Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 12, 2017 8:01 pm

Após uma espera, que pareceu eterna para a populaça aglomerada, a maciça porta foi aberta, dando passagem a um destacamento militar e de policiais, que forçou a turba a abrir em filas.
Em seguida, apareceu Horemseb, pés e mãos ligados a correntes, escoltado por Antef, empunhando a espada desembainhada, rodeado por um destacamento de soldados.
À vista daquele que durante tão longo tempo fora temido, desse bruxo que se divertira com todos os sentimentos humanos, havia matado tantos inocentes e semeado em seu caminho desgraça e loucura, febril agitação apossou-se da multidão, e um clamor de ódio e reprovação elevou-se qual rugido.
Horemseb ergueu a fronte e seu velado olhar perpassou pelos milhares de cabeças ondulantes, tanto quanto a vista podia alcançar; mas, vendo os punhos erguidos e ouvindo as vociferações, retesou-se arrogantemente, e, fervilhante de raivoso desprezo, continuou caminhando. Os clamores aumentaram, porém:
— Assassino! Sacrílego!
Enfeitiçador! — ululavam centenas de vozes.
E pedras, lama, imundícies nauseantes, e até facas, começaram a voar sobre o prisioneiro, ferindo-o e machucando-o, e bem assim aos da escolta.
Abrindo caminho dificultosamente, o cortejo dirigiu-se para o Nilo, acrescido de alguns padres que rumavam para seus barcos e cuja autoridade evitou as vias de facto; mas, sob essa tempestade de reprovação e de sanha, sob esse alarido de injúrias e maldições, Horemseb fraqueou.
Cambaleante, como se estivesse embriagado, a cabeça baixa, sucumbido à humilhação e à vergonha, arrastava-se a custo, e, subindo ao barco, perdeu os sentidos.
Tornando a si, fechou-se em irado mutismo, absorvendo-se nos seus desesperados pensamentos.
Por vezes, parecia-lhe que um pesadelo atormentava-o, e ser impossível que ele, príncipe de sangue real, o poderoso e rico senhor, descesse àquele grau de aviltamento.
Verdadeiro ciclone de desespero varreu-lhe a alma, quando, à claridade do sol nascente, percebeu, desenhando-se no azul do céu, os templos e os palácios de Tebas.
Sonhara acaso retornar assim à esplêndida Capital, que deixara um ano antes, por entre honrarias?
Oh! se tivesse podido prever o futuro, não teria decerto arrebatado Neith!
Para prevenir cenas lamentáveis, idênticas às ocorridas em Mênfis, as autoridades de Tebas, avisadas por um mensageiro, haviam tomado precauções, e alas de soldados, enfileirados em todo o percurso do cortejo, continham as torrentes humanas que haviam acorrido igualmente para ver o criminoso, cujo nome fazia fremir o Egipto.
Graças às prudentes disposições, o trajecto fez-se sem incidentes, e bem depressa as brônzeas portas do imenso âmbito do templo de Amon-Rá fecharam-se sobre Horemseb e sua escolta, e a multidão, tumultuosamente agitada, dispersou pouco a pouco.
O prisioneiro, sempre acompanhado por Antef, foi conduzido a uma sala do subsolo, onde se reuniram Amenófis, Ranseneb, substituindo o Grande Sacerdote de Amon, enfermo desde algum tempo, e grande número de dignitários do templo. Sombrio, mas de cabeça erguida, Horemseb parou, fixando os assistentes com arrogante e Impassível olhar.
— A cólera de Amon-Ra enfim te alcançou e trouxe aqui, coberto de correntes e de opróbrio — disse afinal Ranseneb, após um momento de silêncio — e ousas ainda altear a cabeça, em vez de te aproximares dos juízes, ajoelhado, arrependido e com humildade!
Um lampejo de ameaça jorrou dos olhos do príncipe; mas, não se moveu: aversão, raiva e rebeldia quase o sufocavam.
Murmúrio de descontentamento correu entre os padres, e um velho pastóforo exclamou, indignado:
— Malfeitor infame, prosterna-te, rosto no chão, ante os representantes dos deuses, ou receberás o tratamento que torna flexíveis os mais recalcitrantes.
Vendo Horemseb sorrir, motejador, e os sacerdotes franzirem as sobrancelhas, o velho pastóforo, rubro de cólera, ergueu um relho de correias, que empunhava, e um golpe sibilante abateu-se sobre as costas nuas do prisioneiro, abrindo um extenso vergão sangrento.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 12, 2017 8:01 pm

Grito de animal selvagem ouviu-se dos lábios de Horemseb:
espumando de ódio, voltou-se e, apesar das correntes que o prendiam, pulou, com agilidade tigrina, sobre o pastóforo, derrubou-o e lhe ferrou os dentes na garganta.
Isso foi feito com tal rapidez, que os circunstantes, petrificados, só compreenderam a realidade quando os dois homens rolaram pelo chão.
Antef e dois jovens padres atiraram-se ao furioso, mas em vão tentaram separá-lo do velho, cujo corpo se contorcia convulsivamente:
Horemseb parecia chumbado a ele, colada a boca à garganta, sangrando, que seus dedos apertavam tal qual tenazes.
De repente, seus braços afrouxaram e ele pendeu pesadamente para o lado, olhos fixos e imóveis, espuma sanguinolenta nos lábios:
a superexcitação causada pelo ultraje, aliada à violência do seu carácter, parecia havê-lo morto.
— Bem se vê que os espíritos impuros moram neste malfeitor — disse Amenófis, recobrando do estupor.
É preciso verificar se está morto; caso contrário, transportá-lo à prisão e dar-lhe assistência.
— Vou expedir as ordens necessárias, e farei dobrar as sentinelas, a fim de que o nigromante não fuja, antes de haver confessado seus segredos — falou Ranseneb, que examinara ambos os corpos.
O miserável está simplesmente desmaiado, mas do pobre Penbesa a alma reentrou em Osíris.
Vede: a artéria foi cortada, como que por tesoura, pelos dentes desse chacal.
Alguns servidores do templo, sob a supervigilância de Antef e de um moço sacerdote, transportaram Horemseb à prisão subterrânea especial para os grandes culpados e iluminada por uma lâmpada posta em nicho.
Quando o príncipe foi estendido sobre uma barra, servindo de leito, o médico ordenou que lhe tirassem as correntes e trouxessem luz.
Em seguida, bandou o ferimento que abrangia do ombro aos rins.
— Seu estado é de perigo? — indagou, curiosamente, Antef.
— Creio que sim, e despertará numa febre das mais malignas — respondeu, gravemente, o padre.
Seria lamentável que morresse, antes de haver revelado o segredo do terrível veneno e do respectivo antídoto.
— Ele já desmaiou em Mênfis, por efeito dos insultos e maldições com que foi alvejado pelo povo, durante todo o trajecto do palácio ao Nilo.
Foi espantoso; pensei que o fizessem em pedaços.
— Sim, não é fácil suportar tal queda dos degraus do trono a uma tal abjecção — suspirou o médico, lavando o rosto do prisioneiro.
Nesse instante, Horemseb reabriu os olhos, mas o perturbado olhar pareceu não reconhecer ninguém, e seu corpo cobriu-se de gélido suor.
Vendo o padre ocupado em promover o bem-estar do príncipe e preparar-lhe um leito mais cómodo, Antef retirou-se, apressado em repousar.
A sorte, porém, decidiu de maneira diferente.
Numa esquina de rua, encontrou Chnumhotep, que regressava do palácio real e se achegou a ele, tão logo o percebeu, desejoso de conhecer todos os detalhes da prisão.
O chefe das guardas convidou o oficial para subir ao seu carro e acompanhá-lo a casa, para conversação e para almoçarem juntos.
Antef alegou fadiga, para desculpar-se, mas Chnumhotep não aceitou escusas, e carregou com ele.
Chegando com o hóspede na sala que abria para o jardim, onde o esperavam Roant e um repasto preparado, o chefe das guardas encontrou também o cunhado; mas, o semblante animado do jovem sacerdote e algumas veementes palavras ouvidas da esposa, provavam que houvera altercação.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 12, 2017 8:01 pm

— Creio, por Anúbis, que caímos no meio de uma querela — disse, a rir.
— Perdeste, por não chegares mais cedo; terias ouvido os hinos de admiração cantados por tua esposa em honra do irresistível ímpio que chegou hoje — respondeu Roma, irritado.
— Disse, e repito:
é lastimável que um homem do porte de Horemseb possa ter cometido tantos crimes; sua sorte corta o coração; compreendo que a mulher que haja fruído do seu embriagador afecto ame-o até a morte e não o esqueça nunca.
— Esse miserável, de quem todo o Egipto reclama a cabeça! — resmungou Roma.
— Acalmai-vos, ambos, e escutai antes as estranhas notícias que Antef nos traz.
É indubitável ser Horemseb um extraordinário mago, para poder conquistar um cérebro tão sólido quanto o de Hartatef, que se fez matar para salvá-lo.
— Ah! ele morreu! — murmurou Roma, enquanto Roant assediava de perguntas o jovem oficial.
Este narrou então os pormenores da captura do príncipe e a frustrada tentativa de evasão, que custara a vida a Hartatef e a Smenkara.
Em seguida, contou as cenas terríveis que se desenrolaram no percurso do prisioneiro até ao Nilo.
— E hoje — concluiu Antef — o belo Horemseb recebeu a primeira vergastada na sala inferior do templo, por haver recusado prosternar-se.
Roant, que escutara palidíssima, emitiu um grito e escondeu o rosto com as mãos.
— Não queres beber um pouco de vinho?
Temo que desfaleças — disse, ironicamente, Roma.
Pensamento esmagador; dorso principesco e tão formoso receber um golpe de vergalho!
A meu ver, uma chicotada é bem pouco.
Esperemos que o resto venha!
— Não te reconheço mais, Roma — exclamou a irmã, faces afogueadas.
Tal crueldade é indigna de um servidor dos deuses; o teu ciúme faz-te cego e enraivecido.
— O restante não teria faltado, nobre Roma — disse Antef, a rir — se Horemseb tivesse deixado ao executor tempo de agir, mas, atirou-se a ele, e lhe seccionou completamente a garganta com os dentes.
Em seguida, de raiva, todo o seu corpo se inteiriçou e descaiu no chão.
Quanto ao pobre Penbesa, já estava morto quando o ergueram.
— Foi Penbesa que ele matou?
Eis o que é doloroso! — murmurou Roma, aturdido.
— É um verdadeiro animal feroz.
Teria ele explodido de raiva? perguntou Chnumhotep.
— A princípio, acreditamos isso, mas era apenas um desmaio.
Levaram-no à prisão e um padre ministrou-lhe cuidados, porque se pretendia arrancar o segredo da planta misteriosa, da qual Sargon falou, veneno maldito que quase me custou a cabeça, quando da fuga de Tutmés.
Oh! o que daria eu para saber a verdade dessa história!
É claro que Neftis casou-me, para desembaraçar-se de mim; mas, desempenhou ela um papel na fugida de Tutmés, e ajudou-o a obter as graças da rainha?
Esse solícito favor, logo que Tutmés chegou de Bouto, terminou por um exílio dourado, depois da morte de Sargon, cuja misteriosa querela com o herdeiro do trono jamais foi esclarecida.
— Sim, nós não chegaremos nunca ao encontro da verdade nesse dédalo — suspirou o chefe das guardas.
Quanto a Horemseb, pagará duramente seus crimes.
— Que sorte o aguarda? — indagou Roant.
— A morte, e morte afrontosa: será enforcado e seu corpo dado aos corvos, ou murado vivo.
— É doloroso! De que modo suportará Neith o saber que assim foi condenado?
Por agora, escondem-lhe a prisão, e não sabe da sua chegada; mas, com o tempo, não lhe poderão ser ocultadas tais coisas.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 12, 2017 8:02 pm

— O mais razoável seria enviá-la em peregrinação a algum templo distante — observou Chnumhotep.
Desse modo, estaria longe durante o julgamento e suplício, todas essas pungentes emoções ser-lhe-iam poupadas, e, uma vez morto Horemseb, ela o prantearia, e, em consequência, esquecê-lo-ia pouco a pouco.
Todos concordaram com esse parecer, mas, porque Neith se encontrava no palácio real, e ninguém ousasse aconselhar Hatasu nesse sentido, por isso que a rainha decidia de tudo com referência à sua protegida, força era sobrestar no assunto.
Pouco depois, cada um tomou rumo:
Antef para regressar a casa, Chnumhotep para fazer a sesta e Roma para ir ao lar da filha de Penbesa e dar consolo à família tão inopinadamente atingida pela morte do velho pastóforo, querido e considerado de todos.
Trabalhada pela inquietude e expectativa, consumida pelo subtil veneno que lhe ardia nas veias, Neith confinava-se o mais possível na solitude do apartamento, e somente quando os serviços a chamavam junto da rainha, sacudia o torpor, e espreitava avidamente nos olhos da soberana um momento favorável para lhe arrancar a promessa de perdão.
Depois do jantar, no dia em que o feiticeiro fora reconduzido aos muros de Tebas, circunstância da qual apenas ela ignorava as emocionantes peripécias, Neith estava deitada, quando lhe anunciaram que Mena desejava vê-la.
Mandou que o introduzissem, e, tão logo ficaram a sós, o oficial disse, misterioso:
— Quisera informar-te de graves notícias dele, tu me compreendes, mas juras não divulgar de quem as obtiveste?
Porque é proibido falar nestes assuntos em tua presença, e arrisco a cabeça pela desobediência.
Neith levantara-se, muito pálida.
— Juro pelos quarenta e dois juízes de Amenti:
morrerei antes de te atraiçoar; mas, suplico-te, dize o que sabes dele.
Sem se fazer rogar por mais tempo, Mena narrou tudo quanto conhecia sobre a prisão do príncipe, a morte de Hartatef, a cena ocorrida pela manhã no templo, e, por fim, a enfermidade de Horemseb.
A jovem mulher escutara anelante; no episódio com Penbesa, teve um grito de horror:
— Maltratá-lo como se fosse um escravo, é espantoso! Desventurado Horemseb! — exclamou, retorcendo as mãos.
É evidente que os deuses o abandonaram; Hartatef morreu; minhas orações e assim meus sacrifícios foram vãos, e, na sua enfermidade, jaz sozinho, privado do necessário.
Oh! Mena, ajuda-me, aconselha-me: que posso fazer para aliviá-lo, ao menos?
Mena coçou a orelha.
— Não é fácil imaginar; no entanto, eis o que me parece mais eficaz:
implora à rainha permissão para enviar-lhe socorros em vestimentas, trastes e nutrição substanciosa.
Sei que amanhã, cedo, Amenófis e Ranseneb têm audiência a propósito do processo.
Espreita-os, finge-te inteirada de tudo e pede, a eles também, autorização de confortar o enfermo.
Para dispô-los a favor, envia, ao amanhecer, dádivas ao templo. Eu me encarrego de as oferecer em teu nome, se assim o desejas.
— Sim, meu bom Mena, faz isso — concordou Neith, apertando, com reconhecimento, as mãos do irmão.
Vou dar ordens para o meu intendente.
— Tu poderias também ajudar-me um pouco, pois estou em grande embaraço.
— Tens necessidade de dinheiro?
Por que não o disseste antes?
Quanto precisas?
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 12, 2017 8:02 pm

Mena jamais fora modesto, e apontou uma cifra redonda, que Neith concedeu, sem discutir.
Depois, escreveu uma lista dos objectos de preço que ofereceria ao templo de Amon e ao de Ápis, em Mênfis.
No momento em que o oficial se despedia, lembrou:
— Leva também uma pele de tigre que Tutmés me presenteou; as garras são de ouro, e Ranseneb não deixará de admirá-la.
A jovem mulher passou uma noite de insónia.
A superexcitada imaginação desenhava-lhe a prisão de Horemseb, todos os sofrimentos do enfermo, e sua alma estava transbordante de desespero e compaixão.
Decidira-se a tentar, uma derradeira vez, enternecer a rainha, por lhe estar facilitado o aproximar-se, no dia seguinte, sem despertar atenção, pois estava de serviço junto da soberana.
As horas, até esse momento, pareceram-lhe uma eternidade.
Hatasu era madrugadora.
Assim, quando Neith penetrou no apartamento real, a velha Ama apontou-lhe a sotéia onde a rainha já tomava o seu pequeno almoço.
Para essa refeição, não admitia nunca a embaraçosa comitiva que rodeava, pela etiqueta, os reis do Egipto, desde o levantar ao deitar.
A mulher espiritual e original, que tão virilmente sustinha o peso do ceptro e da dupla coroa, dera prova, na questão da etiqueta, da independência de espírito que caracterizava todas as suas acções; sacudindo o esmagador cerimonial que regia cada gesto do Faraó, reservara para ela, exclusivamente, as horas que mediavam entre o levantar-se e a da primeira audiência, e apenas uma das damas de honra, de serviço, tinha permissão de aproximar-se, durante esse período.
Quando Neith penetrou na sotéia, a rainha estava com os cotovelos apoiados à mesa, na qual se via a refeição, visivelmente intacta, nos pãezinhos vermelhos postos na cestinha de prata cinzelada e no copo hiteno, lavrado, de que se servia sempre, cheio de leite até as bordas.
O belo e severo semblante do Faraó estava pálido, e era evidente que tristes, penosos pensamentos oprimiam a rainha, que não se apercebeu da chegada de Neith, e somente quando esta se ajoelhou e beijou a fímbria, estremeceu e se voltou:
— És tu, Neith!
Tens mau semblante, pobre filha! — disse Hatasu, passando, num gesto acariciador, a mão pela abaixada cabeça da jovem.
Vamos! Não recomeces a chorar; tua dor desgarra meu coração, porque dela compartilho, sem poder remediá-la.
Compreende, pois, minha querida, que sou rainha do Egipto, o Faraó guardião nato das leis, e que esse louco furioso, ébrio de assassínios, não me deixou, ele próprio, meio algum de poder salvá-lo.
Submete-te, por isso, ao inevitável; o tempo, que sara todas as chagas, fará que esqueças esse homem Indigno; a vida reconquistará seus direitos.
Sei, por experiência pessoal, porque perdi mais do que tu:
Naromath era um herói, tão nobre quanto formoso, valente guerreiro, que tombou defendendo sua pátria e cujas façanhas despertavam a admiração dos próprios inimigos.
Os deuses são por vezes cruéis, e não concedem nunca aos mortais ventura completa:
deram-me o poderio, mas recusaram-me qualquer outra alegria.
Tu, pobre filha, eu te devo negar ante o mundo, e quando quis, ao menos, dar-te felicidade, fui impotente ante o Destino...
— Não me julgues ingrata, minha mãe e benfeitora — murmurou Neith, premindo os lábios escaldantes na mão da rainha.
Em todas as horas da minha vida, eu te bendigo, e, por ti, quisera vencer o sentimento infernal que me devora, mas não posso.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 12, 2017 8:02 pm

Não me condenes por isso, porque tenho lutado contra esse poder que me aniquila.
É feitiço ou amor — quem o sabe?
Não posso descrever o que se passa em mim, porém, longe de Horemseb, definho, qual a flor sem água, e o pensamento de perdê-lo priva-me da razão.
A entrada da velha Ama interrompeu a jovem, ao anunciar que o Grande Sacerdote Amenófis e Ranseneb, o profeta do templo de Amon, solicitavam a graça de vir à presença do Faraó.
— Está bem — disse Hatasu.
Que sejam introduzidos na sala contígua ao gabinete de trabalho.
Ali estarei dentro de instantes.
Ao anúncio da chegada dos dois padres, vivíssimo rubor cobriu o rosto de Neith, e, quando o reposteiro recaiu, à saída da escrava, correu para a rainha, que bebia rapidamente alguns goles de leite, e, erguendo as mãos postas, murmurou:
— Sei que Horemseb, doente e prisioneiro, está em Tebas.
Concede-me, não o seu perdão, mas o favor de aliviá-lo, e licença de pedir aos sacerdotes que lhe façam entrega do que eu lhe enviar.
Hatasu ouvira surpreendida e com os supercílios franzidos:
sombrio clarão jorrou de seus olhos negros.
— Quem ousou desobedecer minhas ordens, e te informou da prisão do malfeitor? — perguntou.
— Ah! pode-se ocultar o que toda a Tebas sabe?
E pensas que meu coração não soprou que ele estava próximo?
Tem piedade, concede-me a mísera alegria de aligeirar seus sofrimentos.
Uma rude recusa chegara aos lábios da rainha; mas, ao ver a fisionomia desfeita de Neith, seu febricitante olhar, a superexcitação febril, comoveu-se.
— Seja! Vai e roga aos padres tal consentimento; se permitirem, autorizo-te a enviar diversas coisas para alívio do prisioneiro.
Com um grito de contentamento, Neith curvou-se, beijou a veste da rainha, e correu para fora.
Atravessou, correndo, os apartamentos reais, e penetrou na câmara designada, no momento em que os padres ali entravam, por outra porta.
Era uma grande sala, algo sombria, de paredes incrustadas de ouro e de cornalina, apoiada em colunas de pintura muito viva.
Ao fundo, junto de uma porta, encoberta por pesado reposteiro de púrpura bordada a ouro, vigilavam dois oficiais armados, e um terceiro funcionário, ornado com um colar de distinção, estava de pé, próximo de uma coluna.
Retirado o camarista que introduzira os sacerdotes, Neith aproximou-se, e, ajoelhando, elevou as mãos súplice.
As dádivas feitas pela manhã ao templo, por Mena, em nome da irmã, haviam prevenido os padres, e, assim, não duvidaram de que a muda petição da jovem mulher subentendia algum favor que desejava obter para Horemseb.
Ambos a abençoaram, e, depois, Ranseneb perguntou, com bondade:
— Desejas alguma coisa de nós, pobre filha?
Vejo, pelo teu olhar, que tens a alma ainda bem enferma!
— Santos e veneráveis servidores dos deuses — murmurou, com a voz lacrimosa —, se vossos corações sentem alguma piedade pelo meu sofrimento, concedei-me a graça de confortar Horemseb, meu esposo.
Está ferido, doente, privado de toda a comodidade a que se habituara.
Permiti enviar-lhe roupas, um leito e confortante nutrição.
Os dois sacerdotes consultaram-se com o olhar.
— Seja, minha filha; acedemos ao teu pedido — respondeu Amenófis.
Remete ao prisioneiro o que desejares para socorrê-lo; vinho, frutas, cobertas e roupa.
— E posso esperar que tais coisas serão fielmente entregues? — indagou, timidamente.
— Não tenhas receio — respondeu Ranseneb.
Envia um dos teus servos, e endereça os objectos ao padre Sepa, que cuida do prisioneiro.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 12, 2017 8:02 pm

Darei ordens para que tudo lhe seja entregue.
— Pois que a tua bondade é tão grande para comigo, concede-me rever Horemseb, durante rápidos instantes.
O profeta meneou a cabeça.
— Isso, minha filha, não depende de mim, mas da rainha.
Se ela autorizar que vejas o culpado, eu te conduzirei junto dele, com a condição de lhe falares na minha presença.
Nesse momento, som metálico, vibrante e prolongado, retiniu do gabinete.
— A rainha nos chama — disse precipitadamente Ranseneb —, mas aguarda aqui.
Transmitirei teu pedido a Sua Majestade, e dar-te-ei a resposta.
Quinze minutos talvez eram decorridos (uma eternidade de angústias para Neith), quando, inopinadamente, o reposteiro foi erguido, e Ranseneb chamou-a por um gesto.
O primeiro olhar sobre a rainha fez-lhe compreender que a soberana estava irritada.
— Contenta-te com o que te foi concedido, porque já é graça imerecida amenizar e mimar esse criminoso e sacrílego inaudito.
Não autorizo um encontro, porque não teria objectivo, e somente revigoraria o poder do veneno que te definha.
Vendo Neith cambalear, mortalmente pálida, Hatasu acrescentou, mais bondosa:
— Em todo caso, não é quando te vejo assim agitada que te permitirei vê-lo.
Torna-te calma e razoável, e talvez então poderei autorizar o que hoje proíbo.
E agora, filha, retira-te!
Com paternal benevolência, Ranseneb avizinhou-se de Neith, e, abençoando-a, disse:
— Não desesperes; a bondade de nosso Faraó é inesgotável quanto a do seu divino pai, Amon-Ra.
Se, pois, Sua Majestade abrandar-se, vem buscar-me e conduzir-te-ei junto ao prisioneiro.
Apenas, lembra-te de que deves apresentar-me o sinete real.
Depois que a jovem mulher deixou o gabinete, a rainha, voltando-se para os padres, indagou:
— Não se poderia apressar a instrução do processo e a execução do criminoso, para pôr fim à expectativa e incerteza desta infortunada vítima?
A consumação do fato quiçá quebre o feitiço.
— Teu desejo, Faraó, é lei para nós, mas, digna-te de observar que o culpado está doente, e é indispensável obter dele o depoimento concernente à planta venenosa e seu antídoto.
Por outra parte, cada dia nos chegam novos depoimentos, e a principal testemunha, a jovem Ísis, ainda tem necessidade de algum tempo para recuperar forças.
Em último lugar, o cúmplice de Horemseb, o miserável hiteno, não foi apanhado, e todavia seria útil acareá-los.
— Não estão na pista do infame causador de todas estas desgraças? — exclamou a rainha, subitamente colérica.
Quero, entendeis, Quero seja encontrado.
Fazei duplicar a soma da prometida recompensa a quem entregar o ímpio, que ousou esconder-se no coração do Reino, para empestar e destruir um príncipe do Egipto!
Eu lhe ensinarei, e assim a todo estrangeiro insolente, o custo de semelhante audácia; farei queimá-lo vivo sobre o deus impuro quanto ele, inventarei para ele um suplício que fará tremer de espavento os demónios do Amenti!
— Decerto os deuses satisfarão tua justa cólera, divina filha de Ra, e lavarás o coração no sangue do criminoso, que, com o tempo, não poderá fugir, pois parece averiguado que não transpôs as fronteiras do Egipto; apenas, visto ser este teu desejo, não aguardaremos a prisão do hiteno para condenar Horemseb — disse Ranseneb, respeitoso.
— Perfeitamente. Horemseb mereceu a morte e a sofrerá, porque o povo tem direito a esta satisfação.
Não desejo, porém, que a execução seja pública.
Que suplício lhe reservais?
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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— Será murado vivo, no âmbito mesmo do templo — respondeu duramente Amenófis.
E quais são, ó rainha, tuas disposições quanto aos haveres do culpado?
— Faço doação aos Imortais.
Em teu regresso a Mênfis, tomarás posse de tudo, Amenófis.
Relativamente ao palácio maldito, desejo seja arrasado e que no respectivo terreno se erga um templo a Ptah, a fim de que, com a presença do deus e seus servidores, se purifique aquele lugar manchado de sangue.
— Tua generosidade, Faraó, iguala a do teu divino pai, de igual modo que a tua sabedoria confunde os humanos — disse Amenófis, cheio de satisfação.
Ranseneb, que escutara atentamente, perguntou, imediato:
— A morte de Hartatef deixa também sem dono, nem herdeiro próximo, considerável cabedal.
Que destino terá?
Imperceptível sorriso pairou nos lábios de Hatasu.
— Creio justo doar esse património a Ísis, a corajosa filha que arriscou a vida para desvendar crimes inauditos.
Uma vez que os deuses miraculosamente lhe preservaram os dias, tem direito a uma recompensa.
Não vos retenho mais, veneráveis padres, e, na marcha do processo, entrego-me à vossa sabedoria.
A rainha saudou-os com a mão, e eles saíram.
Após deixar o gabinete real, Neith fizera conduzir-se ao seu palácio, e preparara a remessa destinada a Horemseb: macias coberturas, roupa, perfumes, e bem assim vinho, leite e algumas aves assadas, em uma das quais enviou um bilhete assim redigido:
“Cada dia receberás de mim tudo que necessitares, para o que obtive permissão. — Neith."
Mas, quando o portador seguiu, desatou a chorar.
Que seria dela, no dia em que tais remessas devessem cessar, porque ele não mais delas necessitaria, porque o teriam matado?
A esse pensamento, o olhar se lhe obscureceu, e desejou morrer com ele.
O tempo que se seguiu foi custoso; o extraordinário processo, instruído no templo de Amon-Ra, caía sobre todos qual pesadelo; as ramificações do drama tornavam-se cada vez mais extensas; descobriam-se novas vítimas, das quais muitas não haviam tratado directamente com Horemseb, mas, por acaso, tinham tido contacto com as envenenadas rosas, como acontecera aos embalsamadores e à jovem curada também por intervenção de Roma.
E ainda havia os que calaram, do que davam exemplo Antef, Satati, sendo que esta só agora compreendia a inconcebível fraqueza com Mena, na memorável noitada em que quase teve decepado o nariz.
Os mais implacáveis acusadores eram as famílias das moças que se haviam miseramente suicidado depois da partida de Horemseb de Tebas.
Ísis recuperava rapidamente a saúde.
A doação real, que a tornara dona do palácio de Hartatef, contribuíra consideravelmente para ajudar a cura.
Também estava livre da antipática enfermeira, porque afinal justa punição havia alcançado a abominável mulher.
Ao saber da morte de Hartatef e Smenkara, Hanofer fora como que fulminada, e, em seguida, um acesso de raiva e desespero tomara-a:
rugindo, arrancando os cabelos aos punhados, arranhando o rosto, rebolcara-se no chão, invectivando e maldizendo-se, porque à sua denúncia atribuía a morte do marido e do amante.
Depois de dois dias de crise e demência, Hanofer acalmara, entrando em febril, mas secreta actividade em todos os lugares onde o falecido Hartatef guardava os objectos preciosos.
Os frutos desse misterioso labor, acumulados no cómodo que ocupava, deviam ser, durante a noite, transportados para a residência dela, quando a fatalidade a atingiu.
Em primeiro, à chegada do comissário real para comunicar que Ísis era herdeira de Hartatef, quase teve um derrame bilioso; a raiva, porém, mudou-se em espavento, quando, horas mais tarde, a aprisionaram, não só por ser a mulher de Smenkara, morto em ato de traição, mas também por ser cúmplice em diversos negócios tenebrosos, descobertos recentemente, e ainda por dois assassínios praticados na sua baiuca.
Alguns meses decorridos, a megera, convicta de seus crimes, rumava para os trabalhos forçados nas minas, e ali morreu.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 12, 2017 8:03 pm

II - O JULGAMENTO

Mais de um mês se escoara desde a prisão do nigromante, sem que a agitação febricitante que mantinha os espíritos em alerta houvesse de modo algum acalmado.
Um acontecimento verificado a esse tempo havia igualmente emocionado a população:
fora trazido de Mênfis o ídolo de Moloc, e toda a Tebas acorrera ao vale pedregoso e árido, confinante do deserto, onde o colosso estava provisoriamente colocado, com que intento, ninguém o sabia.
Mas, com a avidez emocional que caracteriza as multidões, cada qual queria contemplar o deus sanguinário, sobre cujos rubros joelhos tantas inocentes vítimas haviam sido destruídas, no corpo e na alma.
Sabia-se que Horemseb estava restabelecido e que o julgamento devia, consequentemente, realizar-se de um dia ao outro.
Neith sofria acima de qualquer expressão, e teria — decerto — procurado no suicídio um término à dor, se não houvesse sido tomada pela ingénua ideia de que a sua vida representava uma garantia para Horemseb, uma espécie de escudo contra qualquer coisa de odioso.
No dia designado para o julgamento, lúgubre actividade dominava no templo de Amon-Ra: em vasta e sombria sala, iluminada por lâmpadas suspensas ao tecto, foram colocadas, em semicírculo, cadeiras reservadas aos juízes.
Dadas a gravidade da causa e a qualidade do culpado, tinham sido convocados os pontífices e Grandes Sacerdotes dos principais templos do Egipto, na sua maioria idosos, e seus rostos severos e rugosos, as vestimentas brancas, ampliavam ainda mais a solenidade do cenário.
Bem ao fundo, em gabinete dissimulado por um reposteiro, estava uma poltrona destinada a Hatasu, que desejava assistir ao julgamento.
Logo que a soberana ocupou seu lugar, o mais idoso dos juízes ordenou fosse introduzido o réu. Houve um momento de solene silêncio.
A luz vacilante das lâmpadas projectava-se fantasticamente sobre as pinturas que ornavam as paredes e representavam o julgamento de Osíris e os horrores do Amenti, espelhava-se nos crânios luzidios dos juízes, concentrando-se sobre os escribas, que, sentados sobre os calcanhares, nas esteiras, estavam atentos para escrever as respostas do culpado.
Entre os sacerdotes mais jovens, sentados nas últimas filas, encontrava-se Roma, que, à entrada do criminoso, de mãos acorrentadas, fixou o olhar cheio de rancor sobre o homem que Neith amava apesar de tudo, o carrasco que a destruíra e, não obstante, a fascinava.
A palidez de Horemseb era lívida; magro e envelhecido; em seus olhos, porém, lia-se uma lúgubre pertinácia, quando, silenciosamente, parou ante os julgadores.
A um sinal de Amenófis, levantou-se um escriba, e, em alta voz, leu o libelo acusatório, enumerando os crimes cometidos e a influência nefasta das rosas envenenadas, tão frivolamente atiradas às mãos das vítimas.
— Queres confessar todos os delitos de que te acusam, e revelar o segredo da planta misteriosa, e bem assim a maneira pela qual veio ela ao teu poder? — perguntou o Grande Sacerdote.
Horemseb baixou a cabeça e permaneceu obstinadamente silencioso.
Foram então introduzidas as testemunhas: parentes das jovens desaparecidas; Keniamun, que relatou as revelações de Neftis, o “complot” em que agiram em comum, e o encontro do corpo horrivelmente mutilado; Roma, que falou das suas descobertas; o rapazelho mudo, miraculosamente salvo da morte.
Por fim, veio depor uma dama velada; mas, ao desnudar a fisionomia, Horemseb recuou, com uma surda exclamação de terror:
reconhecera Ísis, que, ele próprio, havia apunhalado e atirado ao Nilo.
Os mortos regressavam do túmulo para acusá-lo?...
Pálida, porém resoluta, a moça, depois de se inclinar ante os juízes, descreveu, em voz vibrante, a vida terrível no palácio de Mênfis, a mutilação dos servos, o luxo desenfreado, as orgias nocturnas, a tortura lenta das vítimas, que eram envenenadas aos poucos, antes de assassinadas.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 12, 2017 8:03 pm

Todos esses horrores, todos esses crimes como que reviveram ante o auditório na palavra colorida e atraente da narradora.
Quando ela terminou, Ranseneb voltou-se para o acusado.
— Vês — disse ele — que teus crimes estão amplamente provados, mesmo sem a tua confissão.
Só nos resta saber o que concerne à planta venenosa e as circunstâncias extraordinárias que te puseram em relações com o feiticeiro hiteno, e fizeram de um príncipe do Egipto um bebedor de sangue, um assassino, um inimigo dos deuses de seu povo. Fala, pois, e dize, sem restrições, o que sabes, se não desejas que te arranquemos a confissão pela tortura.
Um estremecimento agitou o corpo de Horemseb, e seus olhos lançaram flamas; mas, dominando-se, com esforço, respondeu, com a voz enrouquecida:
— Direi o que sei; meu silêncio, de resto, não teria mais objectivo.
Foi meu pai quem trouxe Tadar, o sábio hiteno, ao Egipto, e do modo seguinte o conheceu:
durante a guerra vitoriosa do Faraó Tutmés I, no país vizinho do Eufrates, sangrenta batalha foi travada, não longe da cidade de Gergamich.
Existia ali um templo no qual se refugiara uma parte dos guerreiros, que o defenderam tenazmente, fazendo-se preciso verdadeiro sítio para ser tomado.
Quando, enfim, nossas tropas invadiram-no, a luta prosseguiu no interior do templo, e só terminou pelo massacre de todos os inimigos.
Durante o terrível entrevero, meu pai fora separado do amigo e companheiro de armas, Rameri, e, não o vendo regressar, ficou inquieto, e, a despeito do extremo cansaço, deixou o leito e foi ao local do combate em busca do amigo, para lhe dar socorro, caso estivesse ferido.
Recordando-se de que o perdera de vista nos terrenos do templo, para lá se encaminhou, e, enquanto errava por entre os escombros e cadáveres, de sombrio recanto surgiu um homem, de meia idade, que se dirigiu para ele, suplicando lhe poupasse a vida e prometendo, em recíproca, tesouros imensos e secreto poder de dominar forças da Natureza.
Meu pai deixou-se tentar, pois a voz e o olhar daquele homem, que era o Grande Sacerdote do templo devastado, fascinava-o estranhamente, e jurou, solene, garantir a vida do hiteno, se este mantivesse as promessas.
“Então, o padre, por secreto caminho, conduziu-o a uma cripta onde se achavam amontoados, não somente os tesouros do templo, mas ainda as riquezas do rei e dos mais notáveis patriotas.
Meu pai ficou deslumbrado: era um espólio mais do que régio.
Ocultou, pois, Tadar, e, em seguida, trouxe-o para Tebas, tão secretamente quanto os tesouros, dos quais ninguém teve conhecimento.
Durante a viagem, porém, o sábio hiteno havia adquirido sobre ele poder absoluto.
“Eu contava três lustros de idade quando meu genitor retornou a Mênfis e encetou, sob a direcção de Tadar, a reconstrução do palácio.
Cultivou-se a planta da qual o sábio trouxera a semente, e instituiu-se, em secreto, ali, o culto de Moloc.
Apesar disso, meu pai não se confinou jamais, conforme eu fiz, e prosseguiu frequentando a sociedade.
Durante o triénio derradeiro de sua existência, esteve constantemente enfermo, pois o corpo não mais suportou os excessos a que se entregava.
“Aos dezassete anos de idade, viemos a Tebas, tomar nosso posto na Corte, e meu pai aqui morreu, então, e, antes de expirar, confiou-me a realidade.
Tudo quanto me disse dos mistérios desse culto e da planta sagrada fascinou-me.
“Apressei-me em regressar a Mênfis, e fui inteiramente subjugado por Tadar.
Concluí rapidamente as construções encetadas por meu progenitor, e, a conselho do sábio, o palácio fechou-se para todos; meu serviço íntimo foi inteiramente separado e nele interditada a palavra, quando faltavam surdos-mudos.
Pouco a pouco, habituei-me a essa vida encantada, de onde a realidade, com a sua nudez e misérias, estava banida; a claridade do dia tornou-se-me odiosa; somente na escuridão, debaixo das sombras dos meus jardins, eu me sentia feliz.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 13, 2017 8:39 pm

Rodeado de perfumes sufocantes, embalado por maravilhosa música e cânticos celestes, que Tadar adorava e ensinava, ele próprio, esqueci tudo.
Eu devia sacrificar a Moloc, o sábio assim o queria, e a sua vontade era a minha lei.
Foi assim que se instituíram as orgias e festins nocturnos, que haviam destruído a saúde e a vida de meu pai, que não soube fruí-las moderadamente.
A mim ele deu uma bebida que gelava meu sangue, e me impôs uma existência rígida de jejum e abstinência que me dava a força de gozar pela vista sem entregar meu corpo à destruição.
“A primeira vez que bebi sangue, fui embriagado pelo sabor estranho dessa bebida que me devia dar a vida eterna, e, se pretendeis agora matar-me (e gargalhou roucamente), não o podereis, porque a morte não tem força sobre mim:
na vida do meu ser se concentram todas as vidas que arrebatei dos corações palpitantes das mulheres sacrificadas.
Eu me deslumbrei na contemplação dessas lindas mulheres que, desfalecidas de amor, morriam em meus braços:
amar me era vedado, porque a alma devia dominar as paixões do corpo, mas, apesar disso, morriam ditosas.
Uma delas traiu-me:
eu tinha o direito de puni-la, e Neftis recebeu morte merecida.
Nada mais tenho a dizer.”
— E que fizeste da planta venenosa? — inquiriu Ranseneb, o qual, e assim todos os juízes, escutara silenciosamente a confissão do culpado.
— Queimamos — respondeu Horemseb, sem pestanejar.
— Por quê?
— O mestre assim o quis.
Prevenido da vossa inquirição, desejei esconder os traços do culto de Moloc, porém o tempo faltou para tanto, e Tadar não quis que a sagrada planta caísse nas mãos dos seus inimigos, e a destruiu.
— E dos teus tesouros, que fizeste?
Não foi encontrada a mor parte dos preciosos objectos descritos por Sargon.
— A dispendiosa vida que mantive absorveu grande parcela das minhas riquezas, e já me encontrava em embaraços.
Quanto aos objectos de preço, baixelas, jóias, atirei-os ao Nilo.
Aqui tudo estava findo, e esperávamos fugir do Egipto.
— Mentes! — Interrompeu, gravemente, Amenófis.
Teu palácio foi doado aos deuses pelo Faraó, e será arrasado, para que no seu terreno se eleve um templo.
Durante os trabalhos de demolição, já em início, encontrou --se uma adega cheia de objectos preciosos.
Isto te digo, para provar quão baixo caíste, tu, a quem, nesta hora, não repugna enlodar-se em mentiras!
À notícia de que seu palácio estava em demolição, Horemseb estuou e seus punhos se contraíram, mas, não pôde dizer coisa alguma, porque os guardas retiraram-no da sala.
Após demorada deliberação dos juízes, o culpado foi de novo trazido, e Amenófis, levantando-se, pronunciou, solenemente:
— Teus espantosos crimes, Horemseb, mereceram um castigo proporcionado.
Príncipe do Egipto, renegaste os deuses do teu povo e assassinaste mulheres inocentes, das quais, por tua origem, devias ser protector; pelos teus malefícios, semeaste a vergonha e a desgraça nas mais nobres famílias; aos teus servidores mutilaste e destruíste:
todos esses delitos merecem amplamente a morte, a que te condenamos.
Disseste, há pouco, que a morte não tem poder sobre ti: seja!
É mais uma razão para seres sequestrado, de modo que não possas mais maleficiar.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 13, 2017 8:40 pm

Serás, pois, murado vivo, mesmo no perímetro deste templo; sobre existe, pois, nessa estreita sepultura, até quando os deuses o permitam; mas, quando morreres, morrerás de alma e de corpo, visto que o embalsamamento não conservará teus restos, e teu Rá (duplo) errante não encontrará asilo terrestre, e será devorado pelos demónios do Amenti.
Teu nome será esquecido, porque se proibirá a todo ser vivo, sob severas penas, pronunciá-lo, e em todos os lugares será riscado e apagado; a posteridade não saberá dos teus crimes, que espavoriram o Egipto; serás triplicemente morto, destruído em tua alma e olvidado.
À aurora do dia de depois de amanhã, esta sentença será executada.
Lívido, olhos dilatados, Horemseb escutara a terrível condenação.
Não somente a carne se revoltava nele contra o horror da sorte que o esperava; ele era, apesar de tudo, suficientemente egípcio para deixar de tremer à ideia de não ser sepultado, não ter embalsamamento, além do nome votado ao esquecimento.
Com rugido rouco, pegou a cabeça com as mãos, e, qual massa inconsciente, abateu-se no chão.
Enquanto esta emocionante cena se passava no templo de Amon-Ra, três personagens estavam reunidas em uma sala, quase escura, da casa de Abracro.
Dois homens, com vestimenta de operários, estavam sentados sobre os calcanhares, numa esteira, a alguns passos de um tripé, cheio de carvão, do qual a dona da casa alimentava a queima, nele atirando, de tempo a tempo, um punhado de pó branco, que fazia jorrar viva chama, iluminando com a sua luz baça os traços de dois nossos velhos conhecidos, Tadar e Spazar, o solitário do vale dos mortos.
Ambos estavam emagrecidos e pálidos.
O rosto do sábio parecia petrificado pela fúria, misturada de angústia.
Cada vez que a labareda se elevava crepitante, Abracro curvava-se, como que para estudar as fases desse fogo, que se consumia, serpenteando em linhas bizarras sobre o fundo negro dos carvões; depois, ela murmurou:
— A morte! Sempre a mesma resposta:
todos os esforços em vão.
Desencorajada, abandonou o tripé, sentando-se, cabeça baixa, num tamborete.
Houve longo silêncio.
— Quando Tiglat prometeu vir? — perguntou afinal Tadar.
— Logo que tivesse detalhes seguros sobre o julgamento; penso que não tardará muito — respondeu Abracro, suspirando.
Decorreu mais de uma hora ainda, em tristonha expectativa, quando, enfim, um tinido, leve e distante, fez-se ouvir:
era o sinal convencionado.
A velha levantou-se célere, e, sem demora, deu entrada a um homem, enrolado em escuro manto, que atirou sobre um escabelo.
Era Tiglat.
— E então!...
Que novas nos trazes? — indagou Tadar, erguendo-se e aproximando-se da mesa onde Abracro pusera uma lâmpada.
— Tristes, embora previstas, mestre!
Condenaram Horemseb a ser murado vivo, e a execução far-se-á depois de amanhã, cedo.
Ele nada acrescentou aos depoimentos feitos anteriormente.
Quanto à nossa esperança de salvá-lo, é mister renunciar a ela, porque vão murá-lo em terreno do templo, e seria loucura tentar algo.
Nervoso espasmo contraiu os traços angulosos do velho sábio.
— Contudo, não posso abandoná-lo a tal morte atroz; devo atenuar-lhe a sorte, se não é possível salvá-lo — exclamou Tadar, energicamente.
E voltando-se para a velha:
— Abracro, poderás, sem levantar suspeitas, chegar até Neith, e entregar-lhe uma caixinha?
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 13, 2017 8:40 pm

— Creio que sim, mestre.
— Tu lhe desvendarás então a verdade; ela ama Horemseb, e, quanto humanamente seja possível, irá até junto dele e lhe dará o que lhe vou remeter, isto é, a salvação.
— Reflectiste, venerável mestre, no perigo de semelhante tentativa? — perguntou Tiglat, preocupadamente.
Um acaso pode trair Abracro, e acarretar tua própria prisão.
Por milagre dos deuses, fugiste, até o dia de hoje, às perseguições dos inimigos; mas, escuta meu conselho:
foge, sem demora, se não queres perder-te, perdendo também a todos nós.
— Dentro de três dias terei deixado Tebas, com Spazar; mas, não posso abandonar Horemseb.
Abracro levará a Neith a caixeta que lhe vou confiar, e se chegar ao seu destino, o condenado beberá uma substância que lhe dará a aparência de morte, porém, em realidade, apenas um sono do qual poderei despertá-lo, num prazo mínimo de doze luas.
Sabes onde será murado?
— Num pequeno pátio do norte, que está fechado desde quando ali se enforcou um padre.
— Não podia ser melhor.
Dentro do prazo de um ano, poder-se-á achar momento azado para libertar o corpo.
Estou persuadido de que os padres conservarão ali o detido; eu te deixarei, Tiglat, todas as necessárias instruções para despertares Horemseb, depois do que o encaminharás a encontrar-me em Kadesch, para onde conto ir.
Agora, vou trazer o que disse, e tu, Abracro, prepara-te.
Saiu e voltou, sem tardança, com uma caixinha de cedro, em que se viam dois frascos de cristal, com tampos de prata, e um copo, ao fundo do qual depositou pequeno rolo de papiro.
Fechada, entregou-a a Abracro, fazendo-lhe as derradeiras recomendações.
Em seguida, a velha envolveu-se num manto escuro, cobriu a cabeça com espesso véu, e deixou a casa, por uma saída oculta.
Neith havia passado o dia em indescritível inquietude.
Embora ignorasse as ocorrências do julgamento, jamais sofrerá semelhante angústia, e, quando anoiteceu, estranho estado dela se assenhoreou:
parecia-lhe ver Horemseb, falando-lhe, ainda que sem entender o sentido das suas palavras; vagas imagens, representando ora uma sala onde padres se alojavam, ora um muro na espessura do qual era aberto um nicho negro, e, por fim, um calabouço, no fundo do qual um homem acorrentado estava estendido no solo, deslizavam imprecisas ante seu obscurecido olhar.
Esgotada, terminou por adormecer, num pesado e febricitante sono.
Quando despertou, viu a fiel nutriz, que, dobrada sobre ela, lhe espreitava o primeiro abrir de olhos.
— Senhorazinha, está lá fora uma desconhecida, que te quer falar de assunto grave, esperando há uma hora.
— Quem é?
— Não sei; está com espesso véu, e recusa revelar o nome, afirmando somente que pensas noite e dia no que ela te vem dizer.
— Manda-a entrar, e retira-te, disse Neith, empalidecendo.
Uma voz íntima segredava-lhe que ia saber algo a respeito de Horemseb.
Alguns instantes depois, Abracro foi introduzida, e, quando a jovem reconheceu a visitante, a suposição transformou-se em certeza.
— Vens falar-me a respeito dele? — indagou, em voz baixa.
— Sim, nobre mulher, trago-te notícias de teu esposo, e quero fazer apelo à tua coragem para poupar a esse infortunado homem torturas atrozes.
E, a meia voz, relatou o julgamento da véspera e a condenação do príncipe a ser murado vivo, na alvorada do dia seguinte.
Neith, que a escutava lívida e palpitante, deu um abafado grito, e desmaiou.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 13, 2017 8:40 pm

Abracro tirou ao bolso uma garrafinha azul e fez a inconsciente respirar do conteúdo, ao mesmo tempo que lhe friccionava testa e têmporas.
Quase instantaneamente, recobrou os sentidos, mas, a superexcitação era assustadora.
— Que posso fazer, deuses imortais, para subtraí-lo a esse inumano suplício? — exclamou, retorcendo as mãos.
— Vim indicar-te o caminho da salvação — murmurou Abracro.
Vê esta caixeta:
homem devotado a Horemseb ta envia.
Se conseguires fazê-la chegar a ele, esta noite (mas deves incumbir-te tu mesma), nela achará um remédio que provavelmente lhe salvaguardará a vida, e, em qualquer caso, poupará o horror do suplício.
Não te posso dizer mais do que isto, porém, se tiveres êxito, o teu esposo te bendirá, neste e no outro mundo.
A meu ver, se te apossares do sinete ou anel da rainha, deixar-te-ão, sem dificuldade, penetrar na prisão.
— Eu o terei, Abracro, terei o sinete, e, esta noite, a caixinha será entregue a Horemseb, ou morrerei — exclamou Neith, com energia febril.
— Os deuses te protejam, nobre mulher; mas, deixa-me dar-te estas gotas, pois elas te trarão a serenidade indispensável para agir e não deixar perceber o que acabo de te transmitir.
— Dá-me, porque compreendo que jamais, quanto agora, tive necessidade de calma e de prudência.
Após haver feito a jovem beber o cordial, que lhe preparou num copo de vinho, Abracro retirou-se, deixando Neith tranquila como que por encantamento.
Cheia de energia e fria resolução, fez-se vestir pelas camareiras, foi para o apartamento real e imediatamente introduzida junto de Hatasu, que terminava o frugal almoço.
A despeito da palidez, Neith estava tão calma, tão senhora de si, que a rainha não desconfiou coisa alguma e acreditou que, em verdade, a insónia era a causadora do semblante desfeito.
Conversou com benevolência, e, com indulgente sorriso, aquiesceu ao pedido de Neith de permanecer no gabinete de trabalho, até a hora do Conselho.
Anunciado Semnut, a rainha, seguida de Neith, passou ao gabinete, e bem depressa absorveu-se nos diversos assuntos que lhe eram expostos pelo fiel conselheiro: tratava-se de regularizar muitas contas e despesas imprevistas, suscitadas pelas construções que se faziam no templo de Amon.
Hatasu assinou e apôs o sinete-selo imediatamente na ordem ao seu tesoureiro para entregar a Semnut as somas de que teria necessidade.
Até então, jamais Neith havia prestado a assuntos oficiais, tão pouco interessantes, uma atenção ininterrupta assim; febrilmente agitada, acompanhava cada movimento dos dois interlocutores; depois, o olhar parou no anel, de engaste móvel, de que a rainha se servira:
era o seu sinete ou selo particular, conhecido de todos, e à vista do qual, se conseguisse dele apossar-se, a porta da prisão de Horemseb seria aberta sem dificuldade.
Como se a vontade superexcitada da jovem mulher houvesse atuado sobre a soberana, esta parecia ter esquecido o anel, coberto, casualmente, por uma folha de papiro.
A rainha, com efeito, estava preocupada:
a fisionomia alucinada de Neith inquietava-a.
Depois, apressou-se, por estar sendo esperada no Conselho.
Tendo dado as derradeiras ordens a Semnut, levantou-se, deixando os papéis esparsos sobre a mesa, recomendou a Neith repousasse o resto do dia, e saiu.
O reposteiro caíra apenas à retirada do Faraó, e Neith já pegara o anel e deixava o gabinete, onde ninguém tinha o direito de penetrar na ausência da rainha.
Entretanto, a partida ainda não estava ganha, porque Hatasu podia lembrar do esquecido anel.
Assim não aconteceu.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 13, 2017 8:41 pm

Após o Conselho, deixou o palácio para assistir a uma solenidade religiosa, e porque em seguida devia dirigir-se à cidade-dos-mortos, para sacrificar no túmulo dos parentes, Neith tranquilizou-se, pois, na manhã seguinte, acharia fácil ocasião de repor o anel no lugar, e mesmo, se necessário, confessar o furto (que lhe importava!), uma vez que a preciosa caixeta estivesse, desde a véspera, em mão de Horemseb.
Logo que o cortejo deixou o palácio, Neith foi à sua casa, na borda do Nilo, onde estaria mais em liberdade.
Nunca, porém, um dia lhe pareceu tão longo.
E se, apesar de tudo, fosse notada a desaparição do anel, e viessem retomá-lo?
Assim, a cada ruído, estremecia, e a mórbida superexcitação aumentava de hora em hora.
Afinal, anoiteceu, e chegou o momento de agir.
Ordenou o aprestamento de uma liteira fechada, para quatro carregadores, e em seguida vestiu roupagem rica, envolveu-se em amplo véu de lã, em cujas dobras ocultou a preciosa caixeta.
Com enorme pasmo da nutriz e do intendente, instalou-se sozinha na liteira, recusou os batedores e condutores de archotes, já preparados para acompanhá-la, e ordenou marchassem ao longo do Nilo; mas, distanciada do palácio, determinou aos condutores mudarem de direcção e transportá-la ao templo de Amon.
O acesso ao sagrado local já estava fechado, mas o guardião da porta conhecia perfeitamente, de vista, a jovem favorita do Faraó, e não fez embaraço em deixar entrar a liteira, designando o caminho a seguir para chegar à parte das construções onde se encontrava o célebre prisioneiro.
Em pequeno pátio, ocupado por soldados, a liteira se deteve, e Neith pediu ao oficial, que se aproximou, conduzi-la junto de Horemseb, pois a rainha lhe permitira despedir-se do prisioneiro, em prova do que lhe estendeu o anel real.
O jovem inclinou-se, mas declarou dever entender-se com o sacerdote incumbido da vigilância do condenado, e correu a encontrá-lo.
Fremente de impaciência e temor, Neith esperava; porém, ao avistar o ancião que chegava, acompanhado pelo oficial, suspirou desafogada:
conhecia o velho padre, por havê-lo encontrado em casa de Roant, e sabia-o amigo de Ranseneb.
— Venerável Amenefta, deixa-me entrar na prisão de meu esposo.
Comovida por minhas lágrimas e súplicas, nossa gloriosa rainha permitiu dar-lhe o último adeus.
Ranseneb sabe que eu esperava esta graça, e eis aqui o anel real que te confirmará minhas palavras.
O sacerdote pegou o anel e o examinou atentamente à luz de uma tocha.
— É o sinete do Faraó; desce, nobre mulher, e segue-me.
O venerável profeta prevenira-me da possibilidade da tua vinda.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 13, 2017 8:41 pm

III - ÚLTIMAS HORAS DO CONDENADO

Na manhã do derradeiro dia que passaria entre os vivos, Horemseb fora transferido da prisão subterrânea para outra, próxima do local do suplício:
uma câmara quadrangular, paredes nuas, e sem tecto.
Apenas um telhado de pranchas tapava-a quase pela metade, sob o qual havia mesa, cadeira de pedra, e um monte de palha.
Durante o dia, ar e sol tinham penetrado livremente neste último refúgio do condenado; agora, o céu, refulgente de estrelas, desdobrava por cima da prisão o seu zimbório azul-escuro, e, no lado de sombra, uma lâmpada de bronze, fixada por cima da mesa, derramava luz embaciada e vacilante.
Horemseb estava sentado, cotovelos apoiados na mesa, o rosto coberto pelas mãos:
algo de terrível lutava em sua alma, e a angústia que a dissolução do ser inspira a todo mortal fazia tremer todos os seus robustos membros.
Saindo do longo esvaecimento, entrava em completa prostração, mas a benfazeja apatia prontamente se dissipara, para dar posto a desesperada superexcitação.
Estava condenado à morte, e, no entanto, se o que ele acreditava fosse verdade, não poderia morrer, e essa imortalidade tão desejada, para obtenção da qual sacrificara tantas vidas inocentes, transformar-se-ia em indefinido suplício, em atroz ironia do destino.
E cada hora aproximava-o do horrendo momento em que, murado num estreito nicho, privado de ar e alimento, separado do mundo vivo, definharia em uma agonia sem fim.
Os dentes rangeram e gélido suor inundou-lhe o corpo.
E se, nessas condições tão contra a Natura, morresse, apesar de tudo, que tortura aguardaria a alma, no envoltório carnal, privado de embalsamamento e de sepultura, cairia em poeira num antro imundo?
A tal pensamento, o horror do nada assaltava-o, aquela incerteza que agita os homens de todos os tempos, porque os sentimentos humanos não mudam nunca.
Hodiernamente, e assim há centenas de séculos, o ódio e o amor, a cupidez e a ambição são as eternas alçapremas das nossas quedas; e o culpado de todas as épocas, ao aproximar da morte, sente-se esmagado em seu foro íntimo, o instinto da responsabilidade — que traz consigo desde a nascença — desperta no fundo da consciência adormecida, e o faz tremer ante o desconhecido abismo que o vai deglutir, onde não mais poderá pecar — tal qual o fazia na Terra — e onde não tem certeza de estar ao abrigo das consequências dos seus crimes.
Todo o dia decorrera para Horemseb nessa tortura moral, e quando as sombras nocturnas espalharam a escuridão e o silêncio em seu derredor novo sentimento avassalou-o com apunhalante amargura:
o do seu completo isolamento.
Naquela hora terrível em que, reprovado, degradado, condenado, ia desaparecer do mundo, estava sozinho, ninguém o pranteava, nenhum pensamento de compaixão e de afecto vinha buscá-lo na sua prisão; naquele Egipto, onde a sorte lhe doara tão formoso lugar, todos o abominavam, desejando-lhe morte; o desprezo e a maldição se aferravam ao seu nome detestado até quando fosse esquecido.
Pela primeira vez, aquele sentimento de completa solitude como que lhe arrochava, com indizível martírio, o brônzeo coração, e, com um gemido rouco, apertou a fronte, como se lhe quisesse afundar os ossos.
Absorto em tão amargos pensamentos, não notou que a porta da prisão fora aberta e fechada, e que um vulto feminino detivera-se junto do limiar.
Por um momento, Neith contemplou-o, em mudo desespero.
Era mesmo Horemseb, o elegante, o perigoso e sedutor feiticeiro, aquele mísero encarcerado, abatido, ali, numa cadeira de pedra? Ante seu espírito perpassou, qual visão, o encantado palácio de Mênfis, e imensa piedade, uma onda de amor afogou-lhe o coração.
Pousou no solo a caixeta, libertou-se do manto e do véu, e, avançando, de mãos estendidas, chamou Horemseb, com sufocada voz.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 13, 2017 8:41 pm

Ele estremeceu e se voltou.
Avistando Neith, por instantes pareceu petrificado; depois, olhos brilhando, saltou para ela e a apertou de encontro ao peito.
Nos primeiros momentos, permaneceram calados; mas, dominando-se primeiro, Horemseb conduziu-a para o banco de pedra, e, sentando-se a seu lado, murmurou:
— Neith, apenas tu me ficaste fiel, pobre criança que tanto atormentei.
Tu me perdoaste o haver-te feito assim tão desditosa?
Oh! se tivesse atendido à tua voz profética, prevenindo-me de que vergonha e infortúnio esvoaçavam sobre minha cabeça!...
A emoção tomou-lhe a voz.
Pela primeira vez, quiçá, um sentimento de afecto e agradecimento aqueceu-lhe o gelado coração, e, quando Neith para ele elevou o olhar pleno de amor, e ele viu as lágrimas que inundavam as faces da sua vítima, cingiu-a ardentemente de encontro ao peito.
— Não poderia eu viver, para consagrar-me a ti e reparar meus erros?
Mas, tudo terminou, e tu, Neith, reveste-te de coragem para suportar o golpe que, em algumas horas, te atingirá.
A jovem mulher estremeceu, e, imediatamente, lembrou-se da mensagem que trazia.
— Meu bem-amado, não desesperes; eu te trouxe a liberdade! — exclamou, correndo a apanhar a caixinha, que pousou na mesa.
Vê! um amigo envia-te isso; essa caixeta contém a tua salvação!
Nervosamente agitado, o príncipe abriu a pequena caixa, examinou o conteúdo e, desenrolando o papiro, leu ávido a mensagem.
Imediatamente, um rubor resplandecente invadiu-lhe o rosto e um abafado grito de júbilo e triunfo saiu-lhe dos lábios.
Num transporte de brutal paixão, pegou Neith e a ergueu, qual pluma, acima da fronte.
— Salvadora da minha vida, mensageira divina que me trazes a liberdade! — murmurou ele, cobrindo-a de ardorosas carícias.
— Fugirás, Horemseb? — indagou ela, radiante — e levar-me-ás contigo, não é verdade?
— Sim, fugirei, mas de maneira diferente da que possas pensar, e quem sabe?
Talvez me seja dado possuir-te e pagar esta hora de devotamento, com uma vida de amor e gratidão.
Mas, diz-me, mensageira de alegrias, como chegaste à minha prisão?
Neith relatou sucintamente quanto se passara, desde a separação até a vinda de Abracro, e o feliz acaso que lhe permitira apossar-se do anel da rainha.
— Mas, diz-me, recebeste todas as remessas de vinho, provisões, vestes, e outras coisas, que, diariamente, te fiz? — indagou ela, ao terminar.
— Recebi, durante minha enfermidade, vinho e mantimentos, e nada mais.
— Oh! os infames enganaram-me, até Ranseneb, depois das régias dádivas que fiz ao templo.
Roubaram-te, a ti, o infortunado que eles destruíram! — balbuciou, lívida de indignação.
— Quiseram tranquilizar-te, pela convicção de que eu seria confortado pelos teus cuidados; mas, deixa isso, minha bem-amada, e não te aflijas mais; eu lhes fugirei à ira, pela aparência de morte.
Lá, diante de ti, adormecerei, porém não será a morte, e sim um sono povoado de sonhos tranquilos e felizes.
No momento, não te posso dizer mais do que isto, porque, pobre criança, tu poderias, sem querer, em sonho, revelar a verdade, e então eu estaria perdido.
Agora, agir! O tempo apressa; a cada instante podem vir buscar-te.
— Não compreendo as tuas palavras — exclamou Neith, desesperada.
Sei somente que te vou perder por muito tempo, para sempre talvez; que te querem fazer perecer (e premiu a cabeça de encontro ao peito de Horemseb).
Oh! diz-me se é verdade que não me amas, e que o amor que tenho por ti é produto de um enfeitiçamento, e aplaca o incêndio que me devora...
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 13, 2017 8:41 pm

O pranto impediu-a de prosseguir.
Horemseb passou a mão pela fronte:
sentimentos estranhos e multíplices agitavam-no, e, pela primeira vez também, arrependimento, piedade, gratidão para com aquela jovem criatura — a única — que lhe ficara fiel, despertaram em seu coração duro e frígido.
Inclinou-se, e seu olhar imergiu, com indefinível expressão, nos olhos húmidos de Neith.
— O amor dos sentidos que te inspiro é enfeitiçamento; as lágrimas que vertes sobre mim é o sentimento puro e divino do amor — disse em voz baixa.
O bruxedo pode dominar e entorpecer o corpo, porém, jamais, fazer sofrer o coração.
O feitiço, minha Neith querida, não me defendeu do ódio, do ciúme feroz de Neftis e de Ísis; ambas beberam e olfactaram o veneno, seus corpos fremiram sob meu olhar, e não o coração que me odiou e destruiu.
Tu, porém, não sofrerás, nem arderás mais:
qualquer que seja o futuro, quero guardar teu coração, teu puro afecto, sem o feitiço que te entorpece.
Aproximando-se da mesa, pegou um pano, molhou-o na água da bilha e com ele limpou as mãos e o rosto afogueado de Neith.
Depois, retirou da caixeta um dos frascos e o copo, e reavistando o escrito, enviado pelo sábio, reduziu-o a pedacinhos mínimos.
Nesse momento, a parte aberta da prisão foi inundada de luz tão suave, embora viva, que a claridade da lâmpada ficou ofuscada:
era a Lua, elevando-se, o astro amado de Horemseb, e o avistá-la arrancou-lhe uma exclamação de alegria.
Erguendo os dois braços para o argênteo globo, recitou, em voz cadenciada e com expressão de entusiasmo, uma invocação a Astarté.
Ocupando-se de novo com a jovem, que ficara interdita, disse, jovialmente:
— Agora, agir!
A rainha da noite ouviu minhas preces; compassiva e radiosa, veio calmar-me com seus doces raios, dar-me coragem, embalar-me no misterioso sono.
Respirou a plenos pulmões, passou as mãos pelos cabelos.
Após isso, pegou o frasco e derramou no copo a metade do conteúdo, e com a outra metade friccionou a testa, as têmporas e o peito.
Terminado, estendeu o copo a Neith, dizendo-lhe:
— Bebe!
— É a morte? — perguntou, estremecendo.
Eu a prefiro, de resto, a viver sem ti.
— Não é a morte, e sim a calma, o repouso, a destruição do feitiço.
Teu coração, eu o espero, permanecerá fiel — respondeu ele.
E seu olhar mergulhou, qual labareda, nos olhos de Neith, que levava o copo à boca.
Apenas bebeu, desconhecida sensação, uma friagem glacial correu-lhe pelas veias.
Presa de debilidade, vacilou, mas Horemseb fê-la sentar-se no banco, agora iluminado pela Lua.
Em seguida, tirou da caixeta o segundo frasco e o esvaziou no copo.
Vivificante e suave aroma embalsamou o ambiente.
Sentando-se junto de Neith, deu-lhe a segurar o copo.
— De ti quero receber a bebida misteriosa que me promete vida e futuro, e, se morrer, liberto-me, ao menos, da vergonha e da satisfação cruel dos padres insolentes.
Viver murado, seria tortura horrenda!
Tremente e desfeita, a jovem mulher aproximou o copo dos lábios do amado homem; mas, tão logo bebeu, ela o deixou desprender-se dos desfalecidos dedos, e o cristal caiu e se espatifou no solo.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 13, 2017 8:41 pm

— Agradecido! — murmurou Horemseb, e, atraindo Neith a ele, acrescentou:
Fica assim; quero adormecer contemplando teu lindo rosto e teu afectuoso olhar.
Encostou-se ao muro e fixou o astro querido, ao qual parecia estar ligado por misterioso elo; era o pálido confidente de seus sonhos, o silencioso testemunho de seus crimes, das ignóbeis festas do palácio de Mênfis...
E, naquela hora fatal em que, degradado e abandonado, nem mesmo sabia se vida ou morte o aguardava, o astro viera iluminar-lhe a prisão, e nos seus raios de luz impregnavam-se os tétricos e tumultuosos pensamentos do condenado.
Essas impressões indeléveis a Lua as leva, de século em século, impassível, porém não esquecendo detalhe algum, identificando em todos os lugares, sob cada nova fisionomia, aquele que lhe confia suas dores e suas alegrias, reatando, silenciosamente assim, os misteriosos laços do passado.
O homem encarnado muda de aspecto, de cor, de posição; esquece onde, em que século, após que grave acontecimento, sob o peso de quais sentimentos viu ele aquela muda confidente vir visitá-lo no leito de morte ou no calabouço, testemunha única de obscuro crime ou de júbilos desconhecidos dos homens.
Ele ignora em que horas de angústia seus perecíveis olhos fixaram, velados de pranto, esse argênteo globo; mas, este, sabe, e reencontra Horemseb sob os traços do rei infortunado, cujo fim trágico emocionou o mundo.
Não era sem motivo que Luís II tanto amava a noite e as quimeras à luz do luar, e se apenas vagamente compreendia o murmurar dos seus raios luminosos, falando-lhe de longínquo passado, de crimes esquecidos, de vida de sofrimento e de expiação, recebia o fascínio estranho de um elo misterioso, o atrito de incógnito sentimento que o atraía para o astro das noites que adorara outrora.
Mergulhado nos pensamentos, esquecera tudo que o rodeava, quando, repentinamente, Neith ergueu a cabeça, que lhe apoiara ao peito, e balbuciou, espavorida:
— Estão ali as mulheres terríveis.
Oh! Horemseb, seremos separados.
— Que vês tu, Neith? — murmurou ele, estremecendo.
— Serás separado de mim, de nós todos, por muito tempo; somente teus inimigos ficarão contigo, e tu sofrerás, sentindo-te isolado, sempre vencido pelo destino.
Desprezaste o verdadeiro amor, e só o feitiço permanecerá junto de ti; coração vazio, alma enferma, tu procurarás reaver a chama que aquece, porém só o conseguirás quando o amor florir em teu próprio peito e dominar as paixões e o ódio.
Oh! aprende depressa a amar, para que nos reencontremos!
— Farei por isso — murmurou Horemseb, invadido por estranha e geral dormência, e maquinalmente apertando-a de encontro a ele.
Súbito, Neith repeliu-o, atirando-se para trás, olhos dilatados.
— Deixa-me. Em que te tornas?
És tu, esta sangrenta borboleta, vermelha como se fosse de fogo?
Deixa-me; tu me queimas e sufocas; tu vomitas sangue!
Debatendo-se feito louca, empurrou Horemseb; mas, as débeis pernas recusaram-lhe apoio, resvalou para o solo, e, com a cabeça retesada para trás, pousada nos joelhos do prisioneiro, perdeu os sentidos.
Ele mui débil resistência pudera oferecer, porque profundo entorpecimento invadia-lhe o corpo; como que através de nuvem, viu Neith abater-se junto dele, e lhe pareceu que ele mesmo rodopiava, qual pluma, em um báratro negro.
Depois, perdeu a consciência.
Mais ou menos quinze minutos decorridos, o oficial de serviço abriu a porta, e disse, respeitoso:
— Nobre senhora, é tempo de retirar-se.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 13, 2017 8:42 pm

Não obtendo resposta, entrou e estarreceu ao deparar com a jovem mulher abatida, como se estivesse morta.
Crente de que a emoção a privara dos sentidos, aproximou-se vivamente, e, ao primeiro golpe de vista sobre os olhos vítreos do prisioneiro, ao contacto da mão gelada, soltou abafada exclamação e correu para fora.
No apartamento de Ranseneb ainda estava reunida uma dezena de sacerdotes, discorrendo sobre a execução da sentença, no dia seguinte, e sobre a contrariedade de não se haver obtido informações precisas a respeito da misteriosa planta do amor. Entre os interlocutores retardatários, encontravam-se Roma e Amenófis, ambos hóspedes de Ranseneb naquela noite.
A impetuosa entrada de Amenefta, acompanhado do oficial, interrompeu a conversação, e, quando o velho padre relatou, pálido e trémulo, a visita de Neith e a descoberta feita pelo militar, todos se ergueram e encaminharam, quase a correr, no rumo da prisão.
Alguns minutos mais tarde, os sacerdotes rodeavam, sombrios e consternados, o estranho grupo; mas, Roma, trepidante de desespero e ciúme, arrancou a jovem mulher de junto do odiado rival, e, ajudado por um dos assistentes, tentou, infrutiferamente, reanimá-la.
Velho médico aproximou-se primeiramente de Horemseb, examinou-o e declarou estar morto.
Quanto a Neith, vivia, apenas desmaiada, aconselhando retirá-la do nefasto local e ministrar-lhe os cuidados que indicou.
Para cumprir esta prescrição, Roma transportou-a, ele mesmo, à liteira para conduzi-la ao palácio de Sargon, por isso que não desejava, em hora tão imprópria, levá-la ao da rainha.
Depois da saída de Roma, os sacerdotes reuniram-se de novo.
Examinaram cuidadosamente a caixeta, os frascos vazios e os pedacinhos do papiro, mas esses objectos pouco lhes adiantaram.
— A insensata jovem evidentemente trouxe-lhe o desconhecido veneno que o matou, e também o escrito de um cúmplice.
Mas, quem teria dado a ela esses objectos? — disse Ranseneb.
— Só podia ser talvez o miserável hiteno que, fora de dúvida, se esconde em Tebas, e possui esse veneno tão misterioso quanto a planta maldita — observou Amenófis, que, inclinando-se, tacteou o morto.
Estranho cadáver!
Nenhum traço de sofrimentos; flacidez dos membros e, contudo, palor cadavérico, frio glacial, coração parado.
— Isso importa menos agora, do que a revoltante certeza de que o celerado fugiu a uma justa punição.
E que decidiremos, à vista disto?
Após curto conciliábulo, ficou resolvido que se silenciaria sobre o ocorrido, de que poucos eram conhecedores, e seria consumada a execução da sentença como se coisa alguma houvesse acontecido.
E, em virtude de tal deliberação, tudo se realizou conforme estava programado, em presença de todas as testemunhas designadas.
O corpo de Horemseb, amparado por dois homens, como se o medo o tivesse aniquilado, foi conduzido ao pequeno pátio, onde alta e estreita cavidade estava aberta na espessa muralha.
O corpo, ainda flácido, foi sentado num curto banco colocado ao fundo, junto do muro, e bem depressa os obreiros colocaram, céleres, os tijolos, fazendo desaparecer aos olhos dos assistentes o rosto do facinoroso enfeitiçador que tanto dera que falar.
Naquele estreito nicho, devia reduzir-se a pó o corpo tão ávido de luxo e de prazer, o cérebro orgulhoso, cruel, inventivo de voluptuosidade sanguinárias.
Bem pronto foi a abertura totalmente fechada, e apenas a argila húmida assinalava o lugar onde estava sepultado o criminoso ilustre, acreditando-se ficarem todos desembaraçados dele para toda a eternidade, os sábios padres não suspeitando sequer que, por um mistério da Natureza, a sombra fatal do feiticeiro de Mênfis devia ressurgir, e, ainda uma vez, fazer tremer o Egipto.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 13, 2017 8:42 pm

Ajudado por um sacerdote amigo, Roma conduzira Neith da prisão do nigromante ao palácio, sempre desacordada.
Impondo silêncio à nutriz, que soltava gritos de susto e dor, fez deitar a jovem sobre o leito e lhe administrou os primeiros cuidados.
Mas, enquanto executava, com auxílio de Beki, as instruções do chefe dos médicos do templo de Amon, o espírito de Roma trabalhava, combinando todas as particularidades do acontecimento que subtraíra Horemseb à punição.
Apesar do enraivecido ciúme e do temor que o estado de Neith lhe inspirava, o jovem sacerdote vira a caixinha, os frascos, o copo estilhaçado e os fragmentos do papiro roto; escutara as observações dos outros padres sobre o desconhecido veneno que matara o condenado.
Tal veneno somente Neith podia tê-lo conduzido; mas, de quem tivera ela a misteriosa caixeta?
Quem lha levara?
Dominado por este pensamento, ordenou a duas escravas friccionassem com essências os pés e as mãos da enferma, e levou a nutriz para a câmara contígua.
Pegando-a pelo braço, perguntou, severamente:
— Quem contou à tua senhora a condenação do bruxo, e quem lhe deu a desconhecida caixinha, que ela conduziu, esta noite, ao sair?
Confessa, mulher, sem restrição, e guarda-te de divulgar, a quem quer que seja, as perguntas que te fiz agora.
Toda assustada, a velha ajoelhou.
— Beki está inocente, nobre Roma; Beki não relatou coisa alguma à senhorazinha, e ninguém veio aqui, salvo uma velada mulher, que não disse o nome.
— Neith falou com essa mulher?
— Sim. Após ler um papiro que eu lhe trouxe, ordenou introduzir a desconhecida, e despediu-me.
A mulher escondia um volume qualquer sob o manto, mas, se era caixeta, não sei.
Em seguida, por não estar distante da porta, parece-me que a senhorazinha pronunciou:
“Abracro”...
Súbita claridade fizera-se em seu espírito:
Abracro, a hitena, mantinha sem dúvida relações com o maldito e escondido sábio; por instigação deste, ela viera instruir Neith sobre a sorte que aguardava Horemseb, e lhe trouxera a caixinha com o veneno e a missiva que a acompanhava.
Sob o império da sua insânia, a jovem mulher tinha obtido ou furtado o anel real que lhe abrira as portas da prisão.
Mil pensamentos, sanhudos e dolorosos, encontroavam-se no cérebro do moço sacerdote; sua alma, clemente e harmoniosa, estava ulcerada pelos zelos e temor que lhe inspirava o estado da mulher adorada.
Destruir o miserável estrangeiro, que desencadeara tantas desgraças sobre o Egipto, parecia-lhe obra santa.
Assim, o chão como que lhe queimava os pés, porque, súbita lhe veio a ideia de que, se naquela mesma noite, se fizesse uma batida na casa de Abracro, ali seria talvez descoberto, se não Tadar, ao menos um fio condutor.
À chegada no palácio de Sargon, Roma expedira um mensageiro a Satati, rogando-lhe vir imediatamente, e o velho médico do templo, que já cuidara de Neith, prometera acorrer, logo que estivesse livre.
Fiel à promessa, o velho chegou, munido de farmácia portátil, e, pouco depois, Satati, azafamada.
Assim que entregou a enferma aos seus cuidados, Roma correu para o carro, que fizera atrelar, e, a toda a brida, rumou para o palácio real, onde sabia que, nessa noite, Chnumhotep estava de serviço.
Encontrou o chefe das guardas em conversação com Ranseneb, que acabara de chegar, trazendo o anel real para ser entregue a Hatasu, logo que despertasse, e lhe dar parte dos acontecimentos supervenientes.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 13, 2017 8:42 pm

Ambos escutaram atentos as palavras de Roma, e Chnumhotep exclamou, com a natural vivacidade:
— Tem razão.
É mister aprisionar imediatamente a feiticeira.
Quem sabe?
Talvez ponhamos a mão na raiz de todo o mal, no hiteno maldito.
Os ímpios não contam ser tão depressa perseguidos, porque esta trama é obra de mais de um desses estrangeiros, que permanecem nossos inimigos, apesar de todos os favores com que sejam cumulados.
Algum deles deve ter comunicado a Abracro a sentença pronunciada.
— Esse deve ser Tiglat, único dos hitenos que foi imediatamente informado — observou Ranseneb.
De resto, Abracro deverá confessar quem a mandou junto à pobre Neith, cujo estado doentio a torna irresponsável.
Mas, apressa-te, Chnumhotep: seria uma felicidade podermos anunciar à rainha que o culpado foi preso.
A notícia, decerto, atenuar-lhe-ia a cólera.
Mela hora mais tarde, um destacamento de soldados, sob o comando de Antef, dirigiu-se silenciosamente rumo à casa de Abracro.
Depois de cercada e vedadas todas as saídas, o oficial e uma esquadra nela penetraram.
Roma não se equivocara: Tadar, surpreendido com Spazar e Abracro, foi preso, e o trio, acorrentado, conduzido à prisão.
Hatasu inteirou-se, com tanta surpresa quanto cólera, das ocorrências da noite.
Um recado de Satati informara-a de que Neith reabrira os olhos, embora estivesse presa de febre violenta e delírio.
Ao pensar que o miserável causador de tantos males à filha, e que com as impuras mãos quebrava tão jovem existência fugia ao castigo, o coração da rainha intumescia de impotente raiva.
Assim, à notícia de que o verdadeiro instigador do mal estava detido, tudo quanto havia de crueza e sede de vingança no ânimo da orgulhosa soberana despertou, e implacável dureza coruscava-lhe vibrante na voz, quando, após curto silêncio, se voltou para Semnut e Ranseneb, que, humildes e silenciosos, aguardavam as ordens:
— De há muito, o impuro ídolo de Moloc empesta o Egipto com a sua presença; mas, antes de ser destruído, acho conveniente oferecer ao deus um sacrifício digno dele: o do seu próprio sacerdote.
Providenciarás, Semnut, para que, dentro de três dias, Tadar seja executado.
Para esse réu, sedutor de príncipes egípcios, constitui ainda invejável morte o ser assado vivo entre os braços do seu deus.
Quanto a Spazar, será enforcado, e bem assim Abracro, e também Tiglat se for provada a sua conivência com os outros dois, e seus corpos serão abandonados aos corvos, porque ambos abusaram da minha confiança e pagaram com ingratidão meus inumeráveis benefícios.
A ti, venerável profeta, eu agradeço, e bem assim aos teus confrades, a prudência demonstrada nesta circunstância, e aprovo as vossas decisões.
Quanto ao furto do anel-sinete, seja esquecido, porque a desditosa Neith está doente e Irresponsável pelo que faz.
Dois dias depois deste diálogo, imensa multidão estava reunida em árido vale confinante com o deserto.
Ao centro de um cordão de soldados, erigia-se o sombrio ídolo hiteno, já arroxeado pelo fogo que lhe roncava crepitante nas entranhas, e, a alguma distância, erguiam-se três patíbulos.
Os prisioneiros haviam sido transportados sob a guarda de um destacamento, do comando de Antef, e, em atitudes bem diferentes, aguardavam a sua hora final.
Sombrios, selváticos, porém resolutos, Tiglat e Spazar não demonstravam temor algum; Abracro, estupidificada, enlouquecida de terror, parecia haver perdido a compreensão das coisas; Tadar estava espantoso, horrendo de ver.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 13, 2017 8:42 pm

Ao saber que destino o esperava, ódio e pavor tomaram-no:
começava a duvidar da eficácia da sua ciência, e os sofrimentos faziam-lhe medo.
Cómodo lhe fora fazer outros sofrerem...
Apanhado de improviso, não pudera munir-se de um veneno que o subtraísse à tortura.
Ao avistar o seu deus incandescente, ficou como que dementado; rugindo, feito animal selvagem, olhos injectados de sangue, espuma na boca, rebolcava-se, fazendo soar as correntes e resistindo, com força sobre-humana, aos homens que o queriam pegar.
Então, à ordem de um funcionário, foi trazido um gancho, com o qual o prenderam pela cintura, apesar de agarrar-se com fúria ao chão, suspendendo-o para lançá-lo na fornalha.
Gritos, sem semelhança com a voz humana, sacudiram o eco das rochas, e fizeram recuar de horror a vultosa assistência aglomerada.
Sob o peso de tal impressão, o enforcamento de Tiglat e seus companheiros passou quase despercebido.
Do criminoso sábio, que condenara ao sofrimento e à morte tantos inocentes, só restou dentro em pouco um punhado de cinzas; mas, essas cinzas deviam reviver, séculos mais tarde, sob o nome de Richard Wagner, para vazar, em melodias selvagens e inarmónicas, todo o caos fervilhante daquela alma; despertar e seduzir, também, pelo feitiço do passado, seu discípulo de outrora.
Semelhante ao marulhar das ondas, essas melodias, tão depressa insinuantes e voluptuosas, tão logo selváticas, feriram o ouvido do rei, que havia sido Horemseb; do alto do trono, estendeu a mão ao maestro desconhecido, e lhe aplainou a estrada.
Luís II não se dava conta da potência daqueles sons que evocavam a lembrança do palácio de Mênfis, com as rosas rubras e suas vítimas sanguinolentas; mas, o inconsciente despertou no soberano, fazendo-o buscar o isolamento, a Lua e os perfumes entorpecentes: foi uma dessas esfinges indecifradas que a Ciência denomina um louco.
Os incrédulos, eu o sei, sorrirão desdenhosamente ao ler estas linhas, que imaginarão fruto de cérebro enfermo ou fantasista, mas, o porvir dar-me-á razão.
Enquanto se obstinarem no seu orgulho e nas negações, os médicos serão impotentes ante as doenças da alma, tão inatingíveis e tão estranhas, e somente quando buscarem no passado a fonte do obscurecimento da alma do louco encontrarão a chave do enigma, e o mal poderá ser tratado na sua raiz, porque o presente é a continuação, a consequência do passado.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 13, 2017 8:43 pm

IV - O BRUXO REVIVE EM MENA

A execução do mago e dos dois hitenos, tão longamente protegidos pela rainha, causou, em Tebas, profunda satisfação, e isso por um duplo ponto de vista: a aversão inveterada dos egípcios contra todo estrangeiro estava afinal atendida, e desfeito o receio inspirado pelo perigoso sábio.
Quem poderia adivinhar o que teria inventado, em sua sede de vingança?
E milhares de peitos respiraram aliviados, à ideia de que ele estava morto.
A alegria geral, causada por aquele afastamento de sanguinoso pesadelo, não era partilhada pela rainha, porque Neith continuava flutuando entre a vida e a morte; os terríveis acontecimentos da sua estada em Mênfis, o veneno bebido e olfactado, as lutas e as angústias dos últimos tempos haviam já quebrantado sua saúde; mas, a derradeira entrevista com Horemseb, e a reacção violenta operada pelo antídoto que ele lhe fizera ingerir, arrasaram definitivamente o débil organismo.
Devorada por ardente febre, perseguida no delírio pelas visões de recente passado, a desventurada criatura descrevia as cenas horrendas a que assistira no palácio de Mênfis, e o nome de Horemseb não lhe deixava os lábios.
Tudo quanto Tebas contava em celebridades médicas reunia-se junto do leito da enferma, que Roant e Satati assistiam com absoluto devotamento, ajudadas pela nutriz fidelíssima, a qual não permitia a nenhuma outra serva tocar na adorada senhorazinha.
Muitas vezes também a barca ou a liteira real parava no palácio de Sargon, e, olhar sombrio, fronte preocupada, a soberana se inclinava sobre a filha amada, cujo estado, quase desesperador, lhe penetrava o coração de amargura.
Quando pensava naquele jovem rebento, tão ricamente dotado, que, descuidado e feliz, desabrochara para a vida qual flor orvalhadamente aberta, e que agora se encontrava em um estado pior do que a morte; quando via Neith destruída pelo criminoso divertimento de um homem a quem ela não fizera mal algum, e que, sabendo a que 'personagem atacava, havia, com as mãos sacrílegas e insolentes, enxovalhado e despedaçado aquela inocente vida; uma raiva sem classificação inflava-lhe o peito e fazia crispar os dedos.
Desejaria torturar esse miserável, saciar-se dos seus sofrimentos, e ele havia achado meio de iludir o castigo, empregando por instrumento de salvação — suprema ironia — a própria vítima que ele cegara.
Mais de três semanas eram decorridas desde a morte de Horemseb.
Numa tarde, o velho médico do templo de Amon-Ra veio visitar a doente, acompanhado de Roma, e ambos se curvaram ansiosamente sobre ela, que, exaurida e magra, repousava, olhos fechados, insensível a tudo.
— O fim se aproxima, e, salvo alguma imprevista reacção, esse débil respirar cessará na aurora solar de amanhã — murmurou, tristemente, o velho.
Palor profundo cobriu o rosto do moço sacerdote, igualmente emagrecido.
Em seu olhar, habitualmente tão doce e calmo, desenhava-se amargo desespero.
— Então, ficarei aqui até final e ministrar-lhe-ei as gotas que trouxeste — respondeu, com insegura voz.
— Está bem, fica; não a perturbes, porém, se o estado actual se mantiver. Dentro de duas horas voltarei, e então veremos.
Quando o velho médico saiu do aposento, Roma deixou-se cair numa cadeira, junto do leito, e seus olhos repararam por acaso na dedicada nutriz, acocorada à cabeceira, a cochilar de fadiga.
— Vai descansar por uma hora, Beki.
Roant deve chegar, e até lá eu velarei pela doente, e direi as preces necessárias.
A escrava retirou-se docilmente. Feliz por encontrar-se a sós, naquela hora suprema, com o ente amado, e que ia perder, ajoelhou e apertou entre as suas a pequenina mão, húmida e gélida, estendida sobre a fina coberta de lã violeta. Neith parecia mergulhada numa espécie de letargia: olhos semifechados, boca entre-aberta, respiração imperceptível, os traços fisionómicos já denotando qualquer coisa de rigidez da morte.
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Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 13, 2017 8:43 pm

Olhos obscurecidos pelas lágrimas, o jovem sacerdote inclinou-se sobre ela; jamais lhe fora tão querida quanto naquele instante.
Que importava, se, por indigno artifício, lhe tinham roubado o coração de Neith!
Seu primeiro e puro amor pertencera-lhe.
Oh! se pudesse prolongar aquela vida que se extinguia, fosse isso mesmo sem nenhuma esperança para ele!
Os homens eram ineficientes, sem dúvida, mas, as divindades que ele adorava — elas — não tinham poder de afastar a morte?
Apertando febrilmente a pequenina mão que retivera entre as suas, Roma ergueu os olhos para o azulado céu que se percebia pela varanda, e ardente prece subiu de seu atormentado coração rumo das forças do Bem.
Qualquer que seja o nome que se lhe dê — Amon-Ra ou Deus, Ísis ou Virgem Maria, é sempre para o — princípio divino, a fonte pura e renovadora que retempera a alma e o corpo — que o homem abre caminho, implorando do Criador socorro para a sua criatura, lá onde a cega sabedoria humana, impotente, se detém.
Ardente qual labareda, porém pura e despida de egoísmo, subia a invocação de Roma; toda a sua alma parecia fundir-se em um único desejo:
arrancar à destruição a mulher que ele amava mais do que a si mesmo.
Ignorava ele que a torrente de vibrações que se exalavam do seu ser, unidas ao fluido divino, desciam em quentes e vivificantes eflúvios sobre o organismo enfermo, purificando-o, enchendo-o de novas forças, realizando aquele milagre de ressurreição que implorava.
Absorvido em sua fervorosa prece, não se apercebeu de que, por detrás dele, o reposteiro fora afastado e que Hatasu aproximara-se, sem ruído.
Sombria e desesperada no fundo da alma, viera passar os derradeiros instantes junto da filha agonizante, pois os médicos lhe tinham dito não alimentar esperança alguma.
A vista de um homem ajoelhado à cabeceira de Neith a surpreendera, mas, reconhecendo Roma e notando a sua concentração extática, compreendeu que ele orava, e, como se tão ardente invocação a contagiasse, foi tomada igualmente do desejo de orar.
A piedade humilde e confiante faltava totalmente à orgulhosa filha de Tutmés I, que se automirava por descendente dos deuses.
Os desenganos e os sofrimentos que a haviam atingido durante a existência, despertaram-lhe cólera e rebelião; as vitórias pagara às divindades, com dádivas e sacrifícios dignos delas e dela.
E para obter a cura de Neith oferecera sacrifícios em todos os templos de Tebas; mas, a ideia de orar — ela mesma — nunca lhe ocorrera.
No momento, à vista daquele fino rosto imobilizado, fiel imagem do único homem que amara, a alma cedeu, e ela se sentiu tão fraca e impotente quanto o mais pobre dos seus súbditos.
Junto daquele leito de morte, cessava o seu poder; contra a força incoercível que ia apossar-se do ser que ela amava, só lhe restava um recurso: a prece.
Baixando a altaneira fronte, mãos juntas de encontro ao peito, Hatasu orou, pela primeira vez quiçá, do fundo da alma, aproximando-se, súplice, da divindade.
Enquanto os dois amorosos corações por ela assim rogavam, ligeiro rubor coloriu as faces diáfanas de Neith, sua respiração acentuou-se, as pálpebras fecharam e o torpor mudou-se em sono.
Erguendo a cabeça, a rainha notou, de imediato, essa transformação, estremeceu, aproximou-se vivamente e, cheia de nova esperança, inclinou-se sobre a doente.
Tal movimento despertou Roma do êxtase; recuou rapidamente, para saudar Hatasu, segundo a etiqueta, mas esta, voltando-se para ele, com a maior benevolência, pousou-lhe a mão sobre o ombro, e disse:
— Tua prece, Roma, esclareceu-me, e juntei à tua a minha rogativa.
Talvez os Imortais nos dêem o que recusaram às dádivas e sacrifícios e à ciência dos nossos médicos:
a vida de Neith!
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