Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Página 7 de 8 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 14, 2017 8:46 pm

Convenci-me também de que nenhum coração mais fiel do que o teu vibra por esta criança, que te amou de toda a alma, antes do veneno lhe perturbar a razão.
Eu te prometo, pois, nesta hora solene, que, se Neith restabelecer-se e seu coração voltar a ti, farei dela tua esposa.
Fremente, sob a acção de múltiplos sentimentos, o moço sacerdote prosternou-se e agradeceu à rainha; depois, colou os lábios nos dedos mornos de Neith.
E, quando, meia hora mais tarde, veio o médico, este constatou que a enferma dormia profundamente, o corpo inundado de abundante suor.
E murmurou, com os olhos a brilhar:
— Filha de Ra, um grande milagre acaba de operar-se, pela vontade de teu divino pai:
a princesa viverá!
Durante a convalescença de Neith, que com extrema lentidão retornava à vida e à saúde, uma outra vítima de Horemseb olvidava suas desventuras e sofrimentos, com a despreocupação da mocidade:
Ísis, que, de dia para dia, recobrava as forças e beleza.
Por outro lado, sua posição em Tebas era tão agradável, que contribuía consideravelmente para o restabelecimento moral e físico.
Tornara-se herdeira rica, graças à generosidade da rainha, que, aos haveres de Hartatef, juntara ainda a soberba moradia doada por Tutmés a Neftis e que ficara também sem dono.
Além disso, a parte que tomara no sangrento drama do nigromante rodeara-a de romanesca auréola, e excitara geral interesse em seu favor.
Nas mais aristocráticas casas, recebiam-na com agrado, e Roant tomara verdadeira amizade por ela.
Ísis era, pois, frequente visitante do lar do chefe das guardas, agora aumentado de uma sobrinha, filha de um irmão, da qual fora recentemente nomeado tutor.
Asnath e Ísis simpatizaram-se rápida e mutuamente, e muitas vezes um círculo de adoradores e pretendentes reunia-se na hospitaleira mansão de Chnumhotep, em torno das duas moças.
Entre os mais frequentes visitantes, e melhor acolhido, contava-se Keniamun, ao qual o chefe das guardas e esposa mostravam constante gratidão, pela auspiciosa interferência que lhes propiciara o casamento.
Roant, principalmente, não podia pensar sem tremores na sorte amarga que lhe estaria reservada se se unisse a Mena, o libertino, egoísta e perdulário, e olhava Keniamun, que a prevenira tão oportunamente, como sendo o fundador da sua felicidade.
As visitas, cada vez mais amiudadas, do oficial tinham, aliás, um determinado fim:
desposar Ísis, agora bastante rica para lhe assegurar independência, e da qual apreciara o espírito, a honestidade e o denodo.
A jovem também se habituara a ele: a sua vida em comum em Mênfis, desde a conjura contra Horemseb, havia criado entre ambos uma intimidade e uma solidariedade excepcionais.
Assim, acolhia favoravelmente as aproximações do moço oficial, que Roant protegia abertamente, persuadindo Ísis de que precisava de um protector, e de que jamais encontraria esposo mais digno do que Keniamun.
Ísis deixou-se convencer sem muita dificuldade; o amor que lhe inspirara Sargon dormitava sempre no fundo do coração, mas, o príncipe estava morto, sem jamais haver correspondido, por um olhar sequer, ao seu tácito e fiel afecto. Keniamun era jovial, bom, amável, conhecia o seu antigo pendor amoroso, e a perdoava.
Que poderia desejar de melhor?
Em vista de tão boas disposições de ambos os lados, não demorou o noivado, e, quatro meses após a morte do bruxo, festejou-se o matrimónio de Ísis e Keniamun, na residência de Roant, que assim quis fazer-se de mãe da desposada.
Mais de um, entre os jovens, invejou a boa fortuna de Keniamun, porém, nenhum com o despeito de Mena, não que este pensasse em casar-se com Ísis, pois, em sua vaidade, considerava-a muito inferior pela origem, e sim porque toda a felicidade alheia o irritava.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72053
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 14, 2017 8:46 pm

Em verdade, ele pretendia reparar sua situação por meio de casamento rico, mas, depois do fracasso com Roant, não tinha tido sorte, e muitos soberbos partidos lhe haviam fugido das mãos, e o pensar que Keniamun encontrara uma formosa e rica mulher, ofuscava-o, numa espécie de ofensa pessoal.
Apesar do seu património, dos subsídios de Neith e das consideráveis somas que houvera de Horemseb, estava sempre carente de dinheiro, e seu conceito, em Tebas, deixava muito a desejar.
Nos últimos tempos, principalmente, perdera muito no jogo, e sua ligação com celebrada cortesã, dera bastante que falar em toda a cidade.
Tal reputação de dissipador e libertino, afastava as mulheres ricas e sensatas; Mena, porém, disso não desconfiava, e, na sua fatuidade cega, considerava-se irresistível.
Entretanto, a contrariedade que experimentara com o matrimónio do colega seria esquecida, quanto outras do mesmo género, se um fútil incidente não o tivesse impelido para uma nova pista.
Mena era assíduo frequentador da casa de Tuaá:
apreciava as festas originais, os banquetes soberbos que a viúva e sua filha organizavam, com refinado gosto, e eram ponto de encontro da “juventude dourada” de Tebas e de todas as belas mulheres que não faziam questão de prudência e virtude.
Em uma dessas reuniões, alguns dias depois do casamento de Keniamun, falava-se da festa que Roant dera por aquela ocasião.
— Sim, foi soberba, diverti-me maravilhosamente, e desejaria que semelhante festa se repetisse em breve — exclamou um oficial, que fizera entusiástica descrição da felicidade de Keniamun e da formosura da noiva.
E acrescentou, a rir:
Mena, tu bem podias ensejar essa oportunidade, casando-te.
Asnath, a sobrinha de Chnumhotep, parece ter sido criada com endereço a ti: é encantadora e imensamente rica.
— O caso oferece apenas uma dificuldade: ele não frequenta a casa do chefe das guardas, pois ali vê sempre, em Roant, o desdém que a fez colocar a coroa de noivado na cabeça do vizinho da esquerda, em vez do da direita — observou, maliciosamente, Nefert.
Mena enrubesceu vivamente, e respondeu, despeitado:
— Só posso felicitar-me de tal desdém, que me poupou de uma esposa ciumenta, coquete e passavelmente madura.
Chnumhotep bastante se enciumava a esse tempo, e, à conta própria, mentiu muito a meu respeito, e, por suas intrigas, chupitou a viúva. Foi bem punido, porque não é ele, e sim a mulher, quem manda em casa.
— Toma cuidado, para que ele não te prejudique ainda uma vez, fazendo que a sobrinha saiba que és jogador, perdulário e caçador de mulheres — disse, chacoteando, a incorrigível Nefert.
— Seria duvidoso para ele vencer desta vez, se eu tentar a aventura; não sou daqueles que as mulheres recusem para marido — respondeu Mena, empertigando-se, com fatuidade.
Esta palestra, provocada por acaso, chamou a atenção de Mena para Asnath, e, por duplo motivo, lhe inspirou o desejo de desposá-la.
Primeiramente, soube, de segura fonte, que os haveres da jovem eram dos mais consideráveis; depois, nele fervilhava a vontade de causar um dissabor a Roant e ao marido, forçando-os a conceder-lhe a sobrinha, malgrado a frieza e nenhuma estima que lhe testemunhavam, desde o caso da múmia penhorada.
Contudo, o projecto era de difícil execução, e, após algumas infrutíferas tentativas de aproximação, Mena, que se estimulara cada vez mais, resolveu empregar um meio extremo.
Mas, para boa compreensão do plano que forjou, durante uma noite de insónia, é mister retrogradar e referir alguns fatos supervenientes, desde a descoberta dos crimes de Horemseb.
Quando da prisão do príncipe Tutmés, após o assassínio de Sargon, Mena estava de guarda nos apartamentos do prisioneiro, e foi colocado na porta da câmara onde o situaram.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72053
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 14, 2017 8:47 pm

Tutmés, ao recobrar os sentidos, estava extremamente agitado, e encarava a sua situação sob as cores mais sombrias.
Pensou, com secreta aflição, em que, se um inquérito descobrisse ser Neftis, a mulher que ele enriquecera, possuidora do formidoloso veneno do feiticeiro, isto constituiria perigosa arma contra ele.
Atormentou o espírito para encontrar um meio de suprimir das mãos de Neftis o frasco vermelho, o delator testemunho.
A presença de Mena, que julgava ser-lhe inteiramente dedicado, pareceu-lhe um favor dos deuses, e, aproveitando o primeiro momento propício, ordenou ao oficial dirigir-se secretamente à casa de Neftis, inabitada naquela ocasião, e procurar, entre as coisas domésticas da jovem ausente, um frasco que descreveu minuciosamente, pelo achado do qual prometeu régia recompensa.
Ao amanhecer, quando substituído, Mena executou a incumbência, sem êxito, porém, na busca, e só os falatórios nas ruas, a respeito dos sortilégios de Horemseb, abriram-lhe os olhos sobre o conteúdo do frasco desejado por Tutmés, e esclareceram para ele, com uma nova luz, o súbito favor do príncipe.
Lamentou não ter encontrado o precioso vidro, mas, com a habitual duplicidade, resolveu prevenir Horemseb do perigo que o ameaçava.
Já descrevi, em lugar próprio, a visita de Mena ao palácio de Mênfis, mas deixei de mencionar, que, tendo ouvido de Horemseb a notícia da morte de Neftis, dirigiu-se, ao sair do palácio, a casa desta, guiado pelas indicações do príncipe, e, lá penetrando sem dificuldade, atordoou com imprevista bordoada o pobre velho escravo que vigiava a porta.
Desta vez, foi feliz, porque achou o frasco, pela metade com o perigoso líquido.
Primeiramente, pensou em captar, com esse achado, as graças de Tutmés ou da própria rainha, conforme as circunstâncias, mas, regressando a Tebas, encontrou diferentes situações:
o jovem vice-rei da Etiópia deixara a cidade nessa manhã, e, pelo rumo que tomava o processo, julgou mais prudente ocultar a viagem a Mênfis, e esconder o frasco.
Foi a esse meio infalível que Mena resolveu recorrer, para assegurar-se do amor e da mão de Asnath; mas conhecia todo o perigo do cometimento, e agia com tanta astúcia quanto prudência.
Precisava principalmente precaver-se de Roma e Neith, que poderiam identificar o perfume delator, Isso porque, além do mais, escolhera a casa da irmã para principal teatro da sua maquinação.
Asnath ia ali muitas vezes, sozinha ou acompanhada de Roant, e em nenhum lugar teria tanta facilidade de aproximar-se da jovem.
Cautelosamente, espreitando cada ocasião favorável, pôs em execução o projecto.
Impregnara de perfume um precioso amuleto, que prendia ao colar, quando, sem ser observado, se encontrava com Asnath, e, então, buscava meio de fazê-la examinar a jóia, cujo aroma agia tão violentamente sobre a moça, que ela se sentia mal, sem suspeitar, como era natural, qual a origem da indisposição.
Mena, ele mesmo, também sofria idênticas consequências, cada vez que usava o amuleto, isto porque Ignorava qual a dosagem suficiente.
Contudo, o projecto triunfou, Asnath cativou-se violentamente por ele, visitou Neith, cada vez mais, e terminou por declarar a sua paixão.
À vista disso, Mena fez-lhe beber algumas gotas do líquido, para prendê-la definitivamente e tornar impossível um recuo.
Em consequência de tal ingestão, Asnath ficou gravemente indisposta, teve febre, e misturou o nome de Mena a todas as fases das divagações; porém, a jovem e robusta natureza venceu o veneno, restando apenas uma irritação excessiva e um cego amor pelo oficial.
Roant e o marido estavam desolados:
o pensamento de dar a sobrinha ao libertino jogador, que tanto desprezavam, exasperava-os, e Asnath estava a tal ponto exaltada e rebelde a qualquer persuasão, que temiam um escândalo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72053
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 14, 2017 8:47 pm

De resto, nem por um instante sequer tiveram Ideia de que esse amor tivesse causa oculta, e uma única pessoa disso teve desconfiança: Roma.
O langor de Asnath mesclado de superexcitação, lembrava o estado de Neith, e muitas vezes surpreendera em Mena um olhar estranhamente inflamado e olhos perturbados, semelhantes aos de ébrio, embora sabendo que o oficial não podia embebedar-se assim subitaneamente, nada tendo bebido.
Em vão o moço sacerdote observou e fez perguntas à jovem: nada surpreendeu de decisivo, e as respostas de Asnath convenceram-no de que jamais lhe haviam sido oferecidas rosas vermelhas, e de que tal amor não evocava com elas qualquer fato particular.
Algum tempo depois, Mena fez o seu pedido, e, se bem que a contragosto, foi aceito e recebido, na qualidade de noivo, na casa do chefe das guardas, e o casamento marcado para três semanas a partir dessa data.
Mena, no auge do triunfo, azafamou-se activamente em preparar uma principesca residência para receber a linda esposa; ancho de orgulho, atirava ouro a mancheias e a arrogância não tinha limites; experimentava uma satisfação toda particular com a cólera, apenas disfarçada, de Chnumhotep e da esposa.
Sem embargo da brilhante vitória de todos os seus projectos, a vaidade superexcitada sonhava novos triunfos, e, querendo assinalar o matrimónio com algo de especial e grandioso, buscando alguma invenção adequada a esse fim, teve a desastrada ideia de fechar a sua vida de solteiro com várias conquistas fora do comum.
Não possuía ele o irresistível meio de fazer-se amar?
E que ciúmes despertaria a sua boa sorte, se as belas mulheres de Tebas se apaixonassem por ele, mesmo na véspera do casamento, e suspirassem a seus pés, abandonando traidoramente maridos e amantes!
Tal projecto arrebatou-o, positivamente, e, sem mesmo pensar nas possíveis consequências de tão infame abuso de confiança, dirigiu-se à casa de Tuaá, que havia escolhido, não para confidente, mas para instrumento de suas futuras conquistas amorosas.
Após amistosa conversação, Mena declarou à viúva ter ido solicitar-lhe o grande favor de organizar em sua casa uma grande festa, custeada por ele, e que ali reuniria uma vintena de mulheres designadas por ele.
— Quero, uma última vez, em plena liberdade, estar em festa, com pessoas amáveis, que sempre me testemunharam muita bondade, e oferecer a cada uma delas uma lembrança — disse, a rir.
Não as posso convidar para minha casa, e mais tarde terei mesmo de manobrar com os ciúmes de Asnath, que são ferozes.
— Isso quer dizer que, por algum tempo, seremos privados da tua convivência, porque, sem dúvida, a tua futura nos detesta, tanto quanto essa delambida de Roant — respondeu Tuaá, alegremente.
Não importa!
Aquiesço ao teu pedido e reunirei minhas amigas, em tua honra, mas, a minhas expensas.
Mena protestou, e, após discutirem, ficou assentado que o oficial ofereceria as frutas e o vinho, e Tuaá o restante necessário para o festim, que foi marcado para a antevéspera do casamento.
No dia da reunião, Mena remeteu desde cedo as provisões combinadas, mas, fechado na sua câmara, preparou sozinho a bebida enfeitiçada que lhe devia proporcionar um triunfo, com o qual já se deleitava por antecipação.
Decidira oferecer a Tuaá magnífica ânfora esmaltada, cujas alças, ornamentos e tampa (em forma de cabeça de bode) eram de ouro; às outras mulheres, em número de vinte duas, Nefert inclusive, copos ricamente incrustados.
Fez encher a ânfora do mais caro vinho e nela despejou, sem pestanejar, uma quantidade do perigoso líquido que teria bastado para Horemseb gastar em suas orgias durante um mês.
O vinho fervilhou por momentos, pareceu enegrecer, mas, ao termo de um minuto, retomou a primitiva coloração e aparência; o aroma, suave porém atordoante, que imediatamente se espalhara no ambiente e causara um rubor flamejante nas faces de Mena, evaporou-se rápido.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72053
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 14, 2017 8:47 pm

Perfeitamente satisfeito, trauteando licenciosa canção, repôs o frasco, quase vazio, na caixinha onde o escondia.
Chegando à casa de Tuaá, encontrou todos reunidos.
As frívolas e lindas criaturas, de reputação um tanto esfolada, frequentadoras da viúva, formavam um enxame brilhante e enfeitado, que rodeou o herói da festa, duplamente herói, porque era o único homem presente.
Palestrou-se alegremente, e, depois, foram para a mesa.
Ao meio do repasto, Mena voltou-se para a dona da casa e pediu desse entrada aos escravos que aguardavam fora com as dádivas destinadas aos convivas.
A vista da admirável ânfora e dos copos magníficos, a própria Tuaá ficou maravilhada, e um verdadeiro coro de louvores elevou-se para gabar a generosidade do doador.
Mena recusou os agradecimentos, com amável modéstia, e, pegando a ânfora, fez ele mesmo o giro em torno da mesa, enchendo os copos, que as mulheres esvaziaram de uma vez, à sua saúde.
Em seguida, voltou ao seu lugar e observou, com astuta curiosidade, o que ia acontecer.
Bem pronto, a jovialidade tomou estranho colorido de animação: rubores súbitos correram pelo rosto e pescoço das mulheres, olhares ardentes e apaixonados firmaram-se sobre o oficial, que, extremamente divertido e fingindo indiferença, aguardava o momento em que todas se prosternariam a seus pés.
Saboreando de antemão esse triunfo, considerava-se um segundo Horemseb em seu palácio de Mênfis.
Apesar da astúcia e da duplicidade que desenvolvia por vezes, quando a sua rapacidade estava em causa, Mena era um homem curto e de inconcebível cegueira na vaidade.
Sem dúvida, fosse ele homem de inteligência, não teria jogado imprudentemente com o terrível veneno, cujo emprego, quando não estritamente dosado, acarretava, infalíveis, a loucura ou a morte.
Sem tal cegueira, ter-se-ia amedrontado ante a cor violácea que tingia as faces das vítimas, com o brilho sinistro dos olhos, com os tremores convulsivos que lhes sacudiam os corpos, com os olhares, ávidos e selvagens, que aquelas belas aleonadas firmavam sobre ele, curvadas sobre si mesmas, à maneira dos tigres quando se aprestam para saltar.
Mas, couraçado na sua orgulhosa estupidez, não enxergava, nem compreendia coisa alguma, quando, subitamente, dois braços fecharam-se sobre o seu pescoço, em um nó férreo, e um hálito de fogo queimou-lhe a face:
era Nefert, que, olhos injectados de sangue, espumando na boca, se prensava contra ele.
Tomado de assombro e de contrariedade, quis repeli-la, mas, como que hidrófoba, ela mais se agarrou e lhe ferrou os dentes no rosto.
Mena gritou, debateu-se, quis fugir, porém já outros braços enlaçavam-lhe o talhe e as pernas; de todos os lados, corpos flexíveis comprimiam-no, semblantes horrendamente crispados, de bestial expressão, inclinavam-se para ele e lhe metiam as unhas na carne, com uivos de animal feroz.
Mena era robusto, o terror decuplicava-lhe as forças e resistiu, por instantes, ao furioso ataque da matilha embravecida, que ele mesmo havia excitado.
Calcado de todos os lados, de pernas para cima, meio sem respiração, rolou por terra, retorcendo-se por entre gritos atrozes, no meio da pequena turba humana que rugia em seu redor.
Toda esta cena desenrolara-se tão rapidamente, que os escravos, petrificados, não sabiam que pensar.
Afinal, alguns homens, dos mais corajosos, tentaram desprender Mena, mas, atacados por sua vez pelas loucas furiosas, tombaram cobertos de mordeduras, ou fugiram espavoridos.
Gritos e alarido encheram todo o prédio, e, não sabendo mais que fazer, dois dos servos, desvairados, correram à casa de Roant, que era a mais próxima.
Roma estava precisamente palestrando com a irmã e Chnumhotep, que chegara do palácio real.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72053
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 14, 2017 8:47 pm

À notícia do inexplicável acontecimento, os dois homens correram para o carro, ainda não desatrelado, do chefe das guardas, e, a toda a brida, rumaram para a residência de Tuaá.
Compacta multidão já atravancava os acessos da morada nefasta, mas, avistando Chnumhotep e o jovem sacerdote, ambos conhecidos em Tebas, os circunstantes recuaram e abriram passagem aos recém-vindos.
Guiados pelo velho intendente, que, em voz entrecortada, referia o quanto soubera da catástrofe, Roma e seu companheiro penetraram na sala do festim, transformada tão inopinadamente em campo de carnagem.
Espectáculo horroroso e comovedor ofereceu-se a seus olhares:
sobre o chão, juncado de cacos da louça, no meio de poças de vinho e sangue, retorciam-se, em atrozes dores ou convulsões de agonia, escravos e mulheres com as vestes despedaçadas, semblantes descompostos, enchendo o ar com gemidos.
Junto da mesa, um monte de corpos movia-se fracamente.
Mudo de horror, Roma avizinhou-se de uma jovem que fora amiga de Noferura e estivera algumas vezes em sua casa.
Agachada, olhos fora das órbitas, apertando a cabeça com ambas as mãos, a infortunada criatura vomitava jactos de sangue negro e espuma, mas, quando o jovem sacerdote se curvou para ela, cheio de piedade, no intuito de erguê-la, soltou uma exclamação, recuando:
o terrível aroma tão conhecido; agora, porém, acre e nauseante como jamais conhecera, feriu-lhe o olfacto.
— Água! Água! — gritou, correndo para a saída e arrastando Chnumhotep.
Imediatamente, expediu um recado ao templo de Amon, chamando os médicos, e um segundo mensageiro para vir força armada e cercar a casa.
Sob a direcção de ambos, baldes de água foram derramados sobre os corpos em monte e as outras vítimas, e, graças a esse recurso, foi possível separar os infortunados, presos uns aos outros.
Alguns jaziam mortos, outros moribundos, e, quanto a Mena, estava horrível de ver:
o corpo coberto de ferimentos e mordeduras; o cadáver de Nefert permanecia aferrado a ele, à altura da face, com os dentes convulsivamente cerrados.
Nenhuma das mulheres sobreviveu até chegarem os médicos, e os sete escravos mordidos expiraram algumas horas mais tarde, apresentando sintomas de hidrofobia:
ao todo, trinta e uma vítimas, vinte e três mulheres e oito homens, sucumbidos no sinistro banquete, graças à incrível estupidez de Mena e cujo custo pagou com a própria vida.
O inquérito constatou que o vinho fornecido pelo oficial estava envenenado e que o tóxico era o mesmo de que se servia Horemseb; uma busca, levada a efeito no aposento de Mena, fez descobrir o frasco vermelho, que Ísis reconheceu, por haver pertencido ao príncipe.
Mas, por que acaso o veneno do nigromante de Mênfis caíra em poder do oficial?
Isto ficou em mistério.

NOTA DO AUTOR — A evolução ascensional do Espírito faz-se lentamente.
Arrastado pelos maus pendores, atordoado pelas Inevitáveis consequências das suas faltas, permanece por vezes estacionário durante séculos, criando, por seu orgulho e egoísmo, nuvens de Inimigos.
O Espírito Mena, do qual acabo de descrever o lastimável fim, está neste caso.
Os que leram meus livros, publicados anteriormente, já o reencontraram: Radamés, o condutor do carro do Faraó Merneftah; Dafné, em Herculanum; Court de Rabenau, na Abadia dos Beneditinos, esclarecem suficientemente as fases que tem percorrido, e cujo resultado se resumirá na narrativa O Judas Moderno, que tenciono publicar.
Neste será reencontrado Mena, em sua existência contemporânea, sob o nome de Alexandre Hasenfeldt.
Inteligência estreita e mesquinha, coração ingrato e ávido, penosas lutas esperam-no no porvir, para torná-lo apto a subir a escalada do progresso espiritual.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72053
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 14, 2017 8:48 pm

V - A FESTA DO NILO

A morte de Mena e das vítimas de sua imprudência teve imensa repercussão em Tebas, e as mais diversas murmurações circularam sobre o acontecimento; mas a verdade verdadeira só foi conhecida de poucas pessoas, porque a rainha e os sacerdotes julgaram ser preciso pôr fim ao escândalo provocado por Horemseb, e não ressuscitar novamente a lembrança dos seus crimes.
Acreditou-se geralmente que o vinho ou os alimentos tinham sido envenenados em virtude de lamentável e inexplicado acidente.
Depois, novos acontecimentos fizeram esquecer a lúgubre história.
Neith também conheceu esta última citada versão, e vale dizer que acolheu a notícia da morte do irmão com bastante calma, pois, desde o incidente da penhora da múmia paterna, Mena se lhe tornara antipático; desaprovava-lhe a conduta frívola, as dissipações, e viu naquela morte trágica como que uma punição merecida.
A jovem viúva de Sargon estava agora completamente restabelecida, ao menos no físico; recobrara o frescor, toda a elasticidade da juventude; seu sono e apetite não deixavam nada a desejar; mas, no moral, sofrerá estranha metamorfose: tanto Neith fora impulsiva, teimosa, caprichosa e exaltada, quanto agora era dócil, apática e silenciosa.
Durante horas, sonhava, estendida num leito de repouso: não estava triste, seu brilhante olhar não espelhava preocupação alguma; apenas, era indiferente a tudo, e parecia agir maquinalmente.
Roma visitava-a assiduamente, rodeando-a, tal qual outrora, de cuidados e de amor.
A distraída benevolência que Neith lhe testemunhava não desencorajava o moço sacerdote:
atribuía aos efeitos do veneno enfeitiçante aquela apatia moral, e porque jamais ela pronunciava o nome de Horemseb, nem dele pedia informações, Roma esperava que o tempo, o supremo remédio, apagaria as recordações nefastas, e que em seus braços Neith, finalmente, reconquistaria a felicidade.
Esta esperança era, no íntimo do coração, partilhada pela rainha, de início seriamente inquieta pela transformação de Neith; a união com o jovem e belo Roma, que tinha sido o primeiro e vero amor, devia constituir o melhor curativo para a sua alma dolorida; sob a égide de tão puro e fiel afecto, ela devia renascer para a total ventura.
Hatasu atribuía a miraculosa cura de Neith às preces fervorosas de Roma, e, desde o dia em que o surpreendera junto da agonizante, testemunhava-lhe especial benevolência.
Recompensando os serviços prestados por ele, quando dos inconcebíveis envenenamentos produzidos em Tebas pelas rosas enfeitiçadas, concedeu-lhe elevado cargo no palácio, e distinguia-o em todas as ocasiões, pelo que ninguém duvidou de que estes favores evidentes do Faraó pressagiavam a Roma brilhante carreira.
Certo dia, aproximadamente oito meses depois da morte do feiticeiro, a rainha, regressando de uma cerimónia religiosa, retirou-se para os aposentos, a fim de repousar. Despediu todos, com excepção de Neith, e, quando ficaram a sós, abraçou-a e disse, afectuosamente:
— Desde há muito, minha querida filha, desejo falar-te seriamente:
vejo-te restabelecida, formosa, com belas cores, tal qual outrora, e, apesar disso, teu coração parece deserto, tua jovialidade desapareceu.
Creio que só um verdadeiro amor e novos deveres poderão dar força à tua fatigada alma.
— Queres que me case, mas com quem? — perguntou Neith, estremecendo e firmando, ansiosamente, os olhos no rosto da rainha.
— Sim, esse é meu desejo, porém, se consentires nisso e se teu coração aprovar minha escolha.
Mas, ouve o que me inspirou esse pensamento: durante a tua recente enfermidade, acreditamos num fim fatal, pois foras considerada agonizante, e, tendo-me Amenefta prevenido disso, fui, com o desespero na alma, velar os teus derradeiros instantes.
Ao entrar, vi um homem ajoelhado à cabeceira do teu leito:
orava, como jamais eu havia visto orar.
Semelhante invocação devia chegar ao trono dos Imortais, e a presença da divindade iluminava a fisionomia do suplicante; um sentimento desconhecido tocou-me e me fez compreender que os sacrifícios e as oferendas não são sempre dádivas suficientes, e que o nosso coração, sofredor e cheio de humildade, é o que devemos depor aos pés dos deuses, se queremos ser ouvidos...
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72053
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 14, 2017 8:48 pm

E, então, pela primeira vez, também eu atraí, súplice, a divindade, implorando-a.
O homem que assim orava era Roma, e, quando ambos rogávamos a Ra conceder-te a vida, um milagre operou-se:
o teu estado de agonia transformou-se em benfazejo sono, e, ao regressar, Amenefta declarou que estavas salva.
Foi, então, que- prometi ao jovem sacerdote que, se te restabelecesses e teu coração confirmasse minha palavra, eu te faria sua esposa.
Durante esta narrativa, um refulgente rubor inundara as faces de Neith, e seus olhos brilharam tal qual em outros tempos.
— Acreditas que Roma ainda me ama, e que, unindo-se a mim, será feliz?
— É minha convicção; seu afecto passou pelas mais duras provas, e quem seria mais digno de ti, do que o homem cujo amor te arrancou à inexorável morte?
Contudo, minha querida, não te consideres, de modo algum, ligada pelas minhas palavras.
Já uma vez errei meu alvo, pensando dar-te ventura:
és livre, e somente se o amas, se desejas esta união, eu porei a tua mãozinha na mão de Roma.
Neith ficou pensativa por alguns momentos; depois, curvando-se para a mão da rainha, murmurou:
— Tua vontade é a do teu povo, tua sabedoria guia todo o Egipto, desde o primeiro ao último; só tua filha buscaria uma outra autoridade?
Seja feito como dizes: que a vida por ele salva a ele pertença!
* * *
Tal qual o dia em que começou a nossa narrativa, Tebas festejava a enchente do Nilo:
com excepcional abundância, as benfazejas águas inundavam os campos e enchiam, até às bordas, os numerosos canais que cortavam em todos os sentidos a vasta capital.
Aparentemente, nada, desde então, havia mudado: tal qual um quinquénio antes, uma alegre e enfeitada multidão atopetava as ruas e o cais, e, junto da larga escadaria de granito, a flotilha de aparato esperava, para conduzir ao templo a rainha e seu séquito.
Sem demora, apareceu o cortejo, e Hatasu tomou lugar em sua barca.
Entre os portadores dos leques que a seguiam estava Roma, elevado a essa alta dignidade por ocasião do seu matrimónio com a favorita do Faraó.
Das embarcações mais notáveis que se juntaram à procissão real, notava-se uma ampla, magnificamente ornada, movida por possantes remeiros, ricamente vestidos, e ocupada por seis pessoas.
Os lugares de honra foram reservados para Neith e Roant; “vis-à-vis” a elas, Keniamun e a esposa; depois, Asnath, recentemente noiva de Assa (o filho mais velho de Satati), ao lado deste.
Todos conversavam alegremente; apenas Neith permanecia calada e, em sombrias miragens, olhava o rio coalhado de centenas de embarcações; em seus atavios, coberta de jóias, a jovem esposa de Roma estava admiravelmente formosa, mas de novo emagrecera e empalidecera, uma ruga dura e amarga vincava-lhe a pequenina boca, e, sob a fria calma dos traços e do olhar, parecia esconder surda irritação.
Neith pensava no passado, na solenidade, igual àquela, a que assistira um lustro antes:
Hartatef, então, a perseguia com obstinado amor, enciumando Keniamun, que ela julgava amar; agora, Hartatef estava morto, Mena também, e tantos outros, um — principalmente — cujo nome nunca pronunciava e de quem ignorava o fim que tivera e que, sem dúvida, perecera por alguma afrontosa morte.
Ela mesma quanto suportara, desde aquela festa do Nilo em que, descuidada, caprichosa e tagarela, havia desdenhado o tenaz adorador e sonhara desposar Keniamun, agora casado com outra!
Parecia-lhe haver decorrido uma eternidade, que envelhecera e que quadros de longínquo passado estavam desfilando ali diante do seu espírito.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72053
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 14, 2017 8:48 pm

— Em que devaneias tu, Neith? — indagou Keniamun, vendo-a suspirar e inclinando-se, jovialmente, para ela.
A interrogada estremeceu e contestou, com um pálido sorriso:
— Pensava em todas as transformações verificadas desde a enchente do Nilo que festejamos há um quinquénio:
recordava que, então, Hartatef nos conduzia em sua barca; nós te encontramos, Keniamun, e em seguida Tuaá e Nefert, que quase fizemos naufragar e carregarem Mena com elas.
Todos quatro já desceram ao Amenti...
Pois bem: eu meditava sobre o pouco tempo que é necessário para aniquilar tantas vidas, ou destruir uma, como aconteceu com a minha!
— Tu não pensas no que dizes, e no que pensaria Roma, se te ouvisse — comentou Roant, em tom de severa censura.
— Roma não ignora isto que penso; ele compreende que minha vida está destruída, e encara o caso com calma — respondeu, supercílios franzidos.
Ele me condena a perder a paciência, e faz tão pouco caso de mim, que tenho razão de crer que lamenta seu casamento — concluiu, tão baixo, que só a amiga a ouviu.
Notando o curso que a conversação tomava, Keniamun voltara-se, entabulando álacre palestra com os outros companheiros; todavia, seu fino ouvido apanhou a resposta que murmurara Roant:
— Tu não crês no que dizes, Neith; tu própria repeles Roma, e, sem compaixão, o tornas infeliz.
Mereceu isso pelo seu fiel amor?
Por um homem do seu valor, não vale fazeres um esforço para te ergueres, para sacudir essa apatia, essa moleza de alma que te corrói?
Tem um pouco de boa-vontade que seja, renuncia às quimeras malsãs e sem objectivo, busca convivência e distracções, e o passado se apagará.
A existência não se mostra radiosa diante de ti?
Recuperaste a saúde, teu esposo, cumulado de honrarias pelo Faraó, eleva-te a uma altura digna de ti, ele te ama... e tu recusas ventura e amor!
Neith voltou-se, sem responder, e, durante o resto do passeio, fechou-se num mutismo obstinado; mas, quando retomaram o caminho do lar, tornou à cunhada e disse-lhe, taciturna:
— Peço-te, Roant, que me conduzas à minha casa, sinto-me fatigada e ligeiramente indisposta; escusa-me por não tomar parte na festa que dás.
— De novo te distancias e foges dos teus — observou, descontente, a esposa do chefe das guardas.
Que dirá Roma não te encontrando, ao regressar de palácio?
Os lábios de Neith tremeram nervosamente.
— Nada, e porque jamais diz nada, talvez nem se aperceba da minha ausência!
— Não compreendo coisa alguma do teu azedume, e não posso crer que te haja tratado com cólera — observou Roant, surpresa com o acerbo tom.
Não recebendo resposta, calou, e, quinze minutos mais tarde, a barca detinha-se junto da escadaria do palácio de Sargon.
Neith desceu, ajudada por Keniamun, saudou a todos com aceno de mão, e rumou apressada para os seus aposentos.
Com impaciência nervosa, desembaraçou-se das jóias que a adornavam, da pesada vestimenta bordada, do “claft” que parecia apertar-lhe a testa, e, enfiando ligeiro vestido de linho, envolveu-se num véu de gaze, e voltou ao terraço, onde se estendeu num leito de repouso, abandonando-se a profundo devaneio.
Pela centésima vez, tentava, com dolorosa tenacidade, escrutar os seus próprios sentimentos, e julgar de sua situação.
E, ainda uma repetida vez, pungente sensação de isolamento e de abandono fechou-lhe o coração e fez descer pelas faces algumas silenciosas lágrimas.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72053
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 14, 2017 8:48 pm

Havia apenas seis meses que casara e já a felicidade lhe fugira.
Mas, podia ela queixar-se? A consciência respondia: “não”!
E, com profundo desgosto, dizia a si mesma que se comportava mal; estava, porém, aclimatada àquela negligência, àquela apatia, comprazia-se na indiferença.
Acolhera com indolente frieza a apaixonada adoração do jovem esposo, suportava-lhe o amor como se fosse tributo obrigatório, retribuindo tudo com benevolência morna, até que Roma, profundamente melindrado, desistiu, abandonando-a a ela própria, não mais lhe impondo a convivência, nem a ternura.
Esse isolamento despertou-a; algo da antiga Neith nela se agitou; o espírito de oposição ergueu a grimpa, primeiramente, e depois lhe subiu ao cérebro; Roma, o dócil escravo, ousava revoltar-se, fugir-lhe, com desdém e indiferença!
Subitamente, desejou o amor que menosprezara, mas, o bravo e desmesurado orgulho, que dominava todos os outros sentimentos, soprava-lhe:
— “Irás mendigar um amor que ele retira, e talvez extinto? Nunca!”
Com glacial frieza afastou o marido, cobrindo com triplo véu o vazio do coração, a necessidade de afecto que se reanimara...
E, com verdadeira paixão, voltou a sonhar com Horemseb e com o tempo que passara junto dele.
No entanto, não mais amava o príncipe, sua lembrança não despertava a perturbação entorpecente, não desejava vê-lo, e somente a incerteza quanto ao fim do bruxo por vezes lhe torturava a alma.
Mas, à medida que o passado empalidecia e apagava, o primitivo amor pelo jovem sacerdote renascia, e a convicção de que perdera o afecto do marido, de que de novo o porvir estava destruído, tornava-lhe odiosa a vida.
Ao pensar no humilhante pouco caso com que o esposo a tratava, rubor e palidez alternavam-se nas faces de Neith.
Ainda nesse mesmo dia, Roma não viera saber por que deixara ela de assistir à festa de Roant.
Deixara-se ficar no banquete, quando ela podia estar doente, tendo até dito que se sentia indisposta.
Com as narinas trepidando, ergueu-se, e mandou que lhe servissem uma refeição.
Todavia, não comeu quase nada: cólera e orgulho ferido sufocavam-na.
Regressando ao terraço, retomou a habitual distracção: sonhar com Horemseb, procurando ressuscitar o momento em que, nesse mesmo terraço, ele viera, fascinara-a com o olhar e a levara em sua barca.
Um ruído de ramagem esvaneceu bruscamente todos esses quadros do passado, e, instantes após, firmes e ágeis passos subiram a escada, e a alta e esbelta estatura de Roma apareceu na entrada do terraço, iluminado pelo sol poente. Avistando a esposa, parou, e, depois de curta hesitação, aproximou-se, saudando-a num aceno de mão, e foi debruçar-se na balaustrada.
Neith correspondera por uma Inclinação da cabeça.
O silêncio fez-se.
Roma contemplava o rio palhetado de rubis de luz espalhados pelo sol cadente; ela, deixando que o olhar passeasse pela pessoa do marido, cujo esplêndido traje de cerimónias realçava o belo semblante.
— Não te constrange a minha presença? — indagou ele, voltando-se para Neith, com sorriso ligeiramente irónico.
— Poderia dirigir-te igual pergunta, se não estivesse persuadida de que minha presença te é tão totalmente indiferente, que não a notas sequer.
Nossa união foi um equívoco: eu não devia ter ligado minha existência destruída à tua vida cheia de vigor e de aspirações de futuro.
Quanto a ti, teu amor de outrora degenerou em hábito; teu capricho, uma vez satisfeito, e meus olhos desiludidos, o abismo abriu-se entre ambos, e a convicção deste deplorável erro esmaga-nos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72053
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 14, 2017 8:49 pm

Roma firmou-se e mirou a jovem mulher, com olhar severo e profundo:
— Sim, houve equívoco, mas apenas de minha parte:
acreditei que, com a saúde do corpo, retornasse a da alma; tive por impossível que a memória abominável de um criminoso, que desprezou toda lei, escarneceu de todo sentimento humano, tornar-se-ia ídolo da tua alma.
Existe algum ultraje que te não haja feito sofrer?
Mulher de estirpe, que és, ele te sequestrou e teve por escrava; com infame feitiço, inspirou-te uma paixão vil, que te desconsiderou ante todo o Egipto; teu olhar, puro e virginal, ele o enlodou com a exibição de horrores que fariam tremer uma cortesã!
E todas estas reminiscências não revoltam a tua dignidade feminina?
Teu orgulho, tão sensível para comigo, emudece quando se trata dele, e não tens um pensamento de pesar ou de gratidão para Sargon, o infortunado homem que destruíste, e que, apesar disso, sacrificou a vida para libertar-te de vergonhosa escravidão.
Sonda a tua consciência, Neith, antes de me acusares:
enquanto estiveste doente, tive paciência e esperei, atribuindo ao efeito do veneno teu triste estado de alma; não posso, contudo, ser eternamente cego...
Como devo interpretar esta indiferença, esses inacabados devaneios, a fuga a todas as distracções, às reuniões de família?
Mesmo sofrendo o coração, minha dignidade de homem proíbe-me esmolar um amor que se vota obstinadamente a um ser desprezível; não posso suportar para sempre a humilhação de ser apenas tolerado junto de ti, e devo abandonar-te a ti mesma.
O abismo de que falas é obra tua, mas o teu azedume é injusto; jamais faltei com os cuidados que te devo, e se não posso mais ser um terno esposo, permaneço teu amigo e protector, sempre pronto a amparar-te, assistir, se enfermares, mesmo a distrair-te, se de tal sentires necessidade.
Só não te posso impor a minha presença!
À medida que ele falava, mortal palor e depois vermelhidão ardente alternaram-se no móbil rosto de Neith: tudo quanto dissera o marido não era verdade?
A sua lembrança vieram os tratamentos humilhantes que sofrerá em Mênfis; recordou as ásperas recusas de Horemseb em levá-la em passeio pelo Nilo, a ordem de amarrá-la, como se fosse um animal, para forçá-la a olhar a abominável orgia à qual se negava assistir, e os isolamentos com que punia cada uma das tentativas de revolta, forçando-a, pelo veneno, a implorar, de joelhos, o perdão.
Toda a desesperada fúria que recalcara, acordou, naquele altaneiro orgulho da jovem mulher...
Respirando a custo, como que crispou as mãos de encontro ao seio.
— Que tens, Neith? — perguntou Roma, que lhe notara, inquieto, a súbita transformação.
Calma-te, pobre criança, e esquece minhas acres palavras, acrescentou, pondo-lhe a mão na fronte.
— Tuas palavras são verdadeiras, merecidas — murmurou ela, estremecendo.
Mas, diz-me a verdade sobre um ponto obscuro para mim: pela tua honra, seja qual for essa verdade, eu te acreditarei. Que é feito dele?
— Ainda ele, sempre ele — disse Roma, voltando-se, com tristeza.
Pois bem, fica sabendo, uma vez que o desejas:
morreu, foi encontrado já frio, tendo posto fim à criminosa vida com um veneno que lhe havias levado.
Tu estavas agonizante, pois, sem dúvida, ele quis matar-te igualmente, mas, por feliz acaso, foste salva da morte.
Agora, tudo sabes, e, se me estimas, nunca pronuncies, diante de mim, o nome do maldito, que também destruiu a minha vida.
— Morto! Tudo terminou!
Nunca mais reaparecerá! — balbuciou Neith, respirando a plenos pulmões.
Oh! louvados sejam os deuses!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72053
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 14, 2017 8:49 pm

Perdoa-me Roma, restitui-me teu amor — acrescentou, atirando-se impetuosa ao pescoço do marido.
Quero apagar de meu coração todo esse passado, e amar-te, unicamente a ti, que jamais zombaste da minha fraqueza, cujo amor sempre me perdoou.
Mas, podes crer-me ainda, Roma, e ajudar-me a encontrar a força de viver, de tornar-me digna do teu afecto?
Uma torrente de pranto impediu-a de prosseguir.
— Podes duvidar de que tudo perdoe e tudo esqueça, desde que tu me és restituída, e tua alma, liberta da sombra fatal que a obscurecia, minha querida esposa? — murmurou ele, abraçando-a com amor.
Sentaram-se no leito de repouso, e, em íntima conversação, expandiram os corações tão longamente separados.
A noite chegara, depois o luar surgira, sem que os ditosos de tal se apercebessem.
De repente, Neith estremeceu e retesou-se, tremente; seus olhos, dilatando-se, fixavam-se num ângulo do terraço.
— Que tens? — interrogou ele, pegando-lhe a mão.
— Não viste ali a sombra de um homem?
Parecia rubro, da cor de sangue, e seus dedos estavam estendidos para mim.
— Assim te pareceu; porém, repara!
No terraço não há ninguém.
Neith acolheu-se a ele.
— Oh! Roma, disseste que ele morreu, mas, ignoras que não pode morrer, porque tem com ele a vida eterna?
Se viesse vingar-se de mim, vendo que o esqueci! Não sei por que, tenho medo!
Calma-te, querida, e olvida esses sonhos malsãos; ele está bem morto, e nada mais perturbará teu repouso.
Agora, vem, é tempo de entrar em casa.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72053
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 14, 2017 8:49 pm

VI - O VAMPIRO

A noite estava esplêndida; no céu azul-escuro, a Lua refulgia, com brilho desconhecido no Ocidente, e sua argêntea luz inundava a Tebas adormecida após o trabalho do dia, e apenas alguns vagos rumores denotavam que a vida do colosso nunca se extinguia totalmente.
Nas imensas construções do templo de Amon-Ra reinava profundo silêncio, interrompido somente pelos “alerta” dos vigilantes.
Os servidores do potente deus repousavam.
Não deviam estar aprestados, desde os albores da aurora, para saudar a sua vitoriosa renascença do reino das sombras?
Em um pequeno pátio, deserto e isolado, nos confins do sacro âmbito, os raios lunares desciam de cheio sobre alto e largo muro, pintado a cal.
Súbito, nessa superfície de um branco prateado, apareceu uma grande nódoa cinzenta, depois negra e afinal vermelha.
Essa exalação ou fumo condensou-se, e a forma distinta de um homem, de elevado talhe, pareceu ressumbrar do muro.
Seus grandes olhos abertos eram ternos e fixos, terrificante a expressão do rosto, os lábios entreabertos, narinas dilatadas.
O estranho ser, de transparência vaporosa, mas de palpável realidade, deslizou, sem tocar o solo, através do pátio, e desapareceu no interior do templo.
Braços estendidos para a frente, como se procurasse algo, o fantasma passou rente pelos corredores, e, atravessando uma parede, penetrou numa sala onde dormiam muitas mulheres, sacerdotisas e cantoras do templo.
O vulto fantástico parou, movendo os lábios, as narinas abertas, aspirando avidamente, e seu vítreo olhar pousou em pequeno leito, iluminado por um raio da Lua, que se filtrava obliquamente da janela, e no qual repousava uma jovem, mergulhada em profundo sono.
O fantasma deslizou para ela e pendeu a cabeça para o peito da adormecida, que se agitou, e, bruscamente desperta, tentou debater-se; mas, fascinada pelo terrível olhar que por um instante mergulhou no seu, recaiu imobilizada.
O fantasma endireitou-se, parecendo atordoado e mais compacto, e sem olhar a vítima, tornada lívida, como se o sangue lhe houvesse, até a última gota, abandonado as veias, elevou-se pesadamente, pareceu escorregar no raio lunar para fora da janela, e, alguns momentos após, eclipsou-se, absorvido pelo muro de onde havia surgido.
Horemseb muito havia abusado do sangue humano para não superexcitar tudo quanto nele restava de instinto animal; o veneno com o qual voluntariamente mergulhara em letargia tinha impedido a ruptura dos laços do perispírito, e, por todas estas circunstâncias reunidas, tornara-se vampiro.
A estranha e inexplicável morte da jovem sacerdotisa excitou grande emoção no templo, e essa emoção transformou-se em terror quando, na noite seguinte ao do amanhã, houve nova vítima.
Desta vez, fora a filha de um sacerdote, e a Irmã desta, despertada pelo abafado grito que ouvira, enxergara o vulto de um homem resvalar para fora do aposento.
As mais severas medidas foram adoptadas para apanhar o assassino, que assim ousava profanar o lugar sagrado, mas, a vigilância foi ineficaz, porque, ao termo de dois dias, uma criança de quatro anos de idade e uma jovem, pertencentes ambas a famílias de mercadores, domiciliados em bairro distante de Tebas, foram encontradas mortas, apresentando na altura do coração um ferimento, semelhante a mordedura, e sem gota de sangue nos lívidos corpos.
Toda a cidade se comoveu, e a rainha, indignada, ordenou severo inquérito, o qual, entretanto, nada apurou:
o criminoso continuou incógnito, supondo-se que houvesse fugido, porque os assassínios não se renovaram,
Apesar disso, os terrores não cederam; os pais e as mães tremiam por seus filhos, tenros ou adultos, e as mulheres acreditavam-se igualmente ameaçadas pelo misterioso malfeitor.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72053
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 14, 2017 8:49 pm

Roant, principalmente, tinha o espírito atingido, e mal se animava a separar-se dos dois filhos, velando as noites junto deles, e nenhuma persuasão do marido e das pessoas amigas conseguia tranquilizá-la.
Uma noite, o chefe das guardas, que estava de serviço no palácio real, ajustava ao cinto as armas, aprestando-se para sair, e falava discretamente à esposa, que, pálida e inquieta, ajudava-o, repetindo:
— Oh! quanto detesto as noites que tens de passar fora. de casa!
Sem ti, o perigo parece-me mais próximo, e não posso defender-me do pressentimento de que uma desgraça ameaça a nossa Nitétis!
— Minha querida mulher, sê razoável e não te atormentes com quimeras:
há quase um mês que os atentados não se repetiram; sem dúvida, o facínora fugiu.
Porque, de resto, procuraria precisamente Nitétis?
Porque matou uma criança?
Talvez o fizesse por mero acaso, e se deseja nova vítima contentar-se-á, por certo, com aquela que possa mais facilmente apanhar.
Chnumhotep afivelou a espada, pôs o capacete polido sobre os espessos cabelos, e, abraçando Roant, acrescentou:
— Se me amas, serás mais calma e repousarás.
Pois que as crianças dormem junto de ti, que lhes poderá acontecer?
Após haver acompanhado o marido, tornou apressada ao quarto de dormir, que era grande peça, de chão forrado com esteiras, de paredes pintadas e incrustadas, simulando tapetes suspensos; alta e larga janela dava entrada ao frescor embalsamado do jardim, e a luz do plenilúnio inundava o aposento com a sua prateada claridade.
Junto do leito, sobre uma camazinha improvisada, dormiam placidamente um menino de aproximados quatro anos e uma filhinha de vinte e quatro meses.
Acercando-se suavemente, a jovem mãe levantou o véu de gaze que os cobria e contemplou, amorosa, as graciosas e pequenas criaturas cujos corpos, rechonchudos e desnudos, porejavam saúde.
Premiu os lábios nas aneladas cabeças dos dois inocentes e os recobriu com o transparente tecido.
E, meio tranquilizada, encaminhou-se para a janela, junto da qual ampla poltrona convidava ao descanso.
Não tendo sono, e estando soberba a noite, o silêncio também convidava a devaneios: sentou-se, apoiou os pés num escabelo, e, tirando uma flor de lótus de grande jarra esmaltada, posta no debruçador da janela, cheirou-a, abandonando-se aos pensamentos.
Chnumhotep tinha razão:
por que envenenar a sua existência tão venturosa, tão calma, com apreensões sem fundamento?
E qual probabilidade para um criminoso, por mais audaz que fosse, atacar a família do poderoso chefe das guardas, em cuja casa formigavam escravos, que ao menor rumor estariam a postos?
Insensivelmente, e sem que de tal se apercebesse, um pesadume plúmbeo invadiu-lhe os membros, seus pensamentos perturbaram-se e apoiou a cabeça fracamente no encosto da poltrona; tentou, primeiramente, libertar-se do torpor, para depois, preguiçosamente, desistir disso.
Para quê?
Queria repousar depois da canícula do dia...
Inopinadamente, no vão da janela, fartamente iluminada pela Lua, se alçou uma forma humana:
um homem de alta estatura, cabeleira anelada, cujo rosto indistinto, desviado de Roant, despertou nesta uma recordação confusa.
Com extrema flexibilidade, o desconhecido pareceu escorregar mais do que saltar, para o aposento; Roant quis detê-lo, gritar; mas, como que invadida por súbita paralisia, ficou imobilizada, incapaz de abrir a boca, e acompanhou apenas com os olhos o audaz intruso, que, sem ruído, atravessou o aposento, e, chegado à camazinha, se dobrou sobre as adormecidas crianças.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72053
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 14, 2017 8:50 pm

Um pensamento infernal, fulminante:
“É o sugador de sangue!” — atravessou nesse instante o cérebro de Roant, e desesperada luta travou-se entre a vontade e o torpor que lhe chumbava os membros; o peito sufocava, como que sob enorme peso; a cabeça parecia prestes a estalar, mas os lábios continuavam mudos.
Por fim, resvalou de joelhos, ergueu os desfalecidos braços e um grito rouco e destimbrado saiu-lhe da garganta contraída.
No mesmo instante, a sombra humana endireitou-se, passou junto de Roant, com vertiginosa rapidez, e desapareceu para fora da janela como se se houvesse fundido no clarão da Lua.
Atraídos pelo grito da senhora, muitos escravos acorreram e bem assim a ama das crianças, trazendo uma lâmpada.
Ergueram Roant, que, incapaz de falar, apontava a camazinha, por cima da qual a ama suspendia a luz.
Todo esse movimento, e o ruído, acordara o pequeno Pentaur, mas Nitétis não se movia, e, ao primeiro olhar que a pobre mãe deitou sobre esta, compreendeu que o crime estava consumado.
Sem uma queixa, caiu inanimada nos braços das mulheres.
Em poucos momentos, todos despertaram, e o velho intendente decidiu informar o senhor imediatamente, e, por outro lado, chamar os parentes e íntimos para junto de Roant.
Chnumhotep não podia abandonar seu posto no palácio, e, por isto, enviou um escravo em busca de Roma e outro à casa de Ísis, cuja residência era mais vizinha.
O moço sacerdote e Neith aprestavam-se para dormir, quando ao palácio de Sargon chegou o mensageiro, todo esbaforido, e fez uma narrativa, meio embrulhada, do acontecido.
Profundamente perturbado, o casal fez preparar uma liteira, e, enquanto oito vigorosos condutores a transportavam, em passo acelerado, à casa do chefe das guardas, Neith apoiou a cabeça ao ombro do marido, murmurando:
— Podes duvidar dos desígnios do malfeitor?
Não te disse que ele não pode morrer e que a este apetece, tal qual a ele, sangue fresco de jovens?...
Oh! meu sangue gela, ao pensar no que nos aguarda ainda!
Roma estremeceu, porém, não deu resposta, pois não tinha palavras para exprimir a surda angústia que lhe apertava o coração.
Já encontraram Ísis atarefada junto de Roant, que havia recuperado os sentidos, mas desesperada, parecendo enlouquecida.
Com gritos e gemidos, arrancava os cabelos, esmurrava o peito e maldizia a incompreensível debilidade que a impedira de agarrar o miserável, e salvar a filha.
Somente depois de algumas horas os cuidados e consolações dos íntimos conseguiram acalmá-la suficientemente, para que pudesse responder às perguntas do irmão e fazer uma narrativa detalhada do acontecimento, descrevendo o talhe e a aparência do assassino, cuja fisionomia não identificara, embora a personalidade lhe parecesse conhecida.
Completamente esgotada, aquiesceu, afinal, em deitar-se, e adormeceu num sono febril e agitado.
As duas amigas retiraram-se, então, para uma câmara contígua, também necessitadas de um pouco de repouso; Roma seguiu para palácio, a fim de falar ao cunhado.
Ísis e Neith tinham intenção de dormir, porém o sono lhes fugia; Ísis, principalmente, parecia sobressaltada, e, erguendo-se, veio sentar-se junto da cadeira de Neith.
— Diz-me — começou ela, pegando a mão da amiga —, não tens desconfianças quanto à pessoa do misterioso assassino?
Tive uma ideia que me torna positivamente louca.
Olha! (e foi buscar de sobre a mesa um tecido dobrado).
Este véu que oculta o cadáver de Nitétis e com o qual a ama cobrira ambas as crianças:
exala um odor bem estranho!
Aproximou-o do rosto de Neith, mas esta recuou, com uma exclamação de espanto:
— O aroma fatal! Meu pressentimento não me enganou.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72053
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 15, 2017 8:10 pm

— Ah! Adivinhaste, tal qual me aconteceu, que nenhum outro podia ser assim infame?
Desgraça para nós, então!
— Acreditas que desejará vingar-se? — perguntou Neith, arrepiando-se.
— Decerto! Se o carrasco de Neftis ainda possui o poder de matar, não deixará viver a audaciosa que o denunciou, e a mulher que o esqueceu — murmurou Ísis, com sombrio acabrunhamento.
A morte da pequena Nitétis e a de uma aguadeira, que pereceu na noite seguinte, provocaram em Tebas verdadeiro pânico:
moça alguma, nenhuma criança, ao deitar-se, estava segura de ver o Sol no dia seguinte, e, apesar de tudo, o malfeitor continuava desaparecido.
As suspeitas de Neith e Ísis haviam sido rebatidas pelos maridos, que as consideravam verdadeira impossibilidade, e não haviam transpirado para público.
Todavia, o sinistro pressentimento da esposa de Keniamun não se realizava; não somente o vampiro não a assaltava, nem a ela, nem a Neith; dir-se-ia haver desaparecido completamente.
Três meses escoaram, e nenhum novo assassínio acusara de novo a sua presença.
Todos, Neith inclusive, se tinham acalmado pouco a pouco; a vida, com os seus diversos interesses, desvanecera a assustadora impressão.
Só Ísis continuava sombria, nervosa e inquieta: perdera o sono e o apetite, e, a todas as persuasões do marido, respondia:
— Que queres tu? Parece-me que uma desdita paira sobre mim; às vezes, de noite, desperto banhada em suor gelado, ou, então, sinto junto de mim a presença de um ser invisível; um hálito frio fustiga-me o rosto e uma ânsia sem nome aperta-me o coração.
Certa noite, a Jovem mulher sentia-se mais oprimida ainda do que habitualmente, estando Keniamun em serviço, embora devesse regressar de um para outro momento.
Triste e fatigada, deitou-se; mas, não querendo adormecer antes do retorno do esposo, ordenou a duas escravas ficassem junto dela.
— Pega o teu alaúde, Nesa, e toca; mas, guardai-vos bem de adormecer até a chegada do senhor.
As duas mulheres acocoraram-se perto do leito, e Nesa cantou, acompanhando-se, longa e monótona cantiga lamentosa.
Ísis escutava-a distraidamente, e bem depressa se engolfou completamente em pensamentos.
O passado visitava-a, incessantemente, apresentando-lhe à memória o palácio de Mênfis, as orgias nocturnas, a descoberta da sua traição, e, enfim, a bela e selvagem figura do feiticeiro.
Perdida na sua quimera, não percebeu que o canto cessara e que ambas as mulheres cochilavam.
Súbito, estremeceu e retesou-se: uma baforada de enervante olor, bem conhecido, chegara-lhe ao rosto, fazendo-lhe palpitar o coração e oprimindo o fôlego.
Quis gritar, porém louco terror tolheu-lhe a voz e paralisou os membros:
junto do leito, iluminado de pleno por um raio de luar, estava Horemseb.
Os olhos haviam perdido a terna fixidez e miravam-na com a selvagem crueldade de um tigre; nos lábios entreabertos errava um sorriso de infernal maldade; o frio que se desprendia do espectro pesava sobre Ísis qual véu de chumbo.
Como que em sonho, viu a sinistra aparição inclinar-se para ela, sentiu os dentes enterrando-se na sua carne, e depois o sangue afluir à mordedura, abandonando as veias do corpo.
Contudo, o horror e o medo da morte eram poderosos na jovem mulher, que, por esforço quase super-humano, tentou lutar:
torcendo-se sob o monstro que a enlaçava, deu um surdo gemido. Ao mesmo tempo, uma voz gritou:
— Olá! Que se passa aqui?
Era Keniamun que regressava, e, ao clarão da Lua, avistara um homem curvado sobre o leito.
Furioso, empunhou a machadinha presa ao cinturão, enquanto que as escravas, despertadas pelo duplo grito, se endireitavam, alarmadas; mas, antes mesmo que o oficial pudesse brandir a arma, o desconhecido passou junto dele, como se fosse um clarão, e desapareceu pela janela.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72053
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 15, 2017 8:10 pm

Todavia, Keniamun julgou reconhecer o perfil e a estatura do nigromante, e, movido por novo pensamento, correu para junto da mulher, a qual, derribada, com um ferimento na garganta, parecia expirante.
— Ísis! — exclamou, soerguendo-a.
Imediatamente, ela abriu os olhos; aferrando-se com desfalecida mão ao colar do marido, meio que se firmou, lívida, olhar extinto, moveu os lábios por segundos, e depois gritou, com a voz rouca e irreconhecível:
— É ele, Horemseb, o sugador de sangue!
Esse esforço rompera o derradeiro elo: Ísis estava morta.
As últimas palavras de Ísis foram ouvidas pelas duas escravas, e, enquanto Keniamun, profundamente consternado, saía para tomar as indispensáveis providências, as duas mulheres correram para o interior, com gritos e lamentações, e instruíram a criadagem do acontecido.
Propagada pelos fâmulos de Keniamun e espalhada com a velocidade de uma corrente eléctrica, a notícia de que Horemseb era o sugador de sangue expandiu-se em toda a Tebas.
Ampliada ainda pelo terror, essa novidade tomou proporções gigantescas, e o dia que se seguiu à morte de Ísis ainda não findara, e as três quartas partes da Capital estavam convencidas de que o príncipe havia, por qualquer acaso, eximindo-se da condenação; que se escondia na cidade e se vingava da sua degradação, praticando aquela série de mortes.
A populaça, superexcitada, juntara-se em massa no templo de Amon, exprimindo em altas vozes suas dúvidas quanto à morte do bruxo, e, embora exortada pelos padres, retirara-se resmungando sobre o caso, para aglomerar-se, de novo, diante da residência real.
Com a habitual resolução, Hatasu apareceu numa janela, e, escutando as queixas da multidão, prometeu convocar o Conselho e adoptar providências para esclarecer o tenebroso assunto, acrescentando que, no dia seguinte, seriam conhecidas as suas deliberações.
Nessa mesma noite, reuniram-se os sacerdotes; mas, de todo convencidos de que o feiticeiro estava morto, tacharam de insânia os boatos populares, e Ranseneb declarou, com incrédulo sorriso, que os mortos não voltavam para comer os vivos, e que um vivo não podia passar através de paredes.
— Tens razão, profeta — observou a rainha —, o facto parece inverosímil; no entanto, o relatório que acabam de me fazer Keniamun e Chnumhotep consigna um estranho detalhe:
os panos que tocaram os cadáveres de Ísis e da filha de Roant exalavam o aroma nefasto do veneno de que se servia Horemseb.
Em qualquer caso, o povo necessita ser convencido de que o criminoso foi executado.
Ordeno seja o corpo desmurado, em presença, de delegados de todas as castas, dos quais fixareis o número, e de funcionários designados por mim.
Em cumprimento da real ordem, na tarde do dia seguinte, numerosa assembleia reuniu-se no último pátio do templo de Amon.
Cada quarteirão de Tebas enviara deputados, pertencentes a todas as classes da população:
nos primeiros lugares, estavam alguns sacerdotes de alta hierarquia e os delegados da rainha, o porta-leque Roma e o que modernamente se denominaria chefe de polícia e era o “ouvido do rei”, assim chamado esse funcionário, ao tempo de Hatasu.
A parede, intacta, não conservava nenhum traço do nicho que ali fora aberto dezoito meses antes, mas os alviões dos pedreiros fizeram nela uma abertura, ao fundo da qual bem depressa apareceram dois pés.
— Vede! Os pés estão perfeitos e provam à evidência o absurdo dos boatos — observou um dos padres.
— Os pés não provam coisa alguma, porque todos os pés se assemelham, e o corpo pode ter sido mudado — respondeu um rico mercador.
Algumas vozes apoiaram essa opinião.
Silenciosamente, o desmuramento continuou, e sem demora apareceu o corpo integral de Horemseb, perfeitamente reconhecível:
a aparência cadavérica, os olhos abertos e vítreos não haviam sofrido qualquer alteração.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72053
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 15, 2017 8:10 pm

— Vede! Eis o corpo do criminoso — disse solenemente Ranseneb: privado das honras de sepultura, aguarda aqui sua destruição, mas a alma, lamentosa, repelida por Osíris, perambula, sem dúvida, ávida de crimes, tal qual outrora.
Se, pois, Horemseb é culpado das mortes que afligem Tebas, é apenas sua alma que podeis acusar de tal:
o corpo aqui encerrado não pode ter tido parte nisso.
E agora, aproximai-vos todos, dois a dois.
Haveis conhecido o príncipe: certificai-vos de que é mesmo ele quem se encontra neste nicho.
Terminado o lúgubre desfile, a abertura foi novamente fechada e os assistentes dispersaram-se, tristes e preocupados.
Roma também regressou ao lar com o coração oprimido.
Ao ter conhecimento do fim de Ísis, Neith sentira-se mal, e suas primeiras palavras, ao tornar a si, foram:
— Agora é a minha vez; depois dela, é a mim que ele matará!
E, a despeito dos protestos do seu raciocínio, a sinistra predição tinha transformado a alma do jovem sacerdote:
a possibilidade de perder tão miseravelmente sua esposa querida, afinal reconquistada, transbordava-o de desesperada ira.
Duas noites depois da verificação da presença do corpo de Horemseb, um par de novas mortes emocionou a Capital.
Desta vez, haviam sido cometidas na residência real:
uma criança de dois lustros de idade e uma tocadora de harpa, favorita da rainha, haviam perecido, e, por outro lado, três pessoas afirmavam ter reconhecido Horemseb nas galerias e corredores do palácio.
Nesta ocasião, o pânico chegou ao auge, inclusive entre os sacerdotes.
Que significava tão inaudito caso?
Habitualmente, a morte bastava para tornar inofensivo o mais perigoso celerado; neste caso, o Amenti parecia fechar suas portas e repelir para a Terra aquela alma enodoada e nefasta.
O vampirismo era quase desconhecido no Egipto, uma vez que a mumificação dos corpos impedia a possibilidade de tal manifestação.
Ranseneb, chamado a palácio, foi coberto de censuras pela rainha, indignada; ela acusou-o, e bem assim aos demais confrades, de culpada negligência, deixando em torno deles matar tantos inocentes, sem encontrarem na sua ciência, imensa decerto, um remédio a semelhante calamidade.
À tarde, um conselho secreto reuniu-se no templo de Amon.
Cinco sacerdotes, dos mais sábios, a ele assistiam e também Amenófis, chegado dias antes de Mênfis, e Roma, admitido excepcionalmente, apesar de moço, não só em vista da importante acção que tivera em todo o assunto em causa, mas também na qualidade de esposo da mais ameaçada vítima.
Após debates muito animados, disse Amenófis:
— Em vista da gravidade do caso e da necessidade de agir rapidamente, para preservar da destruição seres inocentes e sem defesa, proponho, meus irmãos, mergulhar uma das jovens do templo no sono sagrado; os olhos do seu espírito abrir-se-ão e ela verá o que nos está oculto; por sua boca, a divindade indicará como deveremos agir.
Se adoptardes meu alvitre, rogaremos a Ranseneb designar aquela das virgens consagradas mais apta a nos servir.
Após curto debate, todos se declararam de acordo, e Ranseneb mandou buscar a sacerdotisa por ele escolhida.
Uma frágil e delicada jovem, de grandes e brilhantes olhos, apareceu sem tardança, e, intimidada pela grave assembleia, inclinou-se, de mãos cruzadas.
Vestida de longa túnica branca, pesadas argolas rodeavam seus braços e tornozelos, e uma flor de lótus estava presa na testa por uma faixa incrustada.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72053
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 15, 2017 8:10 pm

— A divindade reclama teu serviço, Nekebet; ela nos manifestará, por teu intermédio, suas vontades — disse gravemente Ranseneb.
Eleva tua alma, pela oração, e agradece aos Imortais o favor com que te honram.
A jovem ajoelhou um instante, e, com olhar extático, ergueu os olhos para o céu; depois, levantando-se, murmurou:
— Estou pronta.
Roma fora indicado para provocar o sagrado sono e obter, por sua acção, as preciosas indicações que os demais padres preparavam-se para escrever em suas tabuinhas.
Aproximando-se com benevolência, conduziu a donzela para uma cadeira, pronunciou curta invocação, e, depois, firmou dominador olhar, elevando as duas mãos por cima da cabeça de Nekebet.
Quase imediato estremecimento agitou a moça, que empalideceu e fechou as pálpebras.
Então, Roma lhe apoiou os dedos na testa, e, ao termo de rápido minuto, perguntou:
— Dormes?
— Sim.
— E vês?
— Vejo.
Roma voltou-se para os sacerdotes:
— Veneráveis padres, ela dorme o sagrado sono, e a luz de Osíris Inunda-lhe e Ilumina a alma.
Que ordenais lhe pergunte?
— Que ela procure a alma do sugador de sangue e a encontre, ainda que seja no fundo do Amenti — respondeu Ranseneb.
Para guiá-la, põe-lhe na mão este amuleto que pertenceu a Horemseb.
Roma pegou o escaravelho de madeira odorante e o encostou, primeiramente, na fronte da jovem, e, em seguida, lho deixou em uma das mãos, dizendo:
— Vai e descobre a alma do príncipe. Calma-te — acrescentou, notando que a adormecida se agitava e gemia — e segue a corrente que se desprende deste objecto.
Por momento reinou o mais absoluto silêncio; mas, subitamente, a sacerdotisa atirou-se para trás, com todos os sinais de horror e de medo.
— Não posso... sufoco...
Oh! quanto sangue!...
E, além disso, mulheres, empunhando rosas, repelem-me e impedem-me de passar.
— Que fazem essas mulheres e por que te embaraçam?
— Cercam um homem, sentado imóvel em um nicho; só seus olhos vivem e seu olhar é terrível; não posso aproximar-me.
E retorceu-se numa convulsão.
As veias inflaram na fronte de Roma, e seus olhos lançaram flamas.
— Rechaça as mulheres, passa e identifica o homem.
— É Horemseb, e as mulheres as vítimas que ele sacrificou; o terrível veneno enche ainda suas atormentadas almas; têm ciúmes de mim.
— A alma está separada do corpo do criminoso? — indagou Ranseneb.
— Em uma palavra, está morto ou vivo? acrescentou Amenófis.
Roma transmitiu as duas perguntas.
— A alma ainda está ligada ao corpo — murmurou a clarividente.
Ele vive uma vida à parte.
— Por que seu corpo, morto em aparência, privado desde há dezoito luas de ar e alimento, resiste à decomposição.
— Porque se nutre de sangue, e seu corpo...
A sacerdotisa parou de falar; sua fisionomia denotava pavor, e o corpo estremecia...
— Não posso; ele me proíbe de falar; seu terrível olhar prende minha língua.
— Fala, eu te ordeno!
Que é necessário fazer para destruir o corpo do bruxo e atirar-lhe a alma para o Amenti?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72053
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 15, 2017 8:11 pm

A sonâmbula não respondeu:
duas vontades contrárias, visivelmente, lutavam nela quase quebrando seu débil organismo.
O peito de Nekebet ofegava, espuma subia-lhe aos lábios e seu frágil corpo torcia-se em convulsões de terror; mas, Roma lutava pela felicidade do seu viver, pela existência de inúmeros inocentes, e sua vontade, decuplicada, terminou por triunfar. Por breve tempo a adormecida pareceu tranquilizar-se, para depois atirar-se para trás, como que alquebrada.
— Eu... eu não posso — disse murmurante, em tom quase ininteligível — mas, trazei ao templo a múmia de Sargon.
Depois de sete dias de orações, e em presença de Neith, evocai sua alma:
ele, o inimigo mortal de Horemseb, indicar-vos-á a salvação...
Nova crise interrompeu-a.
Roma refez-se, e, enxugando o suor que lhe manava da testa, repetiu aos padres as palavras sussurradas por Nekebet.
Como se esse instante de trégua houvesse libertado a jovem da influência contrária, um ardente rubor inundou imediatamente o contraído rosto; o sofrimento cedeu a uma extática felicidade, e, caindo de joelhos, estendeu as mãos juntas para invisível objecto.
— Ah! que suave aroma! — murmurou, olfactando avidamente.
Não, não, Horemseb, nada temas, amo-te e não te trairei nunca, mesmo que isso me custe a vida!
— Vede — disse Ranseneb — o terrível veneno enfeitiça-lhe a alma; desperta-a, Roma, porém, antes, ordena-lhe abominar Horemseb.
O moço sacerdote concentrou toda a sua energia, e, impondo as mãos sobre a cabeça da sacerdotisa, disse com força:
— Ordeno-te detestar e temer a memória de Horemseb, esquecer o odor nefasto e calmar-te em seguida.
Brusca transformação operou-se no semblante da adormecida:
espelhou primeiro medo e horror, depois calma profunda.
Roma deu-lhe, a seguir, muitos passes, e afinal a despertou.
A jovem não se recordava de coisa alguma, e estava visivelmente exaurida.
Os padres fizeram-na beber um pouco de vinho, abençoaram-na e mandaram que fosse repousar.
A seguir, decidiram adoptar a recomendação recebida, e encetar, nessa mesma noite, o jejum e as preces após as quais seria invocado o Espírito do príncipe hiteno, para dele obter o meio de destruir o vampiro.
Roma foi incumbido de preparar a esposa e decidi-la a assistir à evocação.
Ao saber o que dela se pretendia, Neith foi presa de verdadeiro pavor: o só pensamento de rever a alma do infortunado esposo, cujo amor por ela o destruíra, fazia-a tremer; Roma, porém, persuadiu-a de que, se alguma coisa neste mundo podia abrandar a alma de Sargon, era o chamamento, a prece daquela por quem sacrificara a vida.
Pelo seu próprio futuro, pela piedade para com os inocentes cotidianamente ameaçados, ela devia ser forte, e, dominando todo o pueril medo feminino, ajudar os sacerdotes na sua missão.
Neith era de natureza viril e generosa, deixou-se convencer, e, nessa mesma tarde, recolheu-se ao templo, no intuito de preparar-se, durante os sete dias de jejum, abluções e preces, para a terrível entrevista com o finado marido.
Fixada a noite para a evocação, os cinco sacerdotes de Amon, Amenófis e Roma reuniram-se em uma cripta do templo.
Sete lâmpadas, de cores diversas, suspensas ao alto de pequeno altar de pedra, iluminavam vagamente a sala, reflectindo-se em fantásticos efeitos sobre os vasos de ouro, destinados às libações, e sobre as esplêndidas incrustações de uma caixa de múmia posta de pé em um nicho.
Nessa arca funerária, pintada e dourada, estava o corpo preciosamente embalsamado de Sargon, trazido desde a véspera ao templo, e junto do qual houvera vigília e orações.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72053
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 15, 2017 8:11 pm

Agora, os padres, com as vestimentas brancas de cerimónia, adornados com as insígnias da sua hierarquia, ostentando a pena de abestruz, sinal de iniciação superior, estavam colocados em redor do nicho, braços solenemente levantados para a abóbada.
Acabavam de pronunciar as conjurações, que chamavam pela alma do morto e intimavam-na a manifestar-se a eles.
Terminada essa preliminar cerimónia, foi Introduzida Neith, que, pálida e faces inundadas de lágrimas, ajoelhou ante a múmia.
Estava vestida de branco e com simplicidade, os longos cabelos soltos e uma pequena faixa de ouro prendia-lhe na testa uma flor de lótus.
— Ó Sargon, divino esposo tornado Osíris — disse ela, em tom súplice —, perdoa minha falta de amor por ti, o mal que te fiz, por imprudência infantil!
Agora, que podes livremente ler em minha alma, deves ver meu verdadeiro arrependimento, as honras que presto à tua memória.
em piedade de mim, a vítima designada pelo sugador de sangue; tem igualmente compaixão das mães e dos filhos ameaçados, e indica o meio de banir para o Amenti a alma do nigromante, pois que ele não deve permanecer entre os vivos.
Sua voz foi afogada pelo pranto; mas, tudo continuou em silêncio.
Tomada de súbito desespero, suplicante, estendeu os braços para o nicho e exclamou, ardentemente:
— Sargon! Sargon! teu amor foi tão grande que sacrificaste a tua vida por mim:
deixaste de me amar, para que fiques surdo às minhas lágrimas e às minhas orações?
Nesse instante, muitos golpes surdos e secos fizeram-se ouvir, parecendo vibrados contra a urna da múmia; um estranho crepitar sucedeu-se, e luzes fosforescentes apareceram no nicho.
A voz da mulher amada havia, em verdade, atingido a alma do moço hiteno, e ele vinha, do reino das sombras, salvá-la de Horemseb, por segunda vez, dar-lhe, do além-túmulo, essa prova suprema de afeição?
Todos cruzaram os braços, em respeitoso silêncio; Neith continuou ajoelhada, olhos voltados para a múmia, que parecia velar-se com um transparente vapor, que se condensou, ampliou, enchendo o nicho qual nuvem cintilante, sulcada de lampejos; em seguida, um jacto eléctrico jorrou da massa nevoenta e encheu o nicho de suave luz, azulada e tão intensa que tudo esmaeceu junto dela, iluminando distintamente a cripta e os assistentes.
Sobre esse fundo brilhante, desenhou-se então a forma esbelta de um homem, de pé, diante do nicho, a um passo de Neith, petrificada.
Nenhuma dúvida podia haver quanto à personalidade do visitante surgido do reino das sombras: era bem o rosto pálido e característico, os olhos sombrios e sonhadores do príncipe hiteno, trazendo o “claft” e a túnica de linho, e as pedrarias que lhe ornavam o colar e os braceletes rutilavam como se estivessem sob a luz solar.
O materializado ergueu a mão e pronunciou estas palavras, em voz distinta, porém como que velada pela distância:
— Vós me chamais para ajudar a consumar a libertação do Egipto: seja!
A súplica de Neith chegou ao meu coração, e venho dizer-vos que, ainda esta noite, antes que Ra se eleve, é mister desmurar o bruxo, e um de vós deve mergulhar-lhe na garganta a sagrada faca dos sacrifícios.
Isso feito, Tebas estará livre do sugador de sangue: não mais atacará pessoa alguma.
E tu, Neith, tu não me amaste nunca!
(O espectro inclinou-se, com pálido sorriso, para a jovem, pousando-lhe a mão sobre a cabeça.)
Não importa! Vive e sê feliz, a fim de que o sacrifício da minha vida não tenha sido em vão!
A luz extinguiu-se bruscamente, a visão desapareceu e de novo as lâmpadas jorraram a fraca e vacilante claridade sobre o nicho misterioso, remergulhado nas sombras, e sobre a alva vestimenta de Neith, abatida, sem sentidos, sobre as lajes.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72053
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 15, 2017 8:11 pm

Cheios de emoção e de júbilo, os sacerdotes combinaram e resolveram pôr em execução, sem perda de um minuto, o aviso que lhes viera por uma graça dos deuses.
Munidos de tochas e de instrumentos apropriados, rumaram para o funesto local, e, por não quererem testemunhas supérfluas, desmuraram, eles mesmos, o nicho, no qual em breve apareceu, iluminado pela chama vermelha das tochas, a cabeça lívida, de olhos ternos, do feiticeiro de Mênfis, cujo corpo, inatacado pela decomposição, parecia uma estátua de basalto.
Houve um momento de sinistro silêncio.
Depois, Ranseneb, que, voluntariamente, de tal se incumbira, ergueu a faca dos sacrifícios, e, com um movimento seguro, enterrou a reluzente lâmina na garganta do cadáver.
Com o borbulhar semelhante ao jorro das torneiras, uma torrente de sangue vermelho saiu do ferimento, provocando em todos uma exclamação de pasmo.
No mesmo instante Ranseneb recuou, com um estremecimento de terror:
parecera-lhe que os olhos ternos do cadáver haviam-se iluminado com um raio de vida, voltando-se para ele com indizível expressão de angústia, de sofrimento e de ódio mortal.
Talvez não passasse de ilusão, porque já o terrível olhar se extinguia e retomava a terna imobilidade; mas, o sangue prosseguia correndo ao longo do corpo.
Silenciosamente, foi retirada a faca do ferimento, fechado de novo o nicho e recolocados os ladrilhos, à pressa.
Depois, disse Ranseneb, enxugando a fronte coberta de suor:
— Amanhã, meus irmãos, voltaremos para apagar os derradeiros vestígios da nossa passagem por aqui.
Agora, regressai para repousar; vou dirigir-me ao Faraó, para lhe dizer de que forma o hiteno, que ela protegeu, veio pagar a sua dívida de gratidão, e pôs fim à calamidade que desolava o povo egípcio.
Roma encontrou Neith tornada a si, porém, alquebrada.
Sem proferir palavra, deixou-se instalar na barca e também em silêncio fizeram o percurso, até quando a embarcação encostou junto da escadaria do palácio de
Sargon.
Amparada pelo marido, subiu para o terraço, à entrada do qual ambos se detiveram.
O crepúsculo esmaecia no horizonte, torrentes de ouro e de púrpura inundavam o céu, anunciando a aproximação do astro rei, que logo apareceu, enchendo a Terra com seus vivificantes raios.
Um suspiro de imenso desafogo alçou o peito de Neith:
agora, a desgraça estava vencida, o bruxo não reapareceria mais, dissera-lhe Roma, a vida estendia-se diante dela, sem nuvens, e a aparição benfazeja do deus-sol, no momento desse regresso, pareceu-lhe feliz augúrio.
Num impulso de entusiasmo, levantou os braços para o Sol:
— Vês, Roma, depois das trevas desta terrível noite, Ra saúda a nossa volta: é o presságio de que as aflições terminaram e de que a vida será, doravante, de luz e calor.
— Será o que os deuses ordenarem; nosso amor, porém, nos dará a paz da alma — respondeu ele, emocionado.
Agora, minha querida, vem, e agradeçamos aos Imortais suas infinitas graças.
Pouco depois, o casal ajoelhava diante do pequeno altar florido de suas divindades domésticas, e sua ardente acção de graças elevou-se no rumo dessas forças do Bem, que, em todos os séculos, sob diversos nomes, protegem as frágeis criaturas humanas que a elas se dirigem, com fé e orações.
Quem verdadeiramente sabe orar, possui a chave do céu.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72053
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 15, 2017 8:11 pm

NOTA DO AUTOR — O que vou escrever provocará, na mor parte dos meus leitores, um sorriso Irónico.
Aqueles que desejam apenas o enredo do romance passarão, sem ler, por esta dissertação:
sei isso, porque Talar seriamente em vampirismo, em nossa época positiva, não é fácil tarefa.
A ciência oficial, que apenas quer conhecer o que o seu bisturi pode sondar, nega a existência dos vampiros, e os factos Indiscutíveis, ocorridos em diferentes países, têm sido vituperados, negados ou silenciados, e bem assim outros fenómenos não menos positivos, os quais, apesar disso, se impõem, pouco a pouco, à atenção dos sábios, porque o facto é um argumento brutal, que não se pode eternamente suprimir.
Dito isto, creio do meu dever explicar, o melhor que possa, aos meus leitores espíritas, o fenómeno do vampirismo, pouco aprofundado ainda, se bem que, sendo um facto natural, sempre existiu, tanto na época de Hatasu quanto nos tempos modernos.
Que o corpo evolui, se transforma e progride, e bem assim a alma, é facto conhecido.
Nas diversas condições dos três reinos, e, enfim, na Humanidade, a alma desenvolve-se e progride; o perispírito, seu inseparável companheiro, adapta-se às diversas condições, conservando fielmente em si, até às mais finas nuanças, a marca de todas as transformações sofridas.
Na composição química do perispírito são encontradas todas as substâncias, o reflexo de todos os instintos, qualidades e pendores do ser durante as inúmeras existências e transformações através do mineral, do vegetal, do animal e, enfim, do homem, o ser mais perfeito conhecido sobre a Terra.
O átomo indestrutível, lançado pela força criadora no turbilhão do Espaço, e representando apenas um princípio vital, reveste-se imediatamente de um duplo etéreo, intermediário entre a centelha divina e a parte material — o corpo.
Esse intermediário é o agente principal que põe em vibração as funções da alma, isto é, a vida da alma produz-se pela vida material sobre esse tecido (invisível para vós) constituído por milhares de fios luminosos de indescritível tenuidade.
De igual modo que nas células da cera se condensa o mel, assim, sobre o perispírito condensam-se os elementos e suas substancias compostas.
“Alma vestida de ar”, disse um grande sábio e poeta gentil, para indicar a composição do nosso corpo, o qual, desde que o Espírito dele se desprende, é presa dá podridão e se decompõe em seus elementos primitivos.
Uma regra, sem excepção, estipula que depois da alma vem o perispírito, depois do perispírito o corpo, isto é, as substâncias que podem, de acordo com imutável lei, aglomerar-se sobre o tecido fluídico.
Assim, o perispírito de um molusco só pode atrair, na sua condensação material, substâncias gelatinosas, e somente pelo trabalho da vida o ser adquire e se apropria de novas forcas de calor eléctrico, as quais, em próxima condensação, tornarão o perispírito do molusco de outrora apto a formar um corpo mais perfeito.
Falei no calor, esse grande e universal agente de toda a vida, ao qual quase se podia dar o nome de Deus, tão potente é a sua acção, e com o qual se depara em toda parte para onde se voltem os olhares.
Em toda parte, efectivamente, onde o cérebro do sábio esquadrinha, ele encontra o calor, a fonte da Vida:
está posto nas entranhas da Terra e encoberto nas nuvens.
O calor funde toda matéria, amalgama, solda de maneira Indestrutível; o calor une a alma à matéria e dela a separa; esse elo é o traço luminoso visível pelos sonâmbulos clarividentes.
O grande calor queima tanto quanto o fogo e o frio Intenso produz a mesma sensação de queimadura; quanto mais calor existe na cratera perispiritual, mais desenvolvidos a alma e o corpo.
Tudo que é pesado, preguiçoso, carece de calor e pertence a um grau inferior de desenvolvimento; todo ser, e mesmo todo planeta, mais trabalhado pelo calor vivificante, distingue-se por um grau superior de actividade e de desenvolvimento intelectual.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72053
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 15, 2017 8:12 pm

Enfim, a perfeição não se resume, em si, apenas na concepção de que o Espírito, desembaraçado de toda substância material, torna a ser faúlha pura e regressa ao foco de onde saiu, cego, para a ele tornar, Inteligente, e servir ao Criador, que se separa de nós, porém Jamais rompe o elo que nos liga a Ele e que, através de todos os sofrimentos e vicissitudes da depuração, deve conduzir-nos, cedo ou tarde, a esse centro divino.
Essa longa viagem, através dos três reinos, deixa profundos sinais nos gostos, necessidades e Instintos do homem, ser imperfeito, ainda bem próximo dessa animalidade que ele, no entanto, despreza, a ponto de lhe negar uma alma, uma inteligência, um direito à sua protecção.
É que o orgulho de possuir uma vontade menos restrita, um mais largo horizonte, mais amplitude para os vícios, sobe ao cérebro do homem e lhe faz esquecer que ele apenas subiu um degrau na escala social da Criação, que ele foi o que são agora esses irmãos inferiores, e que, na embriaguez e na satisfação de seu progresso, o homem, tão orgulhoso do seu livre-arbítrio e do dom da palavra, retrograda muitas vezes — pelos sentimentos — e pelos abusos, para mais baixo do que o bruto que ele menospreza.
Sim, esquecido de todas as semelhanças de estrutura, de necessidade e de sentimentos que o ligam ainda e tão estreitamente ao animal, o homem considera-se senhor absoluto deste, soberano feroz dessas populações mudas e sem defesa, entregues à sua mercê; o homem abusa cruelmente dos seus Imaginários direitos sobre esse irmão mais novo, por Isso que a Inteligência deste é mais limitada e seus instintos mais acalmados pelas leis da Natureza.
Tomemos alguns exemplos: a crueza, e assim a voracidade, do animal tem por meta a satisfação de uma necessidade ou a defesa; uma vez saciado ou ao abrigo de um ataque, ele não procura luta alguma.
Mas, vede a que refinamentos esses dois sentimentos conduziram o homem!
A tortura física e moral, a avidez insaciável, enquanto houver algo a pilhar em seu redor, são apanágio do homem; ele também Imaginou a traição, a morte em massa e o assassínio, enquanto o animal luta corpo a corpo; enfim, se a palavra falta ao animal, para mentir e dissimular o pensamento, ele não tem multo que se queixar disso, e poucas virtudes existem sobre este mundo que o orgulhoso ser humano possa reclamar por distinção exclusiva.
Sem dúvida, o que venho de dizer se aplica à turba que, cega de orgulho, Imagina ser o centro e o remate da Criação, e não às almas mais desenvolvidas, que reconhecem na animalidade uma fase do seu próprio passado e condenam severamente toda crueldade supérflua.
Voltando ao assunto que especialmente nos ocupa, lembrarei ao leitor n existência de um animal chamado vampiro, que, preferindo a noite ao dia, se atira às vacas, cavalos e também aos homens, se os pode atingir, e lhes suga o sangue.
Tendo em vista n tenacidade com que os Instintos do animal se conservam no homem, este hábito, esta necessidade de sangue, permanece em estado latente na criatura, e se a educação, as circunstância, a compreensão do mal não levarem o homem a dominar o instinto sanguinário, que ainda vibra no seu perispírito, a necessidade bestial desponta e cria seres do género dos sugadores de sangue da Índia, os quais são muito conhecidos para que se possa negar a sua existência.
Mas, ninguém tem procurado aprofundar o que pôde inspirar a essa seita o rito selvagem que ela acoberta com um motivo religioso, quando tal origem tem raiz em um estado particular do perispírito, adquirido pelo ser em suas existências vegetais e animais.
Em consequência de diferentes causas, tais o terror, comoção moral, certo veneno, asfixia, semelhantes seres caem em um estado particular de letargia, com todas as aparências da morte, e são enterrados como se houvessem falecido.
Um despertar em condições normais não se produz para essas entidades especiais, e a mor parte perece; mas, às vezes, em condições favoráveis, tais cadáveres aparentes aguardam apenas o clarão da Lua para despertar, sob a influência da sua luz, para uma sinistra actividade.
Todos aqueles cujo perispírito conserva alguma disposição ao vampirismo são lunáticos e, multas vezes, sonâmbulos videntes; sob a potente influência da luz lunar, excepcional estado produz-se neles, mistura de lunatismo e de sonambulismo vidente, mas em grau bem mais extenso e mais elevado.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72053
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 15, 2017 8:12 pm

Todos os sentidos desses estranhos letárgicos são de uma acuidade extraordinária; ouvem, vêem, farejam a distancias consideráveis, e porque o corpo, ainda preso ao perispírito, age numa certa medida e a intervalos mais ou menos longos, tem necessidade de se reabastecer, o vampiro entrega-se à pesquisa de uma vitima humana, cujo sangue quente, sobrecarregado de fluido vital, dar-lhe-á a nutrição indispensável às condições de existência, e ao mesmo tempo satisfará os velhos apetites.
O ataúde e as paredes não servem desgraçadamente de obstáculo para esse fantasma horrendo e perigoso, porque para ele a Lua é um auxiliar:
ela absorve o peso do corpo e o desmaterializa até um grau de expansão que permite ao vampiro atravessar portas, muros e outras coisas compactas.
Meus leitores espíritas sabem, e numerosas sessões
Já provaram à evidência, que a passagem da matéria através da matéria é um facto:
os transportes de frutas, de flores, de diversos objectos, e mesmo de animais, não são raros, e isso em todas as condições de fiscalização desejáveis.
Mas, porque o elo indissolúvel liga os três reinos e o homem, também uma lei rege os fenómenos; o que é possível para a flor, o fruto ou o metal, é possível igualmente para o homem, e, nas condições desejadas, pode o seu corpo, tão bem quanto uma laranja ou uma charuteira, atravessar paredes.
Deixando, pois, o lugar onde está sepultada, o vampiro se dirige, com Infalível precisão, aonde está a vitima escolhida, da qual, graças aos aguçados sentidos, identifica, a distância, a idade, o sexo e a constituição; Jamais atacará velhos ou enfermos (salvo escassez absoluta de Jovens e sãos).
Chegado Junto da presa, o vampiro se abate sobre ela, fascinando-a com o olhar, e, preferencialmente, procura atingir o coração para sugar o sangue na fonte; mas, se a vitima está vestida desvia-se para o pescoço, quase sempre descoberto, abre a artéria e sorve todo o sangue, a menos que seja impedido.
Mas, se percebe aproximação de um vivo, foge (porque compreende perfeitamente que sua acção é criminosa) na direcção de onde veio.
Guiando-se e servindo do mesmo rastilho de luz, regressa ao lugar de onde saiu, tal qual o lunático retorna infalivelmente ao leito, se por nada for impedido.
Então, se está suficientemente saciado, recai na imobilidade por um tempo mais ou menos longo, até que, em uma noite de plenilúnio, recomece a homicida peregrinação.
Os vampiros femininos são mais raros do que os masculinos, porque seus organismos, menos robustos, sucumbem mais frequentemente; os vampiros homens escolhem de preferência para vitimas mulheres e crianças.
Nos casos em que tais seres têm sido Identificados, o instinto popular Inspirou a ideia de desenterrar o morto Incriminado e cortar-lhe a cabeça, ou espetar o Inferior do corpo com um ferro em brasa.
O processo é selvagem, igual a todo acto inspirado por paixões desenfreadas, mas, em principio, atinge a meta, porque, uma vez avariado o corpo de modo irremediável, os laços que o prendiam ao perispírito são destruídos, a letargia cessa, e a alma, e assim o corpo, retomam as condições ordinárias.
Se a violência não interrompe o estado letárgico, este pode prolongar-se por muito tempo, e o vampiro vegetará nessas condições até que um acidente qualquer venha a destrui-lo.
Nos países frios, o vampirismo ocorre multo raramente; nos mais aproximados do Equador, na Índia principalmente, tem sua verdadeira pátria, terra misteriosa e estranha da qual multo pouco se sondam os enigmas.
Quem suspeita, por exemplo, de que existem ali muitos vivos que se alimentam, quase exclusivamente, da força vital de seres que subjugaram e dos quais toda a existência se escoa num êxtase embrutecido, dos quais todas as funções vitais e intelectuais são suspensas, porque um outro se nutre da força que as devia sustentar?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72053
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 7 de 8 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum