista daquele que tanto amara, Neith tremeu, como que despertando de uma embriaguez; os braços, erguidos, descaíram; a machadinha rolou ao chão, e, correndo para o Sacerdote, exclamou, com a voz embargada:
- Roma! Tu, aqui?
Oh! então tudo está bem.
- Sim, Neith, todos os teus sofrimentos findaram; estás liberta de Horemseb.
- Horemseb?
Ele me é mais precioso do que a vida.
Salva-o, Roma, se me amas! - implorou ela, de mãos postas.
O jovem recuou, como que picado por uma serpente.
- Salvar esse assassino infame? Nunca!
Vendo que a moça estava em mãos seguras, Keniamun, o escriba e os soldados invadiram a residência.
Neith cobriu o rosto com as mãos, e chorou amargamente.
- Minha bem-amada ? murmurou Roma, pegando as duas mãos de Neith - torna a ti, e compreende estares cega por um sortilégio que te faz amar esse homem abominável; Horemseb roubou-te o sossego, envenenou tua alma, enlodou teus olhos e teu corpo com um malefício que acorrenta os sentimentos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 10, 2017 7:52 pm

Essa paixão não emana de teu coração, porque é produto do veneno que excita teus sentidos e avilta a tua dignidade de mulher.
Minha altiva Neith, torna a ti, desperta desse pernicioso sonho; restitui-me teu coração, a mim que te amo muito mais do que a mim mesmo.
Podes tu preterir-me por esse assassino cheio de sangue humano?
Ela baixou a cabeça, aniquilada.
Tudo quanto ouvira era verdade, ela o sabia, mas, aquele fogo, que queimava em seu peito, devorava ódio e desprezo, para só deixar de pé a paixão indomável.
- É feitiço ou amor que me devora?
Não sei ? ciciou ela, curvando a fronte.
Mas, em qualquer caso, não existe mais salvação para mim, minha existência está destruída, meu coração, devastado, só tem lugar para sua imagem; não posso viver sem seu olhar de fogo, sem o amor entorpecente; dever e sentimento prendem-me a ele.
Não sabes que sou sua mulher, desde há três dias?
Roma emitiu um grito.
- Tu te casaste com Horemseb?
Ah! o infame coroou bem dignamente a criminosa carreira, ligando a inconsciente vítima ao seu futuro de vergonha.
Penoso silêncio fez-se; o moço sacerdote foi quem primeiro se dominou.
- Apesar de tudo, permanecerei teu amigo - disse, passando a mão pela fronte.
Tem confiança em mim, e deixa-me acompanhar-te a Tebas, de acordo com a ordem da rainha.
Não podes ficar aqui por mais tempo.
- Sim, sim, quero ir a Tebas, partamos! - respondeu Neith, com um clarão de esperança no olhar.
Roma viu. compreendeu e se voltou, com amargo e irónico sorriso.
Esperava ela salvar o criminoso?
Sem responder, porém, envolveu-a com uma capa, conduziu-a a um dos carros, e rumou para o templo.
Horemseb conseguira fugir; a salvo da casa, parecia ter-se abismado no solo, e após muitas horas de galopes e de infrutíferas buscas, o escriba regressou ao templo com uma parte dos servidores.
Keniamun, cheio de fúria, encarniçara-se na perseguição do fugitivo, do qual julgava ter descoberto a pista, não se sabendo, por isso, quando retornaria.
Roma decidira partir o mais depressa possível, e Neith, que julgava conquistar em Tebas a salvação do esposo, partilhava desse desejo.
Assim, aos primeiros raios do nascente dia, o moço sacerdote instalou sua companheira de viagem em vasta barca, comodamente preparada, e, após haver dado ordem de içar velas, colocou-se no outro extremo da cabina.
A jovem mulher deixara-se cair sobre a almofada de sua cadeira; sentia-se alquebrada; a excitação, as emoções dos recentes dias, somadas ao terrível veneno que Horemseb lhe propinara, faziam quase sucumbir seu delicado organismo, e somente à força de vontade ela dominava a debilidade que a invadia cada vez mais.
Neith convencera-se de que só ela estava em condições de pleitear em favor de Horemseb, e, enquanto pudesse manter-se de pé, esperava salvá-lo.
Desde que, morta ou enferma, desaparecesse do cenário de acção, voz alguma se levantaria em favor do homem que todo o Egipto abominava, e que não soubera fazer um único amigo.
Bem quisera dormir e aumentar forças para a luta que a esperava, esquecer também a presença de Roma, cujo silêncio, olhar sombrio e entristecido estraçalhavam-lhe o coração.
Voz íntima segredava-lhe que ele tinha direito de se ofender, que era bem superior ao homem impiedoso que havia desencadeado sobre ela tantas dores e tantos sofrimentos; mas, ante a paixão insensata que a devorava, todo outro sentimento cessava: a presença de Horemseb e o suave aroma exalado por ele faltavam-lhe, tal qual a água à planta, aquela atmosfera asfixiante se lhe tornara uma necessidade para a existência, e o ar fresco e vivificante do Nilo parecia-lhe acre e aniquilador.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 11, 2017 8:27 pm

Evitando o olhar de Roma, Neith recostou a cabeça e fechou as pálpebras, mas o sono lhe fugia.
Maquinalmente, prestou ouvido ao barulho regular dos remos, ao da água fendida, e, ninada por esses ruídos monótonos, esqueceu onde estava, sua imaginação evocou imagens de um passado recente.
Sentiu-se sob as sombras copadas do jardim misterioso: na relva iluminada pela Lua, viravolteavam, em danças fantásticas, moças vestidas de branco, e do fundo dos bosquetes subia um cântico bizarro, tão depressa vibrante e selvagem, no ritmo de elementos desencadeados, tão depressa doce, melancólico, agonizante, extinguindo-se qual um lamento do zéfiro.
E esses sons, dissera-lhe Tadar, eram o reflexo das sensações da alma, sua respiração, de algum modo, na luta com a divindade.
Uma borrasca irresistível e destruidora não intumesce o peito humano, quando, impotente e dolorido, em choque com o seu destino?
Todo sentimento não se extingue, amortecido e embriagado, nos momentos de inefável ventura?
Não passava ela própria por uma dessas horas terríveis, quando a alma luta contra o inevitável?
Uma tempestade não estrondeava nela contra o destino que a constringia?
A voz ruidosa do piloto, comandando manobras náuticas, tirou-a bruscamente das quimeras; reabriu os olhos; danças, cânticos mágicos, o feiticeiro e seu palácio, tudo desaparecera; a realidade, o porvir, em toda a sua nudez, ressurgiram à memória, e, avassalada por súbito desespero, desatou a soluçar.
Raiva e ciúme apertaram o coração de Roma:
ele estava presente, e ela não pedia consolação, nem mais lhe estendia as mãos.
Coração e pensamentos pertenciam a um outro.
Neith chorou durante largo tempo, e, sucumbindo à fadiga e esgotada de lágrimas, terminou por adormecer, num sono pesado e febril.
Somente então Roma se avizinhou, e, com olhar de mortal aflição, fixou o semblante desfeito e emagrecido da mulher amada.
- Neith! Neith! - murmurou ele - estarás em verdade perdida para mim por todo o sempre, joguete infortunado de impura mão que te roubou àqueles que te amam, para te destruir e acorrentar tua alma?
Não; deve existir um meio de curar-te, de libertar-te do carrasco pelo qual queres interceder.
O jovem sacerdote estava devorado de cólera e amargura, pensando na ironia da sorte que arrastava aquela inocente vítima, cega por infame enfeitiçamento, a defender, com amor, o destruidor da sua própria vida.
A noite tombava, quando se aproximaram de Mênfis, onde Roma devia deter-se, para dar contas a Amenófis do resultado da viagem a Sais, e aguardar o dia para prosseguimento no rumo de Tebas.
Com a rapidez típica de tais regiões, a escuridão se fazia, afogando tudo em uma noite impenetrável.
Inclinada sobre a borda da barca, Neith havia contemplado, com olhar velado, o quadro feérico do sol cadente; seus olhos e seu pensamento buscavam apenas uma coisa:
o palácio misterioso que abrigara tantos sofrimentos e tantos crimes, a testemunha de tão revoltante violência feita ao fraco pelo forte.
O farol aceso à proa da barca iluminava o rio que se estendia, e a essa luz a jovem mulher percebeu o muro imenso que cercava os jardins de Horemseb.
Subitânea angústia comprimiu-lhe o coração; tomou-a invencível convicção de que seu amor seria impotente para defender o príncipe.
O temerário não havia desafiado todas as leis, divinas e humanas?
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 11, 2017 8:27 pm

As maldições das vítimas haviam chegado aos Imortais, e, abandonado às forças do mal, o culpado ia despenhar-se no abismo que ela tinha visto abrir-se aos pés dele.
Nesse momento, apareceu a escadaria das esfinges, iluminada por uma tocha:
duas sentinelas vigilavam nos degraus...
Mas, quem eram essas, como que sombras, voluteando entre os soldados, parecendo estenderem-se sobre a escada, ou, à semelhança de longos listrões, com reflexos sanguinolentos, ondulavam sobre as águas?
Os olhos de Neith concentraram-se nessas estranhas aparições, mas, subitamente, o coração parou de bater; as negras nuvens tomaram formas, e ela reconheceu as mulheres horrendas, extravasantes de ódio, que havia visto, empurrando Horemseb para o abismo.
Duas dentre elas pareciam nadar na direcção da barca, e, erguendo fora da água o torso coberto de chagas, brandiam nas duas mãos, erguidas, tufos de flores vermelhas, gritando:
- Não esperes arrancar-nos o monstro cheio do nosso sangue, recreando-se com as nossas vidas; ele vai rolar no abismo, entregue, afinal, à nossa vingança!
Mortalmente pálida, Neith atirou-se para trás e soltou um grito de angústia, para depois cair sem sentidos entre os braços de Roma, que acorrera.
Ele não vira coisa alguma, e atribuiu a penosa emoção à vista do palácio de Horemseb.
Sombrio, sobrecenho franzido, prestou cuidados à desfalecida, que só voltou a si ao termo de algumas horas, e num tal estado de abatimento, que, na opinião dos médicos do templo, era indispensável observar uns dias de repouso, antes de prosseguir viagem para Tebas.
Cinco dias depois, mais ou menos, das ocorrências precedentes, depois do jantar, a barca do jovem sacerdote de Hator aproximava-se rapidamente de uma escada servindo para desembarque.
Pálida e desfeita ainda, Neith estava de pé, procurando avistar Roant, a quem dera aviso por um mensageiro e devia vir buscá-la, pois era em casa da amiga que desejava alojar-se, aguardando os acontecimentos.
O palácio vazio de Sargon causava-lhe medo, e, depois da visão nocturna de Mênfis, ficara nervosa e impressionável.
Quanto mais se aproximava da Capital, mais diminuía a esperança de salvar Horemseb.
Talvez Roant, a sempre risonha, a quem jamais faltava um recurso, pudesse dar-lhe um conselho.
Quando a barca atracou, Neith divisou, não sem surpresa, Chnumhotep, que descia lestamente, ajudou-a a saltar e a conduziu a uma liteira fechada, dizendo-lhe cordialmente:
? Graças sejam rendidas aos deuses que me permitem rever-te viva, pobre criança!
Roant tem um pé machucado e não pôde vir, mas espera-te, impaciente.
Tendo instalado a jovem mulher, o chefe das guardas voltou-se para o cunhado, que o seguira silencioso, e, apertando-lhe a mão, disse:
- Felicito-te, por haveres triunfado em tua missão; vem no meu carro, e conversemos em caminho.
- Agradeço, mas devo deixar-te, entrego Neith em tuas mãos.
Minha presença lhe é inútil; não posso remediar seu sofrimento; ela recusa todo tratamento; retorno, assim, a casa.
Amanhã, irei abraçar Roant e as crianças.
Surpreendido com a amargura de tais palavras, Chnumhotep não fez objecção alguma, e olhou curiosamente Neith, que, olhos baixos, não parecia ouvir; e, após curtas saudações, separaram-se.
Roant recebeu a jovem amiga com alegria mesclada de dor.
Notando-lhe a fisionomia de enferma, celebrou sua vinda com palavras entrecortadas, e, apertando-a de encontro ao coração, inundou-a de lágrimas e beijos.
Neith retribuiu-lhe silenciosamente as carícias, com o corpo a tremer nervosamente.
Assim, o chefe das guardas julgou oportuno pôr um termo à comoção recíproca.
- Tua recepção não fará muito bem a Neith; não vês que tem necessidade de repouso, de uma alimentação reconfortante, e não de pranto? ? disse com a sua vivacidade franca.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 11, 2017 8:27 pm

A esposa voltou-se depressa, e respondeu, a sorrir:
- Tens razão; vou imediatamente levá-la ao aposento e acomodá-la para dormir, e depois conversaremos.
Dá-me o braço, Neith, e vamos! porque ainda claudico um pouco com o pé.
Chegando à câmara que lhe era destinada, Neith foi recebida pela velha nutriz que, louca de alegria, rindo e chorando, de joelhos, apalpava, com ansiosa incredulidade, sua senhorazinha adorada, que, durante tanto tempo, chorava por morta. Profundamente emocionada, Neith enlaçou os braços em volta do pescoço da sua fiel guardiã, e, tal qual nos tempos da infância, encostou o rosto, inundado de lágrimas, de encontro à cabeça encarapinhada da preta.
- Calma-te, minha velha, e ajuda a deitar tua senhora, que necessita de repouso - disse Roant.
A nutriz levantou-se e, celeremente, despiram e deitaram Neith, que, exausta e apática, tudo deixou fazer silenciosa.
A rogos da amiga, bebeu um pouco de vinho e serviu-se, com esforço, de um pedaço de ave assada, fria, mas Roant sentiu o coração contraído de consternação, ao constatar as devastações que o sofrimento e a doença haviam produzido em toda a pessoa de Neith. Tendo despedido todos, Roant inclinou-se para a jovem, abraçou-a e disse com ternura:
- Minha pobre amiga, estamos a sós, e espero que, tal qual outrora, me desvendes tua alma.
Vejo que muito sofreste, mas, eis que estás liberta, e, com a liberdade, saúde e alegria voltarão.
Se agora algo oprime especialmente teu coração, confia-me esse particular, e tudo envidarei para te ajudar.
- Agradecida, Roant; sei que me compreendes, e não me condenarás, como o fez Roma, que se afastou de mim, colérico - murmurou Neith.
Em verdade, estou livre, mas o futuro não me deixa esperança alguma.
- Compreendo; amas Horemseb, apesar de todas as acusações - respondeu Roant, hesitante.
Mas, reflecte, minha querida, que esse fatal amor é um produto do terrível feitiço, com o qual destruiu muitas mulheres!
- De que feitiçaria falas tu? - perguntou Neith, admirada.
Sei que se atribui injustamente a Horemseb toda sorte de crimes:
acusam-no também de usar feitiços para fazer-se amar?
- E sem dúvida alguma.
Todo o mundo sabe agora que ele possui um veneno, desconhecido, porém terrível; esse veneno, que exala delicioso aroma, ele o derrama sobre rosas vermelhas, que envia às mulheres nas quais pretende despertar insensata paixão.
Tu mesma, delas recebeste, porque, no dia imediato ao da tua desaparição, encontrou-se uma flor envenenada presa ao véu que perdeste na escada.
Algumas vezes, ao que se diz, ele faz também beber do veneno.
- Existem provas palpáveis do feitiço? - indagou Neith, em voz sumida.
- Tenho certeza.
Em Tebas mesmo foi descoberta toda uma série de delitos e de flores enfeitiçadas.
Com um rouco suspiro, Neith cobriu o rosto com as duas mãos.
Não podia duvidar; recordava-se das rosas que ele lhe dava, cada vez que ela ousava uma veleidade de resistência.
Antes da partida para Sais, não lhe havia ele feito beber um vinho estranhamente picante?
E, após havê-lo ingerido, não havia aumentado a paixão insana?
Oh! covarde aquele que se furta ao amor e impõe amor!
Entretanto, malgrado o desprezo e o tormento que lhe torturavam a alma, sentia-se presa a ele, e as palavras de Horemseb retiniam-lhe no ouvido:
- Ser-me-ás fiel, a despeito de tudo que te digam?
Não revelarás nada do quanto viste?
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 11, 2017 8:28 pm

Movida por instantânea resolução, levantou a cabeça.
- Feitiço ou amor, estou acorrentada a ele; não me desprezes tal qual mereço, Roant, por amar um homem que me aniquilou frivolamente, sem me amar, e para quem fui apenas um brinquedo nos dias de sua opulência e esposa na hora da sua ruína.
Roant recuou, com um grito.
- Tu és sua esposa?
É impossível; há somente quinze dias que Sargon morreu!
- Alguns dias depois de recebida essa notícia, o Grande Sacerdote do templo de Neith, em Sais, casou-nos, em boa forma, e será o perdão de meu esposo que implorarei de Hatasu.
Com um gesto de afectuosa compaixão, Roant atraiu-a a si.
- Então, minha pobre querida, arma-te de coragem.
Devo prevenir-te de que toda a esperança está perdida.
Os crimes de que acusam Horemseb são de tal modo enormes, que os sacerdotes, e assim a lei, têm de puni-lo impiedosamente, e, ainda que o pretenda, a rainha não pode opor-se à justa satisfação reclamada pelo povo contra o sacrílego homem que zombou de todo sentimento humano.
Neith baixou a cabeça, com prostração.
- Não importa!
Devo tentar comover a rainha e os sacerdotes; talvez o sacrifício de tudo quanto possuo consiga abrandá-los.
Roant não quis insistir, compreendendo que quaisquer palavras redundariam em pura perda.
- Sim! Esperamos que sejas bem sucedida!
E agora trata de dormir; necessitas de todas as tuas forças para o dia de amanhã.
Totalmente exaurida, a jovem mulher deitou-se e fechou os olhos.
Roant agasalhou-a cuidadosamente, e só se retirou quando a viu entregue a profundo sono.
Quando Neith despertou, no dia seguinte, sentiu-se mais forte.
Levantou-se, ajudada pela nutriz, e apenas terminava de vestir-se, quando Roant veio avisá-la da presença de Semnut, trazendo ordem para conduzi-la, sem demora, à presença da rainha.
Neith pegou um véu, na intenção de sair, mas, mudando de ideia, disse, subitamente:
- Querida Roant, roga a Semnut vir falar-me, pois desejo consultá-lo, sem testemunhas.
- Então, vem para este gabinete contíguo, onde estarás a coberto de qualquer curioso.
Vou transmitir teu pedido a ele.
Trémula de emoção, Neith arrimou-se a um móvel, com o coração batendo a termo de romper-se, quando, pouco depois, o reposteiro foi erguido, e o poderoso conselheiro de Hatasu encaminhou-se para ela, saudando-a, com benevolência.
- Benditos sejam os deuses que me concedem rever-te viva, nobre Neith - disse, apertando afectuosamente as duas mãos que ela lhe estendera.
- Semnut, em memória da amizade que sempre me testemunhaste; tu, que tantas vezes me carregaste em teus braços, quando eu era pequenina, não recuses ouvir-me e aconselhar-me.
Minha alma está cheia de temor e de desespero.
- Tu o sabes; mas, sossega e fala, nobre Neith; minha amizade e minha ajuda te estão asseguradas.
Fê-la sentar-se, sentando-se ele também; mas, notando molesta a hesitação da sua interlocutora, disse, gravemente:
- Calculo, em parte, do que me vais falar.
Esta manhã, Roma esteve em minha casa, e me fez ciente de que o maldito, cujos crimes afinal cansaram os deuses, ousou fazer de ti sua esposa.
- Oh! Semnut, não fales assim tão cruelmente - exclamou ela, unindo as mãos; não é tão culpado quanto julgas, e se trata de meu marido.
Ajuda-me a obter o perdão para Horemseb; tu tens tanto poder junto da rainha!
O sobrecenho de Semnut franziu.
- Estás sonhando!
Seria mais fácil deslocar a pirâmide do rei Queops(22) do que subtrair a uma justa expiação semelhante criminoso.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 11, 2017 8:28 pm

Só o feitiço que te acorrenta a ele e obscurece o teu senso desculpa tal pedido.
Ardente rubor invadiu bruscamente as faces de Neith, cujos olhos fuzilaram.
- Tu também, tu condenas Horemseb?
Pois bem: é preciso arriscar meu derradeiro recurso, porque a sua vida é a minha; implorarei a minha mãe, pois ela não quererá matar-me, com o mesmo golpe que o matar.
Semnut ergueu-se, empalidecendo.
- Desgraçada criança, que dizes tu, e quem te insinuou semelhante pensamento?
- Quem mo disse não importa: sei que Naromath era meu pai, que Hatasu amou, tal qual eu amo Horemseb, e ela me compreenderá.
Semnut pegou um braço de Neith, e, vergando-se para ela, sussurrou, severamente:
- Guarda-te de tocar imprudentemente nesse perigoso mistério, que só um infame te teria desvendado.
Os reis não gostam que se fale daquelas coisas que preferem silenciar, e tu podias acarretar prejuízo, em vez de ajuda, àquele a quem desejas salvar!
Não te esqueças, além disso, de que teu casamento com Horemseb pode ser declarado nulo:
os sacerdotes decidirão se um matrimónio com tal sacrílego, e ainda quando o corpo de Sargon não foi sepultado, pode ter validade.
Sê prudente, pois.
E, agora, vamos; a rainha nos espera.
Vacilante e desfeita, Neith seguiu-o.
Deixou-se instalar na liteira, silenciosamente, e durante o trajecto nenhuma palavra foi pronunciada.
A rainha estava no pequeno gabinete particular, já descrito quando da entrevista de despedida de Tutmés, e estudava atentamente o plano de uma casa de campo que se propunha construir.
Ao ouvir os passos de Semnut, que acabava de chegar, com a sua acompanhante, Hatasu ergueu a cabeça, e, reconhecendo Neith, que, pálida e trémula, permanecia de pé perto da entrada, estendeu-lhe as duas mãos.
- Minha filha querida, aproxima-te; deixa-me abraçar-te, tu, que chorei por morta.
Neith correu para ela, e, caindo de joelhos, enlaçou os da rainha, murmurando, com a voz estrangulada pelos soluços:
- Perdão! Perdão!
Hatasu abraçou-a e lhe beijou a descorada boca.
Mas, talvez pelas muitas emoções demasiado fortes para o enfraquecido organismo de Neith, subitamente descaiu e deslizou sem sentidos no pavimento.
Semnut precipitou-se para ela e, erguendo-a, a colocou sobre um leito de repouso.
- Quão mudada está a desgraçada criança!
O que fez dela aquele miserável, em poucos meses! - murmurou a rainha, com os olhos húmidos.
Mas, de que perdão falou ela?
- Do de Horemseb, que espera obter de ti, Faraó.
E sou obrigado a fazer uma revelação, ó rainha!
Neith foi informada do segredo do seu nascimento, que, sem dúvida, o criminoso revelou-lhe, pois só ele o podia ter conhecido, por intermédio do hiteno que vivia em sua casa, e que decerto tinha relações com homens do seu povo.
Fugitivo rubor passou pelo móbil rosto da rainha, e os supercílios franziram.
- Compreendo agora com que intuito ele se uniu a esta pobre criança.
Apenas, ele se engana (e a voz vibrou duramente); não fugirá à punição merecida, e nós a curaremos.
Agora, Semnut, manda ao templo de Amon chamar os mais peritos médicos, e dizer a Rameri que venha imediatamente ver a doente.
O velho esculápio chamado pela rainha não tardou em vir, e graças a seus cuidados Neith bem depressa reabriu os olhos, em plena consciência, mas em tal estado de debilidade que Rameri aconselhou não lhe falar.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 11, 2017 8:28 pm

Sem demora, os sacerdotes de Amon chamados reuniram-se no gabinete de trabalho de Hatasu, depois de haverem examinado Neith.
- E então?
Qual o vosso parecer, veneráveis padres?
Posso esperar que curareis esta criança? - perguntou a rainha.
As rosas envenenadas que se encontram em vossas mãos vos revelaram o segredo do feitiço que se liga a esse veneno?
? Potente filha de Ra, seria necessário muito tempo para aprofundar todas as qualidades desse nefasto suco - respondeu gravemente um velho sacerdote, de aspecto venerável.
Entretanto, podemos dizer-te que se a nobre Neith olfactou apenas o deletério aroma, poderemos restabelecê-la totalmente do cego amor que, sem dúvida, tem por Horemseb; mas, se ele a fez beber o suco envenenado, será mais difícil, porque, em tal hipótese, seria necessário dar-lhe o contraveneno, que é o suco da planta gémea, e nós não o possuímos.
Em todo o caso, nós te rogamos levar a jovem para o templo, onde ficará alguns dias.
É necessário purificá-la e estudar o seu estado para lhe dar alívio.
A rainha achou razoável esse alvitre e aquiesceu imediatamente.
Neith ficou indiferente a tudo, e, algumas horas mais tarde, estava instalada em uma das construções dependentes do templo de Amon, para ser ali purificada, antes de penetrar no santo lugar.
Sob a direcção de um velho sacerdote centenário, célebre pelos conhecimentos de medicina, foi ela submetida a sério tratamento:
remédios internos, abluções, fumigações deviam purificar-lhe o corpo dos miasmas deletérios, da sobrecarga de aromas sufocantes que nele se acumulara.
Por vezes, um dos padres impunha-lhe as mãos sobre a cabeça, pronunciando invocações aos deuses, e então ela mergulhava em profundo sono, que se prolongava por muitas horas, parecendo morta, e do qual despertava mais forte e mais calma.
Após oito dias desse tratamento, Neith pareceu restabelecida exteriormente; belas cores, mais vigorosa, readquirira a calma exterior; mas, a alma continuava enferma, tanto quanto anteriormente, algo queimava no imo, e cada fibra seu ser chamava por Horemseb.
Os sacerdotes de Tebas desconheciam o veneno que a devorava, e não podiam, consequentemente, administrar-lhe o antídoto; contudo, declararam-na restabelecida, e foi autorizada a regressar a domicílio, após uma derradeira e solene purificação.
No dia da cerimónia, Neith foi conduzida, pelas virgens consagradas do templo, ao sacro lago, e, depois de sete vezes imersa na água santa, as donzelas vestiram-na de roupas novas, de espelhante alvura, ornaram-na de jóias, e, por entre cânticos e danças simbólicos, conduziram-na à entrada do templo, onde foi recebida pelo Grande Sacerdote, que, após havê-la benzido e posto ao seu pescoço amuletos consagrados, e seguido dos mais veneráveis padres, introduziu-a no lugar santo, onde ela sacrificou aos deuses e rezou fervorosa, orou (ai! dela!) pelo seu perseguidor, implorando aos Imortais subtraí-lo à sorte que o esperava.
Terminada a cerimónia, subiu para a liteira, ornada de flores, e, seguida pela família de Pair, de Chnumhotep e esposa, e ainda de numerosos amigos e dignitários da Corte, que se haviam reunido no templo, rumou para o palácio de Sargon, onde uma refeição estava preparada.
Todavia, tudo foi simples e teve o aspecto de reunião íntima, pois a morte recente do príncipe hiteno, ainda insepulto, impunha à viúva, a despeito do estranho casamento posterior, a maior reserva.
Em todo o percurso do cortejo, havia gente em multidão, curiosa de ver a jovem egípcia miraculosamente ressuscitada, e cuja estranha sorte e misteriosas aventuras haviam tomado proporções de lenda.
À noite dessa mesma data, Neith foi ao palácio real, para audiência a que fora chamada por Hatasu.
Introduziram-na no gabinete, e, vendo-se a sós com a soberana, atirou-se-lhe aos pés, fundida em pranto.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 11, 2017 8:28 pm

Hatasu atraiu-a a ela e lhe deu um beijo nos trémulos lábios.
- Filha querida, enfim, não existe mais mistério entre nós; sabes que o amor de tua mãe vela por ti.
Oh! por que não te disse há mais tempo a verdade!
Muitas infelicidades, sem dúvida, teriam sido evitadas.
- Mãe, salva-o! ? implorou, com indescritível consternação.
- Minha pobre filha, não estás curada, e ainda sonhas com o impossível? - disse a rainha, com tristeza.
Compreende, Neith, eu não poderia salvá-lo, mesmo que tivesse tal intenção.
- Teu poderio é tão grande!
- Sim, mas, por grande que seja, meu poderio, e assim minha vontade, esbarra ante as leis, que sou chamada a sustentar, e não a afrontar.
Esse homem, que calcou aos pés todas as prescrições divinas e sociais, pertence à Justiça do Reino e ao julgamento dos sacerdotes:
nisso reside a barreira onde o meu poder termina.
O povo clama e pede vindicta para o sangue de suas filhas.
Quantas infortunadas pereceram, sem sequer ter sepultura! Horemseb destruiu-lhes os corpos e arruinou as almas.
Por semelhantes delitos, as famílias ultrajadas têm direito a uma reparação meridiana.
- Não há, pois, salvação para ele? - murmurou ela, desatando em soluços.
- Salvação terrestre, não.
Mas, esse homem ímpio e criminoso merece verdadeiramente tantas lamentações?
Levanta a cabeça, Neith, e diz-me, com franqueza: acreditas no amor de Horemseb por ti?
Neith curvou silenciosamente a fronte.
Não, ela sabia não ser amada por ele, e que não passava de um Instrumento de salvação.
- Tua muda resposta é bastante eloquente - disse, grave, a rainha.
Esclarecido este último ponto, faço um apelo à tua dignidade de mulher:
lembra-te do soberbo sangue que corre em tuas veias; revigora tua vontade, e expele o feitiço impuro que te cega.
Com o esquecimento, a felicidade virá.

(22) PIRÂMIDE DO REI KHEOPS - (Queops) - Este soberano teria arruinado o Egipto durante meio século, fazendo construir a grande Pirâmide, famosa pelos requintes que lhe são característicos e que, para os nossos tempos, parecem exagerados e até incríveis.
Na obra trabalhavam milhares de homens, revezáveis trimestralmente, durante 4 lustros; a pedra era cortada no monte da Arábia e transportada, inclusive em travessia de rio, pelos caminhos especialmente abertos para esse fim (e que exigiram um decénio para sua conclusão); a pedra menor era de cerca de 10 metros (30 pés).
A obra, não destruída pelo tempo, consumiu quantias fabulosas, inclusive para sustento e vestimenta dos trabalhadores forcados.
(Heródoto - Los Nueve libros de la História, vol. II, ed. J. Gil, Buenos Aires, 1948, págs. 124-7.)
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 11, 2017 8:29 pm

IX - HARTATEF

Em consequência desta conversação com a rainha, profundo desânimo apoderara-se de Neith, e Hatasu, receando que a tristeza da filha e o isolamento a que se condenara no seu palácio reagissem fatalmente sobre a saúde, designou-lhe, na residência real, um apartamento, no qual Neith devia passar grande parte do seu tempo, quer ao serviço da soberana, quer recebendo as numerosas visitantes, que a curiosidade e a bajulação faziam acorrer para ela.
A amizade de Roant continuava sendo constante esteio.
A jovial e ditosa mulher sabia, melhor do que ninguém, distrair a amiga, transmitindo-lhe fielmente todos os constas referentes a Horemseb, que circulavam na Capital, e isso, apesar da proibição do marido e de Semnut; Roant, tagarela e romanesca, não podia privar Neith das novidades cujo interesse para esta ela compreendia, e, também, em verdade, a sorte do formoso Horemseb inspirava-lhe curiosidade e compaixão. Por esse veículo, Neith soube dos detalhes da visita dos padres ao palácio de Mênfis, e bem assim que os assassínios, em massa, dos infelizes servos do príncipe, haviam exasperado todo o Egipto.
Malgrado a abominação que esses novos crimes despertaram, Neith continuava escrava da sua paixão, e o pensamento da espantosa sorte que aguardava Horemseb causava-lhe estremecimentos.
Com o coração batendo fortemente, ela esperava, de hora em hora, a notícia da prisão; mas, o tempo decorria...
E já se passara um mês desde sua chegada a Tebas, e o príncipe continuava desaparecido.
Teria ele conseguido deixar o território do Egipto, ou perecera em algum esconderijo?
Em vão tentou adivinhar.
Certa manhã, Roant, que viera passar junto dela alguns minutos, contou que Hartatef chegara de Mênfis, trazendo com ele Ísis, agora em convalescença, e a quem se pretendia submeter a interrogatório, por ser uma das principais testemunhas contra Horemseb.
Hartatef, que mostrava o maior interesse pela sua protegida, havia instalado Ísis em sua própria residência, cercando-a de cuidados e conforto.
Após a partida da amiga, Neith entregou-se a pensamentos agitadíssimos, sentindo quase ódio contra a pobre Ísis, que traíra o príncipe e não deixaria de narrar, com vigorosas minúcias, todos os mistérios da vida fantástica que o bruxo tinha tanto interesse em esconder.
Recordou o interrogatório a que ela mesma fora submetida; mas, ficara - impenetrável - e, a todas as perguntas de Ranseneb e do funcionário encarregado da instrução do inquérito, limitara-se a responder que tudo ignorava e que não vira coisa alguma, porque habitara sempre um apartamento isolado, do qual se afastava apenas para as refeições com o príncipe, ou para passear nos jardins, sempre desertos nessas ocasiões.
De Ísis, o pensamento passou para Hartatef, revivendo na imaginação a imagem quase apagada do antigo noivo.
Que sentimento o levava a proteger Ísis?
Seria ainda ressentimento, desejando vingar o desdenhado amor, com o aniquilamento do rival preferido?
A chegada da nutriz veio interromper as reflexões.
A boa velha anunciou que um homem, dizendo-se enviado de Mena, pedia ser recebido imediatamente para transmitir mensagem directa a ela e da mais grave importância.
Surpreendida e intrigada, ordenou o imediato ingresso do mensageiro, e sem demora a nutriz guiou um homem, obeso, pele negra, provido de enorme cabeleira, e vestido com roupas de servo de casa rica.
Picando a sós, o enviado tirou do cinto pequeno rolo de papiro e o estendeu, dizendo, baixinho:
- Da parte do nobre Hartatef.
Neith desenrolou vivamente o escrito e leu, com estupefacção:
-Tenho notícias daquele em quem pensas dia e noite, e a esse respeito quero dizer-te coisas tão graves, que uma entrevista secreta parece-me indispensável.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 11, 2017 8:29 pm

Não desconfies:
? juro pelos quarenta e dois juízes de Amenti que venho na qualidade de amigo leal.
Marca-me hora e ponto do encontro; não recuses, pois tu o lamentarias amargamente.
O portador é pessoa de confiança; destrói este recado, imediatamente.?
Não havia assinatura, mas o mensageiro declinara o nome do autor da estranha missiva; mil pensamentos contraditórios esbarravam-se no espírito de Neith:
que lhe queria Hartatef?
Que sabia ele do príncipe? (pois a alusão a Horemseb era iniludível.)
O ardente desejo de receber notícias do fugitivo calou todos os escrúpulos de Neith.
Demais, que recear?
Era livre em suas acções, e conhecia bastante Hartatef para estar segura de que nenhuma insolência de sua parte havia a temer.
Sob o impulso de tais sentimentos, pegou em tabuinhas e escreveu:
-Ao pôr do Sol, estarei no jardim, junto do pequeno pavilhão que abre para o rio. A porta ficará aberta.?
Não assinou, igualmente.
Fechando o recado, estendeu as tabuinhas ao mensageiro, que, saudando humildemente, se retirou.
O dia pareceu interminável.
Que lhe iria dizer Hartatef?
Que fim visava ele, trazendo-lhe novas do fugitivo, cuja cabeça estava a prémio?
Com estranho sentimento, pensou no tempo em que Pair a fizera, a contragosto dela, noiva desse homem tenaz e apaixonado...
Então, ela supunha amar Keniamun, e mais tarde Roma havia dominado seu coração, e depois a imagem de Roma sumira, a seu turno, ante a paixão desenfreada que a chumbara a Horemseb, amor que lhe devorava o coração e o corpo, porém a razão e o orgulho condenavam.
Esse sentimento omnipotente parecia haver empanado todos os outros, destruído sua faculdade de sentir; todo o passado dir-se-ia embaciado, longínquo; o pouco tempo decorrido semelhava uma longa existência de lutas e de sofrimentos, na qual tinham soçobrado sua felicidade e seu repouso.
Outrora, detestara Hartatef; agora, só lhe inspirava indiferença.
Quando, enfim, o Sol começou a descambar no horizonte, Neith, seguida por sua fiel nutriz, desceu ao jardim.
Chegada ao pequeno pavilhão, onde se dera o nefasto encontro com Roma, no dia do casamento com Sargon, abriu a porta que dava para o rio, e sentou-se num banco pouco distante da entrada, ordenando a Beki ficasse na aleia contígua, ao alcance da sua voz.
Não esperou muito tempo.
Escassos minutos haviam-se escoado depois que sentara no banco, quando a elevada estatura de Hartatef surgiu na porta.
Envolvia-se num manto escuro, e um "claft" raiado, de grosseiro estofo, lhe dava aparência de homem do povo.
A dois passos de Neith, parou, saudando-a respeitoso, e apenas o olhar rutilante com que a envolveu mostrou que o seu irredutível amor não se extinguira.
A jovem mulher, absorvida pela preocupação exclusiva, não reparou em nada.
- Sê bem-vindo, Hartatef, e explica-me, sem demora, o sentido do teu misterioso recado - disse, indicando, com impaciente gesto, lugar a seu lado.
O recém-chegado sentou-se, e disse, sem preâmbulos:
- Conheço o refúgio de Horemseb, mas, nele não poderá permanecer por muito tempo.
De ti depende que eu o denuncie e o deixe perecer, ou que eu o salve.
Não julgues que te venho iludir ? acrescentou, surpreendendo no semblante descorado de Neith uma expressão de sombria desconfiança.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 11, 2017 8:29 pm

Está oculto nas proximidades de Mênfis, na antiga necrópole, em uma velha tumba violada onde vivia famoso feiticeiro, que desapareceu logo após as pesquisas no palácio.
Suponho que esse homem era um hiteno e tinha relações com o criminoso sábio que perdeu Horemseb, porque também ele sumiu, sem deixar rasto.
Não te descreverei a custo de que trabalhos encontrei a pista do príncipe:
em resumo, sei que se esconde na necrópole, onde o reconheci, quando sai, à noite, para respirar ar puro; mas, é claro que, com o tempo, morrerá de fome, ou será apanhado, se abandonar o refúgio.
Posso salvá-lo, e o farei por devotamento a ti... se me deres a recompensa que desejo.
Neith escutara, ofegante. Não mais duvidava.
- Tu, Hartatef, tu, consentirias em salvá-lo?
De que modo, e a que preço?
- O meio é simples: irei buscá-lo, à noite, e, explicando que sou amigo, fá-lo-ei meter-se numa caixa de múmia, com perfurações para que respire à vontade.
Sem despertar suspeitas, aos olhos de todos, conduzi-lo-ei a qualquer cidade do delta, onde poderá juntar-se a uma caravana, rumo de Babilónia ou de Tiro.
Quanto à recompensa (inclinou-se e fogoso olhar mergulhou nos perturbados olhos de Neith), és tu mesma, porque jamais cessei de te amar.
Teu casamento com Horemseb será anulado, em qualquer hipótese; Sargon morreu; nada pode impedir me desposes, escoado o intervalo do luto.
Promete-me seres minha mulher, e salvarei aquele a quem amas!
- Tu ainda queres desposar-me, apesar do ardente amor que tenho por Horemseb? - balbuciou Neith.
- Tu nunca me amaste, e Horemseb estará longe ? respondeu Hartatef, com amargura.
Ninguém, tanto quanto eu, te será fiel: serei um esposo indulgente e terno, contentando-me com a posse da tua pessoa, sem exigir o teu amor, até que teu coração, curado, mo dê, voluntariamente.
A convicção de haver salvo o homem teu amado, restituir-te-á a calma.
Deixa-me amar-te; meu devotamento vencerá tua aversão, e nos dará felicidade.
- Oh! não é ventura o que eu dou aos que me amam, e sim desgraça e morte.
No entanto, se desejas ligar meu nefasto destino à tua vida, que seja segundo a tua vontade; salva Horemseb, e serei tua mulher.
Eis minha mão, em penhor da minha palavra.
Apenas, concede-me vê-lo, uma derradeira vez, antes que deixe o Egipto para sempre.
- Combinado!
Não hesitaria em te conceder este encontro derradeiro; mas, avalia, tu mesma, se tal é possível:
não podes sair de Tebas, e trazer aqui o fugitivo é um risco quase mortal.
Se queremos subtraí-lo a uma sorte espantosa (ele será torturado e murado vivo, se o apanham), ele deve...
-Murado vivo!
Sim, sim, Hartatef, faz com que saia do Egipto o mais rápido possível; não quero mais vê-lo, contanto que se salve.
Mas, conseguirás isso sozinho?
E de que viverá o mal-aventurado?
- Tranquiliza-te; serei acompanhado de alguns homens de confiança, e munirei Horemseb de uma soma, que combinaremos, e, em Tiro ou em Babilónia, encontrará o apoio dos padres de Moloc.
Trarei uma declaração dele, que te provará haver eu cumprido a minha palavra.
- Eu te agradeço, Hartatef, e renovo minha promessa de ser tua, ou de nenhum outro.
Agora, deixa-me dar-te alguns esclarecimentos que te poderão ser úteis na tua difícil tentativa.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 11, 2017 8:29 pm

Rapidamente, transmitiu as particularidades que lhe comunicara o príncipe, sobre a porta secreta do muro, os esconderijos do jardim e sobre o meio de se comunicar com ele, e ainda indicações topográficas que permitiam orientar-se no palácio e nos jardins.
Tudo tratado, minuciosamente, Hartatef ergueu-se.
? Devo partir, porque cada hora é preciosa.
Adeus, pois, Neith!
Arrisco a minha cabeça para te conquistar, porque vales para mim muito mais do que a vida.
Possam os deuses conceder-me rever-te ditosamente!
Atraiu-a, brusco, deu-lhe um beijo, e precipitou-se para fora.
Na porta, parou e fez um aceno com a mão.
- Até breve, minha noiva!
Dividida entre o temor, a esperança e um tristonho abatimento, Neith voltou ao aposento e deitou-se, proibindo a presença de quem quer que fosse.
De acordo com o que Roant narrara à amiga, Ísis retornara a Tebas, sob a protecção de Hartatef, e os padres haviam-no autorizado a conservar em sua residência a órfã que salvara de morte inevitável.
A convalescente fora instalada em pequeno apartamento, comunicando com um jardim bastante vasto, e velha governante estava incumbida de assisti-la.
Tendo tomado conhecimento dessa combinação, Hanofer, cheia de desconfiança e ciúme, viera oferecer seus serviços, que a jovem egípcia aceitou, sob a influência do estranho poder que a megera exercia sobre Hartatef.
Ísis estava muito diferente, embora em convalescença plena; a palidez e o enfraquecimento eram extremos, e os cabelos renascentes, que cobriam a cabeça raspada, davam-lhe a aparência de rapaz.
O rumor da chegada da corajosa moça, que arriscara a vida para vingar a irmã e desmascarar os crimes de Horemseb, espalhara-se rapidamente na cidade, e, durante todo o dia, senhoras de hierarquia social, Roant inclusive, iam visitá-la e expressar o seu interesse, interrogando-a curiosamente sobre a sua estada em casa do nigromante.
Nessa tarde, Ranseneb e Roma visitaram-na também e examinaram o estado do ferimento, fazendo algumas interrogações e assegurando à jovem que seu estado não oferecia mais perigo algum, e que só seria inquirida quando se achasse suficientemente descansada e fortalecida.
Depois da retirada dos padres, Ísis afinal ficou a sós.
Hanofer também se eclipsara, a pretexto de indispensável caminhada, mas, em realidade, para imiscuir-se nas dependências, onde papagueava e perguntava as serviçais, intrometia-se nos serviços e dispunha sem cerimónia das provisões e outras coisas de Hartatef.
Sem embargo da fadiga extrema, Ísis ia ao jardim.
Tinha necessidade de solitude, e temia o regresso da enfermeira, cujo falatório e brutal curiosidade repugnavam-lhe.
Chegada a um bosquete cerrado, ao centro do qual havia um banco, sentou-se cansada, e, encostando-se ao tronco de uma acácia, abandonou-se a vagas quimeras.
O rumor de dois homens, que, caminhando, falavam a meia voz, arrancou Ísis do seu langor contemplativo.
Prestou atenção, e reconheceu Hartatef e Smenkara, que pareciam passear, margeando o bosquete, indo e vindo regularmente.
Súbito, estremeceu e, inclinando-se, ávida, procurou entender as palavras da conversação.
E quanto mais escutava, mais a agitação crescia; a raiva e o pasmo alternavam-se na expressão do seu lívido rosto, e, quando enfim os passos dos dois interlocutores se perderam distanciados, Ísis retomou, quase a correr, o caminho do seu aposento.
O escuro e a emoção fizeram-lhe errar o rumo e somente quando a luz da Lua lhe permitiu orientar-se conseguiu chegar; mas, o esgotamento e a superexcitação fizeram-na perder os sentidos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 11, 2017 8:30 pm

Ao tornar a si, a noite avançara, e Hanofer, que lhe prestava cuidados, indagou curiosa sobre o que havia acontecido.
- Ah! - murmurou Ísis em desfalecido tom - querem libertar Horemseb, e, se fugir à punição merecida, o miserável achará meio de voltar aqui e se vingar de todos.
- Tu deliras, minha filha.
Quem iria livrar um ímpio, cuja cabeça vale cinco talentos de prata(23).
Se se soubesse onde o encontrar, pegá-lo-iam, seguramente, mas não para lhe dar fuga.
Ísis soergueu-se: ódio e sede de vingança sufocavam-na, quase a ponto de esquecer a repulsa por Hanofer.
- É teu marido e Hartatef que querem ajudá-lo a fugir para Babilónia, escondido numa caixa de múmia.
Estão combinados com uma certa mulher que desposará Hartatef, em recompensa do serviço.
O bronzeado rosto da megera enrubesceu instantaneamente, e, sobrecenho franzido, dobrou-se para Ísis, e obteve desta a repetição, palavra por palavra, do quanto conseguira apanhar da combinação.
- Não pude ouvir tudo, porque se afastavam, indo e vindo de um a outro extremo da aleia, mas o principal é perfeitamente certo.
- Não duvido; esse asno de Hartatef é incorrigível - falou Hanofer, numa risada roufenha.
Quanto ao velho crocodilo Smenkara, não pode viver sem embrulhadas; mas, tranquiliza-te, Ísis, e deixa-me o cuidado de fazer falhar essa coisa, que desaprovo e que acarretará ao meu digno esposo bofetões como nunca apanhou iguais.
Se os dois imbecis ainda não partiram, segundo pensas, também não se moverão de Tebas.
Caso contrário, inútil será a viagem a Mênfis.
Curta indagação convenceu Hanofer de que os dois homens haviam partido num barco previamente preparado.
Transbordando de ira, meditou o meio mais seguro de impedir a execução do projecto, e, apenas os primeiros albores da alvorada apareceram no horizonte, rumou para o templo de Hator, e pediu para falar a Roma.
Com um bem natural espanto, o jovem sacerdote escutou a estranha denúncia, a qual, malgrado das lacunas, lhe foi tão compreensível quanto para Hanofer.
Recomendando-lhe absoluto silêncio, ele a despediu, e, sem perda de um instante, dirigiu-se ao templo de Amon e informou ao Grande Sacerdote o que se passava.
Foram dadas ordens imediatas, e, duas horas mais tarde, um correio partia para Mênfis, munido de uma carta para Amenófis, com instruções para impedir a evasão com o menor escândalo possível, caso não se conseguisse abortar previamente a tentativa.
Hartatef era considerado possesso, cujo cego amor obscurecia-lhe a razão, e que mais valia salvá-lo do que destruí-lo.
Penosamente agitado, Roma regressou a casa.
O pensamento de que Neith havia consentido em entregar-se a Hartatef para salvar o miserável que a enfeitiçara, desencadeava nele uma tormenta; nenhuma tortura lhe parecia suficiente para satisfazer a sanha contra Horemseb.
Sob o peso dos seus tumultuosos sentimentos, o moço sacerdote não suportou a solitude da casa, e foi para a de Roant, onde, desagradavelmente surpreendido, encontrou Neith.
Igualmente movida por surda irritação, viera ela buscar distracção junto da amiga.
Esbarrando no olhar sombrio e estranhamente escrutador de Roma, baixou os olhos.
Não tinha ela renunciado definitivamente a ele, o fiel e generoso, para salvar o homem que ele desprezava, com razão?
Que diria ele, quando soubesse a verdade?...
Notando o desagradável constrangimento reinante entre o irmão e a amiga, Roant, procurou um desvio de atenção.
- Estiveste, ontem, em casa de Ísis, conforme tencionavas, Roma?
Eu lhe fiz uma visita, durante o dia. Como está formosa ainda a pobre criança!
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 11, 2017 8:30 pm

- Sim, lá estive, com Ranseneb, e constatamos que está em vias de completo restabelecimento.
Neith erguera abruptamente a cabeça; os olhos fuzilavam e os lábios tremiam.
- Como! Roma e tu visitais ainda essa miserável? - exclamou ela, com a voz sofreada.
- Não compreendo ? disse Roant, surpreendida - por que não nos interessaríamos por essa inocente vítima, que, voluntariamente, sofreu medonha sorte para prestar um serviço ao Egipto?
- Ela teve o que mereceu, essa traidora! - explodiu Neith, fora de si.
A semelhança de dois ladrões, ela e seu digno aliado insinuaram-se onde ninguém os chamara, para espionar e trair.
Sargon achou a justa recompensa, e considero-me feliz por não haver tornado a avistá-lo, pois tê-lo-ia repelido com a ponta do pé, a esse ser abominável que perdeu Horemseb!
Quanto a Ísis, o príncipe fez-lhe muita honra, ferindo-a com a sua própria mão.
É essa serpente que vai recuperar a saúde para acusar o príncipe com mil mentiras, que têm acumulado sobre a minha cabeça tantas dores, desgraça!...
A voz faltou-lhe.
Roant escutara, pálida e consternada, esse veemente desabafo, mas, o rosto de Roma cobrira-se de ardente rubor; os olhos, tão serenos e tão doces habitualmente, flamejavam, e uma cólera, mesclada de desprezo, vibrava-lhe na voz, quando, pousando a mão sobre o braço de Neith, disse, severamente:
- Pára, a fim de que as tuas indignas palavras não recaiam sobre ti mesma, feitas lodo.
Compreendo e perdoo teu estado, porque conheço o império do veneno que te cega, mas, esse império só se estende aos sentimentos, e não destrói o raciocínio.
Tu pareces sentir prazer nesse rebaixamento, porque não tentas esforço algum para sacudir o jugo, tu não buscas a cura.
Seja! Não tenho direito de te acusar, mas possuo o de apreciar a injustiça que testemunhas à inditosa Ísis, que, corajosamente, se sacrificou para salvar outras vítimas.
Quanto a Sargon, ele te testemunhou um devotamento mais absoluto do que o meu próprio, que tanto te amei e amo; para libertar-te de uma escravidão vergonhosa, ele deu o mais precioso bem que se possa possuir: a vida!
Com uma coragem, com um sangue-frio heróico, ele se entregou ao poder desse homem sanguinário, do qual, pelo menor acaso, podia tornar-se identificado e que dele se vingaria, tão desumanamente quanto de Neftis.
Sem dúvida, Sargon não podia prever que a sobranceira Neith beijaria as algemas e detestaria até a memória do homem que morrera por ela.
Tua indigna paixão corrói-te qual uma lepra, e não queres compreender que Horemseb te poupou, não por amor, mas por cálculo.
Apenas tu queres salvar o réu, do qual todo o Egipto reclama a cabeça.
Teus esforços serão, porém, em pura perda, porque os deuses se afastaram dele!
À medida que falava o moço sacerdote, lívido palor cobrira o semblante de Neith; as mãos premidas contra o peito, respirava dificilmente; cada palavra soava qual pancada de martelo.
Tudo quanto Roma dizia era verdade, e a condenava, mas, podia ela arrancar do coração esse sentimento incendiário ante o qual tudo se empanava e diluía?
Não; ela bem lutara, bastante sofrerá; essas censuras, por isso mesmo que merecidas, irritavam a chaga.
Abandonando-se ao irascível orgulho, à teimosia, Neith endireitou-se e respondeu, em tom glacial:
- Teu discurso só me demonstrou uma coisa: em parte alguma estou ao abrigo de censuras e de uma tutela demasiado pesada.
Na Corte, a rainha é surda às minhas súplicas, e não tem perdões para Horemseb; aqui, verifico que, para condenar, tu sabes ser suficientemente duro e cruel.
Vou, pois, retirar-me para o meu palácio, e lá aguardarei o que tiver de acontecer, mas não me desviarei do infortunado que todos abandonaram, e será preciso que me convençam de que é feitiço, e não amor, o que acorrenta meu coração!
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 11, 2017 8:30 pm

Voltou costas e caminhou rapidamente para a porta, porém, Roma a antecedeu.
- Neith! - disse, apenas.
Mas, esse único vocábulo chumbou a jovem onde estava, e lhe fundiu o orgulho: é que um mundo de ternura e de piedade vibrava naquela voz, outrora tão amada, que sempre exercera sobre ela um benfazejo poderio.
Ergueu os olhos, e, encontrando o olhar do Sacerdote, que a fixava cheio de dor e de censura, desatou em soluços, e, atirando-se-lhe nos braços, balbuciou:
- Roma, não sejas rigoroso, não me condenes!
O jovem padre aconchegou-a de encontro ao peito; os lábios tremiam dolorosamente, mas o coração generoso já triunfara, sacrificando o próprio sofrimento.
- Tens razão, Neith; para contigo, que amo acima de tudo no mundo, devo ser confortador, e não juiz; façamos pazes, pobre criança, esquece meu ciúme, minha raiva legitima contra aquele que te roubou a mim, e volta à calma, à confiança. Desde este momento, sou de novo o teu amigo, o teu esteio, o confidente das tuas dores, tal qual fui outrora, e talvez Hator me permita sarar teu coração enfermo.
- És o melhor dos homens, Roma.
Ah! se soubesses uma coisa!
Mas, não, não a posso dizer, porque, com isso, bastante eu sofreria ainda.
Melancólico sorriso deslizou pelos lábios do moço sacerdote.
- Nada quero saber no momento; espero na sabedoria e na misericórdia dos deuses; eles farão tudo pelo melhor.
E agora voltemos para junto de Roant, que está abatida.
Sentaram-se novamente à mesa. Roant, sentindo-se ditosa pelo bom termo da discussão, deu à palestra um cunho mais generalizado, e, quando Neith regressou a casa, o fez mais tranquila, mais feliz do que, de há muito, não se sentia.

(23) CINCO TALENTOS DE PRATA - Valendo cada um 1/10 do de ouro, corresponde ao total de 600 cruzeiros.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 11, 2017 8:30 pm

Quarta Parte - As vítimas se agrupam

I
- O BRUXO EM PODER DAS SOMBRAS VINGATIVAS
Sombra, tu serás a presa da sombra; tu que vens da noite, retorna ao Erebo (rio do inferno).
(Mistérios de Dionisos)

Feliz acaso fizera Horemseb salvar-se dos soldados que o perseguiam, e o óptimo cavalo por ele montado fizera-lhe ganhar considerável avanço; mas, bem depressa compreendeu que essa montada denunciá-lo-ia, e, forçado a abandoná-la, deveria prosseguir pedestremente para o rumo, andando durante a noite, escondendo-se durante o dia nos campos, nas rochas ou nos caniçais.
Quebrado de fadiga e pelas privações, atingiu afinal Mênfis, e teria sido difícil, mesmo a um familiar antigo, reconhecer o soberbo príncipe Horemseb naquele vagamundo andrajoso, com a barba inculta, que, exausto, se arrastava penosamente.
Em uma grande povoação, próxima de Mênfis, onde entrou forçado pela necessidade de procurar algum alimento, uma derradeira emoção aguardava-o; fanfarras luzidas emocionaram e atraíram a população para as bordas do rio, onde um escriba real leu a ordem da rainha e depois a proclamação do Conselho dos Sacerdotes, ordenando a todo egípcio buscar e entregar à Justiça o príncipe Horemseb, acusado de crime capital, e proibindo, sob pena de morte, dar-lhe asilo, alimento ou protecção.
Quem o entregasse receberia a recompensa de cinco talentos de prata.
Consternado e cheio de terror, o príncipe deixou a aldeia, e, chegada a noite, alcançou, com mil precauções, a necrópole e o esconderijo de Spazar, onde esperava encontrar seu mestre e cúmplice.
O misterioso refúgio, porém, estava deserto, pois Tadar e seu companheiro haviam partido, deixando apenas um escrito, comunicando haverem seguido para Tebas, onde se consideravam mais em segurança, e aconselhando-o não perder a coragem e a esperança.
Malgrado essa contrariedade, Horemseb sentiu-se bem feliz, porque no abrigo existiam vestes, alimentos e mesmo objectos de luxo em abundância.
Durante alguns dias, o esgotamento mergulhou-o em verdadeira prostração; mas, o sono e a nutrição restabeleceram bem pronto as forças do seu jovem e robusto corpo, substituindo o sofrimento físico por uma tortura moral cada vez mais intolerável.
Forçado a haurir um pouco de ar fresco, apenas à noite, começava a sentir palpitações do coração e sufocações; o ambiente espesso e aquecido do local, destinado a mortos, tornou-se-lhe insuportável, por isso que, ao contrário de Spazar, ele não podia sair da toca a qualquer momento.
Os dias tornavam-se semanas, e notícia alguma, nem mensagem lhe chegavam; as provisões tocavam seu termo, e o próprio esconderijo não mais lhe parecia seguro, porque surpreendera um homem rondando, à noite, na necrópole, a espionar suas saídas.
O príncipe ainda mais se confinou, e, embora houvesse desaparecido o misterioso espião, receava uma surpresa a qualquer momento.
Torturado pela inquietude, levada ao extremo pelo silêncio obstinado de Neith, pela ausência completa de notícias do exterior, ameaçado de morrer à fome, dentro de alguns dias, resolveu abandonar o vale dos túmulos e alcançar seu palácio.
Lá também poderia ocultar-se e, principalmente, talvez saber algo a respeito de Neith, sua última esperança.
Estaria ela morta?
Ou, igualmente, ter-se-ia afastado dele, a despeito do veneno que ingerira?
Tomada tal decisão, Horemseb acomodou em uma sacola os restantes alimentos, e, à noite, esgueirou-se para fora do abrigo, encetou a marcha para o seu palácio, onde atingiu sem embaraços a porta secreta, e penetrou no jardim.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 12, 2017 8:00 pm

Tudo estava silencioso, tal qual ao tempo do seu poderio, mas, que total mudança!
Com inseguros passos, atravessou as aleias tão suas conhecidas, todos os recantos que lhe recordavam ou as orgias, as mortes, ou os divertimentos com que distraía suas noites.
A Lua, em seu segundo quarto, acabava de surgir, inundando de pálida luz o grande lago, não longe do qual se elevava, sombrio e isolado, o vasto palácio, com os seus terraços e galerias, esfinges e vasos de bronze; mas, os fogachos avermelhados não mais estavam acesos, nenhum servo corria para recebê-lo, nenhum delicioso aroma se espalhava no ar.
Tomado por vertigem, arrimou-se a uma árvore e comprimiu a testa com ambas as mãos; estava aniquilado, perdido, abandonado de todos, e reentrava, qual mísero fugitivo, naquele palácio onde — senhor absoluto — cada olhar seu valia por uma ordem, onde todos se rojavam a seus pés.
Uma espécie de estertor fugiu-lhe da boca; desespero mesclado de raiva louca sacudiu-lhe o corpo, como se tivesse um acesso febril.
De toda aquela desventura, de todo aquele desmoronamento da sua existência fora Neftis a causadora!
À lembrança de quem o atraiçoara, rangia os dentes, e um selvagem desejo de torturá-la novamente invadia-lhe a alma.
Nesse momento, o olhar incidiu para o lago, e assim permaneceu, com surpresa: da superfície da água, do sombreado das árvores sobre as bordas surgiam vapores cinzentos, que se expandiam e condensavam, tomando aspecto de mulheres desgrenhadas, envoltas em roupagens pretas.
Os estranhos seres deslizavam para ele, tornando-se cada vez mais individualizáveis, à medida que se aproximavam; a aragem nocturna sacudia-lhes os negros mantos, descobrindo os corpos desnudos e pintalgados de sangue; os longos cabelos, em desordem, pendiam sobre o peito; os rostos, descorados, denotavam sofrimento e paixão; entre os crispados dedos, entrelaçavam-se rosas rubras.
Esse cortejo, medonho e sempre aumentado, caminhou para ele, rodeando-o qual círculo de fogo.
À frente dessas mulheres, estava Neftis, como se a ira de Horemseb a houvesse evocado:
os ruivos cabelos envolviam-na, qual manto de fagulhas; os olhos, queimando de sanha feroz, fascinavam o seu algoz.
Sacudido de horror, olhos dilatados, Horemseb contemplava a multidão de espectros, cujo círculo mais e mais se fechava.
Ele as conhecia, a todas, a todos aqueles rostos, outrora tão formosos, aquelas jovens criaturas, cheias de vida e de amor, que ele assassinara lentamente, divertindo-se com a sua agonia, abeberando-se do seu sangue.
E, agora, Neftis sacudia-lhe, quase junto do rosto, a vermelha rosa que apertava na mão crispada.
O aroma sufocante atingiu-lhe o olfacto, mas, desta vez, despertando desgosto e repulsão.
Como se estivesse ébrio, Horemseb cambaleou, e depois se atirou para a frente, no intuito de fugir; mas, parecia chumbado ao solo, faltava-lhe a respiração, o cérebro dir-se-ia prestes a estourar, e as sombras vingadoras comprimiam-se contra ele; braços gélidos enlaçavam-lhe o pescoço, lábios álgidos, exalando pútridos odores, colavam-se aos seus, dedos enrijados dentavam-se-lhe nos braços e nas vestes...
Desatinado e meio sem fôlego, ensaiou desembaraçar-se.
A cabeça girava:
ficaria louco, ou um pesadelo o esmagaria?
Por sobre-humano esforço, estendeu os braços, repelindo os fantasmas; depois, qual cervo sob ladridos, atirou-se para o palácio, mas, após ele, voavam, à semelhança de flocos de penugens sopradas pelo vento, as sombras das suas vítimas.
Guiado pelo instinto, na ausência de reflexão, encaminhara-se ele para o terraço comunicante com os seus antigos apartamentos, e ali chegou feito um furacão.
As portas estavam abertas, e respirou aliviado: o palácio não se achava abandonado, conforme supusera; lá, na galeria brandamente iluminada, deslizavam, tal qual outrora, servos ricamente ajaezados, e, no fim da galeria, dois jovens serviçais, acocorados junto de tripés, pareciam nestes derramar perfumes.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 12, 2017 8:00 pm

Foi para eles que dirigiu seus passos; à proporção, porém, que se apropinquava, parecia que recuavam, e desapareceram subitamente.
Tomado de terror, ainda uma vez, precipitou-se para outra galeria, à qual fora atraído por uma nova luz:
era a da sala das refeições, onde, junto da sua cadeira, elevada num estrado, se viam Chamus e Hapzefaá, seguidos de um grupo de eunucos.
Rodearam imediatos o seu senhor, porém, os rostos estavam estranhamente lívidos e crispados, suas mãos agitavam copos cheios de um líquido negro e as vozes, ensurdecidas como se fossem bramido longínquo, diziam:
— Bebe este veneno que nos deram em recompensa de nossos serviços, de nossa fidelidade.
O príncipe ignorava os últimos envenenamentos cometidos por Tadar, e, ao pensamento de que lá também encontraria espectros de suas vítimas, de que apenas ele vivo erraria por entre aqueles mortos, os cabelos se lhe eriçaram de pavor, e se abateu sobre as lajes do chão.
No mesmo instante, as luzes extinguiram-se e só um raio fraco de claridade escassa continuou a brilhar no terraço que separava a sala das refeições.
Com grito selvagem, Horemseb retesou-se, e, como que perseguido por mil demónios, pulou para o jardim; mas, lá, aguardava-o o cortejo desgrenhado das mulheres sangrentas; precedendo-o, rodeando-o, a ondular em seu derredor, pareciam arrastá-lo de aleia em aleia, colando-se a ele, atravessando-o com uma friagem de gelo, quando ele tentava deter-se.
Na caminhada louca, desembocou de súbito no redondel ao fundo do qual se elevava o estrado de pedra onde outrora se entronizava, enquanto a seus pés chafurdava-se a embrutecida multidão de seres humanos que lhe serviam de diversão.
A cadeira dourada havia desaparecido, as guirlandas de flores ausentes; só a luz do luar brincava sobre os degraus pétreos e sobre as alvas colunas que sustinham o dossel do nicho.
Pareceu-lhe, nessa conjuntura, que lá, naquela elevação, estaria a coberto dos perseguidores; encontrava-se, de resto, no limite das forças.
Manando suor, arquejante, tropeçando a cada passo, subiu a escadaria e agachou-se no fundo da concavidade.
Tudo em torno era calma; o séquito horrífico desaparecera.
Extenuado, querendo comprimir com as mãos o agitado coração, fechou os olhos; mas, de pronto, estremeceu: sons confusos, cânticos distantes atingiram seu ouvido.
O rumor aproximou-se, pouco a pouco, aumentando de intensidade; lembrava o sibilar de uma ventania de temporal, entremeado de ruídos surdos, esvaindo-se qual a queixa de um moribundo, e depois uma selvagem melodia atroante qual fanfarra, acompanhada de gritos dissonantes e de sussurros de orgia.
Fremente, endireitou-se, e o olhar, espavorido, voltou-se para a clareira que começava a popular-se: lá, deslizavam, em fila, as cantoras, com as harpas nos braços, os dedos lívidos percorrendo as cordas, os lábios azulados entreabertos, enquanto as dançarinas, tão vaporosas que deixavam ver os objectos circundantes através de seus corpos diáfanos, bailavam sem descanso nem trégua, sacudindo as brancas vestimentas, torvelinhando num rodar desenfreado.
Em redor, agrupava-se uma turba, muda, de faces lívidas e imóveis:
era a corte que ele tivera prisioneira no palácio encantado, e que vinha, tal qual outrora, rodeá-lo e distraí-lo...
Apenas, todos quantos tinham vivido, trabalhado e divertido o amo, estavam mortos, ceifados na flor da idade, e a recreação que ofereciam ao antigo carrasco era uma diabólica vingança.
Acocorado, qual quadrúpede da selva, no fundo do nicho, o corpo encharcado de transpiração gelada, fixava o terrificante espectáculo; quisera fugir, mas não ousava tal, porque nos degraus estavam igualmente agachadas Neftis e suas companheiras, e se ele pousasse o pé nos degraus eles afundariam, e o atro abismo, antevisto por Neith, o engoliria.
Não; estava prisioneiro ali, e devia assistir às danças, escutar os cânticos que, na sua discordante e selvática melodia, como que incorporavam as paixões insaciadas daquelas almas sofredoras, e excitavam os desejos desordenados do coração humano, que tomavam vida, bramindo qual tempestade.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 12, 2017 8:00 pm

Quem não conhecia aquela dolorosa música, imagem da luta entre o homem e a divindade, entre o bem e o mal, entre a destruição e a conservação?
Esses sons trespassavam, tal qual agudas flechas, o dolorido coração do homem encarnado, criminoso, sucumbindo sob a expiação, igual ao Espírito que erra sem repouso no Espaço, ouvindo gritar em todas as suas vibrações:
— As leis divinas que afrontaste vingam-se sobre ti mesmo; teus próprios abusos criaram os sofrimentos.
Criatura cega, que, em tua ira, matas, fica sabendo que destróis apenas uma forma de argila, e a centelha imortal, que habitava nela, transforma-se e eleva, na marcha grandiosa do labor eterno!
Não te olvides de que o gozo do crime é sempre um transitório momento, em seguida do qual pesadamente se estende a punição.
Por incoercível lei de equilíbrio, o mal praticado recai sobre ti, apossa-se do teu frágil coração e o tritura sob a dor expiatória, até que, tornado tenro e flexível, seja apto para reflectir a divindade na sua perfeição infinita.
Sem o compreender, Horemseb pagava, durante aquela infernal noitada, os criminosos prazeres; ele se considerara invulnerável nos momentos em que tudo se quebrava a seus pés.
O primeiro raio do Sol no Levante pôs, afinal, um termo às horas de angústia; as trevas desapareceram e com elas as sombras vingativas; benfazejo calor penetrou os membros entorpecidos do culpado, dissipando-lhe o torpor.
Ra parecia dizer-lhe:
— Vê! Eu sou a claridade, inimiga das trevas, e meus fulgentes raios põem o crime em fuga.
Se me houvesses ficado fiel, não temerias a noite; repouso, quentura, amor, tudo a ti eu teria dado!
Lentamente, cabeça baixa, Horemseb desceu e arrastou-se para o pavilhão onde Neith dormira o sono encantado.
O leito ainda ali estava, e, afastando as cobertas, o príncipe mergulhou num sono de chumbo, exaurido totalmente de todas as forças.
Quando, afinal, despertou, o Sol descia no horizonte; sentiu-se alquebrado, a cabeça pesada e atormentado pela fome e sede.
Aproximando-se de um nicho, abriu pequeno armário secreto e dele retirou uma ânfora com vinho e uma caixeta com frutas confeitadas em mel, com o que acalmou a fome, voltando novamente ao leito, para coordenar ideias.
O horror da sua posição apareceu-lhe em toda a nudez:
estava perdido, sua cabeça posta a preço, aquele palácio deserto seu último asilo; os mortos, é certo, serviam-no ali fielmente, porém, só em lembrar-se da noite, gelado arrepio percorreu-o.
Pensou em Neith, a única vítima que poupara, não por amor, e sim por interesse, e que, evidentemente, o abandonara, ou tivera infrutífera a intercessão junto à rainha...
Decididamente, tudo terminara.
Amargo desencorajamento, uma lassitude sem classificação avassalava-o; não valeria mais terminar tudo, entregar-se ele mesmo?
A noite surpreendeu-o nas reflexões, e, com as trevas, ressuscitaram os terrores; cada rumor fazia-o estremecer; de cada canto acreditava ver surgir um dos terríveis espectros.
Com súbita resolução, ergueu-se: arriscar tudo era melhor do que permanecer sozinho naquele local.
Avizinhando-se do armário secreto, retirou um archote, que acendeu, e, evitando olhar para a direita ou para a esquerda, rumou para o palácio.
Parecia-lhe que, por detrás, pisava no chão a turba invisível e que, da sombra de uma coluna, se destacava a cabeça desfigurada de Neftis, olhando-o com raivoso chacotear; mas, reunindo toda a coragem, passou além, atravessou correndo os seus apartamentos, e bem depressa se encontrou na parte reservada antigamente ao pessoal dos serviços.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 12, 2017 8:01 pm

De repente, confuso murmúrio chegou-lhe ao ouvido.
Parou para orientar-se, e compreendeu que um grupo numeroso de homens devia encontrar-se no pátio contíguo, dependente dos aposentos ocupados outrora por Hapzefaá, Chamus e outros servidores de confiança.
Apagou o archote, e, abrindo uma porta oculta, achou-se sob a arcada sombreada de um peristilo, contornando vasto pátio no meio do qual se encontrava uma escudela.
Respirando custosamente, encostou-se à parede e fixou, com sombrio olhar, os imprevistos hóspedes que se albergavam em seu palácio.
Em redor de muitos braseiros, estavam acocorados soldados, conversando e brunindo suas armas, enquanto num pequeno terraço, fortemente iluminado, dois oficiais se entretinham no jogo de damas.
Uma escolta, comandada por um terceiro, entrava então, regressando de ronda.
Resolvendo-se bruscamente, o príncipe abandonou o esconderijo e andou recto para o terraço; mas, ao aparecer no círculo da luz, os soldados pularam, aos gritos, os oficiais pegaram as armas, e, num abrir e fechar de olhos, estava no centro de uma roda ameaçadora de lanças e espadas.
— Todo este tumulto é desnecessário — disse Horemseb, calmo —, eu me entrego, voluntariamente.
— Ages sabiamente — respondeu Antef, baixando a espada — em poupares uma luta.
Vou comunicar ao Grande Sacerdote Amenófis a tua prisão, e, até novo aviso, ficarás aqui, prisioneiro.
Tendo dado algumas ordens, Antef pôs a mão no ombro de Horemseb, que permanecia silencioso, e disse:
— Segue-me; vão servir-te uma refeição e preparar uma cama.
Alimenta-te e dorme, pois me pareces exausto.
Meia hora mais tarde, o príncipe estava à mesa, ante um bom jantar, em sala do seu antigo apartamento.
Ao menos, não estava só.
— Come, sem temor; nada está envenenado como estavam as provisões que deixaste aqui e que mataram os teus servidores — disse Antef, com amargura.
Horemseb baixou a cabeça; com esforço comeu um pedaço de caça e bebeu um pouco de vinho.
Depois, voltando-se para o oficial, perguntou, hesitante:
— Sabes onde se encontra, agora, Neith, minha esposa?
— A nobre Neith está em Tebas, mas, se contas com ela para obter teu perdão, esperarás inutilmente, a menos que consigas inocentar-te dos crimes e sacrilégios que te imputam — respondeu, irónico, Antef.
Deita-te, dorme; tu careces de forças.
Silenciosamente, Horemseb estendeu-se no leito que lhe haviam preparado, e seu esgotamento moral e físico, absoluto, fez que bem depressa adormecesse.
Na tarde desse mesmo dia, Hartatef, Smenkara e um velho preto, devotado, haviam chegado a Mênfis, dissimulando no fundo da sua embarcação uma grande caixa para múmia, destinada a esconder em seu interior o perigoso réu procurado em todo o Egipto.
Quando anoiteceu, Hartatef e seu cúmplice rumaram para o vale dos túmulos; mas, em vão procuraram o príncipe e chamaram por ele; guiados pelas indicações de Neith, foram ao esconderijo de Spazar, e convenceram-se de que Horemseb abandonara o refúgio.
— Acabaram as provisões, e refugiou-se no palácio — monologou Hartatef.
E, maldizendo a infeliz eventualidade, resolveu procurar o príncipe, imediatamente, em seu novo retiro.
Penetraram sem estorvo nos jardins, deixando a embarcação escondida nos caniçais; mas, infrutiferamente vasculharam todos os latíbulos indicados por Neith:
o príncipe não era encontrado.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 12, 2017 8:01 pm

— Estará no palácio — murmurou Smenkara, enxugando o suor que lhe escorria da testa.
— Vamos lá, e o acharemos, salvo se foi preso.
Eu sei, felizmente, onde se alojam os soldados — respondeu Hartatef.
E os dois aventureiros penetraram resolutamente na casa, que, de início, examinaram, sem resultado.
De repente, porém, o audaz homem parou, estremecendo, e pegou o braço de Smenkara:
por uma porta aberta, viu uma sala, iluminada por archote preso à parede, e, sob a luz avermelhada, reconheceu Horemseb, estendido, olhos fechados, sobre um leito de repouso.
Soldado etíope, de costas, estava de sentinela, encostado a uma coluna.
Serpeando, qual réptil, Hartatef, deslizou para o vigilante, e lhe enterrou um punhal nas carnes.
Sem um grito, o soldado estendeu os braços e, sustido pelo assassino, resvalou para o chão, sem ruído.
Então, Hartatef, célere qual sombra, aproximou-se do leito do príncipe, e, apoiando-lhe a mão na boca, sussurrou:
— Não grites, Horemseb; sou um amigo enviado para te salvar — acrescentou, ao ver que o prisioneiro abria os olhos.
Sem discutir, animado de nova esperança, o príncipe levantou-se e seguiu o seu libertador.
Smenkara reuniu-se a eles, e, sem obstáculos, atravessaram grande sala contígua, quando, inesperadamente, uma porta abriu, e, mudos de espanto, encontraram-se face a face com uma esquadra de soldados, sob comando de oficial, que regressava de render sentinelas.
— Traição! — gritou, reconhecendo o príncipe.
Este, porém, e os dois companheiros tentaram abrir caminho, atirando-se com furor contra a patrulha, e encarniçado combate se travou, por isso que Hartatef também armara o príncipe com uma machadinha e punhal.
Os gritos e o barulho da luta alarmaram todo o palácio, e Antef, seguido de uma dezena dos seus, irrompeu na sala.
Instantes depois, tudo terminara: Horemseb, desarmado, estava seguro por vinte braços, enquanto, por entre sete ou oito cadáveres espalhados, se viam Hartatef, com uma faca enfiada no peito, e Smenkara, com o crânio fendido por golpe de machadinha.
— Não acreditaria houvesse no Egipto um homem, e principalmente um dignitário, que pretendesse subtrair-te à Justiça — disse Antef, embainhando a espada — mas, parece que possuis bons sortilégios, suficientes para perturbar um cérebro tão sólido quanto o de Hartatef.
Como não tenho vontade de arriscar ainda uma vez a minha cabeça, por tua causa, vou acorrentar-te, e vigiar-te, eu mesmo.
Uma hora mais tarde, mensageiro do templo cientificava-o do projecto de evasão que se soubera pelo enviado de Tebas.
Antef respondeu a isso, levando o portador do aviso até junto dos cadáveres dos dois cúmplices e mostrando-lhe o prisioneiro acorrentado.
Ao amanhecer, Amenófis, acompanhado de muitos sacerdotes, veio ao palácio, e, após curto interrogatório, ao qual Horemseb não deu resposta alguma, declarou que dentro de duas horas partiriam para Tebas, ordenando a Antef conduzir o prisioneiro, sob conveniente escolta ao ponto onde estava reunida a flotilha destinada a transportar para a Capital o Grande Sacerdote, o prisioneiro, os soldados e algumas testemunhas de importância.
A notícia de que o feiticeiro fora preso espalhou-se na cidade, qual rastilho de pólvora, e sanhuda multidão, ávida de ver o terrível homem, afinal derribado, atropelou-se na direcção do palácio, congestionando todos os acessos e espiando, sôfrega, a saída do cortejo.
Verificando a existência desse tumulto, Antef pensou em conduzir o prisioneiro pela saída sobre o Nilo, mas o rio também estava coberto de barcos, que bloqueavam a escadaria, e o jovem chefe teve de renunciar a tal projecto.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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