Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Página 8 de 8 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 15, 2017 8:12 pm

Esses pobres entes são olhados com espanto e desdém, alvos de motejos, mas ninguém desconfia que sejam as vitimas dum vampirismo cultivado por uma categoria de homens, sábios, aliás.
Em todas as direcções, o homem esbarra com mistérios, em meio dos quais peregrina, cego; toda a nossa existência é uma luta durante a qual buscamos, nas trevas, o porquê do passado, do presente e do porvir, e, entretanto, repelimos obstinadamente a chave do enigma que se nos oferece sob a forma de diversos fenómenos inexplicados.
Somente quando a muito orgulhosa Ciência se afastar do seu obstinado non possumus, quando abordar francamente o estudo das misteriosas forças da alma, das quais o magnetismo, a mediunidade, o hipnotismo são mínima parte, quando se desvendarem, pouco a pouco, as ocultas leis que regem o Universo, tudo se tornará claro, não haverá mais milagres, nem feitiçarias, e sim leis naturais e factos delas decorrentes.
Antes de terminar esta nota sobre o vampirismo, direi ainda algumas palavras sobre os vampiros inconscientes, não mui numerosos, porém menos raros do que estes últimos descritos.
Sua origem é a mesma, mas, nestes, o instinto voraz, motivado pela composição do seu perispírito, manifesta-se inconscientemente, por um fluido acre e devorante que exalam, e absorve as forças vitais dos que o cercam e, por assim dizer, os devora.
Tais seres, habitualmente, são pequenos, secos, nervosos, de olhar penetrante, de actividade febril e Incessante; em seu redor tudo se torna mesquinho, fraco, doentio, e apenas eles, vampiros, gozam saúde florescente; mas, não se lhes pode Imputar a mal a destruição dos seus próximos, pois a forca de que fazem uso ê Inconsciente.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 15, 2017 8:12 pm

EPÍLOGO

Tão insensivelmente quanto a luz do dia desaparece nas trevas da noite, assim o Tempo devora tudo que foi criado; gigante insaciável, seu lema é destruição; nada lhe é sagrado, nem monumentos célebres, nem obras de arte, nem beleza, nem poder:
ele passa Insensível, imutável, e tudo se aniquila.
Tudo, menos uma coisa, também tenaz, tão eterna quanto o próprio Tempo:
a Alma, o princípio de vida, sempre renascente dos escombros do passado, criando através do tempo um labor interminável.
É noite. A exemplo de centenas de séculos antes, a Lua inunda com seus raios prateados uma planície da velha terra Egípcia, e se reflecte nas águas do Nilo.
O rio sagrado não sofreu transformação, mas sobre suas margens passou o gigante destruidor e delas fez um deserto.
Por cima dos montículos de areia, dos templos derribados, das estátuas mutiladas, tristes restos de Tebas — a soberba, a cidade das cem portas, flutuava vacilante e esbranquiçada nuvem, desenhando, por momentos, uma silhueta humana, vaporosa e quase impalpável.
Essa nuvem era uma Inteligência, centelha divina e indestrutível, que pairava, pensativa e tristonha, sobre esses lugares onde tinha vivido, evocando, na reminiscência, a época longínqua em que essas ruínas eram esplêndidos monumentos, em que gerações, de há muito extintas, animavam, com a sua ruidosa vida, a orgulhosa Capital do velho mundo.
Junto da necrópole, o Espírito parou para examinar, suspirando, imensa e devastada construção, meio sepultada pela terra:
ele havia visto de pé, em todo o seu primitivo esplendor, esse túmulo da rainha Hatasu, com seus pátios imensos, seus terraços, suas colunatas sem fim e suas pinturas de vistosas cores.
O tempo destruíra o esplendor do monumento; nenhum traço restava da imensa avenida de esfinges pela qual marchavam noutros tempos as pomposas procissões que iam sacrificar aos manes dos soberanos.
As tumbas reais estavam vazias, as vicissitudes dos séculos dali enxotaram os corpos embalsamados dos belicosos Tutmés e da orgulhosa mulher criadora do original monumento, tão diferente de tudo que se construía no Egipto, imperecível lembrança das conquistas de seu progenitor nas margens do Eufrates e da sua própria vitória sobre os preconceitos dos seus contemporâneos.
Doloroso suspiro irrompeu do coração fluídico do Espírito:
a vista de toda aquela destruição era-lhe penosa, e, apesar disso, as ruínas desse passado atraíam-no invencivelmente.
Com a rapidez do pensamento, deixou os escombros de Tebas e penetrou, qual fugitivo raio, numa construção cujas salas estavam atravancadas com a reunião dos mais diferentes objectos.
Tudo quanto ali se via provinha do Egipto antigo, e que não se encontrava naquela miscelânea?
Estátuas e objectos funerários, jóias e utensílios de toda espécie, desde as bugiarias pertencentes ao palácio do Faraó até os grosseiros petrechos de operários, e lá, numa das salas, as longas caixas, numeradas, sarcófagos de Faraós.
Um raio de luar descia sobre a madeira enegrecida, sobre as pinturas desbotadas e sobre as faixas desenroladas que mostravam os rostos de alguns, daquela mesma lua, que iluminara com seu clarão aqueles mesmos homens, quando vivos, cheios de força e orgulho.
Dolorosa agitação trabalhava o invisível visitante do Museu Boulacq, enquanto olhava, para satisfazer a curiosidade, aquelas amontoadas coisas.
Pensava nas mãos sacrílegas que haviam violado todas aquelas tumbas, arrancado do retiro, que supunham eterno, os pacíficos adormecidos, cujas cabeças estavam cingidas pelos séculos com uma nova e venerável coroa.
Pobres Faraós do Egipto, átomos presunçosos, que imagináveis poder desafiar o futuro em vossos refúgios inacessíveis!...
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 15, 2017 8:13 pm

O tempo fez justiça ao vosso orgulho, não fostes despertados em vossos sepulcros enquanto os estrangeiros invadiam a pátria, devastavam vossas cidades, destruíam vossos impérios, só deixando de pé os indestrutíveis escombros dos templos, das pirâmides, que mesmo a sanha dos bárbaros não pôde dar cabo!
Como que por irrisão da sorte, o frágil despojo humano sobrevivera aos monumentos de granito, e eles, a quem eram rendidas honras divinas, aos quais se chegava com a face no chão, não passavam agora de objectos numerados, expostos à banal curiosidade de cada visitante.
Lá repousava agora o altaneiro Ramsés II, ainda enrolado em panos tecidos para ele pelas mãos dos súbditos; seu rosto, enegrecido pelos séculos, reflectia ainda o orgulho que o animava outrora, e os visitantes examinavam curiosamente aquelas mãos ossudas que brandiram a “hacha d’armas” nas batalhas contra o desaparecido povo dos hitenos, aquela boca, de lábios fechados, da qual uma palavra decidia da vida ou morte de milhares de homens.
Lá também se encontrava a múmia de Tutmés III.
Mãos bárbaras quebraram o corpo do grande conquistador que subjugou a Ásia e construiu os maravilhosos templos que lhe imortalizaram o nome.
Também lá estava um desses tipos dos velhos soberanos do Nilo, tenazes e armipotentes, primeiros não só na vitória, mas na batalha, conseguindo triunfos, electrizando seus guerreiros pelo exemplo, persuadidos de que os deuses protegiam as suas sagradas cabeças.
Tal geração de heróis morreu, extinguiu-se; os tempos e os usos modernos tudo mudaram; as bombas e a dinamite substituíram a machadinha e as flechas; a matança a distância substituiu as lutas corpo a corpo; os soberanos atuais, se vão à guerra, assistem do alto de uma colina, rodeados de brilhante estado-maior, ao massacre dos súbditos, não combatem mais: condecoram com uma “cruz de ferro” os heróis melhor recomendados ao seu favor.
A cabeça fluídica do visitante inclinou-se pesadamente, à lembrança do glorioso passado daquela pátria, tão amada, pela qual muito pecara e muito trabalhara; também ele tivera a coroa mística dos soberanos do Nilo...
E um invencível desejo lhe veio de rever, em todo o primitivo esplendor, os lugares onde vivera.
Sem dúvida, para o olhar humano, Tebas, Mênfis, Tânis desapareceram do solo: o barbarismo dos homens deixaram-lhe apenas sobre existir o nome; porém, nas camadas luminosas do passado, elas se conservam intactas e vivas; a mão piedosa da Criação empilha nos seus arquivos fluídicos e eternos o reflexo fiel de tudo que existiu, desde os continentes submersos, as civilizações desaparecidas, com os seus monumentos e costumes, até as figuras, actos e pensamentos dessas raças extintas.
Lá, a destruição não existe, e basta uma potente vontade para fazer ressurgir a Fata Morgana(24) do mais longínquo passado.
Um tal impulso de vontade animava a vaporosa e pálida sombra, que planava no ar e despedia de si própria como que um fluxo de fogo, iluminando o espaço, arrastando o Espírito através das camadas fluídicas dos séculos escoados.
Bem pronto surgiu de todas as partes, em torno do ser espiritual, maravilhosa cidade, cheia de movimentos e vida, tal qual na remota época; templos e palácios espelhavam-se nas águas do Nilo, coalhado de embarcações, porém, tudo diáfano, afogado em azulada claridade, suave, vacilante, e como que atravessado por essa luminosidade.
Com um esmaecido sorriso, o velho soberano do Nilo contemplou a soberba cidade evocada do abismo pela sua vontade, porque, se o Tempo domina nas ruínas do passado, acima dele reina o Pensamento, para o qual não existe nem tempo, nem destruição.
Era Mênfis (do tempo de Hatasu) que revivia aos olhos do Espírito que a evocara e contemplava aqueles lugares outrora tão conhecidos.
Nada mudara: aquela alta e espessa muralha cinturava, tal qual no velho tempo, os jardins e o misterioso palácio do nigromante.
O transparente visitante deslizou, pelas aleias sombreadas, para o silencioso e esplêndido edifício, que parecia envolver uma nuvem volatilizada de aroma suave e sufocante.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 15, 2017 8:13 pm

Parou. A alguns passos, apoiado a uma coluna, estava um ser, também pertencente à população do passado, não a personalidade, e sim a sombra ou reflexo, cujos traços lembravam os de Horemseb, mas as insígnias reais que o adornavam eram de um monarca moderno.
— Mau príncipe do Egipto, triste rei de Baviera, que malsãs quimeras, remotos e deletérios odores do passado, arrastaram ao abismo — murmurou o Faraó.
É, pois, nos reflexos do passado que buscas olvidar os sofrimentos do presente, e não sozinho — acrescentou, prestando ouvido a estranhas harmonias, tão depressa suaves, tão pronto discordantes e selvagens, que faziam vibrar a atmosfera.
O grande maestro, que protegeste, veio reencontrar-te aqui?
Para calmar a alma Inquieta, misturou suas criações atuais com os sons selváticos que acompanhavam os ritos sangrentos do padre Tadar!
Com expressão de tristeza, o visitante elevou a transparente mão, fazendo dela jorrar acre e devorante flama, que paralisou os sons daquela música pungente, a qual de pronto cessou.
— Por que nos vens perturbar e reprimendar o querer, com as recordações do passado, olvidar o presente? — dirão, com ira, Luís II e Richard Wagner.
Não fizeste o mesmo, átomo impotente, despido do ceptro e da coroa?
Tua mão não mais empunha o chicote, não brande a “hacha d’armas”, não travas mais batalhas:
tua glória, e assim teu poderio, é poeira...
E, fugindo ao triste presente, não vens, tal qual o fazemos, retemperar-te no reflexo da tua sepultada grandeza?
O Espírito refez-se e pareceu iluminar-se por inteiro com fulgente e doce luz.
— Enganai-vos, pobres companheiros do passado; não evito o presente, nem me fazem falta batalhas mais gloriosas do que as daqueles tempos; não mais me orno com a coroa do Egipto, mas trago a do trabalho espiritual; manejo a afiada “hacha” do pensamento e a descarrego sobre as trevas que obscurecem a inteligência; meus prisioneiros são aqueles que arrasto para o progresso, para o arrependimento, para a fé; em vez do ceptro, trago a luz que ilumina o verdadeiro alvo da Alma, e o látego que mostro aos homens — olha! (grande e luminosa cruz se lhe desenhou no peito) é o símbolo da eternidade, à qual ninguém foge, e que, por imutável lei, pune cada um pelo que haja pecado!
“A luta entre Ra e Moloc prossegue igualmente, e os celebrantes de Moloc não morreram convosco.
É o Espiritismo, mensageiro de luz e de amor, que deve combater o moderno ocultismo, esta ciência que se envolve de trevas e teme a claridade, cujos sacerdotes não mais bebem o sangue das suas vítimas, porém, sobre um altar enlodado, devoram a vitalidade moral, matam o despertar da Alma, o impulso ao arrependimento e à renovação espiritual.
Esses servidores do mistério desfiguram a Verdade por um egoísmo inaudito, praticam ritos impuros, e, apesar disso, prometem aos desmoralizados adeptos a união com a divindade, sabendo perfeitamente que tanta escuridão não pode unir-se à fonte luminosa de todas as coisas.
Não se pode, por meio de orgias, abrir as portas do Invisível e evocar a divindade; não é dado aos que têm as mãos impuras soerguer o véu de Ísis, para firmar os olhos nos seus sublimes traços.
“Os sacerdotes e as sacerdotisas, ante o sacro altar, devem ser puros de alma e corpo, e abandonar, nos degraus do templo, todos os maus desejos; para invocar o Invisível, o homem deve espiritualizar-se, reaquecer a alma por uma prece isenta de todo interesse material.
Se ao encontro do Invisível enviardes luz, a Luz vos responderá; seu mensageiro será puro quanto a vossa fé, vossa oração, vossos desejos; ele vos trará a saúde do corpo e a paz da alma, sem vos pedir coisa alguma — de material — por preço da sua presença.
Mas, se viciosos sacerdotes, materialões, enviarem trevas por mensageiras aos habitantes do mundo invisível, um Espírito das trevas aparecerá e fará pagar, pela sua vinda, um tributo material.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 15, 2017 8:13 pm

“Torno a vós, meus irmãos: que buscais nesse passado que só vos deu sofrimento?
Quisestes gozo, sem amor, e só haveis recolhido dor e vazio da alma:
sacudi o erro e o egoísmo, dominai a matéria, para que ela não vos arraste ao abismo das trevas, no seio das quais não mais vereis a claridade.
A vós e a todos aqueles cuja alma está obscurecida, quisera gritar:
— Fazei um esforço para o Bem, e tudo se tornará luminoso em redor de vós, e não mais buscareis o vício para esteio da existência, que vos parece vazia sem ele!”
Uma deslumbrante luz se havia concentrado pouco a pouco em torno do Espírito; a miragem da cidade dos Faraós esmaecera e se fundira sob a abóbada azulada e vaporosa que esta própria rasgara, descobrindo um horizonte sem limites, cheio de esplêndidos luzeiros.
Os pobres Espíritos sofredores acompanharam, com atristado olhar, o audacioso e célere voo daquele que lhes havia falado, e que não estava só, nesse oceano de luminosidade.
Numerosa falange de combatentes pelo progresso e pela perfeição descia para espancar as trevas da Terra, e ao seu encontro surgiam, de todos os recantos, inteligências, ávidas de repouso, de saber e de fé, dispostas a conduzir o archote do progresso ao ambiente onde deviam agir.
E todas essas almas quebrantadas, fatigadas das trevas da matéria, murmuravam, através das esferas: Fiat Lux! Faça-se a Luz!

(24) FATA MORGANA - Esta expressão, predilecta de Rochester, está empregada em vários de seus romances, e corresponde - em rigor - a miragem, o curioso fenómeno óptico do deserto.
Mas, em verdade, é uma assimilação de antiga e selvagem deusa belicosa, Irlandesa (que figurou nos romances medievais, do género “cavalaria andante”, que inspiraram o D. Quixote), cuja ilusória influência era tão perigosa quanto a ficção do oásis. (Veja-se Mitologia Universal, de Alex. Hagg. Krape, ed. Payot, Paris, 1930, pág. 229.)
Esse fenómeno era conhecido no Egipto, dadas as suas condições atmosféricas.

FIM

§.§.§- O-canto-da-ave
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 8 de 8 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum