Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Página 2 de 8 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 05, 2017 8:12 pm

Calou, sufocada.
Indefinível expressão de ódio, de desespero e de selvática obsessão crispava-lhe todo o rosto.
— Calma-te, Neftis, e conta com o meu auxílio, em qualquer iniciativa que tomes.
Possa o meu devotamento provar a sinceridade do meu amor por ti.
— Creio e agradeço, Keniamun, e, a meu turno, juro que, no dia em que Horemseb, destruído, degradado, preso a corrente, for arrastado pelas ruas de Tebas para comparecer ante os juízes, nesse dia, serei tua esposa.
Possam Hator e todos os Imortais punir-me e negar-me as moradas da felicidade, se eu faltar a este juramento.
Keniamun apertou fortemente a tremente mão da jovem mulher.
— Para tal conseguir — disse ele —, é indispensável saber o que se pratica sob as sombras misteriosas dos sicómoros, nesse palácio onde se consomem mulheres...
— Onde também se tragou Neith — interrompeu Neftis.
Quanto aos segredos do feiticeiro, conheço uma parte...
E narrou sucintamente tudo quanto testemunhara.
O oficial ficou aturdido, pois jamais suspeitara tão inauditos crimes.
E falou:
— Para libertar Neith e desmascarar um criminoso tão temível e tão altamente colocado, não te parece que nós ambos somos insuficientes?
Se perecermos, é preciso que outros prossigam nossa tarefa; nessa intenção, ofereço-te Sargon por aliado, pois é seguro, ousado e já suspeitou a verdade.
— Muito bem.
E de minha parte proponho Inteirar Ísis do assunto: também ela é enérgica e fiel, e tem três mortos a vingar.
— De acordo que estamos — rematou o oficial, levantando-se —, permite que vá buscar nossos dois aliados, para formarmos conselho e assentar um plano de acção: quanto mais depressa melhor.
Meia hora mais tarde, os quatro conjurados reuniram-se em aposento cuidadosamente garantido contra indiscrições, e Neftis, concentrada e resoluta, minudenciando desta vez, narrou de que forma havia caído em poder do nigromante, descreveu a vida estranha que se mantinha na vivenda de Horemseb, a indigna mutilação de quase todos os fâmulos, as orgias nocturnas, o poder das rosas enfeitiçadas e o do contraveneno, o pavilhão inescrutável onde o príncipe desaparecia para trabalhar com um sábio desconhecido, enfim, o que lhe havia dito o jovem escravo a respeito da horripilante morte infligida a vítimas inocentes.
Suor álgido porejara a fronte dos ouvintes ante a inacreditável narrativa.
Ísis agora compreendia o que teria acontecido à irmã, morta quiçá por entre atrozes sofrimentos.
E ao pensamento de que Neith estava nesse inferno, e de que sua alma, pura e inocente, encontrava-se enodoada pela vista de tais misérias, pungente dor física feria o coração de Sargon, que foi o primeiro a romper o silêncio, perturbado apenas pelo soluçar de Ísis, pelos dolorosos suspiros de sua amiga e a respiração ofegante e refreada dos dois homens.
— Pois que se trata, em primeiro lugar, da libertação de um ser que me está ligado e a quem amo — disse o hiteno, erguendo o busto, pálido e de olhar incendido —, é a mim que incumbem o direito e o dever de penetrar, antes de todos, nesse local de morte e dissolução, e, porque ali só se aceitam mudos, serei surdo e mudo.
Embora simular isso não seja fácil, mas possível, triunfarei, fazendo-me comprar por escravo.
Seu intendente, segundo se diz, compra muitos, pois necessita renovar o gado humano dizimado pelas orgias!
E, uma vez dentro da praça, vigiarei Horemseb e encontrarei minha mulher, se ali se acha.
— E se te reconhecem? — interrogou Ísis, murmurante.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74001
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 05, 2017 8:12 pm

— Quem me pode reconhecer?
O príncipe nunca me viu, e eu posso evitar Neith.
Além disso, estou bastante mudado, e o seu orgulhoso olhar não descerá até um mísero escravo.
— E de que maneira nos comunicaremos, para estarmos ao corrente do que descobrires? — perguntou Keniamun.
— Combinaremos, quando chegados lá; teremos de descobrir ou escavar no muro um buraco ou fenda onde eu possa depositar, cada dia, um pequeno rolo de papiro, e, se este faltar, significa ter sido eu descoberto.
Dareis então o alarme.
— Irei contigo, Sargon: tenho três mortos a vingar sobre esse miserável, e não quero permanecer inactiva — disse, energicamente, Ísis.
E, ao notar o sinal negativo feito bruscamente pelos outros, acrescentou:
— Não temais coisa alguma, pois, perigo conhecido, já está por metade evitado, e a tarefa de Sargon será bem facilitada não estando ele sozinho na goela do leão.
Nós nos ajudaremos reciprocamente, e, se um perecer, ficará o outro para vos dar a notícia; esforçar-me-ei para ser enfeitiçada pelo bruxo, pois não ignoro ser bastante bela para constituir seu divertimento.
Apenas não terá poder algum sobre mim, porque destruirei todas as rosas e porei fora a bebida enfeitiçada.
Não tenteis dissuadir-me: minha resolução é inabalável.
Após curto debate, o oferecimento de Ísis foi aceito, de igual modo que a proposição de Keniamun, de obter uma licença de meses para acompanhar seus aliados a Mênfis.
— O comandante das tropas etíopes é amigo, e, em caso de necessidade, dele obterei soldados para cercar o palácio, ou forçar a entrada — acrescentou.
— Resta-nos apenas fixar o dia da partida — disse Neftis, de olhar coruscante — porque eu, meus amigos, posso oferecer-vos abrigo seguro, onde ninguém nos procurará.
Possuo, do chefe de meu pai, pequena moradia, situada em paupérrimo quarteirão de Mênfis, não distante do mercado de escravos.
Tal habitação, simples e modesta, mas adequada às nossas necessidades, fica em centro de jardim, quase inculto, e foi residência de uma parenta falecida recentemente.
Velho escravo, fiel e devotado qual um cão, nela reside, só, actualmente, e ninguém o conhece, porque está de pouco tempo em Mênfis, vindo de um vinhedo pequeno que possuo.
Servir-nos-á, e será o vendedor de Sargon no mercado.
Asseguro que não nos trairá.
Depois de assim haverem decidido a perdição do nigromante, os conjurados separaram-se.
As duas mulheres, a sós, ainda conversaram longamente.
— Uma coisa ainda me horroriza e gela de terror o peito:
é a tua deliberação, Ísis — frisou Neftis, com um suspiro.
Confessa-o, é por amor do hiteno que vais segui-lo ao antro do leão; mas, se o feiticeiro, apesar de tudo, envenenar tua alma e te destruir?
Não desdenhes da grandeza do perigo; ainda é tempo de desistir; tu não conheces o poder da feitiçaria e a força fascinadora de Horemseb.
Que vale Sargon, comparado a ele?
Senti sobre mim esse olhar que gela e queima; vi o sorriso que zomba e, apesar disso, prende para sempre a ele.
Eu o abomino, e, no entanto, não o esquecerei jamais, e é porque ninguém o possui, e eu não o possuí, é por isso que eu o traio e destruo.
— Tens razão:
deixei-me prender a Sargon, sem segunda intenção, porém, visto que é casado, pretendo apenas ajudá-lo a reaver a esposa.
No que concerne a Horemseb, não temas por mim, Neftis, porque não amarei nunca esse homem horripilante, cuja alma tem o negrume dos abismos, que a ninguém ama e que destrói, por prazer, inocentes criaturas, que jamais lhe causaram mal algum.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74001
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 05, 2017 8:12 pm

A tal monstro, por formoso que seja, não encadearei minha alma:
quero vingar minha pobre irmã, e fazer Horemseb pagar os sofrimentos de tantas desgraçadas.
Uma tarde, quinze dias, aproximadamente, após o memorável conciliábulo em que, arrebatada pelo ciúme, Neftis havia traído o nigromante e jurado sua perda, o príncipe Tutmés, deitado num leito de repouso, jogava damas com um oficial das guardas.
O herdeiro do trono estava visivelmente entediado e de mau humor.
É que, três semanas antes, em grande caçada, uma das rodas do seu carro, incidindo num baixio da estrada, quebrou, fazendo com que, pelo desequilíbrio, fosse projectado violentamente no chão, luxando um braço e ferindo uni joelho.
Seu estado não apresentava gravidade, mas forçava repouso, em casa, além de severíssimo regímen alimentar.
Por Isso, à proporção que as dores diminuíam, o turbulento e vivaz príncipe mais e mais se impacientava, e, na manhã do dia citado, o aborrecimento e o mau humor haviam atingido o apogeu.
Descontente de tudo, maltratara os familiares, e, para ver cara nova (segundo textual expressão sua), convidou para uma partida de damas o oficial de serviço, coincidindo que era Mena.
De resto, o jogo não o entreteve por muito tempo:
repelindo o tabuleiro, pousou as costas no leito.
— Não quero jogar mais; vai, Mena, e dize que me enviem os objectos que comprei ontem no mercador estrangeiro; depois, conta-me uma história bem picante, das muitas que deves saber, pois, ao que se diz de ti, és assíduo onde florescem as mais escandalosas aventuras.
— Procurarei contentar-te, príncipe.
É certo que sei muitas coisas, digo-o sem me gabar, porque são as aventuras que correm para mim — respondeu Mena, com fatuidade, inclinando-se profundamente.
Em seguida, ordenou a vinda dos objectos reclamados, e, enquanto Tutmés se distraía em examinar os ricos tecidos estrangeiros, jóias e armas trazidas do país de Kewa (Fenícia), Mena desfiou uma série de anedotas, algumas menos e outras mais arriscadas, o que restituiu o bom humor ao príncipe, pois riu perdidamente.
Como que em retribuição, presenteou Mena com soberbo punhal, de cabo cinzelado, escolhido de entre os objectos ali esparsos.
Subitamente, recordou que, em uma das recentes visitas, Ísis mostrara desejo de possuir uma jóia fenícia, do género da que vira em Nefert, a filha de Tuaá, e resolveu enviá-la, para o que escolheu um colar e um prendedor que lhe pareceram adaptar-se à descrição que ouvira, ajuntando mais um lenço bordado e franjado de ouro, objectos que encerrou em elegante cofrezinho de marfim.
Mas, para não descontentar Neftis, preparou para esta um segundo cofrezinho de presentes, e disse, fechando-o:
— Pronto! Amanhã, enviá-los-ei, e creio que Ísis e Neftis ficarão satisfeitas.
Mena, que ajudara Tutmés, alcançando-lhe os objectos que iam sendo escolhidos, prestou atenção a este segundo nome.
— Não poderia eu ser o teu mensageiro, príncipe? Seria prazer para mim — disse, obsequioso.
— Tu farejas as mulheres belas, tal qual o cão um bom osso mas, para recompensar as tuas boas histórias, acedo à solicitação: leva as caixinhas, e amanhã cedo vai ao subúrbio de Tebas (e indicou o local) onde está a moradia de Neftis; saúda-a em meu nome, e bem assim sua amiga, a formosa Ísis, e entrega-lhes os presentes, dizendo-lhes, outrossim, que irei vê-las, tão logo possa sair.
Para compreender o interesse que o nome de Neftis despertara no oficial, é mister retroceder a sete meses antes, à época da estada de Horemseb em Tebas.
Mena, cujo natural, baixo e interesseiro, o levava a rastejar ante os ricos e altamente colocados, fizera enormes esforços para imiscuir-se na intimidade do fascinador, conseguindo-o, em parte.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74001
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 05, 2017 8:13 pm

O príncipe compreendera que o servil personagem poderia ser-lhe útil, em vários sentidos, e que, não estando os hábitos e gostos de Mena no nível dos recursos pecuniários, seria fácil, por dinheiro, fazê-lo instrumento do que conviesse.
Para comprovar se poderia usá-lo no fim a que se propunha, o príncipe empregou Mena primeiramente em pequenos serviços, não oficiais, que saldou prodigamente, e, convencido de que nenhum escrúpulo constrangia a consciência do oficial, convidou-o para solitário passeio, dias antes do regresso a Mênfis.
E, quando se distanciaram para sítios sem ouvidos indiscretos, o príncipe, abaixando a voz, disse, sem preâmbulos:
— Notei que gostas de mulheres e de jogo, belas coisas, porém caras, mais caras do que podes pagar.
Queres ganhar, cada lua, uma redonda soma, em retribuição de serviço que me prestarás?
Um clarão de cúpida avidez iluminou os fulvos olhos de Mena.
— Que posso fazer para te servir, Horemseb?
Não duvides da minha boa-vontade.
— Desejo algo fácil de ti — disse lentamente o príncipe.
Informar-me-ás de tudo quanto de interessante ocorrer na Corte de Tebas e do que se diga de mim; mas, principalmente, tratarás de saber se aparece em Tebas certa mulher chamada Neftis, bela, ruiva, pele alva, olhos esverdeados.
Se a descobres, avisar-me-ás, e dar-te-ei recompensa especial por isso.
A cada lua, um homem, a meu serviço, virá buscar um relatório teu, entregando-te, ao mesmo tempo, a soma que combinaremos.
O acordo estava concluído, e Mena, que não encontrava nada de humilhante no seu papel de espião, de vez que isso lhe rendia dinheiro, havia mantido Horemseb fielmente informado das novidades da Corte e da cidade, faltando apenas descobrir Neftis.
Ouvindo Tutmés pronunciar esse nome, tratou logo de obter meios de ver a mulher em questão, pois, se acaso fosse a que tão encarniçadamente o príncipe buscava, poderia reclamar a prometida soma extra, da qual estava em grande carência, por isso que a falta de dinheiro em Mena era um mal crónico.
No dia imediato, rumou para a designada habitação.
De início, o escravo guarda-porta não lhe quis dar entrada, alegando que a senhora, indisposta, não recebia ninguém; mas, Mena declinou a qualidade de enviado do herdeiro do trono, e insistiu em ser admitido.
O nome de Tutmés produziu efeito, e a porta abriu amplamente para o carro do visitante.
Quinze minutos depois, estava em presença da dona da casa e de sua amiga.
Desculpou-se, em escolhidas frases, da insistência, transmitiu as mensagens e as dádivas principescas, e, após pequena refeição que lhe foi oferecida, retirou-se radioso, não duvidando de que favorável acaso conduzira-o directo ao fim:
a bela mulher de tez pálida, cabeleira dourada, devia ser a que Horemseb buscava.
Mas, que ligação existiria entre eles?
Teria ela preferido Tutmés, entrando em jogo o ciúme?
Devendo o enviado do príncipe tardar oito dias ainda, Mena tomou outras informações e redigiu seu relatório, farto em citações dos custosos e árduos esforços que lhe acarretara a descoberta de Neftis.
A seguir, relatou ser a jovem mulher amante de Tutmés, o qual, depois da reconciliação com Hatasu, a beneficiara ricamente.
Por fim, pedia instruções ulteriores sobre o assunto.
Mena jamais poderia suspeitar que, precisamente na noite da data da sua visita, a residência ficaria desabitada, sob a guarda de alguns escravos zeladores, transferidos todos os outros servos a distante propriedade, para outros afazeres.
Ao anoitecer, Neftis e Ísis, cuidadosamente protegidas por espessos véus, saíram, pelo jardim, alcançaram, a pé, o Nilo, e subiram para uma embarcação de aparência comum.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74001
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 05, 2017 8:13 pm

Dois homens, vestidos de modestos burgueses, ali as aguardavam: Sargon e Keniamun.
Este último, tendo dito a Chnumhotep necessitar atender a um velho parente de que era herdeiro, obteve licença de alguns meses.
Atingiram Mênfis, sem embaraços, e instalaram-se na pequena casa de Neftis.
Esta comunicou imediatamente ao escravo guardião o necessário, e bem assim o papel que lhe estava destinado, na venda de Sargon.
O velho Cheops era um desses servos que obedecem cegamente, sem nunca discutir ou examinar as ordens dos senhores; por isso, apenas pensou em bem executar o que dele se esperava.
Além de tudo, ignorava a qualidade dos dois homens, que conservavam as vestes do povo e guardavam nas conversações a maior discrição.
O príncipe e o oficial trataram, no primeiro tempo da sua estada, de uma indispensável preparação:
cada noite, encaminhavam-se às proximidades da moradia de Horemseb, e cavavam dois orifícios no muro que a rodeava, aberturas que deveriam servir para a correspondência de ligação entre Sargon e seus aliados.
Lá depositariam as folhas de papiros, dando notícia do que fosse descoberto, e seriam recebidas as respostas e novas do exterior.
A fim de orientar-se mais facilmente, o assírio transpôs o muro, com auxílio de escadas, aproveitando-se da propícia escuridão de uma noite, preparou alguns sinais que lhe facilitariam reconhecer o local, e escondeu, na espessura de um bosque, sob monte de folhas, um punhal, um machado de cabo curto e uma longa corda com anel corrediço.
Terminados tais preparativos, restava aguardar que o intendente do príncipe viesse ao mercado dos escravos, o que era fácil de saber, dada a proximidade da casa.
Todavia, muitas semanas se escoaram sem que se apresentasse a almejada oportunidade.
Desesperado e impaciente, Sargon começava a perder ânimo, quando, afinal, certa manhã o velho Cheops acorreu esbaforido, anunciando que Hapzefaá aparecera, e estava fazendo grandes compras.
Sombrio e resoluto, Sargon preparou-se para partir.
Por última vez apertou as mãos amigas dos que o rodeavam, emocionados, obrigando-os a jurar prudência e imediatas notícias suas.
Depois, seguiu Cheops.
Na tarde desse mesmo dia, Ísis realizaria sua primeira excursão ao Nilo, no intuito de encontrar o bruxo.
Cheops, completamente senhor do papel a representar, levava após si o falso escravo, oferecendo-o a quantos encontrava, e aproximando-se, sem ostentação, do ponto onde Hapzefaá adquiria algumas raparigas.
Muitos compradores detiveram-se a examinar Sargon, mas, informados de que era surdo-mudo, recusaram-no ou ofereceram preço ínfimo, dando lugar a que Cheops voltasse costas, cuspindo, colérico:
— Que vamos fazer deste animal estúpido e inútil?
Depois, esticando-se, berrou, a toda força dos pulmões:
— Quem precisa de muito hábil servo, entendido em todos os trabalhos caseiros, e cujo defeito único é ser surdo-mudo?
A voz aguda e ganida chegou ao ouvido de Hapzefaá, que, concluídas suas compras e aproximando-se dos dois homens, encarou Sargon, com escrutador olhar.
— É um mudo que estás vendendo, velho?
Quê! É surdo também?
Triplo trabalho, então, para lhe explicar o que tenha a fazer — engrolou o intendente, sacudindo os ombros.
— Oh! Um simples aceno basta para que entenda:
Karapusa é hábil e diligente servo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74001
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 06, 2017 8:03 pm

Não tem rival para entrançar guirlandas, ajeitar flores em jarras e corbelhas, alimentar os tripés de perfumes, limpar e ter em ordem os apartamentos, servir e alumiar os hóspedes, carregar fardos e abanar contra as moscas.
Por outro mérito, tem o de não escutar às portas e abusar da língua para caluniar os senhores — clamou Cheops com espantosa volubilidade, agitando os braços.
— Calma! Crês tu, velho imbecil, ser o primeiro escravo que compro na minha vida, para me aturdires assim?
É certo que o galhardo parece robusto, e eu o comprarei, se tu te contentas com um preço razoável, e se me convenceres de que sua inteligência não é muito obtusa.
Para atrair a atenção de Sargon, que parecia mergulhado na indiferença mais estúpida, Hapzefaá lhe aplicou um pontapé, e, gesticulando com os braços ao ar, simulou os movimentos de quem colhe flores e as ajeita para uma corbelha.
O falso Karapusa demonstrou animar-se alegremente, mostrando os brancos dentes e movendo a cabeça em sinal de haver compreendido.
Pegando uma corbelha e um feixe de flores começou a confeccioná-la, apesar dos gritos e protestos da dona vendedora.
Sem poder represar o riso, Hapzefaá gesticulou para que cessasse a tarefa, pagou a soma pedida por Cheops, e acenou a Sargon para que se reunisse ao grupo de alguns homens igualmente comprados.
Meia hora depois, Sargon, coração agitado, carregando pesada ânfora, e seus companheiros, tão silenciosos quanto ele, entravam no vasto domínio de Horemseb, cuja maciça porta se fechou após.
Hapzefaá entregou os novos escravos ao subintendente, retendo apenas Sargon, que guiou, através de longos corredores, até uma outra ala do palácio, introduzindo-o numa câmara onde alentado homem, de flácidas bochechas, escrevia.
— Chamus, trago-te o homem que me encomendaste para substituir Chnum — disse Hapzefaá.
Olha! Creio ter feito boa compra para o serviço íntimo do amo:
este rapaz se chama Karapusa, é surdo-mudo e me parece expedito e cuidadoso.
O chefe dos eunucos, erguendo-se, examinou atentamente Sargon, que simulava a maior e perfeita indiferença.
— Podia ser mais moço, porém não importa!
É suficientemente delgado e bem parecido — comentou Chamus.
Vou acomodá-lo, e começará seu serviço hoje, na refeição da noite.
Depois de permutarem acertos sobre as tarefas domésticas, separaram-se os dois homens, e Chamus conduziu o novo servo a ampla sala onde havia, ao centro, grande tanque cheio de água, e o confiou a outro eunuco.
Este fê-lo entrar num pequeno aposento contíguo, pôs ã sua disposição substancioso repasto, e fechou a porta.
Decorridas muitas horas, escoadas com bem compreensível agitação para o príncipe, a porta foi reaberta, e o eunuco o reconduziu à sala do tanque, acenando-lhe para despir-se e fazer um mergulho na água.
Sargon obedeceu, sem hesitar, e, depois de banhado, dois escravos enxugaram-no esmeradamente, esfregando-o com óleo aromático, e pondo-lhe um avental de fina lã bordado a ouro, além de amplo colar de ourivesaria ao pescoço e largas pulseiras nos braços e tornozelos, terminando por assentar-lhe à cabeça um “claft” listrado de azul e ouro.
— É evidente que Horemseb deseja ver em seu redor riqueza e elegância; tudo que se aproxima desse monstro sanguinário deve recrear seu embotado olhar e acariciar o olfacto — pensou Sargon, pleno de raiva e amargura.
Concluída a “toilette”, o eunuco levou-o à presença de Chamus, que o examinou, com satisfação e um balancear de cabeça aprobativo.
— Os outros estão aprestados?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74001
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 06, 2017 8:04 pm

— Sim; esperam na galeria.
Chamus escolheu uma vestimenta leve, ornou de jóias o pescoço e os braços, e saiu, fazendo aceno a Sargon para que o seguisse.
Anoitecera. Atravessaram muitas e silenciosas câmaras, iluminadas por tochas, depois uma galeria onde sete jovens escravos, com vestimentas idênticas à de Sargon, se incorporaram.
Ao longo de extenso corredor, Chamus se deteve, puxou um reposteiro de couro e abriu, com a chave que levava, alta grade dourada.
Uma série de apartamentos, mobiliados com realengo luxo, fartamente iluminados, seguia-se ante ele; por toda parte, viam-se móveis preciosos, objectos de arte e custosos vasos atestados de flores raras.
Moços, ricamente trajados, transitavam, sem ruído, alimentando os tripés com aromas suaves, mas sufocantes.
O coração de Sargon batia desordenadamente; parecia-lhe entrar em mundo encantado e novo; naquela casa de sumptuosidades, silenciosa qual um templo, vivia, pois, Horemseb e, junto dele, Neith, talvez amando e feliz nos braços do rival.
A semelhante pensamento, cólera e ciúme turbilhonavam na alma do assírio.
Teria sido para libertar uma ingrata que ele descera ao nível de escravo, entregue, de mãos e pés ligados, a esse chacal para quem a vida humana valia menos do que a do animal?
Não! Esse homem, frio e cruel, não dava a nenhum ser nem amor nem felicidade; se Neith ali estava, devia sofrer, e a vingança aproximava-se.
O punho se lhe crispou; o momento em que Horemseb, preso a correntes e degradado, fosse de rastos pelas ruas, esse momento pagaria tudo quanto ele, Sargon, estava arriscando e padecendo.
Logo em seguida, Chamus e seu séquito penetraram em grande sala, que, por uma das faces, abria para o jardim; brandões e lâmpadas acesos iluminavam profusamente; muitos domésticos, sob a direcção de mordomo, terminavam, céleres, os preparativos de uma refeição para duas pessoas.
Sobre largo degrau dourado, viam-se mesa e soberba poltrona; duas esfinges de metal sustentavam esta, de alto espaldar, forrado de estofo púrpura com ramagens de ouro; um tamborete de marfim, fronteiro, destinava-se ao conviva do senhor.
O eunuco indicou a Sargon o posto, por detrás da poltrona, e lhe deu soberba ânfora cinzelada, explicando, por gestos, que deveria encher o copo do amo, toda a vez que este lho estendesse.
A seguir, Chamus ergueu enorme e pesado pano suspenso a um lado da sala, e o hiteno percebeu, através da tapeçaria, dourado gradil que separava este recinto de um aposento ou galeria parcamente iluminada, na sombra da qual se viam mulheres vestidas de branco e trazendo harpas.
Nesse momento, prolongado e vibrante som fez-se ouvir, vindo do fundo do palácio.
Chamus deixou cair vivamente o reposteiro, e, ajeitando uma fisionomia de adoração quase estúpida, correu para junto da mesa, em tomo da qual vieram postar-se, em semicírculo, dez homens munidos de tochas, enquanto servos, trazendo os pratos, escalonavam prestes, segundo as ordens do mordomo.
Houve um momento de silêncio solene; depois, ruído de passos, e, da sala contígua, saíram dois adolescentes, empunhando tochas, e se detiveram imóveis como se fossem estátuas, e, sucedendo-os, caminhou Horemseb, acompanhado de esbelta mulher e muitos escravos.
Desde o aparecimento do amo, Chamus e o mordomo prosternaram-se e beijaram o chão; todos os demais servidores ajoelharam, e Sargon, fremindo de raiva, teve de imitá-los.
Mas, quase instantaneamente, tudo esqueceu: na mulher, que se avizinhava e que se instalou afinal no tamborete, reconheceu Neith.
Dominando, num quase super-humano esforço, o desfalecimento que por um instante ameaçou atirá-lo ao solo, inteiriçou-se na posição do seu posto, observando avidamente a jovem mulher, a qual, e assim Horemseb, não dirigira olhar aos escravos de serviço.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74001
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 06, 2017 8:04 pm

Neith trajava uma veste de lã branca ricamente bordada a ouro; jóias de elevado preço cintilavam no pescoço e braços, e uma coroa de flores ornava-lhe os lindos e negros cabelos; mas, seu rosto encantador estava pálido e emagrecido; taciturna tristeza velava-lhe os olhos, e a boca, em recalcitrante mudez, denotava sofrimento e exaustão.
Com tanta surpresa, quanto satisfação íntima, Sargon constatou que nenhuma palavra, nenhum olhar de amor foram permutados: com expressão fria e altanada, o príncipe servia sua companheira, que, vez alguma, ergueu o olhar para ele.
Coincidindo com o início do repasto, suave canto se elevou, por detrás do pano, melodia estranha, algo monótona, parecendo embalar os convivas, provocando um descanso voluptuoso e contemplativo.
Neith de quase nada se serviu, e bem depressa se apoiou na mesa como que absorvida pela música, enquanto Horemseb comia com apetite, erguendo muitas vezes o copo, que Sargon enchia, deplorando no imo da alma não ser veneno aquele líquido.
Por momentos, louco desejo o invadiu:
erguer a pesada ânfora e esmigalhar o crânio do miserável sentado diante dele, mas, a cada impulso, o ódio espelhava-lhe ante o espírito vingança mais requintada.
Oh! matar, apenas, era muito pouco!
A humilhação de Horemseb, o encarceramento, a tortura, morte horrível e degradante, eis o que poderia contentar o rancor feroz de Sargon.
Terminada a refeição, Horemseb também se apoiou à mesa, fixando Neith com olhar metade colérico, metade apaixonado; mas, porque os olhos da jovem permanecessem teimosamente abaixados, profunda ruga se lhe formou na fronte.
Levantando-se, curvou-se sobre ela, enlaçou-lhe a cintura, forçando-a a erguer-se.
— Vejamos, bela rebelada, concede-me afinal um olhar, um sorriso — disse meio a rir, meio agastado.
Neith não ofereceu resistência, mas os olhos continuaram abaixados, mesmo quando ele lhe beijou os lábios fechados.
Felizmente para o falso escravo, Chamus, atarefado com o amo, não viu o clarão odiento, fero e mortal, que relampejou nos olhos de Karapusa.
Na noite desse mesmo dia em que Sargon entrara para o serviço de Horemseb, no disfarce de escravo surdo-mudo, Neftis, com as mãos trémulas, enfeitava a amiga para o passeio pelo Nilo, que redundaria em cair, ela também, nas mãos do feiticeiro.
A despeito da resolução, Ísis, igualmente, estava agitada: esperava reconquistar a liberdade, mas, não alimentava ilusões quanto ao perigo a que ia expor-se.
Acompanhada de Keniamun, vestido com avental de grosseiro pano e com o “claft” riscado dos escravos, a moça entrou no pequeno barco, que o oficial dirigiu, apressadamente, rumo ao palácio de Horemseb.
Parando em face das escadarias, não esperaram muito tempo, pois viram, em breve, o fascinador entrar na maravilhosa barca, e, dentro em pouco, as duas passaram uma junto da outra.
A vista da formosa jovem, da qual o luar iluminava a branca tez, os louros caracóis dos cabelos, e cujo olhar parecia voltado para ele, Horemseb ergueu o busto, e, sorriso, misto de escarninho e de paixão, que lhe era habitual, olhar cintilante, tirou uma rosa do cinto e fê-la cair directa no regaço de Ísis.
Distanciadas que foram as embarcações, a moça atirou, com aversão, a flor para um cesto adrede, posto a seus pés para tal fim, no intuito de conservar as rosas para prova de que Horemseb as distribuía.
— Qual seria a indignação do bruxo, se visse o teu descaso pela sua preciosa dádiva! comentou Keniamun, motejando.
— Grande, sem dúvida, e maior ainda, se pudesse avaliar o asco que me inspira.
Tão bonito e ricamente dotado pelos Imortais, duplamente culpado se torna em assenhorear-se dos corações, por sortilégios, e destruir depois todos que o amam.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74001
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 06, 2017 8:04 pm

Durante os três dias que se seguiram, Ísis fez vãs excursões, pois não encontrou o príncipe, que, evidentemente, desejava fazê-la languir; mas, quando, enfim, suas barcas se cruzaram de novo, outra rosa foi-lhe atirada, acompanhando-a com olhar de não disfarçada paixão.
Ao terceiro encontro, que ocorreu alguns dias mais tarde, a rosa trazia preso à haste pequeno rolo de papiro, que Keniamun decifrou, no regresso a casa. Dizia assim:
“Bela desconhecida, se teu coração confirma o que teus olhos exprimem; se é com intenção que cruzas meu caminho, sejamos felizes, ambos, porque também te amo.
Se, pois, te inspiro confiança para que creias em meu afecto, vem, amanhã, à primeira hora da noite, à margem do Nilo (estava indicado o ponto), onde encontrarás uma barca, tripulada por dois homens, um dos quais exibirá uma rosa no boné.
Tu lhes mostrarás a que ora te dou, e serás conduzida aos meus braços, segura e discretamente.”
Pálida e trémula, Ísis escutara a leitura da mensagem: chegara o momento decisivo.
— Recuas? — perguntou Neftis, pegando-lhe a mão.
Repelindo o momentâneo desfalecimento, a moça retesou o corpo:
— Não — replicou energicamente —, não recuo, e amanhã estarei no local indicado.
Fartos de tantos crimes, os deuses protegem os nossos empreendimentos; eles me inspirarão para que eu possa auxiliar Sargon e vingar todos os inocentes destruídos pelo bruxo.
Nessa noite, ambas não dormiram.
Achegadas num banco do jardim, trataram primeiramente da mensagem trazida da fenda mural, por Keniamun, dias antes, e na qual Sargon lhes informava estar Neith realmente no palácio, e que ele fora posto no serviço íntimo de Horemseb.
Depois, Neftis indicou à amiga a maneira, a seu ver, mais fácil de subtrair-se à influência do aroma enfeitiçante e evitar beber, sem despertar atenção, o licor venéfico.
Falaram também da participação de Tutmés no uso do enfeitiçamento, pois Neftis confiara esse segredo aos seus aliados, para que estes pudessem, em caso de morte desta, exercer pressão sobre o príncipe e este sobre a rainha, na hipótese de querer a orgulhosa soberana subtrair à justiça o seu criminoso parente.
Pouco a pouco, a conversação esmoreceu e cessou totalmente.
Pesados e tumultuosos pensamentos perturbaram o coração das duas mulheres; um pressentimento, que em vão tentavam combater, segredava-lhes ser mais razoável desistir da desigual luta do fraco contra o forte; que aquela noite talvez fosse a derradeira de suas jovens existências, em que, livres, não sujeitas a vergonhosa subjugação, contemplavam o céu estrelado sobre suas frontes.
A ideia de que no dia seguinte, àquela hora, estaria em poder do desalmado nigromante, só e separada do mundo, um gélido tremor percorreu o corpo de Ísis; mas, a resolução não fraqueou; um amor bem mais profundo, que não confessaria, ligava-a a Sargon, e disposta estava a tudo sofrer para revê-lo e estar junto dele, no momento do perigo.
O dia transcorreu pesarosamente.
Até sobre o alegre Keniamun parecia haver tombado plúmbea nuvem, e seu olhar se obscurecia, ao contemplar a denodada moça que, destemerosamente, se expunha a um fim talvez medonho.
Chegada a noite, Neftis, sombria e muda, adornou a amiga, pôs-lhe ao pescoço um bento amuleto, e, após derradeiro ósculo, envolveu-a num manto.
Tendo-se igualmente despedido de Keniamun, que quis acompanhá-la até certa altura do caminho, Ísis saiu e andou rápida em direcção ao Nilo.
A vista do rio, apertou mais uma vez a mão do oficial, e correu para uma pequena barca, provida de dois homens, atracada no ponto indicado.
Quando se aproximou bastante, um dos remadores levantou-se, e, vendo a rosa na mão de Ísis, lhe indicou, com o gesto, a que trazia presa ao boné.
Depois, ajudou-a a embarcar.
Como que alquebrada, deixou-se cair no banco do barco. Findara tudo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74001
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 06, 2017 8:05 pm

Impossível a retirada, por instantes a coragem abandonou-a; mas, mulher corajosa e enérgica, a prostração foi fugaz; o próprio instinto de conservação inspirou-lhe a necessidade de, mais do que nunca, sangue-frio, lucidez de espírito, para tudo ver e enfrentar, a tempo, qualquer eventualidade.
O trajecto foi feito celeremente e no mais completo mutismo, parecendo que os remadores eram surdos-mudos, por isso que palavra alguma lhes saiu da boca.
Em breve, apareceu a muralha imensa que cinturava os domínios de Horemseb, e a embarcação, sem se deter, contornou a escada e sumiu no ancoradouro, cuja porta, silenciosamente aberta, com a aproximação, silenciosamente também fechou, após o ingresso.
Ísis olhou, escrutadora.
Ao fundo do hangar, iluminado por archote preso ao muro, via-se, amarrada, a barca maravilhosa, e sobre os degraus da escada de pedra, subindo para o talude, estavam dois escravos, muito moços, ricamente vestidos, empunhando tochas.
Um dos remeiros ergueu Ísis e a deixou no primeiro degrau, indicando-lhe, por aceno, os dois adolescentes, os quais, por sua vez, convidaram-na, por gestos, a segui-los.
Embora com o coração latejando descompassadamente, a nova hóspede acompanhou dócil os dois guias, que a precediam, iluminando o caminho.
Atravessaram aleias arborizadas, que lhe pareceram sem fim, tudo deserto, e onde apenas o rumor dos passos perturbava o silêncio, profundo e solene, daquela verde solidão.
Inopinadamente, à curva de escura aleia, desembocaram em vasta esplanada, ao término da qual se erguia o palácio.
Como que deslumbrada, Ísis parou, incapaz de desviar os olhos daquela visão mágica.
À esquerda do caminho que ia seguir, dominava um imenso lago, cujas polidas águas reflectiam labaredas acesas em altos tripés de bronze, colocados, equidistantes, em torno das bordas.
A fachada monumental do palácio mostrava uma série de colunas maciças, pintadas de cores vivíssimas, iluminadas por infinidade de vasos e tripés, queimando alcatrão.
Tal claridade, rival de um avermelhado luar de incêndio, promiscuia-se fantasticamente sobre as esculturas e ornamentos multicolores, os bosquetes de flores raras e os degraus de granito que conduziam ao jardim; na bruma avermelhada, via-se distintamente moverem-se silhuetas humanas, atarefadas em manter os fogaréus.
Recobrando-se, ao grunhido de um dos guias, Ísis recomeçou a andar, esperando encontrar Horemseb a cada instante; mas, este não apareceu, e foi Chamus que a recepcionou, conduzindo-a a elegante e pequeno aposento, semelhante ao que fora ocupado por Neftis, diferindo apenas em que abria para o grande jardim.
— O amo te saúda — disse o eunuco.
Ele escolheu para tua morada este aposento, no qual acharás tudo que necessites, em vestidos e enfeites.
Lá, sobre a mesa, fiz colocar refrigerantes:
come e bebe, se te apetece, e depois descansa.
As determinações ulteriores tu as receberás directamente dele.
E, saudando-a ligeiramente, retirou-se.
Ficando a sós, Ísis acocorou-se sobre um leito de repouso, e, enlaçando os joelhos com as mãos unidas, meditou a fundo:
— Que lhe trariam as próximas horas?
O senhor da casa viria ainda hoje dar ordens à nova escrava?
Infame, que deixava cair a máscara, tão logo a vítima transpunha o limiar da sua morada!
Oh! quando soaria a hora das represálias, em que Horemseb, mais degradado do que um escravo, aguardaria as ordens dos juízes?...
Deixando-se deslizar de joelhos, a moça ergueu as mãos, e muda, mas ardente prece elevou-se de sua alma para os Imortais, implorando a abreviação do dia da vingança.
Nessa mesma noite, algumas horas mais tarde, Tadar, o velho sábio, encontrava-se sozinho na sala do pavilhão que lhe servia para estudo e trabalho.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74001
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 06, 2017 8:05 pm

Descera do observatório, instalado acima do tecto, onde observara os astros, tentando neles ler o futuro; mas, era evidente não lhe ter sido revelado bom augúrio, porque profunda ruga lhe vincava a testa, e seu rosto, encarquilhado e anguloso, espelhava sombria ansiedade.
Cabeça apoiada nas mãos, fixava uma folha de papiro, na qual estavam traçados alguns cálculos astronómicos, e se achava profundamente absorto, a ponto de não se aperceber da chegada de Horemseb.
Somente quando este lhe tocou ligeiramente na espádua, entesou-se, em sobressalto.
— São, suponho, pensamentos desassossegados os que ouso perturbar, mestre — disse o recém-vindo, sentando-se. Haverá novos obstáculos à grande mostra prometida por Moloc, e que nos desvendará o porvir?
Leste nos astros algum sinal desfavorável?
— Essa experiência a que aspiras tão ardentemente, meu filho, verificar-se-á mais depressa do que esperas; mas, o que por duas vezes li, no céu, enche-me de apreensões o coração.
Claramente, as estrelas anunciam que mortal perigo paira sobre nosso tecto; tu, principalmente, és ameaçado por um homem, e também por mulher, que almejam destruir-te, porém, não pude ver detalhes, porque sempre sombras negras se interpõem e impedem distinguir nitidamente o que se prepara.
Horemseb estremeceu, e seu semblante, pálido e preocupado, desde a chegada, mais se sombreou.
— Esta noite trouxeram uma jovem destinada a Moloc — disse — e não sairá viva daqui; dentro de meses perecerá tal qual as outras.
Não creio seja ela a designada perigosa pelos astros.
Não será de Neith que possa vir o perigo?
Essa tenaz e orgulhosa criatura tem transformações tão estranhas e inesperadas!
— Não; já te disse que Neith não te trairá, e hoje acrescentarei:
é a única que te ficará fiel e devotada.
É de outra e de um homem, cheio de ódio, que provirá o mortal perigo que parece ameaçar-te de destruição.
Tem cuidado, Horemseb, sê prudente, mais do que nunca.
Expressão de raiva, mesclada de ansiedade, desfigurou por instantes o belo rosto do príncipe, e seu punho se crispou.
— Não posso duvidar, mestre, de que é Neftis o ser perigoso que ameaça minha vida; a miserável conhece nossos segredos, furtou a bebida encantada, da qual, desconfio, já abusa.
Por ela, tudo será desvendado, se eu não conseguir deitar-lhe a mão, em tempo, e para falar nela é que vim aqui.
Já te fiz ciente do relatório de Mena, anunciando tê-la descoberto, e que é a amante de Tutmés.
Imediatamente suspeitei que tal ligação, que lhe proporcionou a riqueza, e a miraculosa reconciliação da rainha com o irmão são efeitos do aroma sagrado.
Escrevi imediatamente a Mena, recomendando vigiá-la de perto e indicar a moradia dela ao meu enviado, homem de confiança, o qual devia raptá-la ou, se isso impossível, dar-lhe uma punhalada; mas, incontestavelmente, os espíritos impuros protegem-na, e advertiram-na, pois, esta noite, meu mensageiro regressou, e Mena comunica que Neftis desapareceu, e que sua casa está vazia e fechada, Kendo que o guardião ignora o rumo que a ama seguiu.
Saiu de Tebas? Esconde-se apenas?
Quem o sabe?
Mas, infeliz dela, se o acaso a colocar em minhas mãos!
— Bem podes ter razão, meu filho, suspeitando dessa Neftis, e se ela açular Tutmés contra ti, poderá ser ele o terrível inimigo assinalado pelas estrelas.
Horemseb acenou com a cabeça.
— Esta última hipótese parece-me improvável:
o príncipe real não se imiscuiria numa intriga dirigida contra um membro da sua casa; mas, entre os padres, possuo irredutíveis adversários.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74001
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 06, 2017 8:05 pm

Acalmei um pouco os de Mênfis, mediante sacrifícios, oferecidos antes da minha viagem, e pela minha participação na festa de Ápis; mas, em Tebas, a padralhada manteve-se em reserva, mostrou-me a sua desconfiança, e um profeta do templo de Amon, de nome Ranseneb, homem duro e fanático, disse-me certo dia, sem constrangimento:
— “Pretende-se, príncipe, que tu afectas mais do que negligencias pela religião e culto dos teus avós.
Deixa-me dizer-te que nem a hierarquia, nem o nascimento dispensam da deferência devida aos deuses e aos seus servidores.
Toma cuidado para que Ra não golpeie tua orgulhosa cabeça e não ilumine com desfavorável luz a sombra que envolve tua existência e teu misterioso palácio.”
Indubitavelmente ninguém pode proibir-me viver conforme quero, em minha casa; essa casta, porém, ávida, é insaciável de donativos, e Ranseneb bem pode ser o inimigo que temes.
— Sacrifica, então, e aplaca os padres com ofertas valiosas.
Horemseb suspirou.
— A coisa me é incómoda, e não posso, no momento, sacrificar o quanto seria necessário para lhes tapar a boca.
Devo confessar-te, mestre: a vida que levo esgota a minha fortuna.
Sou rico, ainda, sem dúvida, porém já tive embaraços, e prevejo o dia em que Hapzefaá venha dizer-me que estou arruinado.
Devo, pois, inventar um meio de reparar meus haveres, de vez que não posso mudar de costumes; estou habituado a viver da maneira que vivo, por detrás destes muros, e a isso não renunciarei.
Eis o que pretendo fazer, caso dês a tua aprovação: dentro de três semanas, após os grandes sacrifícios, terei alguns meses de ócio, e aproveitarei o ensejo para desposar Neith.
Ama-me e possui grandes cabedais, que Hatasu não deixará de acrescer.
A própria Neith obterá o perdão do rapto e, confessando que, por amor, me seguiu voluntariamente, a rainha não poderá desejar, mesmo para a filha de Naromath, partido melhor do que um príncipe da casa real.
— Teu plano é bom e prudente, meu filho, mas, esqueces que Neith é casada, e que seu esposo, indultado segundo me disseste, regressou a Tebas?
Ele ama a esposa, conforme dizem, e não te cederá seus direitos de marido.
— Voluntariamente, não, sem dúvida — obtemperou Horemseb, com cínico sorriso — mas, um tão mesquinho obstáculo não me deterá:
Sargon morrerá, uma vez que me atrapalha, e será Mena quem me desembaraçará do empecilho, pois, por dinheiro, assassinaria o pai!
Amanhã mesmo, dar-lhe-ei ordem para agir.
Isto, porém, é detalhe secundário.
Diz-me antes, Tadar, quando tentaras afinal a experiência autorizada por Moloc?
— Depois de amanhã, à noite, meu filho.
Purifica-te, pois, por um severo jejum, toma um banho e bebe a essência que dilata os sentidos; transportarás Neith aqui, para que eu a adormeça:
Moloc exige sua presença.
Providencia para que todos os serviçais sejam afastados nessa noite, e que ninguém perturbe nosso solene silêncio.
— E verei o que faremos nos séculos futuros, quando apenas nós sobre existirmos às gerações descidas ao túmulo? — interrogou Horemseb, com ávida curiosidade.
— O deus me prometeu.
Ele pesará os aromas que enchem nossas almas, e, feito isso, verá a direcção dos nossos instintos e o ambiente onde projectaremos nossos actos; porque é o excesso de um ou outro que faz balancear nossas acções e decide das provas que teremos de suportar.
Os demais homens morrem e regressam, em novo corpo, para lutar contra os aromas instintivos; nós, que viveremos sem mudar de envelope, nós nos transformaremos mais lentamente ainda, e, por muitos milhares de ciclos anuais, Moloc poderá fixar e nos mostrar o que nos aguarda.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74001
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 06, 2017 8:05 pm

IV - NEITH E HOREMSEB

Retrocedamos agora, para retomar a narrativa no momento em que Neith, estendida sobre as almofadas da cabina, adormecera na barca de Horemseb, para despertar no palácio.
Após haver transportado a jovem para o apartamento que lhe havia escolhido, e determinado a Chamus que ele e os servos da recém-vinda lhe viessem testemunhar o mais profundo respeito, o príncipe rumou para o pavilhão do sábio e lhe disse da bela e ilustre presa que acabava de consumar.
Tadar meneou a cabeça, preocupado e descontente.
— Terias procedido melhor pedindo-me conselho, antes de trazer essa moça para aqui.
Uma vez o fato consumado, peço-te que cuides da sua saúde e de atormentá-la o menos possível.
— Por que tantas recomendações? — inquiriu Horemseb, surpreso e desconfiado.
— Porque a filha de Mena não deve ser sacrificada a Moloc.
Li, esta noite, nos astros, que a mulher que transpusesse, hoje, teu limiar tornar-se-ia a nossa salvação e salvaguarda, no momento de perigo mortal.
É, pois, em teu próprio interesse que zelarás pela sua vida.
Expliquei-me clara e convincentemente para dissipar dúvidas?
Confesso que esperava maior confiança da tua parte.
— Perdoa-me, mestre; serás obedecido, e Neith aspirará apenas a porção de aroma necessário a manter o amor por mim.
Satisfeitíssimo, o fascinador regressou ao palácio.
O conselho do sábio coincidia com o seu próprio intuito:
o de conservar a vida de Neith; a arrogante e espiritual mulher agradava-lhe, e a fatuidade estava contentada com haver, afinal, se apoderado daquela jovem de alto nascimento, em vez de escravas e pobres filhas de burgueses, das quais fazia joguete e o tratavam por senhor.
A filha de Mena, pela origem e carácter, era de outra têmpera:
amada, mimada, adulada por todos, havia fruído a posição honrosa e privilegiada que os costumes egípcios concedem às mulheres. Levar à compunção essa bela caprichosa, humilhar seu orgulho, fazendo dela dócil e humilde brinquedo, devia constituir um divertimento tão novo quanto interessante, do qual Horemseb se prometia usar a bel-prazer.
Tornando a si, Neith encontrou-se num delicioso pequeno apartamento, decorado com luxo real.
As paredes do salão tinham incrustações de lápis-lazúli sobre fundo de ouro; todos os móveis, de madeiras preciosas, marchetados de marfim e pedrarias, possuíam acolchoados de púrpura.
Servos, mudos porém hábeis, serviam-na com respeito, e as vestimentas postas à sua disposição agradaram ao seu apurado bom gosto.
Mas, esta primeira impressão, toda favorável à nova morada, não foi duradoura:
a cativa jovem compreendeu bem depressa que aquela áurea gaiola era cárcere; não mais poderia ter contacto com Roma, que, terno e amoroso, delicado e benévolo, cedera sempre aos seus caprichos, olhando o seu amor como sendo o dom mais precioso, e que, ante as suas mais desarrazoadas fantasias, as acolhera em silêncio.
Mesmo Hartatef e Sargon, em obediência a sincera paixão, tomaram-se seus escravos; mas, o homem a quem imprudentemente seguira demonstrara-lhe, sem delonga, não estar disposto a diverti-la com amor, a passar os dias a admirá-la, a distraí-la, e sim que ela se dera a um senhor brutal e insolente, e não devia ter outra vontade além da dele.
Amanheceu o dia seguinte, e Neith, depois da refeição, manifestou desejo de fazer um passeio no Nilo.
— É impossível — respondeu tranquilamente o príncipe.
— Por quê? Teu palácio está na margem do rio, e eu quero sair! — disse, surpresa e contrariada.
— Lamento; mas, uma vez entrando aqui, não se sal mais.
Assim, não farás teu passeio no Nilo.
Neith ergueu-se, de olhos chamejantes.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74001
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 06, 2017 8:05 pm

É que não tendo absorvido nova dose do venenífero feitiço, estava na plenitude do seu natural, e também na força violenta do seu carácter.
Amava ainda Horemseb, é certo, mas acreditava-se correspondida, e conhecia o poder que ela exercia sobre os homens.
Além disso, habituada a que se dobrassem à sua vontade, a recusa, a coisa tão simples, ofendeu-a duplamente.
— Que significa isto?
Quero sair e sairei! — quase gritou, impetuosamente.
Ordeno que, agora mesmo, me aprestem uma barca; não vim aqui para ser prisioneira.
Horemseb voltou-se na cadeira, e fixou-a, com ostensiva ironia.
— Já te disse que não se sai do meu palácio.
Tu me seguiste livremente; habitua-te a obedecer-me e ter por vontade a vontade do teu senhor.
Fremente de pasmo e de orgulho, mediu-o, com olhar de desprezo:
— Tu disseste “senhor”, creio, mas erraste a palavra, decerto.
Caso contrário, fica sabendo, Horemseb:
a filha de Mena nunca teve senhor; a própria Hatasu diz-se minha protectora; Tutmés trata-me de igual para igual; os homens, que tenho honrado com o meu amor, consideravam-se meus escravos.
Se agora, como jamais o fizeste, ousares tratar-me tão insolentemente, eu te detestarei, em vez de te amar.
O príncipe ergueu-se, e o olhar se fixou, com glacial dureza, sobre a sua vítima, dobradamente formosa na passional revolta.
— Experimenta detestar-me — disse em tom vibrante —, mas fica sabendo também que, se pretendes conservar meu amor, jamais deves pronunciar palavras tão insensatas.
Neste palácio todos me são submissos; eu sou o senhor da tua alma, da tua vida, do teu corpo.
Compreende isto e adapta a isto o teu procedimento. Horemseb só tolera junto dele mulheres humildes, que suspiram a seus pés e imploram o seu amor, e nunca uma rebelada.
Se persistires na tua teimosia, eu te distanciarei de mim.
— Eu desejo regressar; não ficarei perto de ti — retrucou, trémula de cólera.
Sem honrá-la com um olhar sequer, o príncipe voltou-se, e disse, com indiferença:
— A solitude dará cura à tua insânia.
Só me verás novamente quando, arrependida, humilde, implorares perdão.
E voltando-se para Chamus:
Reconduz esta mulher ao seu apartamento.
Muda, fulminada, Neith julgou enlouquecer.
Sem enxergar, sem ouvir, maquinalmente acompanhou Chamus, que a aconselhou, respeitosamente, acalmar-se e repousar.
Ficando a sós, sua raiva e desespero se fundiram numa torrente de lágrimas, e a noite avançara bastante quando adormeceu, exaurida.
Durante três dias, Neith não saiu do aposento.
Primeiramente, escutou, com ansiosa expectativa, o menor ruído nos corredores ou no terraço contíguo, na esperança de ver surgir, a cada instante, Horemseb, que, arrependido e cheio de remorso, viesse rogar paz.
Tal esperança foi vã; ele não veio, e, com intenso amargor, a jovem teve de reconhecer que aquele homem não a amava, conforme estava ela habituada a ser querida; que, duro e indiferente, aguardava que ela se humilhasse ante ele.
E, a este pensamento, tudo em sua altiva alma se rebelava: pedir perdão a esse insolente, culpado único, nunca I
Se Neith pudesse ver a irritação e impaciência do príncipe, ter-se-ia consolado enormemente; mas, apesar disso, ele se manteve firme, e só na tarde do quarto dia remeteu uma rosa rubra, por mão de um dos escravos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74001
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 06, 2017 8:06 pm

Recebendo a dádiva pérfida, Neith se agitou fortemente:
ele enviava uma flor, prova de que cedia e entabulava assim as preliminares da reconciliação.
Recuperando o bom humor, à espera de Horemseb, sentou-se e cheirou a rosa envenenada.
Longo tempo decorreu, sem que o príncipe aparecesse.
Assaltada por uma inquietude, uma angústia sem nome, a pobre enfeitiçada passeou pelo aposento, e depois correu para o terraço; faltava-lhe o ar, dir-se-ia sufocada em um braseiro; a imagem do príncipe espelhava-se diante dos seus olhos; o desejo de revê-lo, a qualquer custo, invadia todo o seu ser.
Incapaz de permanecer quieta, embrenhou-se, errante, no jardim, devorada por mortal sofrimento moral e físico, nas aleias desertas e silenciosas.
Por fim, exausta e alquebrada, avistou um banco colocado à sombra de duas palmeiras, e, atirando-se ao chão, encostou a testa ardente na pedra fria.
A sensação de frescura húmida aliviou-a, e a mergulhou numa espécie de fatigado torpor.
A lua, que ascendia para o seu percurso, iluminava de suave claridade a luxuriante vegetação da pequena clareira e as alvas vestes da prostrada jovem.
Nesse abatimento, Neith não ouviu os passos ligeiros que se aproximavam, e, mesmo quando Horemseb se instalou no banco, ela não fez reparo em tal.
O príncipe a seguira, a distância, desde quando ela entrara no jardim, e, por um instante, contemplou, num duplo sentimento de despeito e admiração, a deliciosa criatura estendida, imobilizada a seus pés.
Abaixando-se para ela, murmurou, com apaixonado timbre:
— Neith!
A jovem, estremecendo, ergueu o corpo.
— Horemseb!
Todo um universo de sofrimento, humildade e amor vibrava na entonação dessa única palavra, e brilhava nos seus olhos velados de lágrimas.
Ancho de íntima satisfação, terminou de levantar Neith e a sentou no banco junto dele.
A rosa havia cumprido a sua missão, e estilhaçado o orgulho da bela caprichosa.
— Muito bem!
Neith, meu amor, ainda queres ter outra vontade, além da minha? — perguntou ele, em voz cariciosa, dando um cálido beijo nos carminados lábios da vítima.
— Não, se em troca me deres todo o teu coração — respondeu, tão baixo que as palavras chegaram qual sopro ao ouvido do príncipe.
As semanas que se seguiram decorreram pacíficas.
Neith não recebeu mais rosas, porém a atmosfera de toda a habitação estava suficientemente saturada de odores deletérios, para manter o delicado organismo da enfeitiçada num estado de super-excitação nervosa.
Agora não sofria, e Horemseb, que a cuidava e encontrava mil distracções na convivência dessa mulher instruída e espiritual, procurava entretê-la, de modo a evitar novos dissídios.
Era uma época áspera e cheia de privações para ele:
no interesse das experiências que desejava empreender, e deviam desvendar-lhe o futuro, adstringia-se, por ordem de Tadar, a rigorosíssimo regímen, alimentando-se somente de legumes e leite e bebendo apenas dois copos de vinho por dia; vivia existência casta e severa.
O velho sábio dissera-lhe que todo e qualquer excesso absorver-lhe-ia forças, ligando a isso o êxito da grande experiência.
Embora violento e sensual em demasia, por natureza, submetia-se implicitamente a essa dieta rígida, sendo nisso ajudado pelo suco da incógnita planta que cultivava, e tinha o duplo dom de arrefecer o sangue e satisfazer o apetite.
Após ingerir a portentosa essência, calmo, espírito lúcido, descansado, quase não sentia fome; alguns legumes, um copo de leite saciavam-no completamente.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74001
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 06, 2017 8:06 pm

Se, porém, os sentidos amodorrados nada reclamavam, os instintos da alma conservavam plena actividade, e Horemseb, nesse regímen de jejum, desforrava-se com os prazeres da vista, encontrando satisfação extrema em contemplar as orgias mais dissolutas. Entronizado, qual um deus acima das paixões brutais que desencadeava, assistia ao caos turbilhonante a seus pés.
Certa tarde, após a refeição, disse a Neith, que desejava, como de costume, ir para o terraço:
— Fica, e vem conversar um pouco em teu salão.
Depois, eu te proporcionarei um espectáculo que te interessará, pois não quero que te entedies no meu palácio.
— Tu me levarás a passear no Nilo, na barca maravilhosa? - indagou a jovem, enrubescida de emoção e prazer.
— Será verdade que ainda sonhas com essas velharias?
Não, eu te mostrarei as deslumbrantes coisas que tenho aqui, convencendo-te de que posso substituir o Nilo por algo de melhor.
Tu mesma convirás em que aqui se está melhor do que em qualquer lugar, fora destes muros; em que o Sol, com os caniculares e cegantes raios, com a sua brutal claridade serve bem para o populacho, e em que a vida real começa à noite, sob as rutilações prateadas do luar.
Mover-se sob os sombreados meios perdidos na escuridão; sonhar, escutando o murmúrio da folhagem ou de suave música; enfim, amar, sem a realidade grosseira do amor; eis uma existência digna de nós.
Quanto à satisfação rude dos sentidos, pode-se vê-la exercida por seres subalternos.
Confessa, pequena caprichosa, que uma vida assim é o cimo da felicidade!
Enquanto falava, seu olhar de fogo imergia nos olhos límpidos e inocentes de Neith, que o escutava embasbacada.
Uma hora mais tarde, Horemseb, precedido de portadores de brandões, conduziu a jovem ao jardim.
Em torno do palácio tudo estava, desta vez, escuro e silencioso, mas, em breve, desembocaram numa aleia extensa e feericamente iluminada por altos tripés dentro dos quais ardia alcatrão em vasos de metal.
Em todo o percurso, o caminho estava juncado de pétalas de flores, e braseiros colocados no chão expeliam turbilhões de fumaça perfumada.
Bem depressa se avistou, ao fundo da aleia, uma praça circular coberta de areia, na qual se erguia uma espécie de templo, pequeno, ao qual se subia por quinze degraus.
Em um nicho, onde duas colunas brancas sustentavam o tecto, projectado para a frente, ostentava-se amplo trono, circundado de arbustos de flores desabrochadas.
Flores ainda, esparsas pelos arredores e sobre os degraus, em torno do templo, e guirlandas verdes, esticadas, como que a constituir uma abóbada odorante.
Nos degraus, Neith julgou divisar, escalonadas, singulares estátuas, tendo nas mãos, erguidas, tochas e lâmpadas; mas, aproximando-se, verificou não serem estátuas, e sim rapazes, ricamente vestidos, imobilizados como se fossem pétreos.
Aos pés de cada um, uma caçoila emanava perfumes; archotes e fogachos de alcatrão iluminavam amplamente a clareira, povoada por multidão de homens e mulheres, grupados em semicírculo.
Chegado à frente da escada, Horemseb parou e examinou, com ar satisfeito, a decoração do local; Neith permaneceu de pé, pálida e emudecida:
o que estava vendo deslumbrava-a e surpreendia, mas o olor sufocante das flores e dos perfumes reagia muito violentamente sobre sua natureza nervosa e sensível; a cabeça parecia rodopiar e uma lassidão, mesclada de torpor, chumbou-lhe o corpo.
Ao aceno do senhor, um enxame de raparigas portadoras de flores e corbelhas destacou-se da turba e rodeou Neith, e, antes mesmo que esta se apercebesse da intenção delas, despiram-na, substituindo-lhe a roupagem por uma túnica de tecido leve e transparente, coberta de bordados de prata.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74001
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 06, 2017 8:06 pm

À guisa de cinto, apresilharam-lhe uma guirlanda de flores, e uma outra foi-lhe ajeitada sobre os cabelos desprendidos.
A pobre Neith, aturdida, não opôs resistência, e, quando as mulheres a deixaram, seu desnorteado olhar encontrou o de Horemseb, que, ardente desta vez, parecia querer atravessá-la.
Apesar do aturdimento que lhe oprimia os sentidos, um acerbo sentimento de humilhação, de vergonha e de cólera impotente despertou no coração da jovem, que fechou os olhos, cambaleante.
Horemseb susteve-a e, erguendo-a nos braços, subiu os degraus com o leve fardo. Sentou-se no trono e a colocou a seu lado.
Notando a lividez da companheira, cuja cabeça se firmava sem forças no seu ombro, o príncipe acenou a Chamus para que lhe trouxesse um copo de vinho. Levantando a cabeça de Neith, fê-la beber o líquido, ao que obedeceu maquinalmente.
O capitoso vinho espalhou-se nas suas veias qual rastilho de fogo; as faces avermelharam, os negros olhos fulgiram num clarão febril, retesou-se, com o sorriso nos lábios.
Horemseb bateu palmas, e, a esse sinal, elevou-se um canto discordante, embora de impressionar, tão depressa melodioso e suave, qual cântico de amor, tão logo agudo, dissonante, selvática, sacudindo os nervos dos audientes com as potentes vibrações, excitando nas almas as mais múltiplas paixões.
No mesmo instante, uma “troupe” de dançarinas surgiu da multidão.
Protegidas apenas por longos e alvos véus, que sustinham em uma das mãos, faziam soar os anéis, os colares e as pulseiras que lhes ornavam os ágeis membros.
As belas mulheres executaram voluptuosa dança, cada vez mais veloz; seus véus voltejavam por sobre as cabeças, quais nuvens esbranquiçadas, e poses diversas punham em relevo suas admiráveis formas.
Recostado na cadeira, olhar fuzilante, Horemseb contemplava esta animada cena com satisfação, com visível bem-estar.
A própria Neith, superexcitada pelo vinho, pela música e aromas atordoantes, não podia afastar os olhos do mágico espectáculo, ao qual o príncipe deu fim, erguendo-se.
Desaparecidas as dançarinas, a multidão formou alas para passagem do senhor e sua acompanhante.
Seguido e precedido do cortejo, que cantava e atirava flores a seus pés, Horemseb encaminhou-se para o grande lago, agora brilhantemente iluminado quanto o palácio:
as tochas, as lâmpadas e as grandes flamas do alcatrão aceso cobriam a vasta toalha líquida com avermelhada bruma.
Ao término dos degraus de granito rosa, que desciam para a água, estava amarrada uma flotilha de pequenos barcos, ornados de flores e iluminados, em cada um dos quais havia um eunuco, uma tocadora de harpa e grande ânfora.
No local de honra, junto da escada, esperava a embarcação do senhor, dourada e incrustada, e, no momento em que Horemseb e Neith tomaram assento sobre coxins de púrpura, seis rapazes e outras tantas raparigas, tendo por único vestuário guirlandas de flores, atiraram-se ao lago, e uns, pegando a comprida corrente de prata presa à frente do batei, e outros, empurrando-o pela popa, nadaram, levando a pequena embarcação para o centro do lago.
Toda a mole humana, que seguia o príncipe ou o aguardava nas margens, dispersou então. Uns tomaram lugar nos barcos, outros mergulharam no lago, nadando em redor das canoas, emitindo gritos e cantorias de selvática alegria.
A todos tinham sido distribuídos copos, que os eunucos enchiam sempre que ávidas mãos se estendiam para eles.
Bem depressa a bebedeira apossou-se daquele ajuntamento tumultuoso, que nadava a esmo, ao som das harpas e das cantarolas, rodeando a chalupa do senhor, ou descansando sobre uma jangada unida à margem, não mui distante.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74001
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 06, 2017 8:06 pm

Neith, inicialmente, olhara, interessada e curiosa, a fantástica exibição, mas, à medida que a festa degenerava em espantosa orgia, o terror empolgou-a:
jamais, até então, seu casto olhar fora maculado por espectáculo tão abjecto; à vista das faces incendidas, descompostas pela embriaguez e reverberando as paixões bestiais que a cada instante se mostravam próximo da barca; esses seres humanos, nadando em torno dela e estendendo a mão, segura ao copo, por vezes crispada, como se pretendesse descarregar-se em golpe sobre a cabeça do senhor; tudo isso lhe causava calafrios, e, trémula, se achegava ao companheiro.
— Que temes tu? — perguntou Horemseb, açoitando com chicote o braço e as costas nuas de um escravo, que se aproximou demasiado e originou um grito de terror de Neith.
A festa, ou melhor, a odiosa bacanal aquática chegara ao apogeu: os cantares e a música fundiam-se num caos de dissonâncias; a selvagem alacridade dos desgraçados seres, embrutecidos pela embriaguez, pelo veneno que lhes propinavam e por todos os excessos, degenerava em demência.
Sem embargo, os eunucos, que circulavam pelo lago, tentaram manter certa ordem:
a golpes de relhos, repontavam para as bordas os mais barulhentos, pescavam com arpões os que afundavam e amontoavam as mulheres na jangada, impedindo-as de retornar à água.
Apesar de tais precauções, muitos desses infortunados pereceram afogados.
A festa chegara a esse ponto, quando surgiu junto da barca do príncipe um nadador, superexcitado às fronteiras da loucura.
Era um jovem núbio, robusto e de possante estrutura; seu largo peito arfava e os olhos, furibundos e injectados de sangue, pousaram sobre Neith, com uma expressão de fazer coagular o sangue nas veias.
Imediatamente, o escravo agarrou-se às bordas do barco com as mãos, e, alçando-se com força, dobrou-se sobre a jovem, em cujas espáduas nuas premiu os lábios.
A semelhante contacto escaldante, sentindo sobre o rosto o hálito avinhado do miserável, atirou-se para Horemseb, que se voltou, surpreso com o violento choque que quase virara a embarcação.
Insensato furor demudou-lhe o semblante ao ver o insolente.
— Bruto enraivecido, ousas tocar no tesouro do teu senhor! — rugiu, fora de si.
Num relâmpago de tempo, tirou do cinto a acha de punho de ouro e assentou impetuoso golpe sobre a cabeça do escravo.
O crânio abriu, qual casca de noz e um fluxo de sangue e de massa encefálica atingiu Neith, quase cegando-a.
Como que fulminada, sem pronunciar palavra, a jovem caiu desacordada.
Por fracção de minuto, o horripilante cadáver ficou aferrado à beirada do barco; depois, os músculos dos braços distenderam, e, pesadamente, escorregou para o fundo do lago.
Horemseb cuidou de Neith, e, pondo água na mão, enconchada, aspergiu--lhe o ensanguentado rosto; mas, constatando a ineficácia do recurso, resmungou, despeitado:
— Estúpido incidente!
Ora! terminará por acostumar-se!
Deu, em seguida, ordem para atracar, e, pegando-a nos braços, conduziu-a aos aposentos do palácio.
A retirada do senhor fez findar a festa.
Todos os desditosos que haviam servido à ignóbil distracção do príncipe foram reconduzidos para terra firme:
os que podiam arrastar-se ainda, foram tangidos, a relho, para as habitações, tal como se faz com um rebanho de gado.
Dos que restaram, alguns eunucos, sob a supervisão de Chamus, fizeram rol; transportaram-se os em coma alcoólica, removeram-se os mortos para um sítio especial, a fim de serem consumidos, e três ou quatro que apresentavam ferimentos graves, sem probabilidades de cura, atirados, mesmo inconscientes, no viveiro, para alimento dos peixes destinados à mesa de Horemseb.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74001
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 06, 2017 8:07 pm

Quando, afinal, Neith despertou do longo desfalecimento, todos os traços do terrível incidente haviam desaparecido do seu corpo, e, ao recobrar a memória, inquiriu, com angústia, se a sua reminiscência era de realidade, ou apenas de um pesadelo vivido pelo enfermiço cérebro.
Efectivamente, sentia-se indisposta; seus membros pesados; arrepios gélidos trepidavam-na, e a dolorida cabeça parecia-lhe cinturada por um círculo de ferro.
Em compensação, os pensamentos estavam mais lúcidos do que nunca, e também menos influenciados pelo venenoso aroma:
o esgotamento nervoso parecia ter amortecido o veneno.
Com árdua clareza, encarou a situação, e o coração se lhe fechou:
nesse momento, Horemseb inspirava-lhe horror e tormento, e, pela primeira vez, depois de muito tempo, a bela fisionomia de Roma surgiu-lhe ante o espírito, alteando-se vitoriosa entre ela e o fascinador.
Neith comprimiu a fronte ardente entre as mãos: era possível haver esquecido e cessado de amar aquele homem tão nobre, tão bom, de quem cada olhar, cada palavra lhe haviam despertado bons sentimentos, espalhando-lhe na alma quietude e ventura?
Com pungente emoção, reviveu suas conversações: ela sempre desvelara a Roma todos os pensamentos; o que lia nos límpidos olhos dele jamais a ruborizara; seu beijo trazia-lhe paz ao coração; entre seus braços, julgava-se em inviolável asilo.
Comparando, que inferno era o amor de Horemseb!
Sem dúvida, este igualmente a respeitava, nunca atentara contra sua honra de mulher, mas, por que, à vista do príncipe, todo o sangue lhe subia à cabeça?
Por que lhe parecia sufocar numa atmosfera de fogo, quando se curvava para ela?
Por que seu beijo lhe causava agonia inominável e o olhar de chamas semelhava reduzi-la a cinzas?
Num arrepio, confessou a si mesma que o amor de Horemseb destruíra-lhe a vida, sem lhe dar felicidade; a subjugação estranha, que exercia sobre ela fazia-lhe desejar a presença, em seu beijo buscava um consolo; uma compensação ao sofrimento inexplicável que a minava; jamais, porém, encontrara a calma, o descanso.
Pobre Neith! Arrancada, inopinadamente, a todos os seus hábitos, às honestas afeições que a rodeavam, a uma existência regular e sã, para vegetar num mundo fantástico, onde, dir-se-ia, subvertida a Natureza, se encontrava constantemente como que sob o império de sonho.
Na singular morada, onde se mudava o dia para a noite, os clarões do poente despertavam os habitantes do palácio; à claridade dos archotes começava febril actividade; nuvens de fumaça odor ante enchiam os apartamentos e os jardins; cenas idênticas às da véspera podiam fazê-la crer que se encontrava no reino dos demónios.
Todas essas circunstâncias eram suficientes para enervar os mais robustos organismos, e muito mais o de uma jovem mulher, delicada e impressionável.
Por outro lado, a influência malsã exercida por Horemseb era mais nociva à alma de Neith do que o novo género de vida para o seu corpo.
O príncipe, é certo, não mais lhe propinava o veneno, que infalivelmente a teria morto pouco a pouco, mas usava amuletos perfumados, e todo o seu corpo exalava o olor deletério, que feria o olfacto de Neith sempre que ele se curvava para ela, despertando-lhe no sangue irritação nociva.
O dia decorreu custosamente; o sono fugia das pálpebras da jovem, e quando o calor cedeu lugar a agradável frescor, ergueu-se e fez sinal às servas que a vestissem para o jantar.
Pretendia, em seguida, dirigir-se ao jardim, para fruir algumas horas do dia e de um pouco desse sol que raramente via.
Deixou-se vestir maquinalmente; seus pensamentos estavam junto de Horemseb; a necessidade de vê-lo na refeição inspirava-lhe horror e repulsa, e, apesar disso, coisa estranha, não renunciaria, a preço algum, a esse encontro, e ela própria contava, impaciente, as horas da separação.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74001
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 06, 2017 8:07 pm

Terminado o vestir, as escravas saíram, excepto uma, que terminava os adornos, alcançando as jóias e aspergindo todo o corpo de Neith com essências odoríferas.
Quando lhe apresentou um grande espelho de metal, Neith, por acaso, olhou o rosto da serva e impressionou-se com a expressão de sombrio desespero estampado no seu semblante.
Generosa e compassiva por índole, Neith agora estava mais acessível à piedade, no actual estado de espírito.
Pela primeira vez, examinou-a, com atenção, e viu a máscara de precoce velhice, os sulcos de fadiga e de sofrimento indeléveis naquela criatura.
Pondo a mão na testa da moça escrava, indagou, bondosa:
— Ouves-me ou és também surda-muda?
Para melhor ser compreendida indicou, com a mão, a boca e as orelhas.
A escrava elevou o olhar:
dor e gratidão nele se demonstraram; depois, em acenos rápidos, explicou não ser surda.
— Por que motivo perdeste o uso da palavra, pobre filha?
As tuas companheiras são surdas de nascença?
Com profundo espanto de Neith, a essa pergunta, extraordinária emoção apoderou-se da serva; tremor nervoso agitou-lhe o corpo; seus olhos reluziram e roucos grunhidos saíram-lhe dos lábios.
Ao termo de instantes, dominou-se, moveu negativamente a cabeça, e, por animada pantomima, explicou que Chamus (ela arremedou o eunuco sem possibilidade de ser incompreendida) decepara-lhe a língua.
— Oh! horror! Por ordem de quem? — exclamou Neith, tocada por mau pressentimento.
Rir, irregular e desesperado, flui da boca da moça escrava, e, por acenos, ainda mais expressivos, porém marcados, de pavor e aversão, designou o senhor da casa como sendo o instigador da mutilação e da de seus companheiros.
Presa de inopinado esvaimento, Neith deixou-se cair numa cadeira e escondeu o rosto nas mãos:
consternação, receio, asco, entrechocaram-se na sua alma para com Horemseb, acrescidos das lembranças da véspera.
E era a esse monstro que ela amava!
Por ele abandonara e esquecera Roma, que, sem dúvida, a chorava por morta!...
Ligeiro contacto tirou Neith dos amargos pensamentos.
Procurou a causa e viu a escrava, ajoelhada, mãos postas, olhando-a ansiosamente.
Encontrando o olhar da ama, levou a mão aos lábios, com súplice e sugestiva expressão.
— Não te arreceies; não revelarei o que me confiaste.
E estendeu a mão, que a moça beijou agradecida.
E saiu para o jardim.
O Sol ainda não se escondera no horizonte; seus raios vivificantes espraiavam-se sobre a espessa verdura do arvoredo e cintilavam na superfície cristalina do lago. Neith respirou sofregamente o ar puro e a própria claridade do dia que quase nunca lhe era dado fruir; mas, a vista do lago fez-lhe horror, e, retornando, entrou pelas aleias.
Após curto andar, sentiu-se fatigada; o mal-estar que a atormentara toda a manhã, recrudescia, com intensidade maior ainda; alcançou o terraço mais vizinho, e, sentando-se num banco, encostou-se a uma coluna.
Ante seus olhos estendia-se uma clareira circundada de moitas e sombreada por algumas palmeiras, ao termo da qual começava uma aleia de sicómoros.
Tudo estava ainda deserto e silencioso; nenhum dos fâmulos aparecia para acender as tochas e tripés a expandir os perfumes, pois não soara a hora do aparecimento do senhor da casa.
Gradativamente, singular torpor assenhoreou-se da jovem; a cabeça pesou-lhe, glacial arrepio sacudiu-lhe os membros e negro véu pareceu descer sobre seus olhos.
Imediatamente, teve a impressão de ver uma sombra surgir detrás de uma das palmeiras e avançar: reconheceu um tipo feminino, cujo rosto estava recoberto por negro véu, tendo os braços ornados de braceletes, estendidos para diante.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74001
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 07, 2017 8:37 pm

Parecia deslizar para o terraço, roçando o solo obliquamente.
— Quem poderá ser? — pensou Neith. Uma das dançarinas ou auxiliar?
E como ousa vir aqui e aproximar-se de mim?
No mesmo instante, muitas novas sombras apareceram.
Davam a ilusão de surgir das moitas e até das colunas do terraço.
Num abrir e fechar de olhos, todo o bando cercou a jovem egípcia, emudecida de espavento, incapaz de se mover, como que chumbada ao banco.
As veladas mulheres comprimiram-se em redor de Neith; a atmosfera gelada que as envolvia e o cheiro nauseabundo que exalavam quase afogavam a jovem.
Então, mãos crispadas, dedos inteiriçados e cobertos de queimaduras estenderam-se para ela, e vozes roufenhas e sufocadas exclamaram:
— Ei-la, aquela para quem guarda beijos diferentes do mortal que nos concede, aquela que ele não destina à morte.
Foge deste palácio, ou não sofreremos tua presença; foge, Neith, porque aquele a quem amas nos pertence, ou, então, torna-te igual a nós e partilha da nossa sorte.
Os atros véus caíram, e Neith viu jovens e belos semblantes desfigurados pelo sofrimento e por brutais paixões; chamas envolviam-nas, e de uma chaga no peito de cada uma das vítimas escorria negro e espesso sangue.
Os véus estavam transmudados em fumaça, sulcada de clarões que turbilhonavam em torno do assustador conjunto.
Ela quis fugir, mas, as extremidades, paralisadas, recusaram obedecer:
toda a vida parecia concentrada na visão e no ouvido.
— Olha, estas chagas são obra dele — disse um dos terrificantes seres, cuja fisionomia contraída respirava ódio selvagem —, o sangue que fluiu do nosso peito Horemseb o bebeu, e por esse elo sangrento ele se ligou a nós; pertence-nos, e nós o arrastaremos ao abismo, onde, despojado do corpo de carne, estará à nossa disposição.
Se queres partilhar do nosso poder, dá também a tua vida para nutri-lo!
Rindo lugubremente, as sombras horrendas comprimiam-se ainda mais, quando, subitamente, turbilhonaram-se, e, quais bolas incendiadas, varridas por um golpe de vento, sumiram no terraço.
Libertando-se, por desesperado esforço, do torpor que a chumbara ao banco,
Neith recuperou-se, trémula, e seu olhar, atarantado, incidiu sobre Horemseb que, indolente, sorriso nos lábios, se encaminhava para ela, vindo da aleia dos sicómoros.
Esquecendo tudo, movida somente pelo desejo de não se sentir sozinha, correu para ele; mas, as forças lhe faltaram, e, com abafado grito, caiu ajoelhada.
— Que tens, Neith? — indagou o recém-vindo, curvando-se surpreso para ela, cujo semblante demudado mostrava um medo intenso.
— Mulheres, com uma chaga no coração e envoltas em chamas, sitiaram-me e ameaçaram-me — ciciou ofegante —, dizendo que não tenho direito ao teu amor, enquanto não beberes meu sangue, tal qual fizeste com o delas, e que te arrastarão ao abismo onde ficarás inteiramente sob seu domínio.
Ah! ei-las que voltam e te rodeiam e se agarram a ti. Expulsa-as, se me amas!
A voz extinguiu-se-lhe, e rolou desacordada no chão.
Por instantes, Horemseb permaneceu imobilizado: lívido, olhos embaciados, parecia levantar-se sobre ele mesmo.
Não seria o hálito das suas vítimas que, semelhante a gelado vento, lhe soprava na testa molhada de suor e fazia eriçar os cabelos?
Os braços não se estendiam para ele, vindos de cada moita, de cada ponto sombrio?
Dentes cerrados, ergueu Neith, saltou para o terraço, e, depondo-a sobre um banco, bateu palmas.
Chamus e numerosos escravos acorreram.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74001
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 07, 2017 8:38 pm

— Vinho e essências! ordenou Horemseb, em alterada voz.
Graças aos cuidados que prodigalizou, a jovem reabriu os olhos.
— Como te sentes? — indagou, abraçando-a.
— Melhor; creio que um sonho mau me atormentou — respondeu, tentando sorrir.
— Decerto sonhaste.
Vamos agora comer, e isto te reconfortará completamente — acrescentou, enlaçando-a pelo busto, para ajudá-la a caminhar.
A refeição foi silenciosa:
Neith estava incapacitada de comer, e Horemseb observava-a, preocupado, vincada a testa com progressiva ruga.
— Teus sonhos malsãos fazem-te doente, Neith; estás pálida, desfeita, sem apetite, e isto não pode prolongar-se assim.
Depois da refeição, conduzir-te-ei a um grande e sábio médico, que prescreverá remédios, e resta-te...
Interrompeu-se:
Neith retesara-se, descorada e arrepiando-se; olhos desmesuradamente abertos, dir-se-ia concentrados sobre algo pavoroso.
— Quem é essa mulher pálida, envolta em chamas, com uma rosa vermelha na mão, e que quer agarrar-te, Horemseb? — murmurou.
Seus pequenos e gelados dedos fecharam-se crispadamente no colar do príncipe, fazendo-o voltar-se, brusco.
— Não há ninguém, Neith, tu sonhas!
— Ei-la! E se interpõe entre nós...
Eis o abismo: pára! pára!
Não te deixes empurrar para lá!... — gritou ela, recuando a tremer.
— Tu estás enferma, querida — disse Horemseb, atraindo-a para si —, tu me amas, bem o vejo, porque não queres que tombe na voragem; mas, aquieta-te: nunca nos separaremos.
Ele aconchegou-a mais, abraçando-a.
Quando, porém, aproximou os lábios dos de Neith, esta sentiu um odor de carne queimada, acre e fumegante, saindo da boca de Horemseb; línguas de fogo rodeavam-lhe a testa, iluminando-lhe os olhos com sangrenta luz.
Sentindo-se num braseiro, perdendo o fôlego, cegada, a jovem mulher debatia-se, e seu franzino corpo tinha contorções de convulsão.
— Perdão! Horemseb, não me queimes; as chamas sufocam-me! — gritou, tentando desprender-se.
Depois, inteiriçou-se e descaiu inanimada entre os braços do príncipe.
Novamente, repentino palor cobriu o rosto de Horemseb.
— Que significa isto?
Ela vê as que pereceram? — murmurou, inquieto e pensativo.
Imediatamente, porém, o olhar fez-se vivaz, e indefinível expressão de orgulho e de satisfação íntima desenhou-se-lhe nos lábios, já sorridentes:
— Suas almas não podem encontrar repouso; amam-me ainda e têm zelos.
Pobre Neith, essas sombras loucas invejam-lhe a preferência que lhe concedo e a perseguem.
Tadar deve ter remédio para o caso.
Readquirindo a calma, como que por encantamento, tomou Neith nos braços e a levou ao pavilhão do sábio, que, dir-se-ia, esperava-o, pois estava de pé, na entrada.
Sombrio, silencioso, sem qualquer indagação, pegou, ele mesmo, o corpo ainda inanimado da moça, e, tendo-o colocado num leito de repouso, fez detido exame para afinal, voltando-se, dizer, com descontentamento:
— Os sentidos desta criança dilataram-se mais do que a matéria pode suportar; ela vê as vítimas sacrificadas a Moloc e ouve as palavras desbordantes de ódio e de ciúme.
— Sabes isso, mestre? — exclamou o príncipe, admirado.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74001
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 07, 2017 8:38 pm

Uma vez que feriste o assunto, permite-me uma pergunta:
Neith vê as almas dessas mulheres porque elas existem?
É verdade, então, que tais sombras vingativas rodeiam-me, incendiadas de cólera e de amor, e querem arrastar-me para algum abismo, e ali se vingarem de mim?
E voltou à preocupação, sacudido por um arrepio nervoso.
— Já te disse que coisa alguma se destrói na Criação, e, por muito mais forte razão, essa qualquer coisa tão perfeita e tão subtil a que chamamos Alma — respondeu gravemente o velho.
Sem dúvida, esses seres, separados de seus corpos, no desabrochar da existência e da juventude, turbilhonam aqui, sobre estes lugares onde viveram; essas mulheres queriam possuir-te e têm ciúmes de cada olhar, cada pensamento que concedes a outras que não elas, porque nesses seres sem corpos lutam desencadeadas todas as paixões dos vivos; os sentidos sobre existem à morte, faltando-lhes apenas os órgãos carnais que as paixões põem em acção.
O sofrimento é, pois, duplicado, porque os desejos, impotentes, esbarram em condições intransponíveis, e é por isso que esses seres querem arrastar-te ao abismo, que é a morte.
Só assim, e então, poderiam, realmente tornar-se perigosas e terríveis a ti; igualado, por teu corpo transparente, serias acessível às perseguições das sombras devoradas de raiva e de amor.
Mas, porque nós viveremos eternamente, nutrindo-nos do sangue das vítimas, esse perigo não existe, com relação a ti, e a convicção da tua invulnerabilidade superexcita mais ainda a fúria impotente dos invisíveis.
— Oh! mais do que nunca, sacrificarei vítimas e beberei seu sangue — exclamou Horemseb, com selvagem exaltação.
Eu quero e devo viver sempre; essas almas brutais e odientas nunca terão poder sobre mim.
— Nada tens a temer.
Mas, tornemos a Neith:
o aroma poderoso e os espectáculos do género dos de ontem superexcitaram seu organismo; ela vê e ouve o que é imperceptível para os outros, nos quais os fios subtis que ligam a alma ao corpo estão presos muito estreitamente, e só se libertam, de modo imperfeito, durante o sono.
Em Neith, esse desprendimento excede os limites ordinários; nesse estado, os órgãos da alma começam a vibrar e desvendam, ao vivo, o que se acha oculto na atmosfera populada de maravilhas.
Tal estado, porém, é igualmente perigoso, porque pode acarretar a ruptura do coração.
Neith necessita de ar puro e descanso absoluto; já te recomendei cuidá-la, mas, porque encaras displicente os meus pedidos, eu a conservarei aqui, na câmara superior do pavilhão, e a tratarei, porque precisas saber, Horemseb, que Neith é uma filha do meu povo, e aqui está sob a protecção do seu deus e sob a minha salvaguarda.
O velho sábio recostara-se, majestosamente, e pousara a destra na cabeça da desacordada.
— Tu devaneias, Tadar.
Como pode Neith, filha de Mena, chefe dos pavilhões reais, ser da raça dos hitenos? — disse o príncipe, incrédulo.
— O engano é teu.
Neith é filha do Faraó Hatasu e do príncipe Naromath, o irmão mais velho de Sargon, e foi por isto que disse:
em caso de perigo, esta filha seria nossa poderosa protecção, porque a rainha adora essa lembrança do seu amor único.
Horemseb escutara atónito.
— Por que só hoje me dizes isto?
Mas, é impossível:
a arrogante Hatasu teria amado um vencido?
E, além disso, de que modo ocultaria tal situação a seu pai?
À palavra “vencido” sombreara-se a fisionomia do velho hiteno, e um clarão venenoso fugiu-lhe nos cavos olhos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74001
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 07, 2017 8:38 pm

— Um vencido da sorte! Lembra-te de que os Hyksos provaram ao Egipto que nem sempre este era vitorioso — respondeu Tadar, asperamente.
— Desculpa-me, caro mestre, pois não pretendi ofender-te; foi o pasmo que me inspirou a injusta expressão.
E porque tanto me revelaste, dá-me, por favor, algumas explicações, caso Neith não esteja reclamando imediatos cuidados teus.
O sábio muniu-se de um frasco, friccionou com o conteúdo a testa e as têmporas da jovem, e disse, limpando as mãos:
— No momento, não necessita ela de maior atenção, e quero satisfazer, de bom grado, a tua compreensível curiosidade, se bem que só a necessidade de te impor um freio foi que me levou a revelar-te o segredo.
Tadar apoiou-se nos cotovelos, e pareceu abismar-se em recordações.
Horemseb afogueava-se de impaciência, quando, afinal, o velho recostou-se novamente.
— É desagradável rememorar esses tempos de humilhação e desgraça — disse.
Os deuses haviam voltado costas ao nosso desditoso povo, e o orgulhoso vencedor acampava no palácio, meio incendiado, de nossos reis.
Uma batalha decisiva, perdida pelos nossos, havia entregue aos egípcios milhares de vencidos, entre os quais Naromath, o mais formoso dos hitenos, esperança e orgulho da sua nação.
Crivado de ferimentos, e principalmente esgotado pela perda de sangue, o moço herói foi encontrado entre um monte de cadáveres, durante a contagem feita pelos egípcios, na presença do rei.
Tu sabes que Hatasu acompanhava Tutmés nessa campanha.
Embora quase menina então, linda quanto Hator, porém enérgica e orgulhosa ao máximo, avaliarás da influência que já exercia sobre o rei pelo que se segue e me foi narrado por teu pai, testemunha ocular do episódio.
O Faraó, que destinava ao trono essa filha favorita, procurava, por todas as formas, dar-lhe têmpera viril ao carácter, pois, à subtilidade da mulher, devia aliar a coragem do homem.
Com semelhante intenção, levava-a com ele a assistir às batalhas, a distância suficiente para não ser atingida, e naquela vez também a levou para estar presente à contagem dos mortos.
De pé no carro real, olhava, sem pestanejar, como se computavam as mãos decepadas, vindas de todos os pontos e que os escribas anotavam nas tabuinhas, quando começaram a remover o montão de cadáveres junto do qual se detivera a carruagem real.
Deste é que foi retirado, desde logo, Naromath, sem sentidos.
Pelo capacete dourado e insígnias que o adornavam, Tutmés identificou o príncipe que havia combatido na véspera, e disse:
— É um leão, um herói que morreu com bravura.
“Qual impulso moveu o coração de Hatasu é difícil sabê-lo, pois não deixou de olhá-lo.
— Acho, meu pai e Faraó, que um filho de rei não deve ser mutilado por subalternos, mesmo quando morto e vencido, e se um triunfador da tua estirpe, um deus da guerra faz tão precioso louvor à sua memória, o herói não merece as honras de um sepulcro?
“O rei pareceu encantado, e elogiou o tato e a magnanimidade da filha, e mandou inumar Naromath, com honrarias, sem mutilação; mas, quando se transportava o corpo, a dor, arrancando-lhe um gemido, mostrou não estar morto, sendo então conduzido para o palácio.
De que maneira se encontraram e amaram, Naromath e a filha de Tutmés I, ignoro; somente Semnut, à época pequeno oficial subalterno do séquito da princesa herdeira, e uma das criadas graves, de nome Satati, a serviram durante o enredo.
Esse amor, único que conseguiu subjugar a altaneira Hatasu, dominou-a então completamente e enterneceu-lhe o coração em favor dos vencidos, obtendo de Tutmés I, para eles, muitos alívios; e, certamente, Naromath galgaria o trono de seu genitor hiteno, na categoria de tributário do Egipto, se Hatasu pudesse decidir-se à separação.
Mas, aqui o egoísmo prevaleceu a todos os sentimentos:
o príncipe devia acompanhar o exército e... seus ferimentos reabriram.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74001
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 07, 2017 8:39 pm

Naromath sucumbiu e Hatasu regressou a Tebas, desesperada e grávida.
Um acaso auxiliou esconder esta circunstância.
Tutmés I teve de seguir quase imediatamente para a Líbia, e, julgando a filha fatigada pela demorada campanha que vinham de fazer em companhia, não a levou dessa vez.
Foi durante tal ausência que nasceu Neith.
Mena, seu pai nominal, contraíra segundas núpcias com uma parenta do rei, e a ele a princesa a confiou.
Mena, chefe dos pavilhões reais, estava em Tebas convalescendo de ferimentos, aceitou ficar com a menina, como se fosse filha do casal; a esposa faleceu de parto, dando à luz um filho morto, o qual foi substituído por Neith.
Desse segredo apenas partilharam:
Mena, Satati, Semnut e dois hitenos, Tiglat e a feiticeira Abracro.
Eu o soube de Tiglat, e, de mim, teu pai, e tu agora.
Horemseb tudo escutara com ávida curiosidade.
— Agradecido, Tadar.
Quanto me acabas de revelar explica muitas coisas, e também o desmesurado orgulho de Neith, herança maternal.
Com relação a ela, conformo-me com as tuas razoáveis disposições, e enviarei para aqui tudo quanto necessite.
Permitir-me-ás visitá-la?
— Certamente, autorizo; apenas é mister que ela se restabeleça de todo, antes de suportar um ambiente tão diverso do seu.
Eu ta devolverei também mais forte, porque os aromas serão assimilados pelo sangue.
Para grande espanto seu, Neith despertou no pavilhão e ali permaneceu, e depressa se afez à convivência do velho sábio, que a tratava com bondade e se divertia com o seu espírito atilado e réplicas finas e cáusticas.
Sob a influência de sério tratamento e de uma existência mais sã, a jovem recuperou paulatinamente as energias e o viço.
Horemseb visitava-a com assiduidade.
É que o segredo do seu nascimento inspirava-lhe, para com ela, um novo interesse, e a esplêndida formosura da moça fazia-lhe desejar impacientemente vê-la a seus pés, devorada de amor.
Ela, porém, ainda estava enferma, e a presença de Tadar impedia o recomeço do criminoso e fútil divertimento.
Durante a lenta convalescença, íntima e encarniçada luta se travara na alma de Neith.
Subtraída à subjugação malsã, que o príncipe exercia sobre ela, sua razão e sua consciência ressuscitavam, as lembranças do passado assaltavam-na cada vez mais, confessava-se incorrecta e ingrata, esquecendo Roma e deixando na ignorância da sua situação a real protectora, sempre boa e indulgente.
E Sargon? Não lhe havia ela jurado, invocando Hator, esperá-lo fielmente e reparar, quanto possível, o agravo afrontoso que lhe fizera?
Como tinha cumprido a sagrada promessa? Quase à véspera do regresso do seu desventurado esposo, deixara-se, ela própria, arrebatar, não pelo meigo Roma, e sim por um homem que a tratava igual a escrava, degradava-a pela exibição de horrores indescritíveis, e que (sentia-o, amargurada) não a amava, brincando com ela à semelhança do gato com o ratinho.
O olhar desse homem fascinava-a, tal qual a serpente atrai o pássaro; mas, o fundo do fogoso olhar de Horemseb encobria glacial indiferença, e seu coração devia ser mau, porque decretava a mutilação de desgraçadas moças, e divertia os olhos com orgias abomináveis.
E, apesar disso (coisa incrível), dessa convicção, do horror que o príncipe lhe inspirava muitas vezes, a ideia de abandoná-lo apertava-lhe o coração numa angústia sem nome:
não vê-lo era pior do que a morte.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74001
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 2 de 8 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum